poesia, tradução

Adrienne Rich, por Sarah Valle

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Adrienne Rich (1929 – 2012) foi uma poeta norte-americana, pensadora e ativista, ícone feminista, também reconhecida pela ampla militância em prol de direitos humanos. Vinte e um poemas de amor (1976) integram o livro O sonho de uma língua comum, conjugando a história do silenciamento coletivo e o diálogo amoroso. Além de poemas a uma amante, são atos mentais de consciência e vontade, assumindo responsabilidade frente às forças que minam o relacionamento narrado. A sequência já foi chamada de a “primeira abertamente lésbica” escrita por uma autora norte-americana de renome e um “marco histórico” no Women’s Liberation Movement.

Sobre a tradução

Apesar de diretos, dialógicos e cortantes, os poemas de Adrienne muitas vezes se fazem nas bordas do verso regular. Vinte e um poemas de amor flertam com as sequências de sonetos de amor, de forma a inserir um tema renegado numa forma canônica repaginada. A partir da percepção de que nesses “quase sonetos” há um metro fantasma, o pentâmetro iâmbico, recrio na tradução um flerte com os versos tradicionais decassílabos, hendecassílabos e dodecassílabos, contudo diluídos. Especialmente no início, os poemas tendem à lembrança da métrica, acabando por vezes em finais antiestéticos. Incluo nesta amostra o “poema flutuante, não numerado”, que resiste a ser enquadrado na sequência e surpreende quem espera de Adrienne poemas mentais. Este é meu primeiro exercício de tradução e durou os anos do mestrado. A tarefa de alcançar um tom médio entre a tradição e o caráter direto engessou um pouco os poemas. Ainda assim, suponho que incorporam a tensão entre ato estético e ato político e colocam contra a parede a tradição literária de língua inglesa, bem como a tradição literária de minha própria língua.

Sarah Valle

*

VI
Suas mãos pequenas, tão iguais às minhas—
só o polegar é mais largo, longo—nessas mãos
eu entregaria o mundo, ou em muitas mãos como essas,
manuseando ferramentas, volantes
ou tocando um rosto. . . Tais mãos poderiam recolocar
a criança não nascida no canal do parto
ou pilotar o exploratório navio de resgate
por entre icebergs, ou reunir
os cacos feito agulhas de uma grande cratera grega
sustentando à sua volta
silhuetas de mulheres em êxtase dando grandes passos
rumo à gruta da sibila ou à caverna de Elêusis—
tais mãos poderiam comportar uma violência inevitável
com tal restrição, com um tal senso
dos alcances e limites da violência
que toda violência seria, dali em diante, obsoleta.

VI
Your small hands, precisely equal to my own—
only the thumb is larger, longer—in these hands
I could trust the world, or in many hands like these,
handling power-tools or steering-wheel
or touching a human face. . . Such hands could turn
the unborn child rightways in the birth canal
or pilot the exploratory rescue-ship
through icebergs, or piece together
the fine, needle-like sherds of a great krater-cup
bearing on its sides
figures of ecstatic women striding
to the sibyl’s den or the Eleusinian cave—
such hands might carry out an unavoidable violence
with such restraint, with such a grasp
of the range and limits of violence
that violence ever after would be obsolete.

§

VIII
Vejo-me há muitos anos em Sunião
sofrendo com um pé infeccionado, Filoctetes
em forma de mulher, mancando pelo longo caminho,
deitada num cabo sobre o mar escuro,
olhando embaixo as rochas rubras onde uma linha muda
e branca me contou que uma onda as golpeara,
supondo a tração da água àquela altura,
sabendo que suicídio deliberado não era meu métier,
no entanto todo tempo aleitando, aferindo a ferida.
Bem, isso está acabado. A mulher que acarinhava
seu sofrimento está morta. Sou sua descendente.
Amo a malha de cicatrizes que ela me concedeu,
mas quero seguir daqui com você
resistindo à tentação de fazer da dor uma carreira.

VIII
I can see myself years back at Sunion
hurting with an infected foot, Philoctetes
in woman’s form, limping the long path,
lying on a headland over the dark sea,
looking down the red rocks to where a soundless curl
of white told me a wave had struck,
imagining the pull of that water from that height,
knowing deliberate suicide wasn’t my métier,
yet all the time nursing, measuring that wound.
Well, that’s finished. The woman who cherished
her suffering is dead. I am her descendant.
I love the scar-tissue she handed on to me,
but I want to go on from here with you
fighting the temptation to make a career of pain.

§

IX
Seu silêncio de hoje é um poço onde vivem submersas
coisas que eu quero ver alçadas, pingando ao sol.
Não é meu próprio rosto que vejo ali, mas outros rostos,
até mesmo o seu rosto em outra idade.
O que quer que esteja perdido ali é necessário a ambas—
um relógio de ouro velho, um gráfico de febre borrado,
uma chave. . . Mesmo os seixos e o lodo do fundo
merecem seu lampejo de percepção. Temo esse silêncio,
essa vida inarticulada. Espero
um vento suave que abra esse lençol d’água
finalmente, e me mostre o que fazer
por você, que tantas vezes tornou o inomeável
nomeável para outros, até para mim.

IX
Your silence today is a pond where drowned things live
I want to see raised dripping and brought into the sun.
It’s not my own face I see there, but other faces,
even your face at another age.
Whatever’s lost there is needed by both of us—
a watch of old gold, a water-blurred fever chart,
a key. . . Even the silt and pebbles of the bottom
deserve their glint of recognition. I fear this silence,
this inarticulate life. I’m waiting
for a wind that will gently open this sheeted water
for once, and show me what I can do
for you, who have often made the unnameable
nameable for others, even for me.

§

(O POEMA FLUTUANTE, NÃO NUMERADO)

Aconteça conosco o que for, seu corpo
vai assombrar o meu—delicado, terno
quando faz amor, como a rama espiralada
do broto de samambaia em bosques
recém-banhados pelo sol. Suas coxas viajadas, generosas
entre as quais meu rosto inteiro goza e goza—
a inocência e a sabedoria do lugar que a minha língua achou ali—
a dança viva, insaciável, dos seus mamilos na minha boca—
seu toque em mim, firme, protetor, que me
busca, sua língua forte e seus dedos esguios
atingindo onde esperei tantos anos por você
na minha caverna rosa-molhada—aconteça o que for: é isso.

(THE FLOATING POEM, UNNUMBERED)

Whatever happens with us, your body
will haunt mine—tender, delicate
your lovemaking, like the half-curled frond
of the fiddlehead fern in forests
just washed by sun. Your traveled, generous thighs
between which my whole face has come and come—
the innocence and wisdom of the place my tongue has found there—
the live, insatiate dance of your nipples in my mouth—
your touch on me, firm, protective, searching
me out, your strong tongue and slender fingers
reaching where I had been waiting years for you
in my rose-wet cave—whatever happens, this is.

§
XIV
Sua visão do piloto confirmou
minha visão de você: você disse, Ele atira
o barco contra as ondas, de propósito
enquanto nos encolhemos no alçapão aberto
vomitando em sacos plásticos
durante três horas entre St. Pierre e Miquelon.
Nunca me senti tão próxima a você.
Na cabine apertada onde os casais em lua-de-mel
se amontoavam nos colos e braços uns dos outros
coloquei minha mão sobre sua coxa
para nos confortar, e sua mão veio sobre a minha,
ficamos assim, sofrendo juntas
em nossos corpos, como se todo o sofrimento
fosse físico, nos tocando na presença
de estranhos que nada sabiam nem se importavam
vomitando suas dores privadas
como se todo sofrimento fosse físico.

XIV
It was your vision of the pilot
confirmed my vision of you: you said, He keeps
on steering headlong into the waves, on purpose
while we crouched in the open hatchway
vomiting into plastic bags
for three hours between St. Pierre and Miquelon.
I never felt closer to you.
In the close cabin where the honeymoon couples
huddled in each other’s laps and arms
I put my hand on your thigh
to comfort both of us, your hand came over mine,
we stayed that way, suffering together
in our bodies, as if all suffering
were physical, we touched so in the presence
of strangers who knew nothing and cared less
vomiting their private pain
as if all suffering were physical.

§

Sarah Valle é mestre em Estudos da Tradução pela Universidade de São Paulo. É autora da novela Arquitetura do Sim – fragmentos de um diário da Ásia (2018, Editora Cozinha Experimental).

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poesia

1 poema inédito de Mariana Basílio

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Mariana Basílio é prosadora, poeta, ensaísta e tradutora. Nascida em Bauru, interior de São Paulo, em 1989.  Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Autora dos livros de poesia Nepente (2015) e Sombras & Luzes (2016). Colabora em portais e revistas nacionais e internacionais, tendo traduzido nomes como May Swenson, Alejandra Pizarnik, Edna St. Vincent Millay, Sylvia Plath e William Carlos Williams. Com patrocínio do prêmio ProAC (2017) do Governo de São Paulo, publicou em 2018 seu terceiro livro, o poema longo Tríptico Vital (Patuá). O projeto também foi finalista do programa de Residência Literária do SESC (2018). Mantém o site www.marianabasilio.com.br. Já esteve presente na escamandro com poemas autorais e traduções de Denise Levertov e Edna St. Vincent MIllay.

*

Brasil 2019

O poema Fim, disposto nessas linhas em três atos, foram versados durante o resultado do período de eleições presidenciais de 2018. Apesar de a autora não ser partidária nem de si, nem de outros, sentiu no avesso do estômago o resultado das urnas, e ali sentou o pensamento. O fato finito talvez esteja nos brasis de um só Brasil, que continuam abrasados como vespas amontoadas em nossos cílios – nada ordenados ou progressistas. Eis apenas uma imagem. Primeiro publicada na revista impressa portuguesa Flanzine (18º), a convite de João Pedro Azul, e lançada nos dias 8 e 15 de dezembro de 2018 nas cidades de Porto e Lisboa, agora disposta na revigorante escamandro, pelo fino trato de Nina Rizzi.

Mariana Basílio
*

បញ្ចប់

PRIMEIRO ATO

 Toda a manhã consumida
Como um sol imóvel
Faiscado nas rugas do
Percurso móvel.
Toda a manhã consumida
O DESERTO – rigoroso horizonte –
Bico dos seios no cu que se curvava: um anel dourado
O lombo estralado na pátria assassinada
Rasteja nos pares ao fundo
Condor, ó condor resvalado!
Pelos dedos dos pés há um menino há uma
Menina rasgados pela sagrada escritura
Onde as palavras tornaram-se inúteis.
Os despachos os cantos os berros os
Ouvidos: atentos! Mentes confinadas
– Estou sem ar! – disse ele.  – Está bem… que seja…
Apenas deixe-me sair… por favor.
O lastro da boca é o leite derramado
Ouve-me. Ouve-me enquanto
“É o coração de Cabestan no prato.”
Cospem no céu, cospem no chão
– Aonde vocês vão? – espantaram-se as senhoras de K.
– Anna Pávlovna, aonde você vai, querida?
Pro inferno, diacho, pro inferno de Riobaldo!

Es el inospito! Es el inospito! Es el inospito!

UM VAZIO hoje se condecora com lágrimas –
Esqueçam os faróis, os traços são mesmo azuis
E ainda vivemos aqui

SEGUNDO ATO

Assim a luz chove, assim verve o estômago
Talheres dispostos, silêncio silente le solo seul
Nós pairamos aqui
Água férvida, espasmos estridentes à
Comida entalada no pescoço porque
NADA mudará compondo o abismo do amanhã
“And to die is different from what any one supposed, and luckier.’’
Pelos dedos das mãos há um homem há uma
Mulher mutilados pela hipocrisia literária.
Ouve-me. Ouve o espanto tragado de mim que
Vi as piores mentes da minha geração saudadas pela loucura
Cuspidas no céu, cuspidas no chão aos
Animais cochichando “Como são imbecis os humanos!”
Com o coração perfurado da vida o coeficiente da morte é esquartejado
Pelo próprio corpo, e é só o começo comestível de mil anos
A madeira lascada, o vidro trincado, a lama putrificada
É uma dança de adeuses no passado gigante que nos ouve
Zoe says this is over! this is over! this is over! this is over!
Mas não acabou o mar com o fogo
Na lareira do tempo o teu crisol na caça fundida dos chacras
“Eleonora, ἑλέναυς e ἑλέπτολις!”
A tromba elevada, as costas ancoradas
A água jorra do inesperado
CABRUM CABRUM ela se refez da mata

TERCEIRO ATO

Koi no yokan diz a placa
Altar dos demônios expirados nos sorrisos de criança
Os camaradas não disseram que havia uma guerra e era necessário trazer fogo e alimento.
O BRASIL recoberto de mágoas chafurdando corações
– Eram uns tempos grávidos de nomes,
era um rumor de apelos
e de dádivas. – com os lábios segurando cigarros no entardecer.
Altar das vísceras cindidas nos enganos de todo santo dia.
Percorrer a Glória, endoidecer perante os rostos pedindo moedas
No arpoador gazelas fogem dos tiros por detrás, à esquerda
Há uma miudeza mofando pelas axilas há medo e há lume
– Era uma noite; e as cobras se enlaçavam
destronadas; e um mundo se paria. – o peito inflamado de fumaça
Tossia ainda que a lua se dispusesse no sonho desalmado da noite.
Mas ainda caminhávamos, sedentos,
– E, entanto, o olhar audaz e visionário
Já tem clarões sinistros de fogueira! – um pau entre as coxas esporrava
Ela dizia socorro! E o mundo de costas aplaudia – cabeça entre lágrimas
Abraçada nos destroços da padaria: uma senhora
De las geraciones de las rosas
que en el fondo del tiempo se han perdido
Alguém já contou nossos dias, alguém que já sabe das horas
Acaba de proferir o manifesto dos odiados.
Cosme contemplava a ternura e os faróis ressurgiam:
O que sou eu, gritei um dia para o infinito
E o meu grito subiu, subiu sempre
Até se diluir na distância. – Mas as pontas não se enlaçavam.
As armadilhas na dentadura do cadáver sob a mesa do jantar
Eram o próprio sol imóvel, dissecado na memória,
Escalado nas paredes do paraíso que nos destruirá
A VOZ – “Pensa no que te disse, se não quiseres te arrepender!”
Um caranguejo se agiganta no açoite
Macunaíma deu uma grande gargalhada.
A verdadeira dor é incompatível com a esperança.

Um porco caminha procurando por comida na rua do Bairro de Bangu.
Um porco caminha procurando por comida na rampa do Palácio do Planalto.

De dois em dois nessa vala um pressentimento ainda faísca na
Manhã consumida – o coro das vozes é aqui incendiário –
A limpeza dos ideais se exalta no nu de nossas cabeças.

E estou moribunda à beira do caminho.

*

 

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Julia Raiz

julia raiz

julia raiz. escrevo, sou professora no cursinho “tô passada” do transgrupo marcela prado. no doutorado estudo tradução, ensaio e crítica literária feminista. como militante, construo a frente feminista de curitiba e região, também edito os blogs literários totem & pagu e pontes outras. meu livro de estreia “diário: a mulher e o cavalo” saiu em 2017 pela contravento editorial.

*

você diz não acreditar em incêndio
como se desastres
dependessem da sua habilidade
de tacar fogo no corpo

sonhei antes de passar por essa trilha
com um carvão pairando sobre
a minha cabeça

não tão preto quanto seus cabelos
nem tão enredado
quanto o coração dos cachorros
que você devora

do carvão saíam cabos de aço
tortos tantos e ainda assim
você não sabe fingir
nem dizer a verdade

se voltasse àquela casa
da chinesa fu
talvez soubesse
que te entregaram uma adaga
como símbolo da sua entrada
no mundo dos homens
que não usam bermudas
ainda que com vontade
ainda que ardendo
por dentro

eu digo não acredito em incêndio
e penso em sigilos
cadeados
e torneiras mal fechadas

§

você confunde o amor com uma pérola

o poeta na parede
com um tiro na testa
também sabia seu nome
sabia da constância do topo nevado
mesmo no calor do seu pescoço
ele podia ter fugido pelo mar
em vez de conviver
com seus impulsos violentos

a destruição minando
de cada contraparte

ele teria gostado de te socar a cara
como um jaguar
saindo da água quente
eu não me importo mais
com o tamanho do corte
não quero mais seguir mergulhando
odeio você
e a sua cidade aquática
só amo o lorca

§

p/ júlia manacorda

as coisas passam com tanta velocidade
júlia
queria te contar como me apaixonei
por uma sala três anos atrás
e como era difícil
respirar lá dentro com as janelas
me convidando a medir o tronco
uma sala em permanente reforma
que nunca existia
por mais de alguns dias
intacta e que no fim esteve fechada
por dois meses na companhia
de homens estranhos
pensei que você
dentre todas as pessoas
entenderia o que é
ter andaimes no lugar do tórax
as cores de uma sala circular
passam tão alucinantes
quanto uma tempestade
quanto a sua alegria
no centro da cidade
a história segue enferrujando
às nossas costas
júlia
nesses últimos dias
eu vomito mercúrio
de tanta saudade
daquela sala
de passagens secretas
parece que eu nunca vou deixar
de gritar seu nome à noite
como a versão que você chamaria de moderna
de um pesadelo antigo

§

a mim você eu não me engano

sabe que ontem
eu trepava com quem me ama

uma onda por cima de um terremoto

o que saia de mim era o som de um órgão
crispando no fogo

eu ri sem parar

queria acabar com vocês
um monstro de duas cabeças

comê-las como se louvasse a deus

esta é a primeira última página
a que me dedico a te enganar

de nada por ter me marcado a ferro

agora só me resta deitar neste vão
não ter medo de que você pela rua
saia com a pele brilhando

§

julia raiz

Julia Raiz, poemacolagem sem título, 2015.

1

sarah se pergunta antes de dormir com o quê sonha o lula. ela sabe que a Outra sonha com o irmão sendo espancado de novo. um braço retorcido, lá fora a árvore floresce. 0 reais pra pagar o botijão de gás. o pai da Outra entra na casa pra levar a geladeira mais duas vezes, a televisão já era. lá fora tem mais 3 homens mexendo no lixo. 1 escreve uma novela-folhetim sobre o estado brasileiro, o outro tem formulada na cabeça uma teoria dos olhares, o último volta pra casa com dor de cabeça, não sabe se é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo e ainda pagar a condução.

2

o final de tarde é um martírio, a gente sabe, companheiro. COM O QUÊ SONHA O LULA? gladíolos. a resposta sobre os retrocessos e certezas dos mitos é irrelevante, disfarça a atriz, sentada na cadeira de plástico com os talheres de plástico. caiu do seu bolso uma imagem do carneirinho de São João. neste momento voa pela calçada uma compradora de gladíolos, flores que são comuns nessa época do ano.

3

o objetivo da sarah sempre foi complexificar o tubarão pra complexificar o rapaz e a sua genitália. nunca foi simplificar, nunca, nunca. ela sofre por isso. como uma mulher complexa ela sofre por saber que o rapaz de óculos espelhado é um universo inteiro em si, que o tubarão representa o que existe de mais real no universo: um corpo em movimento pela sobrevivência. sarah não exige que as pessoas saibam de imediato fazer com ela um bom sexo oral, não quer colocar essa pressão nas costas alheias. ela mesma não sabe o que faz, às vezes. olha, são ímpetos de humanidade querer descobrir do que as gentes são feitas, se vem a Outra e te ameaça com uma faca de carne, te obriga a entregar seu celular que você nem acabou de pagar (tá na sétima parcela ainda), sarah, você faz o quê? começa a gritar que ela é sua irmã? você abraça ela como se fosse um menino descalço passando na rua, sarah? esse tempo já passou, o tempo da ficção brasileira da CULPA & PERDÃO, da INOCÊNCIA & CASTIGO já foi! o que você vai fazer agora, sarah? que os moldes foram destruídos…você precisa olhar pra cara das pessoas nas ruas e gritar me digam, pelo amor de deus, me digam como eu posso servir.
todos esses rostos textos bonitos pra quê?

*

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Joanne Kyger, por Mariana Basílio

joane

Joanne Kyger (1934 – 2017) foi uma das mais proeminentes poetas estadunidenses do século XX. Autora de mais de 30 livros de poesia e prosa, Kyger foi associada com os poetas do Renascimento de San Francisco, assim como a Geração Beat, Black Mountain e a Escola de Nova York. Sua poiesis está inserida tanto no modernismo norte-americano quanto nos clássicos orientais. Foi casada com Gary Snyder (1930) e grande amiga de Allen Ginsberg (1926 – 1997).

Ao lado de poetas como Diane di Prima (1934) e Anne Waldman (1945), a poeta deixou sua marca como autora, como mulher em destaque em um contexto de dominação masculina das letras americanas após a Segunda Guerra Mundial, personificada por autores como William S. Burroughs (1914 – 1997), Neal Cassady (1926 – 1968), Jack Kerouac (1922 – 1969), além dos próprios Ginsberg e Snyder.

Kyger faleceu de câncer aos 82 anos, no dia 22 de março de 2017, em sua casa em Bolinas – Califórnia na companhia de seu marido, Donald Guravich. Ela trabalhava em um novo livro, There You Are: Interviews, Journals, and Ephemera. O livro foi publicado postumamente pela Wave Books, em setembro do mesmo ano.

Sua obra também inclui livros como: The Tapestry and the Web (1965), All This Every Day (1975), Going On: Selected Poems, 1958–1980 (1983), Just Space: Poems 1979–1989 (1991), Again: Poems 1989–2000 (2001), As Ever: Selected Poems (2002), God Never Dies (2004), On Time: Poems 2005–2014 (2015), There You Are: Interviews, Journals, and Ephemera (2017).

Em relação à tradução, me organizei na poesia de Kyger procurando um equilíbrio entre seus versos livres, tanto na métrica quanto no ritmo, focando sobretudo no sentido, na fluidez, na contemporaneidade de seus versos na língua portuguesa, acompanhando a essência de Joanne: uma poesia de detalhes e inesperadas sensações – repleta de reflexões sociais e religiosas– em pensamentos que procuram saltar os escombros de uma sociedade que ainda se dizima constantemente.

 Mariana Basílio

*

Já faz muito tempo

NOTAS DA REVOLUÇÃO

Durante a batida desta história você pode encontrar outras batidas. Quero dizer
uma batida, quero dizer Cantus, quero dizer Firme-nos, quero dizer papel, quero dizer no Reino que está vindo, que está aqui em descoberta.

Também é Om Shri Maitreya, você não atravessa minhas vibrações,
mas com elas, perdendo o pronome. É Tu, é Ti, sou eu, sou mim.

Máquinas são metal, elas nos servem, nós cuidamos delas. Isso é para mim, e isso é para você. Você diz você para mim, e eu digo você para você. Algumas máquinas são muito delicadas, elas são precisas, elas não são grandes carimbadoras de metal, Ela fez poesia suficiente para manter sua companhia.

Minhas Vibrações. Você interceptou minhas vibrações. As longas sombras,
as longas sombras, as longas sombras. Meu pequeno e doce tom,
meu pequeno e doce tom é meu braço.

Naquilo Apenas: A canção que a menina cantou a canção que a menina cantou

It’s been a long time

NOTES FROM THE REVOLUTION

During the beat of this story you may find other beats. I mean a beat, I mean Cantus, I mean Firm us, I mean paper, I mean in the Kingdom which is coming, which is here in discovery.

It is also Om Shri Maitreya, you don’t go across my vibes, but with them, losing the pronoun. It is Thy, it is Thee, it is I, it is me.

Machines are metal, they serve us, we take care of them. This is to me, and this is to you. You say you to me, and I say you to you. Some machines are very delicate, they are precise, they are not big metal stampers, She made enough poetry to keep her company.

My Vibes. You intercepted my vibes. The long shadows, the long shadows, the long shadows. My sweet little tone, my sweet little tone is my arm.

On what Only: The song that girl sang the song that girl sang

§

“Quando eu me concentrava nas preocupações, todo mundo”

Quando eu me concentrava nas preocupações, todo mundo
estava à minha frente, eu era a base
do pilar do totem,
um animal amplamente agachado.

Que tal uma massagem rápida agora, ele me disse.
Eu não acho que seja legal, respondi.
Oh, disse ele, depois de uma pausa, eu deveria ter esperado
você me pedir.

As ondas chegaram cada vez mais perto.

Quando caio na lacuna da suspeita, já não estou mais aqui.

Neste mundo que foi fechado por casas
e redes, eu saio voando de
debaixo da barriga. A zonza coroa da vida,
de luzes giratórias, circula essa cabeça. Pura
com o assombro, quente
com o assombro. As ruas se tornaram douradas. Todos
os tamanhos aumentam, as cores brilham, estamos no mito.

Nós estamos em fácil compreensão.
Mal falando, os pensamentos passam por nós.
É a memória. Enquanto busco encontrar
a doce deriva deste dia. A névoa para o mar, o vento.

“When I used to focus on the worries, everybody”

When I used to focus on the worries, everybody
                      was ahead of me, I was the bottom
                of the totem pole,
              a largely spread squat animal.

How about a quick massage now, he said to me.
I don’t think it’s cool, I replied.
Oh, said he, after a pause, I should have waited
                     for you to ask me.

The waves came in closer and closer.

When I fall into the gap of suspicion I am no longer here.

In this world that has got closed over by houses
                       and networks, I fly out
from under the belly.     Life’s dizzy crown
of whirling lights, circles this head.    Pure
with wonder, hot
with wonder.    The streets become golden.     All
size increases, the colors glow, we are in myth.

We are in easy understanding.
Scarcely talking, thoughts pass between us.
                                    It is memory.    As I search to find
this day’s sweet drifting.    The fog out to sea, the wind.

§

Setembro

 A grama é marrom clara
e o oceano adentra
longas linhas cintilantes
sob a frota da noite anterior
que dorme agora de manhã cedo

Aqui e lá pastam os cavalos
no terreno de alguém

Estranhamente, não foi minha vontade

que me fez falar na igreja para ser liberada
mas a memória de como costumava ser
em um jogo descontraído e exótico

quando os personagens eram promessas
e depois reconhecimentos. O mundo da transformação
é real e irreal, mas confiante.

Chega dessas lições? Quero dizer
frases didáticas para te fazer entrar e sair dos
laços misteriosos do amor?

Bem, eu mesma não sou eu mesma

e o poder de sobrevivência pelo qual eu falo
não é feito de casas.

É luxo interior, de figuras douradas
que respiram como as montanhas
e cuja pele é escurecida por estrelas.

September

The grasses are light brown
              and the ocean comes in
              long shimmering lines
              under the fleet from last night
              which dozes now in the early morning

Here and there horses graze
              on somebody’s acreage

                               Strangely, it was not my desire

that bade me speak in church to be released
         but memory of the way it used to be in
careless and exotic play

               when characters were promises
      then recognitions.  The world of transformation
is real and not real but trusting.

                            Enough of these lessons?  I mean
didactic phrases to take you in and out of
love’s mysterious bonds?

                      Well I myself am not myself

           and which power of survival I speak

for is not made of houses.

          It is inner luxury, of golden figures
that breathe like mountains do
            and whose skin is made dusky by stars.

§

PALÁCIO NOTURNO

A melhor coisa do passado
é que acabou
quando você morre
você acorda
do sonho
que é a sua vida.

Então você cresce
e se torna pós-humano
em um passado que ainda acontece
à sua frente.


NIGHT PALACE

The best thing about the past
is that it’s over
when you die
you wake up
from the dream
that’s your life.

Then you grow up
and get to be post human
in a past that keeps happening
ahead of you.

*

Mariana Basílio (Bauru – São Paulo, 198). Prosadora, poeta, ensaísta e tradutora. Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Autora dos livros de poesia Nepente (2015) e Sombras & Luzes (2016). Colabora em portais e revistas nacionais e internacionais, tendo traduzido nomes como May Swenson, Alejandra Pizarnik, Edna St. Vincent Millay, Sylvia Plath e William Carlos Williams. Com patrocínio do prêmio ProAC (2017) do Governo de São Paulo, publicou em 2018 seu terceiro livro, o poema longo Tríptico Vital (Patuá). O projeto também foi finalista do programa de Residência Literária do Sesc (2018). Mantém o site www.marianabasilio.com.br.

*

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poesia

Stephanie Borges

Stephanie Borges é jornalista, tradutora e poeta. Trabalhou em editoras como Cosac Naify e Globo Livros. Publicou poemas nas revistas Garupa, Pessoa e A bacana. Traduziu ensaios da poeta Claudia Rankine (Revista Serrote 28, Apocalipse?) e Irmã Outsider, de Audre Lorde (Autêntica, no prelo). Seu livro de estreia Talvez precisemos de um nome pra isso venceu o IV Prêmio Cepe Nacional de Literatura e será publicado em 2019. Escreve sobre suas leituras na newsletter a cartinha de banalidades (tinyletter.com/stephieborges).

*

nas cartas

I

você acaba
descobrindo coisas
sobre as pessoas, nem elas
querem saber
você também não quer, mas
precisa de dinheiro, afinal
tá difícil,
os brigadeiros gourmet
não deram certo, nem ser
babá de gatos,
por que não o tarô?
ainda mais, agora, olha,
esse às de ouros é um começo
novas oportunidades
então é escolher um nome

Mística
Feiticeira
Sacerdotisa
pensa no que eles sempre querem
Fortuna
Amor
Prosperidade

junta tudo, uns vestidos coloridos,
anéis pulseiras, inventa essa persona
manda fazer cartazes
pintar muros
tuas propagandas
de certezas espalhadas
por toda cidade

II

sei do seu amor, escrevo cartas, leio mãos,
removo calos, estanco choro, curo cólicas, faço o jogo,
adivinhação streap poker truco buraco, três cartas
não precisa me contar a situação, aceito débito, crédito,
banho de ervas, incensos, cristais para sua mesa de trabalho
e de cabeceira, pipoca, oferendas de flores no mar, na cachoeira,
desfaço trabalhos, espanto encosto, guardo segredos
marque agora sua consulta

III

essa carta é sobre o que você quer
e o que você tem medo, ao mesmo tempo
isso mesmo
é ser feliz no amor
acontece, a gente quer mas
pode não estar pronta
existe o risco, as coisas mudam
acabam, e aí?
é como ganhar
um dinheiro inesperado
seria bom, mas se vem, de repente
a pessoa periga não saber o que fazer
volta e meia alguém diz quero mudar,
mas não quer que doa
fosse assim, era fácil
não diriam estamos aqui pra evoluir
desculpa, não
eu não entendo de vidas passadas
meu negócio é o presente, o futuro
e olha aqui, tá vindo, o seu amor
e vai ser grande, vai mexer com toda sua vida
não, não dizem mais nada além disso
você vai ter que descobrir
o que fazer com isso

IV

calma, a pessoas se espantam
com essa carta – porque chamam de
a morte – mas
nos baralhos antigos
nem tem nome nessa carta, talvez
porque a caveira com a foice
diga tudo, ou porque ninguém
pense que precisa chamar a morte,
só que que dificilmente é Ela,
a morte mesmo de alguém, é um fim
um ciclo que esgota,
uma mudança de emprego,
uma relação que termina
às vezes, quem consulta sabe,
desconfia que acabou e a carta
vem, é isso

mas e a Torre? que é um desmonte?
o raio, a tempestade, a demolição
é de fora para dentro, a intempérie
te pega de surpresa

a caveira, todo mundo tem a sua, né
a gente não vê, nunca pensa nisso
a caveira dentro da gente

vai que na carta não tem nome
porque são sempre os ossos
de quem faz a pergunta

§


outro lugar
para Angélica Freitas

para embarcar na poesia
contemporânea é preciso passar
pelo poema de aeroporto

cite um país
fora do circuito turistão
ou uma cidade não óbvia
se for num destino muito desejado

na ausência de um drink
com nome curioso, escolha:
café,
chá,
uma coca cola com você
água, só se for com gás

emule a linguagem afetiva
e recortada dos cartões postais
ou apenas dê um jeito
de colocá-los em cena

use um vocativo,
para atrair o leitor, logo em seguida
jogue uma piada interna com os amigos
deixando claro
que não, o poeta não estava
pensando em quem lê

mas em A., M. ou em D.
insira a inicial
de uma pessoa querida
ou uma letra avulsa que soe bem

evoque uma sensação
estranhamento, impermanência
fragilidade

ao observar uma cena que se passa num(a)
( ) café
( ) bar
( ) livraria
( ) saguão de aeroporto
( ) estação de trem

traga uma escritora, um autor
pouco conhecido
talvez ainda sem tradução,
ouse, faça uma versão livre

vá da reminiscência
para uma canção daquela banda indie
e insira uma estação do ano

ou eleve o tom e cite
música clássica, mas
jamais um compositor
sequestrado
por centrais telefônicas
nem pelo caminhão de gás

se o poeta mora
onde há tubulações, como saberia
o que fizeram com Beethoven

artistas pop com trabalhos conceituais
também valem, especialmente se
fazem parte de minorias

descreva uma obra de arte
que fará o leitor
recorrer ao google se ele estiver
num lugar com wi-fi ou ainda
houver uns megas em seu pacote
de dados

cole um trecho de conversa
engraçada mantida em sua mídia social favorita,
é de bom tom
avisar ao interlocutor,
vai que

na edição do poema de aeroporto
há cortes
que evocam
movimento,
a incapacidade
de captar o instante,
o ouvido sensível à língua
estrangeira
o analfabetismo
geográfico

caem fora
os boletos que poderiam ser pagos
com o valor da taxa do passaporte
[considerando que a pf ainda emita]
a passagem parcelada na promoção,
o câmbio meses antes, horas pesquisando
hospedagens, o tédio do voo atrasado,
a bagagem perdida [qualquer perrengue
diferente ser confundido com terrorista
não entra no poema]

e cabe menos ainda
o dia em que o plano
era passear a pé mas a chuva
fez o poeta se refugiar num
museu / bar / café
com seu caderninho e
(volte para a segunda estrofe)

§


Uhura

Olorum encarregou Oxalá
de fazer o mundo

um espetáculo tão estranho
que qualquer um
que olhasse, pensaria

sequenciadores
samplers
sintetizadores

componentes de um código
uma tecnologia secreta
para modelar o ser humano

incorporar
o não narrado
os buracos

orixá tentou fazer o homem
de ar
como ele

um fragmento narrativo,
o homem logo de desvaneceu

a empreitada de criar
uma distorção significativa do presente

a maior empresa de tecnologia
do mundo
que controla boa parte
de nosso tráfego na web
absorve empresas de robótica
e inteligência artificial
especula-se
por que

o orixá tentou
vários caminhos
fez de fogo
o homem se consumiu

tentou azeite
água
até vinho de palma

uma nova geração
de sistemas autônomos
o marketing indireto
de produzir realidades
informações circulam
como uma commodity

foi então
que Nanã Burucu veio
apontou com seu ibiri centro e arma –
Para o fundo lago onde morava
e de lá retirou
todos os restos, os pedaços
que não foram apagados
uma memória coletiva
e individual
que nunca irá compor
um discurso

Oxalá modelou o homem do barro,
e com o sopro de Olorum,
ele caminhou

descendente direto
de alienígenas sequestrados
levado de uma cultura para outra
nessa nova sociedade híbrida

enquanto isso, no Japão
as pessoas já fazem
rituais funerários budistas
para seu cães-robôs
que podem fazer qualquer coisa
de trabalhar em depósitos
a cuidar de idosas
o mundo caminha à passos largos

mas chega o dia
que seu corpo precisa voltar

Nanã Burucu
espera os descendentes
despossuídos
abduzidos para o novo mundo

ela deu a matéria no começo
mas quer de volta
no fim
tudo o que é seu
a lama, frágeis arquivos
a chave
para o futuro na diáspora

*

Padrão
poesia

Pâmela Filipini

P.F. FILIPINI nasceu em Rolim de Moura, Rondônia, em 1994. Formada em Pedagogia, atualmente dedica-se exclusivamente à escrita. Cultiva solidão e se planta ao silêncio para sobreviver, eis sua costura de compreensão. Escreve. E nas horas vagas, existe: esta é toda sua substância. Vive através de uma timidez que lhe parece inerente, e é por isso que escreve: para ordenar cernes, e tentar penetrar à realidade que sua conjuntura tanto dificulta. A condição humana é o pilar de seus escritos evidenciando que, além da habilidade com as palavras, inegavelmente, é a palavra que, habilidosamente, concretiza a feitura da escritora. Publicou os livros FOLHAS DOS OSSOS ou o tratado das coisas insignificantes (Patuá, 2017), e Ensaio sobre a Geografia dos Cernes (Temas Originais, Portugal, 2017).

*

As tardes também morrem dentro de nós
É por isso que existem os pássaros:

são a afirmação de que há uma
tarde, um canto, uma morte,

uma fresta entre pedras que
soluciona a equação complexa

do espaço diminuto e sufocante
que corrompe o número,
a quantidade, a mesmice – e gera
um caule órfão que não é coisa alguma

senão uma flor solitária sem função,
que não produz senão uma alegria magra
que fornece ao mundo uma linguagem de vida:

um som de solidão que fere
a falsidade dos que têm sede
de vazio, de caminho reto,
de espírito intacto.

[…]

Só os espíritos feridos existem.

Os intactos nunca conseguirão
enxergar as flores, pois jamais

serão capazes de suportar qualquer
beleza sem desejar serem vazios.

§

SAGRADO

A minha própria prece sou eu

os móveis, as paredes
[a flor no vasinho

e o barulho da chuva
[me rezam

[…]

Há algo de sagrado
em ser sozinha.

§

Deixe-me plantar uma flor
no teu quintal

para que sempre
eu tenha que perguntar:
[como ela vai?

Quando na verdade
quero saber de ti.

§


MESMO QUE MORRA UM PÁSSARO

não há de passar o tempo
onde o tempo não é morada

e se te amo é porque já nasceram
as flores
[e há um pássaro que canta sempre

e se te amo é porque nada mais
conheço senão os teus olhos

[e há um pássaro que canta sempre

e se te amo é porque já fui rasa
e chão

e tão superfície como superfície
é a vontade de tocar aquilo
que só me custa um passo

e se te amo é porque não sei mais
tirar-me disto, e se soubesse
beberia seu esquecimento

e o pássaro continua cantando
porque é assim que funciona o amor:

mesmo que morra um pássaro
os outros voam em refrão

juntos e minúsculos
bobos e despercebidos

então é assim que te amo:

como quem planta uma flor
para cada dia de vida

para esperar sua morte fazendo
nascer outras mortes.

§

O silêncio é uma picada
de abelha

o ruído cheio de pássaros
a voz que não termina

[…]

todo silêncio é um coletivo
dentro da gente.

§

A vida é esta fresta
entre os pores do sol

que tramam a existência
das coisas

no fim de morrer

[…]

O que é efêmero não dá
trégua.

§

Se persigo o infinito,
jamais hei de me encontrar

[…]

Se não acumulo finais nos
meus olhos

morrerei para sempre.

§

Há em cada espírito solitário
um ilhado

que no primeiro afeto
se torna múltiplo e encolhe

e ainda que encolher-se
o apequene

sabe que – por ser sua própria
intimidade, fica vasto.

§

Estou rapidamente envelhecendo

e a palavra tem se tornado
cada vez mais jovem em mim

[…]

Temo e a felicito, pois algum dia
de tão jovem se tornará semente

e somente os pássaros carregam
sementes.

§

Todas as coisas simples
de tão simples se tornam
mestras
não medem dificuldade
nem nada

abrangem o sentimento:

amar alguém é anular as
eternidades, negar a oração.

*

Padrão
poesia

Naiana Gomes

Naiana Gomes estudou um pouco de algumas coisas, jornalismos literaturas fotografias. está tropegamente aprendendo crochê com a avó, de forma que o ano vai mesmo começar todo torto. ainda assim, vive da teima em acreditar na dúvida, na pessoa e no mundo que se move pelo mundo. as imagens e vídeopoema abaixo são de sua autoria.

*

um outro fim do mundo é possível
intelectuais franceses afirmaram
há dois minutos e trinta segundos
talvez tomados pelo otimismo
que pede um começo de século
no despontar do milênio
eu sempre desconfiei
de tudo que vivesse além daquele peixe
cinco metros de comprimento
movendo-se pelo universo
durante trezentos e noventa e dois anos
fazem do tubarão da groenlândia
o vertebrado mais longevo
(pescado acidentalmente)
de que se tem notícia
mas confesso quis escrever um poema
que não sentisse nada por você
ignorando completamente
sua passagem pelo mundo
o fim do mundo
e o mundo

§

Dínamo

você sob o sol
ao toque tão forte do sol
você que se move
veloz feito um cão um gato
um lagarto
um bicho alado
atravessando a cidade de skate aos trinta anos
um peixe preto e dourado
deslizando rio rua abaixo
enquanto lá do quintal este peito se expande
vê lá vem eu meu alvoroço
ondeando os panos nos varais
tão suavemente quanto
foguete, peixe-espada, guitarra
rasgando o ar
e outra vez
o corpo todo no jogo
e uma vez mais
tomando fôlego
um balanço elevando-se
além das árvores
dos muros das torres dos edifícios comerciais
para alcançar o mar
tudo tão alto tão rápido
quase não percebemos
uma ligeira variação
entre as minhas as suas
coordenadas
uma fração de grau
partícula de luz
gota, grão
migalha
um quase nada
que nos afasta
um
do
outro
por inteiro
atravessados, entretanto, somos
de coisas muito pequenas
porém alarmantes
pólvora ou purpurina
tantas outras coisas vivas
besouros, nuvens, piabas, ranhuras
certezas mínimas
de que tudo pode mudar
existe o encontro e existe a distância
nesta manhã em que continuamos
nem sei como
mas continuamos
pelo mundo
e o mundo continua

uma grande confusão.

o avô nunca falou do fim do mundo
mas diante do mar calculava
eita água que ninguém acaba
e terra adentro apontava o bicho
que comia veneno e antídoto
sempre combinados
tentei procurar no google
mas nada é páreo ao inventário
do avô
morcegos subaquáticos
(nas goteiras de casa)
toupeiras que se alimentam
de grandes barcos
lagartos dados a peixe
amores longevos
essas coisas a gente prova
com pimenta e sal

§

é possível inclinar-se
alinhando o tronco ao horizonte
mover os dois braços
e sentir o ar
entrar e pender e erguer
um pássaro
isto eu sei
de te ver dançar
e naquele dia
quebrei cento e cinquenta taças
de uma vez

§

está no horóscopo de hoje
ou da semana passada
o ponto onde teu signo
e meu signo
contam como somos
diferentes
sob um mesmo sol
sentimos muito
sobrevoamos ilhas
visitamos as casas de nossa infância
vem, há esta árvore que eu quis te dar
quando ainda não te conhecia
cresce acima dos telhados
em fevereiro
frutifica
pequeninos sóis
resplandescentes
em cada geografia
colecionamos potinhos imaginários
neles queríamos
guardar B. e R. e M. e
guardar N.
e guardar T.
não os guardamos
os potinhos todos
vão preenchendo-se
de vazios
e os vazios contam
de uma cidade
atravessamos a rua
juntos
respirando
entre um passo e outro passo
há algo
que eu gostaria de te dizer
e digo.

*

Padrão