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três poemas de yasmin nigri

nigri

Yasmin Nigri (1990) é carioca, poeta e escritora convidada da Revista Caliban (https://revistacaliban.net/) onde escreve ensaios críticos, crônicas e traduz poesia alemã. É bacharel em filosofia pela UFF onde atualmente cursa o mestrado na linha de estética e filosofia da arte. É co-fundadora e integrante do coletivo feminista de artes e poesia Disk Musa onde atua em diversas frentes tais como elaboração e realização de performances, ações urbanas e oficinas de criação poética. É inédita em livro e possui poemas publicados em diversas revistas e jornais no Brasil e em Portugal.

***

Flora

será verdade que as pessoas
solitárias preferem animais
a outras pessoas

a três baias de Flora pensava
qual seria seu animal favorito

pela brevidade
talvez uma mariposa
pela intolerância

talvez uma doninha
talvez um panda que só tem olhos

para ramos de bambu
do ornitorrinco

admira a solidão
ou prefere a agilidade
da toupeira

a três baias de Flora pensava
convidá-la para jantar

na madrugada será
que vai sozinha à caça

ou fecha os olhos
mente opaca e

fantasia inquieta
se abrir para a noite

como a mariposa
será que afugenta a todos

como a doninha ou
às vezes é vista em par

como o ornitorrinco
a três baias de Flora desesperou-se

porque talvez ela fosse uma toupeira
que vai pouco à superfície

brinca sozinha
nos túneis que cava

quem sabe queira companhia
para atravessar a bruma

branca sob o pôr do sol
será mesmo feliz entre a nervura das folhas e o húmus

§


largar você não vai ser fácil

no início especialmente
não vai ser nada fácil
mas também não vai ser
como das primeiras vezes
essas doeram um bocado
mesmo assim
largar você não vai ser fácil
lembra aquele mochilão
que fizemos pela europa e
descobrimos que quase toda estátua
é uma estátua da sorte
basta fechar os olhos
esfregar as mãos
na parte mais clara
geralmente os joelhos
pés seios ou mãos
e fazer um pedido
largar você vai ser
passar pelas estátuas
sem pedir por nada
sentir fome
de barriga cheia
o que me lembra que
cozinhar só pra mim não tem graça
viajar sozinha sai mais caro
largar você não vai ser fácil
como um intercâmbio em genebra
no início vai tudo bem
depois faz silêncio demais
as horas são demais
tudo vai calmo demais
é frio demais
não tem feijão em genebra
não sei lidar com términos
escrevi depois rasguei um bilhete que dizia
se você me atazanar te largo 1tiro
vê se me erra, satanás.
não sou comum com despedidas
sabe como é
no meu copo sempre fica um dedo de café
lavo a louça e largo o ralo sujo
tomo banho e esqueço o gás ligado
abandono um par de meias na máquina
fins pra mim são terríveis
tem sempre um vestígio
por onde eu passo
um prato sobre a mesa
alguns fios de cabelo no pente
não é uma questão urgente
é que a idade não é mais de esperar
a mágoa, a injúria e o rancor se instalarem
pra que contar com a mágoa imperdoável
largar você não vai ser fácil
mas lembra quando eu voltei de genebra
e perdi meu passaporte
não faz diferença
§

 

À guisa d’O Amante, de Marguerite Duras

“Jamais escrevi, acreditando escrever, jamais amei, acreditando amar, jamais fiz coisa alguma que não fosse esperar diante da porta fechada.” – Marguerite Duras

Lembro exatamente suas palavras e olhar lacrimosos.

-Tentei, mas não estou apaixonado. Sinto muito.

Todo resto um alívio.

Não me deixei revelar.
Esse pouco,

porém,
foi o suficiente.

Dureza
Desfigurada.

Desculpa
amarela.

Pude revê-lo anos mais tarde.
Quase disse.

– Queria que estivéssemos nos conhecendo agora.

Calei.
Aos seus ouvidos soaria fraqueza.

Aquela dor inconfessável.
As costas arqueadas levaram suas mãos até mim.

Outra noite juntos.

Quem sabe ali, unidos,
se eu me pusesse a chorar,

você compreendesse tudo,
num súbito,
e me acompanhasse.

Talvez ali
o amor brotaria.

Chorar aos seus olhos não é fraqueza.
Era imprescindível que a primeira lágrima fosse minha.

Não tive forças.
Lembro das suas palavras.

– Um dia você irá mandar na mesa. Você está se afastando deles por [achar que não pode dar as cartas.

Talvez mandar na mesa seja
apostar alto.

Talvez mandar na mesa seja
saber chorar primeiro.

*

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Adriane Garcia

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Adriane Garcia, poeta, de Belo Horizonte. Tem publicados os livros Fábulas para adulto perder o sono (ganhador do Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014) e Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 2015). Também Enlouquecer é ganhar mil pássaros, livro disponível online pelo Issuu, edição Vida Secreta e o livreto Embrulhado para viagem, da coleção Leve um livro, 2016.

***

Ornitóloga

Vai saber
O que passa no pássaro
Eu que não sei nem de mim
Me dou ares de laboratório e
Lupas, tubos de ensaio
Tenho uns
Pinçamentos estranhos

Cato amostragens
Para ver se me explicam
Voos
(Eu que
Nunca saí do chão
Quando saí
Era sonho)

Me intrigam os olhos pretinhos
Paradinhos
Dos pássaros mortos

Desde criança eu reparo
Se a morte é sempre fria.

§

 

Acender as luzes

Abaixo pálpebras
E apago o dia
Dentro de mim
O escuro avia
Minha intimidade

Pudesses me tocar
Eu diria:
– Aí dói muito
E tu deixarias
Quieto
O meu rio?

Os peixes nadam
Num lodaçal difícil
E ainda há um monstro
De comer pântanos

Tu fazes um
Movimento brusco
Eu choro e
Me inundo
E para não me afogar eu
Abro os olhos.

§

 

Haras

Crio
Ninguém me diz o quê
Nem como

Domo
Meu cavalo eu quero aqui
No arreio

Mas gosto
Que ele corra
Desembestado

Até o meu
Assovio.

§

 

Dédalus

Sei muito bem o que é ter
Te encomendado minhas asas.

*

 

 

 

 

 

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Hera de Jesus

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Hera de Jesus nasceu aos 14 de Outubro de 1989, em Maputo, Moçambique. Começou a escrever desde  cedo. Foi premiada em diversos concursos literários africanos.

***

Magaiza

Partiu para o infinito do além, para as profundezas do vazio, de um vazio reluzente

E partiu para a cavidade escura, pôs-se a decifrar a sua dura realidade, nua e crua
Nos seus braços, uma picareta que espetavam o solo de uma mina esgotada

Nada mais havia restado, senão, corpos dispersos sem nenhuma sepultura
Sonhos dilacerados pelo cintilar das estrelas traiçoeiras
Homens e mais homens por alimentar

Que mais poderia levar tio Antônio, senão uma bagagem de saudades da sua Ka Gaza
Terra natal que o viu nascer, onde o gado pastou, e tão cedo se refugiou para as terras do rand?

Saudades da sua Jofina
Desamparada mulher, sua camponesa
Deus há de provir
O kutxinga não seria mau, não seria, assim permaneceria eterna a raiz do tio Antônio

Sonho algum resistia aquele lugar assombrado, demolidor da luz e companheiro da morte

Os golpes audazes das picaretas, traziam-no de volta ao mundo real
No interior de uma mina, esperando enterrar-se na sua própria sepultura.
§

Identidade

Sou negro
Não sou preto
Não sou animal
Sou gente

Sou humano como qualquer um
Não sou irracional
Também penso

Não sou excremento para adubar à terra
Muito menos máquina de trabalho
Meu sangue é vermelho

Assim como de qualquer um

Não sou preto
Não sou servo da escravidão
África não é o berço da morte

Somos todos negros
Na cor, no pensamento e agir
Somos como qualquer um
Somos filhos de África

Somos África

***

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Iago Souza

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Iago Souza é portovelhense, o extremo-norte do norte da periferia do país, filho bem parido da América Latina, tem 20 anos e nunca publicou nada na vida, apesar disso espalha por aí que é escritor, estudante de psicologia e autor da página Contos de fodas no facebook. De resto e do que se pode saber dele: terá que lê-lo.

***

é tanto,
o tempo
e tão escasso,
longínquo,
é tanto que a gente
escreve,
sem saber pra quê
ou quem, pra onde vai e
de onde vem.
e tem o Carlos,
sentado,
de pernas cruzadas
na beira de um precipício
segura os óculos
pra não cair, e sorri,
porque tem gente por aí
que é solitária,
mas gosta de rir,
mesmo sem ter pro’nde fugir
atirando verso avulso,
letras trêmulas,
de choro ou riso ou sangue

e é tanto que se sente,
sabe, Carlos,
é tanto que se grita no papel,
ainda, Carlos,
ainda há tanto o que escrever,
tanto o que dizer
pra essa gente cafona,
que a gente se esquece,
às vezes, do resto
e só deixa o rastro
a marca grafada
pra quem quiser procurar
um traço de nós,
um traço de nada,
um traço de tudo,
um poema.

mas o que fizeram com a poesia, Carlos?

(em homenagem a Carlos Drummond de Andrade)

§

 

deus e eu, vez
ou outra,
batemos um papo
ele conta das melhores
e das mais tristes
histórias
fala sempre das
promessas
que não gosta de cumprir
me confessa os pobres e duros
pecados
que cometeu e os que
ainda não
chora no meu ombro
e agradece
depois vai embora
cabisbaixo
com o olhar nostálgico
melancólico
de quem tudo sabe e tudo viu
sem os mistérios e as descobertas
que a vida oferece

deus me disse que
quando anoitece
e os
anjos vão dormir
ele chora baixinho
de joelhos suplicando
perdão às crianças
da Somália

§

 

tenho olheiras fundas no rosto
de modo que meus olhos parecem
distantes
quase que esquecidos
dentro
do crânio
tenho olheiras fundas no rosto
de modo que não me imagino
sem elas

§

 

se eu te disser que
essa garrafinha de pitu
poderia salvar a noite
você bem que poderia ficar
comprei uns filmes piratas que travam
na metade
a gente pode pôr pra tocar
e parar de ver no começo
você pode ficar
de calcinha no meu quarto
e gritar da janela que o mundo se acabe
em boêmia
você bem que poderia ficar
e cantar comigo Belchior
poderíamos dormir de bêbados
no chão da cozinha
rindo de algum filme do Adam Sandler
felizes como aqueles dois viciados
que se abraçam em frente às lojas
do centro
e estão pouco se fodendo para o mundo

e todas as suas sutilezas engravatadas

§

 

o mundo anda tão triste

que eu posso sentir bombardearem

a Palestina

dentro do meu peito

*

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poesia, Uncategorized

um poema de Aline Bei

bei

Aline Bei é escritora e vive em sampa. sobre ela, sua voz: eu tinha uns 8 anos quando ganhei da minha mãe uma Agenda. – agora você pode se organizar, – ela disse. era uma agenda bem colorida, com folhas sem linhas, janeiro, março, julho e o melhor: em alguns dias do mês tinham poemas. esses dias com poemas. (meus favoritos do ano). contato: alinebei@hotmail.com

***

não tenho mãe

 

meu rosto ainda estava no asfalto

na queda tem esse momento

pequeno

em que a gente quase se acostuma com o chão, a gente quase mora no lugar onde caímos

também na pessoa em nós que caiu

como se a queda fosse irreversível

como se a vida, agora, se limitasse a isso, a esse

beijo.

o asfalto

é um lugar de pisar e carros, um lugar de passagem, não parece natural um rosto ali, Imóvel.

ou morreu

ou a queda está doendo demais

até que eu me levantei

devagar

sentindo falta de algo no corpo.

não era a pele

nem o sangue

esse sangue que fica como um rio pela gente, já pensou? no quão líquido somos, água, sangue e nada vaza, a Pele de barreira e ainda por cima é macia, ainda por cima ela é útil

no amor.

depois da queda

meu plano de virar uma grande escritora subitamente ficou pra depois.

cair é uma pausa

no movimento da vida, de repente uma consciência

se não da própria morte

talvez da fragilidade que nos é inata

e no turbilhão dos dias a gente se esquece dela.

parecemos tão fortes lutando pelo que queremos, pelas pessoas que amamos, pagamos nossas contas, planejamos viagens, um filho, e de repente lembramos,

de repente entendemos que

somos feito de vidro.

 

-tá tudo bem?- perguntam, me ajudando a levantar.

sim. – respondo esgotada.

-vou chamar uma ambulância.

não, não precisa. tá tudo bem, não foi nada grave. eu vou pra casa agora.

-mas seu rosto. tá bem machucado. vem, a gente te ajuda.

não precisa, é sério. eu moro logo ali. obrigada. tá tudo bem.

 

e me lembrei de um dia

em que eu caí assim também, de rosto, minha mãe estava perto, ela me puxou pelo braço tão rápido

que doeu o ombro em cima da dor

do rosto.

 

-filha, filha. –ela dizia agitada.

 

me colocou no peito num abraço, aquela correntinha de pássaro que ela tinha

grudou na minha bochecha

meu suor, o dela,

ficou a marca do pingente em mim.

-tô bem, mãe. – eu disse. – foi só um susto.

e ela chorando. me vi ali, com 5 ou 6 anos,

consolando minha mãe da minha queda, acalmando ela da minha dor, eu que sempre fui a mãe da minha mãe.

ela nunca soube

cuidar de ninguém.

mas tentava, desesperada cuidar, às vezes ficava até violenta cuidando,

fazendo o curativo com força. ela se aborrecia rápido,

gritava Eu tenho tanta coisa pra fazer e colocava as mãos na cabeça.

esse era o seu jeito de lidar com o Susto, como uma menina.

então eu passei a evitar machucados,

tomava um cuidado absurdo como se minha vida fosse dentro de uma loja de cristais.

não queria ver minha mãe gritando, evitava contar as histórias das outras crianças que podiam assustá-la,

como quando a mãe da sofia morreu

e a sofia não comia mais

ficou tão magra que ia pra escola de cadeira de rodas.

não contei nada

nada de trágico para os ouvidos de mamãe. quando chegava de Noite

ela ficava mais macia.

a noite tinha um efeito devastador de calmaria pra minha mãe, sempre foi assim. ela nunca brigou com ninguém à noite,

ela ficava doce,

compreensiva, até bem humorada, até menos dona

de si. vulnerável à cama, ao peso dos lençóis, ela finalmente se calava, cedia, de noite você podia contar pra ela até de 1 medo.

calmamente ela te ouviria

dizendo tá tudo bem

e um abraço, um abraço também seria bom.

mas quando amanhece o dia

a calmaria passa

a calmaria é como se fosse um sonho que tive ou quem sabe era ela quem estava sonhando

e por isso me tratou assim, como aquelas mães nos filmes,

que cantam pra fazer o filho dormir, a mão delicada passeando pela testa do menino.

e assim eu sigo

tentando não me machucar

evitando qualquer perigo

pisando em

ovos tenho conseguido

me equilibrar com o passar dos anos, é pena que hoje eu tenha caído assim desprevenida

nem me lembro como. fico tentando lembrar

estava tão lúcida antes da queda

como posso esquecer de tudo assim, de repente? a memória. a memória tem vida própria

ela é um anão

morando na gente

entre a cabeça e o peito, mais ou menos na altura garganta.

tem certeza que não precisa de ninguém pra te levar em casa?

tenho, obrigada. eu já vou indo.

pego minha bolsa e a chave que foram parar do outro lado da calçada. agradeço com um leve aceno de cabeça os olhares preocupados dos desconhecidos ali

na rua

eles formavam uma pequena plateia.

olhavam com pena

minha volta pra casa, espero que a mãe esteja no mercado

ou que o machucado seque

com o vento,

ventava bastante,
aquele algo a menos no corpo ainda latejava em mim.

 

 

 

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poesia, tradução

uma tradução medoñenta pra pink dog, por nóspornós

Elizabeth Bishop com índios em visita à Amzônia

Elizabeth Bishop em visita à Amazônia – com índios que gritam num silêncio ensurdecedor EU NÃO SOU SEU ZOOLÓGICO.

 

claro que a poema podia estar e está nos icebergs imaginários. mas essa poema só quer ficar dançada num beatboompá do rap sem qualquer música e arranha lá no fundo mais que rima —rhythm and poetry. essa poema só quer dançar a tradução mais analfabeta, dançar co’cês tudim. todos coloridin todos índios todos pretos coloridos pretos e aqueles pretos e os quase todos pretos de tão pobres.

         nina rizzi

***

Cã-de-rosa

[Fortaleza]

O sol é encarnadoescaldante, o céu azul puro cirrus.
Cangas & biquínis vestem a praia de todos coloridos.
Nua, entre o passo bêbo e a corrida, você cruza a avenida.

Ó, nunca vi uma cadela tão peladinha!
Peladinha, cor-de-beiços, imberbe cã-de-rosa…
Assustada, a reca recua – olha ispritada.

Claro que tão espumando de gastura, com medo de raiva.
Tá é abirobado não, mãh! – é um caso de sarna
avie lá os zóim enribado. Onde estão seus bebêzim?

(A mãe, escarraga a enfermeira, com as tetas cheias, amojadas)
Em que favela você os escondeu, puta pobre, cadela, rapariga
enquanto implora? vive de seus zói picardia e sebo nas canela?

Você não sabia? Saiu no Barra Pesada, em todos os jornais, que é                        [que fazem
para resolver esse tipo de problema; como você acha que lidam com                         [a ruma
de mendigos? Assuvia feito Iara e rebola tudim na maré cheia, até                         [chegar na Barra.

Podiscrê: verminoso, chambregado, zuruó, aleijados, descatitados
todos vão nadando pelo esgoto que escorrega nas periferias escuras.

Se fazem isso com quem implora desmilinguido
cus de cana e noiados e pebados, tomados pela cirrose e fome e                        [neurose
o que não fariam por uma doente de quatro, cãs, cadelas?

Nas barbearias, bares, livrarias, calçadas e esquinas
a piada é o arengue com os mendigos
– ao invés de dar esmolas, dão coletes salva-vidas.

Mas você, cã-de-rosa, não seria capaz
de remar com suas pernas nem sequer boiar.
Avie: uma idéia prática, a delicada

solução é se mascarar.
Esta noite você não precisa se dar ao luxo de ser essa bosta-
merda monstruosa. Será única, cã-de-rosa mascarada micareta.
Logo invém quarta de cinzas, mas oxe! todo dia é carnaval, feriado                        [nacional.
Você pode sambar? Como vai se fantasiar, papangu?

Todos dizem que o Carnaval é um festejo coisado
– as rádios, os crentes, os descontentes, esse povo fêi que bota
buneco em tudo o que é pra gente. Conversa fiada, mininu.

O Carnaval é só o mi disbuiado, é porreta!

Arribe! uma cadela depilada e tão rosinha assim nuazinha não                        [pega bem.
Sai do mei! se fantasie, se mascare e dance o Carnaval!

Iiiiiiêêêiiiiii!!!

Fortaleza, 2017.

 

PINK DOG

[Rio de Janeiro]

The sun is blazing and the sky is blue.
Umbrellas clothe the beach in every hue.
Naked, you trot across the avenue.

Oh, never have I seen a dog so bare!
Naked and pink, without a single hair…
Startled, the passersby draw back and stare.

Of course they’re mortally afraid of rabies.
You are not mad; you have a case of scabies
but look intelligent. Where are your babies?

(A nursing mother, by those hanging teats.)
In what slum have you hidden them, poor bitch,
while you go begging, living by your wits?

Didn’t you know? It’s been in all the papers,
to solve this problem, how they deal with beggars?
They take and throw them in the tidal rivers.

Yes, idiots, paralytics, parasites
go bobbing int the ebbing sewage, nights
out in the suburbs, where there are no lights.

If they do this to anyone who begs,
drugged, drunk, or sober, with or without legs,
what would they do to sick, four-legged dogs?

In the cafés and on the sidewalk corners
the joke is going round that all the beggars
who can afford them now wear life preservers.

In your condition you would not be able
even to float, much less to dog-paddle.
Now look, the practical, the sensible

solution is to wear a fantasía.
Tonight you simply can’t afford to be a-
n eyesore… But no one will ever see a

dog in máscara this time of year.
Ash Wednesday’ll come but Carnival is here.
What sambas can you dance? What will you wear?

They say that Carnival’s degenerating
— radios, Americans, or something,
have ruined it completely. They’re just talking.

Carnival is always wonderful!
A depilated dog would not look well.
Dress up! Dress up and dance at Carnival!

1979

[Elizabeth Bishop, New Poems, 1979]

 

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Glória Anzaldúa (1942-2004), por Thais Soranzo

gloria

NO ano passado fui convidada, junto de outros poetas-tradutores, a escrever para o Suplemento Pernambuco uma indicação de poetas para serem traduzidos no Brasil. A matéria tem rendido belezuras: em sua disciplina sobre Tradução Literária no IEL/UNICAMP, o professor Marcos Siscar solicitou como trabalho final uma tradução de cada aluno; e alguns deles traduziram poetas que indiquei no especial do Suplemento Pernambuco 🙂 

Jennifer Araújo já apareceu aqui com traduções de Carina Sedevich. Hoje é a vez de Thaís Soranzo, com a incrível Glória Anzaldúa

nascida no Vale do Rio Grande, no sul do Texas, em 1942, e autodeclarada mestiça,  Gloria Evangelina Anzaldúa, foi acadêmica, ativista política, feminista, escritora e poeta. Mais conhecida como autora de Borderlands/La Frontera: The New Mestiza (San Francisco: Aunt Lute Books, 1987), uma coleção híbrida de poesia e prosa escolhida como um dos 100 Melhores Livros do Século pelo Hungry Mind Review e Utne Reader.
Autora versátil, Anzaldúa publicou poesia, ensaios teóricos, contos, narrativas autobiográficas, entrevistas, livros infantis e antologias de vários gêneros. Como uma das primeiras autoras americanas de origem mexicana assumidamente lésbica, Anzaldúa desempenhou um papel de grande relevância na redefinição de identidades chicanas, lésbicas e queer. Como editora ou co-editora de três antologias multiculturais; também desempenhou um papel vital no desenvolvimento de um movimento feminista de que trouxe valiosas contribuições para os estudos que interseccionam, dentro do feminismo, a categoria mulher com outras, como “raça”, “cor”, “região” etc.

***

O espaço da fronteira, para Glória Anzaldúa, não se restringia a uma delimitação geográfica, mas sim representava uma metáfora que problematizasse outras questões de identidade, como, por exemplo, a do idioma falado pelos chicanos e chicanas. Embora nascidos nos Estados Unidos, são descendentes de mexicanos e assim, apesar de possuírem o domínio fluente do inglês para se comunicar na vida social, também consideram o espanhol como língua materna, já que é o idioma usado entre os membros da família.

Ao mesmo tempo em que o espanhol representa um caminho para resgatar as origens chicanas, o inglês permite que a identidade anglo-americana não seja negada. Por sua vez, esse uso simultâneo do espanhol e do inglês na criação artística de Anzaldúa caracteriza não apenas a temática da interligação entre culturas, mas também a própria estrutura formal dos poemas.

No entanto, além da mescla entre o inglês e o espanhol – mais especificamente o vocabulário usado pelos chicanos –, os poemas de Anzaldúa contêm referências culturais e geográficas típicas do sul dos Estados Unidos. Assim, a tradução dos poemas lidou diretamente com estas problematizações: de que maneira o leitor brasileiro poderia de fato compreender a tensão existente no convívio entre a cultura mexicana e a anglo-americana sem saber o inglês e o espanhol? Ou ainda, como representar essa experiência se esse leitor não está habituado a certos fatores culturais e até mesmo geográficos característicos dessa região?

O dilema de traduzir ou não todos os termos em inglês/espanhol ou a tentativa de preservar de alguma forma uma referência local estão relacionados às imagens predominantes dos poemas. Tentei ao máximo preservar essas imagens, por vezes bastante fortes, pois Anzaldúa com frequência utiliza metáforas da lavoura para ratificar a agressividade de certas cenas. Assim, os poemas aqui selecionados possuem sujeitos, registros e temáticas diferentes, representando cada um a seu modo a experiência ambígua da fronteira. Por isso, cada poema precisou de um cuidado especial, não sendo possível estabelecer um padrão de escolhas tradutórias que se aplicasse a todos eles. Mas Glória Anzaldúa talvez fosse a primeira afirmar que, ao se tratar de culturas, não se pode estabelecer padrões.

Thaís Soranzo

***

Chamamos eles de sebosos

Eles estavam aqui quando cheguei
plantando milho nos seus pequenos ranchos
criando gado, cavalos
cheirando à fumaça e a suor.
Sabiam quem era foda:
tiraram o chapéu
colocaram sobre o peito,
baixaram os olhos na minha presença.

Não faziam questão de ter muita coisa,
nem sequer eram donos da terra, mas a repartiam.
Não era difícil expulsá-los dali,
covardes, isso sim, não têm peito pra aquilo.
Mostrei pra eles um papel com qualquer coisa escrita
disse que deviam impostos
precisavam pagar agora ou cair fora mañana.
Depois que eu e meus homens sacudimos
aquele mesmo papel pro resto das famílias
ele já não tinha mais borda.

Uns levaram suas galinhas crianças esposas e porcos
em carroças bambas, panelas e ferramentas chacoalhando
tilintando por todos os lados.
Não podiam levar o gado –
durante a noite meus garotos botaram o terror.
Ah, mas ainda tinha os encrenqueiros
falando que a gente é que era intruso.
Alguns tinham concessão da terra
e recorreram aos tribunais.
Era o maior sarro
eles tentando falar inglês.
Uns ainda não queriam sair dali
mesmo depois de tudo ter sido queimado.
E as mulheres — bem, lembro de uma em particular.

Ela estava embaixo de mim chorando.
Meti nela com força
continuava forçando e forçando
notei que ele olhava da árvore
escutei ele grunhindo como um animal selvagem
naquele momento senti imenso desprezo por ela
cara redonda e olhos pequenos iguais de uma índia.
Depois sentei na cara dela até
que seus braços parassem de se debater,
não queria gastar uma só bala com ela.
Os garotos não me olhavam nos olhos.
Fui até o marido preso na árvore
e cuspi na cara dele. Linchem ele, disse aos garotos.

We Call Them Greasers

I found them here when I came.
They were growing corn in their small ranchos
raising cattle, horses
smelling of woodsmoke and sweat.
They knew their betters:
took off their hats
placed them over their hearts,
lowered their eyes in my presence.
Weren’t interested in bettering themselves,
why they didn’t even own the land but shared it.
Wasn’t hard to drive them off,
cowards, they were, no backbone.
I showed ‘em a piece of paper with some writing
tole ‘em they owed taxes
had to pay right away or be gone by mañana.
By the time me and my men had waved
that same piece of paper to all the families
it was all frayed at the ends.
Some loaded their chickens children wives and pigs
into rickety wagons, pans and tools dangling,
clanging from all sides.
Couldn’t take their cattle –
during the night my boys had frightened them off.
Oh, there were a few troublemakers
who claimed we were the intruders.
Some even had land grants
and appealed to the courts.
It was laughing stock
them not even knowing English.
Still some refused to budge,
even after we burned them out.
And the women — well I remember one in particular.
She lay under me whimpering.
I plowed into her hard
kept thrusting and thrusting
felt him watching from the mesquite tree
heard him keening like a wild animal
in that instant I felt such contempt for her
round face and beady black eyes like an Indian’s.
Afterwards I sat on her face until
her arms stopped flailing,
didn’t want to waste a bullet on her.
The boys wouldn’t look me in the eyes.
I walked up to where I had tied her man to the tree
and spat in his face. Lynch him, I told the boys.

§

 

Cagado abismo, quero saber

por que durante as geadas de novembro
arrasto meu corpo bruto até seu focinho
por que em janeiro tremo de frio esperando abril.
Quero saber, maldito abismo
por que estou cercada por paredes
prisioneira ante uma fome
que não tem nome
por que fui tonta, por que sou desgraçada.
Te digo, you fucker, nunca quis
que você roçasse sua boca na minha.

 Aqui estou, estalando os dedos
tentando ver o futuro nas cartas
me envolvendo mais nas suas barbas
fazendo perguntas a Urano.
Quero saber por que a alma indomada
continua a perseguir
minha carne bruta entre os espinhos do nopal.
Sem flautas e sem flores esta viagem
de morcego cego vai à sua direção.
Nunca quis que você mordesse minha boca.

 Cagado abismo, quero saber
por que passo a vida aguentando
noites sem você.
Quero saber se passarei meus dias sozinha
me transformando em pedra a cada dia. 

Quero saber por que meu ser nu
avança mudo de joelhos
engolindo a poeira dos seus caminhos.
Quero saber por que as sombras
aumentam a cada dia,
por que estou viva se você me quer morta.
Já percebi depois de tantos anos
que ser mulher não é tão bom assim.
Querido abismo, quis somente isto:
que você me quisesse, que me devorasse.
Por que não me arrebata de uma vez?

 

Cagado abismo, quiero saber

por qué en los hielos de noviembre
arrastro mi bruto cuerpo hacia tu hocico
por qué en enero tiritando de frío espero abril.
Quiero saber, pinche abismo
por qué estoy rodeada de paredes
prisionera frente de una hambre
que no tienen nombre
por qué fui pendeja, por qué joy desgraciada.
Te digo, you fucker, nunca quise
que tú lamieras mi boca con la tuya.

 Aquí me tienes tronándome los dedos
encadenando el futuro con las barajas
enredándome más honda en tus barbas
haciéndole preguntas a Urano.
Quiero saber por qué el alma indomado
continúa rastreando
mi bruta carne sobre espinas de nopal.
Sin flautas y sin flores este viaje
de murciélago ciego va hacia tu rumbo.
Nunca quise que tú mordieras mi boca.

 Cagado abismo, quiero saber
por qué paso la vida aguantando
noches sin ti.
Quiero saber si pasaré mis días sola
haciéndome más piedra cada día.

 Quiero saber por qué mi ser desnudo
pasa mudo de rodillas
tragándose el polvo de tus caminos.
Quiero saber por qué las sombras
se hinchan más cada día,
por qué yo vivo cuando tú me quieres muerta.
Ya me di cuenta después de tantos años
que ser mujer no es cosa tan dichosa.
Querido abismo, nomás esto he querido:
que tú me quieras, que tú me devoraras.
¿Por qué no me arrebatas de una vez?

§

 

Viver na Fronteira significa que você

não é nem hispana índia negra espanhola
nem gringa, você é mestiça, mulata, cabocla
surpreendida entre um fogo cruzado numa batalha
enquanto carrega cinco raças nas costas
sem saber pra que lado virar, ou correr;

Viver na Fronteira significa saber
que a índia em você, traída por 500 anos,
já não fala mais com você,
que mexicanas te chamam de Judas,
que negar ser Anglo-americana
é tão ruim quanto ter negado ser Índia ou Negra;

Quando se vive na fronteira
pessoas passam por você, o vento rouba sua voz,
você é burra, toupeira, bode expiatório,
precursora de uma nova raça,
meio a meio – mulher e homem, nenhum deles –
um novo gênero;

Viver na Fronteira significa
colocar chile em uma borche,
comer tortilhas de farinha de trigo,
falar Tex-Mex com um sotaque de Brooklyn;
ser parada pela migra nos controles da fronteira;
Viver na Fronteira significa que você luta
para resistir ao atraente elixir de ouro da garrafa,
contra a puxada do gatilho,
contra a corda esmagando sua garganta;

Na Fronteira
você é o campo de batalha
onde os inimigos são parentes;
você está em casa, uma estranha,
as disputas na fronteira cessaram
a chuva de disparos acabou com a trégua
você está ferida, fraca
morta, reagindo;

Viver na Fronteira significa
que o moedor, de dentes brancos, quer dilacerar
sua pele oliva, tirar o grão, seu coração
te socar te apertar te esticar
que você cheire a pão branco, mas morto;

Para sobreviver à Fronteira
você deve viver sem fronteiras
ser um cruzamento.

 

 To live in the Borderlands means you

   are neither hispana india negra española
   ni gabacha, eres mestiza, mulata, half-breed
caught in the crossfire between camps
while carrying all five races on your back
not knowing which side to turn to, run from;
To live in the Borderlands means knowing
that the india in you, betrayed for 500 years,
is no longer speaking to you,
that mexicanas call you rajetas,
   that denying the Anglo inside you
is as bad as having denied the Indian or Black;
Cuando vives en la frontera
   people walk through you, the wind steals your voice,
you’re a burra, buey, scapegoat,
forerunner of a new race,
half and half – both woman and man, neither –
a new gender;
To live in the Borderlands means to
put chile in the borscht,
eat whole wheat tortillas,
   speak Tex-Mex with a Brooklyn accent;
be stopped by la migra at the border checkpoints;
Living in the Borderlands means you fight hard to
resist the gold elixir beckoning from the bottle,
the pull of the gun barrel,
the rope crushing the hollow of your throat;
In the Borderlands
you are the battleground
where enemies are kin to each other;
you are at home, a stranger,
the border disputes have been settled
the volley of shots have shattered the truce
you are wounded, lost in action
dead, fighting back;
To live in the Borderlands means
the mill with the razor white teeth wants to shred off
your olive-red skin, crush out the kernel, your heart
pound you pinch you roll you out
smelling like white bread but dead;
To survive the Borderlands
you must live sin fronteras

   be a crossroads.

§

 

Não se entregue, chicaninha
jovem Anzaldúa)

 Não se entregue, minha pretinha,
aperte o cinto, aguente.
Sua linhagem é antiguíssima,
suas raízes como as das mesquites,
bem plantadas, perfuram a terra
rumo a essa corrente, alma da terra mãe
sua origem.

 Sim, minha filha, sua gente cresceu nos ranchos
aqui no Vale pertinho do rio Grande
bem na fronteira
na época anterior a dos gringos
quando Texas era México.
Você é descendente dos primeiros vaqueiros
lá de Vergeles, em Jesus Maria terra Dávila.
Mulheres fortíssimas te criaram:
sua mãe, minha irmã, minha mãe e eu.
E sim, tiraram nossa terra.
Não sobrou nem o cemitério
onde enterraram Don Urbano, seu tataravô.
Tempos duros como pedra carregamos
de cabeça erguida caminhamos.

 Mas nunca tirarão nosso orgulho
de ser mexicana Chicana texana
nem nosso espírito índio.
E quando os gringos acabarem
olha como matam uns aos outros
aqui vamos estar
como os lagartos-de-chifres e as lagartixas
sobreviventes da Era do Fogo, o Quinto Sol.

 Talvez morrendo de fome como sempre
mas uma nova espécie
pele entre negra e bronzeada
quase cerrando as pálpebras
com o poder de ver o sol por olhos nus.
E viva, minha filha, muito viva.

 Sim, sinto que dentro de alguns anos ou séculos
a Raça se levantará, língua intacta
carregando o melhor de todas as culturas.
Essa víbora adormecida, a rebeldia, surgirá.
Como couro velho, acabará a escravidão
de obedecer, de calar, de aceitar.
Como víbora relampejando nos moveremos, mocinha.
Você vai ver!

 

No se raje, chicanita
(para Missy Anzaldúa)

No se raje mi prietita,
apriétese la faja aguántese.
Su linaje es antiguísimo,
sus raíces como las de los mesquites,
bien plantadas, horadando bajo tierra
a esa corriente, el alma de tierra madre –
tu origen.

 Si m’ijita, su gente se creó en los ranchos
aquí en el Valle cerquita del río Grande
en la mera frontera
en el tiempo antes de los gabachos
cuando Tejas era México.
De los primeros vaqueros descendiste
allá en los Vergeles, en Jesús María tierra Dávila.
Mujeres fortísimas te crearon:
tu mamá, mi hermana, mi madre, y yo.

 Y sí, nos han quitado las tierras.
Ya no nos queda ni el camposanto
donde enterraron a Don Urbano tu vis-visabuelo.
Tiempos duros como pastura los cargamos
derechitas caminamos.

 Pero nunca quitarán ese orgullo
de ser mexicana Chicana tejana
ni el espíritu indio.
Y cuando los gringos se acaban
mira como se matan unos a los otros
aquí vamos a parecer
con los horned toads y los lagartijos
survivors del First Fire Age, el Quinto Sol.

 Quizá muriéndonos de hambre como siempre
pero una nueva especie
piel entre negra y bronces
segunda pestaña bajo la primera
con el poder de mirar al sol ojos desnudos.
Y vivas, m’ijita, retevivas.

 Sí, se me hace que en unos cuantos años o siglos
la Raza se levantará, lengua intacta
cargando lo mejor de todas las culturas.
Esa víbora dormida, la rebeldía, saltará.
Como cuero viejo caerá la esclavitud
de obedecer, de callar, de aceptar.
Como víbora relampagueando nos moveremos, mujercita.
¡Ya verás!

 ***

Thaís Soranzo é graduanda em Estudos Literários pela Unicamp. Durante a graduação, foi membro por um ano do corpo editorial da Revista Arcádia (IEL/Unicamp) e cursou um semestre acadêmico na Universidad Carlos III de Madrid, Espanha. Realizou também, através do programa High School, um intercâmbio de um ano em Ohio, Estados Unidos.

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