Yasmin Nigri (1990-)

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Extinção tem sido a palavra de ordem nesses últimos tempos. E a violência, dessa vez, não vem do escuro. Tudo está às claras: um massacre que ainda cai sobre nós, hoje vira sombra. Não mais se esconde por trás da política a sombra da polícia: ela se mostra de frente, por trás, por todos os lados as duas em uma, por cima e por baixo somos violentamente penetrados por uma máquina de extermínio. Hoje, eu me pergunto se o mercúrio não tem estado sempre retrógrado. Não mais me pergunto onde a comunicação falha: ela não falha. Claramente, ela acerta o buraco no qual nos vemos lançados a cada dia. O mundo vai mal.

Ando pensando que o último asteroide – aquele supostamente responsável pela extinção dos dinossauros – caiu há aproximadamente 66 milhões de anos. Segundo fontes duvidáveis (como todas deveriam ser), a maior das extinções foi há 251 milhões de anos e acabou com cerca de 90 a 96% das espécies. A extinção seguinte a essa (e imediatamente anterior a dos dinossauros) foi num intervalo de aproximadamente 50 milhões de anos. Então, se a última foi há 66, já passamos desse intervalo. Tudo indica que estamos com tempo, não? A velocidade da rotação da terra anda ficando mais lenta também, cada dia mais. E isso não é bom. É uma espécie de extinção. Apesar de o processo ser lento e ainda termos algum tempo, é inevitável. Os dias são de guerra. Há urgência. Os poetas andam enxergando sombras brancas rasgando o breu. Em uma única visada: na sombra de um meteoro cruzando o espaço, a barbárie dos tempos. Atemporal, a colonização penetra, rasga, invade. A queda se anuncia nos olhos que fitam o escuro. Yasmin Nigri, acostumada com a escuridão da noite (“Sempre fui noturna”), nos mostra que fitar o escuro é enxergar rastros de extinção.

Poucas coisas apontam para uma sobrevida. Seremos lembrados após a morte? Um jornal online disse que a exploração está no nosso DNA. Precisamos de mais tempo? Não precisamos de mais tempo para saber que sobrevivemos, ainda, com a poesia: é nela que convivemos intimamente com corpos estranhos. Dar corda no relógio e acelerar o tempo não faz afastar da noite as sombras, os corpos estranhos, os intrusos que, resistentes, nos habitam. “Ando nua”, andamos nus, como a poeta, como os poetas, com os poetas. “Enquanto eles se vestem com elegância e aprumo/ Vou perdendo roupas abotoaduras sapatos”, como quem despe os trajes até expor a nudez, a nudez da escuridão do corpo: a poeta anda nua porque anda tão somente com corpos estranhos. Parir um poema é parir às custas de si. Não há mais o “em si mesmo”: o poema é o “assombro incurável” das noites que “chegam com o barco que de mim partiu/ – Ivelejado -”. Não, a exploração não está no nosso DNA. Se ser assombrado é uma sensação de morte, só o é porque é uma sensação de vida: o poema acontece no assombro porque é no assombro que nos vemos fora de nós mesmos, suspensos no tempo e no espaço, lançados numa aporia incurável, sem saída, em que não distinguimos mais “eles” de “nós”. Somos o engano, “sou um blefe”. Podemos morrer abraçados à lágrima de não existirmos mais (“Poderia morrer abraçada a essa lágrima”), mas, na mesma visada, as águas que escorrem trazem em si o naufrágio, o “Terror de naufragar”. Entre a possibilidade de morrer dobrado sobre a lágrima, abraçando-a, e a espera de a lágrima congelar para ser possível ir por cima dela, por sobre ela (“Poderia morrer abraçada a essa lágrima/ (Ou esperaria que congelasse para patinar sobre?)”); entre a possibilidade e a espera, o que há é, a um só tempo, o “Terror de naufragar”, ou seja, “Todas as horas da vida”. Em outras palavras, a decisão que se impõe em “Todas as horas da vida”.

“Para ser lembrada após a morte” não diz nada a respeito do que poderia se colocar nos termos ante e post mortem. Tampouco diz respeito a uma ontologia. Neste poema, que poderia, no máximo e devidamente, ser antológico, o ser que há, incuravelmente assombrado, sobrevive e, mais que isso, vive de braços dados com as sombras intrusas, com o impossível que cria, com o barco invelejável que parte de si. O “ser é” um blefe. O ser que existe aí, para ser lembrado após a morte, é um “ser com”. Porque ele, ou ela, ela que anda nua, decidiu gostar da possibilidade de se dedicar, todas as horas da vida, à poesia (“Todas as horas da vida/ Gostaria de poder dedicar-me/ À poesia”). E gostar dessa possibilidade é gostar de se dedicar tão somente ao outro. “Para ser lembrada após a morte” é um poema da dedicação ao outro. Na noite, enquanto todos querem dormir, ela desperta. E faz da noite um despertar.

Todos os dias meteoros caem. E todos os dias temos ainda algum tempo. A Yasmin tem um corpo que não cansa. E que não cabe no “espaço-tempo criado pelo homem”. Ela tem uma grande nave no útero, inalcançável, que não se assemelha em nada a um objeto não identificado. Aviso aos navegantes: este corpo bélico está aqui para explodir a vida útil dos objetos – explodir a visão que se tem do corpo como objeto, a vida objetificável, os territórios colonizados. Este corpo bélico se identifica com todos os úteros não identificáveis da história de todas as eras. Ela é uma antimusa. Uma antimusa nunca chega, nunca vai entrar pela sua narina, pela sua goela (ela não chega, mas ela pode, de repente, cair sobre você). A Yasmin tem no corpo, no corpus, no corpo, o materialismo de uma foice que avança sobre as mãos de todos os homens que se empenham em destruir, em possuir, em governar. Hoje, nesses últimos tempos, como amar diante do terror do naufrágio? O que seria gostar? Caberia o amor no instante imediato do terror dos tempos? Arrisco: a poeta indica que gostar é se dedicar ao que não queremos presos nas mãos: “Gosto de você como gosto das coisas que o homem ainda não alcançou.”

O coração, um “objeto ínfimo”, “Vermelho-júbilo”: eis o terror: quando amor e terror se entrelaçam. “Não sinto medo quando meus olhos estão por trás de uma lente”. Não, afinal, o medo é enxergar a vida em sua nudez, sem filtro. Estamos falando do que há de mais frágil e vulnerável e precário. Sabemos que ir ao amor – como ir aos escombros do terror – é ir sabendo da queda irreparável, muitas vezes incurável, em um terreno esburacado. Como quando fitamos a vida sem lente: em tudo há a possibilidade de ser um sítio de guerra. Nesses lugares onde se está de mãos dadas com o fracasso, não há ombro que salve (“não há ombro na medida do meu fracasso”): a linguagem falha (“Digo tudo num verbo convulso”) quando estamos lado a lado com a ruína. De “objeto ínfimo”, o peito assume a forma de toda a extensão de um “sítio frágil”. Quando amar é correr o risco de naufragar, o “Terror de te amar” encontra o “Terror de naufragar” na iminência da mesma queda: não há saída, tombamos inevitavelmente. Como quem cai apaixonado, tombar brusca ou brandamente é apenas uma questão de tempo para se ver caindo no real: o terror de amar é o medo de tombar.

Não há saída, não há salvação. Enquanto a Terra não para, enquanto o asteroide não cai, enquanto a extinção acontece em todas as horas da vida, alguém explode o tempo como um meio de vida e como um modo de amar. E isso, sim, é uma máquina de guerra. “Eros sobrepuja Tanatos”. Há vida.

 

danielle magalhães

 

Yasmin Nigri (1990) é carioca, poeta, artista visual e bacharel em filosofia pela UFF, onde atualmente cursa o mestrado na linha de estética e filosofia da arte. Trabalha com mediação educativa em exposições de arte, elabora e ministra oficinas de criação poética, é crítica de arte, integrante e co-fundadora do coletivo feminista Disk Musa, onde trabalha na produção de conteúdos áudio visuais e performance.

 

sergio maciel

* * *

METEOROS

Inspirado na obra ‘Meteorito’ de Letícia Ramos exposta no MAM

Encosto os olhos na luneta
Vejo uma escala cromática de brancos rasgar o breu
Seria a sombra furta-cor de um meteoro cruzando o espaço
Ou a Europa penetrando o continente africano?

sem-titulo

 

§

GOSTO DE VOCÊ

Gosto de você como gosto da teoria das cordas, dos buracos de minhoca e dos buracos brancos: que são o outro lado dos buracos negros e permitem que o universo permaneça em constante expansão. Na prática não existe nenhuma comprovação dos buracos brancos. Mas você sabia que um par de partículas subatômicas, como um elétron e um antielétron, agem como se estivessem entrelaçados telepaticamente e bastaria um computador maior que o universo e átomos do nosso corpo entrelaçados a átomos livres para que pudéssemos nos teletransportar para qualquer lugar do multiverso? Sonho. Essa é a única maneira. Gosto de você como gosto das coisas que não compreendo e que, no entanto, são exatamente aquilo que não nos conforma ao espaço-tempo criado pelo homem. Esse mesmo homem que desde antes deu nascer me conforma em contornos muito bem traçados e previstos. Sinto-me uma grande nave que os homens se empenham em destruir. Gosto de você como gosto das coisas que o homem ainda não alcançou.

 

§

PARA SER LEMBRADA APÓS A MORTE

Poderia morrer abraçada a essa lágrima
(Ou esperaria que congelasse para patinar sobre?)

Avanço vitrais e abóbadas em comoção
Vejo inumeráveis marcas impressas do que li e ouvi

Borges claramente ensinou
Que se escreve com os pedaços de toda tradição

Assombro incurável
Todo poema se cumpre às minhas custas

Em que diabos pensava quando os pari?
Sou um blefe e nunca mais vou escrever

Enquanto eles se vestem com elegância e aprumo
Vou perdendo roupas abotoaduras sapatos

Por baixo dos trajes eles não existem
Ando nua

Caminho até o relógio e dou corda
Para afastar a sombra intrusa do meu quarto

Sempre fui noturna
Crio situações impossíveis enquanto todos querem dormir

As noites chegam com o barco que de mim partiu
– Ivelejado –

Terror de naufragar

Sorrio no espelho à revelia de tudo

Todas as horas da vida
Gostaria de poder dedicar-me

À poesia

 

§

TERROR DE TE AMAR

Pegue nas mãos e pese este objeto ínfimo
Vermelho-júbilo
Enquanto trabalho
Não sinto medo quando meus olhos estão por trás de uma lente
Apesar de nunca ter atingido o resultado pretendido
É na busca pela terra sólida e dura que
Digo tudo num verbo convulso até tombar brandamente
Só o peito permanece
Sítio frágil

§

 

NÃO HÁ OMBRO

Rio-me

Quando me pego pensando

Em pedir desculpas por trazê-los à minha realidade

Desmedida para a poesia e

Nada diante das pedras

Cuja queda descobriu minha farsa

Já não há ombro na medida do meu fracasso

Pensar que piso onde antes Cleópatra esteve

E depois Dante aquele que

Teria jogado no inferno

Minhas antimusas

Ana C.

Silvia Plath

Anne Sexton

E tantas outras que o habitaram em vida

Escreviam para resgatar o que é morto

E nisso descobriam os vivos

Onde Eros sobrepuja Tanatos

 

(poemas de Yasmin Nigri, introdução de Danielle Magalhães)

Fernanda Pacheco (1993-)

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Fernanda Pacheco (1993) é de Osasco – SP, mãe do Vicente, formada em História e trabalha como professora da rede pública do estado. É autora dos livros A Culpa é do Chet Baker (editora Patuá) e Ciranda lado b. Tem poemas publicados nas revistas Mallarmargens e Diversos Afins.

sergio maciel

* * *

ABISMO

no quintal dos meus sonhos
acaricio aquela cruz fincada em mim,
nela se pendura a musa puta
que te faz rasgar a crosta da pele absurda.

demente por princípio
delirante por base

é o amor líquido que escorre até o fundo:
sou teu           poço,
fosso,
poro solitário do corpo.

contorno da escuridão no meio da rua
onde me apago
me apego                            me afasto.

sou sua curva em rotação rítmica
me ajoelho no calvário pra te provocar ira,

desabo

depois do rasgo dos cortes graves
bem no centro do seu colo ACELERADO
habitat natural do tempo abstraído
versículo & textículo
do meu eu
convertido.

§

03:51

minha tela é o escuro dos olhos fechados
à beira do estige miles davis sopra bitches brew
danço a euforia remediada
o tormento mastiga cada canto dos meus dedos
as arestas deste espaço se curvam
tenho espasmos pela pressão do silêncio:

– morte do horizonte declarada!

a dor é elevada
sólida          dura           firme
como é quente a sombra onde derreto
o que você está dizendo?
tenho a boca na palma da mão.

musa antiga sem um olho
acaricia fatias finas do meu esqueleto.
o medo está vazando,
logo acaba o trilho.
é vazio aqui e muito bagunçado,
um escândalo!
o som alterna com o susto.
te incomoda?

meus olhos ceiam teu corpo subvertido.

§

VINHO

minhas mãos na maçaneta
denunciam meu cuidado
com o silêncio.
tenho monumentos tortos
transparentes, cheios de pó,
[firmes
que de tanto vazio
se ergueram
nas esquinas deste apartamento.

meus pés neste chão fosco
atestam meu cuidado
com o silêncio.
tento enxergar reflexos
só a distorção do estranho me vem.
é assim que me vejo?

às vezes não me reconheço
e espero mais um sol partir
enquanto os vermelhos todos
me alimentam.
todos esses nadas
parados
me submetem
ao risco
de achar que sou algo
quando na verdade
vou além
voo além
das paisagens foscas
dos teus olhos
secos.

Lubi Prates (1986-)

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Lubi Prates nasceu em 86, em São Paulo. Graduanda em Psicologia e especializando-se em Psicoterapia Reichiana. Tem publicado o livro coração na boca (Editora Multifoco, 2012) e algumas participações em revistas e antologias literárias nacionais e internacionais. Edita a revista literária Parênteses e atua como revisora e tradutora. Vive em Curitiba, onde media o clube de leitura Leia Mulheres.

sergio maciel

* * *

até só restar o depois
(sobre o dia 29 de abril de 2015, em Curitiba)

pudesse,
recordaria se havia sol
antes daquela tarde
quando tudo se resumiu a
cinza:

fumaça, um
quase

aquele estado de consciência frágil
entre estar acordado &
desmaiar.
pudesse,
recordaria o cheiro
antes daquela tarde
quando tudo se confundiu a

gás
pólvora
sangue.
recordaria quais eram
minhas atividades inúteis
antes de acessar a internet&
navegar entre as notícias

para descobrir o alvo
dos helicópteros que
sobrevoavam a cidade

destruindo
destruindo
destruindo

qualquer segundo
de silêncio

inibindo os gritos
pudesse,
eu recordaria o antes:

quando não havia escombros.

§

esse esforço em manter distâncias
você pratica

você conta os centímetros até
ser o longe, outra cidade

você consegue desfazer

o silêncio das suas chaves
dos seus passos pelo corredor
da sua voz

no meu ouvido.

tudo que eu desgosto
você esforça

até confundir:
lembrança ou ilusão

comecei a duvidar de mim.

§

Poesia ainda é
persiste
um risco
à minha vida.

uma rima que sufoca
um eterno engasgo
que haja ar,
que haja água.

e
ainda assim,
seu contrário:
Poesia ainda é
persiste
boia, salva-vidas

§

rotações por minuto

é como encontrar
o caminho de casa

sem mapas bússolas gps

conhecer os seus discos
decorar as canções

as rotas vão ficando maiores

o esquema se torna
automático

tão rapidamente.
conhecer os seus discos
decorar as canções

é como encontrar
o caminho de casa

entre as rotações na velha
vitrola, as marcações mentais que fazemos

percebo que tua alma
                                     flui
                                     até mim

entre as pausas
aquele silêncio.

talvez pareça simples
estar à vontade

tocar um instrumento
sem olhar               fixamente                para os próprios dedos

mas calculei o preço

conhecer os seus discos
decorar as canções

é encontrar
o caminho de uma casa

construída sobre um terreno emprestado
mas tão meu:

rotações na velha
vitrola, marcações mentais que fazemos

when you come back home
i’mgonna dance with you

entre as pausas
morar neste silêncio.

§

é 2015
os últimos dias do ano e
eu quero antecipar os calendários:

a tevê insiste em retrospectivas.
é 2015
os últimos dias do ano:
eu acabei de desembrulhar os presentes de
aniversário: eu tenho 29 anos.

frequentemente,
repito para
mim mesma:

não imaginei que chegaria tão longe.
não imaginei que chegaria tão longe.
não imaginei que chegaria tão longe.
é 2015
os últimos dias do ano e
eu quero antecipar os calendários:

a tevê insiste em retrospectivas

mas sobre

a mulher                                                            poderia ser eu
assassinada por seu companheiro

a mulher                                                             poderia ser eu
que cometeu suicídio depois de humilhações constantes no seu emprego

a mulher                                                              poderia ser eu
que morreu numa clínica de aborto clandestina

a mulher                                                              poderia ser eu
estuprada no transporte público

a mulher                                    que sou eu

nenhuma lembrança.
é 2015
os últimos dias do ano e
eu quero antecipar os calendários:

não imaginei que chegaria tão longe.

§

há uma arquitetura
no corpo

o encaixe de um tijolo
que facilita
e ou
dificulta.
há uma arquitetura
no corpo

que edifica mas
me desaba

uma
arquitetura
no
corpo

dizem: sábia

embora não explique
esse peso nos meus pés
que prevejo desabamentos

embora não explique
esse vazio no meu tórax:
impreenchível
qual ciência determinou que
minhas mãos não
demorariam ao segurar?

há uma arquitetura
no corpo

dizem: sábia

em mim:
inexata.

Mirian Paglia Costa (1947-)

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mirian paglia costa (londrina, 1947) é poeta, jornalista e editora da revista defesa latina. trabalhou em revistas como visão e veja. em 1969, venceu o prêmio de poesia festival universitário de londrina. de sua obra, pode-se destacar a plaquete sete eus, lançada em 1981, mesmo ano de colar de maravilhas, publicado por massao ohno, com ilustrações de darcy penteado, além do livro de poemas notícias do lugar comum, de 1997, publicado pela editora 34 e de participações em antologias como carne viva (1984) e antologia da nova poesia brasileira (1992), ambas organizadas por olga savary, e 101 poetas paranaenses v.1 (1844-1959) – antologia de escritas poéticas do século XIX ao XXI, organizada por ademir demarchi. todos os poemas deste post foram retirados desta última antologia.

sergio maciel

* * *

DE COLAR DE MARAVILHAS

| VI |

a procissão caminha
passos, meninas do colégio
à frente, minha prima
bela e lampeira
em sua caixa de boneca
já não chora, já não diz — “Mamãe”
muda
desfila o dia de gala
seu medo passou completamente

vão todos sombrios
em uniforme de luto
só ela está de cor-de-rosa
fantasiada
anjo até os pés

minha prima vai à tumba
ela que não entrava em canto escuro
nós a seguimos entre flor e choro
porque dói
o pé no sapato de verniz
a festa interminável

é grande o cemitério nos confins
tristes seus pássaros de bronze
empoleirados sobre túmulos
há retratos, letras, saudades
mas a procissão avança
rápida para olhos que soletram

a freira manda cantar
sai trôpego o hino
tudo é lento, engasga
ninguém quer enterrar a caixa
fechada com boneca

pela primeira vez tocamos terra
com mãozinhas enluvadas
lançando punhados no buraco
é roxo o pó que cai
empedra o som, batendo na madeira

sujo inteiramente
como as luvas
um homem feio vem
chapéu de feltro velho, abas ensebadas
e com pá completa seu serviço

a procissão desaba nas aleias

dia seguinte
embaixo da limeira
uma voz de prima não brinca de carniça
não canta introito de pega-pega
— balança caixão
—balança você
— dá um tapinha na bunda e vai esconder

§

|XI|

ô meu deus, quero de volta
minhas colegas de escola
blusa engomada picando nó sovaco
o castigo de gala
freiras chatas, revistando tudo
e reza antes da aula
dia de ser anjo prolongado

ô meu deus, quero de volta
O fogo daquele inferno
com diabo de tridente
e vermelho

§

| XX |

a noite é quente e ruinosa
onde plantou meu avô sua barba
e sua honra
das paredes da casa
restam madeiras
eretas e modificadas
dos filhos espalham-se os destinos

a vizinhança já foi chácara
campo de pelada e batalhas
zona do meretrício
caminho de tropa e lama
rua asfaltada e buracos

já houve horta, bichos esquisitos
mortes, desespero e festas no local
não há mais espírito pioneiro
tudo se disciplina e urbaniza

hoje meu avô está plantado
no chão que ele desbravou
e sua semente de pobre
macaroni e aventureiro
vingou nessa terra roxa
lado de cá do Tibagi
onde continuará havendo
trabalho, desespero e festa

§

BAR SELETO

vagas mensalistas aqui estacionam
pernas rodadas, caras batidas
buscam, quem sabe?
a vitamina que devolve a juventude

do vento do pastel aspiram sonhos?

sentam moles bundas nos banquinhos
olhos soltos sobre incertos objetos
e bebem
engolem o suco de tantas frutas
como se fosse lava
engolem tudo

diz-que vagabundas nunca morrem
pelo menos, só vivas aparecem no jornal
diz-que também não fazem falta
trocam de peruca
engordam, emagrecem
estão sempre no lugar sabido

mas
na hora vaga que precede o dia
bebem vitamina e comem
como crianças
o pastel que despenca seu recheio

— pendura a conta, ainda gritam
os saltos gastos já batendo na calçada
baiana, luzia, inalda, roseni, palmira
elas têm pressa

quando amanhece
todas as putas viram fadas

§

AD PERPETUAM REI MEMORIAM

maus
versos e bons planos
faço isso há anos
é chumbo o alfabeto que aprendi
escrevo

tenho todos os dentes
peso até excessivo
adoeço raramente
nasci no brasil
logo, não existo

cólicas líricas seguidas de vómito
meu diagnóstico

proletária do espírito
salário não paga minha fome

pedem pão, dou verbo
vergonha não rima nem resolve

às vezes desejo o terror
ilusão do justo restaurado
mas quem garante?

se o tapa é a lei da mão
instaura a selva

eu queria ser inocente

Quatro poemas de Tristan Tzara, por Sergio Maciel e Google Tradutor

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tristan tzara, nascido samuel ou samy rosenstock (romênia 1896 – frança 1963), foi um poeta romeno, judeu, francês e dadaísta. foi, aliás, um dos membros fundadores do movimento dadaísta. algum tempo depois, após um certo declínio do movimento, junta-se ao surrealismo. junta-se, também, posteriormente, ao partido comunista e à resistência francesa. mas apesar de ser uma figura um tanto conhecida, em muito pela sua participação no movimento surrealista, tzara não goza de muita divulgação literária; ao menos não tanto quanto apollinaire, reverdy e soupault, por exemplo, pra citar alguns dos poetas franceses mais inovadores do séc. xx.

tzara, assim como seus contemporâneos supracitados, apareceram na importante revista SIC, que existiu entre 1916-19. num período problemático que foi o contexto da primeira guerra mundial, tzara, junto com outros emigrées, como hans arp e hugo ball, produziram o fino das vanguardas. para qualquer vanguardista que se prezasse, era mister que sua obra não ficasse restrita somente a uma linguagem. ou seja, disso resulta que boa parte da vanguarda européia legou uma série de poetas-pintores-escultores-músicos-performers no mesmo corpo. é disso que vem a impossibilidade de lermos nas vanguardas, sobretudo naquilo que toca a poesia, as mesmas expectativas que se leu até então, com especial enfoque no virtuosismo parnasiano e simbolista. hugo ball, para tomar alguém como exemplo, criou aquilo que veio a se chamar “poema fonético”. how in the hell alguém pode esperar de um poema como “karawane” (clique aqui) ou até mesmo “fisches nachtgesang” (clique aqui e aqui), de christian morgenstern, a mesma realização, no que se refere à questão da linguagem, de qualquer outra coisa que havia antes das vanguardas?

é a partir disso, portanto, e da ideia de um automatismo (que tanto chateava a cultura blasé da época) que era veiculada pelo dadaísmo, e depois pelo surrealismo, que resolvi escolher, meio ao acaso, e traduzi quatro poemas de tzara. os três primeiros, do livro vingt-cinq poèmes (1918); o último de juste présent (1961), um pouco menos radical e pós vanguarda.

para os três primeiros, escritos no calor da vanguarda e da porralouquice, resolvi adotar o seguinte procedimento: quando se adota um regime de escrita automática que busca romper com a lógica poética mesma da linguagem, talvez uma solução seja utilizar um processo tradutório semelhante: ou seja, para os três primeiros poemas, eu resolvi criar o embate entre a automaticidade da vanguarda com aquela de uma ferramenta de tradução automática, nosso querido google tradutor. realizei, obviamente, uma terceira tradução, minha, buscando um meio termo entre as duas. para a terceira, pós-vanguarda e menos caótica, dispensei a ajuda do nosso amigo virtual.

pra finalizar, recomendo muito a leitura do texto “DADA: implicações e inseminações” (clique aqui), do domeneck.

sergio maciel

* * *

LE GÉANT BLANC LÉPREUX DU PAYSAGE

le sel se groupe en constellation d’oiseaux sur la tumeur de ouate

dans ses poumons les astéries et les punaises se balancent
les microbes se cristallisent en palmiers de muscles balançoires bonjour sans cigarette tzantzantza ganga
bouzdouc zdouc nfoùnfa mbaah mbaah nfoùnfa
macrocystis perifera embrasser les bateaux chirurgien des bateaux cicatrice humide propre
paresse des lumières éclatantes
les bateaux nfoùnfa nfoùnfa nfoùnfa
je lui enfonce les cierges dans les oreilles gangànfah hélicon et boxeur sur le balcon le voilon de l’hôtel en baobabs de flammes les flammes se développent en formation d’éponges

les flammes sont des éponges ngànga et frappez
les échelles montent comme le sang gangà
les fougères vers les steppes de laine mon hazard vers les cascades
les flammes éponges de verre les paillasses blessures paillasses
les paillasses tombent wancanca aha bzdouc les papillons
les ciseaux les ciseaux les ciseaux et les ombres
les ciseaux et les nuages les ciseaux les navires
le thermomètre regarde l’ultra-rouge gmbabàba
berthe mon éducation ma queue est froide et monochromatique mfoua loua la
les champignons oranges et la famille des sons au delà du tribord à l’origine à l’origine le triangle et l’arbre des voyageurs à l’origine

mes cerveaux s’en vont vers l’hyperbole
le caolin fourmille dans sa boîte crânienne
dalibouli obok et tombo et tombo son ventre set une grosse caisse ici intervient le tambour major et la cliquette
car il y a des zigzags sur son âme et beaucoup de rrrrrrrrrrrrrr ici le lecteur commence à crier il commence à crier commence à crier puis dans ce cri il y a des flûtes qui se multiplient — des corails
le lecteur veut mourir peut-être ou danser et commence à crier
il est mince idiot sale il ne comprend pas mes vers il crie
il est borgne
il y a des zigzags sur son âme et beaucoup de rrrrrrr
nbaze baze baze regardez la tiare sousmarine qui se dénoue en algues d’or
hozondrac trac
nfoùnda nbabàba nfoùnda tata nbabàba

O GIGANTE PAISAGEM LEPROSO BRANCO

o grupo de sal de aves sobre o tumor constelação de rebatidas

em seus pulmões estrelas do mar e erros balanço
micróbios cristalizar balanços músculos palma Olá sem cigarro tzantzantza ganga
bouzdouc Zdouc nfoùnfa mbaah mbaah nfoùnfa
macrocystis perifera beijo barco cirurgião barcos cicatriz limpo e úmido
preguiça de luzes brilhantes
barcos nfoùnfa nfoùnfa nfoùnfa
I empurra as velas no boxer orelhas e gangànfah Helicon na varanda do hotel voilon chamas baobá chamas desenvolver na formação esponjas

as chamas são esponjas Nganga, e fira
subir escadas como Ganga sangue
lã Ferns estepes ao meu perigo para as cachoeiras
vidro bancada esponjas chamas bancos lesão
os colchões cair wancanca aha bzdouc borboletas
A tesoura tesoura tesoura e sombras
tesouras e nuvens tesoura navios
o termômetro parece ultra-vermelho gmbabàba
bertha minha educação minha cauda é frio e mfoua monocromática elogiou o
laranjas e cogumelos família soa além do estibordo originalmente atrás do triângulo e da árvore originalmente viajantes

meu cérebro está indo para hipérbole
o caulim cheias em seu crânio
dalibouli obok e tombo tombo e definir seu estômago um bumbo aqui vem o tambor grande e chocalhos
porque não ziguezagues na sua alma e muitos rrrrrrrrrrrrrr aqui o leitor começa a gritar que ele começa a começa a gritar gritando e depois chorar lá em flautas que se multiplicam – Corais
o leitor quer morrer ou talvez dançando e começa a gritar
é idiota sujo fina não entende meus versos ele grita
ele é cego
Há ziguezagues na sua alma e muitos rrrrrrr
nbaze Baze Baze assistindo tiara subaquática que ventos em algas douradas
nervosismo hozondrac
nfoùnda nbabàba nfoùnda tata nbabàba

(google tradutor)

O GIGANTE BRANCO LEPROSO DA PAISAGEM

o sal se agrupa em constelação de pássaros sobre o tumor de zuarte

em seus pulmões as asterídeas e os percevejos se balançam
os micróbios se cristalizam em palmeiras de músculos balanços bomdia sem cigarro tzantzantza ganga
bouzdouc zdouc ñfunfa mbaah mbaah ñfunfa
macrocystis pyrifera abraçar os barcos cirurgião dos barcos cicatriz úmida própria
preguiça das luzes brilhantes
os barcos ñfunfa ñfunfa ñfunfa
eu ele forço as velas nas orelhas trupànfah helicon e boxeador na varanda o violino do hotel em baobás de chamas e chamas se desenvolvem em formação de esponjas

as chamas são esponjas b^bob^bo e bateis
as escalas sobem como o sangue bbôbê
as samambaias nas estepes de lã meu acaso nas cascatas
as chamas esponjas de vidro os palhaços feridos palhaços
os palhaços tombam wancanca rá bzdouc as brabuleta
as tesoura as tesoura as tesoura e as sombras
as tesoura e as nuvens as tesoura os navios
o termômetro contempla o ultra-rubro gmbabàba
berta minha educação meu rabo é frio e monocromático mfuá luá là
os cogumelos laranja e a família de sons d’além do estibordo à origem à origem o triângulo e a árvore dos viajantes à origem

meus miolos se vão verso a hipérbole
o caulim formiga em sua caixa craniana
dalibouli obok e tombo e tombo seu ventre è um grosso caixa aqui intervém o tambor maior e o chocalho
pois há ziguezagues sobre sua alma e bastantes rrrrrrrrrrrrrr aqui o leitor começa a gritar ele começa a gritar começa a gritar pois em seu grito tem as flautas que se multiplicam – os corais
o leitor quer morrer talvez ou dançar e começar a gritar
ele é um refino idiota porco ele não compreende meus versos e grita
ele é caolho
há ziguezagues sobre sua alma e bastantes rrrrrrrrrrrrrr
nbaze baze baze olhai a coroa submarinha que se desata em algas d’ouro
hozondrac temor
nfunda nbabàba nfoùnda tata nbabàba

(sergio maciel)

§

PÉLAMIDE

a e ou o youyouyou i e ou o youyouyou
drrrrrdrrrrdrrrrgrrrrgrrrrrgrrrrrrrr
morceaux de durée verte voltigent dans ma chambre
a e o i ii i e a ou ii ii ventre montre le centre je veux le prendre ambran bran bran et rendre centre des quatre
beng bong beng bang où vas-tu iiiiiiiiupft
machiniste l’océan a o u ith
a o u ith i o u ath a o u ith o u a ith
les vers luisants parmi nous
parmi nos entrailles et nos directions
mais le capitaine étudie les indications de la boussole
et la concentration des couleurs devient folle
cigogne litophanie il y a ma mémoire et l’ocarina dans la pharmacie
sériciculture horizontale des bâtiments pélagoscopiques
la folle du village couve des bouffons pour la cour royale
l’hôpitale devient canal
et le canal devient violon
sur le violon il y a un navire
et sur le bâbord la reine est parmi les émigrants pour mexico

PÉLAMIDE

um E ou O ou o youyouyou om youyouyou
drrrrrdrrrrdrrrrgrrrrgrrrrrgrrrrrrrr
pedaços de tempo de verde voam no meu quarto
um e o e i i ii ii ii ou uma barriga mostra o centro Eu quero levar farelo de farelo de ambran e tornar o centro dos quatro
beng beng bong estrondo onde está você iiiiiiiiupft
Machinist o oceano om o u
om u a o o i u o u ath tem om o u om um
os vaga-lumes entre nós
entre o nosso interior e os nossos sentidos
mas o capitão examina as direções da bússola
e concentração de cor fica louco
Stork litophanie atrás, minha memória ea ocarina na farmácia
pélagoscopiques sericicultura horizontais de edifícios
Mad fumegantes bobos da aldeia para a corte real
o canal se torna Hopital
e o canal se torna violino
no violino há um vaso
e na porta é a rainha entre os emigrantes para o México

(google tradutor)

SARRAJÃO

a e ou tututu eu e ou o tututu
drrrrrdrrrrdrrrrgrrrrgrrrrrgrrrrrrrr
peças de dura verde voam em meu quarto
a e o i ii i e a ou ii ii ventre mostra o centro eu quero o tomar ambran bran bran e tornar centro dos quatro
b e n g b o n g b e n g b a n g onde cê-vai iiiiiiiiiipieft
maquinista o oceano a o u ith
a o u ith i o u ath a o u ith o u a ith
os versos luzentes entre nós
entre nossas entranhas e direções
mas o capitão estuda os apontamentos da bússola
e a concentração das cores torna-se louca
cegonha litofania há minha memória e a ocarina na farmácia
sericicultura horizontal dos batimentos pélagoscópicos
a louca da vila cobre o bobo para a corte real
o hospital torna-se canal
e o canal torna-se violino
sobre o violino há um navio
e sobre o bombordo a rainha está entre os emigrantes para o méxico.

(sergio maciel)

§

LA GRAND COMPLAINTE DE MON OBSCURITÉ TROIS

chez nous les fleurs des pendules s’allument et les plumes encerclent la clarté
le matin de soufre lointain les vaches l’èchent les lys de sel
mon fils
mon fils
traînons toujours par la couleur du monde
qu’on dirait plus bleue que le métro et que l’astronomie
nous sommes trop maigres
nous n’avons pas de bouche
nos jambes sont raides et s’entrechoquent
nos visages n’ont pas de forme comme les étoiles
cristaux points sans force feu brulée la basilique
folle : les zigzags craquent
téléphone
mordre les cordages se liquéfier l’arc
grimper
astrale
la mémoire
vers le nord par son fruit double comme la chair crue
faim feu sang

O GRANDE LAMENTO DE MEUS TRÊS ESCURO

flores home relógios e penas leves cercar clareza
na manhã de enxofre distante as vacas èchent lírios sal
meu filho
meu filho
sempre sair pela cor do mundo
parece mais azul do que o metrô e astronomia
estamos muito magra
nós não temos nenhuma boca
nossas pernas são duras e colidem
nossos rostos não são em forma de estrelas
pontos de cristal sem força, fogo queimou a basílica
louco: os ziguezagues rachar
telefone
cordas mordida liquefazer o arco
subida
astral
memória
a norte pela sua dupla fruta como carne crua
fome de sangue fogo

(google tradutor)

A GRANDE QUEIXA SOBRE MINHA OBSCURIDADE TRÊS

em nós as flores dos pêndulos se alumiam e as plumas contornam a claridade
a manhã de enxofre longínqua as vacas l’ambem os lírios de sal
meu filho
meu filho
arrastamos sempre pela cor do mundo
quem dirá mais tristonho que o metro e que a astronomia
nós estamos muito magros
nós não temos boca
nossas pernas estão esticadas e se entrechocam
nossas caras não tem forma como as estrelas
cristais pontos sem força fogo queimada a basílica
louca: os ziguezagues racham
telefone
morder as cordas liquefazer o arco
galgar
astral
a memória
verso ao norte por seu duplo fruto como a carne crua
fome fogo sangue

(sergio maciel)

§

À UNE MORTE

tu avances toujours aux confins de la nuit
le feu s’est éteint où finit la patience
même les pas sur des chemins imprévus
n’éveillent plus la magie des buts

braises braises
l’amour s’en souvient

rien ne nous distrait de l’attente assise
sur les genoux enfants aux plénitudes chaudes
pourrais-je oublier le son de cette voix
qui contribue à répandre la lumière
au-delà de toute présence

fraises fraises
à l’appel des lèvres

comme la mer contenue
toute une vie enlacée
et sur les innombrables poitrines des vagues
l’incessant froissement des ours effleurés

rêves rêves
au silence de braise

pourrais-je oublier l’attente comblée
le temps ramassé sur lui-même
le jour jaillissant de chaque parole dite
le long embrasement de la durée conquise

sèves sèves
ma soif s’en souvient

A UM MORTO

tu avanças sempre aos confins da noite
o fogo se extinguiu onde findou a paciência
mesmo os passos sobre as chamas imprevistas
não despertam mais a magia das metas

brasas brasas
o amor se lembra

nada nos distrai da espera assentada
sobre os joelhos infantis às plenitudes quentes
poderia esquecer o som desta voz
que contribui para derramar a luz
além de toda presença

morangos morangos
ao apelo dos lábios

como o mar constante
toda uma vida enlaçada
e sobre os incontáveis peitos das ondas
o incessante franzimento dos ursos tocados

sonhos sonhos
em silêncio de cinzas

poderia esquecer a espera plena
o tempo recolhido em si mesmo
o dia jorrando cada palavra dita
o longo alastramento da duração conquistada

seivas seivas
minha sede se lembra