a serpentina nunca se desenrola até o fim, de Heyk Pimenta, por Vinicius Varela

eu li um poema. um poema que me atinge cheio os ossos como uma onda num domingo de ressaca – e é o amor esta ressaca. é o homem com seus cabelos vermelhos pegados na estante; o uivo na madrugada, o sangue que me cobre o corpo pronto pra perícia, o corpo do homem. o corpo do homem é o corpo do poema. é o poema.

então chega lá o v. varela – esse nome que estala feito muçarela, mussarela, mozzarela, vegarela, beija ela, varela, a poesia, beija! – e v. varela chega chegando e beija a poesia de pimenta [que já floresceu aqui no escamandro]. e é isto, a semana começando, corpoemas nos esperando e sim, sim, em hellcife e quiça na fodaleza segunda também é um dia lindo – pra ler & querer ler: um dia, a poesia de heyk pimenta e a teorética de vinicius varela.

nina rizzi

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1-heyk-pimenta-retrato

um livro de desterros

qual é, Heyk. não tive tempo de falar pessoalmente sobre teu livro(a serpentina nunca se desenrola até o fim). terminei de ler há algumas semanas. tive uma impressão positiva. achei a sua escolha vocabular curiosa, sempre uma palavra diferente da que eu esperava que você escolhesse. como “tiririca”,  “losna”, “pompons pink”, “flor fodida”, “titicas”. tem um rigor nas tuas palavras e ao mesmo tempo algo de informal e de lúdico. frases em um estilo mais alto e outras em um estilo mais descompromissado como quando você diz “meu peito esticado de burrice” e “complexo de vira-lata” que provoca uma sensação de meio termo entre o poético e o prosaico. me lembrou tanto o Ferreira Gullar, no poema sujo, pela espacialidade da palavra no papel; quanto o João Cabral de Melo Neto no rigor e na escolha de palavras que colocam o homem numa qualidade de construção, paisagem, objeto, como nos versos “na argamassa da língua” e “perdeu as carenagens”. teu livro é de alguma maneira, sobretudo, a saga dos VAGÕES situada na segunda parte(MONTUROS), dadas as devidas medidas, uma releitura mineira de “Morte e Vida Severina”, do João Cabral de Melo Neto. o homem que você traça se parece mais a um prédio ou uma máquina. também acontece o contrário, a cidade é viva como no poema VIADUTO DA BENEFICÊNCIA, em que o “viaduto arfa” e o “calçamento polido nos pés dos transeuntes/ não é heróico/ é de menos medo”  mostram essa hibridização da cidade em humana e do humano em pedra/asfalto/coisa inanimada. afinal, “por não ser utópico” ele “é curvo/ doente de levar doentes”. tudo está doente, a cidade e os homens. o asfalto e a pele. o interior das estruturas de concreto e os órgãos internos. a cidade que você traça representa justamente a distopía. Como em outro poema  A CIDADE AMARRADA À CINTURA em que  “o inverno seria sempre o mesmo/ não fosse o amassar as solas/ ao atravessar a passarela”, sempre esse movimento em que o homem e a cidade se chocam, se gastam como placas tectónicas. mas, se há movimento, há caminho, há vida. se é possível amassar as solas no asfalto da cidade, sobreviveremos ao inverno. e nesse movimento “que farei hoje com mais pesar/ levando a cidade demolida/ para dentro do museu”, o homem anda carregando entulhos, fragmentos da ruína. a cidade destrói o homem por dentro, cada rompimento de sua arquitetura é um ato de violência contra o corpo do homem, consequentemente contra sua vivência. cada recapeamento do asfalto é uma cicatriz na pele do homem. chacoalham nele demolições ao igual que vísceras. vísceras de pedra. o homem se torna um portador de destruições, as memórias perdidas da cidade habitando nele. “as varandas interditas/ e a cidade amarrada à cintura/ não é possível despejá-la”. a cidade é um hospedeiro no homem, um inquilino e não o contrário. se o homem fez a cidade com as próprias mãos, ela na verdade é algo que sempre esteve dentro dele, criada por e a partir dele. outra impressão que tive do seu livro é que ele tem uma voz que logo se percebe não ser a de um carioca e não falo isso de maneira pejorativa. acho muito curioso, na verdade. não sei o que seria escrever como um carioca, mas as experiências vividas pelo seu eu-lírico, principalmente na segunda parte do livro MONTUROS, da viagem, do acompanhamento do trem, das paisagens, desterritorializa esse eu-lírico. parece uma coisa meio retirante, a maneira como descreve as paisagens e essa busca de algo que sempre está no horizonte, mas o horizonte é infinito e essa coisa nunca chega. essa vivência da brutalidade da estrada e da dureza das coisas parece mais nordestina, no teu caso mineira, já que Minas tem divisa com o sertão. acho que é um livro pensado. os poemas tem todos uma coisa além, que você percebe que não conseguiu captar completamente, ainda precisa ler de novo, deixar dormir o livro. alguns versos que não marcam tanto são apenas o fòlego que se toma para fazer a linguagem suspirar, esses suspiros são próprios da poesia. queria compartilhar essas impressões, assim, de maneira informal mesmo, dar um feedback sem muita pompa. escrito em minúscula para que não pareça nada muito sério. sobre poesia não se fala muito sério. te mando o texto escrito como saiu. é isso rapaz.

tempos depois faço uma releitura do livro do Heyk

a volta ao livro e ao texto me surpreenderam. quando deixamos os livros e os textos dormirem, parece que a linguagem sonha e ao despertá-la encontramos novos olhares, novas impressões. quis manter o primeiro texto que te mandei e que espelha essa influência do tempo nas palavras e agora falar um pouco mais detalhadamente do seu livro, mantendo a mesma linha de não-especialista, ampliando e exemplificando coisas que disse anteriormente.

acho que teu livro tem três temas centrais: a casa, a cidade e o desterro. nesse sentido, o desterro perpassa os outros dois temas. esses três temas estão distrubuidos ao longo do livro não necessariamente na divisão que você deu a ele, estão diluídos. por isso O VIADUTO DA BENEFICÊNCIA, que está na segunda parte MONTUROS dialóga com o poema A CIDADE AMARRADA À CINTURA que fica na terceira parte VEIOS. mas com certeza a casa está muito mais presente em CASULO, o desterro em MONTUROS, e VEIOS é uma fusão da casa, da cidade e do desterro. o desterro na verdade, me parece o sentimento geral do livro. um desterro tão grande que faz com que o eu-lírico se sinta desterrado de seu corpo, desterrado da casa e desterrado na cidade. ou seja, houve um saque. a voz do livro é de alguém que foi saqueado, subtraído de alguma maneira desde o nascimento. seu estar no mundo é uma permanente diáspora/exílio/expatriação. que é muitas vezes o sentimento do poeta. o ser poeta é essa perda da pátria e ao mesmo tempo o ganho dela. a pátria do poeta é a língua, mas para que o seja, ele perde de alguma maneira a materialidade e, sobretudo, a naturalidade, a nacionalidade. perde o corpo, perde a casa, perde a cidade. seu nome é desterro. é, então, a poesia justamente essa “serpentina que nunca se desenrola até o fim” que o poeta tem como artifício e é para tentar desenrolá-la inutilmente até o final que o poeta continua escrevendo.

em CASULO é demonstrada a gestação da casa e na casa. uma casa que já não conseguia suportar a vontade de mundo. assim o livro abre com o verso “hoje não tem beleza nenhuma na casa”, porque a casa nem sempre é segurança, aconchego para os olhos. nem sempre há amor dentro da casa e justamente “agora que nossos piercings se encaixariam” as coisas desandam, desabam. “agora que minha casa é casa/ cabe você mil vezes/ e tem lugar pras suas crenças nas revistas de decoração”, logo “agora que o desespero já não é estilo”, a casa deixou de ser um lar. “os bichos da burocracia da casa/ apertando a carícia do peito contra/ a argamassa da língua”. a língua vai se tornando sólida, edificando e protege com toda sua dureza “meu figado de papel”. a poesia de um poeta pode ser seu figado de papel, assim como para Aquiles o calcanhar era fraqueza, mas a poesia também é casa. e, mesmo que “a casa perca as esperanças” e “só queria ter mãos/ para cobrir o rosto”, na poesia “toda cigarra é duas”. é preciso sair da casa para ouvir esse canto de cigarras multiplicadas. porque ninguém quer ser essa cigarra “que não viu as árvores de cima”.

em MONTUROS, já encontramos na primeira página a ‘Porcelana’ e isso tem algo de absurdo. tem algo mais triste do que encontrar “Porcelana” nos MONTUROS, isto é, no lixão? quem mais do que o poeta pode se ressentir do abandono da porcelana em um monturo, completamente descartada e esquecida? por isso essa escrita, “essa dureza não é força/ é deixar no balcão os papéis de garantia”. ao sair da casa, isto é, do CASULO, é preciso passar pelos MONTUROS para chegar à cidade e “segurar com o peito/ a tinta viva dos caminhões/ os arrebites do metrô” e cada vez fica mais claro que a cidade, o mundo, “é o continente que reza para explodir e ser ilha e ilhas”, mas “para isso há mar”. o consolo do poeta é que contra tudo “isso há mar” ou contra tudo isso amar. as duas possibilidades de leitura do último verso são promessas que a poesia oferece como esperança. logo depois, deparamos com o VIADUTO DA BENEFICÊNCIA, “o viaduto arfa” sustentando a plenos pulmões a correria da cidade, o peso da cidade, a poluição da cidade. “seu calçamento polido nos pés dos transeuntes” ainda “não é heróico/ é de menos medo” apenas. a cidade parece ao mesmo tempo a agressora e a vítima. porque destrói o homem e porque luta contra si mesma e contra o homem para se manter. “por não ser utópico”, o viaduto ou o homem? ou nenhum dos dois? a poesia segue unicamente “porque o metal/ nunca vencerá o asfalto”, nas palavras do Heyk, e porque uma flor sim, “Uma flor nasceu na rua!”, “Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”, nas palavras de Drummond. e mesmo que os caminhões nos atropelem, nos matem e nos impessam de atravessar as ruas “suas rodas/ são o motivo primeiro do alvorecer”.

a parte em que eu digo que sua experiência não vem de um carioca, Heyk, é a saga dos VAGÕES(I ao VII) fundalmentalmente. em que, me parece, é narrado todo esse percurso do retirante, do rapaz que saiu de Minas(me perdoe recorrer a dados biográficos para falar de tua poesia, isso não deve contar, estou pecando) e foi vendo gradativamente toda a decadência da malha ferroviária e na paisagem da cidade. vendo as letras MRS “sendo parte do cansaço/ do esquecimento/ dos vagões de minério/ que envelhecem” como “velhos que já não têm motivos”, “com os olhinhos diminuindo/ virando tartaruguinhas” e “tornando-se invisíveis”. os trens como “velhos que se desimportam/ deixam de ter passado/ esperam a erosão do orvalho” e são testemunhas dos fiéis que “tentando dar com tuba e caixa/ alguma alegria às velas amarelas” da procissão do desterro, fracassam em sua errância. e medem com os passos “o espaço que uma rodovia merece no meio da mata atlântica”, de uma BR-101 que “é estreita como a liberdade”. porque os vagões como as pessoas “são sempre abandonados/ e não podem ser esquecidos”. a poesia me parece uma tentativa de dar corda na vitrola e poder cruzar “o vinil réptil do mar”. assim como “os ciganos acampam para/ descampar”, “os sem terra acampam/ para ficar/ porque ficar é o sal do gado” e nesse sentido o poeta escreve para ficar também, porque a palavra é a raiz do poeta. e, ao escrever um poema, a experiência transforma esse desterro, esse ostracismo. só assim podemos ver que os vagões parecem destinados a levar o retirante para o campo de concentração do desterro ou para a estação da diáspora “mas não/  os vagões têm porte marcial/ são robustos como abraços” apenas. a poesia sensibiliza os vagões.

e finalmente os VEIOS de água que dão de beber à seca daqueles que vem do sertão de Minas ou as veias que revelam o que corre no corpo do poeta assim como Eduardo Galeano abriu as veias da América Latina. nesta parte se retomam alguns dos temas. você volta à casa “a casa de palha e plantas/ onde os livros adoeciam/ não cabiam mais na pele” onde as maritacas se encontravam com os bicos “curvos da miséria de não fazerem música”. para falar desse lugar distópico em que vivemos, onde o tempo “[trapezista de circo pobre/ o picadeiro de titicas]/ paira entre as árvores/ com as pernas cruzadas”. fala também do colchão onde “está 10 vezes meu volume” onde parece “o tempo pintasse/ em mãos alvas/ algum envelhecimento/ ou apagasse/ cada vez mais branco/ o amor”. da dificuldade da vida de casado na cidade “mas é você quem me come e guarda/ meus restos na mochila para depois” levando seus restos pelas ruas como um forma de se virar e resistir ao peso de uma CIDADE AMARRADA À CINTURA. afinal “nada tinha dado certo antes/ nem qualquer notícia/ no e-mail/ nenhum tapa nas costas/ de siga em frente poeta/ menino” e esse é um bom motivo para escrever um livro. “o vento/ é o mote dos dentes”, e a serpentina é o mote dos dedos.

Ps: você prediu que eu selecionasse três poemas centrais do livro, destaco quatro que me parece resumem bem diversas coisas que eu falei, são eles VIADUTO DA BENEFICÊNCIA, VAGÕES(II – o ferro carregando ferro que são), A CIDADE AMARRADA À CINTURA e 464.

Vinicius Varela

***

Bruna Mitrano (1985-)

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A linguagem é um campo de paina, mas também trincheira da poeta que com seus tubos da mais pura poesia-molotov, opera novas maneiras de estar no mundo e fazer dele um lugar melhor para si, o mundo em que habita e as gerações que ainda virão. Mas não nos deixemos enganar: a linguagem é uma autônoma, sem pretensão de carregar quaisquer funções preestabelecidas. Aliás, nada aqui é preestabelecido. A poesia é que é essencialmente positiva na nossa relação com o mundo. Não são – oxalá! – palavras bem-arranjadas na estante, mas palavras-potências que nascem, vivem, morrem e estão prontas a ressuscitar a cada leitura. [Não, trecho do prefácio]

Bruna Mitrano (1985) é desenhista, ativista cultural e escreve. Seu primeiro livro de poemas, Não, acaba de ser lançado pela Editora Patuá.

nina rizzi

***

houvesse a negativa
a rouquidão da mãe
seu dorso
os pelos revolvidos
aqueles dedos talvez
mas duas ou três historinhas mixurucas
e o oitavo branco esquimó.

gelo na língua: a cara lisa, lagrimando brasa, em riso esquizo cacarejento estala, essa dor do cão!

§

o garoto corre de chinelo,
depósito de ânsias apreendidas ou
ainda a convulsão de quem nada tem.
olhos graves lama-mangue
na cara preta salpicada de farelo de biscoito.
o garoto tão pequeno já sabe andar de ônibus –
livrai-nos do mal, mãe, dá conta santificada de seus filhos
e o bebê carrega sobre a barriga redonda como se nunca tivesse saído –
sozinho:
um homem construiu sua casa com as próprias mãos.
demoliram a casa e ergueram um muro.

§

quando ela fechou as pernas
a cigarra estourou de gritar
vinha de dentro
um silêncio que não se quisesse ver
um cabelo bruto
uma coisa boa macassá
quero me enfiar nele
naquele silêncio –
um bicho se olha pro outro enquanto come, é sobrevivência
não é competição.

§

a impertinência da cura.
arrancaram meus caninos,
tenho as gengivas suturadas à mostra.
de medo: tormenta

[mãos de pólvora afagando o fogo]

§

ela pediu pra eu não enlouquecer
parei de tomar os remédios pra tentar ser gente
mas uma chuva forte caiu
era janeiro
e me escorreguei
perdi o senso
disseram
é temporário
os tremores noturnos
a matriz de uma ânsia descabida
os rostos na janela
todas as noites
os rostos que catequizam as janelas
nas casas sem muro
não há o que se ver que não sobrecarregue a carne
o corpo ainda sente
curva-se ao inevitável
tomba no meio da rua e conclui
não se dá as costas pra morte
há sempre um diagnóstico
preto no branco
vou morrer de tempo ou
vou fazer o quê?
re:___________________.

§

tem espinhos na língua.
o encontro é quando lambe o racho da minha sola.
até que o primeiro lapso nos levante às pressas –
ensacamos entulhos com sutilezas de rancor.
nada que despossuímos sobrevive ao que gestamos.
é nesse escuro lúcido que soldamos as carnes?
sim, estaremos sempre sozinhos –
guardo nossos segredos com muitas mãos,
seu sangue seco nas minhas coxas.

§

rasgava a camisa com os dentes
a raiva desnudada de pavor
e se deixava à beira –
como adestrar a mão convulsa?
o mijo morno entre as cobertas era como peitos grandes pietá
aninhava-se no turbilhão do que era
reconhecia
seu corpo
erguendo à boca a própria armadilha
e lembrava das frutas que nasceram podres
as que nasceriam pra sempre.

§

choque
uns passos
segundo plano
acho que vi um milagre!
acho que vi!
as mãos estavam vazias
quando o homem louco
aos berros no meio da rua
esclareceu
o último gole
a raiva ainda alinhada –
é difícil, ele disse,
morrer.

***

1 versão pra linhas retas – Susana Thénon, por Nina Rizzi

 

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susana thénon (buenos aires/ argentina, 1937-1990). além de poeta, foi tradutora, ensaísta e fotógrafa artística. senhora de uma voz irônica, sua poesia não se assemelha a de nenhum outro conterrâneo, embora seja comumente associada , junto com alejandra pizarnik e juana bignozzi, a chamada geração de 60; não fez parte de nenhum grupo ou movimento literário, sua relação com os poetas de sua geração é quase nula, salvo exceções como maria negroni, que mais tarde compilou seus livros póstumos La Morada Imposible I y II, e alejandra pizarnik, com quem publicou na revista literária agua viva, nos anos 60 e uma de suas poucas amigas. a linha reta que se segue abaixo consta no volume La morada imposible (corregidor, 2001), que reúne as obras completas de susana thénon (1931-1991), em edicão de ana maría barrenechea e maría negroni.

p.s.: em 2013 traduzi o volume Susana Thénon: Habitante do Nada, que pode ser lido e baixado aqui!

a linha reta abaixo é uma primeira versão para o que não pode ser reto – soa estranho o maravilhamento; qualquer coisa entre o impossível y o necessário. a paixão o rastro y o fracasso.

***

 I

Eu creio nas Noites. – R. M. Rilke

Ontem à tarde pensei que nenhum jardim justifica o amor que se afoga desaforadamente em minha boca e que nenhuma pedra colorida, nenhum jogo, nenhuma tarde com mais sol que de costume, conseguem formar a sílaba, o sussurro esperado como um bálsamo, noite e noite.

Nenhum significado, nenhum equilíbrio, nada existe quando o não, o adeus, o minuto recém-morto, irreparável, se levantam inesperadamente e cegam até morrermos em todo o corpo, infinitos.

Como uma fome, como um sorriso, penso, deve ser a solidão, já que assim que nos engana e entra e assim a surpreendemos uma tarde reclinada sobre nós.

Como uma mão, como um recanto simples e sombreado deveria ser o amor para tê-lo perto e não desconhecê-lo cada vez que nos invade o sangue.

Não há silêncio nem que canção que justifiquem esta morte lentíssima, este assassinato que ninguém condena.

Não há liturgia nem fogo nem exorcismo para deter o fracasso risível dos idiomas que conhecemos.

A verdade é que me afogo sem penalidade, pelo menos resisti ao engano: não participarei da festa suave, nem do ar cúmplice, nem da metade da noite.

Mordo ainda e ainda que pouco se pode já, sorriso guarda um amor que assustaria a deus.

 

II

Voltará essa mulher de muitos nomes, sua morada sem olhos.

Ela gritava já nos corredores como um cardume de violinos raivosos, já se nutriam as gralhas-pretas de sua  beleza quando eu avançava pelos poentes de minha mãe, nua e mínima, para iniciar o grande erro.

Neste mundo, nesta pedra escura, não é crime te invocar, rasgar tua pálpebra de luz com amor, com implacáveis anzóis?

Somos pequenas mortes em tua morte?

Ou nos recebe como sombras em tuas costas de sombra, em teu silêncio acostumado ao mar?

Não: chega aqui com teu murmúrio ao redor, que nos ama, depois de tudo, com a clara paciência de um rio, você, cercada de vento, rosto de alma.

 

III

vento nas torres do rio oeste ri distante a boca extinta empapado em suor o corpo busca uma cabeça de chacal nos pátios se acende o nome oculto vibra a noite (por que meu amor este poema vazio ) sob a lua de metal o galo sonha aglomeradas vigílias (por que meu amor esta casa de ar)

 

IV

as palavras em branco rabiscadas repletas malqueridas as palavras aceitam ao que escreve convertemos cada noite em palavra?

altas mentiras?

tetos de ar que abrigam para não te recordar a cada passo que a raposa está no encalço e permite no entanto que escape?

corre sim corre queima a estopa de tua liberdade e anseia grades mas onde há grades?

só há estranhamento e te faço senhas e alguma vez há flores ou espessura de sol quão longe estou dentro de mim nunca te disse: sou um infinito disfarçado de osso corre corre te busca solta os deuses pelo rastro corre corre te inventa solta as fúrias pelo rastro e alguma vez há luzes ou ferradura de amor (altas mentiras) (redenções do barro) as palavras proféticas riscadas gravemente feridas as palavras atrapalham ao que escreve.

§

I

 Yo creo en las Noches. R. M. Rilke

 Ayer tarde pensé que ningún jardín justifica el amor que se ahoga desaforadamente en mi boca y que ninguna piedra de color, ningún juego, ninguna tarde con más sol que de costumbre alcanzan a formar la sílaba, el susurro esperado como un bálsamo, noche y noche.

 Ningún significado, ningún equilibrio, nada existe cuando el no, el adiós, el minuto recién muerto, irreparable, se levantan inesperadamente y enceguecen hasta morirnos en todo el cuerpo, infinitos.

 Como un hambre, como una sonrisa, pienso, debe ser la soledad puesto que así nos engaña y entra y así la sorprendemos una tarde reclinada sobre nosotros.

 Como una mano, como un rincón sencillo y umbroso debería ser el amor para tenerlo cerca y no desconocerlo cada vez que nos invade la sangre.

 No hay silencio ni canción que justifiquen esta muerte lentísima, este asesinato que nadie condena.

 No hay liturgia ni fuego ni exorcismo para detener el fracaso risible de los idiomas que conocemos.

 La verdad es que me ahogo sin pena, por lo menos he resistido al engaño: no participé de la fiesta suave, ni del aire cómplice, ni de la noche a medias.

 Muerdo todavía y aunque poco se puede ya, sonrisa guarda un amor que asustaría a dios.


II

 Volverá esa mujer de muchos nombres, su mirada sin ojos.

 Ella gritaba ya en los corredores como un cardumen de violines rabiosos, ya se nutrían las cornejas de su hermosura cuando avanzaba yo por los puentes de mi madre, desnuda y mínima, para iniciar el gran error.

 En este mundo, en esta piedra oscura ¿no es crimen invocarte, rasgar tu párpado de luz con amor, con despiadados anzuelos?

 ¿Somos pequeñas muertes en tu muerte?

 ¿O nos recibes como a sombras en tu espalda de sombra, en tu silencio acostumbrado al mar?

 No: he aquí que llegas con tu murmullo alrededor, que nos amas, después de todo, con la clara paciencia de un río, tú, circuída de viento, rostro de alma.


III

 viento en las torres del oeste ríe lejana la boca extinta empapado en sudor el cuerpo busca una cabeza de chacal en los patios se enciende el nombre oculto vibra la noche (por qué mi amor este poema vacío) bajo la luna de metal el gallo sueña aglomeradas vigilias (por qué amor mío esta casa de aire)


IV

 las palabras en blanco borroneadas repletas malqueridas las palabras acechan al que escribe ¿convertiremos cada noche en palabra?

 ¿altas mentiras?

 ¿techos de aire que alberguen para no recordarte a cada paso que el zorro está en la huella y permite que escapes todavía?

 corre sí corre quemas la estopa de tu libertad y anhelas barrotes pero ¿dónde hay barrotes?

 solo hay ajenidad y te hago señas y alguna vez hay flores o espesura de sol qué lejos estoy dentro de mí nunca te dije: soy un infinito enmascarado de hueso corre corre búscate suelta a los dioses por el rastro corre corre engéndrate suelta a las furias por el rastro y alguna vez hay luces o herradura de amor (altas mentiras) (redenciones del barro) las palabras proféticas tachadas malheridas las palabras atrapan al que escribe.

***

Jota Mombaça (1991-)

jota2

“todas as cidades são inóspitas”, meu amor

soterram eu y tú y elx mombaça, ciborgue no i-mundo

em natown, cidade alagadiço fronteiriça; a pior cidade baldo desde drésden

elx atravessa o poema corpo-colônia

em hellcife, cidade alagadiço fronteiriça; a pior cidade baldo desde drésden

elx desrritorializa o poema  gordopass

em cempausycinzas, cidade alagadiço fronteiriça; a pior cidade baldo desde drésden

elx abre o poema 1 ku

em fodaleza, cidade alagadiço fronteiriça; a pior cidade baldo desde drésden

elx fode o poema essa cartografia do desterro

& em qinghai & anse-à-galets & novukuznetski & beira ou chimoio

em todo & qualquer lugar que pisa jorrajogaexplode:

um petardo nas consciências tranquilas,

 

“Eu não tinha onde fazer arte. Não tinha formação. Não tinha formatura. Fazer passar intensidades de artista por um [espaço vazio] se transformou em meu ofício. Faço isso desde que me entendo – incerto, variegado, cambiante. O que tenho para chamar de obra são resíduos dessas passagens intensivas que conduzem a territórios variados: políticas da cidade, políticas da subjetividade, da sexualidade, políticas poéticas, e algo sobre viver a vida como uma forma inacabada de arte.” // estamos a te verouvir, monstrx:

Jota Mombaça que é chamadx Monstrx, K-trina, Erratik. y lemos:
umx one hit artist pop guerrilheirx, bruxx políticx, performer e pesquisadorx del kuir em contextos sudakas, terceiro-mundistas, transfronteiriços e de mestiçagem estética, ética, visual, linguística, política, étnica, sexual e epistêmica.
y ouvimos:

K-trina Errátik a compor pop-guerrilhas como declaração de guerra das bichas do terceiro mundo. pode brechar 😉

nina rizzi

 ***

O ESTADO DA ARTE E O DESERTO DO COMUM

 

meia-palavra aos leitores hipócritas
(21/7/2011)

Críticos de arte, intelectuais, nobres, acadêmicos, políticos, pagãos e crentes, artistas, bobos da corte, produtores culturais, músicos, escribas servis, colunistas imbecis, cartunistas, detratores, cegos e videntes, libertários velhos e seus filhos publicitários, publicitários, todos os publicitários, empresários, donos de bares, bares, médicos e doentes, atores, fingidores, maquiadores, idiotas coroados, enterrados e expoentes.

 §

 

artistas do mercado de trabalho, uni-vos !
(24/9/2011)

dai-vos as mãos
agora.

depois silêncio nas antessalas,
passos em falso,
minas no quintal de casa –
acirradas competições para eleger a obra
mais bem paga.

dai-vos as mãos
depressa.

antes de desafinar a ópera,
narinas de platina,
veias desertas na cidade –
enormes zumbis de concreto
velho.

dai-vos as mãos
sem medo.

e fechem os olhos,
e rasguem a língua.
com a benção dos padres,
se encham de publicidade (!)
da felicidade
na publicidade.

  §

 

com carinho
(28/1/2014)

 onde está você, cachorro magro?

terá deslizado das prateleiras, escritor mal vendido,
soterrado sem vida no amontoado de livros de uma loja de departamentos,
onde outrora um outro fixou olhares num retrato de Anna Akhmátova?

ficou preso às elipses, encurralado nos armários,
triste e infame, passando da meia-idade,
com os olhos vidrados, numa sala secreta do prédio do governo?

resíduo de cidade, por onde você caminha agora?

de um confinamento a outro, miserável mas sadio, é verdade que anda gordo,
comendo os rabos mais fáceis, e se perguntando se teria sido grande
caso tivesse ousado escrever as coisas caladas em respeito ao pai?

pergunte ao pó, cachorro magro, da tua geração em frangalhos,
conte os cacos e as condecorações, faça a matemática.

quanto mais esperaremos para que tua memória, teus livros,
tuas aspirações de grandeza, tua carne cinza,
sequer se deduzam da geografia arruinada da terra natal?

ou você também procurará bumbas-meu-boi na night zombie da metrópole?
e forjará folclores, enquanto eu chupo tuas bolas e outros escuros?

  §

 

 o deserto do comum
(7/9/2016)

entre a luta e a estética
nos farão pagar com sangue todos os pedágios

em coquetéis, bienais,
eventos importantes,
pagaremos – e é incontornável que paguemos –
com sangue todos os pedágios

a dívida histórica, nós a pagaremos
com sangue, porra ou outra função da carne
e em vez de contê-la, prolongaremos
de modo que ainda por muito tempo
para contornar a extensão do império
e passear entre as gentes e mundos
tenhamos de pagar com nosso sangue
todos os pedágios

se equilibrar por pontes precárias
entre um penhasco e outro

cada dia mais longe de casa
e por tão pouco

“estamos vencendo!”

 ***

Derek Walcott, por Alberto Pucheu

derek-walcott

            Era 1990. Em um dos dias de tal ano, eu havia comprado a Norton Anthology of Modern Poetry, com suas quase 2.000 páginas de poesia de língua inglesa, e deixado-a em cima do colchão, que ficava direto por sobre os tacos de madeira.

            Enquanto eu fazia algo na sala, minha mulher de então me chamava do quarto, dizendo-me que tinha aberto a antologia ao acaso e lido um poema que eu iria adorar. Foi assim, com o poema entregue para mim pela sorte e pelo amor, que li pela primeira vez Derek Walcott. “Winding up” me tocou intimamente como poucos outros, retornando em diversos momentos de minha vida como um horizonte, como um desses poemas que a cada vez e sempre me concernem com muita força, como se nele houvesse um modo de maturidade que me lança em direção a ele, uma vida de fato dita em poema (como não poderia se dar em nenhuma outra instância) em um grau muito extremo.

            Nunca me senti confortável em nenhuma língua para ser de fato tradutor, nunca tive o desejo de ser tradutor, mas, talvez exatamente por isso, aquele poema, que amei imediatamente, me trouxe a necessidade de, no mesmo momento em que o li pela primeira vez, ouvi-lo em português, de refazê-lo para que ele soasse em minha língua, de modo ainda mais íntimo de mim. Nos 24 anos que então tinha, traduzi-lo era como poder, de alguma maneira, ter a sensação de ter escrito o poema que tinha amado.

            Traduzi alguns outros de seus poemas da antologia, como, para dar apenas um exemplo, “Codicil”, que eu também achara maravilhoso. Nos dias seguintes, encomendei o Collected poems e, depois, Omeros. Quando o primeiro chegou, traduzi mais alguns poemas. Foi a única vez na vida em que traduzi poemas voluntariamente, todos eles escolhidos por amor, sendo escolhido pelo amor daqueles poemas.

            Dois anos depois, em 1992, Derek Walcott ganhou o Prêmio Nobel. Quase ninguém o conhecia por aqui. Silviano Santiago, que sabia que eu havia traduzido alguns poemas do caribenho, generosamente me indicou para fazer um texto com uma tradução ou outra para a revista Ciência Hoje, que lhe havia pedido um pequeno ensaio sobre o ganhador do respectivo prêmio. Um dos poemas que traduzi foi publicado no Caderno Ideias do Jornal do Brasil. Eu enviara acho que três poemas, entre os que eu escolhera simplesmente por amor a eles, tanto em inglês quanto as traduções, para a Folha de São Paulo, mas nesse jornal tive menos sorte: um de seus editores culturais, que era poeta, recebendo os originais por mim enviados junto com minhas traduções, realizou, ele mesmo, traduções dos poemas que eu mandara e as publicou imediatamente no jornal (e em sequência em livro), sem qualquer menção a mim.

            Hoje, duas décadas e meia depois desses acontecimentos, a poeta, tradutora e amiga Nina Rizzi me convida para publicar algumas dessas traduções na escamandro. Envio o arquivo para ela, de modo que ela escolha o que quer publicar, dizendo-lhe que não vou nem posso retornar às traduções, que não quero nem relê-las com o compromisso de ver a pertinência delas; peço igualmente a Nina para só publicar se ela achar que as traduções são minimamente aprováveis, pedindo-lhe apenas para não me deixar passar vergonha. Como disse repetidamente, elas foram feitas simplesmente por amor, pelo desejo de aprender com aqueles poemas, pelo desejo de lê-los em minha língua – talvez, lidas dessa maneira, elas possam tocar algumas outras pessoas que não conhecem Derek Walcott e que não podem ler em inglês.

             Derek Walcott, poeta, dramaturgo e ensaísta, nasceu em 1930, em Castries, na ilha de Santa Lucia. Formou-se na Universidade das Índias Ocidentais, na Jamaica, e em 1957 obteve uma bolsa para estudar teatro nos Estados Unidos. Em 1992, tornou-se o primeiro escritor caribenho a receber o prêmio Nobel de literatura. Viveu em Londres e em Trinidad, e durante muitos anos dividiu seu tempo entre a ilha de Santa Lucia e os Estados Unidos, onde lecionou na Universidade de Boston até se aposentar, em 2007.

            Alberto Pucheu (Rio de Janeiro, 25 de fevereiro de 1966) é poeta e ensaísta brasileiro, Professor de Teoria Literária do Departamento e do Programa de Pós-Graduação de Ciência da Literatura da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Seu livro de poemas A fronteira desguarnecida foi vencedor do Programa de Bolsas para Escritores Brasileiros, da Fundação Biblioteca Nacional, e o de ensaios Pelo colorido, para além do cinzento; a literatura e seus entornos interventivos recebeu o Prêmio Mário de Andrade de Ensaio Literário, da Fundação Biblioteca Nacional. Tem publicado ensaios em diversos livros, nos principais periódicos acadêmicos brasileiros e em portais nacionais e internacionais de literatura, bem como resenhas e poemas. Em 2011, teve 20 das fotografias que vem tirando de frases grafitadas em ruas de diferentes cidades do mundo expostas, sob o título de Paisagens urbanas quase sem paisagens, no evento internacional ArteFórum, sob a curadoria de Beatriz Rezende, e realizou, em julho de 2011, a instalação Palavras, na OI Futuro de Ipanema, no projeto Poesia Visual, sob a curadoria de Alberto Saraiva (essa série de exposições e instalações contou também com mostras de Ferreira Gullar, Antonio Cicero, Wladimir Dias Pino, Tadeu Jungle, Helena Trindade, Roberto Corrêa dos Santos e Lúcio Agra). Página pessoal: http://www.albertopucheu.com.br/

***

Winding Up

 I live on the water,
alone. Without wife and children,
I have circled every possibility
to come to this:

a low house by grey water,
with windows always open
to the stale sea. We do not choose such things,

but we are what we have made.
We suffer, the years pass,
we shed freight but not our need

 for encumbrances. Love is a stone
that settled on the sea-bed
under grey water.  Now, I require nothing

 from poetry but true feeling,
no pity, no fame, no healing. Silent wife,
we can sit watching grey water,

 and in a life awash
with mediocrity and trash
live rock-like.

I shall unlearn feeling,
unlearn my gift.  That is greater
and harder than what passes there for life.

 

Desfecho

Vivo nas águas,
solitário. Sem mulher nem filhos.
Atravessei todas as possibilidades
para chegar até aqui:

pequena casa em água cinza,
janelas sempre abertas
para o velho mar.  Não escolhemos o destino,

mas somos o que fizemos.
Sofremos, os anos passam,
lançamos a carga fora, mas não a necessidade

de obstáculos. O amor é uma pedra
no leito do mar
debaixo da água cinza.  Agora, nada mais quero

da poesia senão o coração.
Não quero a piedade nem a fama nem a cura.  Silenciosa
esposa, contemplamos a água cinza,

e numa vida repleta
de mediocridade e lixo
vivemos como rocha.

Devo desaprender sentimentos,
esquecer meu dote.  Isto é maior
e mais difícil do que o que se entende por vida.

§

 

MAP OF THE NEW WORLD

I Archipelagos

At the end of this sentence, rain will begin.
At the rain’s edge, a sail.

Slowly the sail will lose sight of islands;
into a mist will go the belief in harbours
of an entire race.

The ten-years war is finished.
Helen’s hair, a grey cloud.
Troy, a white ashpit
by the drizzling sea.

The drizzle tightens like the strings of a harp.
A man with clouded eyes picks up the rain
and plucks the first line of the Odyssey.


MAPA DO NOVO MUNDO

Arquipélagos, I

Ao fim desta frase, começará a chover.
Pela margem da chuva, um barco.

Veleiro longeando a visão das ilhas;
a crença nos portos de toda uma raça
adentra a neblina.

A guerra de dez anos finda.
O cabelo de Helena, uma nuvem cinza.
Tróia, fosso branco
no mar garoante.

Os pingos se esticam como cordas de harpa.
Um homem de olhos brumosos colhe a chuva
e brota a primeira linha da Odisséia.

§

 

Midsummer, Tobago

 Broad sun-stoned beaches.

White heat.
A green river.

A bridge,
scorched yellow palms

from the summer-sleeping house
drowsing through August.

Days I have held,
days I have lost,

days that outgrow, like daughters,
my harbouring arms.


Verão, Tobago

Praias de claro sol mineral.

Calor branco.
Um rio verde.

Uma ponte,
palmeiras amarelas ressecadas

da casa-de-verão
dormindo através de Agosto.

Dias que guardei,
dias que perdi,

dias que cresceram, como filhas,
para além do abrigo de meus braços.

 §

 

Names

(for Edward Brathwait)

              I

My race began as the sea began,
with no nouns, and with no horizon,
with pebbles under my tongue,
with a different fix on the stars.

But now my race is here,
in the sad oil of Levantine eyes,
in the flags of the Indian fields.

I began with no memory,
I began with no future,
but I looked for that moment
when the mind was halved by a horizon.

I have never found that moment
when the mind was halved by a horizon –
for the goldsmith from Benares,
the stonecutter from Canton,
as a fishline sinks, the horizon
sinks in the memory.

Have we melted into a mirror,
leaving our souls behind?
The goldsmith from Benares,
the stonecutter from Canton,
the bronzesmith from Benin.

A sea-eagle screams from the rock,
and my race began like the osprey
with that cry,
that terrible vowel,
that I!

Behind us all the sky folded,
as history folds over a fishline,
and the foam foreclosed
with nothing in our hands

but this stick
to trace our names on the sand
which the sea erased again, to our indifference.

              II

And when they named these bays
bays,
was it nostalgia or irony?

In the uncombed forest,
in uncultivated grass
where was there elegance
except in their mockery?

Where were the courts of Castille?
Versailles’ colonnades
supplanted by cabbage palms
with Corinthian crests,
belittling diminutives,
then, little Versailles
meant plans for a pigstry,
names for the sour apples
and green grapes
of their exile.

Their memory turned acid
but the names held;
Valencia glows
with the lanterns of oranges,
Mayaro’s
charred candelabra of cocoa.
Being men, they could not live
except they first presumed
the right of every thing to be a noun.
The African acquiesced,
repeated, and changed them.

Listen, my children, say:
moubain: the hogplum,
cerise: the wild cherry,
baie-la: the bay,
with the fresh green voices
they were once themselves
in the way the wind bends
our natural inflections.

These palms are greater than Versailles,
for no man made them,
their fallen columns greater than Castille,
no man unmade them
except the worm, who has no helmet,
but was always the emperor,

and children, look at these stars
over Valencia’s forest!

Not Orion,
not Betelgeuse,
tell me, what do they look like?
Answer, you damned little Arabs!
Sir, fireflies caught in molasses.

 

NOMES

(para Edward Brathwait)

              I

Minha estirpe começou como o mar,
sem nomes, sem horizonte,
com seixos debaixo de minha língua
e uma outra leitura das estrelas.

Agora, eis minha estirpe
nos olhos tristes do Levantino,
nas bandeiras dos campos indianos.

Comecei sem memória,
comecei sem futuro,
procurei pelo momento
em que a mente se perdesse no horizonte.

Nunca encontrei o momento
em que a mente se perdesse no horizonte –
para o ourives de Benares,
para o lapidador de Cantão,
o horizonte mergulha, como linha
de pesca, na memória.

Teremos nos dissolvido num espelho
largando nossas almas para trás?
O ourives de Benares,
o lapidador de Cantão,
o ferreiro de Benin.

Uma águia-marinha grita da rocha,
minha estirpe começou como a águia
e seu grito,
as terríveis vogais
E – U!

O céu se dobrou atrás de nós
como a história se dobra sobre a linha de pesca,
e a espuma, dobrando-se, executou a penhora:
sem nada em nossas mãos

senão este graveto
a traçar nossos nomes na areia
que o mar torna a apagar, para nossa indiferença.

II

E quando nomearam estas baías
baías,
foi nostalgia ou ironia?

Na floresta despenteada,
na relva inculta,
onde haveria graça
senão no cômico?

Onde estariam as cortes de Castela?
As colunatas de Versalhes
trocadas por folhas de repolho
com elmos coríntios,
diminutivos degradados,
pequena Versalhes, então,
significava projetos para chiqueiros,
nomes para maçãs azedas
e uvas verdes
do exílio.

A memória fez-se ácido
mas os nomes ficaram;
Valência brilha
com lanternas de laranjas,
o candelabro de Mayaro
carbonizado de cacau.
Sendo homens, só poderiam viver
presumindo o direito
de todas as coisas terem nome.
Os Africanos os aceitaram,
os repetiram e os transformaram.

Escutem, crianças, digam:
moubain: o cajá,
cerise: a cereja silvestre,
baie-la: a baía;
um dia, com verdes vozes frescas,
foram eles mesmos –
como o vento que curva
nossos tons naturais.

Estas palmeiras são maiores que Versalhes,
nenhum homem as construiu,
suas colunas suspensas maiores que Castela,
nenhum homem as destruiu,
mas apenas o verme, que, sem capacete,
foi sempre o imperador.

Crianças, olhem as estrelas
sobre a floresta de Valência!

Não é Órion,
não é Betelgeuse,
digam-me, o que parecem?
Respondam, pequenos árabes malditos!
Senhor, vaga-lumes no melaço.

§

 

Endings

Things do not explode,
they fail, they fade,

as sunlight fades from the flesh,
as the foam drains quick in the sand,

even love’s lightning flash
has no thunderous end,

it dies with the sound
of flowers fading like the flesh

from sweating pumice stone,
everything shapes this

till we are left
with the silence that surrounds Beethoven’s head.


Fins

Coisas não explodem,
definham, fenecem,

como a luz do sol some da carne,
como a espuma seca na areia,

mesmo o relâmpago do amor
não finda em trovões,

morre com o som
das flores fenecendo como a carne

da sudorífera pedra-pomes,
é esta a forma de tudo

até que nos sobra apenas
o silêncio que transborda da cabeça de Beethoven.

§

 

Preparing for Exile

Why do I imagine the death of Mandelstam
among the yellowing coconuts,
why does my gift already look over its shoulder
for a shadow to fill the door
and pass this very page into eclipse?
Why does the moon increase into an arc-lamp
and the inkstain on my hand prepare to press thumb-downward
before a shrugging sergeant?
What is this new odour in the air
that was once salt, that smelt like lime at daybreak,
and my cat, I know I imagine it, leap from my path,
and my children’s eyes already seem like horizons,
and all my poems, even this one, wish to hide?


Preparando para o Exílio

Por que invento a morte de Mandelstam
entre coqueiros amarelos,
por que meu dom procura sobre os ombros
uma sombra que ocupe a porta
e faça na página eclipse?
Por que a lua cresce no arco da lâmpada
e o borrão no meu dedo grava a digital
diante de um sargento indiferente?
Que novo odor no ar é este
que já foi sal, que cheirou a lima na aurora,
e meu gato, sei que invento, pula do meu caminho,
e os olhos de meus filhos parecem horizontes,
e o que querem meus poemas, mesmo este, esconder?

§

 

Iona: Valle Mabouya

 IV

[for Eric Brandford]

Ma Kilman, God will punish you,
for the reason that you’ve got too much religion.
On the other hand, God will bless you,
God will bless you because of your charity.

Corbeau went to Curaçao,
he sent you money back,
you took the same money
and put it in a rumshop.
You can’t read, you can’t write, you can’t speak English,
you should know that rumshops make no profit.
When Corbeau came back,
he had, yes he had money,
when he arrived back here.
Yes, Mama, Corbeau’ll go crazy!

Iona told Corbeau, while you were in Curaçao,
I made two little children, come and see if they’re yours.
Corbeau cried out, “Mama! Good night, ladies and gentlemen,
light the lamp there for me,
for me to look at these kids!”
Corbeau came back and said, “I know niggers resemble,
they may or may not be mine,
I’ll mind them all the same!”

Ah yes, Corbeau then left, he went down to Roseau,
he went to look fo work, to mind the two litte ones.
Iona told Corbeau, don’t go down to roseau.

But he went to Roseau, and Roseau’s whores fell on him.
Philippe Mago brought Corbeau a saxophone,
he had no time to play the sax,
a saxman just like him took away his living.

Saturday morning early, Corbeau goes into town.
Saturday afternoon we hear Corbeau is dead.
That really made me sad, that really burnt my heart;
that really went through me when I heard Corbeau was dead.

Iona said like this: it made her sorry too,
it really burnt her heart, that the saxophone will never play.

I heard a horn blowing
by the river reeds down there.
“Sweetheart”, I said, “I’ll go looking
for flying fish for you.”
When I got there, I came across Corbeau.
He said: “That horn you heard
was Iona horning me.”

The guitar man’s saying:
“We both are guitar men,
don’t take it for anything,
we both holding the same beat.”

Iona got married, Sunday at four o’clock.
Tuesday, by eight o’clock, she’s in the hospital.
She made a fare, her husband broke her arm.
When I meet your mother,
I’ll tell what you did me.
Iona!
(I’ll tell your mama!)
Iona!
(You don’t listen to me!)

Thre days and three nights
Iona boiled, she’s still not cooked.
(I’ll tell her mother that).
They say Iona’s changed,
it isn’t changed Iona’s changed,
she’s wicked, wicked, that’s all,
Iona!

 

Iona: Vale Mabouya

 IV

 [para Eric Brandford]

Ma kilman, Bom Deus a punirá
por você ser tão religiosa.
Mas também, Bom Deus a abençoará,
Bom Deus a abençoará por sua caridade.

Corbeau foi a Curaçao,
lhe mandou dinheiro,
você pegou o dinheiro
e abriu um cabaré.
Você não sabe ler nem escrever nem falar Inglês,
você devia de saber, cabaré não dá lucro.
Quando Corbeau voltou,
tinha muito, muito dinheiro,
quando voltou pra cá.
Minha Nossa! Corbeau vai pirar!

Quando você estava em Curaçao, Iona disse a Corbeau,
tive dois filhos, venha ver se são seus.
Courbeau gritou, “Boa noite, senhoras e senhores,
acendam a luz para mim,
para eu ver estas crianças!”
Corbeau virou-se e disse, “Crioulo é tudo igual,
não sei se são meus,
mesmo assim, vou cuidar deles!”

Corbeau saiu, desceu para o Roseau,
foi procurar trabalho, para cuidar dos pequeninos.
Não vai para o Roseau, Iona disse a Corbeau.

Mas ele foi para o Roseau, as putas gostaram.
Philippe Mago lhe trouxe um saxofone,
Corbeau não teve tempo para tocá-lo,
outro saxofonista tirou-lhe a vida.

Manhã de sábado, Corbeau desce para a cidade.
Tarde de sábado, Corbeau está morto.
Fiquei triste, com o coração apertado;
Foi dentro do estômago que senti a morte de Corbeau.

Iona disse que também ficou triste,
seu coração apertou, o saxofone não tocará mais.

Escutei um sopro no som
vindo da tromba do rio.
“Querida”, eu disse, “Vou pegar
um peixe-voador para você”.
Quando cheguei lá, encontrei Corbeau.
Ele disse: “O sopro que você escutou
eram sussurros de Iona”.

O guitarrista dizia:
“Somos ambos da guitarra,
entenda,
tocamos o mesmo ritmo”.

Domingo às quatro, Iona se casou.
Terça, às oito, ela está no hospital.
Ela preparou a comida, seu marido lhe quebrou o braço.
Quando encontrar sua mãe,
direi o que você me fez.
Iona!
(Direi para sua mãe!)
Iona!
(Você não me escuta!)

Iona ferveu por três dias
e três noites, e ainda não está cozida.
(Contarei isto para sua mãe.)
Disseram que Iona mudou,
não é mudança a mudança de Iona,
ficou malvada, malvada, só isso,
Iona!

§

 

A Far Cry from Africa

A wind is ruffling the tawny pelt
Of Africa. Kikuyu, quick as flies,
Batten upon the bloodstreams of the veldt.
Corpses are scattered through a paradise.
Only the worm, colonel of carrion, cries:
“Waste no compassion on these separate dead!”
Statistics justify and scholars seize
The salients of colonial policy.
What is that to the white child hacked in bed?
To savages, expendable as Jews?

Threshed out by beaters, the long rushes break
In a white dust of ibises whose cries
Have wheeled since civilization’s dawn
From the parched river or beast-teeming plain.
The violence of beast on beast is read
As natural law, but upright man
Seeks his divinity by inflicting pain.
Delirious as these worried beasts, his wars
Dance to the tightened carcass of a drum,
While he calls courage still that native dread
Of the white peace contracted by the dead.

Again brutish necessity wipes its hands
Upon the napkin of a dirty cause, again
A waste of our compassion, as with Spain,
The gorilla wrestles with the superman.
I who am poisoned with the blood of both,
Where shal I turn, divided to the vein?
I who have cursed
The drunken officer of British rule, how choose
Beteween this Africa and the English tongue I love?
Betray them both, or give back what thy give?
How can I face such slaughter and be cool?
How can I turn from Africa and live?


Um Grito Distante da África

O vento rufa o couro curtido
Da África. Kikuyu, tal mosca célere,
Devora o fluxo sanguíneo da estepe.
Defuntos se espalham num paraíso.
Senhor da carniça, só o verme grita:
“Não tenham compaixão por estes mortos!”
Técnicos e acadêmicos comprovam
As marcas da política colonial.
O que pensam, com medo, as crianças brancas?
E os selvagens, fartos como os judeus?

Batidos no pilão, os longos juncos
Mostram um pó branco de íbis que grasnam,
Desde a aurora da civilização,
No rio seco ou na planície fértil
De bestas. A violência da besta
Sobre a besta é a lei natural, mas,
em pé, o homem procura a divindade
pela dor. Delirantes como as bestas,
suas guerras dançam para o tambor,
E para ele é força o medo nativo
da paz branca às custas dos próprios vivos.

Outra vez, a necessidade bruta
Passa as mãos no lenço da causa suja,
Outra vez, nossa compaixão desgasta-se,
Como com a Espanha, o gorila contra o super-homem.
Eu, envenenado com sangue de ambas,
Dividido até as veias, pra onde vou?
Eu que xinguei
O bêbado oficial inglês, como escolher
Entre esta África e a língua inglesa que amo?
Traí-las, ou devolver o que dão?
Como encarar tal chacina e sorrir?
Como dar as costas a África e viver?

§§§