tradução

Quatro mulheres: Nina Simone por Nina Rizzi & um bis de Sueli Carneiro

gettyimages-84901590

“Four Women” é uma canção escrita pela cantora, compositora, pianista e arranjadora e militante pelos direitos civis dos negros Nina Simone. Gravada em abril de 1965 com produção de Hal Mooney e lançada em 1966 no álbum Wild Is the Wind (Philips Records), conta a história de quatro mulheres afro-americanas diferentes, onde cada uma das quatro personagens representa um arquétipo afro-americano. Thulani Davis, no The Village Voice, chamou a canção de “uma análise instantaneamente acessível do legado condenatório da escravidão, que tornou iconográficas as mulheres reais que conhecíamos […] um hino afirmando nossa existência, nossa sanidade e nossa luta para sobreviver a uma cultura que nos considera anti-femininas. Reconheceu a perda da infância entre as mulheres afro-americanas, nossa invisibilidade, exploração, desafios, e lembrou que na escravidão e no patriarcado, seu nome é o que eles chamam de coisa”.

A primeira das quatro mulheres descritas na canção é “Tia Sarah”, uma personagem que representa a escravidão afro-americana. A descrição da mulher enfatiza os aspectos fortes e resilientes da mulher negra, “forte o suficiente para suportar a dor”, assim como o sofrimento a longo prazo que teve que suportar “, infligida novamente e novamente”.

A segunda mulher que aparece na canção é  “Saffronia”, uma mulher miscigenada (“minha pele é amarela”) forçada a viver “entre dois mundos”. Ela é retratada como uma mulher oprimida e sua história é mais uma vez usada para destacar o sofrimento da mulher negra nas mãos de pessoas brancas em posições de poder (“Meu pai era rico e branco / Ele forçou minha mãe até tarde da noite”).

A terceira mulher é uma prostituta conhecida como “Coisinha Doce”. Ela encontra aceitação tanto entre negros como brancos, não apenas porque “meu cabelo é bom”, mas também porque ela fornece gratificação sexual (“De quem é a menininha?/ Qualquer um que tenha dinheiro para comprar”).

A quarta e última mulher é rude, amargurada pelas gerações de opressão e sofrimento impostos ao seu povo (“Sou terrivelmente amarga hoje em dia porque meus pais eram escravos”). Nina Simone finalmente revela o nome da mulher depois de um final dramático durante o qual ela grita: “Meu nome é Buceta!”

Musicalmente falando, a canção tem uma melodia simples com um groove acompanhado de piano, flauta, guitarra elétrica e baixo, que gradualmente se desenvolve em intensidade à medida que progride e atinge um clímax durante a quarta e última seção. O vocal de Nina Simone torna-se mais apaixonado, rachando de emoção e seu piano estável se torna frenético e às vezes dissonante, para refletir a angústia da personagem. A música termina com Nina Simone alcançando uma nota altíssima, quase chorando ao cantar o nome “Peaches”.

Apesar de não haver redes sociais na época, má-interpretação de texto já existia, para desgosto de Nina! Apesar de sua intenção de destacar a injustiça na sociedade e o sofrimento dos afro-americanos, alguns ouvintes interpretaram a música como racista. Eles acreditavam que se baseava em estereótipos negros, tendo a música sido banida de várias estações de rádio importantes.

Dentre os diversos covers de Four Women destacamos  a adaptação da canção pela cineasta Julie Dash em um curta experimental de 1978 com o mesmo nome; e a peça de 2016, Nina Simone: Four Women, de Christina Ham; no espetáculo, Nina Simone conhece as três primeiras mulheres (ela é a quarta) no local do atentado à Igreja Batista da 16th Street, e elas se tornam as personagens de sua música.

[Comentário traduzido e adaptado da página da canção na wikipédia/EUA e páginas citadas na mesma]

nina rizzi

*

QUATRO MULHERES

Minha pele é negra
Meus braços são longos
Meu cabelo é de algodão
Minhas costas são fortes
Fortes o suficiente pra suportar a dor
Infligida novamente e novamente
Como eles me chamam
Meu nome é TIA SARAH
Meu nome é tia Sarah

Minha pele é amarela
Meu cabelo é longo
Entre dois mundos
Não pertenço a nenhum
Meu pai era rico e branco
Ele forçou minha mãe até tarde da noite
Como eles me chamam
Meu nome é SAFFRONIA
Meu nome é Saffronia

Minha pele é bronzeada
Meu cabelo é bom
Meus quadris te convidam
Minha boca é como o vinho
De quem é a menininha?
Qualquer um que tenha dinheiro pra comprar
Como eles me chamam
Meu nome é COISINHA DOCE
Meu nome é Coisinha Doce

Minha pele é marrom
Meus modos são rudes
Eu mato a primeira mãe que vejo
Minha vida tem sido muito dura
Sou terrivelmente amarga hoje em dia
Porque meus pais eram escravos
Como eles me chamam
Meu nome é BUCETA!

FOUR WOMEN

My skin is black
My arms are long
My hair is woolly
My back is strong
Strong enough to take the pain
inflicted again and again
What do they call me
My name is AUNT SARAH
My name is Aunt Sarah

My skin is yellow
My hair is long
Between two worlds
I do belong
My father was rich and white
He forced my mother late one night
What do they call me
My name is SAFFRONIA
My name is Saffronia

My skin is tan
My hair is fine
My hips invite you
my mouth like wine
Whose little girl am I?
Anyone who has money to buy
What do they call me
My name is SWEET THING
My name is Sweet Thing

My skin is brown
my manner is tough
I’ll kill the first mother I see
my life has been too rough
I’m awfully bitter these days
because my parents were slaves
What do they call me
My name is PEACHES
§


NEGROS DE PELE CLARA

Sueli Carneiro

Vários veículos de imprensa publicaram com destaque fotos dos candidatos selecionados que vão concorrer às vagas para negros da Universidade de Brasília (UnB). Veículos que vêm se posicionando contra essa política percebem, no largo espectro cromático desses alunos, mais uma oportunidade para desqualificar o critério racial que a orienta.

Uma das características do racismo é a maneira pela qual ele aprisiona o outro em imagens fixas e estereotipadas, enquanto reserva para os racialmente hegemônicos o privilégio de serem representados em sua diversidade. Assim, para os publicitários, por exemplo, basta enfiar um negro no meio de uma multidão de brancos em um comercial para assegurar suposto respeito e valorização da diversidade étnica e racial e livrar-se de possíveis acusações de exclusão racial das minorias. Um negro ou japonês solitários em uma propaganda povoada de brancos representam o conjunto de suas coletividades. Afinal, negro e japonês são todos iguais, não é?

Brancos não. São individualidades, são múltiplos, complexos e assim devem ser representados. Isso é demarcado também no nível fenotípico em que é valorizada a diversidade da branquitude: morenos de cabelos castanhos ou pretos, loiros, ruivos, são diferentes matizes da branquitude que estão perfeitamente incluídos no interior da racialidade branca, mesmo quando apresentam alto grau de morenice, como ocorre com alguns descendentes de espanhóis, italianos ou portugueses que, nem por isso, deixam de ser considerados ou de se sentirem brancos. A branquitude é, portanto, diversa e multicromática. No entanto, a negritude padece de toda sorte de indagações.

Insisto em contar a forma pela qual foi assegurada, no registro de nascimento de minha filha Luanda, a sua identidade negra. O pai, branco, vai ao cartório, o escrivão preenche o registro e, no campo destinado à cor, escreve: branca. O pai diz ao escrivão que a cor está errada, porque a mãe da criança é negra. O escrivão, resistente, corrige o erro e planta a nova cor: parda. O pai novamente reage e diz que sua filha não é parda. O escrivão irritado pergunta, “Então qual a cor de sua filha”. O pai responde, “Negra”. O escrivão retruca, “Mas ela não puxou nem um pouquinho ao senhor? É assim que se vão clareando as pessoas no Brasil e o Brasil. Esse pai, brasileiro naturalizado e de fenótipo ariano, não tem, como branco que de fato é, as dúvidas metafísicas que assombram a racialidade no Brasil, um país percebido por ele e pela maioria de estrangeiros brancos como de maioria negra. Não fosse a providência e insistência paterna, minha filha pagaria eternamente o mico de, com sua vasta carapinha, ter o registro de branca, como ocorre com filhos de um famoso jogador de futebol negro.

Porém, independentemente da miscigenação de primeiro grau decorrente de casamentos inter-raciais, as famílias negras apresentam grande variedade cromática em seu interior, herança de miscigenações passadas que têm sido historicamente utilizadas para enfraquecer a identidade racial dos negros. Faz-se isso pelo deslocamento da negritude, que oferece aos negros de pele clara as múltiplas classificações de cor que por aqui circulam e que, neste momento, prestam-se à desqualificação da política de cotas.

Segundo essa lógica, devemos instituir divisões raciais no interior da maioria das famílias negras com todas as implicações conflituosas que decorrem dessa partição do pertencimento racial. Assim teríamos, por exemplo, em uma situação esdrúxula, a família Pitanga, em que Camila Pitanga (negra de pele clara como sua mãe), e Rocco Pitanga (um dos atores da novela “Da cor do pecado”), embora irmãos e filhos dos mesmos pais seriam, ela e a mãe brancas, e ele e o pai negros. Não é gratuito, pois, que a consciência racial da família Pitanga sempre fez com que Camila recusasse as constantes tentativas de expropriá-la de sua identidade racial e familiar negra.

De igual maneira, importantes lideranças do Movimento Negro Brasileiro, negros de pele clara, através do franco engajamento na questão racial, vêm demarcando a resistência que historicamente tem sido empreendida por parcela desse segmento de nossa gente aos acenos de traição à negritude, que são sempre oferecidos aos mais claros.

Há quase duas décadas, parcela significativa de jovens negros inseridos no Movimento Hip Hop politicamente cunhou para si a autodefinição de pretos e o slogan PPP (Poder para o Povo Preto) em oposição a essas classificações cromáticas que instituem diferenças no interior da negritude, sendo esses jovens, em sua maioria, negros de pele clara como um dos seus principais ídolos e líderes, Mano Brown, dos Racionais MCs. O que esses jovens sabem pela experiência cotidiana é que o policial nunca se engana, sejam eles mais claros ou escuros.

No entanto, as redefinições da identidade racial, que vêm sendo empreendidas pelo avanço da consciência negra e que já são perceptíveis em levantamentos estatísticos, tendem a ser atribuídas apenas a um suposto ou real oportunismo promovido pelas políticas de cotas, fenômeno recente que não explica a totalidade do processo em curso.

A fuga da negritude tem sido a medida da consciência de sua rejeição social e o desembarque dela sempre foi incentivado e visto com bons olhos pelo conjunto da sociedade. Cada negro claro ou escuro que celebra sua mestiçagem ou suposta morenidade contra a sua identidade negra tem aceitação garantida. O mesmo ocorre com aquele que afirma que o problema é somente de classe e não de raça. Esses são os discursos politicamente corretos de nossa sociedade. São os discursos que o branco brasileiro nos ensinou, gosta de ouvir e que o negro que tem juízo obedece e repete. Mas as coisas estão mudando…

In: CARNEIRO, Sueli. Racsimo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011. pp. 70-73. Disponível aqui.]

*

Anúncios
Padrão
poesia, tradução

Muriel Rukeyser, por Vitória Régia

muriel

Muriel Rukeyser (1913-1980) foi uma poeta, ensaísta e ativista feminista norte-americana de origem judaica. Frequentou o Fieldston Schools e matriculou-se na Universidade Vassar (Poughkeepsie, NY). De 1930 a 1932, cursou a Universidade de Columbia em Nova York. Estreou na literatura com o livro Theory of Flight (1935), vencedor do Yale Younger Poets Series, o mais antigo prêmio literário anual dos Estados Unidos. Na época de sua estreia notável, W. R. Benet comentou na revista norte-americana Saturday Review of Literature: “quando você segura este livro em sua mão, você segura algo vivo.”

Rukeyser lutou fortemente pelos direitos humanos e construiu uma extensa e potente produção literária. Sua poesia é densa, impactante e convida à reflexão. Movida pela paixão que nutria pela condição humana e pelo mundo, esse “lar desconstruído” que herdamos, foi capaz de “carregar nações inteiras para a frente através da urgência de sua mensagem”. Apesar de ser marcadamente política, a autora explorou em sua poesia inúmeros temas como a condição da mulher, sexualidade, criatividade e morte.

Publicou os títulos A Turning Wind (1939), Beast in View (1944), The Green Wave (1948), Elegies (1949), Body of Waking (1958), The Speed of Darkness (1968), Breaking Open (1973), The Gates (1976) entre outros. Adrienne Rich chegou a comentar: “ela nos alerta, leitores, escritores e participantes da vida de nosso tempo, para ampliar nosso senso de que a poesia é para o mundo, bem como o lugar dos sentimentos e da memória na política”.

Das traduções já realizadas da autora para o português, menciono as de André Caramuru Aubert, no Jornal Rascunho, e as de Ricardo Domeneck, na revista eletrônica Modo de usar & co. Para esta publicação, selecionei os seguintes poemas: Paisagem que respira (Theory of Flight, 1935), O nascimento (Body of Waking, 1958) e Alas (Breaking Open, 1973). Traduzindo para o português, optei por mudanças estruturais que garantam uma leitura mais fluida e coerente, evitando interferir na concisão e quebra dos versos originais.

*

Paisagem que respira

Deitada sob o sol
e deitada aqui tão quieta
um ovo poderia ser chocado lentamente nesta mão
As pessoas passam
abruptamente acenam: elas sorriem
arrastam–se no ar, silêncio segue seus rostos.
Eu sei, deitada
como as colinas estão fixas
e a lua do dia corre no topo delas
Nada cruzou o campo
o dia todo, mas um pássaro
contorna a grama alta em um rápido trânsito
Suas ideias severas
um longo trabalho para cada
e até mesmo blindados dificilmente nos tocamos
O vento inclina,
o ar devidamente imposto
Sobre esses rostos e pensamentos em uma dança solene
O silêncio abraça o ar
Nada é dito, mas o som
de certos rios continuam subterrâneos.

Breathing Landscape

Lying in the sun
and lying here so still
an egg might slowly hatch in this still hand.
The people pass
abruptly they nod : they smile
trailed in the air, silence follows their faces.
I know, lying
how the hills are fixed
and the day-moon runs at the head of the fixed hills.
Nothing crossed the field
all day but a bird
skirting the tall grass in briefest transit.
Their stern ideas
are a long work to each
and even armored we hardly touch each other.
The wind leans,
the air placed formally
about these faces and thoughts in formal dance.
Silence hangs in the air.
Nothing speaks but the sound
of certain rivers continuing underground.

§

O nascimento

Recentemente escapei de três tipos de morte
Não por evasão, mas por sobreviver
Eu celebro o que pode ser o verdadeiro começo

Mas comecei sem mais recurso
Estúpida e parada
Como um recém nascido cresce? Eu sou um deles
O frescor tem tomado nossos corações
A dor nos tira de uma nova fonte, crianças de uma nova vida
Esperando pela infância como esperamos pela forma

Então venho para o mundo de todos os vivos
O mutilado meio triunfante de meu caminho
Onde há doação, não é necessário perdão
Vi agora o presente que está aqui para dizer:
Nada do que escrevi é o que devo ver escrito
Nada do que eu fiz é o que agora preciso fazer—
O sorriso da escuridão na minha canção e no meu filho.

Recentemente emergiram casas desoladas
Que já viram espíritos fechados, cercados pelo sol
E ter, entre incontáveis rostos comuns
assistido todas as coisas mudarem, um lar desconstruído herdar

Objetos do desejo, aquela pedra e madeira e ar
Iluminado por um nascimento, eu defendo começos obscuros
Desperdício que nunca é desperdício, doação mais humana
Declarado e evidente como o corpo mortal da graça
Começos da verdade na vida, os espaços do deserto
Onde a verdade alimenta e o coração ramificado,
até o meu, glorificando o passado em suas peças
Minha carne lacerada que me trouxe para este lugar.

A Birth

Lately having escaped three-kinded death
Not by evasion but by coming through
I celebrate what may be true beginning.

But new begun am most without resource
Stupid and stopped.
How do the newborn grow? I am of them.
Freshness has taken our hearts;
Pain strips us to the source, infants of further life
Waiting for childhood as we wait for form.

So came I into the world of all the living
The maimed triumphant middle of my way
Where there is giving needing no forgiving.
Saw now the present that is here to say:
Nothing I wrote is what I must see written,
Nothing I did is what I now need done.—
The smile of darkness on my song and my son.

Lately emerged I have seen unfounded houses,
Have seen spirits not opened, surrounded as by sun,
And have, among limitless consensual faces
Watched all things change, an unbuilt house inherit
Materials of desire, that stone and wood and air.
Lit by a birth, I defend dark beginnings,
Waste that is never waste, most-human giving,
Declared and clear as the mortal body of grace.

Beginnings of truth-in-life, the rooms of wilderness
Where truth feeds and the ramifying heart,
Even mine, praising even the past in its pieces,
My tearflesh beckoner who brought me to this place.

§

Alas
St. George’s Hospital, Hyde Park Corner

Deitada neste momento, ela escala neves brancas;
Ao pé da cama o quadro relata.
Aqui um homem queima em febre, ele está aqui, ele está lá,
Cinco mil anos atrás no país da gruta
Nesta cama, eu vago em Macau
Eu corro toda noite pelos becos escuros. O tempo corre
No limite e tudo existe em todos. Nós abraçamos
Toda a história humana, toda geografia,
Eu não consigo lembrar da palavra que eu preciso
Nossas explorações, tudo no precipício
A mesa de cabeceira, uma paisagem de zebras
Constelações condutoras. Toda essa música,
Eu ouvi antes de nascer. Eu venho
Neste caminho, para o lugar
Nos iluminamos,
Este momento me dando necessidade
Dando a nós mesmos e arriscamos tudo
Caminhando em nossa vida.

The Wards
St. George’s Hospital, Hyde Park Corner

Lying in the moment, she climbs white snows;
At the foot of the bed the chart relates.
Here a man burns in fever; he is here, he is there,
Five thousand years ago in the cave country.
In this bed, I go wandering in Macao,
I run all night the black alleys. Time runs
Over the edge and all exists in all. We hold
All human history, all geography
I cannot remember the word for what I need.
Our explorations, all at the precipice,
The night-table, a landscape of zebras,
Transistor constellations. All this music,
I heard it forming before I was born. I come
In this way, to the place.
Our selves lit clear,
This moment giving me necessity
Gives us ourselves and we risk everything
Walking into our life.

§

Vitória Régia nasceu em Fortaleza, em 1991. É graduada em Letras e mestra em Linguística pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Publicou os livros de poesia Partida de não dizeres (Editora Substânsia, 2015) e Náutico (Editora Patuá, 2018). Atualmente edita a revista de Literatura e Artes Para Mamíferos e escreve regularmente para a coluna Leituras da Bel do Jornal O Povo.

***

Padrão
poesia

4 poemas inéditos de Sara Síntique

IMG_0209

Sara Síntique é escritora, atriz, educadora, mestra em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC), onde também se graduou em Letras Português – Francês. Autora do livro Corpo Nulo (Poesia, Editora Substânsia, 2015), escreve poemas quinzenalmente para o blog Leituras da Bel (Jornal O Povo). Tem textos publicados na Antologia de Poemas Eróticos – Mulheres Cearenses, nas revistas Literatura BR, Diversos Afins, Gueto, Saúva e aqui na escamandro. Os poemas abaixo integram seu livro inédito Água – ou testamento lírico a dias escassos, a sair este ano pela Edições Ellenismos.

*

abstração

até quando
arrastar os pés no deserto
e não ter que
esta miragem?

do Chade ao Saara

um dia chega que
não se pode mais tanta
abstração

até quando
arrastar os pés no deserto
e não ter que
esta miragem?

até quando
oh Velho Navio
um mar
um mar longínquo
oh Velho Navio
e uma terra
onde se possa querer
à vista?
§

onda de porto mare motus

tantas manhãs de domingo e

e então
acostumar o gosto ácido
na boca e
um cataclismo
aquele medo de esquecer
todas
as palavras
§

lambíamos
durante as madrugadas

mas quanto desses pelos restam em tua boca
feito
areia remota
a dissolver os oceanos?
§


memórias anotadas num diário de infância

hoje: uma mulher molhou os pés no riacho.
ela molha as mãos uma mulher adentra
mas não toda
e lava panos
tantos panos a barriga dela
toda pra fora suor e água e a barriga dela a
roupa toda molhada
as mãos ficando doutra forma
a pele engraçada enrugada engraçada

um peixe lhe morde os pés e outro e outro beliscam
não sei o nome
dos peixes mas sei
a mulher ri

por ora ri
ri mesmo

sorri

hoje: uma mulher sorri.
nem parece que tanto sol lhe assusta.

***

Padrão
poesia

Raphael Sassaki

foto sassaki

Raphael Sassaki nasceu em 1988 e edita PDFs na Shiva Press (shivapress.tumblr.com). Os poemas publicados aqui são do livro A Destruição do Mundo, a ser lançado pela Douda Correria.

*

babel

desculpa a demora
esqueci de novo de enviar seu i-ching

acho que eu estou me especializando
em pegar caminhos errados

os correios aqui já fecharam
mas achei esse livro que fala
da beleza das estruturas que
emanam de um mesmo ponto
fixo

entre as coisas que gostei de fazer hoje estão: 1-
perder tempo em pontos de ônibus
2- passar aflição por não achar livros de 7 reais

e meu deus como é bonito
o desenho mágico daquela avenida

é estranho dizer assim, mas eu e você
sempre soubemos, instintivamente
onde havia beleza
(e havia beleza em tudo)

quem nunca atravessou a rua errado
que jogue a primeira pedra

ontem o padre me contou a história
do menino de rua que cruzou o atlântico
só para renascer na cracolândia

e eu sei lá quantas músicas já ouvi hoje
enquanto via as fotos do seu rosto
pintado feito um príncipe yanomami

dizem que os deuses dos índios são todos canibais e
que as almas são feitas de ossos queimados

mas o certo é que hoje é de novo outro dia e
o verão acabou de começar

§

astrologs

sinais de leite no degrau de estrelas
passos predestinados

seu bazar beneficente
de corações amorfos

escaladas de mãos dadas
com espíritos na aclimação

dorme debaixo de astros grávidos

barulho de chuva em pesadas
enteléquias no rolê

sua boca selvagem forma
sortilégios primitivos

há desastres abertos
nas costelas rachadas
da catedral da sé

e a rua fecha os olhos como nosso amor

§

crowley

somos só
tribos estivais
buscando antídoto
a qualquer alegria
filantrópica

bisnetos de guaranis
e holocaustos
colhendo flashbacks
em darknets
ao sul do mundo

speakers fluentes
da barbárie
espalhando
novas vibrações

§

kiss me deadly

você diz: da mente rachada jorra o arco-íris
amor, palavras não vão salvar sua alma

(mas seus olhos são os relâmpagos
mais bonitos no céu apocalíptico
de são paulo)

ei, você não sabia
que estamos nadando no abismo?
que estamos fabricando mortes?
que estamos escondidos em teatros
de sonho elétrico?

que somos só bichos hipnotizados por
palavras
cometendo todos os dias os mesmos crimes

hoje choveu e lembrei que temos fogo por dentro

a vida não volta
e isso se chama liberdade

você diz: a dor da diferença
(é a felicidade das coisas
aí é quando sinto que vou acordar

meu cérebro é um monstro de 100 milhões de anos
deitado na cama

é uma língua mais velha que a gramática
e todas as palavras só formam constelações de loucuras
que chamamos mentiras

mas agora é quase meia noite
e as luzes da cidade já se enfiam
no silêncio do mundo

você diz: nós somos vida após a morte

você diz: foi um soco no escuro que te fez cair aqui
você diz: há um ruído pesado nestes sonhos
foi quando

§

o movimento giratório dos peixes

nosso papo é um círculo
que não para de crescer
em volta da praça roosevelt

sobretudo quando você fala
das três canções perdidas de lady dylan

ou diz que nem as ruas
nem os corpos
já nos pertencem mais

agora eu conto
todos os guarda-chuvas
no bar dos atores

e registro quase 69 ângulos
diferentes do seu rosto

enquanto você fala
dos teus sete flertes
e faz nossos planos
para os próximos
duzentos anos

e então ouvimos a
voz dos mortos
da Vila Munhoz
e vemos a vida perdida
de dona Zilda
e sabemos que
entre essas duas coisas
deveria haver todas
as chances do mundo
mas não há

e que nem por isso
você deixa de juntar
moléculas e gases
e qualquer outro
elemento interestelar
bem perto de si
e segue batendo seus
olhos castanhos em
todos os cantos da
cidade

acho que nenhum deus
sabe exatamente
onde vai dar o mundo
mas que o amor existe
isso não há quem duvide

a verdade está
alguns decibéis acima
do ouvido humano
e por cima passam
todos os bichos

***

Padrão
poesia, tradução

Adrienne Rich, por Sarah Valle

adrienne-rich

Adrienne Rich (1929 – 2012) foi uma poeta norte-americana, pensadora e ativista, ícone feminista, também reconhecida pela ampla militância em prol de direitos humanos. Vinte e um poemas de amor (1976) integram o livro O sonho de uma língua comum, conjugando a história do silenciamento coletivo e o diálogo amoroso. Além de poemas a uma amante, são atos mentais de consciência e vontade, assumindo responsabilidade frente às forças que minam o relacionamento narrado. A sequência já foi chamada de a “primeira abertamente lésbica” escrita por uma autora norte-americana de renome e um “marco histórico” no Women’s Liberation Movement.

Sobre a tradução

Apesar de diretos, dialógicos e cortantes, os poemas de Adrienne muitas vezes se fazem nas bordas do verso regular. Vinte e um poemas de amor flertam com as sequências de sonetos de amor, de forma a inserir um tema renegado numa forma canônica repaginada. A partir da percepção de que nesses “quase sonetos” há um metro fantasma, o pentâmetro iâmbico, recrio na tradução um flerte com os versos tradicionais decassílabos, hendecassílabos e dodecassílabos, contudo diluídos. Especialmente no início, os poemas tendem à lembrança da métrica, acabando por vezes em finais antiestéticos. Incluo nesta amostra o “poema flutuante, não numerado”, que resiste a ser enquadrado na sequência e surpreende quem espera de Adrienne poemas mentais. Este é meu primeiro exercício de tradução e durou os anos do mestrado. A tarefa de alcançar um tom médio entre a tradição e o caráter direto engessou um pouco os poemas. Ainda assim, suponho que incorporam a tensão entre ato estético e ato político e colocam contra a parede a tradição literária de língua inglesa, bem como a tradição literária de minha própria língua.

Sarah Valle

*

VI
Suas mãos pequenas, tão iguais às minhas—
só o polegar é mais largo, longo—nessas mãos
eu entregaria o mundo, ou em muitas mãos como essas,
manuseando ferramentas, volantes
ou tocando um rosto. . . Tais mãos poderiam recolocar
a criança não nascida no canal do parto
ou pilotar o exploratório navio de resgate
por entre icebergs, ou reunir
os cacos feito agulhas de uma grande cratera grega
sustentando à sua volta
silhuetas de mulheres em êxtase dando grandes passos
rumo à gruta da sibila ou à caverna de Elêusis—
tais mãos poderiam comportar uma violência inevitável
com tal restrição, com um tal senso
dos alcances e limites da violência
que toda violência seria, dali em diante, obsoleta.

VI
Your small hands, precisely equal to my own—
only the thumb is larger, longer—in these hands
I could trust the world, or in many hands like these,
handling power-tools or steering-wheel
or touching a human face. . . Such hands could turn
the unborn child rightways in the birth canal
or pilot the exploratory rescue-ship
through icebergs, or piece together
the fine, needle-like sherds of a great krater-cup
bearing on its sides
figures of ecstatic women striding
to the sibyl’s den or the Eleusinian cave—
such hands might carry out an unavoidable violence
with such restraint, with such a grasp
of the range and limits of violence
that violence ever after would be obsolete.

§

VIII
Vejo-me há muitos anos em Sunião
sofrendo com um pé infeccionado, Filoctetes
em forma de mulher, mancando pelo longo caminho,
deitada num cabo sobre o mar escuro,
olhando embaixo as rochas rubras onde uma linha muda
e branca me contou que uma onda as golpeara,
supondo a tração da água àquela altura,
sabendo que suicídio deliberado não era meu métier,
no entanto todo tempo aleitando, aferindo a ferida.
Bem, isso está acabado. A mulher que acarinhava
seu sofrimento está morta. Sou sua descendente.
Amo a malha de cicatrizes que ela me concedeu,
mas quero seguir daqui com você
resistindo à tentação de fazer da dor uma carreira.

VIII
I can see myself years back at Sunion
hurting with an infected foot, Philoctetes
in woman’s form, limping the long path,
lying on a headland over the dark sea,
looking down the red rocks to where a soundless curl
of white told me a wave had struck,
imagining the pull of that water from that height,
knowing deliberate suicide wasn’t my métier,
yet all the time nursing, measuring that wound.
Well, that’s finished. The woman who cherished
her suffering is dead. I am her descendant.
I love the scar-tissue she handed on to me,
but I want to go on from here with you
fighting the temptation to make a career of pain.

§

IX
Seu silêncio de hoje é um poço onde vivem submersas
coisas que eu quero ver alçadas, pingando ao sol.
Não é meu próprio rosto que vejo ali, mas outros rostos,
até mesmo o seu rosto em outra idade.
O que quer que esteja perdido ali é necessário a ambas—
um relógio de ouro velho, um gráfico de febre borrado,
uma chave. . . Mesmo os seixos e o lodo do fundo
merecem seu lampejo de percepção. Temo esse silêncio,
essa vida inarticulada. Espero
um vento suave que abra esse lençol d’água
finalmente, e me mostre o que fazer
por você, que tantas vezes tornou o inomeável
nomeável para outros, até para mim.

IX
Your silence today is a pond where drowned things live
I want to see raised dripping and brought into the sun.
It’s not my own face I see there, but other faces,
even your face at another age.
Whatever’s lost there is needed by both of us—
a watch of old gold, a water-blurred fever chart,
a key. . . Even the silt and pebbles of the bottom
deserve their glint of recognition. I fear this silence,
this inarticulate life. I’m waiting
for a wind that will gently open this sheeted water
for once, and show me what I can do
for you, who have often made the unnameable
nameable for others, even for me.

§

(O POEMA FLUTUANTE, NÃO NUMERADO)

Aconteça conosco o que for, seu corpo
vai assombrar o meu—delicado, terno
quando faz amor, como a rama espiralada
do broto de samambaia em bosques
recém-banhados pelo sol. Suas coxas viajadas, generosas
entre as quais meu rosto inteiro goza e goza—
a inocência e a sabedoria do lugar que a minha língua achou ali—
a dança viva, insaciável, dos seus mamilos na minha boca—
seu toque em mim, firme, protetor, que me
busca, sua língua forte e seus dedos esguios
atingindo onde esperei tantos anos por você
na minha caverna rosa-molhada—aconteça o que for: é isso.

(THE FLOATING POEM, UNNUMBERED)

Whatever happens with us, your body
will haunt mine—tender, delicate
your lovemaking, like the half-curled frond
of the fiddlehead fern in forests
just washed by sun. Your traveled, generous thighs
between which my whole face has come and come—
the innocence and wisdom of the place my tongue has found there—
the live, insatiate dance of your nipples in my mouth—
your touch on me, firm, protective, searching
me out, your strong tongue and slender fingers
reaching where I had been waiting years for you
in my rose-wet cave—whatever happens, this is.

§
XIV
Sua visão do piloto confirmou
minha visão de você: você disse, Ele atira
o barco contra as ondas, de propósito
enquanto nos encolhemos no alçapão aberto
vomitando em sacos plásticos
durante três horas entre St. Pierre e Miquelon.
Nunca me senti tão próxima a você.
Na cabine apertada onde os casais em lua-de-mel
se amontoavam nos colos e braços uns dos outros
coloquei minha mão sobre sua coxa
para nos confortar, e sua mão veio sobre a minha,
ficamos assim, sofrendo juntas
em nossos corpos, como se todo o sofrimento
fosse físico, nos tocando na presença
de estranhos que nada sabiam nem se importavam
vomitando suas dores privadas
como se todo sofrimento fosse físico.

XIV
It was your vision of the pilot
confirmed my vision of you: you said, He keeps
on steering headlong into the waves, on purpose
while we crouched in the open hatchway
vomiting into plastic bags
for three hours between St. Pierre and Miquelon.
I never felt closer to you.
In the close cabin where the honeymoon couples
huddled in each other’s laps and arms
I put my hand on your thigh
to comfort both of us, your hand came over mine,
we stayed that way, suffering together
in our bodies, as if all suffering
were physical, we touched so in the presence
of strangers who knew nothing and cared less
vomiting their private pain
as if all suffering were physical.

§

Sarah Valle é mestre em Estudos da Tradução pela Universidade de São Paulo. É autora da novela Arquitetura do Sim – fragmentos de um diário da Ásia (2018, Editora Cozinha Experimental).

Padrão
poesia

1 poema inédito de Mariana Basílio

mari4

Mariana Basílio é prosadora, poeta, ensaísta e tradutora. Nascida em Bauru, interior de São Paulo, em 1989.  Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Autora dos livros de poesia Nepente (2015) e Sombras & Luzes (2016). Colabora em portais e revistas nacionais e internacionais, tendo traduzido nomes como May Swenson, Alejandra Pizarnik, Edna St. Vincent Millay, Sylvia Plath e William Carlos Williams. Com patrocínio do prêmio ProAC (2017) do Governo de São Paulo, publicou em 2018 seu terceiro livro, o poema longo Tríptico Vital (Patuá). O projeto também foi finalista do programa de Residência Literária do SESC (2018). Mantém o site www.marianabasilio.com.br. Já esteve presente na escamandro com poemas autorais e traduções de Denise Levertov e Edna St. Vincent MIllay.

*

Brasil 2019

O poema Fim, disposto nessas linhas em três atos, foram versados durante o resultado do período de eleições presidenciais de 2018. Apesar de a autora não ser partidária nem de si, nem de outros, sentiu no avesso do estômago o resultado das urnas, e ali sentou o pensamento. O fato finito talvez esteja nos brasis de um só Brasil, que continuam abrasados como vespas amontoadas em nossos cílios – nada ordenados ou progressistas. Eis apenas uma imagem. Primeiro publicada na revista impressa portuguesa Flanzine (18º), a convite de João Pedro Azul, e lançada nos dias 8 e 15 de dezembro de 2018 nas cidades de Porto e Lisboa, agora disposta na revigorante escamandro, pelo fino trato de Nina Rizzi.

Mariana Basílio
*

បញ្ចប់

PRIMEIRO ATO

 Toda a manhã consumida
Como um sol imóvel
Faiscado nas rugas do
Percurso móvel.
Toda a manhã consumida
O DESERTO – rigoroso horizonte –
Bico dos seios no cu que se curvava: um anel dourado
O lombo estralado na pátria assassinada
Rasteja nos pares ao fundo
Condor, ó condor resvalado!
Pelos dedos dos pés há um menino há uma
Menina rasgados pela sagrada escritura
Onde as palavras tornaram-se inúteis.
Os despachos os cantos os berros os
Ouvidos: atentos! Mentes confinadas
– Estou sem ar! – disse ele.  – Está bem… que seja…
Apenas deixe-me sair… por favor.
O lastro da boca é o leite derramado
Ouve-me. Ouve-me enquanto
“É o coração de Cabestan no prato.”
Cospem no céu, cospem no chão
– Aonde vocês vão? – espantaram-se as senhoras de K.
– Anna Pávlovna, aonde você vai, querida?
Pro inferno, diacho, pro inferno de Riobaldo!

Es el inospito! Es el inospito! Es el inospito!

UM VAZIO hoje se condecora com lágrimas –
Esqueçam os faróis, os traços são mesmo azuis
E ainda vivemos aqui

SEGUNDO ATO

Assim a luz chove, assim verve o estômago
Talheres dispostos, silêncio silente le solo seul
Nós pairamos aqui
Água férvida, espasmos estridentes à
Comida entalada no pescoço porque
NADA mudará compondo o abismo do amanhã
“And to die is different from what any one supposed, and luckier.’’
Pelos dedos das mãos há um homem há uma
Mulher mutilados pela hipocrisia literária.
Ouve-me. Ouve o espanto tragado de mim que
Vi as piores mentes da minha geração saudadas pela loucura
Cuspidas no céu, cuspidas no chão aos
Animais cochichando “Como são imbecis os humanos!”
Com o coração perfurado da vida o coeficiente da morte é esquartejado
Pelo próprio corpo, e é só o começo comestível de mil anos
A madeira lascada, o vidro trincado, a lama putrificada
É uma dança de adeuses no passado gigante que nos ouve
Zoe says this is over! this is over! this is over! this is over!
Mas não acabou o mar com o fogo
Na lareira do tempo o teu crisol na caça fundida dos chacras
“Eleonora, ἑλέναυς e ἑλέπτολις!”
A tromba elevada, as costas ancoradas
A água jorra do inesperado
CABRUM CABRUM ela se refez da mata

TERCEIRO ATO

Koi no yokan diz a placa
Altar dos demônios expirados nos sorrisos de criança
Os camaradas não disseram que havia uma guerra e era necessário trazer fogo e alimento.
O BRASIL recoberto de mágoas chafurdando corações
– Eram uns tempos grávidos de nomes,
era um rumor de apelos
e de dádivas. – com os lábios segurando cigarros no entardecer.
Altar das vísceras cindidas nos enganos de todo santo dia.
Percorrer a Glória, endoidecer perante os rostos pedindo moedas
No arpoador gazelas fogem dos tiros por detrás, à esquerda
Há uma miudeza mofando pelas axilas há medo e há lume
– Era uma noite; e as cobras se enlaçavam
destronadas; e um mundo se paria. – o peito inflamado de fumaça
Tossia ainda que a lua se dispusesse no sonho desalmado da noite.
Mas ainda caminhávamos, sedentos,
– E, entanto, o olhar audaz e visionário
Já tem clarões sinistros de fogueira! – um pau entre as coxas esporrava
Ela dizia socorro! E o mundo de costas aplaudia – cabeça entre lágrimas
Abraçada nos destroços da padaria: uma senhora
De las geraciones de las rosas
que en el fondo del tiempo se han perdido
Alguém já contou nossos dias, alguém que já sabe das horas
Acaba de proferir o manifesto dos odiados.
Cosme contemplava a ternura e os faróis ressurgiam:
O que sou eu, gritei um dia para o infinito
E o meu grito subiu, subiu sempre
Até se diluir na distância. – Mas as pontas não se enlaçavam.
As armadilhas na dentadura do cadáver sob a mesa do jantar
Eram o próprio sol imóvel, dissecado na memória,
Escalado nas paredes do paraíso que nos destruirá
A VOZ – “Pensa no que te disse, se não quiseres te arrepender!”
Um caranguejo se agiganta no açoite
Macunaíma deu uma grande gargalhada.
A verdadeira dor é incompatível com a esperança.

Um porco caminha procurando por comida na rua do Bairro de Bangu.
Um porco caminha procurando por comida na rampa do Palácio do Planalto.

De dois em dois nessa vala um pressentimento ainda faísca na
Manhã consumida – o coro das vozes é aqui incendiário –
A limpeza dos ideais se exalta no nu de nossas cabeças.

E estou moribunda à beira do caminho.

*

 

Padrão
poesia

Julia Raiz

julia raiz

julia raiz. escrevo, sou professora no cursinho “tô passada” do transgrupo marcela prado. no doutorado estudo tradução, ensaio e crítica literária feminista. como militante, construo a frente feminista de curitiba e região, também edito os blogs literários totem & pagu e pontes outras. meu livro de estreia “diário: a mulher e o cavalo” saiu em 2017 pela contravento editorial.

*

você diz não acreditar em incêndio
como se desastres
dependessem da sua habilidade
de tacar fogo no corpo

sonhei antes de passar por essa trilha
com um carvão pairando sobre
a minha cabeça

não tão preto quanto seus cabelos
nem tão enredado
quanto o coração dos cachorros
que você devora

do carvão saíam cabos de aço
tortos tantos e ainda assim
você não sabe fingir
nem dizer a verdade

se voltasse àquela casa
da chinesa fu
talvez soubesse
que te entregaram uma adaga
como símbolo da sua entrada
no mundo dos homens
que não usam bermudas
ainda que com vontade
ainda que ardendo
por dentro

eu digo não acredito em incêndio
e penso em sigilos
cadeados
e torneiras mal fechadas

§

você confunde o amor com uma pérola

o poeta na parede
com um tiro na testa
também sabia seu nome
sabia da constância do topo nevado
mesmo no calor do seu pescoço
ele podia ter fugido pelo mar
em vez de conviver
com seus impulsos violentos

a destruição minando
de cada contraparte

ele teria gostado de te socar a cara
como um jaguar
saindo da água quente
eu não me importo mais
com o tamanho do corte
não quero mais seguir mergulhando
odeio você
e a sua cidade aquática
só amo o lorca

§

p/ júlia manacorda

as coisas passam com tanta velocidade
júlia
queria te contar como me apaixonei
por uma sala três anos atrás
e como era difícil
respirar lá dentro com as janelas
me convidando a medir o tronco
uma sala em permanente reforma
que nunca existia
por mais de alguns dias
intacta e que no fim esteve fechada
por dois meses na companhia
de homens estranhos
pensei que você
dentre todas as pessoas
entenderia o que é
ter andaimes no lugar do tórax
as cores de uma sala circular
passam tão alucinantes
quanto uma tempestade
quanto a sua alegria
no centro da cidade
a história segue enferrujando
às nossas costas
júlia
nesses últimos dias
eu vomito mercúrio
de tanta saudade
daquela sala
de passagens secretas
parece que eu nunca vou deixar
de gritar seu nome à noite
como a versão que você chamaria de moderna
de um pesadelo antigo

§

a mim você eu não me engano

sabe que ontem
eu trepava com quem me ama

uma onda por cima de um terremoto

o que saia de mim era o som de um órgão
crispando no fogo

eu ri sem parar

queria acabar com vocês
um monstro de duas cabeças

comê-las como se louvasse a deus

esta é a primeira última página
a que me dedico a te enganar

de nada por ter me marcado a ferro

agora só me resta deitar neste vão
não ter medo de que você pela rua
saia com a pele brilhando

§

julia raiz

Julia Raiz, poemacolagem sem título, 2015.

1

sarah se pergunta antes de dormir com o quê sonha o lula. ela sabe que a Outra sonha com o irmão sendo espancado de novo. um braço retorcido, lá fora a árvore floresce. 0 reais pra pagar o botijão de gás. o pai da Outra entra na casa pra levar a geladeira mais duas vezes, a televisão já era. lá fora tem mais 3 homens mexendo no lixo. 1 escreve uma novela-folhetim sobre o estado brasileiro, o outro tem formulada na cabeça uma teoria dos olhares, o último volta pra casa com dor de cabeça, não sabe se é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo e ainda pagar a condução.

2

o final de tarde é um martírio, a gente sabe, companheiro. COM O QUÊ SONHA O LULA? gladíolos. a resposta sobre os retrocessos e certezas dos mitos é irrelevante, disfarça a atriz, sentada na cadeira de plástico com os talheres de plástico. caiu do seu bolso uma imagem do carneirinho de São João. neste momento voa pela calçada uma compradora de gladíolos, flores que são comuns nessa época do ano.

3

o objetivo da sarah sempre foi complexificar o tubarão pra complexificar o rapaz e a sua genitália. nunca foi simplificar, nunca, nunca. ela sofre por isso. como uma mulher complexa ela sofre por saber que o rapaz de óculos espelhado é um universo inteiro em si, que o tubarão representa o que existe de mais real no universo: um corpo em movimento pela sobrevivência. sarah não exige que as pessoas saibam de imediato fazer com ela um bom sexo oral, não quer colocar essa pressão nas costas alheias. ela mesma não sabe o que faz, às vezes. olha, são ímpetos de humanidade querer descobrir do que as gentes são feitas, se vem a Outra e te ameaça com uma faca de carne, te obriga a entregar seu celular que você nem acabou de pagar (tá na sétima parcela ainda), sarah, você faz o quê? começa a gritar que ela é sua irmã? você abraça ela como se fosse um menino descalço passando na rua, sarah? esse tempo já passou, o tempo da ficção brasileira da CULPA & PERDÃO, da INOCÊNCIA & CASTIGO já foi! o que você vai fazer agora, sarah? que os moldes foram destruídos…você precisa olhar pra cara das pessoas nas ruas e gritar me digam, pelo amor de deus, me digam como eu posso servir.
todos esses rostos textos bonitos pra quê?

*

Padrão