poesia

4 poemas inéditos de Anderson Lucarezi

Anderson Lucarezi (São Paulo, 1987) é escritor, professor e tradutor. Publicou Réquiem (Ed. Patuá, 2012), livro vencedor do Programa Nascente USP 2011, e Constelário (Ed. Patuá, 2016). Como tradutor, dedica-se a trazer para o português as obras de poetas norte-americanos como Hart Crane, Jerome Rothenberg, John Gould Fletcher, entre outros. Faz, atualmente, mestrado em Letras Estrangeiras e Tradução na Universidade de São Paulo.

* * *

a saudade do futuro irrompe de uma cena de rua.

processado pela língua ecoada – ainda
mista – como as trovas pelas vagas – turmalina
em talhos – de Vigo; bradada em Aljubarrota –
em alvíssaras, vivas!, ao mestre de Avis –
e Alcácer Quibir; eternizada por quem –
simbólico – jaz nos Jerônimos, desce –
a incidir por sobre a cena – meu olhar:

janela de carro pouco acima de popular
através da qual, no trânsito, livro à mão,
o motorista, minha mesma idade,
fruto – desta – terra estrangeira
em que apostei – todas – as fichas
(apesar da alta cotação da libra),
se alheia da minha vontade que vaza,
imigrante, do transporte coletivo.

ainda que mais familiar, esta minha língua,
e ainda que eu viva o clarão da poesia,
cujo sândalo nos leva, mesmo imóveis, longe,
como não devanear com papéis em ordem,
com ter serviço que possibilite mapas,
com o existir oficial, com estar num carro,
parado – livro à mão –em plena neblina de Londres?

§

embora só suposta, perdida a pepita, me precipito à aluvião,
em cuja voragem – sedimentos, detritos – vislumbro,
ainda e sempre, tua infância por mim não vista.
penso, se verbo de ação for permitido a mente submissa,
nos teus nomes de criança – brinquedos – amigos;
em como terá ganho tuas tantas cicatrizes,
marcas de investidas rumo a desvios de rota;
em como, enfim, terá – você – sido, há décadas,
quando, a meus olhos, não era, você,
mais visível que veios auríferos ainda não descobertos
ou galerias expectantes das drusas de ametista,
ocultas, não esplendentes em lilás, dentro das trevas do geodo.

§

contudo, as palavras.

contudo, as palavras.
as mesmas que atritam traços no espaço dos dicionários fechados.
talvez letras, riscos, se entrelacem, em dança secreta,
rindo das consultas, quando desse fechamento.

como exemplo, a palavra sexo,
quase sempre atrativa,
ainda mais se encadeada à preposição com,
palavra, essa, que, unida à anterior,
causa expectativa, cujo desenlace depende da seguinte.

se essa for, por acaso, a palavra mesmo,
seguida pela já citada sexo,
poderá, tal encadeamento de sons,
tanto abrir risos de reconhecimento,
visagens do verbo feito carne,
quanto rolar no inferno das bocas,
à espera de dias como estes,
nos quais, havendo azo, vaza nova palavra:
massacra.

§

paisagem estilhaçada.

tenta-se alguma coisa no papel,
uma ponte, a serra, a cidade
se arrasta pelo tempo, toma,
morosa, as encostas, mineiras,
queijo, minério, ferrovia,
igreja, procura-se a sintaxe
fluvial, curvas, volteios,
traduzi-la em letra cursiva,
grafia dos meandros /// inter-
rupção /// fura, a luz da tela,
o pensamento, impera,
a tecla-metralha , explicita-se
a fratura do mundo,
divisa-se as novas Minas,
onde não só filigranas
de Murano, calor termal,
charrete, lua de mel: magma
move-se debaixo de tudo,
momento é o mais perigoso
entre Estados desde a crise
dos mísseis, dois terços
da população dizem
nunca ter ouvido falar
do AI-5, cabine de teleférico
despenca durante chuva
de granizo
– pop-ups – o fluxo
transborda a margem, o trem
escapa aos trilhos, PAISAGEM
ESTILHAÇADA, a cratera,
esse vulcão, qualquer momento.

Poços de Caldas, 2020

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