poesia, tradução

Giorgio Manganelli, por Armando Martinelli

manganelli-3

Giorgio Manganelli foi um escritor, tradutor, jornalista e crítico literário, nascido em Milão, em 15 de novembro de 1922; e faleceu em Roma, em 28 de maio de 1990. Ativista da resistência italiana (Partigiano) durante a segunda guerra mundial, integrante do partido Comunista, presidente do Comitê de Libertação, ele também foi um dos líderes do movimento literário de vanguarda na Itália na década de 1960, chamado Grupo 63
(caracterizado pela forte experimentação). Nesse período publicou um trabalho
“Hilarotragoedia” (1964), traduzido pela editora Imago (1993), em tradução de Nilson Moulin. Seu livro mais conhecido “Centuria – cem pequenos grandes romances”, lançado em 1979, ganhou o Prêmio Viareggio, e chegou ao Brasil em 1995 pela editora Iluminuras, em tradução de Roberta Barni. Manganelli também é lembrado por sua atividade tradutora: traduziu histórias completas de Edgar Allan Poe e autores como T. S. Eliot, Henry James, Ezra Pound, Robert Louis Stevenson, Byron Manfred entre outros. Dos mais de cinquenta livros de Manganelli, no Brasil, além dos dois citados acima, há também “Pinóquio: um livro paralelo”, publicado em 1982 na Itália, e por aqui em 2002, pela Companhia das letras, em tradução de Eduardo Brandão. Ítalo Calvino diz a seu respeito, ao comentar “Hilarotragoedia”: “um escritor diferente de qualquer outro, um inventor inesgotável e irresistível no jogo da linguagem e das ideias”.

Após ter lido o livro de contos Centúrias – cem pequenos grandes romances (Edições 70), indicado pelo amigo e poeta Diego Pansani, parti em pesquisa virtual por outras obras do  italiano Giorgio Manganelli. Entre as buscas, deparei-me com alguns de seus poemas e, desde então, tenho unido duas paixões: a língua italiana (herança de meu pai e avós), com a poesia. Nos poemas de Manganelli fui atingido fortemente pela combinação crua de elementos fantásticos e sentimentos pulsantes. E sigo instigado a desvendar, cada vez mais, esse universo denominado por muitos críticos como o real manganelliano. Para homenagear os trinta anos de falecimento do autor, fiz a tradução de três dos seus poemas.

Armando Martinelli

*

I
Scrivi, scrivi;
se soffri, adopera il tuo dolore:
prendilo in mano, toccalo,
maneggialo come un mattone,
un martello, un chiodo,
una corda, una lama;
un utensile, insomma.
Se sei pazzo, come certamente sei,
usa la tua pazzia: i fantasmi
che affollano la tua strada
usali come piume per farne materassi;
o come lenzuoli pregiati
per notti d’amore;
o come bandiere di sterminati
reggimenti di bersaglieri.

II
Usa le allucinazioni: un
ectoplasma serve ad illuminare
un cerchio del tavolo di legno
quanto basta per scrivere una cosa egregia –
usa le elettriche fulgurazioni
di una mente malata
cuoci il tuo cibo sul fuoco del tuo cuore
insaporiscilo della tua anima piagata
l’insalata, il tuo vino
rosso come sangue, o bianco
come la linfa d’una pianta tagliata e moribonda.

III
Usa la tua morte: la gentilezza
grafica gotica dei tuoi vermi,
le pause elette del nulla
che scandiscono le tue parole
rantolanti e cerimoniose;
usa il sudario, usa i candelabri,
e delle litanie puoi fare
un bordone alla melodia – improbabile –
delle sfere.

IV
Usa il tuo inferno totale:
scalda i moncherini del tuo nulla;
gela i tuoi ardori genitali;
con l’unghia scrivi sul tuo nulla:
a capo.

I
Escreva, escreva
se você sofre, use sua dor
pegue-a pela mão, toque-a
como se manuseia um tijolo,
martelo, um prego,
uma corda, uma lâmina;
uma ferramenta, enfim.
Se você é louco, como certamente é
use a sua loucura: os fantasmas
que preenchem sua existência
use-os como plumas dos travesseiros;
ou como lençóis finos
para uma noite amor;
ou como bandeiras de extermínio
dos regimentos de atiradores.

II
Use suas alucinações: um
ectoplasma serve para iluminar
um círculo na mesa de madeira
quanto precisa para escrever uma coisa amável –
use as claridades elétricas
de um mente doentia
cozinhe sua comida com o fogo do coração
tempere sua alma ferida
a salada, o vinho tino
vermelho como sangue, ou  branco
como a seiva de uma planta cortada e moribunda.

III
Use a sua morte: a gentileza
dos gráficos góticos dos seus vermes
as pausas eleitas do nada
que acentuam suas palavras
ofegantes e cerimoniosas;
use sua mortalha, seus candelabros,
as ladainhas que pode compor
– um zumbido a uma melodia – improvável
das esferas.

IV
Use seu inferno total:
esquente os tocos de sua alma;
congele as ardências genitais;
com a unha, escreva no seu vazio:
Um Parágrafo.

§

da Poesie

Io mi divido
in giacca e calzoni e cintura
e ancora mi disgiungo
in cravatta e camicia
e mi scindo in cranio, in polmoni,
in visceri e pube,
e mi distinguo
in ogni cellula
che senz’amore s’accosta
ad altra cellula.
Così, casualmente, sussisto:
poi chiedo in prestito
la forza che congiunge
l’uno all’altro i miei volti possibili
all’improvviso sacramento
d’una chitarra,
al riso dell’amico,
allo squillo consueto del telefono,
nell’attesa distratta
d’una voce che perdoni la mia spalla,
la mia gamba, la mia dolce cravatta:
nell’oziosa attesa
del sacramento della nascita. 

Conosco la pace del pensoso dinosauro,
la coerenza delle zanne della tigre:
dove non c’erano parole
dove non ci sono parole,
nel centro del centro del centro
delle cose sorde, vitali, sanguinose,
dove si enumerano stomaco,
unghie, genitali,
intestini lunghissimi, zampe,
e le lacrime sono lacrime
per sangue che esce da carne lacerata,
per l’orrore forte della morte,
dove si redigono cataloghi
di urli, di minacce, di carne,
del male carnale solamente
dove non c’è amore né lussuria,
ma la voglia gagliarda della vita,
il centro dell’inguine
che matura insensato nelle cose. 

Abbiamo tutta una vita
da NON vivere insieme.
Sugli scaffali di Dio
s’impolverano i gesti possibili:
le mosche cherubiche insozzano
le nostre carezze;
stanno appollaiati come gufi
i sentimenti impagliati.
“Merce inesitata” – griderà l’angelo d’ottone –
dieci casse di vite, di possibili.
E avremo anche una morte da morire:
una morte casuale, innecessaria,
distratta, senza te. 

Io non ho prova della mia esistenza
se non per questo
dolore continuo dell’orecchio,
una lettera d’amico,
il gusto denso della birra
contro le gengive.
Fuori dal sigillo
della paura ininterrotta
non ho altro indizio
della mia continuità.

De poemas

Eu me divido
em jaqueta, calças e cintos
então me desfaço
em gravata e camisa
e me separo em crânio, em pulmões,
em vísceras e virilha
e me distingo
em cada célula
que sem amor se encosta
a outra célula
assim, casualmente, subsisto:
depois peço em empréstimo
a força que une
um ao outro os meus rostos possíveis
a um inesperado sacramento
de um violão,
ao riso do amigo
ao toque habitual do telefone,
na espera distraída,
uma vez que perdoe as minhas costas
a minha perna, a minha doce gravata:
na ociosa espera
do sacramento do nascimento.

Conheço a paz do pensativo dinossauro,
a coerência das presas do tigre:
onde não haviam palavras,
onde não existem palavras
no centro do centro do centro
das coisas surdas, vitais, sanguinolentas,
onde se enumeram estômago,
unhas, genitais
intestinos longuíssimos, patas
as lágrimas são lágrimas
por sangue que sai da carne dilacerada
para o grande horror da morte
onde se redigem catálogos
de gritos, de ameaça, de carne
do mal carnal somente
onde não tem amor e nem luxúria
mas a vontade corajosa da vida
o centro das pernas
que amadurece as coisas insensatas.

Temos toda uma vida
para não viver juntos.
Sobre as prateleiras de Deus
se empoeiram os gestos possíveis
as moscas querubins mancham
as nossas carícias – estão empoleiradas como corujas
os sentimentos empalhados.
“Mercadoria encestada” – gritará o anjo de bronze –
dez caixas de vida, de possíveis.
E teremos também uma morte a morrer:
uma morte casual, desnecessária,
distraída, sem você.

Eu não tenho da minha existência
se não por isso
dores contínuas de ouvido
uma carta de amigo
o gosto forte da cerveja
contra as gengivas
fora do sigilo
do medo ininterrupto
não tenho outro indício
da minha continuidade.

§

Desideravo vederti:

desidero la fantasia dei tuoi capelli
a inaugurare grida
di libertà in ore troppo lente; la rivolta
dei tuoi polsi terrestri
che muovono inizi di bandiere,
e accusano l’indugio, la disperazione
cauta, il tempo.
Mi occorre l’urlo d’uno sguardo
ed oltre la violenza del tuo esistere
io esigo il gesto d’un tuo riso.

Queria te ver:

Desejo a fantasia do seu cabelo
a inaugurar em gritos
de liberdade em horas muito lentas; a revolta
dos seus pulsos terrestres
início sinuoso de bandeiras,
e acusar o atraso, o desespero
cauteloso, o tempo.
Preciso do grito de um olhar
e além da violência da sua existência
Exijo o gesto do seu riso.

§

Armando Martinelli é jornalista e escritor. Publicou em algumas coletâneas, e seu primeiro livro – Recital das Reticências saiu em 2018 pela editora Urutau. Mestrando em Divulgação Científica e Cultural pelo Labjor (IEL) na Unicamp, entre pesquisas e textos acadêmicos, segue finalizando seu segundo livro, também de poesia, previsto para ser lançado até o final de 2020.

*

Padrão

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s