poesia, tradução

Eeva-Liisa Manner (1921-1995), por Ricardo Domeneck

Eeva-Liisa Manner foi uma poeta, dramaturga, romancista e tradutora finlandesa, nascida em Helsinque no dia 5 de dezembro de 1921. Estreou como poeta em 1944, com o livro Mustaa ja punaista — “Preto e vermelho”). Mas foi a partir da coletâna de poemas Tämä matka (“Esta jornada”, 1956) que passou a ser vista como uma das mais influentes vozes da poesia finlandesa no pós-guerra. Traduziu obras de William Shakespeare, Lewis Carroll, Hermann Hesse e Franz Kafka para o finlandês. Eeva-Liisa Manner morreu em Tampere, no dia 7 de julho de 1995. Os poemas abaixo foram vertidos a partir das traduções em inglês.

 Ricardo Domeneck

* * *

Descartes

Eu pensava, mas não existia.
Eu disse que animais eram máquinas.
Eu perdera tudo menos a razão.

Dê meus parabéns a todos
cujo conhecimento é secreto –
Paracelso, Swedenborg e os cavalos matemáticos de Elberfeld
que extraem a raiz e a elevam a uma potência,
calculam com seus cascos espertos, não suas cabeças –

porque o corpo tudo sabe
mas um prego atravessa uma cabeça culta.

Diga que a filosofia é solidão e um cadáver
copulando com a razão e o bebê
é um discurso sobre o método e extensão imaginada.

Hoje
cavalos rápidos correm por uma França moribunda
e seus cascos batucam um conhecimento oculto
no osso-temporal cartesiano.
Hoje, eles e eu somos um só.

§

Contraponto

Tudo despencou do meu colo:
o jardim, o quintal, a casa, as vozes, os quartos,
a criança – segurando uma andorinha e um peixe –
caíram no chão
que empurrava suas pedras.
Eu sou um quarto vazio
cercado por pontos cardeais
e árvores embrulhadas em neve,
frio, frio, vazio.
Mas em minha mão
tudo o que amo ascende –
o quintal, as rosas, o ninho artificial,
perfeitos,
uma casa como vagem, sementes quietas
com morte e moção em seus tecidos,
o pequeno poço, o pequeno cão, a coleira invisível.
Quarto pequeno, janelas pequenas, pequenos, sapatos
de cadarços ágeis para o coração e a corrida.
Os sapatos correm entre câmara e átrio
e sobre o sangue dedos infantis constróem
um cais de pedra para os remadores de pedra.
Sonhos como pedras
nas profundezas,
lidos e dedicados à morte.
E pássaros afinados
flutuam janela adentro –
com um risinho nos bicos:
gotas de Mozart
zart zart

 

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9 haikais bashonianos, de Frederico Klumb

Frederico Klumb (Rio de Janeiro, 19990) é poeta, roteirista e artista visual brasileiro. Cursou Cinema na PUC-RJ e publicou poemas em revistas especializadas, nacionais e estrangeiras, a exemplo de Modo de Usar & Co, escamandro, Garupa, Dusie e Incomunidade.
Em 2016, publicou o volume Almanaque Rebolado (Azougue / Cozinha experimental / EdiçõesGarupa), um guia artístico-pedagógico para criação poética, escrito a vinte mãos e fruto de residência no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica (CMAHO). 
Em 2017 publicou Arena (coleção megamini/ 7letras) e exibiu o curta-metragem Agharta em festivais nacionais e internacionais de cinema, a exemplo do Festival Internacional de Curta-metragens de Hamburgo.
Participou de antologias como Golpe: manifesto (Nosotros editorial) e da exposição Rejuvenesça: Poesia Expandida Hoje.
Em 2018 publicou cinema circular (transferidaça) e máquinas mancas da manhã (pela Edições Garupa), além de diversos vídeo-poemas, que podem ser vistos em sua página pessoal no vimeo: https://vimeo.com/user43080611.

* * *

montanha imóvel
e dois cavalos soltos,
pastam a terra do olho

. .

o galo morto
repouso ao seu lado:
o sol esquenta as penas

. .

bancas desmontadas
cascas de frutas no chão –
um homem espera

. .

uma colher cava
percorre a grande tigela –
a terra lá fora

. .

a vassoura lenta
não sei que pássaro canta
moro no rio

. .

quietas, as traças
cozem o som na janela:
ensinam o sono.

. .

alguém estala os dedos –
cigarras no telhado
e o vale escuro

. .

pequenas formigas
caminham sobre meus pés –
no céu, duas estrelas.

. .

na fumaça espessa
um besouro estala asas
a vida é veloz

. .

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André Pieyre de Mandiargues (1909 – 1991), por Natan Schäfer

André Pieyre de Mandiargues e sua esposa Bona, pintora e escultora. Foto de Cartier Bresson. Veneza, 1952.

André Pieyre de Mandiargues (1909 – 1991) é autor de uma extensa e diversa obra que, embora agraciada com Prêmio Goncourt (em 1967, pelo romance La Marge) e o Grande Prêmio da Academie Française (em 1979, por sua poesia), ainda enfrenta dificuldades para encontrar seu lugar nas histórias da literatura francesa. Nascido em Paris mas tendo passado grande parte de sua vida no sul da Europa devido à sua paixão pelo mediterrâneo, Mandiargues foi um dos “herdeiros indiretos” do surrealismo francês, apesar de nunca ter participado e militado oficialmente junto ao grupo liderado por André Breton. Excêntrico e algo insular, Mandiargues foi definido em seu obituário no jornal Le Figaro como o “mais secreto de nossos escritores” e possui uma poética geralmente apresentada como barroca e vinculada ao onírico e ao erótico, mas não que para por aí. Como muito bem observou o poeta e ensaísta Alain Jouffroy, os textos de Mandiargues nos conduzem “às profundezas da voz baixa”.

O autor foi apresentado no Brasil por Mônica Cristina Corrêa, que traduziu a prosa de “Fogo em brasa” (Feu de brase), publicado pela editora Iluminuras em 2003.

As traduções aqui reunidas referem-se a diferentes momentos do longo percurso poético de Mandiargues, que vai de 1943, ano de publicação de Dans les anées sordides, até o início dos anos 1990. Podemos assim acompanhar alguns movimentos de uma poética que não se resume à obediência a postulados ou dogmas, não se deixando reduzir a um ismo e cuja voz, ainda que sussurante, se faz ouvir e segue conversando conosco, hoje.

Natan Schäfer (1991) nasceu em Ibirama, Santa Catarina. É mestrando em Estudos Literários pela UFPR e proprietário, com Flávia Chornobai, da microeditora Contravento Editorial. Atualmente vive em Lyon.

* * *

Arroio de solidões [André Pieyre de Mandiargues, Ruisseau des solitudes, 1968, p.:? “Ruisseau de solitudes”]

Ninguém que seja só
Em si
E ali que
Não queira estar na rua,

Ninguém na rua
Que seja

E não queira
Estar em si
Pra lá da soleira
A sós,

A rua anula
No rolar ela anula
Dia e noite anula,
A nuvem no céu
Desdobra
Um sudário sobre a rua,

Longa rua
Quanto mais longa
Mais anula
E mais cedo cerca o homem,

Sulco longo
Cova escavada,

Sob o azul gris
Da lavanderia suspensa
Gotejando desejos,

Doce doçura dos sozinhos
Desejosos sim,

Sozinhos na casa dele quando estão
Ou ao que parece
Na casa dela
Nu e nua se querem
E arruam
Suam,

Embora dois sendo sós
Suam sim pois
Arruam para
Em dois ser um,

Se ela é arável
Ele é charrua
Queriam ser grãos
De uma só espiga,

Aspirando ao singular
No barro
Fazem a lebre dupla,

Só a só se pregam
Panela e tampa
Da arca oblonga
Que em par
Desce no lamaçal,

Para ser anulada
Pela lei da vassoura,

Enquanto longe
Frente ao cabo
E atrás também
Reforma-se a rua,

Arroio de solidões.

Ruisseau de solitudes

Nul qui seul soit
Chez soi
Et là qui
Ne veuille être en la rue,

Nul en la rue
Qui soit
Seul
Et qui ne veuille
Être chez soi
Derrière un seuil
À soi,

La rue annule
Par roulement elle annule
Jour e nuit elle annule,

La nue au ciel
Déploie
Un linceul sur la rue,

Longue rue
Plus longue elle est
Plus elle annule
Plus tôt l’homme est enclos,

Un sillon long
Une fosse fouie,

Sous le bleu-gris
De la buanderie haute
D’où les désirs découlent,

Douce douceur des seuls
Désireux oui,

Seuls chez lui quand ils sont
Ou semblablement
Chez elle
Nu et nue ils se veulent
Ils ruent Suent,

Quoique deux étant seuls
Ils suent oui donc
Ils ruent afin
D’être en deux un,

Qu’elle soit arable
Ils est charrue
Ils se voudraient le grain
D’un seul épi,

Aspirant à l’unique
Ils terrent
Font un double lapin,

Seul à seule ils s’enclouent
Couvercle et fond
Du coffre long
Qui est couple et
Qui descend en des boues,

Pour être annulé
De par loi de balai,

Tandis que loin
Devant le manche
Et en arrière aussi
Se reforme la rue,

Ruisseau des solitudes.

§

Você vai rir [André Pieyre de Mandiargues, Le Point où j’en suis / Dalila exaltée / La Nuit l’amour (p. 64), 1964 e Correspondance Paris – Buenos Aires 1961-1972, 2018 “Tu riras”]

Para Alejandra Pizarnik

Você vai rir de ter passado fome
Vai rir da necessidade
E da satisfação,

Vai rir do frio e do calor
Vai rir de ter dado risada e chorado
Vai sorrir por ter amado,

Você vai zombar por ter estado viva.

Tu riras

Tu riras d’avoir eu faim
Tu riras du besoin
Et de la satisfaction,

Tu riras du froid et du chaud
Tu riras d’avoir ri et pleuré
Tu souriras d’avoir aimé,

Tu te moqueras d’avoir eté vivante.

§

Heroína [André Pieyre de Mandiargues, Gris de perle, 1993, “Héroïne”, p. 64]

Quem cai não é a flor
Mas seu adorno de pétalas
Quando o macio ventre cresce
Ovário da papoula branca
De onde um dia sairás
Moça ofuscada,

Mas o que não longe de ti
Já brilha
É a tumba de mármore nova
Numa floresta vasta e velha,

A tumba da heroína
Que serás contra tua vontade
De ter uma vida de planta entre as árvores
Comumente obscuramente
Inocentemente eternamente
Aos pés do portal de giz.

(28 de outubro de 1984)

Héroïne

C’est n’est pas la fleur qui tombe
C’est sa parure de pétales
Quand son doux ventre grossit
Ovaire du pavot blanc
Dont tu sortiras un jour
Jeune éblouie,

Mais ce qui non loin de toi
Brille déjà
Est un tombeau de marbre neuf
Dans une forêt vaste et vielle,

Le tombeau de l’héroïne
Que tu seras contre ta volonté
De n’avoir qu’une vie de plante entre les arbres
Communément obscurément
Innocemment longtemps
Au pied d’une porte de craie.

(28 octobre 1984)

§

Incêndio [André Pieyre de Mandiargues, L’âge de la craie, 1961, p.15: “L’incendie”]

Que foste buscar em meio ao incêndio
Por trás dos vapores de esplendor barroco
Através do segredo de uma escada aos trapos
Estrangulada por heras escarlates?

Que promessa te fez abrir uma porta em chamas
Santa face de fogo e cinza
Na beira de um mundo morno
Falcatrua silêncio ruína?

Diante de ti agora não mais
Que diamantes e rubis brincando na poeira
Que gesso caído sobre azulejos de mármore
Com estátuas de escudos brancos
De mãos de vidro de jarros cheios de pranto
De pretas de veludo e de rosas passadas
Embaixo de paredes caducas.

Eis que vem vindo uma dama radiante e funérea
Desaparece de repente de repente aparece reaparece de repente
Mais que de repente nua
Que é como a sombra de uma desolação.

Nua sangrenta e negra
Nos cabelos desfeitos uma fagulha
Vermelha como um cravo capaz de perfurar a fuligem.

Pisoteando com os pés as pedras
Ouro e prata o tinir do cristal
Indiferente à opulência ou à ruína
Na beleza da hora catastrófica.

E talvez a julgues boa atriz
Gigante que se estende com tranquilidade
Na calçada como sob uma faca
Enquanto ao seu redor explode e se espalha
O louco luxo do seu teatro de sempre
Que mil línguas engolem.

L’incendie

Qu’allais-tu donc chercher à travers l’incendie
Derrière des vapeurs à la splendeur baroque
Par le secret d’un escalier en loques
Étranglé de lierres écarlates ?

Quel voeu te fit pousser une porte brûlante
Sainte face de feu et de cendre
A la limite d’un monde morne
Sournoiserie silence délabrement ?

Devant toi ce n’est plus maintenant
Que diamants et rubis qui jouent dans la poussière
Que plâtres retombés sur des carreaux de marbre
Avec des statues blanches des armes
Des mains de verre des vases pleins de larmes
Des nègres de velours et des roses passées
Au bas de murs caducs.

Il vient une dame éclatante et funèbre
Tôt apparue tôt disparue tôt reparue
Plus tôt encore nue
Qui est comme l’ombre d’une désolation.

Nue saignante et noire
Une flammèche en ses cheveux défaits
Rouge comme un oeillet qui crèverait la suie.

Foulant aux pieds les pierres
L’or et l’argent le fracas du cristal
Indifférente à l’opulence ou à la ruine
Dans la beauté d’une heure catastrophique.

Et tu la trouveras peut-être bonne actrice
La géante qui s’étend avec tranquillité
Sur le pavement comme sous un couteau
Tandis qu’alentour explose et se disperse
Le luxe fou de son théâtre de toujours
Que mille langues engloutissent.

§

Temporada de neve [André Pieyre de Mandiargues, L’âge de la craie, 1961, p.: “Les temps de neige”]

Neva e elas riem

Elas riem de tudo
Da sua nudez do inverno
Da cabra preta e pinhos
Do vento e de seu mestre.

Leito frio tinto em fogo
De araras e quimeras
De gargantas brilhantes
Nos olhos se debatem
Colibris faisões gaios.

Ornamento incontestável
Os dias de sol minguam
Em clarões de alegria insana
Em plumas jorrando em sincelos
Pelo mais vão dos sacrifícios
É hora de se perderem.

Se o leito é o campo da derrota
Se os lençóis rasgados tombam
Aos pés deste homem sem idade
Sem amizades nem perdão
Bloco mineral errático
Que um glaciar deixou no quarto.

Pelo orgulho submisso a tudo
Uma se finge indiferente
Logo a outra se maravilha
Fica vermelha e segue branca
Pequena coruja-das-neves
Presa nos fios do caçador.

Sabe ele que ela é a caçula e
Que sua penugem tão fina
Um só fio de sangue arruina?

Mas a fogueira também toma parte
Rompe-se a rocha o quarto se ilumina
O áspero jogo logo vai findar
Numa onda ardente de rubi e nácar.

Le temps de neige

Il neige elles s’en rient
Elles se rient de tout

De l’hiver d’être nues
De la nuit et des hommes
Du bouc noir des sapins
Du vent et de leur maître.

Le feu peint leur lit froid
D’aras et de chimères
Aux gorges étincelantes
Et dans leurs yeux se battent
Faisans geais colibris.

La parure incontestable
De beaux jours qui s’amenuisent
En éclats d’une gaieté folle
En duvets jetés aux frimas
Pour le plus vain des sacrifices
S’il n’est temps que d’être perdues.

Si leur lit est un champ de défaite
Si les draps rompus sont à bas
Aux pieds de cet homme sans âge
Sans amitié ni pardon
Bloc de pierre erratique
Qu’un glacier laissa dans la chambre.

Soumise à tout par sa fierté
L’une se feint indifférente
Mais déjà l’autre s’émerveille
Rosit sans cesser d’être blanche
Comme un petit harfang des neiges
Pris aux filets de l’oiseleur.

Sait-il bien qu’elle est la plus jeune
Et que son plumage est si tendre
Qu’un trait de sang le ruinera ?

Mais le bûcher s’est mis de la partie
Le roc se fend la chambre s’illumine
Le jeu bourru va bientôt s’achever
En chaude ondée de rubis et de nacre.

§

País gélido [André Pieyre de Mandiargues, L’âge de la craie, 1961, p.40: “Le pays froid”]

Fala mais alto, o inverno atordoa.
O ruído dos passos que ontem ouvimos
No lago congelado
Somente na memória agora soa
E nossa vida se faz um triste hábito
Por trás da parede de vidro níveo.

Já tem dias semanas que cai neve
E o carvão o café cada dia menos
Cada dia enfraquece
O amanhã sempre pior que a véspera.

Nossa própria memória extravia as respostas.

Fome e gelo expulsam do bosque os cervos
Paras as ruas do vilarejo
Um deitou-se perante a cruz
Boquiaberto a cabeça pra trás
Fera imagem do nosso amor.

Escutou o uivo dos lobos à noite
Quando vêm vindo rondar o curral?
Sob a chaminé o fogo enfraquece
Com tanta indulgência o cão nos encara
Com tanta pena
Que nosso peito se aperta.

Não ninguém vai varrer os degraus da entrada.

Jovem gigante, ganha força o inverno
Cai neve a geada engrossa e nós
Envelhecemos no compasso.

Fala baixo não é mais preciso que escutem
O homem de pedra já vai abrir o caminho.

Le pays froid

Parlez plus haut l’hiver nous assourdit
Les bruits des pas que l’on entendait hier
Au bord du lac gelé
Ne sonnent plus que dans le souvenir
Et notre vie devient une habitude triste
Derrière la paroi des vitres blanches.

La neige tombe depuis bien des semaines
Le charbon le café diminuent tous les jours
Chaque jour s’amoindrit
Le lendemain toujours est pire que la veille.

Notre mémoire même égare les réponses.

La faim le froid chassent les cerfs hors des bois
Jusque dans les rues du village
L’un s’est couché devant la croix
Bouche bée la tête à la renverse
Fauve image de notre amour.

Avez-vous entendu crier le loup le soir
Quand ils viennent rôder autour des étables?

Sous la haute cheminée le feu languit
Le chien nous regarde avec tant d’indulgence
Avec tant de pitié
Que notre coeur se serre.

Nul ne balayera les marches de l’entrée.

L’hiver s’accroît comme un jeune géant
La neige tombe le givre s’épaissit
Et nous vieillissons à mesure.

Parlez bas il n’est plus besoin de nous entendre
Bientôt l’homme de pierre ouvrira le chemin.

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poesia, tradução

Nicanor Parra, por Joana Barossi e Cide Piquet

Nicanor Parra nasceu em 1914 em San Fabián de Alico, próximo a Chillán. Em 1933 ingressa na Universidade do Chile, onde cursa matemática e física. Em 1937 publica seu primeiro livro de poemas, Cancionero sin nombre, ainda sob a influência de García Lorca. Em 1943, viaja para os Estados Unidos para fazer pós-graduação na Universidade Brown, onde estuda mecânica avançada, e a partir de 1945 passa a lecionar na Universidade do Chile. Entre 1949 e 1952 frequenta cursos em Oxford, quando trava contato com a poesia inglesa. Em 1954, de volta ao Chile, publica seu segundo livro, Poemas y antipoemas, até hoje considerado um marco da poesia sul-americana. A partir daí torna-se um dos poetas mais prolíficos do século XX, com uma obra que se estende por cerca de oitenta anos e compreende mais de vinte livros de poemas, como Versos de salón (1962) e Sermones y prédicas del Cristo de Elqui (1977), e uma série de antologias, exposições visuais, traduções e colaborações artísticas. Em 1969 publica Obra gruesa, reunião de todos os seus poemas escritos até então, e em 1972 lança Artefactos, uma caixa com os poemas-objeto que vinha desenvolvendo desde os anos 1960. Em 1985, época em passa a morar no balneário de Las Cruces, publica Hojas de Parra, com poemas escritos a partir de 1969. Em 2011 é agraciado com o Prêmio Cervantes, e em 2017 surge seu derradeiro livro, a coletânea El último apaga la luz. Faleceu em 23 de janeiro de 2018, aos 103 anos, na casa da família Parra em La Reina.

Os dois poemas abaixo foram tirados de Só para maiores de cem anos é a primeira grande antologia de Nicanor Parra a ser publicada no Brasil, com 75 poemas selecionados e traduzidos por Joana Barossi e Cide Piquet, pela Editora 34.

Joana Barossi é professora, editora e poeta. Estudou Jornalismo, Arquitetura e História da Arte, e é mestranda pela FAU-USP. Trabalhou com desenho de exposições e curadoria e escreveu textos críticos para artistas como Héctor Zamora, Marcelo Cipis, Lina Kim, Guga Szabson e Pablo Saborido. Contribuiu com as revistas Gagarin (Bélgica), Letras Libres (México) e Fórum Permanente (Brasil), entre outras. Foi editora do Projeto Contracondutas (2016), coordenadora editorial da 11ª Bienal de Arquitetura de São Paulo e professora convidada no workshop Travel School da Rhode Island School of Design. Atualmente leciona Arte e Arquitetura na Escola da Cidade, em São Paulo.

Cide Piquet nasceu em Salvador em 1977 e estudou Letras na USP. É editor, tradutor e poeta. Trabalha desde 1999 na Editora 34, atuando nas coleções de poesia e literatura estrangeira. Ministrou cursos sobre edição e tradução na Casa Guilherme de Almeida, na Universidade do Livro e no Curso de Editoração da ECA-USP, entre outros. É autor do livro de poesia malditos sapatos (2013) e da plaquete Poemas e traduções (2017). Publicou traduções de ensaios e poemas em antologias e revistas literárias, e traduziu os livros Histórias para brincar, de Gianni Rodari (2007), e Esta vida: poemas escolhidos, de Raymond Carver (2017, volume em que assina a organização).

* * *

Manifesto

Senhoras e senhores
Esta é nossa última palavra
— Nossa primeira e última palavra —:
Os poetas baixaram do Olimpo.

Para os mais velhos
A poesia foi um objeto de luxo
Mas para nós
É um artigo de primeira necessidade:
Não podemos viver sem poesia.

Diferentemente dos mais velhos
— E digo isso com todo respeito —
Nós sustentamos
Que o poeta não é um alquimista
O poeta é um homem qualquer
Um pedreiro que constrói seu muro:
Um construtor de portas e janelas.

Nós conversamos
Na linguagem do dia a dia
Não acreditamos em signos cabalísticos.

E tem mais:
O poeta está aí
Para que a árvore não cresça torta.

Esta é a nossa mensagem.
Nós denunciamos o poeta demiurgo
O poeta Barata
O poeta Rato de Biblioteca.

Todos esses senhores
— E digo isso com muito respeito —
Devem ser processados e julgados
Por construir castelos no ar
Por desperdiçar espaço e tempo
Escrevendo sonetos à lua
Por agrupar palavras ao acaso
À última moda de Paris.
Para nós, não:
O pensamento não nasce na boca
Nasce no coração do coração.

Nós repudiamos
A poesia de óculos escuros
A poesia de capa e espada
A poesia de chapéu de aba larga.
Por outro lado, propiciamos
A poesia de olhos abertos
A poesia de peito aberto
A poesia de cabeça descoberta.

Não acreditamos em ninfas nem tritões.
A poesia tem que ser isto:
Uma garota rodeada de espigas
Ou não ser absolutamente nada.

Agora sim, no plano político
Eles, nossos avós imediatos,
Nossos bons avós imediatos!
Se refrataram e se dispersaram
Ao passar pelo prisma de cristal.
Uns poucos se tornaram comunistas.
Bom, não sei se o foram de fato.
Suponhamos que foram comunistas
O que sei é o seguinte:
Não foram poetas populares
Foram veneráveis poetas burgueses.

Há que dizer as coisas como são:
Apenas um ou outro
Soube chegar ao coração do povo.
Cada vez que puderam
Se declararam em palavras e ações
Contra a poesia engajada
Contra a poesia do presente
Contra a poesia proletária.

Aceitemos que foram comunistas
Mas a poesia foi um desastre
Surrealismo de segunda mão
Decadentismo de terceira mão
Tábuas velhas devolvidas pelo mar.
Poesia adjetiva
Poesia nasal e gutural
Poesia arbitrária
Poesia copiada dos livros
Poesia baseada
Na revolução da palavra
Quando deveria se fundar
Na revolução das ideias.
Poesia de círculo vicioso
Para meia dúzia de eleitos:
“Liberdade absoluta de expressão”.

Hoje nos persignamos perguntando
Para que escreveriam essas coisas —
Para assustar o pequeno-burguês?
Tempo perdido miseravelmente!
O pequeno-burguês não reage
Senão quando se trata do estômago.

Como vão assustá-lo com poesias!

A situação é esta:
Enquanto eles defendiam
Uma poesia do crepúsculo
Uma poesia da noite
Nós propugnamos
A poesia do amanhecer.
Esta é a nossa mensagem
Os resplendores da poesia
Devem chegar a todos igualmente
A poesia é bastante para todos.

É isso, companheiros
Nós condenamos
— E isto, sim, digo com respeito —
A poesia de pequeno deus
A poesia de vaca sagrada
A poesia de touro furioso.

Contra a poesia das nuvens
Nós opomos
A poesia da terra firme
— Cabeça fria, coração quente
Somos terrafirmistas convictos —
Contra a poesia dos cafés
A poesia da natureza
Contra a poesia de salão
A poesia da praça pública
A poesia de protesto social.

Os poetas baixaram do Olimpo.

Manifiesto

Señoras y señores
Ésta es nuestra última palabra
— Nuestra primera y última palabra —:
Los poetas bajaron del Olimpo.

Para nuestros mayores
La poesía fue un objeto de lujo
Pero para nosotros
Es un artículo de primera necesidad:
No podemos vivir sin poesía.

A diferencia de nuestros mayores
— Y esto lo digo con todo respeto —
Nosotros sostenemos
Que el poeta no es un alquimista
El poeta es un hombre como todos
Un albañil que construye su muro:
Un constructor de puertas y ventanas.
Nosotros conversamos
En el lenguaje de todos los días
No creemos en signos cabalísticos.

Además una cosa:
El poeta está ahí
Para que el árbol no crezca torcido.

Este es nuestro mensaje.
Nosotros denunciamos al poeta demiurgo
Al poeta Barata
Al poeta Ratón de Biblioteca.

Todos estos señores
— Y esto lo digo con mucho respeto —
Deben ser procesados y juzgados
Por construir castillos en el aire
Por malgastar el espacio y el tiempo
Redactando sonetos a la luna
Por agrupar palabras al azar
A la última moda de París.
Para nosotros no:
El pensamiento no nace en la boca
Nace en el corazón del corazón.

Nosotros repudiamos
La poesía de gafas obscuras
La poesía de capa y espada
La poesía de sombrero alón.
Propiciamos en cambio
La poesía a ojo desnudo
La poesía a pecho descubierto
La poesía a cabeza desnuda.

No creemos en ninfas ni tritones.
La poesía tiene que ser esto:
Una muchacha rodeada de espigas
O no ser absolutamente nada.

Ahora bien, en el plano político
Ellos, nuestros abuelos inmediatos
¡Nuestros buenos abuelos inmediatos!
Se refractaron y se dispersaron
Al pasar por el prisma de cristal.
Unos pocos se hicieron comunistas.
Yo no sé si lo fueron realmente.
Supongamos que fueron comunistas
Lo que sé es una cosa:
Que no fueron poetas populares
Fueron unos reverendos poetas burgueses.

Hay que decir las cosas como son:
Solo uno que otro
Supo llegar al corazón del pueblo.
Cada vez que pudieron
Se declararon de palabra y de hecho
Contra la poesía dirigida
Contra la poesía del presente
Contra la poesía proletaria.

Aceptemos que fueron comunistas
Pero la poesía fue un desastre
Surrealismo de segunda mano
Decadentismo de tercera mano
Tablas viejas devueltas por el mar.
Poesía adjetiva
Poesía nasal y gutural
Poesía arbitraria
Poesía copiada de los libros
Poesía basada
En la revolución de la palabra
En circunstancias de que debe fundarse
En la revolución de las ideas.
Poesía de círculo vicioso
Para media docena de elegidos:
“Libertad absoluta de expresión”.

Hoy nos hacemos cruces preguntando
Para qué escribirían esas cosas
¿Para asustar al pequeño burgués?
¡Tiempo perdido miserablemente!
El pequeño burgués no reacciona
Sino cuando se trata del estómago.

¡Qué lo van a asustar con poesías!

La situación es ésta:
Mientras ellos estaban
Por una poesía del crepúsculo
Por una poesía de la noche
Nosotros propugnamos
La poesía del amanecer.
Este es nuestro mensaje
Los resplandores de la poesía
Deben llegar a todos por igual
La poesía alcanza para todos.

Nada más, compañeros
Nosotros condenamos
— Y esto sí que lo digo con respeto —
La poesía de pequeño dios
La poesía de vaca sagrada
La poesía de toro furioso.

Contra la poesía de las nubes
Nosotros oponemos
La poesía de la tierra firme
— Cabeza fría, corazón caliente
Somos tierrafirmistas decididos —
Contra la poesía de café
La poesía de la naturaleza
Contra la poesía de salón
La poesía de la plaza pública
La poesía de protesta social.

Los poetas bajaron del Olimpo.

§

Cartas do poeta que dorme numa cadeira

I

Eu digo as coisas tal como são
Ou sabemos tudo de antemão
Ou nunca saberemos absolutamente nada.

A única coisa que nos permitem
É aprender a falar corretamente.

II

Todas as noites sonho com mulheres
Algumas riem ostensivamente de mim
Outras me acertam um golpe na nuca.
Não me deixam em paz.
Estão em guerra permanente comigo.

Me levanto com cara de trovão.

Do que se deduz que estou louco
Ou pelo menos que estou morto de medo.

III

Custa bastante trabalho crer
Num deus que deixa suas criaturas
Abandonadas à própria sorte
À mercê das ondas da velhice
E das doenças
Pra não dizer nada da morte.

IV

Sou dos que saúdam as carroças.

V

Jovens
Escrevam o que quiserem
No estilo que acharem melhor
Já correu sangue demais por baixo das pontes
Pra continuar acreditando — acredito
Que só se pode seguir um caminho:
Em poesia tudo é permitido.

VI

Doença
                  Decrepitude
                                               e Morte
Dançam como donzelas inocentes
Ao redor do lago dos cisnes
Seminuas
                       bêbadas
Com seus lascivos lábios de coral.

VII

Fica declarado
Que não existem habitantes na lua

Que as cadeiras são mesas
Que as borboletas são flores em movimento perpétuo
Que a verdade é um erro coletivo
Que o espírito morre com o corpo

Fica declarado
que as rugas não são cicatrizes.

VIII

Toda vez que por alguma razão
Tive que descer
Da minha pequena torre de tábuas
Voltei tiritando de frio
De solidão
                         de medo
                                              de dor.

IX

Já desapareceram os bondes
Cortaram as árvores
O horizonte está cheio de cruzes.

Marx foi negado sete vezes
E nós continuamos por aqui.

X

Alimentar abelhas com fel
Inocular o sêmen pela boca
Ajoelhar-se numa poça de sangue
Espirrar na capela-ardente
Ordenhar uma vaca
E derramar-lhe o próprio leite na cabeça.

XI

Das nuvens do café da manhã
Aos trovões da hora do almoço
E daí aos relâmpagos do jantar.

XII

Eu não fico triste facilmente
Para ser sincero
Até as caveiras me fazem rir.
Cumprimenta-os com lágrimas de sangue
O poeta que dorme numa cruz.

XIII

O dever do poeta
Consiste em superar a página em branco
Duvido que isto seja possível.

XIV

Só com a beleza me conformo
A feiura me causa dor.

XV

Última vez que repito a mesma coisa
Os vermes são deuses
As borboletas são flores em movimento perpétuo
Dentes cariados
                                      dentes quebradiços
Eu sou do tempo do cinema mudo.

Fornicar é um ato literário.

XVI

Aforismos chilenos:
Todas as ruivas têm sardas
O telefone sabe o que diz
Nunca perdeu mais tempo a tartaruga
do que quando tomou lições da águia.

O automóvel é uma cadeira de rodas.

O viajante que olha pra trás
Corre o sério perigo
De que sua sombra não queira segui-lo.

XVII

Analisar é renunciar a si mesmo
Só é possível raciocinar em círculo
Só se vê o que se quer ver
Um nascimento não resolve nada
Reconheço que me caem as lágrimas.

Um nascimento não resolve nada
Só a morte diz a verdade
A poesia mesmo não convence.
Nos ensinam que o espaço não existe

Nos ensinam que o tempo não existe
Mas seja como for
A velhice é um fato consumado.

Seja o que a ciência determinar.

Me dá sono ler os meus poemas
E no entanto foram escritos com sangue.

Cartas del poeta que duerme en una silla

I

Digo las cosas tales como son
O lo sabemos todo de antemano
O no sabremos nunca absolutamente nada.

Lo único que nos está permitido
Es aprender a hablar correctamente.

II

Toda la noche sueño con mujeres
Unas se ríen ostensiblemente de mí
Otras me dan el golpe del conejo.
No me dejan en paz.
Están en guerra permanente conmigo.

Me levanto con cara de trueno.

De lo que se deduce que estoy loco
O por lo menos que estoy muerto de susto.

III

Cuesta bastante trabajo creer
En un dios que deja a sus creaturas
Abandonadas a su propia suerte
A merced de las olas de la vejez
Y de las enfermedades
Para no decir nada de la muerte.

IV

Soy de los que saludan las carrozas.

V

Jóvenes
Escriban lo que quieran
En el estilo que les parezca mejor
Ha pasado demasiada sangre bajo los puentes
Para seguir creyendo — creo yo
Que solo se puede seguir un camino:
En poesía se permite todo.

VI

Enfermedad
                          Decrepitud
                                                   y Muerte
Danzan como doncellas inocentes
Alrededor del lago de los cisnes
Semidesnudas
                               ebrias
Con sus lascivos labios de coral.

VII

Queda de manifiesto
Que no hay habitantes en la luna

Que las sillas son mesas
Que las mariposas son flores en movimiento perpetuo
Que la verdad es un error colectivo
Que el espíritu muere con el cuerpo

Queda de manifiesto
Que las arrugas no son cicatrices.

VIII

Cada vez que por una u otra razón
He debido bajar
De mi pequeña torre de tablas
He regresado tiritando de frío
De soledad
                        de miedo
                                            de dolor.

IX

Ya desaparecieron los tranvías
Han cortado los árboles
El horizonte se ve lleno de cruces.

Marx ha sido negado siete veces
Y nosotros todavía seguimos aquí.

X

Alimentar abejas con hiel
Inocular el semen por la boca
Arrodillarse en un charco de sangre
Estornudar en la capilla ardiente
Ordeñar una vaca
Y lanzarle su propia leche por la cabeza.

XI

De los nubarrones del desayuno
A los truenos de la hora de almuerzo
Y de ahí a los relámpagos de la comida.

XII

Yo no me pongo triste fácilmente
Para serles sincero
Hasta las calaveras me dan risa.
Los saluda con lágrimas de sangre
El poeta que duerme en una cruz.

XIII

El deber del poeta
Consiste en superar la página en blanco
Dudo que eso sea posible.

XIV

Solo con la belleza me conformo
La fealdad me produce dolor.

XV

Última vez que repito lo mismo
Los gusanos son dioses
Las mariposas son flores en movimiento perpetuo
Dientes cariados
                                    dientes quebradizos
Yo soy de la época del cine mudo.

Fornicar es un acto literario.

XVI

Aforismos chilenos:
Todas las colorinas tienen pecas
El teléfono sabe lo que dice
Nunca perdió más tiempo la tortuga
Que cuando tomó lecciones del águila.

El automóvil es una silla de ruedas.

Y el viajero que mira para atrás
Corre el serio peligro
De que su sombra no quiera seguirlo.

XVII

Analizar es renunciar a sí mismo
Solo se puede razonar en círculo
Solo se ve lo que se quiere ver
Un nacimiento no resuelve nada
Reconozco que se me caen las lágrimas.

Un nacimiento no resuelve nada
Solo la muerte dice la verdad
La poesía misma no convence.
Se nos enseña que el espacio no existe

Se nos enseña que el tiempo no existe
Pero de todos modos
La vejez es un hecho consumado.

Sea lo que la ciencia determine.

Me da sueño leer mis poesías
Y sin embargo fueron escritas con sangre.

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crítica, poesia

De-estar, entrestrelas: 2 poemas de Age de Carvalho, com um comentário de Mayara Ribeiro Guimarães

SEGUES A TUA ESTRELA,
embaixo,
além-nuvens, o fulgurante mergulho
no subcéu interior.

Teu ovário está lindo,

são quatro novos folículos
em posição,
feno e berço da hipótese deposta
à tua porta,

                       bem-vindas

as quatro estrelas subterrâneas
abrilhantando a noite possante
de teu ventre

em cripta.

§

VACILA O DIA. A chama,
refugiada em ti,
vela sobre a maçã descorada
do coração.

Enoitece. Confiscada,
a fé, em débito
por quem cambia nada
por nada
em radiante apostasia,
cintila, cintila ainda
sob a asa imantada do cristo-
prepúcio — a oração florescendo
da carne, estrela e anúncio
te procuram, em vão.

Dobra o coração.

Pede.

§§§

O próximo livro de Age de Carvalho, ainda sem plano de publicação, leva o instigante título De-estar, entrestrelas. Carregando a semântica da expressão em língua inglesa “from the stars” para esse “de-estar”, convoca o idioma do outro, na tradução-apropriação, ao interior do seu, no corpo-a-corpo com a língua, nela inventando várias outras, em sua contração e expansão, como o desenho das nuvens no céu — pois são o céu e as estrelas o motivo central desses poemas inéditos.

Ou, em linguagem mais clássica, o Firmamento e as Plêiades. Clássica porque, também aqui, Age recorre a certas leituras presentes em seus livros anteriores: Safo, Catulo, Dante. No momento o livro ainda é work in progress, mas já conta com cerca de 50 poemas, dois deles apresentados aqui em primeira mão na escamandro.

O primeiro poema inicia uma ascese invertida em mergulho ao céu/útero da mulher. Subvertendo os sinais, o mergulho é interno e para baixo, engendrando um outro céu, à semelhança-diferença do que guarda nossas cabeças, expondo um firmamento de folículos/estrelas, pulsante fulgor a postos para a fecundação. Uma voz narrativa intromete-se no texto, elogio a esse céu interior, dando tom informal à densidade lírica do poema. O céu é também berço — manjedoura remetente ao nascimento do infante-mor, sempre ressurgido a cada nova criança, o milagre do Cristo vindouro a cada renovada Noite de Reis. Redourada a questão sobre nascer, renascer. Mas este céu é também berço-cripta — a potente imagem central do poema —, berço do ser ainda não nascido, pura conjectura, expectativa silente da hipótese-mundo que bate à porta e sela o destino.

As estrelas subterrâneas — imagem poderosa que acende este ovário-poema todo luz — iluminam, guiam, a galope, ao possante receptáculo-cripta: igreja que acolhe o ato dos amantes, berço subterrâneo de uma possibilidade ainda não nascida.

O segundo poema trata das coisas inexplicáveis do fervor. “Vacila o dia” introduz a atmosfera e o espírito do que é dito. Quando é que o dia vacila? Não é ele e sim o sujeito quem vacila, na dúvida, na descrença, no dilaceramento interno, no cansaço da vida, que quase se apaga, junto à vela (que no poema é verbo e substantivo simultaneamente).

A chama da vela estremece. Como o coração. A violência branda da escrita desvia a violência do fim último e torna a passagem do tempo mais suportável.

No poema, a fé, confiscada, quase morta, tenta ainda resistir, cintilando, vinda da carne, ameaçada a todo instante. E que, por isso, vacila. Em relação ao deus? À existência? A uma mulher? O coração é descrente, a fé confiscada: no deus, no amor, na vida? A parte enlutada do poema diz: “cambiar nada por nada”, que a ironia da “radiante apostasia” vem aumentar.

Lembranças de Clarice: “Chego à altura de poder cair, escolho, estremeço e desisto, e, finalmente, me voltando à minha queda, despessoal, sem voz própria, finalmente sem mim – eis que tudo o que não tenho é que é meu. Desisto e quanto menos sou mais viva, quanto mais perco o meu nome mais me chamam”.

E mesmo o “cristo-prepúcio”, no momento de tensão em que o discurso parece querer se dessacralizar, traz ainda a marca da fé, na imagem mais expressamente cristã de todo o poema.

O verbo “Enoitece” levanta a pergunta: por que ‘e’ e não ‘a’? O dicionário diz: “Enoitecer: tornar escuro, cercar de trevas, escurecer”. E diz mais: “Enlutar, entristecer”. Vacila o dia: de amor e de luto. De quem sofre, de quem se despede.

A oração que floresce da carne é sempre profana; a carne ora, mas constata o anúncio de uma busca vã. Vencido, o sujeito dobra o coração e pede. O que, pode-se crer, seja enfim chance e redenção.

Mayara Ribeiro Guimarães

***

Abaixo vão imagens do livro Age de Carvalho: todavida, todavia, publicado recentemente, que reúne a produção de AC nos campos da poesia, do design gráfico e do jornalismo cultural, contando com vasto material iconográfico.
O livro foi organizado por Mayara Ribeiro Guimarães e editado pela Secult/PA. Até o momento, só pode ser comprado em Belém, mas, em breve, à venda também na Livraria da Travessa, no Rio.

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poesia, tradução

Gary Snyder, por André Mendo

Gary Snyder é o mais conhecido expoente norte-americano da poesia da vida selvagem, do ambientalismo e do Zen Budismo. É considerado herdeiro da escrita natural de Walt Whitman e Henry David Thoreau e seu estilo simples e imagístico revela as influências de William Carlos Williams e Ezra Pound. O poeta, que nasceu em São Francisco, EUA, em 1930, descende dos pioneiros que marcharam para o Oeste, desbravando novas fronteiras em busca de prosperidade e aventura. Seus ancestrais “exterminaram o puma e o urso-cinzento”, mas ele trilha um caminho diferente. Desde jovem, desenvolveu uma forte reverência pela natureza. A proximidade com mamíferos, insetos, árvores, rios e montanhas, observados sob uma ótica familiarizada com estudos sobre nativos norte-americanos e culturas orientais, constitui não só a matéria de sua poesia e ensaios, mas também seu estilo de vida. Snyder é outro tipo de pioneiro, um que se move em direção à conexão perdida entre o homem e a natureza.

O poeta cresceu em uma família que conheceu a severidade da vida no campo, mas que também teve a oportunidade de aprender a trabalhar em um ambiente bastante autossuficiente e de produção variada. Em casa, cercado de literatura socialista, era encorajado pela mãe a ler. Sua infância foi ainda marcada pela proximidade com os índios Salish e seus rituais e crenças. Todas essas lembranças ressoam em uma instância peculiar dos escritos de Snyder: a necessidade de transformar a sociedade por sua relação com a natureza. Seus versos ilustram esse desejo de igualdade entre as pessoas e entre pessoas e animais.

Snyder graduou-se em antropologia e literatura enquanto ocupava-se de uma série de atividades junto à natureza, como lenhador, marinheiro e guarda florestal. Estudou japonês e chinês e tornou-se tradutor desses idiomas. Em 1955, participou da leitura na Six Gallery em São Francisco que inaugurou o movimento Beat. Em 1956, deixou os EUA para uma residência de 12 anos na Ásia, a maior parte no Japão, onde imergiu na prática zen budista. Em 1959, publicou seu primeiro livro de poemas, Riprap. Snyder voltou os EUA em 1969 e construiu uma casa no sopé setentrional de Sierra Nevada, onde ainda vive. Desde 1985, leciona na Universidade da Califórnia, Davis.

A poesia de Snyder não é puramente intelectual, mas sobretudo empírica, pois deriva de sua experiência imediata junto à natureza selvagem. Seus poemas apresentam traços confessionais derivados de seu estado de contemplação haicaística diante da natureza, de sua ligação emocional com lugares e animais e de sua preocupação com o meio ambiente e o amadurecimento da sociedade no sentido de se aproximar do mundo natural. Os poemas seguintes e outros foram reunidos com um conjunto de ensaios na edição Turtle Island, que venceu o Prêmio Pulitzer em 1975. Turtle Island (Ilha da Tartaruga) é um nome antigo do continente norte-americano resgatado por Snyder ao nomear sua coletânea escrita entre 1969 e 1974.

André Mendo é graduado em Estudos Literários de Língua Inglesa pela UFPR, onde apresentou a monografia Um conselho de aldeia de todos os seres: a animalidade em Turtle Island, do poeta Gary Snyder, donde foram tiradas as traduções abaixo.

* * *

Anasazi

Anasazi,
Anasazi,

Enfiados nas fendas das falésias
cultivando estreitos campos de milho e feijão
afundando cada vez mais na terra
até o quadril nos Deuses
        sua cabeça coberta por penas de águia
        & relâmpagos pelos joelhos e cotovelos
seus olhos cheios de pólen

        o cheiro de morcegos
        o sabor de arenito
        sorriem na língua

        mulheres
        dando à luz
ao pé das escadas no escuro

córregos gotejando em cânions ocultos
sob o deserto móvel e gélido

cesta de milho                        olhos arregalados
bebê vermelho
na casa na borda da pedra,

Anasazi

§ 

Canção da pega[1]

Seis da manhã,
Sentado no cascalho de escavação
junto ao zimbro e as trilhas desertas de S.P.
interestadual 80 não muito longe
          entre caminhões
Coiotes–talvez três
          uivando e latindo de uma elevação

A pega em um ramo
Inclinou a cabeça e disse

          “Aqui na mente, irmão
          Azul turquesa.
          Eu não te enganaria.
          Sinta o cheiro da brisa
          Veio por todas as árvores
          Não precisa temer
          O que está por vir
          Neve nas montanhas a oeste
          Estará lá todos os anos
          Fica tranquilo
          Uma pena no chão–
          O som do vento–

Aqui na Mente, Irmão
Azul turquesa”

§

Linhas de frente

A borda do câncer
Dilata contra a colina–nós sentimos
                      uma brisa fétida
E ela afunda de volta.
O inverno do cervo aqui
Uma serra elétrica rosna no desfiladeiro

Dez dias úmidos e os caminhões de toras param,
As árvores respiram.
Domingo, o jipe tração 4 rodas da
Companhia Imobiliária traz
Os especuladores de terras, olheiros, eles dizem
À terra
Abra as pernas.

O estrondo dos jatos sobre nossas cabeças está OK aqui;
Cada pulsar podre no coração
Nas veias gordurosas e doentes da Amerika
Empurra a borda mais perto–

Uma escavadeira que brita e remenda
Desliza e cospe fumaça em cima
Dos corpos esfolados de arbustos ainda vivos
No pagamento de um cara
Da cidade.

Atrás é uma floresta que vai até o Ártico
E um deserto que ainda pertence aos Piute
E aqui devemos desenhar
Nossa linha.

§

 Mãe Terra: suas baleias

Uma coruja cintila nas sombras
Um lagarto ergue-se na ponta dos pés, respirando pesado
O jovem pardal masculino estica o pescoço
                      grande cabeça, observando–

A grama está trabalhando ao sol. Torna-o verde.
Torna-o doce. Para que possamos comer.
Cultivam nossa carne.

O Brasil diz “uso soberano dos Recursos Naturais”
Trinta mil tipos de plantas desconhecidas.
As pessoas reais vivas da selva
          vendidas e torturadas–
E um robô de terno que vende uma ilusão chamada “Brasil”
          pode falar por eles?

          As baleias giram e reluzem, mergulham
                      e assoviam e sobem de novo,
          Suspensas sobre profundezas sutilmente escurecedoras
          Fluindo como planetas que respiram
                      Em espirais espumantes de
                                luz viva–

E o Japão sofisma com palavras em
          que tipos de baleias eles podem matar?
Uma antiga grande nação budista
          pinga metilmercúrio
          como gonorreia
                      no mar.

O cervo de Père David, o Elaphure,
Vivia nos charcos de junco do rio Amarelo
Há dois mil anos–e perdeu seu lar para o arroz–
As florestas de Lo-yang foram desmatadas e todo o lodo &
A areia escorreram, e se foram, até 1200 AD–

Gansos Selvagens chocados na Sibéria
          seguiam para o sul sobre as bacias do Yang, o Huang,
          o que chamamos de “China”
Em voos eles usaram um milhão de anos.
Ah China, onde estão os tigres, os javalis,
          os macacos,
                      como as neves do passado
Desaparecidos em uma névoa, um clarão, e o chão seco e duro
É o estacionamento para cinquenta mil caminhões.
SERÁ homem o mais precioso de todas essas coisas?
–então, vamos amá-lo, e seus irmãos, todos aqueles
Desaparecendo, seres vivos–

América do Norte, Ilha da Tartaruga, tomadas por invasores
          que fazem guerra contra o mundo.
Podem formigas, moluscos, lontras, lobos e alces
Levantem-se! E afastem suas dádivas
          das nações robóticas.

Solidariedade. As pessoas.
De pé. Pessoas árvores!
Pessoa pássaro voando!
Pessoas do mar nadando!
De quatro pés, de duas pernas, pessoas!

Como pode o cientista político cabeça-pesada com fome de poder
Governo        dois mundos    Capitalista-Imperialista
Terceiro-mundo        Comunista       macho baralha-papel
          não-fazendeiros          milionários      burocratas
Falam pelo verde da folha? Falam pelo solo?

(Ah Margaret Mead . . . às vezes você sonha com Samoa?)

Os robôs argumentam como distribuir nossa Mãe Terra
Para durar um pouco mais
          como abutres batendo as asas
Arrotando, gorgolejando,
          ao lado de um Alce moribundo.

“No outro lado, está deitado um cavaleiro morto–
Vamos voar até ele e comer seus olhos
                      com um down
          derry derry derry down down. “

                      Uma coruja cintila na sombra
                      Um lagarto levanta na ponta dos pés
                                  respirando pesado
                      As baleias giram e reluzem
                                  mergulham e
                      Assovia, e sobem de novo
                      Fluindo como planetas que respiram

                      Nas espirais espumantes

                      De luz viva.

                                              Estocolmo: solstício de verão 40072

§

Ninguém deve falar a um caçador habilidoso sobre o que é proibido pelo Buda

                                                          –Hsiang-yen

Uma raposa cinza, fêmea, quatro quilos
um metro de comprimento com a cauda
A pele do dorso esfolada (Kai
nos lembrou de cantar o Shingyo antes)
pele gelada, enrugada; e o cheiro almiscarado
misturado com o corpo morto começando a cheirar.

Conteúdo estomacal: um esquilo-terrestre inteiro bem mastigado
mais um pé de lagarto
e em algum lugar do interior do esquilo-terrestre
um pedaço de papel alumínio.

O segredo.
e o segredo escondido lá no fundo disso.

Fogo é uma velha história
Eu gostaria,
com um útil senso de ordem,
com respeito pelas leis
da natureza,
de ajudar minha terra
com uma queimada, uma quente e limpa
queimada.
          (as sementes de manzanita só abrirão
          depois que um incêndio ocorrer
          ou uma vez espalhada por um urso)

E então
seria mais
como,
quando pertencia aos índios

Antes.

§

O Caminho do Oeste, subterrâneo

O cedro-dividido
salmão defumado
dias nublados do Oregon,
florestas espessas de abeto.

                      Cabeças de UrsoNegro          colina acima
                      No condado de Plumas,
                      fundo redondo escorrendo pelos salgueiros–

A Mulher do Urso move-se costa acima

                      onde arbustos de amoras
                      vagueiam nos regatos.

E ao redor da curva das ilhas
Vulcões brumosos
em direção ao norte do Japão. Os ursos
& lanças de peixes dos Ainu.
Gyliak.
Curandeiro com visão de cogumelos
Tambor plano sozinho
de muito antes da China.

Mulheres com tambores que voam sobre o Tibete.

Seguindo as florestas a oeste, e
rolando, seguindo a savana
rastreando ursos e cogumelos,
comendo bagas todo o caminho.
Na Finlândia por fim tomou um banho:
                      como a Tenda de Suor de sequóia no Klamath–
todos os finlandeses em mocassins e
chapéus pontudos com manchas brancas,
urtigas, armadilhas, banhos,
cantando de mãos dadas, enquanto

gangorrando em um banco, uma visão de amor–

Karhu-Bjorn-Braun-Bear

                      [clarão arco-íris grande nuvem árvore
                                  diálogos de aves]

Europa.         ‘O Oeste.’
os ursos se foram
                                              exceto Brunhilde?

ou as deusas mais antigas mais selvagens renascidas–vão correr
          as ruas da França e da Espanha
          com armas automáticas–
          na Espanha,
Ursos e Bisão,
Mãos Vermelhas com dedos faltando,
Labirintos de cogumelos vermelhos;
labirintos relâmpagos,
Pintados em cavernas,

Subterrâneos.

§

Os mortos ao lado da estrada

Como um grande Falcão-de-cauda-vermelha
          veio deitar–todo rígido e seco–
                      na margem da
                                  Interestadual 5?

Suas asas para leques

Zac esfolou um gambá com a cabeça esmagada
          lavou a pele em gasolina; ela pende,
                      curtida, na tenda dele

Cozido de alce no Halloween
          atingido por um caminhão na rodovia quarenta e nove
                      oferecer farinha de milho pela boca;
                                  esfolá-lo.

Caminhões de toras circulam com combustível fóssil

Nunca vi um Guaxinim até que encontrei um na estrada:
          tirei a pele dele e deixei as unhas dos pés
                      as solas das patas, o nariz e os bigodes;
                                  está de molho em água e sal
                                  salmoura de ácido sulfúrico;

ela será uma bolsa para ferramentas mágicas.

O Veado foi aparentemente baleado
          de comprido e pelo lado
                      ombro e o flanco de fora
                                  a barriga cheia de sangue

O outro ombro pode ser salvo
          se ela não ficasse muito tempo deitada–
Rezar por seus espíritos. Pedir que nos abençoem:
          as trilhas das nossas antigas irmãs
                      as estradas foram colocadas e os mataram:
                                  olhos-brilhantes-da-noite

Os mortos ao lado da estrada.

§

Primavera no Vale do Coiote

Filhotes
rolam nas folhas úmidas
Cervo, urso, esquilo.
ventos frescos varrem as
estrelas da primavera.
pedras se despedaçam
a lama profunda endurece
sob colinas pesadas.

Coisas moventes
pássaros, ervas,
deslizam pelo ar
através de olhos e ouvidos,

Vale do Coiote. Olema
na primavera.
Flor de toloache alva e solene

e muito longe no tamal
um povo perdido
flutua

em barquinhos de junco.

§

R R R M L

A própria morte,
          (Reator de Reprodução Rápida com Metal Líquido)
          está sorrindo, acenando.
Plutônio dente-fosforescente.
Sobrancelhas zumbindo.
Foice de garimpo.

Kālī dança no pau morto duro.

          Latas de cerveja de alumínio, colheres de plástico,
folheados de madeira compensada, tubo de PVC, coberturas de vinil,
          não queimam exatamente, não apodrecem totalmente,
          inundam-nos,

          roupões e trajes
          do Kālī-yüga

                      fim dos dias.

[1] A pega ou pega-rabuda (pronuncia-se o “e” fechado) é uma ave da família dos corvos, preta e branca, comum em várias regiões do Hemisfério Norte, o que inclui a costa oriental dos EUA, onde Snyder vive e trabalha. A ave costuma frequentar áreas semiurbanas e pode ser avistada nos arredores das cidades e em parques urbanos.

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poesia

Lucas van Hombeeck

Lucas van Hombeeck é poeta e mestrando em Sociologia da cultura, simbolismo e linguagem pelo PPGSA/UFRJ. Membro da Oficina Experimental de Poesia (OEP), publicou em 2017 o Almanaque Rebolado (Azougue/Garupa/Cozinha Experimental). É autor de Nuvens [na seção de congelados] (7letras, megamíni) e Pará ocidental (no prelo), de onde foi tirado o poema abaixo.

* * *

1.1 Conceição

>recife
um telegrama conta
das articulações
justas onde passa
a faca
um pouco cega

estala
as cartilagens       ossos ainda
um pouco quentes
do sangue
guardado
para o dia seguinte

das irmãs,
a que não tem
nojo de quebrar
o pescoço da ave
os dedos
machucados pelas bocas
da lâmina

sulca
meia lua
a pele grossa
do pato
repuxando
depenada
                a carnadura

coração brechó
descendo a
cidade

pede a deus

imprecação

                        que a chuva poupe as telhas pobres
                        e mais nada

refeita das panelas
de alumínio mastigado
assunta o pó
do aparelho
numa travessa
da Gentil
ouvindo os carros

                        você não tem o
                        direito de anarquizar com                   a minha
                        vida

das irmãs,
a que não foi
ao funeral das
irmãs, a que não
foi

ensaio
silencioso
da ladainha aprendida
no pé do morro
que leva
seu nome enquanto a festa
da virgem
arrebenta
em procissão

                        II comando aéreo regional
                        1T Cauby
                        assiste entediado ao vídeo
                        do youtube é
                                                Roberto Carlos
                                                nos arcos da lapa

como o cantor
que não lhe dava presentes porque
seu nome não era
                        Lavínia ou Lísia e por isso

Não chamaria assim tampouco a
cria

descascar os peixes
amassar o alho
receber as piores
notícias
dos mais limpos
lábios
assobiar fumar tabaco
a seu jeito
ensinaria

         seu gênio

às cebolas
sono das
crianças que
se esforçam sobem
o balcão tentam
tocar a madalena
enquanto olham
com fascínio
o açúcar

cristal cobrindo
as bordas
do doce
de maracujá
no tabuleiro

Eneida
                        viveria a sonhar
                        com coisas
                        que o mundo não tem;

Olga,
uma canção de Elvis Presley
para flauta
e violão.

Dor          de conceição

multiplicada gênese
do desterro
o pato
é um bicho

que migra
por isso a dureza
da carne escura
porcelana dura
sobre o duro da caixa
despegando o esmalte
do aparelho presente
de casamento

                        essa dureza não é força

rumina
tentando a subida
descendo tentando
ser outra vez
desejando
pelo marido
que fique
um pouco
menos louco
que um soldado
no front
trabalhando
com dureza
os atos administrativos
uma serpente
com a boca cheia
de colgate
e anfetamina
num adesivo
no para-brisa
diz
senta a púa
brasil
enquanto espera
a convocação
do concurso
a data
do bilhete
da Panair

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