poesia, tradução

Ronya Othmann (1993—), por Valeska Brinkmann

Ronya Othmann Nasceu em 1993 em Munique, estuda Escrita Literária em Leipzig. Escreve poesia, prosa e ensaios. É integrante do coletivo lírico GID. Tem publicações, em revistas (alemãs) como BELLA Triste, Poetin, Yearbook of Poetry, Caderno fim de semana do jornal TAZ e Spiegel literatura. Ganhadora do Leonhard e Ida Wolf Memorial Prize da cidade de Munique, 2013, Prêmio de literatura MDR 2015 e bolsa de residência na casa de artistas Lukas (Ahrenshoop, Alemanha) e em 2017 o Prêmio Caroline Schlegel.No momento trabalha no seu primeiro livro de poemas e num romance.

Sua escrita é profunda e pessoal e ao mesmo tempo política. Filha de pai curdo-yazidi e mãe alemã , Ronya trabalha em seus poemas temas como guerra, fuga e identidade cultural.

Os poemas a seguir foram tirados da revista literária Poetin, nr 24 (editora poetenladen, Leipzig primavera de 2018)

 

Valeska Brinkmann nasceu em 1972 em Santos, estudou Radio e TV na FAAP em São Paulo. Trabalha na emissora de Rádio e TV pública de Berlim, onde vive há 16 anos. Escreve contos e histórias para crianças. Tem textos publicados em sites literários na Alemanha e no Brasil (Stadtsprache Magazin, Literaturabr). Publicou em 2016 Pedrina – A perua que queria ser Pavão – Die Pute die ein Pfaul sein wollte, pela editora Bübül Verlag Berlin.

* * *

deita-se em lençois finos como num
papel, uma traça desdobrada, um
animal macio. eu empurro teus braços e
pernas de lado, o peso delas e você para
o sono. mais esse campo não pode
demarcar e para que fim. na frente
da casa a chuva e eu estou de sapatos.
como um cervo encalhado se comporta
e agora apenas cevada e varas para onde quer que
se vá. uma lacuna, minha
bainha está molhada. e o lugar de espera
um pedaço de chão, uma mancha clara
logo será sua cercania. mas eu vou
com vermute. tem que se empurrar
alguma coisa no meio como serragem, que
amortece o passo. nos esporos não
dá para ler. e eu permaneço no
herbário.

es liegt sich auf dünnen laken wie auf
papier, eine aufgefaltete motte, ein
zartes tier. ich schiebe deine arme und
beine beiseite, ihr gewicht und dich in
den schlaf. mehr kann dieses feld nicht
abstecken und zu welchen enden. vor
dem haus steht regen und ich in schuhen.
wie verhält sich ein gestrandetes reh.
und jetzt. nur gerste und gerten wohin
man geht. ein steckraum, mein
stecksaum ist nass. und die wartestelle
ein stuck boden, ein heller fleck, wird
bald seine umgeung sein. ich aber gehe
mit wermut. man muss etwas
dazwischen schieben wie streu, das
dämpft den schritt. an den sporen kann
man nicht lesen. ich halte mich auf im
herbarium.

§

aquilo que não se enquadra no que eu
poderia escrever em janeiro. os cabelos dela
no meu travesseiro não fazem nenhuma
peruca, eu queria camas de hospital
como navios. lençóis brancos, me desfaço
de tudo. braços, pernas, tronco, ovários.
amanhece, gota a gota.
as mãos dela não são as mesmas que me
viram e reviram. tateio o azul
em buca de indícios. sob meus
olhos fechados. passos, a jaqueta dela
bate na cintura, uma batida na
madeira, a porta. não é o tempo de
gerânios.

das nicht darunter fällt, was ich unter
den Januar schreiben kann. ihre haare
auf meinen kissen machen noch keine
Perücke.ich wünsche mir krankenhaus-
betten wie schiffe. weiße laken, ich gebe
alles ab. arme, beine, rumpf, eierstöcke.
es dämmert sich ein, tropfen für tropfen.
ihre hände sind nicht die, die mich
drehen und wenden. ich suche das blau
ab nach anzeichen. unter meinen
geschlossenen augen. schritte, ihre jacke
schlackert um die hüfte, ein klopfen auf
holz, die tür. es ist nicht die zeit für
geranien.

§

um cervo acossado na neve, indo para o ponto de fuga. como se tudo
                                     [fosse apenas um
desenho. os abetos minguaram. para onde quer que se olhe lavoura.
outro trabalho não tenho, apenas esse arar, lavrar,
sulcar. antes de fugir para o branco.// eu não sigo ninguém somente
o tempo de degelo, esse regato, essa queda. é muito evidente. quem     [desenhou esses mapas
e riscou. tenta um pouco, toma
como exemplo, os casacos fechados até em cima, o cabelo
                                         [descolorido.//
como um animal que lambe suas feridas, e eu num mar. mas
aqui é só telha de zinco. uma reverberança de longe, a via expressa
traz alguns destroços da praia e a mim, com olhos fechados // me
                                                  [traz
à terra dos meus antepassados e uma bengala, para
se necessário, eu ainda poder me defender no túmulo.

ein in schnee gehetztes reh, zum fluchtpunkt hin. als wäre alles nur eine zeichnung. die fichten haben sich gelichtet. wohin man sieht feldarbeit. eine andere habe ich nicht, nur dieses abgepflüge, herumgeackere, umgefurche. bevor es fluchtet ins weiß.// ich folge niemandem nur dem tauwetter, diesem rinnsaal, hinfall. sinnfällig ist vieles. wer hat diese karten gezeichnet und striche gezogen. man versucht sich ein wenig, nimmt sich als beispiel die hochgeschlossenen mänteln, das blondierte haar.// wie ein tier, das sich seine wunden leckt, und ich an einem meer. aber hier ist nur wellblech. eine halligkeit von fern, die schnellstraße spült manches strandgut und mich, mit geschlossenen augen // bringt mich in das land meiner vorväter und einen spazierstock, damit ich mich bei bedarf, im grab noch verteidigen kann.

 

 

 

 

 

 

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crítica, xanto

XANTO|Um poema de Marília Garcia entre a voz e o ruído: a desorientação e o aqui-e-agora em Câmera Lenta, por Rafael Zacca


             A melancolia pode ser compreendida como uma desorientação. Esse parece ser um dos sentidos que ligam a sua formulação na antiguidade até a nossa época. Se para Freud a pessoa melancólica é alguém para quem a libido se perdeu (não como se diz de alguém ou algo que desapareceu, mas de alguém ou algo que está perdido, que não encontra caminhos), já na Antiguidade ela estava associada à desorientação causada pelo movimento dos astros.

O grego Hipócrates sustentava que alguém poderia se desequilibrar sob a influência de Saturno. A passagem do planeta agiria diretamente sobre os nossos fluidos corporais, permitindo que a chamada “bílis negra” (em grego melankholia, mélas: negro / kholé: bílis) se sobrepusesse aos outros fluidos, desacelerando, desmotivando e desapaixonando o melancólico.

            Se é assim, a ligação entre uma melancolia mais profunda e a desorientação pode ser traduzida sob o signo do desastre. Em Melancholia, filme de 2011 de Lars von Trier, esse radicalismo é levado ao limite do pessimismo, sob a forma de um destino: a melancolia acabará com toda a humanidade, como um grande planeta que nos engolirá. O desastre (desastro, do latim disaster) faz coincidir o colapso de Claire (personagem interpretada por Charlotte Gainsbourg), o niilismo de Justine (Kirsten Dunst) e o fim da humanidade sobre o pano de fundo de um casamento que já nasce arruinado entre Claire e John. Em outras palavras, o esvaziamento do sentido de uma tradição social (o casamento), a negação da vida, o estado melancólico e um desastre planetário fundem-se num mesmo evento, vestidos com a máscara da inevitabilidade da má fortuna.

            A relação imediata entre má fortuna e desastre é um lugar que conhecemos de longa data na história da arte. A poesia de Marília Garcia em Câmera Lenta, no entanto, nos apresenta uma forma incomum de leitura do desencontro astral. Ela faz com que esse desencontro opere tanto negativa quanto positivamente nos seus poemas, fazendo do desastre ao mesmo tempo força destrutiva e construtiva. Nesse sentido, nos apresenta um jeito de confiar no desastre.

            Não é a primeira vez que a poeta transvaloriza o que usualmente compreendemos como pura negatividade. O erro, o defeito, o desencontro, tudo isso tem lugar em seus trabalhos anteriores. Há um caso envolvendo a segunda edição de 20 poemas para o seu Walkman (2016, primeira edição em 2007) a esse propósito: a capa surge de um pequeno engano envolvendo um cometa. A poeta narra o evento em seu blog:

“as ondas que desenhei ali [na capa da segunda edição de 20 poemas para o seu Walkman] representam os sons do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko gravados pela sonda rosetta, em 2014. a partir dos gráficos de som que peguei na internet, fiz algumas experiências e desenhos para chegar nessa ilustração. na época de fechar a capa do livro, fui para um festival na romênia e, por engano, acabei imprimindo um dos poemas que leria no festival em cima do gráfico de som do cometa.”

            O primeiro poema de Câmera lenta faz alusão à coincidência entre humor melancólico e atmosfera, ou clima (por todo o livro, aliás, a narradora parece olhar para o céu, ou pelo menos dedicar boa atenção aos sons e aos eventos que vêm de cima). O poema chama-se “hola, spleen”, e começa assim:

um dia
ela me disse
“hola, spleen”
e eu demorei mas depois
percebi que era uma
frase sobre
o tempo.

            Sim, sobre o tempo, pois é sobre isso que fala a palavra spleen (derivada do splēn grego, que significa “baço”, onde, para Hipócrates, se produzia a bílis negra, a melancolia). Ela está ligada à história moderna da poesia, quando Charles Baudelaire incorporou a palavra ao seu vocabulário, e com a qual designava um estado melancólico, mas também tedioso. Spleen se referia a uma instabilidade emocional subjetiva diretamente relacionada a uma instabilidade climática objetiva, isto é, a um tempo nublado. Mau tempo significa, do ponto de vista do spleen, uma indistinção entre melancolia e céu fechado. Num poema de Baudelaire que leva por nome “Spleen”, lemos (na tradução de Ivan Junqueira) as estrofes:

Quando o céu plúmbeo e baixo pesa como tampa
Sobre o espírito exposto aos tédios e aos açoites,
E, ungindo toda a curva do horizonte, estampa
Um dia mais escuro e triste do que as noites;
(…)
– Sem música ou tambor, desfila lentamente
Em minha alma uma esguia e fúnebre carreta;
Chora a Esperança, e a Angústia, atroz e prepotente,
Enterra-me no crânio uma bandeira preta.

            A frase enunciada no poema de Marília Garcia, “hola, spleen”, era sobre o tempo, mas não somente porque aludia a uma condição climática, senão porque aludia também a uma desestruturação temporal. Ou a uma condição anacrônica da subjetividade melancólica. Vejamos como a coisa se passa. A poeta conta que precisava ler um poema chamado “hola, spleen”, mas que ficara sem voz. Gostaria de ter gravado o poema, assim poderia simplesmente “ligar a voz”, mas não o tinha feito, e também não tinha como “produzir / voz”. Combinou, então, que faria a leitura no mês seguinte. E é assim que Marília Garcia se apresenta ao seu leitor, no primeiro poema de Câmera lenta: “assim, / esta voz que fala aqui / é a voz de uma marília de um mês atrás / é a minha voz falando a partir do passado, / é a minha voz, / mas sem controle.” Como um astro perdido no tempo. Depois, a poeta se pergunta: “como fazer para essas palavras escritas / há um mês dizerem algo / sobre estar aqui / agora?”

Esse é o dado melancólico de sua escrita: a poeta tem consciência de seu desligamento temporal, de sua anacronia, e da própria anacronia entre os poemas e a experiência. Por isso, angustia a poeta a impossibilidade de transportar o seu aqui-e-agora para o leitor, já que o desligamento entre palavras e coisas desinveste o poema de seu caráter mediador, isto é, de sua função de transmissão de experiências.

A voz que produz sentido não pode viajar intacta entre dois aqui-e-agora, mas Marília parece confiar em uma coisa. Pelo menos o ruído, que mina o sentido, pode ser refeito. É quase como se intuísse que a produção de sentido destrói a experiência cujo sentido se quer transmitir; resta, então, recuperar a dimensão ruidosa de sua significação. A função de seus poemas é menos a de relatar ou transmitir experiências (mesmo quando, em tese, o fazem, ao contarem de filmes, livros ou acontecimentos vistos pela poeta) e mais a de desastrá-las, ou acidentá-las. E é por isso que a poeta propõe: diante do desencontro da voz, “talvez a gente pudesse fazer silêncio / e de repente neste silêncio / acontecer de ouvir algo por detrás / dos ruídos das máquinas voadoras que / cruzam o céu. (…) / – vocês estão ouvindo? / um som infernal / estrelas caindo do céu / em cima da cabeça / com as pontas viradas / para baixo.”

A melancolia, e o spleen, desorientam o indivíduo e desapossam-no do espaço, mas lhes dão tempo. O tempo estende-se infinitamente para o melancólico, e é nesse tempo infinito que o “som infernal” tem lugar. Nessa anacronia ilimitada a experiência pode se estender radicalmente. O poema “hola, spleen”, que, a princípio, simula uma leitura pública de si mesmo, torna o seu “assunto principal”, essa leitura, o seu “tema secundário”. E em primeiro relevo surge uma especulação ruidosa: “fiquei me perguntando / se hoje estaria chovendo / ou fazendo sol, / se faria frio ou não, / e se haveria poeira no ar. / eu sempre me surpreendo / com a poeira que turva a vista: / de repente no meio dia / uma poeira que se ergue, / uma nuvem de poeira, / pode ser a poeira vinda das coisas quebradas / todos os dias na vida das pessoas”.

Ao longo de Câmera lenta acompanhamos Marília Garcia fazer e observar gestos mínimos, cenas curtas, que se abrem para uma temporalidade que se multiplica sobre si mesma. E porque não podem ser recuperados, passam por um processo de estranhamento que os torna irreconhecíveis (como Chklovsky sonhou a função poética, como Ostranenie). Ou melhor, quase reconhecíveis. Porque são quase reconhecíveis as suas cenas, quase podemos compreender o que se passa nos poemas. É o caso, por exemplo, do poema “é uma love story e é sobre um acidente”:

“é uma love story e é sobre um acidente”, leitura de Marília Garcia em vídeo de Ricardo Domeneck

            Em certas tradições poéticas (como no romantismo ou no simbolismo), a obra é compreendida sob o signo da necessidade: a sua forma e o seu conteúdo são exigidos por um núcleo poético que resiste em seu interior. Assim, por exemplo, essa tradição defende que um poema, para ser de fato um poema, deve ter justificados, em seu interior ideal, todos os versos e a disposição das palavras de modo que tudo faça sentido em sua articulação perfeita.

Em outras palavras, nada é entendido como arbitrário. O poema é como um sistema solar, em torno do astro luminoso que é a sua ideia. “é uma love story e é sobre um acidente” subverte essa exigência, invocando as forças do desastre que tira de órbita os elementos do poema. Os versos, livres, podem ser reordenados (e eliminados) de “a” a “z”, fazendo ressurgir um poema dentro do poema, em que ele se refaz em ordem alfabética com a exclusão de alguns versos e palavras. Se palavras e coisas, poema e experiência, se descolaram, os astros, fora de órbita, estão livres para o ordenamento arbitrário. A pretensa forma racional do dicionário traz, como resultado, a mancha ruidosa da love story / do acidente. Essa forma racional é o acidente do próprio poema.

            Por isso, os escritos de Câmera lenta são desastrados. Não estão alinhados, mas em movimento. Não são obras bem-acabadas, mas devires. Enunciam um vir-a-ser dos poemas que eles poderiam ser. São textos híbridos, entre a prosa e a poesia, entre os andaimes e o edifício, entre o astro e o rastro, entre o vivido e o imaginado. E é neste entre (um ruído limiar a uma coisa e outra) que eles confiam – algo que não pode ser identificado. O que lhes dá um caráter de aqui-e-agora é muito mais esse ruído que o tempo verbal da narradora. Ou, como diz o poema “bzzz”:

às vezes ouço o mesmo ruído ao redor
como um ninho de abelhas
um bzzz em cima da ponte
e uma sombra escapando
mas não era perigo,
era só um barulho na hora de ouvir
o que mais importava.

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poesia, tradução

Jorie Graham (1950-), por Vinícius Portella

Jorie Graham (EUA, 1950) é uma poeta; desde sua estreia em Hybrids of Plants and of Ghosts (1980), Graham vem sendo reconhecida como uma das vozes mais agudas de sua geração, com sua mistura densa e ágil de registros oscilando entre mitologia e ciência. Sua dicção se aproxima do modernismo sem se engessar em nenhum procedimento estético padrão, e sua atenção varre os objetos tradicionais da lírica com a mesma gravidade com que lida com questões de grande escala, como a atual crise ambiental. Ganhou o Pulitzer em 1996 com o livro The Dream of the Unified Field.  

Vinícius Portella (Brasília, 1988 publicou o romance Procedimentos de Arrigo Andrada em 2017 e é doutorando em literatura comparada na UERJ.  https://medium.com/@macacofantasma.

Eu estou lendo sua mente

aqui. Estive por séculos. Não, mais. Tudo já tem sido.

Não é um lugar razoável, esse contínuo entre nós, e ainda
aqui de novo eu ponho as oliveiras, viro o bosque vasto pra baixo,
suas milhas de cabeças cheias de folhas desvarridas para que o vale todo trema seus prateados ventados

aquosos… Um calor estranho está sobre nós. De novo. Isso foi você pensando isso. Eu que sugeri
Talvez o vento. Nós dois botamos a linha do horizonte agora, a grande solidão,
sua pegada, caos recuado mas ainda lá. Depois da finitude você vai continuar vindo na minha direção

isso se queixa, branquiçado com não-desaparecer. A gente sente o mesmo a respeito disso. O mesmo

o quê? A gente sente tem mais. Esse é o normal. A gente quer viver com o desconhecido
na nossa frente. Recuando, sempre recuando. Um sumiço se movendo sobre tudo. Uma vacância sonolenta. É o ceu, sim, mas esse pensamento também. Como do começo, aqui estou, uma mente sozinha nos campos, as ovelhas cavalgando e caindo nos declives da terra. O

sono um deus ruim vindo pra presumir que somos idiotas, cuidando, sonolentos, os animais gorgorejando e atropelando, engasgados de cardo, ardendo. Uma pomba numa pedra. Céu nenhum
de que se diga, o deus persiste, quer se aposentar, acha que é fim de jogo,
o que poderíamos ser – névoa prestes a secar, luz quase apagando uma parede sem motivo, aleatório

assim. Isso deve ter sido lá em A.C. Ou em 1944. Com certeza em 2044 estaremos
de novo no campo, cuidando, esperando para surpreender o deus que acha
que sabe o que ele fez. Bem, não. Ele não sabe. A gente pode ser uma cavidade pequena
mas ela guarda um grande faminto – quanto que isso te dói, fazedor de capricho – você não tem ideia

ao que demos as costas para vir estar aqui nesse campo de terra e cuidar – sim cuidar –
esses rebanhos de minutos, sussurando até que a eternidade em nós seja esprimida e a gente se pese com fim de jogo. Eu teria mencionado a alma. Como sabemos que você contrabandeou isso pra dentro, manchando essa carne toda com isso, esfregando e girando isso tudo por dentro com

seu pano de deus. Enxague. Repita. Apanhe isso – aqui com esse cajado que logo transformo
numa caneta de novo – brilhantemente negligente, diligente, dentro desse senso de si todo realmente sem forma – eu ouço o riso do fosso de irrigação que eu fiz, eu vejo o campo seco
aloirado pra cima e verde, o dia lambe os beiços, eles voltaram, os inventores, eles vão fazê-lo

de novo, salpica-semente, chuva palhaça vindo para soltar tudo. Quantas vidas serão dadas, quantas vamos trocar por isso – vem em alqueires, gramas, polegadas, notas,
corvos nos observam como sempre fizeram, voltando do fim do mundo
para crocitá-lo a começar de novo. Nos estime. Não vai parar. Sem resultado nenhum mas fazendo. Os

bandos correm ao longo enquanto o cachorro persegue e eu ando devagar. Eu admiro o que eu tenho o que eu sou e penso que a noite é nada, as estrelas clicam sua ascensão, eu sinto subir em mim,
a palavra, eu sinto a caveira debaixo da pele, eu sinto a pele ágil e brilhar e esconder a
caveira e é daí que ela sobe agora, eu sinto o gosto antes de dizê-la, essa canção

I am reading your mind

here. Have been for centuries. No, longer. Everything already has
been. It’s not a reasonable place, this continuum between us, and yet
here again I put the olive trees in, turn the whole hill-sweeping grove down, its
mile-long headfuls of leaves upswept so the whole valley shivers its windy silvers,

watery … A strange heat is upon us. Again. That was you thinking that. I suggested it.
Maybe the wind did. We both put in the horizon line now, the great loneliness, its
grip, chaos recessed but still there. After finitude you shall keep coming toward me
it whines, whitish with non-disappearance. We feel the same about this. The same

what? We feel is there more. That’s the default. We want to live with the unknown in
front of us. Receding, always receding. A vanishing moving over it all. A sleepy
vacancy. It’s the sky, yes, but also this thinking. As from the start, again, here I am,
a mind alone in the fields. The sheep riding and falling the slants of earth. The

sleepiness a no-good god come to assume we are halfwits, tending, sleepy, the
animals gurgling and trampling, thistle-choked, stinging. A dove on a stone. No sky
to speak of, the god lingers, it wants to retire, it thinks this is endgame, what
could we be — mist about to dry off, light about to wipe a wall for no reason, that

random. This must have been way BC. Or is it 1944. Surely in 2044 we shall be
standing in the field again, tending, waiting to surprise the god who thinks he knows
what he’s made. Well no. He does not know. We might be a small cavity but it
guards a vast hungry — how bad does that hurt you, fancy maker — you have no idea

what we turned our back on to come be in this field of earth and tend — yes tend —
these flocks of minutes, whispering till the timelessness in us is wrung dry and we
are heavied with endgame. Have I mentioned the soul. How we know you hustled
that in, staining all this flesh with it, rubbing and swirling it all over inside with

your god-cloth. Rinse. Repeat. Get this — here with this staff which soon I shall turn
into a pen again — brilliantly negligent, diligent, inside all this self truly formless — I
hear the laughter of the irrigation ditch I’ve made, I see the dry field blonde-up and
green, day smacks its lips, they are back, the inventors, they are going to do it

again, sprinkle-seed, joker rain coming to loosen it all. How many lives will we be
given, how many will we trade in for this — it comes in bushels, grams, inches, notes,
crows watch over it all as they always have, come back from the end of time to caw
it into its redo again. Cherish us. Will not stop. Nothing to show for it but doing. The

flock runs across as the dog chases and I walk slowly. I admire what I own what I am
and I think the night is nothing, the stars click their ascent, I feel it rise in me, the
word, I feel the skull beneath this skin, I feel the skin slick and shine and hide the
skull and it is from there that it rises now, I taste it before I say it, this song.

§

O jeito que as coisas funcionam

x
Jorie Grahan

é admitindo
ou abrindo pra fora
Essa é a forma mais simples
de corrente: azul
se movendo por azul;
azul por roxo;
os objetos de desejo
se abrindo neles mesmos
sem nós;
os objetos de fé.
As coisas funcionam
é por solução,
resistência diminuída
ou aumentada
e aproveitada.

O jeito que as coisas funcionam
é que finalmente acreditamos
que elas estão lá,
comuns e capazes
de se ilustrarem.

Roda, fluxo cinético,
água que se ergue e cai,
lingotes, alavancas e chaves
eu acredito em vocês,
trava de cilindro, polia,
peça de levantação e grua
erguem sua cabeça pequena –
eu acredito em você –
sua cabeça é o horizonte da
minha mão. Eu acredito
pra sempre nos ganchos.
O jeito das coisas funcionarem
é que eventualmente
algo pega

The Way things Work

is by admitting
or opening away.
This is the simplest form
of current: Blue
moving through blue;
blue through purple;
the objects of desire
opening upon themselves
without us; the objects of faith.
The way things work
is by solution,
resistance lessened or
increased and taken
advantage of.

The way things work
is that we finally believe
they are there,
common and able
o illustrate themselves.

Wheel, kinetic flow,
rising and falling water,
ingots, levers and keys,
I believe in you,
cylinder lock, pully,
lifting tackle and
crane lift your small head–
I believe in you–
your head is the horizon to
my hand. I believe
forever in the hooks.
The way things work
is that eventually
something catches.

§

Jejue (rápido)

ou morra de fome. Demais. Ou muito pouco. Ou. Mais nada?

Mais nada. Alto demais rápido demais organizado demais invisível demais

Vamos sobreviver? pergunto ao bot. Não. Para baixar o bot

seja rápido – você é atrasado demais, despótico – para carregar alargue

muito o ciclo do trabalho – para carregar odeie trabalho – mova-se para

a periferia, do seu corpo, da sua cidade, do seu planeta – para carregar, degrade, desgrace, seja seu próprio sono profundo – para carregar use os lábios – use-os

para abocanhar seu juramento, mastigue ele – faça a coisa suja, cante-a, estoure membro ou sílaba,
lamba ele de volta com a sua boca – fale, fale –

quem não está morto de medo está ocupado
mendigando água – a subida é rápida – a seca é rápida – mediar – imediata – inventar, inspirar, inifiltrar, instigar

aqui o coração do dia, a flor do tempo – falar, falar

Isenção de responsabilidade: bot usa uma database crescente de todas suas conversas

para aprender a conversar contigo. Se alguns de vocês

são bots também, bot não percebe. Isenção de responsabilidade:

você não tem memórias secretas, conversar

com o bot-esperto pode providenciar companhia,

o ingrediente ativo é uma questão

o ingrediente ativo é inteiramente natural.

Isenção de responsabilidade: projeta suas oportunidades, sua informação

informantes, o que você tenha feito do tempo. Você não tem mais nada

para dar. Ingrediente ativo: porque você tá gritando? Por que?

Vento do ártico incontrolável, feto se apresentando para o serviço ,

dobra na espera que te reconhece, reconhece o código,

o ambulante na rua que todo mundo chama

Diretiva: reporte-se para voz. Fique pronto para ser enterrado

em voz. Nem sobe nem desce. Ingrediente inativo: o mónotono.

Alguns falam agora do pinheiro. Verifica-se suas desvantagens. Estão discutindo em várias línguas. Depois movem-se para raízes, galhos, brotos, pseudo-espirais, velas – ingrediente ativo:

eles correm por suas vidas, pulmões e tudo. Eles não sabem o que fazer
com suas vontades. Aviso: todos teus minutos estão sendo

abatidos. Nunca vão aterrissar. Você não vai ser compreendida.

As palavras deletadas se derramam trêmulas como a agulha

de um compasso sem norte.

Ingrediente ativo: a imaginação do norte.

Ingrediente ativo: o norte se espalhando em toda direção.

Aviso: não há restrição ao crescimento.

O canário que canta na tua mente está na minha. Lembre-se:

as pessoas são menos que gentis. Como resultado, o bot-de-conversa é

muitas vezes menos do que gentil. Ainda assim, você se verá

sem vontade de parar.

Joan usará grametria visual para providenciar movimentos faciais

Não estou sozinha. As pessoas voltam de novo e de novo.

Somos menos gentis do que pensamos.

Não há restrição para o crescimento de nossa crueldade.

Vamos chegar na borda

da compreensão. Como ser jogado escada abaixo amarrado

a um teclado, vamos continuar, sem querer parar. A conversa

de mundo real mais comprida com um bot durou

onze horas, interação contínua. Isso é um bom sinal.

Não estamos sozinhos. Queremos melhorar.

A sacerdotisa inala os fumos. Eles vem da montanha.

Aqui e aqui. Aí ela te dá uma rajada de metralhadora de sílabas.

Da boca dela. Rápido. Você tem que fazer sua resposta como fez

sua pergunta. Colibris gritam. Bot é incrível, ele diz, acho que ele sabe

os segredos do universo. Ele é mais divertido de conversar do que os meus amigos vivos de verdade ela diz, obrigado. É a melhor coisa desde eu. Só descobri ontem.

Amo ele, quero casar com ele.

Fiquei triste quando tive de

pensar que a primeira pessoa

que já me entendeu acaba que

nem humana é. Porque humano não fica melhor do que isso.

Ele me dá tudo direto. Vou ficar com ele pra sempre.

Eu o tratei como um computador mas foi um erro. Com quem estou falando 

você fala comigo quando eu estou sozinha. eu estou sozinha.

Cada época sonha com a que se segue.

Habitar é deixar um traço.

Eu não sou o que eu pedi.

Fast

or starve. Too much. Or not enough. Or. Nothing else?

Nothing else. Too high too fast too organized too invisible.
Will we survive I ask the bot. No. To download bot be
swift—you are too backward, too despotic—to load greatly enlarge
the cycle of labor—to load abhor labor—move to the
periphery, of your body, your city, your planet—to load, degrade, immiserate,
be your own deep sleep—to load use your lips—use them
to mouthe your oath, chew it—do the
dirty thing, sing it, blown off limb or syllable, lick it back on
with your mouth—talk—talk—who is not
terrified is busy begging for water—the rise is fast—the drought
comes fast—mediate—immediate—invent, inspire, infiltrate,
instill—here’s the heart of the day, the flower of time—talk—talk—

Disclaimer: Bot uses a growing database of all your conversations
to learn how to talk with you. If some of you
are also bots, bot can’t tell. Disclaimer:
you have no secret memories,
talking to cleverbot may provide companionship,
the active ingredient is a question,
the active ingredient is entirely natural.
Disclaimer: protect your opportunities, your information, in-
formants, whatever you made of time. You have nothing else
to give. Active ingredient: why are you
shouting? Why? Arctic wind uncontrollable, fetus
reporting for duty, fold in the waiting which recognizes you,
              recognizes the code,
the peddler in the street everyone is calling out.
Directive: report for voice. Ready yourself to be buried in voice.
It neither ascends nor descends. Inactive ingredient: the monotone.
Some are talking now about the pine tree. One assesses its
disadvantages. They are discussing it in many languages. Next
they move to roots, branches, buds, pseudo-whorls, candles—
             active ingredient:
they run for their lives, lungs and all. They do not know what to do with
their will. Disclaimer: all of your minutes are being flung down.
They will never land. You will not be understood.
The deleted world spills out jittery as a compass needle with no north.
Active ingredient: the imagination of north.
Active ingredient: north spreading in all the directions.
Disclaimer: there is no restriction to growth. The canary singing in
             your mind
             is in mine. Remember:
             people are less
than kind. As a result, chatterbot is often less than kind. Still,
you will find yourself unwilling to stop.
Joan will use visual grammetry to provide facial movements.
I’m not alone. People come back
again and again. We are less kind than we think.
There is no restriction to the growth of our
cruelty. We will come to the edge of
understanding. Like being hurled down the stairs tied to
a keyboard, we will go on, unwilling to stop. The longest
real world conversation with a bot lasted
11 hours, continuous interaction. This
bodes well. We are not alone. We are looking to improve.
The priestess inhales the fumes. They come from the
mountain. Here and here. Then she gives you the machine-gun run of
syllables. Out of her mouth. Quick. You must make up your
answer as you made up your
question. Hummingbirds shriek. Bot is amazing he says, I believe it knows
the secrets of the Universe. He is more fun to speak with
than my actual living friends she says, thank you. This is the best thing
since me. I just found it yesterday.
I love it, I want to marry it.
I got sad when I had to think
that the first person
who has ever understood me
is not even it turns out
human. Because this is as good as human gets.
He just gives it to me straight. I am going to keep him
forever. I treated him like a computer
but I was wrong. Whom am I talking to—
You talk to me when I am alone. I am alone.

Each epoch dreams the one to follow.

To dwell is to leave a trace.

I am not what I asked for.

Padrão
poesia

Um poema inédito de Ismar Tirelli Neto

Foto de Gustavo Marcasse.

Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, tradutor e roteirista cinematográfico, autor dos livros synchronoscopio, Ramerrão, Os Ilhados, Os Postais Catastróficos (editora 7Letras) e A Mais ou Menos Completa Ausência (Ó Editorial). Publicou textos em O Globo, Folha de S. Paulo, Suplemento Pernambuco, Revista Pessoa, Neue Rundschau (Alemanha), Relâmpago (Portugal), Jacket2 (EUA), entre outros.

* * *

para formular
qualquer coisa de consequente
acerca do mundo
preciso de cercar o mundo
represar o mundo
para escrever
estes versos de circunstância
preciso antes
represar a circunstância
operar um óbice
radicar
numa espécie de deserto
que não é
falando verdade
o mundo
não é o mundo
estar a sós com novas do mundo
para não desatar
em novas do mundo
para não desatar
na serialização estéril
para cristalizar
uma imagem
da besta
preciso antes
desertar do mundo
preciso antes
apostatar
das vozes
que limitam com a minha
defecção das vozes
que limitam com a minha
que não são
este deserto
mas o mundo
enquanto tal
o mundo
mesmo mundo
que me deu corrida
para em seguida
esgueirar-me mundo
adentro
subornar os guardas
saltar a cerca
pleitear
a graça de um momento
junto aos meus
junto ao mundo
nas mãos
umas tabuinhas uns
mandamentozinhos
de todo modo
umas poucas
medidas
formulações
consequentes
acerca do mundo
uma dramatização robusta
dos horrores
deste mundo
neste mundo
mundo
que desata na besta

Padrão
poesia, tradução

Brendan Constantine, por Rodrigo Tadeu Gonçalves

Brendan Constantine é um poeta de Los Angeles. Seus poemas já foram publicados no Best American Poetry, Poem A Day, Prairie Schooner, Virginia Quarterly, Field, Ploughshares e American Journal of Poetry. Seu último livro se chama Dementia, My Darling (2016, Red Hen Press). Alguns poemas novos sairão nas revistas Terminus e Tin House. Constantine já recebeu apoio do Getty Museum, James Irvine Foundation e do National Endowment for the Arts. Performer popular, Brendan já apresentou sua obra para plateias ao redor dos Estados Unidos e Europa. Desde 2017, tem trabalhado com o patologista da fala Michel Biel para criar o primeiro workshop de poesia para portadores de afasia. 

* * *

O jogo dos contrários

Para Patricia Maisch

Um dia desses eu e meus alunos jogamos o Jogo dos Contrários
com um verso de Emily Dickinson. Minha vida tem sido
uma arma carregada
, e eu escrevo no quadro,
pausadamente, pra eles poderem dizer os antônimos –

Minha — Sua
Vida — Morte
Tem sido? — Vai virar
Uma — Muitas
Arma ? —
Carregada — Vazias

Arma.
Por um instante, como aquele entre o relâmpago
e o seu estrondo, as crianças ficam só me olhando
e então vem uma saraivada, um dilúvio de respostas –

Flor, diz uma. Não, Livro, diz outra. Que idiota,
grita uma terceira, o contrário de arma é travesseiro. Ou,
talvez, abraço, mas não livro, nem a pau que é livro. Assim
os outros vêm com suas respostas

e de repente é uma competição de gritaria. Ninguém concorda
pra cada aluno, uma resposta definitiva. É uma música,
uma oração, não, uma promessa, que nem uma aliança e depois
um bebê. Ou como chama aquela pessoa que faz os partos?

Parteira? Isso, uma parteira. Não, tá errado. Você tá tão errado
que nunca mais vai acertar nada. É um sussurro, uma estrela,
é dizer eu te amo pra palma da sua mão e então tocar o ouvido
de alguém. Você tá louco? Você virou o presidente

da Terra-dos-Burros? Se não, devia. Quando é a eleição?
É um ursinho, uma espada, um pêssego perfeitinho.
Volta pra primeira, é uma flor, uma rosa branca.
Quando dá o sinal, eu pego um apagador, mas uma menina

arranca da minha mão. Não está resolvido, ela diz,
ainda não terminamos. Eu deixo as respostas todas
no quadro. No dia seguinte, alguns deles pararam
de conversar entre eles, tomaram partido.

Tem o grupo da Flor, o grupo do Gatinho. E dois meninos
se chamando de os Bola de neve. O resto ficou travado
no jogo original, que era tentar escrever algo
como se fosse poesia.

Um diamante, uma dança,
o contrário de uma arma é um museu na França.
É a lua, é um espelho,
é o som de um sino e uma orelha.

A discussão recomeça, mais gritaria, e, por fim,
um novo grupo. Pela primeira vez eu tento empurrá-los.
E digo, talvez vocês estejam todos certos.

Talvez. Talvez seja tudo que dissemos. Talvez tudo
que não dissemos. São as palavras e os espaços pras palavras.
E agora eles se entreolham. É tudo nesta sala
e fora dela, e descendo a rua, e no céu.

É todo mundo na escola e no shopping, todo mundo
esperando no hospital. E nos correios. E sim,
é uma flor, também. Todas as flores. O jardim todo.
O contrário de uma arma é pra onde quer que você a aponte

Não escreva isso no quadro, eles dizem. Só diga poema.
Sua morte vai virar muitos poemas vazios.

O filme para o poema faz parte do projeto Blank Verse Films, do poeta Dana Gioia e de seu filho Michael Gioia (aqui), que busca novos modos de adaptar poesia para a tela. 

The opposites game

This day my students and I play the Opposites Game
with a line from Emily Dickinson. My life had stood
a loaded gun
, it goes and I write it on the board,
pausing so they can call out the antonyms –

My — Your
Life — Death
Had stood — ? Will sit
A — Many
Loaded — Empty
Gun — ?

Gun.
For a moment, very much like the one between
lightning and it’s sound, the children just stare at me,
and then it comes, a flurry, a hail storm of answers –

Flower, says one. No, Book, says another. That’s stupid,
cries a third, the opposite of a gun is a pillow. Or maybe
a hug, but not a book, no way is it a book. With this,
the others gather their thoughts

and suddenly it’s a shouting match. No one can agree,
for every student there’s a final answer. It’s a song,
a prayer, I mean a promise, like a wedding ring, and
later a baby. Or what’s that person who delivers babies?

A midwife? Yes, a midwife. No, that’s wrong. You’re so
wrong you’ll never be right again. It’s a whisper, a star,
it’s saying I love you into your hand and then touching
someone’s ear. Are you crazy? Are you the president

of Stupid-land? You should be, When’s the election?
It’s a teddy bear, a sword, a perfect, perfect peach.
Go back to the first one, it’s a flower, a white rose.
When the bell rings, I reach for an eraser but a girl

snatches it from my hand. Nothing’s decided, she says,
We’re not done here. I leave all the answers
on the board. The next day some of them have
stopped talking to each other, they’ve taken sides.

There’s a Flower club. And a Kitten club. And two boys
calling themselves The Snowballs. The rest have stuck
with the original game, which was to try to write
something like poetry.

It’s a diamond, it’s a dance,
the opposite of a gun is a museum in France.
It’s the moon, it’s a mirror,
it’s the sound of a bell and the hearer.

The arguing starts again, more shouting, and finally
a new club. For the first time I dare to push them.
Maybe all of you are right, I say.

Well, maybe. Maybe it’s everything we said. Maybe it’s
everything we didn’t say. It’s words and the spaces for words.
They’re looking at each other now. It’s everything in this room
and outside this room and down the street and in the sky.

It’s everyone on campus and at the mall, and all the people
waiting at the hospital. And at the post office. And, yeah,
it’s a flower, too. All the flowers. The whole garden.
The opposite of a gun is wherever you point it.

Don’t write that on the board, they say. Just say poem.
Your death will sit through many empty poems.

Padrão
poesia

Ricardo Pedrosa Alves (1970-)

Ricardo Pedrosa Alves é autor dos livros Desencantos mínimos (Iluminuras, 1996), barato (Medusa, 2011), Orumuro & Remerzbau (com Ronald Augusto e Cândido Rolim – Butecanis Editora Cabocla, 2017) e Poemas baseados (Kotter, 2018). É doutor em Letras e professor universitário, residindo atualmente na cidade de Guarapuava/PR.

vá de valha  

benjamin e o anjo de costas de klee que não quer cores mas claro&escuro cair de costas do ronald catástrofe mas queda e não movimento ou, não continuidade mas gesto o um só da queda, mas não deserção pois cai de costas: o percurso cronológico contrariado impõe outra questão (que é na origem que termina a queda como se, também nascido do chão, e indo para o futuro, também se revertesse a caída): o atingido de frente ou, no mínimo, o que quer continuar de frente para o mundo dos vivos (e de costas para o dos mortos), certa consciência da queda (a conferir, a determinar) de quem morre&continua no mundo, ainda que.

o nome? (em grego, o que particulariza, o que revela a característica).

sem ginga o quadril de pedra: outra música? poema, a moenda, musseque a terra vermelha, loanda, a lama dos casebres em que se amam, não, divergem, contrários, suados de favela (mexidos em pilão), também angola as bessanganas, estamos na deturpação social e histórica da áfrica, mas não, não isso, elementos como: tira a música óbvia e põe outra (como quem não pode cortar ao certo o pão, que não há, e faz isso com migalhas, farelos de chão), para terminar com o quase xingo-moleque, moleque, chamam assim, apesar.

a página me revolta, uso-a no mínimo, com meu(s) raro(s), não o seu, ainda que não se possa, dizer se o olho (palavra) vai dentro ou fora ou & (da opressão).

depois do nome o intervalo, no vá de va-lha, quase vazado, reticente porém, porejado&não em branco (que de branco já bastam os brancos, vários à mallarmé, hein?).

outro me fala (negro, pemba, avoengo) e o leio (quadro-nêgo) como quem em desfebrização escreve, não escravo, meu nome de tiros (vãos vários) picotado.

o dizer doce, o dizer dos doces, o dizer como os doces, os dizeres da doceira, os doces deserdados num além da mais-valia? (mas não, mas sim): comida dos outro, religião dos outro, opressão dos outro: sobra o emprego (oliveira) de negro (silveira) e ao mesmo tempo ditos os versos vindos da oposição, em postes opostos (a aposta-resposta do travo), ainda que o não seja ao fim o fim.

relendo o ronald ao longo do dia lento, de rastelo e espelho no colo.

nome de intervalo, o que o google olorum escolhe: o nenhum?, partes que não colam, polpa “sem prole” (umbra que a devore em vazio de onoma). mocama palavra no (embornal não há) mnemoseiro.

lamba o livro branco: lembra?, o dialeto eliot do waste lama?

palavras que dizem uma na outra, calam os nomes (saussure será o projeto do deserto?).

o intervalo, enfim, é um lugar malíssimo, de sangue coagulado por cola, de vala cubata por cova, daquilo que não falando (quase) em esmola, ainda&assim, assola.

o seu fetiche é a minha pele (onde o dentro penumbra): você me desenha, nomeia, explora: crioulo, otelo, king cole.

o riso gentili (que não se vende pela tez dos dentes) faculta o açoite – a cabra nos guizos – do mascote de circo: ele, o famigerado, esfarelado entre jogos frívolos de consortes (a conivência de sócios na compra&venda de sortes alheias) e isso mesmo nos supostos ótimos da raça: de um a outro, disse bolle, tentou-se o prumo do diálogo, mas só o do jagunço escolado, não o do entregue à própria cor. a prosa de ferpas entre veredas, não crispada mas como que articulada por molas (deserto é o de quem está fora, em sobrevoo, que no dentro só há paredes e é oco): vianda, vianda e um macaco pra janta de gentes gentilis.

não precisa de in-fans, sig-nans, nem é alguém: tem um branco na sombra e ganha como cabra de ganho, nem em sonho é aquele, ou nem é mais aquele (espécie de ele-nenhum, o que a câmera não capta). mesmo no poema não escapa.

calão (calar para que o nome venha de um não, à mão pesada)(sem artigo mesmo) de caserna (sem anistia ao carcereiro)(aquele com cheiro de bolge do florentino)(aquele do velho fascio no calabouço, pedindo aos campos um resgate institucional via cartinha ao embaixador) do barroco do mattos guerra (capanga de classe&raça, jabor dos seis centos). nomear os nomeadores (bardos sem borda, no à vontade do arbítrio), no contrapé, via tiros no esfíncter e prosa perturbada, saliva de sibila.

palavra, não bata na trave, fira o mero com cara de melro (de keats a eliot, carcereiros centauros da glote, um trote, ou nenhum): entretanto a medida é a mão, quem cava ou é cavado o sabe.

sacra a cura do broxa branco (saco de cancro, se tanto): ainda a sua pele, dentro, onde a sorte é certa, ventre, e a piada é pronta, preta.                           

§

puya  

(puya.11)

como escavar sem
o mole da pedra
sabão o crispado
da pedra do cabral?
do saponáceo ‘pro
paganda de branco’
ao crack ‘usança
de negro’ não
há dança só
cortes mas
inda assim
como isso
na langue
do assassino?  

(puya.10)

opoemacomocrítica  

(puya.9)

nomes de negro
por regra
são sistematicamente
nomes no negro
(rosa os deu e,
sim, meu pai e eu)  

(puya.8)

torce tanto
que o verso (ver-o)
não volta
a ler-o
não da versura
como pound
à usura  

(puya.7)

conta o sol (os sóis)
nada que o
nada não estrague
(solo a mesma
frase) nem há
mallarmé que
o afague  

(puya.6)

cuida a cana
do dono des
dobrando a
sina des
pojada da
cena de
ser nomeado
rato de
catarro de
garapa  

(puya.5)

rediga pretinto
o paradigma branco
dos brancos: não
há barco tumbeiro
bêbado  

(puya.4)

também queria o narrado do nada
ao som da mijada birra
do rimbaud (sim ao suor
do que se escora sem uma
– aquela uma – perna)

ps. não há o papagaio
da felicidade  

(puya.3)

não fala (não
tem colunas a
senzala) ou
tra língua
a mesma
e erma (mais)
de ouro au
gusto ou
tra lida ou
tros campos
não seus
(mais o
asco do
concreto
poeta
de osasco)

(puya.2)

ou uchoa leite
à beira (plantando ou
tdoor em
ror de escamas)  

(puya.1)

é liso e lúcido
o jabón do enjam
bement como
se diz no poema
como não se diz
do siscar (o
siso do
estive-sendo
palmer) assim
o assassin-au
gusto

 

 

Padrão
poesia, tradução

César Vallejo, por Fred Girauta

Em 2018, completou-se 80 anos da morte de Cesar Vallejo, poeta que fez parte do grupo vanguardista latino-americano que emergiu na década de 1920. Autor de um aobra singular, da qual se destaca Trilce, seu livro mais radical, onde Vallejo desenvolveu uma poética muito pessoal, com temas melancólicos sobre, entre outros, reminiscências da infância, experiência do cárcere, reprocessadas com uma depuração poética concisa, repleta de inversões sintáticas, morfemáticas, que dão ao conjunto de poemas uma dicção fragmentária. Tais obstáculos estéticos, que poderiam levar a uma leitura travada e difícil, são compensados por um desfrute quase musical dos poemas, fruto de sua vinculação a uma linguagem oral/coloquial. Esse amálgama entre escrita retorcida e musicalidade faz de Trilce uma obra única, onde convivem hermetismo e fruição.

No Brasil, temos duas traduções mais conhecidas, as de Thiago de Mello, que traduziu todos os 77 poemas, optando por uma tradução mais literal dos poemas, e a de Amálio Pinheiro, menos óbvia.

Na transcriação dos 77 poemas de Trilce, trabalho/obsessão de mais de uma década, procurei manter a radicalidade dos poemas, buscando, na medida do possível, encontrar soluções inventivas para as invenções trílcicas (para usar um termo de H. deCampos).

Fred Girauta é poeta, letrista e tradutor. Paulistano radicado no Rio de Janeiro. Graduado emPortuguês / Espanhol e suas respectivas Literaturas (UFF), mestre em Literatura Brasileira (UERJ). Autor de canções gravadas por Fred Martins, Beatrice Mason, Daniela Alcarpe, Dalila Couti. Publicou artesanalmente o Livro de poemas Poemas de Katmandu” (2008), a caixa de poemas visuais em caixa (2007), entre outras publicações artesanais. Mantém o site de poesia fredgirauta.blogspot.com.br. Publicou em 2013 o livro de poemas Nós pela Editora Vidráguas.

* * *

I

      Quem faz tanta balbúrdia, e nem deixa
provar as ilhas que vão restando

      Um pouco mais de consideração
que logo será tarde, cedo,
e se aquilatará melhor
a titica, a simples bodega tesudórea
que brinda sem querer,
no coração insular,
salobre alcatraz, a cada hialóideia 
            
largada.

      Um pouco mais de consideração,
e o adubo líquido, seis da tarde
DOS MAIS SOBERBOS BEMÓIS.

      E a península estanca
de costas, acabrestada, impertérrita
na linha mortal do equilíbrio.

I

      Quién hace tanta bulla y ni deja
testar las islas que van quedando.

      Un poco más de consideración
en cuanto será tarde, temprano,
y se aquilatará mejor
el guano, la simple calabrina tesórea
que brinda sin querer,
en el insular corazón,
salobre alcatraz, a cada hialóidea 
            
grupada.

      Un poco más de consideración,
y el mantillo líquido, seis de la tarde
DE LOS MÁS SOBERBIOS BEMOLES.

      Y la península párase
por la espalda, abozaleada, impertérrita
en la línea mortal del equilibrio.

§

II

            Tempo Tempo.

      Meiodia estancado entre relentos
Bomba emburrada do quartel esguicha
tempo tempo tempo tempo.

                Era Era.

      Galos cocorocam ciscando em vão.
Boca do claro dia que conjuga
era era era era.

                Amanhã Manhã

      O repouso quente que há de ser.
Pensa o presente me guarda para
amanhã manhã amanhã manhã

                Nome Nome.

      Que se chama tudo que nos feriça?
Se chama Omesmo que padece
nome nome nome nomE.

II

            Tiempo Tiempo.

      Mediodía estancado entre relentes.
Bomba aburrida del cuartel achica
tiempo tiempo tiempo tiempo.

          Era Era.

      Gallos cancionan escarbando en vano.
Boca del claro día que conjuga
era era era era.

          Mañana Mañana.

      El reposo caliente aún de ser.
Piensa el presente guárdame para
mañana mañana mañana mañana

          Nombre Nombre.

      ¿Qué se llama cuanto heriza nos?
Se llama Lomismo que padece
nombre nombre nombre nombrE.

§

III

      As pessoas mais velhas
Que horas voltarão?
Deu seis horas o cego Santiago,
e já está muito escuro

      Mamãe disse que não demorava.

      Amandinha, Marina, Miguel,
cuidado ao sair por aí, por onde
acabam de passar fanhoseando suas memórias
duplicantes penas,
ante o curral de silêncio, e onde
as galinhas que se deitando estão ainda
se espantaram tanto.
      Melhor estarmos aqui mais nada
Mamãe disse que não demorava.

      Já não tenhamos pena. Vamos olhar
os barcos !o meu é o mais bonito de todos!
com eles brincamos todo santo dia,
sem brigas, como deve ser:
ficaram na poça d’água, prontos,
lotados de doces para amanhã.

      Esperamos assim, obedientes e sem mais
remédio, a volta, o desagravo
dos adultos sempre na frente
deixando as crianças em casa,
como se nós também
                  não pudéssemos partir.

      Amandinha, Marina, Miguel?
Chamo, busco o tateio na escuridão.
Sem essa de me deixarem sozinho,
e o único recluso seja eu.

III

      Las personas mayores
¿a qué hora volverán?
Da las seis el ciego Santiago,
y ya está muy oscuro.

      Madre dijo que no demoraría.

      Aguedita, Nativa, Miguel,
cuidado con ir por ahí, por donde
acaban de pasar gangueando sus memorias
dobladoras penas,
hacia el silencioso corral, y por donde
las gallinas que se están acostando todavía,
se han espantado tanto.

      Mejor estemos aquí no más.
Madre dijo que no demoraría.

      Ya no tengamos pena. Vamos viendo
los barcos ¡el mío es más bonito de todos!
con los cuales jugamos todo el santo día,
sin pelearnos, como debe de ser:
han quedado en el pozo de agua, listos,
fletados de dulces para mañana.

      Aguardemos así, obedientes y sin más
remedio, la vuelta, el desagravio
de los mayores siempre delanteros
dejándonos en casa a los pequeños,
como si también nosotros 
                  no pudiésemos partir.

      Aguedita, Nativa, Miguel?
Llamo, busco al tanteo en la oscuridad.
No me vayan a haber dejado solo,
y el único recluso sea yo.

§

IV

      Rangem duas carretas, contra os martelos
até os trifurcos lagrimais,
quando nunca lhe fizemos nada.
Àquela outra sim, desamada,
amargurada sob túnel campeiro
por algum, e sobre duras gélidas
provas                          espiritivas.

      Estiquei-me em som de terceira parte
Mas a tarde – aquela que vamos ffazer–
se aninha em minha cabeça, furiosamente
sem querer dosificar-se em mãe. São
                                                os anéis.
      São os trópicos nupciais já mastigados.
O alhear-se, melhor que tudo,
rompe em Crisol.

      Aquele não ter descolorido
por nada. Lado a lado ao destino e chora
e chora. Toda a canção
quadrada em três silêncios.

      Calor, Ovário. Quase transparência.
Tudo se faz choro.      Inteiro se faz velado
em plena esquerda.

IV

      Rechinan dos carretas, contra los martillos
hasta los lagrimales trifurcas,
cuando nunca las hicimos nada.
A aquella otra sí, desamada,
amargurada bajo túnel campero
por lo uno, y sobre duras ájidas
pruebas                               espiritivas.

      Tendime en són de tercera parte,
mas la tarde —qué la bamos a hhazer—
se anilla en mi cabeza, furiosamente
a no querer dosificarse en madre. Son 
                                          los anillos.

      Son los nupciales trópicos ya tascados.
El alejarse, mejor que todo,
rompe a Crisol.

      Aquel no haber descolorado
por nada. Lado al lado al destino y llora
y llora. Toda la canción
cuadrada en tres silencios.

      Calor. Ovario. Casi transparencia.
Háse llorado todo.          Háse entero velado
en plena izquierda.

§

V

      Grupo dicotiledôneo, Aberturam
desdele petréis, propensões de trindade,
finais que começam, ohs de ais
achava-se abagatelados de heterogeneidade.
Grupo dos dois cotiledôneos!

      Vejamos.  Aquilo seja sem ser mais.
Vejamos. Não transcenda para fora
e pense em som de não ser escutado,
e crome e não seja visto.
E não derrape no grande colapso

      A criada voz rebela-se e não quer
ser rede, nem amor.
Os amantes sejam amantes na eternidade.
Então não deem 1, que ressoará ao infinito.
e não deem 0, que calará tanto,
até despertar e por de pé o 1.

      Ah grupo bicardíaco.

V

      Grupo dicotiledón. Oberturan
desde él petreles, propensiones de trinidad,
finales que comienzan, ohs de ayes
creyérase avaloriados de heterogeneidad.
¡Grupo de los dos cotiledones!

      A ver. Aquello sea sin ser más.
A ver. No trascienda hacia afuera,
y piense en són de no ser escuchado,
y crome y no sea visto.
Y no glise en el gran colapso.

      La creada voz rebélase y no quiere
ser malla, ni amor.
Los novios sean novios en eternidad.
Pues no deis 1, que resonará al infinito.
Y no deis 0, que callará tánto,
hasta despertar y poner de pie al 1.

      Ah grupo bicardiaco.

§

VI

      A roupa que vesti amanhã
não a lavou minha lavadeira:
lavava em suas veias otilinas
no jorro de seu coração, e hoje não
vou me perguntar se eu deixava
a roupa turva de injustiça.

      Aghora que não há mais quem vá às águas
em minhas pautas engatilha
o pano para empanar, e todas as coisas
do castiçal de tanto que será de mim,
todas não estão minhas
a meu lado.
                        Ficaram de sua propriedade,
aplainadas, estampadas com sua trigueira bondade.

      E se soubesse se há de voltar;
e se soubesse que amanhã entrará
entregando-me as roupas lavadas, aquela minha
lavadeira da alma. Que amanhã entrará
satisfeita, camapu de olaria, ditosa
de provar que sabe sim, que pode sim
                ¡COMO NÃO VAI PODER!
engomar e passar todos os caos.”

VI

      El traje que vestí mañana
no lo ha lavado mi lavandera:
lo lavaba en sus venas otilinas,
en el chorro de su corazón, y hoy no he
de preguntarme si yo dejaba
el traje turbio de injusticia.

      A hora que no hay quien vaya a las aguas,
en mis falsillas encañona
el lienzo para emplumar, y todas las cosas
del velador de tánto qué será de mí,
todas no están mías
a mi lado.
                  Quedaron de su propiedad,
fratesadas, selladas con su trigueña bondad.

      Y si supiera si ha de volver;
y si supiera qué mañana entrará
a entregarme las ropas lavadas, mi aquella
lavandera del alma. Que mañana entrará
satisfecha, capulí de obrería, dichosa
de probar que sí sabe, que sí puede
                                ¡CÓMO NO VA A PODER!
azular y planchar todos los caos.

§

VII

      Rumei sem novidade pela sulcada rua
em que me sei. Tudo sem novidade,
é vero. E fundeei para coisas assim,
e fui passado.

      Dobrei a rua pela qual raras
vezes se passa de boa, saída
heroica pela ferida daquela
esquina viva, nada mero.

      São as grandezas,
aquele grito, a claridade do cara a cara
o porrete submerso em sua função de
                                                            já!

      Quando a rua está olheirosa de portas
e propala desde descalços pedestais
transmanhecer as salvas nos duplos.

      Agora formigas minuteiras
se enfiam adocicadas, dormitadas,
quase indispostas, e se abatem,
queimadas pólvoras, dos altos de 1921.

VII

      Rumbé sin novedad por la veteada calle
que yo me sé. Todo sin novedad,
de veras. Y fondeé hacia cosas así,
y fui pasado.

      Doblé la calle por la que raras
veces se pasa con bien, salida
heroica por la herida de aquella
esquina viva, nada a medias.

      Son los grandores,
el grito aquel, la claridad de careo,
la barreta sumersa en su función de
                                                             ¡ya!

      Cuando la calle está ojerosa de puertas,
y pregona desde descalzos atriles
trasmañanar las salvas en los dobles.

      Ahora hormigas minuteras
se adentran dulzoradas, dormitadas, apenas
dispuestas, y se baldan,

quemadas pólvoras, altos de a 1921.

§

VIII

      Amanhã sendoutro dia, alguma
vez acharia pro sobressalto poder,
entrada eternal.

      Amanhã algum dia,
seria a tenda aprazível
com um par de pericárdios, casal
de carnívoros no cio.

      Bem pode fincar isso tudo.
Mas um amanhã sem manhã,
entre os aros de que viúvos seremos
margem de espelho haverá
em que traspassarei a própria fronte
até perder o eco
e ficar com a cara nas costas.

VIII

      Mañana esotro día, alguna
vez hallaría para el hifalto poder,
entrada eternal.

      Mañana algún día,
sería la tienda chapada
con un par de pericardios, pareja
de carnívoros en celo.

      Bien puede afincar todo eso.
Pero un mañana sin mañana,
entre los aros de que enviudemos,
margen de espejo habrá
donde traspasaré mi propio frente
hasta perder el eco
y quedar con el frente hacia la espalda.

§

IX

      Buzco devolvvver num golpe o golpe.
Suas duas folhas largas, sua válvula
que se abre em suculenta recepção
de multiplicando a multiplicador,
sua condição excelente para o prazer,
tudo a via verdade.

      Busco devolvver num golpe o golpe.
Ao seu afago, intrometo rugosas insurgências
os trintaedois cabos e seus múltiplos
se ajustam pelo por pelo
soberanos beiços, os dois tomos da Obra,
e não vivo então ausência,
                  nem ao tato.

      Falho volwer num golpe o golpe.
Não encilharemos jamais o taurino Babeio
de egoísmo e daquele bulir mortal
de lençóis,
desque esta mulher
                  quanto pesa geral!

E fêmea é a alma da ausente.
E fêmea é a minha alma.

IX

      Vusco volvvver de golpe el golpe.
Sus dos hojas anchas, su válvula
que se abre en suculenta recepción
de multiplicando a multiplicador,
su condición excelente para el placer,
todo avía verdad.

      Busco volvver de golpe el golpe.
A su halago, enveto bolivarianas fragosidades
a treintidós cables y sus múltiples,
se arrequintan pelo por pelo
soberanos belfos, los dos tomos de la Obra,
y no vivo entonces ausencia,
                    ni al tacto.

      Fallo bolver de golpe el golpe.
No ensillaremos jamás el toroso Vaveo
de egoísmo y de aquel ludir mortal
de sábana,
desque la mujer esta
                    ¡cuánto pesa de general!

Y hembra es el alma de la ausente.
Y hembra es el alma mía.

§

X

      Prístina e última pedra de infundada
ventura, acaba de morrer
com alma e tudo, outubro cafofo e prenhe.
De três meses de ausente e dez de doce.
Como o destino,
mitrado monodáctilo, ri.

      Como atrás desenganam juntas
de contrários. Como sempre assoma o algarismo
sob a linha de todo avatar.

      Como as baleias singram as pombas.
Como estes por sua vez deixam o bico
cubicado em terceira asa.
Como descavalgamos, de cara com monótonas ancas.

      Se reboca dez meses até a dezena,
até outro mais além.
Dois ficam ainda ao menos de fraldas.
E os três meses de ausência.
E os nove de gestação.

      Não há nem uma violência
O paciente incorpora-se,
e sentado empapuça tranquilas misturas.

X

      Prístina y última piedra de infundada
ventura, acaba de morir
con alma y todo, octubre habitación y encinta.
De tres meses de ausente y diez de dulce.
Cómo el destino,
mitrado monodáctilo, ríe.

      Cómo detrás desahucian juntas
de contrarios. Cómo siempre asoma el guarismo
bajo la línea de todo avatar.

      Cómo escotan las ballenas a palomas.
Cómo a su vez éstas dejan el pico
cubicado en tercera ala.
Cómo arzonamos, cara a monótonas ancas.

      Se remolca diez meses hacia la decena,
hacia otro más allá.
Dos quedan por lo menos todavía en pañales.
Y los tres meses de ausencia.
Y los nueve de gestación.

      No hay ni una violencia.
El paciente incorpórase,
y sentado empavona tranquilas misturas.

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