poesia

Um poema inédito de André Luiz Pinto

André Luiz Pinto da Rocha nasceu em 1975, Vila Isabel, Rio. Doutor em Filosofia pela UERJ, é autor de: Flor à margem (1999), Um brinco de cetim / Un pediente de satén (Maneco, 2003), Primeiro de Abril (Hedra, 2004), ISTO (Espectro Editorial, 2005), Ao léu (Bem-te-vi, 2007), Terno Novo (7Letras, 2012), Mas valia (Megamíni, 2016), Nós, os Dinossauros (Patuá, 2016), Migalha (7Letras, 2019) e o mais recente, Na rua, em parceria com Armando Freitas Filho (Galileu Edições, 2019). Seus poemas foram tema nos documentários André Luiz Pinto: Prazer, esse sou eu e Autobiografias poético-politicas, em 2019, ambos de Alberto Pucheu.

* * *

O guru

Tenho horror a oficinas de poesia.
Parecem aqueles serviços
de coaching.
Mas, talvez por ter
chegado aos 40
& ainda me achasse completo idiota
na arte do verso
decidi experimentar.
O guru disse
que eu não conversava
com minha
criança interior
que ela queria
ser liberta mas não
a deixava. Quando comecei o curso
achei que me metera
em mais outra religião
mas já no fim
da primeira sessão
quando fazíamos
a poderosa técnica
de olhar
para o espelho
quebrado
falei, diante
dos outros alunos
meus irmãos
agora:
cai fora!
Trata-se
de ritual
que ajuda a gente
a se livrar das energias impuras
Abre o chacra
para a visão cósmica
que a poesia
exige. O guru não
explicou assim
de forma tão teórica
mas deixava
claro para os incautos
que quando se diz
‘cai fora’, é aí
que acontece.
O guru disse também
que eu fedia à raiva
que havia muita mágoa
dentro. E eu
nem sabia
que dava
para notar
essas coisas.
Disse que
com treino
& dedicação, chegaria lá.
Um exercício
que ensinou era observar as pessoas
Tenho, por
ex., 2 amigos –
e eles queriam
porque queriam me converter
para o budismo.
Eu dizia que os cristãos
também tentaram comigo essa proeza.
Só que esses tinham
a arma da poesia.
Mostravam com seus poemas
que o budismo ensinava
a viver – porém, antes
de eu ceder, algodoei os ouvidos
com a cera do cinismo
e só assim fui capaz
de responder:
até parece.
Tem dias
que a vida é dura
& a cruz nos
tenta. Por muito tempo
cultivei o demônio
de Sócrates
como melhor resposta.
Hoje, contudo, sei
que agir assim
é uma forma
de defesa.
Aprendi
que cada um se vira com
o que tem.
Tive também um tio
que disse
algo parecido
quando eu botava
as pessoas
contra
a parede: “acha que agindo
assim as pessoas vão te entender? Tem gente
que pira só de se sentir ameaçada em sua fé”. “E é isso
o que você quer?”. “Um abstêmio
pulando feito sapo numa cama
de pregos?”. Uma coisa
que o meu guru
não queria
era que eu julgasse
as pessoas. Queria que eu as
olhasse – apenas. Passei a observar
as crianças…
Gosto da maneira
como encaixam as palavras
Meu guru disse
que eu devia reaprender
a olhar o mundo
se quisesse sobreviver.
Insistiu também na minha autoindulgência.
Reiterou a opinião de amigos.
O guru disse
o que eu precisava
ouvir – que o
mundo é pegar
ou largar, espécie
de metáfora programada
sem data
de término.
Insistiu também na ideia
de perdão.
Que o perdão
acalma
e acalmar
é mais importante
para a poesia
do que se imagina.
Perdoar
eu
disse
é que são
elas.
Mas você devia
perdoar, respondeu o guru
com a maior calma
do mundo.
Fiz então uma lista
de dores que podiam ser
esquecidas.
Lembrei do editor
que para humilhar teria perguntado
ao poeta se sabia escrever
e este teria respondido preenchendo um cheque:
“serve?”. Outra história
é a de Wallace Stevens.
Quando Wallace morreu,
quiseram lhe prestar
homenagem entrevistando
os mais próximos.
O engraçado é que ninguém
que trabalhava
com Wallace
sabia que ele era poeta.
A resposta
da secretária foi
a melhor: “você está dizendo
que Wallace Stevens, meu chefe,
era poeta? Se ele não tivesse
enfartado eu
nem suspeitaria
que tinha
coração”.
É disso
que estou
falando
desse pequeno mal
distraidamente
misturado
a um mal maior.
Perdoar já
é difícil
& eu não sei se vale
à pena.
Sei que devia
ser menos raivoso
o que pode
ser proveitoso
para mim.
Sei que tinha outra coisa
para dizer, mas do jeito
que está, deixa.
Resta frequentar
essas oficinas
fazer parte
do discreto
charme, com médicos,
embaixadores, filhas de militares, jornalistas.
Como Edward Norton
em Clube da luta, das coisas
que me tiram o sono
a pior é
a alegria.
É esse
o meu incômodo
E eu sinto que não
é só comigo.
Está em cada um
de vocês.
O guru mesmo de vez em quando
apronta as suas. A paixão que nutre
por uma fiel o fato de ele cultivar
entre os pupilos a promessa
de que um dia serão
publicados. Outros ainda tomam
o guru pelo diabo.
Sempre gostei dessas histórias
em que para garantir
o sucesso recorre-se
a fantasmas.
Conheço um escritor
que O conjurou
para obter sucesso.
Estava sozinho.
Preparou o apartamento
Acendeu duas velas
na frente do espelho.
Foi aí que notou que enquanto
procedia o ritual
sua imagem não refletia
o rosto, mas
as costas
como se o espelho
estivesse por detrás. Apagou
imediatamente as velas
e se pôs
a dormir.
Não é qualquer um
que tem coragem
eu já visitei
também uma encruzilhada
Só não deu certo.
Hoje sei que o diabo
não procura
qualquer pessoa
só as
com talento.
Burrice comprar algo
que se tem.
Eu não tenho nada
para oferecer
O que tenho é basicamente
o que você vê
Uma mentalidade pouco refinada
que sorri quando bate
um vento
alguém que está
a maior parte
do tempo sem entender.

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3 poemas inéditos de Adriano Scandolara

Adriano Scandolara (1988) é um poeta e tradutor de Curitiba, atualmente residente em São Paulo. Foi um dos editores e membros fundadores do escamandro, mas acabou se afastando por motivos de sanidade mental. É autor de Lira de Lixo (Patuá, 2013, esgotado, mas disponível aqui em pdf) e PARSONA (Kotter/Ateliê, 2017), um livro de poesia conceitual construído sobre a Via Láctea, de Olavo Bilac. Como tradutor, já traduziu um monte de gente, como se pode ver nos arquivos do blog, mas especialmente os poemas de Shelley, que saíram no volume Prometeu Desacorrentado e outros poemas (Autêntica, 2015), e Milton, cujo Sansão Agonista permanece na gaveta. Recentemente concluiu o doutorado pela UFPR sobre poesia moderna, filosofia da linguagem e muitas coisas loucas e ainda não sabe bem o que fazer da vida depois. Os seguintes poemas são inéditos, e é uma alegria tê-lo de volta agora como autor.

guilherme gontijo flores

* * *

Anistia

Se for bater, não me venha
com essa de estou só
cumprindo ordens, foi pra isso
que você lhes entregou
teu corpo, tuas pernas,
mãos, a língua, o cu
desça
o braço com gosto, esta
é tua obra – e, pra dar
amnésia, mire na cabeça,
a obra é anônima e você
já lhes entregou também
teu nome, em todo caso,
apenas
um borrão
esse teu sorriso de filho da puta.

E continue golpeando mais
e mais
e mais até
encontrar nesse saco de ossos que você,
necrófago, anseia abrir,
chupar o tutano que te falta,
uma resposta na torção
desdentada da boca
passado certo ponto – além da amnésia,
o músculo em cãibra, as falanges já
quebradas de tanto bater,
aprende-se a amar o punho cerrado.

§

O lixeiro conhece teus segredos mais sórdidos

O que te traz aqui? você já
fez terapia antes? o que te aflige?
você culpa alguém por isso? você pode
descrever pra mim
tua relação com teus pais? você pode
fisgar o Leviatã com um anzol
ou amarrar uma corda à sua língua?
onde você estava quando
foi feliz pela última vez? e quando
foram deitadas as bases da terra
e as estrelas da manhã cantaram em coro?
o que você sentiu?
você já entrou às origens do mar, passeou
no mais profundo do abismo, até os tesouros da neve
e viu os tesouros da saraiva que eu retenho
até o tempo da angústia, até o dia da peleja
e da guerra? o que fazem
os teus pais?
a chuva tem pai?
ou as gotas do orvalho? de que ventre
procede o gelo? e quem gerou
a geada do céu? quem prepara
aos corvos seu alimento,
quando seus filhotes gritam a Deus
e andam vagueando, por não terem o que comer?
você pode prender as cadeias das Plêiades?
soltar os cordéis de Órion? correr o zodíaco
pelas estações ou guiar a Ursa com seus filhotes?
você usa drogas?
o que é o homem?
e o que você quer dizer quando diz
que se sente vazio?
ou remonta o abutre ao teu mando e põe no alto o seu ninho?
dali descobre a presa, seus olhos a avistam de longe
e seus filhos chupam o sangue,
e onde há mortos, ali está ele
que não sabe mais
quem é?

Escuta: o caminhão na rua,
porque não havia sistema de coleta
os antigos jogavam seu lixo
no chão e o cobriam
com novas camadas de terra,
as lascas de cerâmica, embalagens
plásticas, camisinhas, celulares
explodidos,
erguendo
as cidades verticalmente,
que permite ao arqueólogo saber
quem era quem
e onde viveu, amou e morreu, a história
como livro do que é minúsculo,
do que foi jogado fora.

§

Tabu

Mesmo quando sobre o silêncio, evidente
contradição, a palavra o
destrói —
mas que voz
é esta, que locutor reside
homuncular
em tua cabeça e recita
o jornal em tuas mãos? acaso é a mesma
nos obituários e classificados
sem a menor mudança de
tom?

daí que estas letras, menos
óbvio, não vieram da pena do escriba
no pergaminho, seu menor erro arriscando
o fim do mundo —
estas coisas mortas,
sombras sobre areia, não têm força
contra o silêncio, precisam
que esse crime você
cometa por elas

e seja castigado:
um homem certa vez
recitou estes versos e um caminhão o atropelou,
outro perdeu sua esposa e filhos,
mas talvez nada aconteça
ou a mudança
seja pequena, só trazendo
consequências quando você não mais lembrar

e em todo caso você é cético demais,
com razão, para crer em tabus, mas
se me pedirem a leitura em voz alta, recomendo
que cale por um minuto
e faça depois
o sinal de Harpócrates.

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poesia, tradução

Perdidos na tradução: Robert Frost por Rodrigo Madeira

Poetry is what gets lost in translation.
Robert Frost

Embora tenha nascido na Califórnia (São Francisco, 1874) e vivido em diferentes cidades ao longo da vida, a obra e imagística de Robert Frost ficará para sempre associada à paisagem natural e humana da Nova Inglaterra, no nordeste gelado dos Estados Unidos. Frost, ainda que tenha em seus poemas “bucólicos” a mais poderosa expressão de sua inteligência poética, lembra – no comovente registro da solidão e da melancólica fugacidade da vida – os impasses existenciais dos retratos eminentemente urbanos de Edward Hopper.

De fato, “Beto Geada” sempre me pareceu um Hopper da poesia norte-americana (Cummings, o reverso desse anverso, seria, é claro, o Jackson Pollock). Há em um poema como “Nothing Gold Can Stay” a mesma economia de recursos, a mesma e definitiva síntese presente em “Sun in an Empty Room”, de Hopper.

Ao mesmo tempo, a poesia de Frost apresenta, nas dobras do cotidiano, aquelas velhas situações-limite tão caras à psicologia individualista dos norte-americanos: suas encruzilhadas mitológicas, dos desbravadores do Far West e da filosofia de Thoreau às crossroads de bluesmen faustianosNo caso de Frost, um sujeito solitário diante de “portais” (por assim dizer) que se abrem e fecham nos amplos espaços naturais da Nova Inglaterra. Não à toa, ao lado de Walt Whitman, Robert Frost – muito mais do que Pound, Eliot, Carlos Williams ou Wallace Stevens – é o poeta mais popular e amado dos EUA.

No Brasil, no entanto, excluído do paideuma concretista e menoscabado por acadêmicos e tradutores em geral, muito provavelmente em função do tradicionalismo formal de suas formas fixas e de certa atemporalidade temática ao mesmo tempo antiexperimental e antierudita, este autor fundamental do modernismo norte-americano passou ao largo de esforços tradutórios mais sistemáticos – afora traduções esparsas, Frost ganhou versões brasileiras em uma única e longínqua seleção de poemas (“Poemas Escolhidos de Robert Frost”, Editora Lidador, tradução de Marisa Murray, nos idos de 1969).

Vai aqui, portanto, uma pequena mostra de sua obra: seis dos mais emblemáticos poemas frostianos.

Aperte o defrost. Sirva-se à vontade. Experimente na língua portuguesa.  

Rodrigo Madeira

* * *

NADA QUE É DE OURO PERMANECE

O verde mais cedinho é ouro.
Dos tons o mais fugaz tesouro.
A folha então é flor que aflora,
Apenas porém por uma hora.
Depois a folha perde a flor.
Assim é que o Éden virou dor,
Assim enfim o dia cresce.
Nada que é de ouro permanece.

NOTHING GOLD CAN STAY

Nature’s first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf’s a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf.
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day.
Nothing gold can stay.

§

FOGO E GELO

Para alguns o mundo acaba em fogo,
Para alguns em gelo.
O desejo que provei, não pouco,
Me faz fechar com os que dizem fogo.
Mas se o fim em dobro hei de sofrê-lo,
Sei o bastante da raiva humana
Pra dizer que destruir com gelo
Tem lá seu apelo
E também funciona.

FIRE AND ICE

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I’ve tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

§

O CAMINHO NÃO TRILHADO

A estrada se partiu no bosque amarelado
E lamentando não poder seguir por ambas
E ser apenas um, fiquei ali parado
E olhei uma das vias, o olhar alongado,
Até que ela fugisse na curva entre as ramas;

Então tomei a outra, possível também,
E sendo ela talvez a mais convidativa,
Porque clamava a grama pelos pés de alguém,
Mesmo que, em relação a isso, outros vaivéns
A tivessem gastado na mesma medida

E que, aquela manhã, naquelas duas vias
Houvesse ainda tantas folhas por pisar.
Ah, deixei a primeira para um outro dia!
Mas, se um caminho sempre a outros levaria,
Duvidei de que um dia eu pudesse voltar.

Mais à frente hei de dar, saudoso, o meu relato;
Entre o passado e mim, uma distância imensa:
A estrada se partiu no bosque amarelado –
Tomei dos dois caminhos o menos trilhado,
E justamente isso fez a diferença.

THE ROAD NOT TAKEN

Two roads diverged in a yellow wood
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sign
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I –
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

§

PARANDO À MARGEM DA MATA NUMA NOITE DE NEVE

Acho que sei de quem é a mata,
Fica na vila sua casa;
Não me verá, pois, circunspecto,
Olhando essa mata nevada.

Minha égua acha estranho decerto
Parar sem cocheiras por perto
Entre a mata e o lago gelado
Na noite mais negra do inverno.

Em sinos de arreio vibrados,
Minha égua pergunta – algo errado?
E se ouvem, no mais, na calada
Só neves e ventos soprados.

Escura, funda, bela é a mata,
Mas trago a palavra empenhada
E, antes que eu durma, há tanta estrada.
E, antes que eu durma, há tanta estrada.

STOPPING BY WOODS ON A SNOWY EVENING

Whose woods these are I think I know.
His house is in the village, though;
He will not see me stopping here
To watch his woods fill up with snow.

My little horse must think it queer
To stop without a farmhouse near
Between the woods and the frozen lake
The darkest evening of the year.

He gives his harness bells a shake
To ask if there is some mistake.
The only other sound´s the sweep
Of easy wind and downy flake.

The woods are lovely, dark, and deep,
But I have promises to keep,
And miles to go before I sleep,
And miles to go before I sleep.

§

JUNTANDO FOLHAS

As pás recolhem as folhas
Como a colher ou a mão,
E um saco cheio de folhas
É leve como um balão.

O dia todo eu farfalho
Fazendo um baita alarido,
Como uma lebre ou um cervo
Que pronto houvessem fugido.

Mas me escapam ao enlace
O que em montes é disposto,
Transbordando dos meus braços
E voando no meu rosto.

Se várias e várias vezes,
Até lotar um galpão,
Eu carrego e descarrego,
Que me resta disso então?

Quase nada têm de peso,
E sendo assim desbotadas
Do contato com a terra,
Têm por cor um quase nada.

Quase nada de proveito.
Mas a safra é safra feita,
E quem há de dizer onde
Vai parar esta colheita? 

GATHERING LEAVES

Spades take up leaves
No better than spoons,
And bags full of leaves
Are light as balloons.

I make a great noise
Of rustling all day
Like rabbit and deer
Running away.

But the mountains I raise
Elude my embrace.
Flowing over my arms
And into my face.

I may load and unload
Again and again
Till I fill the whole shed,
And what have I then?

Next to nothing for weight,
And since they grew duller
From contact with earth,
Next to nothing for color.

Next to nothing for use.
But a crop is a crop,
And who’s to say where
The harvest shall stop?

§

BRAÇADA

Pra cada embrulho que agachando abraço,
Um outro embrulho escorre pelos braços.
E escorregando o litro, o pão francês –
Formas difíceis de abarcar de vez –
Eu nada, ainda assim, deixo pra trás.
O que fazem as mãos e a mente faz,
Ou mesmo o coração, é o meu melhor
Pra equilibrar tijolos como for.
Me agacho pra evitar que caiam todos;
Então me sento, a pilha toda em torno.
Eu tive que soltar tudo na estrada
E começar de novo, outra braçada.

THE ARMFUL

For every parcel I stoop down to seize
I lose some other off my arms and knees,
And the whole pile is slipping, bottles, buns –
Extremes too hard to comprehend at once,
Yet nothing I should care to leave behind.
With all I have to hold with hand and mind
And heart, if need be, I will do my best
To keep their building balanced at my breast.
I crouch down to prevent them as they fall;
Then sit down in the middle of them all.
I had to drop the armful in the road
And try to stack them in a better load. 

Rodrigo Madeira (Foz do Iguaçu, 1979). Poeta e aforista. Vive em Curitiba desde 1992. Autor dos livros Sol sem pálpebras, Pássaro ruim e Baldio.

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Maria Lúcia Alvim (1932)

Algumas famílias nos pasmam. Veja esta Alvim: gerou o mais reconhecido, Francisco (1938—), Maria Ângela (1926-1959, cf. post na Modo de usar & co.) e só há pouco fui descobrir, gerou também Maria Lúcia Alvim (1932—), essa poeta impressionante, versátil, tesa, pontilhista, de virtuoso domínio técnico (passando pelo haiku à la Guilherme de Almeida, o soneto na melhor estirpe de Jorge de Lima, o rondó renascentista, a sextina enxuta, o verso livre etc.), derivas metafísicas tensas e sutis, a colagem etc. A sua reunião de poesia, Vivenda, publicada pela coleção Claro Enigma em 1989, nos diz apenas o seguinte: “Nasceu a 4 de outubro de 1932 na cidade mineira de Araxá. Autodidata, abandona a escola para se dedicar exclusivamente  a poesia e a pintura. Realiza exposições de artes plásticas e publicou cinco livros de poesia. Atualmente divide seu tempo entre a cidade do Rio de Janeiro e uma fazenda no interior do estado.” Mas consegui confirmar que realmente é da família, talvez a poeta mais vigorosa dessa família de poetas absurdos. 

Por isso fiz a maior antologia online possível: não é possível que estejamos vivendo há mais de 30 anos sem nova edição da poesia de Maria Lúcia Alvim. Seguiremos sem os XX Sonetos (1959) com sabor de Sá de Miranda e Mário de Sá-Carneiro, com sua metafísica de sujeito cindido, sua homenagem à irmã suicida, em XVII? Sem os jogos ágeis pré-leminskianos de Pose (1968), e seu modo fotográfico reflexivo, como em “Mágico desafio”? Sem a construção dissonante e cristalina do magistral Romance de Dona Beja (1979) que ora tensiona Cabral (“O fim do quilombo do Tengo-Tengo”), ora Cecília (“Rondó da desilusão”), ora Drummond (o sutilíssimo “Lúcida rendição”), sem os pastiches seríssimos e multilíngues de A rosa malvada (1980), como a série dedicada ao irmão, ou a pérola de “Num átimo de amor”, ou o resultado complexo a partir das rimas banais de “Somatização do soneto”? Sem as potências concretas, entre o sublime e o irônico, de Coração incólume (1968), como em “Cartão postal”?Para se ter uma ideia, não consegui nem uma imagem da poeta, e só uns pouquíssimos poemas transcritos na rede, como o que está no site do Antônio Miranda

E mais, não podemos estar há 40 anos sem poemas novos dessa mulher. Onde o baú, onde o borralho do que ela andou fazendo, se está viva, sem nos mostrar. Creio estarmos diante de um caso que merece revisão imediata, dessa poesia que, por ter se aproximado muito da Geração de 45, foi de pronto dispensada pelo rolo concretista e a demanda do estritamente coloquial dos anos 60-80. A sua poesia é precisamente o que uma recusa da voz única pode oferecer como poética e ética. 

guilherme gontijo flores

* * *

NUM ÁTIMO DE AMOR

ao velho Oswaldo

Sem pompa, subimos pela rampa
Que dá para o sonho. Flamba o olhar
Entre sumárias palavras: alma,
Garante um lugar ao sol. Aqui
Ao toque da mão, discriminados
Os elementos da terra se abrem
Consanguíneos, em cheiro e tato:
E apalpam no ar as tenras partes
Em lufadas de espinho e magnólia.

A volúpia de Paris se evola
No spleen das redes, nos rudimentos
Do tempo — Danaïde ou begônia?
Tufo de nádegas debulhando
A cor dos lábios, sombra de dentro —
Em teu exíguo espaço viajamos
Sem idade, sem lamúria, contra
O peito de Spinoza e o compasso
De Brancusi: “Excelentíssima,

Já viu samambaia azul?” Assim,
Submetidos ao rigor abstrato
Camuflamos no painel do medo
Um tom impressionista: nenúfar,
Ser-Em-Memória, marulho d’água.
Na tarantela da trapoeraba
Aspereza de adeuses e vinho.
Aqui te brindei: eternamente
— Trincar de cristais em meus sentidos.

(De A rosa malvada, 1980)

§

SOMATIZAÇÃO DO SONETO

O Amor está na cara: em carne viva.
Há uma porta batendo sem parar.
Palavras entram. Saem. Persuasiva,
a Loucura preserva seu lugar.

Soprarei o humor desta ferida
aberta para só me ver sangrar.
Há um golpe de ar em minha vida,
uma quina de esquina: quebra mar.

Visito. Se me vou. Irei voltar?
Entre papéis colados, sob medida,
há sempre uma paixão a recortar.

E o colo lembra a glosa, par a par.
Contraditória Rosa, assim perdida,
que te expulsa e te trava, devagar.

(De A rosa malvada, 1980)

§

NOITE DE GALA
[Série “Tapa de luva: poemas de meu irmão”, pastiche de Francisco Alvim]

Um país inteiramente nu
Pelo tempo que estamos aqui sentados
Um país que não houvesse
Nem pai nem mãe
Sem sobrenome

(De A rosa malvada, 1980)

§

DANÇA DOS ESPÍRITOS BEATOS

A navalha. O Verbo. O movimento
O Menino de barba crespa e basta.
O Cavalo-Marinho (aquele passe
de nunca ser tomada de surpresa!)

Grávido de mim. Quem? Senão a Ti
faria? Onde o Mal, em tal sacrifício?
A tua cabeleira negra e casta.
Os meus cabelos tesos e metálicos.

Chamamos pelo nome esse pecado
Amor: — penetra fundo na palavra
e reboa no ar: Amaldiçoado!…

E quanto mais te ouço mais me encorpo
cerzida ao teu Corpo, que é meu corpo,
que não vejo, não cheiro, que não toco.

(De A rosa malvada, 1980)

§

FIM DO QUILOMBO DO TENGO-TENGO

Grimpa o quilombo
pela chapada —
cobre a Canastra
desce a Zagaia.

É cativeiro
em revoada —
é Tengo-Tengo
dos urucungos.

O rei Ambrósio
polarizava
de seu harém
entre savanas,

tantãs, marimbas
deusas de javre
ocres, oblongas;
sobre os turbantes

imperturbáveis
— Serra Leoa
era tão longe!
— ao mesmo tempo

ali estava
na trajetória
dos orixás,
gatos selvagens

mulas e bás,
chitas, missangas,
dengos e figas —
nas bailarinas

em atabales
redemoinhos —
cumplicidades
alvas das canas

dos travesseiros
de paina e fronha
com monograma
em ponto cheio.

Ó africanas
amenidades!
ó malabar
torre de ébano!

que por vinte anos
se equilibrara
— e de um só golpe
era tombada.

Onde o tesouro
desenterrado?
— em moçambiques
baús, borralhos.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

FÁBULA

A terra traz o ventre trepidante
a fecundar, parir, a sepultar —
a fronte prepotente a ostentar
a grinalda de vermes cintilantes.
A terra é o animal pensante — diante
da própria sombra para a conspirar —
das feras tem o olfato e o paladar
e dos homens a espora penetrante.
— Sementes? São caixeiras-viajantes
de ilusão a ilusão, a germinar.
As raízes são falsas postulantes
e a seiva suculenta faz golfar
não só flores falcões e diamantes
mas dilúvios, leões, rinocerontes.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

SOLAR DO LAGO DA MATRIZ
(seleta)

Salão

Fechado em si mesmo
Opacidade dos olhos
No espelho do assoalho.

Corredores

As finas alcovas
Espreitam, de porta em porta
São almas penadas.

Despensa

Que servem as sílfides
Sobre a prata da bandeja ?
Broas de fubá.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

AQUAVIA

Como a fonte que jorra, ambivalente,
marejados de sono, navegamos —
que esse rio de amor e de abandono
seja leito comum para quem morre.

Impelidos à margem da corrente
sacudimos a tarja temporária –
e a alma se evapora: tarlatana
sobre a nossa nudez contraditória.

Na umidade do riso, no desejo
impreciso e profuso, pelo pranto
que no calor das órbitas poreja,

Ah, transidos de frio, patinamos
entre quiosques, domos e coretos
sem nada surpreender ou consumar.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

LÚCIDA RENDIÇÃO

Sei que é amor, embora dura
seja a perfeição de sua face. Sei do
frio sândalo que exala a palma reluzente
do timbre de seu riso
da madura
solidão que o aperta entre os braços.

Sei que é amor. Nenhum disfarce
diante do claro labirinto —
a voz, o gesto escasso
a velatura cúmplice dos cílios
e o secreto crivo
                                a capitular
dúctil e vivo.

Sei que é amor, conheço o passo
do gnomo solerte
o sopro exausto
a lenta
curvatura do corpo, quando espreita a própria fome,
e a língua presa
pelas palavras pálidas e tristes.
Sei que é amor. Sei e consinto
em sua lícita usura

na severa parábola ds múltiplos equívocos
— enquanto a fluida escolta

desamor
deflagra minha sombra ao seu redor.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

RONDÓ DA DESILUSÃO

Viver é um torvelinho sem motivo,
Palavras vazias, amor sem crivo —
A vida, como a flor, não se resume
Na evidência da cor ou no perfume
Mas num tempo de sonho fugitivo.

Ao rumor da ilusão, ronda cativo
O turvo coração, e tece crivo
Na fímbria das palavras, dor sem lume —

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

DO MAL PELO MAL

O molejo da alma se forma na bruma.
Entre duas estrelas finco meus pés.
Direi ao mata-burro: mata, ó ceifeiro, tenho a primazia dos párias,
ao chão pedirei: quero ser um dos teus.
— Foi de dura que bati com os olhos.

(De Romanceiro de Dona Beja, 1979)

§

TÍMIDA CONFIDÊNCIA DE UM POEMA

Em tudo há um sentimento
vigilante
que procura vir à luz do dia —
raro nos é dado
saber quando
devemos acender-lhe a boca fria.
É por isso que vamos ficando
cada vez mais fechados —
covardia
ou surdo magnetismo
palpitando
entre o que fala e o que silencia.

(De Pose, 1968)

§

MÁGICO DESAFIO

Um filho não deveria
ser feito
para cumprir mandamentos, para
povoar
a solidária solidão
de pares amorosos, improvisados
e mesmo contrafeitos —

o filho, quando concebido
seria para
provar
apenas isto: 
a matéria ou
mistério
ou vida
desafiando o pensamento.

(De Pose, 1968)

§

CARTÃO POSTAL

para Chico

Repente de tarde. Plana. Ceifada.
Âncoras amortecem o peso
e se liquefazem.
Apagam-se ruivos outeiros.

Dois namorados olham o mar.

Um pássaro de insólito voo
roçou-lhes o ombro.
— Seremos assim potentes?
E subitamente puseram-se
a ferir-se a ferir-se
                               a ferir-se

(De Coração incólume, 1968)

§

POEMA SATURNIANO

I

Ferimos e somos feridos
— sob mares avulsos
marinheiros de
ondulantes patins
semeiam naufrágios.

II

De pai para filho
de irmão para irmão
de igual para igual
— o mal
possui os olhos grandes da complacência
em cuja pupila
um dia
nos perdermos.

III

Na fúria de ferir
iluminados,
celebramos — efusivamente
abraçados — nosso
aniversário.

IV

Há pássaros voando no ar contaminado 
mecanicamente
braços envolvem cinturas
pesadas de indiferença.

V

Na primavera
distribuiremos pêsames
como pétalas de rosas.

(De Coração incólume, 1968)

§

XVII

para Ângela, minha irmã [Maria Ângela Alvim]

És no tempo o que passa mas flutuas
noutro tempo mais livre e permanente
onde ausente serias tu somente
a ser e demorar nas coisas tuas;
novos espaços te cercam — recua
também aquela ausência — consciente
projetas o teu gesto transparente
que vai além de ti e continua;
se viver não te basta nem situa
a forma de teu mundo inexistente
fizeste mais alheia a espera tua
neste andar pela vida descontente;
perduras incontida e insinuas
a vontade de ser em ti presente

(De XX Sonetos, 1959)

§

XVIII

Verbena (mas coisa vã)
imponderável alfaquim
numa imatura manhã
em breve azul de calim
talvez precária e malsã
quase prenúncio de mim
olho tangido (avelã)
implacável serafim.
Fora tempo infância — agora
grave sucinto demora —
e tudo se faz silente
sonhos ou canto de ausente
instantes resvalam onde
o verso acode e responde.

(De XX Sonetos, 1959)

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poesia

Gregório Camilo (1992—)

Gregório Camilo nasceu em Curitiba, em 1992. é poeta, filmmaker e uma das cabeças da Catatau Filmes. ainda mora em Curitiba. Dos cinco poemas abaixo, quatro são inéditos, e apenas “paira” foi publicado na revista Ruído Manifesto.

* * *

PAIRA

silêncio no campo
e no mar silêncio
nada
nem o vento enfim
no fim todos mortos
dançaremos solo
juntos pelos mortos
ouça
o silêncio aos mortos
em silêncio eterno

§

UM RELÓGIO NÃO DEIXA DE EXISTIR
por só não marcar mais o tempo
não não deixa de existir nem
quando seu final é concreto

um relógio sim marca o tempo
de ponteiro parado ou sem

marca o tempo sim ele marca
sem sua haste pro sol

um relógio só deixa de existir
só quando ele é esquecido e só
continua a marcar o tempo

§

GIRA

uma semente gira a terra
devastada

e germina germina
germinada
uma semente gira

a terra devastada
continua a girar

§

CASA PARANAVAIENSE

dura de um setembro a outro
junho não mais que isso
uma casa quente sem chão fixo

onde se busca a sombra menos quente onde
se escorre mais demorado um pouco menos de suor

onde pousam os olhos pesados e secos
quase se tivesse dormido dobrado

a testa inteira granulada
coberta de terra vermelha

a mão mais que suada pingando
suada cada parte do corpo

casa quente rua que pega fogo
as crianças não usam roupa de dia nem
sabem o que é frio

o horizonte é sempre mesmo duvidoso e não existe
certeza pra mais de 1000m

o sol faz eco
e os ventiladores
por mais que gritem todos
não dão conta ao que foi dito

fim do dia a sola do chinelo é preta e dura
a rua mole só esfria recolhida
toda cota diária de piche

a noite entrando na cama
o corpo todo esticado busca o sono
e só acha possível quando plana

§

ENTÃO AQUI ELA DORME
e primeiro agradeço à luz a contornando

o seu corpo quase lâmina

e ela vê um cogumelo e sua cor
a sua cor assim
começa a mudar

a mudar
o contorno também levemente

e ela vai rumando sombra
e senta e come com ninguém vendo

e ela lambe os lábios lambe
os dedos e a noite
então segue

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crítica

Abrilhantado email

Dizem que vida de editor é fácil, divertida. Temos dias de joias, verdade seja dita. Aqui vai uma, que recebemos no email da escamandro, endereçado à minha pessoa. Pérola de porco, que atipicamente decidi responder por email e por aqui.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

“Olá  senhor Guilherme Gontijo flores, tendo diante dos olhos tanta MERDA que Vossa Excelencia publica no seu Blog, umas coisas esdrúxulas e cretinas que nem tem o direito de ser consideradas versos, poderia fazer o favorzinho de publicar os meus poemas. De certeza não são piores do que há no web site Escamando ( que  no quesito poemas não é o rio forte da Ilida que combateu Aquiles mas um riacho quase finado, não tem nada de divino como o Xanto de Homero mas é filho das alimárias mais toscas e brutas da terra.)

Os meus poemas, estou certo disso(não por serem meus pois possuo a autocrítica que mais se assemelha a pingue  autodesprezo),não piores do que há no Rscamadrozinho de Vossa Senhoria.

Se minhas palavras suscitarem interesse no senhor( asco sei que elas incitarão neste ponto não me iludo) posso enviar-lhe umas amostras da minha obra. Se quereis informações da minha filiação poética posso considerar-me adepto da prima geração de surrealistas franceses, mas posso escrever poesia quinhentista como a faziam Camões, Sá de Miranda ou tolices românticas e piegas dignas de Musset e Lamartine. O que nunca redigirei serão imbecilidades e porcarias  gigantescas como as maiores montanha da terra e mais mal cheirosas do que quinhentos mil lixões como Ezra Pound e T.S Eliot.

Sei Frances perfeitamente para traduzir Lautréamont e Paul Claudel em veros versos portugueses, mas não desejo ser conhecido como tradutor (ou melhor desconhecido que liga importância a tradutores) , pois possuo obra própria. Se o senhor estiver interessado ela está a vossa disposição. Foi para o prelo um pequeno livro de minha autoria chamado Odes muito Irrestritas( o titulo é abominável mas não ocorreu-me coisa melhor, pela Editoa Albatroz, se quiser posso mandar um exemplar para o senhor quando ele  estiver imnpresso

Att.

Nuno Azurara(este não é meu nome, apenas um pseudônimo; acho que não é de bom-tom para um sujeito da minha profissão ( sou farmacêutico) meter-se com literatura.

Adeus ou até breve depende de vossa excelência”

§

Prezadíssimo sr. Azuzara, não só eu como todo o corpo editoral da escamandro sente-se ofuscado pelo belíssimo email, muito bem ponderado e certeiro. Por ora, no entanto, furtar-nos-emos de abrilhantar tão parca revista com o peso do vosso imenso talento. Certamente ser-vos-ia uma mácula na carreira, e não queremos servir-vos de pecha futura.

Att.

Guilherme Gontijo Flores (este é o meu nome de cartório, pois julgo petulância e/ou covardia tola esconder-se atrás de pseudônimos de gosto palaciano e decadentista, mas pago as contas como professor e tradutor).

Fico (e daqui ficamos) com o adeus mesmo.

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xanto

XANTO|“A floresta e a escola. O Museu Nacional”, por Alexandre Nodari

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Meteorito de Bendegó, entre as ruínas do Museu Nacional.

Não gostaríamos que as canções fossem parar tão longe de nós; não, as canções ficariam muito sós
(Índio Seneca, citado por Jerome Rothenberg)

Chegaram os espantosos brancos, da estranha tribo dos homens vestidos…” (Raul Pompeia, “Um povo extinto”)

Sim, a escravidão dos índios foi e será um grande erro, e a sua destruição foi e será uma grande calamidade. Convinha que alguém nos revelasse até que ponto este erro foi injusto e monstruoso, até onde chegaram essas calamidades no passado, até onde chegarão no futuro: eis a história. Convinha também que nos descrevesse os seus costumes, que nos instruísse nos seus usos e na sua religião, que nos reconstruísse todo esse mundo perdido, que nos iniciasse nos mistérios do passado como caminho do futuro, para que saibamos donde viemos e para onde vamos
(Gonçalves Dias)

Visitei apenas uma vez, quanto tinha por volta de 18 anos, ou seja, uma década e meia atrás, a parte expositiva do Museu Nacional, aquela que continha ossadas de dinossauros, múmias, vasos greco-romanos, artefatos indígenas, em suma, os vinte milhões de itens que, em sua quase totalidade, foram consumidas no incêndio politicamente criminoso. Recentemente, em 2012, passei um semestre frequentando semanalmente o Museu, mas não a parte expositiva, e sim o Programa de Pós-Graduação em Antropologia, onde tive o grande privilégio de poder ministrar um curso sobre Oswald de Andrade com Eduardo Viveiros de Castro, a convite generoso deste. Eu tinha acabado de concluir o doutorado, e foi a minha primeira experiência mais acabada como docente universitário, experiência que transformou radicalmente a minha carreira, a minha visão política, as minhas pesquisas, e a minha vida pessoal. Foi lá que conheci muitos amigos queridos, como o Marco Antonio Valentim e a Juliana Fausto, foi lá que firmei um diálogo mais profícuo com diversos antropólogos, foi lá que se sedimentou a #ATOA, Afundação Taba de Oswald de Andrade, ou Agrupamento Terrano de Ações Anti-aéreas, que culminou em nossa participação na Cúpula ou Cópula dos Povos da Rio +20. Momentos cruciais de formação e transformação, de contestação do projeto desenvolvimentista e genocida, projeto sintomizado na construção de Belo Monte. Mas também momentos de alegria, a única prova dos nove. Nesse semestre todo, em que frequentei semanalmente o Museu, não visitei uma vez sequer o espaço de exposições, não vi aquele que era o totem da #ATOA, a ossada da Preguiça Gigante – queria deixar para visitar com calma, quando não tivesse a trabalho. Deixei pro futuro. Ledo engano, em um país cujo futuro consiste em destruir o passado.

Trata-se de um projeto genocida já inscrito na Carta de Pero Vaz, carta que não nomeia nenhum indígena, que não cessa de ressaltar a incompreensão que os europeus têm da palavra destes, e que anuncia como o “melhor fruto que [nessa terra] se pode fazer [..,] parece que será salvar esta gente e esta deve ser a principal semente que vossa alteza em ela deve lançar”. A semente plantada – o futuro – era, foi e continua sendo salvar os povos originários, de si mesmos, do seu passado, para convertê-los em outra coisa, pela fala e pela bala.

            Mas, por uma contradição inerente ao processo colonial, alguma coisa se salvou dessa salvação: a formação da Nação (processo que não termina, pois a Nação não é dada senão no seu formar-se) pressupunha (pressupõe) colecionar, exibir e estudar aquilo sobre a qual ela (e o “concerto das nações”, a “humanidade cosmopolita”) se funda(m). O Museu Nacional era isso. Ali estavam expostos os resíduos do projeto colonial, do sistema digestivo da “baixa antropofagia” que praticamos, “a soma comprimida de todos os indícios contra nós”, como fala Canetti: fósseis não só de animais não-humanos, não só da originária Luzia, mas fósseis de povos, artefatos de povos indígenas extintos (massacrados), desses nossos ex-parentes, desses com os quais não queremos nos aparentar, dos quais nos apartamos tanto no mito quanto na história, por um erro de português ou de genovês, a colonização ontológica dos outros e de nós mesmos. O que restou deles, o seu rastro, era, parafraseando o que Foucault diz em “A vida dos homens infames”, a marca de seu encontro com o poder. Agora, nem isso resta. Nem o resto restou. A queima do Museu foi uma segunda extinção: não ouvimos o “alarme de incêndio” acionado por Walter Benjamin, o aviso de que “nem os mortos estarão a salvo se o inimigo [o Progresso] vencer. E esse inimigo nunca deixou de vencer”.

            Mas o Museu não era mais isso quando foi incendiado. Já era outra coisa. Era um espaço no qual se podiam estabelecer alianças por meio da compreensão das cenas originárias – as outras cenas, que não cessam de dar origem, de produzir história, de produzir futuro, na qual brancos e índios, homens e animais, sujeitos e objetos eram aparentados. Pois entender o nosso passado (enquanto matéria, enquanto seres vivos, enquanto espécie), e entender o presente e passado dos outros, abre a possibilidade de ampliar o que somos, o que podemos ser. O acervo Curt Nimuendaju, depositado no Museu, era um índice dessa aliança. A própria figura desse etnógrafo amador, alemão de nascença, guarani por adoção, por aparentamento, muito pouco Nacional, portanto, era um índice disso: nimuendaju, o que se assentou, se estabeleceu entre os outros, se tornou aparentado a outros, virou outro, seguindo a lição de outro estrangeiro, de outro expatriado, Ferdinand Denis, que também viu nos povos indígenas brasileiros a possibilidade de uma transformação: “Que o poeta dessas formosas regiões celebre desde agora os felizes acontecimentos do século; mas não esqueça de modo algum os erros do passado; suspenda a sua lira por instantes nos galhos dessas antigas árvores cujas sombrias ramagens escondem tantas cenas de perseguição; retome-a, depois de haver lançado um olhar de compaixão sobre os séculos transcorridos; lastime as nações aniquiladas, excite uma piedade tardia, porém favorável aos restos das tribos indígenas; e que este povo exilado, diferente por sua cor e costumes, jamais seja esquecido nos cantos do poeta; que adote uma nova pátria e cante-a ele mesmo; que se console à recordação de outros infortúnios, e rejubile-se com a cintilante esperança que lhe dá um povo humano”. No acervo Curt Nimuendaju, para além da ampla documentação linguística (alguma da qual digitalizada), da biblioteca, havia também gravações de cantos em línguas hoje extintas, cantos que haviam ficado sós com o extermínio de seus cantores, e que desde o dia 2 de setembro [de 2018], e que agora estão condenadas a, para sempre, permanecerem sós.

            Pois o que foi destruído criminosamente não foi apenas o passado. Nem tampouco o seu registro – como na queima de documentos relativos a escravidão ordenada por Rui Barbosa quando Ministro da Justiça, com a intenção de tentar abolir pelo fogo esse capítulo nefasto de nossa história, intenção fracassada, pois que o capítulo persiste com o genocídio da juventude negra nas periferias das cidades brasileiras (e note-se que o incêndio do Museu também foi uma queima de arquivo). O que foi destruído também foram possibilidades de futuro, possibilidades de ampliação e modificação do nosso mundo, e de outros mundos possíveis, como disse tão bem Orlando Calheiros em um dos textos mais incisivos a respeito. Nosso futuro e nossas possibilidades se reduziram drasticamente dois domingos atrás – para não dizer que acabaram de vez, pois se o Museu Nacional, a mais antiga instituição científica do país, queimou, então todas as demais instâncias de ensino, cultura e preservação, também podem, como insistentemente sou levado a pensar, no misto de desespero profundo e revolta que tem me acometido, e que tem me desnorteado, e creio que a muitos de nós, afinal como ainda estamos aqui, reunidos nesses dois prédios que formam a Reitoria da Universidade Federal do Paraná, sem saída de incêndio, sem alarme de incêndio? No dia 2 se revelou a condição de possibilidade da “pós-história” enquanto abolição do futuro e a continuação passiva e repetida do mesmo, enquanto cessar do fluxo do tempo num presente eterno: ela depende da destruição ativa do passado. A pós-história, a obliteração retro e prospectiva de toda possibilidade de história (passado e futuro), é um deserto sem real.

            Pois o passado que queimou não era um passado que havia passado definitivamente, mas sim um passado que persistia passando por meio dos vestígios, marcas, rastros, nas quais subsistiam um “conjunto de relações ao mesmo tempo concretas e virtuais” dadas pela “história particular de cada peça”, por esses “testemunhos fósseis da história de um indivíduo ou de uma sociedade” (para citar O pensamento selvagem, de Lévi-Strauss). O que queimou foi uma “origem” (passado) que podia dar origem (futuro), transformar o presente: meios de acesso à cena originária, que permitiam encená-la, por em cena essa cena.  Foi o incêndio que fez o passado passar definitivamente.

No Manifesto da Poesia Pau-Brasil, Oswald de Andrade advogava por “Uma visão que bata nos cilindros dos moinhos, nas turbinas elétricas, nas usinas produtoras, nas questões cambiais, sem perder de vista o Museu Nacional”. Ou seja, uma dupla perspectiva, que englobava tanto o “futuro” (as turbinas elétricas) quanto o “passado” (o Museu Nacional), como se um estivesse atrelado ao outro. Infelizmente, perdemos o Museu Nacional de vista, obcecados que estávamos – e estamos – pelas “usinas produtoras”. A mesma imagem reaparece no Manifesto na forma da “base dupla e presente [friso] – a floresta e a escola”, natureza e cultura, passado e futuro, que se articulam, no último aforismo, justamente pelo Museu Nacional, como se ele fosse um lugar capaz de manter presentes os dois polos da base, como se só uma tal articulação fosse capaz de produzir o presente: “A floresta e a escola. O Museu Nacional”. O incêndio desse consuma, assim, o continuado incêndio daqueles – a destruição da floresta e o sucateamento do ensino, ou melhor, o ensino-sucata, pois já dizia Darcy Ribeiro que “a crise da educação não é uma crise, é um projeto”. Projeto de destruição do passado e do futuro, projeto de futuro baseado na destruição do passado, mas que, nesse gesto, consome a si mesmo – destruição, em suma, de todo fora, da floresta (foris) e da mudança, da natureza e da cultura, em suma, da alteridade e da possibilidade de alteração.

            Já foi muito notado – como não poderia deixar de sê-lo – que um dos poucos objetos a sobreviver ao incêndio foi o meteorito do Bendegó, que vem de fora da Terra. É como se nada que tivesse aqui, nenhum fora que seja daqui, fosse capaz de sobreviver ao fogo geno- e suicida que nós insistimos em atear ao nosso mundo, reduzindo suas possibilidades a uma só, reduzindo suas possibilidades às cinzas.

            Todavia, isso não é tudo – isso não pode ser tudo. Em uma crônica de – frise-se a data – 18 de maio de 1968, intitulada “A matança de seres humanos: os índios”, Clarice Lispector listava os diversos e perversos modos pelos quais se matam índios (e o verbo tem de permanecer no presente, pois a ação que designa também permanece): “Ocorre-nos perguntar, então: e hoje, como se matam os índios se é esta uma ação premeditada? Há várias maneiras de se matar índios: desde a mais simples que é a bala de um trabuco, aos mais requintados métodos, como interferência maciça na cultura do índio através de catequese religiosa que lhes proíbe a preservação de sua cultura primitiva, o que fatalmente redunda em sacrifício do nativo. Ou se mata índio também arrebatando-lhes a terra, à qual estão teluricamente ligados.” Poderíamos acrescentar a essa lista a destruição de seus artefatos, dos registros de seus cantos, ocorrido com a queima do Museu. Contudo, apesar disso tudo, de todas essas formas de genocídio, ou melhor, contra elas e a redução de seu mundo e de suas possibilidades, os povos indígenas continuam resistindo, rexistindo, como diz Viveiros de Castro. Os Bakairi, povo que Raul Pompeia via a caminho da extinção em 1888, continuam existindo, resistindo, rexistindo. Apesar – e contra – os mais de cinco séculos do projeto colonial, os povos indígenas insistem, persistem em abrir caminhos para fora da nossa rua de mão única. “Com toda a coação e a libidinagem da gente branca, não foi, no entanto, destruído o que melhor restava no natural das Américas. A sua cultura resistiu no fundo das florestas, como na recusa a toda força escravizante”, dizia Oswald. No fundo das florestas assim como na recusa a força escravizante: nunca um sem o outro, pois “Toda a literatura, mesmo a missionária, que no século XVI encheu de novidade o mundo, aqui permaneceu para escândalo do mundo vestido e algemado que nos traziam”. No passado (livros) e no presente (floresta). A floresta e a escola. Mais do que nunca, precisamos ouvir o grito dos povos originários, desses povos que não cessam de se fazer presentes, de fazer o presente. Deles, de sua lição, se origina a possibilidade de futuro: “Só o selvagem nos salvará. Essa força profunda que sentimos e que cumpre conservar nos veio dele.”

* * *

Alexandre Nodari é professor de literatura e filosofia da UFPR. Fundador e coordenador do species – núcleo de antropologia especulativa. O texto acima foi apresentado, em uma primeira versão, no evento Museu Nacional: a Memória e o Futuro, organizado pelo Centro Acadêmico de Filosofia da UFPR, 13 de setembro de 2018.

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