Poesia Brasileira Contemporânea

Tomaz Amorim Izabel

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Tomaz Amorim Izabel (32) pesquisa literatura e é poeta. Publicou em 2018 seu primeiro livro de poemas, “Plástico pluma”, pela editora Urutau. Edita o blog de tradução literária Ponto virgulina. Mantém uma coluna de crítica cultural na Revista Fórum e publica crítica literária no Jornal Rascunho. e já apareceu aqui na escamandro com poemas.

*

dançando num fim de mundo

dançamos no fim do mundo
nossos braços e cabeças
alongados e leves
meu amigo imita uma galinha
eu e outro amigo e outra amiga
batemos as asas
e ciscamos no chão
no ritmo acelerado das luzes da música
é pixies e gilberto gil
nesse fim de mundo
todo de pequenezas
o cheiro do limoeiro
é normal e bom
nas mesas de pallet
sentamos sob uma lua gigantesca
que deixa nossos cabelos prateados
e babamos rindo
diante dos holofotes que são estrelas
aos nossos olhos estralados
há as pequenezas más também
se esgueirando por atrás das grades
ou de pé
olhando com atenção o nosso rosto
buscando algum traço de traição
– não é possível ser assim
os três dedos de nossos pés de galinhas
no entanto
permanecem indiferentes
e balançam no ar
a moça mais bonita do mundo
que por acaso
nos faz companhia
também não liga para o perigo
ficamos felizes com sua presença
é um milagre pequeno
um privilégio
para nós
andarmos com ela
o que ela pensará disso tudo?
não sabemos
mas dança também
como galinha
e também engole
o fogo dos cometas
e também se alegra
com o cheiro do limão
para ela talvez
tudo tão pequeno
e extraordinário quanto
para nós
talvez mais

*

o anjo ri

o anjo ri
ao nos sentir pensando
se voltam a pesca
as aves
e os frutos
se as montanhas ocas
voltam a se preencher de prata
e se os rios fervilham alegres novamente
e se já garoam penas
pelo desfile de pássaros
e se zunem carregados
os galhos e grutas das matas
se o próprio chão ameaça levantar
pela multidão de minhocas
observa o anjo e ri
da nossa esperança
enquanto monta guarda
com espada de fogo
diante do jardim fechado

*

um floco perfeito

um floco perfeito
de cinzas
na palma da minha mão
as dunas prateadas
já encobrem as ondas
cristas tão afiadas
cristais
cintilando diante da praia
estranho ver a terra
ventando no ar
poderei esticando as pernas
e chutando montinhos de nuvens
caminhar por lá?
ou será apenas o entresonho lívido
dos que são
enterrados vivos?

*

Zumurrud

o amor empresta dinheiro
para que seu comprador
o compre como escravo
o amor não é nunca roubo
sequestro mas dar-se de
bom grado é um dar
amado e amando
a vida a quem te possui

o amor abandona o reino
e a coroa
como o pássaro preso
abandona a gaiola
e não há alimento que
sacie o amor porque
apenas o amor é o alimento
e não há morte que o amor
tema porque só enquanto
ama é que o amor vive
e ainda que o sol e a lua
não falem nunca face a face
o céu e as estrelas traduzem
e trocam suas mensagens

o amor é paciente
porque não reconhece tempo
em que não aja
o amor é impaciente
porque não reconhece tempo
em que não haja
o amor não sente ciúmes
pois como poderia ter ciúmes
de si próprio?
o amor não provoca ciúmes
pois como poderia causar dor
e deixar de ser amor?

o amor vive
e se dá no corpo
mas o amor não é corpo
é o gozo que sobrevive à morte
que vive no tempo que abre
e fecha
o amor não é flecha

*

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Um comentário sobre “Tomaz Amorim Izabel

  1. Pingback: Tomaz Amorim Izabel — escamandro | THE DARK SIDE OF THE MOON...

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