poesia

Quatro poemas inéditos de Ismar Tirelli Neto

Ismar Tirelli Neto (Rio de Janeiro, 1985) é poeta, ficcionista, tradutor e roteirista cinematográfico. Seu livro de poemas Os Postais Catastróficos figurou entre os semifinalistas do Prêmio Jabuti (2019) e em listas de melhores do ano de revistas como 451 e Suplemento Pernambuco (2018). Seu mais recente livro, adão aparas, pode ser acessado no site ismartirellineto.com. Atualmente, reside em São Paulo, traduz e ministra oficinas de escrita criativa.

* * *

Correlata
que passo a sentir vizinhos sumiços
passos à escada depurados de eco
a palavra “cumeada” atira-se novamente
é possível imergir
a rua, renova, rouqueja
é possível
o céu dizer-se emboço
a morte, cimentícia
a dor, a dor, coisa infinitamente perfectível
o azul da manhã, corrugado
e setembro, cabeceio
ao concluir-se o serviço

Já não falo de mim.
Fundo cidades.

§

A mulher mãe é as boas vindas. Afamo-a um largo trecho de escombros, vergalhões, quarteirão implodido de que emerjo: Vênus de bigode. Esvoacei por um sem-número de tardes metido em seu penhoar predileto, brandindo o revólver de espoleta. Pintei, bordei, dancei South American Way, tantas atrocidades: a mulher minha mãe é as boas vindas, anunciam-se Benvindas na manicure, a mulher hospitaleira como uma rodoviária em dia de tempestade. À minha insistência em dizer que posso ouvir-lhe o mau tempo ela responde: você não compreende. Você não compreende, vedava, e com os pequenos punhos destroçava a jangada de Lego. Compreendo, compreendo o amor. Transmitiu-se-me o apreço pelas ceias frias que duram a noite inteira.

§

Descer sobre o rosto pálido véu da cidade
Às costas pôr o grande sino
Anuários calçados, descer caminhar
Caminhar e linguageiro
Conduzir para fora do teatro cada gesto colossal
Cada desiderato
Escovar os cabelos até faiscarem cobras
Ao deixar o lavabo enxugar as mãos na mortalha
Sentar-se cruzar as mãos cruzar
Os talheres sobre as cinzas
Exaurir em adivinhas a nacionalidade de cada comensal
Se também se axioma morrer por lá

§

Fernanda
Não sem surpresa ouço que não estou voando,
que é outra, a figura não
contraventa a gravidade.
Portanto, não pairei sobre nada. Devo tê-la tomado
de frente – a caminho – cruzando
a praça da concepção. Tempo ameno
pois que fora de mim,
quando fora de nós nos cruzamos
no tempo ameno, antes
no fotograma que falta,
no soluço da fita. Branco que pulsa,
o tempo de um provérbio, “fração de segundo”.
Nunca a vi tão planadora, tão fecunda
obra do acaso. Nunca a verei passante, os cabelos
fora de toda
cogitação. Ouçam –
Em nada se engancham,
não se deixam picar
nem mesmo pelo branco. Pairam, desfiados sobre
a praça da concepção
cruzamo-nos.

Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s