poesia

Para Assionara Souza (1969—2018), In memoriam

Hoje faleceu em decorrência de um câncer a escritora Assionara Souza (1969, Caicó/RN—2018, Curitiba/PR), figura importante por sua escrita e presença em Curitiba, mas também em vários outros lugares do país. Assionara publicou Cecília não é um cachimbo(2005, também nome do seu blog), Amanhãs com Sorvete! (2010), Os hábitos e os monges (2011), Na rua: a caminho do circo (2014) e, no ano passado, Alquimista na chuva, além da peça de teatro Das mulheres de antes (2016). Foi também estudiosa da obra de Osman Lins, idealizadora do projeto Translações: literatura em trânsito e do livro que dele resultou, e participante do coletivo Escritoras Suicidas. Embora sua carreira tenha se desenvolvido na prosa, nos últimos tempos ela vinha publicando poesia, o que resultou na Alquimista na chuva, ao mesmo tempo seu último livro e primeiro de poesia.

Havíamos publicado três poemas seus aqui, há pouco mais de um mês, sem sabermos da luta contra a doença, impressionados com a criação poética que ali aparecia; e é com profunda tristeza que recebemos hoje a notícia de sua morte. As redes sociais têm se enchido de poemas em sua homenagem, como lembrança da pessoa e da obra. Aqui nos despedimos  com um lamento fúnebre ficcional escrito por Hans Arp, mas que sempre vem à mente quando perdemos uma vida dedicada à linguagem.

Segue o teu destino, Assionara.

escamandro

* * *

ah, nosso bom gaspar morreu.

ah, nosso bom gaspar morreu.

quem leva agora a bandeira incandescente escondida nas tranças das nuvens para o negro ardil diário.

quem mói o café no barril original.

quem agora seduz o cervo idílico pra fora do saco petrificado.

quem agora no mar confunde os barcos tratando de guarda-chuvas e o vento chamando de pai-das-abelhas fuso-de-ozônio sua alteza.

ah, ah, ah, nosso bom gaspar morreu. deus do céu, gaspar morreu.

os peixes de feno clamam penando de dor nos sinos-celeiros se alguém expressa o nome dele. por isso mais suspiro de novo por seu sobrenome gaspar gaspar gaspar.

por que você nos deixou. em que figura transformou-se a tua grande alma bela. será que virou estrela ou grilhão d’água em redemunho quente ou teta de luz negra ou tijolo transparente no gemente tambor do ser rochoso.

hoje secam nossos crânios e solas e as fadas jazem semicarbonizadas na pira.

hoje trovoa por trás do sol a pista negra de boliche e ninguém ergue mais a bússola e as rodas dos carrinhos de mão.

quem come agora com os ratos fosforescentes na descalça mesa solitária.

quem escorraça o diabo sirococo quando ele quer bolinar os cavalos.

quem nos explica o monograma nas estrelas.

seu busto vai adornar as lareiras de todos os verdadeiramente nobres mas isso não é conforto nem rapé pra uma caveira.

 

weggis, 1912

[trad. guilherme gontijo flores]

 

weh unser guter kaspar ist tot

weh unser guter kaspar ist tot

wer trägt nun die brennende fahne im wolkenzopf verborgen täglich zum

schwarzen schnippchen schlagen

wer dreht die kaffeemühle im urfass

wer lockt nun das idyllische reh aus der versteinerten tute

wer verwirrt nun auf dem meere die schiffe mit der anrede parapluie und die winde mit dem zuruf bienenvater ozonspindel euer hochwohlgeboren

weh weh weh unser guter kaspar ist tot. heiliger bimbam kaspar ist tot.

die heufische klappern herzzerreissend vor leid in den glockenscheunen wenn man seinen vornamen ausspricht, darum seufze ich weiter seinen familiennamen kaspar kaspar kaspar.

warum hast du uns verlassen. in welche gestalt ist nun deine schöne grosse seele gewandert. bist du ein stern geworden oder eine kette aus wasser an einem heissen wirbelwind oder ein euter aus schwarzem licht oder ein

durchsichtiger ziegel an der strömenden trommel des felsigen wesens.

jetzt vertrocknen unsere scheitel und sohlen und die feen liegen halbverkohlt auf dem scheiterhaufen.

jetzt donnert hinter der sonne die schwarze kegelbahn und keiner zieht mehr die kompasse und die räder der schiebkarren auf.

wer isst nun mit der phosphoriszierenden ratte am einsamen barfüssigen tisch.

wer verjagt nun den sirokkoko teufel wenn er die pferde verführen will.

wer erklärt uns nun die monogramme in den sternen.

seine büste wird die kamine aller wahrhaft edlen menschen zieren doch das ist kein trost und schnupftabak für einen totenkopf.

 

weggis, 1912

 

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poesia

3 poemas inéditos de Ismar Tirelli Neto

Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, tradutor, roteirista, biscateiro editorial, ator bissexto, curador, dramaturgo, cantor de bar de hotel frustrado, mau filho e marido exemplar. Vive atualmente em Curitiba e lançou os livros Os Ilhados, Ramerrão, synchronoscopio Duas ou Três Coisas Airadas, este último em parceria com Horácio Costa. Não foi lido em pelo menos quatro idiomas.

* * *

O caso em apreço

Falou-se muito de amor naqueles dias

Curioso

Só agora as palavras começam a constituir-se

Com que então

…………………….(Não eram palavras)

Muito se falou de amor

Por aquelas semanas

Falou-se muito – amor, amor –

Com ambas as mãos sobre a morte

Com ambas as mãos sobre a brisa

O movimento de amoldar, de amoldar

Amor

Inabilmente codificado

Urticante

Imprestável para adágios

Chuva de rãs, de chumbo, de areia

Amor com que então de desenredo

Nada fez a ninguém

Remetendo falou-se

Muito de amor

Muito de amor naqueles dias

Tem-se falado

As circunstâncias não foram ainda esclarecidas

§

Caso Postal

Compro um postal
E para deter-nos
…………………….(A mim, a ele)
……………(Ao postal)
Sento-me a uma mesa do lado de fora
Dobrando a rua figurada
Na frente
Em tempo de maré alta
Depara-se este mesmo casario de sólidas fachadas brancas
Perfeitamente ritmadas
As juntas, as juntas das janelas
Os limiares ásperos, cores inambíguas, a sombra colonial
Centenárias construções abrigando
Agências de contabilidade, escritórios de advocacia
(Era este o verso
………………………….de que fugíamos no início?)
Tudo aqui tem luz e pedra e preço
Tudo quanto é figurado à frente nos conduz
A empórios
Lojas de souvenir
Balcões onde se negociam – som, fúria – passeios de escuna
Contudo no verso
Onde escrevo (onde
Ao escrever
Assumo forçosamente que estamos distantes
Ou mesmo mortos)
Não existe senão grande extensão
De breu
Não existe senão encerrar-se
O escuro de orfanatos
(Eles existem, esquecemos)
Eu subscrevo
O escuro de orfanatos, o escuro que canta
De pé
Atrás de um estacionamento, num jângal,
No verso do postal mais soalheiro, quem sabe, talvez
Seja a mesma paisagem
As mesmas correntes amarelas
Que apartam aquilo que é propriamente histórico
De tudo
O mais o escuro
A tudo empalma o escuro
Forrado de passos, de mar
………………………………e morgues, maternidades
………………………………música insituável
Cigarras que berram o tempora o mores
Brenha onde me perde a sugestão
De branco areal
Ao longe
(Existe, não existe, não existe mais)

§

Hermes

I.

Este personagem diante dele
jamais
as ondas resolveram-se
………………………..num qualquer ritmo
E as ondas, sendo cada uma
Um contêiner o céu
Não se seguia
Rolamento ingrato
Descerrando nada nunca
Hermes pusera ferrolhos
Até mesmo
Às paisagens de férias
Era já àquela altura
um nome, nada
Conotava oco e ignorado
À boca
De quantos o cumprimentavam
nada                            nunca
Cumprimentavam
A este personagem para quem
Nada jamais se abrira
Em texto
Nada jamais regrara-se
Em gráceis
Continuidades emersas
as coisas
Sempre emersas
Um único ronco de motor
Enfeixando avenidas
Ao ventre a bulha tão oca
impenetrável
Como o nome
Como os nomes
Espraiando-se cidade
Homens inabitáveis mal
Amanhados em acenos
de cabeça
Àquela altura já não
diziam sequer
escuridão
Ninguém descerrando nada

II.

Este personagem diante de seus olhos
estupefatos
…………….tomavam-lhe a voz
Substituindo-a pouco e pouco
por um coro
………………………………de interditos
Hermes põe-se a falar, a evoluir
………………………………por interditos
Hermes tem a boca cheia
………………………………(cidades e homens)
Rueiro Hermes pôs-se ventre
………………………………cheio e conotando nada
Ante a vitrine
de uma chapelaria
que não ruíra
ainda nas cercanias
do escritório
Um homem
……….habitável?
Representando de nós para nós
as crateras abertas
de redor
Semblantes humanos
………….de grande fadiga
………….na crosta azulada
Vedada
a indagação
que se vai formando
Vedado
responder
com planetas

Eram isto mesmo
Os mistérios

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poesia, tradução

Niels Hav, por Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira

Niels Hav, nasceu em 1949 na cidade de Lemvig, área rural no oeste da Dinamarca. Estreou na literatura em 1981 com a publicação de um livro de contos e no ano seguinte publicou seu primeiro livro de poesia. Niels já se estabeleceu como uma voz nórdica contemporânea. Autor de contos e poemas publicados em inúmeras revistas e antologias em todo o mundo. Traduzido para o inglês, árabe, espanhol, italiano, turco, alemão, holandês, chinês, sérvio, albanês, entre outros idiomas.

Em inglês, uma coleção de sua poesia, God’s Blue Morris, foi publicada pela Crane Editions (Canadá) em 1993. Em 2006 foi publicada outra coleção de seus poemas, intitulada We Are Here, pela editora canadense BookThug. Ambas com tradução de Patrick Friesen e P. K. Brask.

Em seu país natal já recebeu diversos prêmios do Danish Arts Council. Atualmente vive com sua família em Copenhague, em um dos bairros mais coloridos e multiétnicos da capital dinamarquesa. Viajou diversas vezes para Europa, Ásia, América do Norte e do Sul, e participa frequentemente de festivais internacionais de poesia.

Todos os poemas do livro foram traduzidos a partir da língua inglesa. Traduzimos na íntegra a antologia poética “We Are Here” publicada em 2006 pela editora BookThug (Toronto, Canadá) com tradução direta do dinamarquês por Patrick Friesen e P. K. Brask.

Dispusemos do apoio do autor, que também domina a língua inglesa, para nos orientar em eventuais consultas necessárias à tradução, como não possuímos conhecimento acerca da língua dinamarquesa, idioma dos escritos originais, o contato com o autor foi de extrema importância.

Nas palavras do próprio Niels Hav: “É impossível traduzir poesia, todo mundo sabe. Mas isso precisa ser feito. Esse paradoxo é o ponto de partida para qualquer tentativa”. Na edição brasileira objetivamos manter a simplicidade elegante de sua obra e suas características vitais, tais quais: sua linguagem graciosamente direta, seu humor fatalista e sua ironia fina.

Quando nos deparamos com os poemas do autor, publicados num blog de poemas no idioma inglês, ficamos bestificados com a áurea espirituosa que compunha suas linhas e espantados ao saber que, até então, sua obra ainda não havia sido traduzida para a língua portuguesa. Instantaneamente, fomos tomados pelo desejo de trazê-la para a nossa realidade.

Sobre a tradução para o inglês Niels declarou, via e-mail, em uma de nossas conversas: “Trabalhei junto de Brask e Friesen nas traduções, e considero as edições em inglês praticamente originais, pois compreendo o idioma e fui capaz de fazer contribuições durante o processo. Então não acho que existam muitas perdas na tradução para o inglês”.

TRADUTORES:

Matheus Peleteiro, nasceu em Salvador – Bahia em 1995. Escritor, tradutor, poeta e contista, publicou em 2015 o seu primeiro romance, “Mundo Cão”, pela editora Novo Século. Em 2016, lançou a novela intitulada “Notas de um Megalomaníaco Minimalista” (editora Giostri), o livro de poemas “Tudo Que Arde Em Minha Garganta Sem Voz” (editora Penalux). Em 2017, publicou “Pro Inferno com Isso”, seu primeiro livro de contos.

Edivaldo Ferreira, nasceu em 1992 na zona leste de São Paulo. Escritor e tradutor literário e audiovisual, em 2016 publicou seu primeiro livro “Ragtimes, beijos na nuca & buracos no peito” (poemas) pela BAR Editora.

* * *

Til digternes forsvar

Hvad skal vi gøre med digterne?
Dem er det synd for,
de er så hjerteskærende i deres sorte tøj
blåfrosne af indvendige polarstorme.

Poesien er en frygtelig pest,
de smittede går rundt og jamrer sig,
deres skrig forgifter atmosfæren som udslip
fra mentale atomkraftværker. Det er så psykisk.
Poesien er en tyran;
den holder folk vågne om natten og ødelægger
ægteskaberne,
den driver mænd ud i øde sommerhuse midt om vinteren,
der sidder de forpinte med høreværn og halstørklæder.
En hæslig tortur.

Poesi er en plage,
værre end gonoré – en grusom pestilens.
Men tænk på digterne, de har det hårdt,
bær over med dem!
De er hysteriske som højgravide tvillingemødre,
de skærer tænder i søvne, spiser jord
og græs. De står i timevis udenfor i blæsten
plaget af ufattelige metaforer.
Hver dag er en højtid for dem.

Åh, hav barmhjertighed med digterne,
de er døve og blinde,
hjælp dem i trafikken, hvor de vakler rundt
med deres usynlige handicap: De husker
alt muligt. Af og til standser en af dem op
og lytter efter en fjern udrykning.
Vis hensyn.

Poeterne er som sindssyge børn
jaget hjemmefra af den samlede familie.
Bed for dem;
de er født ulykkelige –
deres mødre har grædt over dem,
søgt lægehjælp og juridisk bistand,
indtil de bare gav op
for at frelse deres egen forstand.
Åh, græd over poeterne!

Dem er der ingen redning for.
Befængt med lyrik som hemmeligt spedalske
er de spærret inde i deres egen fantasi –
en uhyggelig ghetto, fyldt med dæmoner
og ondskabsfulde spøgelser.

Når du på en klar sommerdag med strålende sol
ser en stakkels digter
komme vaklende ud fra en opgang, bleg
som en dødning og vansiret af spekulationer –
så gå hen og hjælp ham!
Bind hans snørebånd, tag ham med
over i parken og sæt ham på en bænk
i solen. Syng lidt for ham,
giv ham en is og fortæl ham et eventyr;
han er så ked af det.
Han er helt ødelagt af poesi.

Niels Hav

In defense of poets

What are we to do about the poets?
Life’s rough on them
they look so pitiful dressed in black
their skin blue from internal blizzards.

Poetry is a horrible disease
the infected walk about complaining
their screams pollute the atmosphere like leaks
from atomic power stations of the mind. It’s so psychotic.
Poesia is a tyrant
it keeps people awake at night and destroys marriages
it draws people out to desolate cottages in mid-winter
where they sit in pain wearing earmuffs and thick scarves.
Imagine the torture.

Poetry is a pest
worse than gonorrhea, a terrible abomination.
But consider poets it’s hard for them
bear with them.
They are hysterical as if they are expecting twins
they gnash their teeth while sleeping, they eat dirt
and grass. They stay out in the howling wind for hours
tormented by astounding metaphors.
Every day is a holy day for them.

Oh please, take pity on the poets
they are deaf and blind
help them through traffic where they stagger about
with their invisible handicap
remembering all sorts of stuff. Now and then one of them stops
to listen for a distant siren.
Show consideration for them.

Poets are like insane children
who’ve been chased from their homes by the entire family.
Pray for them
they are born unhappy
their mothers have cried for them
sought the assistance of doctors and lawyers, until they had to give up
for fear of loosing their own minds.
Oh, cry for the poets.

Nothing can save them.
Infested with poetry like secret lepers
they are incarcerated in their own fantasy world
a gruesome ghetto filled with demons
and vindictive ghosts.

When on a clear summer’s day the sun shining brightly
you see a poor poet
come wobbling out of the apartment block, looking pale
like a cadaver and disfigured by speculations
then walk up and help him.
Tie his shoelaces, lead him to the park
and help him sit down on a bench
in the sun. Sing to him a little
buy him an ice cream and tell him a story
because he’s so sad.
He’s completely ruined by Poetry.

(Tradução: P.K. Brask e Patrick Friesen)

Em defesa dos poetas

O que devemos fazer com os poetas?
A vida é dura com eles
eles parecem tão deploráveis vestindo de preto
sua pele azulada por nevascas internas.

Poesia é uma doença terrível
o infectado caminha entre lamentos
seus gritos poluem a atmosfera como vazamentos
de usinas nucleares da mente. É tão psicótico.
A poesia é uma tirana
mantém as pessoas acordadas à noite e destrói casamentos
atrai pessoas para cabanas solitárias no meio do inverno
onde elas ficam a sofrer usando protetores de ouvidos e grossos cachecóis.
Imagine a tortura.

Poesia é uma peste
pior que a gonorreia, uma abominação terrível.
Mas pense nos poetas, é difícil pra eles
seja paciente com eles.
Eles são histéricos como se esperassem gêmeos
eles rangem os dentes enquanto dormem, eles comem lixo
e mato. Eles ficam lá fora na friagem por horas
atormentados por terríveis metáforas.
Todo dia é um dia sagrado para eles.

Oh, por favor, tenha piedade dos poetas
eles são surdos e cegos
ajude-os a atravessar o trânsito por onde vão tropeçando
sobre seus obstáculos invisíveis
lembrando todo tipo de coisas. De vez em quando
um deles para e fica ouvindo uma sirene distante.
Mostre consideração por eles.

Poetas são como crianças loucas
que foram afugentadas de suas casas por toda a família.
Reze por eles
eles nasceram infelizes
suas mães choraram por eles
procuraram ajuda de médicos e advogados,
até que tiveram que desistir
por medo de perderem a própria sanidade.
Oh, chore pelos poetas.

Nada pode salvá-los.
Infestados de poesia como leprosos secretos
eles estão encarcerados em seu próprio mundo de fantasia
um gueto macabro cheio de demônios
e fantasmas vingativos.

Quando em um dia claro de verão, o sol brilhando intensamente,
você ver um pobre poeta
cambaleando pra fora do bloco de apartamentos, parecendo pálido
como um cadáver e desfigurado por suposições
caminhe até ele e o ajude.
Amarre seus cadarços, leve-o para o parque
e ajude-o a sentar em um banco
sob o sol. Cante um pouco pra ele
compre um sorvete e conte uma história
porque ele é tão triste.
Ele está completamente arruinado pela poesia.

(Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira)

§

Epigram

Man kan tilbringe et helt liv
i selskab med ord,
uden at finde
det rigtige.

Ligesom en stakkels fisk
pakket ind i ungarske aviser:
For det første er den død,
for det andet forstår den ikke ungarsk.

Niels Hav

Epigram

You can spend an entire life
in the company of words
not ever finding
the right one.

Just like a wretched fish
wrapped in Hungarian newspapers.
For one thing it is dead,
for another it doesn’t understand
Hungarian.

(Tradução: P.K. Brask e Patrick Friesen)

Epigrama

Podes passar uma vida inteira
em companhia de palavras
sem que encontre
a adequada.

Tal como um peixe miserável
embrulhado em jornais húngaros.
Por um lado, está morto,
por outro, não entende
húngaro.

(Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira)

§

Besøg af min Far

Min døde Far kommer på besøg
og sætter sig i sin stol igen, den jeg fik.
Nå, Niels! siger han.
Han er brun og stærk, hans hår skinner som sort lak.
Engang flyttede han rundt på andres gravsten
med stålstang og sækkevogn, jeg hjalp ham.
Nu har han flyttet sin egen
selv. Hvordan går det? siger han.
Jeg fortæller ham det hele,
mine planer, alle de mislykkede forsøg.
Inde på opslagstavlen hænger der sytten regninger.
Smid dem væk,
siger han, de skal nok komme igen!
Han smiler.
I mange år var jeg på nakken af mig selv,
siger han, jeg lå vågen og spekulerede
for at blive et ordentligt menneske.
Det er vigtigt!

Jeg byder ham en cigaret,
men han er holdt op med at ryge nu.
Udenfor tænder solen ild i tage og skorsten.
Skraldemændene larmer og råber til hinanden
nede i gaden. Min Far rejser sig
går hen til vinduet og ser ned på dem.
De har travl, siger han, sådan skal det være.
Bestil noget!

Niels Hav

Visit from my father

My dead Father comes to visit
and sits down in his chair again, the one I got.
Well, Niels he says.
He is brown and strong, his hair shines like black lacquer.
Once he moved other people’s gravestones around
using a steel rod and a wheelbarrow, I helped him.
Now he’s moved his own
by himself. How’s it going? he says.
I tell him all of it,
my plans, all the unsuccessful attempts.
On my bulletin board hang seventeen bills.
Throw them away,
he says, they’ll come back again.
He laughs.
For many years I was hard on myself,
he says, I lay awake mulling
to become a decent person.
That’s important.

I offer him a cigarette,
but he has stopped smoking now.
Outside the sun sets fire to the roofs and chimneys,
the garbagemen make noise and yell to each other
on the street. My Father gets up,
goes to the window and looks down at them.
They are busy, he says, that’s good.
Do something!

(Tradução: P.K. Brask e Patrick Friesen)

Visita do meu pai

Meu falecido pai vem me visitar
e senta em sua cadeira mais uma vez, aquela que herdei.
Então, Niels, ele diz.
Ele é bronzeado e forte, seu cabelo brilha como verniz negro.
Certa vez ele moveu a lápide de outra pessoa pelas redondezas
usando uma haste de aço e um carrinho de mão, eu o ajudei.
Agora ele moveu sua própria lápide
sozinho. Como está indo? Ele pergunta.
Conto tudo a ele,
meus planos, minhas tentativas mal-sucedidas.
Em meu mural de avisos estão penduradas dezessete contas.
Jogue isso fora,
meu pai diz, elas sempre voltam.
Ele sorri.
Por muitos anos fui duro comigo mesmo,
ele diz, ficava acordado na cama pensando
em como me tornar uma pessoa decente.
Isso é importante.

Ofereci um cigarro a ele,
mas ele parou de fumar agora.
Do lado de fora o sol incendiava telhados e chaminés,
os lixeiros faziam barulho e gritavam uns com os outros
no meio da rua. Meu pai se levanta,
vai até a janela e olha pra eles.
Eles estão ocupados, ele diz, isso é bom.
Faça alguma coisa!
(Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira)

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poesia, tradução

Poesia nórdica| Três tradutores de Karin Boye

Karin Maria Boye (n. 26 outubro de 1900 em Gotemburgo, m. madrugada de 24 april 1941 em Alingsås) é uma escritora e tradutora sueca mais conhecida por sua poesia mas que nos legou também muitos artigos, contos e romances, o mais célebre dos quais é a distópica obra de ficção científica Kallocain (Calocaína, publicada no Brasil em 1974 na tradução do prolífico tradutor Janer Cristaldo). A poesia de Karin Boye, marcada de lado pelo seu engajamento político e doutro por sua complexa vida amorosa, numa época impregnada de preconceitos — mesmo na hoje socialmente avançada Suécia — em que assumir publicamente a homossexualidade nem sempre era uma opção muito promissora. Poeta das grandes ela própria, Karin se viu, entre outros, com os poetas Rilke, Eliot e Whitman, os quais verteu ao seu idioma materno.

* * *

 DÓI TANTO QUANDO

Dói tanto quando o broto enflora.
Ou não tardava a primavera.
Oculta atrás do instante, chora,
refém do clima que congela
onde amargou o inteiro inverno.
Então por que desponta agora?
Dói sempre quando o broto enflora
dói quando cresce
…………………….e quando para.

A mesma dor é a dor da gota
que rompe o gelo, anseia e vai,
vacila em vão, o galho agarra
mas cede ao peso, escorre e cai.
É dor de medo, frio e dúvida
ante o escuro do sentir,
é dor daquele que ignora —
se quer ficar
…………………….ou quer partir.

E quando nada mais consola,
o galho o mesmo broto afronta.
Não há mais medo que a tolha,
cai rebrilhando a mesma gota
perante o novo, intimorata
esquece o risco da jornada —
e se engrandece, num segundo,
de toda a fé
…………………….que move o mundo.

(traduzido do sueco por Leonardo Pinto Silva)

JA VISST GÖR DET ONT

Ja visst gör det ont när knoppar brister.
Varför skulle annars våren tveka?
Varför skulle all vår heta längtan
bindas i det frusna bitterbleka?
Höljet var ju knoppen hela vintern.
Vad är det för nytt, som tär och spränger?
Ja visst gör det ont när knoppar brister,
ont för det som växer
………………………………och det som stänger.

Ja nog är det svårt när droppar faller.
Skälvande av ängslan tungt de hänger,
klamrar sig vid kvisten, sväller, glider –
tyngden drar dem neråt, hur de klänger.
Svårt att vara oviss, rädd och delad,
svårt att känna djupet dra och kalla,
ändå sitta kvar och bara darra –
svårt att vilja stanna
………………………………och vilja falla.

Då, när det är värst och inget hjälper,
Brister som i jubel trädets knoppar.
Då, när ingen rädsla längre håller,
faller i ett glitter kvistens droppar
glömmer att de skrämdes av det nya
glömmer att de ängslades för färden –
känner en sekund sin största trygghet,
vilar i den tillit
………………………………som skapar världen.

§

MANHÃ

Quando o sol da manhã penetra pela vidraça da janela,
alegre e cuidadoso
como uma criança querendo fazer surpresa
cedo, muito cedo em um dia de festa —
então me espreguiço cheia de uma crescente exaltação
de braços abertos para o dia que está por vir —
para o dia que é você
para a luz que é você
o sol é você
e a primavera é você
e toda a linda, linda
vida me esperando é você!

(traduzido do sueco por Fernanda Sarmatz Åkesson)

MORGON

När morgonens sol genom rutan smyger,
glad och försiktig,
lik ett barn, som vill överraska
tidigt, tidigt en festlig dag —
då sträcker jag full av växande jubel
öppna famnen mot stundande dag —
ty dagen är du,
och ljuset är du,
solen är du,
och våren är du,
och hela det vackra, vackra,
väntande livet är du!

§

Como posso dizer se a tua voz é bela.
Apenas sei que ela me atravessa,
que me faz estremecer como uma folha
e me despedaça e me arrebenta.

O que eu sei sobre a tua pele e sobre os teus membros.
Eles me abalam apenas por serem teus,
então para mim não há nem descanso e nem paz,
enquanto eles não forem meus.

(traduzido do sueco por Fernanda Sarmatz Åkesson)

*

Como dizer se é bela a tua voz
que me atravessa
e dilacera como uma folha
feita em pedaços.

Que sei da tua pele e dos teus membros
me sacudindo e jurando que sou tua,
roubando de mim o sono e o descanso,
até que que sejam meus.

(traduzido do sueco por Leonardo Pinto Silva)

*

Como posso dizer se a tua voz é bonita.
O único que sei é que ela me trespassa,
me faz estremecer feito uma folha aflita
depois me desfaz e então me devassa.

Que sei eu da tua pele e das tuas pernas.
Comove-me só o fato de que sejam tuas
e eu não terei repouso nem a paz eterna
enquanto elas não forem minhas, nuas.

(traduzido do sueco por Luciano Dutra)

Hur kan jag säga om din röst är vacker.
Jag vet ju bara, att den genomtränger mig
och kommer mig att darra som ett löv
och trasar sönder mig och spränger mig.

Vad vet jag om din hud och dina lemmar.
Det bara skakar mig att de är dina,
så att för mig finns ingen sömn och vila,
tills de är mina.

§

NOITE DE SANTA VALBURGA

Enfim estou junto à montanha do destino.
Em volta, como nuvens de tempestade,
juntam-se seres informes, animais crepusculares,
com suas asas negras,
com seus olhos forsforados.
Paro? Ou ando? A senda segue, sombria.
Se paro pacificamente aqui no sopé da montanha,
ninguém mais me importuna.
E posso assistir serenamente seus embates como jogos nebulosos no ar,
mero olho desgarrado.
Porém se ando, se ando, aí já não sei de mais nada.
Pois para quem anda esses passos
a vida vira uma fábula.
Eu própria fogo,
hei de cavalgar nas serpentes bruxuleantes de fogo.
Eu própria vento,
hei de voar nas pandorgas aladas.
Eu própria o nada,
perdida na tempestade
hei também de me arrojar viva ou morta, feito um destino pesado de futuro.

(traduzido do sueco por Luciano Dutra)

VALBORGSNATT

Sent omsider står jag vid ödenas berg.
Runtomkring som ovädersmoln
skockar sig formlösa väsen, skymningsdjur,
svartvingade,
fosforögda.
Stannar jag? Går jag? Vägen ligger mörk.
Stannar jag fredlig här vid foten av berget,
då rör mig ingen.
Lugn kan jag se deras kamp som en dimmans lek i luften,
själv blott ett vilset öga.
Men går jag, går jag, då vet jag ingenting mer.
För den som tar de stegen
blir livet saga.
Själv eld
skall jag rida på ringlande eldormar.
Själv vind
skall jag flyga på vingade vinddrakar.
Själv intet,
själv förlorad i stormen
slungas jag död eller levande fram, ett öde framtidstungt.

* * *

OS TRÊS TRADUTORES

Fernanda Sarmatz Åkesson (n. 20 de maio de 1970, em Porto Alegre/RS) é bacharel em ciências jurídicas e sociais pela PUC/RS. Vive em Estocolmo desde 1999, onde completou seus estudos com  cursos de pedagogia e de português para estrangeiros. Trabalha como professora de português (língua materna e língua de herança). Já traduziu obras de ficção e não-ficção. Alguns dos autores traduzidos são: Astrid Lindgren, Peter Englund, David Lagercrantz, Pernilla Stalfelt, Christina Rickardsson. Casada com um sueco, tem uma filha e uma cachorra.

Leonardo Pinto Silva (n. 31 de dezembro de 1970 em Fortaleza/CE) é jornalista e tradutor, majoritariamente do norueguês. Aprendeu o idioma na Noruega, onde concluiu o ensino médio, e já traduziu, entre ficção e não-ficção, mais de trinta títulos de autores como Jostein Gaarder, Karl Ove Knausgård e Thor Heyerdahl, para diversas editoras brasileiras. Recentemente, teve publicado pelas editoras Carambaia (SP) e Moinhos (MG) peças de Henrik Ibsen, que serão encenadas em Porto Alegre pela diretora Camila Bauer, brasileira vencedora do Ibsen Awards 2017. Entre uma obra em prosa e outra, dedica-se à tradução de poesias dos idiomas escandinavos. Vive em São Paulo, é casado e tem dois filhos.

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík, onde vive desde 2002, a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (http://www.facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

 

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crítica, poesia

A insgugliambaçó de Juó Bananére

Eu ia escrever uma apresentação da minha lavra, mas li isto aqui:

“Quando a primeira edição de La divina increnca foi lançada em 1915, em produção independente, a figura hilária e carnavalesca de Juó Bananére — pseudônimo do engenheiro Alexandre Marcondes Machado  (1892—1933) — estava no auge de sua popularidade.

No entanto, sua brilhante carreira de cronista no jornal O Pirralho, fundado por Oswald de Andrade em 1911, seria abruptamente interrompida nesse mesmo ano, em função de dois artigos jocosos sobre Olavo Bilac e seu nacionalismo ufanista. Dessa vez, até mesmo para as almas mais avançadas do período, Juó Bananére — sem dúvida um dos nomes mais instigantes do pré-Modernismo brasileiro —, tinha ido longe demais com suas blagues.

Em suas crônicas mordazes, como um caleidoscópio louco, Bananére atirava contra tudo e contra todos. Na literatura, por exemplo, atacou clássicos e modernos, parnasianos e futuristas. Na política, mesmo sendo civilista, não deixou de ironizar figura tão respeitada quanto Rui Barbosa. Sua máxima foi semelhante à do dadaísta Arthur Craven: “Todo grande artista tem a brotoeja da provocação.”

Revelando desde o princípio uma capacidade de reconstruir o mundo a partir das associações mais inusitadas, Bananére foi nesse sentido um precursor do texto-montagem, das paródias, ready mades e poemas-piada, recursos que seriam mais tarde empregados por Manuel Bandeira e Oswald de Andrade, entre outros. A exemplo das vanguardas europeias do início do século XX, instaurou o blefe e o mau gosto como procedimentos artísticos e — assim como os dadaístas — recusou com ironia o rótulo de artista.

La divina increnca, sua obra mais célebre, reúne textos que parodiam poemas clássicos de Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Machado de Assis, Raimundo Correia e Olavo Bilac, ao mesmo tempo em que ridicularizam figuras públicas da época como o marechal Hermes da Fonseca (chamado Hermeze, Dudú e Maresciallo), Nair de Teffé (Nairia), o general Pinheiro Machado (Pignêro e Pentifigno), o senador Rodolfo Miranda (Capitó), Washington Luís (Oxinton) e o vereador e coronel José Piedade (Garonello).

Com sua extrema irreverência, Juó Bananére acabou escrevendo uma espécie de “antilivro”, que se assemelha, numa leitura apressada, a uma brincadeira de estudante. Entretanto, esta algaravia radicalmente popular — que, dado o desuso de certas formas do idioma, hoje chega a nos parecer quase erudita — tornou-se uma forma vitoriosa no tempo, como exemplo genial de humor, ousadia e invenção”

Escrito por Cristina Figueira, como orelha para a edição de La divina increnca, publicada em 2001 pela editora 34 e reeditada em 2007. É um caso raríssimo de concisão certeira, que dizia praticamente tudo que eu poderia querer dizer, e de modo mais preciso. Como não achei esse texto online, optei por disponibilizá-lo aqui, como empenho crítico de primeira, ainda que breve. A ela acrescento apenas quatro coisas. Em primeiro lugar, Bananére é, por assim, dizer, o grande pioneiro do também gênio Adoniran Barbosa; nesse aspecto, poderíamos pensar os vínculos da poesia cantada de Adoniran com certa vertente vanguardista de Zan Baolo. Em segundo lugar, uma série de poemas de sua lavra são também modelos muito radicais de tradução apropriativa, paródica, reviravoltante; temos de pensar nisso com cuidado, porque com Bananére vemos versões inusitadíssimas de Poe-Machado, La Fontaine, e também poetas brasileiros, como Bilac ou Correia, dentre outros; porque, afinal de contas, Bananére não escreve exatamente em português. Em terceiro lugar, parece-me que sua obra é mais um motivo para revermos com cuidado isso que chamamos porcamente de pré-modernismo, limbo vago e sem sentido com ranço de historiografia escolar da literatura brasileira. Em quarto e último lugar, aqui vai um site onde o leitor interessado poderá encontrar mais da obra de Bananére, com toda La divina increnca: http://www.bananere.art.br/.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

O GORVO
P’ru Raule

A NOTTE stava sombria,
I tenia a ventania,
Chi assuprava nu terrêro
Come o folli du ferrêro.

Io estava c’un brutto medó
Lá dentro du migno saló,
Quano a gianella si abri
I non s’imagine o ch’io vi!

Un brutto gorvo chi entrô,
I mesimo na gabeza mi assentô!
I disposa di pensá un pochigno,
Mi dissi di vagarigno:

— Come vá sô giurnaliste?
Vucê apparece chi stá triste?
— Nos signore, sô dottore…
Io stô c’un medo do signore

— Non tegna medo, Bananére,
Che io non sô disordiére!
— Poise intó desça di lá
I vamos acunversá.

Ma assí che illo descê
I p’ra gara delli io ogliê
O Raule ariconecí,
I disse p’ra elli assí:

– Boa noute Raule, come vá!
Intó vuce come stá
Vendosi adiscobrido o rapaise,
Abatê as aza, avuô, i disse: nunga maise!

§

AMORE CO AMORE SI PAGA
Pra Migna Anamurada

XINGUÊ, xingaste! Vigna afatigada i triste
I ttiste i afatigada io vigna;
Tu tigna a arma povolada di sogno
I a arma povolada di sogno io tigna.

Ti amê, m’amasti! Bunitigno io éra
I tu tambê era bunitigna;
Tu tigna uma garigna de féra
E io di féra tigna uma garigna.

Una veiz ti begiê a linda mó,
I a migna tambê vucê begió.
Vucê mi apiso nu pé, e io non pisé no da signora.

Moltos abbracio mi deu vucê,
Moltos abbracio io tambê ti dê.
U fóra vucê mi deu, e io tambê ti dê u fóra.

§

O LOBO I O GORDERIGNO
Fabula di Lafontana
Traduçó Du Bananére

UN dia n’un ribeiró,
Chi tê lá nu Billezinho,
Bebia certa casió
Un bunito gorderinho.

Abebia o gorderigno,
Chetigno come un Jurití,
Quano du matto vizigno
Un brutto lobo saì

O lobo assí che inxergô
O pobre gordêro bibeno,
Os zoglios arrigalô
I lógo giá fui dizeno:

— Olá! ó sô gargamano!
Intó vucê non stá veno,
Che vucê mi stá sujano
A agua che io stô bibeno!?

— Ista é una brutta galunia
Che o signore stá livantáno!
Vamos xamá as tistimunia,
Foi o gordêro aparlano…

Nos vê intô Incelencia,
Che du lado d’imbaixo stó io
I che nessum ribêro ne rio,
Non górre nunca p’ra cima?

— Eh! non quero sabê di nada!
Si vucê non sugió a agua,
Fui vucê chi a simana passada
Andó dizeno qui io sô un pau d’agua.

— Mio Deuse! che farsidade!
Che genti maise mentirosa,
Come cuntá istas prosa,
Si tegno seis dia d’indade?!

— Si non fui vucê chi aparlô,
Fui un molto apparicido,
Chi tambê tigna o pello cumprido
I di certo é tuo ermô.

— Giuro, ó inlustre amigo,
Che isto tambê é invençó!
Perché é verdado o che digno,
Che nunca tive un ermô.

— Pois se non fui tuo ermó,
Cabemos con ista mixida;
Fui di certo tuo avó
Che mexê c’oa migna vida.

I avendo acussi parlato,
Apigó nu gorderigno,
Carregó illo p’ru matto
I comeu illo intirigno.

MORALE: O que vale nista vida é o muque!

§

SUNETTO CRASSICO

SETTE anno di pastore, Giacó servia Labó,
Padre da rafaella, serrana bella,
Ma non servia o pai, chi illo non era trosa nó!
Servia a Rafaella p’ra si gazá c’oella.
I os dia, na esperanza di un dia só,
Apassava spiano na gianella;
Ma o paio, fugindo da gumbinaçó,
Deu a Lia inveiz da Raffaela.
Quando Giacó adiscobri o ingano,
E che tigna gaida na sparrella,
Ficô c’un brutto d’un garó di arara
I incominció di servi otros sette anno
dizeno: si o Labó non fossi o pai della
Io pigava elli i lí quibrava a gara.

§

SONETTO FUTURISTE
Pra Marietta

TEGNO una brutta paxó,
P’rus suos gabello gôr di banana,
I p’ros suos zoglios uguali dos lampió
La da igregia di Santanna.

Ê mesimo una perdiçó,
Ista bunita intaliana,
Che faiz alembrá os gagnó
Da guerre tripolitana.

Tê uns lindo pesigno
Uguali cos passarigno,
Chi stó avuáno nu matto;

I inzima da gara della
Té una pinta amarella,
Uguali d’un carrapatto.

§

UVI STRELLA

CHE scuitá strella, né meia strella!
Você stá maluco! e io ti diró intanto,
Chi p’ra iscuitalas montas veiz livanto,
i vô dá una spiada na gianella.

I passo as notte acunversáno c’oella,
Inguanto cha as otra lá d’un canto
St’o mi spiano. I o sol como um briglianto
Nasce. Ogliu p’ru çeu: — Cadê strella?!

Direis intó: — O’ migno inlustre amigo!
O chi é chi as strallas tidizia
Quano illas viéro acunversá contigo?

E io ti diró: — Studi p’ra intendela,
Pois só chi giá studô Astrolomia,
É capaiz de intendê istas strella.

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poesia

Mac Adams, exposição e dois diálogos

 

No dia 18 de abril, quarta-feira, o artista britânico, naturalizado norte-americano, Mac Adams (Brynmawr, 1943) abrirá a exposição inédita Mens Rea: a cartografia do mistério, no Centro Cultural Fiesp. Além de apresentar dezessete obras e uma instalação in situ criada  para a exposição, a mostra conta também com a participação de textos literários. A partir de uma seleção de obras feita pela curadoria da exposição, foi realizado um convite para autores de diversos gêneros, faixas etárias e nacionalidades, com o objetivo de construir um diálogo com a narrativa visual de Mac Adams, um dos fundadores do Narrative Art, movimento artístico surgido nos Estados Unidos na década de 1970. Os nomes são Tal Nitzán (Israel), Ricardo Domeneck (Brasil), Dylan Thomas Hayden (Estados Unidos), Pascal Marquilly (França), Marcus Fabiano (Brasil), Johannes CS Frank (Reino Unido/ Alemanha), Victor Heringer (Brasil), Guilherme Gontijo Flores (Brasil) e Matilde Campilho (Portugal).

Os autores convidados tiveram a liberdade na interpretação da imagem e na escolha do gênero literário para cada texto. “O único desafio para cada autor foi usar o conceito Mens Rea na construção de cada texto, pois este é o elemento principal utilizado também pelo Mac Adams na sua obra”, com diz Luiz Gustavo Carvalho, curador da exposição junto com Anne-Céline Borey.

O período expositivo vai de 18 de abril a 8 de julho de 2018, na Galeria de Fotos do Centro Cultural Fiesp: Avenida Paulista, 1313 (em frente à estação Trianon-Masp), de terça a sábado, das 10h às 22h, e domingo, das 10h às 20h. Na abertura, no dia 17 de abril (terça-feira), às 18h, será feita a palestra “Fios soltos: construção e desconstrução de uma arte narrativa”, com o próprio Mac Adams e os curadores Luiz Gustavo Carvalho e Anne-Céline Borey.

Além de poder contribuir com um texto meu parao díptico “The Whisper”, tive a chance de traduzir os textos de Pascal Marquilly  e de Johannes CS Frank. Seguem abaixo o poema feito por Tal Nitzán, em tradução de Moacir Amâncio, para o díptico “Orian”.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

Mac Adams, Díptico “Orianr”, 1980. Series Mysteries.


(Tal Nitzán)

Não é um banco verde no quarto das crianças
é um crocodilo
não é um crocodilo
é o futuro:

Eis o movimento lento dos seus olhos
Eis o bater das suas mandíbulas terríveis

Mas onde estão as crianças?
Este não é mesmo o quarto das crianças
Este é o quarto da infância.

Eis que tu te encontras nele
em teu vestido pequeno e a tua boca fechada
e todos os teus crocodilos diante de ti.

(trad. Moacir Amâncio)

§

Mac Adams, Díptico “The Whisper”, 1976-7. Series Mysteries.

Dito isso
a partir de “The Whisper” de Mac Adams
(Guilherme Gontijo Flores)

Mas escuta-me ao menos! Se eu já sonhei alguma vez com isso, podes abominar-me. Muito embora no ofício de soldado eu já tenha matado muita gente, assunto considero de consciência premeditar um crime. Muitas vezes pensei nove ou dez vezes em furá-lo aqui, sob a costela. Sim; porém ele palrava de tal modo e assacava tais vilezas contra vossa honra, que o meu pouco temor de Deus a custo conseguiu sofrear-me. Uma só coisa vos pergunto, senhor; estais realmente casado? Há segurança?

Dito isso.

Assim, de um tolo faço minha bolsa. Profanaria meus conhecimentos, se gastasse meu tempo com um idiota desta marca, a não ser para proveito próprio ou distração. Odeio o Mouro. Há quem murmure que ele o meu trabalho já fez em meus lençóis. Se é certo, ignoro-o. Pelo sim, pelo não, agir pretendo como se assim, realmente, houvesse sido. Tem-me afeição. Meu plano, desse modo, sobre ele vai atuar com mais certeza. Cássio é um homem de bem. Ora vejamos como posso alcançar o lugar dele e enfeitar meu desejo com dobrada patifaria. Como? De que modo? Reflitamos. Deixar passar o tempo e embair-lhe os ouvidos, declarando-lhe que Cássio mostra muita intimidade com a mulher dele. O exterior de Cássio e seu todo insinuante o predispõem a tornar-se suspeito facilmente. Foi feito para seduzir mulheres. De natureza é o Mouro livre e aberta; honesto julga ser quem aparenta, tão-só, honestidade. Sem trabalho pelo nariz poderá ser levado, tal qual os asnos. Pronto; já está gerado. A noite e o inferno à luz hão de trazer meu plano eterno. Ele a segura pela mão. Muito bem! Cochicha-lhe aos ouvidos. Com uma teiazinha tão pequena assim, pretendo pegar uma mosca do tamanho de Cássio. Sim, dirige-lhe sorrisos; mais um pouco, e eu te amarrarei com tuas próprias cortesias. Tendes razão: é assim mesmo. Se vierdes a perder o poste de tenente por umas frioleiras desse porte, melhor vos teria sido não ter beijado tantas vezes os três dedos, como ainda vos mostrais disposto a fazer, para vos apresentardes como senhor de respeito. Muito bem! Belo beijo! Excelente cortesia! É assim mesmo, não há dúvida. Levais mais uma vez os dedos à boca? Quiser que vos servisse com outras cânulas de clister… Oh! Por enquanto estais bem afinados, mas eu me incumbo de afrouxar as cordas que produzem tal música; tão certo como eu se gente honesta. Que amor lhe tenha Cássio, é o que acredito; que ela o ame, é quase certo e compreensível. O Mouro, embora eu suportar não o possa, por natureza é firme, nobre e amável, tendo eu plena certeza de que ele há de ser o marido ideal para Desdêmona. Mas eu também a amo, não por simples concupiscência, muito embora eu seja também passível dessa grande falta. Não; é para saciar minha vingança, pois suspeito que o Mouro luxurioso pulou na minha sela, pensamento esse que, como mineral nocivo, me corrói as entranhas, sem que nada possa ou deva deixar-me a alma aliviada antes de virmos nisso a ficar quites; é mulher por mulher. Falhando o plano, farei tal ciúme despertar no Mouro, que não possa curá-lo o raciocínio. Para obter isso — caso este sabujo de Veneza, que à trela sempre trago, saiba encontrar o rasto e correr firme — pegarei Miguel Cássio pelo flanco, pois temo que ele também tenha usado meu gorro de dormir. Assim, o Mouro me amará, ficar-me-á reconhecido, e um prêmio me dará por eu ter feito dele um asno completo, e o ter privado da paz e do sossego, até nas raias ir bater da loucura. Aqui está tudo. Meio confuso, é certo; mas inteira, nunca se mostra, nunca, a bandalheira.

Se eu puder empurrar-lhe mais um copo além do que ele já bebeu à tarde, ficará tão rixento e quereloso como uma cadelinha. Aquele tonto, Rodrigo, a quem o amor virou no avesso, esta noite, à saúde de Desdêmona bebeu potes seguidos. Vai dar guarda. Mais três rapazes de alto e nobre espírito, que em distância prudente a honra conservam, elementos desta ilha belicosa, esta noite deixei meio confusos com copos transbordantes. Todos eles irão também dar guarda. Ora, no meio de tantos bêbedos, farei que Cássio pratique qualquer ato que alboroto venha na ilha a causar. Ei-los que chegam. Se condisser com os sonhos a sequela, meu barco correrá com vento e vela. Fazei tinir a caneca! Fazei tinir a caneca!… A vida é quente, soldado é gente… Soldado… que leva a breca! Mais vinho, rapazes!

Quem poderá dizer que eu represento papel de celerado, se o conselho que eu dei é honesto e leal, muito plausível e em verdade o caminho para ao Mouro vir a reconquistar? Sim, porque é muito fácil de conseguir que a complacente Desdêmona se empenhe em qualquer súplica honesta; é dadivosa como a terra. E para obter do Mouro qualquer coisa — muito embora para ele se tratasse de abrir mão do batismo, das insígnias e símbolos de uma alma redimida — tanto ele o coração traz encadeado na afeição de Desdêmona, que tudo fazer ou desfazer ela consegue, como entender, reinando como deusa sua vontade sobre o fraco esposo. Estarei sendo, acaso, um celerado por ter mostrado a Cássio esse caminho que vai dar no seu bem, diretamente? Divindades do inferno! Quando os diabos querem dar corpo aos mais nefandos crimes, celestial aparência lhe emprestam, tal como agora faço. Pois, enquanto este imbecil honesto pede à bela Desdêmona que cure a sua sorte, e ela sobre isso insiste junto ao Mouro, veneno deitarei no ouvido dele, com dizer que ela o faz só por luxúria; quanto mais houver feito ela por ele, mais, junto ao Mouro, há de perder o crédito. Transformarei em pez sua virtude, e com a própria bondade apresto a rede que há de a todos pegar. E agora duas coisas: sobre Cássio falar minha mulher junto à senhora; vou concitá-la já. Nesse entrementes, chamarei o Mouro para que venha encontrar Cássio, quando falando estiver este com Desdêmona. Esse é o caminho certo; que a tardança não me faça perder a segurança.

Deveriam os homens ser somente o que parecem, ou então não parecer o que não fossem. Sendo assim, considero Cássio honesto. Acautelai-vos, senhor, do ciúme; é um monstro de olhos verdes, que zomba do alimento de que vive. Vive feliz o esposo que, enganado, mas ciente do que passa, não dedica nenhum afeto a quem lhe causa o ultraje. Mas que minutos infernais não conta quem adora e duvida, quem suspeitas contínuas alimenta e ama deveras! Quem com sua pobreza está contente, é rico, muito rico; mas riquezas infinitas são como o frio inverno, para quem medo tem de ficar pobre. Livrai-me, céu bondoso, e as almas todas de minha tribo, de sentir ciúmes. Assim, já que o dever a isso me obriga, sincero vou falar, mas não de provas, por enquanto. Vigiai vossa consorte; observai bem como ela e Cássio falam; lançai-lhe olhar assim, nem enciumado, nem confiante demais. Não desejara que vossa natureza leal e nobre vítima viesse a ser por causa, apenas, da generosidade que lhe é própria. Vigiai-os bem. Conheço minha terra; em Veneza as mulheres não se correm de confessar ao céu as leviandades que ocultam dos maridos. Para todas a virtude consiste apenas nisto: não deixes de fazer, mas em segredo. Ao pai ela enganou com desposar-vos; ao fingir que tremia à vossa vista, mais vos era afeiçoada. Tirai a conclusão: uma donzela que finge a ponto de deixar os olhos do pai como vendados, obrigando-o a achar que era feitiço… Mas confesso-me passível de censura. Humildemente vos peço me perdoeis tanta amizade. Instantemente vos peço não tirar do meu discurso forçadas conclusões, nem distendê-lo senão até à suspeita.

Dito isso.

Dentro do quarto de Cássio jogarei o lenço, para que ele o venha a encontrar. As ninharias leves como o ar, para quem tem ciúmes, são verdades tão firmes como trechos da Sagrada Escritura. Disto pode sair alguma coisa. Meu veneno já produziu alterações no Mouro. Certos conceitos são por natureza verdadeiros venenos que, de início, não provocam nenhuma repugnância, mas logo que no sangue atuam, queimam como mina de enxofre. Não me engano.

Quero crer que seria uma tarefa assaz dificultosa convencê-los a se deixarem ver sob esse aspecto. O demo os carregue, se possível for a olhar de mortais, tirante o deles, vê-los deitados juntos. Que me resta para dizer? Que provas posso dar-vos? Não vos será possível ver tal coisa, embora ardentes fossem como bodes, quentes como macacos, luxuriosos como lobos no cio e tão grosseiros como ser mais alvar, quando embriagado. Contudo vos direi, se alguns indícios, circunstâncias de peso, que conduzem diretamente à porta da verdade vos deixarem convicto, haveis de tê-las. Não me agrada esse ofício. Mas já que fui tão longe nesse caso, levado pela honestidade estúpida e a amizade, tão-só, não me detenho. Passei com Cássio uma das noites últimas, mas por estar sentindo dor de dentes, não podia dormir. Ora, há pessoas de alma tão largada que no sono revelam seus negócios. Cássio é dos tais; pois estando a dormir, ouvi quando ele murmuravam “Desdêmona querida, sejamos cautelosos, encubramos bem nosso amor!” Então, senhor, pegando-me das mãos e as apertando, suspirava: “Oh criatura adorável!” e beijava-me com tamanho furor, como se os beijos pela raiz colhesse de meus lábios. Depois, a perna colocou por cima de minha coxa, suspirou, beijou-me de novo e disse: “Oh fado amaldiçoado, que te foi entregar para esse Mouro!” Mas tudo isso era somente sonho. Sede cauto; ainda não vimos nada; é bem possível que seja honesta. Ora dizei-me apenas o seguinte: não viste porventura não mão de vossa esposa, algumas vezes, um lenço com bordados de morangos? Ignorava esse fato; porém tenho certeza plena de ter hoje visto Cássio passar na barba um lenço desses, que foi de vossa esposa. Ficai calmo. Ficai calmo, torno a dizer; podeis mudar de ideia. E eu me declaro vosso por toda a vida. Será crível tal coisa? Beijar às escondidas! Ou ficar uma hora ou duas nua no leito, ao lado de um amigo, sem ruins intenções. Se nada fazem, é um pecado venial. Porém no caso de eu dar um lenço à minha esposa… Ora, senhor; seria dela o lenço. E, dela sendo, penso que podia dá-lo a quem entendesse. A honra é uma essência que não cai na vista. Muitas vezes a tem quem nunca a teve. Mas quanto ao lenço… E que se dera se eu tivesse dito que ele vos ultrajara, ou que falara por aí fora, como certos biltres que — tendo conquistado alguma dama, ou por impertinência nos assaltos, ou com o consentimento dela própria, depois de convencida — de indiscretos falam por toda parte. Sim senhor. Mas podeis ter certeza de que não disse nada que não possa negar sob juramento. Oh céu! Que tinha… Que sei eu?… Que tinha… Deitado… Com ela ou em cima dela, o que quiserdes.

Dito isso.

Trabalha meu veneno! Trabalha! Desse modo é que pegamos os idiotas crédulos. E é assim, também, que muitas damas dignas e castas, sem senão, ficam faladas. Olá, senhor! Senhor, repito! Otelo! Não deveis recorrer a veneno; estrangulai-a no leito, no próprio leito que ela poluiu.

Dito isso.

Ide logo; não choreis; tudo ainda acaba bem.

Dito isso.

Não me pergunteis nada; o que sabeis, já sabeis. Não direi, de agora em diante, nem mais uma palavra.

( Todo o texto é feito de recortes de falas de Iago, no Otelo Shakespeare, a partir da tradução de Carlos Alberto Nunes.)

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poesia, tradução

Hilde Domin, por Valeska Brinkmann

Hilde Domin (1909 – 2006) foi uma poetisa alemã de grande importância. Filha de judeus, depois de morar na Italia imigrou em 1932 para a Republica Dominicana, onde começou a escrever poemas e de onde se origina seu nome artístico (Domin). Ganhadora de inúmeros prêmios na Alemanha e condecorada com a Ordem del Merito, na República Dominicana. Publicou, entre muitos outros: Nur eine Rose als Stütze (poesia, 1959) e Ich will dich (poesia, 1970). Os poemas abaixo traduzidos são do volume: Rückkehr der Schiffe (poesia, 1962).

Valeska Brinkmann estudou Radio e TV na FAAP em São Paulo. Trabalha na emissora de Radio e TV pública de Berlin, onde vive há 14 anos.Escreve contos e histórias para crianças. Publicou em 2016 Pedrina – A perua que queria ser Pavão/ Die Pute die ein Pfaul sein wollte, pela editora Bübül Verlag Berlin.

* * *

Rückker 

Meine Füße wunderten sich
daß neben ihnen Füße gingen
die sich nicht wunderten.

Ich, die ich barfuß gehe
und keine Spuren hinterlasse,
immer sah ich den Leuten auf die Schuhe.

Aber die Wege feierten
Wiedersehen
mit meinen schüchternen Füßen.

Am Haus meiner Kindheit blühte
im Februar
der Mandelbaum.

Ich hatte geträumt,
er werde blühen.

Volta

Meus pés se admiram
que ao lado deles caminham pés
que não se admiram

Eu, que descalça ando
e não deixo pegadas,
sempre olho as pessoas pelos sapatos

mas os caminhos comemoram
reencontros
com meus pés tímidos

Na casa da minha infância floreia
em fevereiro
a amendoeira

Eu tinha sonhado
que ela iria florear

§

Tauben im Regen

Meine Füße die viel gegangen sind,
meine Füße zwei Tauben
die jede Nacht
das Nest deiner Hände suchten,
meine Kinderfüße.

Die du weggewiesen hast,
sie sitzen im Regen
vor deiner Tür,
aneinander geschmiegt,
zwei Tauben im Regen,

meine Kinderfüße.

Pombas na Chuva

Meus pés que muito andaram
meus pés duas pombas
que cada noite
procuram o ninho das tuas mãos,
meus pés de criança.

Que tu afastaste
eles estão na chuva
na tua porta,
aconchegados um no outro
duas pombas na chuva,

meus pés de criança.

§

Traumwasser 

Traumwasser
voll ertrunkener Tage.

Traumwasser
steigt in de Straßen.

Traumwasser
schwemmt mich hinweg.

Água dos sonhos

Água dos sonhos
cheia de dias afogados.

Água dos sonhos
avança pelas ruas.

Água dos sonhos
me inunda adiante.

§

Flut 

Ich fühle, wie das unruhige
Wasser
deines Herzens steigt.

Ich bitte dich um nichts.

Lasse mich
ertrinken.
Rette das Bild.

Maré Cheia

Eu sinto, como a agitada
água
do teu coração sobe.

Nao te peço nada.

Deixa-me
afogar.
Salva a imagem.

§

Behütet 

Ich schlafe im Schutz
meiner Traurigkeit.
Das Leid wie das Glück
baut Mauern.

Ich, ohne Haus,
immer im Schutz dieser Mauer,
wo der Krieg
stillsteht.

Wo ich an der Wunde
von einer Taube
Brustfeder
sterbe.

Protegida

Eu durmo na proteção
da minha tristeza
O sofrimento, tal como a alegria
constrói muros.

Eu, sem casa,
sempre no abrigo desses muros,
onde a guerra
está quieta.

Onde eu em volta da ferida
das plumas do peito
de uma pomba
morro.

§

April

Die Welt riecht süß
nach Gestern.
Düfte sind dauerhaft.

Du öffnest das Fenster.
Alle Frühlinge
kommen herein mit diesem.

Frühling der mehr ist
als grüne Blätter.
Ein Kuß birgt alle Küsse.

Immer dieser glänzend glatte
Himmel über der Stadt,
in den die Straßen fließen.

Du weißt, der Winter
und der Schmerz
sind nichts, was umbringt.

Die Luft riecht heute süß
nach Gestern –
das süß nach Heute roch.

Abril

O mundo tem cheiro doce
de ontem
perfumes são duradouros

Tu abres a janela
todas as primaveras
entram com esta.

Primavera que é mais
que folhas verdes.
Um beijo contém todos os beijos.

Sempre esse liso brilhante
céu sob a cidade,
na qual as ruas fluem.

Tu sabes, o inverno
e a dor
não são o que mata.

O ar hoje tem cheiro doce
de ontem-
doce que cheira a hoje.

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