Saeed Jones, por Tom Jones

Saeed Jones nasceu em Memphis, Tennessee e cresceu em Lewisville, Texas. Já trabalhou no BuzzFeed como editor  LGBTQIA+ e de cultura. Seu debut na literatura se deu com a publicação, em 2014, da coletânea de poemas intitulados Prelude to Bruise, uma obra com poemas brutalmente eróticos que apresentam a dores e as doçuras das relações afetivas das pessoas LGBTQIA+. No mesmo ano foi finalista do National Book Critics Circle Award e em 2019 lançou o livro de memórias How We Fight for Our Lives. 

Traduzir Saeed Jones é um processo que me remete à minha própria experiência de pessoa LGBTQIA+ com todas as nuances da busca pelo afeto, das dores e descobertas. Em Boy in a stolen evening gown, o eu lírico confunde-se com a paisagem de um campo de flores raras onde à performance da existência e do desejo experimenta o gozo e a dor. 

O vestido nessa poética é a metáfora da identidade, do desejo do ser, mas também é um limite, uma prisão que se move no corpo mas não na história. Permanece. Entretanto também guarda sem si a possibilidade da espera. 

I don’t even know what I am
in this dress; I just sway with
my arms open and wait.

O que há de vir? O que virá para um menino que rouba a saia e o vestido da irmã para poder alargar os limites das imposições de gênero e não aprendeu a lidar com a modelagem de sua identidade? 

O desejo é recorrentemente pintado como planta, talvez daninha, incapaz de ser compreendida na natureza de sua existência, impossível de ser amada pela imprevisibilidade de carácter e impossibilidade de controle. Kudzu me toca como se o poeta soubesse meus mais recônditos medos de ter a natureza negada e não poder viver livremente meus afetos.

Tom Jones

Boy in a Stolen Evening Gown

In this field of thistle, I am the improbable
lady. How I wear the word: sequined weight
snagging my saunter into overgrown grass, blonde
split-end blades. I waltz in an acre of bad wigs.

Sir who is no one, sir who is yet to come, I need you
to undo this zipped back, trace the chiffon
body I’ve borrowed. See how I switch my hips

for you, dry grass cracking under my pretend
high heels? Call me and I’m at your side,
one wildflower behind my ear. Ask me
and I’ll slip out of this softness, the dress

a black cloud at my feet. I could be the boy
wearing nothing, a negligee of gnats.

Garoto de vestido

Nesse campo florido, sou a improvável
dama. Como visto a palavra: leves lantejoulas
desfilando em uma passarela de grama alta, louras
lâminas cortantes. Valseio em território de picumãs malignas

Você que ainda não é ninguém, que ainda virá, preciso
de ajuda com o zíper nas costas, a modelar o chiffon
Deste vestido emprestado. Olha como rebolo

pra você, grama seca estalando sob as pontas
dos pés, saltos? Me chama e estou ao seu lado,
com uma flor selvagem atrás da orelha. Me chama
e escapo dessa suavidade, o vestido

uma nuvem escura aos meus pés. Eu poderia ser o garoto
sem vestir nada, nu sob véu.
£

Drag

The dress is an oil slick. The dress
ruins everything. In a hotel room
by the water, I put it on when
he says, I want to watch you take it off.
Zipping me up, he kisses the mile
markers of my spine. I can’t afford
this view. From here, I see a city
that doesn’t know it’s already
drowning. My neck shivers from
the trail of his tongue. I keep my
eyes on the window, just past
his bald spot. He’s short. I can see
the rain that has owned us for weeks
already. The dress will survive us.
The dress will be here when men
come in boats to survey the damage.
He makes me another drink, puts
on some jazz, and the dress begins
to move without me. Slow like some-
thing that knows it cannot be stopped,
the dress seeps. The dress slides
with my body floating inside,
an animal caught in the sludge.
If he wraps his arms around me,
it will be the rest of his life.
I don’t even know what I am
in this dress; I just sway with
my arms open and wait.

Drag

O vestido é um vazamento. O vestido
arruína tudo. Num quarto de hotel
às margens, me visto e ele diz
Tira tudo.
Seus beijos percorrem o zíper
e a malha nas minhas costas
não posso pagar pela vista
daqui vejo uma cidade
se afogando, mas não sabe
meu pescoço arrepia ao
rastro da sua língua enquanto olho
a janela por cima de sua calvície.
Ele é pequeno. Vejo a chuva
que já nos tem há semanas.
O vestido sobreviverá a nós.
Estará aqui quando homens de barco
sobreviverem aos danos.
Ele me serve outra bebida
e jazz. O vestido se move sem mim.
Devagar. Como se soubesse
que não será impedido,
o vestido infiltra-se.
O vestido desliza com meu corpo
navegando dentro. Um animal
preso ao lodo. Se ele me agarra
será o seu repouso, enfim.
Nem sei o que nesse vestido sou.
Apenas me movo de braços abertos
e espero.
£

Kudzu

………….. I won’t be forgiven
for what I’ve made
of myself.
………….. Soil recoils
from my hooked kisses.
………….. Pines turn their backs
on me. They know
what I can do
with the wrap of my legs.
………….. Each summer,
when the air becomes crowded
with want, I set all my tongues
upon you.
………….. To quiet this body,
you must answer
my tendrilled craving.
………….. All I’ve ever wanted
was to kiss crevices, pry them open,
and flourish within dew-slick
hollows.
………….. How you mistake
my affection.
And if I ever strangled sparrows,
it was only because I dreamed
of better songs.

Kudzu/ Puerária

………. Não terei perdão
pelo que fiz
de mim.

………. O solo recua
aos meus viciados beijos
Pinheiros me viram
as costas. Eles sabem
o que fazem minhas pernas.

………. Todo verão quando o ar se enche
de desejo, agarro minhas línguas
em ti.

………. Para acalmar este corpo,
respondo a minha
ânsia de gavinha.

………. Sempre quis beijar bocas
intrometer-me em fissuras
e florescer em ocos repletos
de orvalho.

………. Por que confundes
minha afeição?

………. Se alguma vez estrangulei andorinhas,
foi por sonhar
com melhores canções.
£

Tom Jones é um professor cearense. Estudioso das influências das culturas africanas na constituição da identidade brasileira, é mestre em Estudos da Tradução com pesquisa sobre as poéticas do culto afro-brasileiro do Xangô pernambucano. Interessa-se por literaturas e oraturas de certo modo consideradas à margem do cânone hegemônico; poéticas que formam todo um centro. Tem buscado traduzir poetas de origem africana e afro-americana na tentativa de tornar essas vozes ouvidas em português por quem em inglês não ouve. Já apareceu na escamandro com traduções de Warsan Shire.

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2 comentários sobre “Saeed Jones, por Tom Jones

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