poesia

Victor Squella

squella

 

Victor Squella [1994] nascido em junho no Rio de Janeiro, onde vive atualmente, escreve e traduz. Publica, pela 7letras, seu primeiro livro, a ser lançado no dia 28/10 na Lado7 [Galeria Vitrine de Ipanema. Rua Visconde de Pirajá, 580, 3º andar].

Abaixo, alguns poemas de Escápula [7letras, 2019].

*

Conto de Verão

começa com um nome
dizendo um nome
até dar coisa
ao nome
dizer até que apareça
algum tom—cor—
até tornar terra
e então aos poucos
água e alguns relevos

dizer o lugar
e repetir
até que o nome
seja lugar
que o trem seja
apenas língua

não é que não se possa
viajar ao nome
mas os trilhos
já não parecem mais
caber no espaço entre
o dente e a língua

pode-se sempre
prometer que
sim
iremos
tomar o trem
que os trilhos
irão sustentar
nossas bocas
até chegar ao nome

*

pense na medusa e em eros
deixe para lá pentesileia,
suas máquinas de guerra
medusa e eros eram belíssimos
eles eram quase
uma outra coisa

cabelos-serpentes
asas enormes

diga-me isso não são monstros
isso não te aterroriza?

e me diga que isso
não é paixão
não é desejo
?

pense que pentesileia foi
aterrada
ao ver aquiles

agora pense no poema de paulo
ele diz:
a água é boa e o ar é bom. / a carne é terra: também soa, / também sobe às nuvens, certo, // e arde como a chama mais impura. / porém é terra. e só palavras-terra / me aterram.

e sim só palavras-terra
aterram
e a terra é carne: também soa

eros the melter of limbssappho diria em resposta
não em sua língua
mas na de anne carson

*

correspondência: gênese da mirabelle

Hoje usei a mesma bermuda que usamos
no dia em que cruzamos
linhas

que separam uma terra da outra
Lá não falavam a minha ou a tua
língua era outra mas certas palavras

ou nomes nos confundiam
pela sua semelhança
pois todas as três línguas estranhas

entre si dividiam a gênese latina
E de uma língua para outra bastava
um trem com exceção de uma separada das outras

por um oceano
Poderíamos listar aqui como fizemos
lá o que une as três línguas

O latim
O mar
As praias

Mas não
não seria suficiente para dizer da confusão
que fazíamos quando queríamos pedir

algo para refrescar o calor
e nem mesmo a água parecia gelada o suficiente
nem mesmo a praia parecia o lugar ideal

para aquele sol e é por isso que te escrevo
Pois encontrei um punhado de areia
na bermuda que usamos

naquele dia ou naqueles dias naquela cidade
pois pedi que me deixasse com aquilo
com aquela bermuda que tinha a mesma cor

da fruta que comemos sem saber o nome
e ficamos sem saber por dias
sabendo apenas do sabor

O sabor me vestia bem mas a cor
não nunca me vestiu bem e mesmo
a bermuda sendo sua continuei

a não saber vestir aquela cor
por culpa da pele e por culpa
da cintura que não cabem

neste tom de amarelo escuro
que alguns chamariam de vermelho
como chamam aquela fruta selvagem

que viajou da Anatólia até chegar àquela
cidade e receber o nome
Mirabelle que poderia ser o mesmo

da mulher que as cultivava e que
as ofereceu dizendo
coisas velozes

e não sabíamos nunca onde começava
ou
terminava uma

palavra

 

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crítica, poesia, xanto

XANTO|Poesia brasileira, livros da década: partes V e VI

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]

Partes V & VI

Como anunciado e, agora, dando continuidade, seguimos hoje com a série de livros escolhidos pelo professor Gustavo Silveira Ribeiro. A quem não tenha visto os posts anteriores, vale reforçar o anúncio: os livros não estão aqui numa numeração qualitativa de lista; o projeto aqui não é esgotar o interesse da poesia brasileira, por isso mesmo os livros foram aqui escolhidos por múltiplos critérios.

* * *

Ricardo

o que quer que o meu corpo escreva
Modelos vivos
2010 – Editora Crisálida
Ricardo Aleixo
[Belo Horizonte – 1960]

Numa década em que as experiências em torno da poesia visual parecem ter se deslocado, numa demonstração de que – em que pese o vigor criativo de um André Vallias e de um Sérgio Medeiros, por exemplo – o eixo vanguardista vindo dos concretos perdeu tração entre nós, os Modelos vivos de Ricardo Aleixo conseguem ao mesmo tempo sintetizar o enorme legado (brasileiro e internacional) da visualidade na poesia e expandi-lo, propondo novos meios de relação entre palavra e imagem, entre traço e corpo, entre artes plásticas e literatura, enfim. Um dado decisivo nesse reposicionamento da questão do visível e da visualidade na cena da poesia brasileira contemporânea passa, sem dúvida, pela performance, pelo lugar que essa prática artística (todo um campo de pesquisa e invenção quase desconhecido no país, pelo menos nos termos radicais em que o poeta mineiro o coloca) ocupa no livro. Os grafismos e os registros manuais da escrita que atravessam Modelos vivos dão conta de um processo vivo, em pulsação, que se não acontece, em ato, diante dos olhos do leitor, remete para uma tentativa de registro daquilo que, na corporalidade da ação performática, é gesto irrepetível, memória das mãos do artista-criador. Do mesmo modo, a presença, no livro, de um poema-ensaio como o “Poemanto” aponta também para o mesmo lugar, uma vez que o texto descreve e procura refletir sobre a corpografia ritual que a performance institui na obra de Aleixo, criando um novo ângulo através do qual a consciência visual do poeta vai se expressar. Até pela sua extensão (são 75 poemas, muitos dos quais longos, outros tantos seriais), Modelos vivos assinala ainda, com maior rigor, as linhas de força desse poeta tão singular no panorama brasileiro, em cuja obra se cruzam o legado sofisticado e hiperconsciente do Concretismo (de Augusto de Campos em especial), o gosto pela improvisação e pela mistura de um Hélio Oiticica (às vezes de um Leminski) com o resgate, de dimensão histórica e espiritual, da ancestralidade africana, seus sons, movimentos, gestos e sentidos. Talvez seja possível dizer que Aleixo, nos vários livros que publicou desde então, não tenha voltado a atingir o grau de domínio técnico e o largo alcance político dos poemas reunidos nestes Modelos vivos, o que explicita
ainda mais a importância do material, seja pela identificação com os marginalizados que se projeta em tantos textos (acentuando o compromisso ético perceptível desde o título, que remete aos artistas de rua do nosso tempo, invisíveis, e aos modelos anônimos fixados em quadros do passado), seja pela dimensão renovadora de seus objetos verbais e não verbais.

*

ANA

um acordo tácito com as coisas vivas

O livro das semelhanças
2015 – Companhia das Letras
Ana Martins Marques
[Belo Horizonte – 1977]

Se não é o melhor livro da curta, mas produtiva, trajetória poética de Ana Martins Marques (o exercício de concisão e a melancolia agridoce que informam Como se fosse a casa [2017] fizeram a poeta alcançar, até agora, seus resultados mais expressivos), O livro das semelhanças é certamente o seu volume mais importante e bem elaborado, um projeto muito consciente que reúne e organiza poemas de notável manejo técnico (a variedade e a precisão rítmica são um seu trunfo, por exemplo) e grande capacidade comunicativa, que conseguem dialogar, sem derivar para a banalidade, a fórmula fácil ou o clichê de apelo mercadológico, com o leitor não especializado, atraindo para si um público crescente e variado, responsável pelos seus significativos números de vendas. Um dos elementos que talvez explique o largo alcance dos seus versos seja o coeficiente de surpresa delicada que os textos têm, capazes de extrair pequenas epifanias de um universo de coisas simples, vivências cotidianas, cenas amorosas quase em surdina. A universalidade, por assim dizer, desse procedimento é considerável, haja vista o testemunho que parte importante do modernismo, brasileiro e internacional, deixou dessa combinação entre realismo, sobriedade construtiva e aceno ao sublime. Em Ana Martins Marques essa mistura vai se somar a uma ética que parte da crítica vem aproximando do humanismo, o que por vezes lembra – muito embora não esteja presente na poeta a auto-ironia corrosiva e o indisfarçável lastro romântico – certa dicção de Manuel Bandeira. A atenção ao mundo material, visível em todos os demais trabalhos da autora, tem no Livro das semelhanças um lugar de destaque: seus poemas observam com cuidado, tomando-os como convite ao pensamento, uma miríade de objetos comuns: em primeiro lugar, o próprio objeto-livro, perscrutado em todas as suas partes, da capa ao colofão, passando pelo índice remissivo, material de uma poesia que tem na metalinguagem uma de suas questões recorrentes; o isqueiro levado no bolso, o mapa aberto em viagem, a porta, a janela, os móveis que compõem uma casa. Para cada um deles os poemas parecem ter um acordo a propor, um modo projetivo de aproximação, que neles insufla vida e lirismo ao mesmo tempo que recupera de suas formas um silêncio necessário, um estranhamento que permite compreender, de outro modo, os ordenamentos e afetos humanos. Se não funciona sempre, produzindo, vez por outra, poemas um tanto irregulares, esse intercâmbio entre a poeta e as coisas que a cercam (que cercam toda a gente, enfim) se mostra interessante e necessário ao livro, uma vez que contém, em menor escala, a lógica da permuta e das afinidades que dá sentido aos poemas da seção central do volume, seção que tem título idêntico ao livro. A questão das semelhanças estabelece um princípio relacional como base constitutiva dessa poesia, que passa a se defrontar com o deslimite do mundo, onde tudo é outro e aponta para outro: as casas em que se habita são sempre casas dos vizinhos; se está metido numa roupa que é como um navio abrigando o corpo; as lembranças dos outros são intercambiáveis com a própria memória. Ponto central do livro, os poemas reunidos nessa parte estabelecem um jogo com o leitor, que a partir da sua leitura passa a reconhecer e não reconhecer o mundo ao seu redor, percebendo-o ora mais detidamente, ora como se o visse, de novo, pela primeira vez. A força de mobilização da poesia de Ana Martins Marques passa por aí, por essa força de renovação e memória, e é, quem sabe?, desse lugar que ela tem conseguido reaproximar, no panorama contemporâneo do país, a poesia lírica e o público comum.

*

O que ainda virá:

nenhum poema é mais difícil do que sua época
Monodrama
2009 – 7Letras
Carlito Azevedo
[Rio de Janeiro/RJ – 1961]

§

lamber o mundo com a própria língua
Ciclo do amante substituível
2012 – 7Letras
Ricardo Domeneck
[Bebedouro – 1977]

§

aqui a luz faz o contrário de iluminar
Um teste de resistores
2014 – 7Letras
Marília Garcia
[Rio de Janeiro – 1979]

§

pedra angular dos sem palavra
Qvasi
2017 – 34
Edimilson de Almeida Pereira
[Juiz de Fora – 1963]

§

nesta ausência de distinção entre nós
Trilha
2015 – Azougue Editorial
Leonardo Fróes
[Itaperuna – 1941]

§

a noite explode nas cidades
Vinagre: uma antologia de poetas neobarracos
2013 – Os vândalos
Fabiano Calixto & Pedro Tostes (org.)
[Garanhuns – 1972
Rio de Janeiro – 1981]

 

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