Óssip Mandelstam, por Guilherme Zani Teixeira

Óssip Emilevitch Mandelstam (1891-1938), poeta, ensaísta e tradutor, publicou três coletâneas de poesia em vida: Камень [Pedra], em 1913, obra que mais se aproximou da proposta do acmeísmo, movimento iniciado em 1911 e que buscava responder aos excessos do simbolismo, tópico que já vinha sendo debatido há quase uma década; Tristia, em 1922, com um título que faz alusão a Ovídio, poeta com o qual se identifica em diversos poemas; e 1921 – 1925, seção de poemas inéditos que integra suas obras coletadas em 1928. Seus poemas da maturidade, escritos entre 1930 e 1937, não chegaram a ser publicados em livro em vida, alguns foram publicados em periódicos e muitos guardados de memória por sua esposa, a escritora Nadezhda Iakovlevna Mandelstam (189 -1980), e vieram a público apenas décadas mais tarde.

 Os poemas aqui apresentados, ainda de sua primeira fase, partem de associações visuais, sonoras e históricas, ligando passado e presente, criações da natureza e criações humanas, memória e invenção, o particular e o universal, a eterna repetição dos mesmos acontecimentos e temas. Busquei manter seu rigor formal característico através de rima, métrica e ritmo regulares.

Guilherme Zani Teixeira

*

На бледно-голубой эмали,
Какая мыслима в апреле,
Березы ветви поднимали
И незаметно вечерели.

Узор отточенный и мелкий,
Застыла тоненькая сетка,
Как на фарфоровой тарелке
Рисунок, вычерченный метко,

Когда его художник милый
Выводит на стеклянной тверди,
В сознании минутной силы,
В забвении печальной смерти.

1909

No suave azul do esmalte
Que abril nos traz à mente,
Bétulas em toda parte
Enoitaram sutilmente.

A afiada e fina rama,
Rija rede delicada,
Qual pintada porcelana
Com gravuras bem traçadas,

Quando o seu artista inscreve
Na abóbada de vidro,
Ciente do vigor do breve,
E da morte esquecido.

1909

£

О временах простых и грубых
Копыта конские твердят.
И дворники в тяжелых шубах
На деревянных лавках спят.

На стук в железные ворота
Привратник, царственно-ленив,
Встал, и звериная зевота
Напомнила твой образ, скиф!

Когда, с дряхлеющей любовью
Мешая в песнях Рим и снег,
Овидий пел арбу воловью
В походе варварских телег.

1914

Os cavalos e o som de seus cascos
Tempos rudes e simples suscitam.
Varredores em gordos casacos
Pelos bancos de tábua cochilam.

O porteiro — indolente-real —
Veio à porta de ferro à batida,
Seu bocejo, qual de um animal,
Recordou-me tua imagem, ó cita!

Quando o amor seu já envelhecido
Misturava em canções Roma e neve,
A carroça cantou, lá, Ovídio,
Onde os bárbaros tinham charretes.

1914

£

Золотистого меда струя из бутылки текла
Так тягуче и долго, что молвить хозяйка успела:
Здесь, в печальной Тавриде, куда нас судьба занесла,
Мы совсем не скучаем — и через плечо поглядела.

Всюду Бахуса службы, как будто на свете одни
Сторожа и собаки — идешь, никого не заметишь —
Как тяжелые бочки, спокойные катятся дни:
Далеко в шалаше голоса — не поймешь, не ответишь.

После чаю мы вышли в огромный коричневый сад,
Как ресницы на окнах опущены темные шторы,
Мимо белых колонн мы пошли посмотреть виноград,
Где воздушным стеклом обливаются сонные горы.

Я сказал: виноград как старинная битва живет,
Где курчавые всадники бьются в кудрявом порядке.
В каменистой Тавриде наука Эллады — и вот
Золотых десятин благородные, ржавые грядки.

Ну, а в комнате белой как прялка стоит тишина.
Пахнет уксусом, краской и свежим вином из подвала.
Помнишь, в греческом доме: любимая всеми жена —
Не Елена — другая — как долго она вышивала?

Золотое руно, где же ты, золотое руно?
Всю дорогу шумели морские тяжелые волны,
И покинув корабль, натрудивший в морях полотно,
Одиссей возвратился, пространством и временем полный.

1917

Entornado o mel dourado de um frasco era vertido
Tão viscoso e lento, que a nossa anfitriã falou:
“Cá, na triste Táurida, onde nos trouxe o destino,
Não sentimos tédio” — e por cima dos ombros olhou.

Ritos báquicos à volta, como se cães e vigias
Fossem todo o mundo — andas e ninguém tu vês à frente —
Sossegados, quais barris pesados, vão rolando os dias,
Longe, na cabana, vozes: não respondes, não entendes.

Findo o chá, nós ao jardim castanho imenso caminhamos,
Nas janelas as escuras persianas como cílios,
A olhar videiras por colunas brancas nós passamos,
Onde, sonolentas, banham-se as montanhas com ar vítreo.

A videira, eu disse, é como uma batalha antiga viva,
Onde em crespa legião combatem crespos cavaleiros.
Na rochosa Táurida o saber da Hélade — à vista,
Oxidados, nos dourados acres nobres, os canteiros.

E, no quarto branco, como roca o silêncio assenta.
Cheiro de vinagre, tinta e vinho fresco do porão.
Em um grego lar a esposa por todos amada, lembras —
Não Helena — outra — há quanto tempo ela bordava então?

Onde estás, tosão de ouro? Onde estás, tosão dourado?
A viagem toda as ondas com seu marulhar por perto,
E, o navio abandonando, quadro pelo mar roçado,
Odisseu eis que voltou, de espaço e tempo assaz repleto.

1917

£

Сестры тяжесть и нежность, одинаковы ваши приметы.
Медуницы и осы тяжелую розу сосут.
Человек умирает. Песок остывает согретый,
И вчерашнее солнце на черных носилках несут.

Ах, тяжелые соты и нежные сети,
Легче камень поднять, чем имя твое повторить!
У меня остается одна забота на свете:
Золотая забота, как времени бремя избыть.

Словно темную воду, я пью помутившийся воздух.
Время вспахано плугом, и роза землею была.
В медленном водовороте тяжелые, нежные розы,
Розы тяжесть и нежность в двойные венки заплела.

1920

Irmãs ternura e gravidade, em seus traços semelhantes.
As vespas junto às operárias sugam a pesada rosa.
Um homem morre, arrefece a areia antes escaldante
E posto em uma escura maca o sol de ontem vai embora.

Ah, como são as teias ternas, quão pesados são os favos,
É tão mais leve erguer a pedra que teu nome repetir.
E resta apenas uma coisa que me deixa angustiado:
Questão dourada: posso eu do tempo — fardo — me eximir?

E do ar turvado eu bebo como se ele fosse água escura.
O tempo arado com charrua, e a rosa como terra.
Em lento turbilhão as rosas gravidade e ternura,
Trançadas em guirlandas duplas as pesadas rosas ternas.

1920

£

Лишив меня морей, разбега и разлета
И дав стопе упор насильственной земли,
Чего добились вы? Блестящего расчета:
Губ шевелящихся отнять вы не могли.

1935, Воронеж

Depois de me privar dos mares, do embarque e do arranque
E dar aos pés a violenta terra por fundamento,
O que vocês ganharam? Uma observação brilhante:
Dos lábios não puderam arrancar o movimento.

1935, Vorônezh

*

Guilherme Zani Teixeira nasceu em São Paulo (SP), em 1989, e é professor de português. Graduado em Letras Português/Russo pela Universidade de São Paulo, está traduzindo a poesia de Óssip Mandelstam, tema de seu mestrado, em curso.

2 comentários sobre “Óssip Mandelstam, por Guilherme Zani Teixeira

  1. Mandelstam é um dos meus preferidos. As traduções de Mandelstam serão publicadas em livro?

  2. Olá! Mandelstam também é um dos meus preferidos. Está nos meus planos um dia publicar as traduções que venho fazendo. Entrei em contato com uma editora há algum tempo, estou aguardando resposta. Um abraço!

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