poesia, tradução

Max Hölzer (1915 – 1984), por Natan Schäfer

© Rimbaud Verlag

Max Hölzer (1915 – 1984) nasceu em Graz (Áustria). Formado em Direito, foi leitor e tradutor em diversas editoras alemãs. Juntamente com Edgar Jené (sobre quem Paul Celan publica em 1948 o ensaio “O sonhos dos sonhos”, em alemão “Der Traum von Träume”), de 1950 a 1952 editou a revista Surrealistischen Publikationen, onde publica pela primeira vez após a Segunda Guerra traduções de Breton, Péret, Lautréamont dentre outros. Dono de uma obra esparsa apenas reunida e reeditada pela Rimbaud Verlag a partir de 1989, Hölzer e sua obra são muitos importantes para a compreensão dos acidentados meandros dos vasos comunicantes surrealistas nos territórios de língua alemã que, ao contrário do que muitos insistem em repetir, não foi uma Batalha de Itararé, ou seja, está longe de não ter sido. Além disso sua obra, que se constitui paralelamente à reconstrução destes países, amplia a discussão da Imagem e do pensamento analógico e simbólico nesses mesmos territórios e além, acenando para a possibilidade de ascendência após um período de lama.

Apresento aqui uma trinca de poemas em prosa do livro Gênese de uma constelação (na edição da Rimbaud Verlag acompanhado por obras do pintor K.O. Götz), profundamente marcados pelo ditado do desejo em íntima relação com o mundo visto e vivido. Os textos foram tirados de Entstehung eines Sternbilds. Surrealistische Prosa. Stierstadt im Taunus: Eremiten Presse, 1958. 2ª ed. Aachen: Rimbaud Verlag, 1992.

Agradeço ao Guilherme Gontijo Flores e ao pessoal do escamandro pelo espaço aberto.

Boas jornadas!

Natan Schäfer (1991) nasceu em Ibirama, Santa Catarina. É mestre em Estudos Literários pela UFPR e por Lyon 2 e capitaneia a Contravento Editorial. Atualmente vive em Berlim.

* * *

 

“Lilli-De” III, 1992, 70 X 100 cm. Guache sobre papel cartão. K.O. Götz.

I – Gênese de uma constelação

O touro estica o focinho mas não emite ruído algum. Movimenta-se na sua própria noite ao longo da praia, de pé nas patas traseiras. As órbitas de seus olhos cheias de areia. Na sua testa, entre os chifres, um estoque de ondas e nuvens. A menina que vai à sua frente tem penas de pombos na cintura. Nenhum passo é capaz de soltar as pontas dos dedos das garras com as quais ela conduz o touro. Talvez jamais tenha sido dia. Uma explosão inaudível faz o mar e a praia naufragarem. Mas eles não tropeçam. A menina dança o touro ofuscado em seu peito. Ele penteia seu coração.

I – Entstehung eines Sternbilds

Der Stier reckt das Maul, aber kein Laut dringt hervor. Er bewegt sich in der eigenen Nacht, aufrecht auf den Hinterbeinen, den Strand entlang. Seine Augenhöhlen füllt Sand. Auf seiner Stirn, zwischen den Hörnern, ist ein Vorrat von Wellen und Wolken. Das Mädchen, das vorangeht, hat Taubengefieder um die Hüften. Kein Schritt löst die Fingerspitzen von den Klauen, an denen sie den Stier führt. Vielleicht ist es nie Tag gewesen. Eine unhörbare Explosion läßt Meer und Strand versinken. Aber sie straucheln nicht. Das Mädchen tanzt dem geblendeten Stier durch die Brust. Er kämmt ihr Herz.

§

II – Babilônia

O céu azul está cheio de açúcar empacotado. As pessoas fazem compras sem deixar rastros, como nenhum selvagem jamais o fez. Sobre trilhos. Lá vai uma que teve as orelhas entupidas por assobios. O relógio lhe espreme a boca para fazê-la calar. Não é como num balneário. A passagem é uma pedra que fica pesada em sua cama. No horizonte rodopia um pouco de poeira, ao qual se dirige o primeiro suspiro da amada. Uma nuvem se estende de uma margem à outra do céu. Guerra e paz, verrugas e riachos. Ele não se deixa mais invadir pela sanguinolenta ameaça. O próximo trem lhe atropela; ele mesmo não terá notado. Trânsito dominical. A confusão de línguas salvou seus cristais na caixa de fumaça da locomotiva, sobre as confortáveis salas de espera que mentem.

II – Babylon

Der blaue Himmel ist voll gewogenen Zuckers. Man kauft ein, spurlos wie ein Wild. Auf Schienen. Da ist einer, der den Pfiffen sein Ohr verstopft. Die Uhr preßt er auf den Mund, um sie zum Schweigen zu bringen. Ist es nicht wie ein Badeort. Die Fahrkarte ist ein Stein, der sich schwer macht in seinem Bett. Am Horizont wirbelt ein wenig Staub, der erste Atemzug der Geliebten, der ihm gilt. Eine Wolke hängt von Rand zu Rand des Himmels. Krieg und Frieden, Warzen und Rinnsale. Er läßt sich die blutige Drohung nicht mehr einfallen. Der nächste Zug überfährt ihn; er wird es selbst nicht bemerkt haben. Sonntagsverkehr. Die Sprachverwirrung hat ihre Kristalle in Rauchkammern gerettet, über den komfortablen Wartehallen, die lügen.

§

III – Bem e mal

O Elba faiscando sob obscuras nuvens ensolaradas. Guindastes aracnídeos pendem flácidos no ar. O cansaço cobrindo um poema desumano me puxa para a água. Mergulho com a força de uma hélice. O bizarro branco dos barcos se espalha pelas paredes do ancoradouro congelado. Chaminés listradas de preto, verdes e dourado. Os golpes das sirenas, o caos das antenas, vergas, enxárcias e mastros, dolfins e boias erguendo-se das águas, como um carimbo alcatroado voando em círculos: caligrafia da vida que divido a ferro afiado como se fosse um poleame incandescente. Paus de carga abertos em ângulo obtuso e o dedo cinabre dum gigante distante nas brumas portuárias em fuga ascendente. As quilhas tortas para o lado, para baixo e as paredes fuliginosas ou enferrujadas, recuando inagarráveis. Mergulho acariciado por rítmicas medusas dançantes e florescentes, conchas abrem seus colos de madrepérola e enquanto vou perdendo a consciência devagar guindastes e arames se enrijecem apontando para cima e aproxima-se, quase flutuando sobre o seio das águas profundamente crispado e rasgado, uma encosta de esmeralda, nua — vítreo barco a vapor do prazer.

III – Gut und Böse

Die Elbe liegt funkelnd unter düsterer Sonnenwolke. Spinnenkrane hängen schlaff in der Luft. Überdruß, der ein unmenschliches Gedicht verhüllt, zieht mich ans Wasser. Ich tauche mit der Kraft einer Schiffs-Schraube. Das bizarre Weiß der Schiffe, gebänderte Schlote, der Rauch und aufgeregte Sirenenstöße, die geometrische Wirrsal der Atennen, Rahen, Stage und Maste, aus dem Wasser ragend die Dalben und Bojen, wie Stempel geteert und umflogen: Schrift des Lebens, das ich wie einen heißen Block mit Eisesschärfe spaltete. Ladebäume, breitwinklig gespreitzt, und fern im Hafendunst der zinnoberrote Finger eines Riesen fliehen nach oben. Zu Seiten gebogene Kiele, abwärts, und rußschwarze oder rostige Wände, zurückweichend, grifflos. Ich tauche, von rhythmisch tanzenden und erblühenden Medusen gestreift, Muscheln öffnen ihren Perlmuttschoß, und während ich langsam das Bewußtsein verliere, steifen sich oben Krane und Drähte und es nähert sich, fast schwebend über der tiefgefurchten, aufgerissenen Wasserbrust, die Smaragdhänge entblößt, der Lustdampfer aus Glas.

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