poesia, Poesia Brasileira Contemporânea

João Gabriel Madeira Pontes

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João Gabriel Madeira Pontes nasceu no Rio de Janeiro, em 1992. É autor de Saúvas avulsas (Garupa, 2019).

* * *

Manobra de Heimlich

Chegará o dia em que todos os argumentos, mesmo os mais infundados/ o confuso marulho dos helicópteros em movimento, o embrulho, estes montes/ rasos que nos espreitam, a febre terçã, as rugas nos teus pesadelos, o gênero/ da maçã, a prisão das fortunas, as tribunas, os meus tantos conselhos tardios/ romperão, feito abrolhos solares sobre tumbas de arrepios, o parco entendimento/ do cão invisível que dorme aos nossos calcanhares, sem maiores sobressaltos/ (apenas os tremores sucintos de quem também consome pesadelos e atalhos)/ para ocupar as cavidades desta garganta, a única garganta do mundo, e desdobrá-la/ ao modo mais jagunço, até que reste só a chaga urgente e seca, a ser temperada/ e digerida, traduzida, dita e vivida, no dia em que o teu filho nascer e, antes de abrir/ os olhos, pôr-se a caçar o teu seio esquerdo, tão esquerdo quanto a mão/ com que agora escreves, não sem medo, a entrada mais recente do teu diário// e certamente nos lembraremos do que comemos naquele dia e das conversas ocas/ que nossas bocas tergiversas trocaram, as bulas e os recortes de jornal engasgando/ os anos seguintes, os poucos requintes da minha coleção de dicionários, os livros/ do Mario Levrero, repletos de anotações, as encomendas, as malas desfeitas, as lições/ de matemática que escaparam à consciência errática do teu único filho, o teu menino/ e, assim, talvez este cachorro poderá ganhar corpo, som e desaforo, no lodo/ dos planos clandestinos que não tocarão a realidade, tampouco a língua áspera/ e covarde do tempo, a lamber os teus ossos lentos, abrindo sulcos entre os coqueiros/ da tua memória, sorvendo os óleos de que precisarás para acalmar os bichos/ matreiros que despertarão na tua cabeça quando, da Praça Mauá, assistires/ a última embarcação deixar o porto, sua quilha de açúcar mascavo a roçar/ o tombadilho, o pavilhão a beijar o favo das tuas mágoas dormidas, as lágrimas/ no rosto do teu filho, que hoje tem o seu próprio filho, reflexo justaposto à imagem/ de quem não mais te parece familiar, mera miragem às quatro da madrugada/ hora em que costumavas desterrá-lo dos teus braços, o relógio a te negar intervalo/ para o descanso, mas, embora estranha, esta nova imagem amansa e consolida/ o espírito do teu menino, como no famoso autorretrato pintado por Parmigianino/ a partir de um espelho convexo e do seu reflexo disforme, imagem em que coube/ (segundo especularia o poeta John Ashbery séculos depois) a alma pequena do artista/ italiano, condenada à imobilidade enquanto intercalam-se chuvas, ventos, outonos/ e, entretanto, absolutamente capaz de provocar em qualquer observador atento// comoção similar à que o filho do teu filho experimentou diante do pescado/ agonizante que te açoitava a rabanadas, o clarão do meio-dia quarando as escamas/ prateadas, suas guelras asfixiando em prece, pois o que é a prece senão a mais pura/ forma de asfixia, todo o peso de Deus sobre o teu diafragma, nada ao alcance/ das barbatanas e, no anzol, a garganta que não constará dos manuais de anatomia.

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Poesia Brasileira Contemporânea, Uncategorized

Victor H. Azevedo

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Victor H. Azevedo (1995) é tradutor, ilustrador, pesquisador e poeta. Nasceu e vive em Natal/RN, onde, junto do poeta Ayrton Alves Badriah, comanda a Munganga Edições, pequena editora artesanal focada na obra de poetas esquecidos ou totalmente desconhecidos. Também em dupla com Ayrton, conduz o blog-projeto “poesia subterrânea” que visa o resgate da obra de velhos (e novos) autores, nascidos e/ou que atuaram literariamente no Rio Grande do Norte, numa tentativa de (re)colocar no circuito literário obras esgotadas ou de difícil acesso. Como tradutor, Victor já traduziu texto de autores como Luís Omar Cáceres, Alice Corbin Henderson, José Luís Hidalgo, Amy Lowell, Jack Spicer, Peter Orlovsky e Richard Brautigan. Como autor, publicou Cachorro Morto (Munganga Edições, 2019), JBG (Shiva Press, 2019), canivete bubaloo (Publicação online, 2017) e Põe duas horas no super nintendo qu’eu quero esquecer da minha vida (La bodeguita edições, 2016). A fotografia que estampa a postagem é de Cecília Pacheco, e as ilustrações são do próprio autor.

* * *

RETRATO FALADO
p/ Camillo José

vi em algum vídeo-ensaio
de que existe um poema
perdido em algum caderno
de anotações dedicado

ao rosto de uma mulher
que nenhum retratista
conseguiu reproduzir.
seu semblante à tinta

era como o rastro
de um animal em fuga.
quem tentasse galgar
em um sfumato seu nariz,

acabava por tomar a via
errada e fazia um rastro
de fumaça, desses que
os aviões deixam quando

cruzam o firmamento.
dos cílios acabavam
surgindo pernas e
braços de letras

findando que os olhos
ficavam amuralhados
de versos quilo-
métricos feitos de cílios.

a tinta era indomável,
desobediente à mão destra
do pintor. luzes e sombras
se desconheciam em qualquer

daguerreotipo que tirassem
da mulher. mármore virava
manteiga no labor do escultor.
por isso o único meio viável

de retratar tal vênus era por
meio de um poema. segundo
constam as fontes, esse tal poema
poderia estar em qualquer lugar.

poderia está escondido nos créditos
finais de um filme de post horror.
poderia está no raio x de uma
das pinturas da artemisia gentileschi.

poderia até mesmo está tatuado
em numa partícula que acaba
de sucumbir a existência em
algum colisor de hádrons por aí.

microfonia

(FALSA TRADUÇÃO DE UM POEMA DO AMADO NERVO)

Não, eu não procuro a grandeza física
Que mensura a existência da montanha.
Prefiro a audição da música sísmica
Andejando a aldeia de tinta tísica,
Que retroalimenta as minhas entranhas.

Vou indo bem — obrigado — por tal via,
Sem mendigar denários ou serviço
Braçal, pois me basta a minha existência
Em terra condenada à luz do dia —
Trazendo alma cheia de carrapicho.

herbanário

quero dizer que a respiração é a mãe
que nos ensina a cair em qualquer tipo de terreno
mesmo que nesse terreno exista um magnetismo
tão excessivo que o tombo seja apenas a prova viva
de que ainda temos joelhos a serem gastos.

ela nos instrui a escancarar bem as guelras
quando a sombra é aguda
e quando há tanta luz líquida
que é preciso ter instalado no coração
uma colônia de nuvens
para absorver e fazer chover
sobre essa estiagem de cometas.

nos faz ter a ciência de que andar descalço
é como se deixássemos nossos pés se confessarem a terra
e que dormir após o almoço é a melhor meditação
que se pode ter em dias de terremotos na carne.

fala também através de códigos secretos
fala que mais valioso que uma mochila lotada de árvores
é o alfabeto que criamos a partir do labirinto
que os pássaros traçam com sua fuga.

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poesia, poesia norte-americana, tradução

Harryete Mullen, por Rafael Mendes

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Harryete Mullen (1953, Alabama, EUA) é poeta e professora de literatura Afro-americana e escrita criativa na Universidade da Califórnia. Seus poemas exploram questões de gênero, raça, consumo e tradição. Segundo Harryete sua poesia busca “combinar pensamento crítico com os prazeres do ritmo e jogos de/com palavras”. Ainda, segundo a poeta, ela escreve para olhos e ouvidos, buscando uma “intersecção entre oralidade e escrita”. Durante seu doutorado, escreveu uma tese sobre narrativas da escravidão, influenciando seu trabalho que, por muitas vezes, trata das vidas dos Afro-americanos e de suas diásporas. Mullen tem diversas coleções publicadas, dentre elas: S*PeRM**K*T (1992), Muse & Drudge (1995) e Sleeping with the Dictionary (2002), este foi indicado para diversos prêmios literários, como o National Book Award e National Book Critics Circle Award. Seus livros são inéditos no Brasil. Ela é vencedora do Gertrude Stein Award, Jackson Poetry Award, entre outros.

* * *

Nós não somos responsáveis

Nós não somos responsáveis por seus parentes perdidos ou roubados.
Nós não garantimos sua segurança se você desobedecer nossas regras.
Nós não apoiamos as causas e reclamações de pessoas implorando por panfletos.
Nós preservamos o direito de negar atendimento para qualquer um.

Sua passagem não garante que iremos honrar sua reserva.
Para facilitar nossos procedimentos, por favor limite sua reprodução.
Antes da decolagem, favor abolir todos ressentimentos em cozedura .

Se você não fala inglês, você será removido do caminho
No evento de uma perda, é melhor você se virar sozinho.
Seu seguro foi cancelado porque nós não podemos mais dar conta
de suas reclamações pavorosas. Nossos guardas perderam sua mala e nós
somos incapazes de achar o número do seu processo penal.

Você foi detido para interrogatório porque você se encaixa no perfil.
Você não é presumido inocente se a polícia
suspeitar que você está carregando um guarda-chuva escondido.
Não é nossa culpa se você nasceu vestindo cores do pavilhão 9.
Não é nossa obrigação informá-lo sobre seus direitos.

Na parede, por favor, enquanto nosso cabo inspeciona sua marra.
Você não tem direitos que devemos respeitar.
Por favor se acalme, ou nós não seremos responsáveis
pelo que acontecer com você.

 

We Are Not Responsible

We are not responsible for your lost or stolen relatives.
We cannot guarantee your safety if you disobey our instructions.
We do not endorse the causes or claims of people begging for handouts.
We reserve the right to refuse service to anyone.

Your ticket does not guarantee that we will honor your reservations.
In order to facilitate our procedures, please limit your carrying on.
Before taking off, please extinguish all smoldering resentments.

If you cannot understand English, you will be moved out of the way.
In the event of a loss, you’d better look out for yourself.
Your insurance was cancelled because we can no longer handle
your frightful claims. Our handlers lost your luggage and we
are unable to find the key to your legal case.

You were detained for interrogation because you fit the profile.
You are not presumed to be innocent if the police
have reason to suspect you are carrying a concealed wallet.
Its not our fault you were born wearing a gang color.
It is not our obligation to inform you of your rights.

Step aside, please, while our officer inspects your bad attitude.
You have no rights we are bound to respect.
Please remain calm, or we can’t be held responsible
for what happens to you.

§

Elíptico

Eles simplesmente não conseguem … Eles devem se esforçar mais para… Eles deveriam ser mais .. Nós todos desejamos que eles não fossem tão .. Eles nunca .. Eles sempre .. Algumas vezes eles .. De vez em quando eles .. No entanto é óbvio que eles .. A tendência deles tem sido de .. As consequências disso foram … Eles parecem não entender que .. Se ao menos eles fizessem esforço para .. Mas nós sabemos como é difícil para eles .. Muito deles permanecem ignorantes de que .. Alguns que deveriam saber melhor se recusam a .. Claro, a visão deles tem sido limitada por .. Por outro lado, eles claramente sentem-se no direito de .. Não podemos esquecer que eles .. Nem pode ser negado que eles .. Nós sabemos que isso teve um enorme impacto neles .. Apesar disso o comportamento deles nos choca como .. Nossas intenções infelizmente foram ..

Elliptical

They just can’t seem to . . . They should try harder to . . . They ought to be more . . . We all wish they weren’t so . . . They never . . . They always . . . Sometimes they . . . Once in a while they . . . However it is obvious that they . . . Their overall tendency has been . . . The consequences of which have been . . . They don’t appear to understand that . . . If only they would make an effort to . . . But we know how difficult it is for them to . . . Many of them remain unaware of . . . Some who should know better simply refuse to . . . Of course, their perspective has been limited by . . . On the other hand, they obviously feel entitled to . . . Certainly we can’t forget that they . . . Nor can it be denied that they . . . We know that this has had an enormous impact on their . . . Nevertheless their behavior strikes us as . . . Our interactions unfortunately have been . . .

§

Tudo que ela escreveu

Me desculpe, não sou boa nisso. Não posso escrever de volta. Eu
nunca li sua carta.
Não posso dizer que recebi seu bilhete. Eu não tive a força
para abrir o envelope.
As cartas se empilham perto da porta. Sua letra é ilegível.
Seus cartões postais estavam
desfigurados. Lave seu cabelo molhado? Qualquer documento que você
pensou em me enviar ainda
será entregue. O bagunçado sistema de encomendas não entregou.
Sinto dizer que eu sou
incapaz de responder aos seus desejos mudos. Eu não
recebi o livro que você enviou.
Inclusive, meu computador foi roubado. Agora sou incapaz
de processar palavras. Eu
sofro de afasia. Eu acabei de voltar do Quénia
e da Coréia. Você não
recebeu meu cartão ainda? O que posso lhe dizer? Eu esqueci
o que eu ia
dizer. Não consigo achar uma caneta que funcione e depois eu quebrei
meu lápis. Você sabe
como o papel é raro ultimamente. Eu confesso que não venho reciclando. Eu
nunca
tenho tempo para ler O Globo. Estou sem sacola de mercado para colocar
as notícias velhas.
Eu não fui ao mercado. Eu queria checar os descontos. Eu
ainda não li
as cartas do correio. Eu não consigo passar pela porta para trabalhar, então eu liguei doente. Eu
fui pra
cama com cólicas de escritora. Se eu não conseguisse escrever, eu
pensei que colocaria minha
leitura em dia. Então a Ana Maria Braga apareceu com um autor fabuloso
conectando
seu livro mais vendido.

All she wrote

Forgive me, I’m no good at this. I can’t write back. I never read
       your letter.
I can’t say I got your note. I haven’t had the strength to open the
       envelope.
The mail stacks up by the door. Your hand’s illegible. Your
       postcards were
defaced. Wash your wet hair? Any document you meant to send
       has yet to
reach me. The untied parcel service never delivered. I regret to
       say I’m
unable to reply to your unexpressed desires. I didn’t get the book
       you sent.
By the way, my computer was stolen. Now I’m unable to process
       words. I
suffer from aphasia. I’ve just returned from Kenya and Korea.
      Didn’t you
get a card from me yet? What can I tell you? I forgot what I was
      going to
say. I still can’t find a pen that works and then I broke my pencil.
      You know
how scarce paper is these days. I admit I haven’t been recycling. I
      never
h   ave time to read the Times. I’m out of shopping bags to put the
      old news
in. I didn’t get to the market. I meant to clip the coupons. I
      haven’t read
the mail yet. I can’t get out the door to work, so I called in sick. I
      went to
bed with writer’s cramp. If I couldn’t get back to writing, I
      thought I’d catch
up on my reading. Then Oprah came on with a fabulous author
      plugging her
best selling book.

 

Rafael Mendes é tradutor e poeta. Residiu em Franco da Rocha, Dublin e atualmente mora em Barcelona. Publicou em 2018 “Ensaio sobre o belos e o caos” pela Editora Urutau. Tem participação nas seguintes antologias: Poetry in the Time of Coronavirus (EUA, 2020, no prelo), Parem as máquinas (Off Flip, 2020, Brasil, no prelo), Writing Home: The New Irish Poets (Dedalus Press, 2019, Irlanda), 32kg: Uma antologia Brasil-Irlanda (Urutau, Europa, 2017). Seus poemas e traduções já foram publicados nas revistas Ruído Manifesto, Revista Gueto, Mallamargens,Vício Velho, Subversa, FLARE magazine, The Irish Times, entre outras. Edita o blog de tradução: https://poetrybilingue.wordpress.com/

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poesia, Poesia Brasileira Contemporânea

Mariana Botelho

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Mariana Botelho nasceu em Padre Paraíso, no Vale do Jequitinhonha/MG. Publicou seu primeiro livro (o silêncio tange o sino) pela Ateliê Editorial em 2010 e em seguida o “K” pela Clãdestina Cartonera em 2015. Tem publicações em meios digitais e impressos espalhados pela internet, revistas acadêmicas e jornais diversos. Prepara um terceiro livro, a ser lançado quando Deus der o bom tempo, com estes poemas dentro.

* * *

CAVALO I

intempérie
assolou o quintal

devorou alface
(sonhos
do sol
sobre as folhas
às quatro da tarde
com café novo
no bule)

– não é fácil
respirar –

rasga meu sono

põe as patas
no meu peito

me aperta entre
vida e morte:

por cima
sem cuidado

por dentro e
através

§

a força
do esvaziamento

presença
excessiva
do corpo
no corpo

– do corpo
no chão –

como que plantado
na queda

a “mói” de um trator
sabe explicar
todas as ruínas

um fio na chuva, –
se tivesse
ainda
outro lugar por
onde chorar

chorava

§

é como estar debaixo d’água

em transe
numa casa
de vários quintais:
o amor

família inteira à espera
(araras
no cerrado
às seis da tarde) –
talvez
para jantar –

à luz de um sol

(talvez dois)

dos olhos mais
bonitos
que já vi

§

um corpo cai

nem as feridas atestam a veracidade
do que parece sonho

inaugura todos os dias
uma nova vertigem
para a mesma viagem:

um trem de ferro que passa
ao largo
de nossa morte

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poesia, tradução

Sean Bonney, por Beatriz Bastos & Otávio Campos

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Sean Bonney nasceu em Brighton, em 1969, e cresceu no norte da Inglaterra. Passou 17 anos em Londres, cidade que se tornou para ele principal matéria de grande parte dos seus textos. Na capital, se envolveu em movimentos sociais e políticos, principalmente os que iam contra a Taxa de Moradia cobrada na cidade. Sua militância política é indissociável de sua atuação como escritor. Publicou diversos panfletos, plaquetes e livros, esses tomados por uma fúria e uma vontade revolucionária contra as instituições, principalmente no que se refere à moradia, à polícia e ao tratamento aos imigrantes. Além disso, por muitos anos manteve o blog abandonedbuildings.blogspot.com, alimentado constantemente até 2019, com leituras dos poemas em áudios, e em vídeos de suas apresentações pela Europa, além das primeiras versões de alguns poemas futuramente publicados . Seus textos foram reunidos em sete livros principais, Blade Pitch Control Unit (2005), Baudelaire in English (2008), Document (2009), The Commons (2011), Happiness: Poems After Rimbaud (2011), Letters Against the Firmament (2015), e Our Death (2019).

Em sua produção, percebemos as influências dos seus interesses pessoais maiores, como uma vertente mais radical dos movimentos de esquerda, com o punk britânico, a Angry Brigade, a Red Army Faktion, além do Surrealismo e a arte revolucionária como um todo. Soma-se a isso, também, seu interesse no movimento Black Power americano, do qual foi se tornando um estudioso principalmente enquanto pesquisava para o seu título de PhD, a partir de uma tese sobre Amiri Baraka, um dos poucos negros a integrar a caravana Beat.

Bonney morreu pouco tempo depois de ter seu último livro, Our Death, publicado, em um trágico acidente em Berlim, cidade onde morava há alguns anos e fazia pós-doutorado com uma pesquisa sobre Diane di Prima and Katerina Gogou. Em seu obituário, publicado na revista online Jacket2, o poeta William Rowe diz que “nenhum outro trabalho contemporâneo destrói tão completamente o universo do fascismo ressurgente”. Para Rowe, a poética de Bonney se apresenta como uma possibilidade de sobrevivência à violência instaurada no Reino Unido principalmente após Thatcher. “Esta é uma poesia na qual as camadas de defesa do self foram suspensas, o poema larga seus muros habituais, e as injustiças brutais da história encontram expressão.”, escreve Rowe.

Dois livros de Sean Bonney foram traduzidos para o português por Miguel Cardoso e publicados em Portugal pela Douda Correria, Cartas contra o firmamento (2016) e Nossa morte (2020). No Brasil, sua obra por enquanto permanece inédita, e uma publicação está sendo preparada pela Edições Macondo (com tradução de Beatriz Bastos e Otávio Campos) para 2020. Os poemas publicados agora na escamandro foram retirados do livro que está sendo traduzido, com título provisório de Fantasmas. Esse livro, que saiu imediatamente antes de sua última coletânea, é uma publicação que pode ser considerada “de transição”, como muitos dos seus trabalhos que foram editados. Em uma nota inicial, impressa nas primeiras páginas do volume, o autor revela o seguinte: “A maior parte dessa seleção é originada de duas sequências. Câncer: Poemas depois de Katerina Gougou, publicado pela primeira vez em uma edição limitada por A Firm Nigh Holistic Press em 2016. A maioria dos outros textos (…) são de uma sequência em andamento intitulada Nossa morte, cujo título deve ser mais ou menos auto explicativo”. Ghosts aborda questões caras à poesia de Bonney, como a vida no submundo das grandes cidades, a problemática dos refugiados e da moradia, a desconfiança de instituições, sobretudo a desconfiança de policiais e políticos. Mas, além disso, essa coletânea de poemas também constrói um universo narrativo próprio, trabalhando com a imagem de fantasmas vagando, como zumbis, em um cenário pós-apocalíptico que em tudo se parece com nossas próprias capitais brasileiras.

FODA-SE A POLÍCIA

 

* * *

 

“Me Surre!”

Hoje em dia todo mundo tá escrevendo seu livro derradeiro. Dane-se. Eu também perdi tudo. Meu corpo é feito de três agulhas, várias moedas, um sistema de nitrato e algo que os babacas chamariam ‘uma filosofia’. Eu vejo no escuro e gosto de quebrar espelhos. Pra muita gente as coisas tão bem piores. Vago pela cidade recitando um velho poema da Anita Berber: CADÁVER. FACA. CADÁVER. FACA. LUZ. Todas as noites há momentos em que penso que posso ver essa luz. Ela brilha dentro de todos os quartos onde já morei, todos aqueles quartos e cidades que sempre amamos sempre desprezamos. MOEDAS. ESPELHOS. LUZ.

 

“Thrash Me!”

These days everyone is writing their final book. Whatever. I’ve lost everything as well. My body is made up of three needles, several coins, a system of nitrates and something wankers would call ‘a philosophy’. I see in the dark and like to smash mirrors. For many other people things are far worse. I roam around the town, reciting an old poem by Anita Berber: CORPSE. KNIFE. CORPSE. KNIFE. LIGHT. There are moments each evening when I think I can see that light. It shines inside all the rooms I have lived in, all those rooms and cities that we have always loved always despised. COINS. MIRRORS. LIGHT.

 

§

 

Todos os dias, todo dia eu acordo dentro do regime assalariado
dentro de todas as suas casas, nunca paguei aluguel em nenhuma.
Não durmo em lugar nenhum. Todas as manhãs dentro do meu salário
Deito à espera daqueles que dormem, eu durmo
em seus colos e nunca falo. Nunca
Tome isso como evidência espectral. Quer dizer. Foda-se a morte.

 

Every day I wake up everyday inside the wage system
inside all its houses, never paid rent on even one.
Sleep nowhere. Every morning inside my wages
I lie in wait for those who sleep, I sleep
on their chests and never speak. Never
Take this as spectral evidence. Meaning. Fuck death.

 

§

 

[morfina]

Cinco pontos no mapa. Cinco dias
Você assiste sua cidade em chamas
Cinco da manhã. Cinco policiais na porta.
Interpreta. Nenhuma cidade é construída de novo
Seu mapa um anúncio, um ardil, um combate.

Adivinhação. Medos inumanos das pessoas
Essa distância, um arranjo de canções
espalhadas pela capital, um conjunto de leis
pra matar os vivos. Rimas, essa distância.
Ruínas são barricadas. Canções são ossos.

Nossos mapas quase conspiradores
acordados durante a noite, interrogando o céu
Cometas também são ossos. Que esperam
colidir com a nossa aventura. Os dias se empilham
Como torres desabando. Policiais. Osso.

risquei fora Bakunin. escrevi cinco policiais.
cinco da manhã – um charme pra destruir a capital.

 

[morphine]

Five points on the map. Five days
You watch your city burn.
Five A.M. Five cops at the door.
Interpret that. No city is built again
Your map a declaration, a trap, a war.

Divination. Inhuman fears of the people
This distance, an arrangement of songs
scattered on the capital, a set of laws
to kill the living. Rhymes, this distance.
Ruins are barricades. Songs are bones.

Our maps, almost, are conspirators
all night awake, questioning the sky
Comets, also, are bones. Are waiting
to crash our adventure. Days pile up
Like collapsing towers. Cops. Bone.

crossed out Bakunin. wrote down five cops.
5 a.m. – a charm to consume the capital.

 

§

 

Uma Nota sobre minha Poética Recente

Parei de fumar maconha há alguns meses porque estava me deixando paranoico, mas desde então, quase todos os dias tenho tomado doses potencialmente fatais de anfetamina. Isso quase certamente está me deixando psicótico, mas pelo menos tem a vantagem de me salvar do vasto cataclisma que dormir se tornou. Em muitas manhãs me sinto desconfortável, visível e invisível ao mesmo tempo, preso entre os ditos dois mundos, em nenhum deles estou preparado pra aceitar ou mesmo tolerar. De qualquer forma, não posso separá-los – tudo está funcionando em uma espécie de nível estroboscópico, no qual o mundo invisível está povoado por um bando de insones de carne e sangue cambaleando por aí depois do naufrágio, e o mundo visível por um estranho mapa astral, uma rede de nós e tumores que até agora esteve trancada em algum lugar no centro da terra, um inferno de alfabetos e injustiças espectrais organizados em pedaços ao longo da cronologia. Vejamos. Houve a revolta fiscal. Havia as casas punk. Havia ecstasy e ácido e festas abertas. A lei de justiça criminal. Britpop. A ascensão da babaquice irônica. A expressão tolerância zero. O tédio do hedonismo forçado. O esqueleto de Tony Blair. As chamas da intervenção humanitária. A inevitabilidade da jihad. E isso é só outro amontoado meio arbitrário, um corredor de vários espelhos nos quais toda manhã eu bato e cheiro carreiras cada vez mais colossais até que, nas palavras de Ernst Bloch, “anos se tornam minutos, como nas lendas em que, no período aparente de uma noite, uma bruxa se apodera da longa vida de sua vítima”. E não sei se me identifico com essa bruxa ou não, mas sei que há algumas manhãs em que considero a possibilidade de moer os ossos de Blair, e então lançá-los aos pés dos vários monumentos – falo por exemplo das estátuas que contornam a Trafalgar Square – pra transformá-los em demônios reais. A crise, ou como quer a gente deva chamar isso. As ruínas do Ritz, por exemplo. O vidro quebrado da região de Millbank. Os termos de prisão dos rebeldes. Que merda. Até breve. Todo mundo sabe que Thatcher forjou sua morte.

A Note on my Recent Poetics

I stopped smoking pot a few months ago because it was making me paranoid, but since then most days I’ve been taking potentially fatal doses of amphetamine. Its almost certainly making me psychotic, but it does at least have the advantage of saving me from the vast cataclysm that sleep has become. Most mornings I feel uneasy, visible and invisible at the same time, trapped between the proverbial two worlds, neither of which I’m prepared to accept or even tolerate. I can’t tell them apart anyway – everything’s functioning at some kind of stroboscopic level, where the invisible world is populated by a gaggle of flesh and blood insomniacs staggering around after a shipwreck, and the visible one by a weird star-map, a network of knots and tumours that up until now have been locked somewhere in the centre of the earth, a hell of alphabets and spectral injustices arranged in pieces along the chronology. Lets see. There was the poll tax revolt. There were punk houses. There was ecstasy and acid and free parties. The criminal justice bill. Britpop. The rise of the ironic wank. The phrase zero tolerance. The boredom of enforced hedonism. The skeleton of Tony Blair. The flames of humanitarian intervention. The inevitability of jihad. And thats just one more or less arbitrary little cluster, a hall of various mirrors that every morning I chop and snort increasingly gargantuan lines from until, in the words of Ernst Bloch, “years become minutes, as in legends where, in the apparent time span of a single night, a witch cheats her victim out of a long life”. And I don’t know whether I identify with that witch or not, but I do know that there are some mornings when I consider the possibility of powdering Blair’s bones, and then casting them at the feet of various monuments – say for example the statues that encircle Trafalgar Square – so as to transform them into real demons. The crisis, or whatever it is we’re supposed to call it. The ruins of the Ritz, for example. The broken glass of Millbank. The jail terms of the rioters. Ah shit. See you later. Everybody knows that Thatcher faked her death.

 

§

 

[de Câncer]

vamos beber com os desempregados
com todo sol e silêncio
com toda poeira no sol e silêncio
e sol e conhaque e poeira
e cigarros e sol
não, hoje não vamos falar sobre nossa saúde
comprimidos e bebidas e catarro
não se preocupe
me sinto muito calmo
há unhas há cabelo há anos
sujos
os comprimidos são ótimos. a festa, você sabe qual
impossível dizer quem é polícia hoje em dia
música
um conhaque merda
não, não tenho ouvido nada faz um tempo
você sabe eu tenho pensado que talvez queira, sabe
tem um quarto ali em cima
quero te ver sem as calças
meio curioso sobre seu pau
música, pelo amor de deus
você toca uma
“pegaram um pau e me bateram”
conhaque
música
silêncio
você tira seu canivete começa a cortar
A Gangue Bonnot estava certa.

 

[from Cancer]

let’s drink with the unemployed
with all sun and silence
with all dust in the sun and silence
and sun and cognac and dust
and cigarettes and sun
no, lets not go on about our health today
pills and drink and snot
don’t worry
I feel very calm
there are nails there is hair there are years
dirty
the pills are great. the party, you know which one I mean
impossible to tell whose a cop these days
music
the cognacs shit
no, I haven’t heard anything for quite some time
you know I’n thinking I might want to, you know
there’s a room upstairs
I want to see you without your pants
kind of curious about your dick
music, for chrissake
you take a solo
“they took a stick and beat me”
cognac
music
silence
you pullout your switchblade start slashing
The Bonnot Gang were right.

 

§

 

[de Câncer]

música, eu não falo sobre isso
meus olhos. sério, onde estão meus olhos
todo dia há algo para rejeitar
eu não vou gritar quando morrer
Marx Lenin Trotsky Luxemburgo
A Revolta de Kronstadt e o sonho de Sísifo
há flores há cores
revólveres e bombas caseiras
estou ficando louco, por que você não está
os meus sonhos os sonhos dos meus amigos
todos os sonhos o mesmo sonho
surtos repetidos choradeira sem fim
isso é medida
você e eu
pra cima e pra baixo
e de volta e pra baixo
há uma falsa simetria nos separa
não vamos rir
se não assinarmos o papel
eles não vão poder comprovar nada
a noite cai
o comitê central
a noite cai
eles querem saber se eu tenho uma televisão
a noite cai
eu ainda estou mais ou menos segurando a onda
não vou assinar
vida longa à 204º Internacional

 

[from Cancer]

music, I don’t talk about it
my eyes. seriously, where are my eyes
every day there’s something to reject
I will not scream when I die
Marx Lenin Trotsky Luxemberg
The Kronstadt Massacre and the dream of Sisyphus
there are flowers there are colours
revolvers and homemade bombs
I’m going crazy, why aren’t you
my dreams my friends’ dreams
all these dreams are the same dream
repeated breakdowns endless weeping
this is measure
you and me
up and down
and back and down
there is a false symmetry separates us
lets not laugh
if we don’t sign the paper
they won’t be able to act on their decision
night falls
the central committee
night falls
they want to know if I have a television
night falls
I’m still kind of keeping it together
I won’t sign
Long live the 204th International

 

§

 

Para quê serve gás lacrimogêneo

Policiais, não sendo humanos nem animais, não sonham. Eles não precisam, eles têm gás lacrimogêneo. Não espere que eu explique isso. Você sabe tão bem quanto eu que policiais têm acesso ao conteúdo dos nossos sonhos. E você provavelmente também sabe que uma quantidade razoável do gás lacrimogêneo do planeta é fornecida pelo Westminster Group. Seu presidente não executivo, seja lá o que isso significa, é membro da família de, vejam só, Charles Windsor. Ele deve pensar no gás lacrimogêneo como alguma coisa relacionada à Nuvem do Não-Saber, e, de certa forma, ele tá meio certo. Você chega a um conhecimento muito verdadeiro da natureza das coisas, visíveis e invisíveis, ao ter seu sistema sensorial sequestrado e virado contra você por uma dose significativa de gás lacrimogêneo. É o anti-Rimbaud. O absuto controle e administração de todos os sentidos. É sério, tente. Na próxima vez que as coisas começarem a esquentar um pouco vai pra rua e corre pro meio da maior nuvem de gás lacrimogêneo que você encontrar. Cabum. Visão. Gosto. Cheiro. A porra toda. Tudo se transforma em confusão, desorientação geográfica e, principalmente, dor. Não pire. No centro dessa dor há um pequeno e silencioso ponto de Não-Saber. É esse Não-Saber que os policiais – e por extensão Charles Windsor – chamam de conhecimento. É o que eles querem. Eles têm bisturis caso seja necessário mas gás lacrimogêneo é mais limpo. Não está claro por que querem isso mas qualquer epiléptico ou visionário ou viciado em drogas pode te dizer o motivo. Tá lá em Blake. AiJesus, tá lá no encarte do Metal Machine Music. O que isso significa? Quem se importa. Isso não responde nada. O que Charles Windsor quer com a gente? Os policiais não vão nos dizer o que eles não sabem e o que eles acham que sabemos.

 

What Teargas is For

Cops, being neither human nor animal, do not dream. They don’t need to, they’ve got teargas. Don’t expect me to justify that. I mean, you know as well as I do that cops have got access to the content of all of our dreams. And you probably also know that a fair amount of the planet’s teargas is supplied by the Westminster Group. Their non-executive chairman, whatever that is, is a member of the household of, ahem, Charles Windsor. He probably thinks of teargas as being somehow related to the Cloud of Unknowing, and, in a sense, he’s kind of right. You come to a very real understanding of the nature of things, both visible and invisible, by having your sensory system hijacked and turned against you by a meaningful dose of teargas. It is the anti-Rimbaud. The absolute regulation and administration of all the senses. I mean try it. Next time things are starting to kick off a little bit just go out on the street and run straight into the middle of the biggest cloud of teargas you can find. Bang. Sight. Taste. Smell. All the rest of them. All turned into confusion, loss of geographical certainty and, most importantly, pain. Don’t freak out. In the centre of that pain is a small and silent point of absolute Unknowing. It is that Unknowing that the cops – and by extension Charles Windsor – call knowledge. They want it. They’ve got scalpels if necessary but teargas is cleaner. Its not clear what they want it for but any epileptic or voyant or drug addict could tell you what it is. It’s there in Blake. Christ, it’s there in the sleeve-notes to Metal Machine Music. What’s it mean? Who cares. It answers no questions. What does Charles Windsor want with us. The cops will not tell us what they don’t know and what they think we know.

 

* * *

Beatriz Bastos nasceu em 1979 no Rio de Janeiro. Publicou Areia (Aqueronta Movebo, 2000), Pandora – Fósforos de Segurança, em coautoria com Fernanda Branco (Azougue, 2003), Da Ilha (Editacuja, 2009) e Balaclava (no prelo, Coletivo Janga). Fez mestrado e doutorado em tradução de poesia, na PUC-Rio (2014). Traduziu, em parceria com Paulo Henriques Britto, uma primeira antologia brasileira de Frank O’Hara, Meu coração está no bolso (Luna Parque, 2017). Traduziu, juntamente com Ismar Tirelli Neto, o livro Silêncio de John Cage (Cobogó, 2019). Janga, coletivo de poetas e editora independente.
Trabalha como tradutora e professora.

Otávio Campos é um poeta e editor nascido em 1991. Mestre em Estudos Literários, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. É doutorando em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais. Publicou, entre outros, os livros Os peixes são tristes nas fotografias e Ao jeito dos bichos caçados. Desde 2014 é coordenador editorial das Edições Macondo.

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Poesia Brasileira Contemporânea

Carol De Bonis

Caro

Carol De Bonis (São Paulo, 1982), escreve para mudar os caminhos por onde passa ou perder-se em alguns deles, professora e estudante de pedagogia, autora do livro Passos ao redor do teu canto (Editora Patuá, 2015), os poemas aqui são inéditos.

*

Pequenas equações para o sol

algumas mulheres não sonhavam
em outra língua antes de nascerem
qual a melodia para a memória
qual a melodia para as armadilhas
da essência do retorno?
Do duplo caminho envolto da floresta
ela escolhia o lado de fora do delírio.
Ir pelo outro lado e fundir o dia na noite
ou a noite no dia. Fundir o fora no dentro
ou o dentro no fora. Fundir um círculo
noutro círculo e recolher na sombra das árvores
o som da fusão entre a madureza e o estio
de inventar uma saída nômade
para as pequenas equações do sol.

§

O outro lado da floresta

seguiremos pelo outro lado da floresta
talvez haja perigos demais para que me mantenha
impassível. Qual parte recortada no jornal
escreve sobre o lado da história que não se repete?

no fim, sua escolha é apenas mais uma
feito dizer flor alheio sem querer-se ingênuo
ou como se fosse a primeira vez que pisamos
nessa zona fantasmagórica de rosas. O mundo
não vale o mundo? Jogo.
Eu não jogo, deixo o corpo
como quem se despe ocultamente.

não é preciso fechar as mãos
como ato de proteção
saber abrir dedo por dedo tocar
essa curvatura, apanhar migalhas
nesse sótão, apalpar o mundo
dispensando a luz elétrica baixar o tom
como quem ouve algumas mortes
encontrar-se dentro da terra
cavar origens curar o dom
para despossuir-se.

§

Quando o hipnotizador entra em cena

quando o hipnotizador entra em cena
basta acreditar em sua missão
para que todos fechem os olhos
se movam feitos peixes cardíacos
no mar agitado a atravessar a correnteza
no prenúncio do código:
o hipnotizador sempre observa
uma margem de manobra imensa
a natureza errada do poema
no absorver da seiva gasta sabe
das influências dos poetas
em sua veia homicida.
Quando o hipnotizador entra em cena
muda o poder dos pensamentos
como o regente da orquestra
inicia um concerto musical imaginário.

ele a faz pensar num poema a partir
da outra língua, ela pensa
no poema a partir de sua língua,
como quem traduzisse o personagem
como um outro a partir do que
se imbrica em seu cerne,
a composição instantânea corta a cena,
rasga a pele e sonha sem parar
até encontrar a rima correta.

sonha que mora dentro da caixa
de música, os corpos desabam
nos ouvidos visuais
o hipnotizador e a tradutora:
aprendem a passar desapercebidos
o contorno dos olhares perdem
seus invólucros de caligramas
escapam sempre mais fora do que dentro.
Já ter acontecido hipnotizar-se?

é uma cena quando o hipnotizadorentra.
Mas há alguém sempre
a duvidá-lo a interpelar a verdade do ato,
alguém que pensa em caminhos herméticos
ilhas, simulacros, grutas ou espelhos
no oculto desse momento
sem pressentir o que o levaria
à infância de um sentimento.

§

Da hipnose que transfere

 do alto você vê o que em mim cala
nos gestos do outro lado, não te vejo
somente simulacro ao que representa
alquimia das mulheres que guardam
a alma detrás do palco, para algum
script secreto, pescador de fundos falsos

experimentamos o palco para pura montagem
o tempo é real, mas os ângulos falsos.

quando do alto avista pássaros de asas leves
pensa que sou o que em mim está
passo perene como nas voltas
daquele prato de sopa que, certa vez,
vimos num restaurante tailandês
entre curvas claras as pessoas comem
os alimentos inexistentes com olhares quites
deliciam unidas um mundo de belezas ausentes.

o branco sobre o branco sobre o branco
sombras retas e uma mulher encostada no divã
uma curva real e um segredo fabricado.

*

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poesia latinamericana, tradução

Fernanda Laguna, por Eduarda Rocha

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Fernanda Laguna (Buenos Aires, 1972-) é escritora, artista plástica e curadora. Tornou-se uma das escritoras mais destacadas da chamada “geração dos 90”, na Argentina. Fundou junto a Cecilia Pavón a editora e galeria de arte Belleza y felicidad. Em 2003, abriu a sucursal de Belleza y felicidad no bairro de Villa Fiorito, que segue em atividade. Foi membro do coletivo Eloísa Cartonera e abriu com diversxs sócixs vários espaços de arte, em Buenos Aires. Publicou diversos livros de poesia e grande parte de sua produção está reunida em Control o no control (2012), seleção de poemas publicados entre 1999 e 2011; e La princesa de mis sueños (2018), que reúne poemas escritos entre 1994 e 2003. Em 2018, lançou a coletânea de inéditos Los grandes proyectos, pela coleção 8M do jornal Página/12. Sob o heterônimo Dalia Rosetti publicou os livros: Me encantaría que gustes de mí (2006), Dame pelota (2009) e Sueños y pesadillas (2016). Como artista plástica, participou de diversas exposições individuais e coletivas. Sua obra foi adquirida por diversos museus ao redor do mundo, tais como o Malba, Museo Reina Sofía e o Guggenheim. É militante e uma das fundadoras do coletivo feminista Ni Una Menos.

Fernanda Laguna transformou sua vida em literatura, sendo ela própria convertida em personagem de livros de César Aira e Washington Cucurto. Seus poemas são como um fluxo, uma tentativa de captar um instante, abordando assuntos que poderiam ser considerados banais e ganham uma dimensão poética. Nisso reside a potência de sua obra. A poesia de Fernanda Laguna é uma constante investigação sobre o ato da escrita, em que a tentativa de escrever um poema é o próprio poema. Esta poesia tão vinculada à experiência, escrita em primeira pessoa, com um tom confessional, resgatou um modo de produção poética considerado “menor”, por certo segmento da crítica, e mobilizou grande parte das novas gerações de poetas argentinxs que têm a autora como uma de suas referências.  Desde as relações amorosas com homens e mulheres até o seu absorvente, tudo que existe ao redor e dentro de Fernanda Laguna cabe em um poema dela.

Os três poemas abaixo integram a coletânea Control o no control, publicada em 2012 pela editora Mansalva.

Eduarda Rocha

*

A mi toallita femenina

Estaba en el baño y me inspiré
pero dudé si llegaría a la computadora a escribir este poema
porque me duele la panza.
Y pensé que si de pasada me tiraba en la cama
no duraría esta inspiración.
Pero llegué…
y todo para decir:
LAS MEJORES TOALLITAS DEL MUNDO SON

LAS LADY SOFT NORMALES
(y son las más baratas).

Este es un poema para el futuro
para dejar un rastro de estas fabulosas toallitas
que me acompañan tan bien cuando las consigo.
Son las mejores.
Algún día…
dentro de muchos años,
en el futuro,
no sé si se usará toallita
y ni me imagino que se usará.
Pero yo quiero que este poema
sea un homenaje y un recuerdo
para todas las chicas del futuro:
una vez existió una marca buena,
una toallita bárbara.

Este es un poema arqueológico
en un basural algún día
quedará sin descomponerse
una Lady Soft llena de gusanos.
Y para ella

también será este poema.

Para meu absorvente 

Estava no banheiro e me inspirei
mas duvidei se chegaria ao computador para escrever este poema
porque sinto cólicas.
E pensei que se por acaso me jogasse na cama
esta inspiração não duraria.
Mas cheguei…
e tudo isso para dizer:
OS MELHORES ABSORVENTES DO MUNDO SÃO
OS LADYSOFT NORMAIS
(e são os mais baratos).

Este é um poema para o futuro
para deixar um rastro destes fabulosos absorventes
que me acompanham tão bem quando os consigo.
São os melhores.
Algum dia…
daqui a muitos anos,
no futuro,
não sei se ainda se usará absorvente
e nem imagino o que se usará.
Mas eu quero que este poema
seja uma homenagem e uma lembrança
para todas as garotas do futuro:
uma vez existiu uma marca boa,
um absorvente espetacular.

Este é um poema arqueológico
em um depósito de lixo algum dia
restará sem se decompor
um LadySoft cheio de vermes.
E para ele
também será este poema.

§

Acerca de la noche

Tengo poco tiempo para escribir el mejor poema de mi vida
acerca de la noche.
Tengo poco tiempo para que se me ocurra algo brillante
y con el ritmo vertiginoso de una buena canción.
Tengo poco tiempo.
Alguien me persigue y no soy paranoica.
No sé quién es pero me impide escribir mi mejor poema
y ya lo tengo prometido para mañana.
Tengo 5 minutos y no puedo pensar acerca de la noche.
¿Dónde estará aquel novio que conocí aquella noche en la
presentación de la xxxxxxx?
Tengo que censurar mis poemas,
lo lamento más yo que ustedes
porque me encantaría contarlo todo.
Una noche entré a un hotel con una llave robada
y dormí en una habitación ocupada
con un chico que tenía una novia china francesa
y muy cultural (eso me dijo el chico)
El chico estaba borracho y xxxxxx…
No estuvo tan mal.
¿Cuánto tiempo me queda?
Ya voy tiempo extra y el tema de la falta de tiempo
deja de ser mi argumento por el cual
estoy inhibida para escribir un buen poema.
Todavía tengo unos minutos más pero estoy en la cuenta regresiva
y me divierte que este poema sea tan plomo ¿no?
¿O es divertido?
Es lindo tener el tiempo ocupado para no caer en la locura.

Sobre a noite

Tenho pouco tempo para escrever o melhor poema de minha vida
sobre a noite
Tenho pouco tempo para que me ocorra algo brilhante
e com o ritmo vertiginoso de uma boa canção.
Tenho pouco tempo.
Alguém me persegue e não sou paranoica.
Não sei quem é, mas me impede de escrever meu melhor poema
e já prometi isso para amanhã.
Tenho 5 minutos e não posso pensar sobre a noite.
Onde estará aquele namorado que conheci aquela noite na
Apresentação da xxxxxxx?
Tenho que censurar meus poemas,
eu lamento por isso mais que vocês
porque adoraria contar tudo.
Uma noite entrei num hotel com uma chave roubada
e dormi num quarto ocupado
com um garoto que tinha uma namorada chinesa francesa
e muito cult (isso foi o que ele me disse)
O garoto estava bêbado e xxxxxx…
Não foi tão ruim.
Quanto tempo me resta?
Já estou nos acréscimos e o tema da falta de tempo
deixa de ser meu argumento pelo qual
estou inibida para escrever um bom poema.
Ainda tenho uns minutos, mas estou na contagem regressiva
e me diverte que este poema seja tão chato, não?
Ou é divertido?
É lindo ocupar o tempo para não cair na loucura.

§

¿Qué hacés poema de mí?
¿Por dónde me llevás?
Has hecho que los poetas se enemisten conmigo,
Me has tirado en un campo de batalla
lleno de tanques.
Las bombas caen
mirá
sobre la “i”
cayó una bomba.
¿O está suspendida
 y esta guerra
es un sueño?
No sé
he abandonado en la empuñadura
la racionalidad
y la cambié
por tu mente rítmica.
Poesía maldita
no voy a luchar contra vos,
haremos el amor
acá
en medio de los cadáveres.

Un rayo eléctrico
cae sobre el pararayos
¡aaaaaaaahhhhhh!
y simplemente me cayó encima.
Pero vos, poesía,
seguirás loca
metiéndote en la cama de mis amigos
dándoles
más
locura,
erradicándoles su esencia.

Poema, o que você faz de mim?
Aonde você me leva?
Por sua culpa os poetas se tornaram meus inimigos,
Você me jogou em um campo de batalha
cheio de tanques.
As bombas caem
olhe aqui
sobre o “i”
caiu uma bomba.
Ou está suspensa
e esta guerra
é um sonho?
Não sei
abandonei na empunhadura
a racionalidade
e a substituí
por sua mente rítmica.
Poesia maldita
não vou lutar contra você,
faremos amor
aqui
em meio aos cadáveres.

Um raio elétrico
cai sobre o para-raios
aaaaaaaahhhhhh!
e simplesmente caiu em cima de mim.
Mas você, poesia,
continuará louca
se metendo na cama dos meus amigos
dando a eles
mais
loucura,
lhes erradicando sua essência.

§

Eduarda Rocha (Maceió, 1991) é pesquisadora e tradutora. Atualmente, realiza doutorado em Estudos Literários na Universidade Federal de Alagoas. Tem se dedicado a investigações sobre as poesias brasileira e argentina contemporâneas. Em sua tese, analisa a obra das poetas Angélica Freitas, Cecilia Pavón e Fernanda Laguna.

*

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poesia

Daniel Filipe (1925-1964)

 

Procurei mais informações sobre o poeta Daniel Filipe, porém praticamente nada avança sobre o que está na Wikipédia, que aqui transcrevo e adapto:

Daniel Damásio Ascensão Filipe nasceu na Ilha da Boavista, Cabo Verde, em 11 de dezembro de 1925. Veio para Portugal ainda criança, onde acabaria por concluir o Curso Geral dos Liceus. Mais tarde, foi co-director dos cadernos Notícias do Bloqueio, colaborador assíduo da revista Távola Redonda e do jornal Diário Ilustrado, e também realizador, na Emissora Nacional, do programa literário Voz do Império e revista luso-brasileira Atlântico. Combateu a ditadura salazarista, sendo perseguido e torturado pela PIDE. Trabalhou na extinta Agência-Geral do Ultramar e na área jornalística. Morreu novo, em 1964, mas deixou uma obra consistente marcada pelos sentimentos de solidão e exílio.

Publicou as seguintes obras: Missiva (1946), Marinheiro em terra (1949), O viageiro solitário (1951), Recado para a amiga distante (1956), A ilha e a solidão (1957), O manuscrito na garrafa (romance, 1960), A invenção do amor (1961), Pátria, lugar de exílio (1963).

Como afirma o mesmo texto, “Grande parte da poesia de Daniel Filipe destaca-se pelo combate ideológico e pelo comprometimento social, o que lhe valeu o estigma de poeta neo-realista”. E, como toa boa verdade, ela é apenas meia. Escolhi um poema que não encontrei na internet, o último de seu último livro, Pátria, lugar de exílio, que mostra uma faceta forte de sua obra, a celebração do amor e do sexo. Aqui temos uma espécie de novo gênesis no corpo da mulher amada, em versos que por vezes flertam com o Cântico dos cânticos ou com a tradição surrealista, sem estancar num modo de elocução.

Aconselho ver o post da Modo de usar e co., onde Ricardo Domeneck também pôs um link com o pdf do livro A invenção do amor. E também o post da Escritas, com obras de outros livros.

guilherme gontijo flores

* * *

Ilha em corpo de mulher

I

Calo o segreto em tua boca, o mar
de súbito acontecido como a primeira vez
Coxas ágeis esperam-me, flexíveis membros,
sinuosas linhas de pescoço, pálpebras esquivas,
juvenis artelhos. E tudo isso frente ao mar antes da própria infância,

espelho partido, luz inesperada,
mistério celular, alvíssimos caninos
perfurando a ácida maçã, prolongando
a claridade do dia.
A paisagem arenosa, quase vítrea, os dedos na raiz
das coisas, absurdo revelar da face inteira
do adolescente amor.

Assim permitem os deuses que vivamos o tempo, transmudados
na desconhecida flor ou purpúreo animal, músculo, ósseo cerne
da mágoa, agora musical, agora líquida,
ainda sombra, no entanto, pecado voluntário,
transbordante rumor, insólita presença
em teu nome:
MARIA

II

Ergues-te nupcial, alheia ao lugar exacto onde se inserem
teus nervos, onde espreitam o momento de existir
ignorados espasmos. Só com o estender de braços, reinventas
o mundo, reconstróis, pedra a pedra, o universo familiar,
conhecido antes da noite. Dizes: aqui está uma flor, uma árvore,
      um pássaro, o regato.
E a flor até aí inexistente
e a árvore até aí inexistente
e o pássaro e o regato até aí inexistentes,
genesiacamente surgem do teu desejo de tê-los
e existem por ti e contigo
e são, ao teu redor, o muro tutelar
e necessário.

III

A asa é a tua concha petrificada muito antes de Cristo
o refúgio isolado no seio da montanha,
o lugar geométrico que o mar transforma em ilha.
Cola-se à tua pele como se lhe pertencesse,
não como um simples tecto que paredes sustentam,
mas como formação óssea de ti mesma expelida.

Por isso guarda as tuas formas e o teu corpo preenche inteiramente o seu espaço interior.
Por isso os teus cabelos recebem o toque mágico da chuva matinal
como se nada houvesse entre eles e a presença violenta dos deuses.

IV

Sinal na manhã fértil, teus quadris harmoniosos
de fogosa gazela, enchem-me de inexplicável júbilo
e sombrio desespero.

V

De novo o espelho, a imagem facetada,
o dia multiplicado, o número secreto da besta apocalíptica.
De novo a serena postura que aprendeste dos deuses, por um outono agreste e solitário.
De novo a tua voz ondulando o silêncio,
desfolhando o riso sobre as águas,
que deixam marcas de sal no teu corpo húmido de amor.
De novo o perfume que trouxeste contigo do outro lado da terra
e precede teus passos,
teu riso,
tua voz.

VI

Estás ainda presente na curva do colchão.
No travesseiro desalinhado. Naquele gesto
de deixar a cortina cair sobre o teu pudor adolescente.

VII

Aponto geograficamente os rios, os acidentes
do teu corpo. Co[n]to-os, desenho-os de cor no mapa imaginado,
navego até às nascentes, percorro as sendas das montanhas,
descubro dos teus olhos o horizonte azul, o mar
em tuas coxas com lúcidos golfinhos e uma serei
adormecida, a leste.

 

 

Padrão
tradução

Henri Michaux, por Ana Cláudia Romano Ribeiro

10 aforismos de Poteaux d’angle (Pilares de canto), de Henri Michaux

Henri Michaux (1899-1984), poeta belga de expressão francesa, foi um sujeito dotado de grande curiosidade e marcado pela não-acomodação. Interessou-se por quase tudo ao longo de sua vida: escrita, etnologia, línguas, música, pintura, corpo humano, drogas, zoologia, botânica, mineralogia. Diz-se dele que, antes de morrer, morava em um quarto praticamente vazio, a não ser pela presença de dicionários de biologia, astronomia, línguas, ornitologia, etc.

Ele viajou muito, tanto a trabalho quanto por prazer. e tirou grande proveito do tema da viagem para fora ou para dentro de si em sua literatura. Foi para a Inglaterra, América do Norte, Índia, China, Japão, conheceu vários países da América do Sul e, no Brasil, visitou os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Tanto quanto os grandes deslocamentos interessavam-lhe as pequenas distâncias e os seres minúsculos – diz-se que andava com uma lupa no bolso. Também era um observador minucioso dos processos vitais e do comportamento de organismos, na saúde e na doença, fossem eles seres humanos, animais ou plantas, de preferência não-europeus, inventados ou não.

Uma primeira versão de Poteaux d’angle (“Pilares de canto”) foi publicada em 1971 pelas edições de L’Herne e, aumentada com textos inéditos, republicada em 1978 pela Fata Morgana. A última versão data de 1981 (Gallimard) e a ela Michaux, aos 82 anos, acrescentou duas novas partes e um poema final. O livro totaliza quatro partes, quatro pilares que definem espaços de insubordinação em forma de aforismos, preceitos e considerações variadas. São recomendações endereçadas muitas vezes a um “tu” no imperativo, disparadores de meditação de um livro de sabedoria que faz parte de uma longa e antiga linhagem. Aqui, porém, a moralidade é paradoxal, inverte os lugares comuns e fornece “ensinamentos contra o ensinamento”, anti-sabedoria que ensina sabedoria, como observa Chloé Hunzinger. Em suma, aforismas contra toda e qualquer acomodação. Espécies de vacinas.

Ana Cláudia Romano Ribeiro traduz, escreve, desenha, pesquisa outros modos de expressão e é professora na Universidade Federal de São Paulo. Publicou a tradução com introdução e notas da utopia francesa A terra austral conhecida (1676) de Gabriel de Foigny (editora da Unicamp, 2011) e coeditou a revista Morus – Utopia e Renascimento, para a qual fez também traduções. Atualmente está no prelo sua tradução com introdução e notas da Utopia (1516) de Thomas More (editora da UFPR). Traduziu os aforismas poéticos Poteaux d’angles (Pilares de canto), de Henri Michaux, e, em projeto coletivo, a peça de teatro Le bleu de l’île (O azul da ilha), de Évelyne Trouillot. Na escamandro, publicou a tradução de Amazonia he visto (“Amazônia eu vi”), de José Muchnik, e poemas seus. Atualmente está preparando uma antologia de escritoras de língua francesa (poesia).

Henri Michaux, por Jean Dubuffet

* * *

Aprende tão somente com reservas.

Toda uma vida não basta para desaprender o que, ingênuo, submisso, tu deixaste que te colocassem na cabeça – inocente! – sem pensar nas consequências.

N’apprends qu’avec réserve.

Toute une vie ne suffit pas pour désapprendre, ce que naïf, soumis, tu t’es laissé mettre dans la tête – innocent! – sans songer aux conséquences.

§

Sem pressa com teus defeitos. Não vás corrigi-los inconsideradamente.

O que colocarias no lugar?

Avec tes défauts, pas de hâte. Ne va pas à la légére les corriger.

Qu’irais-tu mettre à la place?

§

Realização. Não demais. Apenas o necessário para que te deixem em paz com as realizações de modo que possas, sonhando, só para ti, logo entrar no irreal, no irrealizável, na indiferença à realização.

Réalisation. Pas trop. Seulement ce qu’il faut pour qu’on te laisse la paix avec les réalisations, de façon que tu puisses, en rêvant, pour toi seul, bientôt rentrer dans l’irréel, l’irréalisable, l’indifférence à la réalisation.

§

Vai até o fim dos teus erros, pelo menos de alguns deles, para poder observar bem de que tipo são. Se não, parando no meio do caminho, irás sempre cegamente retomar a mesma espécie de erros, de uma ponta da vida à outra; certas pessoas chamarão isso de teu “destino”. O inimigo, que é tua estrutura, força-o a se descobrir. Se não puderes entortar teu destino, não terás sido mais do que um apartamento alugado.

Va jusqu’au bout de tes erreurs, au moins de quelques-unes, de façon à en bien pouvoir observer le type. Sinon, t’arrêtant à mi-chemin, tu iras toujours aveuglément reprenant le même genre d’erreurs, de bout en bout de la vie, ce que certains appeleront ta “destinée”. L’ennemi, qui est ta structure, force-le à se découvrir. Si tu n’as pas pu gauchir ta destinée, tu n’auras été qu’un appartement loué.

§

Aconteça o que acontecer, nunca te deixes levar – erro supremo – pela crença de que és o mestre, nem mesmo um mestre do mal pensar. Resta muito a fazer, enormemente, quase tudo. A morte colherá um fruto ainda verde.

Quoi qu’il t’arrive, ne te laisse jamais aller – faute suprême – à te croire maître, même pas un maître à mal penser. Il te reste beaucoup à faire, énormément, presque tout. La mort cueillera un fruit encore vert.

§

… Bobos por terem sido inteligentes cedo demais. Não te apresses rumo à adaptação.

Guarda sempre uma reserva de inadaptação.

… Bêtes pour avoir été intelligents trop tôt. Toi, ne te hâte pas vers l’adaptation.

Toujours garde en réserve de l’inadaptation.

§

É preciso um obstáculo novo para um saber novo. Vigia periodicamente para suscitar obstáculos para ti, obstáculos para os quais deverás encontrar uma parada… e uma nova inteligência.

Il faut un obstacle nouveau pour un savoir nouveau. Veille périodiquement à te susciter des obstacles, obstacles pour lesquels tu vas devoir trouver une parade… et une nouvelle intelligence.

§

Caído na água, um homem afunda. A corrente o gira, o revira, o afunda, o leva. Ele não voltará mais à superfície. Em todos os orifícios a água se apressa, penetrou irreversível, fazendo barragem em volta. Pulmões bloqueados, a respiração não está em funcionamento. Uma única aspiração intempestiva tampou tudo. Outras são impossíveis. Seria levantar um muro. Alguns segundos faltam, o tempo já não está mais defronte, mais para trás apenas. A vida inteira parece desfilar (erro, somente acontecimentos dos mais banais, bagatelas outrora estimadas importantes, se mostram uma última vez, passando vivamente uma após a outra).

A impressão de futuro não é mais continuada, aquela que somente a respiração ininterrupta sustentava, proporcionalmente.

Do lado de fora, pessoas com seu “presente” completo, em bom estado, com o conforto (sem perceber) de respirações regulares, fazedoras de futuro, passeiam inconscientes possuidoras do indispensável e, venturosas ou crispadas, sonham com o superficial, com a superfetação.

Tombé à l’eau, un homme s’enfonce. Le courant le roule, le retourne, l’enfonce, l’emporte. Il ne reviendra plus à la surface. À tous les orifices, l’eau se presse, a pénétré irréversible, faisant barrage tout autour. Poumons bloqués, la respiration est hors de fonctionnement. Une seule aspiration intempestive a tout bouché. D’autres sont impossibles. Ce serait un mur à soulever. Quelques secondes manquent, déjà le temps n’est plus en face, n’est plus qu’en arrière. La vie entière paraît défiler (erreur, seulement de sacrés petits faits divers, bagatelles autrefois trouvées importantes, se montrent une dernière fois, passant vivement à la file).

L’impression d’avenir n’est plus continuée, que seule la respiration ininterrompue soutenait, à mesure.

Dehors des gens avec leur “présent” complet, en bon état, avec le confort (sans le remarquer) de respirations régulières, faiseuses d’avenir, se promènent inconscients possesseurs de l’indispensable, et béats ou crispés rêvent au superficiel, au superfétatoire.

§

Uma certa aranha toda manhã faz na natureza e em todo local que lhe permita uma teia admiravelmente regular. Após a ingestão de um extrato de cogumelo alucinógeno – que por artimanhas lhe fizeram tomar – ela começa uma teia cujas espiras pouco a pouco não se seguem mais e saem tortas, e tanto mais quanto a quantidade absorvida é mais considerável: uma teia de louca. Partes cedem, se enrolam, Zygiella notata, é seu nome, não para antes de ter obtido a dimensão habitual, mas tornou-se incapaz de seguir seu plano, um plano que porém não data de ontem, mas de dezenas ou de centenas de séculos, passando intacto e perfeito de mãe a filha, ela comete erros, duplicações, deixa buracos em alguns lugares, justo ela, tão cuidadosa, e segue adiante. As últimas espiras são um balbucio, uma vertigem, é como se ela tivesse sido tomada por um assombro. Obra em ruína, mal sucedida, humana. Aranha tão próxima de ti agora. Ninguém sobre a droga exprimiu mais justamente, mais diretamente o transtorno dos enredamentos. Como irmão, olha suas ruínas em fio. Mas afinal o que ela, Zygiella, viu?

Une certaine araignée chaque matin fait dans la nature et en tout lieu qui s’y prête une toile admirablement régulière. Après ingestion d’un extrait de champignon hallucinogène – que pas ruse on lui a fait prendre – elle commence une toile dont petit à petit les spires ne se suivent plus et partent de travers, et d’autant plus que la quantité absorbée est plus considérable: une toile de folle. Des parties s’affaissent, s’enroulent, Zygiella notata, c’est son nom, ne s’arrête pas avant d’avoir obtenu la dimension habituelle mais, devenue incapable de suivre son plan, un plan qui pourtant ne date pas d’hier, mais de dizaines ou de centaines de siècles, passant intact et parfait de mère en fille, elle commet des erreurs, des redoublements, ailleurs laisse des trous, elle, si soigneuse, et passe outre. Les dernières spires sont un balbutiement, un vertige, c’est comme si elle avait eu un éblouissement. Oeuvre en ruine, ratée, humaine. Araignée si proche de toi maintenant. Nul sur la drogue n’a plus justement, plus directement exprimé le trouble des enchevêtrements. En frère, regarde ses ruines en fil. Mais qu’a-t-elle donc vu, Zygiella?

§

No campo, no canto do quarto, vês um rato se mexer. Ou seria somente um farrapo que o ar fez tremer? Às vezes rato, às vezes farrapo.

Aquele que ainda nunca matou transpira, tomado de mal-estar e de uma desviante emoção inesperada que se aproxima inclusive da vertigem.

A virgindade ainda intacta (quanto ao assassinato) recebe uma tentação, um choque. Cheias de problemas, as virgindades.

A frágil colunazinha de pequenas vértebras que faz permanecer inteiro o pequeno animal explorador e impudente como toda a sua espécie, desrespeitosa do homem, ah! se um golpe sobre o dorso lhe fosse desferido, seria o fim dessa irritante vida ao rés do chão.

Logo algo de inconfessável toma em você proporções enormes, as proporções de uma guerra! Por um rato! Assim trabalha a irresolução. Vamos, aja, um rato, essa coisa não vai gritar tão forte. Mas o problema permanece: uma virgindade deve ser vencida ou conservada? Decide-te, o rato não espera… Ele já se safou.

Também ele vivia uma aventura premente que, como indivíduo de ação, resolveu agilmente.

À la campagne, dans le coin de la chambre tu vois remuer un rat. Ou serait-ce seulement une loque que l’air a fait frissonner? Tantôt plus rat, tantôt plus loque.

Celui qui n’a encore jamais tué transpire, pris de malaise et d’une devoyante émotion inattendue qui approche même du vertige.

La virginité encore intacte (quant au meurtre) reçoit une tentation, un choc. Pleines de problèmes, les virginités.

La frêle colonette de petites vertèbres qui fait tenir ensemble le petit animal fureteur et impudent comme toute son espèce, irrespectueuse de l’homme, ah! si un coup sur le dos lui était asséné, c’en serait fini de cette irritante vie au ras du sol.

Déjà de l’inavouable prend en toi des proportions énormes, les proportions d’une guerre! Pour un rat! Ainsi travaille l’irrésolution. Allons, agis, un rat, ça ne va pas crier tellement fort. Mais le problème demeure: une virginité doit-elle être vaincue, ou gardée? Décide-toi, le rat n’attend pas… Il a déjà filé.

Lui aussi vivait une aventure pressante qu’en individu d’action il résolut lestement.

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poesia, Poesia Brasileira Contemporânea

1 poema inédito de Maíra Mendes Galvão

Foto de Isabella Martino

Maíra Mendes Galvão (Brasília, 1981) é tradutora e poeta. Publicou a plaquete nove poemas de mau gosto em 2018 pela Corsário-satã e o livro jamanta na testa em 2019 pela Quelônio. Teve poemas e textos publicados nas revistas ruído manifesto, casulo, escamandro, parênteses, gazeta de poesia inédita, asymptote, entre outras. Teve poemas e traduções publicados em antologias no Brasil e no México. Faz acompanhamentos sonoros para suas leituras e teve um duo de performance experimental poético-sonora com Jeanne Callegari. Faz pesquisa de mestrado em teorias da tradução (USP). Traduziu uma seleção de poemas e textos da modernista angloamericana Mina Loy editada por Amelì Jannarelli que está saindo do prelo agora pelo selo 100/cabeças.

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o senicídio de mara lago e milly ciano

atesto par
canhestro
coaxial batráquio
polemodáctilo
duo de nada
em co-couraça
violácea
co-emergente
(canibal antiantropofágico)
em festa
refestela-se
penistilência
paira no ar

pós chisteculação
orocorporal
desbarranco
a drupa engelhada
reverto par atesto
ex-patifes
munha no calhau

pano de boca
babau

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