poesia

5 poemas inéditos de Leandro Jardim

leandro jardim perfil pb

Leandro Jardim escreve poesia, prosa e letra de canção. Publicou, dentre outros, a novela A Angústia da Relevância (Oito e Meio, 2016) e as coletâneas de poesia Peomas (Oito e Meio, 2014) e Todas as vozes cantam (7Letras, 2008). Em parceria com Rafael Gryner, lançou os discos O Sonhador (2014) e Sementes musicais para um mundo cibernético (2011). Também possui canções com artistas como Diogo Cadaval (banda Mocambo), Clara Valente e Matheus VK. Reúne suas demais publicações em antologias e coletâneas no link: leandrojardim.blogspot.com.br . Os poemas abaixo são da série inédita Timeline.

***

Sempre tem uma besta que diz

sempre tem uma besta que diz
eu sei do que estou falando
porque leio os jornais
sempre tem uma besta que diz
eu sei do que digo justo
porque não os leio, sempre
tem uma que diz e repete e insiste
a mídia é uma orquestra manipulada
e manipuladora dizem duas bestas
que não sabem se discordam ou não
tais argumentos não tem bandeira
são de direita e são de esquerda
diz a besta diz a besta
maravilhas de uma imprensa alternativa
se olhando no espelho olhando-se
e outra besta se refastela
de algum erro gramatical
(sic) (sic) (sic) sempre tem
uma e outra besta engasgadas
com o que não sabem mas sabem dizer
que sempre tem uma besta que diz
porque não sabe não saber

§

 

Posts

As pessoas são mais frágeis que seus posts
São mais belas que suas fotos
Mais frágeis que seus posts

Seus gestos hesitam: é o belo balé
Presenças fraquejam falas, cambaleamos
O ritmo é a verdade

Todo movimento é um improviso, arte
Porque há o outro, há o espaço contido
E um desconforto que interdita o olhar

A irrefletida beleza, a improvável
Concretude da carne cheiro alcance
Vedada ao melhor dos mais frágeis posts

§

 

GIF_Estação_terminal

Um trem descarrilha,
Desgovernado.

Estrondo e hesitação
Se entreolham no terminal.

– É só, e sempre, o relógio na parede! –
Grita um.

– É a televisão que não desligam! –
Aponta outro, dedo em riste .

– Nada disso, é o coração
Que não cala, e o trabalho

Que não acaba –
Sussurra alguém.

Silêncio e movimento
Se atropelam na estação.

Desgovernado
Um homem descarrilha.

§

 

Oficina papa-prêmio

Aula 1 – Se inscreva
em todos
os concursos. Tenha sempre
inéditos à mão. Não escolha
o porte da prefeitura
ou o tamanho em dinheiro
do prêmio. Prêmio é prêmio. Aceite
até a participação em coletâneas
pagas, se esse for
o caso (geralmente é, dizem).

Aula 2 – Trabalhe
focado. Não desperdice
sua inspiração, especialmente
se ela for rara. Entenda
todos os prêmios, analise
o tipo de obra que costumam
prestigiar. Não leia clássicos,
leia os vencedores
das edições anteriores. Escreva
unicamente material aplicável,
só comece quando souber
onde vai inscrever. Inscrever é mais
importante do que escrever.

Aula 3 – Conheça
o perfil de cada jurado. Os perfis
de jurados. Onde encontrá-los. Como
se aproximar. Tenha lido
suas obras, se possível
faça citações pouco explícitas

Aula 4 – Autopromoção
até na derrota. Toda vez
que perder, escreva um texto
criticando a lisura do prêmio. Arrogue-se
um injustiçado. Outros
perdedores o apoiarão. Vire
seu porta voz e angarie
assim alguns leitores
como prêmio de consolação.
Prêmio é prêmio, aceite.

§

 

Quando incomoda

frisar quando incomoda
acomoda o que cala
e num tiro dispara
incontida escolha

e se explode à bala
o que era só bolha
quando não mais se poda
o que estava na cara

chega, pensa, sai, para
porra, cara, tá foda
ou melhora o que fala
ou te enfio uma rolha

*

Anúncios
Padrão
poesia, tradução

Epigramas de Marcial, por Rodrigo Garcia Lopes

unnamed (1)

Evoé! Evoé!

Está saindo fresquinha, em edição de colecionador pela Ateliê Editorial, Epigramas, escritos por Marco Valério Marcial, e traduzidos diretamente do latim por Rodrigo Garcia Lopes. 
A seleção traz epigramas cômicos, pornográficos e injuriosos, que fizeram a fama de Marcial. Mas o tradutor também incluiu poemas de amor e amizade, sobre a boemia, reflexões sobre escravidão, sobre viver o presente, além de epitáfios tocantes e epigramas metapoéticos, em que o poeta reflete sobre sua própria condição de autor.
A edição bilíngue é composta por 12 pequenos cadernos, feitos artesanalmente a partir do projeto gráfico do artista plástico Gustavo Piqueira, que reúnem 219 poemas escritos entre 86 e 103 d.C. O livro traz notas explicativas e um posfácio que inclui dados biográficos do autor contextualizados com sua obra na Roma Antiga, além de conter informações sobre questões estéticas de sua poesia.

Nas palavras do tradutor:

Escrever em poucos caracteres para passar uma mensagem assertiva tornou-se popular com a criação do Twitter, há pouco mais de dez anos. Mas, esse recurso já era usado na Roma Antiga, há quase dois mil anos, por poetas como Marco Valério Marcial, considerado o pai do epigrama (forma poética breve, marcada pelo estilo satírico e engenhoso). 
     Talvez o tema principal dos Epigramas seja a cidade em que vivia o poeta. “Se há alguma musa na poesia de Marcial, ela se chama Roma: é da cidade que ele tira sua matéria prima. Como um dublê de poeta-humorista-colunista-cronista social — munido de uma câmera portátil e verbal, o epigrama — ele nos convida a espiar os espaços públicos e privados de Roma no século 1 em todas as suas contradições.  Além de ser um grande poeta, Marcial é extremamente moderno ao prenunciar aspectos de nossa sociedade do espetáculo, de comunicação instantâneas, da indústria da fofoca, do consumo (onde tudo está à venda), da superficialidade, exibicionismo, da cultura da imagem, redes sociais, culto às celebridades, fama instantânea e reality shows.

Rodrigo Garcia Lopes

unnamed

***    

I, XXVIII

Quem acha que Acerra fede a vinho de ontem,
erra: Acerra bebe até amanhecer.

Hesterno fetere mero qui credit Acerram,
fallitur: in lucem semper Acerra bibit.

XI, LXIII

Espia a gente no banho, Filomuso,
e fica perguntando por que meus escravos
tem caralhos tão grandiosos.
Vou te dar uma resposta simples:
Eles comem o cu dos curiosos.

Spectas nos, Philomuse, cum lavamur,
et quare mihi tam mutuniati
sint leves pueri subinde quaeris.
dicam simpliciter tibi roganti:
pedicant, Philomuse, curiosos.

XII, LXI

Tem medo que eu faça, Ligurra,
um poema falando mal de você
e quer parecer digno do medo.
Seu medo é vão, e vão o seu desejo.
Leões líbios rugem para os touros,
não fazem mal às borboletas.
Se quer ter seu nome mencionado
procure num puteiro um poeta bebum
que escreva com giz ou carvão
enquanto caga um tolete.
Sua testa não merece meu ferrete.

Versus et breve vividumque carmen
in te ne faciam times, Ligurra,
et dignus cupis hoc metu videri.
sed frustra metuis cupisque frustra.
in tauros Libyci ruunt leones,
non sunt papilionibus molesti.
quaeras censeo, si legi laboras,
nigri fornicis ebrium poetam,
qui carbone rudi putrique creta
scribit carmina quae legunt cacantes.
frons haec stigmate non meo notanda est.

 

XII, LVI

Fica doente dez vezes por ano, ou mais,
e no fim, Policarmo, nós é que sofremos,
pois, pra ficar bom, pede presentes.
Faz o seguinte: fique doente só uma vez.

Aegrotas uno decies aut saepius anno,
nec tibi sed nobis hoc, Polycharme, nocet:
nam quotiens surgis, soteria poscis amicos.
sit pudor: aegrota iam, Polycharme, semel. 

*

 Rodrigo Garcia Lopes é um poeta, compositor, cantor e tradutor brasileiro (Londrina, PR). É autor dos livros de poemas Solarium (1994), Visibilia (1996), Polivox (2001),Nômada (2004) e Estúdio Realidade (2013). Como tradutor, publicou Sylvia Plath: Poemas (Iluminuras, 1990) e Iluminuras: Gravuras Coloridas, de Arthur Rimbaud (Iluminuras, 1994), ambos em parceria com Maurício Arruda Mendonça. Em 2004 traduziu e organizou os livros Mindscapes: Poemas de Laura Riding (Iluminuras, 2004), O Navegante (The Seafarer, do anônimo anglo-saxão, Lamparina, 2004). Em 2005 publicou Leaves of Grass / Folhas de Relva, de Walt Whitman (Iluminuras) e, em 2007, Ariel, de Sylvia Plath (Verus Editora, em parceria com Cristina Macedo). Desde 1982 tem publicado traduções e introduções de poetas norte-americanos e europeus em muitas publicações brasileiras. Em 1997 lançou Vozes & Visões: Panorama da Arte e Cultura Norte-Americanas Hoje (Iluminuras), com 19 entrevistas com personalidades da cultura e literatura norte-americana como John Cage, Allen Ginsberg, Marjorie Perloff, Charles Bernstein, Laurie Anderson, Amiri Baraka, John Ashbery, Nam June Paik e William Burroughs, entre outros. Já apareceu aqui na escamandro com traduções diversas além de poemas próprios. Mantém o site: http://rgarcialopes.wix.com/site#!bio

Padrão
poesia

4 poemas inéditos de Francesca Cricelli

fcricelli-color.jpeg

Fotografia de Erica Viggiani Bicudo

Francesca Cricelli (1982-) é poeta, pesquisadora e tradutora. Publicou Repátria no Brasil (Selo Demônio Negro, 2015) e na Itália (Carta Canta, 2017) e 16 poemas + 1 em Nova Iorque (edição de autora, 2017) e em Reykjavík (Sagarana forlag, 2017), livro mais vendido em todas as categorias na primeira quinzena de outubro da Mál og menning. Organizou as cartas de Ungaretti a Bruna Bianco (Mondadori, 2017) e traduziu, entre outros, Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016). Doutoranda em Estudos da tradução na USP. Leciona intecção literária na Casa Guilherme de Almeida e foi professora do CLIPE Poesia 2017 na Casa das Rosas. Já apareceu aqui no escamandro com diversas traduções e poemas próprios.

Os poemas abaixo foram escritos a partir de exercícios ministrados aos alunos do CLIPE Poesia 2017 na Casa das Rosas, Cricelli nos conta que “no processo desnudei meus próprios mecanismos de escrita, as tramas das minhas referências e leituras por trás destes textos”; provavelmente vão integrar seu novo livro, Inventário de Ébano.

***

À MINHA CAIXA TORÁCICA

What will endure here the longest
must be thoughtfully provided for
[Zbigniew Herbert, To my bones]
Agora ficou fácil
Salvamo-nos da carne
[Vasko Popa, Osso a Osso]

 

Expande no meu sono quando respiro
sob a pele selada pela noite
e oculta os cortes invisíveis da carne
o que nesta cavidade permanece desenraiza o quarto
duas caixas torácicas em paralelo, algo incompleto

se o peito é pródigo
mas cala a fala e seca lágrimas
o que perdura é esta moldura
gaiola de ar e batimento

esta ossada não estará
no Museu Nacional, não,
estes ossos nossos não serão encontrados por arqueólogos
não foram feitos para vitrines
porque quando vivos abrigaram o pássaro

à esquerda de cada um no desencontro do abraço frontal
um canto da serra do mar, um canto de outro lugar

debaixo da terra ou sob o sol dos nossos nada sabemos
só existem aqui no agora e no silêncio os ossos
esta caixa que tudo cinge no escuro
tudo que hoje arde e descompassa
já contém os vermes da terra
contém o pedaço da vértebra de nascença
passado e futuro

nem entalar a garganta dos cães
nem ser o hiato dos séculos

enquanto há seiva e sangue
estar eretos
roçar as costelas celestes
já que nada mais sei.

§


MURMÚRIO DO BRANCO
[sobre um desenho da cidade de Krumau de Egon Schiele]

Chove sobre as cores,
é um auto-retrato
o amaranhado do ocre e do laranja
uma lança que perfura o olho divino a falta.
Colore a densidade populacional nos mapas, o ocre,
mas as casas andam vazias
e no interior das coisas cantamos nus como Sophia.

Está no murmúrio do branco
o caminho do carvão
e eu o persigo pelas linhas, com os dedos
firmes sobre as janelas e as tuas costelas
as casas andam desabitadas de ti
da desordem vital
que confere têmpera à luz oblíqua da tarde.

Não há sismo
e os jardins são todos internos
os desertos todos interiores e anteriores,
eles resistem ao regar das horas
resistem
ao esmiuçar com os dedos os pastéis a óleo sobre a folha de papel.

Arden las pérdidas
como na praia as labaredas vulcânicas sob a lua cheia de Reykjavík
e aporta
aporta
aporta também o esquecimento
esta casa velha.

§

 

PRELÚDIO

Entro nos teus olhos como num bosque/ cheio de sol
[Nazim Hikmet]

É na ausência do pássaro
que se compõe o canto,

ou na recusa da fruta
de vir à rama quando não estás?

A orquídea do quarto
represa em suas raízes
toda a água para varar a noite;
eu caminho deslocando ponteiros.

Não há hora que falte
nem tempo de sobra;
o silêncio é a tua medida
e mantém-me o passo.

O resto é voo.

§

 

ENSEADA

Afora/ o teu olhar/ nenhuma lâmina me atrai com seu brilho
[Vladimir Maiakovski, Lílitchka!]

Trovoa ao longe
e um lampejo filtra o pano violáceo do céu
iluminando o quarto.

É um prenúncio,
sussurro de gotas sobre as costelas de Adão.

Na pele e na rua
deslizam os carros
deslizam teus dedos
deslizam sanguíneos
nas úmidas superfícies e cavidades —
n’algum lugar em mim e na cidade
chove torrencialmente;

mas para além
do recosto oblíquo dos olhos
para além da rotação dos planetas
no ponto em que não se vê e está
há a música
regência cósmica das esferas
ali por trás da curva do globo.

Ir ao fim do mundo
para apanhar a concha da vida,
e colocá-la aqui
no arco infinito dos teus lábios.

Na enseada da Costa da Morte
a vida quebra mais viva.

*

Padrão
poesia

Ana Estaregui

por marina wang2

Fotografia de Marina Wang

Ana Estaregui nasceu em Sorocaba e vive em São Paulo desde 2005. Formada em artes visuais, publicou seu primeiro livro de poemas, Chá de Jasmim (Editora Patuá) em 2014, com um projeto selecionado pelo ProaC de Poesia. Em 2015, publicou o livro digital Buracos (Editora E-Galáxia) pelo projeto Selo Jota. No mesmo ano foi contemplada em primeiro lugar no concurso de contos OFF FLIP de Literatura com o conto Seis canivetes para abrir uma baleiaCoração de boi (7Letras, 2016), é seu segundo livro de poesia contemplado no ProaC de poesia e finalista do Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional.
***

I.

o coração do boi sobre a pia
vai esfriando à medida
em que o músculo absorve
a friúra do granito e lança nele
seus desejos de sempre, meio vis
quentes, como tudo o que nele era
pastos, pelos, as tetas esplêndidas
das vacas de leite
e em pouco tempo tudo dele se cala
se equipara ao grau da pedra
as artérias e veias
os espaços entre os átrios, o feno, tudo

 

II.

a palavra ocupou a sala toda
calou as janelas, o radinho de pilhas
e os porta retratos
arrancou os livros da estante
produzindo tsunamis com as persianas
abafou nossas vozes ao grau zero
e ficamos todos espremidos entre ela
e a parede, ela e o teto
ela e as ripas de madeira do piso
no curto vão de oxigênio livre
a palavra grudou no sótão
e agora passamos nossos dias presos
olhando pra ela, uma estrela

 

III.

bati a clavícula na quinta feira
enquanto abria o armário
o osso me dói desde então
acordei na sexta com torcicolo
e os tendões da mão esquerda inflamados
sábado, lavando louça, quebrei dois copos
bati na pia um outro pires que lascou
ontem, foi uma taça
e ainda arranquei sangue de duas cutículas
enquanto fazia as unhas do pé
na mesma noite deixei cair no chão
uma vasilha com sopa
que espatifou
e deixei o pão passar do ponto
hoje estou de folga, sozinha,
e até o momento só queimei a ponta língua
bebendo café

 

IV.

um cavalo pode mudar o curso
de um poema
é preciso não temê-lo
os saltos, os espaços vazios
de como se arranjam entre si
de como, sem atrito, produzem luz
disse
deixe o seu corpo boiar
pra que as letras pairem diante dos olhos
é preciso que o dia nos encubra
com alguma névoa pálida
e a fumaça dos automóveis forme
entre nós e as coisas
uma espécie de anteparo vertical
quase transparente
e nos faça avistar de longe os músculos rijos
de um bando de animais que trotam
por entre os carros

 

V.

o que aconteceria aos poemas
se neles acrescentássemos matéria sólida
se, como nas canções,
onde há som voz cordas de metal
depositássemos
alguma seiva e um pouco de ar?
se lançássemos sobre eles
um punhado de sementes
e então nos sentássemos para esperar
por muito tempo
algum movimento sutil
alguma oscilação inaudível
uma dobra só que fosse
sobre a página um pequeno rumor
de qualquer tipo, capaz de levantar
do chão branco alguma voz
o que aconteceria aos poemas
se pudéssemos esperar um pouco mais

 

VI.

se nunca tivesse havido
as metáforas
ainda poderíamos trocar
um punhado de cerejas
pelo encosto ainda quente
no banco de trás do carro
um calhamaço de papel sulfite
por dois ou três versos livres
por dois dentes do siso
por quatro incisivos
pelo voo circular e ininterrupto
de um urubu
por um pacote de carvão mineral
por um livro sem capa
por uma imagem fosca de um submarino japonês
por uma magnólia branca
ainda poderíamos trocar
um pedido de desculpas
por um sorvete de avelã
se nunca tivesse havido as metáforas
ainda poderíamos trocar o silêncio
por um copo de leite

*
Padrão
poesia

luís gomes (2000-)

23845325_1817608318269349_1725260702_nluís gomes, alagoano, de Maceió. 17 anos. poeta irresponsável. escreve no: luiszgomes.tumblr.com

***

dentro da fotografia

o comentário de um futuro
lá dentro
tudo
escuro

§

 

nona décima  e morta

1

primeiro nascer
o parto durou 8 horas meu amor o negócio é cesariana

2

chorar de dengo
motivo de conversa na vizinhança a manta é
azul demais ela é menina menina viada

3

mentir sobre
as consequências da festa

4

decepcionar-se com helena,
com  maria, com roberta, com  adalgisa
(mas pelo menos rir do nome adalgisa)

5

comprar acessórios cool
passar numa faculdade particular
ser cool falar que é cool mas
não saber falar inglês

6

esquecer de deus

7

abusar de alcaloides
quase morrer por isso

9

dormir no escuro entre
as unhas e os pelos do bigode

10

morrer
e o resto e o resto
pensa em deus chamar pra dançar de agonia
beijar a santinha

§

somente ou depois do almoço eu resolvo a vida
as mãos, as rugas, o sol no portão

o tempo entre a luz e a escuridão; o azul
da piscina imitando as ondas de um
mar de feriado. O coque, a miopia,
o desmonte. Os dedos trêmulos (físicos)
no frio da solidão. Não mais existe
um outro ventre, um outro ritmo de
sangue para sossegar o mundo:
deitar-se no chão, no chão de terra
parente, irmão mudo. Não mais existe
– mundo – existe o quintal, a chuva mansa
e sem perdão.

§
a luta diária
não é uma luta sem cor
a dor não é
simplesmente uma
de uma esquina prometo aos
homens que não puderam vir
a minha melhor roupa

§

 

piscinas áridos
quintais balas
perdidas
escombros
recolher-se aos cantos
silenciosos das festas

antes de qualquer explicação
já havia marcas na pele de
antes do nascimento

um nobre nome sobre os escombros
fantasmas de lençóis adormecem
sempre usar aquela camisa azul marinheiro

§

 

\ a cama silenciosa cobria a fuga da primeira luz
do dia \  são muitos os motivos a se definhar pelos veículos \
pelas correntes \ pelos córregos escrotos  \ pelos
vínculos desmoronados

#

\ sequestrar os segundos \ gastar todo o tempo
possível \ com calçadas e ventos de debaixo da \
pitangueira

#

\ não adianta sumir \ que tudo termina
assim mesmo \ o nosso cheiro preso \ é
impossível de se esquecer

#

\ às vezes é difícil acreditar \ em anjos \ quando
o precipício das mãos sequer toca \ a mucosa da
boca

§

 

o dia do morto

descer toda uma ladeira chorando ver
meu pai chorar ver minha mãe chorar ver
até o morto chorar

*

Padrão
poesia, tradução

um poema de Margaret Atwood, por Lidia Rogatto

50459320

Margaret Eleanor Atwood (Ottawa, 1939-) é poeta, romancista, crítica literária e ensaísta, uma das personalidades mais atuantes da cultura canadense atualmente. Foi agraciada com os prêmios Arthur C. Clarke e Príncipe das Astúrias pelo conjunto de sua obra, bem como pelo Governor General’s Award em duas ocasiões. Suas obras já foram traduzidas e publicadas em livros, coletâneas e revistas de poesia por todo o mundo, além de transformadas em minisséries para a televisão (“The Handmaid’s Tale” e “Alias Grace”). Atwood já escreveu mais de quarenta volumes de poesia, ficção, literatura infantil e não-ficção. Sua obra poética não trata do indizível, mas da audácia de dizer com uma limpidez e candura, por horas com deslumbramento e êxtase, por outras com incômodo e lamento.

Pouco comentada pela crítica, a poesia de Atwood não tem rima, nem métrica regular – é a voz que dá continuidade aos versos (ou, antes, o seu controle). Em grande parte, o desafio de traduzir a voz individual de Atwood é inerente ao próprio processo tradutório de poesia quando as línguas de chegada (L2, português) e de partida (L1, inglês) se mostram particularmente distintas quanto à estrutura rítmica e tonal. Soma-se a isso a multiplicidade de interpretações que o mesmo “Poema Noturno” pode oferecer, e torna-se um pré-requisito indiscutível realizar sua análise estilística. Em particular, como tradutora feminista, meu trabalho é considerar a linguagem como uma pista para o funcionamento da agência de gênero. Traduzir a voz extremamente precisa de Atwood e fazer reverberar seu tom irreverentemente seguro é congruente à urgência da tradução como produção, e não reprodução.

Lidia Rogatto

***

Poema Noturno

Não há nada a temer,
É apenas o vento
Movendo para o leste, é apenas
Teu pai o trovão
Tua mãe a chuva

Neste país aquático
Com sua lua parda e úmida feito cogumelo,
Seus tocos submersos e enormes aves
Que nadam, aonde o musgo cresce
Por todos os lados das árvores
E tua sombra não é tua sombra,
Mas teu reflexo,

Teus verdadeiros pais desaparecem
Quando as cortinas cobrem tua porta.
Nós somos os outros,
Os do fundo do lago
Silentes estamos ao pé de tua cama,
Com nossas cabeças de escuridão.
Viemos para cobrir-te
Com lã vermelha,
Com nossas lágrimas e sussurros distantes.

Tu balanças nos braços da chuva
A fria arca do teu sono,
Enquanto esperamos, teus noturnos
Pai e mãe
Com nossas mãos frias e lanternas mortas,
Sabendo que somos somente
As oscilantes sombras lançadas
Por uma vela, neste eco
Que ouvirás vinte anos mais tarde.

 

NIGHT POEM

There is nothing to be afraid of,
it is only the wind
changing to the east, it is only
your father the thunder
your mother the rain

In this country of water
with its beige moon damp as a mushroom,
its drowned stumps and long birds
that swim, where the moss grows
on all sides of the trees
and your shadow is not your shadow
but your reflection,

your true parents disappear
when the curtain covers your door.
We are the others,
the ones from under the lake
who stand silently beside your bed
with our heads of darkness.
We have come to cover you
with red wool,
with our tears and distant whispers.

You rock in the rain’s arms,
the chilly ark of your sleep,
while we wait, your night
father and mother,
with our cold hands and dead flashlight,
knowing we are only
the wavering shadows thrown
by one candle, in this echo
you will hear twenty years later.

[In: Selected Poems II: Poems Selected & New 1976-1986. © Houghton Mifflin Co., 1987.]

*

Lidia Rogatto (Londrina, 1989) é bacharel em Comunicação Social (2011), especialista em Inglês (2013) e em Tradução (2017). Além da literatura em língua inglesa, traduz obras poéticas em francês, especialmente na variante québécois. Suas últimas traduções podem ser vistas na revista Arcana, Pontes Outras, e Liberoamérica. É fundadora e tradutora no Ateliê da Tradução (www.ateliedatraducao.com).

Padrão
poesia

Patricia Laura Figueiredo

patricia laura figueiredo

Patricia Laura Figueiredo (pat lau) entre São Paulo, onde nasceu e se dedicou à poesia e ao teatro desde cedo, e Paris, onde mora desde 1990, amadureceu seus poemas numa vida dedicada a tornar o poema uma experiência essencial. Publicou o seu primeiro livro de poesias, Poemas Sem Nome pela editora Ibis Libris e seu segundo No Ritmo da Agulhas, em março de 2015 pela editora Patuá. Participou de várias antologias, no Brasil e na Alemanha e também em diversas revistas digitais de literatura e poesia. Seu terceiro livro de poemas foi publicado pela Editora Dasch em 2016: Poemas Bebês.

***

circo

no circo dos animais tristes
o mar é um cemitério
onde esqueletos de índios guerreiros
e seus cabelos
amarrados em placas de concreto
bóiam

mais e mais todo dia
no burlesco na melancolia
os corvos podem agora voar

que a terra volte a ser a terra
nas sandálias de um imigrante
num  punhal num penhasco
jazz e surrealismo
de novo aos nossos pés

monk e seus 46 baseados
tudo é grito
dos gregos ao monólogo
tudo é cadência
dicção (a primeira das delicadezas)
se fazer compreender
e a mais bela entre elas
o silêncio

diabos saem das poltronas
como no tempo de don juan
moliére e corneille
abrem-se as cortinas
les filles dans le ciel
cavalos como os de forman

se um estrangeiro chega
é preciso que ele se venda
se um surdo fala
ele tem que calar
colagens dadaístas
de moisés a dalai lama

torpor e suas vacas negras
morrer de melancolia
partir

porque somos loucos
porque somos sós
e eles são tão numerosos

§

sair

sair do país
como se sai
de um buraco

músculos flácidos
dedos inchados
sair falando baixo

riscar o muro
com o sangue
coagulado

pedra por pedra
empurrar a terra
de volta pro buraco

cobrir com mato
o ar esgotado
sair bem rápido

ofegante e machucado
livre e desconfortável
sair envergonhado

*

Padrão