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XANTO | Cores que migram (A alquimia do verbo em Marcelo Reis de Mello), por Rafael Zacca

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Foto de Sergio Cohn

Cores que migram

A alquimia do verbo em Marcelo Reis de Mello

Entre as anotações pessoais de Hélio Oiticica, chegou-nos uma, de 1959, sobre a natureza “metafísica” da cor, entendimento que o fez começar a busca pelo que chamou de “cor-tempo”. Para o inventor dos Metaesquemas, a cor seria uma ação antes que uma substância, e, portanto, “essencialmente ativa no sentido de dentro pra fora”, “temporal, por excelência”. Para Hélio, se a cor não é um pigmento, mas uma estrutura temporal metafísica, a tarefa do pintor não é tingir a tela, mas despir a cor “dos sentidos, conhecidos pela inteligência, para que ela esteja pura como ação, metafísica mesmo.” Já em 1960, a consequência alquímica desse pensamento se manifestaria da seguinte forma: “quanto mais não-objetiva é a arte, mais tende à negação do mundo para a afirmação de outro mundo.”

A substituição da cor-pigmento pela cor-tempo prepara a instabilidade da substância das cores e a sua consequente transformação. Subentende-se que a percepção preconceituosa das cores, isto é, aquela imediata, não-elaborada, absorvida pelos sentidos “conhecidos (previamente) pela inteligência” é sintoma de um daltonismo coletivo, ou de uma cegueira para as cores generalizada. No âmbito do trabalho de Hélio, uma posição fundamental, já que o liberaria da pintura, progressivamente, em direção às formas plásticas temporais dos bólides, dos parangolés e dos penetráveis. Para a teoria das cores e para a estética em geral, uma posição que abre um precedente alquímico bastante materialista – qual seja, a liberação imanente (a cor-tempo é ativa de dentro para fora…) do mundo material de suas percepções imediatas.

Entre nós, um poeta hoje em luta contra a palavra afirma uma nova “alquimia do verbo”. E Rimbaud é mesmo um espectro de Elefantes dentro de um sussurro (Cozinha Experimental, 2017), mesmo sem figurar de maneira explícita no cabedal de citações que o livro sustenta. Pois essa nova obra de Marcelo Reis de Mello, que confia o seu maior poder de criação às cores que o tingem, parece estranhamente inseparável de sua pesquisa sobre escritas ilegíveis, insignificantes e assêmicas – e o lançamento do projeto Graphs, um grande acervo dessas estranhas (des)escrituras, desenvolvido pelo poeta em parceria com Khalil Andreozzi, precedeu mesmo a publicação do livro. Não é que Marcelo produza poemas ilegíveis; é que ele organiza uma revolta, em sua poesia, da cor contra a linguagem. A sua “doutrina das cores” não repete o gesto de pesquisa e construção da doutrina de Goethe, citada no livro, mas serve de ponto estratégico para a desarticulação e desconstrução do mundo físico. Tal qual em Oiticica, também com Marcelo as cores se aparentam às ações: rebelam-se contra a fala numa “espera silenciosa” de “frutas desejadas / nas cores que migram.”

E assim como o inconformismo de Oiticica não o distancia das artes plásticas, mas permite a sua reconfiguração numa espécie de revolução permanente do espaço, também não acontece, em Marcelo, um abandono das artes verbais. No entanto, a poesia, o sentido mesmo de sua produção, é reconfigurada, e é por isso que figuram em seu livro não apenas poemas de sua autoria, como também traduções que o poeta fez de Goethe e de Eliot, e-mails de amigos, imagens da ciência e da mística, trabalhos de artistas plásticos, uma entrevista com Borges, excertos de filosofia, ou ainda uma notícia de jornal que tem por manchete “casal morre afogado enquanto pessoas filmam e riem sem prestar socorro”. Todo esse “dizer com os outros” é atravessado pela força do fragmento, como uma obra que não apenas nasce em ruínas, mas o faz em um mundo arruinado.

Elefantes dentro de um sussurro é um desses livros diante de um mundo odioso, mas não se manifesta à maneira de um ódio, mas de um amor. Trata-se, na verdade, de um conjunto de poemas sobre o fim do amor, sobre o abandono, o engano e a desilusão. E ama-se, ainda – mas este fracasso. “Era bonito morrer”, diz o poema “Céu da boca”, em que a substância do amor e a de uma manga se alternam.

vibrávamos e eu gostava de olhar
teu corpo de manga desfazendo-se dócil sob os meus dedos
e eram franjas amarelas nas minhas gengivas (…)

porque meus dedos são pequenas pedras redondas que atirávamos
na água das tuas costas ou na ondulação das nádegas

Transforma-se o corpo amado em manga, e os dedos que amam em pedras arremessadas – no que, instantaneamente, o corpo amado é convertido em água. A transmutação é ininterrupta – cores que migram. Ama-se este fracasso porque no fracasso do amor vive o fracasso das coisas, e, no fracasso das coisas, a chance de “negação do mundo para a afirmação de outro mundo”. O poema “Deus Ex Machina” coloca sobre a boca o signo da derrota, e sob essa maldição a boca pode se transformar em cova, caverna, noite, terra, caixão ou máquina.

Uma boca é uma grande cova
sem mistério. É onde se enterra
o silêncio. É onde se pesca o silêncio.
É onde o mau hálito, é onde
as obturações, é onde os vermes.
Dentro, a escavação. Há muita coisa
lá dentro, mas nenhuma imagem.

A boca é muitas coisas, mas a posteriori. “Há muita coisa / lá dentro” afirma o potencial informe da boca, “mas nenhuma imagem”, o que reforça o seu aspecto de pura potência sem forma fixa. A poesia é, aqui, esta chance informe do mundo, e é talvez com a própria palavra que o poeta fala: “minhas mãos sobre as tuas / mãos tão minhas / e das pétalas dos cinco dedos // Desabrochados, ver / que as coisas todas se encantam / enquanto morrem.”

Os textos que configuram Elefantes dentro de um sussurro têm por meio ambiente as cores, e, principalmente, as complementares amarelo e violeta. As cores não tingem o mundo, mas guardam a promessa de sua transformação. No entanto, o poeta não tem nenhum controle sobre elas. Todas as referências explícitas ao mundo teórico que organiza as cores foram colhidas de modo a apresentar uma fuga cromática da razão: uma citação de Goethe fala de uma categoria de cores que escapa à vista (e que “foram chamadas, pelos investigadores da natureza, de colores aparentes, fluxi, fugitivi, phantastici, falsi, variantes”); os poemas “Catástrofe de Rayleigh-Jeans” e “Fórmula de Max Planck” remetem, em seu título, a descobertas relacionadas à teoria da irradiação das cores que preparam o fim da física clássica e o início da física quântica; e enquanto a cor amarela concentra as formas do engano (o mundo das ciganas, do amor que abandona e do passado transfigurado), a cor violeta aparece relacionada à violência e aos sonhos não realizados. No poema “Violeta”, a cor e a filha abortada se fundem:

Sim, eu sei. Descansa em paz
com a cor
não parida.

Violeta sem unhas
e sem cabelos.

Violeta branca, sépala
do silêncio, maritaca
calada, elefante
vencido.

Violeta, violeta:
dorme, filha.

Os limites dos versos marcam a violência: a cor / não parida; sépala / do silêncio; maritaca / calada; elefante / vencido. O poema repete, com isso, a violência originária em sua forma, e por isso os textos se fixam na forma da melancolia, por não poderem, mesmo em seu poder alquímico, alterar a fonte de prejuízo. “Como é violento dizer: flor”, diz o poema “Viola arsênica”. Nisso, Marcelo e Oiticica separam-se. Enquanto Hélio se moveria progressivamente (ainda que com alegria autodestrutiva) em direção a um Éden, Marcelo se dirige, neste livro, para as formas do dano. “Não se nasce entre lajotas / brancas, limpas demais. (…) // E nesse nosso primeiro pesadelo / estão apenas as mãos / de látex, indiferentes, acostumadas, / ávidas de bisturis e fórceps // Esterelizados.”

A revolta em Oiticica mobiliza a substância plástica; em Elefantes dentro de um sussurro, transforma as ações em cores, preparando a sua transmutação onírica. A referência, no livro, à “metalurgia” não é gratuita. No primeiro volume de sua História das Crenças e das Ideias Religiosas, conta-nos Mircea Eliade que antes da Idade do Ferro, ou seja, antes da descoberta do forno e do impulso exploratório pelas jazidas de metal os povos trabalhavam com o ferro meteórico. A transformação, a partir da fundição do ferro terráqueo, teve importância decisiva nas questões religiosas e na compreensão do tempo daqueles povos. Ao atributo sagrado celeste do ferro, somou-se uma sacralidade telúrica. Segundo Eliade:

Os metais “crescem” no interior da terra. As cavernas e as minas são assimiladas à matriz da terra-mãe. Os minérios extraídos das minas são de certo modo “embriões”. Crescem lentamente, como se obedecessem a um ritmo temporal diferente do da vida dos organismos vegetais e animais – eles não deixam de crescer, pois “amadurecem” nas trevas telúricas. Sua extração do seio da terra-mãe é portanto uma operação praticada antes do termo. Se lhes tivéssemos concedido tempo suficiente para se desenvolverem (isto é, o ritmo geológico do tempo), os minérios se teriam transformado em metais maduros, “perfeitos”.

O tempo dos metais é diferente do tempo humano. A invenção dos fornos e o surgimento da metalurgia acelerou o tempo dos metais, quebrando o ritmo geológico. Com isso, os metalúrgicos e os ferreiros gozaram, desde sempre, tanto de uma alta estima como de um respeito temerário, que às vezes se converteu em desprezo. Os alquimistas herdariam a sua fama. Metalúrgicos e alquimistas manipulavam o caráter ambivalente do metal, entre o Céu e as Profundezas, entre os poderes sagrados e demoníacos, e, ainda mais grave, estes “senhores do fogo” enganavam o tempo (o amarelo de Elefantes), ou forçavam-no (o violeta), o que é o mesmo.

Na poesia de Marcelo Reis de Mello, no entanto, o poeta não é respeitado, mas humilhado, e não engana o tempo, mas é enganado. E é o poema “Metalurgia” que dá o tom de Elefantes: três pequenos versos se perguntam “quantas florações de uma única ferida / não rangem, cruciantes, para fermentar / a argamassa violeta de um sonho?” E talvez haja uma lição neste aparentemente desiludido Elefantes dentro de um sussurro: a necessidade de contabilização do fracasso, isto é, de ostentação da derrota, necessária à construção das utopias.

Rafael Zacca

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Victor Prado

Victor Prado, 21, publicou, por vias independentes e digitais, dois livretos de poesia: Mamute (2015) e Onde Eu Poderia Estar (2016). Em 2016 a Editora Urutau publicou Bastardo, seu primogênito com ISBN. Também já esteve por alguns lugares bem bonitos como: Enfermaria6, Diversos Afins, Jornal RelevO, Mallarmargens, SubVersa, Revista Raimundo entre outros.

* * *

para Ana de Araújo

No campo, as manhãs se formam

No campo,
as manhãs
se formam

Isso já foi dito,

Mas novamente:

No campo, as manhãs se formam como
pequenos adornos que as crianças carregam
por ai

Pequenos brinquedos, esses nossos
velhos dedos: tão sóbrios, tão retilíneos

Distantes dos rizomas, do
líquido viscoso da vida,
do orvalho, da
coisa bêbada como o vento

Essa dança é uma espécie
de sistema hidráulico
Essa curva é um ritmo verde

Mas a mula sempre empaca
ou
O caminho sempre exige, em sua
rigidez, outras chegadas

II

O fedor da casa antiga,

igual o da pele a muito presa
dentro do gesso,

sempre acha um canto, que respinga
tranquilo nos encaracolados das plantas

III

Trabalhosa estação, pronta
a ser onda brava:

Mãe que dá sua benção
a cria que logo adormece:

Essa casa erguida no primeiro Sol
Ereta e rija,
Mas também aberta

IV

A natureza observa

E atua

Tão cotidiana quanto um milagre.

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XANTO | Tocar na ferida (Sobre “Outros jeitos de usar a boca” de Rupi Kaur), por Matheus Mavericco

 

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TOCAR NA FERIDA:
Sobre Outros jeitos de usar a boca, de Rupi Kaur.

De pijamas e virada pra parede, a jovem deitada parece que descansa. Seu cobertor beje estampado de flores, com o qual a princípio se cobria, foi jogado para o lado a fim de que pudéssemos ver a mancha vermelha primeiro entre as pernas e depois no lençol de cama. O enquadramento da imagem, aliado ao contraste com uma paleta de cores pálida, realça a mancha. E no entanto, a posição do corpo e o cobertor tão à vontade evidenciam também a naturalidade daquela cena que se tenta a todo custo esconder, quase como se não existisse ou, pior ainda, não devesse existir. Em outras fotos do mesmo ensaio, a jovem contempla gotas de sangue perto do ralo do banheiro ou o vermelho da menstruação que se sobressai na brancura asséptica da privada.

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“Não me vou desculpar por não alimentar o ego e orgulho de uma sociedade misógina que aceita o meu corpo em roupa interior mas fica desconfortável com uma perdazinha de sangue”, disse Rupi Kaur, a jovem da foto, quando sua imagem foi apagada da rede social em que havia sido postada. Com isto, recusava-se ainda a internalizar os artifícios e imagens que se naturalizam às custas da biologia do corpo feminino ou dos relacionamentos amorosos. Quem abre seu primeiro livro de poemas, publicado em 2014 nos Estados Unidos (onde encabeçou meses a fio a lista de mais vendidos) e no Brasil este ano, encontrará esta recusa a todo instante.

De minha parte, com exceção de “a arte de esvaziar” (elogiado também pela tradutora, Ana Guadalupe), não gostei do livro. Achei a realização artística um tanto fraca e em não poucos momentos rala e cafona, por exemplo quando ela diz ser um museu cheio de quadros que o rapaz, com os olhos fechados, não viu. Diria também que o livro, lambuzado de prosaísmo, quase não apresenta recursos poéticos e nem tampouco faz desta secura uma inesperada fonte de interesse, de modo que se o leitor espera um espetáculo de metáforas ou sonoridades retumbantes ou um modo mirabolante de ver o mundo então ele certamente se verá decepcionado com o livro, escrito, ao que a princípio parece, passando a tesoura aleatoriamente nas frases até que caiam retalhos no chão que de maneira arbitrária batizaremos “verso”.

O problema é que isto não encerra a discussão. Na verdade, mesmo que o objetivo fosse o do polegar pra baixo a questão teria sido quando muito colocada, no que a incumbência passaria ao leitor: que ele concordasse, discordasse, risse, ignorasse. O valor artístico que enxergamos numa obra é importante e sou da opinião que é perigoso minimizá-lo, mas uma obra também pode acumular outros valores que às vezes até são artísticos, mas de maneiras moderadas (por exemplo quando se limitam a efemérides temáticas), ou que de artísticos possuiriam muito pouco (a exemplo de quando a arte é tomada para fins terapêuticos). E Rupi Kaur, se para mim não faz jus ao primeiro sentido, claramente faz aos outros dois tanto por pelo menos abordar assuntos dolorosos e urgentes quanto por servir de mensagem revigorante para um público oprimido.

Pensemos naquilo que mencionei sobre os versos parecerem retalhos. Creio que consigo chegar a respostas distintas se rumino um pouquinho mais a coisa toda. Penso que de fato a autora não se preocupou muito em fornecer objetos artísticos bem acabados; na verdade, eu diria que o fato de que muitos de seus poemas se passam por frases de efeito é algo deliberado em seu projeto estético, no sentido de que poderiam ser veiculados em embalagens distintas sem acarretar o apocalipse. Claro que isso nos leva à acusação grave de que não possuem qualidade, pois, se considerarmos com Max Bense que o poema é a mensagem estética mais frágil, no sentido de que um simples arranhão ou o deslocamento de uma vírgula derrubam o casebre, então a possibilidade de que os poemas de Rupi Kaur sejam acomodados em outros invólucros não parece bom.

Pelo menos não se ainda os considerarmos como poesia. Ou seja: pode ser sim que estejamos diante de uma coletânea que contém não só poemas, mas também outra coisa que quer estar perto da poesia a fim de que sugue algumas propriedades do discurso poético e as utilize para incrementar sua mensagem. Concordo que é estranho cogitar tal hipótese, afinal de contas nós nos acostumamos a bater o martelo quando achamos que algo não é poesia e, depois disso, tirar as meias e colocar uma pizza no forno. Sou da opinião que proceder assim é um desperdício, não só porque é absolutamente plausível que um texto finja ser poético apenas para absorver benefícios de tal confusão sem que o resultado seja sempre negativo ou ardiloso, mas também pois, pra colocar de forma inteiramente pragmática, se você investiu seu dinheirinho naquilo e agora precisa esperar mês que vem pra embolsar outra coisa, o jeito é passar um tempo mastigando, elucubrando e buscando, porquê não?, novas maneiras de apreciá-lo, distintas das conclusões a que muitas vezes se chega de maneira insolitamente cômoda.

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De modo análogo a quando Adelaide Ivánova sobe no palco, saúda as meninas e as matriarcas no recinto, informa a página específica (setenta e cinco) e declama que “O problema não é que as pessoas lembrem por meio de fotos mas que só se lembrem das fotos” ela está de algum modo se aproveitando do fato de que aquilo é o maior festival literário do país e o público que a escuta espera degustar poesia, no que, assim procedendo, ela consegue espicaçar a sensibilidade e a consciência justamente pelo fato de que faz um voo rasante e propõe um mapa provisório do machismo brutal de nosso tempo, de modo análogo Rupi Kaur também se aproveita de nossas expectativas perante um livro de poemas, algo como abrir os poros e deixar que o coração transborde, e muitas vezes comunica mensagens curtas e diretas ou, caso queiramos adjetivos requintados, concisas e secas.

Uma comparação facilmente maldosa aproximaria os poemas da norteamericana aos do presidente brasileiro, principalmente pelo fato de que muitos são diretos, curtos e usam o cavalgamento de maneira livre, dando a impressão até de que não pensada. Eu tenho duas hipóteses sobre a última característica: a primeira é a de que, seguindo um comentário curiosíssimo de Rogério Chociay, o cavalgamento diz muito mais a respeito da estrofe do que a respeito do verso, de modo que devemos pensar o cavalgamento não a nível de um ganho entre um verso e outro, como é costume que façamos, mas sim num nível global, e a segunda hipótese é a de que o cavalgamento proporia um sistema de ênfases, como se, tentando desenvolver a ideia de uma maneira perigosa não obstante promissora, a disposição dada por Rupi Kaur fosse apenas uma dentre outras que os leitores também podem fazer. Afinal de contas, se eles podem acondicionar os versos na embalagem de uma única frase, então não me parece absurdo que possam repicotá-los e redistribuir as ênfases dadas pelo original.

eu não fui embora porque
eu deixei de te amar
eu fui embora porque quanto mais
eu ficava menos
eu me amava

Neste poema nós até possuímos um recorte bem pensado graças à anáfora pronominal deixando claro que sair de um relacionamento abusivo recuperou toda uma autoconfiança perdida. Um segundo exemplo de uso expressivo da quebra de linha é o desse aqui, onde o isolamento vocabular nos dois últimos versos está obviamente te dizendo algo num poema onde pouco parece ser dito e até o sujeito é indeterminado.

o jeito como
vão embora
diz
tudo

Ocorre que esta nem sempre é a realidade de outros textos do livro, onde a operação de repicotar, operação nem um pouco recomendável para qualquer leitor diante de obras literárias, parece abrir uma exceção tal como se a poesia de Rupi Kaur permitisse algo do tipo para seus leitores. Vejamos:

há uma diferença entre
alguém dizer que
te ama e
de fato
te amar

Com exceção do primeiro verso, que se terminasse em “diferença” perderia a chance de passar uma demão de ênfase justamente no contraste entre as duas opções, não vejo nada de especial na disposição dos versos. E o ponto que faço é que não julgo que a ênfase dada pela poeta seja a única possível, pois do mesmo modo que posso veicular o poema numa só frase, também posso, sem que isto implique uma perda tão profunda e lastimável como seria se com poemas de outros autores, transcrevê-lo como:

há uma diferença entre
alguém dizer que te ama
e
de fato te amar

Creio que se trata de um tipo de liberdade que pode ser especialmente produtiva nos poemas longos, onde, segundo Ana Guadalupe, Outros jeitos de usar a boca chega pertinho de uma poesia falada que pede para que o leitor a declame. Ora: como, na hora de declamar, é comum que desloquemos as ênfases do original e construamos algo que se ajuste melhor à performance escolhida, então creio que temos um incremento a mais para a hipótese que lancei.

deixar a barriga da minha mãe vazia
foi meu primeiro ato de desaparecimento
aprender a encolher para uma família
que gosta de ver as filhas invisíveis
foi o segundo
a arte de se esvaziar
é simples
acredite quando eles dizem
que você não é nada
vá repetindo
como um mantra
eu não sou nada
eu não sou nada
eu não sou nada
tão concentrada
que o único jeito de saber
que você ainda existe é
o seu peito ofegante

Esse daí é o tal “a arte de esvaziar”. Nele a autora faz uma óbvia referência à vilanela de Elizabeth Bishop, especialmente vista quando diz que a arte de esvaziar é simples (isn’t hard to master). Penso que se trata de um poema notável não só pela imagem de abertura, talvez a melhor do livro todo (afinal de contas é claro que quando um bebê nasce a barriga da mãe fica vazia, mas, porque o milagre da vida aconteceu, “vazia” definitivamente não parece ser o adjetivo correto, o que apenas realça a dor, o deslocamento e a privação que afligem o eu lírico), como também pelo fato de que a fluidez das frases e seu recorte coloquial fazem com que aquilo escorregue pela língua até o ponto em que nos pegamos lendo em voz alta. E isso é importantíssimo, afinal de contas se o poema fala de como toda uma trajetória de vida foi apequenada graças a uma educação que menospreza, então o ato de que no ápice do esvaziamento imposto (aqui surgido como uma versão deturpada de “mantra”) a pessoa descubra seu próprio corpo é um ato que quando mimetizado pelo leitor descobrindo, pela espontaneidade dos versos, a sua garganta que vocaliza o que está sendo lido ― é um ato que fecha o ciclo e carcome por dentro a arte de esvaziar. É como se o leitor, porque repercute as palavras em seus pulmões, contribuísse para libertar a voz lírica.

Mas voltando à comparação maldosa. Tomemos o caso de um poema do presidente chamado “Fuga”:

Está
Cada vez mais difícil
Fugir de mim!

Eu até entendo o que poderia levar alguém a comparar de maneira maldosa as duas poéticas. São poemas concisos a ponto de raquíticos mas que não recorrem a recursos tipicamente poéticos. Eles são, pelo contrário, bem diretos, o que já foi apontado como uma característica positiva na poesia de Rupi Kaur: ou seja, o fato de que ela não cria aquele tipo de ambiente palaciano atapetado de interjeições próprio, segundo o Ensino Médio, da poesia.

A diferença fundamental, além do fato de que o livro de Rupi se demonstrou como de maior relevância para seu público, agregando valor até de mercado, é que enquanto nos poemas do presidente nós encontramos um eu lírico que teme (!) revelar demais sua intimidade, no que o uso de poemas curtos acaba sendo um modo de amputar os veios emocionais com pitadas de mistério como se a carapaça do eu lírico fosse um esconderijo que validasse a “anônima intimidade” do título, e que diz respeito menos ao poeta do que ao leitor que, anônimo, vindo de todos os cantos, onipresente e sem rosto, deixa o escritor apreensivo diante da intimidade possivelmente estabelecida pelos textos, afinal de contas o leitor anônimo poderia devassar sua vida íntima em níveis que fugiriam do controle da voz enunciadora (o que, como sabemos quando se lida com políticos, pode representar a ruína); se com os poemas do presidente é assim que funciona, com Rupi Kaur nós temos um procedimento mais direto, onde o eu lírico sente a garra dos preconceitos ou dos relacionamentos abusivos ou de qualquer outra coisa que lhe ampute e, à medida que rechaça este passado e presente traumáticos, constrói uma individualidade cada vez mais forte, não a partir da proclamação expansiva e whitmaniana, digamos assim, de um Eu que suplanta tudo e a tudo abarca, mas sim num processo menor de curar as feridas e aceitar partes de si mesma que até então eram menosprezadas, a exemplo do que a aceitação do próprio corpo feminino, longe das idealizações mercadológicas e próximo de algo que é ferido, sente prazer e sangra, consegue demonstrar.

Com isto nós notamos que a intimidade da poesia da autora é distinta do temê-la e até mesmo do concebê-la caseiramente qual se fosse propaganda de margarina. Esta última diria respeito à chamada poesia caseira ou familiar, que esteve muito em voga no início do século passado e que encontrou no país cultores notáveis como Mário Pederneiras ou Guilherme de Almeida. Guilherme, aliás, chegou a traduzir um livro do poeta francês Paul Géraldy, Eu e você, onde as situações íntimas, miúdas e extremamente prosaicas são postas na ribalta. Num deles, chamado “Abat-jour”, o eu lírico chega pertinho da sua amada e pede pra que desliguem a luz do abajur para, vocês sabem…

Vamos ficar sem dizer nada.
Eu quero sentir bem o gosto
das suas mãos sobre o meu rosto!…
Mas quem está aí? Ah! a criada
que traz o café… Não podia
deixar aí mesmo? Não importa!
Pode ir-se embora!… E feche a porta!…
Mas o que é mesmo que eu dizia?

Consegue imaginar algo mais prosaico do que isso? Os dois quase no rala-e-rola e então a criada chega atrapalhando. Tudo em tempo real, revelando a intimidade não apenas de dois namorados que se preparam para a transa mas de uma casa onde o café ferve no bule. Não é assim que funciona? A visita chega e quer forrar o estômago. Pede-se pra criada que faça o café. Os dois vão pra cima, conversar miúdo e ranger as molas do colchão. Mas e o resto do mundo? Paralisou? Claro que não: e por isso prosaico, e por isso íntimo.

Com Rupi Kaur, porém, a intimidade é distinta. É a intimidade de, levantada a coberta, a mancha vermelha saltar aos nossos olhos, é a intimidade de falar de um assunto levantando a camisa e também mostrando as cicatrizes. Não é que ela se limite ao puramente privado, o privado a ponto do leitor se sentir como quem bisbilhota, mas sim que busque chegar àquela área da vida íntima que o preconceito ignora, veda ou rechaça. Sua poesia pelo jeito se passa facilmente como frase de efeito ou como um tipo feminista de auto-ajuda, mas somente o faz à maneira de uma flecha que perfura o concreto até chegar a seu público como uma forma de alento. Se no poema de Géraldy ele nos mostra que na vida real terceiros entram e atrapalham o banho de lirismo, Rupi Kaur se preocupa com o que se infiltra nos lençóis freáticos da sociedade. Naquele que é talvez o poema mais forte do livro, ela diz:

o estupro
vai te rasgar
ao meio

mas
não vai ser
o seu fim

E aqui nós tocamos em pontos importantes. O primeiro é o de que o livro realmente se presta muito bem à causa do empoderamento feminino, o que é visto de forma admirável num poema como o que acabei de citar. Mas ele também mostra que os temas abordados por Rupi Kaur, temas como por exemplo de relacionamentos abusivos, são temas que dificilmente seriam tratados por homens. Não que homens estejam impedidos de falar disso. Ei, caras, qual é, eu jamais defenderia algo do tipo. Somos uma irmandade. Não vou dar o braço a torcer para essas malditas feministas, pelo menos não depois que elas roubaram meu sorvete de casquinha. É só que… Ninguém nunca nos impediu, não é mesmo? A gente sempre pôde. Claro que pôde, ô se pôde. E no entanto… Por que quase não se trata disso? Não existe? Ou tudo o que existe são metáforas que falam da vagina da mulher como espécie de floricultura mística?

É uma maneira interessante de abordar o assunto. O empoderamento dos poemas de Rupi Kaur me parece fazer com que eles deixem de lado alguns dos aspectos mais prezados do que chamamos de Discurso Poético em prol de um papo reto com seu público leitor, o que é facilmente notado pelas constantes referências a um “você” na maior parte dos casos feminino. Isso já é algo perceptível na produção dos chamados instapoets, escritores que alcançaram um número vertiginoso de acessos em suas páginas nas redes sociais. Outros nomes incluem Lang Leav:

ENCERRAMENTO

Feito o tempo em aberto
e ferimento aberto ―
você perto de mim.

Não dissemos adeus,
não tivemos um fim;

E eu vou sempre indagar
por que é que foi assim.

CLOSURE.

Like time suspended,
a wound unmended ―
you and I.

We had no ending,
no said goodbye;

For all my life
I’ll wonder why.

 

E Tyler Knott Gregson (“Eu escrevo temas e fotografo coisas e vou pra lugares e vejo pessoas”, diz seu perfil):

   Ninguém

o mundo
que nem nós,
Ninguém
vai apreciar
o peso
de outra
mão
na nossa
mais
que nós.

No one
sees
the world
how we do,
No one
will appreciate
the weight
of another
hand
inside ours
more
than we.

No Brasil poderíamos pensar em algo do tipo se tomarmos como base páginas como Eu me chamo Antônio ou Pó de Lua, onde não apenas a rede social muda como uma leitura do passado poético imediato do país leva a soluções formais e literárias distintas, de modo que enquanto os poemas de Rupi parecem se nutrir muito da experiência da chamada poesia confessional, no caso das páginas brasileiras encontramos jovens que usam e abusam de efeitos trocadilhescos e paranomásicos que nos remetem de pronto à prática da poesia marginal. Tudo, gosto de às vezes imaginar, amarrado por uma preocupação em romper as clausuras da vida contemporânea, em estilhaçar as paredes de vidro das redes sociais e com isto evidenciar que ainda somos capazes de tocar o coração do outro, como se a verdadeira mensagem fosse algo que não se expressa com textos imensos e padronizados nem com fotos de casais sorridentes. Os poemas de Rupi são especialmente hábeis neste sentido, em mostrar como a roupagem de uma vida normal ou feliz pode servir de pesada túnica que imprime sofrimento para aquela pessoa.

E é pensando a popularidade dos poemas da autora que não apenas o apontamento de que podem ser transportados em outros veículos, alguns até mesmo não adaptados para conteúdos poéticos, haja vista que a comunicação nas redes sociais demanda muitas vezes que ilustrações sirvam de acompanhamento e modifiquem a disposição do original a fim de que a postagem acumule uma cordilheira de curtidas; não apenas tal apontamento como, ainda, o de que a poeta de algum modo reduz a distância implícita ao conceito de eu lírico e fala para o leitor de maneira mais direta, sem, portanto, aquele embate entre fingimento e sinceridade que marcou a poesia de uma Ana C. Em Rupi Kaur um filete de sangue sempre escorre pela gengiva, e a leitora que encontra seus textos ou que principalmente acessa sua página numa rede social sabe que aquele poema sai de uma mulher que se comunica diretamente com ela, uma mulher que olha nos seus olhos e diz ter uma mensagem muito importante ― e prova disso é encerrar o livro com um texto chamado “uma carta de amor de mim para você”, onde agradece ao leitor “por ter cuidado com o que há de mais delicado em mim”.

rupi 3

Isso por óbvio leva a autora a reduzir a densidade semântica ou poética de seus textos a fim de que flerte com um tipo de construção textual que talvez nem seja mesmo poesia e sim algo muito mais próximo da confissão. Isso vai depender da disposição do leitor, e não acho que quem negue o status de poético para muitos textos de Rupi Kaur esteja por conseguinte fornecendo uma leitura ruim deles. Eu diria até que considerá-los o tempo todo como poemas pode atrapalhar: poemas, quando estabelecem uma relação de intimidade com o leitor, estabelecem de forma faceira, gingando de lá pra cá sempre dando a entender que pode não ser bem assim. Seja como for, existem formas artisticamente mais refinadas de pensar a mensagem empoderadora de Rupi Kaur, a exemplo do que podemos enxergar na poesia de uma Angélica Freitas, que passa o cutelo da sátira na pedra de afiar da alta cultura, ou mesmo de uma Adelaide Ivánova, que escreve poemas como quem planta uma bomba-relógio. O que não se pode negar é que a poesia da norteamericana emite uma mensagem que repercutiu de forma positiva no cenário estadunidense, espanhol e agora brasileiro, a exemplo do que as resenhas em vídeo de personalidades como a Jout Jout atestam. E embora eu realmente não tenha gostado do livro, não posso negar que é bom, muito bom que tenha acumulado um valor assim.

Matheus Mavericco

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poesia

Izadora Xavier do Monte

Izadora Xavier do Monte já teve vários blogs de poemas. Atualmente faz doutorado em estudos de gênero.

twitter.com/bebelarcher

* * *

 náite

Preparem-se todos.
Vou redizer tudo que já disse
e não vou ser a primeira.
Quando me repito, não repito a mim mesma.
Aos domingos, logo antes de dormir,
vou falar de tristeza, de algum filme pretensioso,
ou de cerveja.

E olha que eu nem tenho mais bebido cerveja
porque o álcool só acentua o meu desânimo
Como um domingo líquido e azedo, servido aos sábados.
Por algum, ou o mesmo, garçom mal-humorado.

A certa altura da noite
todos cheiram a cerveja.
É mais ou menos a hora que eu começo a querer ir embora,
até lembrar que estou de carona

E carona é como um casamento – compromisso e espera.

Pelo mesmo caminho, sempre, ele sempre me leva
por isso o espero. Desde sempre, ou para sempre, às vezes parece
Espero-o como se ele mesmo fosse a minha casa.
A espera amanhece em mim um arrependimento, com a noite ainda alta.
Um arrependimento que diz, fala, como tábuas, de obrigações
honrar mãe, não odiar ninguém, não pensar para si mesma:
como é burro aquele menino
ou insuportável aquela garota

não cobiçar

não cobiçar

não vou cobiçar…

Nem os vou pensar irreparavelmente idiotas, a todos, e a mim também.
Enfadada eu tento
uma ou duas conversas, desperdiço-me um pouco
em todas as coisas das quais amanhã vou me arrepender
Essa culpa me lembra, esse cheiro de cerveja, tenho tanto

do que me arrepender

Mas se eu ficasse em casa, esse arrependimento, esse arrependimento também estaria
Esse arrependimento como um sonho, porque desconheço a causa
Não saberia de onde vem, incapaz de curá-lo mesmo em casa

e cumprindo os deveres,

e me esforçando em tudo. Em ignorar ou transcrever esse arrependimento,

ele continua o mesmo, domingo

às cinco para as dez, teclado sujo,

teclas cansadas.

Então vou me repetir, pessoal, mas não me levem muito a sério
não me levem a lugar nenhum
não me chamem para nada.
O que sofro já foi descrito por Bob Dylan no 34o. verso
de uma canção, gravada há muito, desconhecida do público, só
recentemente lançada.

Vou me repetir e não se espantem
Vocês já viram isso acontecer
Nenhum de nós esboçou reação. Como se o lento desgastar de nós mesmos

fosse transmitido

por um canal estrangeiro.

Vou me repetir à exaustão, como festas
e copos de cervejas, para um dia poder dizer
‘se lembra’
e não ter havido nada. O que aconteceu

além de estarmos aqui

e aquelas kaiser sobrando no balde de gelo

porque kaiser é ruim pra caralho?

§

aparecer offline

É impossível estar perfeitamente só.

Com o barulho dos carros na avenida –
alcança os ouvidos como moscas
alcançam os ouvidos, zunindo, como entomóveis, intrometendo-se
pelas portas entreabertas de um quase sono.
Como se não se saber mosca,
ou não se saber carro na avenida
perdoasse a impolidez
de não deixar alguém em paz -,

como a fronha e a escrivaninha
e as duas chamadas não atendidas
não entendem
que é impossível estar
perfeitamente só
quando estar só
é inevitável.

Fechou-se a janela sobre a noite fria
tarde demais. Estava já algo em mim quebrado,
irrestituível.
Como é terrível, terrível
a noite e todos os programas de TV que ela oferece.

Queria estar só,
mas não consigo.
Pensei se haveria, atrás da cortina,
algo que eu já não tenha visto.
Não poderia explicar o que seria
porque, é claro,
nunca vi, o que quer que seja,
parente de maravilhas e paralelepípedos.

Se alguém me chamasse em uma janela
do msn, agora,
não responderia. Nem abrirei a cortina.
Não há emotícone que represente o que eu sinto
nada para demonstrar o conforto imperfeito
da minha solidão.
Talvez
aquela carinha, a amarela,
com as lágrimas
que aparecem e somem,

e voltam a aparecer
e a sumir,
chegue perto de tudo isso, talvez essa carinha seja o
retrato exato de mim,
presa às possibilidades
de uma janela.
Uma janela para algo distante, distante.

Hoje eu não vou sair.
Estou pequena demais
para a noite lá fora.

§

poema feito com o auxílio da wikipedia

eu conto a distância da sua ausência
pelo comprimento das minhas unhas.
Essa manhã, tirando a sujeira que aparece por baixo da borda esbranquiçada,
contei uma semana.

Uma semana desde a sua última chamada, última mensagem
ou antes uma semana desde que a antecipação do encontro
me levou pra dentro do banheiro,
para reduzira as bordas esbranquiçadas a pontas nuas de dedo

– em certos mamíferos, unhas não são garras. Em certos mamíferos, unhas são menores e arrendondadas para facilitar a manipulação de ferramentas

Certos mamíferos tem unhas, não garras, que permitem a manipulação de ferramentas tais como um corta unhas
que corta unhas em antecipação à manipulação de outros elementos –
tais quais o sabão com que eu lavo todos os meus pêlos quando antecipo te encontrar.
A garrafa de argânia não a manipulo com as unhas curtas.
Só quando elas crescem que eu recubro meu corpo de argânia para lembrar teu cheiro sobre o meu.

Tantos homens certamente se lembram das minhas longas garras selvagens
Que agora alegramente podo em dedos macios para te agradar.
Esperando, eu higienizo minhas garras, e contemplo em centímetros de queratina
o negativo de um encontro.

§

moussaka vegana

de repente respiro fundo e em vez de respirar ar a única coisa que respiro é o espaço vazio o espaço no qual você existia e que não existe mais. parece que eu tentei respirar direto do último sopro que saiu do seu corpo

uma manhã de sábado exatamente como essa.

será que foi você mesmo ou fui eu que morri

(um momento me falta ar e eu um momento eu quase sou feliz porque não sei ao certo se foi você ou fui eu que desapareci)

perder não é uma arte elisabete. perder é um trabalho manual é o trabalho de descascar as peles da minha mão que não estavam lá enquanto as peles da sua mão se descascavam até não mais existir até perderem o contato para onde foi o contato da sua mão com as batatas que me alimentavam com meus cabelos com o teclado.

Quando a gente morre, para onde vai todo o nosso amor

só a tia nonoia podia te banhar só ela sabia como.

perder é o artesanato de odiar cada dia

o trabalho de ter que esquecer todo dia                                 pra poder conseguir descascar as batatas na cozinha e dansar na cozinha e me odiar na cozinha porque eu estava esquecendo que você era capaz de morrer antes de você morrer.

mas você não queria ser lembrado

envelhecer é o contrário

perder é o contrário de uma arte e tant mieux tant mieux saber desaperecer saber não ser conhecido saber ser esquecido saber esquecer

tantas gram´ætica scompradas tantas gramaticas

no fim você já não conseguia escrever nenhuma mensagem

(há uma seita secreta do luto, eu li sobre isso em harry potter)

perder é o contrário de uma arte e tant mieux tant mieux saber desaperecer saber não ser conhecido saber ser esquecido saber esquecer

então começo fazendo uma moussaka porque eu esqueci que era isso o que você fazia pra mim nas manhãs de sábado em que você não estava morto

esquecer tão inutil quanto lembrar tão inutil quanto

com batatas e molho de tomate e grão de bico faltou a berinjela é isso, é a berinjela eu esqueci da berinjela como eu esqueci bah voilà c’est raté eu continuo a lembrar de você

minhas mãos descascadas como as batatas eu não quero escrever porque escrever é resistir ao esquecimento e por isso é inutil; como você, quatro livros sobre minha cabeceira são inuteis e como sofrer e batatas são inuteis sempre uma coisa tao intuil quanto a outra sempre uma coisa em frente a outra sempre o impossivel tão estupido quanto o real

existem boas e más razões pra amar alguém?

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poesia, tradução

Rob Packer (1982-)

Rob Packer nasceu em Londres em 1982, mas durante a última década viveu em alguns países da Ásia e América Latina. Desde 2011, ele mora no Brasil, atualmente no Rio de Janeiro. Os seus poemas em inglês foram publicados em revistas e sites no Reino Unido e na Irlanda, e alguns poemas exofônicos vão aparecer em publicações na Espanha e no Brasil nos próximos meses. Ele também traduz poesia para o inglês e a Carnaval Press de Londres editou as traduções do Thiago Ponce de Moraes na plaquete, Glory Box, em 2016. Estes poemas são em versão bilíngue feita pelo próprio poeta. Lançou em 2017 o livro Écfrases (7Letras, coleção megamíni).

* * *

A Question of Paralysis

Ekphrasis of a performance by Marília Garcia

Last week I had never seen paralysis. This was a cloud on the seabed. I had frozen, no longer crossing the sky, not taking us forward.

I had changed to another plane. This new act is coincidence and darkness. In the impossibility of movement, I have geographies to think with. A map threads the clouds and they fall. There had been crossed lines and waves. Data transmits through the dust.

The helix paralyses. Dreams come from the tops of the trees. Repeated gestures hover and think with their hands.

So many images passed. I was there in the audience. I tried to follow the thread, explain the quest. I left the questions with holes in.

I was in flight. I should rest. I am disappearing from the radar. Dial in to hear the sound of so many borders closing.

The picture was coming to an end. It was my voice speaking from the past. There were so many things it scared me to think of them.

Dust covers my sight.

Stars exit the sky.

There is just one sound.

Some message lost in the air.

Uma questão de paralisia

Écfrase de uma performance da Marília Garcia

Na semana passada nunca tinha visto a paralisia. Era uma nuvem no fundo do mar. Eu tinha congelado, não mais atravessava o céu, nem nos levava para frente.

Mudei para outra dimensão. Este novo ato é coincidência e escuridão. Na impossibilidade do movimento, devo pensar com as geografias. Um mapa enlaça as nuvens e caem. Tinha linhas cruzadas e ondas. Dados se transmitem na poeira.

Os genes paralisam. Os sonhos vêm dos topos das árvores. Gestos repetidos pairam e pensam com as mãos.

Passaram tantas imagens. Estive lá no público. Tentei seguir o fio da história, explicar a aventura. Deixei as perguntas furadas.

Estava voando. Devia descansar. Desaparecia do radar. Ligue para ouvir o som de tantas fronteiras se fechando.

O filme chegava ao seu fim. Era a minha voz falando desde o passado. Havia tantas coisas que me dava medo pensar nelas.

Poeira cobre a minha vista.

Estrelas saem do céu.

Tem apenas um som.

Alguma mensagem perdida no ar.

§

vertigem sobre o planalto

… quanto falta até terminar esse voo, pousar até que eu possa falar para alguém desse poema ou desse ensaio como aquele que o ismar falou para mim na praça são salvador, bebendo refrigerante, não cerveja e sentados no playground, não no ground onde os batuques ensaiam o carnaval ou só nos dão um ritmo de fundo para os latões e as latinhas, as periguetes como dizem em salvador da bahia que deixei agora, dos jovens valentes de laranjeiras, catete e flamengo, os bons jovens valentes das laranjeiras e cateter e do flamingo ou do belga, que talvez em algum guia ou em uma matéria de 36 horas de dicas no new york times ou guardian, embora aí a leitora generosamente pode ter 48 horas de lazer porque ela chegou sexta numa cidade onde tem ou pode ter uma praça de foliões foliando no ensaio de batuques e latas de cerveja small ou large compradas dos vendedores que trouxeram isopores de gelo e cerveja estupidamente gelada, não porque às vezes congela, mas porque é só pela estupidez que vai chegar na temperatura onde toda cerveja precisa ser desprezada, como o edu fez a primeira noite que eu passei nessa cidade, ficando no saara, um colchonete no chão e antes de sequer saber que português seria a língua que iria falar durante tantos anos, mas não na versão que sempre imaginava que falaria, a do meu lado do atlântico, mas ainda com ditongos nasais eu pratico desde que estive em roma e tive um guia de conversação que dizia representar todas as línguas da europa salvo as partes novamente abertas e cujas cidades eu pesquisava para aquela rodada de civilization 2 quando os portugueses conquistaram todos os povos do mundo terminando com os zulus e cujas cidades e panoramas eu nunca logrei desenhar, esboçando numa folha de a4 pegada na janela e que continha o sistema de metro perfeito com uma estação a cada quilômetro, se não me engano, embora a escala eu nunca tenha acertado, tão invejoso de todos que tiveram a sorte de viver em paris onde em menos de 500 metros você encontra uma boca do metropolitain, cuja abreviatura oxítona foi adotada aqui, onde a locutora severa fala em que lugar colocar a mochila e que sempre fique atento como se as instruções que acabou de dar só fossem uma indicação da possibilidade teóricas de chegar ou não em algum lugar da zona norte sem ter que cotovelar um caminho para dentro de um trem chinês estupidamente gelado no estácio, que eu nunca entendi se era eustace ou uma referência através de estácio de sá ao poeta beato que vai com dante nos últimos cantos do purgatório e quem observou a censura da beatriz, já por que dante estava pensando em outras mulheres, tal como porque eu estive procurando sexo com outros homens quando eu tinha um que à diferença da vita nuova não foi levado e ninguém lhe ofereceu de comer um coração, mesmo lá em florianópolis mas quem igual beatriz me mostrou a graça infinita e quem estaria mortificado que eu o alinhasse com deus, que como os überzeugten empalhados dizem foi o único mesmo que poderia ter feito uma cidade com tal beleza, se você subtrai as partes sobre as quais voamos agora e a baía doente e o asfalto da pista de pouso aqui no galeão,

vertigo above the planalto

… how much longer until we end this flight, touch down until i can tell someone about this poem or this essay like the one ismar told me about on the praça são salvador, drinking soft drinks, not beer and sitting by the playground, not on the ground where the drums are practising for carnival or just providing backing beat for the latões and latinhas, the periguetes as they say in salvador da bahia, the place i’ve left behind just now, for the good young folk of laranjeiras, catete and flamengo, the good young folk of orange trees and catete and fleming or flamingo, described perhaps in some guide book or a 36 hours in piece in the new york times or guardian, although there the reader is granted a leisured 48 because she flew on friday to a city where there is or could be a square of revellers revelling in the drumbeat practice and the small or large cans of beer bought from the vendors who’ve brought the isopors of ice and beer estupidamente gelada, not because it does freeze sometimes, but because only through stupidity will it not reach the temperature at which all beer must be tipped away, like edu did the first night that i spent in this city, staying in the sahara, a mattress on the floor before i even knew that portuguese would be the language i would speak for years, but not the version that i always guessed i would, the one from my side of the atlantic, whose nasal diphthongs from there and here i practised since i went to rome and had a phrasebook that claimed to represent all the languages of europe, except the newly opened parts and whose cities’ names i researched for that round of civilization 2 when the portuguese conquered the peoples of the world, ending with the zulus and whose cityscapes i never managed to design, sketching on a piece of a4 held up to a window, which held the perfect metro system of simple interchange and a station every kilometre i think although i never got the scale quite right, as envious as i was of all who had the luck to live in paris where within 500 metres you can find a mouth of the metropolitain, whose shortening to metrô with an end stress is adopted here, where the stern announcer tells you where to put your rucksack and always to stay aware as if the instructions she has just given were only an indication of the theoretical possibilities of getting through or not to somewhere in the zona norte without elbowing you way onto the chinese train estupidamente gelado from estácio, which i’ve never figured out is really eustace or a reference through estácio de sá to the beatific poet who goes with dante on the final cantos of the purgatorio and who watched beatrice and her rebuke, for why was dante thinking about other women just as why had i been seeking sex with other men, when i had one, who had unlike the vita nuova, not been taken away and was not offered up a heart to eat, even there in florianópolis and who like beatrice showed me the infinite grace he would be mortified for me to put in any way in line with god, who as the overstuffed überzeugten say was indeed the only one who could have made a city with such beauty, if you subtract the parts that now we’re flying over and the sickened bay and the tarmac of the landing here at galeão,

§

um campo de milho na frança

para os maias, somos da mesma carne,
apertados dentro de camadas de pele.

fiquei entre as suas fileiras de ouro escondido,
esses dentes do verão, os meus irmãos, senti

os olhos se ajustavam ao sol filtrado pela luz deles
e levantei os meus braços dentro dessa manada

de dançarinos. me perguntei se é assim
que se sente a permanência verdadeira,

enquanto nos inclinávamos e balançávamos nos farrapos
extraviados de um furacão que se apagava deste lado do atlântico.

In a French Maizefield

For the Maya, we are of the same flesh,
wrapped tight within our layers of skin.

I stood between their rows of hidden gold,
those teeth of summer, my brothers, I felt

my eyes adjust to sun filtered through their light
and raised my arms among that clump

of dancers. I wondered if this was what
true permanence would feel like, as we

bent and swayed and leant in the wayward rags
of a hurricane blowing out on this side of the Atlantic.

§

Com as nossas raízes em água

Foi alguma coisa que você jogou na minha bebida?
Tantos anos e agora você me faz isso?
Aquelas gemas líquidas ficaram
na barra, no neon. E agiram rápido:
coquetéis sobre gelo e ausência.
Já se começa o zumbido da dança,
as ruas retas se torcem e fundem.
Os prédios desvanecem, os juncos crescem
e sob os pés sentimos o solo se amolecer,
o solo que você perdeu, onde eu fui perdido.
A sua mão nos conduz pelo pântano
até a margem escura da água. Damos um passo.
Os nossos pés se movem, anelam até as grades.
O metal está frio. Já senti este calor.
Foi ali que respirei os esporos e as sementes
que agora brotam dentro de mim.
Os juncos e o cânhamo se tecem, fazem a corda
que retorce e distende no capim molhado.
Sinto o seu solo escuro na minha boca e no meu cabelo.
Vem, já te encho de vapor e barro.

With Our Roots in Water

Was it something you put in my drink?
So many years, now this from you?
Those liquid gemstones stood
on the neon bar and then worked fast:
mixer over ice and absence.
They begin their buzzing dance,
fuse straight streets back against themselves.
The buildings fade, the reeds grow tall.
Underfoot we feel the softening land
you’ve lost, the land that I was lost in.
Your hand leads us through the marsh
to the water’s dark edge. Here we step.
Our feet move across the concrete to the railings.
The metal’s cold. I’ve felt this heat before.
It was there I breathed the spores
and seeds, that germinate inside me now.
The reeds and hemp weave themselves to rope
twisting and spraining in the wet grass.
I feel your dark earth in my mouth and hair.
Come, I’ll fill you with vapour and clay.

§

A predição negativa

eu não vou mais me irritar com os dados de usuários um março de ativos e em estados do país em um ano antes do jogo contra o câncer na região central da capital paulista e o seu nome é uma coisa que não se trata de um vídeo a seguir os passos principais pontos do projeto que não tem nada a ver com a minha agenda de reformas estruturais do mundo e o que não é um dos maiores desafios e o governo federal em Brasília para participar do programa mais de dois anos depois da morte do dançarino de funk no morro dos prazeres e não é um grande número de pessoas que não tem nada a ver com a mesma pessoa que você não tem como não amar esse tipo de crime passional ou seja urgente a vida é assim mesmo

I am not going to get angry with the users’ data one March of assets and in states of the country one year before the game against cancer in the central region of São Paulo and your name is a thing that is not anything to do with a video to follow the main steps points of the project and doesn’t have anything to do with my agenda of structural reforms for the world and which isn’t one of the greatest challenges and for the federal government in Brasília to take part in the trade more than two years after the death of the go-go boy on the mount of pleasures favela and it isn’t a large number of people and doesn’t have anything to do with the same person that you can’t help but love this type of crime of passion or in other words urgent that’s just what life is like

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crítica, poesia, tradução

Raymond Carver, por Cide Piquet (& uma orelha de Angélica Freitas)

Apesar de ser mais conhecido como escritor de contos, Raymond Carver começou sua carreira literária publicando uma coleção de poemas, Near Klammath, em 1968. Em entrevista à Paris Review, Carver afirmou que a única explicação para ter começado a escrever foram todos os relatos que havia escutado de seu pai: aventuras nos bosques e viagens clandestinas em trens, e também histórias de família, como a do bisavô que lutara na Guerra Civil americana, pelos dois lados, um verdadeiro vira-casacas.

Essas histórias do pai, um trabalhador encarregado de cuidar das lâminas de uma serraria, povoaram o imaginário do jovem Raymond, que por sua vez encontrou nas caçadas e pescarias da juventude os primeiros temas que lhe emocionaram. Ele queria contar sobre o peixe que havia pescado, mas também sobre o que havia escapulido.

Suas escolhas na vida adulta moldaram ainda mais a sua forma de ver o mundo. Uma série de empregos menores e mal pagos, como o de faxineiro num hospital, aguçaram seu olhar e sensibilidade. Trabalhadores pobres, grupo no qual se incluía, são muitas vezes os personagens principais de seus poemas. Com estilo direto e conciso, em que cada palavra é necessária, retratou como poucos a precariedade e os fracassos dessas vidas.

Talvez um dos poemas mais exemplares desta obra seja “O Padeiro”, no qual um homem que teve sua mulher tomada por um pistoleiro foge à noite, humilhado, carregando suas botas para não acordá-lo. “Ele é o herói deste poema”, escreve. Os garotos que entregam jornais, o funcionário do cemitério de Montparnasse que não quer pensar na morte, e os engolidores de fogo das ruas da cidade do México são, também, à sua maneira, heróis de outros poemas.

Os detalhes desse mundo precário, tão bem observados, partem o coração. “Pressionamos os lábios contra a borda esmaltada das xícaras/ e sabemos que essa gordura que boia sobre o café/ um dia irá parar nossos corações./ Olhos e dedos tombam sobre a prataria/ que não é prataria” (“De manhã, pensando no império”). Outro exemplo: “Partimos à meia-noite, com um caminhão de mudança e uma lanterna/ Quem sabe o que passou pela cabeça dos vizinhos ao verem uma família abandonar sua casa no meio da noite” (“Nossa primeira casa em Sacramento”).

A morte está presente em sua obra, mas os cemitérios, quando aparecem nos poemas, servem como lembrete de que é melhor não se demorar neles e que a vida está acontecendo em todos os lugares o tempo inteiro.

Os poemas de Raymond Carver também estão cheios de esperança e da capacidade de se maravilhar. “Existe algo mais maravilhoso do que uma nascente?”, pergunta, em “Onde a água se junta a outra água”. E a sensação que temos, após lê-los, é que se ficarmos muito quietos com nossas xícaras de café, atentos ao que se passa dentro de nós e ao nosso redor, alguma coisa bonita pode acontecer.

Angélica Freitas, na orelha de Esta vida: poemas escolhidos, organização e tradução de Cide Piquet, que acaba de sair pela Editora 34.

* * *

O Padeiro

Então Pancho villa chegou à cidade
enforcou o prefeito
e convocou o velho e enfermo
conde Vronski para jantar.
Pancho lhe apresentou sua nova namorada,
ao lado do marido de avental branco,
mostrou a Vronski sua pistola,
depois lhe pediu que falasse
sobre seu triste exílio no México.
Mais tarde, a conversa foi sobre mulheres e cavalos.
Ambos eram peritos.
A namorada sorria
e brincava com os botões de pérola
da camisa de Pancho, até que,
prontamente à meia-noite, Pancho adormeceu
com a cabeça sobre a mesa.
O marido fez o sinal da cruz
e deixou a casa carregando suas botas
sem nem mesmo acenar
para sua mulher ou para o conde.
Esse marido anônimo, descalço,
humilhado, tentando salvar sua vida, ele
é o herói deste poema.

The Baker

Then Pancho villa came to town,
hanged the mayor
and summoned the old and infirm
Count Vronsky to supper.
Pancho introduced his new girl friend,
along with her husband in his white apron,
showed Vronsky his pistol,
then asked the Count to tell him
about his unhappy exile in Mexico.
Later, the talk was of women and horses.
Both were experts.
The girl friend giggled
and fussed with the pearl buttons
on Pancho’s shirt until,
promptly at midnight, Pancho went to sleep
with his head on the table.
The husband crossed himself
and left the house holding his boots without so much as a sign
to his wife or Vronsky.
That anonymous husband, barefooted,
humiliated, trying to save his life, he
is the hero of this poem.

Baratinhas

para Mona Simpson

O seu bolo de rum com amêndoas, que parecia
delicioso, foi entregue em mãos na minha porta
esta manhã. O motorista estacionou no pé
do morro e subiu o caminho inclinado.
Nada mais se movia naquela paisagem congelada.
Fazia frio dentro e fora. Assinei
o recibo, agradeci e voltei para dentro.
Então removi a grossa fita, arranquei
os grampos da sacola, e lá dentro
encontrei a vasilha que você tinha enchido de bolo.
Rasguei com a unha o adesivo da tampa.
Removi a tampa. Desdobrei o papel-alumínio.
E senti a primeira lufada daquela doçura!

Foi então que apareceu a baratinha
vinda das úmidas profundezas. Uma baratinha
dentro do seu bolo. Bêbada
de rum. Ela contornou a borda da vasilha
e atravessou selvagemente a mesa para
buscar abrigo na fruteira. Não a matei.
Não nesse momento. Tomado que estava por sentimentos
conflitantes. Nojo, é claro. Mas também
espanto. Até admiração. Aquela criatura
tinha feito uma viagem de 3 mil milhas, atravessado a noite
no ar, cercada por bolo, lascas de amêndoas
e o cheiro opressivo do rum. Depois
foi levada de caminhão por uma estrada nas montanhas e
carregada morro acima, no frio, até uma casa
com vista para o Oceano Pacífico. Uma baratinha.
Vou deixá-la viver, pensei. O que é uma a mais,
ou a menos, no mundo? Esta, talvez,
seja especial. Abençoada seja sua estranha cabeça.

Ergui a vasilha de seu invólucro de alumínio
e outras três baratinhas correram sobre a borda
da vasilha! Por um momento fiquei tão
surpreso que não sabia se devia matá-las
ou o quê. Então fui tomado de cólera
e as esmaguei. Espremi a vida de seus corpos
antes que pudessem escapar. Foi um massacre.
Enquanto estava nisso, encontrei e destruí
também a outra, por fim.
Mal comecei e tudo já tinha terminado.
O que quero dizer é que poderia ter simplesmente continuado
a exterminá-las. Se é verdade
que o homem é lobo do homem, o que pode uma mera baratinha
esperar quando brota a sede de sangue?

Sentei, tentando acalmar meu coração.
O ar bufando pelo nariz. Olhei
em volta da mesa, lentamente. Pronto
para o que fosse. Mona, lamento dizer isso,
mas não consegui comer nada do seu bolo.
Guardei-o para mais tarde, quem sabe.
Mesmo assim, obrigado. Você foi doce em se lembrar
de mim, sozinho aqui nesse inverno.
Vivendo sozinho.
Quase como um animal.

Earwigs

for Mona Simpson

Your delicious-looking rum cake, covered with
almonds, was hand-carried to my door
this morning. the driver parked at the foot
of the hill, and climbed the steep path.
Nothing else moved in that frozen landscape.
It was cold inside and out. i signed
for it, thanked him, went back in.
Where i stripped off the heavy tape, tore
the staples from the bag, and inside
found the canister you’d lled with cake.
I scratched adhesive from the lid.
Prized it open. Folded back the aluminum foil.
To catch the rst whiff of that sweetness!

It was then the earwig appeared
from the moist depths. An earwig
stuffed on your cake. Drunk
from it. He went over the side of the can.
Scurried wildly across the table to take
refuge in the fruit bowl. I didn’t kill it.
Not then. Filled as I was with conflicting
feelings. Disgust, of course. But
amazement. Even admiration. This creature
that’d just made a 3,000-mile, overnight trip
by air, surrounded by cake, shaved almonds,
and the overpowering odor of rum. Carried
then in a truck over a mountain road and
packed uphill in freezing weather to a house
overlooking the Paci c ocean. An earwig.
I’ll let him live, i thought. What’s one more,
or less, in the world? This one’s special,
maybe. Blessings on its strange head.

I lifted the cake from its foil wrapping
and three more earwigs went over the side
of the can! For a minute i was so taken
aback i didn’t know if i should kill them,
or what. Then rage seized me, and
I plastered them. Crushed the life from them
before any could get away. It was a massacre.
While I was at it, I found and destroyed
the other one utterly.
I was just beginning when it was all over.
I’m saying I could have gone on and on,
rending them. If it’s true
that man is wolf to man, what can mere earwigs
expect when bloodlust is up?

I sat down, trying to quieten my heart.
Breath rushing from my nose. I looked
around the table, slowly. Ready
for anything. Mona, I’m sorry to say this,
but i couldn’t eat any of your cake.
I’ve put it away for later, maybe.
Anyway, thanks. You’re sweet to remember
me out here alone this winter.
Living alone.
Like an animal, I think.

§

Seu Cachorro Morre

é atropelado por uma van.
você o encontra na beira da estrada
e o enterra.
você fica triste por isso.
você fica triste por si mesmo,
mas também pela sua filha,
porque era o bichinho dela
e ela o amava tanto.
ela costumava sussurrar para ele
e o deixava dormir com ela na cama.
você escreve um poema sobre isso
e diz que é um poema para sua filha,
sobre o cachorro que foi atropelado por uma van
e como você cuidou de tudo,
como o levou para o bosque
e o enterrou fundo, fundo,
e o poema fica tão bom
que você quase se alegra porque o cachorrinho
foi atropelado, senão você nunca
teria escrito aquele bom poema.
então você se senta para escrever
um poema sobre escrever um poema
sobre a morte do cachorro
mas enquanto você está escrevendo
você escuta uma mulher gritar
o seu nome, seu primeiro nome,
as duas sílabas,
e o seu coração para.
depois de um minuto, você volta a escrever.
ela grita outra vez.
você se pergunta quanto tempo isso pode durar.

Your Dog Dies

it gets run over by a van.
you nd it at the side of the road and bury it.
you feel bad about it.
you feel bad personally,
but you feel bad for your daughter because it was her pet,
and she loved it so.
she used to croon to it
and let it sleep in her bed.
you write a poem about it.
you call it a poem for your daughter,
about the dog getting run over by a van
and how you looked after it,
took it out into the woods
and buried it deep, deep,
and that poem turns out so good
you’re almost glad the little dog
was run over, or else you’d never
have written that good poem.
then you sit down to write
a poem about writing a poem
about the death of that dog,
but while you’re writing you
hear a woman scream
your name, your rst name,
both syllables,
and your heart stops.
after a minute, you continue writing.
she screams again.
you wonder how long this can go on.

§

Fragmento Final

E você teve o que queria
desta vida, apesar de tudo?
Tive.
E o que você queria?
Dizer que fui amado,
me sentir amado sobre a terra.

Late Fragment

And did you get what
you wanted from this life, even so?
I did.
And what did you want?
To call myself beloved,
to feel myself beloved on the earth.

(Raymond Carver, traduções de Cide Piquet)

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poesia

Gilcevi

Foto de Warley Desali

Gilcevi é poeta, músico e produtor cultural. Integrou a banda Carolina Diz, com a qual lançou os álbuns Se perder (2004) e Crônicas do amanhecer (2008). Aprendeu a ler aos sete anos de idade devido ao seu interesse por decifrar os jornais e revistas que vendia nas ruas para sobreviver. Teve as mais diversas profissões ao longo da vida: jornaleiro, office boy, vendedor de produtos de limpeza, auxiliar de biblioteca, produtor, entre muitas outras. Embora escreva desde os 16 anos, só publicou recentemente seu primeiro livro intitulado Os ratos roeram o azul (editora Letramento, 2016). Atualmente apresenta seus poemas com a banda Cadelas Magnéticas.

* * *

 infância

a santa desce da nuvem
& com violência enterra o pecado nos meus olhos
como a placenta ocre lêndeas o Verbo

vó preta macera patuás me benze
com alquímicas negras vogais
desamarra a memória do tronco (há um negreiro
navio que à noite aporta no seu sono)
mas ainda sente o estalido da chibata: gritos
porejando na mordaça

vovô se aferra ao colchão intumescido
de fado & notas inflacionadas chora
o mar & a todos xinga com seu renascido
sotaque português

na beira do córrego vejo a vida: a véspera do bote
hipnotizando o sapo

mamãe bate roupa no tanque & sonha
com a cesta de alimentos um roach gordos
dízimos no ofertório
os pés de barro do domingo
ainda são embalados pelo saltério

na primavera papai enlouquecerá
& caminhará nu pelo quintal catando o eco das pedras

meu nome é de imperador
nas mãos do armilo três vezes
a infância regressou ao futuro
minha alma começa a ser íngreme me escalam
os elementos as vidências soturnas da inocência
o rútilo esperma do anjo caído

§

infância III (sangue ruim)

I
clã dos silva

da parte do pai vinham os de pele escura & parda
índios pegos no laço ladrões d’além mar capitães do mato
idólatras do cobre da preguiça & das armas
malvivendo amontoados naquela casa pau a pique senzala
partiam para o leste sob a tutela da noche oscura
levavam na matula a bússola a meiota de cachaça
carcaças de pequenos animais
sapienciais pergaminhos: eis que vou agora dormir no pó
se me procurares pela manhã já não existirei

II
clã dos souza

os irmãos da mãe na fronte acuada traziam sardas
lixo branco escorraçado das terras de lund
lazarones no monturo do morro das pedras
ralé de pés rachados sonâmbulos na encruzilhada
malvivendo amontoados naquela casa adobe senzala
pico & cola arranhando as grades da alma
falavam uma gíria bárbara & cheia de fúria
: o terceiro mundo vai explodir quem tiver de sapato não sobra

§

infância X (barreiro de cima)

o meu pai teve a mãe
& o meu pai teve o pai
só que para ele ter o pai
ele teve os avós
a única viva é a mãe da mãe do meu pai
a bisa dasdor que matou o marido com o pilão
pra se casar com o primo
ele arrancou uma costela dela
& do osso nasceu uma amante
que com ele teve mais vinte anti-heróis
que sabiam amansar o azul & a pólvora
& povoaram o barreiro

deus viu que isso era bom
& foi-se embora

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