poesia, tradução

Ernst Herbeck (1920-1991) por Cristiane G. Bachmann

Ernst Herbeck (Stockerau, 1920-Gugging, 1991) tornou-se poeta de um modo incomum. Depois de oito anos de silêncio e isolamento, numa rotina controlada diariamente por psicotrópicos e choques insulínicos que lhe eram aplicados como tratamento no hospital psiquiátrico de Maria Gugging (Áustria), onde foi internado aos 26 anos, Herbeck foi convidado por Leo Navratil[i] a envolver-se com o entorno por meio da escrita. Navratil, antropólogo e psiquiatra da clínica, sugeriu-lhe um tema: “Der Morgen” [“Manhã”]. A resposta de Herbeck foi um poema. O psiquiatra percebeu o talento literário do paciente. Todos os dias, passou, então, a fornecer-lhe materiais pra escrever e a lhe sugerir temas.

Herbeck produziu intensamente, escrevendo poemas sobre os mais variados assuntos: guerra, vida, morte, amor, liberdade, máquinas, personagens de contos de fadas, cores, objetos, estações do ano, atividades cotidianas e banais (como fumar, por exemplo), entre outros. Há poemas dedicados a Navratil, a outros internos do Gugging, a Goethe, a Rilke, à relação entre paciente e psiquiatra, e muitos deles versam sobre animais.

Desde que seus primeiros poemas foram publicados (em 1966), Herbeck chamou a atenção na cena intelectual. Em 1977, a editora alemã DTV publicou uma extensa antologia de sua obra, que foi recebida num momento em que fervilhavam discussões sobre conceitos de “normalidade” e loucura”. No mesmo ano, Herbeck tornou-se membro da Grazer Autoren Versammlung [Associação de Autores de Graz, na Áustria]. Em 1980, o escritor alemão W. G. Sebald, a quem tanto a obra herbeckiana quanto suas condições de produção causaram forte impressão, publicou o romance Schwindel. Gefühle [“Vertigem”, na tradução de José Marcos Macedo], que insere a figura de Herbeck em uma de suas passagens. No mesmo ano, o poeta austríaco saiu da clínica, após receber alta. Mas retornou em definitivo ao Maria Gugging no ano seguinte.

Herbeck[ii] deixou um espólio de mais de 1.700 manuscritos, entre poemas e textos curtos em prosa, que fazem parte do acervo da Biblioteca Nacional Austríaca, em Viena.

* * *

Canarinho

Os canarinhos nas gaiolas
esperam pelo alvorejar na
manhã absoluta.
E nisso, gaiteiro, ele canta
porque ele canta e se banha
e então recanta.

O canarinho vê e ouve
a mobília. Gigantemente
cândido, ele veste amarela
plumagem.

Ouça, candidamente ouça.

Kanarienvogel

Kanarienvögel sind im Käfig drin,
warten auf das Frühgeschehen am
Morgen ganz und gar.
Insoweit ist er vergnügt und singt,
weil er singt und sich auch badet
und dann wieder singt.

Der Kanarienvogel hört und sieht
sich die Möbel an. Er ist riesig
unverdorben und hat ein gelbes
Gefieder an.

Hören Sie sich, unverdorben, Sie sich das
mal an.

§

Paciente e Poeta

Poeta

Quanto maior a dor
tanto maior o poeta
Tão mais árduo o labor
Tão mais profundo o sentido.

Paciente

Quanto maior a desdita
tanto mais árdua a luta
Tão maior o prejuízo
tanto mais Doidos os condenados

Paciente e Poeta

Quanto maior a dor
tanto menor o poeta
Tão mais árduo o labor
Tão mais profundo o sentido
Quanto maior a desdita
tanto mais árdua a luta
Tão maior o prejuízo
Tão mais doidos os condenados.

Patient und Dichter

Dichter

Je größer das Leid
desto größer der Dichter
Umso härter die Arbeit
Umso tiefer der Sinn

Patient

Je größer das Unheil
desto härter der Kampf
Umso ärger der Verlust
desto Irrsinniger die Verdammten

Patient und Dichter

Je größer das Leid
desto kleiner der Dichter
Umso härter die Arbeit
Umso tiefer der Sinn
Je größer das Unheil
desto härter der Kampf
Umso ärger der Verlust
desto irrsinniger die Verdammten.

§

A língua.

b + a cintilam no patuá[iii].
Flores na borda do campo.
A língua. —
a língua é dependente dos animais.
e sonha no a da soada.
o c cicia só assim ao redor e
……….é também num instante sua
…………………………………………arma.

Die Sprache.

a + b leuchten im Klee.
Blumen am Rande des Feldes.
Die Sprache. —
die Sprache ist dem Tier verfallen.
und mutet im a des Lautes.
das c zischt nur so umher und
………..ist auch kurz dann sein
………………………………..Gewehr.

§

A ninfeia.

Nenhum bicho sabe daonde ela[iv]
…………………….vem.
Ainda assim, um sapo venera,
……………………ela a Beira (E)
……………………e a Eira –
A beira de alguma
……………………….flor.

Die Seerose.

Es weis kein Tier von wo sie
……………………Stammt.
Und dennoch, ein Frosch verehrt,
……………………sie den Rand (B)
……………………und den Band –
Den Rand irgendeiner
………………………Blume.

* * *

NOTAS

[i] Navratil tratava seus pacientes aplicando um método que desenvolveu com base no conceito de art brut (formulado por Jean Dubuffet).

[ii] O poeta também participou do documentário Zur Besserung der Person [“Para o aprimoramento da pessoa”], do suíço Heinz Bütler, que retrata o cotidiano de cinco artistas internos do Gugging. [Disponível aqui: https://vimeo.com/18427012]

[iii] Em alemão temos uma rima de “b” com Klee, que significa “trevo”. Em português, não encontrei nenhuma solução correspondente que terminasse com a tônica em “e”. Como “patuá” é um amuleto de sorte, assim como trevo, optei por inverter a soma (de “a + b” pra “b + a”) pra obter a rima e, assim, manter a proximidade semântica.

[iv] Neste verso, weis e von wo são desvios ortográfico e gramatical, respectivamente, típicos de falante de alemão que está aprendendo a escrever ou que não tem domínio da Standardsprache (“língua-padrão”). Herbeck foi consultado por Navratil sobre seu desejo de corrigir os poemas pra publicação. Alguns ele quis corrigir, outros não. Sua vontade foi respeitada por Navratil. Dessa forma, também procurei respeitar isso e busquei traduzir esses desvios. Para von wo, experimento usar “daonde”, porque me parece de natureza semelhante. Mas pra weis (o correto seria weiss) ainda não cheguei a uma solução, pois se trata de um “erro” bem comum e nada grave, como da ordem de uma distração. (Achei que “çabe” ficaria muito forçado…)

Cristiane G. Bachmann desenvolve seu projeto de estudo e tradução de poemas de Ernst Herbeck como mestranda em Estudos Literários na UFPR, na linha de Alteridade, Mobilidade e Tradução. Trabalha como revisora e preparadora de textos e durante vários anos dedicou-se também ao teatro, como atriz.

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XANTO| Do peito seu coração para a noite: Paul Celan e a obra plástica de Leila Danziger, por Gustavo Silveira Ribeiro

Do peito seu coração para a noite

Paul Celan e a obra plástica de Leila Danziger

Le monde brûle, en moi, et je marche.
Edmond Jabès

Para Mônica

[Notas para uma série em três partes]

  1. Pallaksch, Pallaksch[1] (2010): As tiras soltas, as sobras, os retalhos de papel produzidos pelo trabalho de desleitura e apagamento de jornais feito muito frequentemente por Leila Danziger são, talvez, como a língua esfacelada pela experiência da catástrofe: peças partidas nas quais só lateralmente, como que de passagem, é possível reconhecer um significado pleno, algo como um desejo de informação imediato. Desfeitas suas páginas frágeis e vulgares, turvada a forma-jornal, o que resta desse processo é o balbucio do papel, a matéria em destroços: o sentido incompleto e interrompido, troços de letras e imagens desconexos, a forma em fragmentos que anuncia o que – por homologia – na língua é falência e impossibilidade: colapso da comunicação, gagueira das coisas. Os estilhaços de papel cinzento se entrelaçam e acumulam, espalham-se no chão, saltam de uma mesa iluminada, explodem no espaço da exposição, em descontrole. Como outro tristemente célebre amontoado de ruínas, sobre o qual paira um anjo desolado, a impressão que se tem é que poderiam crescer até o céu, infinitamente. Mas não: permanecem como uma erva daninha do mundo industrial, excesso de palavras que se multiplica imperceptível e vai se transformar em língua de Babel, conjunto de sons anterior à articulação da gramática e do sentido. A conexão que mantém, como respostas imagéticas e materiais à poesia de Paul Celan é ambígua e profundamente original. Não querem apenas dar forma concreta às metáforas e jogos mentais do autor (como tantas vezes ocorre nesse tipo de encontro entre literatura e artes visuais): querem fazê-las de novo, repropor a sua estrutura, compreende-las em profundidade para só então devolvê-las, refratadas e distintas, ao leitor/espectador. Ao homem que não pode dizer os horrores de sua época e que, portanto, trata de envenenar a língua em que lhe foi dado sentir, escrever, pensar – é o que faz Celan, se nos recordamos que o veneno, qualquer veneno, é sempre phármakon, índice ao mesmo tempo de morte e cura, destruição e depuração – Leila Danziger não responde com o silêncio ou a simples exposição do impasse, do risco da afasia e da paralisação: seu gesto é sobretudo lírico, uma vez que procura reduzir o mundo (a linguagem, a matéria-jornal, a proliferação de objetos de consumo) ao mínimo necessário, desbastando-o de tudo o que é ruído. O que resta no papel depois do trabalho de desmontagem das engrenagens da comunicação de massas é o essencial, isto é, aquilo que restitui a matéria do mundo (e a própria linguagem) a si mesma: ela (a folha de papel) é de novo superfície escriptível, página clara atravessada por imagens e fragmentos de imagens – letras, desenhos, estilhaços de fotografias – que se integram a esse novo corpo, agora não mais submetido ao excesso da fala instrumentalizada, típica do didatismo tão comum à linguagem da imprensa diária. A forma final da instalação, o monte de sucatas de papel dispostas pela cena armada pela artista, revela mais do que o espectador/leitor pode ver: estão ali, à sua frente, os dejetos do trabalho, partes do processo efetuado, mas no entanto eles ainda guardam, invisível e preservada, a sua contraparte: daquele conjunto de cascas de matéria impressa pôde saltar a folha como que nova, rediviva e despojada, a linguagem como que pacificada, de novo em estado de latência. O mesmo pode ser dito, quem sabe, da língua alemã e da linguagem poética em geral atravessada pela estranheza profunda produzida pela poesia de Paul Celan: ainda que pareçam interromper o fluxo de ideias e afetos pelo hermetismo, pelo ensimesmamento de um idioma próprio, fechado em concha sobre si; ainda que pareçam resistir à comunicação, suas palavras puderam também restituir algum silêncio, guardar certa reserva de segredo num idioma e numa cultura (talvez mesmo numa época inteira) saqueada, instrumentalizada, tornada parte essencial da máquina de ódio e extermínio do Nacional-Socialismo. À fala infinita e sem arestas (isto é, sem qualquer dúvida ou hesitação, performando sempre uma espécie de verdade auto-evidente e, por isso mesmo, incontestável) do Führer, Celan oferece o anteparo da palavra impossível de Hölderlin, “pallaksch” (sim e não ao mesmo tempo, aporia paralisante, obstáculo), tartamudeio angustiante. Contra toda a fluência sibilina, toda a sabida – e terrível – eloquência de Hitler, cujos discursos se alongavam de improviso por horas a fio, a palavra residual de quem já não fala, uma espécie de contra-retórica: Pallaksch, Pallaksch, linguagem que se encaminha para a mudez mas que não silencia: repete, vezes sem conta mas pausadamente (como o poema sugere), a não-palavra, resto e ruído de toda uma época – ao mesmo tempo a época das Luzes excessivas, cegantes, do século XVIII de Hölderlin; do heart of darkness do século XX, a era das catástrofes de Celan, e da fala infinita, zumbido incessante e insuportável da comunicação de massas e da criação de pós-verdades do século XXI, tempo que coube a Leila Danziger e ao seu trabalho, produtor de silêncios. Se Roland Barthes nos lembrou que o fascismo (no plano específico da linguagem) não faz calar e não ordena a mudez, mas faz dizer junto, repetir as mesmas palavras e os mesmos sentidos do poder e da violência, talvez seria possível observar como, na associação que estabelece entre a Shoah e o arcabouço midiático da comunicação moderna, a artista pense a partir do fascismo o excesso agressivo de informações do jornal. A ele, a essa forma-força do mundo do capital e das trocas velozes (e vazias) de mercadorias, só corresponderia plenamente, como contraparte estrutural, o autoritarismo da sociedade de controle e do Estado-total. Daí a violência abafada, mas ainda assim violência, do processo de produção das obras de Leila Danziger; daí também serem os seus procedimentos fundamentais o esvaziamento e a reinscrição, como a encenar o encerramento de um ciclo (a permanência do fascismo, da “vida danificada”) e o início de outro, desconhecido, distinto, ainda pura utopia.

(…)

Viesse
viesse um homem
viesse um homem ao mundo, hoje, com
a barba de luz dos
Patriarcas: ele poderia
se falasse ele deste
tempo, ele
poderia
apenas gaguejar e gaguejar
sempre –, sempre –,
continuamente.
Pallaksch, Pallaksch

[“Tübingen, Janeiro” – Paul Celan – Trad. L. Danziger]

[1] Montada pela primeira vez no Museu de Arte Contemporânea, Niterói, 2010.

Gustavo Silveira Ribeiro

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poesia

5 poemas inéditos de Ismar Tirelli Neto (1985—)

Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, tradutor e roteirista cinematográfico. Nasceu no Rio de Janeiro a 1985; vive e trabalha atualmente em Curitiba. Lançou os livros synchronoscopio, Ramerrão e Os Ilhados, todos pela 7Letras.

* * *

Disciplina da extinção

Devem já ser desoras no mundo

Com os mesmos passos
cuidados com que costumávamos
deixar agosto
faz-se agora o torno do ano
inteiro, impensável

Neste poema ao menos
vencem
as tropas inimigas

Uma aragem má
destelha nossos galpões,
corre toda a alegria

Da linguagem
para os muros da cidade

No apagado arrabalde
(no apagado arrebol)
catar
palavras para dizê-lo

§

Enrique Lihn em Manhattan, II

O móbil do crime talvez seja a clareza
O que nos faz enxergar impérios no pó da mariposa
Capinar aporias
Comprimir
Os poemas até
A desumana exposição
Das linhas de força
De uma qualquer situação
Em tela
Citareiros jogados pelos corredores do metrô
Servos do sopro, de nada
Proliferando
Ascese de escadas rolantes
Que rompem claraboias cinzentas
Vamos, vamos
Irradiar mais uma metrópole
Perder os sinais na chuva negra
À mulher sentada a meu lado
Conto que acabo de ser expulso da República
Ela tem o bom gosto de me ignorar
Ela efabula
Faxinas que lhe roubaram a manhã
As varizes, o preço do extrato de tomate
Os tapumes crivados de balas
A esperança, ela diz, por pouco
Não dá cabo de si própria
E do marido também idoso
Noite passada
Esqueceu aberta uma das bocas do fogão
Depois da janta
Pegou no sono
Embalada pelo perfeito rolamento do veículo

§

Disciplina da extinção, II

Já neste poema
Circunstanciou-se que nós
Vencemos a guerra

Contudo
O problema da narrativa
Continua
A fazer-nos frente

Neste silêncio, cesura
Procuramos
Palavra de elevação
As palavras sonantes
Palavra de uma inocência
Emudecedora

Tomamos de sua fome
Para escrever saciedade

Para escrever sáfaro

Para escrever
O sol presidia vermelho sobre os campos
(Ao desincumbir-se
Era vermelho também)

§

Comparecimento diante do Provador

Descenso com pernas.
Não “ocaso”.
Não “crepuscular”, o verbo, não
Chamemos
Astro vestigial.
Não o tornar-se vestigial.
Não entre panejamentos.
Não o ter uma imagem
Tão demorada
Em nos atingir.
Não a tarde devagar
Desfibrada.
Descenso com pernas, com peso
De pernas.
Descenso
De cepas roliças
Comprimindo
Coxas
Que florem
Em pé
Inculto com
Sem caminho
Com
Solidão de jaula
Com
Fumos de centro
Com ócios
De preferido

Descenso

Descenso

Descenso

§

As andanças a que venho me referindo dão-se no mais dos casos em prejuízo dos pés.
Que poderá sobreviver à descoberta profunda, para além dos tipos, à redescoberta de que as estrelas não são senão os mortos,
senão revérberos?
Digressiona-se.
Tentei estabelecer as balizas mágicas desta excursão.
No Planetário, veem-se uns aos outros, não veem nada.
Que testemunham, afinal, os espelhos dos banheiros do Planetário?
Que eficácia?
Tentei dizer “baldio”, um substantivo.
Tentei dizer “engodados”, “engodados pela luz”.
Este Planetário é antigo. Bem como as crianças lá levadas em excursão.
Este Planetário é também o meu passado.
Estas crianças que entram, saem, dão a informação altiva e irracional.
Tentei dizer “baldio”, tento.
Esvaziar a ostra, ouvir atentamente ao ditado.
De seguida, a redação.
As crianças regressam de minhas notas com um Planetário, deixam-no aos meus pés.
Digo-lhes, os globos são caros.
Os ossários são caros.
Os revérberos, o passado… Tarde demais.
Entraram já para as notas.

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poesia, tradução

Ana Pérez Cañamares, por Marcelo Reis de Mello

Ana Pérez Cañamares nasceu em 1968 em Santa Cruz de Tenerife, mas desde um ano de idade mora em Madrid. Sua carreira na poesia começa com a publicação em 2007 do livro La alambrada de mi boca, publicado pela editora Baile del Sol. Pela mesma editora publicou seu primeiro livro de contos e seu segundo poemário, Alfabeto de cicatrices, de 2010. Em 2013 o livro Las sumas y los restos foi “V Premio de Poesía Blas de Otero”. Em 2014 publicou Economía de guerra pela Lupercalia editorial.

* * *

GENERACIONES

Antes de morir, mi madre dijo mamá, ven
mientras me miraba sin verme;
yo dije mamá, quédate
abrazando su cuerpo diminuto
envuelto en pañales y olor a talco;
mi hija dijo mamá, no llores
y me acarició la cabeza consolándome.

Cuando mama murió, durante unos segundos
no tuvimos muy claros los lazos que nos unían
no supimos quién se había ido
y quién se había quedado
ni en qué momento de nuestras vidas
estábamos viviendo

o muriendo.

GERAÇÕES

Antes de morrer, minha mãe disse mamãe, vem
enquanto me olhava sem ver-me;
eu disse mamãe, fica
abraçando seu corpo diminuto
envolvido em fraldas e cheiro de talco;
minha filha disse mamãe, não chora
e me acarinhou a cabeça consolando-me.

Quando mamãe morreu, durante alguns segundos
não tivemos muito claros os laços que nos uniam
não soubemos quem havia partido
e quem havia ficado
nem em que momento de nossas vidas
estávamos vivendo.

(La alambrada de mi boca)

§

Los platos que me regaló mi madre
están ya deslucidos y pasados de moda.
Cuando hacemos limpieza
nos miran como enfermos agonizantes
que no entienden qué queremos de ellos.

Pero son los platos que me regaló mi madre
que ya nunca volverá a regalarme
nada.

Si un día nos decidiéramos a tirarlos
intentaré escuchar su voz en mi cabeza:
“las cosas, hija, son sólo cosas“.

Mi madre no está en un plato.
Mi madre está en el pan que como.

Os pratos que me deu minha mãe
estão já sem brilho e fora de moda.
Quando vamos à limpeza
nos olham como doentes agonizantes
que não entendem o que queremos deles.

Mas são os pratos que me deu minha mãe
que nunca voltará a me dar
nada.

Se um dia nos decidíssemos a jogá-los fora
Tentarei escutar a sua voz na minha cabeça:
“as coisas, filha, são só coisas”.

Minha mãe não está em um prato.
Minha mãe está no pão que como.

(Las sumas y los restos)

§

MI PADRE SE LLAMABA DANIEL

Lo primero que pensé fue:
se ha muerto solo
(acompañar en la muerte
es el mejor bálsamo
para la culpa).

Lo segundo que pensé:
no me ha devuelto
mi última llamada
(nunca nos planteamos
que el deseo de independencia
también puede ser hereditario).

Lo tercero: ya no tengo padres
(y al mirar atrás descubrí
que hace ya mucho tiempo
que ninguna mano
sujeta la bici que monto).

Ahora no puedo dejar de pensar:
padre, yo no estoy muerta
pero también me pierdo muchas cosas.

Ya no estoy enfadada contigo.
Cada vez que te pienso
es domingo por la mañana.
Me llevas sobre los hombros
y yo sé que vas a invitarme
a un batido de chocolate
en el bar de la barra de zinc.
Después tu mano grande se abrirá
frente a mis ojos, y me mostrará el tesoro:
una chapa de mirinda y otra de pepsi.

Cuarenta años para descubrir
que allí estaba todo ya dicho.

MEU PAI SE CHAMAVA DANIEL

A primeira coisa que pensei foi:
morreu sozinho
(acompanhar na morte
É o melhor bálsamo
Para a culpa).

A segunda coisa que pensei:
não retornou
minha última chamada
(nunca nos damos conta
de que o desejo de independência
também pode ser hereditário).

Em terceiro: já não tenho pais
(e ao olhar pra trás descobri
que já faz muito tempo
que nenhuma mão
segura a bicicleta que eu monto)

Já não estou chateada contigo.
Sempre que penso em você
é domingo pela manhã.
Você me leva nos ombros
e eu sei que vai me convidar
para uma batida de chocolate
no bar do balcão de zinco.
Depois sua mão grande se abrirá
na frente dos meus olhos, e me mostrará o tesouro:
uma tampa de mirinda e outra de pepsi.

Quarenta anos para descobrir
que ali tudo já estava dito.

(Alfabeto de cicatrices)

§

Si un día me oyes
-después de una noche
en la que he resultado ser
encantadora:
de esas mujeres que beben
y se ponen graciosas
contando anécdotas
de bares y ácidos y viajes
y camas y cabrones
con el pelo despeinado
para mejor
y el carmín corrido
como si viniera
de morrearme en el baño
con el tío más guapo
del garito-
si un día
después de una de estas noches
en las que ejerzo
de encantadora de serpientes
al despedirme
me oyes decir
que sólo soy un fraude
compadéceme:
los adictos a los aplausos
también necesitamos testigos
cuando nos quitamos
el maquillaje.

Se um dia você me escuta
-depois de uma noite
em que acabei por ser
encantadora;
uma dessas mulheres que bebem
e ficam engraçadas
contando piadas
de bares e ácidos e viagens
e camas e patifes
com o cabelo despenteado
para melhor
e o batom excessivo
como se viesse
de beijar de língua no banho
o patrão mais bonito
do bordel-
se um dia
depois de uma destas noites
nas quais banco
a encantadora de serpentes
ao me despedir
me ouves dizer
que sou só uma fraude
e se compadece:
os viciado em aplausos
também precisamos de testemunhas
quando tiramos a maquiagem.

(Alfabeto de cicatrices)

§

Pocos saben que tengo otra hermana.
El azar nos separó al nacer.
Yo mamaba la leche de mi madre
mientras ella se secaba al sol.
Cuando perforaron mis orejas
ella recibió la ablación del clítoris.
Follé con hombres y sufrí por todos;
a manos de uno solo se quebró ella.
Me separé, lloré, abandoné mis sueños.
Ella murió unas cuantas veces
bajo piedras, ácido, sida y malaria.
Su cuerpo se deshizo y se recompuso.
En una o dos ocasiones fue feliz de morir.
Mi hija creció; mi hermana murió en el parto.
Años después parió una niña y se la quitaron.
Yo veo mi cuerpo envejecer; ella no tiene espejo.
Me pongo cremas antiarrugas
pero toda ella es un surco.
Yo hago listas de lo que le duele:

pero ella es la que administra su dolor.

Poucos sabem que tenho outra irmã.
O azar nos separou ao nascer.
Eu mamava o leite da minha mãe
enquanto ela se secava ao sol.
Quando furaram as minhas orelhas
ela recebeu a ablação do clitóris.
Trepei com homens e sofri por todos;
nas mãos de um só ela se quebrou.
Me separei, chorei, abandonei meus sonhos.
Ela morreu umas quantas vezes
Debaixo de pedras, ácido, aids e malária.
Seu corpo se desfez e se recompôs.
Em uma ou duas ocasiões foi feliz de morrer.
Minha filha cresceu; minha irmã morreu no parto.
Anos depois pariu uma menina e a tiraram dela.
Eu vejo meu corpo envelhecer; ela não tem espelho.
Passo cremes antirrugas
Mas ela toda é um sulco.
Eu faço listas do que nela dói:

mas é ela quem administra a sua dor.

(Las sumas y los restos)

§

Para todos mis gatos

A mis gatas yo les doy agua
ellas me traen rumores de selva
y belleza indómita.
Les doy comida
ellas libertad irrenunciable
pactos de respeto entre especies.
Les doy calor
ellas ponen límites a mi arrogancia
cuando intento traducirlas.
Les doy caricias
ellas enseñan astucia de samuráis.
Les doy cobijo
a las embajadoras de lo lejano y posible.
Al final un arañazo para dejar bien claro
que la ternura no es una mercancía.

Para todos os meus gatos

Às minhas gatas dou água
elas me trazem rumores da selva
e beleza indômita.
Dou-lhes comida
elas liberdade irrenunciável
pacto de respeito entre espécies.
Dou-lhes calor
elas põem limites na minha arrogância
quando tento traduzi-las.
Dou-lhes carinho
elas ensinam astúcia de samurais.
Dou abrigo
às embaixadoras do distante e possível.
Por fim um arranhão para deixar bem claro
que a ternura não é uma mercadoria.

(Las sumas y los restos)

§

Para Talo, mi primer novio

Estoy en el lugar donde fuiste a morir
aunque no conozca el cruce exacto
y no importa, yo sé que el nombre de este pueblo
está guardando tu muerte.

Nunca he visitado tu tumba ni sé dónde está.
Hablé con una de tus hermanas y me contó
que nos recordaba perfectamente
bailando una canción lenta con los ojos
cerrados, mirando hacia nuestro futuro.

Así que sé que en alguna parte estamos vivos y juntos
desafiando las leyes de la vida y la muerte
en una casa nuestra levantada en la memoria.

En un rincón de tu ataúd aún se yergue el instituto
hay un partido de baloncesto que nunca termina
nos cogemos borracheras sin resaca
y sigo teniendo tentaciones de romper aquel vaso
y rasgarme la muñeca, para parar el futuro
que un día nos separará.

Estaremos juntos siempre, me dijiste.
De alguna forma, era cierto.
Mi adolescencia fue la tuya.
Está tan muerta como tú, impresa en la piel
como un libro que no habrá que leer nunca más
porque los dos lo conocemos
palabra por palabra.

Para Talo, meu primeiro namorado

Estou no lugar aonde você foi pra morrer
Mesmo sem conhecer o ponto exato
e não importa, eu sei que o nome desta vila
está guardando a sua morte.

Nunca visitei a sua tumba nem sei onde está.
Falei com uma das suas irmãs e me contou
que lembrava perfeitamente de nós
dançando uma música lenta com os olhos
fechados, contemplando o nosso futuro.

Por isso eu sei que em algum lugar estamos vivos e juntos
desafiando as leis da vida e da morte
em uma casa nossa levantada na memória.

Em um canto do seu ataúde ainda se ergue a escola
há uma partida de basquete que nunca termina
tomamos uns porres sem ressaca
e continuo tendo tentações de quebrar aquele copo
e rasgar os pulsos, para parar o futuro
que um dia vai nos separar.

Estaremos juntos sempre, você me disse.
De algum modo, era verdade.
Minha adolescência foi a sua.
Está tão morta quanto você, impressa na pele
como um livro que não será preciso ler nunca mais
porque os dois o conhecemos
palavra por palavra.

(Las sumas y los restos)

§

para Cristina Morano

Las gatas buscan atalayas
desde las que contemplar el mundo.

Ellas dormitan sabiéndose a salvo;
yo me amurallo tras un libro.

Dice el poeta Rigo que la última
coraza es la lealtad.

Las hembras nos comprendemos:
el mundo es un peligro a nuestra disposición.

Para Cristina Morano

As gatas procuram guaritas
de onde possam contemplar o mundo.

Elas cochilam sabendo-se a salvo;
eu me amuralho atrás de um livro.

Diz o poeta Rigo que a última
Couraça é a lealdade.

As fêmeas nos entendemos:
o mundo é um perigo à nossa disposição.

(Las sumas y los restos)

§

Mi educación:
no desees nada demasiado
no te vanaglories ante nadie
-mucho menos de ser feliz-
no sueñes sueños imposibles
-tampoco sueñes la posibilidad-
no rías demasiado alto
no enfades a los dioses
      • no creas en ellos ni en sus premios
aunque estarán ahí para castigarte-
no llores delante de los otros
      • la tristeza es otra forma de ser presuntuoso-
no te aferres pero no te sueltes del todo del pasado
no te emborraches sin sufrir por la resaca
no te menosprecies
esperando compasión
no luches
todo está perdido desde siempre.

Y ahora sal al mundo, sostente, sé un ejemplo.

Minha educação:
não deseje nada demais
não se vanglorie diante de ninguém
-muito menos de ser feliz-
não sonhe sonhos impossíveis
-tampouco sonhe a possibilidade-
não ria alto demais
não entedie os deuses
• Não acredite neles e em seus prêmios
ainda estarão aí para te castigar
não core na frente dos outros
• A tristeza é uma outra forma de ser presunçoso-
não se aferre mas não se solte completamente do passado
não se embriague sem sofrer a ressaca
não se menospreze
esperando compaixão
não lute
tudo está perdido desde sempre.

E agora sai pro mundo, se aguenta, seja um exemplo.

(Las sumas y los restos)

§

Me arranco las bragas
negras de la tristeza.
Las dejo al pie de la cama
como un perro roto.
Ya se compondrá después
cuando haya que disfrazarse
para la alegría o la nada.

Arranco-me as pregas
negras da tristeza.
Deixo-as ao pé da cama
como um cachorro cansado.
Logo em seguida irá se recompor
quando tiver que se disfarçar
para a alegria ou o nada.

(Economía de guerra)

§

No soy esta que veis palidecer
bajo el fémur tibio del fluorescente.
Tampoco la mujer que oye dar las tres
como el gong del martillo absolutorio
o la bala de un fusil encasquillado.
Ni la que escribe frases sin amor
y firma igual que quien mata una mosca.

Ocupo mi silla antes de que el sol
me bendiga la frente con un beso
y salgo a la calle infiel y huérfana.
Toso el virus de la resignación
cuando el mar es un rumor clandestino
y los lirios burlas del carcelero.

Soy quien sueña llegar a la vejez
para dejarse adoptar por gallinas
y vivir en la luz de las mañanas
que ahora abandono en la casa de empeños.

Não sou esta que vês empalidecer
sob o fêmur cálido da luz fluorescente.
Tampouco a mulher que ouve dar as três
como o gongo do martelo absolutivo
ou a bala de um fuzil engatilhado.
Nem a que escreve frases sem amor
e assina como quem mata uma mosca.

Ocupo minha cadeira antes que o sol
me bendiga a testa com um beijo
e saio à rua infiel e órfã.
Tusso o vírus da resignação
quando o mar é um rumor clandestino
e os lírios mentiras do carcereiro.

Sou quem sonha chegar à velhice
para deixar-se adotar por galinhas
e viver com a luz das manhãs
que agora abandono na casa de penhores.

(Economía de guerra)

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poesia

Adão Ventura (1946—2004)

Adão Ventura (1946, Santo Antonio do Iambém, MG) foi criado primeiramente pobre, no mato do então distrito do Serro; depois mudou-se para Belo Horizonte, onde se formou em Direito pela UFMG. Trabalhou no Suplemento Literário de Minas e teve vários empregos nos anos subsequentes, até se mudar para Brasília, onde presidiu a Fundação Palmares, dedicada à cultura negra. Publicou 5 livros de poesia: ‘Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul’, 1970; As musculaturas do arco triunfo (1976); A cor da pele (1980), Jequitinhonha – poemas do vale (1980); Texturaafro (1992); Litanias de cão (2002); e um livro infantil Pó-de-mico macaco de circo (1985). pelos quais recebeu vários prêmios. Adão Ventura morreu de câncer, em 2004. Como bem disse Ricardo Domeneck, na Modo de Usar & Co.”Outro ótimo poeta ainda pouco conhecido, certamente por motivos que retratou em sua poesia, mas na sintonia de nossa sincronia.”

Os poemas abaixo foram retirados da antologia póstuma, “Costura de Nuvens” (Edições Dubolsinho, 2006), organizada por Jaime Prado Gouvêa e Sebastião Nunes, feita a partir do título que o próprio Ventura havia dado para a edição de sua poesia completa, incluindo inéditos. Escolhi alguns poemas fortíssimos que não constam nas já ótimas antologias apresentadas por Domeneck aqui, por Antônio Miranda aqui, por Elfi  Kürten Fenske aqui e por Leonardo Morais aqui. Trata-se, então, de uma antologia por ampliação do que já estava disponível. Creio que com essas cinco reuniões online, teremos um panorama importante desse poeta que merece, sem dúvida, mais leituras.

* * *

Breves elementos para a instituição do poema

Inaugure no corpo
a seiva dos sonhos
forjados no mito.

Instaure no sangue
a força da fala
gerada no termo.

Imprima na pele
o silêncio da pose
haurida na forma.

Inscreva nos gestos
a forma do rito
usual do anônimo.

§

Recusa

— Recusei-me a receber as
divisas do madeiro da cruz,
porque meu nome já estava
escrito nos papiros falsos.
Minhas vestimentas
sobrecarregavam punhais e
outros sinais de desespero.

§

Diário de Teodoro

— Foi quando senti dividirem meu corpo
em suásticas,
lâminas cortavam minha pele.
O sol desintegrava meus pés ante o pó
das estradas.

A fúria das palavras fazia
cegar os homens.
— seus chicotes classificavam
as carnes para o sacrifício.

Aí as palavras iam tendo vértebras nos
seus lençóis próprios, gerando gerais
comarcas de papéis que forçavam os
reis a reinarem nos seus séquitos de
súbitas samambaias.

A metade das montanhas apinhadas de
selos e brenhas
capitulava os voos dos pássaros
em suas moradas de origem.

Porque, na verdade, eu não possuía
mais a minha carta de alforria e todos
os mapas de identificação estavam
limitados às circunscrições de minha
pele.

Tudo era começo
de um longo deserto
onde flores coloridas
anunciavam fluidos de um amargo sal.

§

Nesta mão

Nesta mão eu te trago a
estrada suja de suor,
nela escrevi meu nome, dela
reconheci firma,
muitos anos se passaram até eu
chegar aqui,
com este testamento
todo timbrado em armaduras e
distâncias.

Indico apenas as correntes que
possuo no nó do sangue,
herança corrosiva de comarcas
de muitas eras.
— O meu mundo é limitado por
selos, números e ossos.

§

Identidade

Sebastiana Ventura de Souza
Sebastiana de Minas Gerais
Sebastiana de Minhas
Sebastiana de Tal

vem limpar o chão
vem lavar a roupa
vem enxugar a louça

vem cantar cantiga
de ninar
para mim.

§

Dar nome aos bois

Ai de ti, ó terra, quando teu rei
é criança e quando teus príncipes

se banqueteiam ao amanhecer.
Eclesiastes

Dar nome aos bois,
apartá-los em mangas privilegiadas
— de preferência com capins
de fios de ouro
ou prata.

— Isolando-os da ralé dos bois de
corte.

§

Da palavra em seu habitat

Lavre-se a palavra
em fluvial lagoa
pura de escamas,
fuligem & circunstância.

Louve-se a palavra
na lúdica atadura
de um nítido invólucro
ainda que insepulto.

Livre-se a palavra
da inaugural magia,
iluminando-a num ato
puro de si mesma.

Lustre-se a palavra
ao seu exato cerne
— esmeril e águas claras
de recolhidos despojos.

 

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poesia, tradução

Poesia Nórdica| Três Poemas do Tu e do Eu, de Carl Jóhan Jensen, por Luciano Dutra

Três Poemas do Tu e do Eu, de Carl Jóhan Jensen 

 

Carl Johan Jensen (n. 2 de dezembro de 1957 em Tórshavn, capital do arquipélago das Feroés) é há mais de um quarto de século uma das personalidades mais atuantes da cultura feroesa seja como poeta, jornalista, ficcionista, articulista, crítico literário e tradutor. Além disso, atua como tradutor. Foi agraciado com o prêmio feroês de literatura em seu país em três ocasiões (1989, 2006 e 2015). Foi indicado cinco vezes ao prêmio de literatura do Conselho Nórdico. Obras de Carl Jóhan já foram traduzidas e publicadas em livros, coletâneas e revistas na Dinamarca, na Noruega, na Suécia, na Islândia, nos Países Baixos, na Alemanha, nos EUA e agora no Brasil. A poesia de Carl Jóhan Jensen é do tipo que lança um desafio ao leitor: decifra-me ou te devoro. Não é a poesia palatável dos poemas no ônibus ou no metrô, mas sim linguagem em convulsão que faz lembrar da cerimônia iniciática enfrentada por Óðinn, a divindade-mor da antiga religião nórdica, e que o levou a “conhecer” ou “inventar” as runas, as quais depois compartilhou com as outras divindades e demais habitantes do universo nórdico: os homens, “gente oculta” (huldufólk) e os trolls. Mais do que poesia, é ποίησις, na qual o poeta traduz o não-ser para que seja. Se Carl Jóhan fosse filósofo de ofício, talvez sua máxima fosse: “Digo, escrevo, logo há”. Carl Jóhan Jensen irá participar no dia 12 de novembro da Presença Nórdica na Feira do Livro de Porto Alegre, ocasião em que será lançada o herbário poético bilíngue Nona Manhã, publicado pela parceria editorial Moinhos+Sagarana até onde se saiba a primeira obra de autor feroês, seja em verso ou em prosa, traduzida diretamente para o português. Os três poemas aqui publicados foram extraídas de Nona Manhã.

Luciano Dutra (Viamão/RS, 1973-, naturalizado islandês) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, microeditora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém a página Um Poema Nórdico ao Dia (facebook.com/nordrsudr).

* * *

Eu

E vês a folha
que oscila por um átimo
no ar agitado
sobre as cinzas
em brasa? —

Eg

Og sært tú blaðið
sum ørstutt blakast
í giddandi luft
yvir glóðandi
eimi? —

§

Tu

tu és a mão que alivia
e a chuva que liberta
tu és lua e estrela
saibro sob meus pés
tu és oceano suspirando
e a palavra que será

tú ert lógvin sum lygnir
og regnið sum loysir
tú ert máni og stjørna
steinspjað við fót mín
tú ert hafið sum andar
og orðið sum blívur

§

Bem-me-quer

és o mistério da neve que para
e és também a terra

a pele exótica e o dorso da mão
outra vez vindo do nada

Gloymmegei

tú ert fannaslit á gátum
og mold ert tú við

fremmand húð og lógvi
uppaftur úr ongum

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poesia

Thiago Scarlata

Thiago Scarlata é poeta, músico, escritor. Teve um poema publicado na antologia Âmago, pela Editora Regência/SP, em 2011 e outro que ainda será editado e lançado neste ano (2017), na Antologia do Prêmio Sesc de Poesia Carlos Drummond de Andrade 2016.  Após esse hiato de 5 anos, retoma a escrita e agora publica seu primeiro livro de poesia, de título Quando Não Olhamos o Relógio, Ele Faz o Que Quer Com o Tempo, pela Editora Multifoco.

* * *

Pressurizado

a cada incêndio
a cada prédio desabado
a cidade exibe seus entulhos
que devem ser considerados

como o tijolo que aceita
o reboco
acostumamos nossa pele
ao sol

e quem, afinal
gere com tamanha imprecisão
(lodo e pressão)
o cronograma dos chafarizes?

toda avenida queria ser beco
e os bares,
essas válvulas úmidas em tempos secos,
ilhas artificiais anti-depressão,
escoam o limbo

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