Editorial

A escamandro está no seu décimo ano de vida. O que nos faz repensar pra valer o que fizemos e também queremos fazer de agora em diante. Depois de várias conversas, consideramos uma mudança editorial no formato blogue da revista. O cenário hoje é radicalmente diferente daquele que havia no início do nosso projeto, em 2011, seja por aquilo a que nos propúnhamos, seja pelo florescimento de novas e múltiplas revistas no paradigma nacional. Por isso, decidimos optar por um novo modelo, com menos postagens, porém maior intervenção de cada um de nós cinco; e isso se dá porque sentimos que a demasia de publicações de nossa parte tem gerado também um cansaço, não só nosso, mas de quem lê e se interessa: o aumento de postagens não implica num aumento de leitores; na verdade, muitas vezes ocorre o oposto. O saturamento, portanto, não parece saudável a ninguém. Isso, no entanto, não quer dizer uma aposta no menos como retorno aos velhos nomes de sempre, ou a uma pirâmide de autores e obras. A questão é que, se a internet é a possibilidade da difusão contínua e quase-anárquica de tudo (mundo que nos fascina, de fato), talvez o desafio editorial seja mesmo agora tomar partidos, fazer apostas, cruzar ideias, com o intermeio de silêncios, esses tão fundamentais em meio à algaravia do mundo, que permitam o pensamento, a reflexão e o acolhimento do efeito das poemas e poéticas. Com isso, queremos cruzar nossas cinco vozes em projetos um pouco mais pessoais de leitura do presente e do passado, sem precisarmos dar conta da imensa demanda que temos continuamente por e-mail e mensagens (fica-se com a impressão de que a revista, como está em sua forma-blogue, corria o risco de se tornar mera vitrine, sem sua intenção inicial de potência interventora). A ideia então é, mantendo a liberdade e diferença de cada editor, investir mais no desafio da crítica, seja na tradução ou no ensaio, ou mesmo numa escolha de nomes contemporâneos que gostaríamos de comentar. Ao longo do ano corrente, apesar do horror, ainda colocaremos em curso o que há em agendamentos, embora já se possa sentir, aqui e ali, pequenas diferenças no enfrentamento das demandas colocadas. As linhas editoriais da revista vão, paulatinamente, encontrando as melhores maneiras de intervenção no cenário atual, como dito anteriormente, e, ao repensarmos a velocidade das águas, entraremos no próximo ano já com os riscos do porvir, leito de rio em movimento. Tenhamos todos melhor sorte.

“Ode — Indícios de Imortalidade”, de Wordsworth, por Ricardo Neves

A poesia aparece em lugares inesperados. Encontrei-me com a “Ode” de Wordsworth lendo um dos livros do conhecido autor de divulgação científica Stephen Jay Gould, “Ever since Darwin”, capítulo “The Child as Man’s Real Father”. Como contraponto à argumentação puramente científica do seu texto, Gould cita um trecho da Ode:  

Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass, of glory in the flower;
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;

Essa passagem me comoveu e atiçou minha curiosidade pela Ode e por Wordsworth. Sua leitura me revelou várias passagens que confirmaram minha impressão inicial, por exemplo essa expressão tão bonita do último verso: “Thoughts that do often lie too deep for tears”. Então comecei a traduzir.

No meio do caminho, encontrei este blog e uma tradução já existente da Ode para o português, mas mesmo assim resolvi continuar na empreitada e fui até o fim. Na realidade, evitei ler a tradução existente até completar a minha porque, pensei, consciente ou inconscientemente ela teria uma influência sobre mim.

Durante a tradução, que foi feita tão pouco a pouco que durou meses, recebemos em casa a visita de um casal amigo que veio com sua filha Ezguy, que não conhecíamos ainda. Ela teria uns três anos. Durante sua breve passagem por casa, Ezguy iluminou nosso jardim: “ah, uma flor!”, referindo-se a uma pequeníssima margarida no meio da relva, “ah, uma borboleta!”, “ah, uma framboesa!”. Tudo era descoberta e esplendor, exatamente como no poema de Wordsworth. Coincidência ou sincronicidade, o fato é que Ezguy me deu alento para prosseguir na tarefa.

Do ponto de vista mais formal, a Ode tem uma estrutura bastante irregular no que se refere à métrica dos versos e ao esquema de rimas. Sendo o inglês uma língua tão sintética e às vezes quase monossilábica, resultou-me impossível guardar a métrica original dos versos. Usei então versos dodecassílabos quando os versos em inglês eram decassílabos, o que ocorre em boa parte do poema, e nos demais tomei bastante liberdade com a métrica. Quanto às rimas, guardei o esquema usado por Woodsworth em cada estrofe.

Ricardo Neves

* * *

Ode – Indícios de Imortalidade, a partir de Reminiscências da Tenra Infância
(William Wordsworth)

Houve um tempo em que bosques, rios e pradaria,
A terra, a mínima coisa natural,
A mim me parecia
Envolta em luz celestial,
O esplendor de um sonho ou fantasia.
O mundo não é mais como era outrora;
Onde quer que eu esteja,
Noite ou dia seja,
As coisas que eu via eu já não vejo agora.

A visão do arco-íris, grandiosa,
E a pura beleza da rosa;
A lua no céu passeando
Nas noites claras, serena;
As águas do mar cintilando
Na noite estrelada e amena;
Luz do sol, nascer de um novo dia;
Mas sei que onde quer que eu for,
O esplendor da terra passou, que eu antes via.

E agora, enquanto as aves cantam com alegria,
E os cordeiros e o pastor
Dançam ao som do tambor,
Apenas a mim veio um pensamento triste;
Mas alguma coisa forte em mim resiste,
Me reconforta e me alivia.
Do alto da escarpa ressoam as cataratas, –
Meus pesares já não obscurecem o mundo:
Ouço seus ecos vindo do vale profundo;
Os ventos vem a mim de plagas abstratas,
E é feliz a terra inteira;
Os campos e o mar
São pura frescura e cantar,
E ao romper da primavera
Se acalma também a fera; –
Tu, alegre pastor,
Dança ao meu redor, quero ouvir teu canto,
Menino pastor!

Sim, abençoadas criaturas, bem distinto
Ouço como vos estais a falar;
Vejo os céus sorrir convosco a jubilar;
Meu coração se une à vossa festa,
As guirlandas coroam minha testa,
Sinto essa vossa benção, sim, na carne eu sinto.
Dia aziago! se eu estivesse sombrio
Enquanto adorna a Terra inteira
Essa doce manhã trigueira;
E os meninos colhem com brio
Por lugares distantes
Em mil vales verdejantes
Flores frescas; e o sol esquenta com bonança,
E nos braços da mãe salta e brinca a criança: –
Eu ouço, eu ouço, eu ouço com alegria!
Mas há uma árvore, que só conheço eu,
Um campo que uma vez eu contemplei,
Ambos me falam de algo que se perdeu:
A meus pés o amor-perfeito
Repete a seu modo e jeito:
Aonde fugiu o visionário fulgor?
Onde se esconde agora o sonho e o esplendor?

Nosso nascer é apenas sono e esquecimento;
A alma que se eleva, a Estrela da nossa vida,
Trazida por distante vento
Noutro lugar foi concebida;
Não de todo inconscientes,
Nem totalmente indigentes,
Chegamos, mas em meio a nuvens de esplendor
Saídos de Deus, nosso Senhor:
O céu nos cerca em nossa infância!
Sombras da prisão começam a se fechar
Quando o Menino cresce,
Mas ele contempla a fonte de luz jorrar,
E se alegra e floresce;
A Juventude é o sacerdote celeste
Da natureza, que desde o longínquo leste
Viaja cada dia, e em sua caminhada
Pela visão do esplendor vai amparada;
Ao longe o Homem percebe-a fenecer, sombria,
E se esvaecer na escuridão do dia a dia.

Os prazeres que a Terra busca são mistério;
Seus desejos nascem no seu âmago interno,
E, mesmo se algo tem de amor materno,
E alguma intenção honrada,
Essa ama de casa lança seu feitiço
Para que o Homem, seu filho postiço,
Esqueça o esplendor do seu primevo império,
E os palácios em que viveu, na sua chegada.

Contemplai a Criança em sua doce primavera,
Um pigmeu queridinho de seis anos!
Debatendo-se entre seus brinquedos e panos
Dos assaltos de beijos da mãe, que o venera,
E sob o olhar complascente do pai, ufanos!
Olhai, a seus pés, como esboça em filigrana
Mapas e planos, com arte aprendida agora,
Fragmentos de seu sonho de vida humana;
Uma boda ou um festival,
Um luto ou um funeral;
E seu coração nisso se afaina,
E a isso modela sua canção:
Afiará sua língua, então,
A discursos de amor, contendas ou penhoras;
Mas sem tardar, serão
Esses discursos postos de lado,
E com orgulho renovado
O pequeno ator forja um novo papel
E sai à luz um novo personagem
Nessa comédia que, em sua viagem,
A vida traz consigo em sua equipagem;
Como se fosse a imitação
Sua exclusiva vocação.

Tu, cuja aparência exterior desmente
Da tua alma a imensidade;
Tu supremo filósofo, que a tua herdade
Ainda guardas, tu entre os cegos a lucerna,
Que lês, surdo e mudo, a eterna verdade,
P’ra sempre enfeitiçado pela Mente eterna, –
Poderoso Profeta! Vidente abençoado!
Dessas verdades o guardião sagrado
Que toda a vida buscamos sem cessar,
Perdidos nas trevas, na escuridão da cova;
Tu, sobre quem senta a tua Imortalidade
E choca como o dia uma Presença nova,
Uma presença de vida e de esperança;
Para quem a cova
Não passa de um leito solitário e proibido
Na baça luz de um dia nunca amanhecido,
Paragem do pensar, onde o corpo descansa;
Tu, pequena criança, embora nascido
Em glória e poder da celeste liberdade,
Por que provocas os anos, incansável,
Para trazer ao fim o jugo inevitável,
Lutando às cegas contra a bem-aventurança?
Breve tua alma pagará a penalidade,
E a rotina cairá sobre ti com frialdade,
Profunda como a vida, aguda como a lança!

Ah, alegria! Que algo de vivo
Em nossas cinzas subsista,
Que esse fátuo fogo fugitivo
Na natureza ainda resista!
A lembrança de anos passados gera em mim
Uma perpétua bendição : mas não assim
Pelo que mais merece ser abençoado,
Deleite e liberdade, o simples credo, enfim,
Da infância, quando adormecido ou acordado
Flutua no ar um sonho sempre renovado :
– Não para essas coisas levanto
Minha gratidão e meu canto ;
Mas para esses obstinados questionamentos
Sobre sentido, mundo externo, fundamentos,
Derrocadas, desaparecimentos,
Receios confusos de uma criatura
Movendo-se em mundos não concretizados,
Altos instintos, ante os quais nossa natura
Treme, surpresa, como os condenados :
Mas para esses primeiros afetos,
Obscuras recordações, objetos
Que, seja qual for sua moradia,
São ainda a fonte de luz de nosso dia,
Os senhores da luz de nosso olhar ;
Nos sustentam – nutrem – e nos libertam ;
Fazem anos parecer momentos no altar
Do eterno Silêncio : verdades que despertam
Para não perecer jamais ;
Que nem homem ou menino mortais,
Nem indiferença, nem empreitada demente,
Nem nada que impeça de estar contente,
Pode anular ou destruir completamente !
Por isso quando o tempo está calmo e em paz,
Embora estejamos longe terra adentro,
Nossa alma avista esse mar, o mar de dentro,
Que aqui nos trouxe recém,
E pode num momento viajar além –
E ver o Menino brincar na areia,
E ouvir a eterna vaga que a golpeia.

Cantem, pois, aves, cantem a alegre canção !
E que os cordeiros e o pastor
Dancem ao som do tambor !
Me uno à vossa multidão,
Sim, essa gaita, sim, esse recreio,
Sim, tudo que hoje abriga o vosso seio
Sinta de Maio esse alegre gorjeio !
E embora essa luz antes tão resplandecente
Fuja de meus olhos agora eternamente,
E já nada possa trazer de volta a hora
Do esplendor na relva, da flor encantadora ;
Em vez de aflição, acharemos paz
E força no que ficou para trás ;
Na simpatia original e infinda
Que tendo sido deve ser ainda ;
Nos suaves e tranquilos pensamentos
Que brotam dos humanos sofrimentos ;
Na fé que mais além da morte mira a paz,
No tempo que a mente filosófica traz.

E, sim, fontes, pradarias, bosques e flores,
Prenúncio não sejais do fim de meus amores!
Meu coração vosso poder ainda sente ;
E sinto ainda, de maneira diferente,
Esse mesmo deleite que antes eu sentia ;
Amo o regato que rio abaixo se agita
Até mais do que quando, como ele, eu corria ;
A pura claridade de um nascente dia
É sempre tão bonita ;
Em torno ao sol poente as nuvens dele emprestam
As mais sóbrias cores, se essa visão emana
De um olho atento à mortal condição humana ;
Outros desafios virão, e outros triunfos restam.
Coração humano, fonte de nossos alentos,
Rendo graças a ti por rir, amar, chorar,
A ínfima flor me inspira às vezes pensamentos
Profundos demais para a lágrima expressar.

(trad. Ricardo Neves)

XANTO|”Tite de Lemos: cortina de espelhos”, por André Luiz Pinto

Tite de Lemos - Poemas escolhidos

Como Dante Milano (1899-1991), Tite de Lemos (1942-1989), que participa emprestando sua belíssima voz no documentário em homenagem ao poeta modernista, já era um poeta maduro em sua primeira obra, Marcas de Zorro, de 1979. Tal como Poesias, a primeira obra de Dante, publicada em 1948, Marcas de Zorro era uma obra esperada fazia tempo por um círculo nada modesto, que ia de Ivan Junqueira a Armando Freitas Filho, algo raro para um primeiro livro de poemas. Figura carimbada do cenário cultural carioca desde os anos sessenta, seja como jornalista no Jornal do Brasil, e posteriormente n’O Globo; seja como diretor e autor de teatro em peças como A tempestade, de 1964, e Alice no país divino-maravilhoso, de 1970, período em que o futuro poeta édito estabeleceu uma das parcerias mais sólidas da MPB com a cantora e compositora Sueli Costa; seja ainda como o narrador de Macunaíma, de 1969, Tite de Lemos admitiu de fato só tardiamente a veia poética, ainda que, depois de assumida em 1979, ele nunca mais abandonaria a poesia, tornando-se cada vez mais sua atividade artística principal na década seguinte, quando veio a falecer. Se a cada uma das atividades artísticas que Tite exerceu (a de homem do teatro, ator, compositor, jornalista e poeta) caberia um estudo à parte, é a atividade de poeta que nos interessa aqui. A poesia de Tite de Lemos se mostrou nos poucos livros que publicou (três em vida e dois póstumos) uma combinação de elementos a princípio díspares, como o soneto italiano, as vanguardas dos anos cinquenta e sessenta, a irreverência da geração marginal (ainda que seus poemas nunca cheguem ao desbunde), certa predileção ao aforismo e à elipse. O poeta parece se preservar dos derrames de um eu lírico muito comum na geração marginal, ainda que esse eu escape de tempos em tempos na lira de Tite, como no poema “FIDÚCIAS. confissões”, em que ele escreve: “Meu grande pai morreu onde viveu, no mesmo quarto/ por toda parte/ havia um cheiro de charuto”. Se, por um lado, esses elementos são realmente dispersos, por outro, mostram-se unificados por dois aspectos de sua personalidade artística: em primeiro lugar, por uma elegância, quase aristocrática, tanto nos temas quanto na maneira de abordá-los. Nesse ponto, a adoção do soneto que já aparecia em Marcas de Zorro e Corcovado Park e depois, de forma decisiva em Cadernos de sonetos, seu último livro publicado em vida, não está em desacordo com o ousadíssimo poema “Corcovado Park”, que dá título ao livro, em que narra o universo dos hipódromos com seus alazões, numa matemática de velocidades e estatísticas, e que nos deixa algum sabor do que devia ser a vida da Gávea e do Jardim Botânico nos anos sessenta.

Outra marca forte de sua obra artística é o jogo de cena, comum em seus poemas, mas também em suas composições, devo dizer. Jogo de cena identificado numa poesia que esconde mais do que mostra, como um vestígio de pegadas, como uma cortina de espelhos que abduz. Em resumo, Tite de Lemos nos seduz com a grata impressão de que não entendemos nada do que escreveu, mas não veja nisso petulância; pelo contrário, não está aqui em questão exibicionismo acadêmico nenhum. A poesia de Tite causa desentendimento não por academicismo, excesso de referências e beletrismo; antes, ela se faz de desentendida pelo compromisso de Tite de Lemos em não mostrar completamente o assunto de que trata, como nos espetáculos de strip dos anos quarenta quando a dançarina nos filmes apenas descia a meia-calça para delírio dos espectadores. Distinto, porém, da intimidade encenada por Ana Cristina César em A teus pés, Tite não insinua como Ana C alguma confissão; pelo contrário, ele não insinua confissão alguma, não deixa rastro pessoal quase que nenhum, ainda que incite em muito o leitor a conhecer sua personalidade:

NÃO IDENTIDADE

floresces
escrevo
teu nome
sou meu escravo
nunca fui o que eu era
me dome
como a qualquer um animal bravo
ai quem me dera
ser eu

(In: Marcas de Zorro, 1979)

Por sinal, o erotismo, às vezes ambientado por Tite no universo dos prostíbulos e dos encontros casuais, só aparecerá mesmo de forma decisiva na obra póstuma Bella Donna, em poemas como “Rita de Cássia”, “Leda Sara Diva”, “Renata Rex” e o encantador “Nancy 16 às 22h”:

uma blusa de seda
uma joia, uma obra de arte
como eu queria, sim, e quero dar-te
uma blusa de seda
uma linda blusa.
Se eu te der você usa?

e se mais tarde eu dedilhar
as cordas, primitiva lira,
do coração descompassado
e te encontrar a minha música
será que a blusa você tira?

(In: Bella Donna, 2010)

O voyeurismo de Bella Donna já começa com a fotografia da capa, em que se estampa um belo pescoço de mulher, tirada de costas. É nesse jogo de insinuações que a poética de Tite parece se intrometer, mesmo em seus sonetos, mais preocupado em nos envolver do que em acertar as regras esperadas da metrificação:

Nuvem é nuvem nunca, já desfaz-se
apenas um segundo após formar-se.
Sua forma presente é só disfarce,
face que fosse face sem ter face,

traçado que o olhar não decifrasse
embora o olhasse a ponto de cansar-se.
Seu contorno se furta de alcançar-se
e nem está mais lá. Foi-se, fugace.

Ninguém sabe se teve mãe ou pai
– d’Onde venho, aOnde vou, quem sou, existo?
Então a nuvem se transforma em chuva,

casa no céu com o céu inteiro e cai,
volúvel noiva, lágrimas de Cristo
que o sol e os outros astros enviúva.  

(Caderno de sonetos, 1988)

Falando em nuvens, talvez por ser do signo de Aquário, o mais aéreo dos signos, que a imagem do ar seja uma constante na imagética desse poeta, o que o elege, desculpe a brincadeira, de um concretismo impossível. Sua poética, contudo, não nega o experimentalismo; pelo contrário, é uma das poéticas mais experimentais que já se produziu nesse país. Tite descortina a palavra numa imaterialidade difícil de ser conhecida. O que é explorado por ele não é mais a disposição espacial, mas outros suportes da linguagem, tais como a respiração que a fala exige, em exercício quase de iogue: deste modo, é na virada das páginas do poema “Um pássaro” que você identifica o movimento do animal, o que torna sua ars poetica muito mais próxima de uma atividade como o cinema em comparação às artes plásticas.

Em Novembro de 1985, pouco depois de lançar Corcovado Park ao lado de Armando Freitas Filho com seu 3×4, futuro ganhador do Jabuti de 1986, Tite de Lemos participou do evento Eletropoesia no Centro Cultural Cândido Mendes. Nele, era passada uma mensagem que corria sem parar através de um vídeo-play. De forma sintética, quase hermética, o poeta postou o seguinte poema de título “Poisia-tri-quadri ou tentalingue”:

Kungfucius said: no vayas jamás por questa via. Inutile! Ele “o discípulo” foi e não voltou.?

Capacidade de síntese e experimentalismo é o que não falta nesse fazer poético. No atinente ao experimentalismo de Tite de Lemos, o que há de concreto na sua palavra é o desenho que se rabisca. Chama, por exemplo, atenção o poema “Suíte Yhab”, que se encontra em Corcovado Park, nas palavras do poeta, “para barítono, cordas e percussão”. Nele existe apenas o registro cursivo, suave, a ponto de não ser possível determinar se o objeto em questão se trata de um desenho ou de uma escrita. Mas se objeto se trata de algo escrito, é a escrita do que exatamente? E a resposta é óbvia: daquilo mesmo que se vê, como que a estragar a velha distância entre o significante e o significado. A obra de Tite de Lemos é feita de ciladas, de desvarios vãos, que só enriquecem um talento desaparecido tão cedo.

André Luiz Pinto

sessão vagalume | Natasha Sardzoska, por Prisca Agustoni

Natasha Sardzoska (Skopje, Macedônia, 1979) é poeta, ensaísta, escritora, tradutora e intérprete literária da Macedônia e trabalha com várias línguas (francês, italiano, espanhol, inglês, português, croato e catalão). Doutora em Antropologia pela Universidade Eberhard Karls de Tübingen, Universidade Sorbonne Nouvelle em Paris e Universidade de Bergamo, atualmente é pesquisadora afiliada do Centro de Estudos Avançados do Sudeste Europeu, em Rijeka, na Croácia, e professora assistente do Instituto de Antropologia e Etnologia da Santos Cirilo e Metodio University em Skopje.
Colaborou com inúmeras revistas literárias italianas e hispano-americanas.
Escreve sua obra principalmente em macedônio e italiano, e se auto traduz em inglês, espanhol e francês. Tem poemas traduzidos em mais de 15 idiomas, publicados em revistas e antologias internacionais. Entre suas publicações mais recentes estão os livros La camera azzurra, Pelle (publicado nos Estados Unidos e na Itália) e Osso sacro (Milão, Interno Poesia, 2019), escritos em italiano; desse último livro foram retirados esses poemas.
É a tradutora em macedônio de, entre outros, Pier Paolo Pasolini, Umberto Saba, Eugenio Montale, Eduardo Sanguineti, Andrea Zanzotto, José Saramago, Fernando Pessoa, Antonio Tabucchi, Gonçalo Tavares, Mia Couto. Como poeta, foi convidada para inúmeros festivais literários internacionais, quais Ars Poetica Festival de Bratislava, Poesiefestival de Berlim, Parole Spalancate de Genova, Festival Internacional de Poesía de Medellín na Colômbia e o Festival Sha’ar em Tel Aviv.


selvaggi nel cuore
(fours hands)

partiremo

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .noi siamo profughi

forgeremo il silenzio dei nuovi paesi

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .non scoperti

oseremo la libertà

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .non obbedienti

semineremo seme piccante

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .vorremmo

almeno per un attimo

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .essere vicini di casa

nei due atri

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .dei nostri cuori

Selvagens no coração
(four hands)

Partiremos

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .nós somos os prófugos

forjaremos o silêncio dos novos países

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .não descobertos

ousaremos a liberdade

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .não obedientes

semearemos a semente que arde

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .gostaríamos

pelo menos por um tempo

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .de sermos vizinhos

nos dois átrios

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .de nossos corações

§

testamento

mio padre mi ha detto
a casa bisogna avere sempre candele
se salta via la corrente
se avviene un corto circuito
perché io possa vedere
chiaro
ma voleva dirmi
devo fare il patto
se suonano alla porta
non devo cadere
perché non mi accechi
il chiarore dell’alba

testamento

meu pai me disse
é preciso ter velas em casa, sempre,
por si faltar a energia
se ocorrer um curto-circuito
para que eu possa ver
com clareza
mas queria me dizer
devo fazer o pacto
se tocarem à porta
não devo cair
para que não me cegue
o brilho da manhã

§

squame

verifico e cerco
l’uomo che una volta ero io
e cerco il guscio
incastrato nella gola
sui fogli vuoti
le gocce d’inchiostro
i fili dei nervi
sulle mia dita
nelle sabbie mobili
le mie gambe gonfiate:

dai vestiti intimi
che non ho mai
mai indossato

escamas

verifico e procuro
o homem que uma vez já fui
e procuro a concha
presa na garganta
nos papéis vazios
as gotas de tinta
os filamentos dos nervos
sobre meus dedos
nas areias movediças
minhas pernas inchadas:

da roupa íntima
que nunca
jamais vesti

Louis Zukofsky, por Arthur Lungov

PDN Photo of the Day | “[Louis Zukofsky],” 1976. © The Estate of Ralph  Eugene Meatyard/Courtesy Blanton Museum of Art

Louis Zukofsky (1904 – 1978) foi um dos poetas estadunidenses mais inventivos e instigantes do século XX. Poeticamente, Zukofsky segue na linha dos grandes vanguardistas norte-americanos, em especial Pound e T. S. Eliot. Zukofsky vê no poema um objeto linguístico que deve ser manipulado e composto a fim de levar a linguagem e a tradição poética ao máximo de suas tensões. Sua maior obra, o poema épico A, escrito durante 41 anos e composto por 24 cantos, é considerado um dos mais difíceis e herméticos já escritos em inglês, e desafia os estudiosos de sua obra até hoje.

Traduzi seu poema “Julia’s Wild”, de 1960, por considerar que ele condensa habilmente parte significativa de suas preocupações poéticas. O poema parte de um verso da 4ª Cena do 4º Ato da peça shakespeariana Dois cavalheiros de Verona, de uma fala da personagem Júlia, que na peça se fantasia de pajem para surpreender seu amado em Milão, que estar apaixonado por outra mulher. A partir desse verso (“Come shadow, come, and take this shadow up,”), Zukofsky passa a fazer um jogo permutacional com as palavras, gerando significados ambíguos e novas sonoridades, fatiando o verso para entender suas potencialidades. O próprio título do poema se vale desse procedimento: pode ser lido graficamente como “a selva de Júlia” (o que faz sentido no contexto da peça, uma vez que a personagem convence sua rival a fugir da cidade para a floresta, onde é capturada e quase morta); quanto sonoramente como “Júlia é selvagem” (representando sua coragem e sua obstinação).

A tradução que realizei incorpora graficamente e sonoramente essas questões. As ambiguidades geradas pela alteração de lugar da palavra “shadow” (que pode servir tanto como substantivo quanto como verbo, às vezes como os dois ao mesmo tempo) estão representadas pelo tamanho das fontes, que criam uma simultaneidade das palavras sombra/sombreia/sombrear que não compromete o jogo semântico do original. Ainda, seguindo o impulso do poeta em brincar com a linguagem ao máximo, na tradução colori as palavras que se reptem assim como suas variantes, para destacar o caráter reiterativo, quase musical que vem com essa repetição dos mesmos sons, e com os diferentes sons que se formam por sua interação. De maneira que podemos ver as palavras repetidas como temas ou notas musicais em uma partitura, que vão se alternando para gerar uma melodia (sugestão que tirei de procedimento parecido que Augusto de Campos faz em seu “Poetamenos”).

Zukofsky segue sendo um poeta infelizmente pouco traduzido para o português, ainda que sua obra possa ser comparada em magnitude e complexidade a toda a gama de modernistas que inspiraram seu trabalho, desde Joyce até WCW, passando pelos já mencionados Pound e Eliot. Com essa pequena contribuição, espero poder ajudar em sua divulgação no Brasil.  

Arthur Lungov

* * *

5 poemas de Rafael Zacca

Rafael Zacca nasceu em 1987 e vive no Méier, Rio de Janeiro. Publicou o menor amor do mundo (7Letras) em outubro deste ano, que se soma a A estreita artéria das coisas (editora Garupa), Mini Marx (7Letras) e Mega Mao (Caju). Também oferece oficinas de criação e, sobre isso, publicou, com o coletivo Oficina Experimental de Poesia, o Almanaque Rebolado (várias editoras). É crítico, além de professor no departamento de Filosofia da puc-Rio.

* * *

minianjo cheio de esperança

todos os dias
se esconde
na casca
das bananas

espera
feito um monge
pernas cruzadas
o mel brotar

e o balé das moscas

* * *

minianjo que chora

acha muito
linda a bundinha
gorda e imóvel
da aranha
enquanto ela
gesticula

como se falasse
ao telefone
como se orientasse
o trânsito minúsculo
das bactérias
como se obcecada
em lavar
por muito muito
tempo as patinhas
antes de comer

quase vê
o rio invisível
que umedece
as patas
a teia
da aranha

minianjo
escreve na parede
nunca mais
serei o mesmo

que onda minianjo

* * *

pobre minianjo

os cupins
têm pena

de dentro
da madeira
ficam de olho
nele

pobrezinho pensam

entre livros
na estante
ele brinca
que congela
os personagens

nada de tramas
nada de mortes
assassinatos
nem amores
não correspondidos

às vezes
ele diz isso
em voz alta

sempre que alguém
lê essas vidas
acabam de novo

pobrezinho

recolhe
as asas dos cupins
no fim do dia

* * *

minianjo duvidando

chegou correndo e suado

todos perguntam logo
o que houve o que houve

estava na austrália
na grande barreira de corais da austrália

é a maior colônia
de tartarugas verdes do mundo
dava pra ver
as sessenta e quatro mil
tartarugas marinhas verdes
que se preparavam
para fazer ninho

minianjo duvidando
recupera o fôlego
e diz

gente
é muita tartaruga

* * *

eros board game

acabo de voltar
de nova risca
interior do mato grosso

no centro de nova risca
tem uma praça
e no centro da praça
um labirinto

vocês me perguntam
e é difícil chegar
ao coração
do labirinto?

é bem difícil

mas em nova risca
pintou recentemente
um senhorzinho
estraga prazeres

ele fica em cima
do muro

vocês me perguntam
ajudando as pessoas?

não

ele diz vai
pro outro lado
aí tá errado

vira pra cá
vira pra lá

é um antiminotauro
um estraga prazeres

a graça do labirinto
não é encontrar
o coração
a graça
é tu sofrer

eros tem um machado
e a paciência
muito curta

Anne Sexton, por Júlia C. Rodrigues

Anne Sexton é uma poeta que desperta fascínio. Nos retratos, encontramos uma bela mulher que sempre parece à vontade diante da câmera. Nos registros audiovisuais de suas entrevistas e leituras, encontramos uma autora eloquente, uma notável oradora. Nos poemas, encontramos uma voz provocante, perspicaz, disposta a tratar da intimidade sem meias-palavras. Frequentemente associada ao controverso rótulo da “poesia confessional”, junto de figuras como W. D. Snodgrass e Sylvia Plath, Sexton acabou conquistando uma aura mítica. Seu consumado suicídio, em 1974, consolidou de vez a imagem de poeta intensa, que se rende inteiramente à arte. Mas a fotogenia, o desembaraço e a irreverência são apenas fragmentos de Sexton – poeta dedicada, séria, talentosa.
Em entrevista ao blog Conversa entre ruínas em novembro de 2019, a filha de Anne, Linda Gray Sexton, destacou a importância de pensar em sua mãe como uma mulher também dada à leveza. “Isso com frequência é negligenciado em prol dos poemas da ‘Anne maluca’, que certamente eram parte dela e uma parte importante de como ela fez seu nome”, ela aponta, compreendendo que uma certa ousadia performática é parte do legado de Sexton. No entanto, sua poesia não é pura melancolia: ao contrário, transita por diferentes emoções e temperaturas. “Um lado tão grande da minha mãe era alegre”, disse ainda Linda Sexton, que escreveu memórias calorosas de sua infância.
Trazemos aqui um pequeno espectro desses contrastes de Anne Sexton. Na carta que ela escreveu a Snodgrass, em janeiro de 1959, menciona uma crise depressiva recente. No entanto, também é possível encontrar ali uma voz divertida, auto irônica e otimista com a possibilidade de publicar seu primeiro livro logo após o aceite de dois poemas em revistas literárias, uma validação que significava muito para ela. Sexton menciona ainda as aulas que teve com o poeta Robert Lowell, também associado à poesia confessional. Eles desenvolveriam proximidade nos anos seguintes, mas, ainda em 59, a inteligência insubordinada de Sexton se rebelava em sala.
Em “Said The Poet to The Analyst”, Sexton diz que seu negócio são as palavras, enquanto o do analista é observar as palavras dela. O trabalho do tradutor é também uma espécie de vigia das palavras da poeta. Por um lado, Sexton raramente investe em intrincadas construções formais que obrigam o tradutor a um duro estudo de versificação (“The Ballad Of the Lonely Masturbator” pode ser considerada uma gloriosa exceção). Por outro, seus poemas exigem uma atenção minuciosa para certas escolhas surpreendentes. A linguagem de Sexton contém uma fluidez característica, mas suas associações estão longe de serem óbvias. Diversas lacunas permeiam suas lúcidas observações, imagens enigmáticas atravessam seus poemas. Em “Housewife”, é interessante perceber o distanciamento com que o eu-lírico trata o tema (“some women marry houses”, lemos, sem muita certeza do lugar onde se encontra a observadora), o que nos lembra que nem sempre os poetas confessionais empregavam a primeira pessoa, mas encontravam maneiras diversas de abordar questões pessoais. No mesmo poema, é complexa a construção da dona-de-casa como o própria imóvel que ela habita: um jogo sagaz com a palavra inglesa, como se housewife pudesse querer dizer, literalmente, a esposa de uma casa. Em “To My Lover Returning to His Wife”, também, Sexton desenvolve essa alternância de tom. Enquanto o envolvimento do eu-lírico com um homem casado, em si mesmo, é tratado de forma casual, a poeta imagina a esposa a partir de ricas e imprevisíveis associações: a outra mulher é, a um só tempo, uma mãe exemplar em sua rotina caseira, uma criadora tão extraordinária quanto Michelangelo, uma companhia tão empolgante quanto fogos de artifício.
Esses três poemas são uma pálida superfície de uma obra rica e variada. Sua estreia na poesia foi em 1960 com To Bedlam And Part Way Back – no qual “Said The Poet to The Analyst” aparece. “Housewife” foi publicado em All My Pretty Ones (1962), um de seus livros mais conhecidos. Com Live or Die (1966), Anne Sexton seria agraciada com o Pulitzer Prize, um dos principais prêmios literários de seu país. “For My Lover Returning to His Wife” é de Love Poems (1969). Merece ainda destaque o livro Transformations (1971), que se aventura pelas histórias dos irmãos Grimm com bastante sarcasmo e morbidez, sem prescindir da beleza característica dos contos de fada.

Júlia C. Rodrigues é leitora, professora, poeta e tradutora. É mestra em Teoria e História Literária pela Unicamp, onde atualmente cursa doutorado. Traduziu A terra devastada, de T. S. Eliot, em 2016 pela Lumme Editor. Contribui regularmente para a revista Mallarmargens, na seção Nau Corsária. Alimenta o blog Conversa entre ruínas e apresenta o Poemo Podcast.


11 de janeiro de 1959

Querido, Querido Sr. W. D.,

Espero que tenha corrido tudo bem em Nova York. Eu meio que andei procurando uma carta sua — mas, agora que nossas cartas se cruzaram, não estamos devendo nada um ao outro. E claro que amo você. E às vezes me preocupo com você. No geral eu só me preocupo comigo. Porém, hoje eu levantei a cabeça depois de três semanas de uma porcaria de depressão e agora percebo que existem mesmo outras pessoas. Tem alguém lá. Eu só me esqueci (Não esqueci mesmo de VOCÊ — isso é impossível).
Eu recebi uma carta gentil da Poetry Northwest e eles estão considerando as coisas que eu enviei. Obrigada por escrever pra eles sobre mim e tudo mais. Eu estou começando a ficar sem material bom (não tanto mas quase o melhor eu já liquidei)… Mas estou escrevendo coisas novas — ou estava, antes da depressão tomar conta. Agora mesmo preciso escrever enquanto tenho alguns zunindo na minha cabeça. Mas antes queria enviar palavras a você (sou a doida que acredita que as palavras tocam as pessoas).
Eu juntei meus poemas como se eles pudessem virar um livro e o Lowell está vendo isso. Eu cometi um erro? Não sei. Mesmo assim, ele pareceu receptivo à ideia e falou que ia me dizer francamente se há quantidade de coisa boa o suficiente para um livro (mas só Deus sabe como você faz pra publicar). Parece que ele se impressionou porque a Hudson aceitou “The Double Image”. Tão comprido e tal (240 versos). Mas então no minuto seguinte ele disse, “Mas eu sabia que eles iam aceitar. Era só uma questão de para onde enviar” ??? Ele é difícil de entender. A aula é boa. Eu estou aprendendo super rápido. Mas eu fico agindo que nem uma vaca em sala. Não sei por que mas fico muito na defensiva com o Lowell (acho que tenho medo dele)…então me comporto feito uma vaca com umas tiradas sarcásticas…. a turma fica lá sacudindo a cabeça que nem uns cachorrinhos a cada declaração dele. Por exemplo, ele vai dissecar algum grande poema e dizer “Por que esse verso é tão bom? O que o torna bom?” e há um silêncio mortal. Todo mundo tem medo de falar. E finalmente, porque eu não aguento mais, eu levanto a voz e digo “Eu nem acho que seja tão bom assim, você jamais iria permitir que usássemos uma linguagem desleixada desse jeito”… e por aí vai. Não faço isso pra causar. Mas é porque o verso não é bom. O que você faz — fica lá, faz que sim com a cabeça e não fala nada? Como você diz, minha atitude é agressiva. Eu acho que o problema é que minha cabeça, minha cabeça pensante, é agressiva. Sou uma máquina de ideias. Adoro (de um jeito engraçado) pensar. Quero dizer, numa aula daquelas fico muito estimulada… mas, na verdade, não quero muito ficar lá depois de falar. Penso com frequência em sua análise. Gostaria de falar, mas sem estar lá. Seria como o seu “Red Studio”. E acaba que isso explica VOCÊ. Eu gosto de entender você. Você é tão humano e intrigante e meu esplêndido bobalhão.
O que você está escrevendo? Se você me mandar eu prometo que vou manter A MÁQUINA em silêncio. Eu só vou amar e pensar nisso e ficar feliz que suas palavras estejam latindo no topo do céu.
Eu ganhei uma mistureba de livros no Natal, entre eles o do Philip Larkin — que eu gostei, e Randall Jarrell e Frost e outros. Cadê seu livro? Eu quero comprar!!! Quero comprar logo pra você ficar rico e famoso e mergulhado em luxúrias e passeando pelo mundo com Jan a seu lado. E também parando em algum lugar para ser o estudioso noturno, como sempre.
Em meios aos destroços dessa casa minhas filhas ainda brincam com os ratinhos (Kayo fez uma casa para eles) e a aura de você permanece, permanece, permanece …
Argh, acho que sinto sua falta & agora! Não sei por que — você é uma criatura tão contrária. Mas eu sinto. Nós sentimos. Devo convidar vocês outra vez? Quer dizer, vocês sabem que são sempre bem-vindos aqui, não é?
Se eu tiver uma cópia, vou mandar junto — de um poema recente que vou fechar. Pra você ler ou não ler??
Só pra você saber que continuo escrevendo.
E Feliz Ano Novo, querido, tudo de bom pra você e pros seus,

Com carinho,
Anne


Disse a poeta ao analista

Meu negócio são as palavras. Elas são como rótulos,
moedas, ou, melhor ainda, um enxame de abelhas.
Confesso que apenas a fonte das coisas me arrebenta,
contar palavras como se fossem abelhas mortas no sótão,
desprovidas dos olhos amarelos e das asas secas.
Preciso esquecer sempre como uma palavra consegue
pegar uma outra, manejar uma outra, até que eu tenha
algo que poderia ter dito…
mas não disse.

Seu negócio é observar minhas palavras. Mas eu
não admito nada. Faço o meu melhor, por exemplo,
quando escrevi o elogio do caça-níquel
aquela noite em Nevada; contando como o prêmio mágico
veio no tintinar de três sinos, na tela da sorte.

Mas se você disser que não é bem assim,
então fico fraca, lembrando como minhas mãos estavam estranhas
e ridículas e carregadas com todo aquele
dinheiro de faz-de-conta.

Said The Poet To The Analyst

My business is words. Words are like labels,
or coins, or better, like swarming bees.
I confess I am only broken by the sources of things;
as if words were counted like dead bees in the attic,
unbuckled from their yellow eyes and their dry wings.
I must always forget how one word is able to pick
out another, to manner another, until I have got
something I might have said…
but did not.

Your business is watching my words. But I
admit nothing. I work with my best, for instance,
when I can write my praise for a nickel machine,
that one night in Nevada: telling how the magic jackpot
came clacking three bells out, over the lucky screen.

But if you should say this is something it is not,
then I grow weak, remembering how my hands felt funny
and ridiculous and crowded with all
the believing money.

§

Dona de casa

Algumas mulheres se casam com casas.
É uma outra espécie de pele; têm coração,
boca, fígado e movimentos intestinais.
As paredes são permanentes e cor-de-rosa.
Veja como ela senta nos joelhos o dia todo,
se lavando tão lealmente.
Homens entram à força, atraídos como Jonas
de volta às suas mães carnudas.
Uma mulher é sua própria mãe.
Isso é o mais importante.

Housewife

Some women marry houses.
It’s another kind of skin; it has a heart,
a mouth, a liver and bowel movements.
The walls are permanent and pink.
See how she sits on her knees all day,
faithfully washing herself down.
Men enter by force, drawn back like Jonah
into their fleshy mothers.
A woman is her mother.
That’s the main thing.

§

Para meu amante, voltando para a esposa

Ela está toda lá.
Ela foi fundida com cuidado para você
E moldada a partir da sua infância
Moldada a partir das suas cem colegiais favoritas.

Ela sempre esteve lá, querido.
Ela é, de fato, um primor.
Fogos de artifício num fevereiro tedioso
e tão real quanto uma panela de ferro.

Vamos admitir, eu fui momentânea.
Um luxo. Um veleiro vermelho brilhando no porto.
Meu cabelo subindo feito fumaça pela janela do carro.
Pequenas ostras fora de época.

Ela é mais do que isso. Ela é o que você tem de ter,
amadureceu em você seu lado prático, tropical.
Isso não é um experimento. Ela é pura harmonia
Ela cuida de remos e forquetas para o barco,

colocou flores silvestres na janela pro café
sentou-se no oleiro ao meio-dia
fez sentar os três filhos sob a lua
três querubins de Michelangelo

feitos com as pernas arreganhadas
nos meses terríveis na capela.
Se você espiar, as crianças estão lá,
como balões delicados descansando no teto.

Ela carregou cada uma pelo corredor
depois do jantar, as cabeças meio caídas,
duas pernas protestando, corpo a corpo,
seu rosto corado por causa do ninar e do soninho delas.

Eu lhe dou seu coração de volta
Eu lhe dou permissão —

para o fusível dentro dela, pulsando
com raiva na sujeira, para a cachorra nela
e o enterro de suas feridas —
para o enterro de sua feridinha vermelha, viva —

para o pequeno clarão abaixo das costelas dela
para o marujo bêbado que aguarda no pulso esquerdo dela
para o joelho de mãe, a meia-calça,
a cinta-liga, para o chamado -—

o curioso chamado
quando você se afunda em peitos e braços
e puxa a fita laranja do cabelo dela
e responde ao chamado, ao curioso chamado.

Ela é tão nua e singular.
Ela é a soma de você e seu sonho.
Escale-a como um monumento, passo a passo.
Ela é sólida.

Quanto a mim, sou aquarela.
Lavável.

For my lover, returning to his wife

She is all there.
She was melted carefully down for you
and cast up from your childhood,
cast up from your one hundred favorite aggies.

She has always been there, my darling.
She is, in fact, exquisite.
Fireworks in the dull middle of February
and as real as a cast-iron pot.

Let’s face it, I have been momentary.
A luxury. A bright red sloop in the harbor.
My hair rising like smoke from the car window.
Littleneck clams out of season.

She is more than that. She is your have to have,
has grown you your practical your tropical growth.
This is not an experiment. She is all harmony.
She sees to oars and oarlocks for the dinghy,

has placed wild flowers at the window at breakfast,
sat by the potter’s wheel at midday,
set forth three children under the moon,
three cherubs drawn by Michelangelo,

done this with her legs spread out
in the terrible months in the chapel.
If you glance up, the children are there
like delicate balloons resting on the ceiling.

She has also carried each one down the hall
after supper, their heads privately bent,
two legs protesting, person to person,
her face flushed with a song and their little sleep.

I give you back your heart.
I give you permission –
for the fuse inside her, throbbing
angrily in the dirt, for the bitch in her
and the burying of her wound –
for the burying of her small red wound alive —

for the pale flickering flare under her ribs,
for the drunken sailor who waits in her left pulse,
for the mother’s knee, for the stocking,
for the garter belt, for the call —

the curious call
when you will burrow in arms and breasts
and tug at the orange ribbon in her hair
and answer the call, the curious call.

She is so naked and singular
She is the sum of yourself and your dream.
Climb her like a monument, step after step.
She is solid.

As for me, I am a watercolor.
I wash off.

Marconi Fonseca

Marconi Fonseca é poeta,  reside em Vitória (ES), formou-se em Direito pela Universidade de Velha- UVV e em Letras/Português pela Universidade Federal do Espírito Santo – UFES. Foi um dos idealizadores do Sarau Poético “O Quinze” que ocorreu continuamente em Vitória (ES) entre os anos de 2002/2012. Lançou as obras poéticas Marcha dos Fragmentados em 2015, Ratos Retumbantes em 2018 e Assim que a Chuva Escrever o Sol em 2020.

INVENTANDO AVESSOS

avesso do rosto

o avesso do rosto
….desprende-se
do espelho
….enxerga-se
no raso
….do rio
que ainda ri
….apesar de seco

o rosto ao avesso
veste-se
de outro rosto
….reflete-se no chão
de outros passeios
….transita anônimo
pelas mãos vazias
….dos seres alheios

o rosto
….em sua febril inversão
de traços e gestos
….de risos e gulas
salta angelicalmente
….no inferno dos tempos
…………..rasteiros

a avesso do rosto
……..desloca-se
por longos
….espaços estreitos
……por corpos opacos
escassos arpejos

o rosto se confronta
….despe-se da realidade
da pureza inventada

e completamente cru
….sente-se inteiro
no ventre do espelho
que o engole quando afaga

*

avesso da flor

a flor em sombra
….impressa na parede
folha caule
….pétalas impossíveis
……..de se eriçar
….no raso mar
de cimento
que se abre e pra si
….a tudo quer arrastar

rente ao seu avesso
….a flor se ergue
impõem-se
com empáfia
….perfumada

persiste no gesto
……..da travessia
ao redor de si mesma
……..anda e gira
como fogo
…..em campo vasto
como corpo
….em sol que grita

o avesso da flor
….a faz mais forte
valente e viva
….alma que vibra
na aspereza do chão
….sopro que salta
da pele faminta
com fome de bicho
….que come o sertão

a flor enfrenta
….seu avesso
com calma nos olhos
….vigor nas veias
luz na estreiteza
……incerta das mãos

a flor em seu avesso
acende outras flores
……possíveis primaveras
que singelas vingarão

*

avesso do olho

o avesso do olho
..atinge com cores
….inexatas
as paisagens transitórias
.que caladas se arrastam

.o olho ao avesso
de sua mínima
….estrutura
reverte-se em estrelas
….que se erguem prematuras
ao rés do céu
….que as abriga
além do chão
……..que as sepulta

em seu avesso
……..inesperado
o olho cresce
….em fuga
..salta da face
do rio de rugas
….e tenta com a força
……..que a alma lhe destina

encher com correntezas
….as raquíticas ruínas
do amor ausente que explode
nas veredas cruas da retina

….o olho em seu constante
……..estado contrário de ser
mal sabe a que se encaminha
….a que terra a que rosto
a que campo verdejante
………………..ou minado

em seu avesso
………………..bifurcado

o olho ressoa
……..sem receio
….passeia pelo mundo
profundamente acordado

§

CARDUME DE VOZES

seguir as trilhas
….curvas
do sangue
….em estado
de rio

tocar o céu
….da boca
com o chão
..da língua

desdizer
o silêncio
ávido
….e bruto

fazer do mundo
cardume de vozes
….e gestos
e sílabas
….anunciadas

por fim
deixar livre
….o coração

pra ser alma
….ou senão

…………palavra

§

AGONIA DO GIRASSOL

o girassol espreme-se
….entre pedras
e paisagens
……..incolores

….as grandes folhas
se encolhem
….se misturam
ao silêncio
….intermitente
das sementes
….donde nascem
……..todas flores

o girassol sabe
….da dor dos dias
do tempo
….que mastiga
………..as peles

dos seres precários
…..que inundam
…………….o mundo
com facas
……..que falam
com fachos
……..que ferem

….mas a flor é rebelde
……..gira em torno dos medos
arma-se com o coração
….das coisas fortes

enfrenta
com os olhos vivos
o que vivo pulsa
….no olhar da morte

o girassol
….a si mesmo
se socorre

explode-se
….em gotas amarelas
que formarão
…………….singelas
um tipo doce de mar

é quando suas pétalas
como braços
….que se acham
como línguas
……..que se abraçam

…………serão sonho a pulsar

Paulo Colina (1950—1999)

Este post é um modo de comemorarmos e celebrarmos o lançamento da Poesia reunida de Paulo Colina, um poeta que consideramos importantíssimo, que merece ser mais lido, neste ano em que ele completaria setenta voltas solares. O trabalho da edição é de Eunice Souza e Marciano Ventura, publicada pela Ciclo Contínuo Editorial, com apresentação de Oswaldo Camargo e Posfácio de Ricardo Riso, realizando um acontecimento poético neste sombrio 2020. O livro pode ser adquirido aqui.
O volume reúne os três livros poéticos de Colina publicados em vida, Plano de voo (1984), A noite não pede licença (1987) e Todo o fogo da luta (1989), com as apresentações e prefácios originais. Além disso, o livro reúne fotos que Mário Espinosa (todas as fotos usadas neste post são dele)  fez do poeta.
Abaixo, segue uma biografia retirada do livro e uma microantologia de 17 poemas que fizemos para termos um pouco mais da sua poesia na rede; uma das regras dessa microantologia foi não repetir nenhum poema que tenhamos encontrado em forma digital.

Guilherme Gontijo Flores & André Capilé

* * *

Paulo Colina nasceu em 09 de março de 1950, no município de Colina, São Paulo. Contista, poeta, dramaturgo, ensaísta, tradutor e músico. Trabalhou e colaborou com editoras, jornais, revistas e suplementos literários, escrevendo artigos, crônicas, resenhas e traduzindo poetas, como o sul-africano Dennis Brutus, o nigeriano Wole Soyinka – Nobel de Literatura de 1986, os japoneses Bokussui Wakayama e Machi Tawara (ambos com Masuo Yamaki).

Participou da fundação de grupos literários, como o Quilombhoje (1980). Em 1988, coordenou, na 4a Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, o painel “O Negro: de personagem a autor”, com a exposição de Oswaldo de Camargo, Helena Theodoro, Henrique L. Alves, Jônatas Conceição, Zilá Bernd, Abelardo Rodrigues, Clóvis Moura, Éle Semog, Geni Guimarães, José Carlos Limeira, Oliveira Silveira e Adão Ventura. Dirigiu a União Brasileira de Escritores no biênio 1986/1988. Voltando a dirigi-la em 1994/1996.

Na literatura estreou com o volume de contos Fogo cruzado (1980), seguido dos volumes de poesia Plano de voo (1984), A noite não pede licença (1987) e Todo o fogo da luta (1989). Seus trabalhos foram incluídos em várias antologias e coletâneas nacionais e internacionais (EUA, Alemanha, França, Suíça e Espanha). Sua Axé – Antologia Contemporânea da Poesia Negra Brasileira (organização e participação), pela Global Editora, São Paulo, 1982, ganhou o Prêmio APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte – de literatura: melhor livro de poesia do ano.

Faleceu em 08 de outubro de 1999, vítima de problemas cardíacos.

* * *

VOO
(De Plano de voo)

Sob o olhar semicerrado
do sol de fins de julho,
os rios musgosos como a coberta
das montanhas entrecortadas
…………………………de veias marrons
são, às vezes, pura prata
……………………………………cintilante.

Daqui, não há limites.
Nem para a noite!

Minhas asas
só precisam de fibras
um pouco mais fortes.

§

CIRCULAR AS SOMBRAS
(De Plano de voo)

podem cobrir
quantas mulheres quiserem
mas nunca descobrirão as trepadeiras
……………………………………………………voadoras
de seus poços de ternura

podem construir torres e grutas
e inventar heróis de ar
…………….para distrair os guris
mas nunca impedirão
que as árvores continuem a crescer
……………………………………….na caatinga

podem dispor de todo o meu corpo
de pano e de louça
mas nunca estancarão meu sangue
………………………………………..de terra
e tão pouco meu pulsar vegetal

§

SENTINELAS
(De Plano de voo)

Eram três
………….e era noite.

Eram três
e me cercaram.

Era noite
e seca a lâmina fina.

Três pivetes,
meninos sem nome.

Três afluentes do meu sangue.

§

POEMA ETÍLICO
(De Plano de voo)

Vez ou outra,
quando te beijo
com a garganta de terra
………….clamando por tempestade,
despencam pelas bordas estriadas
……………………..dos meus lábios
sopros mortos de negros sangues
sugados em torpores líquidos
borbulhando finas lâminas
……………………..e corpos rebeldes
de eternos canaviais.

§

FORÇA
(De Plano de voo)

Acostumar nosso ânimo
ao ritmo de espuma marítima.

Cuidar do olho da cobra de vidro,
com o rochedo do pensamento.

Anular todos os estigmas (da história
e da língua ferina), na voz do vento.

Crer, sim, no sobrenatural,
com a naturalidade do sono.

Manter o pulso noturno lúcido,
na incoerência diurna.

Arder nosso bolor cotidiano,
como minha paixão por ti.

§

VACILOS
(De A noite não pede licença)

Abrir as mãos
e soprar a pena
sentimento do mundo
ou quem sabe
esse cão
que guarda
………….as minhas noites todas

§

TURNING POINT
(De A noite não pede licença)

ainda que seu corpo
…………..insinue caminhos
todas as portas da cidade
………………………………fechada
ainda que sua voz desalinhe
………….algodão línguas cetins
o eco carcomido de grilhões
……………………..intimidando o passo

§

OFERENDA
(De A noite não pede licença)

É certo:
ascendentes presenças não se distanciarão
…………………………………………………………….nunca
um dedo além do meu ego.
E todo o ruído das ruas
nada mais é que um emergente sussurro
…………………………………………………..quilombola.

Igual que as pancadas pluviais de verão,
é impossível prever, com segurança, quando
o banzo desabará sobre mim.
Mas sigo me desanuviando.

Em mim, sempre é verão
(âmago abrasivo transpirando, irrequieto,
toda sorte de desejos e lutas).
Os tambores que persistem nas noites
………………………………………………….dos tempos
não embalam simples recordações: –
há que se recriar paciente
nosso universo turvo.

Meus músculos estão todos prontos.
Se quiser, mulher, começamos já.

§

HEREDITARIEDADE
(De A noite não pede licença)

Tudo aflora
à raiz dos cabelos:

cruzar de vultos contínuo
por fronteiras ausentes de lua.

Beiços
portas escancaradas –

palustre alvenaria de um povo
erigida em outubros banais.

Teu desespero, avô
que nunca me contou histórias,
sempre me acompanha.

§

ROSA DOS VENTOS
(De A noite não pede licença)

Inútil buscar os rastros da Noite
nos livros de história.
Nossos rumos dormem antigos
sob a poeira da discórdia.

§

CONSCIÊNCIAS
(De Todo o fogo da luta)

soberania
amor estranho às carícias
………………………..do meu povo
em nossos olhos
a calma embaçada dos tanques
ante esses tempos fáceis
…………………………………de poder
a dor antiga tem uma só voz

crepita incontrolável
meu remordimento

§

AQUI O FOGO
(De Todo o fogo da luta)

origem dos gumes alaranjados
……………………….da língua
santa inquisição onde não delato
……………………….os dentes clandestinos
……………………….o assalto dos corpos
todo o universo disperso
……………………….em minha carne anoitecida
na hora em que os homens de terno
………………………………………………..padrão
dormem sonos injustos

cão destravado
…………..palavra em pelo
……………………………..tribal
altar pagão de minha prudência
……………………………………..de água calcinada
raiz do fogo

é sempre uma redundância
………………………..companheira
falar do teu ventre

§

AO JEITO DE ÁLVARO DE CAMPOS (*)
(De Todo o fogo da luta)

comprovadamente
a terra é redonda
galileu galilei desconhecia viseira

enquanto procurávamos nossas carnes
pelos porões impunes
…………..ou cemitérios sem caminhos
o mundo também era uma bola p
elos campos de setenta

sangue terra e grama
o princípio da humanidade
(foi o que li dia desses
………………………….no jornal
uma chuteira uma camisa dez
e a mágica com uma pelota
podem driblar qualquer desgraça
…………………………do gênero humano)

recebo via malote
panfletos coloridos ressaltando
as belezas da áfrica do sul

cape town johannesburg skukuza
sun city durban
…………..saberão
apartheid soweto mandela
e tantos nomes afogados pela demência
…………..de futebol & warner brothers?

em nome da nossa soberania
o homem que sabe javanês
se recusa romper com o terror
e assina que turismo
……………………….é paz
sob o retrato de desmond tutu

coitado de mim
coitado de mim que sou maioria
……………………………………e invisível
em meu próprio país
eu animal de fogo
que arde nos fósseis
…………….da nossa mudez

…………….merda

(*) Escrito após leitura de uma propaganda veiculada pela EMBRATUR em alguns jornais do país, em maio de 1987, com uma foto de Desmond Tutu ao lado de uma de Pelé classificado como “a maior personalidade negra da humanidade”.

§

RADIAL
(De Todo o fogo da luta)

Não é grande conhecimento
saber o número preciso de átomos
……………que compõem uma molécula.
Nem de grande serventia
todas as armas que engraxo
cauteloso do momento indefinido.
Pobres de nós, minha preta!
– O vício da mordaça;
o hiato dos nossos nomes

§

NAÇÃO
(De Todo o fogo da luta)

Há esse arfar gordo:
batidas pontuadas de pés no chão.
Não nos cabe agora o cão das salivas,
o fel que navega de tempos em tempos
por nosso território.
Não nos cabe agora o bisturi
…………………………das dúvidas.
Este o momento de desatar nós internos
…………………………com nossas canções.
Onda negra de rostos contra o sol.
E essa cerca colorida de arcos
………………………………………de berimbau
em movimento.
Resistir jamais será um equívoco.

§

UM TOQUE
(De Todo o fogo da luta)

nenhuma vergonha
do que restou da casa
que temos que reconstruir

Incautos
os incendiários nos creem
……………………….inocentes

gravada em pedra
……………que não se remove
a lembrança de que nada
do que nos cabe
…………..deve ser pequeno

nós
órfãos do minuto desatento
frutos da noite grávida
…………………………de força

§

TODO O FOGO DA LUTA
(De Todo o fogo da luta)

pela manhã te cumprimento
e não existe instrumento capaz de traçar
…………………………………………….com exatidão
o meridiano de nossos dias

esta vida não é só minha

coral secular no fundo do vale escuro
……………………………………………………que sou
o dever de mãos calejadas em construir
…………………………………………………..países
tênue teia de ruas
de remoldar vestígios no meio do caminho
………………………………………………….que nos cabe
aprendizado de união

este sonho não é só teu

dançam campanários despercebidos
no trânsito da cidade
confusão de vitrais multicores
pontas de dedos que procuram

pela manhã te cumprimento
passa por teus lábios
todo o fogo da luta

Goliarda Sapienza, por Valentina Cantori

Goliarda Sapienza (1924-1996) foi atriz, poeta e prosadora italiana. Apesar de ter escrito muitas obras, veio a ser reconhecida apenas neste novo século com a publicação de l’Arte della gioia, seu romance de destaque. Porém, é importante dizer que Sapienza, antes de ser prosadora, é poeta: nos anos 1950 compôs Ancestral, livro de poemas que permaneceria inédito até 2013. Esse foi o ato de nascença de uma das autoras mais complexas e versáteis do Novecento italiano, cuja prosa não existiria sem a poesia. Depois de quase setenta anos, Ancestral chega agora ao Brasil em sua primeira tradução para outra língua publicada pela editora Âyiné.

Valentina Cantori é tradutora, pesquisadora e artista de teatro. Doutora em Letras (Universidade de Macerata/Universidade Hebraica de Jerusalém), desenvolve na USP uma pesquisa de pós-doutorado sobre poesia italiana. Ministra aulas e palestras sobre literatura italiana e tradução; se dedica à tradução de poesia e ao teatro. Traduziu Ancestral de Goliarda Sapienza (Âyiné, 2020) e traduz poesia da América Latina para a revista italiana MediumPoesia.

* * *

Con la gioia
dell’occhio voglio
amarti straniero
nemico
uomo amante
nemico
Tu non sei padre
di donne come vuoi
sembrare
e se lo sguardo
addolcisci la
bugia del tuo
sesso s’affila
in una lama
Io non temo il
coltello
contenere posso
il suo assalto senza
sforzo e rubarti
lo sperma donna
e ladra la
natura m’ha
fatta per godere
e rubare
e sottrarti la
vita che tu temi
di dare uomo avaro
che sperperi
nei dubbi dell’essere
o del non essere
il tuo pene

Com o prazer
dos olhos quero
te amar estrangeiro
inimigo
homem amante
inimigo
Não és pai
de mulher como queres
parecer
e se o olhar
abrandas a
mentira do teu
sexo se aguça
numa faca
Eu não temo a
lâmina
conter eu posso
esse assalto sem
esforço e te roubar
o esperma mulher
e ladra a
natureza me
fez para gozar
e roubar
e te furtar a
vida que temes
dar homem avaro
que dilapidas
nas dúvidas do ser
ou do não ser
o teu pênis

§

Non scherzare di notte fuori dall’uscio
il vento di scirocco porta profumo
di zagara e di mosto, fa cadere
le ragazze ferendole alle cosce.
E il sentore di mosto spiaccicato
sulle carni richiama cento cani
Cento cani ti mordono se cadi
e una cagna sarai sola additata.

Não brinques à noite fora do portão
o siroco traz perfume de mosto
e de flor de laranjeira, derruba
as garotas ferindo-as nas coxas.
E aquele cheiro de mosto esmagado
sobre a carne junta em torno cem cães
Cem cães que te mordem enquanto cais
e uma cadela serás, só e exposta.

§

A T. M.

Quando fu che incontrasti
il tuo dolore e imparasti
a vedere che ogni donna
lo tiene ripiegato contro il seno.

Quando fu che improvviso
faccia a faccia il suo viso
sfrangiato ti si oppose
e fissasti i suoi occhi di corallo.

Fu scrutando la fronte
tra le sbarre nell’ombra
ristagnante nel cortile.
O nei segni di gesso
del percorso inventato
pel gioco sotto casa
insoluto tracciato
di rincorse snodato
nella sera.
O nel muto cadere
della palla sull’erba
nera di pioggia.

Come fu che imparasti a trasmutare
quel dolore di donna che le membra
contorce in quel bianco calore
che dal seno
alle spalle ti commuove.

Tu cancelli il tremore delle labbra
con lacche rosse con risa ma nei silenzi
lo si sente gridare nelle dita
di quei rami protesi
contro i muri notturni che tu ami
nelle lame sferrate nel fogliame
lame aguzze di neon che le tue mani
brevi mani agitate di ragazzo
tagliano
ma tu neghi il dolore con merletti
e mi guardi negli occhi dove l’asfalto
si scompone in un cielo
nero di pece.

Aperture fugaci
su tramonti per viali
inquinati dalla notte
ridicono di pianti
smarrimenti, mentre
ferma mi guardi
e ti nascondi. E se
attenta mi chino
sul tuo viso tu
scrolli i capelli sulla fronte
per celare al mio amore il tuo spavento.

Para T. M.

Quando foi que encontraste
a tua dor e aprendeste
a ver que cada mulher
a mantém dobrada contra o seio.

Quando foi que de repente
esse rosto frente a frente
esfiapado se te opôs
e fitaste aqueles olhos de coral.

Foi perscrutando a fronte
entre as grades na sombra
estagnada no pátio.
Ou nas marcas de giz
do percurso inventado
brincando lá fora
insolúvel traçado
de impulsos tomados
quando é noite.

Ou no mudo cair
da bola na grama
negra de chuva.

Como foi que aprendeste a transmutar
aquela dor de mulher que os membros
contorce naquele branco calor
que do seio
às costas te comove.

Apagas o tremor dos lábios
com laca vermelha com risos mas nos silêncios
pode-se ouvi-lo gritar entre os dedos
daqueles ramos estirados
contra os muros noturnos que amas
nas facas desferidas entre as folhas
facas finas de neon que as tuas mãos
breves mãos agitadas de garoto
cortam
contudo negas a dor com rendas
e me olhas nos olhos onde o asfalto
se desmancha num céu
negro de piche.

Aberturas fugazes
no entardecer das ruas
poluídas pela noite
recontam de prantos
perdas, enquanto
parada me olhas
e te escondes. E se
atenta me inclino
ao teu rosto
soltas o cabelo sobre a fronte
para ocultar do meu amor o teu assombro.

§

Gessuminu girmugghia
da li to mani pusati
su l’umitu da rina.
Si rapunu i to occhi
a li lampari
ca currunu a funniri
u mari cu li stiddi.

Jasmim germina
das tuas mãos pousadas
no úmido da areia.
Abrem-se os teus olhos
às lâmpadas de pesca
que correm a fundir
o mar com as estrelas.