poesia

um poema inédito de André Nogueira

Igrejinha Mariana

Fotografia de Caio dos Santos

André Nogueira é poeta, tradutor e ensaísta, nasceu em 1987 na cidade de Herdecke, Alemanha Ocidental. Registrado cidadão brasileiro no Consulado em Munique, vive atualmente na cidade de Campinas. Formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. É Autor de Pontualmente ao Encontro ou Pomos, um Adão Cada (Ed. Medita, 2011),  O Manifesto Lenitivo (Ed. Urutau, 2015), e O Presidente me quer morto (Ed. Urutau, 2019); já apareceu na escamandro com traduções de Marina Tsvetáieva e poesia autoral.

*

Notre Dame do Agreste
(ou “Não existe uma mãe que não sangre”)

1.

Aqui não existe milagre dos peixes.
Entre seixos e caveiras,
vestidinhos
de boneca.

Nos altares resplandece
da cidade a padroeira
— pelos séculos! —

Ornada a igrejinha
— pisca-pisca e bandeirola —
todo o povo se acerca
para ver…

“Nos cobri com vosso manto, minha Mãe”.
E, como os santos das abóbodas
caíssem sobre o coro,
a ninguém a tensa prece
mais consola.

Até que enfim no campanário o sino dobra!
O povo canta na quermesse
sob o choro
de violas.

Pelo manto tão fino de seda
azul-claro como as águas
de nascentes
cristalinas,

Pelo roto vestidinho da boneca
e pela lágrima que seca
da menina,

Por cada igrejinha de Minas,
Notre Dame do agreste,
esquecida de Deus e o resto
e do mundo,

Que num manto de poeira — ela se veste,
chora igual a carpideira
sobre a tumba,

Que num último repique — ela afunda,
badalando vai a pique,
volta a torre a se esconder
na catacumba,

De olhos fechados e guelras abertas,
o grito inaudível
abafado
de tristeza:

Da campana o afogado som de alerta
pelo pranto represado
e pelo nível
da represa.

2.

Que na pedra se edifica,
em prata rica
se enfeita, —
Igreja santa e prostituta!

Com o manto azul de seda,
com a cruz na mão esquerda
e a espada na direita —
ela exulta.

Museu a céu aberto e soterrada catacumba,
pedra de toque
e tropeço,

Que entregou pelo minério
o mistério de seus terços,
terça parte
dos altares que relumbra…

Todo mundo tem seu preço.

Adorada e maldita,
a carne apodrece
na tumba,

Mas de mármore ou granito
a escultura que habita
a solidão dos cemitérios, —
o sino de cobre e até os canhões
de chumbo, —

De marfim os seus archotes,
de prata seus ícones,
ricos minérios e até
suas pérolas líricas, —
alto quilate
de ouro mundano
que as obras de arte
lhe banha, —

Assim o templo do Senhor é para sempre,
imperecível como a rocha
e, ao redor, essas montanhas.

Imperecível, com certeza, uma pedra angular,
não fosse o nível
da represa
uma última vez
lhe banhar.

Mas se na Terra nem a terra
se mantém em seu lugar,
se derreteu a rocha eterna
e virou pedra
o coração,
portanto peca, peca mesmo e com paixão!
Entre pérolas peca, entre lama
e vestidinhos de boneca, —
o sangue derrama
e o corpo de Cristo
no chão.

Então mergulha no avesso
de teu fim e teu começo,
— Tu, do espírito a seara
e da carne a carcereira! —
nem o joio não separa
nem o ouro — na peneira.

Pois devora teus defuntos
junto com
teus sacramentos,
do maná celestial te satisfaz
e a sétima praga.
E goza o começo
do fim,
os archotes apaga.
Por eles o preço
é mais que marfim:

— Aqui se faz, aqui se paga.

3.

Mas, pobre igrejinha, — tão longe de Roma!
Com sacrários de vidro
e com Madonas
de madeira,

Barroco tosco das colônias,
de barro encardido
e poeira!

Não importa o quão alto badale,
o tremor das explosões
é mais forte!

A sombra da morte passeia no vale.
Pois, se a fé move montanhas,
o dinheiro —
as explode.

Igrejinha de Minas, tão rica e tão pobre.
Barroca e pudica,
de lírica sóbria.

De oratórios embriaga-se e de música,
o espírito a habita —
os cochichos e fofocas
de anciãs e senhoritas,
de crianças e viúvas
choramingo.

Cemitério que, tomado pelo musgo,
esverdeia sob a chuva,
onde a aranha fez a toca
num jazigo —

(Sudário da teia que envolve
o rosto de Cristo).

Não pode ser que também os seus mortos
a terra devolve,
também serão rotos
seus véus, pela última vez
serão vistos!

Pelo buraco da agulha,
na muralha a portinhola,
passará toda a montanha
que esmorece,
vindo ao chão mergulhará sua campana,
as bandeirolas
da quermesse.

Não pode ser que,
sob o olhar indiferente das nações,
a seus pés abra-se a fenda,
que sobre os seus santos
de pau, sobre os mantos
bordados de renda —
a latrina do mundo derrame!

Antes que cale o coral da capela
das sirenes a trombeta,
do quintal da cidadela
a todo o planeta
— pelos séculos dos séculos! —
bem alto se proclame:
— Existe a nossa
Notre Dame!

Aí está ela, cravada no agreste,
bendita, divina.
Que o mundo inteiro possa
ouvir o dobre
desse sino.
Com seu manto verde-azul ela nos cobre,
é do próprio Criador
a obra prima.

O lambari do pescador
e do poeta — sua rima.

4.

E o que você queria?
Por acaso, uma mãe de pedra fria,
a mão furada da escultura
e que segura a flor de quartzo?

Que, no sol queimando as costas,
no rosto gelado do filho
o regaço,

A mãe de pedra assim se prostra,
inerte e dura sob o véu,
ensimesmada nesse abraço.

Da sepultura o tampo gélido
entre o talhe do cinzel
e a ferida do flagelo,
entre o céu
e o cadafalso,

Enquanto a sirene ressoa,
nesse seu eterno gesto
como morto de cansaço,
com a mão nos abençoa…

Até que só restem
pedaços.

5.

Palpita, palpita!
Palpita aquilo
que habita seu corpo.
É quente seu sopro —
o bafo de onça.
Espírito jubila,
estômago ronca —
o esturro. Ouça…
A mata treme à luz da lua:
Em uma só boca —
mais de mil coros.
Socorro! — Aleluia!
Aleluia! — Socorro!

Palpita, palpita!
Mãe de sangue — sim, hosana! —
e mãe de seiva — nas alturas!
Nas alturas e também
nos humildes rincões
da terra.

Transmuta-se e transita
entre feições mais que humanas,
toda e cada criatura
— cem milhões vezes cem! —
nela se encerra.

Não existe uma mãe que não sangre:
na praia, no mangue,
no areal, na mata-virgem…
Poderia não sangrar aquela mãe
que é de tudo e cada qual
a origem?

De todas as fontes — milagre,
de todo jardim — oliveira
e não só

(Porque também a macaxeira
é de vós, Senhora Nossa!) —
todo fruto é de seu ventre
o bendito.

A fronte — queimada de sol,
as mãos — calejadas da roça.
Da aranha tecelã
para a agulha experiente
da vovó Benedita,

É anciã e senhorita:
em novo vestido
a boneca de pano.
É cada história que foi dita
ao pé da roca
pelos séculos fiando.
Assim também terão nascido
os humanos.

Manto — não aquele
que do céu à terra desce.
Nem mãe que, de pedra,
a esperar do véu a queda
na eterna imóvel prece.
Mãe que tece
com o fio de costureira,
corta, prega
— não os pregos do martírio —
botões
de flor.
Botões que um dia florescem
de cravos e lírios
no madeiro que, outra vez primaveril, — Ressuscitou!

Mãe flor, mãe aranha, felina, humana!
Cria raízes, agita as entranhas — Divina-mundana!
Que a todos na teia — emaranha!
No ventre ou nas garras — a tudo ela apanha!

Mãe que se adorna de todas as cores
e com pétalas de flores,
manto verde
das florestas,

Mãe cuja prata, escamas de peixe,
seu milagre pelas redes
de humildes pescadores
manifesta,

Com manto azul de águas claras
cobre a terra
enfeitando-a com asas
de arara,

Gruta que nos pariu,
na mesma gruta
para nós
o leito último prepara.

Mãe que escorre das nascentes
pela frente e pela costa
da serra,

Mãe eternamente prenha
como as fêmeas
das panteras,

Mãe que grita e se desgrenha
sob o ronco da — blasfêmia! — moto-serra,

Verte lava dos vulcões,
no tremor das explosões
também sangra
das crateras.

Que recebe paciente
seu flagelo — ah, que provas
ela enfrenta!

O manto azul-claro deságua
e outra vez ela desova
sua prenda:

O verbo, a quem é de poema,
ao pescador — a piracema.

O milagre dos peixes,
suportando toda dor
e superando qualquer pena,
nada contra a correnteza…

Até com a pedra topar
da represa.

Canta, galho em galho, o colibri.
Assim também os homens cantam:
“Nos cobri
com vosso manto!”

O coro, entretanto, dos anjos
responde em uníssono:
“Senhor,
o sacrifício santifique!”

Olhos gélidos celestes
vão fitá-la do altíssimo,
igrejinha que badala
antes de prestes
ir a pique.

Abra, pois, as guelras
e feche seus olhos,
— Olhos de peixe,
que nunca se fecham,
vigília insone e atenta
da Dama, —

Abra as guelras
e dos olhos
eis que a lágrima derrama.

Deixe que se estenda
outra vez sobre seus córregos,
Mãe Terra,
a mortalha de lama.

Ascensão (fins de maio — princípios de junho) 2019
*

Padrão
poesia, tradução

Patti Smith, por Nina Rizzi

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Patti Smith nasceu em Chicago em 1946. É poeta, cantora, fotógrafa, escritora, compositora e musicista, conhecida como “poeta do punk” e “madrinha do punk”. Seu álbum de estreia, Horses (1975), que mistura rock, punk e poesia recitada, é considerado por muitos como o melhor álbum de estréia já lançado por um artista; ele começa com uma cover da música Gloria de Van Morrison e as palavras de abertura recitadas por Smith são umas das mais famosas na história do rock: “Jesus died for somebody’s sins… but not mine” (Jesus morreu pelos pecados de alguém…mas não pelos meus). Com composições feministas e influências poéticas variadas, sobretudo Arthur Rimbaud e William Blake, é uma artista vigorosíssima.

Autora dos volumes de poesia: Babel, Early Work, compilação inúmeros volumes de poemas publicados no início da década de 1970, The Coral Sea, uma extensa elegia a Robert Mapplethorpe e Patti Smith Complete, uma coletânea de suas composições musicais. No Brasil, estão publicados “Só garotos” (2010), “Linha M” (2016), “Devoção” (2019), e “O ano do Macaco” (2019), todos pela Companhia das Letras.

Como a maioria dos artistas do punk, Patti Smith se engajou em diversas lutas políticas, por exemplo: foi contra a invasão chinesa no Tibete, contra a Guerra no Iraque e a favor do impeachment do presidente George W. Bush. E esta semana, publicou em sua conta no instagram uma poema apoiando a mobilização que acontece no Chile e que deseja acabar com injustiças e desigualdades.

Quem conhece a cantora, já vai sentindo a sonoridade peculiar e balançando os pés, as mãos, chamando umas distorções, uma percussão mental – algo próximo, talvez, de People Have the Power escrita por Patti e seu então companheiro Fred “Sonic” Smith e lançada em 1988 como single principal do álbum Dream of Life, cuja fotografia é de Robert Mapplethorpe, assim como a de Horses.

A cantora e poeta estará no Chile para um concerto dia 18 de novembro, após sua passagem pelo Brasil, quem sabe não apresenta uma versão musical para a poema. Caso não, do it yourself! Deixamos três versões escritas pra inspirar: português e espanhol vertidas por mim e em inglês conforme escrito por Patti Smith e publicado em sua rede social 😉

nina rizzi

*

O REINO MAPUCHE 

Este é
o reino da coragem
o reino da convicção
o reino da unidade
Um milhão de pessoas
em Santiago, Chile.
Exigindo igualdade
Exigindo do governo
responsabilidade.
Exigindo um Chile
tão unido quanto eles,
tomando as ruas.
Este é o reino
de cidadãos ativistas,
que estão sendo vistos
e ouvidos pelo mundo.
Mostrando-nos como
O povo tem o poder.

EL REINO MAPUCHE

Este es
el reino del coraje
el reino de la convicción
el reino de la unidad
Un millón de personas
en Santiago, Chile.
Exigiendo igualdad
Exigiendo al gobierno
responsabilidad.
Exigiendo un Chile
tan unido como ellos,
tomándose las calles.
Este es el reino
de los ciudadanos activistas,
que están siendo vistos
y oídos por el mundo.
Mostrándonos como
el pueblo tiene el poder.

This is
the realm of courage
the realm of conviction
the realm of unity.
One million people
in Santiago, Chile.
Calling for Equality.
Calling for government
accountability.
Calling for a Chile
as unfied as they,
taking the streets.
This is the realm
of Citzen Activists,
who are being seen
and heard globally.
Showing us all how
people have the power.

***

Padrão
poesia

Marcelo Lotufo

lotufo

Marcelo Lotufo é crítico literário, prosador, tradutor, editor e pesquisador pós-doutor em História da Literatura na Unicamp. Traduziu para as Edições Jabuticaba que tempos são estes e outros poemas, de Adrienne Rich, Os elétrons (não) são todos iguais, de Rosmarie Waldrop, e ‘Sotto Voce’ e outros poemas, de John Yau. Editou em Cuba, para as Ediciones Santiago, o volume La selección: 11 poetas brasileños hoy. Atualmente trabalha na tradução de uma coletânea da poeta americana C. D. Wright.

*

SP 270 (Raposo Tavares)

1)

À frente, uma bandeira colorida. A tropa de bandeirantes se prepara para mais uma incursão. No que viria a se chamar Brasil. Aqui, o passado sobrevive. Em vestígios nem tão sutis. Cada palavra, cada detalhe, cada ferida. Importa. Mais do que imaginamos. Como a pontuação de um poema. Como vírgulas na constituição. Indicam um caminho. Que talvez não tomaremos. Ou que tomamos sem perceber. Brasil, ame-o ou deixe-o. No tempo da minha infância a estrada se chamava Raposo Tavares. E ela ainda se chama assim. É um destes traços. E eu a tomo todos os dias. Um passado sem resolução. Que aponta para o futuro. Que define o presente. Um resquício que nos informa. E explica por que trinta anos não valem mais do que um verão.

 

2)

Um passo a frente e o país cresce mais um metro. A estrada já foi uma mera picada. Esperando ser aberta. O que vale mais, um metro de terra ou um quilo de carne. Os bandeirantes que partem vão repetir contra os índios o que com os próprios índios haviam aprendido. No caminho da casa onde cresci, homens armados buscavam ouro. Buscavam o outro. Para não reconhecê-lo. Como igual. A estrada que corta a minha memória, também corta o Brasil. Em muitos outros ângulos. A estrada e os seus acidentes. Que apagam outros acidentes. A estrada e os seus crimes. Uma caravana de horrores. Um homem morto na pista. Vidas que não terão sua história contada. Escondidas atrás de outros nomes.

 

3)

Para continuar vivos, precisam vencer os inimigos. Mas os lados da proposição não são equivalentes. O embate nunca é justo. Palavras definem escolhas. Já tomadas. Denotam lados. Heróis contra vilões. Selvagens contra civilizados. Moradores contra invasores. Os que cobiçam contra os que desejam a liberdade. Quantos nomes poderia ter uma única estrada. Pela qual em uma única viagem, 20 mil peças voltariam amarradas. Em que momento fizemos esta escolha. Do nome que esconderia outros nomes. 20 mil negros, negras, índios e índias. Em uma única viagem. Carregando pesadas correntes de ferro, cada uma com 4 metros e meio de comprimento, com trinta colares fechados por cadeados. Recebidas com alegria na cidade. Como novas mercadorias. O ouro que não encontraram. A riqueza que faltava. Para sermos herdeiros. De um projeto de destruição. Que nunca pôde dar certo. O Brasil crescia mais um metro.

***

 

 

 

 

 

 

4)

 

Vencida a serra, a conquista do planalto. Na televisão, uma grande passeata, muitos anos depois. Mais uma. Por um instante parece que algo pode mudar. Que descobriremos outra camada. Da nossa história. Outra verdade. Outro projeto. Esquecemos que a cobiça não tem fim. Que o desespero se auto-fagocita. Em nome de Raposo Tavares, eu voto sim. Pela promessa de destruir terras e riquezas. Pelo direito de me achar predestinado. De continuar na mesma estrada. Herdeiro do mesmo projeto. O peso mal distribuído entre nós. O mesmo nome. Escondido atrás de outros nomes. Cruza mais uma vez o país.

 

 

5

 

Na derrota, o caminho aberto a ferro e fogo. Quem celebrará a vitória. Quando não houver mais espólio para ser tomado. Quando não houver mais nada. Quando ela se transformar na derrota. Que sempre foi. A quem interessa continuar neste caminho. Manter este nome. Queimar esta mata. Abrir outra picada. Escravizar a diferença. No começo dos anos noventa, faltava gasolina. É uma de minhas primeiras memórias. A estrada transformada em fila. Perdendo a sua função. Antes que eu soubesse quem era Raposo Tavares. A estrada, parada, enquanto esperávamos. Alguma mudança. A mesma gasolina que faz o carro andar. Também pode queimá-lo. Mas nada acontece. Os nomes mudam. Mas continuam os mesmos. Nos mesmos lugares. E as correntes continuam pesadas. Para aqueles que as carregam. Na Raposo Tavares. Antes mesmo que ela tivesse este nome. Antes mesmo que fosse a estrada da minha casa.

Padrão
poesia, tradução

Denise Duhamel, por Miriam Adelman

denise-duhamel
Denise Duhamel nasceu no estado de Rhode Island, na costa do leste dos EUA, em 1961. Quando conheci seu livro Kinky (1997), já virei leitora convicta sua, o que me permitiu um profundo mergulho numa obra hoje muito vasta, cada livro um tesouro de densidade e deleite próprios. Mas fui realmente tomada pela obsessão por produzir versões dos poemas que compõem esse livro que representou minha primeira introdução à poeta: Kinky, verdadeira caixa de surpresas, ode à e desconstrução da cultura e política dos EUA, torvelino de criações – sendo cada uma, uma posta em cena da ícone cultural da Barbie. Ali, a Barbie passa por quase infinitas metamorfoses, vamos dizer que do mesmo tamanho da sua quase onipresença social.  E Duhamel, sempre irônica, nunca tem medo de apontar diretamente para os impasses de nosso tempo, e nos revelar um ângulo – ou uma armadilha – diferente.
Miriam Adelman
*

Como ajudar as crianças em tempos de guerra 

Mister Rogers recomenda dizer às crianças americanas
que a tristeza faz parte.  Apresente então para elas o globo
em lugar do mapa ordinário,  para mostrar e dizer
quão longe realmente fica o Oriente Médio.  Enfatize que
assistir meteorologia da TV Saudita não quer dizer
que se chega lá de carro. Enfatize para elas o que
seu presidente lhes garante:  que toda vida é preciosa,
a de uma criança iraquiana igual à do soldado americano.
Diga isto para seus filhos, acreditando ou não
nas palavras dele.  Fale para as crianças que seus pais
sejam civis ou soldados, as amam, seja qual for
o chão que habitem. Considere descrever para elas
a guerra como ela é,
mas se sua filha jogar Nintendo, não lhe sirva
sangue em lugar de leite no cereal matinal.  Se seu filho
andar numa gangue perigosa, então deixe que ele
te explique a guerra.  Aos pequeninhos, sugira
que levem seus jogos de química para a areia do parquinho.
Se você ensina arte, explique eventos atuais
com bonecos de papel.  Uma corrente de homens de cartolina vermelha:
George Bush, Dick Cheney, Sadam Hussein, et cetera.
Peça para os aluninhos que amassem um dos bonecos,
que lhe deem o nome Noriega. Que o joguem num copo de papel
que representa a cadeia.  Nesse momento pode fazer perguntas
para que percebam o quanto um boneco se parece
com o outro.  Peça para cada criançinha
escolher um que seja seu favorito.
É esse que devem retalhar, os pedaços mais minúsculos
que suas tesourinhas permitam.
Talvez alguns aluninhos se inquietem, se polvilhando uns
aos outros com os pedaçinhos cor carmim.   Permita isso:
confete, carnificina, neve vermelha, bombas.

How to Help Children Through Wartime

Mister Rogers says to tell your American young
it’s OK to be sad.  Present them a globe
rather than a flat map to show-and-tell
how far away the Middle East really is.  Stress
that the TV Saudi weather report
doesn´t mean the country is within driving distance.  Stress
that their U.S. president assures them that all life is precious,
an Iraqi child’s equal to that of an American soldier.
Tell your children this, whether or not
you yourself believe him.  Tell children that parents,
be they civilian or soldier, love them regardless
of what soil they’re on.  Consider letting children know
what the war is really like,
but if your daughter has Nintendo, do not pour blood
instead of milk on her Cheerios.   If your son
is in a dangerous gang, let him explain
war to you instead.  Encourage all elementary schoolers
to take their chemistry sets to the sandbox.
If you teach art, explain current events
with paper dolls.  A strand of red construction paper men:
George Bush, Dick Cheney, Sadam Hussein, et cetera.
Have students crumple up one doll and name him
Noriega. They may throw him in a Dixie cup
that represents a jail. Then you may ask questions
that lead students to notice the resemblance
of one paper man to the next.  Have each of the children
pick a doll who represents their favorite.
Instruct them to cut that man up into the teeniest pieces
their safety paper scissors will permit.
Members of the class may begin to get restless, to sprinkle
each other with the crimson bits.  Allow this:
confetti, bloodshed, red snow, bombs.

§

Barbie Oriental 

Ela pode ser do Japão, do Hong Kong, da China,
das Filipinas, do Vietnã, da Tailândia o da Coréia.
A menininha que brinca com ela pode decidir:
O sul, o norte, uma província
nebulosa. Tanto faz, segundo a Mattel, que relata
que esta Barbie continua tendo “olhos arredondados”
porém “boca e busto menores” do que
sua irmã dos EUA. As meninas, como alguns homens já crescidos
gostam da variedade, desde que bonita, desde que
haja cabelo comprido para mexer.
Num comercial nas horas noturnas, a Manhattan Cable
oferece um serviço de acompanhantes “Geishas to Go”
garotas do “Oriente, onde os homens são rei…”
O Ken Branco deita barriga para baixo
enquanto uma Barbie Oriental caminha sobre suas costas.
Ou é uma mulher de verdade pisando no Ken?
Ou uma Barbie Oriental pisando num homem real?
Você precisa viajar ao Japão
para comprar esta Barbie específica. Uma garota geisha
pode chegar à porta do teu apartamento em Nova Iorque
em menos de uma hora. Por sinal,
não existe um Ken Oriental.
Os que estudam o delicado equilíbrio
do comércio e câmbio americanos
entenderão.

Oriental Barbie

She could be from Japan, Hong Kong, China,
the Phillipines, Vietnam, Thailand or Korea.
The little girl who plays with her can decide.
The south, the north, a nebulous
province. It´s all the same, according to Mattel, who says
this Barbie still has “round eyes”
but “a smaller mouth and bust”
than her U.S. sister. Girls, like some grown men,
like variety, as long as it’s pretty, as long
as there’s long hair to play with.
On a late night Manhattan Cable commercial
One escort service sells Geishas to Go,
girls from “the Orient, where men are kings…”
White Ken lies on his stomach
while an Oriental Barbie walks on his back.
Or is it a real woman stepping on Ken?
Or Oriental Barbie stepping on a real man?
You have to travel to Japan
to buy this particular Barbie doll. A geisha girl
can be at your door of your New York apartment
in less than an hour. Of course,
there is no Oriental Ken.
Those who study the delicate balance
of American commerce and trade understand.
§

Barbie bicentenária 

Por ser a boneca mais popular
do século XX, a Barbie é enterrada
numa cápsula do tempo na Filadélfia
no dia 4 de julho, 1976. Ela é espremida entre
uma embalagem vazia de Kentucky Fried Chicken
e uma lata cheia de Coca-Cola, pois virou
ícone cultural e agora tem que pagar o preço.
Ela se lembra de um tempo
em que ainda poucas meninas a conheciam
e não precisava fazer tanta pose.
Agora, sendo verdadeiro item para colecionador,
precisa garantir – cada cabelo no seu lugar!
Eu acabo de ser eleita
Garota Personalidade, uma categoria superlativa
do anuário escolar. Posso
posar para foto com o fofinho
do Garoto Personalidade, o primeiro
e único jogador do time de futebol
que quer sair comigo.
Ele diz querer namorar firme comigo
e com outra garota ao mesmo tempo.
Não acho justo, mas sendo Garota Personalidade
demoro demais para o conseguir dizer.
Veja, eu já passei da idade de brincar de boneca,
mas por algum motivo se implantaram no meu subconsciente.
Eu não me pareço nada com a Barbie,
então talvez nem mereça um namorado todo meu. Pior ainda, a meu ver,
minha rival lembra uma delas.
Quando finalmente, constrangida, escrevo um bilhete
para o Garoto Personalidade, o enfio na fresta do
armário errado. O garoto-ninguém que o encontra
não quer devolver, nem quando peço
muito educadamente. Logo todos vão saber
que não sou sempre bem-humorada.
Temendo um escândalo, peço conselhos
aos Mais Bem-vestidos e Os com Maior Probabilidade
de Sucesso na Vida. Estes dizem não se importar
com o que as massas pensam. Sinto que mentem –
mas podem retirar meu título Garota Personalidade,
nem ligo mais. Pelo menos estou melhor
que aquela Barbie Bicentenária que ficará
numa abafada cápsula até o ano 2076.
Talvez ao final, a pressão terá sido excessiva.
Talvez – como eu – , poderá se expressar.
Talvez venha a piscar para a lata de Coca-Cola
antes de sacudirem, explodirem, detonarem
com tudo.

Bicentennial Barbie

Because she is the most popular doll
of the twentieth century, Barbie
is buried in a time capsule in Philadelphia
on July 4, 1976. She is scrunched between an empty Kentucky
Fried Chicken bucket and a full Coca- Cola can.
She’s become a cultural icon and now she has to pay
the price. She remembers a time
when just a few girls knew her
and she didn´t have to put on such airs.
Now a full-fledged collectible, she has to make sure
every hair is always in place. I’ve just been voted
Best Personality, a superlative category
in our junior high yearbook. I’m able to pose
for a picture with the cute Best Personality boy,
the first and only football player
to ever ask me on a date.
He says he wants to go steady with me
and another girl at the same time.
I don’t think it’s fair but being the Best Personality girl,
it takes me a long time to say that.
You see, it’s turned out that although I’m too old
to still play with fashion dolls, they’ve somehow become implanted
in my subconscious. I don’t look anything like Barbie so maybe I don’t deserve
a boyfriend of my own. And to make things worse, in my mind,
my rival resembles Barbie quite a bit
When I finally write the Best Personality boy
an angry note, flustered, I slip it between the slots
of the wrong locker. The nobody boy who finds it
won’t give it back, even when I ask him politely.
Soon everyone will know I’m not always in a good mood.
Fearing a scandal, I ask advice
of the Best Dressed and Most Likely to Succeed.
They say they don’t care what the masses think –
and though I sense they’re not telling the truth-
suddenly it doesn’t matter if my class
takes my Best Personality honor away or not.
At least I know I’m better off
than that one repressed Bicentennial Barbie
who’ll be stuck in that stuffy time capsule
until the year 2076. Maybe
when she finally comes out, the pressure
will have been too much. Maybe she’ll be able, like me,
to express herself. Maybe she’ll wink at the Coca-Cola can
before they both shake, explode, make a mess.
§

Barbie como mafiosa
Para Dangerous Diane

Quando lhe repassam o saquinho de cocaína,
Barbie foge para seu beco preferido.
Ela tira sua cabeça e se preenche com o pó
Como se fosse tão inocente quanto um saleiro de curvas gostosas.
Os malandros deixam o tráfico de pequenas coisas para ela-
e enquanto ela desliza pelos aeroportos internacionais
ou os agitados cais dos portos, ninguém lá em cima
se enerva. Seja aninhada entre o receptor
e a base do telefone de um automóvel, ou guardadinha
na gaveta de uma cômoda com um pequeno gravador no
seu torso oco, Barbie ama o divertimento e o tesão da aventura.
Mas por ser uma boneca muito séria, ela também sabe dar o beijo
da morte se precisar.  Seus ousados lábios
se recusam a abrir, tornando-a a mais perfeita guardadora de segredos.
Nas conferências de imprensa, ela negará todas as afiliações.
Só estou brincando, dirá ela, ou
Vocês não conseguem provar nada.  Mal tenho cérebro.
Quando a Barbie fica assim tão na cara, por vezes
o poderoso chefão passa apertos. Sua mulher fica com ciúmes,
se perguntando porque a Barbie liga para o marido não-boneco de outra
de cabines telefônicas no meio da noite.
Os detalhes das senhas, dos sapatos de cimento e das propostas irrecusáveis,
todos precisam ser bem pensados. O chefão
vai acalmar sua esposa, argumentando que é só ela
que ele ama:  esta Barbie nem sequer é uma dama de verdade.
Não sei porque você se preocupa.
A esposa admite que se sente tola, mas ao voltar
para a cama fica de olho aberto. Os policiais
se sentem tolos também, prendendo brinquedos.
Por isso a Barbie anda por onde ela quiser tendo a audácia
de deixar seus óculos escuros em casa.   Ela freqüenta
clubes privados enfumaçados e senta à janela nas mesas
dos cafés de Little Italy.  Mas são as praias dos resorts
que ela mais gosta,  onde pode realmente espairecer
e ser ela mesma. Sua pequena caixa de isopor  segura o cantinho
da sua toalha de praia de marca. Ela observa seu namorado loiro
Malibu Ken, mexendo com seus pé-de-pato e óculos.
Ela o ama porque ele não sabe de nada –
mera peça acessória para seus crimes.

Barbie as Mafiosa
– for Dangerous Diane

When she’s slipped the bag of cocaine,
Barbie ducks into her favorite alley.
She pulls her head off and fills herself up
As though she’s as innocent as a shapely salt shaker.
The wise guys leave the trafficking of small things to her –
and as she glides through international airports
or bustling loading docks, no one at the top’s
disappointed. Whether nestled between the receiver
and base of a car phone, or tucked into a bedroom drawer
with a tiny tape recorder in her hollow torso,
Barbie loves fun and the thrill of adventure.
But being a no-nonsense doll, she can also give a kiss
of death if she has to. Her sassy lips
refuse to part, making her the perfect keeper of secrets.
At the press conferences, she’ll deny all affiliations.
I’m just playing, she’ll say, or
you can’t prove a thing. I barely even have a brain.
When Barbie is this visible, sometimes
the big boss sweats. His wife gets jealous,
wondering why Barbie calls another woman’s non-doll husband
from phone booths in the middle of the night.
The details of passwords, cement shoes and unrefusable offers
I’m just playing, she’ll say, or
you can’t prove a thing. I barely even have a brain.
When Barbie is this visible, sometimes
the big boss sweats. His wife gets jealous,
wondering why Barbie calls another woman’s non-doll husband
from phone booths in the middle of the night.
The details of passwords, cement shoes and unrefusable offers
all have to be worked out. The mob leader
will try to calm his spouse, claiming she’s the only one
he loves: this Barbie dame’s not even a real dame.
I don’t know what you’re so worried about.
The wife admits she feels silly, but when she returns
to bed, she keeps one eye open.
The cops feel silly, too, arresting toys,
so Barbie goes everywhere with the gall
of leaving her sunglasses at home. She frequents
the smoky private clubs and gets window tables
in Little Italy cafés. But it’s the resort beaches
she likes best, where she can really unwind
and be herself. Her little cooler weighs down the corner
of her tiny designer towel. She watches her blond boyfriend
Malibu Ken fiddles with his flippers and goggles.
She loves him because he knows nothing –
a mere fashion accessory to Barbie’s crimes
§

Casamento 

Barbie imagina se seria traição
sonhar com namorados, bonecos que
Mattel nunca fabricou para suas brincadeiras.
Um com dreads rastafári feitos de pelúcia
Em lugar de duros arcos de plástico,
Outro gordinho, meio calvo
Com óculos de John Lennon
E um terceiro com um nariz grande e sexy
como Gerard Depardieu.
Porém, supõe ela, seu Ken é mesmo inofensivo
Peitoral todo sarado afastado por rígidos seios
que não cedem ao toque
e ele não pode lhe obrigar à nada
quando ela não está
com vontade.
Ela se lembra das últimas palavras
da descontinuada boneca Midge,
“Hey Barbie, não complique,
É um casamento, não é?”
Desde o outro lado do corredor
Entre o monte de brinquedos pra menino
O Soldado Joe de vez em quando olha pra ela
Mas não faz exatamente seu tipo.
Ela na sua caixa, com elásticos que prendem
Seus braços.
A capa de plástico distorce sua visão
Do mundo.
Não é só aventura romântica o que ela deseja::
Há passeios de balão,
Aulas no curso noturno, trabalho de caridade.
Barbie se consola, reconhecendo que não é
Muito diferente do resto de nós, de como jogamos:
Entre gratidão e ambição,
Passividade e culpa.

Marriage

Barbie wonders if it’s cheating
when she dreams of fashion doll boyfriends
Mattel never made for her to play with.
One with Rastafarian dreadlocks –
spun with fuzz, not stiff
like the arcs of a plastic Jello mold.
Another chubby and balding
with John Lennon glasses.
And a third with a big sexy nose
like Gerard Depardieu.
Still, she supposes, Ken is harmless enough.
His pecs kept at bay by her stiff unyielding breasts.
And there is nothing he can force on her
When she’s not in the mood.
She remembers discontinued Midge’s last words:
“Hey Barbie, it’s a marriage, don’t knock it.”
From the stack of boy’s toys across the aisle,
GI Joe occasionally gives Barbie the eye,
though he’s not exactly what she has in mind.
In her box, elastic bands hold back her arms
And the plastic overlay she peers through
distorts her view of the world.
It’s not only a romantic fling she desires:
there are hot air balloon rides,
night school classes, charity work.
Barbie comforts herself
knowing she’s not much different
from the rest of us, juggling gratitude,
ambition, passivity and guilt.
§

Destino Manifesto

Nas Filipinas
as trabalhadoras das fábricas
de bonecas de moda
recebem um bônus em dinheiro
se se esterilizam. Nas esteiras,
rodam com excesso de velocidade
pedaços de corpos.
Nada a ver com o famoso episódio da tv
quando Lucy e Ethel experimentam
um dia de trabalho, botando chocolates dentro de caixas
numa linha de produção nos Estados Unidos. Elas
enchem suas bocas com uma boa parte
dos doces que vêm velozmente, dão risadas
de baba marrom quando são despedidas porque
realmente não tem importância –
Ricky e Fred têm bons empregos.
Para provar que são eles mesmos
os que devem trabalhar,
os garotos fazem uma bagunça na cozinha
da Lucy, uma panela de arroz explodindo
como um vulcão branco. As mulheres
nas Filipinas e noutros lugares ponderam
o big business, os benefícios de descontinuar
a própria linhagem. Nos seus sonhos
estas mulheres embalam úteros de Toys R Us
enquanto uma Barbie estéril, seu cabelo preso
sob um capacete de Lucite, finca a bandeira da Mattel
numa lua que pouco convence.

 

Manifest Destiny

In the Philippines
women workers in fashion doll factories
are given cash incentives
for sterilization. Body parts roll
too fast on conveyor belts.
It’s not like the famous episode
in which Lucy and Ethel
try a day of work, boxing chocolates
on an assembly line in the U.S. They stuff
most of the quick-coming candy
into their mouths, laugh brown drool
when they are fired because it really doesn’t matter –
Ricky and Fred have good jobs.
To prove they’re the ones
who belong at work, the men on t.v.
make a mess in Lucy’s kitchen,
a pot of rice exploding
like a white volcano. The women
in the Philippines and elsewhere ponder
big business, the benefits
of discontinuing its own children. In dreams
these women package Toys “R” Us Uteruses
while a sterile Barbie, her hair tucked up
inside her Lucite helmet, plants
a flag for Mattel on the cheesiest moon.
§

O corpo é meu!

“Era-se um tempo em que a Barbie nem podia dobrar
os joelhos”, eu falo para minhas sobrinhas Kerri e Katie
que sentam na minha frente no chão da sala
desta América de colarinho azul e rosa. Estão abrochando as minúsculas
calças de courino
nas suas Barbies Roqueiras
e grandes guitarras pretas
sobre seus ossudos quadris de relâmpago. Katie me entrega
sua boneca porque precisa da minha ajuda
com os pequenos botões que serpenteiam nas costas
da blusinha tomara que caia da Barbie. “Minha primeira Barbie
nem podia mover a cintura”. Eu estou falando como alguém
que já vivesse o suficiente
para ver mudanças significativas. Minhas sobrinhas
estão de costas para a TV que parece estar sempre ligada,
onde eu estiver. E atrás de suas cabecinhas
loiras inocentes, Jessica Hahn
faz uma aparência-relâmpago num vídeo da MTV.
Ela roda como uma sexy bola de pinball ,
e tenta desesperadamente sair de uma jaula côncava.
“O corpo é meu”, recentemente ouvi ela dizer
numa entrevista matinal na TV. Ela começou
justificando suas fotos nuas na Playboy.
“O corpo é meu”, ela repete
como uma boneca Chatty Cathy
com um disco arranhado enfiado nas costas.
“O corpo é meu”, ela começava a responder
a toda e qualquer pergunta do entrevistador –
onde ela cresceu, se ainda vai à igreja.
“O corpo é meu?”
Ainda assim as palavras eram as mesmas,
mas quanto mais acusações, mais mudavam
suas inflexões. Jessica olhava para além
do set onde alguém lhe parecia estar dando
pistas. Meu namorado dava risada.
“Que tal pôr um pouco de convicção nisso, Jessica?”,
ele falava para a TV. Então, tentando estimular
mais a conversa, ele me dizia, “Olha, meu bem,
ela nem parece saber se o corpo é seu
ou não!” Ele tinha razão
mas sabia enquanto o colocava
que tinha escolhido as palavras erradas.
Eu tinha bebido muito café. Encontrei-me
defendendo Jessica energicamente,
culpando sua desorientação
como resposta a nossa sociedade misógina –
o deslocamento que todas as mulheres sentem
do seu eu corporal.
E depois com todas essas teorias que eu vinha lendo!
Ele foi trabalhar mais ou menos concordando
mas dizia também que o tinha deixado exaurido.
E agora minha irmã me culpa da mesma coisa
porque assinalo para Katie que ela está errada
ao pensar que só meninos devem sujar-se
e só meninas usarem brincos.
“As pessoas devem fazer qualquer coisa que desejarem”.
Discorro sobre minha amiga que usa capacete
quando vai ao trabalho onde mexe
com eletricidade igual seu pai.
Katie brinca com seus cadarços
e pede suquinho. Minha irmã diz,
“Deixe ela em paz. Nem entrou no primário ainda”.
Kerri, a maior, se concentra, tentando
passar um grande pente para humanos
no cabelo sintético cheio de gel
da boneca. Por tanta força que exige desemaranhá-lo
de repente, sem querer, sai a cabeça da Barbie,
e uma menor, sem rosto, suporte apenas,
emerge do pescoço. Por um instante
nós todas – dois pares de irmãs, com um
intervalo de vinte anos – compartimos a epifania
sobre Mattel: lavagem cerebral, pedaço de plástico
que nos diz quem Barbie é. Mas logo
o rosto de Kerri é todo pânico, como esperando um castigo.
As lágrimas despontam no canto dos seus olhos.
Faço um resgate rápido,
enfiando a cabecinha moldada
de novo no corpo, seus traços maleáveis
se distorcendo sob meu polegar. Apesar de boneca adulta,
sua moleira ainda está aberta. Sob a pressão
do meu toque, seu rosto esmaga, como alguém
que se olha na casa dos espelhos.
Mas ao soltá-la, ela imediatamente volta,
o sorrisinho educado, o nariz perfeito
e pronta para pôr tudo em seu lugar:
a Barbie pertence à América –
metade vítima, metade pequeno soldado
cor-de-rosa.

It’s My Body

“There was a time when Barbie couldn’t even
bend her knees,” I told my nieces Kerri and Katie
who sit before me on a living room floor
in blue and pink collar America.
They are strapping their Rock-n-Roll Barbies
into tiny leatherette pants
and big black guitars
with jagged lightning hips. Katie hands me
her doll because she needs help
with the tiny buttons that snake the back
of Barbie’s off-the-shoulder blouse. “My first Barbie
couldn´t even twist her waist”. I am talking
like a person who has lived long enough
to see significant change. My nieces
have their backs to the TV which seems always on,
wherever I am. And behind their blond
innocent heads, Jessica Hahn
makes a cameo appearance on an MTV video.
She rolls like a sexy pinball,
then tries to claw herself out of a concave cage.
“It’s my body”, I recently heard her say
on a morning talk show. She started
by defending her nude poses in Playboy.
“It’s my body”, she repeated
like a Chatty Cathy doll
with a skipping record stuck in her back.
“It’s my body,” she began to answer
her interviewer’s every inquiry –
where she grew up, if she still went to church.
“It’s my body?”
The words stayed the same,
but as more accusations came, her inflections
changed. Jessica looked beyond the studio set
where somebody seemed to be cueing her
that message. My lover was laughing.
“How about a little conviction there, Jessica?”,
he said to the TV. Then, trying to coax
more conversation, he addressed me, “Look,
honey, she doesn’t even seem to know if it’s her body
or not.” He was right,
but he knew as he brought it up,
it was the wrong thing to say.
I’d had too much coffee.
I found myself energetically defending Jessica,
blaming her disorientation
as a response to our misogynous society-
the dislocation all women feel
from their physical selves.
And then came the theories I’d been reading.
He left for work kind of agreeing
but also complaining that I’d made him exhausted.
And now my sister is blaming me for the same thing
because I am pointing out to Katie that she is mistaken
to think only boys should get dirty
and only girls should wear earrings.
“People should be able to do whatever they want.”
I lecture her about my friend who wears a hard hat
when she goes to her job and works
with electricity, just like her daddy.
Katie fiddles with her shoelaces
and asks for juice. My sister says,
“Give the kid a break. She’s only in kindergarten.”
Older Kerri is concentrating, trying
to get a big comb for humans
through her doll’s Moussed synthetic hair.
Because untangling the snarls needs so much force,
suddenly, accidentally, Barbie’s head pops off,
and a smaller one, a faceless socket,
emerges from her neck. For an instant
we all –two sets of sisters, our ages
twenty years apart – share a small epiphany
about Mattel: this brainwashed piece of plastic cerebrum
is underneath who Barbie is. But soon
Kerri’s face is all panic, like she will be punished.
The tears begin in the corner of her eyes.
I make a fast rescue attempt,
spearing Barbie’s molded head
back on her body, her malleable features distorting
under my thumb. Although a grown doll,
the soft spot at the top of her skull
still hasn’t closed. Under the pressure
of my touch, her face is squashed, someone
posing in a fun house mirror.
But the instant I let go, she snaps back
into a polite smile, her perfect nose
erect and ready to make everything
right: Barbie is America’s –
half victim, half little pink soldier.

§

Miriam Adelman, nasceu em 1955 em Milwaukee, Wisconsin. Aos 19 anos encontrou seus primeiros caminhos “para o mundo”, indo para o México, onde permaneceu por 9 anos, dedicando-se, entre outras coisas, aos estudos em sociologia na Universidad Nacional Autónoma de México. Mora em Curitiba, Brasil desde 1991; é professora da UFPR desde 1992. Além de lecionar nos programas de pós-graduação em Sociologia e Estudos Literários dessa instituição, dedica-se às paixões literárias, à fotografia, ao feminismo e às atividades equestres. Seu primeiro livro de poemas encontra-se no prelo e deve ser lançado ainda em 2019.
*
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3 x Antônio LaCarne

lacarne

Antônio LaCarne é cearense, autor de Salão Chinês (Patuá, 2014), Todos os poemas são loucos (Gueto Editorial, 2017) e Exercícios de fixação (2018, AR Publisher).

*

Os rostos

as cascas são secas
os rostos das pessoas
os deuses periféricos
as propagandas de Gatorade
os sachês de ração dos gatos
são secos os rostos
os cabelos das bonecas
o ticket alimentação ao meio-dia
os colchões de molas
as it girls, os it boys
a porta do quarto trancada
você não está dentro
nem fora.

§

Bidê de plumas

acendi um cigarro & na sexta-feira da paixão
pus meu corpo em off semi-didático & específico
talvez por não concluir que o espelho é uma arma
ou mergulho que não atravessa a piscina
em que ambos não retratamos na fotografia
você pronto para rever o atlântico
ou sumir desesperado na noite & no escuro
que exterminou o amor sob o terceiro sexo
aí o meu cinzeiro se transforma numa caixa de pandora
inundada de capas da vogue & mentiras
que eu não quis dar luz enquanto encarava meu bidê de plumas
restos de sangria & uma taça inundada no drink
que eu quis tomar & me inundei
próximo aos degraus & das regras automobilísticas
pois onde eu estacionaria os vulcões?
onde os animais descobririam o beijo que educa
& não sabe explicar o porquê disso?
acendo outro cigarro nessa aventura cósmica
de mim mesmo como homem & rosto às duas
da madrugada tão querida & com cara de monstro
super perpétua até quando eu tive 100 anos
& não souber pedir.

§

EU SEMPRE

carinha de anjo
mar suspenso
deus ao contrario
o coração fechado
verão terrestre
gado no pasto
homem de pé
mulher no espelho
eu sempre quis ter uma espada
eu sempre estive em apuros
eu sempre fechei os olhos
eu sempre imitei o palhaço
pois aqui
eu menti
caí no buraco
me cortei com os espinhos
e um pássaro cuspiu no meu rosto.

*

 

 

 

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1 poema de Victor Queiroz

Autor - Foto.jpg

ARTE POÉTICA
a André Nogueira e Tomaz Amorim

Sempre almejei ao Português polido:
a língua lisa e pura e sem defeito.
Mas por poli-la – e tanto — eis o seu brilho
fez-se afilada lâmina-conceito.

E se hoje o meu país clama por armas,
armo, em vez, o verso e a voz; vou à guerra,
porém não verto sangues, verso as almas,
parto-as ao meio e enfrento a faca-cega,

o aço prosaico, que perfura as peles;
e o chumbo grosso, que desfaz miolos;
e o vil veneno, a víbora do reles,
a penetrar seu ódio em nossos olhos.

E eu digo “eu armo”, sim. Pois eu bem sei
que eles dirão — “mas ele andava armado
também!” –, dirão — “ele agrediu primeiro:
com seus silêncios, sonhos, seus calçados,

seus cabelos, seus beijos destrancados;
ele olhou torto e tem os olhos belos;
ele andou torto e tem os pés inchados…”
Por isso eu armo, eu armo, eu armo o verso.

E se um verso de amor acaso escorre?
Amar armado e amada sempre em armas:
sem defender o amor, ele hoje morre.
E se uma dor-de-mim acaso escapa?

Armar a própria dor, mas contra a Dor,
a Qual os mins em nós de dor sufoca.
E se esta arma não tiver valor?
Não tem. Dinheiro algum a compra, é força,

alento, um hálito de vida, unguento
com o qual se banhar antes da luta,
um bálsamo que cura o desalento
após a luta, um seio a quem se enluta.

E inda, cirúrgica, perfura fundo
o peito dos que bebam o veneno
e encham de ódio os olhos; pois, no mundo,
o mor valor se passa por pequeno:

armar, armar, armar, armar o verso;
fazer da língua a lâmina afilada;
pois esta língua, a Poesia, é certo,
é a língua que a víbora não fala.

São Paulo, 11/06/2019

*

Victor Queiroz (Campinas/ SP, 1991), formado em Composição pela UNESP, onde travou contato com a teoria e prática da tradução-arte, por meio do professor e amigo Omar Khouri. Desde então, dedica-se, enquanto poeta, sobretudo à prática da tradução, contribuindo com a Ponto Virgulina. Entre os seus principais interesses poéticos, encontram-se os Modernismos, dentro e fora do Brasil, e as poesias francesas clássica e pré-Simbolista; e ainda o Concretismo em toda a sua extensão: da poesia visual aos tratados teórico-críticos e (belíssimas) traduções desenvolvidas pelos Noigandres. Lança este ano seu livro de estreia, pela editora Urutau.

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3 poemas de Cecília Floresta

foto_Cecília Floresta

Cecília Floresta afrodescende, é escritora, candomblezeira & sapatão. nasceu na capital paulista numa dessas manhãs de dezembro, fazia sol e o ano era 1988. ganha a vida editando livros, pesquisa narrativas e poéticas ancestrais iorubás e seus desdobramentos na diáspora negra contemporânea, lesbianidades e literaturas insurgentes. tem editados os poemas crus (Patuá, 2016) e a zine genealogia (móri zines, 2019). já apareceu na escamandro com outros 3 poemas. os poemas abaixo integram a  zine genealogia(série de 12 poemas + ilustras).

*

dona Rosa

eu sou a minha vó
mesmo aqui escrevendo
que dona Rosa em grande parte de sua vida
não sabia ler nem escrever como os outros
embora fosse dada a outras leituras

eu sou a minha vó
que calejou mão
trabalhando na roça
cansou de passar fome e sei lá mais o quê
ao lado do marido
largou o homem
e veio pra São Paulo
com três filhos nas costas

eu sou a dona Rosa
que sabia de cor todas as folhas do quintal
e da rua também
de onde tirávamos suas mudas
no caminho de volta da escola
quando ia me buscar às vezes

fazia remédios com elas
me bendizia
me curava
amarrava fita vermelha no meu pulso
enquanto ambos os dela
eram quebrados & doíam em dias frios
quando se ocupava em lavar a própria roupa
e também a dos outros

não sei em quantas casas trabalhou
antes de se aposentar
e passar as tardes costurando
me observando por cima dos óculos
e contando histórias de causos fantásticos
que aqui não têm lugar
porque nossos olhos & ouvidos
já não funcionam
com o trabalho caótico da cidade grande

dona Rosa me ensinou a fazer cuscuz e a consumir
ovos
peixe &
frango
no café da manhã
porque sempre diária árdua depois das seis
e tempo nenhum pra almoçar

§

 

leitoras

pós-trabalho embora
só quisesse mesmo era estender as costas
a mãe me ensinou a ler com um gibi
e tanto leu que eu decorei os balões de fala
antes que o livreto desistisse da capa
que parou não sei onde foi

também não sei até que ponto seria possível
este poema pra minha mãe:
se ela não tivesse lido tanto aquele gibi
onde é que eu estaria agora?

§

 

mãe cujos filhos são peixes

odoyá
fez de ondas salgadas meu orí
deu pernas fortes pra eu nadar
e ainda me abre os caminhos
por onde ando

diz que iabá nasce já
de orelha em pé nos feitiço
tecnologia ancestral que derrubou
& vai derrubar
muita mas muita casa grande

odoyá
me ensinou a ser peixe
e a respirar fundo
até dentro d’água

contou também que iabá
é ligeira no ato:
presta não atenção
pra ver no que dá

*

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