poesia, tradução

Rubén Vela, por Nina Rizzi

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Rubén Vela

Rubén Vela nasceu em Santa Fé, em 1928. Começou a escrever seus poemas em 1949 e participou do movimento literário que se formou em torno da revista Poesía Buenos Aires, dirigida por Raúl Gustavo Aguirre.  Em 1973 se radicou em Brasília, onde recebeu o Prêmio Internacional do Pen Club do Brasil por seu livro Poemas (Editora Vozes, 1972); em 1980 o Pen Club argentino o premiou com a “Pluma de Plata” por seu livro El espejo (Fundación Argentina para la poesía, 1979); em 1982 recebeu o Primeiro Prêmio Internacional de Poesia de Palermo por seu livro Maneras de luchar (antologia personal, Fundación Argentina para la poesía, 1981). Nos anos 1987-89 foi eleito Presidente da Sociedade Argentina de Escritores e integrou o Corpo Diplomático Argentino. Faleceu em 29 de abril de 2018, em Buenos Aires.

Quanto a mim não foram prêmios literários meu lume, mas o puro gosto e deleite, quase sem-mais-nem-porquê. Conheci a poesia de Rubén Vela, como a de muitos outros poetas argentinos, durante a leitura da obra de Alejandra Pizarnik, que lhe dedica um poema de seu primeiro livro, e também o livro Las Aventuras Perdidas.

Inicialmente alçada à sua metapoesia, suas “Artes Poéticas” e a sedução – mais que imposição -, do silêncio poético como lugar de enigma – o que o poeta não diz, o que não sabe, diz e sabe o poema, esse Sombrero Loco. Contudo, foram suas “Américas” que me tiraram da sala de estar. Como não me encontrar ali, eu, tão genuinamente brasileira e doida pra rebentar fronteiras e com essa paixão por uma utopia (salve URSAL!), que nos pudesse fazer unos e, no entanto, como brasileira, coletivamente apartada  de uma ideia mais pungente de latinoamérica (salvo exceções, é claro), tão presente em nossos vizinhos hispânicos. E é pelo sonho, pela utopia e pelo coletivo que escolhi trazer hoje estes poemas americanos, presentes em sua antologia Poemas como piedras (Fundación Victoria Ocampo, 2000), com exceção do último – “Esto es América” –, publicado em Poemas Americanos (Editorial Losada, 1963); outros poemas com a mesma temática, e outras, podem ser encontrados na página Poetas Siglo XXI – Antología Mundial, de Fernando Sabido Sanchéz.

Não posso, entretanto, deixar de fora desta pequena seleção seus poemas dedicados postumamente a Alejandra Pizarnik; mais que pedras de toque, amor em versos pelas poemas da minha piknik poeta, porque o diálogo, tal como o silêncio, é interminável.

Embora faça exercícios criativos com regionalismos aqui e ali, como na tradução de Pink Dog de Elizabeth Bishop aqui na escamandro, nem sempre o textos que nos permitem grandes liberdades e modificações de termos culturais, por uma ou oura razão, como o desejo do autor, da editora ou da própria tradução [penso nuns rasgos daquela historiadora pretensiosa sim, mas um inferno de boas intenções que quer levar ao não-hablante não só o poema, mas todos os traços da cultura de partida como numa aula em que subia em cima da carteira dos alunos para recitar cheia de ódio aos que dormiam diante da barbárie discursos de Mussolini], porém, ao traduzir estes poemas para esta publicação, depois de ter pensado tristemente que o Brasil não compartilha muito exatamente uma unidade latinoamericana, não contive o desejo de traduzir alguns termos muy caros para a latinoamérica para algo brasiamericano, latinobrasilero, forjando assim (desejando assim) uma unidade latinoamericana a partir de termos mais significativos no Brasil, ainda que, sem querer, pareçamos mais uma vez, os EUA da América Latina. Mas não nos percamos nas aparências, simulacros que se esfumaçam; sejamos muito exatamente latinoamericanos, ursalinos (ou seja lá como se conjugue um estado de desejo e utopia).

Por essa razão incluí um poema que foge ligeiramente à temática, “Macchu Picchu”, traduzido como “Serra da Capivara”, onde a pedra é furada e o “castelo” um “boqueirão” de silêncios (ó música celeste!). Já “Viracocha” – o grande deus criador pré-Inca, se torna aqui “Ñanderu” – o grande deus criador tupi. Outras in-transposições mais simples ficaram por conta de “pampa” como “planície”; “milho” como “mandioca” (e aquele desejo-dúvida gritando: “macaxeira”! “aipim”!), entre outras.

Escolhi verter cholo para caboco. “Cholo”, refere-se a miscigenação americana branca e indígena em que geralmente prevalecem os traços étnicos indígenas. Já o “caboco”, segundo Câmara Cascudo, deriva do tupi caa-boc, “o que vem da floresta”, ou de kari’boca, “filho do homem branco”. Eis nosso Vallejo via Vela: mais que abrasileirado, latinoamericano, índio, branco, negro, poeta!

Uma versão mais caudalosa foi de “feitiçaria” para “macumba”, no poema definición/ definição. Sabemos que “macumba” é um instrumento de percussão de origem africana e que aqui na terrinha, num processo de ampliação de sentido, o termo e seu derivado “macumbeiro” – o “tocador de macumba” -, passou a se referir também às religiões de origem africana, muitas vezes num contexto pejorativo e, por isso, seu uso é evitado. Exitei junto e pensei nas pessoas que ao serem insultadas com termos como “gorda”, “viado”, “sapatão”, entre outros, os desconstroem e se proclamam “gorda sim”, “viado sim”, “sapatão sim”. Ademais, nada nesse derradeiro verso me pareceu mais musical que macumba, macumba! Música sim e, porquê não, aquela mandingazinha que todo mundo (ou todes brasileires) faz quando vira o ano pulando sete ondas, guardando sementinhas de romã ou uvas na carteira e etc, etc., e sigo no ritmo do poema: “macumbeira sim!”.

Já em Al pintor Gambartes/ Ao pintor Gambartes, optei por manter hechicería/ feitiçaria, já que se trata de uma série temática que o pintor realizou em seus últimos 20 anos. Aliás, não deixem de visitar o sítio maravilloso de Leónidas Gambartes!

No mais, a regra na tradução, como sempre, é ainda outra paixão: a escuta; ouvir o poema, ouvir sua poesia um sem-fim de vezes, então re-criá-lo como ele quer, como o ouço e como quero dizê-lo, intimamente, ao mundo.

nina rizzi

 ***

AMÉRICA

I

Tontos, estúpidos, ganhem sua ira, torçam seus braços!
Então, então, homens de boa sede! ela os quer
assim, ela é a espera.

II

Pequena de tanta morte, uma árvore de pão nascia de teus
lábios!

AMÉRICA

I
¡Tontos, estúpidos, ganad su ira, torced sus brazos!
¡Entonces, entonces, hombres de buena sed! ella os quiere
así, ella es la esperada.

II
¡Pequeña de tanta muerte, un árbol de pan nacía de tus
labios!

§
DEFINIÇÃO

América sem arco do triunfo
América sem o Davi de Michelangelo.
América sem a Vênus de Ampurias.
Nova e intacta américa
que ignorava a loucura de Paolo Uccello.

Porque quando digo américa,
digo a américa que cantou Pablo Neruda,
que cantou o Caboco Vallejo,
que cantou Huidobro como um novo maldito.

Que cantaram os homens
do tabaco e da macumba.

 

DEFINICIÓN

América sin el arco del triunfo.
América sin el David de Miguel Ángel.
América sin la Venus de Ampurias.
Nueva e intacta américa
que ignoraba la locura de Paolo Ucello.

Porque cuando digo américa,
digo la américa que cantó Pablo Neruda,
que cantó el Cholo Vallejo,
que cantó Huidobro como un nuevo maldito.

Que cantaron los hombres
del tabaco y de la hechicería.

§
AMÉRICA

A velha voz
cantando
em seus ídolos
de pedra.
“Esses senhores
eram iguais
em voz
aos deuses”.

 

AMÉRICA

La vieja voz
cantando
en sus ídolos
de piedra.
“Esos señores
eran iguales
en voz
a los dioses”.

§
AMÉRICA

Serei uma pedra.
serei o rosto dessa pedra.
serei a memória desse pedra.
Serei a inicial de um deus.
Serei o relâmpago de um deus.
Serei o sorriso de uma pampa aberta.
Serei a folha de uma mandioca, serei sua flor e seu fruto.
Serei o cansaço de um homem americano.
Serei sua sede e sua alegria.
Serei um dia eterno e memorável.

Serei também América.

 

AMÉRICA

Seré una piedra.
Seré el rostro de esa piedra.
Seré la memoria de esa piedra.
Seré la esperanza de esa piedra.
Seré la inicial de un dios.
Seré el relámpago de un dios.
Seré la sonrisa de una pampa abierta.
Seré la hoja de un maíz, seré su flor y su fruto.
Seré el cansancio de un hombre americano.
Seré su sed y su alegría.
Seré un día eterno y memorable.

Seré también América.

§
DA MINHA RAÇA

Com a pedra fixei o nome da minha raça.

Salvei-o da segunda morte, do esquecimento.

Com a pedra fiz o falo funerário, sua arrogância
e seu orgulho.

Esta é a pedra viva que fecunda os campos e
as mulheres.

Esta é a pedra fêmea, esta é pedra macho,
onde esfregam seu ventre os recém-casados.

É a pedra de chuvas.

A alma dos meus mortos.

 

DE MI RAZA

Con la piedra fijé el nombre de mi raza.

Lo salvé de la segunda muerte, del olvido.

Con la piedra hice el falo funerario, su arrogancia
y su orgullo.

Ésta es la piedra viva que fecunda los campos y
las mujeres.

Ésta es la piedra hembra, ésta es la piedra macho,
donde frotan su vientre los reciéncasados.

Es la piedra de lluvias.

El alma de mis muertos.

§
PARA CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Diante de mim
Atrás de mim
Debaixo de mim
Em cima de mim
Em torno de mim

América

Seu longo nome
sua voz adentro.

 

A CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Delante de mí
Detrás de mí
Debajo de mí
Encima de mí
Alrededor de mí

América

Su largo nombre
Su voz adentro.

§

 

AO PINTOR GAMBARTES

Não falar de américa
não falar de nada
não mencionar a morte que te guarda
como um anjo sinistro
não dizer coisas
ou dizer tudo de uma vez
te descobrir te penetrar te desnudar
o sol te cai en cima
te arde em tua cova como uma lepra
te cai a sede a fome
se esqueceram as oferendas
o pagamento à terra o tabaco a coca
te cai a dor
de tant espaço ferido inutilmente
pelas gigantes aves de rapina
que chegam do norte
do centro do gelo
da região da morte
para cavar com suas garras
teu coração de américagambartes
que ainda bate.

E ainda segue vendo o mundo através de tuas mãos
grande menino cego deslumbrado pelo arco de todas as
cores

segue vendo criaturas que nascem como pólipos ou
aderências
sobre a terraíndiaferida
aferradas suspensas presas
como conglomerados de seres estranhos que olhamos com
desconfiança
de um planeta desconhecido antigoamérica
de uma terra de cobre onde todos lhe pertencemos
e onde tudonada é deles
a pedra habitada pelo relâmpago
a pedra da cor de calor
de ferro fundido de raiva de fúria
vindo tudo por tuas mãos gritndo sobre muros de
pedra
gritando o que vem do umbigo do mundo
mãopedra cobra mãopedra serpente
mãopedra do pranto
mãopedra cansaço
mãopedrafome do homem americano
mãopedra gambartes.

E nasce em mim esta alegria entre tanta ausência
ter te conhecido
ter conversado contigo
ter te olhado com teus olhos
o que você quis que meus olhos vissem
tua sabedoria tua humildade
mãepai gambartes
que construía com tuas mãos tão pequenas
os radiantes monstros do passado até o porvir
que inventava a música partida desta terra
com teu coração de poderoso mago da aurora
tuas mãos que inventavam o verdadeiro nome da
América
américagambartes
que sonhavam américa
que choravam américa
que gozavam américa.

por que é preciso dizer
voltar a repetir
quem ainda não entendeu nada disso tudo
que destroce seu corpo sobre o asfalto esburacado
desta cidade cidade disforme e tão ruim
que se suicide sem assombro
do último andar de seus anos vazios e sem esperanças
que se corte seu sexo para não perpetuar sobre o mundo
sua sombra miserável
e se depois disso tudo ainda sobrevive
que olhe pela última vez um quadro de gambartes
uma feitiçaria de gambartes
a luz cega pelo resplendor do relâmpagogambartes
e ressuscitando finalmente sobre a aurora de um distinto
novodia
se refugiar para sempre em seu ventreglória-paimãe-
gambartes.

A grande cadela por quê morreu tão cedo embora
siga tão vivo para sempre
américagambartes!


AL PINTOR GAMBARTES

No hablar de américa
no hablar de nada
no mencionar la muerte que te guarda
como un ángel siniestro
no decir cosas
o decir todo de golpe
descubrirte penetrarte desnudarte
te cae el sol encima
te arde en tu fosa como una lepra
te cae la sed el hambre
se han olvidado las ofrendas
el pago a la tierra el tabaco la coca
te cae el dolor
de tanto espacio herido inútilmente
por los pájaros gigantes de rapiña
que llegan desde el norte
desde el centro del hielo
de la región de la muerte
para escarbar con sus garras
tu corazón de américagambartes
que late todavía.

Y aún sigues viendo el mundo a través de tus manos
gran niño ciego deslumbrado por el arco de todos los
colores
sigues viendo criaturas que nacen como pólipos o
adherencias
sobre la tierraindiaherida
aferradas encimadas atrapadas
como racimos de seres extraños que miramos con
desconfianza
de un planeta desconocido antigu
de una tierra de cobre donde todos les pertenecemos
y en donde todonada es de ellos
la piedra habitada por el rayo
la piedra de color de calor
de arrabio de rabia de furia
viendo todo por tus manos gritando sobre muros de
piedra
gritando lo que viene desde el ombligo del mundo
manopiedra culebra manopiedra serpiente
manopiedra del llanto
manopiedra cansancio
manopiedrahambre del hombre americano
manopiedra gambartes.

Y me nace esta alegría entre tanta ausencia
haberte conocido
haberte hablado
haberte visto con tus ojos
lo que tú quisiste que vieran mis ojos
tu sabiduría tu humildad
madrepadre gambartes
que construías con tus manos tan pequeñas
los radiantes monstruos del pasado hacia el porvenir
que inventabas la música de las raíces profundas
en la historia partida de esta tierra
con tu corazón de poderoso mago de la aurora
tus manos que inventaban el verdadero nombre de
América
américagambartes
que soñaban américa
que lloraban américa
que gozaban américa.

por que hay que decirlo
volver a repetirlo
quien no ha entendido nada aún de todo esto
que destroce su cuerpo sobre el gastado asfalto
de esta ciudad deforme y malqueriente
que se suicide sin asombros
desde el último piso de sus años vacíos y sin esperanzas
que se corte su sexo para no perpetuar sobre el mundo
su sombra miserable
y si aún después de todo esto sobrevive
que mire por última vez un cuadro de gambartes
una hechicería de gambartes
la luz cegada por el resplandor del relámpagogambartes
y resucitando al fin sobre la aurora de un distinto
nuevodía
cobijarse para siempre en su vientregloria-padremadre
gambartes.

¡La gran perra por qué te has muerto de temprano aunque
sigas tan vivo para siempre
américagambartes!

§

 

SERRA DA CAPIVARA

É sua casa de pedra furada,
seu boqueirão de silêncios,
ali onde o tempo tece
a sede dos equinócios.

Olha bem pra ela!
uma raíz, um sonho.

 

MACCHU PICCHU

Es su casa de piedra,
su mansión de silencios,
allí donde el tiempo teje
la sed de los equinoccios.

¡Miradla bien!
una raíz, un sueño.

§
ÑAMANDU

Esse rosto quebrado,
essa pedra cansada,
esse galho caído
da árvore mais antiga
da natureza,
esses olhos que um dia
viram a primeira
gestação do mundo,
essa boca que disse
– com violento tremor de apaixonado
o nome mais íntimo
de américa!

 

VIRACOCHA

Ese rostro quebrado,
esa piedra cansada,
esa rama caída
del árbol más antiguo
de la naturaleza,
esos ojos que un día
vieron la primera
gestación del mundo,
esa boca que dijo
-con violento temblor
de enamorado-
¡el nombre más íntimo
                                           de américa!

§
AMÉRICA
PARA NINA

I
Viveremos pelados sob o sol, sempre jovens
e não haverá outra memória além da pedra

II
Só a pedra conhece o por vir.

AMÉRICA
A NINA

I
Viviremos desnudos bajo el sol, seremos siempre jóvenes
y no habrá otra memoria que la piedra.

II
Sólo la piedra conoce el porvenir.

§

AMÉRICA

“Isto é América”, diziam,
me mostrando as altas cordilheiras,
o suicídio do sol sobre os trópicos,
os grandes rios furiosos.
Só vi pés descalços,
criaturas americanas
sobre a fome e o frio
como frutos nus.
“Isto é América”. Sobre as terras
índias do centro e do sul
vi desolação. E à margem,
as grandes cidades opulentas, somente
à margem…

 

AMÉRICA

“Esto es América”, me decían,
mostrándome las altas cordilleras,
el suicidio del sol sobre los trópicos,
los grandes ríos furiosos.
Sólo vi pies descalzos,
criaturas americanas
sobre el hambre y el frío
como frutos desnudos.
“Esto es América”. Sobre las tierras
indias del centro y del sur
vi desolación. Y, al borde,
las grandes ciudades opulentas, sólo
al borde…

 

caruso

Aquarela de Santiago Caruso no livro em homenagem a Alejandra Pizarnik “El eco de mis muertes”

 

Teu esqueleto de espumas.
Tua infância até o fim dos dias.

1970

Tu esqueleto de espumas.
Tu infancia hasta el fin de los días.

1970

§

A Inocente 

Nua e vitoriosa, dá de comer
aos animais selvagens.
Eles lambem suas coxas, usam
o sexo docemente, se alimentam
dessas águas mais profundas.

Ao amanhecer, ela fecha suas
pernas. Os animais gemem
ao princípio, rugem depois,
a despedaçam com suas garras.

A bela indiferente diz: até
amanhã! e dorme.

Os animais protegem seus
despojos.

La inocente

Desnuda y victoriosa, da de comer
a los animales salvajes.
Ellos lamen sus muslos, le gastan
el sexo dulcemente, se alimentan
de esas aguas más profundas.

Al amanecer, ella cierra sus
piernas. Los animales gimen
al principio, rugen luego,
la despedazan con sus garras.

La bella indiferente dice: ¡hasta
mañana! y duerme.

Los animales protegen sus
despojos.

§


ALEJANDRA PIZARNIK

1
Lembra, Alejandra, quando
o Adágio de Albinoni envolvia
teu corpo solitário, e arcanjos
surpreendidos
voavam entre vitrais coloridos
lançando buquês de luz?

2
Tão sozinha, tão frágil, tão
dolorosamente abandonada
entre jogos infantis
que repetem e repetem
uma mesma canção.
A que vai morrer tem
rachaduras nos lábios e flores
murchas arrancadas de sua pele.
A que vai morrer inventa
um sorriso que pendura
de seu rosto como dizendo
adeus.

3
faz frio e tuas mãos desenham
uma porta que se abre até
um jardim vazio. Eu irei,
dizia, sem saber, sem querer.
Abraçada a meu nome, eu
irei sem saber.

4
Rolam os dados sobre um tapete
verde. Rolam as palavras sobre
a página em branco. Rolam,
rolam até um destino incerto.
Eis aqui a escolha: escrever ou morrer.
Nada tão fácil, nada tão difícil.
E o espelho se rompe e a luz
se desvanece. Alejandra, Alejandra,
pra onde vai?

E deste silêncio
outra música nasce.

 

ALEJANDRA PIZARNIK

1

¿Te acordás, Alejandra, cuando
el Adagio de Albinoni envolvía
tu cuerpo solitario, y arcángeles
sorprendidos
volaban entre vidrios de colores
arrojando ramos de luz?

2

Tan sola, tan frágil, tan
dolorosamente abandonada
entre juegos de infancia
que repiten y repiten
una misma canción.
La que va a morir tiene
grietas en los labios y flores
desteñidas arrancadas de su piel.
La que va a morir inventa
una sonrisa que cuelga
de su rostro como diciendo
adiós.

3

Hace frío y tus manos dibujan
una puerta que se abre hacia
un jardín vacío. Yo me iré,
decías, sin saber, sin querer.
Abrazada a mi nombre, yo
me iré sin saber.

4
Ruedan los dados sobre un tapete
verde. Ruedan las palabras sobre
la página en blanco. Ruedan,
ruedan hacia un destino incierto.
He aquí la elección: escribir o morir.
Nada tan fácil, nada tan difícil.
Y el espejo se rompe y la luz
se desvanece. ¿Alejandra, Alejandra,
adonde vas?

Y desde ese silencio
otra música nace.

***

 

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poesia

Pedro Tostes: 2 poemas e 1 movimento de 4 haicais

sem título (4 de 4)

Pedro Tostes é poeta reincidente e insistente. Graduado Nos Rolês com PhD em Pilantropia Cultural. Seus crimes foram mais conhecidos como “o mínimo” (2003), “Descaminhar” (2008), “Jardim Minado” (2014) e esta mais recente contravenção. Foi detido, averiguado e apreendido pelas autoridades por porte e comercialização de livros em prestigiosa Fresta Literária. Com a organização delituosa “Poesia Maloqueirista”, entre outros crimes, editou a infame revista “Não Funciona”, que realizou 20 golpes bem sucedidos com mais de 20 mil incidências literárias na primeira década do século. Apesar da aparência dócil e gentil, o indivíduo citado apresenta alta periculosidade. Já foi visto aqui na escamandro, mas ninguém sabe seu paradeiro. Sua cabeça está a prêmio. Caso o encontre, favor informar às autoridades.

*

A ARTE DA GUERRA SEGUNDO OVÍDIO

Amar é briga de foice –
açoite que o peito clama
enquanto a bomba ainda pulsa;

trincheira cavada no corpo
por onde percorrem os cheiros
de cuspe, de sangue, de gozo;

napalm inflamando sentidos,
o toque suave na pele
que explode o fogo do ser;

espada que fere sem fio
e encrava no meio de si
todo aço que vem no osso;

exército de terracota
enfrentando a força da chuva
pra semear as flores;

é conquistar o território
apenas pra se entregar ao
inimigo – bandeira branca,
eu quero mais é te querer

§

 

CANÇÃO DA GUERRA

Sei que de certo está
na fúria dos dentes
a arte de amar

tão bela quanto
assaltantes de banco
recitando Rimbaud.

As janelas que
nos olham não
vertem lágrimas

enquanto o néctar
dos inocentes
derrama nas noites

Das coisas que
não estão em
nossas telas,

sendo elas o abismo
encravado em
teus olhos

ou o riso das flores
na lapela do
findo transeunte.

Pois entre estrelas
que cantam pra
musa distante

eu, planeta, vagueio
orbito a pele elástica
da ampulheta.

E é tanta treta,
punheta intelecta
furtando o senso

sem sangue nem medo
nem peso nem nada
– encarando essa parada

dura e aguda como
a força da letra &
a briga de foice

testemunho na vista:
é depois do chorume
que soergue a vida.

§

 

VARANDA

1 – TREPADEIRA

Num sol de 40
escala aquilo que abala
feito o tempo tenta

2 – COLEÓPTERO

Lento pousa o tanque
no vaso seco no raso
– forte, belo e estanque.

3 – MANDACARU

A torre do cacto
com frio não perde seu fio:
permanece impacto.

4 – ESPADA DE SÃO JORGE

Vem rasgando a terra
na chuva o broto que luta,
armeiro de guerra

*

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1ns inéditos de Luís Gomes

luisgomes

Luís Gomes é poeta alagoano. Nasceu em maceió, no ano 2000, escreve desde os 15. Já apareceu na escamandro com outros poemas; escreve no: azuldesolado.wordpress.com

*

p/ Ismar Tirelli Neto

i

um escasso sorriso.
amargo fumo
hoje um pouco mais perdi
o mundo.
não tenho fogo
atropelei as pedras, perdi
as horas.
diminui-se o hábito do amanhecer
(houvera alguém que me visitasse,
curvaria a cabeça e engoliria palavra de consolo)
deus me perdoe
mas é impossível neste momento
amar o próximo

ii

eternidade nenhuma. foram-se
as obviedades, as conclusões empíricas
os versículos. antigas bíblias, instantes
de santos.
impossível pedir fogo nas ruas.
estou escuro.
estou no quarto entre diálogos e tempos.
estou silencioso e sequer tenho vontade
de chorar

§

p/ roy david frankel

i

do quarto

um faquir guarda silêncio
como posso me referir?

do quarto
um faquir guarda silêncio
e o estado reelegerá um calheiros novamente

com a ordem do dia entre os dentes
muros altos,
tradições nos domingos culturais
como posso me referir
a maceió?
a alagoas?

para morte, e
ainda que exite dizer seus nomes:
pátria
bairro, estado, país
digo:
todos morrem
sem saber

jorge de lima
marcos francisco

os mortos que picharam palavras maoistas no muro
à beira pista

seja em bairros, pátrias, estado, país

ii

promessa que nos legou progresso e caminhos
inalcançáveis,
pés rotos de poeira
mortes por fome,
mãos caliçadas entre as canas-de-açúcar
maceió que tapa o alagadiço

as calçadas, as esquinas,
a morte
engole-nos
fosse meu último dia no mundo eu picharia
minha mãe é maior que o maoismo

até quanto tempo mais se juntará a mais e mais outros corpos,
estes corpos?
e até quanto
tempo mais se fixará à nossa memória estes já
corpos?
do quarto um faquir guarda silêncio

nomes velhos nas praças
desfiles de nomes, rostos comuns
nas praças

do quarto eu moço triste silencio

iii

formulam-se frases, cumprimentos.
decoram-se nomes, poemas, santos
ainda não canonizados. muito distante,
na volta, rastejando-se
solitário
farta-se
de guerras e gerações, notas
merencórias de infância
farta-se sobretudo

§

p/ carla diacov

i

cortar o vento com os
cacos de vidro que as menininhas cortam os pulsos
colorir a água com papel machê
o mundo não é um livro de colorir mas se fosse
com que cor você pintaria
as sarjetas e os mercados e as praças sonolentas
com que cor

(mais fácil seria lançar pro alto e queimar os olhos
contemplando a sublime comunhão do desastre
comum)

ii

olharia os pulsos
a silhueta das veias
os objetos em queda
o passado e o passado
bastaria  para ver todo o sangue bastaria
rio abaixo
o torpor do sangue
a língua a morte como
desejo mastigando [os lábios]
seria estrela seria
lembrança a ser esquecida
vaidade a escorrer ralo abaixo
destino a modo líquido
com o sangue olharia os pulsos
e qualquer gesto me diria vida

iii

um corpo-fábrica reproduzido desde
a tintura da omoplata à silhueta da garganta
em seu modo líquido
(contemplando a sublime comunhão do desastre
comum)

§

i

esfumaça-se
no céu nublado, o pensamento
entre os olhos
taciturnos, abaixando-se ao
modo de bichos caçados.

gastando horas, frases mágicas, caranguejos de aço
diluindo-se nos meio-termos
do medo
(dos poros dilatados do medo)

ii

ainda agora
memória
diluindo-se pelas
coisas
pelas mãos
pelas mães mortas
por povos inteiros
agora e somente
agora

iii

o primeiro amor morreu

primeiro amor, você morreu
ainda tão bonito…

iv

a insônia
não muda noite em
dia

sobe aos olhos, vidra-se
em agora

a insônia
só muda os lençóis

v

estima-se oitenta, setenta
anos

vangloria-se da inteligência, dos
presentes de natal,
de não fumar,
de fumar pouco, de estar parando de
fumar.

estima-se oitenta, setenta
anos

vangloria-se dos domingos mornos
dos filhos bem formados, das viagens
aos finais de ano.

com os números, estimo
somente a quantidade de
confeitos no jarro

e basta.

§

faz falta um guerrilheiro

pais e filhos que rezam ave-maria em oratórios
e dividem
espaço com discussões
políticas.
padres
hóstias
coronéis
eventualmente uma morte (a mando)
eventualmente um sorriso generoso,
eventualmente um crisma e festejos.
tantas vezes e pra quê
filas de supermercado
cortinas vermelhas
histórias iguais e óculos escuros
moro num país
moro numa cidade de
praças escuras.

 

***

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poesia

Anelise Freitas

ane

Anelise Freitas é poeta. Publicou Vaca contemplativa em terreno baldio (2011), O tal setembro (2013) e Pode ser que eu morra na volta (2015). Atualmente se dedica à produção editorial, docência e a revisão, tradução e preparação de textos. Os poemas abaixo são de Sozé, seu quarto livro e o quarto número da coleção Casa de Barro das Edições Macondo.

*

recuperação do território ancestral

para Deborah Damasceno

a terra da gente uma bandeira levantada entre o azul da cor
quente entre o verde da natureza que te habita e o vermelho do sangue
que ora pinga entre as pernas enquanto bebe
o mesmo radical para selvagem e inimigo
a língua é o som da terra a terra
bem e mal contemplando o mesmo corpo
o universo cosmogônico do teu povo
e a tua forma de habitar
meu corpo baixo o teu corpo
e tua cintura desenhando o círculo
naquela posição eu conhecia
vênus em câncer um infinito ao
redescobrir o seio sob o laranja
a tua parte alaranjada que a língua fala
o corredor nos arrasta
a janela aberta
não há exploração
mas há dominação
a terra mexida na fricção avança
a tua boca miúda

§

as meninas

 para Thalita Portela e Juliana Giese

 faziam uma arma
com a mão
e apontavam para a têmpora
(mas sem disparar)

enquanto riam
as mãos descuidavam
as bocas tocavam
(mas sem disparar)

os dedos em forma
mas sem disparar

§

sunset memorial park

o barulho do teu corpo, ava gardner
a cada golpe ou distração da tua roupa o barulho que ela faz ao
toque dos braços no tecido grosso

editar esse rascunho doloroso
dos dias que passo com a tua voz
na minha cabeça e os
ouvidos interpelando algum sinal

quanto tempo ainda falta eu
me pergunto como o teu pé
levanta a essa altura e as
mãos fazem esse movimento

a negação é só mais uma fase
como quando nos olhamos
passou teu corpo naqueles segundos
como uma casa sem portas
ou um osso quebrado antes do mundial

§

o estudo do ritual em berlim

de Lisboa a Berlim
ainda não entendi por que saio
a casa para escrever
a casa é já bem velha

a imagem da fumaça entre a boca das meninas
como um subterfúgio
um interregno

Berlim com você
em uma tarde de verão
mostrando suas pernas
e os desenhos feitos a agulha

as filhas de Júpiter e Urano
organizando-se como a tempestade oval
com o mesmo diâmetro da Terra
estamos falando do maior planeta do sistema solar
composto de hidrogênio e hélio, Annie Hall

por que ainda falar do barulho
do som ensurdecedor de algum ponta de lança
a buzina, o paradoxo, a metanfetamina
por que ainda falar do barulho
que a língua faz com ela
e na busca pelo oriente ela
não sabe a forma que a especiaria dá

*

1

capa_sozé

sobre sozé
[numa postagem do facebook]

Hoje encontrei este caderno. Eu tinha 12 anos quando Maria Rosa nos pediu um caderno pautado porque teríamos aulas pra escrever poesia. Foi ela e a Tanuse Fonseca, professoras de português da cidade do interior, que me fizeram querer ser também professora e escritora; não foi nenhum professor de universidade, nenhum poeta importante.

Hoje, na casa onde nasci e me criei, na casa onde velamos o corpo morto de meu pai, na casa onde minha mãe me deu as primeiras lições de feminismo, eu percebi que tudo que sou veio de casa, da casa da roça e do interior. Não me deslumbro com a cena cosmopolita de poesia contemporânea porque foi a cena do interior que me formou: as manhãs de aulas com mulheres incríveis, as noites de vinho na pracinha, os poemas lidos na casa da Rosi de Alcantara. Não me deslumbro porque sei que a cena e eu temos concepções distintas do que é

a poesia. Obrigada mulheres que me antecederam, pra vocês eu dedico esse “Sozé”, que nasce desse corpo do interior, desse corpo que escreve desde os 12 anos, desse corpo orgânico que pensa.

[Sozé será lançado na Casa do Desejo – Literatura que desejamos na Flip 2018, às 11h00 no sábado, 28/07.]

***

Padrão
poesia

Silvana Guimarães

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Silvana Guimarães (Belo Horizonte/MG). Socióloga e escritora brasileira. Participou de algumas coletâneas, entre elas, duas que organizou: 29 de abril: o verso da violência (Patuá, 2015), Dedo de Moça — Uma Antologia das Escritoras Suicidas (Terracota, 2009), Hiperconexões — Realidade Expandida Vol. 2 (Org. Luiz Bras, Patuá, 2014) e 1917-2017 — O Século sem Fim (Org. Marco Aqueiva, Patuá, 2017). Editora da Germina — Revista de Literatura & Arte e do site Escritoras Suicidas. Lança seu primeiro livro, de poesia, em 2018.

*

depois do vendaval

começar a estudar geografia humana
para entender as distâncias

fazer cálculos de estatística
para banalizar os prazos de validade

recolher os quatro elementos
para asfixiar a revoada de pássaros no meu peito

comer um saco de sal
para juntar os cacos de cristal dentro de mim

esperar o galo cantar
para te negar três vezes

repara: quanta crueldade existe na palavra corpo

§

supermercado

devo-lhe um poema de amor mas
preciso fazer a lista das compras
andar sobre as águas quebrar pedras
romper a fortaleza das palavras
convencer estrelas e cotovias
buscar um farrapo de eternidade
limpar a angústia dos móveis
tirar o encantamento do armário
desvendar seu abismo meus ismos
ferir o pudor raspar o desejo
pera uva maçã ou algodão doce
como se como sempre como sou
adivinhar seu cheiro de magnólia
a febre a dor o desalento implícitos
amar e desamar o seu avesso

: apalpo a palavra pêssego e ela
se diz entrega em suas mãos

§ 

dois bem-te-vis

— como foi?
— o poste explodiu, pegou fogo, o
ninho foi parar longe e o corpo do
homem ficou grudado ao fio, estrebuchando,
os olhos mutilados, a alma presa nos
mistérios da insignificância.
— nossa, horripilante.
— assim.
— e aí?
— a mãe apavorou-se e abandonou os
dois, ali, no chão, com as penas queimadas.
hoje, abri a porta da gaiola e eles voaram,
encabulados com a liberdade: mudos.

§

o óbvio lancinante

a morte é um milagre: ela vem leva um
e outros morrem ao redor de quem foi:
todo morto nunca é um só na sua dor

não existe rota de fuga não há esconderijo
ela chega e acaba com as flores pássaros
espaço consciência memória tempo beleza

descobre códigos senhas mapas da cidade
nada está a salvo: nada segura a sua gula
nenhuma valentia lhe dobra a arrogância

nunca mais eu te amo, te ligo amanhã
nunca mais essa música: olha que triste
nunca mais aquela viagem aquela droga

fica faltando um verso no poema impossível
tudo o que podia ter acontecido e não vai ser
o morto carregando seus mortos que respiram

bendita seja a morte: essa rainha da liberdade
que me faz rastejar nesse escuro dia das mães

***

Padrão
poesia

Carla Diacov, 4+1

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Carla Diacov, São Bernardo do Campo, 1975. Autora de Amanhã Alguém Morre no Samba (Douda Correria, 2015/Edições Macondo, 2018), A metáfora mais Gentil do Mundo Gentil, (Macondo Edições, Juiz de fora, 2016), Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse (Douda Correria, 2016), bater bater no yuri (livro online pela Enfermaria 6, 2017), A Menstruação de Valter Hugo Mãe (editado pelo escritor português, no projeto não comercial Casa Mãe, Portugal, 2017), A Munição Compro Depois (a sair pela Cozinha Experimental, 2018). Sua poesia já apareceu na escamandro outras vezes.

*

4 POEMAS DE AMANHÃ ALGUÉM MORRE NO SAMBA

significar o osso da coisa queridinha
os enfeites da casa gritam comigo
ombreiras esquadrias agulhas gatinhos da china
decoram as margens do meu amor
o ossome afundo na tua reminiscência
o osso e as antenas
gritam
como se tudo fosse o grande do tempo
as esquadrias dos óculos gatinhos da china
omoplatas de prata queridinha
o bafo da trilha
a carne da coisa
tão necessária insignificante
na estrutura superfície da aberração amor

§

eu tinha medo de morrer tímida mordia a ideia
tinha medo do suicídio sendo tão tímida
outras noites já batiam meu queixo
outras dicções
e eu ainda com medo de morrer tímida
mudei os móveis de lugar
encontrei uma agulha perdida tinha anos
e ainda o medo de morrer tímida
abocada numa quina da casa
a boca tão perto do segredo
tímida
lembrando a uma poltrona torta
lembrando a uma boca morta
um peixe sem boca
uma poltrona sem braços

§

o burro trota tão lentamente
perdido do nome gritado
carrega ovos nas mãos escondidas nas
mangas do casaco extralargo
coitado do burro com mãos
perdido da moldura antiga
pacífico de sua própria demência
bonito tão bonito pacífico tão lindo
lentamente ruma
já a casa de fé nos olhos de burro
parece um peixe coitado pacífico
tem esse jeitão de aquário trincado
gosta de cadeiras em geral
mas é boa gente
gosta de leite quente e de cadeiras
em geral
chega ao templo das irmãzinhas castanheiras do último dia
deixa os ovos no altar
faz carinho nos porcos
pega o microfone e repete
quase porque quase porque quase
tudo empilhado
quase porque quase porque quase porque

é mesmo um burro
queria ser pianista
tem muita fé quase porque tudo empilhado
mas é mesmo um lento burro de carregar ovos
pacífico todo pacífico demente e lindo
tão bonito tudo empilhado

§

passo por esse casal de amantes
é como meter as mãos num balde de sardinhas
são tantas as mordidelas
estou ferida
não é mortal
passei por aquele casal de amantes
foi como meter num balde de sal
estraçalhadas
as mãos
são tantas as sardinhas
como corta o sol
nem meio gato à vista
como corta a luz
como corta o navio
são tantas as escamas
é como meter as mãos
são tantos os braços
nem meio gato
nem meia língua
nem meio mal

§

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1 POEMA INÉDITO

sons – colo

deita o garfo mudo no meu colo
diz coisas incompreensíveis sobre o amor
diz coisas domesticáveis sobre a vida e o ódio
diz não saber separar a morte da morte momentânea
diz a aflição sobre a comunicação entre gatos
deita a faca nua no meu colo
diz coisas interditadas sobre uma ideia de flor
diz coisas debaixo das unhas dos mortos
entre seus cabelos
deita o prato sujo no meu colo
diz coisas e diz e dança os dedos
deita o copo trincado no meu colo
diz coisas diz coisas e tudo que escuto é o rasgo nesse nosso manso idioma

***

Padrão
poesia, tradução

UM ANO DEPOIS DE ISTAMBUL, por Francesca Cricelli

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Fotografia de Francesca Cricelli

Um texto meu permaneceu engavetado por um ano. Ontem, por acaso, assistindo a um filme de Ferzan Özpetek Rosso Istambul senti-me invadida pela saudade do Bósforo, seus azuis, as luzes do dia nele se refletindo e tudo sendo alterado a partir dela – a luz. Decidi reler a crônica que havia escrito quando voltei de lá sob a luz de hoje, maio de 2018 – há um ano de Istambul e 50 de ´68 – e propor a publicação à revista escamando, acrescida de alguns poemas que traduzi em razão e emoção da viagem. Agradeço aos editores pela acolhida. Onde escrevo “no ano passado” leia-se retrasado. Em maio de 2017 eu me preocupava com os destinos do conservadorismo turco e pensava em algum paralelo com o Brasil, mas ainda me parecia algo distante. Falava do bairro onde estava hospedada como uma “ilha progressista dentro de um mar cujas ondas encrespam rapidamente com a maré do conservadorismo político e religioso que abate, há tempo, a Turquia.” Este mar encrespado tem batido seus golpes sobre outros rochedos. Desde que escrevi este texto houve o golpe, houve o assassinato de Marielle, houve a prisão de Lula, houve o ataque norte-americano sobre a Síria. Houve também o descolamento dos vítreos dos meus olhos, mas houve muita poesia escrita e traduzida, houve minha volta à China, minha ida à Galícia, o lançamento de três livros, houve festival em Nova York, passagem por Miami, houve minha primeira ida à Islândia. Houve capítulos escritos da tese, paixões, desilusões e enamoramento. Doença e morte. Diante do porvir, diante do desconhecido, que estejamos prontos e dispostos a nos movermos, escrevermos, traduzirmos, viajarmos, denunciarmos. Que se mantenha um espaço com alguma graça, luz e esperança para ter forças de olhar para trás – um pouco – e seguir adiante.

Ribeirão Preto, maio de 2018

*

AS VOZES DE ISTAMBUL

No ano passado, narrando minha viagem à Qinghai, na China, [revista Cult n.° 2018, novembro de 2016] contei como havia escapado, por pouco, à tentativa de golpe militar na Turquia, dia 15 de julho de 2016, mudando instintiva e inconscientemente minha conexão de voo até Pequim, não passando por Istambul, mas por Roma. Desde então, ou talvez muito antes disto, venho fantasiando uma viagem à antiga capital oriental do império romano repartida pelo Bósforo. Mas é a poesia, Senhora das minhas andanças, que decide o momento e os percursos a serem traçados. Tive que esperar até maio para conhecer Istambul.

E como escrever sobre o encontro real com um lugar imaginado, aquele já sonhado e visitado em versos e prosas? Talvez só evocando Drummond de antemão, e não Nazim Hikmet, quase pedindo licença, para então enunciar as impressões dos dias fugazes, pois “lutar com palavras é a luta mais vã”; “entretanto lutamos/ mal rompe a manhã”. “São muitas/ eu pouco”. Tantas são as cidades e civilizações que habitam Istambul. Esta multiplicidade sincrônica evoca uma orquestração de sentidos. Percepção sensorial que cruza a história enquanto nos ouvidos ressoam os versos dos poetas em tantas línguas inteligíveis e o azan, a chamada à prece que desce dos minaretes e atravessa as leituras. São estas algumas das vozes de Istambul que evoco, como se quisesse citar Canetti em Marraquexe, ouço-as quando se juntam ao coro das manifestações do primeiro de maio, suas ruas ocupadas, centenas de pessoas presas, ou quando harmonizam com a canção bella ciao, hino antifascista da resistência italiana, cantada a plenos pulmões pelos poetas turcos durante o cruzeiro noturno no braço de mar que divide a cidade.

Tudo é pouco diante da antiga metrópole alçada entre continentes, duas faces voltadas para um estreito de mar que divide o Ocidente do Oriente e liga ao Mar Negro o Mar de Mármara, antecâmara do Mediterrâneo. Tantos impérios erguidos e desfeitos entre o céu e o Bósforo. Os percursos narrativos possíveis são infinitos, um para cada paleta de azul que reflete sobre os palácios, casas e mesquitas. Ampla variação que percorre as cores do céu do alvorecer até as últimas luzes do pôr-do-sol visto da Torre de Gálata, tantos tons quanto os vitrais da Mesquita Azul em sua ação caleidoscópica sobre seus azulejos que revestem suas paredes.

Entre o final de abril e os primeiros dias de maio participei do Bahar ve Şiir Festivali, festival da Primavera e da Poesia do bairro de Beşiktaş. Fizemos várias leituras pelos parques da cidade. Em Istambul, os bairros são “municipalidades”, como nossas subprefeituras, mas com maior autonomia, podendo, assim, gerir seus recursos com maior liberdade. Talvez seja esta separação de poderes o que faz coexistir uma ilha tão progressista dentro de um mar cujas ondas encrespam rapidamente com a maré do conservadorismo político e religioso que abate, há tempo, a Turquia. Enfim, Beşiktaş, situada na costa europeia da cidade, não é distante de Beyoğlu, bairro que abriga a praça de Taksim, palco das principais manifestações e ferozes retaliações policiais de 2013. Com todas as devidas diferenças, há algo em comum nos destinos que tomaram Istambul e São Paulo, a Turquia e o Brasil, desde 2013.

A alma do festival é seu diretor artístico, o poeta, tradutor de literatura russa e acadêmico Ataol Behramoğlu. Seu braço direito na organização é seu sobrinho, também poeta, Onur Behramoğlu. Ataol viveu por anos em exílio após o golpe de estado de 1980. Seu livro Nem chuva … nem poemas foi então confiscado, e o poeta, tendo vivido na Grécia, na França e na Rússia traduziu autores como Louis Aragon, Bertold Brecht, Atila József, García Lorca, José Martí, Maiakovski, Neruda, Pushkin, Yiannis Sitsos reunindo-os no volume Balada da irmandade e levando estas vozes à Turquia. Por sua própria história de vida, Ataol tem a inclinação de carregar as vozes da poesia de um lado ao outro do mundo, de uma língua a outra. Talvez por isso o festival mostrou uma abertura especial às vozes dos refugiados e exilados. Contou-se com a presença de diversos poetas em exílio, sobretudo sírios que hoje vivem na Turquia, e da poeta e militante iraquiana Amal Al Jubouri, hoje residente em Londres. Não podemos esquecer que aproximadamente três milhões de sírios vivem exilados na Turquia, que de alguma forma, age como uma membrana de contenção para a Europa. Questões nebulosas e delicadas que talvez indiquem algo sobre a falta de um posicionamento claro quando se fala de Erdoğan. Beşiktaş significa, literalmente, “berço de pedras”. O nome é uma herança da igreja bizantina Kounopetra, construída nesta parte da cidade, com o intuito de abrigar uma pedra supostamente vinda da manjedoura em que nasceu Jesus. A mesma relíquia foi posteriormente levada para Hagia Sophia – Santa Sabedoria, mas desapareceu durante a Quarta Cruzada, foi provavelmente vendida no mercado europeu de relíquias religiosas. Outra narrativa diz que a pedra era, na verdade, a pia batismal de Cristo e teria sido trazida para Istambul após uma peregrinação originada em Jerusalém. Há ainda uma terceira e mais interessante narrativa que tem como fundo a distorção linguística da expressão beş taş, ou seja “cinco pedras”, que se refere às cinco pedras utilizadas para amarrar os barcos na época do Khayr al-Din Barba Ruiva. Quantas vozes e versões há por trás do nome de um bairro de Istambul? A presença de muitas camadas narrativas soa como uma música de Jun Miyake, “Integral Silence”, cujo poema inicial diz “how do we begin to know the unknown?” Como começamos a conhecer o desconhecido? Como a pergunta à sentinela nos versos de Isaías “em que pé está a noite?” Vem a manhã e vem a noite. O poema-música de Miyake continua dizendo que há ainda tantas perguntas, “movo-me dentro delas” diz, as indagações são “minhas mãos e meus pés”, “são o que lhe devolvo”. É difícil falar com leveza sobre Istambul após tão poucos dias, e seria esta a saída mais fácil, pois sua beleza é tão ensurdecedora que ofusca o que vai além da percepção imediata. Não é um acaso misturar visão e audição ao falar de Istambul. Não passa batido à memória, nem com a deslumbrante beleza e sedutora culinária, que o mesmo país que acolhe tantos refugiados sírios é também responsável por um dos maiores genocídios da história, pela diáspora armênia, pelos conflitos irresolutos com o povo curdo. Temos alguns poderosos registros artísticos sobre este drama em nosso próprio país, pela arte de Norair Chahinian, seus registros fotográficos em O poder do vazio: conversando com as pedras na Armênia histórica [livro impresso em Istambul pela editora Aras em abril de 2015] ou nos versos do jovem poeta brasileiro William Zeytounlian [Diáspora, Selo Demônio Negro, 2015], ambos de ascendência armênia.

Uma noite, após uma longa leitura e jantar num pequeno restaurante nos becos da cidade, passei algumas horas no terraço do hotel cuja vista era a Ponte do Bósforo conversando com o poeta Onur Behramoğlu. Falamos principalmente sobre questões políticas que parecem afligir uma camada da população turca assim como, aqui, a brasileira: vários amigos de Onur estão presos ou já foram presos, muitos jornalistas, professores e intelectuais. Inevitavelmente, tocamos na questão armênia e relatei algumas histórias que conheço pessoalmente. Foi então que o jovem poeta me disse ter marchado em solidariedade à memória do jornalista armênio, Hrant Dink, assassinado em Istambul em 2007. Foi então que também me disse que seu avô – otomano -, como o pai de uma amiga armênia, ficou órfão durante o mesmo conflito. Aos cinco anos estava sozinho na vida. O filho deste órfão, pai de Onur, irmão do poeta Ataol, é um advogado trabalhista e ganhou a primeira ação em defesa de operário morto na construção da mesma ponte que víamos do terraço do hotel. Sentia então uma estranha sensação, invertendo o título do último romance do prêmio Nobel Orhan Pamuk, quão real era aquele conflito que havia ditado o mesmo destino às duas crianças de diversas etnias? Lembrei-me então de um trecho do romance de Luigi Pirandello, Um, nenhum, cem mil, no qual diz que nossa capacidade de nos iludir que a realidade de hoje seja a única verdadeira é algo que “por um lado nos sustenta, por outro atira-nos num vazio sem fim”, diz, “porque a realidade de hoje tem como destino descobrir-se a ilusão de amanhã”. Sim, “a vida não conclui. Não pode concluir. Se amanhã conclui, acabou.” Ainda bem que diante deste vazio sem fim me vem à mente outro texto, um poema chamado O grilo, de um amigo poeta cubano, o poema diz: “sob a noite cósmica/ na vasta solidão do descampado,/ o grilo canta./ O peregrino escuta/ e já não teme.”

Francesca Cricelli
São Paulo, maio de 2017

 *

Na vida e na morte nos dividimos
nossos corpos estão divididos
nossas almas divididas
nossas vozes divididas, uma da outra

nossas mãos separadas
nossos cheiros
acordar junto na mesma cama
nossos sorrisos
nossas lagrimas
divididos nossos sonhos uns dos outros

no breu da noite
improvisamente, tudo se faz um.

[Ataol Behramoğlu, Turquia]

 

 

We parted in life and death
Two bodies separated
Our hearts separated
Our voices separated, one from the other

Our hands separated
Our smells
Our waking up together in bed
Our laughing together
Our tears
Our dreams separated, one from the other
The dark night of the soul
Suddenly occluded everything

§

TODA MULHER QUE TRANSA

a uma mulher que ama Sopor Aeternus

toda mulher que transa, transa porque sofre
cai num dilema de busca do amor pelas camas
seus punhos, seu pulso, sua sobrancelha
o que lhe treme, onde sente frio
lá quer ser beijada
beijada por quem ela dá valor
deixa o vapor no espelho ser o seu nome
sabendo que logo será apagado
deixa a navalha, uma vez por todas, cortar o rosto dele enquanto pensa nela
deixa que recolha o cabelo dela do chão e redima sua prece
toda mulher que transa, é pelo afeto
como um rio abre-se à curva de caverna
num esforço para que não murche
o manjericão à espera frente à janela
comprando flores para sua solidão no caminho
escondo-a em segredo numa caixa de sapato

toda mulher que transa
gostaria de reprimir o seu pesar
move sua carne como uma garra
finge um xeque-mate
seu entorpecimento não se diferencia
do entorpecimento dos que fazem rindo
— comporta-se como uma garota má —
como as tranças, os rabos-de-cavalo, dois rabos-de-cavalo
rasgavam-se como uma corda nas palmas —
como as fibras entretecidas e a terra remexida
do seu jardim, carregada em sua testa
toda mulher que transa, o faz por amor
em algum momento a hora arbitrária estanca
ela apresenta seu pertencimento à estátua vertical que admira
ela prega com fotos emolduradas
no ventre ofendido que gostaria de dar à luz
enquanto tenta apagar o cansaço da nuca dele
ela quebra os berços das crianças fantasmas que chorou

toda mulher que transa, é para não enlouquecer
e está exposta às ameaças do seu companheiro
ela teme que a loucura se agarre
à luta que ela já não tem forças para aturar

toda mulher que transa, transa por não morrer
ela pode se enganar tanto quanto um homem

[Neslihan Yalman, Turquia]

 

WHICHEVER WOMAN MAKES LOVE

                   — to a woman who loves Sopor Aeternus… —

 whichever woman makes love, it is because of suffering
she falls in a dilemma of searching love in beds
her wrists, pulse, eyebrows
whatever she trembles, feels cold
she would like him to kiss
someone on whom she values
let the steam on the mirror be her name
by knowing that it will be erased at that second
let the razor blade, at once, cut his face while he is thinking of her
let he take her hair off ground and redeem it blessing
whichever woman makes love, it is because of affection
like a river opens to bend of cave
in an effort not to make wither
the basil of waiting in front of window
buying flower to her loneliness on the way
and drying it secretly in shoebox

whichever woman makes love
she would like to repress her sorrow
she moves her flesh like a pawn
as she pretends to check-mate
her getting numb does not make any difference
from the people who gets numb by laughter
-she behaves like a naughty girl-
as braids, pony tails, two ponytails
were getting torn like a rope in palms-
as the grasses were weeded and its earth was raked
of her garden she cared on her forehead

 whichever woman makes love, it is because of love
at some point the hour of arbitrariness stops
she presents her belonging to the vertical statue that she admires
she nails photo frames
to the offended womb that she would like to give birth
while she tries to erase the tiredness off his back of neck
she breaks the cradles of the baby ghosts on which she cried

whichever woman makes love, it is for the sake of not getting mad
and she is exposed to her fellow’s threats
she fears that madness claws
to the struggle that she does not have any strength to endure

whichever woman makes love, it is in order not to die
she can deceive herself as much as a man

[traduzido do turco ao inglês por Müesser Yeniay]

§

ESSÊNCIA

das águas mortas só se espera o veneno
            [W. Blake]

estagnado, diria sem razão,
mas no fundo há uma tristeza escondida
há a nudez do outono
os arrepios que a visão provoca

dentro, aquele dia, o que sobrou
tão diferente em mim do que há em você?
e qual passado usamos para chamá-lo
detido assim há tanto tempo?

seu espírito envelhece feito vinho
todo embrulhado em suas feridas
a neblina espalhada dispersa
com seu próprio ímpeto

certos estão os poetas sábios
que encontram nas penas o segredo
veneno é tudo o que colhemos
na seca desta abundância

caminhar rebelde de si,
o mau humor, impertinente e curioso
é passageiro, roçamos no calor
o amor de todos os lugares

[Onur Behramoğlu, Turquia]

 

NELL’ESSENZA

        dalle acque morte solo veleno aspetta
[William Blake]

fermo, diresti senza una ragione
eppure in fondo una tristezza sta nascosta
in quella nudità d’autunno spoglio
che i brividi ci dà solo a guardarla

dentro quel giorno, che cosa è mai rimasto
diverso in me da quello in te
e che passato usiamo noi chiamarlo
tenuto prigioniero dentro al tempo

lo spirito a te invecchia come il vino
ed è fasciato tutto di ferite
si è sparsa ed è dispersa quella nebbia
nell’irruenza sua propria

nel giusto sono i poeti saggi
che nella pena trovano il segreto
veleno è tutto quanto raccogliamo
in siccità di benessere e di agio

è un camminare in sé ribelle
un malumore, scontroso eppur curioso
e di passaggio ciascun posto noi?
nel caldo lo sfioriamo dell’amore.

[traduzido do turco ao italiano por Giampiero Bellingeri]

§

VÉU DAS RELIGIÕES

Se és um
e se seus ensinamentos são um
por que inscrever nossa infância no Torah?
Por que adornar nossa juventude no Evangelho?
Só para apagar, tudo isso, em seu último livro?
Por que levar à discórdia, nós, que o reconhecemos como Um?
Por que multiplicar-se dentro de nós se és Um e Único?

[Amal Al Jabouri, Iraque]

 

VEILS OF RELIGION

 If You are One
And Your teachings are one,
Why did You engrave our infancy in the tablets of the Torah,
And ornament our youth with the Gospels
Only to erase all that in Your Final Book?
Why did You draw us, the ones who acknowledge Your Oneness,
Into disagreement?
Why did You multiply in us
When You are the One and Only?

[traduzido do árabe ao inglês por Seema Atalla]

§

DIZ-ME, AMAS OS DAMASQUEIROS?

Abraça-me e
conta
assemelha-se às tuas costas
a terra?

Não tenho vontade
de sair
basta-me
o que me contas

Diz-me,
amas os damasqueiros
e a chuva que banha os
teus cabelos?

Tu digas que os ama
e eu te escreverei
longamente, como um rio
ou chuva que faz os cavalos
esquecerem
seus próprios deuses.

Abraça-me
e conta-me,
assemelha às tuas costas
a terra?

[Gökçenur Çelebioğlu, Turquia]

 

DIMMI, AMI GLI ALBICOCCHI?

 Abbracciami e
racconta
somiglia alle tue spalle
la terra?

Non ho voglia
di uscire
il tuo racconto
mi basta

Dimmi, ami gli albicocchi
e la pioggia che bagna i
tuoi capelli?

Tu dì che li ami
e io ti scriverò
a lungo, come un fiume
o una pioggia che fa
dimenticare ai cavalli
I propri dei.

Tu abbracciami
e raccontami,
somiglia alle tue spalle
la terra?

 [traduzido do turco ao italiano por Nicola Verderame]

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Francesca Cricelli (1982-) é poeta, pesquisadora e tradutora. Publicou Repátria no Brasil (Selo Demônio Negro, 2015) e na Itália (Carta Canta, 2017) e 16 poemas + 1 em Nova Iorque (edição de autora, 2017) e em Reykjavík (Sagarana forlag, 2017), livro mais vendido em todas as categorias na primeira quinzena de outubro da Mál og menning. Seus poemas foram recentemente publicados numa coletânea do Museu Minsheng em Xangai, na China. Organizou as cartas de Ungaretti a Bruna Bianco (Mondadori, 2017) e traduziu, entre outros, Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016). Doutoranda em Estudos da tradução na USP. Lecionou intecção literária na Casa Guilherme de Almeida e é professora do CLIPE Poesia 2017 na Casa das Rosas. Já apareceu aqui na escamandro com diversas traduções e poemas próprios.

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