poesia

Matheus Peleteiro (1995—)

Matheus Peleteiro (Salvador, 1995) é escritor, jurista e tradutor, publicou em 2015 o seu primeiro romance, Mundo Cão, pela editora Novo Século. Após, lançou a novela intitulada Notas de um Megalomaníaco Minimalista (editora Giostri, 2016); o livro de poemas Tudo Que Arde Em Minha Garganta Sem Voz (editora Penalux, 2016); o livro de contos Pro Inferno com Isso (Edição do Autor, 2017) e a distopia satírica O Ditador Honesto (Edição do Autor, 2018). Além disso, em 2018, assinou, ao lado do tradutor Edivaldo Ferreira, a tradução do livro A Alma Dança em Seu Berço (editora Penalux). Em, 2019 publica a coletânea poética, intitulada Nossos Corações Brincam de Telefone sem Fio.

* * *

BREVE E INFINITO

uma pintura recusada
dando origem ao primeiro nazista;
o medo de perder uma guerra
desenvolvendo a bomba atômica;
Henry Ford criando os primeiros robôs em 1914;
um massacre a mulheres e crianças eternizando Picasso;
uma mulher grávida sendo entregue para a morte
por um presidente que teme a derrota;
uma criança lendo um livro didático e perguntando
[“por que a história é tão injusta?”;
e você,
construindo um castelo de areia
na beira do mar
como se grãos fossem pedras,
se sentindo a rainha do próprio nariz e das marés
sabendo que basta uma simples onda
para que um império inteiro se
converta em ruínas,
mesmo assim,
a contemplar
o seu reinado
breve e infinito.

NOSSOS CORAÇÕES BRINCAM DE TELEFONE SEM FIO

a gente briga por atenção e outras coisas tolas,
explano paranoias que não consigo mais suportar,
você se irrita e se cala
e eu sempre fico sem saber o que fazer
para te roubar um sorriso novo.

a cada lágrima que cai de seus olhos
– quase compondo um oceano –
uma correnteza dentro de mim
me mostra que
quando um de nós chora
nossos corações voltam à infância
e brincam
de telefone sem fio.

um homem apaixonado está sempre condenado à culpa
e eu te amo tanto que,
em cada lugar que passo,
deixo postais com fotos suas
e pedidos de desculpas
mesmo quando tenho razão.
torcendo para que, ao final,
tudo acabe com a sua cara de índia mordendo meus lábios
e nós dois rindo da inocência da Maglore
quando cantou que todos os amores são iguais.

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poesia, tradução

“O Palácio”, de Kaveh Akbar, por Layla Oliveira

Os poemas de Kaveh Akbar foram publicados em jornais como The New Yorker, Poetry, Paris Review, Best American Poetry, The New York Times, e muitos outros. Ele é o autor de duas coletâneas completas: Pilgrim Bell (Graywolf, 2021) and Calling a Wolf a Wolf (Alice James, 2017). Ganhador do Prêmio Levis Reading, múltiplos prêmios Pushcart, e Ruth Lilly and Dorothy Sargent Rosenberg Poetry Fellowship, Kaveh é o editor-fundador do Divedapper, site de entrevistas com as maiores vozes da poesia contemporânea. Nascido no Teerã, Iran, leciona na Universidade de Purdue e nos programas de baixa residência do MFA no Randolph College e Warren Wilson. O site dele é http://kavehakbar.com/#/.

Layla Gabriel de Oliveira é poeta, atriz e estudante de Letras na Universidade Federal do Paraná. Está atualmente traduzindo o livro inédito do poeta Kaveh Akbar, Pilgrim Bell, para publicação simultânea nas duas línguas. Concluiu o seu primeiro projeto de pesquisa na Iniciação Científica, sobre tradução e recepção de teatro grego, na área de clássicas.

original: https://www.newyorker.com/magazine/poems/kaveh-akbar-the-palace

* * *

O Palácio

É difícil lembrar com quem estou falando
e o porquê. O palácio queima, o palácio
é fogo
e meu trono é cômodo e
quadrado.

Lembra: o velho rei convidou seus súditos para casa
para se deliciarem com estoques de tortas de maçã e cordeiro doce.
[Para se deliciarem com cordeiro doce de estórias. Ele acreditou

que eles o amavam, que a sua bondade
tinha feito ele merecer a bondade deles.

A bondade deles o arrastou para a rua
e despedaçou

seus braços, arrancou
a sua bondade, arrancou os seus dedos
feito penas.

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Não há bons reis.
Só há belos palácios.

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Quem aqui poderia alegar ser meramente culpado?
Os meros.

Minha vida
ficando monstruosa
com facilidade.

Para ser um Americano meu pai deixou seus irmãos
pensando
que nunca os veria de novo. Meu pai
queria ser o Mick Jagger. Meu pai
virou fantasma,
acabou trabalhando em granjas por trinta anos, certa vez
[um sono
um sofá
ele cospe uma pena.

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América poderia ser uma metáfora, mas não é.
Dormindo no sofá, ele cuspiu uma pena branca de pato.

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Não há portas na América.
Só buracos king-size.

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Ser um Americano é ser um especialista
em oportunidade.

Oportunidade custa.

Cada laranja que eu como desaparece os milhares de
pêssegos, ameixas, peras que eu poderia ter comido

mas não comi.

No céu, oportunidade custa.
No céu dela

minha mãe planta
pêssegos, ameixas, peras, e eu como até desmaiar

e acordar no céu;

acordar, e comer um pouco mais. Eu não poderia sonhar em fazer
[nada
pela metade. Seja o que for, eu quero o ramo
todo. Por favor. E rápido.

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Você ainda está ouvindo?
Cada pessoa que toco
me custa dez milhões que eu nunca vou conhecer. Pessoas e pessoas,

dentro de cada
um palácio em chamas. Dentro de cada

Mick Jagger usando um casaco de pele de gorila coberto de penas de
[avestruz.
Ele chama de “glamouflagem”.

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O que se foi, mas permanece visto?

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Soldados sem sorte,
o lápis atravessa lentamente o tríceps do meu irmão.

(O que se foi, mas permanece visto?)

Ele não gritou, só deixou os olhos lacrimejarem.
Se eu sorrir, mesmo que um pouco: eles começam a afiar as espadas.
E estão certos. Agora não é hora de alegria.

Agora não é hora. O palácio queima.
O lápis atravessa lentamente o irmão do meu irmão.

(O que permanece, mas visto que se foi?)

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Um rei governa melhor
no escuro, onde não dá pra ver suas mãos se mexendo. Um rei

não nos vê
assistindo o rei.

Costuramos as iniciais de Deus nas nossas roupas de trabalho

enquanto nossos bebês emagrecem.
Os bebês não nos veem

assistindo nossos bebês
emagrecerem.

Nossos bebês nascidos viciados em medo de bebês.
Nossos bebês mastigando maçãs sob o sol.

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América? a lápide quebrada.
América? longe o bastante de si mesma.

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Alô, aqui é o Kaveh falando:
Eu queria ser o Keats
(mas já vivi quatro anos mais)

Alô, aqui é o Keats falando:
seria um absurdo dizer alguma coisa agora
(muito menos alguma coisa nova)

Alô, aqui é ninguém falando:
floradas de hibisco, penas molhadas,
(um pequeno polegar de cinzas.)

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Ser Americano é ser um caçador.

Ser Americano. Quem pode ser Americano?

Ser Americano é ser? O que? Um caçador? Um caçador
que só atira grana.
Não, grana não –
grana.

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Eu tenho um aparelho de cozinha
que me permite secar alface.
Não tem jeito elegante
de dizer isso – pessoas
com corações vivos
que caberiam no meu peito
querem derreter a cidade onde eu nasci.

Na sua escola, num subúrbio americano,
a camiseta de um menino diz: “Nós Fizemos Com Hiroshima,
[Podemos Fazer Com Teerã!”

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Na sua escola, num subúrbio americano,
a camiseta de um menino diz: “Nós Fizemos Com Hiroshima,
[Podemos Fazer Com Teerã!”

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O troféu:
bode assado ganindo no espeto.

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A camiseta de um menino diz: “Nós Fizemos Com Hiroshima,
[Podemos Fazer Com Teerã!”
Pedem para ele virar a camiseta do avesso.
Pedem? Ele, do avesso.

Depois que ele obedece, seus pais processam a secretaria de
[educação.
Nossas almas querem saber
como foram feitas
o que devem.

Esses pais querem que o menino
queira derreter a minha família,
e eu vivo entre eles.

O trono do palácio. Aconchegante, em chamas.
Eu o desenho sem levantar minha caneta.
Eu o desenho gordo como a criação–
vazio como uma pegada.

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Como viver? lendo poemas, respirando curto,
secando alface.

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América, a respiração curta
como viver?

A armadilha curta, América
capturando

só o que é pequeno demais para comer.

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Os mortos se mantêm aquecidos sob a América
enquanto minha mãe frita berinjela no fogão.

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Eu não estou lá.
Eu estou em algum outro lugar da América (eu sempre estou
em algum outro lugar da América) escrevendo isso, escrevendo isso,
[escrevendo isso, inglês
é a primeira língua da minha mãe,
mas não é a minha.
Eu poderia ter dito bademjan.
Eu poderia ter dito khodafez.

Óleo escaldante, grandes punhos de fumaça, escrevendo isso.

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O primeiro inseto desenhado pelo homem foi o gafanhoto.
Arte é onde o que nós sobrevivemos sobrevive.

Óleo escaldante, grandes punhos de fumaça. Arte. Óleo escaldante. Arte.
Minha mãe frita berinjela. O primeiro

inseto desenhado pelo homem sobrevive.

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Quem vai beijar a rainha do baile?
Cérebro pulsando como uma ostra.

Quem vai ganhar a guerra?
América emerge

coberta dos
miúdos grãos daquilo de que é feita:

Pão fresco inchado com pó de farinha.

Ao escrever um e-mail, eu cometo um erro de digitação:
Eu te chamo tanto hoje,

e deixo assim.

Piedades proibidas, moinhos de vento girando
feito jovens bêbados.

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Qualquer documento de uma civilização é também um documento
[de barbárie
diz o palácio, em chamas.

Eu, um homem
sou tudo que eu não digo.

América, eu te garanto, se você me convidar para a sua casa
Eu vou ficar,

chamando, beijando meus amados com franqueza,
colhendo rabanetes
e tampando todas as suas canetas.

Não há bons reis,
só palácios em chamas.

Me chame hoje, tanto.

* * *

*‘The Palace’ from Calling a Wolf a Wolf,Copyright © 2019 by Kaveh Akbar.

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poesia, tradução

Marin Sorescu (1936-1996), por Beethoven Alvarez

Marin Sorescu foi um poeta romeno, um dos grandes poetas romenos da segunda metade do século XX; além disso foi dramaturgo, romancista, ensaísta, editor, tradutor e pintor. Nasceu em 1936 numa cidadezinha chamada Bulzeşti, no estado de Dolj, na região da Valáquia, no sudoeste romeno; morreu aos 60 anos, em Bucareste, onde se casou e morou desde o início da década de 1960; mesmo viajando muito (é conhecido por ter visitado todos os continentes), manteve residência na Romênia durante toda a vida, o que inclui os mais de 30 anos da ditadura de Nicolae Ceaușescu. Produziu muito desde os 28 anos, publicou mais de 20 livros de poemas, e outros tantos de diversos gêneros, foi traduzido para mais de 10 línguas, teve suas pinturas expostas pela Europa, recebeu vários e vários prêmios, e, entre 1993-5, mesmo sem partido ou grandes aspirações políticas, e sob alguma crítica, foi Ministro da Cultura.

Seu primeiro livro, Singur printre poeti (Sozinho entre os poetas), de 1964, é uma coleção de paródias líricas e pastiches poéticos. Falando só de poesia, publicou, entre outros, Poeme (Poemas, 1965, Prêmio da União de Escritores da Romênia); Moartea ceasului (A morte do relógio, 1966); Tinereţea lui Don Quijote (A juventude de Dom Quixote, 1968); Tuşiţi (Tosse, 1970); Suflete, bun la toate (Minha alma, boa em tudo, 1972); La lilieci (Entre morcegos, vol. I-V, 1973-1995; Astfel (Então, 1973); Descântoteca (Desencantoteca, 1976); Sărbători itinerante (Sábados itinerantes, 1978); Ceramică (Cerâmica, 1979); Fântâni în mare (Fontes no mar, 1982); Apă vie, apă moartă (Água viva, água morta, 1987); Poezii alese de cenzură (Poesias selecionadas pela censura, 1991) e Traversarea (A travessia, 1994).

No teatro, destacou-se com Iona (Jonas, 1968), peça escrita no início do governo de Ceauşescu que reconta, numa chave existencialista, a história bíblica do profeta Jonas que foi engolido por uma baleia (Jonas 1:17). Iona fez grande sucesso e junto com Paracliserul (O sacristão, 1970) e Matca (A abelha-rainha, 1973) forma uma espécie de trilogia ligada ao Teatro do Absurdo que estabelece Sorescu como um dos grandes dramaturgos do pós-guerra.

Além de romances e ensaios, escreveu prosa satírica e literatura infanto-juvenil! Como tradutor, verteu para o romeno toda a obra lírica de Boris Pasternak.

Nenhuma crítica ou biografia de Sorescu deixa de salientar como marca de sua poética uma sutil e arguta ironia. Essa mesma ironia, passando pelo tratatamento de temas históricos, filosóficos, religiosos e cotidianos, aos poucos se desenvolve em um simbolismo desmistificador todo próprio, eivado de existencialimo.

Aqui, numa seleção que se guiou muito por minha curiosidade, escolhi estes sete poemas para traduzir. Propositalmente o primeiro deles se chama Curiosidade. Na sequência, ainda explorando a temática da curiosidade, ou antes, da criatividade, aparece Perpetuum mobile, com claras notas de sarcasmo. Finamente irônico, Na aula dá relevo à subversão que é ter ideias próprias. Ainda no ambiente escolar, Retroversão amplia a discussão sobre criação e sobre a própria compreensão do ser quando, metalinguisticamente, trata o tema da tradução. Esse poema, até onde sei, já foi traduzido por Rosemary Arrojo (em Oficina de Tradução) e Carlos Alberto Faraco (em Depois de Babel), ambos a partir de versões do inglês, com o título Tradução. Em direção a uma simbologia particular, mas também de forma metapoética, Sozinho adota um tom mais íntimo, o mesmo tom que ganha ares de confissão e pessimismo em Doença (este já traduzido por Luciano Maia, 1995). Por fim, com uma atenção menos íntima, Ritmo encerra, sem solução nenhuma, essa pequena seleção que eu gostaria que oferecesse uma breve ideia da obra poética de Sorescu, que um dia disse (não sei onde): “a palavra dita é uma fronteira transposta; pelo ato de dizer alguma coisa, eu falho em dizer tantas outras coisas.”

Não posso deixar de agradecer o André Kangussu que foi um dos primeiros a me apresentar a obra desse poeta romeno e a me estimular a traduzi-lo, e também o Guilherme Gontijo, que ouviu umas leituras minhas e, porque é uma pessoa gentil, sugeriu enviar pra cá essas traduçõezinhas.

Beethoven Alvarez

Beethoven Alvarez nasceu em Petrópolis, mas seu documento de identidade hoje diz que é natural do Rio de Janeiro. É Professor Adjunto de Língua e Literatura Latina da UFF em Niterói. Possui doutorado em Linguística (na área de Estudos Clássicos) pela Unicamp, com período sanduíche na University of Oxford. Hoje tem interesse em comédia romana antiga, métrica arcaica (iambo-trocaica) do latim, versificação das língua modernas (neolatinas e outras), tradução do texto teatral e tradução poética. Não se recorda de ter ficado bêbado (inúmeras vezes) em Brașov e lembra feliz de ter atravessado a Estrada Transfăgărășan (com a moto emprestada de um amigo russo que conheceu bêbado).

* * *

Curiozitate

Ce se aude? Ce nu se mai aude?
Şi când se aude, ce se aude?
Şi când nu se aude, ce nu se aude?
Şi de ce nu s-aude, când nu s-aude?
Şi cine aude, când se aude?
Şi pentru ce se aude?
Şi până când?

De ce se aude ceva şi nu altceva?
Ia să nu se mai audă, ce se aude!
Ce-am auzit că s-aude?
Dar până când?

Curiosidade

O que se ouve? O que não se ouve?
E quando se ouve, o que se ouve?
E quando não se ouve, o que não se ouve?
E quem ouve, quando se ouve?
E para que se ouve?
E até quando?

Por que se ouve uma coisa e não outra?
Não ouça mais o que se ouve!
O que eu ouvi como se ouve?
Mas até quando?

§

Perpetuum mobile

Între idealurile oamenilor
Și realizarea lor
Întotdeauna va exista
O diferență de nivel
Mai mare
Decât cea mai înaltă cascadă.

Se poate folosi rațional
Această cădere
De speranțe,
Construindu-se pe ea ceva
Ca o hidrocentrală.

De la energia astfel câștigată,
Chiar dacă n-o să reușim
Să ne aprindem decât țigarile,
Tot e ceva,
Pentru că, fumând, ne putem gândi serios
La niște idealuri și mai grozave.

Perpetuum mobile

Entre as ideias de alguém
E a realização delas
Sempre existe
Uma diferença de altura
Maior
Que a da mais alta cascata.

É possível usar de forma racional
Essa queda
De esperança,
Construindo acima dela algo
Como uma hidroelétrica.

Da energia assim gerada,
Mesmo se só usarmos
Para acender nossos cigarros,
Ganha-se alguma coisa,
Porque, fumando, podemos pensar seriamente
Em algumas ideias ainda mais extraordinárias.   

 §

La lecție

De câte ori sunt scos la lecție
Răspund anapoda
La toate întrebările.

– Cum stai cu istoria?
Mă întreabă profesorul.
– Prost, foarte prost,
Abia am încheiat o pace trainică
Cu turcii.

– Care e legea gravitației?
– Oriunde ne-am afla,
Pe apă sau pe uscat,
Pe jos sau în aer,
Toate lucrurile trebuie să ne cadă
În cap.

– Pe ce treaptă de civilizație
Ne aflăm?
– În epoca pietrei neșlefuite,
Întrucât singura piatră șlefuită
Care se găsise,
Inima,
A fost pierdută.

– Știi să faci harta marilor noastre speranțe?
– Da, din baloane colorate.
La fiecare vânt puternic
Mai zboară câte un balon.

Din toate astea se vede clar
C-o să rămân repetent,
Și pe bună dreptate.

Na aula

Toda vez que sou expulso da aula
Respondo ao contrário
A todas as perguntas.

Como vai em história?
Pergunta o professor.
– Burro, bem burro,
Acabei de fazer uma paz duradoura
Com os turcos.

– O que é a lei da gravidade?
– Em qualquer lugar que eu estiver,
Na água ou na terra
No chão ou no ar,
Todas as coisas têm que cair
Na minha cabeça.

– Em que estágio da civilização
Nos encontramos?
– Na idade da pedra que nem está lascada,
Porque a única pedra lascada
Que se encontrou,
O coração,
Se perdeu.

– Sabe fazer um mapa de nossas esperanças?
– Sim, com balões coloridos.
A cada vento forte
Voa pra longe mais um balão.

Diante disso tudo, fica claro
Que vou continuar repetindo de ano,
E por um bom motivo.

§

Retroversiune

Susţineam examenul
La limba moarta,
Şi trebuia sa ma traduc
Din om în maimuţa.

Am luat-o pe departe,
Traducînd mai întâi un text
Dintr-o padure.

Retroversiunea devenea însa
Tot mai dificila,
Cu cât ma apropiam de mine.
Cu puţin efor
Am gasit totuţi echivalenţe mulţumitoare
Pentru unghii şi parul de pe picioare.

Pe la genunchi
Am început sa ma bâlbâi.
În dreptul inimii mi-a tremurat mâna
Şi-am facut o pata de soare.

Am mai încercat eu s-o dreg
Cu parul de pe piept.
Dar m-am poticnit definitiv
La suflet.

Retroversão

Estava fazendo a prova
De uma língua morta,
E tinha que me traduzir
De homem em macaco.

Eu comecei de longe
Traduzindo primeiro um texto
De dentro de uma floresta.

A retroversão se tornava porém
Bem mais difícil,
Quando me aproximava de mim.
Com um pouco de esforço
Achei entretanto equivalentes satisfatórios
Para as unhas e os pelos das pernas.

Nos joelhos
Comecei a gaguejar.
Perto do coração minha mão tremeu
E fiz uma mancha de sol.

Logo procurei consertar
Com o pelo do peito.
Mas tropecei em definitivo
Na alma.

§

Singur

Mi-e frig în cămaşa asta
De litere
Prin care intră uşor
Toate intemperiile.

Vântul prin a,
Lupii prin b,
Iarna prin c,
Şi eu încerc să-mi apăr măcar inima
Cu un titlu mai gros,
Dar mă îngheaţă frigul care intră
Prin toate literele.

Mi-e urât în cămaşa asta
De litere
Prin care intră uşor
Respiraţia și bătăile inimii.

Prin a,
Prin b,
Prin c,
Alfabetul este plin de mine
Pentru o clipă.

Sozinho

Estou com frio com essa camisa
De letras
Por ela entra facilmente
Todo mau tempo.

O vento pelo a,
Os lobos pelo b,
O inverno pelo c,
E estou tentando fazer meu coração aparecer
Com um título mais grosso,
Mas me congela o frio que entra
Por todas as letras.

Fico feio nessa camisa
De letras
Por ela entra facilmente
Respiração e batidas do coração.

Pelo a,
Pelo b,
Pelo c,
O alfabeto está cheio de mim
Por um momento.

§

Boala

Doctore, simt ceva mortal
Aici, în regiunea fiinţei mele.
Mă dor toate organele,
Ziua mă doare soarele
Iar noaptea luna şi stelele.
Mi s-a pus un junghi în norul de pe cer
Pe care pâna atunci nici nu-l observasem
Şi mă trezesc în fiecare dimineaţă
Cu o senzaţie de iarnă.
Degeaba am luat tot felul de medicamente,
Am urât şi am iubit, am învăţat să citesc
Şi chiar am citit niste cărţi,
Am vorbit cu oamenii şi m-am gândit,
Am fost bun si-am fost frumos…
Toate acestea n-au avut nici un efect, doctore,
Şi-am cheltuit pe ele o groază de ani.
Cred că m-am îmbolnăvit de moarte
Într-o zi,
Când m-am născut.

Doença

Doutor, eu sinto uma dor terrível
Aqui na região do meu ser,
Me doem todos os órgãos
De dia me dói o sol,
E de noite, a lua e as estrelas.

Sinto uma pontada na nuvem do céu
Que até então eu nem tinha notado
E acordo todas as manhãs
Com uma sensação de inverno.

Em vão eu tomei todo tipo de remédio,
Senti ódio e amei, aprendi a ler
E até li alguns livros,
Falei com as pessoas e pensei,
Eu fui bom e eu fui querido…

Tudo isso não teve nenhum efeito, doutor
E eu gastei um monte de anos com isso.

Eu acho que adoeci
Um dia
Quando nasci.

§

Ritm

Cohorte de marginalizaţi
Se răscoală.
Vor în centru. Îl ocupă.
Împingând spre margine
Norocoşii din etapa precedentă.

Se cuibăresc, puiază.
Şi aşteaptă cu inima cât un purice
Cohortele de marginalizaţi
Care trag spre centru.

Ritmo

As multidões de marginalizados
Se revoltam.
Querem estar no centro. O ocupam.
Empurrando para a margem
Os que foram bem sucedidos antes.

Fazem ninho, crescem.
E esperam com o coração de uma pulga
Multidões de marginalizados
Que se movem para o centro.

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poesia

Um poema inédito de Thássio Ferreira

Thássio Ferreira (1982). Escritor radicado no Rio de Janeiro, autor dos livros de poemas (DES)NU(DO) (Ibis Libris, 2016) e Itinerários (Ed. UFPR, 2018). Colaborador, curador e editor-executivo da Revista Philos de Literatura. Participou da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP) em 2017, como convidado da Liga Brasileira de Editoras, e em 2018 na Casa Philos. Publicou poemas e contos em revistas e antologias, como Revista Brasileira (nº 94), da Academia Brasileira de Letras, Gueto, Mallarmargens e Germina.

* * *

notícias do maranhão

(para Claudia Nessi Zonenschain)

os pés não bastam
para acordar a praia

e beiramos a mudez
do mar enquanto
não beira o dia

(vê a lua negra?
ela manda ter
calma. e seguir)

beira mar beira mar
os muitos braços
do rio bonzinho
(pele fina
de águas
cobrindo a carne
de areias —
o mundo é
o corpo do mundo)
vêm plantar sílabas
no ventre do sal

sem pressa:

as mãos de mãe
das águas doces
sabem a paciência
de muitos sóis
até que o mar
teça sua fala

(que não ouvirei:
a lua negra
manda ter calma
e seguir.)

quando a manhã
vem dar à praia
— essa náufraga
a nos salvar
a nós —
um homem
facão na mão
cumprimenta
nossos pés
— quando os homens
se cruzam
nos descaminhos
mesmo que se mirem
nos olhos
são os pés
que cumprimentam.

índio diz
essa época é
mais melhor para pescar
mas não sei que época
é essa de que fala.
calo. a sintaxe dele
é mais bonita.

é hora de ganhar
o branco
(que os pés
do céu
em seu azul

infindo

pisam tão leve
que não tingem
— nem uma gota
de suor.)

no meio do branco
um rio negro
— outro —
e pés fincados
— outros —
num outro
sal:

seu moacir
é jardineiro
diz, regando as couves
no cercado.
dona dete trata
das finanças
— não dá desconto —
a filha cozinha
para nossos pés
famintos
e os filhos jogam
sinuca enquanto
escutam funk
na caixa de som:

xerecão no chão
xerecão no chão

— as distâncias
são tão poucas
(já tem fliperama
em macau?
e macau é brasil?
já tem gerador everywhere
bye bye, maranhão.)

os pés descansam

depois da noite
caminham mais
dentro do branco
branco branco

até os britos

(as dunas e
o brilho das águas
que os ventos
plantaram
nesses lençóis
são todos meus:
não dão notícias.)

seu raimundo tem parabólica
(den’ de casa, camará, ê…)
e acha que não adianta
estudar e ser safado pra roubar
os outros.
fala de quando foi vigia
da petrobras — será que sabe
o que os canalhas têm
feito dela enquanto os vigias
supliciam ladrões de
galinheiros? que notícias
chegam cá donde
dou notícias?

o teto e as paredes
são palha
onde ele e dona joana
veem tevê (novela e jornal)
como peixe frito
e dormimos em rede

mas o banheiro (dos turistas)
— ele/he, ela/she —
é de telha e alvenaria
o chão azulejado
e tem sabonete líquido

além de coca-cola
guaraná e cerveja
de garrafa.

a chuva amanhece

o silêncio dura um dia
imenso/inteiro
e quand’outra chuva
traz a tarde
sento-me à mesa
— café quente
pés descalços —
e olho na mesma
direção que a menina
pingando tempo
nós duas caladas.

o painel solar
seu raimundo ganhou
do luz para todos
— ele conta na prosa
d’antes da janta —
mas não funciona:
as baterias caras
será que eu não entendo
um jeito mais barato?
mas não
eu entendo pouco
seu raimundo
quase menos.

dona joana também
anda desentendendo
o caju que vem cedo
este ano
mas dá explicação:
quando o homem
quer saber mais
que Deus, Ele
muda os tempos.

ganhamos as águas
antes de sangrar
novo silêncio
rumo betânia

aqui até
as flores são
brancas e são
água: equilibradas
(aquáticas) em
longas hastes
feito miniaturas
vegetais das gaivotas
arengueiras: aguapé.

o silêncio é mais maior
no meio do meio
já não avisto o mar
mas lembro a lua:
os pés seguem.

betânia já tem linha
mas a escuridão espreita:
a duna empurra o rio
que alaga aos poucos
as casas, os postes
a placa do icmbio
dando conta do que o povo
pode ou não
nesse chão que achamos
nosso, mas é deles.

daqui a santo
amaro é pouco
chão. o dia
bonitou.
quando chegar
dou notícias.

Padrão
poesia, tradução

Maria Borio, por Davi Araújo

Maria Borio (Perugia, 1985) é poeta e crítica literária. Doutora em Literatura Italiana Contemporânea, assina os estudos Satura. Da Montale alla lirica contemporanea (Fabrizio Serra Editore, 2013) e Poetiche e individui. La poesia italiana dal 1970 al 2000 (Marsilio Editori, 2018). Como poeta, publicou a série Vite unite (em XII Quaderno italiano di poesia contemporanea, Marcos y Marcos, 2015), a plaquete L’altro limite (Pordenonelegge-Lieticolle, 2017), e o livro Trasparenza (Interlinea, 2019). Escreve nos sites Le parole e le cose e La letteratura e noi, e cura a seção poesia da revista Nuovi Argomenti.

Davi Araújo (São Paulo, 1979) é poeta, ficcionista e tradutor; colaborador de Mallarmargens e diretor artístico d’A Quimera Dança. Autor do poemário Livro Ruído (Eucleia, 2011), publicado em Portugal, e das prosas em Ficções paralelas e Visões para lê-las (Substânsia, 2016; com desenhos de Yuli Yamagata). Traduziu Natureza, de R. W. Emerson, Caminhada, de H. D. Thoreau (Dracaena, 2011), 100 poemas de André Breton (Revista Agulha, 2019), e diversos poetas reunidos em Do silêncio ao céu (inédito). Lança este ano, pela Urutau, seu próximo livro de poemas: O físsil.

* * *

O céu

Sei que ἁρμονία significa também coligação,
conexão, união. “Enquanto restarem unidos
os troncos da jangada,/estarei aqui, resistirei…”

(Odisseia, V, 361-362)

As nozes abertas sobre a mesa
são todavia som
– o movimento brilhante dos olhos
da porta à mesa:
o labor, o peso que não existe,
a ânsia ligeira pelas pessoas –
como se a beleza não tivesse uma origem.
Estas nozes fizeram rumor,
me tiram os pensamentos
(nascem e são já de todos,
todos os pensamentos…),
me reclamam ao corpo,
àquele que digo sabor
(as ideias são sempre sem corpo,
são parte de todos?),
me mantêm a contar os restos,
a colecioná-los sobre a mesa (e os meus
pensamentos, a quem fizeram feliz?).
As cascas partidas pertencem a estas mãos,
ao côncavo, às linhas das palmas,
pontas de sementes – nasce uma vida
ao instante dentro destas mãos.
Não ter pensamentos.
///
Apenas sobre as notícias eu sei nomes e pessoas
como era o labirinto dos vidros, no parque, dos espelhos
até batendo encontravas a saída.
Porque não tenho a saída agora –
se chama rede,
talha um quadrado exato
e um lugar que é onipresente.
Ou sou o branco de fundo
no corredor de espelhos,
inciso de diagonais e metálico
na terra, estreito entorno ao corpo
com os neons que faziam indistintos
a pele e o ar como uma sombra transparente
que segue a cada um, mas ao voltar-se não está.
E ali a peça de velha moeda,
o círculo de bronze com o golfinho
era caído à terra
quando estávamos vizinhos à saída,
e para não perdê-la a tenhamos abandonado.
Ali, exatamente, acreditei
em uma língua para todos
idêntica ao ar nos espelhos,
do inventor do labirinto às nossas mãos suadas
que protegiam a fronte:
erro ou desvio,
mas era solidez
bater a fronte às vezes
antes de chegar.
E à saída do parque o mestre dos crepes,
o pedrisco no círculo como a plataforma escura
onde atiras e pegas
e perdes, e depois os sapatos de ginástica
sobre o pedrisco e o mês certo
novembro – sempre um rito
enquanto o tempo agora é filiforme
e os sentimentos certos que todos possam capitar
e ver tão só na infinita
rede – ou, às vezes, em equilíbrio,
alguém que devolve a moeda.
///
Têm passado dias como vozes,
as vozes úteis pelo ar quando se enche.
Têm passado dias demasiado meus
aos quais falo curtocircuito.
E os teus – aqueles de-
le, do outro, do outro,
outras vozes
eu deles, deles
de mim e ninguém
de ninguém.
Me apareciam rostos de mulher
no mármore da fachada,
plenos da luz de dezembro
e muito ligeiros para perceber
se jovens ou velhos, criaturas
inaturais ou animais.
Apareciam as geometrias,
as ficções, e todos os habitantes,
deslizando vizinhos, secretos,
rachados pelo sol deslizando
de boca em boca de corpo em corpo,
se uniam às pessoas reais,
me faziam uma figura.
Contar é o único,
reconhecer na luz exata
as vozes que não parecem reais,
que desejas transparentes,
inocentes ou simples –
e te fazem muito mais única
do que uma pessoa só.
///
Um interior – a pressão d’água
nos tubos, a luz da lâmpada
matizada, o respiro,
o mastigar objetos… é nutrir-se
de pouco, pensar grades de metal
com que suspender as substâncias da natureza,
recriar.
Logo, exterior – passas como um nada,
se para o carro, o vento, a mosca
exausta entre os quadrantes das casas,
o fio de erva seco pelo gelo,
todavia passam – como um eu multiplicado.
Até quando, me dirás me dirás,
saberemos que protegidos ou expostos
é a mesma coisa?
Me dirás as criaturas inconscientes
não existem, e escava escava
cada um se encontra.
No fundo é
a base da erva,
o contato entre a estrada e a terra,
o fragor de ultrasons entre as asas e o ar,
as dobras entre parede e parede,
o halo nesses copos do respiro
e a sombra que degrada.
Tudo é
real nas escalas múltiplas
como as frases que levam adiante
adiante a compreender, o gesto
em que vasculhas para ver o fundo.
Interior cheio de nada,
a luz grisazulada que chega
é manhã e tarde
e as coisas espoliadas da sombra
um segundo te veem como tu as vês.
///
O vidro é todo inverno,
as árvores se apoiam,
um quadro é já parede,
a célula outra célula:
talvez pudessem continuar
com os sentimentos raptados
como as gotas que chamam luz,
pudessem ignorar.
Memória – cada um reconhece
ainda que fingindo.
Passam as cores do inverno
fora da janela como se os quereres
fossem estátuas dentro do céu
escondidas à natureza.
Se sentem mais do querer
fortes com a água nova –
assim dizem as plantas
sobre as quais volta o inverno mil vezes –
é raro ser anônimos e nós,
a escavar o inverno,
a murar os confins,
outros nós misturados às árvores –
parecem árvores e são
nós?
Prefiro o fim dos insetos
assim crus em espirais de lenho,
morrer de ar seco
quando o vento é muito forte:
a minha alma é morta mil vezes
e volta, privilégio
que apaga e inunda.
Provo outra vez fixá-la
no instante que, anônima, se apoia
na natureza sem provas, e crê
que nada exista.
///
Terminarão, terminarão –
tenho pensado nestes momentos,
a suspensão, a verdade
para todos – estes segundos
nutrientes como o leite.
Logo aprendia a me levantar e abaixar
conforme os casos, os poucos
que se podem observar. E os casos
tornavam-se meus, os meus humores
tornavam-se casos.
Mas o melro segue o curso dos ramos,
é uma realidade pintada
que se move sem medo
até quando não sinto que é real
mais do que eu – as penas negras
que brilham entre os ramos para dizer-me
a perfeição é fora.
Agora torna a morte como o céu
sobre todas as coisas transformadas –
eis que o céu tem todas as cores,
as apaga no alto, as perde,
as faz novas, o céu
muda a cada dia – e o mundo
resiste só em paralelo.
///
O céu é branco entre as folhas
que saem da terra a um ponto de ar.
Distingues as cores, as hierarquias,
as recém-nascidas, as sempreverdes
folhas de magnólia contra a luz
que escondem um mundo
latente como o nosso.
Sai o vazio imprevisto,
olhando do tronco à ponta das ramas
o céu no meio
como pudesses bebê-lo. Qualquer coisa
assim lógica e justa –
as hierarquias mais humanas não se fazem
de água e luz, crescem
à vontade necessária,
se alteram sob o querer de poucos.
Repetir isto e deixá-lo
passar da indiferença ao vento,
que o tenha consigo em um momento
entre os meus olhos e a magnólia.

§

Il cielo

So che ἁρμονία significa anche collegamento,
connessione, unione. «Finchè restano uniti
i tronchi della zattera, / starò qui, resisterò…»
(Odissea, V, 361-362)

Le noci aperte sul tavolo
sono ancora suono
– il movimento brillante degli occhi
dalla porta al tavolo:
il lavoro, il peso che non esiste,
le ansie leggere per le persone –
come se la bellezza non avesse un’origine.
Queste noci hanno fatto rumore,
mi tolgono i pensieri
(nascono e sono già di tutti,
tutti i pensieri…),
mi richiamano al corpo,
a quello che dico sapore
(le idee sono sempre senza corpo,
sono parte di tutti?),
mi trattengono a contare i resti,
a radunarli sul tavolo (e i miei
pensieri chi hanno reso felice?).
I gusci spaccati appartengono a queste mani,
nell’incavo, nelle linee dei palmi,
punte di semi – nasce una vita
all’istante dentro queste mani.
Non avere pensieri.
///
Appena sopra le notizie io so nomi e persone
come era il labirinto dei vetri, al parco, degli specchi
finché sbattendo trovavi l’uscita.
Perché non ho l’uscita adesso –
si chiama rete,
taglia un quadrato esatto
e un luogo che è ovunque.
O sono il bianco in fondo
al corridoio degli specchi,
inciso di diagonali e metallico
a terra, stretto intorno al corpo
con i neon che facevano indistinti
la pelle e l’aria come un’ombra trasparente
che segue ognuno, ma a voltarsi non c’è.
E lì il pezzo di vecchia moneta,
il cerchio di bronzo con il delfino
era caduto a terra
quando siamo stati vicini all’uscita,
e per non perderla l’abbiamo lasciato.
Lì, esattamente ho creduto
a una lingua per tutti
identica dall’aria agli specchi,
dall’inventore del labirinto alle nostre mani sudate
che proteggevano la fronte:
errore o deviazione,
ma era solidità
sbattere la fronte a volte
prima di arrivare.
E all’uscita del parco il maestro delle crêpes,
la breccia in cerchio come la piattaforma scura
dove tiri e peschi
e perdi, e poi le scarpe da ginnastica
sulla breccia e il mese certo
novembre – sempre un rito
mentre il tempo adesso è filiforme
e i sentimenti certi che tutti possono capire
e vedere nella sola infinita
rete – o, a volte, in equilibrio,
qualcuno che riporta la moneta.
///
Sono passati giorni come voci,
le voci utili all’aria quando si riempie.
Sono passati giorni troppo miei
a cui parlo cortocircuito.
E i tuoi – quelli di
lui, dell’altro, dell’altro,
altre voci
io di loro, loro
di me e nessuno
di nessuno.
Mi apparivano volti di donna
sul marmo della facciata,
pieni della luce di dicembre
e troppo leggeri per capire
se giovani o vecchi, creature
innaturali o animali.
Apparivano le geometrie,
le finzioni, e tutti gli abitanti,
scivolando vicine, segrete,
spaccate dal sole scivolando
di bocca in bocca di corpo in corpo,
si univano alle persone vere,
mi facevano una figura.
Contare è l’unico,
riconoscerle nella luce esatta
le voci che non sembrano vere,
che desideri trasparenti,
innocenti o semplici –
e ti fanno molto più unica
di una persona sola.
///
Un interno – la pressione dell’acqua
sui tubi, la luce della lampada
sfumata, il respiro,
il masticare oggetti… è nutrirsi
di poco, pensare griglie di metallo
a cui appendere le sostanze della natura,
ricreare.
Poi, esterno – passi come un niente,
si ferma l’auto, il vento, la mosca
sfinita tra i quadranti delle case,
il filo d’erba seccato dal gelo,
ancora passano – come un io moltiplicato.
Fino a quando, mi dirai mi dirai,
sapremo che protetti o esposti
è la stessa cosa?
Mi dirai le creature inconsapevoli
non esistono, e scava scava
ognuno si trova.
In fondo è
la base dell’erba,
il contatto tra la strada e la terra,
il fragore a ultrasuoni tra le ali e l’aria,
le pieghe tra parete e parete,
l’alone del respiro sul bicchiere
e l’ombra che degrada.
Tutto è
vero nelle scale multiple
come le frasi che portano avanti
avanti a capire, il gesto
in cui frughi per vedere il fondo.
Interno pieno di niente,
la luce grigioazzurra che arriva
è mattino e sera
e le cose spogliate dall’ombra
un secondo ti vedono come tu le vedi.
///
Il vetro è tutto inverno,
gli alberi si appoggiano,
un quadro è già parete,
la cellula altra cellula:
forse potrebbero continuare
con i sentimenti rapiti
come le gocce che chiamano la luce,
potrebbero ignorare.
Memoria – ognuno riconosce
anche fingendo.
Passano i colori dell’inverno
fuori dalla finestra come se i bisogni
fossero statue dentro al cielo
nascoste alla natura.
Si sentono più del bisogno
forti con l’acqua nuova –
così dicono le piante
su cui torna l’inverno mille volte –
è raro essere anonimi e noi,
a scavare l’inverno,
a murare i confini,
altri noi misti agli alberi –
sembrano alberi e sono
noi?
Preferisco la fine degli insetti
così crudi in spiragli di legno,
morire d’aria secca
quando il vento è troppo forte:
la mia anima è morta mille volte
e tornata, privilegio
che spegne e inonda.
Provo ancora a fissarla
nell’istante che, anonima, si appoggia
alla natura senza prova, e crede
che niente esista.
///
Finiranno, finiranno –
ho pensato a questi momenti,
la sospensione, la verità
per tutti – questi secondi
nutrienti come il latte.
Poi imparavo ad alzarmi e abbassarmi
come i casi, i pochi
che si possono guardare. E i casi
diventavano miei, i miei umori
diventavano casi.
Ma il merlo segue il corso dei rami,
è una realtà dipinta
che si muove senza paura
fino a quando non sento che è vero
più di me – le penne nere
che brillano tra i rami per dirmi
la perfezione è fuori.
Allora torna la morte come il cielo
su tutte le cose trasformate –
ecco che il cielo ha tutti i colori,
li spinge in alto, li perde,
li fa nuovi, il cielo
cambia ogni giorno – e il mondo
resiste solo in parallelo.
///
Il cielo è bianco tra le foglie
che salgono da terra a un punto d’aria.
Distingui i colori, le gerarchie,
le nuove nate, le sempreverdi
foglie di magnolia controluce
che nascondono un mondo
latente come il nostro.
Sale il vuoto improvviso,
guardando dal tronco alla punta dei rami
il cielo in mezzo
come potessi berlo. Qualcosa
così logico e giusto –
le gerarchie più umane non si fanno
di acqua e luce, crescono
a volontà necessarie,
si alterano sui bisogni di pochi.
Ripetere questo e lasciarlo
passare dall’indifferenza al vento,
che lo tenga con sé in un momento
tra i miei occhi e la magnolia.

Padrão
poesia, tradução

Maiakóvski em viagem, por Paulo Ferraz

Para quem fez versos para seu passaporte soviético, é de se supor que Vladímir Maiakóvski o tenha usado bastante. E sim, após algumas viagens por cidades soviéticas, o poeta georgiano, nascido em 19 de julho de 1893 e que desde a adolescência vivia em Moscou, vai algumas vezes para o ocidente, Riga, Praga, Varsóvia, Berlim e Paris, são algumas das cidades por ele visitadas depois de 1922. Em cada uma delas deixou registrado suas impressões, especialmente Paris, onde esteve em mais de uma ocasião. Dessas viagens, a mais inusitada há de ter sido para o novy mir, a América, saindo da Espanha, passando por Cuba, depois México e finalmente os EUA. Os poemas que escreveu entre 1925 e 1926, além de crônicas e cartas, têm a marca da circunstancialidade, mas também do olhar (e ouvido) estrangeiro ao registrar um mundo que só existia para ele como ideia e que se diferenciava tanto da sociedade russa que caíra quanto da que ajudava a construir. Para essa publicação selecionamos cinco poemas, dois sobre Paris, um sobre a Espanha, outro sobre Nova Iorque e, por último, um sobre o México.

Paulo Ferraz


Paulo Ferraz
 é poeta e tradutor, autor dos livros de poesia De novo nada (2007) e Vícios de imanência (2018), entre outros, da antologia Roteiro da poesia brasileira, anos 90 (2011)  e mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP.

* * *

PARIS (ПАРИЖ)
(conversando com a Torre Eiffel)

Maltratada por milhões de pés.
Esfacelada por milhares de pneus.
Eu rasgo Paris —
terrivelmente erma,
terrivelmente desumana,
terrivelmente desalmada.
Ao meu redor —
a fantástica dança dos carros,
ao meu redor —
bestas marinhas nos chafarizes
assoviam em um só acorde
as mesmas águas dos Luíses.
Parto para a
Place de la Concorde.
Espero,
e enquanto
espio um sinal que a identifique,
espreitando atrás das casas
sai, por mim,
o bolchevique,
como um espectro
da neblina a Torre Eiffel.
— Psiu,
torre,
seja discreta! —
estão nos vigiando! —
essa lua-guilhotina assusta.
Conto o que se passa
(num sopro sibilado,
em sua
orelha-rádio
chio,
cochicho):
— Tenho agitado as coisas e os edifícios.
Nós
aguardamos apenas sua anuência.
Torre,
você quer liderar uma rebelião?
Torre —
Nós
te elegemos nossa líder!
Você —
exemplo do gênio da ciência —
não pode
apodrecer num metro de Apollinaire.
Aqui não é seu
lugar — lugar da decadência —
Paris das putas,
dos poetas,
da bolsa de valores.
O Metrô já aderiu,
os trens estão comigo —
eles
cuspirão o público
de suas entranhas revestidas —
e com sangue limparão
os anúncios de perfume e pó-de-arroz
nos muros.
Estão convictos
não vão circular o
vagão dos ricos.
Não são escravos!
Estão convictos —
para eles
acima dos retratos
está nossa propaganda,
cartazes de luta.
Torre,
a rua não é temerária!
Se o
Metrô não libertar o subterrâneo —
a terra
será nossos trilhos
Iniciarei uma revolta ferroviária.
Está com medo?
Os cafés defenderão o sistema?
Está com medo?
A Rive Gauche virá em socorro.
Não tema!
Já combinei com as pontes.
Atravessar o
rio
a nado não
é nada fácil!
As pontes,
rompendo com o tráfico enfurecido,
dividirão Paris em duas metades.
As pontes irão se rebelar.
No primeiro chamado —
os passantes serão lançados a um pilar.
As coisas estão indignadas.
É um ponto insuportável.
Depois de
quinze anos
ou vinte,
abrandará o aço,
e essas
mesmas coisas
de agora
lá fora
nas noites de Montmartre vão se vender.
Vamos, Torre!
Conosco!
Afinal,
você,
ao nosso lado,
é essencial!
Venha conosco!
Com seu aço reluzente,
na fumaça —
nós te encontraremos.
Nós te encontraremos com mais afeto
que ao primeiro entre os queridos dos queridos.
Vamos para Moscou!
Em Moscou
nos
sobra espaço.
Você
— e todos! —
estará na via pública.
Nós
cuidaremos de você:
cem vezes
ao dia
sol a sol lustraremos seu cobre e seu aço.
Deixe
essa cidade,
a Paris dos dândis e dos fariseus,
a Paris dos bulevares sufocantes
acaba sozinha, no longo cemitério do Louvre
no velho Bois de Boulogne e nos museus.
Em frente!
Mova suas quatro potentes patas,
cravadas no chão pelo croqui de Eiffel,
para que em nosso céu sua testa irradie,
para que nossas estrelas se desviem diante de ti!
Decida, Torre,
mande tudo à sua sorte,
revirando Paris pelo avesso!
Vamos, se apresse!
Conosco!
Conosco para a URSS!
Vamos conosco —
que eu
te arranjo um passaporte!

(escrito após sua viagem a Paris no outono de 1922)

DESPEDIDA (ПРОЩАНЬЕ)

No carro,
            gasto meu último franco.
— Que horas sai o trem de Marselha? —
Paris
            me escolta,
                                    vejo-a do meu banco,
em sua
            inacreditável
                                    maravilha.
A água que
                        verte
                                    dos meus olhos diz
do coração mole
                               e sentimentalista
                                                            que sou!
Queria
            viver
                        e morrer em Paris,
se não houvesse
                        outra terra —
                                                Moscou.

(1925)

ESPANHA (ИСПАНИЯ)

Pensava que fosse
            o Jardim do Éden.
Bobagem
            de bêbados bardos.
Mas não —
            ao vivo vejo
                        o armazém
“LEOPOLDO PARDO”.
Com cautela se passa
por vilas incrustadas na rocha,
e um burro de raça
tagarela em espanhol.
Despojados de tudo que é plebeu,
enfiam o seu chapéu até o nariz.
O humilde
            “telefone”
                        se converteu
no “teléfono
            de esnobe verniz.
Cabelos pretos
                        entre coloridas centelhas.
Rostos nos xales emoldurados,
Señoritas
                        às centenas
e seus leques de um a outro lado.
Medusas —
            azulam as águas
na medida
            de um exagero.
Sou para uns camaradas
                                    “señor
para outros
                        “caballero”.
Castanholas afugentando o sono.
Gritos…
            canto…
                        paixão!
Mas o que me importa isso?
É como cumprimentar — um cão!

(Escrito a bordo do navio “España” em 22 de junho de 1925)

BROADWAY (БРОДВЕЙ)

O asfalto — é vítreo.
                        E o som grave nos
passos. Bosques e folhas
                        de relva — no limite.
Do norte
            para o sul,
                        pegue as avenues,
do oeste para o leste,
                                    — as streets.
No meio —
            (onde o construtor quis tê-las) —
o tamanho
            das casas tumultua.
Umas
            são imensas como estrelas,
outras
                        — vão até a lua.
Yankees
            são preguiçosos
                        para andar não têm gana:
o elevador
            comum e o expresso.
Às 7 horas
            sobe a maré humana,
às 17 horas —
            ela se esparrama.
O mecanismo range
                        numa algaravia vã,
e não há na rua
                        quem se relacione.
Só refreiam
            a mastigação do chewing gum
para soltar um
                        “make money?
A mãe
            amamenta o nenê
                        que a seu seio o cola.
O nenê,
            com o nariz escorrendo,
suga
como se não fosse
                        uma teta, mas one dollar
entretido
                em sérios
                                    negócios.

Fim do expediente.
                        O corpo se sabe o ei-
xo contínuo
                        de um elétrico vetor.
Quer ir para o subterrâneo?
                                    — tome o subway
para o céu?
            — então, um elevator.
Os vagões
            partem e deixam
                        um rastro de fumaça sem fim,
passam
            rente aos calcanhares
                                                das casas
para pôr pra
                        fora uma cauda
                                                na ponte do Brooklyn
e se enfiar
                numa toca
                                    sob o Hudson.
Uma sonolência
                              te
                                    envolve no breu.
Mas
            como cascos num galope
no escuro
            a mente escuta:
                                    “Coffee Maxwell
good
            to the last drop
Uma lâmpada
                        se põe a
                                    cavar a treva.
Bem, contarei a vocês:
                                    — que deslumbrante!
Olhe pra esquerda:
                                    — nossa, mãe, não se atreva!
pra direita:
                        — mamãezinha, isso é um desplante!
Isso pode ser demais para os de Moscou, pode, eu sei!
Um dia só não basta,
                        o fim é um tabu.
Isso é Nova Iorque.
                                    Isso é a Broadway.
How do you do!
Estou encantado
                        por essa cidade.
Mas
            de meu quepe
                                    não me descubro.
Os soviéticos
                        temos muita autoestima
Para a burguesia
                        nós olhamos de cima.

(6 de agosto de 1925)

TRÓPICOS (ТРОПИКИ)
(Estrada entre Vera Cruz e Cidade do México)

Vejo:
           aqui estão —
                                   os trópicos.
Foi pelo que aspirei
                        a vida inteira.
Viajo num
            trem trôpego
entre palmeiras,
                        entre bananeiras.
Suas silhuetas na vista
desenham uma torpe paisagem:
umas lembram — eremitas,
outras lembram — artistas.
Agora, você
            não creria nesse fato:
dessa balbúrdia de chocar
crescia
            uma planta — o cacto
como um cano de samovar.
Já os pássaros nesse forno
a nenhum do mundo igualo.
Espera-se —
                        um tordo
e se encontra —
                        um galo.
E antes que eu
                        entendesse a flora
ou o delírio
                        ou o calor
                                             ou o dia —
o dia
            e a flora se foram
sem noite
            e sem
                        ousadia.
Onde horizonte se esconde?
Foram as linhas
                        já guar-
dadas. Me conte,
            qual dessas estrelas
são
            olhos de jaguar?
Não devo ser o
                        melhor fiscal
de estrelas
                        da noite tropical,
é um céu
tão estrelado nas
            noites de agosto
que não se esgota
            num só gosto.
Vejo:
                       quadro utópico.
Foi pelo que aspirei
                        a vida inteira.
Viajo num
                        trem nos trópicos
entre o aroma
            das bananeiras.

(escrito após o retorno de Maiakovski entre maio e junho de 1926)

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poesia

Ana Luiza Rigueto (1991—)

Ana Luiza Rigueto nasceu em Mimoso do Sul, ES, em 1991 e vive no Rio de Janeiro. Formada em Jornalismo pela UFRJ, estudou Literatura Brasileira na pós-graduação da UERJ. Teve poemas publicados na antologiaTertúlia (Ágrafa, 2018), na Subversa e na Ruído Manifesto. Realizou o videopoema “não me fale do fim” (2017), disponível no YouTube, e edita com amigos a Revista Transversal. Os poemas aqui postados estarão em seu primeiro livro, Entrega em domicílio, que sairá pela Editora Urutau este ano.

* * *

namorinho de portão

quando o tendão do pescoço
estica
e o queixo se ergue
junto
dos olhos eu gosto
desse frisson
que causo
em certos rapazes
na rua
quando passo
ou nas moças
que beijo
em casa ou sentadinha no banco
da praça

§

mímica no aterro do flamengo

no aterro o ônibus leva
a noite enquanto a pele sua o
verão todo mundo tarda
na rua querendo voltar
até nós
que fingíamos querer
agora parecíamos de fato
porque fazia verão, imprevisto
e cansaço

os passageiros
o motorista
suspensos pelo vapor do asfalto
silenciavam cafés sem açúcar
sabão sem espuma sal
não iodado a essa altura
não sabiam se era bom
você encostar os cabelos
presos
no magro do meu braço
se era justo esse sol
úmido
nos seus olhos não supunham
o sal umedecendo fronhas
embaraçando ralos,

então já cansada de tanto
segurar o movimento dos
raios batendo nas primeiras
folhas quando se levantam crianças
sem o medo do escuro ou gente
que já não pode dormir
por pensar em alguém com saudade
você
deixou que caísse a cabeça,

então já cansada de pensar
em como conter a franja
das samambaias o frizz das ondas você
deixou que caíssem os passageiros
estatelados no aço
porque era tarde e tarde o céu
descansa os bichos e tudo
são almofadas,

então já cansada
do ócio quente da noite que não se alegra
e conspira e sua e espera a hora da cama
você descasca o sono como paredes de
cálcio e deita cabelos no meu braço
anunciando
o início das férias
o aumento dos salários
o fim do desemprego
o preço justo do transporte
comunitário,

então
já cansada deixa cair
cabeça passageiros casca
preenche a distância pra dizer
o amor é isso e também
passa

§

verão (haikai II)

pensar em sorvete
de baunilha é tipo querer
derreter Larissa

§

sol nas praças

era difícil
uma época
as prateleiras do supermercado cheias lá
em casa escuro
fazia sol na praça fazia água o
chafariz em chamas eu
debaixo da cama

pedindo luz, mãe
um pouco de luz eu não peço tanto

um feixe me basta
um feixe e um botão
um feixe e bastões elétricos
pr’eu poder apertar
levar um choque pequeno
não chorar
apertar de novo e

agora eu choro um pouco porque
dói
mas eu não ligo porque
o gosto que esse feixe dourado deixa
nas unhas parece açúcar
tostado

eu gosto de caramelo, mãe
e tenho mania de olhos abertos
desde o primeiro foi assim

eu vendo tudo e mesmo assim
eu continuo a acreditar nas chamas
do chafariz das praças
sob o sol os cabelos são mais
bonitos eu gosto da projeção
dos nervos embaixo da cama

aos 7 anos eu não sabia se era mais
justo riscar suas paredes a lápis colorido
(me lembro, Gustavo, do seu cabelo
tigela e sua pele bronzeada)
ou ver a cor de sua pele
embaixo da blusa passada
por lanternas no escuro
embaixo da cama

§

um pula-pula com você

só sei que
aluguei esse pula-pula
pra nós duas
de uma feita foi
isso librianos gostam
de agradar o crush

então você me disse eu gosto
de pula-pula
vi aí uma chance
te chamar pra pular
comigo

nós duas sem fazer
registro
ninguém precisa saber
pulamos muito e rimos
sem gerar conteúdo caindo
sempre como se fosse a
última
rodada o último choque
sabendo que
não é amor

culpa da cartomante antecipando tudo
não é
mas a gente gosta
do artifício protelar a hora do
corpo matar uma garrafa de vinho
coisas assadas no forno
de noite dividir cama
fazer carinho a gente gosta do vício
muito bonita eu só quero olhar você muito

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