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XANTO | Miragem de Soraya Madeiro: A esfoladura no tempo, por Bárbara Costa Ribeiro

“desde quando se prevê o amor
em que o tempo vai correr?” (Miragem, “alfabetização”, p. 9).

Na noite de 24 de novembro de 2018, em Fortaleza, foi lançado o livro de poemas Miragem, de Soraya Madeiro, pela editora Moinhos, estabelecida em Belo Horizonte.

Já o percorri algumas vezes, o livro, desde então. E constato, assim, que sua poesia, de maneira muito doce e insólita, me comove. Ou, como diria bem melhor Barthes, especificamente em O prazer do texto, a sua poesia faz entrar em crise a minha relação com a linguagem. Na simplicidade tamanha de um texto que me adivinha com singeleza, sinto uma súbita vontade de escrever-escrever-escrever, mas não sei como. Não é isso mesmo que fazem conosco os textos que nos atravessam?

Recrio memórias, invento memórias, tento reforjar toda uma vida, a partir das imagens que leio no livro. Mas minha linguagem está trocada, roubada, confusa e devolvida à infância, quando não há mais palavras, só figuras e sonhos. É como se quisesse, a minha linguagem, viver agora a vida de um outro alguém, a vida assustada e remota, que não é minha, que está no livro. Mas de quem? E que vida?

Penso na autoria do livro. Como pode o exercício memorioso de um texto alheio querer ser todo meu? Tento ignorar, uma vez mais, enquanto desfolho Miragem, que conheci a autora um dia, e convencer-me de que o pulsar reminiscente que há na poesia do livro não poderia ser meu. Mas poderia ser, justamente, o dela? Que coisa é uma autora?

Me vejo assim lançada numa empresa estranha. Tento ignorar que a vi, Soraya, um dia, tomando banho de sol no edifício Itália, a meu lado, quando sem querer alguém que estava conosco derramou amendoins na grama à beira da piscina. Tento ignorar que sei a que rosto pertence um nome e um sobrenome, o seu. Quero descobrir que vida habita o livro, esquecendo tudo. Mas como esquecer alguém tão humano, tão táctil, alguém cujas bochechas enrubescem e com quem se partilha amendoins?

Ou mesmo esquecer da ocasião em que a conheci, há alguns anos, num grupo de estudos em que, curiosamente, dedicávamo-nos a ler justo a obra de Maurice Blanchot, em toda a sua relação com a linguagem de ficção e o fora, o fora da vida, o centro móvel do texto. Foi, inclusive, por essa mesma época que eu, em um gesto radical e abrupto de bebê, que vai aprendendo ainda a andar por um terreno movediço, internalizei então a ferro e fogo a ideia de que jamais, jamais a vida e a obra de um autor poderiam se fundir, se encontrar. Era a lição que eu tomava de Blanchot, lendo-o como quem lesse uma bula. Tentava encontrar os caminhos pelo terreno arenoso.

Mas então, mais tarde, deparei-me com a fenda, a impossibilidade. Ou melhor, compreendi-a um pouco mais. O limiar entre a vida e a escritura, onde tudo se encontra e tudo se imbrica. Onde já não é mais possível discernir entre carne e espírito.

Sobre a fenda, essa fenda essencialmente erótica, é também Barthes quem segue dizendo – o mesmo que matou todos os autores do mundo, no que por muito tempo acreditei – que é justamente aí, na fenda, que se pode gozar um texto, gozá-lo em plenitude, no limite indecidível entre a verdade e a invenção, entre a memória e a ficção, entre a literatura e a vida. Diz ele: nem a cultura e nem a sua destruição, mas a fenda, a fenda é o erótico; nem a verdade, nem a memória: o prazer do texto, ou melhor, o seu gozo, está no encontro daquilo que não posso divisar ou definir.

De modo então que tento me desfazer da imagem de Soraya Madeiro, enquanto leio seu livro, mas já não o posso, e não o quero. Porque, muito embora eu saiba que um autor é sempre um outro, não posso ignorar que já a vi tão humana – a ponto mesmo de estar comendo amendoins. Caberiam tais coisas na poesia?

Acho que cabem. Mas é preciso recuar ainda dois ou três passos, pois mesmo na intimidade mais entranhada de uma amizade silenciosa, muitas vezes o outro permanece o mistério. Há de ser assim também na escritura. Não há eu que se desnude num texto: é sempre um outro, a diferença radical daquilo que já se foi um segundo atrás.

E aqui está todo este segredo de Miragem: é curioso o fato de que, muita embora a poesia de suas imagens me soem como a lembrança de um sonho antigo, ou mesmo como lembranças de mim, como se ele me entregasse, conforme eu leio, as recordações de um tempo já longínquo, e meu, que atravessa o “eu-outro” do texto e vem se alojar justo dentro de meu peito, essa lembrança fictícia me rouba de tudo, instaura o mistério absoluto do texto memorioso: que me nega a própria matéria da vida de que finge se recordar.

Minha linguagem está, assim, quebrada, eu dizia. Sinto forte vontade de escrever, rememorar um tempo: mas este tempo não me pertenceu. Teria pertencido a sua autora? Não sei. A vida é um mistério. Como o par de meninos-anjos, na prosa poética que praticamente inaugura o livro. Penso em cedros e sicômoros e outros vegetais. Penso em Dante, em Ana Cristina César. Que teriam a ver todas essas imagens? Miragem é um livro que habilita a vontade de escrever, sobre algo, sobre um eu, mas estas coisas que eu não acesso a não ser em viés.

Sinto então de maneira muito certeira que a poesia em Miragem parece brotar e se inserir justamente numa ausência de identidade que é o excesso dela, sua identidade toda. Identifico neste passo uma espécie de tradição que muito me agrada (e aqui entram Dante, Ana Cristina…): uma tradição de textos que alojam um mesmo sentimento, ou seja, o de querer rememorar e escrever essas tais memórias do que não se viveu, mas que se adivinham na intimidade do outro, que parece sempre se colocar em seu próprio texto, enquanto autor, mas que é sempre inacessível, é sempre uma miragem da escritura.

Miragem parte então da experiência mais assustadora e simples da memória: a que se recorda, esquecendo a própria identidade do sonhador, que reconstrói uma vida pela via reminiscente, sem construir, de fato, castelos possíveis.

 Dos autores que se inserem nessa tradição sem tradição, Ana Cristina – quando deixamos seu texto cantar dentro de nós feito uma sereia de papel, sem aquela ânsia de tentar resgatar todas as suas referências, sem tentar rastrear, como um capanga, a sua intertextualidade canibal.

Na memória esvaziada que parte do sertão de uma solidão tão íntima, também Dante. Porque Dante é um dos pioneiros da autoficção. E não só isso: mas porque Dante é aquele que conta sua própria viagem, seu próprio poema, seu próprio medo e sua dor, sem se deixar capturar jamais. Que nos restou de Dante, afinal? Terá existido, de fato? Que é que sabemos dele, com certeza, com perícia biográfica? É tudo como um fiapo de lua, sua identidade sorrateira. A figura de Dante soergue-se assim tão proeminente na Comédia, e em todas as suas obras, e no entanto Dante permanece uma esfinge, um peixe, um silêncio.

É como se, então, em Miragem, bebendo da fonte de uma tradição expatriada, eu me descobrisse eu mesma a cruzar a ponte sobre o rio Quixadá, embora jamais tenha estado ali. Mas a lembrança se afirma como uma premonição, ou como a memória de um futuro, porque pelo texto estou sempre a ponto de viver tudo e sempre – futuro que se realize no tempo presente da leitura. A poesia habilita todos os tempos nesse instante. O presente no poema é já uma lembrança, que é ainda a aventura do agora, e promessa do porvir.

Dante, em seu signo de ar, cujos contornos mal podem ser traçados, embora seja ele monstruoso: Dante: aventura e poema – onde começa o homem e onde termina o personagem? E Ana também. E a miragem de todas essas memórias da escrita.

Miragem colocou-me a escrever então no torvelinho, no meio, nessa esfoladura do tempo: onde a memória do outro se torna o meu presente, onde um autor se costura por dentro de mim, tudo pela via da poesia, como uma chuva que “me fura como pregos e me inunda a memória como se eu já tivesse sido uma lua de netuno, como se eu tivesse habitado sua turbulenta atmosfera” (poema “Imóvel”, p. 21, de Miragem).

Novamente, o que me dá prazer em Miragem, ou melhor, o que me conduz ao gozo, mesmo que estilhaçando minha linguagem a momentos, é o fato de que me adivinho no que não é meu, ou me desfaço no que poderia ter sido escrito para mim.

Não é exatamente sobre a memória ou a identidade de um autor, sobre a autoficção, sobre a vida do rosto que conheci, sobre a verdade, sobre os fatos, mas sobre uma língua fendida. Sobre a língua misteriosa do amor, e por vezes muito simples, que um texto fala, a língua da poesia, e que, nas palavras ainda de Barthes, assim se diz: “O que eu aprecio, num relato, não é pois diretamente o seu conteúdo, nem mesmo sua estrutura, mas antes as esfoladuras que imponho ao belo envoltório: corro, salto, ergo a cabeça, torno a mergulhar” (O prazer do texto).

O texto então está para mim como aquilo que me entrega a mim mesmo, mas me expulsa, me faz saltar, me faz erguer a cabeça, pensar em outras coisas, atravessar rios, pontes e desertos, buscar um não sei quê. A delicadeza então de Miragem me entrega, com suas imagens, algo de mim, mas sempre um mistério, sempre um não. Em “Dia útil”, leio a minha lembrança daquilo que não vivi:

“as flores de hibisco que se abriram hoje de manhã
sentem tua falta
e quase imitam a cor das tuas pernas quando o sol
se esquece de bater nelas […]” (Miragem, p. 45).

Teria eu amado a essas flores e esperado pelo tempo de retorno de alguém que me fazia falta? Já não sei se quem vive sou eu, o texto, ou as memórias poéticas de sua autora, ou mesmo sua autora encriptada, ou a vida no fora, ou o fora da vida no dentro do texto. Já não sei nada. Mas sei que com extrema delicadeza Miragem habilita para mim a emoção molhada de lembrar aquilo que jamais foi meu, mas estava-me aqui, adormecido como a lembrança de um sonho:

benjamin barroso, 335

a minha rua era do tamanho do mundo
os amigos estavam lá, a escola, a professora
as bicas nos banhos de chuva
os carros-pipa em tempos de seca
o carro de leite às seis da manhã
o medo da cantoria das procissões de madrugada
– meu quarto era o mais escuro na madrugada
as cartas de amor nunca enviadas debaixo do colchão
as cicatrizes desenhadas nos meus joelhos
hoje, mesmo em outra cidade,
ainda moro na minha rua” (Miragem, p. 12).

&

ponte dos ingleses

com esse silêncio estava querendo dizer que as alegrias que sentimos não anularam as vezes em que você me deixou pular da ponte sozinha porque ainda não tinha terminado sua pesquisa sobre universos paralelos, como se não fosse a própria ponte um universo paralelo, como se pular da ponte não fosse um jeito de colocar o mundo em reverso, transformar o dentro em fora como quando viramos a casca de uma laranja para comer cada gomo até então inalcançável” (Miragem, p. 18).

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tradução

Mario Pera, por Nina Rizzi

Mario_Pera_Ruido_blanco

Mario Pera, poeta e ensaísta peruano. Formado em Direito pela Universidad de Lima e em Desenho Gráfico pelo IPAD (Peru). Foi coeditor da Editora Magreb. Diretor da Revista Literária Digital Vallejo & Co., e da editora de mesmo nome. Em 2013 obteve o Premio Ilustre Municipalidad de Cuenca no Festival de la Lira (Equador). Publicou os livros de poemas Preparaciones anatómicas (2009), Ruido Blanco (2011, 2015, 2016), Mirando sobre el heno, Muestra de poesía peruana reciente (2014), The Most Natural Thing. New American Poetry (2015, junto a David Keplinger) e Y habrá fuego cayendo a nuestro alrededor (2018); os ensaios Fare l’America or learn to live in it? Italian immigration in Peru (2012) e Comunicaciones marcianas. Revista Amauta, a 90 años de la vanguardia peruana 1926-2016 – Una muestra (na prensa, em conjunto com Roger Santiváñez).

Conheci Mario Pera em 2016, quando traduzia alguns poemas de Guilherme Gontijo Flores para a antologia “Inventar la felicidad” (e-book da Vallejo & Co., do Peru), e então me tornei leitora da revista. A convite do Suplemento Literário de Minas Gerais, traduzi uma leva de seus poemas para a edição setembro/ outubro, 2018; gostei tanto que trouxe outros três, os poemas abaixo, aqui pra escamandro.

nina rizzi

*

Oração do clochard moribundo

Três manchas de merda
revelam meu rosto melhor que qualquer fotografia
ao menos esse sou eu, digo
um adorador egocêntrico
a lepra no cu da minha família
o rosário da minha mãe
que arde debaixo do meu travesseiro

e todas as cruzes
escorregam do meu cangote desorientadas
enquanto ouço cair suas orações num saco vazio
e no meu sonho mais calmo
vejo que Lima arde, minha família arde
este poema entre tuas mãos
arde
meus ossos se empolam
e meu sangue se afina até se transformar
em cordas muito finas que me enforcam.

Sempre fui um péssimo filho
sou agnóstico e me masturbo, mas
meu sangue jamais nutriu
o ideal de outro corpo.

Um abutre velho me observa
e canta um estribilho alegre
onde se ergue a árvore de Judas
eu também sou um traidor, respondo
vendi meu nome e minha voz
e sufoquei eternamente
o pranto da minha mãe.

Pela primeira vez
transpira em frente à Cruz
um homem que já morreu.

 

Oración del clochard moribundo

Tres manchas de mierda
develan mi rostro mejor que cualquier fotografía
al menos ese soy yo, digo
un adorador egocéntrico
la lepra en el culo de mi familia
el rosario de mi madre
que arde bajo mi almohada

y todas las cruces
resbalan de mi cogote desorientadas
mientras oigo caer sus oraciones en saco roto
y en mi sueño más calmo
veo que Lima arde, mi familia arde
este poema entre tus manos
arde
mis huesos se ampollan
y mi sangre adelgaza hasta convertirse
en cuerdas muy delgadas que me ahorcan.

Siempre fui un mal hijo
soy agnóstico y me masturbo, pero
mi sangre jamás nutrió
el ideal de otro cuerpo.

Un buitre viejo me observa
y canta un estribillo alegre
donde se yergue el árbol de Judas
yo también soy un traidor, respondo
vendí mi nombre y mi voz
la enclaustré eternamente
en el llanto de mi madre.

Por primera vez
suda frente a la Cruz
un hombre que ya ha muerto.

§

 

Brecht entre clavelinas

 I
Sentado e com as mãos sujas
pensou que era um velho estúpido
mais uma daquelas placas de mármore da praça
que puderam ser talhadas com melhor arte para conseguir um Davi
uma Vênus
ou outra deusa de seios sutis
e nádegas avultadas
porém em algum momento seu destino sofreu um desvio
sua divindade tropeçou no bico do formão
e com cada estalo sua pele foi esmigalhada
como um totem incapaz de profanar seu próprio culto.
Aquele revés se fez indelével
e com o passar do tempo teve que se conformar em ser
mais um bloco da pracinha ou
o ignorado detalhe
onde cagam os pombos.

II
Sentado
observou o asfixiar do dia no ocaso
e desejou guardar suas dúvidas
na felicidade de outros
no monte de palavras que ano a ano
nomeou como algo importante, quase urgente
o eterno espiral de perguntas
que talhou na memória de sua boca
a matutina barbárie de uma frase:
Você que me deu a palavra
agora só estorva minha língua
toda vez que a invoca.

 

Brecht entre clavellinas

I
Sentado y con las manos sucias

pensó que era un viejo estúpido
una más de aquellas losas de mármol de la plaza
que pudieron ser talladas con mejor arte para lograr un David
una Venus
u otra diosa de senos sutiles
y nalgas abultadas
pero en algún momento su destino sufrió un desvío
su divinidad tropezó en el pico del cincel
y con cada crujido su piel fue burilada
como un tótem incapaz de profanar su propio culto.
Aquel revés se hizo indeleble
y con el paso del tiempo tuvo que conformarse con ser
un bloque más de la plazuela o
el ignorado detalle
donde cagan las palomas.

II
Sentado

observó el asfixiar del día en el ocaso
y deseó guardar sus dudas
en la felicidad de otros
en la ruma de palabras que año a año
nombró como algo importante, casi urgente
el eterno espiral de preguntas
que talló en la memoria de su boca
la matutina barbarie de una frase:
Tú que me diste la palabra
ahora solo estorbas mi lengua
cada vez que la invocas.

§


Mirmillón: requiescat in pace

Sou apenas
uma das grades da tua prisão,
que observa como
com o passar do tempo,
teu rosto se desgasta e
se descasca
teu olhar.

Fui testemunha,
de como a folhagem vasta que eram tuas expressões
se enrugaram
e envelheceram
como um ancião
enquanto florescia o outono.

Tantos anos cativo
te deformaram o rosto.
Tua triste colheita
amadureceu e
nasceu,
entre aplausos e aclamações,
seca e sem nome.

 

Mirmillón: requiescat in pace

Solo soy
uno de los barrotes de tu prisión,
que observa cómo
con el correr del tiempo,
se desgasta tu rostro y
se descascara
tu mirada.

He sido testigo,
de cómo el follaje vasto que eran tus expresiones
se ha arrugado
y ha envejecido
como un anciano
mientras floreció el otoño.

Largos años cautivo
te han deformado el rostro.
Tu triste cosecha
ha madurado y
ha nacido,
entre aplausos y vítores,
seca y sin nombre.

***

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tradução

Claudia Lars, por Victor Hugo Turezo

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Claudia Lars, arte de Natii Escobar

Claudia Lars (1899—1974), pseudônimo de Margarita del Carmem Brannon Vega, nasceu em Armenia, em El Salvador.  Marcada por elementos líricos, sua poesia comprime a síntese de sua dor intocada. Certo apelo a uma angústia sutil e a morte permeiam seus principais poemas, e foi através destes motes que Lars exprimiu quase toda a sua obra.

Alguns de seus principais livros são Estrellas en el Pozo (1934) Canción redonda (1936) e Ciudad bajo mi voz (1947). Os poemas originais utilizados para a tradução aqui apresentada estão no livro Antología de la Poesía Hispanoamericana (Editorial ALBA, 2000), org. de José María Gómez Luque.

*

ESPEJO

En el espejo se perdió la niña de antes,
con sus siete caminos primaverales
y una estrella de lágrimas en el corazón.

El espejo come rostros
y tiempo.

Hoy aparece en su cristal una mujer estristecida.
Quizás también la muerte.
Pero a la muerte…, ¿quién la ve?

ESPELHO

No espelho desfez-se a menina de antes,
com seus sete caminhos primaveris
e uma estrela de lágrimas no coração.

O espelho come rostos
e tempo.

Hoje aparece em seu reflexo uma mulher entristecida.
Talvez também a morte.
Mas a morte… quem a vê?

 §

NIÑO DE AYER

Eras niño de niebla
casi en la nada;
nombre de mi sonrisa
detrás del alma.

Y era un barco dichoso
de tanto viaje
y un ángel marinero
bajo mi sangre.

Subías como el lirio,
como las algas;
en tu peso crecía
la madrugada.

Y alzando el aire joven
sus ademanes
ya marcaba tu fuerza
de vivos mástiles.

¡Prado de nieve limpia
bosque de llamas!…
Y tú, semilla dulce,
bien enterrada.

Escondido en mi pulso,
sin entregarte;
pulsando en los temores
de mi quién sabe.

Buscabas en mi pecho
bulto y palabra;
entre mis muertos ibas
buscando cara.

Salías de la torre
de las edades
y en las lunas futuras
dabas señales.

No crea que te cuento
cosas de fábula:
para que me comprendas
coge esta lágrima.

MENINO DE ONTEM

Era menino de névoa
quase no nada;
nome de minha graça
detrás da alma.

E era um barco amparado
de viagem constante
e um anjo marinheiro
sob meu sangue.

Subia como o lírio,
como as algas;
em teu peso crescia
a madrugada.

E alçando o ar jovem
suas infalibilidades
já marcava tua força
de vivos mastros.

Prado de neve limpa
bosque de chamas!…
E você, semente doce,
bem enterrada.

Escondido em meu pulso
sem te entregar
pulsando nos medos
de minha incerteza.

Buscava em meu peito
vulto e palavra;
entre meus mortos ia
buscando cara.

Saia da torre
das idades
e nas luas futuras
enunciava sinais.

Não acredite que te conto
coisas de fábula:
para me compreender
toma esta lágrima.

§

 PALABRAS DE LA NUEVA MUJER

Como abeja obstinada
exploro inefables reinos
que desconoces
y al entrar en la memoria de tu corazón
señalo parajes virginales.

¡Aquí la eternidad
modificando nuestro minuto!
No puedo ser abismo:
con la luz se hacen viñedos
y retamas.

Pertenezco a la desnudez
de mi lenguaje
y he quemado silencios y mentiras
sabiendo que transformo
la historia de las madres.

Mujer
Sólo mujer
¿Entiendes?
Ni pajarilla del necesario albergue,
ni alimento para deseosos animales,
ni bosque de campánulas donde el cielo se olvida
ni una hechicera con sus pequeños monstruos.

¡Oh poderes del hombre
alzando mutaciones
de frágiles rostros!
¡Oh esplendor oculto en mi santuario
ya bajo la excelencia
de íntimos ángeles!
¿Logra mi amor decirte
que busco un amante
con frente inmortal?

PALAVRAS DA NOVA MULHER

Como abelha obstinada
exploro inexprimíveis reinos
que você desconhece
e ao entrar na memória do teu coração
avisto paisagens virgens.

Aqui a eternidade
modificando nossos minutos!
Não posso ser abismo:
com a luz se formam vinhedos
e retamas*.

Pertenço à nudez
de minha linguagem
e queimei silêncios e mentiras
sabendo que transformo
a história das mães.

Mulher
Apenas mulher
Entende?
Nem víscera do necessário albergue,
nem alimento de desejosos animais,
nem bosque de campânulas onde o céu se deslembra
nem uma feiticeira com seus pequenos monstros.

Ó poderes do homem
alçando mutações
de frágeis rostos!
Ó esplendor oculto em meu santuário
já sob a excelência
de íntimos anjos!
Consegue meu amor te dizer
que busco um amante
com semblante imortal?

________________________________

*Planta baixa da família das papilionáceas, muito comum na Espanha

   *

Victor Hugo Turezo nasceu em Curitiba (Pr), em 1993. É poeta e tradutor. Lançou minha massa encefálica despenca como se de um desfiladeiro (Patuá, 2017). Traduziu, com Natália Agra, bosque musical (corsário-satã, 2018), plaquete com poemas de Alejandra Pizarnik.

***

Padrão
poesia, tradução

Fernanda Vivacqua, por Anelise Freitas

ferr

Fernanda Vivacqua nasceu no Rio de Janeiro, em 1992. Desde os anos 2000, vive em Juiz de Fora (MG), onde se formou em Letras-Português e, atualmente, conclui seu mestrado em Estudos Literários. Publicou o livro Maria Célia (Edições Macondo, 2016), reeditado esse ano com cinco poemas inéditos e em versão bilíngue (português-espanhol). Sua plaquete Para os homens que não amam as mulheres (Capiranhas do Parahybuna, 2018) e María Celia serão lançados no Brasil e na Argentina.

BREVE NOTA SOBRE “MARÍA CELIA”

Os poemas da Fernanda Vivacqua sempre me causaram aquela sensação de quando lemos um poema que parece um grande soco no estômago, porque ela ambienta seus versos em lugares que, em um primeiro momento, poderiam ser relacionados à calmaria. Entretanto, os espaços da casa e do quintal vão dando lugar à uma violência da linguagem, com versos longos e cavalgamentos que tiram o fôlego e promovem leituras inquietantes. Seus poemas mexem com o corpo e colocam esse corpo em perigo, como deve ser.

Dessa inquietação que os poemas causavam em meu corpo, surgiu a necessidade de traduzi-los. É isso que me move a traduzir um poema: como ele mexe com meu corpo e a curiosidade de saber como encontraria meu corpo em outra língua. A sinestesia do poema não é o suficiente, claro, porque a tradução envolve ler a contracapa do poema, compreender alguns mecanismos que nem mesmo quem o escreveu originalmente havia se dado conta.

Desde que comecei a aprender o espanhol, nutro um carinho pela variante rio-platense e depois de minha viagem à Argentina me senti mais à vontade para usá-la. Assim, optei pela variante rio-platense, não só pelo carinho espontâneo, mas porque é nessa variante que me comunico com as pessoas que eu amo, é com ela que me aproximo afetivamente da América Latina e seus corpos.

Anelise Freitas

 *

 POEMAS

 Para Babalu

DO BANCO DE TRÁS É SILENCIOSO

estática na ponte rio-niterói
o trânsito imerso
denso e pesado o trânsito
funda e funda
a guanabara
fede e você nem sente
do banco de trás
cai um tempo
uma pequena parede amarela
e aquela casa de bonecas
onde nada muda ou envelhece
só os móveis
que vão
e vem
como os carros depois do trânsito
desaguam na rio-niterói
depois do trânsito
você grita

para Babalu

 DESDE EL PUESTO DE ATRAS ES SILENCIOSO

estática en el puente rio-niteroi
el transito inmerso
denso y pesado del trafico
honda y honda
la guanabara
apesta y vos tampoco sentís
desde el puesto de atrás
cae el tiempo
una pequeña pared amarilla
y aquella casa de muñecas
donde nada cambia o envejece
solo los mobiles
que van
y vienen
como los coches después del trafico
desaguan en rio-niteroi
después del tráfico
gritás

§

 APRENDEMOS DA PEDRA E DO FEIJÃO

do tempo e da espera e
de quando em quando
a tempestade encruzilhada
o corpo estilhaçado e a dúvida
porque o que ensina destrói
constrói sobre destroços e reconstrói
com corpos despedaçados, aparentemente
despedaçados

quantos livros de poesia você já leu?
quantos poetas você chama de preferido?
eu vi uma redoma cercada de espinho
não havia pedras e o feijão era duro
e minha mãe é da cidade você não sabe
eu nem me lembro das canções de ninar
mas
quantos cantos ancestrais você já ouviu?
quantas vezes seu corpo vibrou e você soube
a corda da cítara não pode estar muito esticada
nem solta demais
é uma matemática ancestral que nos diz
dos cantos, da casa, dos cantos da casa
do feijão e do corpo quando se cata
pelo chão memória dos que pisaram
em um dia atrasado para o serviço público
mas

quando você disse ser poeta?
foi do feijão da barriga da mãe do batuque no quintal?
e eu não entro na redoma que pode ser apenas
um jardim sensorial, sentidos
dispersos corpos estilhaçados
mas quando o vento passa carrega
eu tenho memórias que me ensinam
porque elas não são palavras
porque elas caminham
pela minha mãe e sua vida urbana
pelas pedras portuguesas em terras
brasileiras
pelo feijão que fica não é de exportação
foi dela que aprendi e ela não dá respostas
como a palavra que não ensina
mas destrói e com os destroços
respondo,
dia a dia
não saber do vento
mas ele passa buracos abertos
marca o corpo que aprende
e reaprende
quando você disse não saber das coisas?
eu não sei e por isso não tenho medo
o prédio desabado não tem porque temer
a tempestade de amanhã

APRENDIMOS DE LA PIEDRA Y DEL POROTO

del tiempo de la espera y
de cuando en cuando la tempestad encrucijada
el cuerpo astillado y la duda
porque lo que enseña destruye
construye sobre destrozos y reconstruye
con los cuerpos despedazados, aparentemente
despedazados

¿cuántos libros de poesía vos leíste?
¿cuántos poetas vos llamás preferidos?
yo vi una redoma cercada de espino
no había hiedras y el frijol era duro
mi madre es de la ciudad vos no sabés
y ni me acuerdo de las canciones de cuna
pero
¿cuántas canciones ancestrales vos oíste?
¿cuántas veces su cuerpo vibró y vos supiste?
la soga de la cítara no puede estar muy estirada
ni muy suelta es un matemática ancestral la que nos dice
de los rincones, de la casa, de los rincones de la casa
del poroto y del cuerpo cuando se recoge
por el piso memoria de los que pisaron
en un día retrasado para el servicio publico
pero

¿cuándo vos dijiste ser poeta?
¿fue del frijol del vientre de tu madre del tambor en el patio?
y yo no entro en la redoma que pude ser solo
un patio sensorial, sentidos
dispersos cuerpos astillados
pero cuando el viento pasa lleva
yo tengo memorias que me enseñan
porque ellas no son palabras
porque ellas caminan
por mi madre y su vida urbana
por las piedras portuguesas en tierras
brasileñas
por el poroto que se queda no es para exportación

 fue de ella que aprendí y todavía no me contesta
como la palabra que no enseña
pero destruye y con los destrozos
contesto
día tras día
no saber del viento
pero él pasa agujeros abiertos
señala el cuerpo que aprende
y reaprende
¿cuándo vos dijiste no saber de las cosas?
no sé y por ello no tengo miedo
el edificio derrumbado no hay que temer
la tempestad de mañana

§

 SEUS DENTES PELOS MEUS DEDOS

fruto maduro esquartejado aos cubos
começo pela unha casca incerta
escalpelar cabeças de dedos
pelos seus dentes corre
um sorriso afiado a lâmina
afoita boca saliva a língua
como cortar tomates
o caldo quente entorna
limpa os nervos dedos em riste
o tempo entre a lâmina e a carne
os dedos separados da mão
pelos seus dentes escorre
o sangue da gengiva incrustrada
o corte exato de minhas extremidades
passeiam entre a tábua e a fome
a tudo dá sabor hoje
eu te dei meus dedos cortados
em pedaços miúdos cala
a boca aberta
é como cortar tomates
o fruto ácido

TUS DIENTES POR MIS DEDOS

fruto maduro descuartizado a los cubos
empiezo por la uña corteza incierta
escarapelar cabezas de dedos
por sus dientes corre
una sonrisa filosa la lámina
deseosa boca saliva la lengua
como cortar tomates
el caldo caliente se derrama
limpia los nervios dedos en ristre
el tiempo entre la lámina y la carne
los dedos separados de la mano
por tus dientes escurre
la sangre de la encía incrustada
el corte exacto de mis extremidades
pasean entre la tajo y el hambre
a todo da sabor hoy
yo te di mis dedos cortados
en pedazos cortos cierra
la boca abierta
es como cortar tomates
el fruto ácido

*

Anelise Freitas é poeta. Publicou Vaca contemplativa em terreno baldio (2011), O tal setembro (2013) e Pode ser que eu morra na volta (2015), e Sozé (2018). Atualmente se dedica à produção editorial, docência e a revisão, tradução e preparação de textos. Já apareceu com poemas aqui na escamandro.

***

 

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uma poema de nina rizzi

fredy alexandrakis

arte: fredy alexandrakis

‘nossa pele água toda
carne ossos pele
como coisa única

tenho um mapa nas pernas
poros que se coçam nas axilas e virilhas

e ainda mais um mapa linhas transparentes
verdes que me sobem da barriga até os braços

disseram que eu ame o meu corpo

era bom quando o conhecia
o sangue espesso e quente que me escorria

cada dorzinha absurda
em seu devido lugar

as festinhas que me fazia em êxtase
cantando um tanto louca o bliss o amor

agora cá dentro um bicho que me come
dizem mulher
digo Coralina

nome destino
sereia petrificada
água e coral

Coralina é toda mole
de tão mole chega a ser dura
como negação de seu ser toda água

toda água
cheia d’água Coralina

abraço-a
mas então é toda bicho
selvagem e rígida dói-me toda

até que sou também
esse imenso recife de corais
espelho d´água toda síndrome

cabelos e pelos caem
caem    caem    caem

penso numa deusa do milho
num verso que diga
“bonecas de milho afogadas
…………………………………. adeus”

enquanto uma agulha me vara a barriga
de fora adentro mordo as mãos da mulher
que me recita documentos e valores

e o essa é a vontade de deus
um deus de leis e vontades
que em mim se vinga

por uma eva e sua maçã
que jamais existiram

Coralina cresce
a água toda

eu espero
eu espero

a barreira de coral
se alarga
ela é uma sereia

feia?
bonita?

implacável com seu coração
de florezinhas petrificadas

meu corpo um mar desconhecido
furioso de nostalgias e quebrantos

es
go ta
men to
……………………………………. água-forte

o que é esta mulher?
o que é uma mulher?

me dissolvo lentamente
11 semanas
17 semanas

um homem diz
não mais que 20
já se vão 28

sou um experimento genético

um corpo que pertence ao estado
ao deus
à ciência
………………………………………… ao além

eu sei de cor
o esperar
o esperar

essa vontade que não é minha
e todo homem com seu eu te amo
e a cartinha contravenção

o eu te amo habeas-corpus
vindo assim da boca-
-documento sem tamanho

{eu te prendo
}eu me rendo

olha
Coralina
eu te amo

eu sei o bicho que me come dentro
eu sei eu sou uma mulher

[nina rizzi]

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Natasha Felix

2.

Natasha Felix nasceu em 1996 em Santos-SP. Publicou os zines anemonímia (2016) e j. não é um nome (selo manga, 2017) e mariana compra um dildo (2018). Tem textos publicados revistas físicas e digitais. Os poemas abaixo integram Use o alicate agora, seu livro de estreia.

*

MATERNIDADE

Rocamadour dorme como se não existisse.
pensar em Rocamadour é pensar em escamas de peixe.
quando a Maga pensa escamas de peixe pensa escama         de peixe
se ela pensa Rocamadour, por exemplo, enquanto amola
a faca,
não pensa
Rocamadour é meu filho, isso é uma faca, aquilo é um peixe.
se Maga pensa Rocamadour pensa meu peixe
é preciso tirar as escamas do peixe.

§

 

O ATIRADOR DE FACAS

em um primeiro momento
estranho o alvo ser qualquer coisa que não a cabeça.
depois é fácil conduzir a postura.

o atirador de facas sorri.
existe algo entre os seus sapatos e meus pés
que desconheço                   um nome quem sabe.

confio acima de tudo em seus erros.
meus dentes todos feito cães de apartamento
sossegam de repente.

alguém da plateia
grita eu me assusto
não me movo, espero.

o atirador de facas gosta de mim
porque sou quieta.

§

 

OUTRO TIPO DE OFERTA

a febre redobra suas forças.
me acena menos tímida do que fogo
de repente é isso.
ter pernas esse detalhe
tenho necessidades fundamentais.
por exemplo morder as
palmas das mãos
debaixo erguer o império.
não escrevo, não respiro, não
limpo as costas.
recolho os dentes te ofereço
meu sorriso mais indecente.

*

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Yasmin Nigri, 1 + 1

yasmin

Yasmin Nigri (1990), nasceu no Rio de Janeiro, é poeta, artista visual e mestre em Filosofia (UFF). Integra o coletivo Disk Musa. Participou da antologia 50 Poemas de Revolta (Cia da Letras, 2017) e é colaboradora da Revista Caliban. Seu livro de estreia, Bigornas, saiu em julho pela Editora 34. Mantém o canal Alokadostutoriais, onde, além de tutoriais divertidos, encontramos os textos aqui apresentados [aqui e aqui]; já apareceu aqui na escamandro com outros poemas.

*

Qual aviso

Alguns textos nós achamos difíceis de falar. Por isso nos tocamos tanto. Antes, em todo abraço, me sentia semelhante à árvore. Nos seus não penso em nada. Fora a infância e seus braços – limiares – é que penso infinitamente. Como hoje pensei no prazer dos inícios e reinícios. Você me disse, no carro onde nos olhamos verdadeiramente pela primeira vez: você não me assusta. Perdi o ônibus. Na rodoviária, uma da manhã, enrodilhado em mim, você esteve feliz, pois constatou que não abro mão do desejo. Apesar de amarga. Apesar de ferida. Reclamei do gosto que tem os seus excessos. Aprendi que para você os excessos são a afirmação da vida. Eu não gosto quando você assopra meus seios. Eu gosto quando você me acende uma ideia. Você não gosta da maestria. Você pensa o prazer enquanto experiência festiva. Eu penso em você quando penso em reinícios. Eu finjo sono para escapar da sua festa. Você diz que o amor é o local onde a felicidade se realiza. Que prazer e dor são indissociáveis. Eu prefiro dormir. Enquanto você acolhe fossas, ressacas, paixões… eu tento não pensar exageradamente na morte. Quando penso em você penso em inícios. Porque entre nós, mesmo que de natureza inexprimível, se abriu um lugar vazio onde sentimentos e palavras podem acontecer. Os encontros casuais são a matéria da vida. O amor é fácil como sentir culpa. É difícil como sentir culpa. Em qualquer parte do globo.

§

paranoica

que palavras foram essas
que trocamos
na nossa caminhada
e não se ligaram a nós
e não as ligamos a nada
alma frouxa cobra alada
cheiro seu silêncio
vou pra cama antes do tempo
é muito penoso estar acompanhada
de mim de coisa alguma assim
nisso vejo mal yasmin yasmin
e acordo à noite
em miséria metafísica
quando deus me tira a poesia
olho a dor, sinto a dor mesma
e fico farta da beleza
e fico péssima poeta
e me contenho de um jeito horrível
vigio o celular
posto stories
vigio os meus vigias
paranoica e no cio
embaixo da tela o nome dele
bajulo meu clitoris
o sono me vence e desmaio
no edredon fofinho
durmo sem medo
faca dentro da fronha
acordo forçada por uma lembrança
penso penso penso enquanto basta
mato as ideias até o café
me arrasto até o almoço
me escavo até a jantar
por falta dele ou do acerto de contas
penso
que resina
penso
que resina se apoderou daquela cabeça
penso
dedos mudos
penso
mente criminosa
concluo
agora mesmo ele se esconde
num meio-sorriso atávico
enquanto me espera

*

 

 

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