poesia, poesia afro-uruguaia, tradução

Virginia Brindis de Salas, por Anelise Freitas, Ma Njanu e Marcela Batista.

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Virginia Brindis de Salas (1908-1958) foi uma poeta afro-uruguaia a quem se atribui a autoria de dois livros de poesia: Pregón de Marimorena (1946) e Cien cárceles de amor (1949). Como permaneceu (e ainda, de certa forma, permanece) sob a neblina densa do esquecimento, sua obra e vida é repleta de lacunas e de controvérsias. Uma delas é sobre a autoria de sua obra. Alberto Britos Serrat afirma, em sua antologia de 1990, “Antologia de poetas negros uruguayos” que a obra de Brindis de Salas é um plágio. O que se sabe é que Pregón de Marimorena foi o primeiro livro de poemas publicado por uma mulher negra na América do Sul. Circula ainda que a poeta teria um terceiro poemário, intitulado Cantos de Lejanía, mas essa publicação nunca veio à luz.

Brindis de Salas trabalhou durante algum tempo como doméstica de uma importante poeta branca uruguaia que, apesar de aparentar ser sua amiga, foi uma das responsáveis por incutir em Virginia uma insegurança sobre sua capacidade de ser uma escritora, uma vez que era uma mulher negra e pobre. Outra tentativa de invisibilizar sua obra foi a exclusão de seu nome da antologia de Alberto Britos Serrat, citada acima. Entretanto, essa teoria do plágio de sua obra foi rechaçada por pesquisadores empenhados no estudo de sua obra, como Richard L. Jackson, Marwin A. Lewis e a estudiosa Caroll Mills Young, que constataram que os poemas são, de fato, da autoria de Brindis de Salas.

Além de poeta, pertenceu ao círculo de intelectuais, jornalistas e escritores negros (CIAPEN), no Uruguai, e contribuiu com o periódico Nuestra Raza, entre 1939 e 1948, periódico dirigido por alguns poetas afro-uruguaios, como Pilar Barrios. Brindis de Salas era conhecida por difundir e propiciar o ativismo político e social do movimento negro e das favelas do Uruguai, contribuindo com publicações de poetas negres, bem como em relação à denúncia das condições miseráveis as quais viviam o povo uruguaio de cor e das classes mais baixas.

Brindis de Salas foi uma vanguardista ao tratar da literatura negra afrodiaspórica com uma riqueza e destreza imensa de imagens, que dispensam as menores alegorias; a respeito da nossa identidade tanto racial e social, como de gênero — fato extremamente inovador considerando o contexto patriarcal herdado das formações coloniais. Lamentamos que sua obra seja ainda tão pouco lida e apreciada pela crítica brasileira, mas nos levantamos para traduzir seus poemas a fim de vê-los circular e ganhar a imensidão que é própria da poética contundente de Virgínia Brindis de Salas.

Os poemas abaixo foram traduzidos pelas poetas e tradutoras Anelise Freitas, Ma Njanu e Marcela Batista.

* * *

A LA RIBERA AMERICANA

Cuántos años vieron mojar mis pies
las aguas salitrosas
que bordan la ribera americana.

La carne de mi cuerpo
bañada en agua hermana,
bautismo de este río
que como mar se ensancha
para buscar en la ribera
de América, su senda ancha.

Cuántos barcos al pasar por el ancón
y por la playa
abrieron, desmesurados
grandes ojos
y entre el cantar de marineros en su borda
a toda la ribera del itsmo saludaron.

Mi piel quemada, que besar quisieron,
ebria de soles matinales
se ha sumergido mar adentro
saturada de sales
y de encuentros.

Vamos por la ribera
de esta América indígena y mulata
en pos de la vereda
que todo lo mata.

El pecho fuerte y los brazos siempre abiertos;
macho y hembra,;
multitud, barcos y puertos;
y una bandera
de un solo color
hinchada al viento;
y las gentes en los barcos
a babor y estribor
con sus torsos desnudos
teñidos de sangre por escudo.

Que el pecho inflame
la paz redentora
y diga a todos: id ahora;
que nuestra sangre se derrame
sin demora.

Hijos del suelo americano
blancos y negros hermanados;
tomad mi cuerpo,
gustad el sabor de mi carne morena;
quebrad el espasmo de la gruta del miedo
que vuestra carne encierra!

Sed nuevos prometeos;
venid como Espartaco
que América en su nervio
desata sus canciones
que dicen los deseos
de un mundo amplio, nuevo,
sus nuevas rebeliones!

Quiero posar mi pie morena
en la ribera de los lares
de América, infinita
y verla que del suelo
se levanta
en sus talleres,
sus fábricas,
sus minas
y de un formidable pulmón
de voces femeninas,
que aprieta el fuelle
con manos masculinas,
oír la canción
en los caminos y en los muelles,
plena de redención!

À MARGEM AMERICANA

Quantos anos vieram molhar meu pés
as águas salobras
que bordeiam a margem americana.

A carne de meu corpo
banhada em água irmã
batismo desse rio
que como o mar se alarga
para buscar na margem
da América, sua rota larga.

Quantos barcos de passagem pelo recôncavo
e pela praia
abriram, desmesurados
grandes olhos
e entre o canto de marinheiros em sua popa
a toda a margem do istmo saudaram.

Minha pele queimada, que quiseram beijar,
ébria de sóis matinais
se submergiu mar adentro
saturada de sais
e de encontros.

Vamos pela margem
desta América indígena e mulata
no sentido da vereda
que a tudo mata.

O peito forte e os braços sempre abertos;
macho e fêmea;
multidão, barcos e portos;
e uma bandeira
de uma cor só
inflada ao vento;
e o povo nos barcos
bombordo e estibordo
com seus troncos desnudos
tingidos de sangue como escudo.

Que o peito inflame
a paz redentora
e diga a todos: vão agora;
que nosso sangue se derrame
sem demora.

Filhos do solo americano
brancos e negros irmanados;
tomem meu corpo,
gostem do sabor da minha carne negra;
quebrem o espanto da gruta do medo
que sua carne encerra!

Sejam novos Prometeus;
venham como Espártaco
que América em seu nervo
desata suas canções
que dizem os desejos
de um mundo amplo, novo,
suas novas rebeliões!

Quero pousar meu pé negro
na margem dos lares
da América, infinita
e vê-la que do solo
se levanta
em suas oficinas,
suas fábricas,
suas minas
e de um formidável pulmão
de vozes femininas,
que aperta o fole
com mãos masculinas,
ouvir a canção
nos caminhos e no molhe,
plena de redenção!

 

§

 

NEGROS

Alarde de dientes blancos
Elevándose en la roja pulpa de las sandías.
Hombres que cantan y cantan sus penas,
Con el alma asomada a la boca.
Entre los cañaverales
El ojo avizor del hombre blanco
Al final,
A la noche hosca…
La oscurece el bongó.

NEGROS

Alarde de dentes brancos
Elevando-se na rubra polpa das melancias.
Homens que cantam e cantam seu penar,
Com a alma aflorada na boca.
Entre os canaviais
O olho alerta do homem branco
Ao final,
A noite inóspita…
Escurece o bongô.

§

NAVIDAD PALERMITANA

Cielo con muchas estrellas
Y luna blanca y redonda.
Qué linda que fué en Palermo
La noche de Navidad.
Enfarolada de cañas
Y de vinachos guerreros
La negrada entusiasmada
Hacía repicar los cueros.
Candombe de Navidad,
Candombe de sol caliente,
Reminiscencia africana
Que reviven los morenos
En nuestra fiesta cristiana.
Recinto de los esclavos
Del viejo Montevideo,
En donde por vez primera
Repicó mi tamboril.
Con mi candombe te evoco,
Con mi candombe te canto
Porque hoy los negros son libres
En esta tierra Oriental.

NATAL PALERMITANO

O céu com tantas estrelas
E a lua branca bem cheia.
Tão linda estava em Palermo
A noite desse Natal.
De cana estou manguaçada
E de marafo os guerreiros
Os pretos se entusiasmavam
Fazendo o couro comer
Candombe desse Natal,
Candombe de sol caliente,
Reminiscência africana
Revivem todos os pretos
Em nossa festa cristã.
O terreiro dos escravos
Da velha Montevidéu.
Lá, pela primeira vez,
Repicou meu atabaque.
Com meu candombe te evoco
Com meu candombe te canto
Pois hoje os negros são livres
Nesta terra Oriental.

§

SEMBLANZA

¿De dónde provienes tú
pasionable y exaltada?

Tu sangre vió los ardores
de la Nigeria especiante.

Convada
y de ébano arrogante
el mapa de tu mirada.

Tus axilas aromadas
vegetación de la seiba.

Paso de culebra
tus caderas,
muchacha negra.

SEMELHANÇA

De onde tu vens
apaixonada e exaltada?

Teu sangue viu os fervores
da Nigéria apimentada.

Curvado
e de ébano altivo
o mapa do teu olhar.

Tuas axilas perfumadas
a vegetação da seiva.

Passo de serpente
teus quadris,
garota negra.

§

PREGÓN NÚMERO UNO

Toma mi verso
Marimorena
yo sé que lo has de beber
como una copa de alcohol,
a cambio de él
quiero tu angustia
Marimorena.

Quiero tu angustia,
quiero tu pena,
toda tu pena
y el tajo de tu boca
cuando ríes
como una loca
Marimorena,
toda ebria
más que de vino,
de miseria.

Tu voz,
que nunca arrulló
a tus hijos
ni a tus nietos
y es voz de paria
arrulla mimosamente
toda la prensa diaria.

Y no hay quien te haga callar
por dos vintenes un diario
no hay quien deje de comprar
para aliviar tu sudario.
Déjame ver tu cara
Marimorena,
que la atención acapara
causando lástima y pena.

Cuánto te deben
Marimorena,
esos que escriben
y que tú pagas
con tus vintenes,
con tus pregones,
por la mañana
y por la tarde
miles de veces;
en cambio tú
pagas con creces;
su periodismo,
su propaganda politiquera
todais sus lacras, su egoísmo,
sus fementidas torpes carreras.

Marimorena
todos los días vende los diarios;
tiene una pena
Marimorena
y es su sudario.

GRITO NÚMERO UM

Aceite meu verso
Marimorena
eu sei que tens de bebê-lo
como um copo de álcool,
em troca disso
quero a tua angústia
Marimorena.

Quero tua angústia
quero tua dor,
toda a tua dor
e o corte da tua boca
quando você ri
como uma louca
Marimorena,
toda bêbada
mais do que de vinho:
de miséria.

Tua voz,
que nunca embalou
seus filhos
nem seus netos
é a voz marginal
que aconchega
toda notícia da cidade.

E não há quem te faça calar
um jornal por dois trocados
não há quem pare de comprar
para aliviar teu cansaço
Deixe-me ver teu rosto
Marimorena,
que se chama a atenção
causando tristeza e piedade.

Quanto eles te devem
Marimorena,
aqueles que escrevem
e que você está pagando
com seus trocados,
com seus gritos
pela manhã
pela tarde
milhares de vezes;
você paga muito bem
e com lucro:
seu jornalismo,
sua propaganda política,
todas suas cicatrizes,
seu egoísmo,
suas ilusórias correrias desastradas.

Marimorena
todos os dias vende os jornais;
há uma sentença nisso
Marimorena
e é a sua morte.

§

CRISTO NEGRO

Metralla contra metralla
“que amor con amor se paga”.
¿Un camello? Ojo por ojo;
¿a qué parábolas del cielo?

Cristo negro manoseado
por la audacia y por la fuerza,
dejarás tu mansedumbre
de cordero y tu vergüenza.

Y fuerza contra la fuerza
ruede el látigo por tierra,
quita la hiel y tu miedo;
caiga piedra sobre piedra.

Sangre y llaga mucho enseñan.
Mejor amo es la Justicia
que las lágrimas del valle
del esclavo venerable.

Como al lirio le trajeron
a la tierra, a ti te dieron:
en el pecho, en las mejillas,
del señoreo mancillas.

MetraLla contra metralla
“que amor con amor se paga”

CRISTO NEGRO

Metralha contra metralha
“amor com amor se paga”
Um camelo? Olho por olho;
a quais parábolas do céu?

Cristo negro manipulado
pela audácia e pelo furor,
deixarás tua mansidão
de cordeiro e teu pudor.

E força contra a força
caia o chicote por terra,
tire o fel e teu medo;
caia pedra sobre pedra.

Sangue e chaga muito ensinam.
Melhor amo é a Justiça
que as lágrimas do vale
do escravo venerável.

Tal como o lírio trouxeram
à terra, a ti deram:
no peito, na feição,
máculas da usurpação.

Metralha contra metralha
“amor com amor se paga”

* * *

 

Anelise Freitas é poeta, tradutora, revisora, professora e editora do selo Capiranhas do Parahybuna. Mestra e doutoranda em Estudos Literários pela UFJF, graduou-se em Letras (com habilitação nas Línguas Portuguesa e Espanhola e suas respectivas literaturas) e em Comunicação Social. Entre 2014 e 2018, fez parte do corpo editorial das Edições Macondo. Como poeta, publicou cinco livros, sendo os mais recentes Sozé (Edições Macondo, 2018) e Mamafesto – Parte I (Capiranhas do Parahybuna, 2018). Seus poemas integram revistas e antologias do Brasil, Portugal, Inglaterra e Argentina; e exposições em Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo e Bahia.

Ma Njanu é poeta, ensaísta, ìyàwó e educadora popular. Nasceu em Fortaleza-CE. Publicou a obra na boca do dragão da américa latina (2020), de forma independente e também Cantos Breves (2015); participa de antologias, zines e outras publicações. É militante da Rede de Mulheres Negras do Ceará – RMNC, idealizadora do Clube de Leitoras na periferia de Fortaleza e da Pretarau – Sarau das Pretas, coletiva de artistas negras, a qual integra e também é produtora cultural. Seu perfil no Instagram onde publica poemas é @euliricamarginal.

Marcela Batista é poeta, tradutora, revisora e editora do selo Capiranhas do Parahybuna. Mestre em Estudos Literários e graduada em Português e Espanhol, se interessa pela poesia de mulheres latino-americanas. Como poeta, publicou sua primeira plaquete, Caderninho Vermelho (Capiranhas do Parahybuna, 2018); participou da Antologia Corderos en la espuma (Vox/Lux, 2018) e de diversos eventos literários na Argentina, Brasil e Colômbia.

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