poesia

Daniel Filipe (1925-1964)

 

Procurei mais informações sobre o poeta Daniel Filipe, porém praticamente nada avança sobre o que está na Wikipédia, que aqui transcrevo e adapto:

Daniel Damásio Ascensão Filipe nasceu na Ilha da Boavista, Cabo Verde, em 11 de dezembro de 1925. Veio para Portugal ainda criança, onde acabaria por concluir o Curso Geral dos Liceus. Mais tarde, foi co-director dos cadernos Notícias do Bloqueio, colaborador assíduo da revista Távola Redonda e do jornal Diário Ilustrado, e também realizador, na Emissora Nacional, do programa literário Voz do Império e revista luso-brasileira Atlântico. Combateu a ditadura salazarista, sendo perseguido e torturado pela PIDE. Trabalhou na extinta Agência-Geral do Ultramar e na área jornalística. Morreu novo, em 1964, mas deixou uma obra consistente marcada pelos sentimentos de solidão e exílio.

Publicou as seguintes obras: Missiva (1946), Marinheiro em terra (1949), O viageiro solitário (1951), Recado para a amiga distante (1956), A ilha e a solidão (1957), O manuscrito na garrafa (romance, 1960), A invenção do amor (1961), Pátria, lugar de exílio (1963).

Como afirma o mesmo texto, “Grande parte da poesia de Daniel Filipe destaca-se pelo combate ideológico e pelo comprometimento social, o que lhe valeu o estigma de poeta neo-realista”. E, como toa boa verdade, ela é apenas meia. Escolhi um poema que não encontrei na internet, o último de seu último livro, Pátria, lugar de exílio, que mostra uma faceta forte de sua obra, a celebração do amor e do sexo. Aqui temos uma espécie de novo gênesis no corpo da mulher amada, em versos que por vezes flertam com o Cântico dos cânticos ou com a tradição surrealista, sem estancar num modo de elocução.

Aconselho ver o post da Modo de usar e co., onde Ricardo Domeneck também pôs um link com o pdf do livro A invenção do amor. E também o post da Escritas, com obras de outros livros.

guilherme gontijo flores

* * *

Ilha em corpo de mulher

I

Calo o segreto em tua boca, o mar
de súbito acontecido como a primeira vez
Coxas ágeis esperam-me, flexíveis membros,
sinuosas linhas de pescoço, pálpebras esquivas,
juvenis artelhos. E tudo isso frente ao mar antes da própria infância,

espelho partido, luz inesperada,
mistério celular, alvíssimos caninos
perfurando a ácida maçã, prolongando
a claridade do dia.
A paisagem arenosa, quase vítrea, os dedos na raiz
das coisas, absurdo revelar da face inteira
do adolescente amor.

Assim permitem os deuses que vivamos o tempo, transmudados
na desconhecida flor ou purpúreo animal, músculo, ósseo cerne
da mágoa, agora musical, agora líquida,
ainda sombra, no entanto, pecado voluntário,
transbordante rumor, insólita presença
em teu nome:
MARIA

II

Ergues-te nupcial, alheia ao lugar exacto onde se inserem
teus nervos, onde espreitam o momento de existir
ignorados espasmos. Só com o estender de braços, reinventas
o mundo, reconstróis, pedra a pedra, o universo familiar,
conhecido antes da noite. Dizes: aqui está uma flor, uma árvore,
      um pássaro, o regato.
E a flor até aí inexistente
e a árvore até aí inexistente
e o pássaro e o regato até aí inexistentes,
genesiacamente surgem do teu desejo de tê-los
e existem por ti e contigo
e são, ao teu redor, o muro tutelar
e necessário.

III

A asa é a tua concha petrificada muito antes de Cristo
o refúgio isolado no seio da montanha,
o lugar geométrico que o mar transforma em ilha.
Cola-se à tua pele como se lhe pertencesse,
não como um simples tecto que paredes sustentam,
mas como formação óssea de ti mesma expelida.

Por isso guarda as tuas formas e o teu corpo preenche inteiramente o seu espaço interior.
Por isso os teus cabelos recebem o toque mágico da chuva matinal
como se nada houvesse entre eles e a presença violenta dos deuses.

IV

Sinal na manhã fértil, teus quadris harmoniosos
de fogosa gazela, enchem-me de inexplicável júbilo
e sombrio desespero.

V

De novo o espelho, a imagem facetada,
o dia multiplicado, o número secreto da besta apocalíptica.
De novo a serena postura que aprendeste dos deuses, por um outono agreste e solitário.
De novo a tua voz ondulando o silêncio,
desfolhando o riso sobre as águas,
que deixam marcas de sal no teu corpo húmido de amor.
De novo o perfume que trouxeste contigo do outro lado da terra
e precede teus passos,
teu riso,
tua voz.

VI

Estás ainda presente na curva do colchão.
No travesseiro desalinhado. Naquele gesto
de deixar a cortina cair sobre o teu pudor adolescente.

VII

Aponto geograficamente os rios, os acidentes
do teu corpo. Co[n]to-os, desenho-os de cor no mapa imaginado,
navego até às nascentes, percorro as sendas das montanhas,
descubro dos teus olhos o horizonte azul, o mar
em tuas coxas com lúcidos golfinhos e uma serei
adormecida, a leste.

 

 

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tradução

Henri Michaux, por Ana Cláudia Romano Ribeiro

10 aforismos de Poteaux d’angle (Pilares de canto), de Henri Michaux

Henri Michaux (1899-1984), poeta belga de expressão francesa, foi um sujeito dotado de grande curiosidade e marcado pela não-acomodação. Interessou-se por quase tudo ao longo de sua vida: escrita, etnologia, línguas, música, pintura, corpo humano, drogas, zoologia, botânica, mineralogia. Diz-se dele que, antes de morrer, morava em um quarto praticamente vazio, a não ser pela presença de dicionários de biologia, astronomia, línguas, ornitologia, etc.

Ele viajou muito, tanto a trabalho quanto por prazer. e tirou grande proveito do tema da viagem para fora ou para dentro de si em sua literatura. Foi para a Inglaterra, América do Norte, Índia, China, Japão, conheceu vários países da América do Sul e, no Brasil, visitou os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Tanto quanto os grandes deslocamentos interessavam-lhe as pequenas distâncias e os seres minúsculos – diz-se que andava com uma lupa no bolso. Também era um observador minucioso dos processos vitais e do comportamento de organismos, na saúde e na doença, fossem eles seres humanos, animais ou plantas, de preferência não-europeus, inventados ou não.

Uma primeira versão de Poteaux d’angle (“Pilares de canto”) foi publicada em 1971 pelas edições de L’Herne e, aumentada com textos inéditos, republicada em 1978 pela Fata Morgana. A última versão data de 1981 (Gallimard) e a ela Michaux, aos 82 anos, acrescentou duas novas partes e um poema final. O livro totaliza quatro partes, quatro pilares que definem espaços de insubordinação em forma de aforismos, preceitos e considerações variadas. São recomendações endereçadas muitas vezes a um “tu” no imperativo, disparadores de meditação de um livro de sabedoria que faz parte de uma longa e antiga linhagem. Aqui, porém, a moralidade é paradoxal, inverte os lugares comuns e fornece “ensinamentos contra o ensinamento”, anti-sabedoria que ensina sabedoria, como observa Chloé Hunzinger. Em suma, aforismas contra toda e qualquer acomodação. Espécies de vacinas.

Ana Cláudia Romano Ribeiro traduz, escreve, desenha, pesquisa outros modos de expressão e é professora na Universidade Federal de São Paulo. Publicou a tradução com introdução e notas da utopia francesa A terra austral conhecida (1676) de Gabriel de Foigny (editora da Unicamp, 2011) e coeditou a revista Morus – Utopia e Renascimento, para a qual fez também traduções. Atualmente está no prelo sua tradução com introdução e notas da Utopia (1516) de Thomas More (editora da UFPR). Traduziu os aforismas poéticos Poteaux d’angles (Pilares de canto), de Henri Michaux, e, em projeto coletivo, a peça de teatro Le bleu de l’île (O azul da ilha), de Évelyne Trouillot. Na escamandro, publicou a tradução de Amazonia he visto (“Amazônia eu vi”), de José Muchnik, e poemas seus. Atualmente está preparando uma antologia de escritoras de língua francesa (poesia).

Henri Michaux, por Jean Dubuffet

* * *

Aprende tão somente com reservas.

Toda uma vida não basta para desaprender o que, ingênuo, submisso, tu deixaste que te colocassem na cabeça – inocente! – sem pensar nas consequências.

N’apprends qu’avec réserve.

Toute une vie ne suffit pas pour désapprendre, ce que naïf, soumis, tu t’es laissé mettre dans la tête – innocent! – sans songer aux conséquences.

§

Sem pressa com teus defeitos. Não vás corrigi-los inconsideradamente.

O que colocarias no lugar?

Avec tes défauts, pas de hâte. Ne va pas à la légére les corriger.

Qu’irais-tu mettre à la place?

§

Realização. Não demais. Apenas o necessário para que te deixem em paz com as realizações de modo que possas, sonhando, só para ti, logo entrar no irreal, no irrealizável, na indiferença à realização.

Réalisation. Pas trop. Seulement ce qu’il faut pour qu’on te laisse la paix avec les réalisations, de façon que tu puisses, en rêvant, pour toi seul, bientôt rentrer dans l’irréel, l’irréalisable, l’indifférence à la réalisation.

§

Vai até o fim dos teus erros, pelo menos de alguns deles, para poder observar bem de que tipo são. Se não, parando no meio do caminho, irás sempre cegamente retomar a mesma espécie de erros, de uma ponta da vida à outra; certas pessoas chamarão isso de teu “destino”. O inimigo, que é tua estrutura, força-o a se descobrir. Se não puderes entortar teu destino, não terás sido mais do que um apartamento alugado.

Va jusqu’au bout de tes erreurs, au moins de quelques-unes, de façon à en bien pouvoir observer le type. Sinon, t’arrêtant à mi-chemin, tu iras toujours aveuglément reprenant le même genre d’erreurs, de bout en bout de la vie, ce que certains appeleront ta “destinée”. L’ennemi, qui est ta structure, force-le à se découvrir. Si tu n’as pas pu gauchir ta destinée, tu n’auras été qu’un appartement loué.

§

Aconteça o que acontecer, nunca te deixes levar – erro supremo – pela crença de que és o mestre, nem mesmo um mestre do mal pensar. Resta muito a fazer, enormemente, quase tudo. A morte colherá um fruto ainda verde.

Quoi qu’il t’arrive, ne te laisse jamais aller – faute suprême – à te croire maître, même pas un maître à mal penser. Il te reste beaucoup à faire, énormément, presque tout. La mort cueillera un fruit encore vert.

§

… Bobos por terem sido inteligentes cedo demais. Não te apresses rumo à adaptação.

Guarda sempre uma reserva de inadaptação.

… Bêtes pour avoir été intelligents trop tôt. Toi, ne te hâte pas vers l’adaptation.

Toujours garde en réserve de l’inadaptation.

§

É preciso um obstáculo novo para um saber novo. Vigia periodicamente para suscitar obstáculos para ti, obstáculos para os quais deverás encontrar uma parada… e uma nova inteligência.

Il faut un obstacle nouveau pour un savoir nouveau. Veille périodiquement à te susciter des obstacles, obstacles pour lesquels tu vas devoir trouver une parade… et une nouvelle intelligence.

§

Caído na água, um homem afunda. A corrente o gira, o revira, o afunda, o leva. Ele não voltará mais à superfície. Em todos os orifícios a água se apressa, penetrou irreversível, fazendo barragem em volta. Pulmões bloqueados, a respiração não está em funcionamento. Uma única aspiração intempestiva tampou tudo. Outras são impossíveis. Seria levantar um muro. Alguns segundos faltam, o tempo já não está mais defronte, mais para trás apenas. A vida inteira parece desfilar (erro, somente acontecimentos dos mais banais, bagatelas outrora estimadas importantes, se mostram uma última vez, passando vivamente uma após a outra).

A impressão de futuro não é mais continuada, aquela que somente a respiração ininterrupta sustentava, proporcionalmente.

Do lado de fora, pessoas com seu “presente” completo, em bom estado, com o conforto (sem perceber) de respirações regulares, fazedoras de futuro, passeiam inconscientes possuidoras do indispensável e, venturosas ou crispadas, sonham com o superficial, com a superfetação.

Tombé à l’eau, un homme s’enfonce. Le courant le roule, le retourne, l’enfonce, l’emporte. Il ne reviendra plus à la surface. À tous les orifices, l’eau se presse, a pénétré irréversible, faisant barrage tout autour. Poumons bloqués, la respiration est hors de fonctionnement. Une seule aspiration intempestive a tout bouché. D’autres sont impossibles. Ce serait un mur à soulever. Quelques secondes manquent, déjà le temps n’est plus en face, n’est plus qu’en arrière. La vie entière paraît défiler (erreur, seulement de sacrés petits faits divers, bagatelles autrefois trouvées importantes, se montrent une dernière fois, passant vivement à la file).

L’impression d’avenir n’est plus continuée, que seule la respiration ininterrompue soutenait, à mesure.

Dehors des gens avec leur “présent” complet, en bon état, avec le confort (sans le remarquer) de respirations régulières, faiseuses d’avenir, se promènent inconscients possesseurs de l’indispensable, et béats ou crispés rêvent au superficiel, au superfétatoire.

§

Uma certa aranha toda manhã faz na natureza e em todo local que lhe permita uma teia admiravelmente regular. Após a ingestão de um extrato de cogumelo alucinógeno – que por artimanhas lhe fizeram tomar – ela começa uma teia cujas espiras pouco a pouco não se seguem mais e saem tortas, e tanto mais quanto a quantidade absorvida é mais considerável: uma teia de louca. Partes cedem, se enrolam, Zygiella notata, é seu nome, não para antes de ter obtido a dimensão habitual, mas tornou-se incapaz de seguir seu plano, um plano que porém não data de ontem, mas de dezenas ou de centenas de séculos, passando intacto e perfeito de mãe a filha, ela comete erros, duplicações, deixa buracos em alguns lugares, justo ela, tão cuidadosa, e segue adiante. As últimas espiras são um balbucio, uma vertigem, é como se ela tivesse sido tomada por um assombro. Obra em ruína, mal sucedida, humana. Aranha tão próxima de ti agora. Ninguém sobre a droga exprimiu mais justamente, mais diretamente o transtorno dos enredamentos. Como irmão, olha suas ruínas em fio. Mas afinal o que ela, Zygiella, viu?

Une certaine araignée chaque matin fait dans la nature et en tout lieu qui s’y prête une toile admirablement régulière. Après ingestion d’un extrait de champignon hallucinogène – que pas ruse on lui a fait prendre – elle commence une toile dont petit à petit les spires ne se suivent plus et partent de travers, et d’autant plus que la quantité absorbée est plus considérable: une toile de folle. Des parties s’affaissent, s’enroulent, Zygiella notata, c’est son nom, ne s’arrête pas avant d’avoir obtenu la dimension habituelle mais, devenue incapable de suivre son plan, un plan qui pourtant ne date pas d’hier, mais de dizaines ou de centaines de siècles, passant intact et parfait de mère en fille, elle commet des erreurs, des redoublements, ailleurs laisse des trous, elle, si soigneuse, et passe outre. Les dernières spires sont un balbutiement, un vertige, c’est comme si elle avait eu un éblouissement. Oeuvre en ruine, ratée, humaine. Araignée si proche de toi maintenant. Nul sur la drogue n’a plus justement, plus directement exprimé le trouble des enchevêtrements. En frère, regarde ses ruines en fil. Mais qu’a-t-elle donc vu, Zygiella?

§

No campo, no canto do quarto, vês um rato se mexer. Ou seria somente um farrapo que o ar fez tremer? Às vezes rato, às vezes farrapo.

Aquele que ainda nunca matou transpira, tomado de mal-estar e de uma desviante emoção inesperada que se aproxima inclusive da vertigem.

A virgindade ainda intacta (quanto ao assassinato) recebe uma tentação, um choque. Cheias de problemas, as virgindades.

A frágil colunazinha de pequenas vértebras que faz permanecer inteiro o pequeno animal explorador e impudente como toda a sua espécie, desrespeitosa do homem, ah! se um golpe sobre o dorso lhe fosse desferido, seria o fim dessa irritante vida ao rés do chão.

Logo algo de inconfessável toma em você proporções enormes, as proporções de uma guerra! Por um rato! Assim trabalha a irresolução. Vamos, aja, um rato, essa coisa não vai gritar tão forte. Mas o problema permanece: uma virgindade deve ser vencida ou conservada? Decide-te, o rato não espera… Ele já se safou.

Também ele vivia uma aventura premente que, como indivíduo de ação, resolveu agilmente.

À la campagne, dans le coin de la chambre tu vois remuer un rat. Ou serait-ce seulement une loque que l’air a fait frissonner? Tantôt plus rat, tantôt plus loque.

Celui qui n’a encore jamais tué transpire, pris de malaise et d’une devoyante émotion inattendue qui approche même du vertige.

La virginité encore intacte (quant au meurtre) reçoit une tentation, un choc. Pleines de problèmes, les virginités.

La frêle colonette de petites vertèbres qui fait tenir ensemble le petit animal fureteur et impudent comme toute son espèce, irrespectueuse de l’homme, ah! si un coup sur le dos lui était asséné, c’en serait fini de cette irritante vie au ras du sol.

Déjà de l’inavouable prend en toi des proportions énormes, les proportions d’une guerre! Pour un rat! Ainsi travaille l’irrésolution. Allons, agis, un rat, ça ne va pas crier tellement fort. Mais le problème demeure: une virginité doit-elle être vaincue, ou gardée? Décide-toi, le rat n’attend pas… Il a déjà filé.

Lui aussi vivait une aventure pressante qu’en individu d’action il résolut lestement.

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poesia, Poesia Brasileira Contemporânea

1 poema inédito de Maíra Mendes Galvão

Foto de Isabella Martino

Maíra Mendes Galvão (Brasília, 1981) é tradutora e poeta. Publicou a plaquete nove poemas de mau gosto em 2018 pela Corsário-satã e o livro jamanta na testa em 2019 pela Quelônio. Teve poemas e textos publicados nas revistas ruído manifesto, casulo, escamandro, parênteses, gazeta de poesia inédita, asymptote, entre outras. Teve poemas e traduções publicados em antologias no Brasil e no México. Faz acompanhamentos sonoros para suas leituras e teve um duo de performance experimental poético-sonora com Jeanne Callegari. Faz pesquisa de mestrado em teorias da tradução (USP). Traduziu uma seleção de poemas e textos da modernista angloamericana Mina Loy editada por Amelì Jannarelli que está saindo do prelo agora pelo selo 100/cabeças.

* * *

o senicídio de mara lago e milly ciano

atesto par
canhestro
coaxial batráquio
polemodáctilo
duo de nada
em co-couraça
violácea
co-emergente
(canibal antiantropofágico)
em festa
refestela-se
penistilência
paira no ar

pós chisteculação
orocorporal
desbarranco
a drupa engelhada
reverto par atesto
ex-patifes
munha no calhau

pano de boca
babau

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tradução, xanto

XANTO|Hans Arp, por José Pierre

De la famille des étoiles (1965)

“São quinze pro verão”

O primeiro livro ilustrado por Arp, conhecido por poucos, é uma tradução francesa do Bhagavad-Gîtâ, editada em 1914 pela Librairie de L’Art Indépendant, em Saint-Amand (Cher). Apesar da sua originalidade para a época, as ilustrações, minúsculas vinhetas aracnídeas perfeitamente desapegadas de qualquer preocupação figurativa, e apesar de serem o primeiro testemunho que nos restou dessa ruptura com o “modelo exterior”, não é só a elas que devemos dar atenção. O Bhagavad-Gîtâ ou canto do bem-aventurado, livro sagrado indiano que faz parte da epopeia divina do Mahâbhârata, de fato desenvolve conceitos fundamentais do hinduísmo, dentre os quais o da transmigração, que desempenha um papel fundamental. Resumidamente, a crença em um ciclo de encarnações sucessivas acarreta duas possibilidades: “por um lado, a transmigração (samsâra) sem fim, condição normal da existência; por outro, a possibilidade de se libertar para sempre dessa transmigração, quer dizer, a aquisição do nirvâna, para aqueles que compreenderam a fundo a estrutura das coisas” [1].

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Portfolio with 12 etchings – I, RUE GABRIELLE”. Douze eaux-fortes originales de Jean Arp. Préface de Michel Seuphor. Paris, Editions XXe siècle (1958).

Parece-me, e essa é a razão da digressão precedente, que este dilema está no coração da obra poética e plástica de Hans Arp. O sâmsara efetivamente implica uma instabilidade contínua do ser que se reveste dos envelopes heterogêneos sob os quais, um após o outro, persegue-se um único destino; através disso é afirmada indiretamente a unidade do mundo vivo, sendo que as barreiras entre os reinos são menos custosas do que aquilo que as arruína. Esse talvez seja o mais frequente espetáculo que nos é oferecido pela poesia de Hans Arp, espetáculo de uma cadeia de metamorfoses inelutáveis:

numa boca
se abre outra boca
e nessa boca
se abre outra boca
e nessa boca
se abre outra boca
e assim segue
sem fim

que se conclui com uma constatação de identidade entre as diferentes formas da natureza:

as pedras são vísceras
bravo bravo
a pedras são troncos de ar
as pedras são galho d’águas 

ou ainda:

as orelhas os narizes as bocas as cabeças os pés
são pedras

a propósito do quê não podemos deixar de sonhar com Novalis:

Tornar-se flor, animal, pedra, estrela…

e, é claro, com a famosa frase liminar do quarto dos Cantos de Maldoror:

É um homem ou uma pedra ou uma árvore que vai                                      [começar o quarto canto.

A originalidade de Hans Arp está em ter tentado apreender diretamente os seres e as coisas no nível da sua indiferenciação original, proposição parcialmente confirmada, como é sabido, pelas descobertas da embriologia moderna. Isso revela-se mais particularmente em seus relevos e melhor ainda em suas esculturas, onde a pedra, denominador comum das metamorfoses, que se perpetua até ele passando por Novalis e Lautréamont, permite fixar de maneira duradoura o avatar terminal, ou primordial…[2] Podemos nos perguntar justamente se não se trata, da parte do escultor, de um meio de interromper a cadeia de mutações para atingir, através do estabelecimento da identidade dos possíveis no estado de sua indiferenciação, a plenitude e a interrupção da História, ou seja, o nirvâna. Mas a vontade do Arp escultor parece mais tender à abolição entre as coisas criadas pelo homem e as coisas criadas pela natureza, — entre os dois sentidos da palavra criação — o que é atestado particularmente pela Sculpture à être perdue dans un bois (1932)[3], a respeito da qual poderíamos falar numa tentativa de conciliação entre a via das encarnações obrigatórias e a fuga pela imobilidade.

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Sculpture à être perdue dans un bois (1932)

Isso seria o que em Arp, para mim, compete ao “ponto supremo” apontado por Breton no Segundo manifesto do surrealismo.

Pois os momentos em que Arp parece obedecer à tentação do nirvâna são aqueles em que ele é levado pelo pessimismo e pela recusa da vida proteiforme: por exemplo em 1915, período de suas obras mais rigorosas, mais geométricas (“Estas obras são construídas com linhas, superfícies, formas e cores que procuram atingir, para além do humano, o infinito e o eterno”). Sem dúvida esses momentos correspondem à obsessão com a morte e seu reverso, a crise mística, especialmente evidentes no início da Primeira Guerra Mundial, depois do falecimento de Sophie Taeuber (1943) e em suas esculturas (Seuils, sobretudo) e poemas (Acalma-línguas) dos seus últimos anos.

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Seuil-Configuration (1959)

Entretanto, é bastante nítido que a essa tentação se opõe com força o que serei tentado a chamar de Feliz Arpádia. Contrariamente ao Hindu que, condenado à transmigração em série se desvia espantando desse destino que ignora o apaziguamento e o repouso, Arp floresce plenamente na metamorfose. Poderíamos afirmar com ele que a analogia poética torna-se o caminho da felicidade, não de uma felicidade imaginária, de ordem psicológica, mas de uma felicidade verdadeiramente física, como a que se expressa nos exercícios de ginástica que ele nos faz testemunhar:

a cadeira sobe na mesa
o fogo sobe na cadeira
a voz sobe no fogo
o que fica por baixo da natureza cresce e monta                                      [em cima da natureza e
fala de cadeiras e mesas pegando fogo

e que além disso são realizados em sentido ascendente (tanto física como moralmente falando) como prova o célebre e admirável dístico:

o rouxinol regar os estômagos os corações os cérebros                                [as tripas
ou seja os lírios as rosas os cravos os lilases

Aos que vierem me dizer que isso não concerne em nada os seres humanos, contentarei-me em opor este fragmento de um poema de 1960:

Uma mulher e seus doze filhos
dormem sãos e salvos
e acordam lago habitado
por ninfas sombrias
e derramando treze rios selvagens. 

Um apetite de felicidade imenso, cujo humor é somente um de seus aspectos, o mais deslumbrante, sem dúvida. O humor de Hans Arp… haveria tanto a se dizer sobre isso que prefiro transcrever

O MESTRE PREGADOR

Quando chego
meus amigos largam tudo
e correm
para me ver pregar.
Meu martelo e eu
somos um.
Só sei pregar pregos
em miolo de pão
prego tão bem
que meus amigos esquecem de tudo
e literalmente são transportados
transfigurados em puro azul.
É devagar devagarinho
que eles reaparecem
que eles se reconstituem
em azul corrente
depois em carne e osso
depois que parei de pregar meus pregos
no miolo de pão.

Um poema impressionante, que lembra a pseudo-ingenuidade do Arenque defumado de Charles Cros, e tem sobretudo o mérito de evocar (humoristicamente) o poder mágico do ato criador (poético ou artístico), também capaz de metamorfosear os que alcançam penetrar na intimidade da obra…

Remeto quem pensou que eu queria provar que Arp é um poeta hindu de volta ao seu estábulo. Quis simplesmente demonstrar que a poesia de Arp é, ao lado da de Breton e de Péret, a mais essencialmente surrealista possível. Ao menos aos meus olhos. Não preciso dizer que admiro e é evidente que adoro muitos outros poetas surrealistas. Porém, Arp, Breton e Péret fazem com que a poesia surrealista não possa ser confundida com nenhuma outra. Por conta disso a recente publicação de Dias desfolhados deve ser saudada pelos surrealistas como um evento da mais alta importância.

Gostaria ainda de acrescentar que somente uma deplorável miopia (sim, isso existe) é capaz de impedir a percepção da espantosa unidade que, dos relevos aos papéis rasgados e das esculturas aos poemas, faz dos diversos produtos da atividade de Hans Arp um “mesmo bloco de pedra”. “Este bloco sonha, suspenso no ar, imóvel. Ele está ali, imóvel, no lusco-fusco, e sozinho engendra fantasmas”.

José Pierre

In: L’archibras 2. Les surréalisme en octobre 1967. Dir. Jean Schuster. Le Terrain Vague: Paris, 1967. Tradução inédita de Natan Schäfer.

NOTAS

[1] P. Masson-Oursel et Louise Morin. « Mythologie de l’Inde», in: Mythologie générale, Larousse 1935.

[2] Não ignoro que a modelagem do gesso, ainda mais que o talho direto, constitui o percurso escultural essencial de Hans Arp. Mas a passagem do estado pastoso, quase líquido, ao estado sólido, próprio do gesso, responde melhor que o trabalho em mármore às intenções de metamorfose.

[3]Nota do tradutor: na verdade a escultura em questão se chama “Sculpture à être perdue dans la forêt”.

 

 

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crítica, poesia

Uma alegria estilhaçada: Poesia brasileira 2008-2018, por Gustavo Silveira Ribeiro

Hoje sai finalmente a antologia preparada pelo professor Gustavo Silveira Ribeiro, em desdobramento da série Uma casa para conter o caos, que foi publicada em 2019, na seção Xanto, e também da antologia A extração dos dias: poesia brasileira agora, publicada aqui em 2017. Como em todos os casos, prezamos pela independência crítica e cedemos o espaço para que ela se desdobre em diálogos e debates. Desta vez a edição foi preparada pela Edições Macondo e deve em breve sair também no formato impresso.

escamandro

Baixe aqui a obra completa:
Uma alegria estilhaçada — Gustavo-Silveira-Ribeiro (org.) 2020.

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poesia, tradução

Hans Arp (1886 – 1966), por Natan Schäfer

Hans Arp (1886 – 1966) nasceu em Strasbourg, na Alsacia. Autor de uma obra múltipla de verdade, Arp e suas realizações não conhecem fronteiras. Justamente por isso, poderíamos paradoxalmente afirmar que o lugar por excelência ocupado por Arp, equilibrista à margem da margem em permanente posição de clandestinidade, é exatamente a fronteira, ou melhor ainda, afronteira.

Textualmente, expressou-se em francês e em alemão, ambas suas línguas-mãe, que em Arp conviveram numa dialética harmonia, apesar das grandes guerras e suas bandeiras bestas. Porém, tanto suas esculturas quanto collages, pinturas e escritos constituem e partem de uma só visão de mundo, marcada por uma constante oscilação entre o Grande Dia e a Grande Noite, um senso de humor singular — que lhe valeu uma posição de destaque na legendária Antologia do humor negro, organizada por André Breton — e uma relação intensa e franca com seu sonho, sua fantasia e seus desejos, constituintes elementares do mais-que-real arpádico, ou seja, de sua vida.

Trago aqui dois breves poemas pinçados da extensa obra de Arp que me parecem bastante representativos, além de possibilitarem diálogos e aberturas importantes com relação ao que cada um de nós vive hoje, agora. Os textos foram tirados deARP, Hans Jean. ich bin in einer wolke geboren/ je suis né dans un nuage. Hrsg. von Christian Luckscheiter. Mitteldeutscher Verlag: Karlsruhe, 2018.

Agradeço muito ao Guilherme Gontijo Flores e ao pessoal do escamandro pela publicação.

Boaventura!

Natan Schäfer (1991) nasceu em Ibirama, Santa Catarina. É mestre em Estudos Literários pela UFPR e por Lyon 2 e capitaneia a Contravento Editorial. Atualmente vive em Berlim.

* * *

Veias negras

morre a quimera das rosas
no meu peito de névoa
na beira do leito espreito
um astro velho e rachado

aranhas cinzas vão em fila
às veias negras do horizonte
vão como que para o enterro de uma fada
o vazio suspira

meus pobres sonhos perderam as asas
meus pobres sonhos perderam os fogos
de mãos dadas em volta
do caixão do meu coração
sonhando com cinzas migalhas

o dia ressurge
mas não tenho mais forças
caindo o céu me cobre
abro os olhos para sempre

Veines noires
dans mon cœur de brouillard
meurt la chimère des roses
un astre s’assied au bord de mon lit
il est vieux et lézardé

des araignées grises s’en vont à la file
vers l’horizon aux veines noires
elles s’en vont comme pour l’enterrement d’une fée
le vide soupire

mes pauvres rêves ont perdu leurs ailes
mes pauvres rêves ont perdu leurs flammes
ils se serrent les coudes
sur le cercueil de mon cœur
et rêvent de miettes grises

le jour réapparaît
mais je n’ai plus de forces
le ciel descend et me couvre
j’ouvre pour toujours les yeux

§

Sophie

os corações são estrelas
que florescem nas pessoas.
Toda flor é céu.
Todo céu é flor.
Toda flor fosforesce.
Todo céu floresce.

digo corriqueiras frasinhas
baixinho, só para mim.
Para me encorajar,
para me confundir,
para esquecer da dor maior,
do desamparo em que vivemos,
digo bobas frasinhas.

Os mares são flores.
As nuvens são flores.
As estrelas são flores,
que florescem no céu.
A lua é uma flor.
A lua também é uma lágrima grande.

digo corriqueiras frasinhas
baixinho, só para mim,
sempre só para mim.
Digo corriqueiras, mínimas frasinhas.
Digo como os mínimos sinos,
que se repetem e se repetem.

Sophie está no céu.
Sophie é uma estrela.
Sophie é uma flor.

Todas flores florescem,
florescem para ti.
Todos corações fosforescem,
fosforescem para ti.

Agora você se foi.
E eu aqui, que fico, que faço.
Tenho só um desejo.
Quero ter dar um abraço.

Como a vida passa rápido
na clara escuridão divina.
Mal se disse hoje,
já se foi amanhã.
E assim vão os anos
com jogos, sonhos e bordos.
E assim vai o tempo
onde as flores flutuam.

Desde que você morreu,
agradeço cada dia que se vai.
Cada dia que se foi
me aproxima de ti.

Você desenhava o contorno da vida iluminada.
As marés azuis perfumadas
correndo dos tapetes floridos do verão,
o marulho do molho de nuvens,
iluminava suas linhas sobre a infamiliar base.
Você cercava as estrelas floridas com seus feixes de estrela.
Os divertidos canteiros tagarelas fazem um minuto de silêncio,
quando os seus olhos ali brilham.
Você detestava o brilho oco do maravilhoso teatral
destroçado, informe,
os ajoelhares presunçosos desertos.

Sophie

Die Herzen sind Sterne,
die im Menschen blühen.
Alle Blumen sind Himmel.
Alle Himmel sind Blumen.
Alle Blumen glühen.
Alle Himmel blühen.

Ich spreche kleine, alltägliche Sätze
leise für mich hin.
Um mir Mut zu machen,
um mich zu verwirren,
um das große Leid, die Hilflosigkeit,
in der wir leben, zu vergessen,
spreche ich kleine, einfältige Sätze.

Die Meere sind Blumen.
Die Wolken sind Blumen.
Die Sterne sind Blumen,
die im Himmel blühen.
der Mond ist eine Blume.
Der Mond ist aber auch eine große Träne.

Ich spreche kleine, einfältige Sätze
leise für mich hin,
immerfort für mich hin.
Ich spreche kleine, alltägliche, geringe Sätze.
Ich spreche wie die geringen Glocken,
die sich wiederholen und wiederholen.

Sophie ist ein Himmel.
Sophie ist ein Stern.
Sophie ist eine Blume.

Alle Blumen blühen,
blühen für dich.
Alle Herzen glühen,
glühen für dich.

Nun bist du fortgegangen.
Was soll ich hier gehen und stehen.
Ich habe nur ein Verlangen.
Ich will dich wiedersehen.

Wie schnell vergeht ein Leben
in Gottes lichtem Dunkel.
Kaum ist heute gesagt,
ist morgen schon vergangen.
Und so vergehen die Jahre
mit Spielen, Träumen, Säumen.

Seitdem du gestorben bist,
danke ich jedem vergehenden Tag.
Jeder vergangene Tag
bringt mich dir näher.

Du zeichnetest die Umrisse des lichten Lebens.
Die blauen duftenden Fluten,
die aus den Blumenteppichen des Sommers strömen,
das Rauschen der Wolkergarben
verklärten deine Linien über dem unheimlichen Grund.
Die Blumensterne umgabst du mit Sternenstrahlen.
Die spaßhaft plaudernden Blumenbeete schwiegen andächtig,
wenn deine Augen über sie Leuchteten.
Du verabscheutest das Zertrümmerte, das Formlose,
das leer Glänzende der Theaterwunder,
die Kniefälle anmaßender Wüsten.


Basel 1943-1945

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crítica, poesia

“À tarde”, de Aureliano Lessa, por Raimundo Carvalho

Aureliano Lessa – Wikipédia, a enciclopédia livre

À tarde
Aureliano Lessa (1828-1861)

I

Lá descambou o sol… Vai descorando
Manso e manso o cetim vivo-cerúleo
E as vermelhas folhagens que recamam
O côncavo do céu. Transluz no ocaso
Por débil prisma cambiante facho
De semimortas cores, que se perdem
No azul ferrete do noturno manto.
Nevadas franjas flutuando em flocos
Erram nas abas do dossel da tarde,
Como da seda azul que a moça traja,
Cândida renda guarnecendo as orlas.
Galerna a viração farfalha e brinca
Na coma da palmeira; o mar soluça
Esponjando na praia; e a selva freme
Exalando inefável harmonia,
Que os gênios do ermo tímidos murmuram.
Queixosa a juriti na balsa arrula;
Com ela geme o sabiá saudoso,
Assim modula suspirosa flauta,
Assim chama a viúva pelo esposo
Qu’inda tão jovem lhe caiu dos braços.

II

Mãe da melancolia, ó meiga tarde,
Que mágico pintor bordou teu manto
Coas duvidosas sombras do mistério?…
Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar coa nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases…
Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d’anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d’ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam…
Não sei! Há dentro d’alma tantas cousas
Que jamais proferiram lábios d’homens…
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora,
Té de mim próprio sinto um vago olvido,
Um sereno rumor, que a alma dormenta.

III

Salve, filha dos raios e das trevas,
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?… A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: – todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens – té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
Limpa o suor o peregrino errante,
E arrimando ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: – sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo,
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d’alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura,
Que o vazio do coração lhe supram.
Talvez agora na floresta anosa,
Proscrito errante, o índio americano
Para e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
Fadem os Deuses pouso ao peregrino,
Liberdade ao escravo, amor à virgem,
E tardes, como esta, ao triste Bardo.

IV

As inflamadas nuvens já se abatem
Do incêndio ocidental. – Reina o silêncio
Temeroso e fugaz. – A natureza
Entre o sono e a vigília está suspensa.
Oh! quem não sente sussurrar-lhe n’alma
Um desejo inefável como os sonhos,
Uma lembrança incerta e vaporosa?!…
Nesta hora amável, entre a dor e o riso,
Magicamente embala-se a existência;
Em cada coração qu’inda palpita
sonora cai da lira do Universo
Uma nota de amor e de saudade.
Extático , no cimo da montanha,
Feroz não ruge o mosqueado tigre,
E o bálsamo de amor, que a tarde mana,
No coração do bárbaro se infiltra.
Tudo é viver, mas um viver tão lânguido,
Tão misterioso, que parece um sonho:
Calma na natureza, amor em tudo.
Quiçá longe de urdir sangrentas tramas
De inóspito rochedo em negra cova
Responde agora o anjo do infortúnio,
Inimigo dos homens: Tarde ou nunca
De um dormir letárgico desperte!
Vela, gênio do bem, vela em seu sono!

LESSA, Aureliano. Poesias. Edição, apresentação e notas por José Américo Miranda. Belo Horizonte, FALE, 2000. O livro está disponível aqui.

* * *

Algumas considerações a respeito do poema “À tarde”, de Aureliano Lessa

Qualquer análise deste poema deveria começar por reconhecer o seu pertencimento a uma linhagem de poemas vesperais, assim denominados por representarem o eu-lírico meditando à tarde, tendo por objeto o próprio fenômeno natural e suas relações com a existência. Dentre esses poemas, destaco o hino “À tarde”, do pré-romântico Odorico Mendes (1799-1864), o hino “A tarde”, de Gonçalves Dias (1823-1864), o “Hino à tarde”, de Bernardo Guimarães (1825-1884) e “Louvação da tarde”, do modernista Mário de Andrade (1893-1945). Além da aludida temática, esses poemas têm em comum o fato de serem de maior fôlego. São poemas relativamente longos para o padrão lírico em geral, entre 94 a 165 versos, todos tendo por base rítmica, exclusiva ou predominante, o decassílabo branco. O que diferencia o poema de Lessa dos demais, sob o ponto de visto do desenvolvimento do tema, é que, enquanto naqueles o sujeito da contemplação se sobrepõe ao objeto contemplado, nele a presença do sujeito é minimamente anotada, na negativa ou em formas oblíquas, ocorrendo uma espécie de fusão do eu na natureza ( ver versos 33-40). Ao mesmo tempo esse eu-lírico, esquecido de si, em sua imaginação, acolhe o peregrino errante, o pobre escravo, os sôfregos amantes e o índio proscrito. Se observarmos bem a figura de acumulação que vai se formando a partir do verso 50, vemos que ela se conclui com a reiteração dos elementos enumerados, de tal forma que ocorre, no verso 69, uma perfeita identificação entre a natureza, o eu e o outro, se entendermos que a expressão “triste Bardo” condensa uma referência ao “índio americano” citado no verso 59 e uma autorreferência. Há que se perguntar por que, diante de um espetáculo de tal magnitude e beleza como um fim de tarde, a alma do poeta se tinge com as cores da melancolia para, ao mesmo tempo, se solidarizar, sem nenhum proselitismo ou queixa pessoal, com os infelizes e os desterrados: o estrangeiro, o escravo, a mulher (a viúva, a donzela) e o índio. A resposta é todo o poema, urdido das mais sutis ressonâncias, aliterações e rimas toantes adicionando reflexos prismáticos aos decassílabos brancos, numa perfeita correspondência entre gradações sonora e imagética.

Bem, penso que já passou da hora de lermos a obra dos nossos poetas românticos não como documento de época ou exemplo de uma dada poética, mas como poemas simplesmente, nos quais, nós, leitores, possamos projetar o nosso imaginário e a nossa inteligência, sem nos atermos aos juízos nem sempre acurados dos historiadores da literatura.

Raimundo Carvalho

 

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poesia, Poesia Brasileira Contemporânea

Sonethos dos profetas, por Evandro von Sydow

Evandro von Sydow gosta de azulejos e de fotografar botequins do subúrbio. Inventou a editora Laphroaig, pela qual planeja lançar, ainda este ano, um livro de limeriques baseado no Livro de Perguntas, do Neruda, e um de sonetos para os profetas do Aleijadinho. Este último terá ilustrações de Felipe Stefani. Ama as cigarras e seu filho Dante.

As fotos são do próprio poeta.

* * *

ABERTURA

o nome deste rio é Maranhão
em Minas coração de Minas se
te causa isso estranheza lembra
o nome desta pedra é sabão
e assim as coisas improváveis fazem
ruído como a água preguiçosa
no cascalho e que susto enfim lembrar
que todo esse diálogo de pedra
entre os velhos profetas no sem-tempo
e o sem sentido apelo do não
foi escrito por um certo antônio
que não tinha dedo e não tinha mão
tinha um cinzel e sonhos em Congonhas
à margem deste rio Maranhão

§

NAUM

a barba de Naum é como um rio
de pedra — de pedra também o seu
suor sobre a sotaina longa e velha
a barba de Naum é como a barba
de um visionário doido vagabundo
a barba de Naum descobre o mundo
úmido húmus a nutrir o vento
um único refúgio da loucura
nodosa e retorcida como suas
mãos que agouram a queda da Assíria
a barba de Naum transcende a ira
assim presente nos profetas parvos
a barba de Naum é apenas barba
farta cerrada amarga barba. E basta

§

JONAS

De boca aberta (como a da baleia)
Jonas contempla o vento e as chuvas que
desgastam lentamente os seus lábios
de onde jorram palavras contra Nínive
Três dias e três noites infinitos
no escuro da baleia sobrevive
triste Gepeto no areal cuspido
Deus precisa falar com Jonas mas
ele não quer conversar com Deus: foge.
E hoje — dezoito de dezembro — hoje
quando a negra noite baixa em Congonhas
e o céu mineiro é uma tela cheia
de estrelas Jonas se pergunta (em sonho)
se estará ainda dentro da baleia

§

AMÓS

amar Amós amar um cão assim
um vira-lata bonachão tristonho
que sem esforço recupera em sonho
a confusa missão que Deus lhe deu
In vaccas pingues invehor et proceres
escravizar desprezar humilhar
o pobre o indigente o oprimido
são estes os crimes e o que mudou?
os chefes de Israel e as vacas gordas
só mudaram de nomes a opressão
ora, é bem a mesma se não maior
amar Amós é desamar a mó
para amar o que nela se tritura
para amar o grão sob a pedra dura

§

DANIEL

São como as patas do leão as mãos
de Daniel : arredondadas firmes
repare nessas mãos que amansam feras
repare nessas heras que desgastam
e pastam sobranceiras e cansadas
cavando nadas e cavando sulcos
sobre o nariz imberbe do profeta
Daniel saber ser Daniel assim
na mitra que lhe cobre a cabeleira
estão os louros de quem sabe que
triunfou
repare nesses olhos amendoados
dois espelhos de pedra, mire bem
e repare então nos nossos também

§

ABDIAS

na paisagem dos montes um profeta
abriga nuvens em seus olhos largos
nas tarde infinitas de Congonhas
seu braço erguido já parece pronto
pro abraço que quer dar em Habacuque
não desconhece ele que confrontos
fazem do mundo um carnaval amargo
por isso pede no seu breve livro
sejam os povos solidários livres
e ainda mais solidários quando escravos
no rosto do profeta não há laivos
de tormentos sulcados pelos dias
na paisagem de Minas ergue o braço
e atende pela graça de Abdias

§

OSÉAS

Oséas ama uma mulher e ela
vai ter com outros homens, com quem goza
Pobre Oséias, seu gozo só virá
quando ele, poeta, faz metáfora
Assim Oséias crê assim espera
Profeta do amor, desconhece a ira
Todo seu ódio ele bota fora
Tentativa de vida menos áspera
E quando Oséias estiver mais triste
Daquele triste de não ter jeito
Daquele triste do soneto imperfeito
Com seu amigo Amós vai ao boteco
Os dois velhinhos pedem sempre o mesmo
Angu, feijão tropeiro e um bom torresmo

§

EZEQUIEL

Com o braço direito flexionado
Em decidida e demorada curva
Que remonta às estátuas de Bernini
Ezequiel traz escrita em suas mãos
A dura dor do exílio a dor das mãos
que não choraram quando o deleite
dos seus olhos se foi. Assim quis Deus.
Assim o quis coberto de agonias
“Mantém o teu turbante apertado e as
Sandálias nos teus pés”. E Deus sonhou
a rigidez do diamante em seu rosto.
Aleijadinho então trapaceou
conferindo a seus olhos mansidão
Acentuada quando o sol é posto.

§

??

JOEL

Na mão direita traz a sua pena
Sua cartela vem na mão esquerda
E se estas são macias e redondas
A profecia fala da lagarta
Que descerá à terra como em ondas
Seu traje é especialmente trabalhado
Tanto no manto quanto no casaco
Sobressai o trabalho dos broslados
Nada disso, porém, lhe empresta paz
Já revelam seus pés desassossego
O que suas palavras nos ensinam
Que diz Joel em seu discurso roto
Quando os olhos oblíquos descortinam
A imensa multidão dos gafanhotos?

§

HABACUQUE

Escuro ainda e o galo já pousou
na borla do barrete de Habacuque
Ele bem sabe que de todos doze
este é o único que questiona Deus
Talvez por isso tenha o braço erguido
Talvez assim abertamente goze
o seu ultraje ante a indiferença
de Deus, porém não é indiferença.
Já o galinho se prepara, tosse
Quando Habacuque afirma sua fé
(sem ovelhas, sem flores as figueiras
não há bois, não há uvas nas videiras)
O galo pisca o olho pro Abdias
E seu canto rouco inicia o dia

§

BARUQUE

A exausta tarde oitocentista chega
a seu termo nos vastos céus de Minas
Cigarras insistentes anunciam
escura e longa noite sem estrelas
Aleijadinho ergue-se do catre
onde sonhava amores com Narcisa
Januário, Agostinho e Maurício
Estão a postos quando a longa tarde
Termina nos exaustos céus de Minas
Os três o equilibram num burrico
E nele vingam mudos a colina
Amarram os cinzéis naquilo que
Um dia foram mãos e Antônio esculpe
A atarracada estátua de Baruque

§

ISAÍAS

Se algum romeiro olhasse descuidado
o transtornado rosto de Isaías
julgaria decerto ter à frente
Imponente e profundo o próprio Deus
Com seus olhos virados com joelhos
vermelhos e dobrados sobre a pedra
uma vela acenderia ou incenso
no extenso adro que circunda a igreja
Sem dureza, Isaías / Deus dirá
Não há-de ser assim com vãs ofertas.
Aberta a tua alma, vem, descansa
Troca a lança por foice troca a espada
pela enxada, depois semeia a terra
Não faças guerra contra teu irmão

§

JEREMIAS

De todos os profetas Jeremias
foi quem mais mastigou a solidão
Há nele qualquer coisa da enguia
de Montale sob a maré diversa
Sempre mais dentro, mais no coração
Alma verde que busca vida onde
mordem o ardor e a desolação
Pois vale a pena ser profeta? Vale
O abandono, o opróbrio, a traição?
Sempre profeta mesmo que se cale
Como que um fogo lhe consome os ossos
Sem poder Jeremias desse modo
ao destino fugir, sua voz ecoa
acompanhando seu olhar incômodo

E sobre nós o tempo se esboroa

Padrão
poesia, tradução

Max Hölzer (1915 – 1984), por Natan Schäfer

© Rimbaud Verlag

Max Hölzer (1915 – 1984) nasceu em Graz (Áustria). Formado em Direito, foi leitor e tradutor em diversas editoras alemãs. Juntamente com Edgar Jené (sobre quem Paul Celan publica em 1948 o ensaio “O sonhos dos sonhos”, em alemão “Der Traum von Träume”), de 1950 a 1952 editou a revista Surrealistischen Publikationen, onde publica pela primeira vez após a Segunda Guerra traduções de Breton, Péret, Lautréamont dentre outros. Dono de uma obra esparsa apenas reunida e reeditada pela Rimbaud Verlag a partir de 1989, Hölzer e sua obra são muitos importantes para a compreensão dos acidentados meandros dos vasos comunicantes surrealistas nos territórios de língua alemã que, ao contrário do que muitos insistem em repetir, não foi uma Batalha de Itararé, ou seja, está longe de não ter sido. Além disso sua obra, que se constitui paralelamente à reconstrução destes países, amplia a discussão da Imagem e do pensamento analógico e simbólico nesses mesmos territórios e além, acenando para a possibilidade de ascendência após um período de lama.

Apresento aqui uma trinca de poemas em prosa do livro Gênese de uma constelação (na edição da Rimbaud Verlag acompanhado por obras do pintor K.O. Götz), profundamente marcados pelo ditado do desejo em íntima relação com o mundo visto e vivido. Os textos foram tirados de Entstehung eines Sternbilds. Surrealistische Prosa. Stierstadt im Taunus: Eremiten Presse, 1958. 2ª ed. Aachen: Rimbaud Verlag, 1992.

Agradeço ao Guilherme Gontijo Flores e ao pessoal do escamandro pelo espaço aberto.

Boas jornadas!

Natan Schäfer (1991) nasceu em Ibirama, Santa Catarina. É mestre em Estudos Literários pela UFPR e por Lyon 2 e capitaneia a Contravento Editorial. Atualmente vive em Berlim.

* * *

 

“Lilli-De” III, 1992, 70 X 100 cm. Guache sobre papel cartão. K.O. Götz.

I – Gênese de uma constelação

O touro estica o focinho mas não emite ruído algum. Movimenta-se na sua própria noite ao longo da praia, de pé nas patas traseiras. As órbitas de seus olhos cheias de areia. Na sua testa, entre os chifres, um estoque de ondas e nuvens. A menina que vai à sua frente tem penas de pombos na cintura. Nenhum passo é capaz de soltar as pontas dos dedos das garras com as quais ela conduz o touro. Talvez jamais tenha sido dia. Uma explosão inaudível faz o mar e a praia naufragarem. Mas eles não tropeçam. A menina dança o touro ofuscado em seu peito. Ele penteia seu coração.

I – Entstehung eines Sternbilds

Der Stier reckt das Maul, aber kein Laut dringt hervor. Er bewegt sich in der eigenen Nacht, aufrecht auf den Hinterbeinen, den Strand entlang. Seine Augenhöhlen füllt Sand. Auf seiner Stirn, zwischen den Hörnern, ist ein Vorrat von Wellen und Wolken. Das Mädchen, das vorangeht, hat Taubengefieder um die Hüften. Kein Schritt löst die Fingerspitzen von den Klauen, an denen sie den Stier führt. Vielleicht ist es nie Tag gewesen. Eine unhörbare Explosion läßt Meer und Strand versinken. Aber sie straucheln nicht. Das Mädchen tanzt dem geblendeten Stier durch die Brust. Er kämmt ihr Herz.

§

II – Babilônia

O céu azul está cheio de açúcar empacotado. As pessoas fazem compras sem deixar rastros, como nenhum selvagem jamais o fez. Sobre trilhos. Lá vai uma que teve as orelhas entupidas por assobios. O relógio lhe espreme a boca para fazê-la calar. Não é como num balneário. A passagem é uma pedra que fica pesada em sua cama. No horizonte rodopia um pouco de poeira, ao qual se dirige o primeiro suspiro da amada. Uma nuvem se estende de uma margem à outra do céu. Guerra e paz, verrugas e riachos. Ele não se deixa mais invadir pela sanguinolenta ameaça. O próximo trem lhe atropela; ele mesmo não terá notado. Trânsito dominical. A confusão de línguas salvou seus cristais na caixa de fumaça da locomotiva, sobre as confortáveis salas de espera que mentem.

II – Babylon

Der blaue Himmel ist voll gewogenen Zuckers. Man kauft ein, spurlos wie ein Wild. Auf Schienen. Da ist einer, der den Pfiffen sein Ohr verstopft. Die Uhr preßt er auf den Mund, um sie zum Schweigen zu bringen. Ist es nicht wie ein Badeort. Die Fahrkarte ist ein Stein, der sich schwer macht in seinem Bett. Am Horizont wirbelt ein wenig Staub, der erste Atemzug der Geliebten, der ihm gilt. Eine Wolke hängt von Rand zu Rand des Himmels. Krieg und Frieden, Warzen und Rinnsale. Er läßt sich die blutige Drohung nicht mehr einfallen. Der nächste Zug überfährt ihn; er wird es selbst nicht bemerkt haben. Sonntagsverkehr. Die Sprachverwirrung hat ihre Kristalle in Rauchkammern gerettet, über den komfortablen Wartehallen, die lügen.

§

III – Bem e mal

O Elba faiscando sob obscuras nuvens ensolaradas. Guindastes aracnídeos pendem flácidos no ar. O cansaço cobrindo um poema desumano me puxa para a água. Mergulho com a força de uma hélice. O bizarro branco dos barcos se espalha pelas paredes do ancoradouro congelado. Chaminés listradas de preto, verdes e dourado. Os golpes das sirenas, o caos das antenas, vergas, enxárcias e mastros, dolfins e boias erguendo-se das águas, como um carimbo alcatroado voando em círculos: caligrafia da vida que divido a ferro afiado como se fosse um poleame incandescente. Paus de carga abertos em ângulo obtuso e o dedo cinabre dum gigante distante nas brumas portuárias em fuga ascendente. As quilhas tortas para o lado, para baixo e as paredes fuliginosas ou enferrujadas, recuando inagarráveis. Mergulho acariciado por rítmicas medusas dançantes e florescentes, conchas abrem seus colos de madrepérola e enquanto vou perdendo a consciência devagar guindastes e arames se enrijecem apontando para cima e aproxima-se, quase flutuando sobre o seio das águas profundamente crispado e rasgado, uma encosta de esmeralda, nua — vítreo barco a vapor do prazer.

III – Gut und Böse

Die Elbe liegt funkelnd unter düsterer Sonnenwolke. Spinnenkrane hängen schlaff in der Luft. Überdruß, der ein unmenschliches Gedicht verhüllt, zieht mich ans Wasser. Ich tauche mit der Kraft einer Schiffs-Schraube. Das bizarre Weiß der Schiffe, gebänderte Schlote, der Rauch und aufgeregte Sirenenstöße, die geometrische Wirrsal der Atennen, Rahen, Stage und Maste, aus dem Wasser ragend die Dalben und Bojen, wie Stempel geteert und umflogen: Schrift des Lebens, das ich wie einen heißen Block mit Eisesschärfe spaltete. Ladebäume, breitwinklig gespreitzt, und fern im Hafendunst der zinnoberrote Finger eines Riesen fliehen nach oben. Zu Seiten gebogene Kiele, abwärts, und rußschwarze oder rostige Wände, zurückweichend, grifflos. Ich tauche, von rhythmisch tanzenden und erblühenden Medusen gestreift, Muscheln öffnen ihren Perlmuttschoß, und während ich langsam das Bewußtsein verliere, steifen sich oben Krane und Drähte und es nähert sich, fast schwebend über der tiefgefurchten, aufgerissenen Wasserbrust, die Smaragdhänge entblößt, der Lustdampfer aus Glas.

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Poesia Brasileira Contemporânea

Lino Machado

Filho de pais portugueses, Lino Machado nasceu no ano de 1957 no Rio de Janeiro, Brasil. Desde 1993 trabalha na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), lecionando no Departamento de Línguas e Letras, do Centro de Ciências Humanas e Naturais (CCHN).
Possui graduação em Português Literaturas (1979), mestrado em Literatura Portuguesa (1988) e doutorado em Literatura Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1996).
Tem experiência na área de Letras (Pós-graduação inclusive), atuando principalmente nos seguintes temas: Literatura Portuguesa, filosofia e semiótica de Charles Sanders Peirce, intersemiose, diálogo literatura-artes visuais, intertextualidade, filosofia da ciência.
Além de artigos vários, publicou os livros As palavras e as cores, sobre Carlos de Oliveira (1999), Sob uma capa (2010), Entre dois vetores (2014) e Viés-cegueira (2020) – este três últimos, volumes de poesia.
De 01 de Agosto de 2014 a 31 de Julho de 2015 efetuou um Pós-Doutorado na Pontifícia Universidade Católica de Minas Geras (PUC-MG), sob a orientação do Prof. Dr. Júlio Pinto, um dos grandes conhecedores de semiótica peirciano no Brasil. De tal Pós-Doutorado resultou o extenso trabalho Trimedi(a)ções: Peirce, física quântica, literatura. Embora uma aproximação entre o criador do pragmatismo e a mecânica dos quanta possa parecer inusitada à primeira vista, ela vem sendo apontada desde, ao menos, 1958 (inclusive por pensadores do calibre de Karl Popper), ainda que sem um maior aprofundamento de tal paralelo, tentado, precisamente, no Pós-Doutorado em questão.
Aposentou-se como Professar Titular na Ufes. Email para contato: linomachado36@yahoo.com

* * *

O que parece

Estou num ponto de ônibus
………..ou da vida
esperando o próximo
………..………..………..oxigênio passar.

Exagero, claro,
como quem aguarda o terremoto
que faça em fran
galhos
aquele formigueiro
no quadrado de grama da calçada.

Não porque deteste as formigas
ou a calçada
com todo o resto,
mas pelo fato estranho
de que, mesmo com recursos
escassos, este mundo urbano
e zoológico
é sempre de um excesso
formidável.

§

Aceita o conselho

Cerca de grandes muros quem te sonhas.
Fernando Pessoa

Constrói muros assim
contra todos os ventos e contatos.
Tenta depois morar
no interior deles ………..egoísta da vida
evitando contatos
não se esquecendo de estar
sob um ótimo teto
contra todas as estrelas,
contatos e ventos.

Ergue muros altos do tipo,
sonhando não ser mais esmurrado
pelo mundo
que teima em bater às nossas portas.
Sim, senhor, teme
este mundo deveras teimoso,
mas também às vezes trêmulo
com os seus próprios terremotos,
os tsunamis e o resto
que se agite de um modo ou de outro.

Põe de pé uns muros dessa espécie
e espera que ninguém
da tua, da nosso espécie
queira atuar
no interior deles ferozmente,
nos canteiros do jardim,
mesmo que eles só existam
na imaginação,
com flores e ervas que sejam figuras
plantadas nuns chãos de neurônios.

Levanta muros do tipo
sem mais demora
diante de mansões, apartamentos, barracos,
gostem ao não
expostos a ventos, contatos,
com sorte
contando com boas redes de esgotos.
Apenas lamenta um item
mais do que chato,
apto a provocar um curto-circuito
nos nervos:
este ou aquele vírus
que volta e meia não é parado por muros,
Troias vencidas sem cavalos.

Lamenta ainda:
vírus
que são um detalhe entre vários
num planeta (não reclame)
de fato bilionário deles,
se não triou de maiores valores
na vida
com suas bolsas e campeonatos.

Sem dúvida, amigo,
lidamos com altos, médios, baixos,
fazendo apostas
entre astros e abismos,
alegrias e pandemônios.

Naves, navios, barquinhos
(mesmo os de papel)
não naufraguem agora!

 

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