poesia, tradução

Sarah Maguire, por Rob Packer

Sarah Maguire (1957–2017) foi uma poeta inglesa que morreu no ano passado em Londres, deixando uma obra enxuta e expansiva ao mesmo tempo. Em três coletânea (Spilt Milk, 1991; The Invisible Mender, 1997; The Pomegranates of Kandahar, 2007), ela explorou questões do corpo e da natureza, com um olhar que sempre considerava a geografia e história. Um dos poemas traduzidos aqui, por exemplo, trata da expulsão de todos os animais fêmeos do Monte Atos na Grécia; outro prevê o fluxo de migração através do Mediterrâneo que parece influenciar cada vez mais as políticas europeias mais assombrosas. Em outras ocasiões, ela escrevia sobre plantas ou juntou uma antologia sobre poemas sobre flores – uma influência clara da horticultura que ela aprendeu como jardineira depois de deixar a escola cedo.

Além de poeta, ela foi (talvez) ainda mais importante na esfera da tradução. Em 2004, ela fundou o Poetry Translation Centre (PTC) o qual ainda se dedica a traduzir poetas africanos, asiáticos e latino-americanos ao inglês, convidando poetas consagrados como tradutores ou convocando oficinas de tradução, para trabalhar com poemas escritos em zapoteca, dari, georgiano e, sobretudo, o árabe. Ela traduziu poemas dos palestinos, Mahmoud Darwish e Ghassan Zaqtan, e do sudanês, Al-Saddiq Al-Raddi. Além disso, nenhum outro poeta de expressão inglesa em vida teve um livro de poesia traduzido ao árabe.

Rob Packer

* * *

Split Milk

Two soluble aspirins spore in this glass, their mycelia
fruiting the water, which I twist into milkiness.
The whole world seems to slide into my drain by my window.

It has rained and rained since you left, the streets black
and muscled with water. Out of pain and exhaustion you came
into my mouth, covering my tongue with your good and bitter milk.

Now I find you have cashed that cheque. I imagine you
slipping the paper under steel and glass. I sit here in a circle
of lamplight, studying women of nine hundred years past.

My hand moves into darkness as I write, The adulterous woman
lost her nose and ears; the man was fined. I drain the glass.
I still want to return to that hotel room by the station

to hear all night the goods trains coming and leaving.

Leite derramado

Os esporos de duas aspirinas dissolvem no copo,
os micélios frutificam a água que eu viro láctea.
O mundo inteiro escorrega pelo ralo à minha janela.

Não para de chover desde que você partiu, as ruas escuras
e musculosas com a água. Dolorido e exausto você gozou
na minha boca, cobrindo a língua com seu leite bom e amargo.

Agora descubro que você descontou aquele cheque. Imagino
você deslizando o papel sob o aço e o vidro. Estou sentada aqui
no círculo de luz, estudando mulheres de novecentos anos atrás.

Minha mão entra na escuridão enquanto escrevo, A adúltera
perdeu o nariz e as orelhas; o homem foi multado. Viro o copo.
Ainda quero voltar ao quarto de hotel perto da estação

para ouvir a noite toda os trens de carga entrando e partindo.

§

The Garden of the Virgin

‘In the Gospel of the Egyptians … the Saviour himself said,
I am come to destroy the works of the female.’
– CLEMENT OF ALEXANDRIA, Stromateis, Book III

IV

The monks who came to cultivate
the Virgin’s garden
obeyed her law.

St Theodosius the Studite wrote:
Keep no female animal
for use in house or field:

the holy fathers
never used such –
nor does nature need them.

Ewelambs and their ewes
were slaughtered. Cows
butchered. Heifers slain.

The sow, the gilt
and the nanny goat:
all dead and banned.

Bitches murdered one
by one. Each hen
felt the press of thumbs

about her throat, the neck
snapped taut – and then
the slump. Each egg

was gathered up, each eggshell
crumpled in a viscid mess of yolk,
thrown oozing down the cliffs,

where, boiling in the waves,
it made a salty broth
the gulls sucked up.

Only the cats stayed on:
the cats to catch the rats
that dropped their young

despite the monks,
despite the Virgin’s stern
injunction. At night

it was the cats
who ran the place:
softening the hands and throats

of anchorites and cenobites,
their lithe fur
soothing the flesh made stiff

through deprivation.
And at night the wolves
roamed yowling

through the Virgin’s garden:
the sole beast
with cunning enough

to breach the fine neck
of isthmus.
Miles up, alone

in his stone cottage,
reaching only by chains
hung over cliffs,

a hermit wakes up, sodden
from a lycanthropic nightmare,
with his hair

on end. He had sensed
the slow breath
of the wolf, had stared

deep into her lemon eyes,
as still as oil
or candlelight, then

felt himself run off with her –
feral, hirsute, opening out his lungs
to greet the moon.

O jardim da Virgem

‘No Evangelho dos Egípcios … o Salvador mesmo disse,
Vim a destruir a obra da fêmea.’
– CLEMENTE DE ALEXANDRIA, Stromateis, Book III

IV

Os monges que vieram a cultivar
o jardim da Virgem
obedeceram a sua lei.

São Teodósio o Estudita escreveu:
Não mantenha nenhuma fêmea animal
para uso em casa ou campo:

os pais santos
nunca usaram dessas –
nem a natureza precisa delas.

As ovelhas e recém-nascidas
foram abatidas. Vacas
mortas. Novilhas arrasadas.

A porca, a leitoa
e a cabra fêmea:
todas mortas e banidas.

Cadelas assassinadas uma
atrás da outra. Cada galinha
sentiu o aperto de dedões

na garganta, o pescoço
estalou tesamente – e depois
despencou. Cada ovo

foi coletado, cada casca amassada
em uma imundície víscida de gemas,
jogada esvaindo nos rochedos,

onde, borbulhando nas ondas,
virou um caldo salgado
que as gaivotas sugavam.

Apenas as gatas ficaram:
foi para caçar as ratazanas
cuja prole seguia caindo

apesar dos monges,
apesar da injunção severa
da Virgem. À noite

foram as gatas
que regiam o monte:
amolecendo as mãos e gargantas

dos ancoretas e cenobitas,
os seus pelos macios
confortavam a carne

endurecida pela privação.
E à noite as lobas
erravam e uivavam

pelo jardim da Virgem:
o único bicho
suficientemente astuto

para violar a garganta fina
do ismo.
Sozinho numa cabana de pedra,

em um lugar altíssimo
aonde só se chega através de correntes
penduradas nos rochedos,

um eremita acorda, encharcado
de um pesadelo licantropo,
com os cabelos

arrepiados. Tinha sentido
a respiração lenta
da loba, olhado

nos olhos amarelos profundos,
calmos como o óleo
ou a luz de vela, logo

sentiu como escapava com ela –
feral, hirsuto, abrindo os seus pulmões
para saudar a lua.

§

Europe

Merely an idea bruising
the far horizon, as a cold mist tightens into rain –

but at dusk we still wait
by the Bay of Tangiers, on the old city walls, gazing northwards

till the night comes on,
and a necklace of lights gathers the throat of the sea.

The young men burn –
lonely, intent on resolving that elusive littoral

into a continent of promises
kept, clean water, work. If they stare hard enough, perhaps

it will come to them.
Each night, they climb these crumbling ramparts

and face north
like true believers, while the lighthouse of Tarifa blinks

and beckons,
unrolling its brilliant pavement across the pitiless Straits.

Europa

Apenas uma ideia machucando
o horizonte distante, enquanto a névoa fria se adensa em chuva –

mas ao pôr-do-sol ainda esperamos
na Baía de Tanger, na muralha da cidade velha, fitando o norte

até que a noite avança,
e um colar de luzes enlaça a garganta do mar.

Os rapazes ardem –
solitários, determinados a resolver aquele litoral esquivo

em um continente de promessas
cumpridas, água limpa, trabalho. Se olharem fixamente demais, talvez

venha até eles.
Toda noite, eles sobem nestas muralhas decadentes

e encaram o norte
como fieis convictos, enquanto o farol de Tarifa pisca

e acena,
desenrolando sua calçada brilhante sobre o desapiedado Estreito.

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crítica, xanto

XANTO| Notas sobre “A Menstruação de Valter Hugo Mãe”, de Carla Diacov, por Marcelo Reis de Mello

As cólicas em muitas perspectivas

Notas sobre A Menstruação de Valter Hugo Mãe, de Carla Diacov (Casa Mãe, 2017)

Por Marcelo Reis de Mello

Na primeira vez que li A menstruação de Valter Hugo Mãe estava em Ponta Grossa, no interior do Paraná com a minha família. Meu pai, meu irmão e eu resolvemos levar as minhas sobrinhas para um acampamento no mato, perto de uma cachoeira. Levei o livro. Fiquei meio atordoado, não entendi direito. À tarde, depois de um mergulho no rio, li a entrevista como quem lê a legenda explicativa de uma obra de arte contemporânea. Ajudou um pouco. Achei a entrevista muito bonita, mas continuei nu e desconfortável diante do texto. Havia também aquelas aquarelas de sangue menstrual entre os poemas, sobre as quais eu não sabia dizer nem mesmo se gostava ou não. Seduzia-me o tom. Gostava do vermelho diluído na palidez do papel.

No primeiro semestre de 2018 ofereci um curso de poesia contemporânea na UERJ, dentro do qual retomei a leitura do livro da Carla, mas desta vez coletivamente. A experiência de uma releitura em voz alta, poema a poema, com uma turma composta quase totalmente por mulheres, abriu novas perspectivas. Não que eu tenha (ou que tenhamos, juntos) “entendido” o livro, mas fomos capaz de abri-lo e explorá-lo sob novas chaves, reivindicando outro campo de forças. A elas agradeço.[1] Veio o debate sob o signo da menstruação, sobre o que este sangue significa ou deixaria de significar; sobre o modo pelo qual a poeta chama o texto ao sangue (e o sangue ao texto) sem reforçar clichês. Não, este sangue não definiria para nós o que é a mulher. Atente-se ao título, estranho como o resto. Sua escrita sangrenta não é panfletária, é sinestésica: textura, cor, cheiro. “[Vermelho] é meu cheiro da sorte”, diz Carla na entrevista a VHM ao fim do livro.

Falando em sinestesia, que como se sabe não é apenas uma figura de linguagem, mas também uma rara condição neurológica, lembro-me de ter lido a respeito de uma chacota sofrida na escola por um aluno sinesteta, ao perguntar a um colega – “De que cor é o seu cinco?”. Isso para dizer que neste caso específico, para este livro, a escolha (editorial?) da impressão das letras em vermelho foi um tremendo acerto. Não apenas por se tratar de uma escrita de sangue. Isso o poeta russo Serguei Iessiênin já havia experimentado em 28 de dezembro de 1925. Mas principalmente porque os sinestetas que associam letras a cores costumam ter um desafio a mais quando o texto é colorido. Se a pessoa associa a letra B ao amarelo ocre, por exemplo, e o texto vem escrito em vermelho, o cérebro confunde os estímulos. Que cor estou lendo? Com isso obviamente não quero dizer que todos “sofremos” de sinestesia, mas que a poesia da Carla propõe este desarranjo ou rearranjo dos sentidos. Ali somos incitados e exorbitar as leis do olho, do nariz, dos ouvidos, da pele, da boca – ruem as normas do corpo, a nossa suposta normalidade.

Antes de prosseguir, abro um parêntesis para trazer ao debate outro livro fundamental, hoje: O útero é do tamanho de um punho, de Angélica Freitas. Nos poemas publicados em 2012, a gaúcha investe em formas ácidas de humor, pulverizando a subjetividade e multiplicando as perspectivas ao filiar-se a procedimentos inventivos e “não-criativos”, como no caso dos três poemas escritos com “googlagem”. Os estereótipos são repetidos até se esfacelarem no riso, um riso amarelo. E os dêiticos (partículas indicadoras de pessoa, tempo, espaço) não indicam muito mais do que um embaralhamento da subjetividade (não se diz “eu” ou “tu”, mas “a mulher”). Aliás, quem ali diz? A poeta Angélica? A mulher Angélica? A mulher? Os logaritmos do mecanismo de busca? Os homens que buscam o que “a mulher quer” no Google?): poesia, portanto, onde a construção mulher vai aos poucos se desintegrando

(…)

(a mulher é uma construção
com buracos demais

vaza

(…)

Voltando ao livro da Carla, podemos perceber que o desmoronamento da construção se anuncia e enuncia também, mas de outro modo. Nos dois livros a mulher é uma construção que vaza, e nos dois livros a repetição é fundamental para esvaziar os estereótipos. Mas aqui já não sobra uma acidez e um riso amarelo; talvez um amargor delicado e um riso confuso, doido. A trapaça de Carla se dá para além da insistência na mensagem (na palavra), que, aqui, deslocada, desconjuntada dos seus referentes habituais, faz tremer o próprio código onde se insere (a língua). Não é, como também não era no caso de Angélica, uma técnica nova. Mas se realiza com equivalente habilidade. O que poderia ter virado um inventário trocadilhesco quase-engraçado se transfigura, no caso de Carla, em voragem. Ao boicotar construções previsíveis, lugares-comuns, substituindo algumas palavras por surpreendentes parônimas (palavras parecidas), acabamos diante – e simultaneamente – do familiar e do estranho. Poderíamos inclusive voltar a esta definição freudiana de estranho (unheimlich): um familiar (heimlich) que se perdeu.

O verso do livro que dá título a estas nossas notas serve como um primeiro exemplo. Ao invés de dizer “as coisas em muitas perspectivas”, a poeta diz: “as cólicas em muitas perspectivas”, como se (nos ou se ou te) perguntasse ao mesmo tempo “que coisa é uma cólica?” ou “que cólica é uma coisa?”, ou ainda “que coisa é uma perspectiva em muitas cólicas?” e assim por diante. O primeiro poema do livro já começa assim:

a vênus de willendorf tem
a capacidade aberta e usada desde sempre
(…)
era usada como amuleto era
usada como objeto de limpeza abjeto
introduzido na
capacidade das vênus ordinárias
(…)

Vemos que os substantivos femininos cavidade e capacidade se confundem, assim como o substantivo masculino objeto e o adjetivo substantivo masculino abjeto, primeiro por substituição e depois por contiguidade, amplificando o potencial analógico do texto. E acontece que estas pequenas trapaças desestabilizam a leitura como um todo, porque ao prosseguir já não sabemos se estamos diante de um elemento em seu lugar “natural” ou de uma palavra substituta, uma parônima qualquer. Ficamos como cegos numa casa que é e não é a nossa, tateando cada coisa para tentar, por via das sensações, ter acesso ao sentido. Novamente: este é o princípio sinestésico, fundador da poesia de Carla em A Menstruação de VHM. Porque se sabe, desde o início, que não há nada natural nem de sobrenatural na linguagem, apenas naturalizações e furos: movemo-nos na ficção dos corpos.

Além dessa camada intralinguística ou sublingual, ao pesquisar na internet (olha o Google de novo) ficamos sabendo que este primeiro poema explora e desdobra as discussões em torno da vênus excêntrica, a pequena e obesa Vênus de Willendorf: uma estátua esculpida entre 28.000 e 25.000 anos antes de Cristo, sobre a qual muito pouco se sabe: “seria um amuleto?”, “representava a fertilidade?”, “era enfiada na vagina?”. Depreende-se que nem sobre a deusa (aqui uma figura totalmente fora do padrão clássico) nem sobre as “vênus ordinárias” podemos conhecer muitas coisas ao certo, exceto o fato de que elas jamais deixaram de ser usadas: “hojendia os especialistas usam / a vênus de willendorf / em suas especialidades / (…)”.

Daí a impressão de que os poemas são “meio loucos”. Daí eu não ter “entendido” ao ler o livro depois de um banho de cachoeira com as minhas sobrinhas. Um amigo poeta chegou a me dizer que só entendia “os poemas da Diacov” depois de fumar maconha. Outro dia nos encontramos novamente, este amigo e eu. Propus a ele uma solução mais careta, porém não menos divertida: ao invés de fumar (ou ao invés de apenas fumar), enfrentar pelo menos três vezes cada poema. De preferência coletivamente. Porque poemas escritos em solidão não cobram, necessariamente, uma leitura solitária. Assim como poemas narcotizantes não pedem, necessariamente, um complemento material. De qualquer modo, ficam aqui pelo menos duas dicas de leitura.

Outro aspecto que merece menção é o fato de que a poeta está, desde o início, em diálogo com o escritor português Valter Hugo Mãe. Não apenas um homem, mas um homem que trouxe ao próprio nome o nome Mãe. Útero é uma palavra que nos acompanha aqui. Este é o nome de um dos livros dele, também. E foi Mãe, famoso por seus Romances, quem propôs à Carla escrever este poemário – A menstruação…, em contato ou não com os seus próprios livros. O contato acontece, em maior ou menor profundidade a cada página, colocando-nos diante de outro rasgo, mais uma desd(obra). Se pensarmos no poema de abertura sobre a estátua da Vênus de Willendorf, e que ela pode estar começando ali uma conversa com a e o Mãe, percebemos o tamanho do abismo. Mise em abyme. Isso é força. Uma força de formiga que se comunica pelo cheiro, guiando-se por trilhas de feromônio:

(…)
ELA CARREGA ATÉ CEM VEZES SEU PESO
NÃO SEGUE LINHAS RETAS
ANDA AOS BANDOS TROPEÇA
SE ALGUÉM OU ALGO ATRAVESSAR SEU CAMINHO
ELA SE PERDE DO CHEIRO DAS OUTRAS FORMAS
                                                                                   FORMIGAS
SE PERDE DA PRÓPRIA FORMAÇÃO
(…)

Some-se a todos os desafios para entrar no livro (um pouco cegos, um pouco com uma formiga) o fato de que ao lado dos poemas encontramos pinturas mais ou menos figurativas, feitas com o sangue das paredes internas do útero da poeta. Pode-se e deve-se continuar batendo na tecla dos tabus que persistem ainda hoje, no discurso marqueteiro e bizarro da indústria de absorventes, que vende uma falaciosa sujidade do sangue menstrual, na quase sempre deturpada visão do contingente masculino sobre o tema (onde inevitavelmente me incluo), na catarse dos traumas pessoais (episódios de vazamentos em público), tudo isso que de algum modo vem no livro, direta ou indiretamente.

Mas eu gostaria de insistir, sem atenuar a urgência das pautas, no quanto o signo do sangue, seja por via das “aquarelas” ou dos versos vermelhos deste livro, devém aqui como estratégia de abertura. Abertura dos significados aos quais gostaríamos de nos agarrar, mas que acabam cedendo, vazam, como se os próprios poemas fossem uma espécie de resíduo fecundante porém não fecundado de um óvulo, como se as palavras fossem de algum modo tão inúteis (frente a uma visão de “vida útil” e organizada: um “ciclo reprodutivo”) e sobrassem, sanguinolentos, apenas alguns versos torcidos entre discretos coágulos – este vermelho que lava, que leva consigo uma certa ideia de humanidade, este sangue – não o sangue do meu sangue – mas este, o filho possível:

um
filho mergulha salta
ao brilho à fundição das dimensões
um filho flutua
um ovo vingado a mil segredos
um filho entoa o nome de um pai de um deus
liquidifica no caldo filho a família mãe todos os fios
um filho existe desde quando
um filho de sangue dizem de sangue
sangue do meu sangue
não
um filho mergulha salta
flutua antes da palavra gole
antes da criação
um filho insiste
é o filho que vem ao ventre anunciar
é o filho que vem ao peito bater
é dia de festa é dia de chuva é dia de lua é dia de cão
ao filho que não vingou cabe a
estrutura da conjectura a estrutura à ideia glandular
outro filho uma vez mais essa sopa
a frágil trama de gelo sobre a figueira na folha
o filho que sim o filho que chega
perdido entre os próprios pés
cá já estava mergulhando flutuante
o filho que estende a mãozinha ao sol
o sol que cobre o filho antes da folha antes
do gelo antes da casca
um filho de sangue dito
sangue do meu sangue
esse não

meu filho me agasalha me beija as xícaras
meu filho me guarda o hálito e o hálito meu
filho me olha absorto
meu filho meu
hálito um novelo da lã primeira

que todo filho é seiva que todo dia é de chuva
que todo o sangue é motivo que cada motivo
é terra é verbo é estalo é aparição

Niterói, Julho de 2018.

[1] Agradeço aqui nominalmente à Julia Ramôa, Julia Medina, Vivian Almeida, Larissa Vaz, Cristina Viana, Ceci Penido, Gabi Gabiroba e Maria Carol. Também ao Rafael Zacca e ao Heyk Pimenta, por todas as conversas.

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6 poemas de Roberto Bolaño, por Cide Piquet e Camila de Moura

Este é o nosso terceiro post voltado para a poesia de Roberto Bolaño, se quiser saber mais, olhe aqui.

Os poemas “Os cachorros românticos”, “Autorretrato aos vinte anos”, “Ressurreição”, “Sujo, malvestido” e “Godzilla no México” são de Los perros románticos (1993); “Os homens duros não dançam” é de La universidad desconocida (2007). As traduções são de Cide Piquet, com colaboração de Camila de Moura.

guilherme gontijo flores

* * *

OS CACHORROS ROMÂNTICOS

Naquele tempo eu tinha vinte anos
e estava louco.
Tinha perdido um país
mas tinha ganhado um sonho.
E se eu tinha esse sonho
o resto não importava.
Nem trabalhar nem rezar
nem estudar de madrugada
com os cachorros românticos.
E o sonho vivia no vazio do meu espírito.
Uma casa de madeira,
em penumbras,
num dos pulmões do trópico.
E às vezes eu me revirava dentro de mim
e visitava o sonho: estátua eternizada
em pensamentos líquidos,
um verme branco se retorcendo
no amor.
Um amor desbocado.
Um sonho dentro de outro sonho.
E o pesadelo me dizia: crescerás.
Deixarás para trás as imagens da dor e do labirinto
e esquecerás.
Mas naquele tempo crescer teria sido um crime.
Estou aqui, eu disse, com os cachorros românticos
e aqui vou ficar.

LOS PERROS ROMÁNTICOS

En aquel tiempo yo tenía veinte años
y estaba loco.
Había perdido un país
pero había ganado un sueño.
Y si tenía ese sueño
lo demás no importaba.
Ni trabajar ni rezar
ni estudiar en la madrugada
junto a los perros románticos.
Y el sueño vivía en el vacío de mi espíritu.
Una habitación de madera,
en penumbras,
en uno de los pulmones del trópico.
Y a veces me volvía dentro de mí
y visitaba el sueño: estatua eternizada
en pensamientos líquidos,
un gusano blanco retorciéndose
en el amor.
Un amor desbocado.
Un sueño dentro de otro sueño.
Y la pesadilla me decía: crecerás.
Dejarás atrás las imágenes del dolor y del laberinto
y olvidarás.
Pero en aquel tiempo crecer hubiera sido un crimen.
Estoy aquí, dije, con los perros románticos
y aquí me voy a quedar.

§

AUTORRETRATO AOS VINTE ANOS

Me deixei levar, me lancei e nunca soube
até onde teria podido chegar. Ia cheio de medo,
com o estômago fraco e um zumbido na cabeça:
acho que era o ar frio dos mortos.
Não sei. Me deixei levar, pensei que era uma pena
acabar tão rápido, mas por outro lado
escutei aquele chamado misterioso e convincente.
Ou você escuta ou não escuta, e eu escutei
e quase comecei a chorar: um som terrível,
nascido no ar e no mar.
Um escudo e uma espada. Então,
apesar do medo, me deixei levar, encostei o meu rosto
no rosto da morte.
E foi impossível fechar os olhos e não ver
aquele espetáculo estranho, lento e estranho,
ainda que embutido numa realidade velocíssima:
milhares de rapazes como eu, imberbes
ou barbudos, mas todos latino-americanos,
de rostos colados com a morte.

AUTORRETRATO A LOS VEINTE AÑOS

Me dejé ir, lo tomé en marcha y no supe nunca
hacia dónde huibera podido llevarme. Iba lleno de miedo,
se me aflojó el estómago y me zumbaba la cabeza:
yo creo que era el aire frío de los muertos.
No sé. Me deje ir, pensé que era una pena
acabar tan pronto, pero por otra parte
escuché aquella llamada misteriosa y convincente.
O la escuchas o no la escuchas, y yo la escuché
y casi me eché a llorar: un sonido terrible,
nacido en el aire y en el mar.
Un escudo y una espada. Entonces
pese al miedo, me dejé ir, puse mi mejilla
junto a la mejilla de la muerte.
Y me fue imposible cerrar los ojos y no ver
aquel espectáculo extraño, lento y extraño,
aunque empotrado en una realidad velocísima:
miles de muchachos como yo, lampiños
o barbudos, pero latinoamericanos todos,
juntando sus mejillas con la muerte.

§

RESSURREIÇÃO

A poesia entra no sonho
como um mergulhador em um lago.
A poesia, mais valente que qualquer um
entra e cai
como chumbo
num lago infinito como o Lago Ness
ou turvo e infausto como o lago Balatón.
Contemplai-a desde o fundo:
um mergulhador
inocente
envolto nas plumas
da vontade.
A poesia entra no sonho
como um mergulhador morto
no olho de Deus.

RESURRECCIÓN

La poesía entra en el sueño
como un buzo en un lago.
La poesía, más valiente que nadie,
entra y cae
a plomo
en un lago infinito como Loch Ness
o turbio e infausto como el lago Balatón.
Contempladla desde el fondo:
un buzo
inocente
envuelto en las plumas
de la voluntad.
La poesía entra en el sueño
como un buzo muerto
en el ojo de Dios.

§

SUJO, MALVESTIDO

No caminho dos cães minha alma encontrou
meu coração. Destroçado, mas vivo,
sujo, malvestido e cheio de amor.
No caminho dos cães, lá onde ninguém quer ir.
Um caminho que só percorrem os poetas
quando não lhes resta nada a fazer.
Mas eu ainda tinha tantas coisas por fazer!
E no entanto ali estava: me fazendo matar
pelas formigas vermelhas e também
pelas formigas negras, percorrendo as aldeias
vazias: o espanto que se elevava
até tocar as estrelas.
Um chileno educado no México pode suportar tudo,
pensava, mas não era verdade.
Às noites meu coração chorava. O rio do ser, diziam
uns lábios febris que logo descobri eram os meus,
o rio do ser, o rio do ser, o êxtase
que se curva na ribeira dessas aldeias abandonadas.
Sumulistas e teólogos, adivinhos
e assaltantes de estrada emergiram
como realidades aquáticas no meio de uma realidade
metálica.
Só a febre e a poesia provocam visões.
Só o amor e a memória.
Não estes caminhos nem estas planuras.
Não estes labirintos.
Até que por fim minha alma encontrou meu coração.
Estava doente, sim, mas estava vivo.

SUCIO, MAL VESTIDO

En el camino de los perros mi alma encontró
a mi corazón. Destrozado, pero vivo,
sucio, mal vestido y lleno de amor.
En el camino de los perros, allí donde no quiere ir nadie.
Un camino que sólo recorren los poetas
cuando ya no les queda nada por hacer.
¡Pero yo tenía tantas cosas que hacer todavía!
Y sin embargo allí estaba: haciéndome matar
por las hormigas rojas y también
por las hormigas negras, recorriendo las aldeas
vacías: el espanto que se elevaba
hasta tocar las estrellas.
Un chileno educado en México lo puede soportar todo,
pensaba, pero no era verdad.
Por las noches mi corazón lloraba. El río del ser, decían
unos labios afiebrados que luego descubrí eran los míos,
el río del ser, el río del ser, el éxtasis
que se pliega en la ribera de estas aldeas abandonadas.
Sumulistas y teólogos, adivinadores
y salteadores de caminos emergieron
como realidades acuáticas en medio de una realidad metálica.
Sólo la fiebre y la poesía provocan visiones.
Sólo el amor y la memoria.
No estos caminos ni estas llanuras.
No estos laberintos.
Hasta que por fin mi alma encontró a mi corazón.
Estaba enfermo, es cierto, pero estaba vivo.

§

GODZILLA NO MÉXICO

Considere isto, meu filho: as bombas caíam
sobre a cidade do México
mas ninguém se dava conta.
O ar carregou o veneno através
das ruas e das janelas abertas.
Você estava acabando de comer e via na tv
os desenhos animados.
Eu lia no quarto ao lado
quando soube que íamos morrer.
Apesar da tontura e da náusea me arrastei
até a sala e te encontrei no chão.
Nos abraçamos. Você perguntou o que estava acontecendo
e eu não disse que estávamos no programa da morte
mas sim que íamos começar uma viagem,
mais uma, juntos, e que não tivesse medo.
Ao ir embora, a morte nem sequer
fechou nossos olhos.
O que somos?, você me perguntou uma semana ou um ano depois,
formigas, abelhas, cifras equivocadas
na grande sopa apodrecida do acaso?
Somos seres humanos, meu filho, quase pássaros,
heróis públicos e secretos.

GODZILLA EN MÉXICO

Atiende esto, hijo mío: las bombas caían
sobre la ciudad de México
pero nadie se daba cuenta.
El aire llevó el veneno a través
de las calles y las ventanas abiertas.
Tú acababas de comer y veías en la tele
los dibujos animados.
Yo leía en la habitación de al lado
cuando supe que íbamos a morir.
Pese al mareo y las náuseas me arrastré
hasta el comedor y te encontré en el suelo.
Nos abrazamos. Me preguntaste qué pasaba
y yo no dije que estábamos en el programa de la muerte
sino que íbamos a iniciar un viaje,
uno más, juntos, y que no tuvieras miedo.
Al marcharse, la muerte ni siquiera
nos cerró los ojos.
¿Qué somos?, me preguntaste una semana o un año después,
¿hormigas, abejas, cifras equivocadas
en la gran sopa podrida del azar?
Somos seres humanos, hijo mío, casi pájaros,
héroes públicos y secretos.

§

OS HOMENS DUROS NÃO DANÇAM
Uma estrutura de sombras no continente americano
Dirigida por Norman Mailer

Os homens duros não dançam
Os homens duros chegam a povoados distantes em horas escuras
Os homens duros não têm dinheiro, gastam mal o dinheiro, buscam um pouco de dinheiro em quartos pequenos e úmidos
Os homens duros não usam pijama
Os homens duros têm paus grandes e duros que o tempo vai consumindo e amolecendo
Os homens duros seguram seus paus com uma mão e mijam vastamente sobre escarpas e desertos
Os homens duros viajam em trens de carga pelos grandes espaços da América do Norte
Pelos grandes espaços dos filmes série B
Filmes violentos onde o prefeito é infame e o xerife um filho da puta e as coisas vão de mal a pior
Até que aparece o homem duro atirando a torto e a direito
Peitos arrebentados por balas de grosso calibre se projetam
Em nossa direção
Como hóstias de redenção definitiva
Os homens duros fazem amor com camareiras
Em quartos femininos pobremente decorados
E vão embora antes que amanheça
Os homens duros viajam em transportes miseráveis pelos grandes espaços da América Latina
Os homens duros compartilham a paisagem da viagem e a melancolia da viagem com porcos e galinhas
Para trás ficam bosques, prados, montanhas com dentes de tubarão, rios sem nome, esforços vãos
Os homens duros recolhem as migalhas da memória sem uma queixa
Nós comemos, dizem, fodemos, nos drogamos, conversamos até o sol nascer com amigos de verdade
O que mais podemos pedir?
Os homens duros deixam seus filhos espalhados pelos grandes espaços da América do Norte e da América Latina
Antes de enfrentarem a morte
Antes de receberem com o rosto esvaziado de esperanças a visita da Magrela, da Caveira
Antes de receberem com o rosto enrugado pela indiferença a visita da Madrinha, da Soberana
Da Indesejada, da Peluda, da Mais Feia do Baile
Da Mais Feia e Mais Famosa do Baile

LOS HOMBRES DUROS NO BAILAN
Una estructura de sombras en el continente americano.
Dirigida por Norman Mailer

Los hombres duros no bailan
Los hombres duros llegan a pueblos limítrofes en horas oscuras
Los hombres duros no tienen dinero, malgastan el dinero, buscan un poco de dinero en habitaciones minúsculas y húmedas
Los hombres duros no usan pijama
Los hombres duros tienen vergas grandes y duras que el tiempo va cuarteando y emblandeciendo
Los hombres duros cogen sus vergas con una mano y mean largamente sobre acantilados y desiertos
Los hombres duros viajan en trenes de carga por los grandes espacios de Norteamérica
Los grandes espacios de las películas de serie B
Películas violentas en donde el alcalde es infame y el sheriff es un hijo de puta y las cosas van de mal en peor
Hasta que aparece el hombre duro disparando a diestra y siniestra
Pechos reventados por balas de grueso calibre se proyectan
Hacia nosotros
Como hostias de redención definitiva
Los hombres duros hacen el amor con camareras
En habitaciones femeninas pobremente decoradas
Y se marchan antes de que amanezca
Los hombres duros viajan en transportes miserables por los grandes espacios de Latinoamérica
Los hombres duros comparten el paisaje del viaje y la melancolía del viaje con cerdos y gallinas
Atrás quedan bosques, llanuras, montañas como dientes de tiburón, ríos sin nombre, esfuerzos vanos
Los hombres duros recogen las migajas de la memoria sin una queja
Hemos comido, dicen, hemos culeado, nos hemos drogado, hemos conversado hasta el amanecer con amigos de verdad
¿Qué más podemos pedir?
Los hombres duros dejan a sus hijos desperdigados por los grandes espacios de Norteamérica y Latinoamérica
Antes de enfrentarse con la muerte
Antes de recibir con el rostro vaciado de esperanzas la visita de la Flaca, de la Calaca
Antes de recibir con el rostro arrugado por la indiferencia la visita de la Madrina, de la Soberana
De la Pingüina, de la Peluda, de la Más Fea del Baile
De la Más Fea y la Más Señalada del Baile

 

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poesia, tradução

Paul Van Ostaijen, por Gustavo Racy

Paul Van Ostaijen (22 de fevereiro de 1896, Antuérpia — 18 de março de 1928, Miavoye Anthée), foi um dos mais significativos representantes do modernismo flamengo. Tendo exercido diferentes funções em sua cidade natal, um exílio em Berlim após a Primeira Guerra, causado por seu ativismo flamengo, o levou a desenvolver aquilo que ele chamou de expressionismo “orgânico” ou “clássico”. Sua tipografia rítmica, repleta de absurdo, humor e niilismo talvez se faça presente de modo mais marcante em Bezette Stad (Cidade Sitiada), de 1921, em que o autor aborda a vida em sua cidade natal sob ocupação alemã. Um poeta ativo, Van Ostaijen foi amigo de muitos escritores e artistas de sua geração. Entretanto, morreu isolado, em 1928, vítima de tuberculose, nas Ardenas da Valônia, e teve seus últimos poemas publicados postumamente.

Gustavo Racy (1988—), nascido e criado em São Paulo, é antropólogo e filósofo de formação. Atualmente vive na Antuérpia, onde trabalha como pesquisador doutorando no Grupo de Pesquisa em Cultura Visual e Digital (ViDi), da Universidade da Antuérpia. Publicou alguns poemas esparsos em coletâneas e trabalha, atualmente, num ciclo de poemas sobre a cidade flamenga.

* * *

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poesia

Patricia Lavelle

Patrícia Lavelle nasceu no Rio de Janeiro, é professora do Departamento de Letras da PUC-Rio, associada ao Programa de Pós-graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade. Doutora em filosofia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris, onde morou entre 1999 e 2014, tem livros de ensaios publicados na França e no Brasil, suas pesquisas problematizam as relações entre criação literária e reflexão filosófica. Como poeta, publicou Migalhas metacríticas (7Letras, coleção megamíni, 2017) e Bye bye Babel (7Letras, 2018)

Bye bye Babel obteve a primeira menção honrosa do Prêmio Cidade de Belo Horizonte, edição de 2016.

* * *

Eco
(a Paulo Henriques Britto)

Nem sempre corresponde. “Responde onde?”
Pondera, repetindo. “Repetindo?”
Responde, repetindo lindo lindo
o eco à minha última palavra.

A lavra de ouro, essa palavra em larva…
“A lavra em larva?” Metáfora parva.
Imagem sonora em caricatura?
Cacofonia numa bela figura?

Figura bela “belabel a bel”
em eco invertida: abel, babel.
Vertida essa vertigem em espelho

partido de Narciso… “Ciso, siso?”
E nisso ironizo… é, ironizo.
Quem é que sonha em prosa? Eco trova.

 

§

O Tradutor

O corpo contorce
um gesto sem
som
esboça ritmos
em movimento arrítmico
dos lábios.

Entre duas tramas
(fonemas
palavras
sintagmas
sintaxes
sentidos
entre parêntesis)

um hiato:
cesura a-semântica
intervalo

e salto

§

Traduzida
(a partir de um poema de Ricardo Domeneck)

A língua do tradutor invade a minha boca
e lúbrica aliso a plástica muscular
de suas vogais macias
e essa reta ligeiramente ascendente
de cada frase sua
penetra
o elástico rítmico das minhas sílabas
em duplo silêncio
gozo
o eco nessa outra voz
langueur monotone
dentro.

§

Diálogo

Senti teu olhar endurecer
entre as minhas
palavras:
intumescência imediata
naquela fenda
obscura
entre o corpo e o discurso.

§

O corpo e a voz

Na sucessão de gestos matinais
uma involuntária contração
no músculo do braço
esquerdo

distrai minha atenção

Entre o corpo que ele é
e o corpo que ele tem,
um vai-e-vem
move membros e coisas

Tensão que se traduz
no timbre grave da voz

Entre a palavra que ele é
e as línguas que ele fala
uma só voz
vem e vai.

§

Metáfora

Suspenso o significado
a palavra espera
aberta
numa frase estranha,
brecha de onde o sentido
se projeta.

No abismo da imagem
o verbo é vertigem.

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poesia, tradução

Mascha Kaléko, por Valeska Brinkmann

Mascha Kaléko (1907 – 1975) nasceu em Chrzanów no império Austro-Húngaro, hoje Polônia. Filha de judeus, ainda criança mudou-se com os pais para Alemanha, fugindo dos Pogrons, depois em 1933 emigrou para Nova York com o marido. no final dos anos 20 em Berlim, fez parte da Neue Sachlichkeit (Nova Objetividade), movimento vanguardista de artistas e escritores como Erich Kästner, Joachim Ringelnatz , Bertold Brecht e Kurt Tucholsky. Seus poemas falam do exílio, do dia-a-dia e do amor na cidade grande em tom melancólico e irônico, muitos foram musicados para os cabarés, na voz de cantoras como Claire Waldoff e Hanne Wieder. Sobre seu livro Das lyrische Stenogrammheft, 1933, o filósofo Martin Heideger lhe disse: “Seu caderno estenográfico mostra que você sabe tudo a que aos mortais é dado saber“ .

Os poemas abaixo foram tirados dos livros póstumos In meinen Träumen läutet es Sturm, dtv, 1977 e Sei klug und halte dich an Wunder, dtv 2013.

Valeska Brinkmann estudou Radio e TV na FAAP em São Paulo. Trabalha na emissora de Radio e TV pública de Berlin, onde vive há 14 anos.Escreve contos e histórias para crianças. Tem textos publicados em sites literários na Alemanha e no Brasil (Stadtsprache Magazin, Literaturabr). Publicou em 2016 Pedrina – A perua que queria ser Pavão – Die Pute die ein Pfaul sein wollte, pela editora Bübül Verlag Berlin.

* * *

Rezept

Jage die Ängste fort
Und die Angst vor den Ängsten.
Für die paar Jahre
Wird wohl alles noch reichen.
Das Brot im Kasten
Und der Anzug im Schrank.

Sage nicht mein.
Es ist dir alles geliehen.
Lebe auf Zeit und sieh,
Wie wenig du brauchst.
Richte dich ein.
Und halte den Koffer bereit.

Es ist wahr, was sie sagen:
Was kommen muß, kommt.
Geh dem Leid nicht entgegen.
Und ist es da,
Sieh ihm still ins Gesicht.
Es ist vergänglich wie Glück.

Erwarte nichts.
Und hüte besorgt dein Geheimnis.
Auch der Bruder verrät,
Geht es um dich oder ihn.
Den eignen Schatten nimm
Zum Weggefährten.

Feg deine Stube wohl.
Und tausche den Gruß mit dem Nachbarn.
Flicke heiter den Zaun
Und auch die Glocke am Tor.
Die Wunde in dir halte wach
Unter dem Dach im Einstweilen.

Zerreiß deine Pläne. Sei klug
Und halte dich an Wunder.
Sie sind lang schon verzeichnet
Im grossen Plan.
Jage die Ängste fort
Und die Angst vor den Ängsten.

Receita

Expulsa os medos
E o medo dos medos
Para os poucos anos
Há de ser o suficiente.
O pão no cesto
E o terno no armário.

Não diga meu.
Tudo te é emprestado.
Vive o momento e vê,
Quão pouco precisas.
Instala-te.
E deixa a mala preparada.

É verdade o que falam:
O que é pra vir, vem.
Não te oponhas ao sofrimento
Se ele está lá,
Encara-o em silêncio.
Ele é efemero tal qual a felicidade.

Não esperes nada.
E protege bem teu segredo.
Também o irmão trai,
Trata-se de ti ou dele.
Toma tua própria sombra
Como tua companheira.

Varre bem tua sala.
E saúda teus vizinhos.
Ajeita tua cerca
E tambem o sino no portão.
A ferida em ti está desperta
Debaixo do telhado, por enquanto.

Rasga teus planos. Sê astuto
E te agarra nas maravilhas
Elas ja foram há tempos lançadas
No grande plano.
Expulsa os medos
E o medo dos medos.

§

Die frühen Jahre

Ausgesetzt
In einer Barke von Nacht
Trieb ich
Und trieb an ein Ufer.
An Wolken lehnte ich gegen den Regen.
An Sandhügel gegen den wütenden Wind.
Auf nichts war Verlaß.
Nur auf Wunder.
Ich aß die grünenden Früchte der Sehnsucht,
Trank von dem Wasser das dürsten macht..
Ein Fremdling, stumm vor unerschlossenen Zonen
Fror ich mich durch die finsteren Jahre.
Zur Heimat erkor ich mir die Liebe.

Os primeiros anos

Abandonada
Num barco da noite
Boiei
E cheguei até a margem.
Nas nuvens desviei contra a chuva.
Em bancos de areia contra o vento bravio.
Nada era de se confiar.
Só em milagres.
Comi dos frutos verdes do anseio,
Bebi da água que deixa sedento.
Uma estranha, muda na frente de zonas desconhecidas
Gelei mediante os anos sinistros.
Para meu país escolhi o amor.

§

Was man so braucht…

Man braucht nur eine Insel
allein im weiten Meer.
Man braucht nur einen Menschen,
den aber braucht man sehr.

De que se precisa mesmo…

Precisa-se só de uma ilha
sozinha, ao longe no mar.
Precisa-se só de uma pessoa
mas aí, muito se vai precisar.

§

Feinde

Die Feinde, sagst du,
geben dir
auf Erden keine Ruh.
Du hast nur einen
wahren Feind,
min Bruder
das bist du!

Inimigos

Os inimigos, dizes tu
não te dão
Na terra sossego algum
Tens somente um
verdadeiro inimigo,
meu irmão
este és tu!

§

Inventar

1
Haus ohne Dach
Kind ohne Bett
Tisch ohne Brot
Stern ohne Licht.
2
Fluß ohne Steg
Berg ohne Seil
Fuß ohne Schuh
Flucht ohne Ziel.
3
Dach ohne Haus
Stadt ohne Freund
Mund ohne Wort
Wald ohne Duft.
4
Brot ohne Tisch
Bett ohne Kind
Wort ohne Mund
Ziel ohne Flucht.

Inventário

1
Casa sem telhado
criança sem cama
Mesa sem pão
Estrela sem luz.

2
Rio sem cais
Montanha sem corda
Pé sem sapato
Fuga sem destino.

3
Telhado sem casa
Cidade sem amigo
Boca sem palavra
Floresta sem aroma.

4
Pão sem mesa
Cama sem criança
Palavra sem boca
Destino sem fuga.

§

Irgendwer

Einer ist da, der mich denkt.
Der mich atmet. Der mich lenkt.
Der mich schafft und meine Welt.
Der mich trägt und der mich hält.
Wer ist dieser Irgendwer?
Ist er ich? und bin ich Er?

Um certo alguém

Tem alguém aqui, que pensa em mim.
Que me respira. Que me guia.
Que cria a mim e meu mundo.
Que me carrega e me sustenta.
Quem é este certo alguém?
É ele eu? E sou eu ele?

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Ana Paula Simonaci (1990—)

Ana Paula Simonaci nasceu em 1990. É curadora, pesquisadora e poeta. Formada como bibliotecária, é mestre e doutoranda em Memória Social pelo PPGMS – UNIRIO. Como coordenadora de literatura e biblioteca do SESC-Rio, é curadora de projetos culturais, como festivais, mostras, exposições literárias, seminários, entre outros.
* * *
todos os dias os pássaros. todos os dias voam.

da janela vejo os que voam em bando. planando.

os que voam sozinhos batem suas asas muito mais vezes.
da alvorada ao crepúsculo.

onde os pássaros pousam é onde eu queria estar.

para o rio del prata eles voam e se misturam com o cinza do rio azul.

[quando fui para o uruguai, deixei seu nome em todas as ruas. pouco a pouco me desfiz
das suas letras. está tudo lá. nada mais em mim.]

……………..só entende de jornadas quem acredita.
……………tudo ia mudar, tudo. tudo vai mudar.

em colônia, as ruínas e o mar.

……..os que voam sozinhos batem suas asas muito mais vezes.

todas as cidades desabam, a grama cresce por sobre as
pedras, os pássaros se alimentam de passado e depois voam
em direção a outros passados.

eu encontrei você e todo o seu passado.
você encontrou em mim ruínas e mar.

na cafeteria da livraria pedi uma xícara de prata. vi nela meu rosto e pelo vidro das janelas
vi os pássaros e os seus peixes no fundo do rio.

tudo ia mudar, tudo. os bandos em revoada. os peixes no cardume.

e os que voam, nadam, e andam sozinhos
em busca de liberdade.

§

a cobra come o próprio rabo

mergulhar dentro de si. ali estava de novo a imagem que vi em transe: um templo,
quartzos verdes, a gota de orvalho.

foi nesse dia que entendi que a busca era no labirinto dentro de mim mesma.

o avesso da vida seria virar-me de dentro pra fora?

e eu achava que todos os caminhos levavam aos outros.

o caminho em direção a si mesmo, uma tentativa, rastro, sopro que leva ao outro em si.

o telefone toca. minha mãe me diz que fez uma bolsa de crochê. achou um nó no meio da tecelagem. desfez toda a bolsa. desfez o nó. refez todo o caminho.

§

precisamos ir à índia caçar os tigres azuis.

[a distância e o tempo são uma coisa só]

eu andei três desertos até ver um oasis. eu andei três casas no xadrez. eu perdi minha rainha para um cavalo feroz que veio de dentro do mar. o bispo se ergueu para ouvir as orações que eu fazia quando menina dentro da igreja onde morei nos dias da minha puberdade. o tabuleiro não é apenas um quadrado, ali existe uma montanha. todas as casas da cidade com seus bispos, reis, rainhas e torres um dia caem no chão. minha casa de infância foi demolida. a casa dentro da igreja. isso foi quando comecei a buscar os tigres azuis. chorei quando demoliram deus. me deu esperança e me deu loucura. temi ao olhar diante da cara desse tigre que não é azul, pois está por todos os lados. e não são poucos os relatos selvagens. busquei os tigres azuis. andei quarenta quilômetros até o rio, em nome do amor. e me ergui com asas para caçar a paz, mas a porra da paz não habita no meu coração feroz. são poucos os relatos sobre liberdade. os tigres azuis estão extintos.

mas alguns caçadores ainda os vêem, mesmo que em sonho.

mel e perdição.

§

todo dia me sinto um pouco menos eu mesma.

as horas deveriam ser curadoras, mas são grandes assassinas.
cada minuto mata o minuto anterior.
a pressa, a ansiedade de viver, de acertar os erros do passado,
já não tenho mais.
a necessidade de ser outra que não eu,
já não tenho mais.

a arte de perder não é nenhum mistério, sabemos.

a grande lição da vida se desfaz no desenrolar do tempo.
não há o que aprender, pois a vida não é um aprendizado.
a vida é latente. a vida é um coração vivo que bate para circular
todos os sangues.

………..eu sou o meu reinado. coroada por mim mesma,
………..decreto todos os dias
………..o fim de quem eu fui.

o que tanto há para se fazer nesse mundo?

eu busco nas palavras um caminho, como um lasco de sobrevivência,
como uma lamparina para saber onde pôr os pés no mundo.

o mistério de perder não é algum senão tudo o que parece ser.

hoje montei um quebra-cabeça e sobrou uma peça. dei a ela meu nome.

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