poesia, Poesia Brasileira Contemporânea

Sonethos dos profetas, por Evandro von Sydow

Evandro von Sydow gosta de azulejos e de fotografar botequins do subúrbio. Inventou a editora Laphroaig, pela qual planeja lançar, ainda este ano, um livro de limeriques baseado no Livro de Perguntas, do Neruda, e um de sonetos para os profetas do Aleijadinho. Este último terá ilustrações de Felipe Stefani. Ama as cigarras e seu filho Dante.

As fotos são do próprio poeta.

* * *

ABERTURA

o nome deste rio é Maranhão
em Minas coração de Minas se
te causa isso estranheza lembra
o nome desta pedra é sabão
e assim as coisas improváveis fazem
ruído como a água preguiçosa
no cascalho e que susto enfim lembrar
que todo esse diálogo de pedra
entre os velhos profetas no sem-tempo
e o sem sentido apelo do não
foi escrito por um certo antônio
que não tinha dedo e não tinha mão
tinha um cinzel e sonhos em Congonhas
à margem deste rio Maranhão

§

NAUM

a barba de Naum é como um rio
de pedra — de pedra também o seu
suor sobre a sotaina longa e velha
a barba de Naum é como a barba
de um visionário doido vagabundo
a barba de Naum descobre o mundo
úmido húmus a nutrir o vento
um único refúgio da loucura
nodosa e retorcida como suas
mãos que agouram a queda da Assíria
a barba de Naum transcende a ira
assim presente nos profetas parvos
a barba de Naum é apenas barba
farta cerrada amarga barba. E basta

§

JONAS

De boca aberta (como a da baleia)
Jonas contempla o vento e as chuvas que
desgastam lentamente os seus lábios
de onde jorram palavras contra Nínive
Três dias e três noites infinitos
no escuro da baleia sobrevive
triste Gepeto no areal cuspido
Deus precisa falar com Jonas mas
ele não quer conversar com Deus: foge.
E hoje — dezoito de dezembro — hoje
quando a negra noite baixa em Congonhas
e o céu mineiro é uma tela cheia
de estrelas Jonas se pergunta (em sonho)
se estará ainda dentro da baleia

§

AMÓS

amar Amós amar um cão assim
um vira-lata bonachão tristonho
que sem esforço recupera em sonho
a confusa missão que Deus lhe deu
In vaccas pingues invehor et proceres
escravizar desprezar humilhar
o pobre o indigente o oprimido
são estes os crimes e o que mudou?
os chefes de Israel e as vacas gordas
só mudaram de nomes a opressão
ora, é bem a mesma se não maior
amar Amós é desamar a mó
para amar o que nela se tritura
para amar o grão sob a pedra dura

§

DANIEL

São como as patas do leão as mãos
de Daniel : arredondadas firmes
repare nessas mãos que amansam feras
repare nessas heras que desgastam
e pastam sobranceiras e cansadas
cavando nadas e cavando sulcos
sobre o nariz imberbe do profeta
Daniel saber ser Daniel assim
na mitra que lhe cobre a cabeleira
estão os louros de quem sabe que
triunfou
repare nesses olhos amendoados
dois espelhos de pedra, mire bem
e repare então nos nossos também

§

ABDIAS

na paisagem dos montes um profeta
abriga nuvens em seus olhos largos
nas tarde infinitas de Congonhas
seu braço erguido já parece pronto
pro abraço que quer dar em Habacuque
não desconhece ele que confrontos
fazem do mundo um carnaval amargo
por isso pede no seu breve livro
sejam os povos solidários livres
e ainda mais solidários quando escravos
no rosto do profeta não há laivos
de tormentos sulcados pelos dias
na paisagem de Minas ergue o braço
e atende pela graça de Abdias

§

OSÉAS

Oséas ama uma mulher e ela
vai ter com outros homens, com quem goza
Pobre Oséias, seu gozo só virá
quando ele, poeta, faz metáfora
Assim Oséias crê assim espera
Profeta do amor, desconhece a ira
Todo seu ódio ele bota fora
Tentativa de vida menos áspera
E quando Oséias estiver mais triste
Daquele triste de não ter jeito
Daquele triste do soneto imperfeito
Com seu amigo Amós vai ao boteco
Os dois velhinhos pedem sempre o mesmo
Angu, feijão tropeiro e um bom torresmo

§

EZEQUIEL

Com o braço direito flexionado
Em decidida e demorada curva
Que remonta às estátuas de Bernini
Ezequiel traz escrita em suas mãos
A dura dor do exílio a dor das mãos
que não choraram quando o deleite
dos seus olhos se foi. Assim quis Deus.
Assim o quis coberto de agonias
“Mantém o teu turbante apertado e as
Sandálias nos teus pés”. E Deus sonhou
a rigidez do diamante em seu rosto.
Aleijadinho então trapaceou
conferindo a seus olhos mansidão
Acentuada quando o sol é posto.

§

??

JOEL

Na mão direita traz a sua pena
Sua cartela vem na mão esquerda
E se estas são macias e redondas
A profecia fala da lagarta
Que descerá à terra como em ondas
Seu traje é especialmente trabalhado
Tanto no manto quanto no casaco
Sobressai o trabalho dos broslados
Nada disso, porém, lhe empresta paz
Já revelam seus pés desassossego
O que suas palavras nos ensinam
Que diz Joel em seu discurso roto
Quando os olhos oblíquos descortinam
A imensa multidão dos gafanhotos?

§

HABACUQUE

Escuro ainda e o galo já pousou
na borla do barrete de Habacuque
Ele bem sabe que de todos doze
este é o único que questiona Deus
Talvez por isso tenha o braço erguido
Talvez assim abertamente goze
o seu ultraje ante a indiferença
de Deus, porém não é indiferença.
Já o galinho se prepara, tosse
Quando Habacuque afirma sua fé
(sem ovelhas, sem flores as figueiras
não há bois, não há uvas nas videiras)
O galo pisca o olho pro Abdias
E seu canto rouco inicia o dia

§

BARUQUE

A exausta tarde oitocentista chega
a seu termo nos vastos céus de Minas
Cigarras insistentes anunciam
escura e longa noite sem estrelas
Aleijadinho ergue-se do catre
onde sonhava amores com Narcisa
Januário, Agostinho e Maurício
Estão a postos quando a longa tarde
Termina nos exaustos céus de Minas
Os três o equilibram num burrico
E nele vingam mudos a colina
Amarram os cinzéis naquilo que
Um dia foram mãos e Antônio esculpe
A atarracada estátua de Baruque

§

ISAÍAS

Se algum romeiro olhasse descuidado
o transtornado rosto de Isaías
julgaria decerto ter à frente
Imponente e profundo o próprio Deus
Com seus olhos virados com joelhos
vermelhos e dobrados sobre a pedra
uma vela acenderia ou incenso
no extenso adro que circunda a igreja
Sem dureza, Isaías / Deus dirá
Não há-de ser assim com vãs ofertas.
Aberta a tua alma, vem, descansa
Troca a lança por foice troca a espada
pela enxada, depois semeia a terra
Não faças guerra contra teu irmão

§

JEREMIAS

De todos os profetas Jeremias
foi quem mais mastigou a solidão
Há nele qualquer coisa da enguia
de Montale sob a maré diversa
Sempre mais dentro, mais no coração
Alma verde que busca vida onde
mordem o ardor e a desolação
Pois vale a pena ser profeta? Vale
O abandono, o opróbrio, a traição?
Sempre profeta mesmo que se cale
Como que um fogo lhe consome os ossos
Sem poder Jeremias desse modo
ao destino fugir, sua voz ecoa
acompanhando seu olhar incômodo

E sobre nós o tempo se esboroa

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2 comentários sobre “Sonethos dos profetas, por Evandro von Sydow

  1. Ana Lucia Rodrigues disse:

    Muito bom! Belos versos, sonoros, que atingem com força quem lê, mesmo em silêncio. Continue, Evandro! Abç

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