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Ao Kurnúgu, à terra sem retorno (Descida de Ishtar ao Mundo dos Mortos) – tradução de Jacyntho Lins Brandão

Ao Kurnúgu, à terra sem retorno

(Descida de Ishtar ao Mundo dos Mortos)

Tradução de Jacyntho Lins Brandão

 

[1] Ao Kurnúgu, à terra sem retorno,

Ishtar, filha de Sin, seus ouvidos voltou,

E voltou, a filha de Sin, seus ouvidos

 

[4] À casa trevosa, sede do Irkalla,

À casa onde quem entra não sai,

À jornada da rota sem volta,

 

[7] À casa dos moradores privados de luz,

Em que pó é seu sustento, barro seu manjar,

Luz não podem ver, na escuridão habitam,

 

[10] Seus trajes, como de pássaros, vestimentas de penas,

Sobre as portas e ferrolhos camadas de pó.

 

[12] Ishtar à entrada do Kurnúgu quando chegou,

Ao guardião da entrada estas palavras disse:

Guardião, eia!, abre tua entrada,

Abre tua entrada e entre eu!

 

[16] Se não abres a entrada, não entro eu,

Golpearei a porta, os ferrolhos quebrarei,

Golpearei o batente e removerei as portas,

 

[19] Quebrarei o umbral e arrancarei a tranca

E subirei os mortos para comer os vivos:

Aos vivos superar farei os mortos!

 

[21] O guardião abriu a boca para falar,

Disse à majestosa Ishtar:

Estejas aqui, senhora minha, não derrubes!

Vá eu, teus ditos repita à rainha Eréshkigal.

 

[25] E entrou o guardião, disse a Eréshkigal:

Eis aqui: tua irmã Ishtar está à porta,

A que detém a grande corda, turba as águas defronte de Ea, o rei.

 

[28] Eréshkigal isso quando ouviu,

Como tamarisco colhido empalideceu-lhe a face,

Como a orla de um kúninu escureceram-lhe os lábios:

 

[31] O que traz seu coração a mim? O que moveu sua decisão pra mim?

Eis aqui: com os Anunnákki bebo água?

Em vez de comida, manjar de barro, em vez de cerveja, água turvada?

 

[34] Chore eu os moços que deixaram suas esposas!

Chore eu as moças que do regaço de seus maridos foram arrancadas!

O débil bebê chore eu, que não em seu dia foi despachado!

 

[37] Vai, guardião, abre-lhe tua porta!

E faz-lhe como nos ritos antigos.

 

[39] Foi o guardião, abriu-lhe sua porta:

Entra, senhora minha, Kutha te alegre!

O palácio do Kurnúgu regozije em face de ti!

 

[42] Uma porta fê-la entrar e, levando-a, ele tirou a grande coroa de sua cabeça:

Por que, guardião, tiraste a grande coroa de minha cabeça?

Entra, senhora minha, da senhora da Érsetu assim são os ritos.

 

[45] À segunda porta fê-la entrar e, levando-os, tirou os brincos de suas orelhas:

Por que, guardião, tiraste os brincos de minhas orelhas?

Entra, senhora minha, da senhora da Érsetu assim são os ritos.

 

[48] À terceira porta fê-la entrar e, levando-as, tirou as pedras preciosas de seu pescoço:

Por que, guardião, tiraste as pedras preciosas de meu pescoço?

Entra, senhora minha, da senhora da Érsetu assim são os ritos.

 

[51] À quarta porta fê-la entrar e, levando-os, tirou os broches de seu peito:

Por que, guardião, tiraste os broches de meu peito?

Entra, senhora minha, da senhora da Érsetu assim são os ritos.

 

[54] À quinta porta fê-la entrar e, levando-o, tirou o cinto de pedras-de-nascença de sua cintura:

Por que, guardião, tiraste o cinto de pedras-de-nascença de minha cintura?

Entra, senhora minha, da senhora da Érsetu assim são os ritos.

 

[57] À sexta porta fê-la entrar e, levando-as, tirou as pulseiras de seus braços e pernas:

Por que, guardião, tiraste as pulseiras de meus braços e pernas?

Entra, senhora minha, da senhora da Ersetu assim são os ritos.

 

[60] À sétima porta fê-la entrar e, levando-a, tirou a venerável veste de seu corpo:

Por que, guardião, tiraste a venerável veste de meu corpo?

Entra, senhora minha, da senhora da Érsetu assim são os ritos.

 

[63] E tão logo Ishtar ao Kurnúgu desceu,

Eréshkigal viu-a e em face dela tremeu.

Ishtar sem perceber ao lado dela sentou.

 

[66] Eréshkigal a boca abriu para falar,

A Namtar, seu administrador, estas palavras disse:

Vai, Namtar —-

 

[69] Solta sessenta doenças na majestosa Ishtar,

Doença dos olhos em seus olhos,

Doença de braços em seus braços,

 

[72] Doença de pés em seus pés,

Doença do coração em seu coração,

Doença de cabeça em sua cabeça,

Na totalidade dela solta doenças!

 

[76] Após Ishtar, senhora minha, ao Kurnúgu descer,

À vaca o boi não cobria, o asno à asna não emprenhava,

À moça, na rua, não emprenhava o moço:

 

[79] Dorme o moço em sua alcova,

Dorme a moça só consigo.

 

[81] Papsúkkal, administrador dos grandes deuses, curvou a cabeça, a face sombreou,

De luto vestiu-se, emaranhados os cabelos.

Partiu cansado, à face de Sin, seu pai, gritou,

À face de Ea, o rei, corriam-lhe as lágrimas:

 

[85] Ishtar à Érsetu desceu, não voltou,

E tão logo Ishtar ao Kurnúgu desceu,

À vaca o boi não cobre, o asno à asna não emprenha,

À moça, na rua, não emprenha o moço:

 

[89] Dorme o moço em sua alcova,

Dorme a moça só consigo.

 

[91] Ea, em seu sábio coração, concebeu um plano

E criou Asúshu-Námir, um prostituto:

 

[93] Vai, Asúshu-Námir, para a entrada do Kurnúgu volta a tua face,

As sete portas do Kurnúgu se abram à tua face!

Eréshkigal te veja e à tua face regozije:

 

[96] Quando o coração dela se acalma, suas entranhas abrandam,

Empenha-a pela vida dos grandes deuses,

Levanta a cabeça, para o odre os ouvidos volta:

 

[99] Ó senhora minha, o odre me deem, água de seu coração eu beba!

 

[100] Eréshkigal, quando isso ouviu,

Bateu na coxa e mordeu o dedo:

Fizeste-me um pedido que não devias,

Vem, Asúshu-Námir, amaldiçoar-te-ei com grande maldição:

 

[104] Pão das valas da cidade seja tua comida,

O esgoto da cidade, teu vaso de bebida,

A sombra da muralha seja o teu posto,

 

[107] A soleira da porta, o teu domicílio,

O bêbado e o sedento batam-lhe a face!

 

[109] Eréshkigal abriu a boca para falar,

A Namtar, seu administrador, estas palavras disse:

Vai, Namtar, bate em Egalgina,

 

[112] As soleiras decora com corais,

Os Anunnákki traze, em tronos de ouro senta-os,

Ishtar com água da vida asperge e põe-na a mim defronte.

 

[115] Foi Namtar, bateu em Egalgina,

As soleiras decorou com corais,

Os Anunnákki trouxe, em tronos de ouro sentou-os,

Ishtar com água da vida aspergiu e pô-la a ela defronte.

 

[119] À primeira porta fê-la passar e devolveu-lhe a venerável veste de seu corpo;

À segunda porta fê-la passar e devolveu-lhe as pulseiras de seus braços e pernas;

À terceira porta fê-la passar e devolveu-lhe o cinto de pedras-de-nascença de sua cintura;

 

[122] À quarta porta fê-la passar e devolveu-lhe os broches de seu peito;

À quinta porta fê-la passar e devolveu-lhe as pedras preciosas de seu pescoço;

À sexta porta fê-la passar e devolveu-lhe os brincos de suas orelhas;

À sétima porta fê-la passar e devolveu-lhe a grande coroa de sua cabeça.

 

[126] Se ela não te pagar o resgate, traze-a de volta aqui!

A Dúmuzi, esposa dela moça

Lava com água pura, unge com precioso óleo,

 

[129] Veste-o com vestimenta vermelha e que por ele toque a flauta de lápis-lazúli,

As meretrizes ergam sonoro lamento!

 

[131] Então Belíli arrancou suas joias,

Seu pescoço estava coberto de pedras preciosas.

Belíli ouviu o lamento por seu irmão, bateu no peito e soltou suas joias,

As pedras preciosas com que a face da vaca selvagem estava coberta:

 

[135] Não podes privar-me de meu único irmão!

O dia em que Dúmuzi suba e a flauta de lápis-lazúli e o anel de cornalina venham com ele,

Em que carpideiros e carpideiras subam com ele,

O morto suba e aspire o incenso!

 

Palácio de Assurbanípal, rei do mundo, rei da Assíria,

A quem Nabu e Tashmétum deram amplo entendimento.

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Sîn-lēqi-unnini, Ele o abismo viu, série de Gilgámesh, tabuinha 6 – Tradução de Jacyntho Lins Brandão

gilgamesh-tabuinha

 

A sexta tabuinha da versão clássica do poema de Gilgámesh (cerca de 1200 a. C.) traz um episódio completo: após vencer e eliminar Húmbaba, o guardião da floresta de cedros, Gilgámesh reveste-se com sua glória e desperta o desejo da deusa Ishtar, que o assedia; a resposta do herói é incisiva, desrespeitosa e irônica ao ponto de ser cômica; ofendida, a deusa solicita que seus pais lhe deem o Touro-do-Céu, com o qual devasta a terra em vingança; Gilgámesh e o sempre fiel amigo Enkídu matam o touro e festejam mais este trabalho heroico. A tabuinha se fecha com referência ao sonho com maus presságios de Enkídu, o qual introduz a narrativa de sua morte, assunto da tabuinha seguinte.

A tradução abaixo segue a edição crítica de A. R. George, The Babylonian Gilgamesh Epic: introduction, critical edition and cuneiform texts, Oxford: Clarendon Press, 2003.

O texto está relativamente bem conservado, embora haja passagens irremediavelmente corrompidas (as lacunas são assinaladas com ….). Os títulos das partes não pertencem ao original, apenas pretendem, nesta tradução, servir de auxílio à compreensão do leitor.

A glória de Gilgámesh

[1] Lavou-se da sujeira, limpou as armas,
Sacudiu os cachos sobre as costas,
[3] Tirou a roupa imunda, pôs outra limpa,
Com uma túnica revestiu-se, cingiu a faixa:
Gilgámesh com sua coroa se cobriu.

A paixão de Ishtar

[6] À beleza de Gilgámesh ergueu os olhos a rainha Ishtar:
Vem, Gilgámesh, meu marido sejas tu!
[8] Teu fruto dá a mim, dá-me!
Sejas tu o esposo, tua consorte seja eu!

[10] Farei atrelar-te carro de lápis-lazúli e ouro,
As suas rodas de ouro, de âmbar os seus chifres:
[12] Terás atrelados leões, grandes mulas!
Em nossa casa perfumada de cedro entra!

[14] Em nossa casa quando entres,
O umbral e o requinte beijem teus pés!
[16] Ajoelhem-se sob ti reis, potentados e nobres,
O melhor da montanha e do vale te seja dado em tributo!

[18] Tuas cabras a triplos, tuas ovelhas a gêmeos deem cria,
Teu potro com carga à mula ultrapasse,
[20] Teu cavalo no carro majestoso corra,
Teu boi sob o jugo não tenha rival!

A recusa de Gilgámesh

[22] Gilgámesh abriu a boca para falar,
Disse à rainha Ishtar:
[24] Se eu contigo casar,
…. o corpo e a roupa?

[26] …. o alimento e o sustento?
Far-me-ás comer comida própria de deuses?
[28] Cerveja dar-me-ás própria de reis?
….

[30] …. empilhe
…. vestuário
[32] Quem …. contigo casará?
Tu …. que petrificas o gelo,

[34] Porta pela metade que o vento não detém,
Palácio que esmaga …. dos guerreiros,
[36] Elefante …. sua cobertura,
Betume que emporca quem o carrega,

[38] Odre que vaza em quem o carrega,
Bloco de cal que …. o muro de pedra,
[40] Aríete que destrói o muro da terra inimiga,
Calçado que morde os pés de seu dono.

[42] Qual esposo teu resistiu para sempre?
Qual valente teu aos céus subiu?
[44] Vem, deixa-me contar teus amantes:
Aquele da festa …. seu braço;

[46] A Dúmuzi, o esposo de ti moça,
Ano a ano chorar sem termo deste;
[48] Ao colorido rolieiro amaste,
Nele bateste e lhe quebraste a asa:
Agora fica na floresta a piar: asaminha!;

[51] Amaste o leão, cheio de força:
Cavaste-lhe sete mais sete covas;
[53] Amaste o cavalo, leal na batalha:
Chicote com esporas e açoite lhe deste,

[55] Sete léguas correr lhe deste,
Sujar a água e bebê-la lhe deste,
[57] E a sua mãe Silíli chorar lhe deste;
Amaste o pastor, o vaqueiro, o capataz,

[59] Que sempre brasas para ti amontoava,
Todo dia te matava cabritinhas:
[61] Nele bateste e em lobo o mudaste,
Expulsam-no seus próprios ajudantes
E seus cães a coxa lhe mordem;

[64] Amaste Ishullánu, jardineiro de teu pai,
Que sempre cesto de tâmaras te trazia,
[66] Todo dia tua mesa abrilhantava:
Nele os olhos puseste e a ele foste:

[68] Ishullánu meu, tua força testemos,
Tua mão levanta e abre nossa vulva!
[70] Ishullánu te disse:
Eu? Que queres de mim?

[72] Minha mãe não assou? Eu não comi?
Sou alguém que come pão de afronta e maldição,
[74] Alguém de quem no inverno a relva é o abrigo? –
Ouviste o que ele te disse,

[76] Nele bateste e em sapo o mudaste,
Puseste-o no meio do jardim,
[78] Não pode subir a …., não pode mover-se a …. .
E queres amar-me e como a eles mudar-me!

A fúria de Ishtar

[80] Ishtar isso quando ouviu,
Ishtar furiosa aos céus subiu,
[82] Foi Ishtar à face de Ánu, seu pai, chorava,
À face de Ántum, sua mãe, corriam-lhe as lágrimas:

[84] Pai, Gilgámesh me tem insultado,
Gilgámesh tem contado minhas afrontas,
[86] Minhas afrontas e maldições.
Ánu abriu a boca para falar,

[88] Disse à rainha Ishtar:
O quê? Não foste tu que provocaste o rei Gilgámesh,
[90] E Gilgámesh contou tuas afrontas,
Tuas afrontas e maldições?

[92] Ishtar abriu a boca para falar,
Disse a Ánu, seu pai:
[94] Pai, o Touro-do-Céu dá-me,
A Gilgámesh matarei em sua sede!

[96] Se o Touro não me dás,
Golpearei o submundo agora, sua sede,
[98] Mandarei aplainá-lo até o chão
E subirei os mortos para comer os vivos:
Aos vivos superarão os mortos!

[101] Ánu abriu a boca para falar,
Disse à rainha Ishtar:
[103] Se o Touro me pedes,
As viúvas de Úruk sete anos feno ajuntem,
Os lavradores de Úruk façam crescer o pasto.

[106] Ishtar abriu a boca para falar,
Disse a Ánu, seu pai:
[108] …. já guardado,
…. já cultivado,

[110] As viúvas de Úruk sete anos feno juntaram,
Os lavradores de Úruk fizeram crescer o pasto.
[112] Com a ira do Touro eu vou …. .
Ouviu Ánu ao dito por Ishtar,
E a corda do Touro em suas mãos pôs.

O Touro-do-Céu

[115] …. e conduzia-o Ishtar.
À terra de Úruk quando ele chegou,
[117] Secou árvores, charcos e caniços,
Desceu ao rio, sete côvados o rio baixou.

[119] Ao bufar o Touro a terra fendeu-se,
Uma centena de moços de Úruk caíram-lhe no coração;
[121] Ao segundo bufar a terra fendeu-se,
Duas centenas de moços de Úruk;

[123] Ao terceiro bufar a terra fendeu-se,
Enkídu caiu-lhe dentro até a cintura:
[125] E saltou Enkídu, ao Touro agarrou pelos chifres,
O Touro, em sua face, cuspiu baba,
Com a espessura de sua cauda …. .

[128] Enkídu abriu a boca para falar,
Disse a Gilgámesh:
[130] Amigo meu, ufanávamos …. em nossa cidade.
Como responderemos a toda essa gente?

[132] Amigo meu, testei o poder do Touro
E sua força, aprendi sua missão ….
[134] Voltarei a testar o poder do Touro,
Eu atrás do Touro ….

[136] Agarrá-lo-ei pela espessura da cauda,
Porei meu pé atrás de seu jarrete,
[138] Em …. seu,
E tu, como açougueiro valente e hábil,

[140] Entre o dorso dos chifres e o lugar do abate teu punhal enfia!
Voltou Enkídu para trás do Touro,
[142] Agarrou-o pela espessura da cauda,
Pôs o pé atrás de seu jarrete,

[144] Em …. seu,
E Gilgámesh, como açougueiro valente e hábil,
[146] Entre o dorso dos chifres e o lugar do abate seu punhal enfiou!
Após o Touro matarem,

[148] Seu coração arrancaram e em face de Shámash puseram,
Retrocederam e em face de Shámash puseram-se:
[150] Assentaram-se ambos juntos.
Chegou Ishtar sobre o muro de Uruk, o redil,

[152] Dançou em luto, proferiu um lamento:
Este é Gilgámesh, que me insultou, o Touro matou!
[154] E ouviu Enkídu o que disse Ishtar,
Rasgou a anca do Touro e em face dela a pôs:

[156] E a ti, se pudera, como a ele faria:
Suas tripas prendesse eu em teus braços!
[158] Reuniu Ishtar as hierodulas, prostitutas e meretrizes,
Sobre a anca do Touro em luto a carpir.

A celebração da vitória

[160] Chamou Gilgámesh os artesãos, os operários todos,
A espessura dos cornos observaram os filhos dos artesãos:
[162] Trinta minas de lápis-lazúli de cada um o peso,
Duas minas de cada um a borda,

[164] Seis medidas de óleo a capacidade de cada;
À unção de seu deus, Lugalbanda, os dedicou,
[166] Levou-os e pendurou em sua câmara real.
No Eufrates lavaram suas mãos,

[168] E abraçaram-se para partir.
Pela rua de Úruk cavalgavam,
[170] Reunido estava o povo de Úruk para os ver.
Gilgámesh às servas de sua casa estas palavras disse:

[172] Quem o melhor dentre os moços?
Quem ilustre dentre os varões?
[174] Gilgámesh o melhor dentre os moços,
Gilgámesh ilustre dentre os varões!

[176] …. a quem conhecemos em nossa fúria,
…. na rua quem o insulte não há,
[178] …. caminho que …. seu.
Gilgámesh em seu palácio fez uma festa:

[180] Deitados estão os moços, que nos leitos à noite dormem,
Deitado está Enkídu, um sonho vê;
[182] Levanta-se Enkídu para o sonho resolver.
Diz ao amigo seu:

[7, 1] Amigo meu, por que discutiam em conselho os grandes deuses?

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A prece de Nínsun (Sîn-lēqi-unninni, Ele o abismo viu, serie de Gilgámesh, tabuinha 3, v. 13-135) – tradução do acádio por Jacyntho Lins Brandão

É usual na tradição médio-oriental que as obras sejam conhecidas a partir de suas primeiras palavras, como, neste caso: ša naqba imuru (literalmente, ‘aquele que o abismo viu’). Esse é o título original do que, desde o século XIX, se costuma chamar poema ou epopeia de Gilgámesh.

A atribuição do texto a Sîn-lēqi-unninni encontra-se em catálogo redigido no primeiro terço do primeiro milênio a. C. e achado em Nínive, no qual se lê: “Série de Gilgámesh (iškar Gilgāmeš): da boca (ša pî) de Sîn-lēqi-unninni, [sacerdote-exorcista]”. A última qualificação é de leitura duvidosa, já que depende de conjetura, tendo sido proposto que se lesse, em vez de “exorcista”, “mago” ou “adivinho”.

A expressão “da boca de…” é um modo de indicar aquele a quem se deve a versão em causa, equivalendo a “segundo…” Mesmo que a noção de autor não corresponda exatamente à nossa, admite-se que Sîn-lēqi-unnini tenha composto a versão clássica do poema por volta dos séculos XII-XI antes de nossa era, remanejando relatos anteriores. Parece que é a ele que se deve o tratamento grandioso da saga de Gilgámesh, centrado na questão da mortalidade do homem.

Entretanto, note-se que Sîn-lēqi-unnini é reivindicado como ancestral por muitos escribas de Úruk, ou seja, trata-se do epônimo de toda uma categoria de intelectuais – num processo semelhante ao que se dá, na Grécia, com os Homeridas e Homero. Mas as semelhanças param aí, uma vez que, diferentemente de Homero – um aedo (cantor) que lida com uma tradição oral e é em grande parte produto dela –, Sîn-lēqi-unninni é escriba e trabalha com uma tradição escrita sobre Gilgámesh, em sumério e acádio, que já contava, em sua época, com mais de meio milênio.

A versão babilônica (clássica) do poema ganhou recentemente uma acurada edição crítica que levou em conta todos os manuscritos existentes: A. R. George, The Babylonian Gilgamesh Epic, Introduction, critical edition and cuneiform texts, Oxford: Clarendon, 2003. A importância de uma edição assim está em considerar o conjunto da tradição manuscrita, estabelecendo uma versão padrão, sem desprezar as variantes. Para dar um exemplo, o verso 55 da prece de Nínsun não aparece em vários manuscritos, mas foi considerado autêntico por George. Em suma: diante dessa nova edição, se impõe que todas as traduções sejam refeitas. É da lição do texto acádio que ela estabelece que se traduziu o trecho abaixo.

A prece da deusa Nínsun, mãe de Gilgámesh, faz parte da tabuinha 3. Nela se expressa todo o receio materno ante a notícia de que o filho, na companhia de seu companheiro Enkídu, pretende ir até a Floresta de Cedros, no Líbano, para enfrentar Húmbaba, o monstruoso guardião do local. Como matar Húmbaba vem a ser o grande feito heroico de Gilgámesh, todos os preparativos que o antecedem têm como função torná-lo mais destacado e memorável.

A poesia semítica, incluindo a escrita em acádio, não tem métrica fixa nem usa de rima. O ritmo poético decorre de o verso, em geral, supor uma divisão em duas partes, marcada tanto em termos de fala quanto de sentido (o verso 19, por exemplo, deveria ser lido assim: “Gilgámesh e Enkídu / foram ao templo de Nínsun”). Exploram-se muitos recursos paralelísticos, incluindo assonâncias e repetição de palavras, de versos ou mesmo de cenas. Esses efeitos foram buscados na tradução.

Os locais marcados com —- indicam pontos em que o texto cuneiforme inscrito nas tabuinhas de argila se encontra danificado, impossibilitando a leitura. Observe-se que no verso 97 foi o próprio escriba que anotou “texto quebrado”, ou seja, o manuscrito que lhe serviu de base para produzir sua cópia já se encontrava corrompido na própria Antiguidade.

Estão em cena Nínsun, cujo epíteto é “vaca selvagem” e cujo traço principal é a sabedoria, Gilgámesh e Enkídu. Nínsun dirige-se a Shámash, o sol, e faz referência a outros desues: a esposa de Shámash, Aia; os Annúnaki, deuses celestes; Ea, deus das águas subterrâneas (o Apsu), insigne por sua sabedoria; Írnina, um dos nomes de Ishtar, a deusa do amor, mas então considerada em sua dimensão guerreira e infernal; e Ningíshzida, deus subterrâneo.

akítu a que se faz referência nos versos 31-34 era uma festa babilônica, geralmente celebrada ano novo.

Jacyntho Lins Brandão

 A prece de Nínsun

[13] Gilgámesh abriu a boca para falar,
disse a Enkídu:
[15] Vem, amigo, vamos ao templo de Nínsun,
À face de Nínsun, grande rainha,

[17] Nínsun inteligente, sábia, tudo sabe,
Passos calculados disporá p’ra nossos pés.
[19] E deram-se as mãos, a mão de um na do outro,
Gilgámesh e Enkídu foram ao templo de Nínsun,
À face de Nínsun, grande rainha.

[22] Gilgámesh ergueu-se, entrou em face da deusa sua mãe,
Gilgámesh a ela diz, a Nínsun:
[24] Nínsun, sou ousado a ponto de percorrer
O longo caminho até Húmbaba:

[26] Uma batalha que não conheço enfrentarei,
Em jornada que não conheço embarcarei.
[28] Dá-me tua bênção e que ir eu possa!
Que tua face eu reveja e salvo esteja,

[30] E adentre a porta de Uruk, alegre o coração!
Possa retornar e o akítu duas vezes ao ano celebrar,
[32] Possa o akítu duas vezes ao ano celebrar!
akítu tenha lugar e o festival se faça,
Os tambores sejam percutidos diante de ti!

[35] A vaca selvagem Nínsun as palavras de Gilgámesh, filho seu,
e de Enkídu em aflição ouviu.
[37] À casa do banho lustral sete vezes foi,
Purificou-se com água de tamarisco e ervas,
[39] —- uma bela veste, adorno de seu corpo,
—- adorno de seus seios,
[41] — posta e com sua tiara coroada,
—- as meretrizes o chão empoeirado.

[43] Galgou as escadas, subiu ao terraço,
Subindo ao terraço, em face de Shámash incenso pôs,
[45] Pôs a oferenda em face de Shámash, seus braços alçou:
Por que puseste em meu filho Gilgámesh este coração sem sossego?

[47] Agora o tocaste e ele percorrerá
O longo caminho até Húmbaba:
[49] Uma batalha que não conhece enfrentará,
Em fogo que não conhece embarcará.

[51] Até o dia em que ele vá e volte,
Até que atinja a Floresta de Cedros,
[53] Até que o feroz Húmbaba ele mate,
E o malvado que detestas desapareça da terra,

[55] De dia, quando tu os limites —-
Ela, Aia, não te tema, Aia, a esposa, te lembre:
[57] Este aos guardas da noite confia,
Ao lusco-fusco —-

[59] —-
—- para
[61] —-
—- brilhar

[63] Abriste, Shámash, —- para a saída do rebanho,
Para —- saíste sobre a terra,
[65] Das montanhas —- brilharam os céus,
Os bichos da estepe —- tua luz vermelha,
[67] Esperou —- a eles
Animais —- tu
[69] —-
Morto —- vida

[71] Para —- tua cabeça
Para —- a multidão se reúne,
[73] Os Anúnnaki em tua luz prestam atenção.
Ela, Aia, não te tema, Aia, a esposa, te lembre:

[75] Este aos guardas da noite confia,
A estrada que —-
[77] Toque e —-
Porque —-

[79] Jornada —-
E —-
[81] Até que Gilgámesh vá à Floresta de Cedros,
Sejam longos os dias, sejam curtas as noites.

[83] Esteja cingida sua cintura, sejam largos seus passos,
Para a noite, que ele acampe ao entardecer,
[85] Ao entardecer —- ele durma.
Ela, Aia, não te tema, Aia, a esposa, te lembre:

[87] No dia em que Gilgámesh, Enkídu e Húmbaba meçam forças,
Incita, Shámash, contra Húmbaba os grandes ventos,
[89] Vento sul, norte, do levante, do poente – ventania, vendaval,
Temporal, tempestade, tufão, redemoinho,

[91] Vento frio, tormenta, furacão:
Os treze ventos se alcem, de Húmbaba escureçam a face,
[93] E a arma de Gilgámesh a Húmbaba alcance!
Depois de teus próprios —- acesos,

[95] Nesta hora, Shámash, a teu devoto volta a face!
Tuas mulas ligeiras —- tuas,
[97] Um assento tranquilo, um leito, se te forneça,
[97a]    Um assento —-

[98] Os deuses, teus irmãos, manjares —- te tragam,
Aia, a esposa, com a limpa bainha de seu manto tua face enxugue!
[100] A vaca selvagem Nínsun repetiu diante de Shámash seu comando:
Shámash, Gilgámesh aos deuses não —-?

[102] Contigo os céus não compartilhará?
Com a lua não compartilhará o cetro?
[104] Com Ea, que habita o Apsu, não será sábio?
Com Írnina o povo de cabeças negras não dominará?
Com Ningíshzida o lugar sem retorno não habitará?

[107] Fa-lo-ei, Shámash —-
Para não —- para não —- a Floresta de Cedros,
[109] —- para não alcançar,
—- tua grande divindade.

[111] —-
—-
[113] —- como o próprio povo,
—- tu como —-
para —- Húmbaba fazeres entrar.

[116] Depois que a vaca selvagem Nínsun a Shámash reforçou o encargo,
A vaca selvagem Nínsun, inteligente, sábia, tudo sabia,
[118] —- Gilgámesh —-
Ela apagou a oferenda de incenso —-

[120] A Enkídu chamou e proferiu-lhe o comando:
Forte Enkídu, não saíste de minha vagina!
[122] Agora tua raça estará com os oblatos de Gilgámesh,
As sacerdotisas, as consagradas e as hieródulas.

[124] Um sinal ela pôs no pescoço de Enkídu:
A sacerdotisa adotou o exposto
[126] E as filhas dos deuses criaram o noviço.
Eu própria, a Enkídu, que amo, adotei como filho,

[128] A Enkídu, como irmão, Gilgámesh favoreça!
—-
[130] E —-
Quando vás com Gilgámesh à Floresta de Cedros,

[132] Sejam longos os dias, sejam curtas as noites.
Esteja cingida tua cintura, sejam largos teus passos,
[134] Para a noite, que acampes ao entardecer,
—- [o] protejas.

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poesia

Vinícius Leonardi (1984)

Vinícius Leonardi (1984) cresceu na cidade de Lapa-PR e mora em Curitiba. Interrompeu curta carreira em estudos de matemática e física teórica, dedicando-se desde então a outras ocupações. Interessa-se por literatura, filosofia e teologia. Escreve no blog http://www.aragemdeideias.blogspot.com.br/

 

Fluxo

Estremece a monotonia das rochas
vence
o lodo ensanguentado
ao vento
jorrando
carrega miríades veladas.

Vigor em vales,
alcança frutos
silencia o céu
delicia lágrimas
contempla montanhas
sussurros das musas
negros cabelos
desviam o horizonte
e a luz
apaga
rochas de ornamentos intangíveis
trazendo hino que abençoa as águas.

Agora só uma baía
e o calar da noite
sem melancolia.

Um pássaro encontra semente rara doutros ares.

Por isso
clamava a terra.

Chuva

A chuva
arrasta multidões
em gemidos
gritos de gozo.

Apaga a face do horizonte
elimina a memória
do que resiste
ao brotar de pus negro
dentre as chamas
da espada cravada no ventre infértil.

A imensidão, lodo
harmonia,
cintilar de cacos em trincheiras.

Estrelas não são mais.

E o mundo, único,
absurdamente único,
enforcado
no próprio não ser
enredado
pelos ardis do infinito.

Em um instante
intangível
lúcido
um menino se dobra
e o que as mãos enlameadas revelam entre os dedos

são lágrimas da eternidade.

Poço

Faz-me miserável
essa insistência
causas revoltas pelo vento
demência.

Faz-me miserável
em agruras
quando Ítaca revisitada
é nada.

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poesia

Hugo Langone (1987)

José de Arimateia

Se houve quem
Incompreendesse
O momento

Foi este
De que pouco se sabe

Cujo peito
Na noite sentiu o esplendor
Dum morto
Seu amigo

E ouviu
Segredar no silêncio
Da terra, dos anjos

Uma palavra só,
Incessante

*

Poema

É belo o poema que traz
Nomes de flores
E une a arte do Deus
À solidão de um só homem.
O poema que tem o olor
Das violetas, que transforma n’algo
O lírio e recorda quão delicada
É a criação.

*
Qual um historiador
 

Não se sabe que é cruel o mar
Até que se prostrem Penélope
Dido, Mônica, às suas margens
Até que se prostrem onde o mar toca a costa
E azul nenhum vale a terra firme
Que talvez florirá hoje, amanhã

Em mil anos.

*

Ao sacristão da Santa Maria Maggiore de Florença

Quando perguntarem por que mancas,
guarda para ti, contrito:
não diz que é o olhar de Francisco
e o linho roxo,
que um anjo te pesa ao pé a cada passo;
não diz, nem diz também que tem sorte, que
“é leve o peso da cruz
em meus ombros –
rígido como essa madeira, hoje
sou firme como o lenho!”
Deixa tudo de fora, sim,
nem diz que é só hoje,
que a cada manhã
todo peso se renova sempre,
imprevisível.

Hugo Langone é carioca, mestre e doutorando em Teoria da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Aos 27 anos, traduziu autores como São João da Cruz, Bernard Lonergan, Roger Scruton, Lionel Trilling, Marshall McLuhan, Leo Strauss (no prelo), entre muitos outros. Sua poesia, eminentemente católica, é uma poesia de resgate da dimensão sobrenatural, do anseio pelo transcendente, na esfera do cotidiano. Os poemas que o Escamandro agora publica são de seu primeiro livro, recém-concluído.

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poesia, tradução

Anacreonte

Natural de Téos, Ásia menor, Anacreonte viveu entre os séculos VI e V a.C. Frequentou a corte de Polícrates, em Samos, e, quando este foi assassinado pelos persas em 522, mudou-se para Atenas, onde participou da corte do tirano Hiparco.

Foi bastante popular, tanto em vida quanto depois de sua morte. Máximo de Tiro dizia que até mesmo as crianças o amavam por suas palavras doces e cantos graciosos.

Não se pode dizer, com Ateneu, que ele fez depender toda sua arte literária da intoxicação, mas, sua poesia, em boa parte dizia a respeito ao vinho, aos banquetes e ao amor (Antípater da Sidônia, na Antologia Palatina, o apresenta como um devoto das Musas, Eros e Dioniso).

Apresento aqui algumas traduções minhas de uns fragmentos breves de sua poesia. O primeiro deles, o fr. 505d, aparece citado nos Stromata, 6, 14, 7, de Clemente de Alexandria:

o amor o delicado
brotando com diademas
de muitas flores quero cantar
ele! dos deuses soberano,
ele! que subjuga os mortais.

 

Fr. 396, citado por Ateneu (que Demétrio, em seu Sobre o Estilo, afirma ter um ritmo semelhante ao de um velho embriagado):

traga água, traga vinho, jovem! traga floridas para nós
as coroas, para que eu lute contra o Amor.

 

Fr. 398, que aparece nos escólios a Homero:

os dados do Amor são
a loucura e o tumulto.

 

Fr. 385, preservado em Estobeu:

grisalhas já estão
as temporas e branca a cabeça
e não mais a graciosa juventude
está conosco – velhos estão os dentes,
e não da doce vida
muito tempo resta
por isso choro
sempre o Tártaro temendo
é terrível do Hades
as profundezas, dolorosa até ele
o caminho de descida – e é certo
que o que para lá desce não sobe mais.

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Rua Musas

Saiu, na semana passada, o meu livro, Rua Musas, publicado pela  Patuá. Achei que a edição, em capa dura, ficou muito bonita.

Image

 

 

Aproveitando o lançamento, gostaria de colocar aqui a apresentação do livro feita pelo  Hugo Langone  (ah, o livro pode ser adquirido pelo site da Patuá: http://www.editorapatua.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=203 ):

“A poesia de Bernardo parece exigir que o mundo todo se cale para que possam falar a manhã, as cigarras, a correnteza, o sol, a infância. É uma obra da calma, para a qual não há urgências. Mas não nos enganemos; não pensemos que sua simplicidade seja a artimanha de um poeta que deseja fugir do rigor do verso, tampouco que seja reflexo de um descompromisso que o mundo de hoje julga assaz inaceitável. Há na poesia de Bernardo o compromisso que é, de todos, o mais universal: a simplicidade de seus versos reflete a simplicidade a que aspira o coração do poeta e de todos nós; em tudo aquilo que seus textos tomam para si, parece reverberar algo maior que está noutra parte, uma paz derradeira que nos é sedutora porque é de fato aquilo a que todos tendemos. Os versos que aqui se encontram estão sempre a apontar para o alto, como se esperando ou recordando uma plenitude de que só encontram sinais”.

 

Também aproveito a ocasião para apresentar três poemas do livro, que também estão no site da editora.

 

bicicletas azuis se dirigem ao infinito
montanhas, um trilho de trem

e o frio de julho, quase metafísico 
a rememorar no fim da tarde
coisas apenas pressentidas

em uma soneca, uma criança
celebra o mistério da existência

sua mãe, esquecida que cansada
sorri

***

ela ria dos versos insensatos
imprecisos

o coração, desvairado
aliciador dos menores carinhos, mendigo nas horas vagas
não sabia ser sincero
não cultivava a língua como ascese
mas como forma
de expressão

e o que sentia ao vê-la, sorrindo ao vento forte da tarde

isso
não havia ainda sido nomeado

***

 comédia de dores desregradas

som de um sileno insolente 
tramando a própria fuga

somos o choque
de átomos cadentes e espaço
a borbulhar mundos infinitos
e sua dissolução

a procrastinar a existência
na fronteira de cada calafrio

a pairar perdido no pós
coito da modernidade
como grito engolido

a desvelar-se sob o sol do meio-dia

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poesia

propósitos antigos

propósitos antigos se dissolvem na correnteza
a embriaguez do vinho também se embriaga
já próxima ao limiar

mil perguntas rogam por resposta
e as montanhas se calam
escondendo as rugas sob as pedras

um velho lança o anzol
sobre os escombros de uma civilização
o peão insiste em rodar
no circo de concreto

ao fundo
a suave cantiga do infinito

bernardo lins brandão

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poesia, tradução

D.H. Lawrence – Mystic (tradução de Lucas Haas Cordeiro)

O poema Mystic faz parte do livro Snake and other poems. Além da curiosa temática sobre animais, Lawrence explora a mística como tema central em vários pontos do livro. Trata da experiência cotidiana que, tornada transcendente por certa disposição de espírito específica – leia-se profunda e expansiva -, reencontra um elemento de religiosidade que vai além dos dogmas e das palavras, porque sustenta-se na polivalência do absurdo, naquilo que não incorre na linguagem, que sempre falha. Mesmo assim, Lawrence carrega seus poemas, às vezes, de um humor refinado, quando não cruento e simplório, de modo que os opostos se encontram em um mesmo verso, e a experiência se repete na máxima de um misticismo do incompleto.

Lucas Haas Cordeiro

Mística

Eles chamam a experiência dos sentidos de mística, quando a experiência é consciente.

Assim, uma maçã é mística quando eu degusto

o verão e a neve, o caos selvagem da terra

e a insistência do sol.

Eu sinto todas essas coisas em uma boa maçã.

Ainda que certas maçãs saibam apenas à água, úmido e azedo,

e outras a um excesso de sol, doce salobro

como a água da lagoa que recebe sol em demasia.

Se eu digo que sinto tantas coisas em uma simples maçã,

me chamam de místico, ou seja, mentiroso.

A única forma de comer uma maçã é enfiando-a goela abaixo como um porco

e não saber a nada

do que seja real.

Mas se eu como uma maçã, eu gosto de degustá-la com todos os meus sentidos despertos.

Enfiá-la goela abaixo como um porco é o que faz a terra aos cadáveres.

Mystic

They call all experience of the senses mystic, when the experience is

considered.

So an apple becomes mystic when I taste in it

the summer and the snows, the wild welter of earth

and the insistence of the sun.

All of which things I can surely taste in a good apple.

Though some apples taste preponderantly of water, wet and sour

and some of too much sun, brackish sweet

like lagoon water, that has been too much sunned.

If I say I taste these things in an apple, I am called mystic, which

means a liar.

The only way to eat an apple is to hog it down like a pig

and taste nothing

that is real.

But if I eat an apple, I like to eat it with all my senses awake.

Hogging it down I call the feeding of corpses.

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crítica, poesia, tradução

S. João da Cruz – Poemas Selecionados

(Saiu recentemente pela 7Letras uma coletânea de poemas de S. João da Cruz, com tradução de Hugo Langone e um prefácio meu. Gostaria de aproveitar a oportunidade para postar  o início do prefácio e dois dos poemas traduzidos)

Juan de Yepes Álvarez nasceu em 24 de junho de 1542, em Frontiveros, uma pequena cidade situada ao noroeste da província de Ávila, e morreu em 14 de dezembro em 1591, quando o sino chamava os monges do convento carmelita de Úbeda para a oração. Tornou-se carmelita em 1564 e, em 1567, mesmo ano em que foi ordenado padre, associou-se a Tereza de Jesus em sua reforma da ordem carmelita. A Espanha vivia o seu século de ouro. Carlos I (1519-1556) e seu filho, Filipe II (1556-1598) governavam não apenas os territórios espanhóis e suas colônias ultra-marinas, mas também regiões da Alemanha, Hungria, Países Baixos e Itália. Grandes nomes despontavam nas artes, na filosofia e na religião. O século XVI é o século de El Greco (1541-1614), Francisco Suarez (1548-1617), Tomás Luiz de Victoria (1548-1611) e Miguel de Cervantes (1547-1616). Na poesia, é a época de Garcilaso de la Vega (1501-1536), Fernando de Herrera (1534-1597), Frei Luís de Leon (1527-1591) e Tereza de Jesus (1515-1582), além do próprio Juan, que tomou o nome de João da Cruz quando aderiu à reforma da promovida por Tereza.

Os espanhóis tinham seus olhos voltados para o Novo Mundo, seus mistérios e promessas de riqueza. Muitos apostavam os bens e a vida em uma viagem de sucesso duvidoso, no qual os ganhos podiam ser grandes e as perdas, ainda maiores. Esse não era o caso de João, que desde pequeno, sentia-se chamado para uma outra jornada, ainda mais dura e sedutora, cuja meta era Deus, que, assim diziam os viajantes mais antigos, habita o centro da alma. Uma jornada que não é feita com os pés, cavalos ou naus, mas com a própria alma que, no final, é capaz de transcender-se e mergulhar no divino.

Tendo se tornado um profundo conhecedor do caminho, João da Cruz tornou-se um guia para aqueles que nele desejavam se aventurar. Foi diretor espiritual de inúmeras monjas carmelitas, entre elas a própria Tereza de Jesus que, sendo quase 30 anos mais velha que ele, era também uma antiga conhecedora das vias espirituais, e escritor de importantes textos místicos, que lhe valeram, em 1926, o título de Doutor da Igreja. No entanto, antes de tudo, foi poeta. Não somente por seus poemas, que o colocaram no concorrido cânone do século XVI espanhol, mas porque a poesia era seu modo primordial de exprimir a admiração diante daquilo que havia visto e experimentado. Longe de serem ilustrações didáticas de uma doutrina, seus poemas são o fundamento dos tratados, que foram estruturados como explicações e desenvolvimentos do que já havia sido escrito poeticamente. Desse modo, no prólogo da Subida do Monte Carmelo, por exemplo, João afirma que “encerra nas canções seguintes toda a doutrina que de desejo expor (…), assim como o segredo de alcançar o mais alto cume desta montanha”. E no Cântico Espiritual, ele resume o tratado como uma “explicação das canções que tratam do exercício de amor entre a alma e Cristo, seu Esposo”.

É que o caminho místico não se presta tanto a ser descrito através dos conceitos de uma exposição teórica quanto a partir dos símbolos da poesia. Nas palavras de João, também do prólogo do Cântico Espiritual, “como estas canções, Revma. Madre, parecem ter sido escritas com algum fervor de amor de Deus, cuja sabedoria amorosa é tão imensa que atinge de um fim até outro, e a alma se exprime, de certo modo, com a mesma abundância e impetuosidade do amor que a move e inspira, não penso agora em descrever toda a plenitude e profusão nelas infundida pelo fecundo espírito de amor. Seria, ao contrário, ignorância supor que as expressões amorosas de inteligência mística, como são as das presentes Canções, possam ser explicadas com clareza por meio de palavras”.

Romance sobre o salmo “Super Flumina Babylonis”

Sobre todas as correntes

que em Babilônia encontrava,

ali me sentei chorando,

ali a terra regava,

recordando-me de ti,

oh, Sião!, a quem amava.

Era doce a tua memória,

e com ela mais chorava.

Deixei os trajes de festa,

e os de trabalho tomava;

colguei nos verdes salgueiros

a música que levava,

colocando-a na esperança

do que em ti eu esperava.

Ali me feriu o amor,

e o coração me arrancava.

Disse-lhe que me matasse,

pois de tal sorte chagava.

Eu me atirava ao seu fogo,

sabendo que me abrasava,

perdoando a avezinha

que no fogo se acabava.

Eu em mim ia morrendo,

e só em ti respirava.

Eu por ti em mim morria,

e por ti ressuscitava,

pois a memória de ti

dava vida e a tirava.

Deleitavam-se os estranhos

entre os quais cativo estava,

e pediam-me cantares

dos que em Sião eu cantava;

canta de Sião um hino,

vejamos como soava.

Dizei: como em terra alheia,

onde por Sião chorava,

cantarei eu a alegria

que em Sião outrora achava?

Eu no olvido a lançaria

se em terra alheia gozava.

Ao meu paladar se apegue

a língua com que falava

se de ti eu me olvidar

nessa terra onde morava.

Sião, pelos verdes ramos

que Babilônia me dava,

de mim se olvide mi’a destra,

o que em ti mais eu amava,

se eu de ti não recordar

naquilo em que mais gozava,

e se então tivesse eu festa

sendo sem ti festejada.

Oh, filha de Babilônia,

mísera e desventurada!

Bem-aventurado era

aquele em quem confiava,

que há de te dar o castigo

que da mão tua levava.

E juntará seus pequenos

e a mim, pois que em ti chorava,

à pedra que Cristo era,

pelo qual eu te deixava.

 

Debetur soli gloria vera Deo.

 

 

Noite escura

Em que canta a alma a ditosa ventura que teve em passar pela ESCURA NOITE DA FÉ, em desnudez e purgação sua, à união com o Amado.

 

Em uma Noite escura,

com ânsias, em amores inflamada,

oh, ditosa ventura!,

saí sem ser notada,

estando já mi’a casa sossegada;

 

às escuras, segura,

pela secreta escada e disfarçada,

oh, ditosa ventura!,

no escuro, emboscada,

estando já mi’a casa sossegada;

 

pela Noite ditosa,

em segredo, de todos escondida

e co’a vista trevosa,

sem outra luz ou guia

que aquela que em meu coração ardia.

 

Ela é que me guiava,

mais firme do que a luz do meio-dia,

até onde esperava

quem eu já bem sabia,

ali onde ninguém aparecia.

 

Oh, Noite que guiaste!

oh, Noite mais amável que a alvorada!

oh, Noite que juntaste

Amado com amada,

amada neste Amado transformada!

 

Em meu peito florido,

que todo só p’ra ele se guardava,

pousou adormecido;

afagos eu lhe dava

e de cedros o leque refrescava.

 

Da ameia o ar soprado,

quando eu os seus cabelos rafiava,

com seu toque aplacado

meu colo molestava

e todos meus sentidos enlevava.

 

Quedei-me, olvidei-me,

minha face reclinei sobre o Amado;

cessou tudo, deixei-me,

deixando meu cuidado

por entre as açucenas olvidado.

 

 

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