poesia

Regina Azevedo: 2 poemas inéditos + 2

regiss

Regina Azevedo é uma poeta brasileira nascida em Natal – RN em 2000. Autora dos livros Das vezes que morri em você, Por isso eu amo em azul intenso e Pirueta.
Mais: www.reginazvdo.tumblr.com

***

TEMPO

quando você chegou
tirei o relógio do braço
pois saber a hora através
dos seus olhos
semicerrados
do seu corpo
semiaberto
da sua fala
seminua
era como tentar
um trava-língua
um enigma
uma senha
e aprender o idioma
do seu corpo
levou tempo
por exemplo
você sabia que existe
um relógio que se baseia
nas propriedades do átomo
existe a ampulheta
que antes foi utilizada
em igrejas
e hoje as crianças
usam em jogos de tabuleiro
e podem manipulá-la
por exemplo
nunca deixando que a areia
pese totalmente para um lado
você imagina
como eu aprendi a domar
o tempo do seu sono
o tempo da seu banho
do seu bocejo
e até evitar
que você abreviasse
a palavra e o beijo
você imagina que hoje eu sei
que nada nesse mundo
é capaz de te fazer ficar
mais fácil seria esconder uma bomba
disparar mísseis
ou investigar o código genético
das libélulas e das lavandas
você sabia que a cada 65 mil anos
perdemos 1 segundo
e a cada cigarro 11 minutos
mesmo se você fosse
um relógio de vela
pra começar
ainda assim seria mais fácil
impedir que o meu cheiro
queimasse o seu corpo
e consequentemente
acelerasse o tempo
e apressasse os seus passos
você sabia que os agricultores
sabem tanto sobre a posição do sol
quanto os egípcios
e ainda assim
depois que você se foi
você levou o meu relógio
você levou a música
você levou mais que
alguns instantes
os gestos
e a casa
mas sobretudo
depois que você se foi
não há quem deixe o sol entrar
e talvez por isso
esteja tudo
adormecido

§

 

FUNDO

clichê clássico
eu te amo do fundo
do meu útero
solo sagrado de pecado
perto de onde seu pau se enfia encosta e arde
no limiar da dor
afina o violino do futuro
células dançam
leite manchando mundinho cor de rosa
você não tem vontade de ir embora
porque chão é cama, chuveiro é cama
areia espelho escada e também em pé
cama é onde você se deita sente meu cheiro e perde o sono
onde eu mostro que as poetas são mais
com a mão dentro da calça
olhando fundo no seu olho
amando de novo

§

regi

poema de “pirueta”, em intervenção urbana

FESTEJO AO FOGO

só por um segundo
sob teu peito

o farfalhar do outono
e o que você fazia
em festejo ao fogo

a ponta dos dedos
ao relento

traquejo singular da labareda

misto de calmaria e lampejo
numa dança descabelada

a língua pronta para o surgimento
da manhã

o espírito de cavalo colorido
no ato de trocar os óculos com você
e te olhar de baixo

o minério que dorme na pele
o desafio que doma o segundo
a ginga que derrete as ondas

cheiro tônico diante do espelho

o rugido e o anúncio
do tropeço no ritual:

um orgasmo estupendo
anestesia contra bombas
de efeito moral

*

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crítica, xanto

XANTO | Notas por uma poética da ocupação, por Luiz Guilherme Barbosa

escolanossa

Falas se disseminaram, falas sob formas muito diversas, durante as ocupações secundaristas de 2015 e 2016. Faixas, entrevistas, cabelos, fake news, sentenças, fraturas, jograis, discursos, canções. Ou cantos de guerra. “Mãe, pai, tô na ocupação, e só pra tu saber eu luto pela educação”. Cantos por uma comunidade filiada à escola, mãe, pai, eu, hinos filmados por uma comunidade em rede social, paródias de funk como queríamos demonstrar. “O governador diz não ter dinheiro, pode apostar tá lá no bolso do empreiteiro”. Uma ocupação é performativa, e por isso uma ocupação precisa de vozes, corpos, em coro. E uma ocupação escolar produz currículo: doação de aulas, oficinas, assembleias, aulas públicas. Abre, sob a lição etimológica dessa palavra, currículo, dessa palavra, curso, caminho para uma aprendizagem pela urgência erótica do coro: produzir e afirmar os corpos negros, femininos, transgêneros, periféricos contra a explosão terrorista dos corpos, contra a implosão estatal dos corpos.

secundaristas from Delírio Verde on Vimeo.

Uma ocupação dura com os saberes exilados das aulas, saber limpar a escola, saber alimentar a escola, saber guardar a escola. São pilares pretos, funções exercidas muitas vezes por pessoas pretas, saberes subterrâneos que, no gesto de ocupar, vêm à tona, imediatos, e demandam estudantes como seguranças, merendeiros, auxiliares de serviços gerais. E uma ocupação dura enquanto saberes alienados do ensino são uma demanda incontrolável: como cuidar da escola, da sua instituição, da sua comunidade. Ali, os alunos são parte do corpo da escola, e produzem –  como os indígenas, parte do corpo da terra, com a floresta – o direito de ocupá-la.[1] O que uma ocupação põe a nu: os saberes são intraduzíveis a um corpo, que por isso ocupa, ou então: os saberes são um intraduzível dos corpos.

A tática de ocupação produziu nas escolas de ensino médio um contexto como que precoce de aviso político. O século é outro, gritam uns jovens nascidos nesse século. E, daí, desse grito inscrito nas redes sociais como cantos de guerra (foi para se proteger que as ocupações mantiveram comissões responsáveis pelas mídias sociais do movimento), umas formas cancionais ecoaram, cantando, por exemplo, o funk como se o funk tivesse sido composto numa ocupação. Como fizeram atores da Escola Técnica Estadual de Teatro Martins Penna, do Rio de Janeiro, em performance nas escadarias da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, no dia 9 de março de 2016, que cantaram “Baile de favela”, do MC João, com letra retextualizada. “Quer ler livro, acha que merece, quer ir ao teatro, acha que merece, quer ir ao cinema, acha que merece”, sobre um trecho como: “Ela veio quente, hoje eu tô fervendo”, que é quase o mesmo “Pode vir quente que eu estou fervendo” de 1967, cantado por Erasmo Carlos. De tradução em tradução, o texto permanece provocador, em prol da voz, da tomada de voz como tomada da cultura, ocupando-as, da Jovem Guarda às ocupações, mediado pelo funk, mas com uma diferença: o canto de guerra dos ocupantes encena uma voz inimiga.

 

É um problema de tradução, poderia dizer. É pelo menos uma das formas como se pode ler isso que tem se repetido muito nas práticas ativistas, meméticas ou poéticas: cantar como ato performativo de ocupação do espaço, ocupar o espaço cantando por sobre o espaço conquistado, traduzindo de um território ocupado a outro instituído os saberes exilados, perversamente imitando a voz inimiga. “uma mulher gorda / incomoda muita gente / uma mulher gorda e bêbada / incomoda muito mais”, canta Angélica Freitas, em 2012, destituindo o testemunho de sua autoridade e convocando a cantiga de infância como a voz contrária celebrando a violência. Como também “Lígia”, que Nuno Ramos expõe na internet (no site aarea.co) ao longo desse mês de setembro de 2017, fazendo os apresentadores do Jornal Nacional cantarem, nas edições de 16 de março e 31 de agosto de 2016, a canção homônima de Tom Jobim e Chico Buarque, por meio da manipulação sonora do texto jornalístico narrado. Ou ainda, mas em sentido menos perverso, como o “Eu te amo”, de Dimitri BR, publicado em Ocupa (2016):

são três palavras
as mais bonitas
as mais ansiadas

a mais singela
a mais antiga
declaração

de entrega
de desejo
de amor

come
meu
cu

Porque no texto dois discursos amorosos convivem, e entre a declaração do título e o pedido final, na última estrofe, o poema se escreve referenciando todas as direções textuais: “são três palavras” as do título, que já lemos; as desse primeiro verso, que estamos lendo; e as da última estrofe, que leremos mas ainda não conhecemos, e por isso nos enganamos quando chegamos a elas. Mas não só por isso. Esse engano de cada um é também marca discursiva, inscrita no leitor, do espaço minoritário do ânus como zona erógena, marca também, indiretamente, do espaço minoritário do homoerotismo. O poema, progressivamente menor, desenha, em mancha gráfica, uma forma penetrante, e inverte as expectativas como inverte os sons das sílabas finais, num quiasmo sonoro, pondo ao avesso o imperativo “come”, cujas sílabas ecoam, reordenadas, “meu / cu”, e troca os lugares de fala entre a declaração, em que “eu” é sujeito de amar, e o imperativo final, em que você é sujeito. E, de tudo isso, dos jogos que esse poema produz, podemos rir, ao final, porque nos enganamos, caso tenhamos nos enganado; e é terrível que sigamos nos enganando, esquecendo numa declaração de amor o discurso amoroso homoerótico e anal, quando, segundo dados do Grupo Gay da Bahia divulgados no Dia Internacional contra a Homofobia, em 2017, a cada 25 horas uma pessoa LGBT é assassinada no país. Ou seja, o engano produzido não é a forma do poema que o produz, a formação reiterativa, em gradação, do texto não se separa da ordem do discurso amoroso, e é na implicação entre a forma e a ordem que temos muitas vezes cantado. “Eu te amo” é um canto de guerra amoroso.

A canção nesse e em outros poemas de Dimitri BR, nesse e em outros poemas de Angélica Freitas, nesse e em outros trabalhos de Nuno Ramos, mas também em muitos outros trabalhos, em muitos memes e em muitas manifestações, é um gênero que tem servido para imaginar o coro dos antagonismos agônicos dentro de cujos gritos estamos. A tática de ocupação, performativa, convoca cantos de guerra que às vezes repetem, cantando, uma voz inimiga, e essa repetição – cantada – faz falar uma voz vinda de outro lugar, voz da violência celebrada por qualquer um. A ocupação como prática discursiva produz muitos modos de intervenção, mas certamente um deles é, na poesia, esse canto de guerra capaz de lançar qualquer leitor a cantar a violência e, cantando-a, responsabilizar-se por uma ordenação discursiva genocida.

estudantes

Se qualquer um já escutou um funk, cantarolou Tom Jobim e Chico Buarque, cantou a cantiga do elefante que incomoda muita gente, declarou o seu amor, então essas experiências comuns são o território pretensamente estético (só que político) a ser ocupado encenando a voz inimiga como uma voz comum, fazendo coro com um apocalipse em curso. Uma poesia como produção de alguma rede social em que seja impossível curtir esse mundo.

Agradeço a Mariana Oliveira, a Isabella Dias e o Caio Ferreira de Araújo, estudantes que ocuparam, em 2016, o Colégio Pedro II e a FAETEC Santa Cruz, no Rio de Janeiro, pelo diálogo sobre as experiências de ocupação. Algumas ideias desse texto nasceram durante as nossas conversas.

__________

[1] Escrevendo a partir das ocupações secundaristas, Alexandre Nodari aproxima a tática dos estudantes ao direito de ocupação indígena: “Não se trata de uma relação de propriedade, mas de recipropriedade, uma propriedade recíproca: se, como afirma Eduardo Viveiros de Castro, ‘os índios são parte do corpo da Terra’, participam do corpo da terra, é por isso que eles têm o direito de ocupá-la.” Alexandre Nodari, “Ocupação e cuidado”, 2016. (https://partessemumtodo.wordpress.com/2016/10/09/ocupacao-e-cuidado/)

***

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Tomaz Amorim Izabel

tomazTomaz Amorim Izabel, 29, é poeta, tradutor e doutorando em Teoria e História Literária na USP. Mantém um blog onde publica a maior parte de sua produção: tomazizabel.blogspot.com. Nascido e criado em Poá/SP, nas margens do sonho-monstro Bandeirante, reivindica uma ascendência mineira a se reinventada onde houver ainda mundo.

***

palavra parida num check-point em Ramala
revoada de pianos de cauda empoleirados entre as nuvens
planícies e vales e cumes de cúmulos-nimbos
chovendo linhas paralelas, beijando-se apenas em têmporas doces
estes mesmos versos mas sob o olhar de uma lâmpada-estrela azul
os braços desmunhecantes verdeprata das ondas, das quedas d’água, semi-círculos lunares, contraredamoinhos
meus lábios-palavras, meu hálito aquariano pedindo licença para deitar sob a pele, meus lábios canoa querendo ancorar
uma cabaça de coco grávida de fiapos e água correnteza, uma colcha de retalhos
monocromática, tecido de seda de aranha, rabiscada claraescura de trovões
para nos sentirmos finalmente homens, dignos como um bezerro, um novilho
gotas douradas de vinagre, batalhões de fileiras de escudos de alecrim, fumaça vapor de
azeite frito

§

 

Corações

Fui te escrever um bilhete
em papel manteiga
enfeitado de crepom
e ao escolher o giz de cera
para preencher a assinatura
um coração torto
desenhado à mão
me perguntei
se os amores sempre mudam
de jeito, de pessoa amante
por que sempre o vermelho
vermelho oxigenação e
sangramento
por que não amarelo ânsia
te ansio
rosa terno
ciano azul eterno
cinza refúgio
cerúleo seus olhos
fugidios
seus olhos púrpuras
fúcsia o mistério
dos seus seios pela primeira vez nas minhas palmas
nas minhas pálpebras
corações de couro preto e cinta-liga
marrom como abraços de um rio
dourado, de aniversário
verde e rosa, é mangueira
prata e rosa, amor primeira
xadrezinho, cubano e cabernet
um laço, um bombom, um chicote
um amor césio, decadente
por alguns séculos de vida humana
um amor enferrujado, banguelas há décadas
um coração daltônico para um amor estrábico
um coração de lata para os sem coragem
um coração todo corpo
um coração rosto que te sorri
e te beija explodido em furta-cor

§

 

“als du noch in der Schule warst”

para Aline

você se lembra quando nos deixamos ir
de ventre no chão, saindo da última pele
línguas para fora sentindo a garoa
na pele úmida dois ofídios
se arrastando eletrificados em ondas
no chão de terra do Ibirapuera?
você e eu
um devorando ao outro
um dupla de Oroboros
transatlânticos
um beijo satânico
em que se troca saliva
e cachaça e desenhos na mesa
promessas fúteis e sagradas
eu te amo, eu te amo
sua língua, chave de abrir cadeados
enferrujados e cansados, meu coração,
seus cabelos molhados de Omolú
me dando notícia do mundo dos mortos
me dando notícia do mundo dos vivos
nós dois como tapetes molhados
no chão do banheiro, ou dois japoneses
de robes brancos e o tempo uma piada
um disco em nossas mãos de criança
uma câmera paralisando
nossos corações no instante em que
batem e param
juntos
nós, velejando, finalmente
em Marselha
dois botões de rosas
num triângulo branco
boiando sobre o cetim azul
sob o farol dourado de Sacré-Cœur
até lá
sua blusa marrom
na minha gaveta
para ser amarrada
nas patas do próximo
pombo-correio
até lá
torcer para que não estoure
a próxima guerra, esperem governantes
porque ainda há o que amar
e eu me lembrei como fazê-lo
em pelo menos três línguas

§

 

 Ai, vai

Ela mordeu o meu lábio
como quem me diz
o que é teu está guardado.

§

 

riacho

redemoinho de vento
arquitetado por borboletas
hálito de césio de infantes divinos
plataformas móveis, desmontáveis
as rugas no rosto, os hexágonos nos cascos de tartaruga
ondas desligadas, fotografadas em preto e branco,
nas digitais dos dedos que se estralam
e coçam um palito de fósforos se
incendeia quando nós não éramos ainda esta
ou nem seremos mais embora eu tenha sido
embora dentro do cartucho haja poeira
e personagens cicatrizados em circuito verde
a Infância nunca foi
a Infância não está no futuro
basta de evaporação e chuva
basta de secura
uma pata de dinossauro na argila
uma mão de menina na massinha
um bambolê de vapor de gelo
um um que seja inteiro mas indeterminado
rascunhos em folhas velhas, rascunhos sempre refeitos
rascunhos aliás que não se repetem
tentativa de esboçar algo em fuga viva
a fisiognomia das pequenas quedas num riacho
um rosto mais amplo que o humano está lá
e não sorri ou abraça
mas diz algo
algo que se escuta

§

 

são paulo

são paulo é onde a cadela da esperança
vem parir seu último filhote
são paulo é onde a esperança vem
carregar carroças nas costas
vem se cobrir com o asfalto
do frio das noites de verão
tampando para sempre de piche
o que restou do céu azul
são paulo brilha como o sapato
polido com suor da criança engraxate
seus versos de homenagem são prozac
são paulo onde vivem os gênios não descobertos
mestres e mestras da frustração e do rancor
mas há uma boa nova, são paulo,
que não está no seu nome romano
nem na catedral dos mendigos da sé
são paulo dos emigrantes e de suas pontes,
a boa nova é que são paulo já acabou
que cada um voltará em breve pelo caminho de onde veio
ou por um caminho inventado
onde contará aos antepassados histórias tristes e loucas
onde se terá que inventar uma forma decente de viver
são paulo,
demorará ainda algum tempo
mas quem restar verá o trabalho lento
dos espíritos da água que exorcizarão
suas estacas de concreto e correntes de aço
e verá voltar a se inundar de sussurros e espelhos
o anhangabaú

***

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poesia

Maíra Dal’Maz

maíra

Maíra Dal’Maz, Rio Grande do Norte ou Pará, 1991, professora e pesquisadora na área de educação, tem dois zines publicados com amigos (“doze olhos ou terceira miopia” e “sedenta”), participou de uma coletânea de poemas publicada pela UBE – RN. Mais textos podem ser encontrados no blog Vortex de catatonia.

***

I

como fosse domínio do homem
o pico do cabugi, ou qualquer dos pontos altos da terra
e como se não fosse dar jeito na vida do homem
ela cai e é soterrada como pedrinha que se descola
ou qualquer matéria desgarrada que deve ficar ao chão
jamais no alto

e eu imagino quantas vidas foram para que o pico do cabugi tomasse a forma
desse projeto de vulcão que nunca sofreu
com o ar quente dos gêiseres
ou o cheiro de enxofre que vem do desconhecido
mas o cheiro confundido com os das tantas raposas sem vida no acostamento
saindo do jovem displicente antagonista das recomendações “não vá”

como se fosse, portanto, domínio do homem
superar a natureza da mulher selvagem que recolherá
os ossos
na base do vulcão-pedra no deserto do sertão, onde os canos de adutoras distraem o passante, e cantará
para seus humores voltarem a correr ao redor
não do pico, mas dos corações parados em volta de um morro
com formato de seio

o morro, o bicho morto e a mulher:
domínios por si, nunca do homem

§

 

II

dedicatórias

*

para B.

abastado de mal entendidos o homem que morreu
cuja a pele eu conheço doutros tempos
pele desatada
munida
de oleosidade natural
macia
marcada
feito a dos homens que precederam meu pai

*

para M.

ainda aquele colar de prata com lápis-lazúli
ou qualquer azul que te não te demovam os olhos-opressores
por analogia teus olhos multiplicam-se sobre o teu torso e orelhas,
como brotoejas
em excesso:
lembretes de castigos em couraças negras

*

para H.

escrevi no quadro negro da cozinha algumas urgências
prevendo uma busca incessante de palavras novas
ou riscos nas casas desconhecidas próximas ao baldo
pedindo que me ligue, por favor, me ligue
ou acenda na escuridão aquele canudo de pólvora
e natureza
para que possamos dormir

§

 

III

lembranças do baldo

dezessete horas reaberto:
lembro-me da noite em que chovia

depois de alguns sambas
do alto do viaduto do baldo interditado
a vista do front:

travessia, libido, inconsciência

lembro-me, ainda,
dos fogos de artifício sempre ouvidos desde que não conhecia o outro fogo
embalados em caixas de papelão

com orientações:
“7 tiros” ou “12 tiros”

na cervical estremecida
da minha cachorra hoje

hoje:
baldo livre

de quem?

§

 

IV

lendo chaya, a mulher que só tinha o nome e o karma sifilítico desviado
e sendo exposta a todo esse íntimo
à luz, com pressa de se colocar pensando
e descrevendo o não-ser
ou o ser lírico que fala só dos aflitos

eu, tentando escrever um poema que fosse
lido como música e que me mostrasse poeta
de sentimentos e angústias

(eu, frustrada com meu poema
sem imagens
sem conseguir ver além de)

baratas, cemitérios e sonhos com embates meus e um red nose na rua do baldo
só penso nas unhas da embaladora do supermercado
e como elas devem estar nos poemas

mãos-suspense

toda embaladora de presentes tem as unhas longas,
pintadas com glitter sobre algum tom róseo

que ditam a maestria dos usos de durex
tal qual todas que embalaram os brinquedos da minha infância

e hoje embalam sagatibas ouro

§

 

V

“Violinos: seda encrespada, queixas de mulher à noite sozinha.”
(M. Darwish)
“…esta noche angustiosa
llena de dualismos”
(A. Pizarnik)

consummatum est:
solidão em qualquer não-litoral
e por quando passo trêsquatrocinco dias
componho o hábito teu

esquartejo as frutas
recriando teu vulto na cozinha

eu como,
pelo menos,
tua sombra

§

 

VI

perdi as contas da quilometragem
toda rodada na vida

nessa perda, criei parâmetros
como o da textura dos asfaltos ou barro
que levam a três pontos da rosa dos ventos

como reverberam com o corpo sentado,
o movimento dos seios quando os buracos
as instabilidades do assento

a fricção da calça jeans no clitóris

(o prazer num ônibus velho rodeado do desconhecido)
as rodas dos automóveis, novas,
ou o desalinho

e conheço todos os postos de gasolina,

onde tomei os piores cafés, até perder este hábito
ou os grandes galpões-facções

e coloquei entre meus dedos tantos cigarros imaginários enquanto só
para não voltar ao hábito

fumei o ar

e senti
o cheiro de carniça quantas vezes
dos animais mortos na beira da estrada

e na estrada,
as desconversas
os desvios:

perdi as contas dos esquecimentos
mas algo sobra
não sei o quê

§

 

VII

sentir a permissão para alcançar uma emoção
coisa há muito esquecida
nas paixões e seus ímpetos de objetos quebrados,
como os vasos lançados das janelas,
acender o círio d’um santo
e rezar longas preces a essas paixões descuidadas:

o que entocam os poetas no cano que leva o fundo
dos seus vasos de banheiros sujos
depois de cervejas, cigarros e som?

sentir a permissão de jogar o corpo na estrada, ir até…
voltar a si e negar o arremesso

mas só depois do desvario
de quando sílvia me fala

§

 

VIII

contorno

dentre as principais coisas observáveis
com tamanho agrado estão:
o céu, a estrada vazia, os olhos dos meus cachorros
e o desenho do seu perfil

[lembro-me no teatro
como por minutos esqueci de dos amores y un bicho
e senti pela minha coluna todo o júbilo e lisonja
quando vi de tão perto o seu perfil]

investigava-o para chegar a isso
esse esquecimento dos tempos de guerras:
eu olhava todas as suas metades

era para isso, para encontrar todas as coisas observáveis com agrado
que eu flanava por todas as suas metades
pelas veias, por um ombro

mas, diferente do cavalheiro de Shalott:
[talvez ache, também, que gosta de se reajustar]
half is not enough

§

 

IX

oferenda

o fenômeno da fome
da mãe dos que nascem peixes
reduto de colo
recato de cor escura
um lar: todo negro

mania de anaeróbio
que costumo levar

o que costumo soltar:
o canto que apenas uns desatentos
uns passantes

um canto no vácuo

coágulo de ar:
três minutos de morte
brilho azul das vestes
odoyá

§

 

X

deitar-se
em decúbito ventral
tendo à vista
um livro-grão
uma flor no pensamento

a flor se abre

(uma pupa amadurece)

deitar-me
e ter com o livro-pólen
o estame:
pequeno filho

sempre que sou outra
deito-me com esse tipo

***

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poesia, tradução

Denise Levertov, por Mariana Basílio

Denise

Denise Levertov (1923 – 1997) foi poeta, escritora e tradutora inglesa, naturalizada nos Estados Unidos e ligada à Geração Beat.

Atualmente traduzo algumas das principais poetas americanas do século XX. Escolhi Denise Levertov para essa colaboração por dois fatores: primeiro, uma intensa ligação que sinto com a poeta no presente, além da mesma ser pouco conhecida no país. De traduções já realizadas da autora, encontrei uma anterior por aqui, por Stefano Calgaro, assim como outra na revista Zunái, feita por Ruy Vasconcelos, e por último, no Jornal Rascunho, por André Caramuru Aubert.

A escolha dos poemas aconteceu a partir de minha leitura dos seus livros, incluindo The Jacob’s Ladder (1961), O Taste and See (1964) e The Sorrow Dance (1967).  São livros que trazem conceitos marcantes da poética de Levertov, com imagens intensas e associações entre o ser, o seu local e a natureza das coisas, também explorando o momento de transição da sociedade na década de 60, incluindo sua constante práxis no feminismo.

Em relação à tradução, busquei uma equivalência em nossa língua para a dicção e o vocabulário da poeta, procurando valer-me de seus recursos e reproduzir a sonoridade do verso livre inglês sem comprometer o sentido, explorando a capacidade fluídica e o impacto de suas palavras.

 Mariana Basílio

***

Quatro poemas dos livros The Jacob’s Ladder (1961), O Taste and See (1964) e The Sorrow Dance (1967).

 

SALMO RELATIVO AO CASTELO

Deixa-me estar no lugar do castelo.

Deixa o castelo estar dentro de mim.

Deixa que ele se eleve firme do anel do fosso.

Deixa que as águas do fosso reflitam a verde plumagem dos patos, deixa que os cascos das tartarugas rompam a superfície ou sejam vistos através das profundezas ondulantes.

Deixa a cavalaria postada nas bordas do fosso, e um cachorro, sempre alertas à chegada do sono.

Deixa que o espaço embaixo do primeiro piso seja escuro, deixa que a água envolva os pilares de pedra e que o vívido lodo verde neles cintile; deixa que lá fique um bote.

Deixa que as cariátides do segundo piso sejam ursos sustentados por vigas que sejam dragões.

No parapeito do salão central, deixa quatro arqueiros, olhando aos quatro horizontes. Dentro, deixa que o príncipe se sinta em casa, deixa-o sentar pensativo, em paz, todas as janelas abertas para as lógias.

Deixa que a jovem rainha se sente no alto, no ar fresco, seu filho nos braços; deixe-a ver com alegria o grande círculo, as sombras peregrinas, o labor do sol e o folgar do vento. Deixa-a caminhar de lá para cá. Deixa as colunas sustentarem o telhado, deixa que os pisos sustentem as colunas, deixa um espaço escuro embaixo do piso mais inferior, deixa que o castelo se eleve firme do fosso, deixa o fosso ser um anel e suas águas serem profundas, deixa que os guardiões o guardem, deixa que hajam vastas terras ao seu redor, deixa que o campo onde ele esteja fique dentro de mim, deixa-me estar onde ele estiver.

 

PSALM CONCERNING THE CASTLE

Let me be at the place of the castle. 

Let the castle be within me. 

Let it rise foursquare from the moat’s ring. 

Let the moat’s waters reflect green plumage of ducks, let the shells of swimming turtles break the surface or be seen through the rippling depths. 

Let horsemen be stationed at the rim of it, and a dog, always alert on the brink of sleep. 

Let the space under the first storey be dark, let the water lap the stone posts, and vivid green slime glimmer upon them; let a boat be kept there. 

Let the caryatids of the second storey be bears upheld on beams that are dragons. 

On the parapet of the central room, let there be four archers, looking off to the four horizons. Within, let the prince be at home, let him sit in deep thought, at peace, all the windows open to the loggias. 

Let the young queen sit above, in the cool air, her child in her arms; let her look with joy at the great circle, the pilgrim shadows, the work of the sun and the play of the wind. Let her walk to and fro. Let the columns uphold the roof, let the storeys uphold the columns, let there be dark space below the lowest floor, let the castle rise foursquare out of the moat, let the moat be a ring and the water deep, let the guardians guard it, let there be wide lands around it, let that country where it stands be within me, let me be where it is.

§

A DOR DO MATRIMÔNIO

A dor do matrimônio:

coxa e língua, amado,
carregam seu peso,

que pulsa nos dentes
Buscamos comunhão

e somos rejeitados, amado,
todos e cada um

É leviatã e nós

em seu estômago
atrás de alegria, alguma alegria
inconcebível fora dele

de dois a dois na arca

dessa dor.

THE ACHE OF MARRIAGE

The ache of marriage:

thigh and tongue, beloved, 
are heavy with it, 
it throbs in the teeth

We look for communion
and are turned away, beloved, 
each and each

It is leviathan and we 
in its belly
looking for joy, some joy 
not to be known outside it

two by two in the ark of 
the ache of it.

§

CANÇÃO DE AMOR 

Tua beleza, que uma vez perdi de vista

por longo tempo, é longa,
não simétrica, e veste

as cores terrosas que me fazem vê-la.

Uma longa beleza. Que é isso?
Uma canção

que pode ser cantada uma e outra vez
longas notas ou longos ossos.

O amor é uma paisagem que as longas montanhas
definem mas não

separam da

distância imperceptível.
No outono, no outono,

tuas árvores esticam
seus braços longos em mangas

de vermelho terra e
amarelo céu, um pouco
podadas. Eu dou

longos passeios por eles. As uvas
que precisam de geada para amadurecer

são âmbar e crescem profundas na
sebe, meio ocultas,
como tua beleza cresce em longas gavinhas

meio na escuridão.

LOVE SONG 

Your beauty, which I lost sight of once
for a long time, is long,
not symmetrical, and wears
the earth colors that make me see it.

A long beauty, what is that?
A song
that can be sung over and over,
long notes or long bones.

Love is a landscape the long mountains
define but don’t
shut off from the
unseeable distance.

In fall, in fall,
your trees stretch
their long arms in sleeves
of earth-red and

sky-yellow, a little
lop-sided. I take
long walks among them. The grapes
that need frost to ripen them

are amber and grow deep in the
hedge, half-concealed,
the way your beauty grows in long tendrils
half in darkness.

§

OS ELFOS

Os elfos não são menores
que os humanos, e caminham
como os humanos fazem, nesse mundo,
mas com mais graça que a maioria,
e não são imortais.

Sua beleza os separa
dos demais homens e mulheres
a menos que uma mulher tenha aquele fogo frio em si

chamado poeta: com isso
ela pode vê-los e por sua luz

eles a conhecem e não a temem

e prateadas línguas de amor
cintilam entre eles.

THE ELVES

Elves are no smaller
than men, and walk
as men do, in this world,
but with more grace than most,
and are not immortal.

Their beauty sets them aside
from other men and from women
unless a woman has that cold fire in her
called poet: with that

she may see them and by its light
they know her and are not afraid
and silver tongues of love
flicker between them. 

***

 

MARIANA BASÍLIO (1989) é poeta. Autora de Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016), atualmente versa Megalômana, e Tríptico Vital (3º lugar ProAC 2016). Tem poemas em revistas do Brasil e de Portugal, como alagunas, Diversos Afins, Garupa, Germina, InComunidade, mallarmargens, Odara, Raimundo, entre outras. Aqui no escamandro já apareceu quatro poemas. Contato: http://www.marianabasilio.com.br

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poesia

Carina Castro

fotografia: luís bahú

Carina Castro (SP, 1988) é poeta, pesquisadora e artivista cultural. É autora do livro de poesia Caravana (Editora Patuá, 2013). Se dedica também aos textos para crianças e jovens, ganhou o Prémio Lusofonia de Portugal (2012) na categoria conto infantojuvenil; de lá pra cá muitos textos engavetados, alguns publicados em revistas digitais e antologias diversas, entre elas a mais recente É agora como nunca (Cia das Letras, 2017). Com Deborah Erê criou o selo de publicações independentes & intervenções gráfico-poéticas Selenitas. É idealizadora e atuante no coletivo de feminismo, arte-educação & infância Espaço Marciana. Atualmente escreve seu próximo livro e ministra oficinas de criação literária para mulheres e crianças. Seus textos e trampos podem ser encontrados internet afora no blog: Tudo é Coisa  e nas páginas: Caravana – poéticas de Carina Castro & Selenitas

***

afiadas

bem sabemos manusear facas
nem sempre na cozinha, meu bem
também riscamos chão
pontiagudas
lâminas afiadas
embainhadas na coragemedo
nem sempre armas brancas

afiamos a língua na pedra
estirada qual kali
mais cortante que a aresta do papel
aveludado capim cidreira
vento frio da madrugada
e o inconfundível sabor
que vem a boca

não mais delírios de buñuel
no brilho que espelha
confunde cegueira tua
rasgar de raios ou lancinante mirada?
§

SPIRITUAL

te aceno do outro lado da margem
mas não sei como transpor esse
rio
de palavras
ditas não ditas
vez ou outra versadas

engulo o choro

pra molhar a garganta
pra desfazer o nó(dulo
molhar por dentro

brota em mim uma delicadeza
bruta
e enquanto cresce corpo acima
caminho sobre as águas

§


IN DOLOR

tem dores que latejam
juntinho do osso
e aprendemos a sorrir
mesmo assim
gengiva exposta
falta chorar
de rir
mostro os caninos
quando desestruturada
a gente fica sem cara
e aquela dor canina
insiste
a gente
insiste também
sem anestesia
sente fundo a dor até não sentir mais
espinha ereta
nadamos do âmago
ao mar aberto
até que possamos levitar

e carregar os próprios ossos

 ***

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Leo Silva

Foto de Lucianna Silveira

Leo Silva tem 22 anos, mora no Santa Filomena – Jangurussu, Fortaleza. É escritor, poeta e fotógrafo. Tem alguns escritos publicados em livros, como: POETAS DE LUGAR NENHUM – SARAU DA B1, e Vozes do Jangu. Faz parte da equipe do Tentalize e escreve aleatoriamente para a página GRITOS ALEATÓRIOS.

Os fragmentos abaixo fazem parte de um ciclo de poemas inéditos; as fotografias integram a exposição  “Simples Cidade – Simplicidade”, quarenta fotos que nos mostram um pouco mais do Jangurussu – suas localidades, rostos, sorrisos & cotocos, olhares & paisagens locais -, bairro periférico de Fortaleza/ Ceará, que abrange oito comunidades que carregam em seus nomes os mártires e os santos que acabam muitas vezes no esquecimento. Leia também o texto de Dani Guerra sobre a exposição na Revista Berro.

SIMPLICIDADE (6)

EM MEIO TERMO

em meio termo,
em meio tempo,
em meio a gente,

[…]
ficamos ali,
contemplando um ponto fixo,

[…]
em meio termo,
no meio tempo,
em meio a gente,

a gente se encolhe,
afasta, e continua a contemplar,
sem jeito,
[…]

 

ESTE NÃO SOU EU,

a gente se encontra por aqui,
a gente se encontra por ali,
todos me olham,
e eu olho todos,
estou em diversos lugares,
[…]
este não sou eu,

[…]

SIMPLICIDADE (4)

Nos corres da vida,
na volta de bike,
aquele suor que rebate todo o corpo,
é como este momento,
[…]

SIMPLICIDADE (37)
uma folga,
descansar,
descansar,
[…] o dia virá//

SIMPLICIDADE (14)

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