poesia, Poesia Brasileira Contemporânea

Leonardo Marona

marona

Leonardo Marona (Porto Alegre-RS) nasceu no dia 4 de fevereiro de 1982, em Porto Alegre. Publicou os livros: Pequenas biografias não-autorizadas (poesia, 7Letras, 2009); l’amore no (poesia, 7Letras, 2011); Conversa com leões (contos, Oito e meio, 2012); Óleo das horas dormidas (poesia, Oficina Raquel, 2014); Cossacos Gentis (romance, Oito e meio, 2015); Herói de Atari (poesia, Garupa Edições 2017); Dr. Krauss (novela, Oito e meio, 2017); Uma baronesa às quatro da madrugada (poesia, Ed. Urutau, 2018).

seguem poemas inéditos, logo abaixo.

* * *

pequena hora

apenas na pequena hora quando o futuro
diz “não tenho como saber” e me encontro
completamente sozinho e sinto vindo do cu
até o berço da espinha ou nuca que coloquei
muitas vezes desprotegida diante de animais ruins
e que pensam e sentem e estão também a sós como eu
que não sou ruim mas funciono de forma a desapontar-me
toda vez menos na pequena hora um instante fugidio
em que preciso fechar os olhos mesmo que esteja vendo
algo bonito e pensar sim eu também posso fazer algo
que salve a vida porque eu sigo em farrapos mas
construo minha grande arte coisa absurda.

mas somos muitos que ainda
perdemos tempo e estamos por aqui
flutuando vez por outra um morre
e de certa forma sabemos abrir
nossas gavetas e criar pergaminhos
confusos para voltar a patinar
alguns com idílio outros com presas na garganta
mas sabemos a ordem do caos
colocamos nossas pedrinhas na uretra de deus.

e vazamos eretos sempre no plural
porque tenho medo do momento singular
pequeno instante em que a pequena força
que me sustenta nos abandonar finalmente
então vestiremos as luvas no centro
de uma paixão abdominal de que sou raro
hospedário mas atrás de mim há larvas
para crescerem junto à crença pré-histórica
da pequena hora como um sacrifício de fogo
em prol da humanização do que surgirá ainda
como um milagre e agora foge enquanto grita
“eu persigo” – na direção de uma floresta densa.

§

mãos e cordas – outra década

sei que nossa corda é firme,
mas é preciso mãos para puxá-la.
vejam só como se parece
uma corda firme largada
no chão do fim de uma década,
no chão do fim de uma feira,
da feira que dura uma década.

olhem bem para o chão
pela última vez no que se fecha
e abre um novo ciclo provisório.
a mesma corda sempre firme
mais parece um clown
embrulhado de maldade
sem o carinho cheio de suor
das mãos que choram medo
e transpiram frustração translúcida.

alguém que caiu no meio da festa
e não houve tempo de perceberem,
essa corda é firme, mas sem mãos
ela fica assim como o cigarro
que a chuva molhou enquanto
alguém ainda pensava no amor.

pode ser também a mesma corda
da qual desistiu o palhaço suicida
e que ficou ali, no fim da feira,
largada enquanto ele seguiu
com a cara triste da qual se ri
o mais digno fiel da procissão.

seguir talvez seja puxar a corda,
com cuidado para que não estique
a ponto de estarmos curados,
de não mais precisarmos da corda.
e nunca mais veríamos as mãos
e nunca mais diríamos preciso
da sua mão para puxar a corda.

uma corda precisa de pelo menos
duas mãos para não ser um chicote.
a uma corda é preciso uma disputa
e somente um tipo de disputa existe:
a que vale para erguer o derrotado
e será a calma de deuses coléricos
quando olharem finalmente para nós.
por enquanto somos mãos e cordas
e a terrível vontade de simbolizar
o amor que não sabemos entender.

§

a cachorrinha cagou tudo: uma novela paulistana

percebo que estão todos insanos,
amo profundamente minha vida
por alguns instantes passageiros.

eu também, ao amar, não estou
longe da insanidade, ao contrário.
abro-me a ela então ela opta por
alguém ao meu lado, alguém mais
maduro, alguém que se defenderá
melhor que eu neste mundo cruel.

a insanidade, comumente, escolhe
mais bem preparados hospedeiros
do que eu poderia ser, com minha
para todo sempre confusa ideia do
que exatamente estamos fazendo.

e quem sabe agora que os sensatos
dizem não há mais futuro com que
nos preocuparmos e iremos todos,
loucos e sóbrios, para a funda vala,
é justo que agora, justamente agora,
os guias plácidos da última década,
que miravam uma fantasia gratuita
para que houvesse um amor calmo
entre seres humanos de fato únicos,
eu os veja completamente pelados
agarrados ao velho mastro de guerra,
uma velha guerra para sempre perdida,
cegos na proa de um navio amotinado.

seria justo pensar nisso enquanto subo
a avenida angélica – que nome bonito
para uma grande rua num lugar onde
não se pode entender mais nada então
vamos todos para este lugar à procura
do que não se pode entender em nós.

subo, portanto, a angélica, que eu uso
como a espinha dorsal do meu amor
por esta cidade que me acolhe como
a baba de um camelo sedento ao sol,
de um deserto imaginário que convida
a todos os adeptos dos livros velhos,
para gozar elegantemente a dissolução
– o que ainda assim é o amor e a sede.

subo atrás de novos amigos e amigas,
quem diria você, com idade de perder
os dentes e entender as coisas da vida,
fazendo amigos num lugar incomum
e não entendendo nada, deixando-se
espancar docemente no ringue da vida,
um cassius clay bailarino das opções
brincalhonas, finalmente não levando
quase nada muito a sério a não ser este
que sempre será o caminho que friza:
é preciso levar a corda solta – e confiar
no burro silencioso dos passos escuros.

é uma noite medonha que mais uma vez
se anuncia e em nossas entranhas vibra
talvez a nossa única chance de perdurar.
por enquanto rasgamos juntos as roupas,
no grande vazio onde assaltamos os trens
em chamas rumo a lugar nenhum, ainda.
bancos parecem lanchonetes, os parques
são usados para telefonemas de trabalho
enquanto eu tiro e cheiro minhas meias,
piso os pés no chão e me sinto preparado
como um brancaleone capaz de se fazer
de morto, mas também de esperançoso.

lanchonetes parecem bancos, aguardam
noutra esquina talvez os ganchos que por
ora soltam tua carne por outra mais fresca.
mas nos meus sonhos só vejo as mãos que,
assustadas, agarram o não sei que de vivo
que trazemos ainda em nossas veias ruins.

outra vez lamenta futuro a nova década,
não consigo pensar em nada além de que
escapamos o tempo todo e estamos juntos,
agarrados, não há outra palavra, à suspeita
sintonia fina dos nossos destinos a perigo.

Padrão