poesia

Renato Mazzini (1981—)

Renato Mazzini (1981) nasceu, vive e escreve em Santa Fé do Sul, interior de SP. Publicou os livros de poemas Paisagem com dentes (Oficina Raquel, RJ. 2009), Aqui começa a Antártida (Patuá, SP. 2015) e História inconclusa de la velocidad (Zindo y Gafuri, Buenos Aires. 2016). Os poemas aqui publicados fazem parte do livro inédito O último verão de nossos inimigos.

* * *

Los Andes

O cavalheiro acende
um cigarro, traga, oferece
a seu interlocutor
e pede que lhe arranque
a faca que cravaram nele,
entre o peito e
o pescoço, (para neutralizar
o coração e o cérebro,
ele pensa) e com profundidade
bastante para dificultar
a tarefa. O dia está
escondido entre rochas
altas e fumaça de hálito.
Somos cinco no pequeno
restaurante andino, que
nada deve a uma taberna
eslava escura qualquer, por
exemplo, exceto pela falta
do clima de morte.
Do lado de fora, minha nova
amiga lhama e eu paramos e
contemplamos:
dizem que há
um novo animal rondando
as montanhas; chama-se
sol, mas não acreditamos nele

§

Nóstromo

Quebrada a combinação,
o que restou no cofre
entre mímicas involuntárias
de falas e rostos
e filmagens mentais em 35mm,
foi a lembrança detalhada
de todo o percurso de dor
e lesões oculares.
De uma madrugada de
tempestade em que, abre aspas,
os relâmpagos tentavam comunicar
alguma coisa, fecha aspas, até
acordar abraçado
a um travesseiro em pedaços,
os sistemas aparentemente
incoerentes entre si, insistindo
em distribuir a seguinte
informação, abre aspas, talvez
você desconheça a identidade
do verdadeiro inimigo,
fecha aspas, ou, na primeira
versão que interpretamos,
as vidraças e eu, abre aspas,
o som não se propaga no vácuo,
mas realmente deveria, fecha aspas.
Isso soma mais algumas dúvidas
à mente cansada que
acorda, num escuro quase perfeito,
machucado apenas
por algumas flechas de luz
vazando os tacos da janela de
madeira, e não havendo
energia elétrica nem para o
ferro de passar, concluir que
talvez fosse melhor,
abra aspas, reorganizar todos
os pensamentos, fecha aspas,
antes de inalar a primeira carga
do dia de ar aos pulmões e ficar,
enquanto acende uma boca
de fogão com o último fósforo
não-molhado, pensando sobre
a microexasperação
de cada coisa.

§

Retrofuturismo

1. Você e a propensão
a observar mais detidamente
esta época quebrada do ano.

2. O cais dentro de suas
preocupações, as embarcações
estranhas, os navios com proas
ósseas, os monstros marinhos.

3. Dizer essa gravidade sombria
pesa todos os dias sobre mim.


4. Uma existência inteira
configurada a partir de
um golpe de caratê mal
coreografado num filme
da década de 80.

5. A perfeita equivalência
entre o que se deve perder
e o que se mantém, ilhas
enfileiradas e equidistantes,
e você ignora todos
os mecanismos disso:

7. Não importa:

6. Estamos felizes e amanhã
outro dia nascerá como
uma grande bola de demolição.

§

Velhos

Um ponto que a escuridão não alcance,
(que a escuridão não alcance)

Um ponto que a escuridão não alcance
(repetindo várias vezes, talvez aconteça)
O conhecimento áspero do calabouço
calcifica no entorno do seu coração
(grave, retilíneo) talvez isso quebre,

talvez isso se parta, talvez uma rachadura
viabilize a respiração, talvez isso quebre,

(talvez se parta), quem sabe uma rachadura
(repetindo várias vezes, talvez aconteça)

estamos falando de cicatrização interna
estamos falando de um café bebido às pressas
numa rodovia e de um cortejo de gárgulas

que talvez sejam cegos sob a luz do dia
(talvez sejam cegos sob a luz do dia, talvez)

§

Volta

Se o mundo se mantém
vitralizado sob seu jugo,

paciência. Deve haver
filtros mais tristes.

A sabedoria de um chinês
que nos vendeu cartelas

de ovos e ressignificou
a nossa vida permanece

o ponto alto das férias de
1993, entre tantas outras

cartas marcadas de nosso
jogo de atuações: aliviar

essa opressão no peito,
essa congestão de mentiras

não parece uma alternativa
viável; devemos nos manter

silenciosos e concentrados
olhando um banco de parque

em que bicicletas rondam
sem chegar a existir

§

Taxonomia do dever cumprido
(para meu filho, no futuro)

(44 & 4)
Aquilo se chama cosmo
É piche & são pregos
É feito de vazio e solidão
E, portanto, é nosso.
*
(54 & 14)
Isso se chama vento,
e emana da garganta
de um deus enquanto
tomamos café

§

La tristezza durerà

Piglia disse alguma coisa como
“viver num quarto de hotel é o
melhor modo de não cair na
ilusão de ter uma vida”. Isso
me faz querer dar algumas voltas
pelo bairro e respirar o mais fundo
que consigo. Retorno trazendo
algumas sacolas de hortaliças
e assobiando uma canção morta
há muito tempo. Subir as escadas
ressalta a beleza dura de estar
nesse mundo. A comunhão
entre chave e fechadura, o ranger
das dobradiças, pequenos manuais
de opacidade diária. Deposito
as compras na mesa e pergunto
ao gato, sempre reticente em
sua tigela de ração: quem é o cara
vestido de diabo sentado lá em
baixo?

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