poesia

3 x Antônio LaCarne

lacarne

Antônio LaCarne é cearense, autor de Salão Chinês (Patuá, 2014), Todos os poemas são loucos (Gueto Editorial, 2017) e Exercícios de fixação (2018, AR Publisher).

*

Os rostos

as cascas são secas
os rostos das pessoas
os deuses periféricos
as propagandas de Gatorade
os sachês de ração dos gatos
são secos os rostos
os cabelos das bonecas
o ticket alimentação ao meio-dia
os colchões de molas
as it girls, os it boys
a porta do quarto trancada
você não está dentro
nem fora.

§

Bidê de plumas

acendi um cigarro & na sexta-feira da paixão
pus meu corpo em off semi-didático & específico
talvez por não concluir que o espelho é uma arma
ou mergulho que não atravessa a piscina
em que ambos não retratamos na fotografia
você pronto para rever o atlântico
ou sumir desesperado na noite & no escuro
que exterminou o amor sob o terceiro sexo
aí o meu cinzeiro se transforma numa caixa de pandora
inundada de capas da vogue & mentiras
que eu não quis dar luz enquanto encarava meu bidê de plumas
restos de sangria & uma taça inundada no drink
que eu quis tomar & me inundei
próximo aos degraus & das regras automobilísticas
pois onde eu estacionaria os vulcões?
onde os animais descobririam o beijo que educa
& não sabe explicar o porquê disso?
acendo outro cigarro nessa aventura cósmica
de mim mesmo como homem & rosto às duas
da madrugada tão querida & com cara de monstro
super perpétua até quando eu tive 100 anos
& não souber pedir.

§

EU SEMPRE

carinha de anjo
mar suspenso
deus ao contrario
o coração fechado
verão terrestre
gado no pasto
homem de pé
mulher no espelho
eu sempre quis ter uma espada
eu sempre estive em apuros
eu sempre fechei os olhos
eu sempre imitei o palhaço
pois aqui
eu menti
caí no buraco
me cortei com os espinhos
e um pássaro cuspiu no meu rosto.

*

 

 

 

Anúncios
Padrão
poesia

1 poema de Victor Queiroz

Autor - Foto.jpg

ARTE POÉTICA
a André Nogueira e Tomaz Amorim

Sempre almejei ao Português polido:
a língua lisa e pura e sem defeito.
Mas por poli-la – e tanto — eis o seu brilho
fez-se afilada lâmina-conceito.

E se hoje o meu país clama por armas,
armo, em vez, o verso e a voz; vou à guerra,
porém não verto sangues, verso as almas,
parto-as ao meio e enfrento a faca-cega,

o aço prosaico, que perfura as peles;
e o chumbo grosso, que desfaz miolos;
e o vil veneno, a víbora do reles,
a penetrar seu ódio em nossos olhos.

E eu digo “eu armo”, sim. Pois eu bem sei
que eles dirão — “mas ele andava armado
também!” –, dirão — “ele agrediu primeiro:
com seus silêncios, sonhos, seus calçados,

seus cabelos, seus beijos destrancados;
ele olhou torto e tem os olhos belos;
ele andou torto e tem os pés inchados…”
Por isso eu armo, eu armo, eu armo o verso.

E se um verso de amor acaso escorre?
Amar armado e amada sempre em armas:
sem defender o amor, ele hoje morre.
E se uma dor-de-mim acaso escapa?

Armar a própria dor, mas contra a Dor,
a Qual os mins em nós de dor sufoca.
E se esta arma não tiver valor?
Não tem. Dinheiro algum a compra, é força,

alento, um hálito de vida, unguento
com o qual se banhar antes da luta,
um bálsamo que cura o desalento
após a luta, um seio a quem se enluta.

E inda, cirúrgica, perfura fundo
o peito dos que bebam o veneno
e encham de ódio os olhos; pois, no mundo,
o mor valor se passa por pequeno:

armar, armar, armar, armar o verso;
fazer da língua a lâmina afilada;
pois esta língua, a Poesia, é certo,
é a língua que a víbora não fala.

São Paulo, 11/06/2019

*

Victor Queiroz (Campinas/ SP, 1991), formado em Composição pela UNESP, onde travou contato com a teoria e prática da tradução-arte, por meio do professor e amigo Omar Khouri. Desde então, dedica-se, enquanto poeta, sobretudo à prática da tradução, contribuindo com a Ponto Virgulina. Entre os seus principais interesses poéticos, encontram-se os Modernismos, dentro e fora do Brasil, e as poesias francesas clássica e pré-Simbolista; e ainda o Concretismo em toda a sua extensão: da poesia visual aos tratados teórico-críticos e (belíssimas) traduções desenvolvidas pelos Noigandres. Lança este ano seu livro de estreia, pela editora Urutau.

Padrão
poesia

3 poemas de Cecília Floresta

foto_Cecília Floresta

Cecília Floresta afrodescende, é escritora, candomblezeira & sapatão. nasceu na capital paulista numa dessas manhãs de dezembro, fazia sol e o ano era 1988. ganha a vida editando livros, pesquisa narrativas e poéticas ancestrais iorubás e seus desdobramentos na diáspora negra contemporânea, lesbianidades e literaturas insurgentes. tem editados os poemas crus (Patuá, 2016) e a zine genealogia (móri zines, 2019). já apareceu na escamandro com outros 3 poemas. os poemas abaixo integram a  zine genealogia(série de 12 poemas + ilustras).

*

dona Rosa

eu sou a minha vó
mesmo aqui escrevendo
que dona Rosa em grande parte de sua vida
não sabia ler nem escrever como os outros
embora fosse dada a outras leituras

eu sou a minha vó
que calejou mão
trabalhando na roça
cansou de passar fome e sei lá mais o quê
ao lado do marido
largou o homem
e veio pra São Paulo
com três filhos nas costas

eu sou a dona Rosa
que sabia de cor todas as folhas do quintal
e da rua também
de onde tirávamos suas mudas
no caminho de volta da escola
quando ia me buscar às vezes

fazia remédios com elas
me bendizia
me curava
amarrava fita vermelha no meu pulso
enquanto ambos os dela
eram quebrados & doíam em dias frios
quando se ocupava em lavar a própria roupa
e também a dos outros

não sei em quantas casas trabalhou
antes de se aposentar
e passar as tardes costurando
me observando por cima dos óculos
e contando histórias de causos fantásticos
que aqui não têm lugar
porque nossos olhos & ouvidos
já não funcionam
com o trabalho caótico da cidade grande

dona Rosa me ensinou a fazer cuscuz e a consumir
ovos
peixe &
frango
no café da manhã
porque sempre diária árdua depois das seis
e tempo nenhum pra almoçar

§

 

leitoras

pós-trabalho embora
só quisesse mesmo era estender as costas
a mãe me ensinou a ler com um gibi
e tanto leu que eu decorei os balões de fala
antes que o livreto desistisse da capa
que parou não sei onde foi

também não sei até que ponto seria possível
este poema pra minha mãe:
se ela não tivesse lido tanto aquele gibi
onde é que eu estaria agora?

§

 

mãe cujos filhos são peixes

odoyá
fez de ondas salgadas meu orí
deu pernas fortes pra eu nadar
e ainda me abre os caminhos
por onde ando

diz que iabá nasce já
de orelha em pé nos feitiço
tecnologia ancestral que derrubou
& vai derrubar
muita mas muita casa grande

odoyá
me ensinou a ser peixe
e a respirar fundo
até dentro d’água

contou também que iabá
é ligeira no ato:
presta não atenção
pra ver no que dá

*

Padrão
poesia, tradução

Ernesto Cardenal, por Mariana Ruggieri

Cardenal on boat (Foto by Sandra Eleta, 1974)

Fotografia: Sandra Eleta, 1974

Ernesto Cardenal, poeta nicaraguense nascido em 1925, foi padre, participou da luta sandinista – para depois criticá-la face ao horror – e é devoto da teologia da libertação. Segue vivendo na sua ilha comunitária em Solentiname, reinventando cristianismos e marxismos e também a língua. Seu poema “Viaje a Nueva York” é um poema-documentário ou um poema-reportagem de fôlego e descreve uma visita sua a Nova Iorque no início dos anos 70.

O professor Amalfitano, personagem de Roberto Bolaño, diz em Los sinsabores del verdadero policía que “Viaje a Nueva York” é um dos dois maiores poemas modernos da América Latina, ao lado de “El soliloquio del individuo” de Nicanor Parra. Independentemente do que se possa pensar a respeito de tais formas de hierarquizar e categorizar a poesia, ler “Viaje a Nueva York” é dar um rolê pela cidade de mãos dadas com um padre austero nos hábitos mas gentil nos gestos, encontrar ex-monges e gente cumprindo pena por opor-se à Guerra do Vietnã, editores e escritores, além lésbicas no parque e cubanos nas lojas e amigos da Nicarágua. É também quase acreditar na possibilidade da revolução e da poesia – e na sua necessária relação.

Mariana Ruggieri

*

VIAGEM A NOVA YORK

Eu parecia estar ainda essa tarde na minha ilha de Solentiname
e não colado à uma janela sobre a baía de Nova Iorque,
Barcos lá embaixo apenas mexendo-se, o avião também lento
O aeroporto Kennedy congestionado a essa hora
era preciso por um tempo dar voltas sobre Nova Iorque
Que milagre me colocou sobre Manhattan nesse entardecer
girando ao redor de arranha-céus pintados de rubro?
No assento ao lado (vazio) peguei um New Yorker
“Washington essa semana despertou de um torpor — Watergate.”
O senador Fullbright teme que desemboquem em um sistema totalitário.
Ladies and Gentlemen: o aeroporto Kennedy segue congestionado
recostando-me contra a janela a água da baía de Nova Iorque
o avião como se ancorado a uma nuvem, não se move
Anúncio de uma ilha — piscina tennis cabanas water sports
The Island Company Ltd., 375 Park Avenue
Caricatura de homem obeso com jornal dizendo à sua esposa
“Lutei tanto e o Times me chama apenas de suposto chefe da Máfia”
Ladies and Gentlemen… agora fomos acionados pelo radar e
vamos diretamente ao aeroporto Kennedy em pouso automático
fábricas, trens, casinhas suburbanas idênticas, carros de brinquedo
e já na pista. Com mais cem aviões, como tubarões.
Gerard me esperava, de barba e jovem, me trouxe
milagrosamente a Nova Iorque, prefere que eu o chame de Tony
vamos em seu velho carro até New York, rios de carros
me chamou para a arrecadação pelos desabrigados de Manágua
sem ter quem pagasse a passagem, diz,
Já conseguiu, Deus tudo conserta. Trabalha
com os órfãos, dependentes químicos, porto-riquenhos pobres
andava por uma quebrada e lhe ocorreu uma arrecadação por Manágua
não havia local, fracassou em Columbia, olhando o céu
viu a catedral episcopal de St. John The Divine, entrou
e o bispo lhe disse “Por que não?”
Presidiários de Nova Iorque deram quadros pintados por eles
índios das grandes planícies também doaram tecidos e cerâmicas
mais rios de carros trens caminhões, as pistas se cruzam
é católico me diz e também zen
antes trabalhou na catedral de São Patrício, não pôde seguir lá
o cardeal atual pior que Spellman
pela rodovia surgem mensagens postos de gasolina drive-ins motéis
um cemitério de automóveis melancólico no crepúsculo
uns hippies estão acampados no mosteiro de Gethsemani, diz
meninos e meninas, o abade permitiu
os mosteiros nos Estados Unidos estão ficando vazios
os jovens preferem pequenas comunas. Conto a ele
que Merton me dizia que essas ordens desapareceriam
e ficariam apenas as pequenas comunas
o céu smog e anúncios
blocos retangulares entre a fumaça
e os contemplativos têm quase todos diz Tony uma mentalidade
burguesa     middle-class
Indiferentes à questão da guerra. E à Revolução.
LIQUORS —- DRUG-STORE
“Te parece muito mudada Nova Iorque?”
Eu estive aqui há 23 anos. Digo: “É a mesma”.
As filas de semáforos vermelhos e verdes
e as luzes dos taxis e dos ônibus.
“Madison Avenue” diz Tony. E rindo:
“É curioso: Ernesto Cardenal em Madison Avenue”. E olho
o cânion fundo, o profundo desfiladeiro de edifícios
onde se escondem detrás de seus vidros the hidden persuaders
     vendem automóveis de Felicidade, Consolo em lata (a 30 cts)
*** The Coca Cola Company ***
atravessamos o cânion de vidros e Bilhões de Dólares.
“Por séculos não comeram carne; agora que muitos somos vegetarianos
eles comem carne”, diz. Desde uma travessa o Empire State
(sua base apenas). Nas entranhas do Imperialismo.
“Chegam monges famosos para dar conferências sobre ascetismo e
se hospedam em hotéis luxuosos” E já no West Side
CafeteríaDelicatessenDry Cleaning
Chegamos ao apartamento de Napoleón, 50 e 10a Av.
Na calçada, teen-agers, blue-jeans e olhos azuis
ao redor de bicicletas, ou sentados nas grades.
A campainha não funciona mas Napoleón e Jacquie nos esperavam.
Napoleón Chow de ascendência chinesa e nicaraguense
E Jacquie é antropóloga especializada em Turquia.
Monástico o pequeno apartamento, mas com tapeçarias persas.
Ligo para Laughlin na sua casa de Connecticut.
Surpreso: “Que raios estou eu fazendo aqui em Nova York?”
Ri lá de Connecticut. Virá no sábado para que nos encontremos,
na sua casa no Village.
Napoleón e Jacquie fazem yoga. Muitos dias jejuam
completamente, em outros cozinham muito bem, comida
chinesa, turca, nicaraguense.
(“o alimento como alegria; sacramento”)
Eles têm uma gata Angorá que caga como gente na privada.

Terça à noite, a catedral de St. John The Divine
Rua 110, abriu suas portas de bronze para o evento
leio meu ORÁCULO SOBRE MANÁGUA (o do Terremoto)
entre quadros de presidiários, cerâmicas dos índios das grandes planícies.
Um rabino proclama, barbas compridas: “A culpabilidade nossa
nessas tragédias…” e o Decano da Catedral: “Nosso Sistema
Senhor, que agrava essas catástrofes…” (E penso: Os Somoza
um terremoto de 40 anos). Brother David
beneditino: “E é em Nova Iorque Senhor quem diria
onde nos congregamos de diversos países e religiões
para rezar por Manágua, e meditar
sobre quanto daqui deveria ser destruído”
Dorothy Day doente, não pôde vir.
María José, y Clemencia, nicaraguenses interessantes (eu conheci o pai delas)
me perguntam como ficaram aquelas ruas (o conheci uma vez
naquela noite de abril
em que íamos tomar de assalto a Casa Presidencial —
Chema, foi torturado e assassinado)
Só consigo dizer: “Eu conheci o pai de vocês”
No coro, slides (as cores radiantes) dos Escombros.
Corita (ex-sister Corita) deu 6 quadros para Manágua.
Daniel Berrigan me espera amanhã

Central Park (up town): E me digo: por ali estão os cisnes.
Me lembro de minha Liana, e dos cisnes.
Casou-se. Os cisnes ainda estarão ali.
Louis, uma vez, querendo pegar um cisne, um dia de fome.
Voltei a ver outra vez as pessoas na rua falando sozinhas.
“The Lonely Crowd”.
Com Napoleón e Jacquie em Times Square, nada a ver
e pela rua 48 entre os cinemas pornôs titilosos
Uma loja vazia, 2 policiais tomando notas
A vitrine estilhaçada, e ninguém olha (na Broadway)

Com Daniel Berrigan no Thomas Merton Center
Daniel (Dan) de blue-jeans e sandálias como eu, seu cabelo
“o de um malandro da rua depois de uma briga”
e o sorriso com que saiu nas fotos quando foi capturado
pelo FBI (jubiloso entre os policiais sombrios do FBI)
havia lido meus Salmos na prisão.
E também está Jim Forest (pacifista) com um grande bigode,
mais jovem do que eu pensava. Me escreveu uma vez
Dizia que Merton lhe deu um Cristo que eu fiz no mosteiro trapista.
Vem chegando de Washington, de uma marcha de protesto
que foi do edifício do Watergate até o Departamento de Justiça.
E Berrigan sentado em cima de uma escrivaninha, o rosto delgado
sobre o joelho e pelo ralo na cara. Está apenas se recuperando
da prisão, me dizem. E uma moça:
“As torturas que se supõe não haver nos Estados Unidos”
Esse é um grupo de contemplativos e resistentes, diz Berrigan.
Reunidos uma noite em um convento do Harlem
ocorreu a eles fundar o Merton Center.
Estudam o misticismo de diversas religiões
também dos índios das grandes planícies.
“Merton sofreu horrores no mosteiro” diz Dan
e todos sabemos. E Jim se lembra de
quando lhe proibiram de escrever contra a guerra nuclear
porque não era tema monástico.
Dan: “Me disse que não voltaria a ser monge outra vez
mas que já o sendo, continuaria sendo-o”.
“Ia chegar em Solentiname depois da Ásia, não? Diz Jim.
E Dan: “E está segurou que não chegou?”
E também Dan:
“É uma droga terrível a que aqui temos: a ‘Contemplação’
Meditam. Sem pensar nunca na guerra. Sem pensar
nunca na guerra. Não se pode estar com Deus e ser neutro.
A verdadeira contemplação é resistência. E a poesia,
olhar as nuvens é resistência, descobri na prisão”.
Digo a ele para ir a Cuba, e ele: ainda está em liberdade condicional.
Também digo a ele “Na América Latina
estamos integrando o cristianismo com o marxismo”.
E ele: “Já sei. Aqui não.
Aqui é o cristianismo com o budismo.
Jim, já somos todos budistas, não?
Não tem budismo na América Latina?”
“Não”.
Amanhã será comemorado no Merton Center
o casamento de seu irmão Philip o outro sacerdote,
e a ex-monja Elizabeth McAlister — e nos convida.
Philip jogou sangue em Maryland sobre os arquivos de recrutamento
depois Philip e Daniel queimaram os arquivos em Catonsville
com napalm de fabricação caseira (sabão em pó com gasolina)
e Jim queimou também com napalm os arquivos em Milwaukee
(e estão recém-saídos da prisão)
Diz-se que Merton certa vez também pensou ação semelhante
Tem uma moça em greve de fome pelo bombardeio do Camboja.
Na parede um poema de Berrigan sobre o Vietnam
em grandes folhas juntadas como um mural.
Quando estou de saída Dan me dá um pão enorme
um enorme pão redondo, assado ali, de trigo puro.

Com Napoleón e Jacquie ao cinema para um filme cubano
MEMÓRIAS DO SUBDESENVOLVIMENTO
não idealizam a Revolução
uma peça documental — um encontro de escritores —
E creio ver Roque Dalton no documentário
Fidel em um discurso (e parte da sala aplaude Fidel)
Um monte de gente na calçada levava trajes finos: a Ópera.
Para Tony seu avô aristocrático italiano
deixou um sítio nos arredores de Roma,
Vai presenteá-lo a alguém. Não quer propriedades.
E Tony diz: “Holy Communion…” (seus olhos incandescentes)
“A Comunhão é minha maior união com os homens cada dia
a Comunhão para mim é o mais revolucionário do mundo”

Philip Berrigan e Elizabeth McAlister
acusados pelo FBI de querer sequestrar Kissinger. —
Festa de casamento no Merton Center.
Contemplativos e radicais, pacifistas, ex-prisioneiros muitos deles
cristãos anarquistas e cristãos budistas
e nessa festa uma Eucaristia com canções de protesto
sentados no chão
detrás do Evangelho falam Jim, Dan, uma mulher jovem
que tinha acabado de jogar sangue sobre a mesa de jantar de Nixon
e de lambuzar de sangue as paredes da sala, em um tourist tour
da casa Branca (a imprensa não informou nada). Espera
julgamento, talvez anos na prisão, grávida.
Dan Berrigan consagra um pão como o que me deu
e copos de vinho. O pão repartido de mão em mão, e o vinho.
Depois uma coleta… para os acusados pobres de Watergate
“adversários irmãos nossos”.
Outra vez a festa. Dan diz: “No more religion”
Galões de ‘rosé’ y ‘blanc’ californianos em uma mesa
pudim de passas, torta de maçã, queijos em outra mesa
Um rapaz loirinho muito cabeludo me cumprimenta, Michael Cullen.
Lia meus Salmos na prisão diz,
e eu já li sobre ele.
Me dá um folheto que ele distribui: If Mike Cullen is deported
Nasceu em uma granja no sul da Irlanda, chegou com 10 anos, não
para ganhar dinheiro. Estudou em um seminário. Casou-se, vendia seguros
mas sentiu o sofrimento dos apartamentos cheios de ratos
e o sangre correndo em jorros na Indochina
queimou sua carteira de recrutamento. Queimou
com Jim os arquivos de recrutamento em Milwaukee
as licenças 1-A para queimar corpos na Ásia
agora querem deportá-lo, crê que o deportarão diz triste
alguém passando coloca dinheiro no seu bolso e lhe diz
“keep going” e ele sorri (triste)
me diz: “o sonho americano virou um Pesadelo”.
Todas as câmeras de televisão sobre Philip e sua esposa.
Phil de olhos azuis. Robusto como um jogador de rugby
‘o Gary Cooper da Igreja’
Elizabeth, doce: casaram para ajudarem um ao outro na luta diz
e vão criar uma comuna para ajudar outros a seguir na luta.
Dan com seu sorriso radiante
e sua paz zen

Na saída da Doubleday Bookstore, na 5a Avenida
uns homens e mulheres com túnicas brancas dançando na calçada
e os jovens carecas (de branco) parecem noviços trapenses.
Em uma vitrine:
Visão. Jaqueta de Couro de Cordeiro Persa. Broche
de diamantes e rubis…
Um rapaz com um botton no peito: IMPEACH NIXON
Mulheres como se de plástico.
Atravesso a rua com muito medo: WALK — DON’T WALK (em vermelho)
Os atendentes das lojas quase todos cubanos
e me parece que estou escutando a língua
de revolucionários
O céu sujo. Sirenes de polícia.
As velhas falando sozinhas
o Coronel contava daquele dominicano francês que lhe disse aqui:
“Desde que cheguei há 3 meses não pude fazer uma oração”.
Museum of Modern Art. Sem tempo de entrar. E para quê?
Frank O’Hara trabalhava aqui. Sua poesia ele fazia
na hora do lunch — sandwiches e Coca Cola.
Uma vez nos escrevemos.
Agora comprei no Bretano’s seu LUNCH POEMS ($1.50)
e os automóveis me fazem lembrar de sua morte
atropelado em Nova Iorque (na hora do lunch?)
WALK — DON’T WALK
Dorothy Day me espera no Catholic Worker diz Tony.
Lembrou no telefone que uma vez me havia escrito.

Livraria de “paperbacks” na 5ª Av.
Muitos livros sobre os índios. Pawnees. Sioux. Hopis. Os
Hopis, anarquistas e pacifistas, por 2000 anos, gandhianos
nunca declararam guerra nem firmaram tratados (sequer
com os E.U.A)
e agora vou me encontrar ao meio-dia com Kenneth Arnold
meu editor em inglês de HOMENAJE A LOS INDIOS AMERICANOS
também está aqui a autobiografia de Alce Negro
Veio uma vez a Nova Iorque com Búfalo Bill
as casas até o céu, as luzes roubadas do poder do trovão.
disse que aqui existiu como alguém que nunca tinha tido uma visão
Raposa Vermelha também com Búfalo Bill. Estimava os índios, diz
defendeu-os em Washington. Hora de me encontrar com Kenneth.
Veio de Baltimore. Combinamos de nos ver no Gotham Book Mart
I Have Spoken, já o tenho. Com o discurso de Seattle.
Seattle envolto em seu manto como em uma toga
com sua famosa voz audível a meia milha, no meio
do terreno desmatado: “Minhas palavras são como as estrelas
que não mudam. O que Seattle diz o Grande Chefe de Washington
deve levar em conta como a volta do sol ou as estações…”
Lá fora chove uma chuva sem cheiro
e está chegando a hora do lunch
NO SMOKING
“E quando o último do meu povo estiver morto
e falem de minha tribo como um conto do passado…”
sussurros de pneus sobre ruas chovidas
reflexo de neon no espelho do asfalto molhado
“e os filhos de seus filhos acreditem estar a sós
no campo, no armazém, na loja, não estarão a sós.
Quando as ruas de suas cidades estiverem caladas e vocês
a acreditarem vazias, estarão cheias dos espíritos dos mortos.
Eu disse mortos? Não há morte. Apenas uma mudança de mundo”.
Saio com livros para mais homenagens aos índios americanos
e vou ao Gotham Book Mart — 3 quadras — e ali está Kenneth.
É jovem, tem barba. Também presente Miss Steloff, o cabelo prateado
a famosa dona dessa livraria. E eu estive aqui uma vez
em uma festa para Edith Sitwell. Miss Steloff
convidou o Coronel e eu e trouxemos Mimí Hammer
e estavam presentes Auden, Tennesse Williams, Marianne Moore, Spender…
Kenneth trouxe a capa de HOMAGE TO THE AMERICAN INDIANS
e vamos a um restaurante chinês a meia quadra, e
o lunch chow mein mas antes dois copos de cerveja gelada.
Essa abundância de livros sobre índios, diz
é coisa de um ou dois anos. O índio está na moda.
Ele também tem um poema sobre índios, melhor dizendo
sobre Búfalo Bill, seu tio-avô. Sim, foi irmão de seu bisavô
o Coronel William Frederic Gody (Búfalo Bill)

Tony passa para me buscar, e me pede desculpa pelo carro.
O dele quebrou. Este, luxuoso, é do pai. (Envergonhado)
Convidados a almoçar pela mãe do Irmão David
(com Napoleón e Jacquie). Apartamento em zona elegante
pela 5ª Av. Ela é Baronesa da Áustria
mas trabalha como empregada doméstica. Distribui seu dinheiro.
Uma moça me trouxe um presente: um Pôster do Watergate
— Nixon em foto de gangster com o letreiro WANTED
Brother David me diz
“O que diria aos abades nos mosteiros dos Estados Unidos?”
Dou risada. “Sério. Se os abades reunidos pedissem seu conselho?”
“Não o seguiriam.” “Mas o que você diria?”
“Que fossem comunistas”.
Uma jovem: “Por que a sociedade primeiro
e não o coração dos homens? Primeiro vem o interior!”
Digo a ela: “Somos sociais. A mudança social não é exterior”.
O almoço: iogurte com morango
um pão preto e outro muito preto, leite
uvas azuis, maçãs vermelhas, bananas amarelas
mel, o mais saboroso que provei em minha vida.
Nenhum licor neste almoço. Só eu fumo
(“Já é bastante contaminado o ar para respirar mais fumaça”)
O irmão David fala com umas pequenas contas na mão.
Pergunto a ele: “Será possível integrar o budismo com o marxismo?”
“Através do cristianismo. Vocês integraram
cristianismo e marxismo, e nós aqui cristianismo e budismo”.
Também me diz: “Pentescostais… talvez seja melhor que não os veja.
Parecem possuídos pelo Espírito, mas seguem com a Exploração”.
Tony nos deixa para ir estar com seus órfãos.

Rua 12. Por aqui era o apartamento de Joaquín. Nesta casa,
quase tenho certeza.
O dono de um sebo no Village se apaixona por minha camisa
minha blusa camponesa nicaraguense
me pergunta quem a inventou.
Um letreiro em ouro: MONEY. (Loja de penhores).
Pergunto pela rua Charlest. Um homem garboso sentado em um banco: Não
sabe, diz. Posso te pedir um dólar? Não come há dois dias.
Parra estava em Chile.
Em todas as telas dos televisores Dean declarando contra Nixon.

Washington Square: Rock no parque
microfone com música eletrônica louca locutores frenéticos
milhares de cabeludos uivando com a orquestra negros loiros negras
com a orquestra, descalços barbudos de jóias ou em farrapos
uivando com a orquestra, dando um tapa de erva ou
deitados fumando se beijando bebendo cerveja enlatada.
Grupo de lésbicas gritando. Um pouco mais adiante GAY LIBERATION com bandeira
passivos diante do metodista entoando seus sermões Bíblia em mãos com
coro de senhoras caras-de-paisagem encamisadas até o tornozelo.
Atravessando a rua
duas bichas com suas duas línguas lambem de uma vez
um mesmo sorvete
Estúdio de Armando Morales, La Mecha: no Bowery
o bairro dos mendigos e do Catholic Worker.
É uma bodega. Sem banheiro (toma banho no lavabo com uma esponja
sobre uma edição do Times para não molhar o piso)
com vinho recordamos Manágua pré-terremoto
diante de tela de La Mecha que a Galeria vendo por 10000 dólares.
Os cinzeiros latas de sardinhas das que se abre com chave,
a tampa enrolada pela metade, e um monte desses cinzeiros.
Me explica: A Galeria põe o preço, e essas são
as “ações” de um pintor. Um comprador de “Morales”
investe nele como na General Motors. Se os preços sobem
(as ações) investirão mais nele. E se as vendas param
a Galeria não pode baixar os preços
ainda que morra de fome La Mecha — O preço em queda criaria pânico
entre os “acionistas” das cores intricadas e nus misteriosos
de Morales.
Pinta suas cores e depois cobre todo o quadro de preto.
Depois o afeita, com gillette, raspando o preto, e
sobre o raspado pinta outra vez as cores.
“Agora já sei pintar” diz “posso pintar o que eu quiser.
O difícil é — o que pintar”
Lembramos daquele bar em Manágua Las Cinco Hermanas
Lembro de umas super-musas que amamos, mais ou menos.
E de quando averiguamos que estávamos na lista de homossexuais
da polícia — ele por ser pintor, e eu por ser poeta.
E ele se lembra daquele bordel “La Hortencia” e eu digo que
não ficava ali onde ele diz, era em outro lugar, e que já não existe
construíram depois ali a igreja do Redentor (La Mecha ri)
e eu já sacerdote celebrava nela até que o superior me proibiu
por causa do meu sermão antisomozista (ri mais ainda La Mecha) e além disso
já nem o Redentor existe, caiu com o terremoto —
Não pode doar quadros para a arrecadação do terremoto
suas pinturas pertencem à Galeria.
Em todos os televisores Dean seguia declarando contra Nixon.

Laughlin é um homem da altura da porta, e
(como eu já sabia por Merton) transbordante de amor.
Quando entramos pergunta à sua esposa pelo vinho de Nicanor.
Onde está o vinho que deixou Nicanor? Tira da geladeira
o vinho português branco São-Não-Sei-Quê que Nicanor
deixou da última vez. Estamos com a taça na mão ainda sem beber
e Laughlin levanta a sua em direção ao céu como no Ofertório:
“Por Tom. Tenho certeza que regozijará com esse encontro
onde quer que esteja”. E eu: “Está aqui”. O vinho de Nicanor Parra
delicioso. “É curioso” diz Laughlin “depois da sua morte
vimos que cada um de seus amigos acreditava ser o mais íntimo de Merton”.
Depois de uma pausa e gole de vinho: “– E na realidade eram”.
Com Napoléon Chow conversa sobre a China e com Jacquie sobre a Turquia.
Nos dá alguns livros novos da “New Directions”.
Assinamos rapidamente o contrato do meu livro EN CUBA.
Mais vinho. Margaret Randall parece feliz em Cuba — Que bom.
Tem muita simpatia por ela, ainda que não a conheça.
Nos conta (o público ainda não sabe)
da paixão de Merton dois anos antes de sua morte.
1966 Na primavera. Ele e Parra estavam no mosteiro.
Moça lindíssima. O amor, como um raio. “Loucamente” diz
“mas não quis deixar de ser monge”.
Digo depois que ele é um bom poeta, já o traduzi, e diz que não
Pound lhe disse que não. Rasurava seus poemas
com o famoso lápis. Disse a ele: “Do something useful” e ele
tornou-se editor. Ninguém tinha editor até então, só o Hemingway.
Assistia no Rapallo à Universidad Ezra. Almoçava com Pound
e sua esposa no Albergo Rapales. Depois natação ou tênis
e leituras de Villon, Catulo… Pound foi seu pai espiritual.
Conta: Somoza roubou uma vez uma mina de seu tio.
– James Laughlin é neto do Laughlin o rei do aço –
“Claro que sabia”, diz Laughlin (Nixon)
O vinho de Nicanor chega ao fim e vamos a um restaurante francês
a três quadras.
“Gostava muita da solidão, e gostava muito de gente.
Amava o silêncio — e também uma boa conversa.
Merton era gregário, you know, e perfeito monge”

Meia-noite. Em uma tabacaria já o New York Times pela manhã
NIXON SABIA DIZ DEAN (compramos o jornal)
No subway anúncio do Army: meninos em sua formatura —
… depois de se formar é lindo entrar no Army…
E os subways escuros vão grafitados por fora:
nomes de meninos e meninas em muitas cores
     Alice 95                   Bob 106               Charles 195
e os vagões passam como se estivessem cobertos de flores
(seus nomes e as ruas onde vivem) “escrevem
para que alguém os conheça, para serem reais” diz Napoleón
Pintados com tinta spray de todas as cores
e até um metro de altura há nomes
ManuelJuliaJosé… (muitos porto-riquenhos)

Slums ‘sem nenhuma beleza mais que as nuvens’
36 East 1st Street, (Bowery)
com emoção vi a placa pequena na fachada: Catholic Worker
um homem gordo deitado na calçada me pede gentilmente um cigarro
com emoção entro nesse lugar sagrado
ela não estava, mas logo vem pela calçada com outras mulheres
magra, corcunda, com a cabeça branca
ainda é bonita aos 78
beijo a mão da santa e ela beija o meu rosto.
Como minha avó Agustina nos anos 50 (quando ainda
podia ler e era leitora dessa mulher)
Essa é a famosa House of Hospitality que fundaram
Peter Maurin e Dorothy Day durante a Grande Depressão
onde dão comida e pouso grátis a qualquer um que chegue
bêbados loucos drogados vagabundos moribundos
e também é um movimento pacifista e anarquista:
sua meta, uma sociedade em que seja fácil ser bom.
Logo chegariam os pobres para jantar.
Eu estudava em Columbia, e mesmo ali soubemos
que havia morrido um santo no bairro dos mendigos.
Peter Maurin, agitador e santo
dava sermões nos parques:
Mandem embora os patrões” ou
Dar e não tirar
      faz do homem humano
Com uma roupa só, amassada e do tamanho errado. Sem cama própria
nesse lugar que fundou, nenhum canto para seus livros.
Caminhava sem olhar as luzes do semáforo.
E ela consagrada desde então
às “obras de misericórdia e de rebelião”. Uma vida
de comunhão diária e de participação
em toda grave, manifestação, marcha, protesto, ou boicote.
Aqui vêm trabalhar sem salário estudantes, seminaristas
professores, marinheiros, também mendigos, e às vezes permanecem
a vida toda. Muitos foram à prisão ou seguem lá.
Hennacy fazia greves de fome na frente dos edifícios do governo
com cartazes, distribuindo folhetos e vendendo o jornal
e não pagava imposto porque 85% é para a guerra
trabalhava de peão nos campos para não pagar imposto.
Hugh magro, com calça curta sandália e poncho
também fazia penitência nas ruas.
Jack English, um brilhante jornalista de Cleveland
foi cozinheiro do Catholic Worker e depois virou monge.
Roger La Porte era lindo e loiro com 22 anos; se imolou
ateando-se fogo com gasolina na frente das Nações Unidas.
E um velho ex-marine, Smoky Jow, que lutou contra Sandino
na Nicarágua, morreu aqui convertido à não-violência.
Merton trabalhou aqui antes de ir para o mosteiro trapista.
O jornal ainda é vendido a 1 centavo
como quando Dorothy Day saiu para vendê-lo pela primeira vez
na Union Square em um 1o de Maio (1933)
Era o terceiro ano da Depressão
12 milhões de desempregados
e Peter queria com o impresso mais do que uma publicação de opiniões
uma revolução
As panelas já fumegantes
Começam a chegar os pobres, os sem-teto, os do Bowery
para fazer fila. “O outro Estados Unidos” diz Dorothy
os homens deslocados pela máquina
e abandonados pela Santa Mãe Estado.
Gritos. Alguém entrou com chutes e socos
— Dois dos Catholic Workers retiram-no com cuidado
“Nunca chamamos a polícia porque acreditamos na Não Violência”
E me diz também: “Quando visitei Cuba
vi que Sandino era o herói deles
e me alegrei. Porque jovem recolhi dinheiro para ele,
quando era comunista, antes de me converter ao catolicismo.
E vi os principais generais de Sandino (ele não)
no México: com seus grandes chapéus, comendo hot-dogs
por que hot-dogs eu não sei”
e enérgica erguendo a sua cabeça branca: “A Cuba de Castro
eu conheço, como já te escrevi. Gostei muito”
Gritos. Agora é uma anã. E ela é levada docemente
levantada no ar como uma boneca.
Conta que agora ajudam os trabalhadores de Chávez
boicotando a rede de lojas A&P. E ela reza, diz
para que os Estados Unidos tenham uma derrota purificadora. Fala
de Joan Baez que em Hanói cantava sob os bombardeios. Diz
que dizia Hennacy: ‘Contrário ao que se pensa
não somos os anarquistas os que carregam bombas mas o governo’.
E não há paz porque as ruas ficariam sem trânsito
paradas as fábricas, os pássaros cantando sobre as máquinas
como ela viu na Grande Depressão. Fala dos horrores
que viu no The Women’s House of Detention
nas vezes em que esteve presa. E vendo os pobres entrando
repete o que dizia Peter: ‘O futuro será diferente
se fizermos diferente o presente’
Um adeus reverente a essa santa anarquista
e esse santo lugar onde todos são recebidos, tudo de graça
a cada um segundo suas necessidades
de cada um segundo suas capacidades.

DOWN TOWN. UP TOWN. Bang. Bang. Os trens vão trovejando
sob a terra Up Town e Down Town
com nomes de jovens pobres pintados como flores
Tom       Jim         John      Carolina
o nome e o endereço triste onde vivem. São
reais. Para que saibamos que são REAIS. Bang Bang
os expressos sobre os cabos de alta tensão com
seus luminosos anúncios de Calvert, Pall Mall, e o Army
é lindo entrar no Army

À noite, perto de Wall Street, em um apartamento sem mobília
sacerdotes e laicos e ministros protestantes marxistas
“Mudar o sistema em que o lucro é o fim do homem”
“A ética cristã não cabe nos limites da moral privada”
“A visão do Reino de Deus é subversiva”
Um trabalha com computadores, outro com os pobres.
Domingo à noite, e os andares ainda iluminados em Wall Street.
Estão nos fodendo.
Hello Bogotá
Hello ITT”
2 arranha-céus gêmeos mais altos que o Empire
da metade para cima iluminados
o Imperialismo patente no céu além dos cristais
Hello gostaríamos de mais aridez
Quem é esse outro monstro que se levanta no meio da noite?
O Chase Manhattan Bank fodendo com meia humanidade.
Depois de Wall Street, a ponte do Brooklyn, como uma lira de luzes.
Na sombra dois meninos roubando um carro ao que parece.
Nosso satélite pálido sobre o céu do Brooklyn
achatado como uma bola de rugby.

Cedo no outro dia Tony me leva de novo ao Aeroporto Kennedy
em seu carro franciscano. 6 dias em Nova Iorque.
A Arrecadação seria para a Conscientização.
“A nenhuma instituição!” me diz Tony. No institution.
Não sentei na janela. Ao levantar voo, lá longe
(apenas de relance)
a silhueta dos arranha-céus em um céu de fumaça de carros
ácidos e monóxido de carbono.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Clique nos slides acima para ler o texto em espanhol.

§

Mariana Ruggieri nasceu em 1988 em São Paulo. Escreve, lê e traduz. Publicou pelo selo treme~terra o Anzol (2018) e A bola é que são elas (2018). Para as Edições Jabuticaba traduziu Bernadette Mayer e Eileen Myles.

*

Padrão
tradução

Quatro mulheres: Nina Simone por Nina Rizzi & um bis de Sueli Carneiro

gettyimages-84901590

“Four Women” é uma canção escrita pela cantora, compositora, pianista e arranjadora e militante pelos direitos civis dos negros Nina Simone. Gravada em abril de 1965 com produção de Hal Mooney e lançada em 1966 no álbum Wild Is the Wind (Philips Records), conta a história de quatro mulheres afro-americanas diferentes, onde cada uma das quatro personagens representa um arquétipo afro-americano. Thulani Davis, no The Village Voice, chamou a canção de “uma análise instantaneamente acessível do legado condenatório da escravidão, que tornou iconográficas as mulheres reais que conhecíamos […] um hino afirmando nossa existência, nossa sanidade e nossa luta para sobreviver a uma cultura que nos considera anti-femininas. Reconheceu a perda da infância entre as mulheres afro-americanas, nossa invisibilidade, exploração, desafios, e lembrou que na escravidão e no patriarcado, seu nome é o que eles chamam de coisa”.

A primeira das quatro mulheres descritas na canção é “Tia Sarah”, uma personagem que representa a escravidão afro-americana. A descrição da mulher enfatiza os aspectos fortes e resilientes da mulher negra, “forte o suficiente para suportar a dor”, assim como o sofrimento a longo prazo que teve que suportar “, infligida novamente e novamente”.

A segunda mulher que aparece na canção é  “Saffronia”, uma mulher miscigenada (“minha pele é amarela”) forçada a viver “entre dois mundos”. Ela é retratada como uma mulher oprimida e sua história é mais uma vez usada para destacar o sofrimento da mulher negra nas mãos de pessoas brancas em posições de poder (“Meu pai era rico e branco / Ele forçou minha mãe até tarde da noite”).

A terceira mulher é uma prostituta conhecida como “Coisinha Doce”. Ela encontra aceitação tanto entre negros como brancos, não apenas porque “meu cabelo é bom”, mas também porque ela fornece gratificação sexual (“De quem é a menininha?/ Qualquer um que tenha dinheiro para comprar”).

A quarta e última mulher é rude, amargurada pelas gerações de opressão e sofrimento impostos ao seu povo (“Sou terrivelmente amarga hoje em dia porque meus pais eram escravos”). Nina Simone finalmente revela o nome da mulher depois de um final dramático durante o qual ela grita: “Meu nome é Buceta!”

Musicalmente falando, a canção tem uma melodia simples com um groove acompanhado de piano, flauta, guitarra elétrica e baixo, que gradualmente se desenvolve em intensidade à medida que progride e atinge um clímax durante a quarta e última seção. O vocal de Nina Simone torna-se mais apaixonado, rachando de emoção e seu piano estável se torna frenético e às vezes dissonante, para refletir a angústia da personagem. A música termina com Nina Simone alcançando uma nota altíssima, quase chorando ao cantar o nome “Peaches”.

Apesar de não haver redes sociais na época, má-interpretação de texto já existia, para desgosto de Nina! Apesar de sua intenção de destacar a injustiça na sociedade e o sofrimento dos afro-americanos, alguns ouvintes interpretaram a música como racista. Eles acreditavam que se baseava em estereótipos negros, tendo a música sido banida de várias estações de rádio importantes.

Dentre os diversos covers de Four Women destacamos  a adaptação da canção pela cineasta Julie Dash em um curta experimental de 1978 com o mesmo nome; e a peça de 2016, Nina Simone: Four Women, de Christina Ham; no espetáculo, Nina Simone conhece as três primeiras mulheres (ela é a quarta) no local do atentado à Igreja Batista da 16th Street, e elas se tornam as personagens de sua música.

[Comentário traduzido e adaptado da página da canção na wikipédia/EUA e páginas citadas na mesma]

nina rizzi

*

QUATRO MULHERES

Minha pele é negra
Meus braços são longos
Meu cabelo é de algodão
Minhas costas são fortes
Fortes o suficiente pra suportar a dor
Infligida novamente e novamente
Como eles me chamam
Meu nome é TIA SARAH
Meu nome é tia Sarah

Minha pele é amarela
Meu cabelo é longo
Entre dois mundos
Não pertenço a nenhum
Meu pai era rico e branco
Ele forçou minha mãe até tarde da noite
Como eles me chamam
Meu nome é SAFFRONIA
Meu nome é Saffronia

Minha pele é bronzeada
Meu cabelo é bom
Meus quadris te convidam
Minha boca é como o vinho
De quem é a menininha?
Qualquer um que tenha dinheiro pra comprar
Como eles me chamam
Meu nome é COISINHA DOCE
Meu nome é Coisinha Doce

Minha pele é marrom
Meus modos são rudes
Eu mato a primeira mãe que vejo
Minha vida tem sido muito dura
Sou terrivelmente amarga hoje em dia
Porque meus pais eram escravos
Como eles me chamam
Meu nome é BUCETA!

FOUR WOMEN

My skin is black
My arms are long
My hair is woolly
My back is strong
Strong enough to take the pain
inflicted again and again
What do they call me
My name is AUNT SARAH
My name is Aunt Sarah

My skin is yellow
My hair is long
Between two worlds
I do belong
My father was rich and white
He forced my mother late one night
What do they call me
My name is SAFFRONIA
My name is Saffronia

My skin is tan
My hair is fine
My hips invite you
my mouth like wine
Whose little girl am I?
Anyone who has money to buy
What do they call me
My name is SWEET THING
My name is Sweet Thing

My skin is brown
my manner is tough
I’ll kill the first mother I see
my life has been too rough
I’m awfully bitter these days
because my parents were slaves
What do they call me
My name is PEACHES
§


NEGROS DE PELE CLARA

Sueli Carneiro

Vários veículos de imprensa publicaram com destaque fotos dos candidatos selecionados que vão concorrer às vagas para negros da Universidade de Brasília (UnB). Veículos que vêm se posicionando contra essa política percebem, no largo espectro cromático desses alunos, mais uma oportunidade para desqualificar o critério racial que a orienta.

Uma das características do racismo é a maneira pela qual ele aprisiona o outro em imagens fixas e estereotipadas, enquanto reserva para os racialmente hegemônicos o privilégio de serem representados em sua diversidade. Assim, para os publicitários, por exemplo, basta enfiar um negro no meio de uma multidão de brancos em um comercial para assegurar suposto respeito e valorização da diversidade étnica e racial e livrar-se de possíveis acusações de exclusão racial das minorias. Um negro ou japonês solitários em uma propaganda povoada de brancos representam o conjunto de suas coletividades. Afinal, negro e japonês são todos iguais, não é?

Brancos não. São individualidades, são múltiplos, complexos e assim devem ser representados. Isso é demarcado também no nível fenotípico em que é valorizada a diversidade da branquitude: morenos de cabelos castanhos ou pretos, loiros, ruivos, são diferentes matizes da branquitude que estão perfeitamente incluídos no interior da racialidade branca, mesmo quando apresentam alto grau de morenice, como ocorre com alguns descendentes de espanhóis, italianos ou portugueses que, nem por isso, deixam de ser considerados ou de se sentirem brancos. A branquitude é, portanto, diversa e multicromática. No entanto, a negritude padece de toda sorte de indagações.

Insisto em contar a forma pela qual foi assegurada, no registro de nascimento de minha filha Luanda, a sua identidade negra. O pai, branco, vai ao cartório, o escrivão preenche o registro e, no campo destinado à cor, escreve: branca. O pai diz ao escrivão que a cor está errada, porque a mãe da criança é negra. O escrivão, resistente, corrige o erro e planta a nova cor: parda. O pai novamente reage e diz que sua filha não é parda. O escrivão irritado pergunta, “Então qual a cor de sua filha”. O pai responde, “Negra”. O escrivão retruca, “Mas ela não puxou nem um pouquinho ao senhor? É assim que se vão clareando as pessoas no Brasil e o Brasil. Esse pai, brasileiro naturalizado e de fenótipo ariano, não tem, como branco que de fato é, as dúvidas metafísicas que assombram a racialidade no Brasil, um país percebido por ele e pela maioria de estrangeiros brancos como de maioria negra. Não fosse a providência e insistência paterna, minha filha pagaria eternamente o mico de, com sua vasta carapinha, ter o registro de branca, como ocorre com filhos de um famoso jogador de futebol negro.

Porém, independentemente da miscigenação de primeiro grau decorrente de casamentos inter-raciais, as famílias negras apresentam grande variedade cromática em seu interior, herança de miscigenações passadas que têm sido historicamente utilizadas para enfraquecer a identidade racial dos negros. Faz-se isso pelo deslocamento da negritude, que oferece aos negros de pele clara as múltiplas classificações de cor que por aqui circulam e que, neste momento, prestam-se à desqualificação da política de cotas.

Segundo essa lógica, devemos instituir divisões raciais no interior da maioria das famílias negras com todas as implicações conflituosas que decorrem dessa partição do pertencimento racial. Assim teríamos, por exemplo, em uma situação esdrúxula, a família Pitanga, em que Camila Pitanga (negra de pele clara como sua mãe), e Rocco Pitanga (um dos atores da novela “Da cor do pecado”), embora irmãos e filhos dos mesmos pais seriam, ela e a mãe brancas, e ele e o pai negros. Não é gratuito, pois, que a consciência racial da família Pitanga sempre fez com que Camila recusasse as constantes tentativas de expropriá-la de sua identidade racial e familiar negra.

De igual maneira, importantes lideranças do Movimento Negro Brasileiro, negros de pele clara, através do franco engajamento na questão racial, vêm demarcando a resistência que historicamente tem sido empreendida por parcela desse segmento de nossa gente aos acenos de traição à negritude, que são sempre oferecidos aos mais claros.

Há quase duas décadas, parcela significativa de jovens negros inseridos no Movimento Hip Hop politicamente cunhou para si a autodefinição de pretos e o slogan PPP (Poder para o Povo Preto) em oposição a essas classificações cromáticas que instituem diferenças no interior da negritude, sendo esses jovens, em sua maioria, negros de pele clara como um dos seus principais ídolos e líderes, Mano Brown, dos Racionais MCs. O que esses jovens sabem pela experiência cotidiana é que o policial nunca se engana, sejam eles mais claros ou escuros.

No entanto, as redefinições da identidade racial, que vêm sendo empreendidas pelo avanço da consciência negra e que já são perceptíveis em levantamentos estatísticos, tendem a ser atribuídas apenas a um suposto ou real oportunismo promovido pelas políticas de cotas, fenômeno recente que não explica a totalidade do processo em curso.

A fuga da negritude tem sido a medida da consciência de sua rejeição social e o desembarque dela sempre foi incentivado e visto com bons olhos pelo conjunto da sociedade. Cada negro claro ou escuro que celebra sua mestiçagem ou suposta morenidade contra a sua identidade negra tem aceitação garantida. O mesmo ocorre com aquele que afirma que o problema é somente de classe e não de raça. Esses são os discursos politicamente corretos de nossa sociedade. São os discursos que o branco brasileiro nos ensinou, gosta de ouvir e que o negro que tem juízo obedece e repete. Mas as coisas estão mudando…

In: CARNEIRO, Sueli. Racsimo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011. pp. 70-73. Disponível aqui.]

*

Padrão
poesia, tradução

Muriel Rukeyser, por Vitória Régia

muriel

Muriel Rukeyser (1913-1980) foi uma poeta, ensaísta e ativista feminista norte-americana de origem judaica. Frequentou o Fieldston Schools e matriculou-se na Universidade Vassar (Poughkeepsie, NY). De 1930 a 1932, cursou a Universidade de Columbia em Nova York. Estreou na literatura com o livro Theory of Flight (1935), vencedor do Yale Younger Poets Series, o mais antigo prêmio literário anual dos Estados Unidos. Na época de sua estreia notável, W. R. Benet comentou na revista norte-americana Saturday Review of Literature: “quando você segura este livro em sua mão, você segura algo vivo.”

Rukeyser lutou fortemente pelos direitos humanos e construiu uma extensa e potente produção literária. Sua poesia é densa, impactante e convida à reflexão. Movida pela paixão que nutria pela condição humana e pelo mundo, esse “lar desconstruído” que herdamos, foi capaz de “carregar nações inteiras para a frente através da urgência de sua mensagem”. Apesar de ser marcadamente política, a autora explorou em sua poesia inúmeros temas como a condição da mulher, sexualidade, criatividade e morte.

Publicou os títulos A Turning Wind (1939), Beast in View (1944), The Green Wave (1948), Elegies (1949), Body of Waking (1958), The Speed of Darkness (1968), Breaking Open (1973), The Gates (1976) entre outros. Adrienne Rich chegou a comentar: “ela nos alerta, leitores, escritores e participantes da vida de nosso tempo, para ampliar nosso senso de que a poesia é para o mundo, bem como o lugar dos sentimentos e da memória na política”.

Das traduções já realizadas da autora para o português, menciono as de André Caramuru Aubert, no Jornal Rascunho, e as de Ricardo Domeneck, na revista eletrônica Modo de usar & co. Para esta publicação, selecionei os seguintes poemas: Paisagem que respira (Theory of Flight, 1935), O nascimento (Body of Waking, 1958) e Alas (Breaking Open, 1973). Traduzindo para o português, optei por mudanças estruturais que garantam uma leitura mais fluida e coerente, evitando interferir na concisão e quebra dos versos originais.

*

Paisagem que respira

Deitada sob o sol
e deitada aqui tão quieta
um ovo poderia ser chocado lentamente nesta mão
As pessoas passam
abruptamente acenam: elas sorriem
arrastam–se no ar, silêncio segue seus rostos.
Eu sei, deitada
como as colinas estão fixas
e a lua do dia corre no topo delas
Nada cruzou o campo
o dia todo, mas um pássaro
contorna a grama alta em um rápido trânsito
Suas ideias severas
um longo trabalho para cada
e até mesmo blindados dificilmente nos tocamos
O vento inclina,
o ar devidamente imposto
Sobre esses rostos e pensamentos em uma dança solene
O silêncio abraça o ar
Nada é dito, mas o som
de certos rios continuam subterrâneos.

Breathing Landscape

Lying in the sun
and lying here so still
an egg might slowly hatch in this still hand.
The people pass
abruptly they nod : they smile
trailed in the air, silence follows their faces.
I know, lying
how the hills are fixed
and the day-moon runs at the head of the fixed hills.
Nothing crossed the field
all day but a bird
skirting the tall grass in briefest transit.
Their stern ideas
are a long work to each
and even armored we hardly touch each other.
The wind leans,
the air placed formally
about these faces and thoughts in formal dance.
Silence hangs in the air.
Nothing speaks but the sound
of certain rivers continuing underground.

§

O nascimento

Recentemente escapei de três tipos de morte
Não por evasão, mas por sobreviver
Eu celebro o que pode ser o verdadeiro começo

Mas comecei sem mais recurso
Estúpida e parada
Como um recém nascido cresce? Eu sou um deles
O frescor tem tomado nossos corações
A dor nos tira de uma nova fonte, crianças de uma nova vida
Esperando pela infância como esperamos pela forma

Então venho para o mundo de todos os vivos
O mutilado meio triunfante de meu caminho
Onde há doação, não é necessário perdão
Vi agora o presente que está aqui para dizer:
Nada do que escrevi é o que devo ver escrito
Nada do que eu fiz é o que agora preciso fazer—
O sorriso da escuridão na minha canção e no meu filho.

Recentemente emergiram casas desoladas
Que já viram espíritos fechados, cercados pelo sol
E ter, entre incontáveis rostos comuns
assistido todas as coisas mudarem, um lar desconstruído herdar

Objetos do desejo, aquela pedra e madeira e ar
Iluminado por um nascimento, eu defendo começos obscuros
Desperdício que nunca é desperdício, doação mais humana
Declarado e evidente como o corpo mortal da graça
Começos da verdade na vida, os espaços do deserto
Onde a verdade alimenta e o coração ramificado,
até o meu, glorificando o passado em suas peças
Minha carne lacerada que me trouxe para este lugar.

A Birth

Lately having escaped three-kinded death
Not by evasion but by coming through
I celebrate what may be true beginning.

But new begun am most without resource
Stupid and stopped.
How do the newborn grow? I am of them.
Freshness has taken our hearts;
Pain strips us to the source, infants of further life
Waiting for childhood as we wait for form.

So came I into the world of all the living
The maimed triumphant middle of my way
Where there is giving needing no forgiving.
Saw now the present that is here to say:
Nothing I wrote is what I must see written,
Nothing I did is what I now need done.—
The smile of darkness on my song and my son.

Lately emerged I have seen unfounded houses,
Have seen spirits not opened, surrounded as by sun,
And have, among limitless consensual faces
Watched all things change, an unbuilt house inherit
Materials of desire, that stone and wood and air.
Lit by a birth, I defend dark beginnings,
Waste that is never waste, most-human giving,
Declared and clear as the mortal body of grace.

Beginnings of truth-in-life, the rooms of wilderness
Where truth feeds and the ramifying heart,
Even mine, praising even the past in its pieces,
My tearflesh beckoner who brought me to this place.

§

Alas
St. George’s Hospital, Hyde Park Corner

Deitada neste momento, ela escala neves brancas;
Ao pé da cama o quadro relata.
Aqui um homem queima em febre, ele está aqui, ele está lá,
Cinco mil anos atrás no país da gruta
Nesta cama, eu vago em Macau
Eu corro toda noite pelos becos escuros. O tempo corre
No limite e tudo existe em todos. Nós abraçamos
Toda a história humana, toda geografia,
Eu não consigo lembrar da palavra que eu preciso
Nossas explorações, tudo no precipício
A mesa de cabeceira, uma paisagem de zebras
Constelações condutoras. Toda essa música,
Eu ouvi antes de nascer. Eu venho
Neste caminho, para o lugar
Nos iluminamos,
Este momento me dando necessidade
Dando a nós mesmos e arriscamos tudo
Caminhando em nossa vida.

The Wards
St. George’s Hospital, Hyde Park Corner

Lying in the moment, she climbs white snows;
At the foot of the bed the chart relates.
Here a man burns in fever; he is here, he is there,
Five thousand years ago in the cave country.
In this bed, I go wandering in Macao,
I run all night the black alleys. Time runs
Over the edge and all exists in all. We hold
All human history, all geography
I cannot remember the word for what I need.
Our explorations, all at the precipice,
The night-table, a landscape of zebras,
Transistor constellations. All this music,
I heard it forming before I was born. I come
In this way, to the place.
Our selves lit clear,
This moment giving me necessity
Gives us ourselves and we risk everything
Walking into our life.

§

Vitória Régia nasceu em Fortaleza, em 1991. É graduada em Letras e mestra em Linguística pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Publicou os livros de poesia Partida de não dizeres (Editora Substânsia, 2015) e Náutico (Editora Patuá, 2018). Atualmente edita a revista de Literatura e Artes Para Mamíferos e escreve regularmente para a coluna Leituras da Bel do Jornal O Povo.

***

Padrão
poesia

4 poemas inéditos de Sara Síntique

IMG_0209

Sara Síntique é escritora, atriz, educadora, mestra em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC), onde também se graduou em Letras Português – Francês. Autora do livro Corpo Nulo (Poesia, Editora Substânsia, 2015), escreve poemas quinzenalmente para o blog Leituras da Bel (Jornal O Povo). Tem textos publicados na Antologia de Poemas Eróticos – Mulheres Cearenses, nas revistas Literatura BR, Diversos Afins, Gueto, Saúva e aqui na escamandro. Os poemas abaixo integram seu livro inédito Água – ou testamento lírico a dias escassos, a sair este ano pela Edições Ellenismos.

*

abstração

até quando
arrastar os pés no deserto
e não ter que
esta miragem?

do Chade ao Saara

um dia chega que
não se pode mais tanta
abstração

até quando
arrastar os pés no deserto
e não ter que
esta miragem?

até quando
oh Velho Navio
um mar
um mar longínquo
oh Velho Navio
e uma terra
onde se possa querer
à vista?
§

onda de porto mare motus

tantas manhãs de domingo e

e então
acostumar o gosto ácido
na boca e
um cataclismo
aquele medo de esquecer
todas
as palavras
§

lambíamos
durante as madrugadas

mas quanto desses pelos restam em tua boca
feito
areia remota
a dissolver os oceanos?
§


memórias anotadas num diário de infância

hoje: uma mulher molhou os pés no riacho.
ela molha as mãos uma mulher adentra
mas não toda
e lava panos
tantos panos a barriga dela
toda pra fora suor e água e a barriga dela a
roupa toda molhada
as mãos ficando doutra forma
a pele engraçada enrugada engraçada

um peixe lhe morde os pés e outro e outro beliscam
não sei o nome
dos peixes mas sei
a mulher ri

por ora ri
ri mesmo

sorri

hoje: uma mulher sorri.
nem parece que tanto sol lhe assusta.

***

Padrão