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XANTO|A crítica que julga não é a crítica que lê, por Rafael Zacca

“A espada de Dâmocles”, pintura de Félix Auvray (1800-1833).

Sobre a polêmica iniciada na Folha, em abril deste ano, a propósito da poesia contemporânea e de sua “sisudez e hermetismo”, escrevi uma resposta, que fiquei pensando um bom tempo se deveria publicar ou não. Circulou entre alguns poucos amigos. Agora que o calor já passou, publico aqui, não na Folha, mas na Bolha (rs), menos por achar que é uma discussão doméstica, e mais por achar que o tempo da publicação para esse tipo de texto — que é mais interventivo que de fôlego — já passou. Além disso, é provável mesmo que apenas duas ou três pessoas leiam; as coisas se esquecem rápido e há outras mais urgentes na ordem do dia. Mas como estava organizando os arquivos no PC e vi um texto ir para a gaveta, resolvi publicar aqui. De todo modo, esse debate, sobre a função e a posição da crítica, precisa ser feito também na grande mídia. As coisas não podem ficar sem resposta. Por enquanto, boa parte do melhor desse debate se restringe à academia (e tendo a achar que isso é um problema).

Rafael Zacca

* * *

“A crítica que julga não é a crítica que lê”
por Rafael Zacca

Há um poema de Fabio Weintraub que propõe que “a maneira pela qual / você faz / uma coisa / é a maneira / pela qual / faz todas as coisas”. “Grito com a cara no travesseiro”, diz o poeta, “grito com meus filhos”. É uma boa hipótese.

Diante dela, não é secundário que críticos e críticas se preocupem com a função que exercem no mundo das artes e na vida social.

Seria apenas divertido que Mariella Augusta Masagão publicasse um artigo sobre a sisudez e hermetismo da poesia brasileira com certa passivo-agressividade.

Em 14 de abril deste ano, em sua coluna “Perspectivas”, na Folha de São Paulo, Masagão escreveu que “a nova poesia brasileira é hermética, mas muito distante do velho simbolismo com seus abismos, suas flautas e seus vinhos”, próxima demais “das pequeninas sensações do agora, da atenção a cenas ou cenários cotidianos (…) que assinalam, muitas vezes, confusão e suscetibilidade.”

Seria divertido porque a pesquisadora não proporciona a leitura de um único verso que sustente a sua hipótese. E é sempre gracioso ver um impressionismo publicado assim, em jornal de grande circulação, com ares de pesquisa.

Com poucas provas e muita convicção, a autora se apresenta como Ministra da Ciência – a graça termina, de toda maneira, em sua resposta de 6 de maio, na mesma coluna, onde rebate as críticas que lhe foram feitas. Comporta-se, ali, como Ministra da Justiça.

A poeta Ana Martins Marques escreveu certa vez que “as casas pertencem aos vizinhos”, “os filhos são das mulheres / que não quiseram filhos” e que “é dos solitários o amor”. Acrescento que em literatura, como em qualquer outro lugar, a justiça pertence aos injustiçados. No caso do segundo artigo de Masagão, a injustiçada é a poesia.

Não porque em sua situação contemporânea seja acusada, por Masagão, de fragilidade e palidez (com a consequente adjetivação: poesia de hospital), de mal equilibrada em balbucio, de mal-educada e de baixa escolaridade (que a pesquisadora atribui, sem apresentar dados, às “tristes falhas da educação brasileira”), de mal-acabada, de hipócrita… a lista dos adjetivos, na ausência de substâncias de pesquisa, é grande.

Mais do que isso, a poesia é injustiçada pela pesquisadora pelo que ela propõe como método da crítica. Em ambos os artigos, a poesia é deixada de fora. A autora, que acusa a má recepção de seu artigo entre poetas contemporâneos como efeito de má interpretação, não se dispõe a ler amostra alguma da poesia que critica. Satisfaz-se com a sentença. Porque crítica, aí, não significa engajamento num corpo a corpo com o texto, mas julgamento. Nada mais distante do condenado que o juiz.

Com ares de autoridade, a pesquisadora declara em seu último artigo que “não gostaria de ler mais nenhum pio fora do tom, nem verso aborrecido e frio. Vejamos se um pouco de poesia, para variar, consegue calar, em definitivo, essa patrulha”. Por ato falho ou por clareza de opções de Masagão, é bom frisar suas expressões: “não gostaria de ler”, “calar, em definitivo”.

Masagão é pesquisadora e é inteligente, deve ser respeitada por isso. Sua tese de doutorado sobre heteronímia em Ficções do Interlúdio de certo é uma contribuição para a crítica infinita da obra de Fernando Pessoa, principalmente em suas relações com a tradição. Por isso me espanta o seu artigo. Gostaria que a autora se utilizasse de seus métodos e de sua astúcia, bem como de seu espaço, para exercer uma função mais digna e competente para a crítica.

Não precisamos mais de uma crítica ligada a um projeto poético legislativo, de crítica judiciária. Essa crítica é de certa forma hegemônica. Não apenas mercado, mas algumas mídias e artistas esperam dela a salvação ou a condenação. Ou uma espécie de Inmetro das artes: posso consumir este artista? Passou pelo selo de segurança do bom gosto / bom senso / bom…etc. ?

E sobre bom ou mau gosto, sabemos pelo menos desde Pierre Bourdieu como a categoria é ideologicamente mobilizada para sustentar relações de dominação. Ou, para citar alguém mais próximo, é bom lembrar daqueles versos de Tom Zé, que com muita graça e ironia dizia em seu “Curso intensivo de boas maneiras”, em que submetia o bom gosto a uma crítica de classe implacável: “primeira lição: deixar de ser pobre, que é muito feio…”

Poderíamos, é claro, contrapor a leitura de Masagão com outros nomes, como fez Ligia Gonçalves Diniz em artigo na mesma coluna. Mostrar que a poesia tem se debruçado sobre formas não-herméticas e bastante alegres, como no experimentalismo de Renato Negrão. Ou citar poetas contemporâneas que escrevem em intenso engajamento com a tradição, como Josely Vianna Baptista. Ou mesmo poetas que participam do “culto a Dionísio”, como Natasha Felix. Todos esses são motivos que a pesquisadora mobiliza como faltas na produção de hoje. Poderíamos inclusive produzir leituras das autoras citadas no primeiro artigo de Masagão para contradizer a pesquisadora.

Mas seus artigos nos deram a oportunidade de discutir também a situação e a função da crítica.

Enquanto alguns críticos insistem em escrever papeis de bala, muita gente tem procurado outra funcionalidade. Proponho, com eles, que o gosto (e a consequente salvação ou condenação) pode ser deixado para leitores e leitoras, que não precisam ser subestimados.

A crítica pode, por outro lado, desdobrar aquilo que, na poesia, se encontra condensado; ou pode, em outros casos, deslocar poemas, versos, expressões ou detalhes de lugar para fazer brotar as flores do sentido em outro terreno; ou pode forçar com que a leitura se detenha, verso a verso, em estações, fazendo durar um pequeno poema por um ano inteiro nas impressões de quem o lê.

Em todos esses casos, o que se propõe é a crítica em sua função de conhecimento das obras. Não no sentido de esgotamento sobre o que se pode conhecer em um poema, nem no de “saber falar” sobre poesia. Nem quero com isso propor que capturemos uma verdade do texto. O conhecimento que a crítica proporciona pode ser uma, isto sim, suspensão do julgamento imediato do gosto para que se possa demorar um pouco mais nas estações dos poemas. Conviver com elas. Ou nelas.

“Cor longa às folhas”, escreveu Heyk Pimenta no início da década. “As que o verão não queima / o outono doura”. A crítica pode exercer esse papel de demora na selva-selvagem da arte. Basta que ela se dedique menos apressadamente a traçar panoramas, e mais a obras singulares, pequenos contextos de produção e breves conjuntos. Assim poderemos começar uma pesquisa e, quem sabe, traçar alguns panoramas (no plural, sempre no plural, porque também a produção poética é uma distribuição desigual de tempos) desacelerados, a um só tempo mais modestos e mais acertados.

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poesia

3 poemas inéditos de Rubens Akira Kuana

Rubens Akira Kuana nasceu em Videira, Santa Catarina, em 1992. Traduziu poetas contemporâneos de língua inglesa comoDorotheaLaskyLonely ChristopherAriana Reines e Alice Notley, entre outros. Estreou com o livro Digestão (2014), publicado através da LUMA Foundation e 89plus – associados a UbuWeb (ubu.com) – na exibição “Poetry will be made by all!”, aberta no Centro de Arte Contemporânea Löwenbräukunst, em Zurique, Suíça.

o ano em que eu virei branco

eu nasci em uma cidade do interior de Santa Catarina
onde até meados dos anos 2000 eu e meu pai éramos os únicos
japoneses na cidade (minha mãe descende de alemães e italianos)
desde criança eu lembro que ninguém nunca soube escrever
o nome do meu pai corretamente: Siogi, Xiogui, Chiodi
quando eu lia um recibo um bilhete uma anotação
ninguém acertava seu nome: Sioji às vezes eu ouvia
meu pai soletrar no telefone s de serpente
i de ilha o de olho j de jiboia i de ilha de novo
anos mais tarde quando eu assisti um filme de Akira Kurosawa
(Tengoku to jigoku / High and Low / Céu e Inferno)
eu aprendi que ninguém nunca acertou sequer a pronúncia de seu nome
em japonês o jota se pronuncia quase como um dê: Si-ô-di
anos mais tarde eu descubro que no Japão Sioji seria escrito como Shoji, Shouji ou Shohji
mas como filhos de imigrantes pobres meus avós fazendeiros não tinham acesso a um cartório
que compreendesse esses detalhes ou quem sabe
nem mesmo meus pobres avós soubessem como escrever o nome do meu pai
durante os anos em que cresci na cidade do interior eu também perdi o meu nome
ninguém me chamava de Rubens (meus pais me chamavam de ‘mano’)
me chamavam de: japonês, japa, japa-japa-girl, japinha, china-in-box, china (com a pronúncia em inglês mesmo)
e toda vez que ouvia esses nomes eu me sentia extremamente consciente
do meu corpo dos meus olhos do meu nariz dos meus pelos das minhas genitais
mas eu me acostumei a esse nome e esse nome passou a me definir
da mesma maneira com que um prego define um martelo
batendo batendo e batendo
foi só quando eu me mudei para Curitiba uma cidade onde há mais do que uma
família japonesa (quem diria) é que da noite para o dia as pessoas que ia conhecendo lá
passaram a me chamar de Rubens e quando eu tentava explicar para elas
podem me chamar de japa (pois esse era o meu nome até aquele momento)
elas me olhavam confusas e diziam: mas você nem é japonês
(aparentemente meus olhos não são puxados o suficiente)
foi então que eu soube que podia ser branco isto é meu corpo continuou o mesmo
mas foi então que passei a ser tratado como um branco e ter direito a um nome próprio
o ano foi 2010

§

coisas que já respondi pra gente branca

não eu não sou da china
eu não sei falar japonês
sim minha avó sabe falar
meu pai não sabe
meu avô não era um samurai
nem um ninja
eu não sou bom em matemática
eu não sou bom em matemática porque sou japonês
não sei cara eu acho que só estudei pra prova
mais do que você
sim eu sei contar até dez em japonês
iti ni san shi go roku shiti hati kyu jyu
não eu não sei lutar karatê
sim eu gosto de pokémon
eu acho que o tamanho do meu pau é normal
eu estou com os olhos abertos
sim meus olhos são assim mesmo
eu não vejo as coisas em widescreen
eu não sei fazer sushi
não na minha casa nós não comemos sushi
nós comemos feijão e arroz
eu não me acho tão parecido assim com meu pai
nós não somos todos iguais
você não deveria chamar as pessoas desse jeito
minha pele não é amarela
sim eu nasci no brasil
mestiço
meu pai é japonês minha mãe não
meus avós vieram do japão
não eu nunca fui pro japão
não eu nunca morei no japão
sim o japão é muito desenvolvido mesmo
sim de primeiro mundo né
sim videogames
ultraman sayonara godzilla
playstation playstation playstation
sim eu tenho parentes lá
não sei eu não falo muito com eles
não eu não conheço essa pessoa asiática
sim os “orientais” tem fama de serem muito pacientes
é eu não sou muito de falar
sim eu acho que você poderia dizer que sou “zen”
eu não sei fazer feng shui
minha casa não é minimalista
eu acho que a palavra “oriental” não significa isso
esse não é meu nome
essa piada não tem graça

§

já fui poeta

a Majida Rahall

uma vez, eu já fui
poeta. escrevi poemas
bons e poemas ruins.
nunca soube diferenciá-los.

frequentei o desconhecido
círculo em que os poetas circulam.
admirei os ídolos e as ídolas
como asteroides que poderiam
aniquilar novos dinossauros.

já beijei poetas e já tive
noites melhores.

posso dizer (com certo orgulho): eu
já fui poeta. li poemas
em busca de inspiração, consolo
ou simplesmente sexo. linguagem.
linguagem linguagem linguagem.
aprendi que a linguagem não está aqui

para nos ajudar. tive amigos
poetas. todos eles fluentes
em línguas mortas. o passado
os excita. mas nada comparado
aos seus próprios reflexos no espelho.

disse somente a verdade. afinal
eu já fui poeta. não vaiei
recitais nem conspirei contra
meus contemporâneos. mas só deus
sabe o quanto eu ri sozinho.

sozinho.

hoje eu tenho uma namorada.
passeamos no parque e contemplamos
capivaras. eu a amo e ela me ama. a poesia
ficou em segundo plano. um ponto
pequenino no horizonte. vez ou outra, paro
diante da estante e considero vender
todos meus livros. até mesmo
aqueles autografados. não necessito
do dinheiro. apenas sinto uma ligeira
coceira nas mãos. logo passa.
não possuo mais a audácia dos poetas.

hoje eu não sou mais poeta.
hoje eu não escrevo mais poemas.
hoje eu olho para os dois lados
antes de atravessar as ruas.

hoje eu coloco os pés no chão
e aguardo pelo terremoto. hoje

eu sou feliz.

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poesia

Quatro poemas inéditos de Sérgio Medeiros

Foto de Ângela Amarante.

O livro inédito Friso de caligrafia se propõe a “mostrar” dois submundos, por meio de poemas visuais. 

Na primeira parte, o livro oferece uma visão das cadernetas de descritos do autor, acumuladas durante anos e repletas de desenhos, riscos e pequenos textos em prosa nos quais o símile e a prosopopeia predominam. Páginas dessas cadernetas estão coladas nos poemas, os quais podem ser lidos, assim, como a exposição de um “depósito secreto” (o submundo) do autor, ao qual ele deve ir regularmente para buscar materiais brutos (frases, caligrafias, desenhos etc.) com os quais compor a sua obra.

Na segunda parte, o livro faz uma releitura de um episódio do poema maia-quiché Popol Vuh no qual se descreve a descida dos pais fundadores a Xibalba, o submundo mitológico onde estão forças selvagens que precisam ser controladas (trazidas à tona), mas não destruídas. Recorrendo principalmente a dois glifos da escrita maia — o que simboliza a árvore e o que simboliza a cabaça — , o autor destaca, nessa passagem do livro Friso de Caligrafia, a derrota inicial dos pais, logo seguida, porém, do seu renascimento em forma de “árvore da vida” (a cabaceira), que fará sexo vegetal com uma virgem de Xibalba, reiniciando o ciclo vital. 

A ida ao submundo mitológico ameríndio justifica e enfatiza, desse modo, a necessidade de descida regular ao submundo poético, apresentada na primeira parte da obra.

Sérgio Medeiros é poeta, dramaturgo, ficcionista e ensaísta. Ensina literatura na UFSC. Publicou, em 2019, os livros Caligrafias Ameríndias (Editora Medusa) e Os Caminhos e o Rio (Editora Iluminuras), ambos de poesia verbovisual. Recebeu o prêmio Biblioteca Nacional de Poesia 2017 pelo livro A Idolatria Poética ou A  Febre de Imagens (Editora Iluminuras).

* * *

Excertos da primeira parte de Friso de caligrafia:

§

§

Excertos da segunda parte de Friso de caligrafia:

§

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poesia

Francisco Bley & Ricardo Domeneck – “Os afazeres” (vídeo de Frederico Klumb)

‘Os afazeres’ é uma colaboração que nasceu em 2018 quando conheci o compositor curitibano Francisco Bley em minha passagem pela capital paranaense. Bley, que já trabalhou em peças sonoras de poesia falada com poetas como Elisa Lucinda, compôs e propôs essa bela peça eletroacústica ao piano com sons processados, à qual decidi unir com minha voz o poema “Os afazeres domésticos”. Retornei a Curitiba em janeiro de 2019 e gravamos o texto no estúdio Mylo. Com a peça pronta, convidamos o carioca Frederico Klumb para a composição visual que acompanharia a colaboração, e estamos muito felizes de poder mostrar agora essa tríade entre música, texto e imagens. No entanto, trata-se de uma colaboração ainda maior: montada a partir de imagens de arquivos familiares, precisamos agradecer a todos os amigos e colegas que atenderam ao chamado e nos enviaram fotografias de suas infâncias em vários cantos do país. A estas imagens, Frederico uniu outras do arquivo histórico do país. E assim, aqui estão os afazeres.

                                       –– Ricardo Domeneck, junho de 2019

“Os afazeres domésticos”

           “Há-de nascer de novo o micondó —
            belo, imperfeito, no centro do quintal.”

                         –– Conceição Lima

É o nosso trabalho dizer agora que hão-de
renascer o capim-cidreira, o boldo e a hortelã
para os rins, os fígados, os intestinos da família
morta já pela metade, ainda que se espargira sal
sobre a terra dos quintais tomados pelo agiota,
e o dizer em ritmo propício à canção de ninar.

E que as mãos da vó quebrarão o pescoço
dos frangos caseiros para o pirão, que há-de
alimentar por dias as mulheres de resguardo
que ao dar à luz indenizaram a família por velórios,
mesmo que daquelas rugas restem só carpos
e metacarpos brancos de cálcio no jazigo do clã.

E que o vô morto voltará em sonho para ralhar
até a bandeira nacional mudar de cor
com estes desnaturados que não se cansam
de dar desgosto a seus antepassados
que cruzaram oceano não só para a desgraça
trocar de passaporte e vegetação ao fundo.

E é nosso trabalho dizer que os avós sequestrados
d’além mar hão-de alforriar-se em nossos corpos
e que os antepassados deste lado do Atlântico
hão-de reaver seus quinhões de terra preta,
e juntos, entre a hortelã, o boldo e o capim-cidreira,
de mão em mão as xícaras da saúde que nos elide.

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poesia, tradução

Rose Ausländer (1901-1988), por Luiz Abdala Jr.

A história de Rose Ausländer ecoa a de milhares. Nascida no multifronteirístico Império Austro Húngaro, mais precisamente na região de Bucovina (entre o que hoje é a Romênia e a Ucrânia), em uma família de origem judaica da comunidade de língua alemã e iídiche da região, a poeta logo parte para os Estados Unidos com o objetivo superar a crise financeira que viviam os seus pais. Retorna a Bucovina no final dos anos 20, devido a um adoecimento da mãe, e depara-se logo de cara com os primeiros movimentos do horror nazista. Impedida de deixar Bucovina, sobrevive à ascensão do nazismo e à Segunda Guerra Mundial escondendo-se, com a mãe, em guetos da região. Já em 1946 parte novamente para os Estados Unidos, onde se estabelece por cerca de 20 anos e corta relações com a lírica moderna alemã, deixando não só de ler a poesia contemporânea em alemão como também de escrever no idioma, passando a compor em inglês. Vivendo em Nova York, Ausländer aproxima-se de nomes importantes do modernismo norte-americano tais como: Robert Frost, William Carlos Williams, T.S Eliot, E. E. Cummings… e também trava relações com a poeta Marianne Moore, uma forte influência para Ausländer. Apenas no final dos anos 50, bastante motivada por um encontro com o conterrâneo e companheiro de juventude, Paul Celan, Ausländer volta paulatinamente a escrever em alemão. Em 1967 retorna definitivamente à Alemanha e à lírica alemã, falecendo na cidade de Düsseldorf em 1988.

A trajetória errante da poeta é um dos motivos que atravessam o seu trabalho poético. A origem judaica, a relação conflituosa com o alemão, o exílio, a vivência nos Estados Unidos são experiências que se entreveem em uma poesia que jamais nega a língua, mas sempre a coloca em desconfiança, em uma relação de deslizar constante. Partindo da discussão adorniana sobre a possibilidade de fazer poesia após Auschwitz, Ausländer parece dizer que sim, pois “as palavras me ditam: escreva-nos[1]. Escrever não é apenas um gesto necessário, mas incontrolável na medida em que o escrever escreve-se no escritor. Porém, estendendo a discussão, qual é então a possibilidade de escrever poesia em alemão após Auschwitz?  Como escrever poesia na mesma língua de uma máquina de genocídio moderno? Como escrever em sua língua materna, mas que é também a língua que tentou te matar? Aqui as relações e vínculos se tornam mais delicados e conceitos unificadores como pátria e língua materna não parecem dar conta das relações sensíveis que a poesia estabelece com a linguagem. Nesse sentido, o trabalho poético de Rose Ausländer é também um gesto de testemunho e resistência. Testemunho das complexas relações sensíveis com as noções de território e língua, da experiência histórica-subjetiva e da memória, e resistência na medida em que as próprias noções de território e língua são colocadas em desestabilidade e diferença, em que o escrever em alemão jamais deixará de ser escrever na língua do nazismo, do horror, porém pode vir a ser também outra coisa, outras coisas. Em tempos em que estratégias de manipulação do discurso estão explícitas, apontando que modos de dizer não são somente modos diferentes de falar, mas de agir, Ausländer abre uma imprescindível reflexão sobre a palavra e as relações que com ela incessantemente construímos (e também destruímos). 

Os poemas aqui selecionados são de diferentes fases da poeta, mas mantém elos em comum. Todos eles foram retirados do livro Rose Ausländer – Gedichte (Fischer Verlag, 2012), coletânea organizada por Helmut Braun e que contempla parte considerável da produção poética da autora, que no total contabiliza mais de três mil poemas escritos.


[1]Weil Wörter mir diktieren: schreib uns”, trecho do ensaio Alles kann motiv sein da autora.

Zwischenzeilwort

Viele Gedichte gefunden
aber
Ich suche das Wort
Zwischenzeilwort
im bunten Buchstabentanz
Konsonanten Vokale
Vokabeln ich taste
die Weite und Tiefe
der Wörter
suche erfinden
das verstohlene
Wort

Palavra entre-linha

Muitos poemas encontraram
porém
Eu busco pela palavra
A palavra entre-linha
Na alegre roda da letra
Consoantes vogais
Verbetes tateio
a amplidão e o abismo
das palavras
procuro atinar
a furtiva
palavra

§

Mutterland

Mein Vaterland ist tot
sie haben es begraben
im Feuer

Ich lebe
in meinem Mutterland
Wort

Mátria

Minha pátria morreu
a enterraram
no fogo

Eu vivo
na minha mátria
Palavra

§

Ich vergesse nicht

Ich vergesse nicht

das Elternhaus
die Mutterstimme
den ersten Kuß
die Berge der Bukowina
die Flucht im ersten Weltkrieg
das Darben in Wien
die Bomben im zweiten Weltkrieg
den Einmarsch der Nazis
das Angstbeben im keller
den Arzt der unser Leben rettete
das bittersüße Amerika

Hölderlin Trakl Celan

meine Schreibqual
den Schreibzwang
noch immer

Eu não me esqueço

Eu não me esqueço

da casa dos pais
da voz da mãe
do primeiro beijo
dos montes de Bucovina
da fuga na primeira guerra
da penúria em Viena
das bombas na segunda guerra
da marcha nazista
do tremor no porão
do médico que salvou nossa vida
da agridoce América

Hölderlin Trakl Celan

minha aflição em escrever
a obsessão em escrever
de novo e de novo

§

Wer bin ich

Wenn ich verzweifelt bin
schreib ich Gedichte

Bin ich fröhlich
schreiben sich die Gedichte
in mich

Wer bin ich
wenn ich nicht
schreibe

Quem sou eu

Em desespero,
eu escrevo poemas

Quando contente,
os poemas se escrevem
em mim

Quem sou eu
Quando não
escrevo

§

Sätze

 Kristalle
unregelmäßig
kompakt und durchsichtig
hinter ihnen die Dinge
erkennbar

Diese Sucht
nach bindenden Worten
Satz an Satz
weiterzugreifen
in die bekannte
unbegreifliche
Welt

Frases

Cristais
irregulares
compactos e transparentes
detrás de si as coisas
reconhecíveis

Essa busca
pelas palavras atadas
frase na frase
apalpando apalpando
no conhecido
impalpável
mundo

§

Spiel

Treibst dein Spiel mit mir
Sprache
schon spielst du mir manchmal
mit

Spiel mit mit
ich bin alt
nicht älter als du
Traumwort

Finger
   Augen
       Worte
unendlicher Spielraum

Spiel mit mir
ich bin jung
nicht jünger als du
Traumwort

Wer spielt uns auf
wenn ich mit dir
mein Spiel treibe

du mich verspielst
an die Nacht

Jogo

Língua
conduza seu jogo comigo
às vezes você joga seu jogo
comigo

Jogue comigo
sou velha
não mais velha do que você
Verbonírico

Dedos
     Olhos
           Palavras
infinito jogo de dados

Jogue comigo
sou jovem
não mais jovem do que você
Verbonírico

Quem nos toca
quando eu jogo
meu jogo contigo

você me joga
para a noite

§

Was du nicht weißt

Als wüßtest du
woher

Als wüßten Wasser Sterne Luft

Was du nicht weißt
erschafft
dein Wort

unwissend
sicher

O que você não sabe

Como se você soubesse
da onde

Como se soubessem água estrelas ar

O que você não sabe
cria
sua palavra

desconhecida
segura

§

Mein Gedicht

Mein Gedicht
ich atme dich
ein und aus

Die Erde armet
dich und mich
aus und ein

Aus ihrem Atem geboren
mein Gedicht

Meu poema

Meu poema
te respiro
inspiro e expiro

A terra respira
eu e você
expira e inspira

Do seu respiro nasce
meu poema

§

Nicht vergessen I

Heute
hat ein Gedicht
mich wieder erschaffen

Ich freute mich
am Leben
bewunderte die Landschaft
vor meinem Fenster

Ich vergaß
das Gedicht zu schreiben
vergaß es

Es hat mich
nicht vergessen
kam zurück zu mir
und schrieb sich
in meine Worte

Não esquecer I

Hoje
um poema
novamente me criou

Me alegrei
com a vida
admirando a paisagem
da minha janela

Eu esqueci
de escrever o poema
esqueci

Ele não
esqueceu
veio logo até a mim
e se escreveu
nas minhas palavras

§

Mutter Sprache

Ich habe mich
in mich verwandelt
von Augenblick zu Augenblick

in Stücke zersplittert
auf dem Wortweg

Mutter Sprache
setzt mich zusammen

Menschmosaik

Língua mãe

De momento em momento
eu me transformei
em mim mesma

Estilhaçada em pedaços
no palavrandar

Língua mãe
me reconstrua

 Mosaico-humano

§

Miteinander

für Marie Luise Kaschnitz

Du
und der Kirschbaum
und die rasende Straße
und der Ozean
und der Blitz

Du
und deine Angst
und dein Zorn
und dein Aberglaube
und dein Glaube
             “Let My People Go”

Du
und der Stern
und das Wort Stern
und das Hauptwort
un das Nebenwort

und das Nebeneinander
und das Miteinander
und
   du

Convivência

para Marie Luise Kaschnitz

Você
e a cerejeira
e a rua rápida
e o oceano
e o relâmpago

Você
e o seu medo
e sua cólera
e sua superstição
e sua crença
     “Let My People Go”

Você
e a estrela
e a palavra estrela
e a palavra principal
e a palavra auxiliar

e a coexistência
e a convivência
e
     você

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poesia, tradução

Mary Oliver, por Yuri Amaury

Mary Oliver foi uma poeta norte-americana nascida em Maple Highs, Ohio. Apesar de ter tido uma infância conturbada no seio de uma família disfuncional (negligenciada pela mãe, abusada pelo pai, vítima de pesadelos recorrentes), Oliver guardou boas lembranças da vizinhança semi-rural da zona suburbana de Cleveland, onde adquiriu desde cedo o hábito de perambular pelos bosques (geralmente, com um volume de poesia na mochila). Publicou seu primeiro livro de poemas, No Voyage and other poems, em 1963, um ano antes de mudar-se para a cidade costeira de Provincetown, Massachusetts, com a fotógrafa Molly Malone Cook, que conhecera no final dos anos 50 e que permaneceu sua companheira até sua morte em 2005. Nos últimos anos de sua vida, Oliver mudou-se para a Flórida, onde veio a morrer em decorrência de um linfoma em 17 de janeiro de 2019.

Em sua extensa obra poética, transparece a influência de Ralph Waldo Emerson, Henry David Thoreau e Walt Whitman – principalmente devido à presença da natureza como tema privilegiado. Largamente baseados em lembranças da infância e reflexões sobre o tempo e a paisagem natural observada em suas caminhadas diárias, os poemas de Oliver não podem, no entanto, ser acusados de ingenuidade romântica (como fizeram alguns críticos): as observações imagéticas e os raciocínios pontuados em seus versos se encaixam na tradição do Transcendentalismo, apresentando-se como uma espécie de desdobramento contemporâneo dos impulsos poéticos de Emerson. Alguns críticos detratores de Oliver denunciam o caráter inofensivo e auto-ajuda de determinados poemas de sua obra (por exemplo, Wild Geese – provavelmente, o mais célebre da poeta); o conjunto de sua poesia, porém – como os poemas abaixo bem mostram -, revela uma sensibilidade madura e um olhar atento e profundo, expressos em uma linguagem simples e direta.

Yuri Amaury é licenciado em Letras Português-Inglês pela UTFPR e mestrando em Estudos Literários pela UFPR.

* * *

At Black River

All day
   its dark, slick bronze soaks
     in a mossy place,
         its teeth,

a multitude
   set
     for the comedy
         that never comes –

its tail
   knobbed and shiny,
     and with a heavy-weight’s punch
         packed around the bone.

In beautiful Florida
   he is king
     of his own part
         of the black river,

and from his nap
   he will wake
     into the warm darkness
         to boom, and thrust forward,

paralyzing
   the swift, thin-waisted fish,
     or the bird
         in its frilled, white gown

that has dipped down
   from the heaven of leaves
     one last time,
         to drink.

Don’t think
   I’m not afraid.
     There is such an unleashing
         of horror.

Then I remember:
   death comes before
     the rolling away
         of the stone.

No Rio Negro

Todo o dia
   seu bronze escuro e liso se banha
     num lugar musgoso,
         seus dentes,

multidão
   a postos
     pra comédia
         que nunca vem –

sua cauda
   nodosa e brilhante,
     e com um soco de peso-pesado
         guardado em volta do osso.

Na beleza da Flórida
   ele é rei
     da sua própria parte
         do rio negro,

e da sua sesta
   ele vai acordar
     no morno da escuridão
         pra troar, e arremeter adiante,

paralisando
   o peixe ágil, de cintura fina,
     ou a ave
         de robe branco rufado

que mergulhou
   de um céu de folhas
     uma última vez,
         pra beber.

Não ache
   que não tenho medo.
     Tamanha é a liberação
         de horror.

Aí eu lembro:
   a morte vem antes
     de rolar pra longe
         a pedra.

§

Breakage

I go down to the edge of the sea.
How everything shines in the morning light!
The cusp of the whelk,
the broken cupboard of the clam,
the opened, blue mussels,
moon snails, pale pink and barnacle scarred—
and nothing at all whole or shut, but tattered, split,
dropped by the gulls onto the gray rocks and all the moisture gone.
It’s like a schoolhouse
of little words,
thousands of words.
First you figure out what each one means by itself,
the jingle, the periwinkle, the scallop
       full of moonlight.

Then you begin, slowly, to read the whole story.

Rebentação

Eu desço até a beira do mar.
Tudo brilha tanto na luz da manhã!
A ponta do búzio,
o armarinho quebrado da amêijoa,
os mexilhões abertos, azuis,
litorinas, rosa-pálidas e riscadas de craca –
e nada disso inteiro ou fechado, mas em frangalhos, fendido,
largado pelas gaivotas sobre as rochas cinzas e toda umidade                                                                                              [perdida.
É como uma escola
de pequenas palavras,
milhares de palavras.
Primeiro você descobre o significado de cada uma em si,
o tatuí, a pervinca, a vieira
repleta de luar.

Aí você começa, lentamente, a ler a história inteira.

§

Beside the waterfall

At dawn
   the big dog –
     Winston by name –
         reached down

into the leaves – tulips and willows mostly –
   beside the white
     waterfall,
         and dragged out,

into plain sight,
   a fawn;
     it was scarcely larger
         than a rabbit

and, thankfully,
   it was dead.
     Winston
         looked over the

delicate, spotted body and then
   deftly
     tackled
         the beautiful flower-like head,

breaking it and
   breaking it off and
     swallowing it.
         All the while this was happening

it was growing lighter.
   When I called to him
     Winston merely looked up.
         Grizzled around the chin

and with kind eyes,
   he, too, if you’re willing,
     had a face
         like a flower; and then the red sun,

which had been rising all the while anyway,
   broke
     clear of the trees and dropped its wild, clawed light
         over everything.

Do lado da cachoeira

Ao amanhecer
   o grande cão –
     de nome Winston –
         se abaixou

entre as folhas – tulipas e salgueiros, na maioria –
   do lado da cachoeira
     branca,
         e arrastou pra fora,

à luz do dia,
   uma corça;
     era pouco maior
         que um coelho

e felizmente,
   estava morta.
     Winston
         examinou o

delicado corpo pintado e aí
   com perícia
     atacou
         a bela cabeça, que lembrava uma flor,

partindo-a e
   arrancando-a e
     engolindo-a.
         Enquanto isso estava acontecendo

estava ficando mais claro.
   Quando eu o chamei
     Winston só ergueu o olhar.
         Grisalho perto do queixo

e com olhos gentis,
   ele também, pensando bem,
     tinha uma cara
         como flor; e aí o sol, rubro,

que continuou nascendo enquanto isso,
   se
     desprendeu das árvores e derrubou sua luz selvagem,
                                                                                     [dentada
         sobre toda coisa.

§

Fall

the black oaks
fling their bronze fruit
into all the pockets of the earth
            pock pock

they knock against the thresholds
the roof the sidewalk
fill the eaves
            the bottom line

of the old gold song
of the almost finished year
what is spring all that tender
            green stuff

compared to this
falling of tiny oak trees
out of the oak trees
            then the clouds

gathering thick along the west
then advancing
then closing over
            breaking open

the silence
then the rain
dashing its silver seeds
            against the house

Outono

os carvalhos pretos
lançam frutos brônzeos
pra dentro de todos os bolsos da terra
            poc poc

eles se chocam com os umbrais
com o teto a calçada
enchem as calhas
            o fechamento

da velha canção dourada
do ano quase terminado
o que é a primavera toda aquela tenra
            coisa verde

comparada com esse
cair de pequenos carvalhos
de cima dos carvalhos
            aí as nuvens

acumulando-se grossas no oeste
aí avançando
aí fechando em volta
            rompendo ao meio

o silêncio
aí a chuva
atirando sementes de prata
            contra a casa

§

Death at a great distance

The ripe, floating caps
   of the fly amanita
     glow in the pinewoods.
         I don’t even think
           of the eventual corruption of my body,

but of how quaint and humorous they are,
   like a collection of doorknobs,
     half-moons,
         then a yellow drizzle of flying saucers.
           In any case

they won’t hurt me unless
   I take them between my lips
     and swallow, which I know enough
         not to do. Once, in the south,
           I had this happen:

the soft rope of a water moccasin
   slid down the red knees
     of a mangrove, the hundreds of ribs
         housed in their smooth, white
           sleeves of muscle moving it

like a happiness
   toward the water, where some bubbles
     on the surface of that underworld announced
         a fatal carelessness. I didn’t
           even then move toward the fine point

of the story, but stood in my lonely body
   amazed and full of attention as it fell
     like a stream of glowing syrup into
         the dark water, as death
           blurted out of that perfectly arranged mouth.

Morte em grande distância

Os flutuantes gorros maduros
   do agário-das-moscas
     fosforescem nos pinhais.
         Eu nem chego a pensar
           no eventual apodrecimento do meu corpo,

mas no quanto eles são cômicos e esquisitos,
   como uma coleção de maçanetas,
     meias-luas,
         aí um chuvisco amarelo de discos voadores.
           Em todo caso

eles não vão me fazer mal a não ser
   que eu os pegue entre os lábios
     e engula, o que eu sei bem que
         não devo fazer. Uma vez, no sul,
           foi acontecer comigo:

o cordão macio duma cobra-d’água
   desceu deslizando pelos joelhos rubros
     dum mangue, as centenas de costelas
         alojadas nas suas lisas capas
           brancas de músculo movendo-as

como uma felicidade
   em direção à água, onde umas bolhas
     na superfície daquele submundo anunciavam
         um descuido fatal. Eu não
           fui nem nessa hora até o ponto alto

da história, mas fiquei com meu corpo solitário
   maravilhada e cheia de atenção enquanto ela caía
     como um riacho de melado brilhante
         na água escura, enquanto morte
           escapava por aquela boca perfeitamente arrumada.

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poesia

Vinícius Mahier (1994—)

Vinícius Mahier nasceu em Campo Belo, Minas Gerais, em novembro de 1994. É mestrando em Letras pela Universidade Federal de São João del-Rei. Publica seus poemas no blog ridiculus sum.

ULTRASSONOGRAFIA

que você trepe comigo como se eu fosse uma mulher
eu não sou uma mulher como se eu fosse ou fosse
uma mulher que você ama como se fosse uma mulher
que você nunca como se eu fosse uma buceta inteira
dentro deste esperma como se eu fosse o teu olhar
inteiro seminal prostático como se eu fosse a tua boca
inteira dentro desta língua como se eu fosse eu a tua língua
inteira como se eu fosse uma mulher ou duas
ou duas metades serradas ao meio
como se eu fosse uma mulher de quatro
como se eu fosse uma mulher de pé
uma mulher sintaxe lexical dos teus joelhos
à garganta no teu cu nos teus buracos
como se eu fosse essa mulher imprópria essa mulher
que cresce você é essa mulher que cresce como se eu fosse
uma mulher do mundo no fundo do fundo da falta
de nome do teu específico fosso o que fosse
fundo fundo vasto fundo se eu me chamasse vinícius
eu seria mulher não seria você fosse eu que fosso
tua virilha é alta como uma torre a minha torre
uma buceta russa dentro da tua virilha que você
me coma como se eu fosse uma mulher que você
me chupe como se eu fosse uma mulher que você
menstrue como se eu fosse uma mulher que você
me dá como se eu fosse uma mulher que dá falando-se
da fêmea vivípara quando expele do útero o ser que gerou
que você trepe comigo como se eu fosse essa mulher
não outra não essa como se eu fosse eu fosse
uma mulher que você não ama como se eu fosse
uma mulher que você enxerga como se eu fosse
uma mulher que você tateia como se eu fosse
uma mulher que você liquida como se eu fosse
uma mulher que eu nunca fui a não ser na última quarta
quando eu te disse eu te amo longe da minha boca
que você me quebra como se eu fosse o osso a cadela
que você não larga o tutano que você não vaza cria
como se eu fosse a tua imagem e semelhança
afastada exilada arrancada amputada adorada de mim
no membro que eu já perdi a dor do membro fantasma
como se eu dissesse que ela mesma iria comprar as flores
ao invés de ganir diante do nada e eu fodo contigo
como se eu fosse a mulher que você devora homens como ar
como se eu fosse outra corpo a corpo comigo mesma
como se eu fosse quase imaginária concreta ereta indivisível
e eu tivesse acordado com coceira no hímen
como se eu fosse a esfinge a teus pés mutáveis
a autobiografia de todo mundo em uma única manhã
como se eu fosse a jocasta do nosso incesto deliberado
como se eu fosse a antígona do que se ergue a céu aberto
como se eu fosse a medeia do que permito vivo
como se eu fosse a lisístrata na tua guerra do peloponeso
como se eu fosse a mulher da mulher de lot
como se eu fosse a virgem do teu cristo redentor
braços abertos sobre a guanabara como se eu fosse
o rio o terceiro rio na tua margem de erros
como se eu fosse nascer como se eu fosse mulher
como se eu fosse um homem.

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