Naomi Shihab Nye (1952-), por Annie van der Meer

Naomi Shihab Nye (1952-) nasceu em St. Louis, Missouri, filha de mãe americana e de pai palestino, refugiado. Poeta, ensaísta e professora universitária, Nye cresceu entre San Antonio, Texas, onde vive e leciona até hoje, e a Palestina, onde passou parte da adolescência com a família de seu pai. Entre poesia, prosa, e livros infanto-juvenis, já publicou mais de 30 livros, além de editar antologias como This Same Sky (1992), com poetas de 68 países, The Tree Is Older Than You Are (1995), antologia bilingue de poesia mexicana, e The Space between Our Footsteps (1998) que reúne poemas de 127 poetas contemporâneos do Oriente Médio. Pela sua popularidade entre leitores de várias idades, Nye foi a primeira escritora árabe americana a ser escolhida como Young People ‘s Poet Laureate pela Poetry Foundation, ministrando cursos e atividades para crianças e adolescentes, além da curadoria de mídias sociais.


Após os atentados de 11 de setembro de 2001, que geraram uma reação midiática violenta, Nye se tornou uma voz especialmente ativa entre os árabes americanos. 19 Varieties of Gazelle: Poems of the Middle East foi finalista do National Book Award no ano seguinte, e seu próximo livro, You and Yours (2005), continuou a falar do Oriente Médio através de retratos caseiros de familiares, vizinhos, e pessoas anônimas comuns. Muito popular nos Estados Unidos, Nye possui uma linguagem clara, e mesmo quando trata de temas tão duros, usa imagens do cotidiano que tornam próximos uma terra e um povo tão desumanizados pela mídia internacional. Como explica em entrevista a Bill Moyers, “Em muitos dos meus poemas, sinto que tenho me agarrado à dignidade da vida diária, a afirmação diária, (…) emblemática da dignidade do povo do meu pai. As pessoas dizem: ‘Por que você não escreve mais poemas políticos?’ Eu digo: ‘mas eu escrevo. Esses são meus poemas políticos’. (…) A dignidade da vida diária, isso é política”. Assim, os poemas de Nye não são apenas denúncia ou consolo, mas uma afirmação de existência, pois como afirma em entrevista a Geoff O’Gara, “precisamos do nosso próprio lugar, precisamos que as pessoas reconheçam que estamos aqui, não somos um fantasma, não somos uma invenção da imaginação de alguém, estávamos aqui, e ainda precisamos estar aqui.”


Samina Najmi, estudiosa de raça, gênero e guerra na literatura americana, também defende que, embora a obra de Nye só tenha sido vista como política após o 11 de setembro, esses elementos sempre estiveram presentes. Para Najmi, Naomi Shihab Nye, no que ela chama de estética do pequeno, desafia a ideologia política militar (e masculina) ao contrapor a retórica da guerra como espetáculo grandioso com imagens de pequenas devastações pessoais e, portanto, tangíveis. Para Najmi, a poética de Nye subverte o que é esperado em uma obra de denúncia, visto que falar em termos de destruição massiva por vezes nos aliena da experiência da guerra ao torná-la “grande demais”. Assim, Nye desmascara através de sua poética essa ideologia de grandes abstrações, usada para justificar a invasão do Oriente Médio.


Najmi traça todo um panorama histórico de como o sublime, colocado como grandioso, terrível, e associado ao masculino, é exaltado no Ocidente em detrimento do belo, visto como menor, delicado e feminino. Essa concepção é antiga, sendo definida pelo filósofo conservador Edmund Burke como um tipo de horror maravilhoso, com uma importante distinção: se o perigo ou a dor estiverem muito próximos, serão apenas terríveis e incapazes de gerar prazer. O sublime depende de certas distâncias e modificações para que se torne atraente. Essa “distância segura” é um ponto crucial para Najmi, já que é a distância estética que fundamenta o sublime militar. A estética do sublime também está presente na obra de Kant: na Crítica do Julgamento, Kant identifica explicitamente a guerra como sublime, e a associa tanto à masculinidade quanto à autodefinição nacional, afirmando que a paz prolongada favorece a covardia, a efeminação e a degradação do caráter de uma nação.


A retórica usada pelos Estados Unidos no Oriente Médio é muito semelhante, já que a autodefinição nacional depende da criação de um outro que é tanto inimigo quanto vítima à espera de um salvador. Especialmente após os ataques do 11 de setembro, a mídia americana abraçou uma ideologia que coloca os americanos como os únicos capazes de oferecer esperança, moralidade e humanidade ao Oriente Médio. Na prática, isso se deu através de experiências visuais que submetiam o espectador a imagens insuportáveis continuamente, para em seguida transcender a dor do choque inicial com razões grandiosas que justificam essas cenas horríveis. Exemplo é o caso da fotografia amplamente divulgada de Ali Ismail Abbas, um menino que perdeu os dois braços e sua família com o ataque de um míssil americano, mas foi em seguida levado de avião para os EUA para tratamento, se tornando uma propaganda das boas intenções americanas no Iraque. O desconforto inicial do espectador se transforma em conforto e aceitação, já que graças aos Estados Unidos e ao Ocidente, esse menino será salvo. Assim, um discurso com palavras grandiosas como ‘liberdade’ e ‘democracia’ é usado para justificar a violência, tanto sob a justificativa de libertar inocentes indefesos, quanto de aniquilar representantes imaginários do “eixo do mal” em uma guerra posta como justa e necessária.


O que Nye faz em sua obra não é apenas aproximar um outro que foi apagado ou demonizado pelo mídia, mas também desmascarar os eufemismos presentes na própria retórica militar. O termo bala perdida, por exemplo, oculta a violência ao propor que uma bala se perde como coisas comuns, ignorando que o propósito da arma é justamente o de matar. Em Para Mohammed Zeid de Gaza, Idade 15, Nye é contundente: “Não suavize”. É ao enfatizar o pequeno, o particular e o individual que Nye torna possível compreender a magnitude da tragédia da guerra. Além disso, o foco de Nye no prosaico aproxima o leitor da experiência palestina como experiência humana, afirmando sua existência para além das manchetes trágicas comuns.

Annie van der Meer

* * *

Biografia de uma aluna armênia

Vivo num quarto de pedra onde vozes viram
ossos soterrados sob nós há muito tempo. Onde você cava
por séculos descobrindo o mesmo suave pó.

Minhas mãos sonham bolos em forma de crescente
luas apanhadas numa terra de finas veias.
O dia todo estudo minhas mãos— dando a elas coisas novas para segurar.

Viajem, eu digo. Elas se tornam barcos.
Vão—a ave se contorce para se soltar do braço.
Através dos pátios, um rádio aumenta e explode.

O que é a história da Europa para nós que nem escolhemos nossos maridos?
Ontem meu pai se encontrou com o viúvo, o homem sem cabelo.
Como vou dormir com ele, eu que nunca dormi longe da minha mãe?

Uma vez comprei pão do vendedor corcunda.
Levei para casa cantando, achava que os dias tinham portas em si
que se abririam diante de mim.

Agora copio os alfabetos de três línguas,
imaginando que as voltas nas letras árabes são olhos.
O que você faz quando está cansado do que vê,

o que acontece com o corpo cinza quando é deitado na terra,
esses são os assuntos que me preocupam. Mas ensinam álgebra
Puxam nosso cabelo para trás e examinam nossas unhas.

Toda tarde, a previsível passagem do sol pelo muro.
Eu sairia voando daqui. Viaje, digo.
Eu iria tão longe que minha vida seria pequena atrás de mim.

Eles ensinam física, química. Eu jogo meu livro pela janela,
vejo as páginas se espalharem como asas.
Costuro a jaqueta do professor nas costas da sua cadeira.

Tem algo outro para que nascemos.
Eu quase me lembro. Enquanto escrevo, um fantasma escreve na mesma tábua
chega em outra soma.

Biography of an Armenian Schoolgirl

I have lived in the room of stone where voices become
bones buried under us long ago. Where you dig
for centuries uncovering the same sweet dust.

My hands dream crescent-shaped cakes,
trapped moons on a narrow veined earth.
All day I am studying my hands—I am giving them new things to hold.

Travel, I say. They become boats.
Go—the bird squirms to detach from the arm.
Across the courtyards, a radio rises up and explodes.

What is the history of Europe to us if we cannot choose our own husbands?
Yesterday my father met with the widower, the man with no hair.
How will I sleep with him, I who have never slept away from my mother?

Once I bought bread from the vendor with the humped back.
I carried it home singing, I thought the days had doors in them
that would swing open in front of me.

Now I copy the alphabets of three languages,
imagining the loops in my Arabic letters are eyes.
What you do when you are tired of what you see,

what happens to the gray body when it is laid in the earth,
these are the subjects which concern me. But they teach algebra.
They pull our hair back and examine our nails.

Every afternoon, predictable passage of sun across a wall.
I would fly out of here. Travel, I say.
I would go so far away my life would be a small thing behind me.

They teach physics, chemistry. I throw my book out the window,
watch the pages scatter like swings.
I stitch the professor’s jacket to the back of his chair.

There is something else we were born for.
I almost remember it. While I write, a ghost writes on the same tablet,
achieves a different sum.

§

Até na guerra

Soltas no colo, suas mãos.
E sempre uma gravata,
pois certos mundos são completos
por coisas sós.
Voz áspera,
balde erguido em cordas velhas.
Sabe como um homem pode levantar,
se arrumar, e pensar
que o mundo espera por ele?
As trevas tecem de noite
uma capa enorme para segurar os sonhos.
Um armário de gravatas com listras inclinadas.
Fora, dormem laranjas, beringelas,
campos de sálvia selvagem. Uma ordem
do governo decretou,
Você não vai mais colher essa sálvia
que dá sabor a toda sua vida.
E todas as mãos sorriram.
O ar que respira essa noite carrega
as manchetes que vão cruzar o oceano
amanhã. Tranque a porta.

Even at war

Loose in his lap, the hands.
And always a necktie,
as some worlds are made complete
by single things.
Graveled voice,
bucket raised on old ropes.
You know how
a man can get up,
get dressed, and think
the world is waiting for him?
At night darkness knits
a giant cap to hold the dreams in.
A wardrobe of neckties with slanted stripes.
Outside oranges are sleeping, eggplants,
fields of wild sage. An order
from the government said,
You will no longer pick this sage
that flavors your whole life.
And all the hands smiled.
Tonight the breathing air carries
headlines that will cross the ocean
by tomorrow. Bar the door.

§

Ruas

Um homem deixa o mundo
e as ruas em que viveu
encolhem um pouco.

Mais uma janela escura
nesta cidade, os figos em seus ramos
vão amaciar pras aves.

Se por noites ficarmos quietos o bastante
cresce ali toda uma companhia de nós
só sendo quietos juntos.
acima gralhas ruidosas reivindicam suas árvores
e a mão celeste que costura sem cessar,
solta sua bainha púrpura.
Cada coisa em seu tempo, em seu lugar,
seria bom pensar o mesmo das pessoas.

Tem gente assim. Dormem por completo,
acordando renovados. Outros vivem em dois mundos,
o perdido e o lembrado.
Dormem duas vezes, uma por quem que se foi,
outra para si mesmos. Têm sonhos densos,
sonhos duplos, acordam de um sonho
para dentro de outro, andam pelas ruas encurtadas
chamando nomes, e então eles respondem.

Streets

A man leaves the world
and the streets he lived on
grow a little shorter.

One more window dark
in this city, the figs on his branches
will soften for birds.

If we stand quietly enough evenings
there grows a whole company of us
standing quietly together.
overhead loud grackles are claiming their trees
and the sky which sews and sews, tirelessly sewing,
drops her purple hem.
Each thing in its time, in its place,
it would be nice to think the same about people.

Some people do. They sleep completely,
waking refreshed. Others live in two worlds,
the lost and remembered.
They sleep twice, once for the one who is gone,
once for themselves. They dream thickly,
dream double, they wake from a dream
into another one, they walk the short streets
calling out names, and then they answer.

§

O que as pessoas fazem

Novembro Novembro Novembro os dias se empilham
como famílias de folhas num campo seco
pego uma pedra redonda levo até meu pai
deitado na cama esperando seu coração remendar
e ele a gira de novo e de novo em suas mãos

Meu pai está me escrevendo a história de sua vila
Ele conta o que pessoas fizeram em outro país
antes de eu nascer como seu melhor amigo foi enterrado vivo
e o menino sobreviveu dois dias na terra
como meu pai foi baixado com cordas num poço descobrindo
jarras de barro de mil anos como cada jarra guardava sementes
alfarroba e melão e os aldeões escolheram sigilo
sabendo que os ingleses iam vir com caminhões e escavar sua aldeia
A letra do meu pai muda de página para página
às vezes um rabisco solto e letras desconexas
às vezes uma nova subida grave

E eu Outra vez repito essas viagens tão gastas
vestindo uma vida diferente em uma casa cercada por árvores
De noite as nozes caindo fazem pequenos cliques sobre nós
Portas fechando

Mais e mais eu entendo o que as pessoas fazem
Aprecio as bravuras diárias camisas brancas limpas
bons dias entre homens velhos

De novo vejo como uma vez que o barco vira você nunca esquece
a sensação de se afogar
mesmo se cantar para si as canções conhecidas

Hoje meu rosto é pedra meus olhos são baldes
Ando pelas ruas baixando-os em tudo
mas eles sobem vazios

Eu diria ao meu pai
não posso me mover uma quadra sem você
nunca vou me recuperar do seu amor
mas estou ao lado da sua cama dizendo coisas que já disse
e ele responde e continuamos assim
amaciando os silêncios
que nada cura

What People Do

November November November the days crowd together
like families of leaves in a dry field
I pick up a round stone take it to my father
who lies in bed waiting for his heart to mend
and he turns it over and over in his hands

My father is writing me the story of his village
He tells what people did in another country
before I was born how his best friend was buried alive
and the boy survived two days in the ground
how my father was lowered into a well on ropes to discover
clay jars a thousand years old how each jar held seeds

carob and melon and the villagers chose secrecy
knowing the British would come with trucks and dig up their town
My father’s handwriting changes from page to page
sometimes a wild scrawl and disconnected letters
sometimes a new serious upward slant

And me I travel the old roads again and again
wearing a different life in a house surrounded by trees
At night the dropping pecans make little clicks above us
Doors closing

More and more I understand what people do
I appreciate the daily braveries clean white shirts
morning greetings between old men

Again I see how once the boat tips you never forget
the sensation of drowning
even if you sing yourself the familiar songs

Today my face is stone my eyes are buckets
I walk the streets lowering them into everything
but they come up empty

I would tell my father
I cannot move one block without you
I will never recover from your love
yet I stand by his bed saying things I have said before
and he answers and we go on this way
smoothing the silences
nothing can heal

§

Para Mohammed Zeid de Gaza, Idade 15

Não existe bala perdida, senhores.
Nem bala como um gato aflito
agachando sob um arbusto,
nem bala filhote meio sem pelo
se esquivando pelas ruas meia-noite.
A bala não poderia ser uma castanha
batucando o teto de zinco,
nem de longe, nem um floco de pólen
na brisa de Outubro,
nem uma pedra simples na rua.

Então por favor, não suavize.

Vivemos entre pensamentos perdidos,
tarefas abandonadas no meio.
Nossos corações instáveis gordos
de devoções perdidas, nos sentimos em casa
entre pedaços e partes,
as vias vagueantes das palavras.

Mas essa bala não tinha nenhuma inocência, não
desejou bem a ninguém, você não pode nos dizer o contrário
dando um nome leve, essa bala nunca foi amiga
da vida, não deveria receber imunidade
por fala macia – fogo amigo, olho da morte desgarrado
por que temos dado o peso errado ao que fazemos?

Mohammed, Mohammed merece a verdade.
Essa bala não tinha esperanças contentes ocultas,
não estava cantando para si de olhos fechados
embaixo da ponte.

For Mohammed Zeid of Gaza, Age 15

There is no stray bullet, sirs.
No bullet like a worried cat
crouching under a bush,
no half-hairless puppy bullet
dodging midnight streets.
The bullet could not be a pecan
plunking the tin roof,
not hardly, no fluff of pollen
on October’s breath,
no humble pebble in the street.

So don’t gentle it, please.

We live among stray thoughts,
tasks abandoned midstream.
Our fickle hearts are fat
with stray devotions, we feel at home
among bits and pieces,
all the wandering ways of words.

But this bullet had no innocence, did not
wish anyone well, you can’t tell us otherwise
by naming it mildly, this bullet was never the friend
of life, should not be granted immunity
by soft saying – friendly fire, straying death-eye
why have we given the wrong weight to what we do?

Mohammed, Mohammed deserves the truth.
This bullet had no secret happy hopes,
it was not singing to itself with eyes closed
under the bridge.

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