poesia, Uncategorized

um poema de Aline Bei

bei

Aline Bei é escritora e vive em sampa. sobre ela, sua voz: eu tinha uns 8 anos quando ganhei da minha mãe uma Agenda. – agora você pode se organizar, – ela disse. era uma agenda bem colorida, com folhas sem linhas, janeiro, março, julho e o melhor: em alguns dias do mês tinham poemas. esses dias com poemas. (meus favoritos do ano). contato: alinebei@hotmail.com

***

não tenho mãe

 

meu rosto ainda estava no asfalto

na queda tem esse momento

pequeno

em que a gente quase se acostuma com o chão, a gente quase mora no lugar onde caímos

também na pessoa em nós que caiu

como se a queda fosse irreversível

como se a vida, agora, se limitasse a isso, a esse

beijo.

o asfalto

é um lugar de pisar e carros, um lugar de passagem, não parece natural um rosto ali, Imóvel.

ou morreu

ou a queda está doendo demais

até que eu me levantei

devagar

sentindo falta de algo no corpo.

não era a pele

nem o sangue

esse sangue que fica como um rio pela gente, já pensou? no quão líquido somos, água, sangue e nada vaza, a Pele de barreira e ainda por cima é macia, ainda por cima ela é útil

no amor.

depois da queda

meu plano de virar uma grande escritora subitamente ficou pra depois.

cair é uma pausa

no movimento da vida, de repente uma consciência

se não da própria morte

talvez da fragilidade que nos é inata

e no turbilhão dos dias a gente se esquece dela.

parecemos tão fortes lutando pelo que queremos, pelas pessoas que amamos, pagamos nossas contas, planejamos viagens, um filho, e de repente lembramos,

de repente entendemos que

somos feito de vidro.

 

-tá tudo bem?- perguntam, me ajudando a levantar.

sim. – respondo esgotada.

-vou chamar uma ambulância.

não, não precisa. tá tudo bem, não foi nada grave. eu vou pra casa agora.

-mas seu rosto. tá bem machucado. vem, a gente te ajuda.

não precisa, é sério. eu moro logo ali. obrigada. tá tudo bem.

 

e me lembrei de um dia

em que eu caí assim também, de rosto, minha mãe estava perto, ela me puxou pelo braço tão rápido

que doeu o ombro em cima da dor

do rosto.

 

-filha, filha. –ela dizia agitada.

 

me colocou no peito num abraço, aquela correntinha de pássaro que ela tinha

grudou na minha bochecha

meu suor, o dela,

ficou a marca do pingente em mim.

-tô bem, mãe. – eu disse. – foi só um susto.

e ela chorando. me vi ali, com 5 ou 6 anos,

consolando minha mãe da minha queda, acalmando ela da minha dor, eu que sempre fui a mãe da minha mãe.

ela nunca soube

cuidar de ninguém.

mas tentava, desesperada cuidar, às vezes ficava até violenta cuidando,

fazendo o curativo com força. ela se aborrecia rápido,

gritava Eu tenho tanta coisa pra fazer e colocava as mãos na cabeça.

esse era o seu jeito de lidar com o Susto, como uma menina.

então eu passei a evitar machucados,

tomava um cuidado absurdo como se minha vida fosse dentro de uma loja de cristais.

não queria ver minha mãe gritando, evitava contar as histórias das outras crianças que podiam assustá-la,

como quando a mãe da sofia morreu

e a sofia não comia mais

ficou tão magra que ia pra escola de cadeira de rodas.

não contei nada

nada de trágico para os ouvidos de mamãe. quando chegava de Noite

ela ficava mais macia.

a noite tinha um efeito devastador de calmaria pra minha mãe, sempre foi assim. ela nunca brigou com ninguém à noite,

ela ficava doce,

compreensiva, até bem humorada, até menos dona

de si. vulnerável à cama, ao peso dos lençóis, ela finalmente se calava, cedia, de noite você podia contar pra ela até de 1 medo.

calmamente ela te ouviria

dizendo tá tudo bem

e um abraço, um abraço também seria bom.

mas quando amanhece o dia

a calmaria passa

a calmaria é como se fosse um sonho que tive ou quem sabe era ela quem estava sonhando

e por isso me tratou assim, como aquelas mães nos filmes,

que cantam pra fazer o filho dormir, a mão delicada passeando pela testa do menino.

e assim eu sigo

tentando não me machucar

evitando qualquer perigo

pisando em

ovos tenho conseguido

me equilibrar com o passar dos anos, é pena que hoje eu tenha caído assim desprevenida

nem me lembro como. fico tentando lembrar

estava tão lúcida antes da queda

como posso esquecer de tudo assim, de repente? a memória. a memória tem vida própria

ela é um anão

morando na gente

entre a cabeça e o peito, mais ou menos na altura garganta.

tem certeza que não precisa de ninguém pra te levar em casa?

tenho, obrigada. eu já vou indo.

pego minha bolsa e a chave que foram parar do outro lado da calçada. agradeço com um leve aceno de cabeça os olhares preocupados dos desconhecidos ali

na rua

eles formavam uma pequena plateia.

olhavam com pena

minha volta pra casa, espero que a mãe esteja no mercado

ou que o machucado seque

com o vento,

ventava bastante,
aquele algo a menos no corpo ainda latejava em mim.

 

 

 

Padrão
poesia, tradução

uma tradução medoñenta pra pink dog, por nóspornós

Elizabeth Bishop com índios em visita à Amzônia

Elizabeth Bishop em visita à Amazônia – com índios que gritam num silêncio ensurdecedor EU NÃO SOU SEU ZOOLÓGICO.

 

claro que a poema podia estar e está nos icebergs imaginários. mas essa poema só quer ficar dançada num beatboompá do rap sem qualquer música e arranha lá no fundo mais que rima —rhythm and poetry. essa poema só quer dançar a tradução mais analfabeta, dançar co’cês tudim. todos coloridin todos índios todos pretos coloridos pretos e aqueles pretos e os quase todos pretos de tão pobres.

         nina rizzi

***

Cã-de-rosa

[Fortaleza]

O sol é encarnadoescaldante, o céu azul puro cirrus.
Cangas & biquínis vestem a praia de todos coloridos.
Nua, entre o passo bêbo e a corrida, você cruza a avenida.

Ó, nunca vi uma cadela tão peladinha!
Peladinha, cor-de-beiços, imberbe cã-de-rosa…
Assustada, a reca recua – olha ispritada.

Claro que tão espumando de gastura, com medo de raiva.
Tá é abirobado não, mãh! – é um caso de sarna
avie lá os zóim enribado. Onde estão seus bebêzim?

(A mãe, escarraga a enfermeira, com as tetas cheias, amojadas)
Em que favela você os escondeu, puta pobre, cadela, rapariga
enquanto implora? vive de seus zói picardia e sebo nas canela?

Você não sabia? Saiu no Barra Pesada, em todos os jornais, que é                        [que fazem
para resolver esse tipo de problema; como você acha que lidam com                         [a ruma
de mendigos? Assuvia feito Iara e rebola tudim na maré cheia, até                         [chegar na Barra.

Podiscrê: verminoso, chambregado, zuruó, aleijados, descatitados
todos vão nadando pelo esgoto que escorrega nas periferias escuras.

Se fazem isso com quem implora desmilinguido
cus de cana e noiados e pebados, tomados pela cirrose e fome e                        [neurose
o que não fariam por uma doente de quatro, cãs, cadelas?

Nas barbearias, bares, livrarias, calçadas e esquinas
a piada é o arengue com os mendigos
– ao invés de dar esmolas, dão coletes salva-vidas.

Mas você, cã-de-rosa, não seria capaz
de remar com suas pernas nem sequer boiar.
Avie: uma idéia prática, a delicada

solução é se mascarar.
Esta noite você não precisa se dar ao luxo de ser essa bosta-
merda monstruosa. Será única, cã-de-rosa mascarada micareta.
Logo invém quarta de cinzas, mas oxe! todo dia é carnaval, feriado                        [nacional.
Você pode sambar? Como vai se fantasiar, papangu?

Todos dizem que o Carnaval é um festejo coisado
– as rádios, os crentes, os descontentes, esse povo fêi que bota
buneco em tudo o que é pra gente. Conversa fiada, mininu.

O Carnaval é só o mi disbuiado, é porreta!

Arribe! uma cadela depilada e tão rosinha assim nuazinha não                        [pega bem.
Sai do mei! se fantasie, se mascare e dance o Carnaval!

Iiiiiiêêêiiiiii!!!

Fortaleza, 2017.

 

PINK DOG

[Rio de Janeiro]

The sun is blazing and the sky is blue.
Umbrellas clothe the beach in every hue.
Naked, you trot across the avenue.

Oh, never have I seen a dog so bare!
Naked and pink, without a single hair…
Startled, the passersby draw back and stare.

Of course they’re mortally afraid of rabies.
You are not mad; you have a case of scabies
but look intelligent. Where are your babies?

(A nursing mother, by those hanging teats.)
In what slum have you hidden them, poor bitch,
while you go begging, living by your wits?

Didn’t you know? It’s been in all the papers,
to solve this problem, how they deal with beggars?
They take and throw them in the tidal rivers.

Yes, idiots, paralytics, parasites
go bobbing int the ebbing sewage, nights
out in the suburbs, where there are no lights.

If they do this to anyone who begs,
drugged, drunk, or sober, with or without legs,
what would they do to sick, four-legged dogs?

In the cafés and on the sidewalk corners
the joke is going round that all the beggars
who can afford them now wear life preservers.

In your condition you would not be able
even to float, much less to dog-paddle.
Now look, the practical, the sensible

solution is to wear a fantasía.
Tonight you simply can’t afford to be a-
n eyesore… But no one will ever see a

dog in máscara this time of year.
Ash Wednesday’ll come but Carnival is here.
What sambas can you dance? What will you wear?

They say that Carnival’s degenerating
— radios, Americans, or something,
have ruined it completely. They’re just talking.

Carnival is always wonderful!
A depilated dog would not look well.
Dress up! Dress up and dance at Carnival!

1979

[Elizabeth Bishop, New Poems, 1979]

 

Padrão
Uncategorized

Glória Anzaldúa (1942-2004), por Thais Soranzo

gloria

NO ano passado fui convidada, junto de outros poetas-tradutores, a escrever para o Suplemento Pernambuco uma indicação de poetas para serem traduzidos no Brasil. A matéria tem rendido belezuras: em sua disciplina sobre Tradução Literária no IEL/UNICAMP, o professor Marcos Siscar solicitou como trabalho final uma tradução de cada aluno; e alguns deles traduziram poetas que indiquei no especial do Suplemento Pernambuco 🙂 

Jennifer Araújo já apareceu aqui com traduções de Carina Sedevich. Hoje é a vez de Thaís Soranzo, com a incrível Glória Anzaldúa

nascida no Vale do Rio Grande, no sul do Texas, em 1942, e autodeclarada mestiça,  Gloria Evangelina Anzaldúa, foi acadêmica, ativista política, feminista, escritora e poeta. Mais conhecida como autora de Borderlands/La Frontera: The New Mestiza (San Francisco: Aunt Lute Books, 1987), uma coleção híbrida de poesia e prosa escolhida como um dos 100 Melhores Livros do Século pelo Hungry Mind Review e Utne Reader.
Autora versátil, Anzaldúa publicou poesia, ensaios teóricos, contos, narrativas autobiográficas, entrevistas, livros infantis e antologias de vários gêneros. Como uma das primeiras autoras americanas de origem mexicana assumidamente lésbica, Anzaldúa desempenhou um papel de grande relevância na redefinição de identidades chicanas, lésbicas e queer. Como editora ou co-editora de três antologias multiculturais; também desempenhou um papel vital no desenvolvimento de um movimento feminista de que trouxe valiosas contribuições para os estudos que interseccionam, dentro do feminismo, a categoria mulher com outras, como “raça”, “cor”, “região” etc.

***

O espaço da fronteira, para Glória Anzaldúa, não se restringia a uma delimitação geográfica, mas sim representava uma metáfora que problematizasse outras questões de identidade, como, por exemplo, a do idioma falado pelos chicanos e chicanas. Embora nascidos nos Estados Unidos, são descendentes de mexicanos e assim, apesar de possuírem o domínio fluente do inglês para se comunicar na vida social, também consideram o espanhol como língua materna, já que é o idioma usado entre os membros da família.

Ao mesmo tempo em que o espanhol representa um caminho para resgatar as origens chicanas, o inglês permite que a identidade anglo-americana não seja negada. Por sua vez, esse uso simultâneo do espanhol e do inglês na criação artística de Anzaldúa caracteriza não apenas a temática da interligação entre culturas, mas também a própria estrutura formal dos poemas.

No entanto, além da mescla entre o inglês e o espanhol – mais especificamente o vocabulário usado pelos chicanos –, os poemas de Anzaldúa contêm referências culturais e geográficas típicas do sul dos Estados Unidos. Assim, a tradução dos poemas lidou diretamente com estas problematizações: de que maneira o leitor brasileiro poderia de fato compreender a tensão existente no convívio entre a cultura mexicana e a anglo-americana sem saber o inglês e o espanhol? Ou ainda, como representar essa experiência se esse leitor não está habituado a certos fatores culturais e até mesmo geográficos característicos dessa região?

O dilema de traduzir ou não todos os termos em inglês/espanhol ou a tentativa de preservar de alguma forma uma referência local estão relacionados às imagens predominantes dos poemas. Tentei ao máximo preservar essas imagens, por vezes bastante fortes, pois Anzaldúa com frequência utiliza metáforas da lavoura para ratificar a agressividade de certas cenas. Assim, os poemas aqui selecionados possuem sujeitos, registros e temáticas diferentes, representando cada um a seu modo a experiência ambígua da fronteira. Por isso, cada poema precisou de um cuidado especial, não sendo possível estabelecer um padrão de escolhas tradutórias que se aplicasse a todos eles. Mas Glória Anzaldúa talvez fosse a primeira afirmar que, ao se tratar de culturas, não se pode estabelecer padrões.

Thaís Soranzo

***

Chamamos eles de sebosos

Eles estavam aqui quando cheguei
plantando milho nos seus pequenos ranchos
criando gado, cavalos
cheirando à fumaça e a suor.
Sabiam quem era foda:
tiraram o chapéu
colocaram sobre o peito,
baixaram os olhos na minha presença.

Não faziam questão de ter muita coisa,
nem sequer eram donos da terra, mas a repartiam.
Não era difícil expulsá-los dali,
covardes, isso sim, não têm peito pra aquilo.
Mostrei pra eles um papel com qualquer coisa escrita
disse que deviam impostos
precisavam pagar agora ou cair fora mañana.
Depois que eu e meus homens sacudimos
aquele mesmo papel pro resto das famílias
ele já não tinha mais borda.

Uns levaram suas galinhas crianças esposas e porcos
em carroças bambas, panelas e ferramentas chacoalhando
tilintando por todos os lados.
Não podiam levar o gado –
durante a noite meus garotos botaram o terror.
Ah, mas ainda tinha os encrenqueiros
falando que a gente é que era intruso.
Alguns tinham concessão da terra
e recorreram aos tribunais.
Era o maior sarro
eles tentando falar inglês.
Uns ainda não queriam sair dali
mesmo depois de tudo ter sido queimado.
E as mulheres — bem, lembro de uma em particular.

Ela estava embaixo de mim chorando.
Meti nela com força
continuava forçando e forçando
notei que ele olhava da árvore
escutei ele grunhindo como um animal selvagem
naquele momento senti imenso desprezo por ela
cara redonda e olhos pequenos iguais de uma índia.
Depois sentei na cara dela até
que seus braços parassem de se debater,
não queria gastar uma só bala com ela.
Os garotos não me olhavam nos olhos.
Fui até o marido preso na árvore
e cuspi na cara dele. Linchem ele, disse aos garotos.

We Call Them Greasers

I found them here when I came.
They were growing corn in their small ranchos
raising cattle, horses
smelling of woodsmoke and sweat.
They knew their betters:
took off their hats
placed them over their hearts,
lowered their eyes in my presence.
Weren’t interested in bettering themselves,
why they didn’t even own the land but shared it.
Wasn’t hard to drive them off,
cowards, they were, no backbone.
I showed ‘em a piece of paper with some writing
tole ‘em they owed taxes
had to pay right away or be gone by mañana.
By the time me and my men had waved
that same piece of paper to all the families
it was all frayed at the ends.
Some loaded their chickens children wives and pigs
into rickety wagons, pans and tools dangling,
clanging from all sides.
Couldn’t take their cattle –
during the night my boys had frightened them off.
Oh, there were a few troublemakers
who claimed we were the intruders.
Some even had land grants
and appealed to the courts.
It was laughing stock
them not even knowing English.
Still some refused to budge,
even after we burned them out.
And the women — well I remember one in particular.
She lay under me whimpering.
I plowed into her hard
kept thrusting and thrusting
felt him watching from the mesquite tree
heard him keening like a wild animal
in that instant I felt such contempt for her
round face and beady black eyes like an Indian’s.
Afterwards I sat on her face until
her arms stopped flailing,
didn’t want to waste a bullet on her.
The boys wouldn’t look me in the eyes.
I walked up to where I had tied her man to the tree
and spat in his face. Lynch him, I told the boys.

§

 

Cagado abismo, quero saber

por que durante as geadas de novembro
arrasto meu corpo bruto até seu focinho
por que em janeiro tremo de frio esperando abril.
Quero saber, maldito abismo
por que estou cercada por paredes
prisioneira ante uma fome
que não tem nome
por que fui tonta, por que sou desgraçada.
Te digo, you fucker, nunca quis
que você roçasse sua boca na minha.

 Aqui estou, estalando os dedos
tentando ver o futuro nas cartas
me envolvendo mais nas suas barbas
fazendo perguntas a Urano.
Quero saber por que a alma indomada
continua a perseguir
minha carne bruta entre os espinhos do nopal.
Sem flautas e sem flores esta viagem
de morcego cego vai à sua direção.
Nunca quis que você mordesse minha boca.

 Cagado abismo, quero saber
por que passo a vida aguentando
noites sem você.
Quero saber se passarei meus dias sozinha
me transformando em pedra a cada dia. 

Quero saber por que meu ser nu
avança mudo de joelhos
engolindo a poeira dos seus caminhos.
Quero saber por que as sombras
aumentam a cada dia,
por que estou viva se você me quer morta.
Já percebi depois de tantos anos
que ser mulher não é tão bom assim.
Querido abismo, quis somente isto:
que você me quisesse, que me devorasse.
Por que não me arrebata de uma vez?

 

Cagado abismo, quiero saber

por qué en los hielos de noviembre
arrastro mi bruto cuerpo hacia tu hocico
por qué en enero tiritando de frío espero abril.
Quiero saber, pinche abismo
por qué estoy rodeada de paredes
prisionera frente de una hambre
que no tienen nombre
por qué fui pendeja, por qué joy desgraciada.
Te digo, you fucker, nunca quise
que tú lamieras mi boca con la tuya.

 Aquí me tienes tronándome los dedos
encadenando el futuro con las barajas
enredándome más honda en tus barbas
haciéndole preguntas a Urano.
Quiero saber por qué el alma indomado
continúa rastreando
mi bruta carne sobre espinas de nopal.
Sin flautas y sin flores este viaje
de murciélago ciego va hacia tu rumbo.
Nunca quise que tú mordieras mi boca.

 Cagado abismo, quiero saber
por qué paso la vida aguantando
noches sin ti.
Quiero saber si pasaré mis días sola
haciéndome más piedra cada día.

 Quiero saber por qué mi ser desnudo
pasa mudo de rodillas
tragándose el polvo de tus caminos.
Quiero saber por qué las sombras
se hinchan más cada día,
por qué yo vivo cuando tú me quieres muerta.
Ya me di cuenta después de tantos años
que ser mujer no es cosa tan dichosa.
Querido abismo, nomás esto he querido:
que tú me quieras, que tú me devoraras.
¿Por qué no me arrebatas de una vez?

§

 

Viver na Fronteira significa que você

não é nem hispana índia negra espanhola
nem gringa, você é mestiça, mulata, cabocla
surpreendida entre um fogo cruzado numa batalha
enquanto carrega cinco raças nas costas
sem saber pra que lado virar, ou correr;

Viver na Fronteira significa saber
que a índia em você, traída por 500 anos,
já não fala mais com você,
que mexicanas te chamam de Judas,
que negar ser Anglo-americana
é tão ruim quanto ter negado ser Índia ou Negra;

Quando se vive na fronteira
pessoas passam por você, o vento rouba sua voz,
você é burra, toupeira, bode expiatório,
precursora de uma nova raça,
meio a meio – mulher e homem, nenhum deles –
um novo gênero;

Viver na Fronteira significa
colocar chile em uma borche,
comer tortilhas de farinha de trigo,
falar Tex-Mex com um sotaque de Brooklyn;
ser parada pela migra nos controles da fronteira;
Viver na Fronteira significa que você luta
para resistir ao atraente elixir de ouro da garrafa,
contra a puxada do gatilho,
contra a corda esmagando sua garganta;

Na Fronteira
você é o campo de batalha
onde os inimigos são parentes;
você está em casa, uma estranha,
as disputas na fronteira cessaram
a chuva de disparos acabou com a trégua
você está ferida, fraca
morta, reagindo;

Viver na Fronteira significa
que o moedor, de dentes brancos, quer dilacerar
sua pele oliva, tirar o grão, seu coração
te socar te apertar te esticar
que você cheire a pão branco, mas morto;

Para sobreviver à Fronteira
você deve viver sem fronteiras
ser um cruzamento.

 

 To live in the Borderlands means you

   are neither hispana india negra española
   ni gabacha, eres mestiza, mulata, half-breed
caught in the crossfire between camps
while carrying all five races on your back
not knowing which side to turn to, run from;
To live in the Borderlands means knowing
that the india in you, betrayed for 500 years,
is no longer speaking to you,
that mexicanas call you rajetas,
   that denying the Anglo inside you
is as bad as having denied the Indian or Black;
Cuando vives en la frontera
   people walk through you, the wind steals your voice,
you’re a burra, buey, scapegoat,
forerunner of a new race,
half and half – both woman and man, neither –
a new gender;
To live in the Borderlands means to
put chile in the borscht,
eat whole wheat tortillas,
   speak Tex-Mex with a Brooklyn accent;
be stopped by la migra at the border checkpoints;
Living in the Borderlands means you fight hard to
resist the gold elixir beckoning from the bottle,
the pull of the gun barrel,
the rope crushing the hollow of your throat;
In the Borderlands
you are the battleground
where enemies are kin to each other;
you are at home, a stranger,
the border disputes have been settled
the volley of shots have shattered the truce
you are wounded, lost in action
dead, fighting back;
To live in the Borderlands means
the mill with the razor white teeth wants to shred off
your olive-red skin, crush out the kernel, your heart
pound you pinch you roll you out
smelling like white bread but dead;
To survive the Borderlands
you must live sin fronteras

   be a crossroads.

§

 

Não se entregue, chicaninha
jovem Anzaldúa)

 Não se entregue, minha pretinha,
aperte o cinto, aguente.
Sua linhagem é antiguíssima,
suas raízes como as das mesquites,
bem plantadas, perfuram a terra
rumo a essa corrente, alma da terra mãe
sua origem.

 Sim, minha filha, sua gente cresceu nos ranchos
aqui no Vale pertinho do rio Grande
bem na fronteira
na época anterior a dos gringos
quando Texas era México.
Você é descendente dos primeiros vaqueiros
lá de Vergeles, em Jesus Maria terra Dávila.
Mulheres fortíssimas te criaram:
sua mãe, minha irmã, minha mãe e eu.
E sim, tiraram nossa terra.
Não sobrou nem o cemitério
onde enterraram Don Urbano, seu tataravô.
Tempos duros como pedra carregamos
de cabeça erguida caminhamos.

 Mas nunca tirarão nosso orgulho
de ser mexicana Chicana texana
nem nosso espírito índio.
E quando os gringos acabarem
olha como matam uns aos outros
aqui vamos estar
como os lagartos-de-chifres e as lagartixas
sobreviventes da Era do Fogo, o Quinto Sol.

 Talvez morrendo de fome como sempre
mas uma nova espécie
pele entre negra e bronzeada
quase cerrando as pálpebras
com o poder de ver o sol por olhos nus.
E viva, minha filha, muito viva.

 Sim, sinto que dentro de alguns anos ou séculos
a Raça se levantará, língua intacta
carregando o melhor de todas as culturas.
Essa víbora adormecida, a rebeldia, surgirá.
Como couro velho, acabará a escravidão
de obedecer, de calar, de aceitar.
Como víbora relampejando nos moveremos, mocinha.
Você vai ver!

 

No se raje, chicanita
(para Missy Anzaldúa)

No se raje mi prietita,
apriétese la faja aguántese.
Su linaje es antiguísimo,
sus raíces como las de los mesquites,
bien plantadas, horadando bajo tierra
a esa corriente, el alma de tierra madre –
tu origen.

 Si m’ijita, su gente se creó en los ranchos
aquí en el Valle cerquita del río Grande
en la mera frontera
en el tiempo antes de los gabachos
cuando Tejas era México.
De los primeros vaqueros descendiste
allá en los Vergeles, en Jesús María tierra Dávila.
Mujeres fortísimas te crearon:
tu mamá, mi hermana, mi madre, y yo.

 Y sí, nos han quitado las tierras.
Ya no nos queda ni el camposanto
donde enterraron a Don Urbano tu vis-visabuelo.
Tiempos duros como pastura los cargamos
derechitas caminamos.

 Pero nunca quitarán ese orgullo
de ser mexicana Chicana tejana
ni el espíritu indio.
Y cuando los gringos se acaban
mira como se matan unos a los otros
aquí vamos a parecer
con los horned toads y los lagartijos
survivors del First Fire Age, el Quinto Sol.

 Quizá muriéndonos de hambre como siempre
pero una nueva especie
piel entre negra y bronces
segunda pestaña bajo la primera
con el poder de mirar al sol ojos desnudos.
Y vivas, m’ijita, retevivas.

 Sí, se me hace que en unos cuantos años o siglos
la Raza se levantará, lengua intacta
cargando lo mejor de todas las culturas.
Esa víbora dormida, la rebeldía, saltará.
Como cuero viejo caerá la esclavitud
de obedecer, de callar, de aceptar.
Como víbora relampagueando nos moveremos, mujercita.
¡Ya verás!

 ***

Thaís Soranzo é graduanda em Estudos Literários pela Unicamp. Durante a graduação, foi membro por um ano do corpo editorial da Revista Arcádia (IEL/Unicamp) e cursou um semestre acadêmico na Universidad Carlos III de Madrid, Espanha. Realizou também, através do programa High School, um intercâmbio de um ano em Ohio, Estados Unidos.

Padrão
poesia, Uncategorized

Dois poemas inéditos de Leila Lopes de Andrade

leila-andrade

Leila Lopes de Andrade é graduada em Letras Vernáculas e Comunicação Social. Participou da Antologia “Meditações sobre o fim – os últimos poemas” (Editora Hariemuj/ Portugal). Tem poemas publicados na Revista Germina Literatura e outras. Edita mensalmente a Revista Cultural Diversos Afins.

***

Ideia de amor

não é uma festa hoje
talvez compromisso
da memória

da ideia de amor

tenho sempre
uma frase atravessada
na garganta

§

Lado de dentro

No limite de quem foi longe demais
por um fio apenas um vazio
estado de invisibilidade.

Por dentro casas coloridas, lares

tudo caminha perfeitamente
do lado que não se mostra
e não se toca:
mãos sujas de ninguém.

Leila Lopes de Andrade

Padrão
poesia

Pedro Tostes – alguns poemas e 1 tradução

um encontro é a rua é
é a bebida é um deus é
é baco é limão & sal éé
é a rua é a poesia é é é
é preciso comer bem é
é preciso comerpoesia

pedríssimo baco,  ao escolher um nome poesia –
a escrita poemática corre! uma acepção assíria —
‘morada’. morada, morada é um lugar é um nome
e um nome é um destino. e morada é mais que —
um nome, morada são chinas da alma, um devir &
um presente para passarmos tão-bem os tempos
sombrios, todos esses. os olhos agradecem sim a

poesia, enfim. ‘a verdade é dita com facilidade. é?


nina rizzi 

***

10004059_10152306675407376_80830752_n

POÉTICA
A poesia é mesmo caso sério:
vez por outra vai parar no cemitério.
E sempre volta, como um
zumbi literário.

A poesia brasileira anda broxa,
não mata a cobra,
esconde o pau
e espera ansiosamente pelo
próximo edital.

A poesia brasileira contemporânea
é esquizofônica;
uma hora fala duro,
na outra difícil (e demonstra
pouca propensão a atirar-se
de edifícios).

A poesia brasileira corrente é polida,
faz foto pro cartaz, gosta
de ser notícia no jornal, do caderno
de resenhas, é bonita
limpinha, correta e erra pouco.
Fuma mas não traga,
estupra mas não mata
e tá sempre em cima do muro.

O poeta? Que se foda! Ele que morra duro.

§


NA CASAMATA DE SI

Não quero ser
poeta de vestibular
ter versos cantados
consagrados canônicos
com lastro de interpretação
resposta certa e errada
trabalhado em sala de aula
citado pelos grandes mestres.

Antes ser
o poeta riscado em banheiro
falado à boca miúda
escrito em cantos do papel
passado à mão de mão em mão
sobrevivendo escondido
com um fuzil
habitando o que resta
de nós.

§

 

O TERROR

o terror

o terror do estado

o terror

o terror fardado

o terror

o terror invade a tua casa

o terror de terno e gravata exclamando bordão

o terror nas manchetes de jornal

o terror em muros grades estacas de edifícios

o terror habitando mansões

o terror assombrando a multidão

o terror

o terror promove chacinas genocídios

o terror trancafia o bem no cofre dos peitos

o terror justifica o terror

o terror lincha culpados e inocentes

o terror está armado de argumentos

o terror quer te convencer que é inocente

o terror é um homem de bem

o terror

o terror sangrando os dentes

o terror em comentários de portais

o terror misturado no arroz feijão

o terror pra nos manter calados

o terror reformatando as almas

o terror organizando as filas

o terror levando pras prisões

o terror

o terror estampado nas vitrines

o terror em 30 segundos comerciais

o terror sufocando o teu ar

o terror do alto de arranha-céus

o terror faz sombra nos mendigos

o terror não gosta de crianças

o terror

o terror

o terror

o terror vai estar lhe transferindo

o terror cochila às sextas-feiras

o terror não dorme nunca

o terror não te deixa dormir

o terror vende os teus rivotris

o terror é alucinogeno

o terror come teu fígado

o terror ainda vai te matar

§

 

O CORO DOS CONTENTES

não podemos reclamar

está tudo uma maravilha:
cada um em sua ilha, incomunicáveis
em celulares plugados,
caminhando desligados,
perdidos sem rumo e direção
essa prodigiosa geração

não podemos reclamar

economia nau vagando verdes mares,
pleno emprego a garantir
uma sobrevivência miserável
sem tempo para o que se desvela
aguardando um amanhã incerto
na angústia estalam tempestades

não podemos reclamar

produzir, produzir, produzir
máquina moendo a todos
apertados em latas de sardinha
parando no tráfego desinformações
nada anda
mas rendemos um bom troco
a troco de que?

não podemos reclamar

parar, respirar
resistência que nos cabe
flor que súbito abre
não mais refletir o espelho
que reflete e reflete e reflete
num jogo labirinto
sem chegar a lugar algum

não podemos reclamar

temos sangue, suor,
quem sabe até coração
belas estórias de amor
projetada em telas
tridimensionais
sem sequer nos atingir

não podemos reclamar

a ciência garante longa vida;
caixinhas de leite com soda cáustica,
cada um com a sua: deixam até colorir!
só não pode beber, fumar, comer,
embriagar-se de prazer
vivamos, pois, a contar
as faixas da colorbar

e não podemos reclamar

§

 

CURTO & GROSSO

A vida é dura,

não tem caô

nem KY.

§

 

Encham a Cara
(Charles Baudelaire – Trad. Pedro Tostes)

É preciso estar sempre bêbo. Tá tudo aí: essa é a parada. Pra não sentir a barra pesada do tempo que cai sobre os seus ombros te jogando no chão é preciso entornar o balde até chafurdar na lama.

De quê? De vinho, poesia ou virtude como você preferir. Desde que encha a cara.

E se alguma hora, na sarjeta duma mansão, num gramado bacana, ou no vazio quentinho do teu quarto, você acordar e o pileque tiver passando ou numa ressaca braba, pergunte pro vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, pra tudo que foge, tudo que geme, tudo que rola, tudo que canta, tudo que fala, pergunta que horas são. E o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio vão responder:

– É hora de enfiar o pé na jaca! Pra não serem funcionários sofredores do tempo encham a lata; bebam até cair! De cachaça, poesia ou virtude, como quiser.

§

Hard Porn:

§

Pedro Tostes é poeta istente. Já teve seus livros apreendidos e ainda sim não aprendeu. Fez parte da Poesia Maloqueirista, mas lembrou que sua mãe sempre o aconselhou a evitar más companhias. Editou a revista “Não Funciona”, cujo título expressa bem o sentido da sua vida. Seus crimes anteriores são também conhecidos como “o mínimo” (Ibis Libris, 2003), “Descaminhar” (Annablume, 2008) e “Jardim Minado” (Patuá, 2014), no entanto comete publicações em antologias e revistas desde 1996. Detesta escrever minibiografias, pois não gosta de apresentar crachá, preferindo o escracho. Quando risca palavras com sua pena, quase arrisca ter razão.

***

Padrão
Uncategorized

Carina Sedevich, por Jennifer Araújo

carina-semi

Carina Sedevich nasceu em Santa Fé, Argentina em 1972 e atualmente reside em Córdoba, Argentina. Licenciada em Comunicação pela Universidade Nacional de Vila Maria e doutora em Semiótica pela Universidade Nacional de Córdoba, a poeta publicou até o momento 10 livros de poesia: La violencia de los nombres (Ediciones Fe de Ratas, Santa Fé, 1998); Nosotros No (Lítote Ediciones, Santa Fé, 2000); Cosas dentro de otra cosa (Lítote Ediciones, Santa Fé, 2000); Como segando un cariño oscuro (Llanto de Mudo Ediciones, Córdoba, 2012); Incombustible (Alción Editora, Córdoba, 2013); Escribió Dickinson (Alción Editora, Córdoba, 2014); Klimt (Suburbia Ediciones, Gijón, España e Club Hem Editores, La Plata, 2015); Gibraltar (Dínamo Poético Editorial, Córdoba, 2015); Un cardo ruso (Ediciones del Movimiento, Maracaibo, Venezuela e Alción Editora, Córdoba, 2016); Cuadernos de Lolog (Pasto Ediciones, Córdoba, 2016).

Carina nunca viu a literatura como carreira, sendo a poesia, desde a infância, um prazer e não uma (futura) profissão para a autora.  Carina Sedevich acredita não seguir ou pertencer a nenhum movimento literário e diz não saber apontar quais são as influências de sua escrita, pois não tem formação em específica em literatura e quando questionada, em entrevista, sobre os autores pelos quais se interessa a poeta faz uma longa lista de nomes de diferentes nacionalidades e estilos. Entretanto, apesar de a autora não dar nomenclatura, formato ou rótulo a sua poesia, o leitor pode perceber, logo nos primeiros contatos, uma escrita intimista e, ao passo que descobre um pouco mais sobre sua vida, nota um forte traço biográfico. O leitor pode ver claramente essa questão autobiográfica nas poesias de Carina, principalmente após ver suas entrevistas, pois a própria autora afirma que seus livros acompanham sua vida, sendo perceptível o relato sutil e por vezes explícito de acontecimentos pessoais como depressão, divórcio e mudança do filho.  Quanto à forma, sua poesia não apresenta forma fixa, métrica ou rima exata, o formato de seus textos muda de livro para livro, de poema para poema. Quanto a temática, Carina escreve sobre temas cotidianos, como amor, desamor, passado, morte, mudanças interiores e exteriores, entre outros, em suma, a autora diz escrever sobre a vida, pois acredita que não é possível escrever sobre outra coisa:

          “Con respecto a los temas de mi escritura debo decir que no los elijo: los temas de mi escritura vienen a mí como viene la vida. Escribo sobre la vida, creo que es imposible escribir sobre otra cosa. Siempre digo que no hay muchos temas para el ser humano: la vida, por ende la muerte. Y dentro del infinito tema de la vida caben todas las cuestiones en que las personas pueden pensarse, sentirse, ser: el amor, el desamor, el sentido, el sinsentido.  Así que no hago otra cosa que escribir sobre eso.” (Carina Sedevich em entrevista 26/10/2016).

***

  1. (de Gibraltar, 2015)

 El olvido es un fruto que requiere trabajo.

Casi siempre tardío, pero rara vez dulce.
No es uva ni es la parra donde pende el racimo.

No es como la sombra que daría la parra
ni como sus raíces contraídas y bruscas.

Se parece a la piedra del cantero y la fuente
que apisona la parra, que la ordena y la ciñe.

*

Hay que hacer saltar el olvido de un golpe
como a una piedra caliza en la cantera.

Que se entibie en la mano que quiera tallarla.
Sea opaca a los ojos. Sea venérea y ajena.

*

Una piedra tan blanca es casi como un niño.
Casi un sacramento para mí.

Inclino mis huesos como panes ácimos
sobre cunas que guardan el amor ajeno.

Qué fue de la ternura que pude sentir.
La siento en la garganta bajar como una hostia.

O esquecimento é um fruto que requer trabalho.

Quase sempre tardio, porém raramente doce.
Não é uva nem é a videira de onde pende o cacho.

Não é como a sombra que a videira daria
nem como suas raízes comprimidas e ásperas.

Se parece com a pedra do cercado e a fonte
que pisoteia a vide, que a ordena e a cinge.
*

Deve-se arremessar o esquecimento de súbito
como uma pedra de calcário na pedreira.

Que se aquece na mão que queira esculpi-la.
Seja opaca aos olhos. Seja venérea e alheia.
*

Uma pedra tão branca é quase como um filho.
Quase um sacramento para mim.

Dobro meus ossos como pães ázimos
sobre berços que guardam o amor ao outro.

O que houve com a ternura que pude sentir.
A sinto na garganta descendo como uma hóstia.
§

  1. (de Escribió Dickinson, 2014)


Enciendo la lámpara de sal de la montaña

junto a mi cama.
Me suelto el pelo
recordando las canas invisibles.
Me acuesto entre las sábanas de hilo
con la bata dorada de la China.
Debajo mi piel blanca no desea
ni en sus botones rosados
ni en sus lunares pálidos.
Sobre la almohada se escuchan mis anillos
porque está fresco, quizás,
y se afinaron mis dedos.
El oro, la plata, la amatista.
Afuera la noche se ha espesado
porque terminó la luna llena.
Empieza el mes que precede al invierno.

Qué ligera que soy sin tus deseos.

Qué dulce corre el alma
en mi esqueleto.
Qué cierta es esta cara y estos flancos
qué ciertos que son,
qué delicados.
Me admira mi gata, blanca y parda,
y yo la admiro a ella en su silencio.
Hasta el perfume rojo de las flores
tengo.

Qué ligera que soy sin mis deseos.

Acendo a lâmpada de sal da montanha
ao pé de minha cama.
Solto meu cabelo
recordando os grisalhos invisíveis.
Me deito entre os lençóis de linho
com o chambre dourado da China.
Por baixo, minha pele branca não deseja
nem com seus botões rosados
nem com suas pintas pálidas.
Sobre a almofada se ouvem meus anéis
porque está fresco, talvez,
e se afinaram meus dedos.
O ouro, a prata, a ametista.
Lá fora a noite está mais espessa
porque terminou a lua cheia.
Inicia o mês que precede o inverno.

Como sou ágil sem seus desejos.

Como corre suave a alma
em meu esqueleto.
Como é pura esta cara e estas curvas
como são puras,
tão delicadas.
Minha gata me admira, branca e parda,
e eu a admiro em seu silêncio.
Até o perfume vermelho das flores
tenho.

Como sou ágil sem meus desejos.
§

3. (de Cuadernos de Lolog, 2016)

 

 Palermo, Buenos Aires

 

 El viento mueve las hojas de los árboles

como señales de luz intermitente

junto al sendero donde sé que vive

el hombre aquel, que yo quería tanto.

Vuelve su nombre, cada vez más raro,

como una caja que se quedó vacía.

*

No voy a verlo.

Cae la semilla de los plátanos.

Vuelan los pájaros,

demasiado bajo.

Mujeres hermosas

pasan muchas.

Más que los copos

que caen de las ramas

o la bandada

de palomas locas.

*

Yo envejezco.

*

Estoy lejos de todo.

De la Belleza,

de la Inmensidad.

Ahora que Comprendo

y Compadezco,

ahora que cualquier lugar

es bueno,

estoy arribando siempre tarde.

*

Pasan los hombres sin Misterio

sobre mi corazón sin Inquietud.

*

Sólo cuando lo olvido todo

el tiempo se mueve, intempestivo.

Profundamente,

como un atentado.

*

-Estas flores blancas que se abren

sobre los árboles, para Navidad,

parece que lo hicieran a propósito.-

Palermo, Buenos Aires

O vento move as folhas das árvores

como sinais de luz intermitente

junto ao caminho onde sei que vive

o homem  a quem eu amava tanto.

Seu nome volta, cada vez menos,

como uma caixa que ficou vazia.

*

Não vou vê-lo.

Cai a semente das árvores.

Voam os pássaros,

muitíssimo baixo.

Mulheres formosas

passam muitas.

Mais que os flocos

que caem dos galhos

ou a revoada

de pombas loucas.

*

Eu envelheço.

*

Estou distante de tudo.

Da Beleza,

da Imensidão.

Agora que Compreendo

e Compadeço,

agora que qualquer lugar

é bom,

estou chegando sempre tarde.

*

Passam os homens sem Mistério

sobre meu coração sem Inquietude.

*

Só quando o esqueço por completo

o tempo muda, intempestivo.

Profundamente,

como um atentado.

*

– Estas flores brancas que se abrem

sobre as árvores, para o Natal,

parece que o fizeram de propósito.-

***

Jennifer Araújo, graduanda no curso de Letras (Licenciatura em Língua Portuguesa, com habilitação em Português como Língua Estrangeira) na Universidade Estadual de Campinas.

Padrão
crítica, poesia, Uncategorized

a serpentina nunca se desenrola até o fim, de Heyk Pimenta, por Vinicius Varela

eu li um poema. um poema que me atinge cheio os ossos como uma onda num domingo de ressaca – e é o amor esta ressaca. é o homem com seus cabelos vermelhos pegados na estante; o uivo na madrugada, o sangue que me cobre o corpo pronto pra perícia, o corpo do homem. o corpo do homem é o corpo do poema. é o poema.

então chega lá o v. varela – esse nome que estala feito muçarela, mussarela, mozzarela, vegarela, beija ela, varela, a poesia, beija! – e v. varela chega chegando e beija a poesia de pimenta [que já floresceu aqui no escamandro]. e é isto, a semana começando, corpoemas nos esperando e sim, sim, em hellcife e quiça na fodaleza segunda também é um dia lindo – pra ler & querer ler: um dia, a poesia de heyk pimenta e a teorética de vinicius varela.

nina rizzi

***

1-heyk-pimenta-retrato

um livro de desterros

qual é, Heyk. não tive tempo de falar pessoalmente sobre teu livro(a serpentina nunca se desenrola até o fim). terminei de ler há algumas semanas. tive uma impressão positiva. achei a sua escolha vocabular curiosa, sempre uma palavra diferente da que eu esperava que você escolhesse. como “tiririca”,  “losna”, “pompons pink”, “flor fodida”, “titicas”. tem um rigor nas tuas palavras e ao mesmo tempo algo de informal e de lúdico. frases em um estilo mais alto e outras em um estilo mais descompromissado como quando você diz “meu peito esticado de burrice” e “complexo de vira-lata” que provoca uma sensação de meio termo entre o poético e o prosaico. me lembrou tanto o Ferreira Gullar, no poema sujo, pela espacialidade da palavra no papel; quanto o João Cabral de Melo Neto no rigor e na escolha de palavras que colocam o homem numa qualidade de construção, paisagem, objeto, como nos versos “na argamassa da língua” e “perdeu as carenagens”. teu livro é de alguma maneira, sobretudo, a saga dos VAGÕES situada na segunda parte(MONTUROS), dadas as devidas medidas, uma releitura mineira de “Morte e Vida Severina”, do João Cabral de Melo Neto. o homem que você traça se parece mais a um prédio ou uma máquina. também acontece o contrário, a cidade é viva como no poema VIADUTO DA BENEFICÊNCIA, em que o “viaduto arfa” e o “calçamento polido nos pés dos transeuntes/ não é heróico/ é de menos medo”  mostram essa hibridização da cidade em humana e do humano em pedra/asfalto/coisa inanimada. afinal, “por não ser utópico” ele “é curvo/ doente de levar doentes”. tudo está doente, a cidade e os homens. o asfalto e a pele. o interior das estruturas de concreto e os órgãos internos. a cidade que você traça representa justamente a distopía. Como em outro poema  A CIDADE AMARRADA À CINTURA em que  “o inverno seria sempre o mesmo/ não fosse o amassar as solas/ ao atravessar a passarela”, sempre esse movimento em que o homem e a cidade se chocam, se gastam como placas tectónicas. mas, se há movimento, há caminho, há vida. se é possível amassar as solas no asfalto da cidade, sobreviveremos ao inverno. e nesse movimento “que farei hoje com mais pesar/ levando a cidade demolida/ para dentro do museu”, o homem anda carregando entulhos, fragmentos da ruína. a cidade destrói o homem por dentro, cada rompimento de sua arquitetura é um ato de violência contra o corpo do homem, consequentemente contra sua vivência. cada recapeamento do asfalto é uma cicatriz na pele do homem. chacoalham nele demolições ao igual que vísceras. vísceras de pedra. o homem se torna um portador de destruições, as memórias perdidas da cidade habitando nele. “as varandas interditas/ e a cidade amarrada à cintura/ não é possível despejá-la”. a cidade é um hospedeiro no homem, um inquilino e não o contrário. se o homem fez a cidade com as próprias mãos, ela na verdade é algo que sempre esteve dentro dele, criada por e a partir dele. outra impressão que tive do seu livro é que ele tem uma voz que logo se percebe não ser a de um carioca e não falo isso de maneira pejorativa. acho muito curioso, na verdade. não sei o que seria escrever como um carioca, mas as experiências vividas pelo seu eu-lírico, principalmente na segunda parte do livro MONTUROS, da viagem, do acompanhamento do trem, das paisagens, desterritorializa esse eu-lírico. parece uma coisa meio retirante, a maneira como descreve as paisagens e essa busca de algo que sempre está no horizonte, mas o horizonte é infinito e essa coisa nunca chega. essa vivência da brutalidade da estrada e da dureza das coisas parece mais nordestina, no teu caso mineira, já que Minas tem divisa com o sertão. acho que é um livro pensado. os poemas tem todos uma coisa além, que você percebe que não conseguiu captar completamente, ainda precisa ler de novo, deixar dormir o livro. alguns versos que não marcam tanto são apenas o fòlego que se toma para fazer a linguagem suspirar, esses suspiros são próprios da poesia. queria compartilhar essas impressões, assim, de maneira informal mesmo, dar um feedback sem muita pompa. escrito em minúscula para que não pareça nada muito sério. sobre poesia não se fala muito sério. te mando o texto escrito como saiu. é isso rapaz.

tempos depois faço uma releitura do livro do Heyk

a volta ao livro e ao texto me surpreenderam. quando deixamos os livros e os textos dormirem, parece que a linguagem sonha e ao despertá-la encontramos novos olhares, novas impressões. quis manter o primeiro texto que te mandei e que espelha essa influência do tempo nas palavras e agora falar um pouco mais detalhadamente do seu livro, mantendo a mesma linha de não-especialista, ampliando e exemplificando coisas que disse anteriormente.

acho que teu livro tem três temas centrais: a casa, a cidade e o desterro. nesse sentido, o desterro perpassa os outros dois temas. esses três temas estão distrubuidos ao longo do livro não necessariamente na divisão que você deu a ele, estão diluídos. por isso O VIADUTO DA BENEFICÊNCIA, que está na segunda parte MONTUROS dialóga com o poema A CIDADE AMARRADA À CINTURA que fica na terceira parte VEIOS. mas com certeza a casa está muito mais presente em CASULO, o desterro em MONTUROS, e VEIOS é uma fusão da casa, da cidade e do desterro. o desterro na verdade, me parece o sentimento geral do livro. um desterro tão grande que faz com que o eu-lírico se sinta desterrado de seu corpo, desterrado da casa e desterrado na cidade. ou seja, houve um saque. a voz do livro é de alguém que foi saqueado, subtraído de alguma maneira desde o nascimento. seu estar no mundo é uma permanente diáspora/exílio/expatriação. que é muitas vezes o sentimento do poeta. o ser poeta é essa perda da pátria e ao mesmo tempo o ganho dela. a pátria do poeta é a língua, mas para que o seja, ele perde de alguma maneira a materialidade e, sobretudo, a naturalidade, a nacionalidade. perde o corpo, perde a casa, perde a cidade. seu nome é desterro. é, então, a poesia justamente essa “serpentina que nunca se desenrola até o fim” que o poeta tem como artifício e é para tentar desenrolá-la inutilmente até o final que o poeta continua escrevendo.

em CASULO é demonstrada a gestação da casa e na casa. uma casa que já não conseguia suportar a vontade de mundo. assim o livro abre com o verso “hoje não tem beleza nenhuma na casa”, porque a casa nem sempre é segurança, aconchego para os olhos. nem sempre há amor dentro da casa e justamente “agora que nossos piercings se encaixariam” as coisas desandam, desabam. “agora que minha casa é casa/ cabe você mil vezes/ e tem lugar pras suas crenças nas revistas de decoração”, logo “agora que o desespero já não é estilo”, a casa deixou de ser um lar. “os bichos da burocracia da casa/ apertando a carícia do peito contra/ a argamassa da língua”. a língua vai se tornando sólida, edificando e protege com toda sua dureza “meu figado de papel”. a poesia de um poeta pode ser seu figado de papel, assim como para Aquiles o calcanhar era fraqueza, mas a poesia também é casa. e, mesmo que “a casa perca as esperanças” e “só queria ter mãos/ para cobrir o rosto”, na poesia “toda cigarra é duas”. é preciso sair da casa para ouvir esse canto de cigarras multiplicadas. porque ninguém quer ser essa cigarra “que não viu as árvores de cima”.

em MONTUROS, já encontramos na primeira página a ‘Porcelana’ e isso tem algo de absurdo. tem algo mais triste do que encontrar “Porcelana” nos MONTUROS, isto é, no lixão? quem mais do que o poeta pode se ressentir do abandono da porcelana em um monturo, completamente descartada e esquecida? por isso essa escrita, “essa dureza não é força/ é deixar no balcão os papéis de garantia”. ao sair da casa, isto é, do CASULO, é preciso passar pelos MONTUROS para chegar à cidade e “segurar com o peito/ a tinta viva dos caminhões/ os arrebites do metrô” e cada vez fica mais claro que a cidade, o mundo, “é o continente que reza para explodir e ser ilha e ilhas”, mas “para isso há mar”. o consolo do poeta é que contra tudo “isso há mar” ou contra tudo isso amar. as duas possibilidades de leitura do último verso são promessas que a poesia oferece como esperança. logo depois, deparamos com o VIADUTO DA BENEFICÊNCIA, “o viaduto arfa” sustentando a plenos pulmões a correria da cidade, o peso da cidade, a poluição da cidade. “seu calçamento polido nos pés dos transeuntes” ainda “não é heróico/ é de menos medo” apenas. a cidade parece ao mesmo tempo a agressora e a vítima. porque destrói o homem e porque luta contra si mesma e contra o homem para se manter. “por não ser utópico”, o viaduto ou o homem? ou nenhum dos dois? a poesia segue unicamente “porque o metal/ nunca vencerá o asfalto”, nas palavras do Heyk, e porque uma flor sim, “Uma flor nasceu na rua!”, “Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”, nas palavras de Drummond. e mesmo que os caminhões nos atropelem, nos matem e nos impessam de atravessar as ruas “suas rodas/ são o motivo primeiro do alvorecer”.

a parte em que eu digo que sua experiência não vem de um carioca, Heyk, é a saga dos VAGÕES(I ao VII) fundalmentalmente. em que, me parece, é narrado todo esse percurso do retirante, do rapaz que saiu de Minas(me perdoe recorrer a dados biográficos para falar de tua poesia, isso não deve contar, estou pecando) e foi vendo gradativamente toda a decadência da malha ferroviária e na paisagem da cidade. vendo as letras MRS “sendo parte do cansaço/ do esquecimento/ dos vagões de minério/ que envelhecem” como “velhos que já não têm motivos”, “com os olhinhos diminuindo/ virando tartaruguinhas” e “tornando-se invisíveis”. os trens como “velhos que se desimportam/ deixam de ter passado/ esperam a erosão do orvalho” e são testemunhas dos fiéis que “tentando dar com tuba e caixa/ alguma alegria às velas amarelas” da procissão do desterro, fracassam em sua errância. e medem com os passos “o espaço que uma rodovia merece no meio da mata atlântica”, de uma BR-101 que “é estreita como a liberdade”. porque os vagões como as pessoas “são sempre abandonados/ e não podem ser esquecidos”. a poesia me parece uma tentativa de dar corda na vitrola e poder cruzar “o vinil réptil do mar”. assim como “os ciganos acampam para/ descampar”, “os sem terra acampam/ para ficar/ porque ficar é o sal do gado” e nesse sentido o poeta escreve para ficar também, porque a palavra é a raiz do poeta. e, ao escrever um poema, a experiência transforma esse desterro, esse ostracismo. só assim podemos ver que os vagões parecem destinados a levar o retirante para o campo de concentração do desterro ou para a estação da diáspora “mas não/  os vagões têm porte marcial/ são robustos como abraços” apenas. a poesia sensibiliza os vagões.

e finalmente os VEIOS de água que dão de beber à seca daqueles que vem do sertão de Minas ou as veias que revelam o que corre no corpo do poeta assim como Eduardo Galeano abriu as veias da América Latina. nesta parte se retomam alguns dos temas. você volta à casa “a casa de palha e plantas/ onde os livros adoeciam/ não cabiam mais na pele” onde as maritacas se encontravam com os bicos “curvos da miséria de não fazerem música”. para falar desse lugar distópico em que vivemos, onde o tempo “[trapezista de circo pobre/ o picadeiro de titicas]/ paira entre as árvores/ com as pernas cruzadas”. fala também do colchão onde “está 10 vezes meu volume” onde parece “o tempo pintasse/ em mãos alvas/ algum envelhecimento/ ou apagasse/ cada vez mais branco/ o amor”. da dificuldade da vida de casado na cidade “mas é você quem me come e guarda/ meus restos na mochila para depois” levando seus restos pelas ruas como um forma de se virar e resistir ao peso de uma CIDADE AMARRADA À CINTURA. afinal “nada tinha dado certo antes/ nem qualquer notícia/ no e-mail/ nenhum tapa nas costas/ de siga em frente poeta/ menino” e esse é um bom motivo para escrever um livro. “o vento/ é o mote dos dentes”, e a serpentina é o mote dos dedos.

Ps: você prediu que eu selecionasse três poemas centrais do livro, destaco quatro que me parece resumem bem diversas coisas que eu falei, são eles VIADUTO DA BENEFICÊNCIA, VAGÕES(II – o ferro carregando ferro que são), A CIDADE AMARRADA À CINTURA e 464.

Vinicius Varela

***

Padrão