poesia

Lubi Prates

Lubi Prates por Douglas T Pereira

Fotografia de Douglas T. Pereira

 

Lubi Prates (1986, São Paulo/SP) é poeta, tradutora, editora e curadora. Tem três livros publicados (coração na boca, 2012; triz, 2016; um corpo negro, 2018). “um corpo negro” foi contemplado pelo PROAC com bolsa de criação e publicação de poesia e está em processo de publicação na Argentina, Colômbia, Estados Unidos, Espanha e França, além de ser finalista do Prêmio Rio de Literatura e do 61º Prêmio Jabuti. Tem diversas publicações em antologias e revistas nacionais e internacionais. Organizou os festivais literários para visibilidade de poetas, [eu sou poeta] (São Paulo, 2016) e Otro modo de ser (Barcelona, 2018) e também participou de outros festivais literários no Brasil e em outros países da América Latina. É sócia-fundadora e editora da nosotros, editorial, e é editora da revista literária Parênteses. Dedica-se à ações que combatem a invisibilidade de mulheres e negros. Atualmente, é doutoranda em Psicologia do Desenvolvimento Humano, na Universidade de São Paulo.

*

1.

te dou de comer
na palma da minha mão.

é ancestral
o gesto de agachar,
se reconhece:

me curvo ao chão
então, você vem,
faminto.

não distingue
entre o que é comida
e quem eu sou.

penso domar a fera,
as pontas dos meus dedos se vão.

não distingo
se é dor ou prazer
me transformar em seu alimento.

voltarei amanhã,
você sabe.

2.

sequer havia luz,
mesmo assim,
aprendi a te alimentar
primeiro.

antes de qualquer verbo
ou nome:

não havia chamado,
ainda não há.

embora sequer houvesse luz
e tendo, ainda, olhos
preservados por você,
me guiei pelo cheiro da sua boca
entreaberta.

agachado,
com minha pata de bode,
te dou de comer
antes de seguir, veloz.

3.

esse chão
criamos nós

a partir do nada que havia:

era apenas linguagem.

na palma da sua mão
dei o que eu tinha,
cuspi a palavra terra
que você moldou com sua saliva.

fez-se lama.

nomeamos assim,
essa porção ínfima
onde deitamos.

4.

quando forte,
você se antecipa.

reproduz meus gestos
com uma velocidade maior.

trama uma fuga.

quando você passa,
eu lanço a pólvora.

o fim te alcança
ainda preso a mim.

aqui, agora,

explosão
diante dos nossos olhos.

5.

sobre a lama onde deitamos,
passou tempo.

confundimos
passado presente futuro:

aparentam ser o mesmo.

na lama onde deitamos,

criaram-se frestas,

nelas, imaginamos caminhos.

surgiram tantos outros iguais a nós.

abri uma encruzilhada
e te coloquei no meio.

de costas, esperei que seguisse.

§

encontrar você
como uma revisitação.

eu volto à casa onde cresci
diferente
da infância.

não há ninguém,
só você.

eu não guardei as pistas do caminho
e meus pés souberam o retorno,

o que existe é memória:

as paredes já não são as mesmas
mas sustentam os velhos quadros

impossíveis de decodificar,

eu apenas te mostro.

a luz elétrica falha
assim como o tempo.

***

 

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Priscila Lira

prilira

Priscila Lira (Amazonas – 1991) é pesquisadora, artista visual, escritora e freelancer. Publicou, pela Ellenismos Edições (Fortaleza), Manual de Feitiçaria e o Barulho do Mormaço. Tem escrito para o blog Liberoamérica  e vive em Curitiba atualmente.

*

Lagartixa emplumada

Capinei os pelos dos corpo,
depois de uns dois meses.
Só o capô foi salvo,
ficou apenas fingindo civilidade,
aparadinho.

Consulto Ana C. antes de dormir:
“Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria rir, chorar,
ou pelo menos sorrir com a mesma leveza com que os ares me beijavam”.
*

Caqui

A luz do dia atravessa os cílios cerrados e deitados no quintal

em cima dos olhos, galhos de amor

vermelho nas bordas sem bordas lentamente
se alaranja no centro.

O   vento bate o caqui
mordido pelas folhas
tremelica no fundo invisível das minhas pálpebras.

Um cemi-círculo se rasga nos
lábios amanhecidos e tristonhos que não vejo.
*

Rastro

 o sol balança pelo calor
do corpo da rede
saliva grossa de tapiocaqueijomargarina
cobre língua e gengiva
as mãos caminham para o rosto,
cobrem a luz.
meus dedos sujos de maracujá
dão carinho pro nariz que
inspira expira
amarelo cítrico.
*

Correnteza
Me perdi na cidade entregando currículos
perfumes, azulejos, uniformes, pressa, pó compacto fiquei tonta

para amaciar os nervos
me rendo aos dedos indicadores dos transeuntes
fluo pelos bairros

(o dia escurecendo
as paredes brancas tomando cor
de concreto e fuligem)

como o rio Belém entremuros.

Lula para Jesus Cristo!
diz o vidro do ponto de ônibus
Preciso sair dessa miséria!
a artista sem-teto
na lona rosa rabiscada
jogada por cima do seu carrinho com
manequins mendigos customizados sentados e
sacos e sacos de lixo reciclável
sorri para a minha contemplação otária
que não disse boa tarde! perguntei seu nome disse isso
é muito foda EUNÃOFIZNADAOTÁRIAOTÁRIAAAAAA

esqueço o nome da rua que o moço disse pra eu dobrar
anoitece

Atrás do Capanema
casas de lona se fazem vida na grama
finalmente reconheço um lugar

me pergunto se o moradores saberão que
pelas festas que dancei ali
o território faz um pouco parte de mim também…

Sou cumprimentada como superstar
BOANOITEEEEEEEE
Tiro os fones de ouvido para devolver
maresiiia, sente a maresiiiiaaaaa
canta o moço do barraco
sorrio

Um outro
solitário
me segue com olhos de desejo violento
faço cara de gatinho raivoso
ele some por entre os trilhos do trem

Pausa para cerveja.

Vida, vida, vida, vida
se prepara para dormir na marquise do Mercado Municipal

gemidos na rua que segue
meus olhos acompanham os ouvidos

com um sorriso no canto da boca:

um casal se agarra no escurinho do portão.

*

Um peixe

Não sei como pagar o aluguel de setembro
tô procurando trampo em bar, há de dar boa
MASSSSS
encontrei um macacão roxo bufante
BABADEIRA num brechó da São Fran
talvez eu esteja meio baiacu mesmo

bufante
de raiva
dos dedos de ubu do golpista

Sem controlar o corpo rolante,
nas horas de calmaria,
segurando as colunas enfraquecidas da própria vida.
Mas essa parte não tem nada a ver com baiacu,
não sei muitas coisas sobre baiacus, na verdade

Olha, mas veja só:
“Por sua pele ser bastante elástica, o peixe não rasga quando incha, a coluna também”
#oremos

ou:
Pra me comer tem que fazer o corte direitinhosenão, queridaaaaaaaan!
rrmmmmmmmmmmmm.

Pq, ó, céus! O meu veneno não chega em fazendeiros, banqueiros, presidentes?!
Terceirização, queridan. Monocultura.
Que chegue pelo menos na praga daquele Senhor então.
#oremos #morrediabo

*

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

˜

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Thiago Soeiro

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Fotografia de Jhenni Quaresma

Thiago Soeiro nasceu em Belém do Pará em 1989. Jornalista atua na cena literária do Amapá desde 2010, é cocriador do grupo literomusical Poetas Azuis, que divulga a poesia por meio da palavra dita e cantada. Integrou a coletânea Poesia na Boca da Noite com poetas amapaenses e a exposição Poesia Agora que reuniu mais de 500 poetas do Brasil no Museu da Língua Portuguesa em 2017. Publica seus poemas no blog: pordentrodopoema.blogspot.com e em seu canal no youtube. Escreveu e editou o Livro dos Ipês, belíssimo volume que envia aos amigos por e-mail.

*

Macapá não tem mapa

[Para Tani]

encontrei a palavra saudade hoje
em um caderno de cartografia
ela se estende inteira
por essa cidade
desde o seu ponto mais seco
as margens do rio

parece mesmo que estamos
morando na saudade

no mapa
esta é
uma cidade inteira
feita de pontes
ligando as faltas
que as pessoas fazem

imagino que quando anoitece
do alto podemos
ver as luzes
que cada saudade
faz brilhar.
§

Tenho um mar

quando a gente segura um choro
é como se segurasse o mar inteiro
e é tão difícil segurar o mar
às vezes sinto ele agitado
revolto em meus pensamentos
fazendo ondas em minha cabeça
já me afoguei nele algumas vezes
e deixei naufragar alguns problemas
tenho um mar em meu peito
e convivo com ele
e todos os seus seres marinhos
criaturas que ainda desconheço
em uma vida repleta de mistérios e medos
seguro o mar em meus dedos
e toda fúria dos dias de tempestade
e toda a calmaria dos dias de sol
e sei que ninguém nunca desconfiou disso
que eu era feito de mar
que tenho corais em meus pés
peixes em minhas costas
que tenho o mar inteiro
preso em meus olhos
prestes a transbordar.
§

Um poema não sobre gatos

este poema se espreguiça devagar
pela página branca
se esticando de comprido
até a borda
depois ele deita de mansinho
meio quieto
de orelhas em pé

este poema
brinca na areia
dorme nos pés da cama
ronrona com cafuné

este poema não é felino
ele não fala do bichano
que escapou das minhas mãos

este poema
não é sobre gatos

este poema é sobre
a saudade
que eles arranham na gente.

*

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Pedro Stkls

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Pedro Stkls| poeta | dizedor de poesia | compositor | fotografo. nortista do amapá, fui da amazônia ao sertão. já plantei árvore. me apaixonei e namoro os poemas de manoel de barros e adélia prado. acredito que a vida só é possível se a poesia se fizer presente em palavras, fala e abraços que se demoram. meu grupo de poesia se chama Poetas Azuis e é a coisa que mais amo fazer na vida: poetizar.

*

O POEMA PERDIDO

posso morar em qualquer parte
onde ao menos a gente se esbarre
como vênus e júpiter
sorrindo um para o outro
em novembro numa segunda 13
a olho nu quero ver
como você confere as horas
ou como cruza a esquina
ou como um fio do teu cabelo
sobre a calçada
deixa o dia mais dia
com você quero colecionar xícaras lascadas
como quem guarda cacos de vidros
que refletidos ao sol viram poemas
onde o mundo nos for casa
sempre será o outro lado do mar.
§

ENGRENAGEM

nunca pensei em como vai ser
a última vez que vou te ver
trazendo o sol tatuado
sobre a cabeça
e um dente-de-leão esfarelado
nos seus olhos pra irritar
esse sal que sempre escorre quando
você se depara com a florzinha
que grelou nessa manhã de abril
olha o coração está sobre a toalha
da nossa mesa de jantar
sim! comeremos o amor
vamos morrer de amor
e quando o legista abrir o teu corpo
vai ver que você se alimentou
de um líquido perfumado
você era a fábrica do poema
§

AMOR COM AÇAÍ

ah! daqui o amor
é uma coisa tão urgente
na boca da noite
ele me beija mururés
ah! se a lamparina falasse
como o giral ressoa
ecoa e grita as maravilhas
que a gente desenha
eu cuido do peixe do almoço
ele me pega
e a gente se perde no pitiú
se lambusa
abusa de mim, joão
na canoa eu nunca fiz
na balançar da rede
foi como mergulhar na pororoca
você me tocava naquela hora
não importava que hora o mundo seguia
já era preamar dentro de mim
eu te quis como a bandaia
aquela altura eu já era a tua iara
caboca das águas
voz doce no pé do teu ouvido
meu joão menino,
assobia aquelas coisas todas
outra vez?
aquela gritaria de periquitos
a vida era aquilo
amor que dura e cura
qualquer falta de riso
você me mundiando
e eu me achando
a deusa a estrela rara
e o giral, joão?
e a rede, joão?
que horas tu você volta
com o açaí?
eu nunca comi amor com açaí
como será, joão?
vumbora?
§

POEMA ILHADO PARA UMA CIDADE SUBMERSA

tem a memória
que do outro lado da porta
brinca de molhar os pés
é sempre um jeito
de me dizer que o rio barrento
é como um milagre
que é um amor
que é uma passagem de Deus
aqui ao menos
o rio será o tempo
um relógio de marés-minutos
que a todo instante
quer beber a cidade
o corpo da cidade
como tudo isso nasceu
eu não sei dizer
esse ruído de rio
esse rio que pula muro
esse rio que já esteve aqui
dentro do peito da cidade
agora é um quintal
onde são josé brinca
faz suas travessuras
sobe nas árvores
adoça a boca com fruta
e volta a olhar a ilha
o sol quando nasce no rio
é partícula de poesia
e vai ficando cheio de sol
e tudo de repente é poesia
vira um poema de rio
vira um poema de verão
penso que se jogar a rede agora
pesco um paneiro cheio de poemas
pesco…
o rio outro dia
estava solitário de maresia
e um barco passando
fez uma linha bem na sua aorta
o rio não revidou
o rio fechou os olhos
cansado do dia
o rio sonhou
que era um menino correndo
brincando nas poças da chuva
você rio maior da poesia
visto do espaço
é um caminho sem fim
um cabelo emaranhado
linhas e linhas de água
riscadas pelas canoas
rio amazonas, no principio
tinha um poema ilhado
para uma cidade submersa
recortes de histórias
pessoas mistérios e lendas
agora é um caminho sem volta
a cidade sempre fui eu
você me submergiu
cresceu poesia em mim
§

O CANTO DA AMAZÔNIA

aqui dou nomes ao meu canto
meu caso de amor
essa vontade louca
rítmica mística solar
essa vontade de desaguar
o rio que veio com tamanha devoção
parar aqui dentro e bate vezenquando
forte no casco da alma
é um regatão feito da palavra navegar
é por onde se diz uma reza
do encontro do corpo das folhas
que seguem o caminho das águas barrentas
é a canção sobre as tardes do norte
é a chuva que se mistura com a maré
é um lampião no olho do sol
só para fazer a água evaporar
é o que vem do verde
o sagrado instante quando
o silêncio é abençoado
pelas árvores tempestiando
seus galhos e suas raízes
o silêncio é sobre o que guarda
o canto que sonda a mãe do mundo
e como quem debulha o vento
sigo como quem carrega
mil andorinhas nas costas
e pousa no sopro no garrancho
das açucenas encarnadas
de terreiro de rodado de beleza
é carregar no colo a casa
onde mora o misticismo
da poesia.

*

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poesia

Manuella Bezerra de Melo

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Manuella Bezerra de Melo é jornalista e escritora. Trabalhou como repórter, produtora, redatora. Escreve nas horas vagas e quando atenção permite espasmos, poemas, crônicas e contos infantis. Viveu no Brasil, na Argentina virou aldeã, hoje está em Portugal. Morou em Braga, atualmente reside em Guimarães, amanhã é outro dia. Está na antologia Pedaladas Poéticas (Aquarela Brasileira, 2017), publicou Desanônima (Autografia, 2017) e Existem Sonhos na Rua Amarela (Multifoco, 2018). Dedica-se a um mestrado de Teoria da Literatura e Literaturas Lusófonas da Universidade do Minho (Uminho).

*

Tinha doze anos
e dançava minha dança
de criança numa festa
de criança quando um dedo
estranho
invadiu minha xota de criança
e treze quando desci do ônibus
na volta da escola e uma mão veloz
de bicicleta me apertou a teta;
beliscão
quase quinze quando um
primo me abraçou por trás
e pôs suas duas mãos
abertas
sob meus peitos tão recentes
— ainda nem havia me dado
conta que estavam lá —
()
os homens que me tocaram
primeiro de um jeito ou de outro
fui impedida de ver seus rostos
§

Não passei fome e me compadeço
em meu privilégio não cortei cana
menina nem andei quilômetros a
pata ou boleia até a escola
Não sou tão rasa que não
se possa tirar proveito nem
tão sabida que se oriente imitar
falta-me chão de pedra e doem
demasiadamente pouco
os calos nos caminhos sob o
rubro céu que vivo; mas
sinto o peso abrupto de quem
vejo não eleito escolho sua trilha
arrasto consigo sua caçamba
Apunho da menina esse facão
e dele extraio pra ela seu trabalho
e sua doçura; não há poesia
sem dividir este peso
§

Invisível na multidão
mais invisível numa
sala sem afeto e com poder
que despertam raros silêncios
e muitos ruídos; o legado
é um escaravelho
§

Língua solta da boca
risca o chão faca afiada
meu próprio inferno
mora em meu corpo
gastura organismo que treme
involuntariamente
onde todo mundo é alguém
e você continua não ser todo
mundo; os outros são somente
onde eu gostaria de morar
pra não ter que morar em mim

*

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poesia, tradução

Hopkins, Ronsard, Yeats, por Victor Queiroz

1
Os três poemas a seguir servem de epígrafes ao meu recém-lançado livro de poemas autorais, Uranium 235. Deles, contudo, apenas o “soneto” de Ronsard foi traduzido para compor o volume: o capítulo dedicado a poemas de amor, que ele de certa forma apresenta, parece deslocado no contexto político que vivemos — de retrocesso extremo e de afirmação desse retrocesso como valor… Precisei tecer um comentário autoirônico e assim o escolhi.
Os dois demais poemas: o “soneto 50” de Hopkins, pertencente ao conjunto conhecido como “Sonetos Obscuros”, e o poema “Segunda Vinda”, de Yeats. O primeiro foi traduzido segundo o método da paixão incondicional: de cor, o repetia para mim (pois, por ter trilhado a religião cristã sinceramente por um tempo, compartilho algo da angústia que ele exprime), até que alguns dos versos começaram a surgir em português. Chocou-me, ao fim da organização do capítulo primeiro, o quanto esse soneto o explicava. Inseri-o.
Quanto ao último, ele me cativara há muito e o seu processo de tradução foi mais penoso, de brigar com o texto. A ironia com que as coisas de deus (Javé), do Cristo, são tratadas, e essa promessa, sempre-além, do fim do mundo e a vaga descrição dos seus sinais e do declínio, fez-me querer tê-lo à frente dos meus textos, os quais também trazem certo pessimismo e ironia.
Talvez seja coisa de estreante o querer trazer diante de si, a cada parte de seu livro, um grande autor ou nome a fim de lhe servir de escudo. Mas como se pode ler em cada um deles, mais que brigar contra um leitor indisposto ou um crítico grosseiro, a lida dá-se, como lemos nos textos, com um deus, que não garante 1. a paz interior, ou 2. o amor vencer, frutificar, ou 3. qualquer justiça ou paz exterior. É contra (E)le o escudo.
Victor Queiroz
*

Thou art indeed just, Lord, if I contend
With thee; but, sir, so what I plead is just.
Why do sinners’ ways prosper? and why must
Disappointment all I endeavour end?

Wert thou my enemy, O thou my friend,
How wouldst thou worse, I wonder, than thou dost
Defeat, thwart me? Oh, the sots and thralls of lust
Do in spare hours more thrive than I that spend,

Sir, life upon thy cause. See, banks and brakes
Now, leavèd how thick! lacèd they are again
With fretty chervil, look, and fresh wind shakes

Them; birds build – but not I build; no, but strain,
Time’s eunuch, and not breed one work that wakes.
Mine, O thou lord of life, send my roots rain.

– Gerard Manley Hopkins

Sois sempre o Justo, ó meu Senhor, se houver contenda
de mim conVosco. Deus, dizei-me então por que
prospera o ímpio e aonde eu ando não se vê
nada além despontar meu desapontamento?

Fosses imigo, ó Vós, o meu amigo, eu penso,
como faríeis mais frustrar-me ou mais perder-
me, se os capachos da Luxúria têm poder
de, em ócio, ir mais além de mim, eu, quem empenha,

Deus, vida em Vossa Obra? O arbusto, o bosque, jaz-
em verde viço, vede-os! c’roas de matizes
revêm-lhes, e eis o vento ameno move-os, traz

frescor; a ave se aninha, ainda eu não me aninhe:
castrou-me o Tempo, e não emprenho obra eficaz.
Ó Vós, Vida da vida, regai-me as raízes.

§

Au milieu de la guerre, en un siecle sans foy,
Entre mille procez, est-ce pas grand folie
D’escrire de l’Amour ? De manotes on lie
Des fols, qui ne sont pas si furieux que moy.

Grison et maladif r’entrer dessous la loy
D’Amour, ô quelle erreur ! Dieux, mercy je vous crie.
Tu ne m’es plus Amour, tu m’es une Furie,
Qui me rends fol, enfant, et sans yeux comme toy :

Voir perdre mon pays, proye des adversaires,
Voir en noz estendars les fleurs de liz contraires,
Voir une Thebaïde, et faire l’amoureux.

Je m’en vais au Palais : adieu vieilles Sorcieres.
Muses, je prens mon sac, je seray plus heureux
En gaignant mes procez, qu’en suivant voz rivieres.

– Pierre de Ronsard

Num século sem fé, em meio a guerras,
réu de processos mil, será loucura
escrever sobre o Amor? Por menos curam
de outros loucos algemar, menos feras.

Velho e doente adentrar o Amor, não erra
quem o faça? Deus, esta lei, conjuro-a.
Não mais Amor, tu és-me a vera Fúria:
faz-me fulo e infante e cego como ela.

Ver perder-se o país, entre adversários
e estandartes flor-de-lis contrários;
frente à Tebaida, bancar o amoroso.

Vou-me ao Palácio: adeus, magia antiga.
Ó Musa, eu faço as malas, mais gozoso
é vencer meus processos, que o segui-la.
§

The Second Coming

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep

Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?

– William Butler Yeats

The Second Coming

Gira-girando, e a gira a agigantar-se,
o falcão não pode ouvir o falcoeiro;
coisas desintegram-se; o centro cede;
mera anarquia é liberta contra o mundo,
a maré-sangue é liberta, e, em toda parte,
a cerimônia da inocência afoga-se;
os melhores, inconvictos, enquanto
os piores — intensos, passionais.

Decerto a Revelação bate à porta;
decerto a Segunda Vinda bate à porta.
Segunda Vinda! As palavras mal saem,
vem-me a imagem vasta do Spiritus Mundi
perturbar-me as vistas: no vago areal,
um vulto — corpo-leão/tez humana,
olhos-vácuo, impiedosos como o sol —
move as coxas lentas, e, em torno, sombras-
satélite, aves do deserto indignadas.
De novo, trevas; porém agora eu sei
que vinte séc’los de sono de pedra em
berço de balanço infligem pesadelos.
E qual besta rude, arribada a hora enfim,
rasteja até Belém para nascer?

§

Victor Queiroz (Campinas/ SP, 1991), formado em Composição pela UNESP, onde travou contato com a teoria e prática da tradução-arte, por meio do professor e amigo Omar Khouri. Desde então, dedica-se, enquanto poeta, sobretudo à prática da tradução, contribuindo com a Ponto Virgulina. Entre os seus principais interesses poéticos, encontram-se os Modernismos, dentro e fora do Brasil, e as poesias francesas clássica e pré-Simbolista; e ainda o Concretismo em toda a sua extensão: da poesia visual aos tratados teórico-críticos e (belíssimas) traduções desenvolvidas pelos Noigandres. Lançou este ano Uranium 235, pela editora Urutau e já apareceu aqui na escamandro com 1 poema.


*

 

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mariana godoy

foto_Mariana Godoy

Mariana Godoy nasceu no interior de São Paulo em 1996. É poeta e atriz, autora de  O afogamento de Virginia Woolf (Editora Patuá, 2019).

*

I.

a primeira morte acontece
quando a infância se torna vida passada
e reencarnamos adultos

ainda que pareça impossível tamanha dor
não chega a ser pior que a segunda

quando acordamos idosos
e começamos a procurar nossos rostos
nos rostos dos nossos filhos.

II.

será que quando morremos voltamos
como filhos dos nossos netos?

pode ser essa a tragédia humana afinal:
estar sempre na mesma casa
com as mesmas pessoas
limpando a mesma estante de vidro.

eu não ficaria surpresa
em ser a piada de deus.

§
o sol nasce tão longe
que a ideia de fim seduz.
saltar,
cair.
meu único medo é desistir
durante o vôo:
rezar por um guindaste,
uma vara de pesca
que me fisgue.
ser peixe!
que ironia…
tanto sofrimento humano
para terminar
querendo ser peixe

§
deveríamos ter a mesma idade,
seis, sete.
a mãe desceu do ônibus mas ele deu partida
com a filha dentro.
os passageiros começaram a gritar:
“pelo amor de deus, motorista,
para esse ônibus!”
a garotinha chorava de medo.
eu chorava de medo.
e a gente se parecia tanto
que agora vejo que ela sou eu.
a mãe desesperada correndo atrás do ônibus
sou eu.
corro, bato,
quebro os dedos
querendo-me de volta,
o ônibus não para.
o ônibus nunca para.

§
mamãe entra no quarto
para contar que vovó morreu.
fico com medo porque sei
que vovó virou fantasma.
o telefone toca.
corro até ele.
quero ser a primeira a dizer
“não podemos falar agora”
encontro papai chorando na sala.
triste, bem triste.
assim que percebe minha cara pálida
cobre o rosto com as mãos.
olho a janela
e sorrio.
nunca a chuva foi tão bonita.

§
não sei afogar as mágoas
como virginia woolf
tudo dói debaixo d’água
a vida passa em flashes de memória
luto como posso
mas a cachoeira me engole
tenho quatro anos de novo
da janela vovó manda sair da chuva
mas continuo dançando
estou morrendo agora, vovó
talvez mais tarde
mais tarde eu entro.

*

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