poesia, tradução

Eunice de Souza, por Hugo Lorenzetti Neto

Eunice de Souza

Eunice de Souza, uma das mais importantes poetas indianas que se expressou em língua inglesa, escreveu por cerca de três décadas. Sucinta, imediata, aforística, a um tempo delicada e cruamente irônica, a poesia da escritora goesa revela um sentido particular de individualidade e de feminismo. Eunice de Souza parte de seu depoimento como indivíduo, tratando de temas como amor e família, para comentar a hipocrisia conservadora do ambiente católico em que foi criada, e as relações mutuamente coloniais entre hinduísmo e catolicismo. Suas obras completas foram publicadas pela editora Penguin, em 2009, no volume “A necklace of skulls”, que inclui os livros publicados pela autora, mais poemas inéditos recentes e de início de carreira.

Hugo Lorenzetti Neto

*

Conversation Piece

My Portuguese-bred colleague
picked up a clay shivalingam
one day and said:
Is this an ashtray?
No, said the salesman,
This is our god.

Puxando Conversa

Minha colega criada em Portugal
pegou um shivalingam* de barro
um dia e disse:
Isto é um cinzeiro?
Não, disse o vendedor,
Este é nosso deus.

*shivalingam é uma representação do deus hindu Shiva, de forma fálica que, quando representado junto com o shivayoni, o útero, forma um objeto que, reproduzido em tamanho menor, poderia ser confundido por um ocidental incauto com um cinzeiro.

§

God Rock

There’s a continente moving
under my feet, god rock.
In a million years
it will swallow the seas,
spew out mountains,
reduce this land
to a handful of gravel.

Give us a sign, god rock.

A city burns.

Deus Pedra

Há um continente que se move
sob meus pés, deus pedra.
Em um milhão de anos
engolirá os mares,
vomitará montanhas,
reduzirá esta terra
a um punhado de cascalho.

Mande-nos um sinal, deus pedra.

Uma cidade arde.

§

Catholic Mother

Francis X. D’Souza
Father of the year.
Here he is top left
the one smiling.
By the Grace of God he says
we’ve had seven children
(in seven years).
We’re One Big Happy Family
God Always Provides
India will Suffer for
her Wicked Ways
(these Hindu buggers got no ethics)

Pillar of the Church
says the parish priest
Lovely Catholic Family
says Mother Superior

the pillar’s wife
says nothing.

Mãe Católica

Francisco X. D’Souza
pai do ano.
Ele está aqui em cima à esquerda
o que está sorrindo.
Pela Graça de Deus ele diz
tivemos sete filhos
(em sete anos)
Somos Uma Grande Família Feliz
Deus Sempre Provê
A Índia Sofrerá por
seus Modos Perversos
(esses malditos hindus não têm ética)

Pilar da Igreja
diz o pároco
Adorável Família Católica
diz a Madre Superiora

A esposa do pilar
nada diz.

§

Sweet Sixteen

Well, you can’t say
they didn’t try.
Mamas never mentioned menses.
A nun screamed: You vulgar girl
don’t say brassieres
say bracelets.
She pinned paper sleeves
onto our sleeveless dresses.
The preacher thundered:
Never go with a man alone
Never alone
and even if you’re engaged
only passionless kisses.

At sixteen, Phoebe asked me:
Can’t it happen when you’re in a dance hall
I mean, you know what,
getting preggers and all that, when
you’re dancing?
I, sixteen, assured her
you could.

Debutante

Bem, não se pode dizer
que eles não tentaram.
Mamães nunca mencionaram a menstruação
Uma freira berrou: sua menina vulgar
não diga sutiã
diga suportes.
Alfinetou mangas de papel
em nossos vestidos sem manga
O padre trovejou:
Nunca saiam sozinhas com um homem
Nunca sozinhas
e mesmo se forem noivos
apenas beijos sem paixão.

Aos dezesseis,  Phoebe me perguntou:
Pode acontecer quando se está no salão de baile
Quero dizer, aquilo que você sabe
pegar bucho e tal, quando
se está dançando?
Eu, dezesseis, garanti-lhe
que sim.

§

Advice to Women

Keep cats
if you want to learn to cope with
the otherness of lovers.
Otherness is not always neglect –
Cats return to their litter trays
when they need to.
Don’t cuss out of the window
at their enemies.
That stare of perpetual surprise
in those great green eyes
will teach you
to die alone. 

Conselho às Mulheres

Tenha gatos
se você quiser aprender a lidar com
o alheamento dos amantes.
Alheamento nem sempre é descaso ––
gatos voltam para suas caixas de areia
quando precisam.
Não xingam pela janela
seus inimigos.
Aquele olhar fixo de surpresa perpétua
naqueles grandes olhos verdes
vai te ensinar
a morrer sozinha.

§

Hugo Lorenzetti Neto é diplomata e tradutor, e atuou quase toda sua carreira até o momento na área cultural do Itamaraty. Atualmente lotado no escritório do Ministério em Recife, vem traduzindo a poesia completa de Eunice de Souza e obras de Hervé Guibert e Victor Segalen. Aproveita a quarentena para terminar um romance e uma coleção de poemas, para futura publicação.

*

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