poesia, tradução

Fernanda Vivacqua, por Anelise Freitas

ferr

Fernanda Vivacqua nasceu no Rio de Janeiro, em 1992. Desde os anos 2000, vive em Juiz de Fora (MG), onde se formou em Letras-Português e, atualmente, conclui seu mestrado em Estudos Literários. Publicou o livro Maria Célia (Edições Macondo, 2016), reeditado esse ano com cinco poemas inéditos e em versão bilíngue (português-espanhol). Sua plaquete Para os homens que não amam as mulheres (Capiranhas do Parahybuna, 2018) e María Celia serão lançados no Brasil e na Argentina.

BREVE NOTA SOBRE “MARÍA CELIA”

Os poemas da Fernanda Vivacqua sempre me causaram aquela sensação de quando lemos um poema que parece um grande soco no estômago, porque ela ambienta seus versos em lugares que, em um primeiro momento, poderiam ser relacionados à calmaria. Entretanto, os espaços da casa e do quintal vão dando lugar à uma violência da linguagem, com versos longos e cavalgamentos que tiram o fôlego e promovem leituras inquietantes. Seus poemas mexem com o corpo e colocam esse corpo em perigo, como deve ser.

Dessa inquietação que os poemas causavam em meu corpo, surgiu a necessidade de traduzi-los. É isso que me move a traduzir um poema: como ele mexe com meu corpo e a curiosidade de saber como encontraria meu corpo em outra língua. A sinestesia do poema não é o suficiente, claro, porque a tradução envolve ler a contracapa do poema, compreender alguns mecanismos que nem mesmo quem o escreveu originalmente havia se dado conta.

Desde que comecei a aprender o espanhol, nutro um carinho pela variante rio-platense e depois de minha viagem à Argentina me senti mais à vontade para usá-la. Assim, optei pela variante rio-platense, não só pelo carinho espontâneo, mas porque é nessa variante que me comunico com as pessoas que eu amo, é com ela que me aproximo afetivamente da América Latina e seus corpos.

Anelise Freitas

 *

 POEMAS

 Para Babalu

DO BANCO DE TRÁS É SILENCIOSO

estática na ponte rio-niterói
o trânsito imerso
denso e pesado o trânsito
funda e funda
a guanabara
fede e você nem sente
do banco de trás
cai um tempo
uma pequena parede amarela
e aquela casa de bonecas
onde nada muda ou envelhece
só os móveis
que vão
e vem
como os carros depois do trânsito
desaguam na rio-niterói
depois do trânsito
você grita

para Babalu

 DESDE EL PUESTO DE ATRAS ES SILENCIOSO

estática en el puente rio-niteroi
el transito inmerso
denso y pesado del trafico
honda y honda
la guanabara
apesta y vos tampoco sentís
desde el puesto de atrás
cae el tiempo
una pequeña pared amarilla
y aquella casa de muñecas
donde nada cambia o envejece
solo los mobiles
que van
y vienen
como los coches después del trafico
desaguan en rio-niteroi
después del tráfico
gritás

§

 APRENDEMOS DA PEDRA E DO FEIJÃO

do tempo e da espera e
de quando em quando
a tempestade encruzilhada
o corpo estilhaçado e a dúvida
porque o que ensina destrói
constrói sobre destroços e reconstrói
com corpos despedaçados, aparentemente
despedaçados

quantos livros de poesia você já leu?
quantos poetas você chama de preferido?
eu vi uma redoma cercada de espinho
não havia pedras e o feijão era duro
e minha mãe é da cidade você não sabe
eu nem me lembro das canções de ninar
mas
quantos cantos ancestrais você já ouviu?
quantas vezes seu corpo vibrou e você soube
a corda da cítara não pode estar muito esticada
nem solta demais
é uma matemática ancestral que nos diz
dos cantos, da casa, dos cantos da casa
do feijão e do corpo quando se cata
pelo chão memória dos que pisaram
em um dia atrasado para o serviço público
mas

quando você disse ser poeta?
foi do feijão da barriga da mãe do batuque no quintal?
e eu não entro na redoma que pode ser apenas
um jardim sensorial, sentidos
dispersos corpos estilhaçados
mas quando o vento passa carrega
eu tenho memórias que me ensinam
porque elas não são palavras
porque elas caminham
pela minha mãe e sua vida urbana
pelas pedras portuguesas em terras
brasileiras
pelo feijão que fica não é de exportação
foi dela que aprendi e ela não dá respostas
como a palavra que não ensina
mas destrói e com os destroços
respondo,
dia a dia
não saber do vento
mas ele passa buracos abertos
marca o corpo que aprende
e reaprende
quando você disse não saber das coisas?
eu não sei e por isso não tenho medo
o prédio desabado não tem porque temer
a tempestade de amanhã

APRENDIMOS DE LA PIEDRA Y DEL POROTO

del tiempo de la espera y
de cuando en cuando la tempestad encrucijada
el cuerpo astillado y la duda
porque lo que enseña destruye
construye sobre destrozos y reconstruye
con los cuerpos despedazados, aparentemente
despedazados

¿cuántos libros de poesía vos leíste?
¿cuántos poetas vos llamás preferidos?
yo vi una redoma cercada de espino
no había hiedras y el frijol era duro
mi madre es de la ciudad vos no sabés
y ni me acuerdo de las canciones de cuna
pero
¿cuántas canciones ancestrales vos oíste?
¿cuántas veces su cuerpo vibró y vos supiste?
la soga de la cítara no puede estar muy estirada
ni muy suelta es un matemática ancestral la que nos dice
de los rincones, de la casa, de los rincones de la casa
del poroto y del cuerpo cuando se recoge
por el piso memoria de los que pisaron
en un día retrasado para el servicio publico
pero

¿cuándo vos dijiste ser poeta?
¿fue del frijol del vientre de tu madre del tambor en el patio?
y yo no entro en la redoma que pude ser solo
un patio sensorial, sentidos
dispersos cuerpos astillados
pero cuando el viento pasa lleva
yo tengo memorias que me enseñan
porque ellas no son palabras
porque ellas caminan
por mi madre y su vida urbana
por las piedras portuguesas en tierras
brasileñas
por el poroto que se queda no es para exportación

 fue de ella que aprendí y todavía no me contesta
como la palabra que no enseña
pero destruye y con los destrozos
contesto
día tras día
no saber del viento
pero él pasa agujeros abiertos
señala el cuerpo que aprende
y reaprende
¿cuándo vos dijiste no saber de las cosas?
no sé y por ello no tengo miedo
el edificio derrumbado no hay que temer
la tempestad de mañana

§

 SEUS DENTES PELOS MEUS DEDOS

fruto maduro esquartejado aos cubos
começo pela unha casca incerta
escalpelar cabeças de dedos
pelos seus dentes corre
um sorriso afiado a lâmina
afoita boca saliva a língua
como cortar tomates
o caldo quente entorna
limpa os nervos dedos em riste
o tempo entre a lâmina e a carne
os dedos separados da mão
pelos seus dentes escorre
o sangue da gengiva incrustrada
o corte exato de minhas extremidades
passeiam entre a tábua e a fome
a tudo dá sabor hoje
eu te dei meus dedos cortados
em pedaços miúdos cala
a boca aberta
é como cortar tomates
o fruto ácido

TUS DIENTES POR MIS DEDOS

fruto maduro descuartizado a los cubos
empiezo por la uña corteza incierta
escarapelar cabezas de dedos
por sus dientes corre
una sonrisa filosa la lámina
deseosa boca saliva la lengua
como cortar tomates
el caldo caliente se derrama
limpia los nervios dedos en ristre
el tiempo entre la lámina y la carne
los dedos separados de la mano
por tus dientes escurre
la sangre de la encía incrustada
el corte exacto de mis extremidades
pasean entre la tajo y el hambre
a todo da sabor hoy
yo te di mis dedos cortados
en pedazos cortos cierra
la boca abierta
es como cortar tomates
el fruto ácido

*

Anelise Freitas é poeta. Publicou Vaca contemplativa em terreno baldio (2011), O tal setembro (2013) e Pode ser que eu morra na volta (2015), e Sozé (2018). Atualmente se dedica à produção editorial, docência e a revisão, tradução e preparação de textos. Já apareceu com poemas aqui na escamandro.

***

 

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poesia

uma poema de nina rizzi

fredy alexandrakis

arte: fredy alexandrakis

‘nossa pele água toda
carne ossos pele
como coisa única

tenho um mapa nas pernas
poros que se coçam nas axilas e virilhas

e ainda mais um mapa linhas transparentes
verdes que me sobem da barriga até os braços

disseram que eu ame o meu corpo

era bom quando o conhecia
o sangue espesso e quente que me escorria

cada dorzinha absurda
em seu devido lugar

as festinhas que me fazia em êxtase
cantando um tanto louca o bliss o amor

agora cá dentro um bicho que me come
dizem mulher
digo Coralina

nome destino
sereia petrificada
água e coral

Coralina é toda mole
de tão mole chega a ser dura
como negação de seu ser toda água

toda água
cheia d’água Coralina

abraço-a
mas então é toda bicho
selvagem e rígida dói-me toda

até que sou também
esse imenso recife de corais
espelho d´água toda síndrome

cabelos e pelos caem
caem    caem    caem

penso numa deusa do milho
num verso que diga
“bonecas de milho afogadas
…………………………………. adeus”

enquanto uma agulha me vara a barriga
de fora adentro mordo as mãos da mulher
que me recita documentos e valores

e o essa é a vontade de deus
um deus de leis e vontades
que em mim se vinga

por uma eva e sua maçã
que jamais existiram

Coralina cresce
a água toda

eu espero
eu espero

a barreira de coral
se alarga
ela é uma sereia

feia?
bonita?

implacável com seu coração
de florezinhas petrificadas

meu corpo um mar desconhecido
furioso de nostalgias e quebrantos

es
go ta
men to
……………………………………. água-forte

o que é esta mulher?
o que é uma mulher?

me dissolvo lentamente
11 semanas
17 semanas

um homem diz
não mais que 20
já se vão 28

sou um experimento genético

um corpo que pertence ao estado
ao deus
à ciência
………………………………………… ao além

eu sei de cor
o esperar
o esperar

essa vontade que não é minha
e todo homem com seu eu te amo
e a cartinha contravenção

o eu te amo habeas-corpus
vindo assim da boca-
-documento sem tamanho

{eu te prendo
}eu me rendo

olha
Coralina
eu te amo

eu sei o bicho que me come dentro
eu sei eu sou uma mulher

[nina rizzi]

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Natasha Felix

2.

Natasha Felix nasceu em 1996 em Santos-SP. Publicou os zines anemonímia (2016) e j. não é um nome (selo manga, 2017) e mariana compra um dildo (2018). Tem textos publicados revistas físicas e digitais. Os poemas abaixo integram Use o alicate agora, seu livro de estreia.

*

MATERNIDADE

Rocamadour dorme como se não existisse.
pensar em Rocamadour é pensar em escamas de peixe.
quando a Maga pensa escamas de peixe pensa escama         de peixe
se ela pensa Rocamadour, por exemplo, enquanto amola
a faca,
não pensa
Rocamadour é meu filho, isso é uma faca, aquilo é um peixe.
se Maga pensa Rocamadour pensa meu peixe
é preciso tirar as escamas do peixe.

§

 

O ATIRADOR DE FACAS

em um primeiro momento
estranho o alvo ser qualquer coisa que não a cabeça.
depois é fácil conduzir a postura.

o atirador de facas sorri.
existe algo entre os seus sapatos e meus pés
que desconheço                   um nome quem sabe.

confio acima de tudo em seus erros.
meus dentes todos feito cães de apartamento
sossegam de repente.

alguém da plateia
grita eu me assusto
não me movo, espero.

o atirador de facas gosta de mim
porque sou quieta.

§

 

OUTRO TIPO DE OFERTA

a febre redobra suas forças.
me acena menos tímida do que fogo
de repente é isso.
ter pernas esse detalhe
tenho necessidades fundamentais.
por exemplo morder as
palmas das mãos
debaixo erguer o império.
não escrevo, não respiro, não
limpo as costas.
recolho os dentes te ofereço
meu sorriso mais indecente.

*

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poesia

Yasmin Nigri, 1 + 1

yasmin

Yasmin Nigri (1990), nasceu no Rio de Janeiro, é poeta, artista visual e mestre em Filosofia (UFF). Integra o coletivo Disk Musa. Participou da antologia 50 Poemas de Revolta (Cia da Letras, 2017) e é colaboradora da Revista Caliban. Seu livro de estreia, Bigornas, saiu em julho pela Editora 34. Mantém o canal Alokadostutoriais, onde, além de tutoriais divertidos, encontramos os textos aqui apresentados [aqui e aqui]; já apareceu aqui na escamandro com outros poemas.

*

Qual aviso

Alguns textos nós achamos difíceis de falar. Por isso nos tocamos tanto. Antes, em todo abraço, me sentia semelhante à árvore. Nos seus não penso em nada. Fora a infância e seus braços – limiares – é que penso infinitamente. Como hoje pensei no prazer dos inícios e reinícios. Você me disse, no carro onde nos olhamos verdadeiramente pela primeira vez: você não me assusta. Perdi o ônibus. Na rodoviária, uma da manhã, enrodilhado em mim, você esteve feliz, pois constatou que não abro mão do desejo. Apesar de amarga. Apesar de ferida. Reclamei do gosto que tem os seus excessos. Aprendi que para você os excessos são a afirmação da vida. Eu não gosto quando você assopra meus seios. Eu gosto quando você me acende uma ideia. Você não gosta da maestria. Você pensa o prazer enquanto experiência festiva. Eu penso em você quando penso em reinícios. Eu finjo sono para escapar da sua festa. Você diz que o amor é o local onde a felicidade se realiza. Que prazer e dor são indissociáveis. Eu prefiro dormir. Enquanto você acolhe fossas, ressacas, paixões… eu tento não pensar exageradamente na morte. Quando penso em você penso em inícios. Porque entre nós, mesmo que de natureza inexprimível, se abriu um lugar vazio onde sentimentos e palavras podem acontecer. Os encontros casuais são a matéria da vida. O amor é fácil como sentir culpa. É difícil como sentir culpa. Em qualquer parte do globo.

§

paranoica

que palavras foram essas
que trocamos
na nossa caminhada
e não se ligaram a nós
e não as ligamos a nada
alma frouxa cobra alada
cheiro seu silêncio
vou pra cama antes do tempo
é muito penoso estar acompanhada
de mim de coisa alguma assim
nisso vejo mal yasmin yasmin
e acordo à noite
em miséria metafísica
quando deus me tira a poesia
olho a dor, sinto a dor mesma
e fico farta da beleza
e fico péssima poeta
e me contenho de um jeito horrível
vigio o celular
posto stories
vigio os meus vigias
paranoica e no cio
embaixo da tela o nome dele
bajulo meu clitoris
o sono me vence e desmaio
no edredon fofinho
durmo sem medo
faca dentro da fronha
acordo forçada por uma lembrança
penso penso penso enquanto basta
mato as ideias até o café
me arrasto até o almoço
me escavo até a jantar
por falta dele ou do acerto de contas
penso
que resina
penso
que resina se apoderou daquela cabeça
penso
dedos mudos
penso
mente criminosa
concluo
agora mesmo ele se esconde
num meio-sorriso atávico
enquanto me espera

*

 

 

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poesia, tradução

Rubén Vela, por Nina Rizzi

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Rubén Vela

Rubén Vela nasceu em Santa Fé, em 1928. Começou a escrever seus poemas em 1949 e participou do movimento literário que se formou em torno da revista Poesía Buenos Aires, dirigida por Raúl Gustavo Aguirre.  Em 1973 se radicou em Brasília, onde recebeu o Prêmio Internacional do Pen Club do Brasil por seu livro Poemas (Editora Vozes, 1972); em 1980 o Pen Club argentino o premiou com a “Pluma de Plata” por seu livro El espejo (Fundación Argentina para la poesía, 1979); em 1982 recebeu o Primeiro Prêmio Internacional de Poesia de Palermo por seu livro Maneras de luchar (antologia personal, Fundación Argentina para la poesía, 1981). Nos anos 1987-89 foi eleito Presidente da Sociedade Argentina de Escritores e integrou o Corpo Diplomático Argentino. Faleceu em 29 de abril de 2018, em Buenos Aires.

Quanto a mim não foram prêmios literários meu lume, mas o puro gosto e deleite, quase sem-mais-nem-porquê. Conheci a poesia de Rubén Vela, como a de muitos outros poetas argentinos, durante a leitura da obra de Alejandra Pizarnik, que lhe dedica um poema de seu primeiro livro, e também o livro Las Aventuras Perdidas.

Inicialmente alçada à sua metapoesia, suas “Artes Poéticas” e a sedução – mais que imposição -, do silêncio poético como lugar de enigma – o que o poeta não diz, o que não sabe, diz e sabe o poema, esse Sombrero Loco. Contudo, foram suas “Américas” que me tiraram da sala de estar. Como não me encontrar ali, eu, tão genuinamente brasileira e doida pra rebentar fronteiras e com essa paixão por uma utopia (salve URSAL!), que nos pudesse fazer unos e, no entanto, como brasileira, coletivamente apartada  de uma ideia mais pungente de latinoamérica (salvo exceções, é claro), tão presente em nossos vizinhos hispânicos. E é pelo sonho, pela utopia e pelo coletivo que escolhi trazer hoje estes poemas americanos, presentes em sua antologia Poemas como piedras (Fundación Victoria Ocampo, 2000), com exceção do último – “Esto es América” –, publicado em Poemas Americanos (Editorial Losada, 1963); outros poemas com a mesma temática, e outras, podem ser encontrados na página Poetas Siglo XXI – Antología Mundial, de Fernando Sabido Sanchéz.

Não posso, entretanto, deixar de fora desta pequena seleção seus poemas dedicados postumamente a Alejandra Pizarnik; mais que pedras de toque, amor em versos pelas poemas da minha piknik poeta, porque o diálogo, tal como o silêncio, é interminável.

Embora faça exercícios criativos com regionalismos aqui e ali, como na tradução de Pink Dog de Elizabeth Bishop aqui na escamandro, nem sempre o textos que nos permitem grandes liberdades e modificações de termos culturais, por uma ou oura razão, como o desejo do autor, da editora ou da própria tradução [penso nuns rasgos daquela historiadora pretensiosa sim, mas um inferno de boas intenções que quer levar ao não-hablante não só o poema, mas todos os traços da cultura de partida como numa aula em que subia em cima da carteira dos alunos para recitar cheia de ódio aos que dormiam diante da barbárie discursos de Mussolini], porém, ao traduzir estes poemas para esta publicação, depois de ter pensado tristemente que o Brasil não compartilha muito exatamente uma unidade latinoamericana, não contive o desejo de traduzir alguns termos muy caros para a latinoamérica para algo brasiamericano, latinobrasilero, forjando assim (desejando assim) uma unidade latinoamericana a partir de termos mais significativos no Brasil, ainda que, sem querer, pareçamos mais uma vez, os EUA da América Latina. Mas não nos percamos nas aparências, simulacros que se esfumaçam; sejamos muito exatamente latinoamericanos, ursalinos (ou seja lá como se conjugue um estado de desejo e utopia).

Por essa razão incluí um poema que foge ligeiramente à temática, “Macchu Picchu”, traduzido como “Serra da Capivara”, onde a pedra é furada e o “castelo” um “boqueirão” de silêncios (ó música celeste!). Já “Viracocha” – o grande deus criador pré-Inca, se torna aqui “Ñanderu” – o grande deus criador tupi. Outras in-transposições mais simples ficaram por conta de “pampa” como “planície”; “milho” como “mandioca” (e aquele desejo-dúvida gritando: “macaxeira”! “aipim”!), entre outras.

Escolhi verter cholo para caboco. “Cholo”, refere-se a miscigenação americana branca e indígena em que geralmente prevalecem os traços étnicos indígenas. Já o “caboco”, segundo Câmara Cascudo, deriva do tupi caa-boc, “o que vem da floresta”, ou de kari’boca, “filho do homem branco”. Eis nosso Vallejo via Vela: mais que abrasileirado, latinoamericano, índio, branco, negro, poeta!

Uma versão mais caudalosa foi de “feitiçaria” para “macumba”, no poema definición/ definição. Sabemos que “macumba” é um instrumento de percussão de origem africana e que aqui na terrinha, num processo de ampliação de sentido, o termo e seu derivado “macumbeiro” – o “tocador de macumba” -, passou a se referir também às religiões de origem africana, muitas vezes num contexto pejorativo e, por isso, seu uso é evitado. Exitei junto e pensei nas pessoas que ao serem insultadas com termos como “gorda”, “viado”, “sapatão”, entre outros, os desconstroem e se proclamam “gorda sim”, “viado sim”, “sapatão sim”. Ademais, nada nesse derradeiro verso me pareceu mais musical que macumba, macumba! Música sim e, porquê não, aquela mandingazinha que todo mundo (ou todes brasileires) faz quando vira o ano pulando sete ondas, guardando sementinhas de romã ou uvas na carteira e etc, etc., e sigo no ritmo do poema: “macumbeira sim!”.

Já em Al pintor Gambartes/ Ao pintor Gambartes, optei por manter hechicería/ feitiçaria, já que se trata de uma série temática que o pintor realizou em seus últimos 20 anos. Aliás, não deixem de visitar o sítio maravilloso de Leónidas Gambartes!

No mais, a regra na tradução, como sempre, é ainda outra paixão: a escuta; ouvir o poema, ouvir sua poesia um sem-fim de vezes, então re-criá-lo como ele quer, como o ouço e como quero dizê-lo, intimamente, ao mundo.

nina rizzi

 ***

AMÉRICA

I

Tontos, estúpidos, ganhem sua ira, torçam seus braços!
Então, então, homens de boa sede! ela os quer
assim, ela é a espera.

II

Pequena de tanta morte, uma árvore de pão nascia de teus
lábios!

AMÉRICA

I
¡Tontos, estúpidos, ganad su ira, torced sus brazos!
¡Entonces, entonces, hombres de buena sed! ella os quiere
así, ella es la esperada.

II
¡Pequeña de tanta muerte, un árbol de pan nacía de tus
labios!

§
DEFINIÇÃO

América sem arco do triunfo
América sem o Davi de Michelangelo.
América sem a Vênus de Ampurias.
Nova e intacta américa
que ignorava a loucura de Paolo Uccello.

Porque quando digo américa,
digo a américa que cantou Pablo Neruda,
que cantou o Caboco Vallejo,
que cantou Huidobro como um novo maldito.

Que cantaram os homens
do tabaco e da macumba.

 

DEFINICIÓN

América sin el arco del triunfo.
América sin el David de Miguel Ángel.
América sin la Venus de Ampurias.
Nueva e intacta américa
que ignoraba la locura de Paolo Ucello.

Porque cuando digo américa,
digo la américa que cantó Pablo Neruda,
que cantó el Cholo Vallejo,
que cantó Huidobro como un nuevo maldito.

Que cantaron los hombres
del tabaco y de la hechicería.

§

AMÉRICA

A velha voz
cantando
em seus ídolos
de pedra.
“Esses senhores
eram iguais
em voz
aos deuses”.

 

AMÉRICA

La vieja voz
cantando
en sus ídolos
de piedra.
“Esos señores
eran iguales
en voz
a los dioses”.

§

AMÉRICA

Serei uma pedra.
serei o rosto dessa pedra.
serei a memória desse pedra.
Serei a inicial de um deus.
Serei o relâmpago de um deus.
Serei o sorriso de uma pampa aberta.
Serei a folha de uma mandioca, serei sua flor e seu fruto.
Serei o cansaço de um homem americano.
Serei sua sede e sua alegria.
Serei um dia eterno e memorável.

Serei também América.

 

AMÉRICA

Seré una piedra.
Seré el rostro de esa piedra.
Seré la memoria de esa piedra.
Seré la esperanza de esa piedra.
Seré la inicial de un dios.
Seré el relámpago de un dios.
Seré la sonrisa de una pampa abierta.
Seré la hoja de un maíz, seré su flor y su fruto.
Seré el cansancio de un hombre americano.
Seré su sed y su alegría.
Seré un día eterno y memorable.

Seré también América.

§

DA MINHA RAÇA

Com a pedra fixei o nome da minha raça.

Salvei-o da segunda morte, do esquecimento.

Com a pedra fiz o falo funerário, sua arrogância
e seu orgulho.

Esta é a pedra viva que fecunda os campos e
as mulheres.

Esta é a pedra fêmea, esta é pedra macho,
onde esfregam seu ventre os recém-casados.

É a pedra de chuvas.

A alma dos meus mortos.

 

DE MI RAZA

Con la piedra fijé el nombre de mi raza.

Lo salvé de la segunda muerte, del olvido.

Con la piedra hice el falo funerario, su arrogancia
y su orgullo.

Ésta es la piedra viva que fecunda los campos y
las mujeres.

Ésta es la piedra hembra, ésta es la piedra macho,
donde frotan su vientre los reciéncasados.

Es la piedra de lluvias.

El alma de mis muertos.

§

PARA CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Diante de mim
Atrás de mim
Debaixo de mim
Em cima de mim
Em torno de mim

América

Seu longo nome
sua voz adentro.

 

A CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Delante de mí
Detrás de mí
Debajo de mí
Encima de mí
Alrededor de mí

América

Su largo nombre
Su voz adentro.

§

 

AO PINTOR GAMBARTES

Não falar de américa
não falar de nada
não mencionar a morte que te guarda
como um anjo sinistro
não dizer coisas
ou dizer tudo de uma vez
te descobrir te penetrar te desnudar
o sol te cai en cima
te arde em tua cova como uma lepra
te cai a sede a fome
se esqueceram as oferendas
o pagamento à terra o tabaco a coca
te cai a dor
de tant espaço ferido inutilmente
pelas gigantes aves de rapina
que chegam do norte
do centro do gelo
da região da morte
para cavar com suas garras
teu coração de américagambartes
que ainda bate.

E ainda segue vendo o mundo através de tuas mãos
grande menino cego deslumbrado pelo arco de todas as
cores

segue vendo criaturas que nascem como pólipos ou
aderências
sobre a terraíndiaferida
aferradas suspensas presas
como conglomerados de seres estranhos que olhamos com
desconfiança
de um planeta desconhecido antigoamérica
de uma terra de cobre onde todos lhe pertencemos
e onde tudonada é deles
a pedra habitada pelo relâmpago
a pedra da cor de calor
de ferro fundido de raiva de fúria
vindo tudo por tuas mãos gritndo sobre muros de
pedra
gritando o que vem do umbigo do mundo
mãopedra cobra mãopedra serpente
mãopedra do pranto
mãopedra cansaço
mãopedrafome do homem americano
mãopedra gambartes.

E nasce em mim esta alegria entre tanta ausência
ter te conhecido
ter conversado contigo
ter te olhado com teus olhos
o que você quis que meus olhos vissem
tua sabedoria tua humildade
mãepai gambartes
que construía com tuas mãos tão pequenas
os radiantes monstros do passado até o porvir
que inventava a música partida desta terra
com teu coração de poderoso mago da aurora
tuas mãos que inventavam o verdadeiro nome da
América
américagambartes
que sonhavam américa
que choravam américa
que gozavam américa.

por que é preciso dizer
voltar a repetir
quem ainda não entendeu nada disso tudo
que destroce seu corpo sobre o asfalto esburacado
desta cidade cidade disforme e tão ruim
que se suicide sem assombro
do último andar de seus anos vazios e sem esperanças
que se corte seu sexo para não perpetuar sobre o mundo
sua sombra miserável
e se depois disso tudo ainda sobrevive
que olhe pela última vez um quadro de gambartes
uma feitiçaria de gambartes
a luz cega pelo resplendor do relâmpagogambartes
e ressuscitando finalmente sobre a aurora de um distinto
novodia
se refugiar para sempre em seu ventreglória-paimãe-
gambartes.

A grande cadela por quê morreu tão cedo embora
siga tão vivo para sempre
américagambartes!


AL PINTOR GAMBARTES

No hablar de américa
no hablar de nada
no mencionar la muerte que te guarda
como un ángel siniestro
no decir cosas
o decir todo de golpe
descubrirte penetrarte desnudarte
te cae el sol encima
te arde en tu fosa como una lepra
te cae la sed el hambre
se han olvidado las ofrendas
el pago a la tierra el tabaco la coca
te cae el dolor
de tanto espacio herido inútilmente
por los pájaros gigantes de rapiña
que llegan desde el norte
desde el centro del hielo
de la región de la muerte
para escarbar con sus garras
tu corazón de américagambartes
que late todavía.

Y aún sigues viendo el mundo a través de tus manos
gran niño ciego deslumbrado por el arco de todos los
colores
sigues viendo criaturas que nacen como pólipos o
adherencias
sobre la tierraindiaherida
aferradas encimadas atrapadas
como racimos de seres extraños que miramos con
desconfianza
de un planeta desconocido antigu
de una tierra de cobre donde todos les pertenecemos
y en donde todonada es de ellos
la piedra habitada por el rayo
la piedra de color de calor
de arrabio de rabia de furia
viendo todo por tus manos gritando sobre muros de
piedra
gritando lo que viene desde el ombligo del mundo
manopiedra culebra manopiedra serpiente
manopiedra del llanto
manopiedra cansancio
manopiedrahambre del hombre americano
manopiedra gambartes.

Y me nace esta alegría entre tanta ausencia
haberte conocido
haberte hablado
haberte visto con tus ojos
lo que tú quisiste que vieran mis ojos
tu sabiduría tu humildad
madrepadre gambartes
que construías con tus manos tan pequeñas
los radiantes monstruos del pasado hacia el porvenir
que inventabas la música de las raíces profundas
en la historia partida de esta tierra
con tu corazón de poderoso mago de la aurora
tus manos que inventaban el verdadero nombre de
América
américagambartes
que soñaban américa
que lloraban américa
que gozaban américa.

por que hay que decirlo
volver a repetirlo
quien no ha entendido nada aún de todo esto
que destroce su cuerpo sobre el gastado asfalto
de esta ciudad deforme y malqueriente
que se suicide sin asombros
desde el último piso de sus años vacíos y sin esperanzas
que se corte su sexo para no perpetuar sobre el mundo
su sombra miserable
y si aún después de todo esto sobrevive
que mire por última vez un cuadro de gambartes
una hechicería de gambartes
la luz cegada por el resplandor del relámpagogambartes
y resucitando al fin sobre la aurora de un distinto
nuevodía
cobijarse para siempre en su vientregloria-padremadre
gambartes.

¡La gran perra por qué te has muerto de temprano aunque
sigas tan vivo para siempre
américagambartes!

§

 

SERRA DA CAPIVARA

É sua casa de pedra furada,
seu boqueirão de silêncios,
ali onde o tempo tece
a sede dos equinócios.

Olha bem pra ela!
uma raíz, um sonho.

 

MACCHU PICCHU

Es su casa de piedra,
su mansión de silencios,
allí donde el tiempo teje
la sed de los equinoccios.

¡Miradla bien!
una raíz, un sueño.

§

ÑAMANDU

Esse rosto quebrado,
essa pedra cansada,
esse galho caído
da árvore mais antiga
da natureza,
esses olhos que um dia
viram a primeira
gestação do mundo,
essa boca que disse
– com violento tremor de apaixonado
o nome mais íntimo
de américa!

 

VIRACOCHA

Ese rostro quebrado,
esa piedra cansada,
esa rama caída
del árbol más antiguo
de la naturaleza,
esos ojos que un día
vieron la primera
gestación del mundo,
esa boca que dijo
-con violento temblor
de enamorado-
¡el nombre más íntimo
                                           de américa!

§

AMÉRICA
PARA NINA

I
Viveremos pelados sob o sol, sempre jovens
e não haverá outra memória além da pedra

II
Só a pedra conhece o por vir.

AMÉRICA
A NINA

I
Viviremos desnudos bajo el sol, seremos siempre jóvenes
y no habrá otra memoria que la piedra.

II
Sólo la piedra conoce el porvenir.

§

AMÉRICA

“Isto é América”, diziam,
me mostrando as altas cordilheiras,
o suicídio do sol sobre os trópicos,
os grandes rios furiosos.
Só vi pés descalços,
criaturas americanas
sobre a fome e o frio
como frutos nus.
“Isto é América”. Sobre as terras
índias do centro e do sul
vi desolação. E à margem,
as grandes cidades opulentas, somente
à margem…

 

AMÉRICA

“Esto es América”, me decían,
mostrándome las altas cordilleras,
el suicidio del sol sobre los trópicos,
los grandes ríos furiosos.
Sólo vi pies descalzos,
criaturas americanas
sobre el hambre y el frío
como frutos desnudos.
“Esto es América”. Sobre las tierras
indias del centro y del sur
vi desolación. Y, al borde,
las grandes ciudades opulentas, sólo
al borde…

 

caruso

Aquarela de Santiago Caruso no livro em homenagem a Alejandra Pizarnik “El eco de mis muertes”

 

Teu esqueleto de espumas.
Tua infância até o fim dos dias.

1970

Tu esqueleto de espumas.
Tu infancia hasta el fin de los días.

1970

§

A Inocente 

Nua e vitoriosa, dá de comer
aos animais selvagens.
Eles lambem suas coxas, usam
o sexo docemente, se alimentam
dessas águas mais profundas.

Ao amanhecer, ela fecha suas
pernas. Os animais gemem
a princípio, rugem depois,
a despedaçam com suas garras.

A bela indiferente diz: até
amanhã! e dorme.

Os animais protegem seus
despojos.

La inocente

Desnuda y victoriosa, da de comer
a los animales salvajes.
Ellos lamen sus muslos, le gastan
el sexo dulcemente, se alimentan
de esas aguas más profundas.

Al amanecer, ella cierra sus
piernas. Los animales gimen
al principio, rugen luego,
la despedazan con sus garras.

La bella indiferente dice: ¡hasta
mañana! y duerme.

Los animales protegen sus
despojos.

§


ALEJANDRA PIZARNIK

1
Lembra, Alejandra, quando
o Adágio de Albinoni envolvia
teu corpo solitário, e arcanjos
surpreendidos
voavam entre vitrais coloridos
lançando buquês de luz?

2
Tão sozinha, tão frágil, tão
dolorosamente abandonada
entre jogos infantis
que repetem e repetem
uma mesma canção.
A que vai morrer tem
rachaduras nos lábios e flores
murchas arrancadas de sua pele.
A que vai morrer inventa
um sorriso que pendura
de seu rosto como dizendo
adeus.

3
faz frio e tuas mãos desenham
uma porta que se abre até
um jardim vazio. Eu irei,
dizia, sem saber, sem querer.
Abraçada a meu nome, eu
irei sem saber.

4
Rolam os dados sobre um tapete
verde. Rolam as palavras sobre
a página em branco. Rolam,
rolam até um destino incerto.
Eis aqui a escolha: escrever ou morrer.
Nada tão fácil, nada tão difícil.
E o espelho se rompe e a luz
se desvanece. Alejandra, Alejandra,
pra onde vai?

E deste silêncio
outra música nasce.

 

ALEJANDRA PIZARNIK

1

¿Te acordás, Alejandra, cuando
el Adagio de Albinoni envolvía
tu cuerpo solitario, y arcángeles
sorprendidos
volaban entre vidrios de colores
arrojando ramos de luz?

2

Tan sola, tan frágil, tan
dolorosamente abandonada
entre juegos de infancia
que repiten y repiten
una misma canción.
La que va a morir tiene
grietas en los labios y flores
desteñidas arrancadas de su piel.
La que va a morir inventa
una sonrisa que cuelga
de su rostro como diciendo
adiós.

3

Hace frío y tus manos dibujan
una puerta que se abre hacia
un jardín vacío. Yo me iré,
decías, sin saber, sin querer.
Abrazada a mi nombre, yo
me iré sin saber.

4
Ruedan los dados sobre un tapete
verde. Ruedan las palabras sobre
la página en blanco. Ruedan,
ruedan hacia un destino incierto.
He aquí la elección: escribir o morir.
Nada tan fácil, nada tan difícil.
Y el espejo se rompe y la luz
se desvanece. ¿Alejandra, Alejandra,
adonde vas?

Y desde ese silencio
otra música nace.

***

 

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poesia

Pedro Tostes: 2 poemas e 1 movimento de 4 haicais

sem título (4 de 4)

Pedro Tostes é poeta reincidente e insistente. Graduado Nos Rolês com PhD em Pilantropia Cultural. Seus crimes foram mais conhecidos como “o mínimo” (2003), “Descaminhar” (2008), “Jardim Minado” (2014) e esta mais recente contravenção. Foi detido, averiguado e apreendido pelas autoridades por porte e comercialização de livros em prestigiosa Fresta Literária. Com a organização delituosa “Poesia Maloqueirista”, entre outros crimes, editou a infame revista “Não Funciona”, que realizou 20 golpes bem sucedidos com mais de 20 mil incidências literárias na primeira década do século. Apesar da aparência dócil e gentil, o indivíduo citado apresenta alta periculosidade. Já foi visto aqui na escamandro, mas ninguém sabe seu paradeiro. Sua cabeça está a prêmio. Caso o encontre, favor informar às autoridades.

*

A ARTE DA GUERRA SEGUNDO OVÍDIO

Amar é briga de foice –
açoite que o peito clama
enquanto a bomba ainda pulsa;

trincheira cavada no corpo
por onde percorrem os cheiros
de cuspe, de sangue, de gozo;

napalm inflamando sentidos,
o toque suave na pele
que explode o fogo do ser;

espada que fere sem fio
e encrava no meio de si
todo aço que vem no osso;

exército de terracota
enfrentando a força da chuva
pra semear as flores;

é conquistar o território
apenas pra se entregar ao
inimigo – bandeira branca,
eu quero mais é te querer

§

 

CANÇÃO DA GUERRA

Sei que de certo está
na fúria dos dentes
a arte de amar

tão bela quanto
assaltantes de banco
recitando Rimbaud.

As janelas que
nos olham não
vertem lágrimas

enquanto o néctar
dos inocentes
derrama nas noites

Das coisas que
não estão em
nossas telas,

sendo elas o abismo
encravado em
teus olhos

ou o riso das flores
na lapela do
findo transeunte.

Pois entre estrelas
que cantam pra
musa distante

eu, planeta, vagueio
orbito a pele elástica
da ampulheta.

E é tanta treta,
punheta intelecta
furtando o senso

sem sangue nem medo
nem peso nem nada
– encarando essa parada

dura e aguda como
a força da letra &
a briga de foice

testemunho na vista:
é depois do chorume
que soergue a vida.

§

 

VARANDA

1 – TREPADEIRA

Num sol de 40
escala aquilo que abala
feito o tempo tenta

2 – COLEÓPTERO

Lento pousa o tanque
no vaso seco no raso
– forte, belo e estanque.

3 – MANDACARU

A torre do cacto
com frio não perde seu fio:
permanece impacto.

4 – ESPADA DE SÃO JORGE

Vem rasgando a terra
na chuva o broto que luta,
armeiro de guerra

*

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poesia

1ns inéditos de Luís Gomes

luisgomes

Luís Gomes é poeta alagoano. Nasceu em maceió, no ano 2000, escreve desde os 15. Já apareceu na escamandro com outros poemas; escreve no: azuldesolado.wordpress.com

*

p/ Ismar Tirelli Neto

i

um escasso sorriso.
amargo fumo
hoje um pouco mais perdi
o mundo.
não tenho fogo
atropelei as pedras, perdi
as horas.
diminui-se o hábito do amanhecer
(houvera alguém que me visitasse,
curvaria a cabeça e engoliria palavra de consolo)
deus me perdoe
mas é impossível neste momento
amar o próximo

ii

eternidade nenhuma. foram-se
as obviedades, as conclusões empíricas
os versículos. antigas bíblias, instantes
de santos.
impossível pedir fogo nas ruas.
estou escuro.
estou no quarto entre diálogos e tempos.
estou silencioso e sequer tenho vontade
de chorar

§

p/ roy david frankel

i

do quarto

um faquir guarda silêncio
como posso me referir?

do quarto
um faquir guarda silêncio
e o estado reelegerá um calheiros novamente

com a ordem do dia entre os dentes
muros altos,
tradições nos domingos culturais
como posso me referir
a maceió?
a alagoas?

para morte, e
ainda que exite dizer seus nomes:
pátria
bairro, estado, país
digo:
todos morrem
sem saber

jorge de lima
marcos francisco

os mortos que picharam palavras maoistas no muro
à beira pista

seja em bairros, pátrias, estado, país

ii

promessa que nos legou progresso e caminhos
inalcançáveis,
pés rotos de poeira
mortes por fome,
mãos caliçadas entre as canas-de-açúcar
maceió que tapa o alagadiço

as calçadas, as esquinas,
a morte
engole-nos
fosse meu último dia no mundo eu picharia
minha mãe é maior que o maoismo

até quanto tempo mais se juntará a mais e mais outros corpos,
estes corpos?
e até quanto
tempo mais se fixará à nossa memória estes já
corpos?
do quarto um faquir guarda silêncio

nomes velhos nas praças
desfiles de nomes, rostos comuns
nas praças

do quarto eu moço triste silencio

iii

formulam-se frases, cumprimentos.
decoram-se nomes, poemas, santos
ainda não canonizados. muito distante,
na volta, rastejando-se
solitário
farta-se
de guerras e gerações, notas
merencórias de infância
farta-se sobretudo

§

p/ carla diacov

i

cortar o vento com os
cacos de vidro que as menininhas cortam os pulsos
colorir a água com papel machê
o mundo não é um livro de colorir mas se fosse
com que cor você pintaria
as sarjetas e os mercados e as praças sonolentas
com que cor

(mais fácil seria lançar pro alto e queimar os olhos
contemplando a sublime comunhão do desastre
comum)

ii

olharia os pulsos
a silhueta das veias
os objetos em queda
o passado e o passado
bastaria  para ver todo o sangue bastaria
rio abaixo
o torpor do sangue
a língua a morte como
desejo mastigando [os lábios]
seria estrela seria
lembrança a ser esquecida
vaidade a escorrer ralo abaixo
destino a modo líquido
com o sangue olharia os pulsos
e qualquer gesto me diria vida

iii

um corpo-fábrica reproduzido desde
a tintura da omoplata à silhueta da garganta
em seu modo líquido
(contemplando a sublime comunhão do desastre
comum)

§

i

esfumaça-se
no céu nublado, o pensamento
entre os olhos
taciturnos, abaixando-se ao
modo de bichos caçados.

gastando horas, frases mágicas, caranguejos de aço
diluindo-se nos meio-termos
do medo
(dos poros dilatados do medo)

ii

ainda agora
memória
diluindo-se pelas
coisas
pelas mãos
pelas mães mortas
por povos inteiros
agora e somente
agora

iii

o primeiro amor morreu

primeiro amor, você morreu
ainda tão bonito…

iv

a insônia
não muda noite em
dia

sobe aos olhos, vidra-se
em agora

a insônia
só muda os lençóis

v

estima-se oitenta, setenta
anos

vangloria-se da inteligência, dos
presentes de natal,
de não fumar,
de fumar pouco, de estar parando de
fumar.

estima-se oitenta, setenta
anos

vangloria-se dos domingos mornos
dos filhos bem formados, das viagens
aos finais de ano.

com os números, estimo
somente a quantidade de
confeitos no jarro

e basta.

§

faz falta um guerrilheiro

pais e filhos que rezam ave-maria em oratórios
e dividem
espaço com discussões
políticas.
padres
hóstias
coronéis
eventualmente uma morte (a mando)
eventualmente um sorriso generoso,
eventualmente um crisma e festejos.
tantas vezes e pra quê
filas de supermercado
cortinas vermelhas
histórias iguais e óculos escuros
moro num país
moro numa cidade de
praças escuras.

 

***

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