Sheila Dálio

Sheila Dálio (1983) é mestranda em teoria literária pela UNESP, em Assis, SP. Nasceu em São Manuel, interior de São Paulo. Atualmente está entre os alguns que se agarram à poesia como uma tábua de salvação. 

* * *

I – Gesto

de cócoras sobre a carniça não pensava,
comia. Vejo de juntar em minhas mãos.
Esculpir essa carne de minha carne;
torço retorcido com o rosto de
Caim.

§

II – Marabu

A máscara de flandres veio caminhando
para grudar-se em minha boca.
Olho aos céus e vejo Marabu:
Grande. Feia. Magra.
Fomos nós que apressamos a noite?
Foram Eles?
Contaram-me os mistérios dolorosos: Deus, pendurado num arame,
retira o ar soprado em mim.

§

III – Máquina de costura

Percorre um vazio
entre a linha e a agulha
nele tuas angústias
passavam como gafanhotos
em delírios envoltos. Ossatura.
Ao corpo da máquina
tão perto teu rosto.
Costura,
costura,
costura
[o tecido, as veias, o sangue]
impossível mudar
tua desventura.
Na membrana das linhas
arruinadas – o corte.
Ao lado esquerdo, o vestido:
preto
três botõezinhos
e o ar que me entope.

§

IV – Mangue

escuta o som das saias
no mangue de Recife
as marcas quentes na areia
nas suspensas
ondas do seu ventre
escuta
a esquecida velha
acenando ao mar
a lágrima
caída
na concha apodrecida
escuta
(um barco chegou)
cinco homens
cinco redes
cinco anzóis
cinco furos
cinco mulheres
escuta
depois do último
cataclisma
o silêncio das saias
balançando no mangue
quente do seu ventre

Publicado por

guilherme gontijo flores

ahn...

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