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Natasha Felix: Considerações sobre a higiene íntima – performance e tradução

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Considerações sobre a Higiene Íntima
é a mistura entre poemas do livro Use o Alicate Agora (ed. Macondo, 2018), de Natasha Felix, e o beat instrumental Black Skinhead, de Kanye West.
      Apresentada pela primeira vez no Macrofonia (São Paulo), a performance já passou por saraus e festas, como a Joga a PPK na Mesa e o Festival ELA (Santos).
      Agora, em parceria com o músico Barulhista e a agenciachaos, ela existe também em vídeo-poema, trazendo a interssecção entre a literatura, a dança, o audiovisual e o hip hop.
Apresentamos na escamandro além do vídeo-poema, duas traduções para o poema que deu origem à performance, uma inglês de Adi Gold, e uma espanhol de Sergio Ernesto Ríos.
*
Considerações sobre a Higiene Íntima

nunca conheci quem tivesse cabeça limpa
aliás os poucos que conheci
e talvez tivessem cabeça limpa
prestavam menos do que suspeitavam

sempre preferi aqueles cheios de bichos
escândalos baldeando de orelha a orelha

quem quebra copos
quem sabe o erro
toma para si o erro
segura escova gargareja
não cospe

testemunha perfeita do crime perfeito
quem sabe o erro assim
me inspira muita confiança mesmo

(reconhecer quem não tem cabeça limpa
alimentá-los, ser boa para eles)

olhei o tapete do banheiro sem medo dessa vez
todo um ecossistema lá
quem acreditaria?

ácaros mofo manchas de vinho
os meus joelhos nele
lembra?

os cotovelos no vaso sanitário a sua
língua entre as bandas da minha bunda
a gente ria feito duas cabras
era feriado ou algo assim
você atrasado pra uma festa ou algo assim
o azulejo português ou algo assim
quem acreditaria?
o fim do mundo ali vivendo entre
animaizinhos minúsculos lembretes
manchas impossíveis
lá bem ali

ácaro, mofo, manchas de vinho
eu nunca conheci quem tivesse cabeça limpa (x2)

eu saio do banheiro cada vez mais suja
cada vez mais suja (x4)

penso que esquecer é fácil, então eu esqueço.

ácaro, mofo, manchas de vinho
os meus joelhos nele
azulejos, o vazo sanitário, a sua língua
ácaro, mofo, eu nunca conheci
eu nunca conheci quem tivesse cabeça limpa
ácaro, mofo, manchas de vinho

olha, você pode até ser um homem piedoso
só eu não sou piedosa.

On personal hygiene
tradução Adi Gold 

nobody I ever knew had a clean head
and the few I knew 
who maybe did 
were not as great as they thought

I’ve always preferred heads crawling with creatures
(scandals stretching from ear to ear) 
those who break cups 
who can tell a mistake
take the mistake for themselves 
grasp the toothbrush gargle
don’t spit 

a perfect witness to the perfect crime
those who know the mistake 
make me trust them

(recognize those without a clean 
head feed them, be kind to them)

I looked at the bath mat now fearless
a whole ecocystem there. 
who would believe it? 

mites mold wine stains 
my knees on it 
remember?

elbows on the toilet your
tongue in my ass 
we laughed like two goats
it was a holiday or something
you were late to a party or something 
the portuguese tiles or something 
who would believe it? 

the end of the world there among
miniscule creatures reminders
impossible stains
there, right there 

mites mold wine stains 
nobody I ever knew had a clean head (x2)

I get out of the shower dirtier and dirtier 
dirtier and dirtier (x4)

I think forgetting is easy and so I forget

mites mold wine stains 
my knees on it
tiles, toilet, your tongue
mites mold nobody I ever knew
nobody I ever knew had a clean head
mites mold wine stains 

look, you might even be a rightous man
I’m the one who isn’t rightous 

Consideraciones sobre la higiene íntima
tradução Sergio Ernesto Ríos

Nunca conocí a alguien que tuviera la cabeza limpia
además a los pocos que conocí
y tal vez tuvieran la cabeza limpia
ofrecían menos de lo que sospechaban

siempre preferí a aquellos repletos de alimañas
escándalos pasando de oreja a oreja

quien rompe vasos
quien sabe el error
toma para sí el error
toma el cepillo cepilla hace gárgaras
no escupe

testimonio perfecto del crimen perfecto
quien sabe el error entonces
me inspira mucha confianza realmente

(reconocer a quien no tiene la cabeza limpia
alimentarlos, ser buena con ellos)

miré el tapete del baño sin miedo por esta vez t
odo un ecosistema allí
¿quién lo creería?
ácaros moho manchas de vino
mis rodillas sobre él
¿recuerdas?

los codos sobre la taza del baño y tu
lengua entre los costados de mi culo
la gente reía vuelta loca
era feriado o algo así
tu atrasado para una fiesta o algo así
el azulejo portugués o algo así
¿quién lo creería?
el fin del mundo ahí viviendo entre
animalitos minúsculos recordatorios
manchas imposibles
allí, justo ahí

ácaro, moho, manchas de vino
nunca conocí a alguien que tuviera la cabeza limpia
salgo del baño cada vez más sucia
cada vez más sucia

pienso que olvidar es fácil, entonces olvido.

ácaro, moho, manchas de vino
mis rodillas sobre él
azulejos, la taza del baño, tu lengua
ácaro, moho, nunca conocí nunca conocí
a alguien que tuviera la cabeza limpia
ácaro, moho, manchas de vino
mira, hasta puedes ser un hombre piadoso
sólo yo no soy piadosa

*

FICHA TÉCNICA
 
direção: chaos prod. musical: barulhista poema: natasha felix performance: gabriel antonio mariano estilo: pedro bala e zé mariano
A música-poema também pode ouvir o poema no Spotify.
*
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Yusef Komunyakaa, por Viviane Nogueira

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Yusef Komunyakaa é um poeta e professor estadunidense nascido em Bogalusa, Louisiana, em 1947. Durante os anos de 1969 e 1970 Komunyakaa serviu na Guerra do Vietnã como correspondente, e posteriormente como editor, do jornal militar The Southern Cross.  Após o serviço militar estudou na Universidade do Colorado, Colorado Springs. Komunyakaa obteve seu Master in Arts em Escrita pela Colorado State University (1978) e um Master in Fine Arts em Escrita Criativa pela Universidade da Califórnia (1980). Ensinou poesia no sistema escolar público de Nova Orleans e escrita criativa na Universidade de Nova Orleans, na Universidade de Indiana. Em 1997 se tornou professor de inglês na Universidade de Princeton. Yusef Komunyakaa é professor do Programa de Escrita Criativa da Universidade de Nova York.

Em seus poemas trabalha através de uma narrativa autobiográfica temas como raça, guerra e jazz. Recebeu em 1994 o Pullitzer pelo livro Neon Vernacular: New and Selected Poems (1994), e entre outros prêmios, o Ruth Lilly Poetry Prize (2001), o Shelley Memorial Award da Poetry Society of America (2004), e o Wallace Stevens Award da Academy of American Poets (2011). Entre suas obras estão os livros: Dedications & Other Darkhorses (1977); Lost in the Bonewheel Factory (1979);  I Apologize for the Eyes in My Head (1986); Dien Cai Dau (1988), Warhorses (2008); Taboo: The Wishbone Trilogy, Part 1 (2006); Pleasure Dome: New & Collected Poems, 1975-1999(2001); Talking Dirty to the Gods (2000); and Thieves of Paradise (1998). Suas coletâneas de poesia mais recentes incluem The Chameleon Couch (2011);  Testimony: A Tribute to Charlie Parker (2013) e Emperor of Water Clocks (2015).

Agradeço a Ana Rusche, Francesca Cricellli e Maíra Mendes Galvão pelas revisões e pelo incentivo.

Viviane Nogueira

*

We Never Know

He danced with tall grass
for a moment, like he was swaying
with a woman. Our gun barrels
glowed white-hot.
When I got to him,
a blue halo
of flies had already claimed him.
I pulled the crumbed photograph
from his fingers.
There’s no other way
to say this: I fell in love.
The morning cleared again,
except for a distant mortar
& somewhere choppers taking off.
I slid the wallet into his pocket
& turned him over, so he wouldn’t be
kissing the ground

Nunca sabemos

Ele dançou com o capim alto
por um momento, como se bailasse
com uma mulher. O cano de nossas armas
brilhou incandescente.
Quando o encontrei,
uma auréola azul
de moscas já lhe reivindicava.
Puxei a fotografia amarrotada
de seus dedos.
Não há outro jeito
de dizer isso: me apaixonei.
A manhã clareou novamente,
exceto por um morteiro distante
& helicópteros alçando voo em algum lugar.
Deslizei a carteira para dentro de seu bolso
& o virei para cima, para que não
beijasse mais o chão.

§

 

You And I Are Disappearing–Bjorn Hakansson

The cry I bring down from the hills
belongs to a girl still burning
inside my head. At daybreak

she burns like a piece of paper.

She burns like foxfire
in a thigh-shaped valley.
A skirt of flames
dances around her
at dusk.

We stand with our hands

hanging at our sides,
while she burns
like a sack of dry ice.

She burns like oil on water.
She burns like a cattail torch
dipped in gasoline.
She glows like the fat tip
of a banker’s cigar,

silent as quicksilver.

A tiger under a rainbow
    at nightfall.
She burns like a shot glass of vodka.
She burns like a field of poppies
at the edge of a rain forest.
She rises like dragonsmoke
    to my nostrils.
She burns like a burning bush
driven by a godawful wind.

Você e eu estamos desaparecendo

O lamento que eu trago das colinas
pertence a uma garota que ainda queima
em minha cabeça. No romper do dia

ela queima como um pedaço de papel

queima fogo-fátuo
num vale em forma de coxa
Uma saia de chamas
dança ao seu redor
no cair da noite.

Ficamos com as mãos

soltas ao lado do corpo
enquanto ela queima
como um saco de gelo seco.

Queima como óleo na água.
Queima como uma tocha de taboa
mergulhada em gasolina.
Ela brilha como a ponta grossa
do charuto de um banqueiro,

silenciosa como mercúrio.
Um tigre sob o arco-íris
no anoitecer.
Ela queima como um shot de vodka.
Queima como um campo de papoulas
na borda de uma floresta tropical.
Se ergue como fumaça de dragão
até minhas narinas.
Ela queima como sarça ardente
movida por um vento de merda

§

Believing In Iron

The hills my brothers & I created
never balanced, & it took years
To discover how the world worked.
We could look at a tree of blackbirds
& tell you how many were there,
But with the scrap dealer
Our math was always off.
Weeks of lifting & grunting
Never added up to much,
But we couldn’t stop
Believing in iron.
Abandoned trucks & cars
Were held to the ground
By thick, nostalgic fingers of vines
Strong as a dozen sharecroppers.
We’d return with our wheelbarrow
Groaning under a new load,
Yet tiger lilies lived better
In their languid, August domain.
Among paper & Coke bottles
Foundry smoke erased sunsets,
& we couldn’t believe iron
Left men bent so close to the earth

As if the ore under their breath
Weighed down the gray sky.
Sometimes I dreamt how our hills
Washed into a sea of metal,
How it all became an anchor
For a warship or bomber
Out over trees with blooms
Too red to look at.

Acreditar no Ferro

Os montes que meus irmãos & eu criamos
Nunca fecharam as contas & foram anos
para descobrir como o mundo funciona.
Podíamos olhar para uma árvore de melros-pretos
& lhe dizer quantos estavam lá,
Mas com o homem do ferro velho
Nossas contas estavam sempre erradas.
Semanas levantando & grunhindo
Nunca rendiam muito,
Mas não podíamos parar de
Acreditar no ferro.
Caminhões & carros abandonados
Depostos no chão
Por dedos grossos e nostálgicos de trepadeiras
Fortes como uma dúzia de meeiros.
Voltávamos com nosso carrinho de mão
Gemendo debaixo de uma nova carga,
Ainda que os lírios vivessem melhor
Em seu lânguido domínio de agosto.
Entre papel & garrafas de Coca-cola
A névoa das chaminés apagava poentes,
& não podíamos crer que o ferro
deixava os homens tão perto do chão
Como se o minério em seu fôlego
Rebaixasse o céu cinzento.
Às vezes sonhava com nossos montes
Desaguando um mar de metal,
Como tudo isso se fez âncora
Para um navio de guerra ou bombardeiro
Por cima de árvores em flor
Rubras demais para serem olhadas.

§

Instructions for Building Straw Huts         

First you must have
unbelievable faith in water,
in women dancing like hands playing harps
for straw to grow stalks of fire.
You must understand the year
that begins with your hands tied
behind your back,
worship of dark totems
weighed down with night birds that shift their weight
& leave holes in the sky. You must know
what’s behind the shadow of a treadmill—
its window the moon’s reflection
& silent season reaching
into red sunlight hills.
You must know the hard science
of building walls that sway with summer storms.
Locking arms to a frame of air, frame of oak
rooted to ancient ground
where the door’s constructed last,
just wide enough for two lovers
to enter on hands & knees.
You must dance
the weaverbird’s song
for mending water & light
with straw, earth, mind, bright loom of grain
untortured by bushels of thorns.

Instruções para Construir Cabanas de Palha

Há de se ter
uma fé inabalável na água,
nas mulheres que dançam como mãos tocam harpas
para que da palha cresçam hastes de fogo.
Há de se entender o ano
que começa com tuas mãos presas
às costas,
adoração de entidades sombrias
sobrecarregadas com aves noturnas que mudam de peso
& deixam buracos no céu. Há de se saber
o que está atrás da sombra de uma moenda —
sua janela o reflexo da lua
& a estação silenciosa alcançando
as colinas do sol vermelho.
Há de se saber a ciência exata
de construir paredes que balançam com as tempestades de  verão.
Encerrar os braços numa moldura de ar, de madeira
enraizada em solo antigo
onde a porta é construída por último,
com a largura exata para que dois amantes
entrem de joelhos & mãos.
Há de se dançar
o canto dos tecelões
para remendar água & luz
com palha, terra, mente, tear brilhante de grãos
sem a tormenta de alqueires de espinho.

§

Viviane Nogueira tem 24 anos, é poeta, bacharela em psicologia pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo. É mediadora do clube de leitura Leia Mulheres Osasco e autora da plaquete Onde estão os holofotes da tragédia (2018, com ilustrações de Steffano Lucchini) e do livro Uma casa se amarra pelo teto (Edições Macondo, 2019).

*

 

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Ensaio Poético Amoroso, por Mariana Basílio

mariana basilio

Mariana Basílio (Bauru – São Paulo, 198). Prosadora, poeta, ensaísta e tradutora. Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Autora dos livros de poesia Nepente (2015), Sombras & Luzes (2016), e Tríptico Vital (Patuá, 2018. Prêmio ProAC 2017, Finalista Residência Literária Sesc 2018, Finalista Prêmio Guarulhos 2019). Colabora em portais e revistas nacionais e internacionais, tendo traduzido nomes como May Swenson, Alejandra Pizarnik, Edna St. Vincent Millay, Sylvia Plath e William Carlos Williams. É também autora das plaquetes de poemas, As Três Mal-Amadas (Kizumba Edições, 2018), e As Mãos que Ressoam o Absurdo (edição artesanal, 2019). Com patrocínio do prêmio ProAC 2019, do Governo de São Paulo, publicará em 2020 seu quarto livro de poesia, Mácula (Patuá). Mantém o site http://www.marianabasilio.com.br.

*

O poema apresentado, nomeado como um pequeno ensaio poético amoroso, foi escrito em junho de 2019 quando eu enfrentava o final da minha primeira gestação, do filho Ulisses. A partir da experiência imagética do curta-metragem As Mãos Negativas (1979), de Marguerite Duras, resolvi pensar o amor de uma forma híbrida, histórica, e passível de genéricas sensações. As duas realidades, filme e filho, sobrepostas em minhas mãos inchadas pelo sangue quase duplicado no organismo, me fizeram tecer esses versos até agora inéditos, que passam então a poema publicado por aqui – onde sou sempre carinhosamente acolhida por outra inspiração dos dias, Nina Rizzi. Gracias a quem me lê nesse instante.

“Toda uma geração passou por mim como por sombras.”

Anna Akhmátova

1

Só o mistério faz viver e morrer.
Humanos, nas superfícies terrenas.
Acima das cordilheiras, eles são
os que chegam, mas não me encontram.
Os que aguardo, mas se despedem.

As coisas discretas, adoráveis, sensíveis:
as mãos negativas, azuis, impressas,
esparramam-se nas cavernas madalenianas –
as mãos sobre as paredes, intactas,
redescobertas em um crescente borrão.

Ser o tempo, de frente ao oceano,
acima do granito, com os olhos abertos
sustentando o nu da minha desolação.
De frente ao oceano, onde as outras
mãos ultrapassam o cerne do oxigênio.

Uma mulher, só, no interior da caverna,
há trinta mil anos anseia por mapas,
por uma única rota, uma cama inútil –
em que não fariam de si um culto, mas um
assombro, desacelerando promessas irrevogáveis.

Talvez haja nela um eu, dentro do eu, gritando:
Eu te amo.
– Amo a possibilidade de que me ouçam.
Eu te amo.
Ela olha para o abismo do próprio estômago.
As lascas dos dedos pelo vão da janela.
Os miolos da memória, sempre impossíveis.

Trinta mil anos mais tarde, grito:
Eu te amo.
– Amo o que não se evade nos registros da escuridão.

A refração da manhã, olho sobre os ombros.
A planta do vaso salta o movimento, silêncio.
Prima da morte, e da morte vencedora, grito.

O pranto devorando o breu do meu sangue –
um peso líquido golpeia o mesmo instante –
porque encostei minha face na face da noite,
mas ainda era muito tarde. O pranto.

O amor, em carne, as mãos trêmulas pela
frieza condensada do mármore, saudavam
orações aos que se permitiam amar.

Devoto do nada, por mapas e por correntes,
rastejava para fora dos meus olhos inertes.
Lágrimas ainda nos seguiam, submersas:
Eu te amo.
Ela gritava – para que a vida não padecesse antes
do fim, e por fora da morte, dissecando a lonjura
milenar dos que o viviam como nós.
Eu te amo.
Como os traços peregrinos das nuvens,
o vazio dos homens e das mulheres
derramado nas folhagens dos vãos do vento.

Mas ergo as pálpebras, e tudo volta a renascer.

2

Até acontecer a possibilidade de amar o todo,
aquele formado dentro do próprio amor,
de onde me despeço da vagueza cotidiana.

Há uma aura condensada na umidade.
Assim, ela ainda grita:
Eu te amo.

Indefinidos traços restabelecem o presente:
a leveza do insustentável, a pronúncia do toque –
eu amo os padecidos sobre o escoro da vida.

Uma mulher de sombras, as mãos azuis
descascadas na pedra – sina de
todo primeiro erro – nós.
Ser rarefeito, desejar, tecer.

As maneiras distintas, atentas, perfeitas –
por mapas, um respiro, primeiro e último,
há trinta mil anos. Você. Que me lê.
Eu te amo.
Como um borrão, eu, alguém.

A urdidura da palavra reinventada.

3

Visão das ruas desconhecidas, por dentro de
um lentíssimo automóvel: desperto às 5h.
Mais azul. Sem fim.

– A imensidão das coisas dá em mim uma força
inesperada, como as mãos com que grito. Você.
A face incompreendida de mim.
No centro do granito, deitada. Você.

Ser o tempo, de frente ao oceano. Sobreviver.

Descendo do medo, eu gritava pelo obscuro das ruas
que avançava, e alcançava a mesma caverna primária.
Cesarée: tudo se choca. Interior, como em Guernica.
Um farol dentro das veias é que me guiava.

O grito, no fundo dos sacos de lixo e dos
mesmos passantes, unidos ao amanhecer.
O automóvel resistindo à curva, ainda.
Eu te chamo, querendo mais das respostas.
Tarde demais. Há trinta mil anos.
Eu te amo.
Fundando o mundo dos desvios e das tecnologias,
e das árvores que não se desmembram. Você.

Eu, dentro do eu, o oceano ainda – o volume
das linhas dos mapas e das palmas – “La Paix”
os automóveis ultrapassam o sinal verde.

Eu, ela, insisto em resistência e extensão.
Uma identidade, de amor sobreposto –
as lâmpadas iluminando a passagem, pois o
dia se estende, mas terminará, por cima das
florestas que nos elucidam, nas esquinas
nomeadas humanas, de amor inverso. Você.
Eu te amo.

Com incensos de anis-estrelado, respiro melhor
no vento soprado pelo velho continente, que,
pelo fogo, naufraga no mesmo borrão. Tudo.

Na ausência constante da essência e da
coragem das coisas inexatas. Ainda que.
Eu te amo.

Eu teria dito. Há trinta mil anos, eu te clamo.
E sou aquela que eu quero amar, de frente ao
mar: um espectro branco de estátua altiva.
Eu te amo.

Um caminhão vermelho desvia do automóvel.
Quase.
As mãos azuis, extensões das feridas imóveis,
inevitáveis, parecem se despedir das córneas.

4

Há trinta mil anos eu penso em um novo tipo de
renascimento, pela fuga retilínea do sol.

*

 

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Heleine Fernandes

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Heleine Fernandes é mulher preta, poeta, professora. Nascida e criada na Rocinha, é doutora em Teoria Literária pela UFRJ, com tese sobre a poesia produzida por poetas negras contemporâneas e o combate ao epistemicídio. Tem poemas publicados no site “Mulheres que escrevem”, na antologia Cult #1 e na antologia “Ato poético”, da editora Oficina Rachel. Seu primeiro livro de poemas, “Nascente”, está previsto para o primeiro semestre de 2020.

*

ouroboros

entre dois dedos
meu clitóris
me devolve
meu corpo inteiro
§

socorro

aprendi a gargalhar com ela.
o som que faz as pessoas me reconhecerem
de longe
é uma assinatura vocal dela
de quem meus músculos recordam
e rendem homenagem.
ela sim
soltava boas gargalhadas insanas
onde quer que estivesse
e tirava à força
quem quer que fosse
da indiferença.
sua gargalhada era quente
minha avó borbulhava
e ficava com os seios nus
a boca vermelha aberta
toda entregue à vocalização
toda ela coberta
de vermelho e ouro
transfigurada.
§

Coiffeur

quando eu era criança
acompanhava minha mãe
em suas idas ao cabeleireiro.
eram os anos 80
e os salões pobres chamavam
coiffeur.
posso organizar minha infância
pelos diferentes coiffeurs de minha mãe.
para todos
as mesmas regras:
minha mãe só confiava em travestis
e sempre cortava o cabelo joãozinho.
§

elegbara

abria as portas do meu corpo
fumaça cheirosa.
Eu entrava
na casa dos meus avós paternos
e encarava a carranca
boca escancarada
os dentes e a língua
diziam-me: “é tudo mentira”.
eu ficava sem chão
posta à prova.
ela me engolia
como a um ovo cru
quebrado em um copo de geleia.
me deglutiu diversas vezes
divertida com a minha inexperiência.
submetida a este treino
sobrevivi à infância.

*

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Ricardo Escudeiro

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Ricardo Escudeiro (Santo André-SP, 1984) é (ex) metalúrgico e (ex) professor. Autor dos livros de poemas “a implantação de um trauma e seu sucesso” (Editora Patuá/Editora Fractal, 2019), “rachar átomos e depois” (Editora Patuá, 2016) e “tempo espaço re tratos” (Editora Patuá, 2014). Atua como editor na Fractal e na Patuá. Idealizou e montou, em parceira com o artista Leonardo Mathias, o work in progress “A mecânica do livro no espaço”, dividido em três temporadas. Possui publicações em mídias digitais e impressas: Germina, Jornal RelevO, Revista 7faces, Mallarmargens, Flanzine (Portugal), Enfermaria 6 (Portugal), Tlön (Portugal), LiteraturaBR, Diversos Afins, Ruído Manifesto, Arribação, entre outras. Publicou mensalmente, entre 2014-2016, poemas na Revista Soletras, de Moçambique e já apareceu aqui na escamandro algumas vezes.

*

a cicatriz de logan

“Uma alma triste mata mais depressa do que um germe.”
(John Steinbeck apud Hershel Greene)

os leitores da hq lembrar-se-ão sem dúvida
de quando imaginavam a existência de um ser humano
esse tipo de bicho
que tinha todos os sentidos mais aguçados
todas as capacidades físicas aprimoradas
que tinha uma habilidade regenerativa descomunal
era capaz de reparar quase instantaneamente todo
e qualquer tipo de injúria física sofrida
que tinha os ossos de alguma forma
feitos ou revestidos cirurgicamente
de uma espécie de metal praticamente indestrutível
a esse bicho modificado a esse ser humano
tão diferente dos outros de que sabíamos
chamávamos imortal
maquinando
dentro dessa nossa natureza imaginativa
pensando quem ou o quê seria capaz
de matar algo ou alguém desse tipo

provavelmente dedos apontando tempestades
preveriam

ei
você não contrairá as doenças das massas
pra você nada de contágio
caminhará livre entre as epidemias
aprenderá outros meios e outras formas de compartir
das chagas que o mundo partilha das chagas
de destruição maciça
presenciará o dia em que seremos algumas das pragas
em outros destinos
estará muito vivo
quando levarmos acidentes de carros pra lua
quando chacinarmos as fés de índios de outros mundos
quando o último urso polar se enforcar
numa célula de isolamento
quando juntarmos os refugiados do clima
em torno dos presépios pós modernos
enfrentará quando anunciarem que purificação é o caminho
e ordenarem a incineração do ar sob a justificativa
de quem sem tê-lo jamais tocado diz que o fogo
é indolor e é limpo e é rápido
e mais
você não sentirá como uma perda irreparável
o terminar de cada dia
e na tristeza de cada vez que enterrar um amigo x
encontrará uma tristeza que todo dia
ao acordar vai dizer consigo
descanse em paz
você ainda tem tempo

mas há um defeito no metal
como na areia violada a que erroneamente
chamam vidro
e assim como uns anjos empurram
uma ou outra mazela
as garras que saiam das mãos vão desistindo
sabem agora mais que a carne irreparável
e vai sumindo aquilo que fizeram desse bicho
é um fóssil que caminha mas não crava
mais pegadas nem armas no vale
minérios e carne costurados um no outro
pelo sangue e pelas intempéries
finalmente depois de tanto tempo o encontro
das nuvens pesadas de fora com as de dentro

então essa é a sensação

deve ter pensado enquanto uma lágrima sozinha
inaugura esse rosto velho mas quase intacto

e morreu
segurando o próprio coração
como previsto
há um defeito no metal e seu nome é chuva
§

superstição

Novos usos para o quarto de empregada

A cozinha, antes pequena, acabava no balcão que hoje divide o espaço.
A dependência de empregada virou uma sala de almoço
para atender ao desejo principal da família:
viver a simplicidade de outros tempos,
quando pais e filhos eram mais unidos.
Lá, eles fazem as refeições juntos, sem outras distrações.

(Revista Casa e Jardim, 19/07/2016)

encher uma boca de espelhos e soprar em outra
adentro adentro
mascar um vidro limpo tão limpo
que fode com qualquer fada dos dentes
que destitui cada um dos apóstolos que nos nascem
nas gengivas superiores e inferiores
acorda
acorda aí do devaneio com a lembrança um pouco alta
da conversa doutro dia
da patroa com o patrão

linhas de diálogos entrecortados

ralar ralar ao redor do fogo e nunca
cear ao redor da mesa é a sina
e é a sina da mão que opera da mão que maneja
da mão que põe a ceia
arear tão bem as louças de deixar refletindo
igual na lembrança
um rosto tão morto quanto na outra imagem
de uma panela outra
já surrada e vazia
em cima de peças inox envelhecidas
em bocas de fogões apagadas
e pensa onde botar pra ferver ou o quê
e não cessa a angústia
essa angústia calada de saber às vezes os pra quês
acorda aí com a lembrança um pouco alta
o som do estilhaço cortando outro devaneio
e pensa em como também não fica muito claro
quais os trejeitos
diferentes mas interligados que acionamos
ao quebrar uma xícara um copo um prato
um espelhinho
ora em casa nossa ora em casa doutros
e que nada tem que ver com os trejeitos
da conversa doutro dia
da patroa com o patrão

ela não vem trabalhar essa próxima semana
parece que a filha pequena adoeceu
a tristeza
essa nossa
é assim imensa porque a dor
assim como ela
é quase da família

joga o ar da boca no vidro da janela
e escreve com o dedo um carinho
contra esses dias nublados e enfermos
acorda
acorda aí do devaneio com o som
de algo a respeito dessa angústia de não saber
como é que vai prover o sustento da pequena
cala cala estrelinha
dorme
dorme amanhã é outro dia
§

avada kedavra

“Warlock: Por que é que você me trouxe aqui?
Zamiel/Canalizadora: Para que reúna
aquilo que foi tripartido.”

e disse não pronunciarás nunca o título
gênese como quem diz

ruína

e se na história
mas e se na história hein
o mundo
existe só
pra se acabar no fim
pra se acabar num tríptico

eu crio enquanto falo

uma queda
bonita

*

Padrão
poesia, tradução

Três poemas uterinos de Anne Sexton, por Mariana Basílio

anne sexton

Anne Sexton (1928 – 1974) é uma das mais celebradas poetas estadunidenses do século XX. Autora de mais de 10 livros de poesia e prosa, venceu o Prêmio Pulitzer de Poesia em 1967. A vida de Sexton foi marcada por sua luta contra a depressão. Ela começou a escrever na década de 1950, incentivada pelo seu analista. Os temas de seus poemas incluem sua longa batalha contra a depressão e as tentativas de suicídio, detalhes de sua vida pessoal, filhos, temas feministas e intimistas – como a questão uterina para vida da mulher, o aborto, a masturbação. Anne também colaborou com músicos, formando um grupo de jazz chamado Her Kind (título de um dos seus poemas), que adicionava música à sua poesia. Em prosa, sua peça teatral Mercy Street foi produzida em 1969, e inspirou uma canção homônima de Peter Gabriel.

Ela decidiu morrer em 4 de outubro de 1974, após um almoço ao lado da amiga Maxine Kumin, quando revisavam o manuscrito de The Awful Rowing Toward God, que seria publicado em março de 1975.

Sua obra também inclui livros como:  To Bedlam and Part Way Back (1960), All My Pretty Ones (1962), Live or Die (1966), Love Poems (1969), Mercy Street (1969), Transformations (1971), The Book of Folly (1972), The Death Notebooks (1974).

Para minha tradução da poesia completa de Anne Sexton, trabalho iniciado em 2017,  procuro sempre um equilíbrio entre seus versos livres, observando a força dos seus vocábulos e metáforas, e quesitos como métrica e ritmo, focando sobretudo no sentido de sua poesia, na fluidez e densidade dessa poesia confessional, procurando manter as surpresas e as sutilezas dos seus versos na língua portuguesa, acompanhando a essência de Sexton: uma poesia híbrida, moderna, fluente, densa, intimista, potente – repleta de reflexões sociais e  pessoais – em movimentos que ultrapassam seu tempo, e que a tornaram uma das vozes mais ilustres da poesia americana do século XX.

Para esta colaboração, apresento uma tríade de poemas inéditos na escamandro, os famosos poemas The abortion, Menstruation at forty, e In Celebration of My Uterus. Um tema que é contínuo em seus livros, uma unidade importante da poesia de Sexton, é a reflexão das dimensões da mulher em seu papel gerativo, na vida que ela escolhe e não escolhe viver, estar e representar, e se emancipar.

Anteriormente, a autora apareceu pela primeira vez no escamandro em 2014, em apresentação de Adriano Scandolara para uma tradução de Bernardo Beledeli Perin, e reapareceu neste blog anos mais tarde em outros três poemas traduzidos por Beatriz Regina Guimarães Barboza, escolhidos do final de sua trajetória.

Espero assim, com esta nova contribuição, colaborar para o aumento do seu reconhecimento pelo público lusófono e brasileiro.

Mariana Basílio

*

O aborto

Alguém que deveria ter nascido
se foi.

Assim como a terra sua boca enrugou,
cada botão inchado de seu nó,
eu troquei meus sapatos, e dirigi para o sul.

Passando pelas Montanhas Blue, vê-se a
Pensilvânia se curvando infinitamente,
vestindo, como um gato de giz de cera, seu pelo verde,

suas estradas afundadas como uma tábua de lavar cinzenta;
onde, na verdade, o chão racha malignamente,
uma tomada escura de onde o carvão foi se vertendo,

Alguém que deveria ter nascido
se foi.

a grama como uma cebolinha eriçada e robusta,
e eu me perguntando quando o chão se quebraria,
e eu me perguntando como algo frágil perdura;

lá na Pensilvânia, eu conheci um homem pequenino,
não Rumpelstiltskin, mesmo, mesmo…
ele tomou a plenitude que o amor deu início.

Voltando ao norte, até o céu se tornou tão fino
como uma alta janela olhando para lugar nenhum.
A estrada era tão plana, como um papel alumínio.

Alguém que deveria ter nascido
se foi.

Sim, mulher, tal lógica irá levar
à perda sem morte. Ou diga o que você quis dizer,
sua covarde… esse bebê a me sangrar.

 

The abortion

Somebody who should have been born
is gone.

Just as the earth puckered its mouth,
each bud puffing out from its knot,
I changed my shoes, and then drove south.

Up past the Blue Mountains, where
Pennsylvania humps on endlessly,
wearing, like a crayoned cat, its green hair,

its roads sunken in like a gray washboard;
where, in truth, the ground cracks evilly,
a dark socket from which the coal has poured,

Somebody who should have been born
is gone.

the grass as bristly and stout as chives,
and me wondering when the ground would break,
and me wondering how anything fragile survives;

up in Pennsylvania, I met a little man,
not Rumpelstiltskin, at all, at all…
he took the fullness that love began.

Returning north, even the sky grew thin
like a high window looking nowhere.
The road was as flat as a sheet of tin.

Somebody who should have been born
is gone.

Yes, woman, such logic will lead
to loss without death. Or say what you meant,
you coward… this baby that I bleed.

§
Menstruação aos quarenta

Eu estava pensando num filho.
O ventre não é um relógio
nem um sino tocando,
mas no décimo primeiro mês de vida
eu sinto o novembro
do corpo, bem como o do calendário.
Em dois dias será o meu aniversário
e como sempre a terra terminou a sua colheita.
Desta vez eu caço a morte,
a noite a que eu me inclino,
a noite que eu desejo.
Bem, então –
fale disso!
Ele estava no ventre este tempo todo.

Eu estava pensando num filho…
Você! O nunca conseguido,
o nunca semeado ou desatado,
você, dos genitais que eu temia,
o talo e o fôlego do filhotinho.
Eu te darei os meus olhos ou os dele?
Você será o David ou a Susan?
(Esses dois nomes eu escolhi escutando).
Você pode ser o homem que seus pais são –
os músculos das pernas de Michelangelo,
mãos da Iugoslávia
em algum lugar o camponês, Eslavo e determinado,
em algum lugar o sobrevivente, cheio de vida –
e seria ainda possível
tudo isso com os olhos de Susan?

Tudo isso sem você –
dois dias passados em sangue.
Eu mesma morrerei sem batismo,
uma terceira filha com que não se importaram.
A minha morte virá no dia do meu santo.
O que há de errado com o dia do meu santo?
É só um anjo do sol.
Mulher,
tecendo uma teia sobre você mesma,
um veneno fino e emaranhado.
Escorpião,
má aranha –
morra!

A minha morte pelos pulsos,
dois crachás,
sangue vestido como flor de corpete,
para florescer,
uma à esquerda e outra à direita –
É um quarto morno,
o lugar do sangue.
Deixe a porta aberta nas dobradiças!

Dois dias para a sua morte
e dois dias até a minha.

Amor! Essa rubra doença –
ano após ano, David, você me deixaria louca!
David, Susan, David, David!
plena e desgrenhada, sibilando pela noite,
sem nunca envelhecer,
esperando sempre por você na varanda…
ano após ano,
minha cenoura, meu repolho,
eu teria te possuído antes de todas as mulheres,
chamando seu nome,
chamando-te meu.

 

Menstruation at forty

I was thinking of a son.
The womb is not a clock
nor a bell tolling,
but in the eleventh month of its life
I feel the November
of the body as well as of the calendar.
In two days it will be my birthday
and as always the earth is done with its harvest.
This time I hunt for death,
the night I lean toward,
the night I want.
Well then –
speak of it!
It was in the womb all along.

I was thinking of a son…
You! The never acquired,
the never seeded or unfastened,
you of the genitals I feared,
the stalk and the puppy’s breath.
Will I give you my eyes or his?
Will you be the David or the Susan?
(Those two names I picked and listened for.)
Can you be the man your fathers are –
the leg muscles from Michelangelo,
hands from Yugoslavia
somewhere the peasant, Slavic and determined,
somewhere the survivor bulging with life –
and could it still be possible,
all this with Susan’s eyes?

All this without you –
two days gone in blood.
I myself will die without baptism,
a third daughter they didn’t bother.
My death will come on my name day.
What’s wrong with the name day?
It’s only an angel of the sun.
Woman,
weaving a web over your own,
a thin and tangled poison.
Scorpio,
bad spider –
die!

My death from the wrists,
two name tags,
blood worn like a corsage
to bloom
one on the left and one on the right –
It’s a warm room,
the place of the blood.
Leave the door open on its hinges!

Two days for your death
and two days until mine.

Love! That red disease –
year after year, David, you would make me wild!
David! Susan! David! David!
full and disheveled, hissing into the night,
never growing old,
waiting always for you on the porch…
year after year,
my carrot, my cabbage,
I would have possessed you before all women,
calling your name,
calling you mine.

§

Celebração do Meu Útero

Cada um em mim é um pássaro.
Estou batendo todas as minhas asas.
Eles queriam te arrancar
mas eles não irão.
Eles disseram que você estava imensuravelmente vazio
mas você não está.
Eles disseram que você estava prestes a morrer
mas eles estavam errados.
Você canta como uma estudante.
Você não está rasgado.

Doce peso,
na celebração da mulher que eu sou
e da alma dessa mulher que eu sou
e da criatura central e de seu deleite,
eu canto para você. Eu ouso viver.
Olá, alma. Olá, taça.
Ata, cobre. Tampa que contém.
Olá à terra dos campos.
Bem-vindas, raízes.

Cada célula tem uma vida.
Aqui há o bastante para satisfazer uma nação.
É bastante que o povo possua estes bens.
Qualquer pessoa, qualquer comunidade diria disso,
“Está tudo tão bem neste ano que poderemos plantar de novo
e esperar uma colheita.
Uma praga tinha sido prevista e foi eliminada.”
Muitas mulheres unidas estão cantando sobre isso:
uma amaldiçoando a máquina na fábrica de sapatos,
uma cuidando de uma foca no aquário,
uma aborrecida nas rodas do seu Ford,
uma cobrando no guichê do pedágio,
uma enlaçando um bezerro no Arizona,
uma montando no seu violoncelo na Rússia,
uma mexendo as panelas do fogão no Egito,
uma pintando da cor da lua as paredes do seu quarto,
uma morrendo, mas recordando de um café da manhã,
uma estirando-se na sua esteira na Tailândia,
uma limpando o bumbum do seu filho,
uma olhando pela janela do trem
no meio de Wyoming e uma está
em algum lugar e algumas estão por todo lado e todas
parecem estar cantando, ainda que algumas não saibam
cantar nota alguma.

Doce peso,
em celebração da mulher que eu sou
deixe-me levar uma echarpe de três metros,
deixe-me batucar pelas de dezenove anos,
deixe-me levar as tigelas para as oferendas
(se for o caso).
Deixe-me analisar o tecido cardiovascular,
deixe-me calcular a distância angular dos meteoros,
deixe-me chupar os caules das flores
(se for o caso).
Deixe-me fazer certas figuras tribais
(se for o caso).
Por esta coisa que o corpo necessita
deixe-me cantar
para a ceia,
para os beijos,
para o certeiro
sim.

 

In Celebration of My Uterus

Everyone in me is a bird.
I am beating all my wings.
They wanted to cut you out
but they will not.
They said you were immeasurably empty
but you are not.
They said you were sick unto dying
but they were wrong.
You are singing like a school girl.
You are not torn.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
and of the soul of the woman I am
and of the central creature and its delight
I sing for you. I dare to live.
Hello, spirit. Hello, cup.
Fasten, cover. Cover that does contain.
Hello to the soil of the fields.
Welcome, roots.

Each cell has a life.
There is enough here to please a nation.
It is enough that the populace own these goods.
Any person, any commonwealth would say of it,
“It is good this year that we may plant again
and think forward to a harvest.
A blight had been forecast and has been cast out.”
Many women are singing together of this:
one is in a shoe factory cursing the machine,
one is at the aquarium tending a seal,
one is dull at the wheel of her Ford,
one is at the toll gate collecting,
one is tying the cord of a calf in Arizona,
one is straddling a cello in Russia,
one is shifting pots on the stove in Egypt,
one is painting her bedroom walls moon color,
one is dying but remembering a breakfast,
one is stretching on her mat in Thailand,
one is wiping the ass of her child,
one is staring out the window of a train
in the middle of Wyoming and one is
anywhere and some are everywhere and all
seem to be singing, although some can not
sing a note.

Sweet weight,
in celebration of the woman I am
let me carry a ten-foot scarf,
let me drum for the nineteen-year-olds,
let me carry bowls for the offering
(if that is my part).
Let me study the cardiovascular tissue,
let me examine the angular distance of meteors,
let me suck on the stems of flowers
(if that is my part).
Let me make certain tribal figures
(if that is my part).
For this thing the body needs
let me sing
for the supper,
for the kissing,
for the correct
yes.

§

Mariana Basílio (Bauru – São Paulo, 198). Prosadora, poeta, ensaísta e tradutora. Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Autora dos livros de poesia Nepente (2015), Sombras & Luzes (2016), e Tríptico Vital (Patuá, 2018. Prêmio ProAC 2017, Finalista Residência Literária Sesc 2018, Finalista Prêmio Guarulhos 2019). Colabora em portais e revistas nacionais e internacionais, tendo traduzido nomes como May Swenson, Alejandra Pizarnik, Edna St. Vincent Millay, Sylvia Plath e William Carlos Williams. É também autora das plaquetes de poemas, As Três Mal-Amadas (Kizumba Edições, 2018), e As Mãos que Ressoam o Absurdo (edição artesanal, 2019). Com patrocínio do prêmio ProAC 2019, do Governo de São Paulo, publicará em 2020 seu quarto livro de poesia, Mácula (Patuá). Mantém o site http://www.marianabasilio.com.br.

*

 

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poesia

Mila Teixeira

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Mila Teixeira (Rio de Janeiro, 1993) é poeta, prosadora, dramaturga e artista visual. Estudou Audiovisual na UFRJ e trabalha como roteirista. Sua primeira peça, Inscrição na Areia, foi montada em Londres e será montada na capital da Escócia em 2020. Acaba de finalizar seu primeiro livro, 12 Poemas Sobre Perda e atualmente está trabalhando na sua próxima peça, O Que Aprendi Roubando Queijo no Mercado. Gosta de escrever em transportes públicos.

*

agora, um poema sobre destino

quero contar pra você
de quando uma jovem carioca
que havia acabado de chegar
à maioridade
isabela o nome dela
por que bela se manca, por que manca se bela?
morreu assim que saiu de uma consulta
com uma astróloga
que lhe disse:
você tem que ser mais flexível
ah!
o sotaque da astróloga era portenho
nasceu em mendoza
sabe-se que gostava de (em ordem alfabética):
astrologia – um tanto quanto óbvio
beijo na boca – quem não gosta?
chicletes de tutti-frutti – tinha muitas cáries
italianos – nunca superou o primeiro marido e se masturbava diariamente pensando nele, que dó
john coltrane – ouvia às tardes, em oração
muamba ilegal – não me pergunte, não tenho nada a ver com isso, eu não sei de nada
sarapatel – sua comida preferida, acredite se quiser
zinixyz – uma marca de vinho, nunca bebi porque tem esse nome pouco atrativo

a astróloga chamou a ambulância assim que viu o corpo de isabela estatelado
no meio da rua
era muito infeliz para alguém tão jovem, parece que tropeçou no meio do caminho
disse a astróloga à sua terapeuta

nunca deixou de pensar em isabela
§

inutilidades

toda coleção carrega em si
seu percentual inútil
não preciso do que tenho em
grandes quantidades
mesmo assim
me satisfaço a cada novo item
coleciono:
réplicas de animais em miniatura
quero muito um elefante uma baleia uma girafa uma onça pintada
para quê?
canecas de museus que visito
uma já seria suficiente e os recipientes de
cerâmica se acumulam no armário da cozinha
para quê?
cartões
talvez minha coleção mais cruel
as réplicas adornam
as canecas são utilizadas é preciso beber
os cartões ficam na minha gaveta perdem sua função
não escrevo neles tampouco os tiro do plástico
eles não receberão palavras de afeto
declarações de amor ou
pedidos de desculpas
apenas ficam na minha gaveta

também coleciono amores frustrados
mas seria de uma cafonice só
começar a falar disso nesse
poema
deixemos para o próximo
§

vou ligar pro m. e dizer:

aquele seu livro?
uma porcaria
aquele poema? tão
ofensivo você deveria
ter vergonha
ele vai ficar
em silêncio vou continuar
relutei e li o outro
demorei a ler porque me
apaixonei pelo eu
lírico perdidamente

vou desligar se ele
me ligar não vou
atender
me encontra em dez anos
m., evita os lugares que
frequento
evita minhas fotografias
minhas bitucas de cigarro
me encontra em
dez anos com novos
poemas e sem
barba porque você é feio sem
barba
e eu te gosto feio
§

a escritora mila teixeira

não se chama mila
seu nome verdadeiro é haya, ela não sabe o que significa
só sabe que é um nome judeu e que sua avó gritava haya o tempo todo

a escritora mila teixeira
não deveria ser teixeira
ela deveria ter um sobrenome estranho
que sua mãe deixou pra lá por ser impronunciável em terras tupiniquins

a escritora mila teixeira
nem escritora é
ela é uma black block com saudade de coquetel molotov
faz explosivos caseiros como ninguém

a escritora mila teixeira sofre de crise de identidade e na verdade é haya mikhailovitch, procurada pela polícia desde junho de 2013

*

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