poesia, Poesia Brasileira Contemporânea

beatriz rgb

beatriz

beatriz rgb (Beatriz Regina Guimarães Barboza) pesquisa na área de Estudos da Tradução na UFSC — trabalhando com os estudos feministas de tradução e/m queer —, assim como escreve, traduz, revisa e edita. publicou a plaquete with a leer of love (Macondo, 2019), traduziu com Meritxell Marsal o livro Desglaç, de Maria-Mercè Marçal, como Degelo (Urutau, 2019) e escreveu livros de poesia: quartos esvaziados (Urutau, 2015) e Entre rios (Kazuá, 2017). edita a Pontes Outras com Emanuela Siqueira e Julia Raiz e, também com esta, a revista Arcana. os poemas selecionados fazem parte do livro querides monstres — tradutora em sentido insular que está em processo de reescrita.

* * *

4 POEMAS DE QUERIDES MONSTRES — TRADUTORA EM SENTIDO INSULAR

I

Ofélia lleva 10 minutos
espremendo 3 naranjas
em 7 goles bebe el zumo
morde cada gomo
e em 21 años já tiene
trincados los caninos

fín del invierno andaluz
huelen las flores abiertas
um llamado às laranjeiras
ao despertar as desejou
boca que lambe y chupa

caminando estrangeira
por las tardes y las noches

só en su despedida
tomou en las manos
aquelas laranjas caídas
grudadas a las viejas
piedras de las plazas
de Córdoba y Granada

o melado daquele cheiro
envenenou-lhe a memória pero
se tuviera preguntado a
qualquer ume que talvez jamás
tenha lido Machado o Lorca
qualquer ume saberia dizer-lhe
aloka, son agrias, no se las coma

§

II

Jackie, acabam-se as tardes
homens regam seus jardins
varões viris com suas varas ah
papapá mas minhas plantas,
Jonas, não as toque

vaza daqui te cutuca uó
tua própria próstata vai

molhadas por minhas mãos
abraço gavinhas com ânsia
me perfuram o pescoço
Jackie meus dedos
se tornaram secos
pelos inúmeros cortes
não resisto, só peço isso,
sempre que te agarro
pelo fio lascivo de uma faca
na feral tentação de
abrir minhas veias

quero regar a terra
ao sangrar a garganta
lancetando as artérias
para articular guelras
viver
20 Jahre imersa sobre
a língua de 1 jubarte

Jonas, hoje tenho apenas
unhas quebradiças
escamas tenras
1 açougue aberto das
fatias de minha carne
logo não me impeça
de chorar pelas ausências
llorando por vosotres
mis amores

troquei minhas paredes
amarillas
pelas cerdas de um cetáceo
serei a serva
dele piraquê em sua boca
esfolie minhas cicatrizes

aprenderei mascando algas
como gozar
do que falta
só voltarei quando souber
queimar meus tecidos
vestir palhas trançadas
empilhadas pelas pombas
sobre os sulcos das calhas
ser espantalhe em peles
furry nights com sues amigues
querides mortes-vives
a quem ofereço sangue
há 21 Jahre gegen alles
alles Lüge

§

III

Goluboy Angel me dá
um gole do seu charme
vira essa cartola
na minha boca não
é necessária a música
falling in love again
tem chuva escorrendo

as calhas cantam
o que por elas caia
não sou atirada
mas me deu oi
tem boi na linha

“demos tiempo al tiempo:
para que el vaso rebose
hay que llenarlo primero”

nos ressoa, né, Simone? bueno é
Machado poeta do Guadalquivir
a gente se vira na rima aos 30
afia nossa lábia nosso lábris

cá e lá entre córregos rasos
vejo-nos cântaros vertidos
Carla & as criaturas aquosas
uma grande banda das Yabás

“con el tú de mi canción
no te aludo, compañero;
ese tú soy yo”

jo sóc l’altra, tu ets jo mateixa
o tempo corre
espelho partido
por nós filhes do rio

em perpétua sentença
morrem-nas-cheias
renascem-nas-estiagens

confuses em densos turnos
plutoniano fluxo

que feio ficar no meio, Quéfren,
chega junto e não se faz de muro

Goluboy Angel amadurece
suculente pronte pro corte
resseca e corrói na espera
nossa voz muda sussurra
chama inflamada
o caminho ao mar aberto

§

IV

toda vida subindo a morreba

amonstres sorriem no salão
transição sidecut
arranca cara serra dedo
gozam de próteses
no contato entre peles ciborgues
o deserto se inunda
profetas lançando confetes
biodegradáveis

amonstres não se matam
arrancam de si o que sobra
se acolhem pela dobra torta
vaza dessa mania de Maria

bota as tripas pra fora,
queride,
da última curva do duodeno
faz sua via
amonstres comem teu reflexo
no espelho partido

chega de morde e assopra
de murro em ponta de faca
muro é matéria fraca

mete os pés pelas mãos
suje e translúcide
um afago enlameado
amor entre cúmplices

mein Teil my ass
ninguém se come
a gente se alimenta
corrente alternada
de reparação constante

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crítica, xanto

XANTO | o que as coisas mínimas ensinam sobre as revoluções: uma leitura de “a primavera das pragas” de ana carolina assis, por julya tavares

rascunho3

“rascunho” de joana lavôr para a capa do livro de ana carolina assis

e envolto em tempestade, decepado
entre os dentes segura a primavera
secos & molhados

“praga” é o nome que se dá a ervas ou pequenos animais que destroem plantas, móveis de madeira, livros; é, ainda, o nome da capital da república tcheca, lugar que historicamente teve um papel importante de resistência a um socialismo caduco e autoritário. outro uso muito frequente dessa palavra, em alguns lugares do brasil, se dá na zanga de mães e avós quando querem se referir a suas próprias crianças, que provavelmente estão a aprontar qualquer coisa. no livro bíblico, as dez pragas enviadas pelo deus de israel ao egito só tiveram fim após a libertação dos hebreus escravizados pelo faraó. com isso, pode-se dizer, de algum modo, que as pragas estão intimamente ligadas a desestabilizações, sejam elas políticas, ecossistêmicas ou familiares. ao mesmo tempo, parecem ser ainda as pragas a construir a via para alguma terra prometida possível, também ela política, afetiva e até mesmo ecossistêmica.
ao menos isso é o que imagino quando leio “a primavera das pragas”, livro de ana carolina assis que foi lançado pela editora 7letras em abril de 2019, mês que é o auge da primavera no hemisfério norte, mas não no hemisfério sul. quem tem a força de saber que existe? talvez essa seja uma possibilidade de formulação da pergunta que ana traz entre os dentes e, por meio desse livro, procura compartilhar, uma vez que a primavera, aqui, é das pequenas coisas: lesma, tardígrado, inseto, fungo, criança. porém, antes dos micromundos [alguns quase invisíveis], talvez seja importante pensar também a “primavera”, signo que nomeia a época do ano posterior ao inverno e certos movimentos revolucionários, como a própria primavera de praga [1968], que ecoa no título do livro, e a primavera árabe [2011], citada na orelha. entre a fase do recomeço para a agricultura e as revoluções, o que há para além da proposição de alguma novidade? no caso das estações, ainda, que novidade afinal seria essa, já que seu tempo é cíclico?
na mitologia grega, as estações do ano são explicadas a partir do episódio em que hades, deus do submundo, sequestra perséfone, filha de zeus e deméter. depois de algumas tentativas de trazer perséfone de volta de vez, zeus estabelece um acordo com hades: ela passará nove meses com a mãe, período correspondente à primavera, ao verão e ao outono, mas ficará os outros três, época do inverno, no submundo, ao lado do senhor dos mortos. com isso, pode-se dizer que a chegada da primavera, representada pelo retorno de perséfone à terra, é também um momento de abertura de uma espécie de canal de comunicação entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. ou, de outro modo, a primavera se revela, pela figura de perséfone, uma mensageira das tensões entre o mundo das coisas expostas ao sol, visíveis, e o das coisas não tornadas à luz, invisíveis. em última instância, essa estação cria um circuito possível entre formas de vida distintas e sugere que o mesmo solo sustentador das dicotomias viabiliza contaminações inimagináveis.
nesse sentido, “a primavera das pragas” nos convoca a pensar uma possibilidade de leitura, menor mas não menos importante, dos trabalhos das revoluções: fazer das desestabilizações um espaço de criação de formas de estar no mundo. para isso, é preciso recuperar no corpo um sopro de vida atento à temporalidade e ao modo de funcionamento das coisas mínimas, do universo íntimo e familiar, dos bichos, do cotidiano. é preciso, ainda, reconhecer a linguagem poética como um lugar de experimentação de encontros e desencontros, afinal a comunicabilidade e a incomunicabilidade negociam o tempo todo os sentidos da graça e do horror. a casa não é o mundo, bicho não é gente, o micro não é o macro. mas, há algo de um que ressoa ou pode ressoar no outro: enxergar as diferenças, testar as contaminações.
o primeiro verso do poema que abre “a primavera das pragas” diz “seca seca seca”, como se anunciasse uma paisagem pro livro, a condição de secura do solo sobre o qual ele se firma. ao mesmo tempo, a palavra “seca” pode expressar uma ação no imperativo afirmativo, indicando que talvez haja algum líquido a escorrer dos poemas. por conta desse duplo sentido, a cena cotidiana narrada, de uma criança salgando lesmas para “controlar a febre na praia das pedrinhas”, adquire uma dimensão mais ampla e, a partir dela, é possível imaginar formas de ver a secura.

seca seca seca
aos sete anos adquiriu o costume
de salgar lesmas
pra controlar a febre na praia das pedrinhas

uma colher de sal
pra cada, a vó dizia
são animais viscosos

e por isso
demoram feito charque
– pela pele mole
sem a qual não
seriam brilho
hermafrodita translúcido
quando transam
sem a qual não
chiariam apitos ao desidratar
sem a qual não
seriam vínculo
de carne pouca
com a criança –

[…]

esse poema desenha ainda, pelas imagens da “pele mole e da “carne pouca”, uma aproximação entre a criança e a lesma, como se no processo de salgá-las a criança incorporasse alguma coisa da vida desses bichos. a “pele” aparece também em “[estrangeira parque d’água]”, dessa vez como matéria da fruta e das coxas da criança que sobe na árvore tendo os bichos como cúmplices: “o pássaro olha/ a criança que rasga coxas/ caule acima/ atrás de rasgar a pele da fruta/ depois de seis meses de espera/ os bichos se encaram/ o pássaro firma, cúmplice”. nesse caso, a aproximação entre a criança e a fruta se dá também pelo rasgo, por aquilo que imprime alguma diferença na pele, e mostra que alguns vínculos doem mais que outros.
em “caranguejo” e “bicho sem mar”, o líquido imaginado diante da secura ganha corpo, uma vez que esses poemas parecem rogar um mar em meio à sua própria ausência. o caranguejo e o siri, bichos em torno dos quais eles orbitam, transitam de esguelha entre ilha das flores e ipanema, o primeiro como “retroescavadeira/ na areia preta”, “carne pouca/ pra tanto lodo”, e o segundo como fonte de renda de “adolescentes doidas por um trocado”, entre calos e micoses. o que o mar sim aprende do sem mar?

entre lama
e fuzileiros navais
um caranguejo
de carne pouca
pra tanto lodo
ilha das flores

***

o caldo escorre pelos casacos
das adolescentes doidas por um trocado
debruçadas sobre a caixa úmida
o caldo
entra pelas unhas da vó verdes e ocas
muita micose
um quilo de siri agora custa
cinquenta reais em ipanema

o líquido que escorre, portanto, é viscoso, entre o cozimento, a decomposição e a lama, fazendo ecoar na imagem do mar, ainda que discretamente, as condições difíceis dos lugares marcados por sua ausência; dando a ver, ao mesmo tempo, o tanto que o mar se alimenta do sem mar.
esse último poema começa num tom instrutivo, indicando o passo a passo de como se deve desmontar algo que, a princípio, não se sabe exatamente o que é, mas logo adiante se revela nos versos “coração é coisa que desmonta/ feito caixa de siri cozido”. por meio dessa analogia, “bicho sem mar” sugere que as instruções servem para abrir tanto o bicho quanto o coração. ou seja, que é possível intercambiar modos de fazer entre diferentes esferas da vida e, principalmente, que os mais diversos usos das coisa, das formas de lidar com elas, são criados em nosso dia a dia. outros poemas também imaginam essas trocas, como é o caso de “samburá”:

um samburá serve
pra guardar peixes
uns sobre os outros enquanto
a pesca ainda acontece

é feito de cipó ou taquara
pra que a água escorra
não é feito pra pássaro

mas a vó eta prendeu a galinha, vó
você também fala tanto
de dar outro jeito nas coisas
as gambiarras as gambiarras.

[…]

o convívio familiar e os modos de organização da casa se apresentam como processos criativos que podem adquirir alguma autonomia e vazar da esfera íntima para outras esferas da vida, para outras vidas, como as revoluções, que criam formas de estar no mundo. “dar outro jeito nas coisas” não deixa de ser, ainda, um gesto de reconhecimento da falta, como a do mar em “bicho sem “mar”, mas também as que ecoam nos versos “houvesse gana cimento/ pegaríamos a br 101”; “tivéssemos dinheiro vontade/ compraríamos pão”, ambos de “[permanecem estáticas as pontes do boassú]”; e “tivesse dinheiro não tinha/ escolha ela dizia”, de “praga”. neles, a falta é usina de criação dos desejos, mas sobretudo reveladora da ausência de escolhas, da necessidade de fuga e de alguma fome. afinal, também algumas carências doem mais que outras.
as faltas anunciam, portanto, as ruínas do mundo e, como se pode fazer com o negativo de uma fotografia, levantam-no contra a luz, para que o que resta se deixe entrever. nesse instante, morte e vida convivem e negociam seus próprios sentidos: no centro da própria engrenagem, inventar contra a mola que resiste. em “[dona anita era seca]”, a figura da velha reúne deterioração e capacidade de encantamento, pois apesar de sua aparência caquética e de apresentar sinais de falência do corpo, ela se apaixona por um homem que não a rejeita de imediato, mas sim hesita:

dona anita era seca
amarela de velha
um dia se apaixonou pelo meu tio
entrava em casa quando o portão
era esquecido arreganhado
arrastava as pernas sequíssimas
era muita merda seca fedia tudo
dizia ao tio: que pão!
a vó gritava, espantava ela de casa, não dava tempo do tio decidir

tanto a cena da velha invadindo a casa portão adentro quanto essa espécie de indecisão do tio revelam um atravessamento do esperado pelo inesperado, do ordinário pelo extraordinário, e fazem com que convivam, a um só tempo, a decrepitude e algum sopro de vida, bem como a probabilidade e a improbabilidade de realização do amor. esse que, dona anita sabia, “tá sempre lascado nos veios secos”.
quem lê esse primeiro livro de ana carolina assis e se depara com as relações entre a ruína e a vida das coisas, bem como entre o esperado e o inesperado, pode reconhecer a força das desestabilizações. ou, de outro modo, diante das diferentes figurações da falta, do universo íntimo e familiar, dos bichos e da secura, tem a possibilidade de vislumbrar o mundo visível perfurado pelo invisível. de perceber, por fim, a escrita como um gesto de revolvimento da terra que separa e afirmação da existência daquilo que se ignora ou se prefere ignorar. quem tem a força de saber que existe?
agora, parece que o “quem” da pergunta imaginada pode ser nomeado de muitas formas e que cada uma delas inventa maneiras de trazer à tona os inúmeros universos que vivem apesar de pelo menos alguma indiferença. entre cascas de caranguejo, crostas, terra preta, cacos de vidro, revolver a terra parece ser um jeito de fazer com que surja algum líquido, substância capaz de contornar obstáculos ou arrebentá-los. são muitas as maneiras de abrir caminhos e, nesse sentido, acredito que “a primavera das pragas” ensaie formas revolucionárias possíveis. observar as mais variadas pragas do mundo; trazer a primavera nos dentes.

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Lucas Litrento

desdobros

Lucas Litrento é escritor, realizador cinematográfico e produtor cultural, vive na parte alta de Maceió. Como o Sobrevivendo no Inferno, nasceu em 1997. Estuda Jornalismo na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e integra os coletivos Mirante Cineclube e Pernoite. Os meninos iam pretos porque iam (Graciliano, 2019) é seu primeiro livro. O zine de poesia ROBYN (1TXW, 2020), foi lançado recentemente. TXOW, de contos, será lançado pela Edipucrs, como vencedor do primeiro Prêmio Delfos de Literatura. O livro também ganhou o Prêmio Malê de Literatura. Assina, com Janderson Felipe, o roteiro e a direção do curta-metragem Samuel foi trabalhar (em produção).

* * *

EXU

I

exu me deu um abraço
caminho caminho caminho
quantos braços
formando um outro braço
estendido pro abismo?

II

dentro do sopro
uma voz várias vezes
uma voz várias vezes
feito bússola dentro do sopro
tipo música dentro do corpo
uma voz várias vezes
uma voz

III

a repetição da roda:
só sabe onde termina

a porta giratória dos bancos
sempre trava a origem das ondas
onde começa o atlântico e termina o corpo preto?

IV

repetir o ponto
esperando que desçam
com respostas

e que o refrão
acabe em acalanto

V

caminho
caminho
caminho
acabe
acalanto

VI

vermelho e preto nas costas
a coluna em dobras, es-
trala

VII

a repetição da roda
é um sample
váriasvezesumavozváriasvezesumavozváriasvezesumavoz
todos os seus nomes ao mesmo tempo

§

prê

um sample de uma do d’angelo

há algo de indivisível na concha
jogada ao acaso no leito de um rio
algo de acalanto na meio de um vocativo
partícula carregada de desejo
prê
ensaiam carícias no invisível
no mesmo movimento de chamar
o que não pode se mover
quase um suspiro até as pernas
e as costelas também dizem
que tudo implode tudo é passível de dissolução
tudo é gozo se souberem fazer
sem recuar
o jogo é de mão única

§

01

frexta

vira uma página do muhammad speaks
como quem respira
não deixa que lhe tirem o ar
é ele quem fala a partir da fresta

foge sempre que betty dá à luz
a leveza das crianças é demais
pro seu corpo esguio feito de areia

com a cabeça encostada na janela do avião
cochila feito o menino que já foi
porque é um homem como todos os outros

seus passos são a geografia de uma encruzilhada
mas ainda é um homem
X é um homem como todos os outros

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poesia, tradução

Forough Farrokhzad, por Thaís Chagas

ff

Forough Farrokhzad foi uma poeta e cineasta nascida no Teerã, Irã em 1934. Sua escrita fala sobre a falha das convenções familiares, a tentativa redenção através da espera, a solidão e o amor. A obra de Forough apresenta o não-trânsito na vida de uma mulher independente e separada na sociedade iraniana nas décadas de 1950 e 1960. Além disso, sua linguagem poética alia espaços e ações domésticas ao desconforto da injustiça. Em seus textos, o amor cresce e é o fio necessário da escrita. Os poemas aqui traduzidos são da obra Tavalodi Digar (تولدی دیگر) de 1964.

* * *

outro nascimento (تولدی دیگر )

toda minh’alma é canto obscuro
que te atravessa
que te carrega à aurora
da eterna evolução e florescer
neste canto te sussurro, ah
neste canto te cubro
de árvore
de água
de fogo

talvez a vida seja
uma longa rua onde uma mulher
com uma cesta caminha todos os dias

talvez a vida seja
uma corda com que um homem
que se enforca num galho
talvez a vida seja uma criança
que volta da escola para casa

talvez a vida seja
o acender de cigarro do fumante
que repousa entre dois amantes
ou o olhar vazio de um transeunte
que levanta seu chapéu a outro transeunte
com um vazio sorriso e bom dia

talvez a vida seja
aquele momento íntimo
quando meu olhar
se destrói nas pupilas
dos seus olhos
com a sensação
que me uno a percepção
da lua
e a recepção da escuridão
noturna,

numa sala
grande como a solidão
meu coração
grande como o amor
olha aos simples pretextos
de sua felicidade
ao murchar das flores
nos vasos
a muda que você plantou
no nosso canteiro
ao som dos canários
que cantam para janela, ah

este é meu terreno
este é meu terreno

meu terreno é
um céu que me tomam
com o cair das cortinas
meu terreno é
a queda de uma escada
abandonada
que se recupera entre
a podridão e a nostalgia
meu terreno é
o caminhar triste ao jardim
das memórias
e morre com pesar da voz
que me diz
eu amo tuas mãos

plantarei no jardim minhas mãos
germinarei — eu sei, eu sei, eu sei
e as andorinhas ovos botarão
nos buracos dos meus dedos sujos
de tinta

colocarei brincos de cereja
nas minhas orelhas
colocarei pétalas de dália
nas minhas unhas

há um beco onde
os meninos que me amavam
ainda têm cabelos bagunçados,
pernas magras e pescoços finos
e pensam nos sorrisos ingênuos
de uma menina
que uma noite foi soprada
pela ventania

há um beco onde
meu coração foi roubado
das ruas de minha infância

a jornada de um tipo de linha do tempo
cobre a linha do tempo com o tipo
um tipo consciente da imagem
que retorna com prazer do espelho

e é dessa maneira
que alguém morre
e alguém permanece

não há pescador que pérola ache
num riacho
feito poça de tão vazio

conheço uma pequena fada triste
que mora no oceano
e tão sutilmente
toca seu coração
na flauta mágica
uma pequena fada triste
que morre com um beijo
toda noite
que renasce com um beijo
toda aurora

تولدی دیگر

همه هستی من ایه تاریکیست
که ترا در خود تکرار کنان
به سحرگاه شکفتن ها و رستن های ابدی خواهد برد
من در این ایه ترا آه کشیدم آه
من در این ایه ترا
به درخت و آب و آتش پیوند زدم
زندگی شاید
یک خیابان درازست که هر روز زنی با زنبیلی از آن می گذرد
زندگی شاید
ریسمانیست که مردی با آن خود را از شاخه می آویزد
زندگی شاید طفلی است که از مدرسه بر میگردد
زندگی شاید افروختن سیگاری باشد در فاصله رخوتنک دو همآغوشی
یا عبور گیج رهگذری باشد
که کلاه از سر بر میدارد
و به یک رهگذر دیگر با لبخندی بی معنی می گوید صبح بخیر
زندگی شاید آن لحظه مسدودیست
که نگاه من در نی نی چشمان تو خود را ویران می سازد
و در این حسی است
که من آن را با ادرک ماه و با دریافت ظلمت خواهم آمیخت
در اتاقی که به اندازه یک تنهاییست
دل من
که به اندازه یک عشقست
به بهانه های ساده خوشبختی خود می نگرد
به زوال زیبای گلها در گلدان
به نهالی که تو در باغچه خانه مان کاشته ای
و به آواز قناری ها
که به اندازه یک پنجره می خوانند
آه …
سهم من اینست
سهم من اینست
سهم من
آسمانیست که آویختن پرده ای آن را از من می گیرد
سهم من پایین رفتن از یک پله متروکست
و به چیزی در پوسیدگی و غربت واصل گشتن
سهم من گردش حزن آلودی در باغ خاطره هاست
و در اندوه صدایی جان دادن که به من می گوید
دستهایت را دوست میدارم
دستهایم را در باغچه می کارم
سبز خواهم شد می دانم می دانم می دانم
و پرستو ها در گودی انگشتان جوهریم
تخم خواهند گذاشت
گوشواری به دو گوشم می آویزم
از دو گیلاس سرخ همزاد
و به ناخن هایم برگ گل کوکب می چسبانم
کوچه ای هست که در آنجا
پسرانی که به من عاشق بودند هنوز
با همان موهای درهم و گردن های باریک و پاهای لاغر
به تبسم معصوم دخترکی می اندیشند که یک شب او را باد با خود برد
کوچه ای هست که قلب من آن را
از محله های کودکیم دزدیده ست
سفر حجمی در خط زمان
و به حجمی خط خشک زمان را آبستن کردن
حجمی از تصویری آگاه
که ز مهمانی یک اینه بر میگردد
و بدینسانست
که کسی می میرد
و کسی می ماند
هیچ صیادی در جوی حقیری که به گودالی می ریزد مرواریدی صید نخواهد کرد
من
پری کوچک غمگینی را
می شناسم که در اقیانوسی مسکن دارد
و دلش را در یک نی لبک چوبین
می نوازد آرام آرام
پری کوچک غمگینی که شب از یک بوسه می میرد
و سحرگاه از یک بوسه به دنیا خواهد آمد

 

§

janela (پنجره )

uma janela é suficiente
uma janela para olhar
uma janela para ouvir
uma janela
que chegue ao coração da terra
feito o aro do poço até seu fim
que se abra para alcançar a área
da constante benevolência azul

uma janela
que encha as pequenas mãos da solidão
com noturna recompensa de estrelas generosas

uma janela que invoque o sol
pela estranheza dos gerânios

uma janela me servirá

venho da terra natal das bonecas
embaixo dos tons
das árvores de papel
do jardim de um álbum de fotos
das estações inférteis
de amores desérticos
de áridos locais da inocência
dos anos de cultivo pálido
das letras do alfabeto
detrás das mesas
de escolas tuberculosas
do minuto que as crianças
escrevem “pedra” no quadro
e pássaros frenéticos voam
para galhos secos da velha árvore

venho do núcleo das raízes
de plantas carnívoras
com minha mente inundada
pelo terrível grito da borboleta
seca, com alfinetes crucificada
dentro do caderno

quando minha confiança
foi pendurada pelo frágil fio da justiça
desta cidade, apagaram minha luz

quando o escuro lenço da lei
vendou os olhos inocentes
do meu amor

quando fontes de sangue
jorraram por todas as veias
dos meus sonhos

quando minha vida nada era
além do tiquetaque do relógio
percebo que
preciso
preciso
preciso amar
loucamente

uma janela me servirá

uma janela para o momento de lucidez,
de luz
de paz

agora a muda da nogueira
está tão alta, tão alta, tão alta
que já posso contar a história
do muro para as jovens folhas

pergunte ao espelho
o nome do salvador
o tremor da terra embaixo
de seus pés
não é mais solitário que você?

os profetas trouxeram
a missão da destruição
de nosso século
as consecutivas explosões
e nuvens envenenadas
não são a reverberação
dos versos sagrados?

você, camarada,
confidente, irmão,
quando você alcança
a lua, escreve a história
do massacre das flores

os sonhos sempre caem
de ingênuas alturas e morrem.

eu cheiro o trevo
de quatro folhas
que cresce no túmulo
das crenças arcaicas

não é a mulher
enterrada no sacro
caixão da esperança
o vestígio
da minha juventude?

subirei os degraus
da curiosidade
para saudar o bom deus
que passeia na cobertura?

sinto que o tempo passou
sinto que o momento
é a minha parte das páginas
de história
sinto que a mesa
é a falsa distância
entre minhas madeixas
e as mãos deste triste estranho

fale comigo
o que mais alguém
que te oferece
a doçura da carne
quer de você?
nada além de sentir
o calor da vida

fale comigo
sou a janela do refúgio
sou ligada ao sol.

پنجره

یک پنجره برای دیدن
یک پنجره برای شنیدن
یک پنجره که مثل حلقه ی چاهی
در انتهای خود به قلب زمین می رسد
و باز می شود به سوی وسعت این مهربانی مکرر آبی رنگ
یک پنجره که دست های کوچک تنهایی را
از بخشش شبانه ی عطر ستاره های کریم
سرشار میکند
و می شود از آنجا
خورشید را به غربت گل های شمعدانی مهمان کرد
یک پنجره برای من کافی است.

من از دیار عروسکها می آیم،

از زیر سایه های درختان کاغذی
در باغ یک کتاب مصور
از فصل های خشک تجربه های عقیم دوستی و عشق
در کوچه های خاکی معصومیت
از سال های رشد حروف پریده رنگ الفبا
در پشت میز های مدرسه مسلول
از لحظه ای که بچه ها توانستند
بر روی تخته حرف سنگ را بنویسند
و سارهای سراسیمه از درخت کهنسال پر زدند.
من از میان
ریشه های گیاهان گوشتخوار می آیم
و مغز من هنوز
لبریز از صدای وحشت پروانه ای است که او را
دردفتری به سنجاقی
مصلوب کرده بودند.

وقتی که اعتماد من از ریسمان سست عدالت آویزان بود
و در تمام شهر
قلب چراغ های مرا تکه تکه می کردند،
وقتی که چشم های کودکانه عشق مرا
با دستمال تیره قانون می بستند
و از شقیقه های مضطرب آرزوی من
فواره های خون به بیرون می پاشید،
وقتی که زندگی من دیگر
چیزی نبود هیچ چیز بجز تیک تاک ساعت دیواری
دریافتم باید باید باید
دیوانه وار دوست بدارم

یک پنجره برای من کافی است،
یک پنجره به لحظه ی آگاهی و نگاه و سکوت.
اکنون نهال گردو
آن قدر قد کشیده که دیوار را برای برگهای جوانش
معنی کند.

از آینه بپرس
نام نجات دهنده ات را،
آیا زمین که زیر پای تو می لرزد
تنها تر از تو نیست ؟
پیغمبران رسالت ویرانی را
با خود به قرن ما آوردند.
این انفجار های پیاپی
و ابرهای مسموم
آیا طنین آینه های مقدس هستند ؟
ای دوست، ای برادر، ای همخون،
وقتی به ماه رسیدی
تاریخ قتل عام گل ها را بنویس.

همیشه خوابها
از ارتفاع ساده لوحی خود پرت می شوند و می میرند.
من شبدر چهار پری را می بویم
که روی گور مفاهیم کهنه رویید است.

آیا زنی که در کفن انتظار و عصمت خود خاک شد جوانی من بود ؟
آیا دوباره من از پله های کنجکاوی خود بالا خواهم رفت
تا به خدای خوب که در پشت بام خانه قدم می زند سلام بگویم ؟

حس می کنم که وقت گذشته است.
حس می کنم که “لحظه” سهم من از برگهای تاریخ است.
حس میکنم که میز فاصله ی کاذبی است میان گیسوان من و دستهای این غریبه ی غمگین.

حرفی به من بزن،
آیا کسی که مهربانی یک جسم زنده را به تو می بخشد
جز درک حس زنده بودن از تو چه می خواهد ؟

حرفی بزن،
من در پناه پنجره ام.
با آفتاب رابطه دارم.

 

* * *
Thaís Chagas (1993) é formanda em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, professora e revisora. Também atua como pesquisadora em literatura contemporânea e se interessa por traduções do persa e árabe. Lançou seu primeiro livro Alinhavar (2019). pela Editora Urutau.

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poesia, Poesia Brasileira Contemporânea

João Gabriel Madeira Pontes

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João Gabriel Madeira Pontes nasceu no Rio de Janeiro, em 1992. É autor de Saúvas avulsas (Garupa, 2019).

* * *

Manobra de Heimlich

Chegará o dia em que todos os argumentos, mesmo os mais infundados/ o confuso marulho dos helicópteros em movimento, o embrulho, estes montes/ rasos que nos espreitam, a febre terçã, as rugas nos teus pesadelos, o gênero/ da maçã, a prisão das fortunas, as tribunas, os meus tantos conselhos tardios/ romperão, feito abrolhos solares sobre tumbas de arrepios, o parco entendimento/ do cão invisível que dorme aos nossos calcanhares, sem maiores sobressaltos/ (apenas os tremores sucintos de quem também consome pesadelos e atalhos)/ para ocupar as cavidades desta garganta, a única garganta do mundo, e desdobrá-la/ ao modo mais jagunço, até que reste só a chaga urgente e seca, a ser temperada/ e digerida, traduzida, dita e vivida, no dia em que o teu filho nascer e, antes de abrir/ os olhos, pôr-se a caçar o teu seio esquerdo, tão esquerdo quanto a mão/ com que agora escreves, não sem medo, a entrada mais recente do teu diário// e certamente nos lembraremos do que comemos naquele dia e das conversas ocas/ que nossas bocas tergiversas trocaram, as bulas e os recortes de jornal engasgando/ os anos seguintes, os poucos requintes da minha coleção de dicionários, os livros/ do Mario Levrero, repletos de anotações, as encomendas, as malas desfeitas, as lições/ de matemática que escaparam à consciência errática do teu único filho, o teu menino/ e, assim, talvez este cachorro poderá ganhar corpo, som e desaforo, no lodo/ dos planos clandestinos que não tocarão a realidade, tampouco a língua áspera/ e covarde do tempo, a lamber os teus ossos lentos, abrindo sulcos entre os coqueiros/ da tua memória, sorvendo os óleos de que precisarás para acalmar os bichos/ matreiros que despertarão na tua cabeça quando, da Praça Mauá, assistires/ a última embarcação deixar o porto, sua quilha de açúcar mascavo a roçar/ o tombadilho, o pavilhão a beijar o favo das tuas mágoas dormidas, as lágrimas/ no rosto do teu filho, que hoje tem o seu próprio filho, reflexo justaposto à imagem/ de quem não mais te parece familiar, mera miragem às quatro da madrugada/ hora em que costumavas desterrá-lo dos teus braços, o relógio a te negar intervalo/ para o descanso, mas, embora estranha, esta nova imagem amansa e consolida/ o espírito do teu menino, como no famoso autorretrato pintado por Parmigianino/ a partir de um espelho convexo e do seu reflexo disforme, imagem em que coube/ (segundo especularia o poeta John Ashbery séculos depois) a alma pequena do artista/ italiano, condenada à imobilidade enquanto intercalam-se chuvas, ventos, outonos/ e, entretanto, absolutamente capaz de provocar em qualquer observador atento// comoção similar à que o filho do teu filho experimentou diante do pescado/ agonizante que te açoitava a rabanadas, o clarão do meio-dia quarando as escamas/ prateadas, suas guelras asfixiando em prece, pois o que é a prece senão a mais pura/ forma de asfixia, todo o peso de Deus sobre o teu diafragma, nada ao alcance/ das barbatanas e, no anzol, a garganta que não constará dos manuais de anatomia.

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Poesia Brasileira Contemporânea, Uncategorized

Victor H. Azevedo

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Victor H. Azevedo (1995) é tradutor, ilustrador, pesquisador e poeta. Nasceu e vive em Natal/RN, onde, junto do poeta Ayrton Alves Badriah, comanda a Munganga Edições, pequena editora artesanal focada na obra de poetas esquecidos ou totalmente desconhecidos. Também em dupla com Ayrton, conduz o blog-projeto “poesia subterrânea” que visa o resgate da obra de velhos (e novos) autores, nascidos e/ou que atuaram literariamente no Rio Grande do Norte, numa tentativa de (re)colocar no circuito literário obras esgotadas ou de difícil acesso. Como tradutor, Victor já traduziu texto de autores como Luís Omar Cáceres, Alice Corbin Henderson, José Luís Hidalgo, Amy Lowell, Jack Spicer, Peter Orlovsky e Richard Brautigan. Como autor, publicou Cachorro Morto (Munganga Edições, 2019), JBG (Shiva Press, 2019), canivete bubaloo (Publicação online, 2017) e Põe duas horas no super nintendo qu’eu quero esquecer da minha vida (La bodeguita edições, 2016). A fotografia que estampa a postagem é de Cecília Pacheco, e as ilustrações são do próprio autor.

* * *

RETRATO FALADO
p/ Camillo José

vi em algum vídeo-ensaio
de que existe um poema
perdido em algum caderno
de anotações dedicado

ao rosto de uma mulher
que nenhum retratista
conseguiu reproduzir.
seu semblante à tinta

era como o rastro
de um animal em fuga.
quem tentasse galgar
em um sfumato seu nariz,

acabava por tomar a via
errada e fazia um rastro
de fumaça, desses que
os aviões deixam quando

cruzam o firmamento.
dos cílios acabavam
surgindo pernas e
braços de letras

findando que os olhos
ficavam amuralhados
de versos quilo-
métricos feitos de cílios.

a tinta era indomável,
desobediente à mão destra
do pintor. luzes e sombras
se desconheciam em qualquer

daguerreotipo que tirassem
da mulher. mármore virava
manteiga no labor do escultor.
por isso o único meio viável

de retratar tal vênus era por
meio de um poema. segundo
constam as fontes, esse tal poema
poderia estar em qualquer lugar.

poderia está escondido nos créditos
finais de um filme de post horror.
poderia está no raio x de uma
das pinturas da artemisia gentileschi.

poderia até mesmo está tatuado
em numa partícula que acaba
de sucumbir a existência em
algum colisor de hádrons por aí.

microfonia

(FALSA TRADUÇÃO DE UM POEMA DO AMADO NERVO)

Não, eu não procuro a grandeza física
Que mensura a existência da montanha.
Prefiro a audição da música sísmica
Andejando a aldeia de tinta tísica,
Que retroalimenta as minhas entranhas.

Vou indo bem — obrigado — por tal via,
Sem mendigar denários ou serviço
Braçal, pois me basta a minha existência
Em terra condenada à luz do dia —
Trazendo alma cheia de carrapicho.

herbanário

quero dizer que a respiração é a mãe
que nos ensina a cair em qualquer tipo de terreno
mesmo que nesse terreno exista um magnetismo
tão excessivo que o tombo seja apenas a prova viva
de que ainda temos joelhos a serem gastos.

ela nos instrui a escancarar bem as guelras
quando a sombra é aguda
e quando há tanta luz líquida
que é preciso ter instalado no coração
uma colônia de nuvens
para absorver e fazer chover
sobre essa estiagem de cometas.

nos faz ter a ciência de que andar descalço
é como se deixássemos nossos pés se confessarem a terra
e que dormir após o almoço é a melhor meditação
que se pode ter em dias de terremotos na carne.

fala também através de códigos secretos
fala que mais valioso que uma mochila lotada de árvores
é o alfabeto que criamos a partir do labirinto
que os pássaros traçam com sua fuga.

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poesia, poesia norte-americana, tradução

Harryete Mullen, por Rafael Mendes

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Harryete Mullen (1953, Alabama, EUA) é poeta e professora de literatura Afro-americana e escrita criativa na Universidade da Califórnia. Seus poemas exploram questões de gênero, raça, consumo e tradição. Segundo Harryete sua poesia busca “combinar pensamento crítico com os prazeres do ritmo e jogos de/com palavras”. Ainda, segundo a poeta, ela escreve para olhos e ouvidos, buscando uma “intersecção entre oralidade e escrita”. Durante seu doutorado, escreveu uma tese sobre narrativas da escravidão, influenciando seu trabalho que, por muitas vezes, trata das vidas dos Afro-americanos e de suas diásporas. Mullen tem diversas coleções publicadas, dentre elas: S*PeRM**K*T (1992), Muse & Drudge (1995) e Sleeping with the Dictionary (2002), este foi indicado para diversos prêmios literários, como o National Book Award e National Book Critics Circle Award. Seus livros são inéditos no Brasil. Ela é vencedora do Gertrude Stein Award, Jackson Poetry Award, entre outros.

* * *

Nós não somos responsáveis

Nós não somos responsáveis por seus parentes perdidos ou roubados.
Nós não garantimos sua segurança se você desobedecer nossas regras.
Nós não apoiamos as causas e reclamações de pessoas implorando por panfletos.
Nós preservamos o direito de negar atendimento para qualquer um.

Sua passagem não garante que iremos honrar sua reserva.
Para facilitar nossos procedimentos, por favor limite sua reprodução.
Antes da decolagem, favor abolir todos ressentimentos em cozedura .

Se você não fala inglês, você será removido do caminho
No evento de uma perda, é melhor você se virar sozinho.
Seu seguro foi cancelado porque nós não podemos mais dar conta
de suas reclamações pavorosas. Nossos guardas perderam sua mala e nós
somos incapazes de achar o número do seu processo penal.

Você foi detido para interrogatório porque você se encaixa no perfil.
Você não é presumido inocente se a polícia
suspeitar que você está carregando um guarda-chuva escondido.
Não é nossa culpa se você nasceu vestindo cores do pavilhão 9.
Não é nossa obrigação informá-lo sobre seus direitos.

Na parede, por favor, enquanto nosso cabo inspeciona sua marra.
Você não tem direitos que devemos respeitar.
Por favor se acalme, ou nós não seremos responsáveis
pelo que acontecer com você.

 

We Are Not Responsible

We are not responsible for your lost or stolen relatives.
We cannot guarantee your safety if you disobey our instructions.
We do not endorse the causes or claims of people begging for handouts.
We reserve the right to refuse service to anyone.

Your ticket does not guarantee that we will honor your reservations.
In order to facilitate our procedures, please limit your carrying on.
Before taking off, please extinguish all smoldering resentments.

If you cannot understand English, you will be moved out of the way.
In the event of a loss, you’d better look out for yourself.
Your insurance was cancelled because we can no longer handle
your frightful claims. Our handlers lost your luggage and we
are unable to find the key to your legal case.

You were detained for interrogation because you fit the profile.
You are not presumed to be innocent if the police
have reason to suspect you are carrying a concealed wallet.
Its not our fault you were born wearing a gang color.
It is not our obligation to inform you of your rights.

Step aside, please, while our officer inspects your bad attitude.
You have no rights we are bound to respect.
Please remain calm, or we can’t be held responsible
for what happens to you.

§

Elíptico

Eles simplesmente não conseguem … Eles devem se esforçar mais para… Eles deveriam ser mais .. Nós todos desejamos que eles não fossem tão .. Eles nunca .. Eles sempre .. Algumas vezes eles .. De vez em quando eles .. No entanto é óbvio que eles .. A tendência deles tem sido de .. As consequências disso foram … Eles parecem não entender que .. Se ao menos eles fizessem esforço para .. Mas nós sabemos como é difícil para eles .. Muito deles permanecem ignorantes de que .. Alguns que deveriam saber melhor se recusam a .. Claro, a visão deles tem sido limitada por .. Por outro lado, eles claramente sentem-se no direito de .. Não podemos esquecer que eles .. Nem pode ser negado que eles .. Nós sabemos que isso teve um enorme impacto neles .. Apesar disso o comportamento deles nos choca como .. Nossas intenções infelizmente foram ..

Elliptical

They just can’t seem to . . . They should try harder to . . . They ought to be more . . . We all wish they weren’t so . . . They never . . . They always . . . Sometimes they . . . Once in a while they . . . However it is obvious that they . . . Their overall tendency has been . . . The consequences of which have been . . . They don’t appear to understand that . . . If only they would make an effort to . . . But we know how difficult it is for them to . . . Many of them remain unaware of . . . Some who should know better simply refuse to . . . Of course, their perspective has been limited by . . . On the other hand, they obviously feel entitled to . . . Certainly we can’t forget that they . . . Nor can it be denied that they . . . We know that this has had an enormous impact on their . . . Nevertheless their behavior strikes us as . . . Our interactions unfortunately have been . . .

§

Tudo que ela escreveu

Me desculpe, não sou boa nisso. Não posso escrever de volta. Eu
nunca li sua carta.
Não posso dizer que recebi seu bilhete. Eu não tive a força
para abrir o envelope.
As cartas se empilham perto da porta. Sua letra é ilegível.
Seus cartões postais estavam
desfigurados. Lave seu cabelo molhado? Qualquer documento que você
pensou em me enviar ainda
será entregue. O bagunçado sistema de encomendas não entregou.
Sinto dizer que eu sou
incapaz de responder aos seus desejos mudos. Eu não
recebi o livro que você enviou.
Inclusive, meu computador foi roubado. Agora sou incapaz
de processar palavras. Eu
sofro de afasia. Eu acabei de voltar do Quénia
e da Coréia. Você não
recebeu meu cartão ainda? O que posso lhe dizer? Eu esqueci
o que eu ia
dizer. Não consigo achar uma caneta que funcione e depois eu quebrei
meu lápis. Você sabe
como o papel é raro ultimamente. Eu confesso que não venho reciclando. Eu
nunca
tenho tempo para ler O Globo. Estou sem sacola de mercado para colocar
as notícias velhas.
Eu não fui ao mercado. Eu queria checar os descontos. Eu
ainda não li
as cartas do correio. Eu não consigo passar pela porta para trabalhar, então eu liguei doente. Eu
fui pra
cama com cólicas de escritora. Se eu não conseguisse escrever, eu
pensei que colocaria minha
leitura em dia. Então a Ana Maria Braga apareceu com um autor fabuloso
conectando
seu livro mais vendido.

All she wrote

Forgive me, I’m no good at this. I can’t write back. I never read
       your letter.
I can’t say I got your note. I haven’t had the strength to open the
       envelope.
The mail stacks up by the door. Your hand’s illegible. Your
       postcards were
defaced. Wash your wet hair? Any document you meant to send
       has yet to
reach me. The untied parcel service never delivered. I regret to
       say I’m
unable to reply to your unexpressed desires. I didn’t get the book
       you sent.
By the way, my computer was stolen. Now I’m unable to process
       words. I
suffer from aphasia. I’ve just returned from Kenya and Korea.
      Didn’t you
get a card from me yet? What can I tell you? I forgot what I was
      going to
say. I still can’t find a pen that works and then I broke my pencil.
      You know
how scarce paper is these days. I admit I haven’t been recycling. I
      never
h   ave time to read the Times. I’m out of shopping bags to put the
      old news
in. I didn’t get to the market. I meant to clip the coupons. I
      haven’t read
the mail yet. I can’t get out the door to work, so I called in sick. I
      went to
bed with writer’s cramp. If I couldn’t get back to writing, I
      thought I’d catch
up on my reading. Then Oprah came on with a fabulous author
      plugging her
best selling book.

 

Rafael Mendes é tradutor e poeta. Residiu em Franco da Rocha, Dublin e atualmente mora em Barcelona. Publicou em 2018 “Ensaio sobre o belos e o caos” pela Editora Urutau. Tem participação nas seguintes antologias: Poetry in the Time of Coronavirus (EUA, 2020, no prelo), Parem as máquinas (Off Flip, 2020, Brasil, no prelo), Writing Home: The New Irish Poets (Dedalus Press, 2019, Irlanda), 32kg: Uma antologia Brasil-Irlanda (Urutau, Europa, 2017). Seus poemas e traduções já foram publicados nas revistas Ruído Manifesto, Revista Gueto, Mallamargens,Vício Velho, Subversa, FLARE magazine, The Irish Times, entre outras. Edita o blog de tradução: https://poetrybilingue.wordpress.com/

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poesia, Poesia Brasileira Contemporânea

Mariana Botelho

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Mariana Botelho nasceu em Padre Paraíso, no Vale do Jequitinhonha/MG. Publicou seu primeiro livro (o silêncio tange o sino) pela Ateliê Editorial em 2010 e em seguida o “K” pela Clãdestina Cartonera em 2015. Tem publicações em meios digitais e impressos espalhados pela internet, revistas acadêmicas e jornais diversos. Prepara um terceiro livro, a ser lançado quando Deus der o bom tempo, com estes poemas dentro.

* * *

CAVALO I

intempérie
assolou o quintal

devorou alface
(sonhos
do sol
sobre as folhas
às quatro da tarde
com café novo
no bule)

– não é fácil
respirar –

rasga meu sono

põe as patas
no meu peito

me aperta entre
vida e morte:

por cima
sem cuidado

por dentro e
através

§

a força
do esvaziamento

presença
excessiva
do corpo
no corpo

– do corpo
no chão –

como que plantado
na queda

a “mói” de um trator
sabe explicar
todas as ruínas

um fio na chuva, –
se tivesse
ainda
outro lugar por
onde chorar

chorava

§

é como estar debaixo d’água

em transe
numa casa
de vários quintais:
o amor

família inteira à espera
(araras
no cerrado
às seis da tarde) –
talvez
para jantar –

à luz de um sol

(talvez dois)

dos olhos mais
bonitos
que já vi

§

um corpo cai

nem as feridas atestam a veracidade
do que parece sonho

inaugura todos os dias
uma nova vertigem
para a mesma viagem:

um trem de ferro que passa
ao largo
de nossa morte

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poesia, tradução

Sean Bonney, por Beatriz Bastos & Otávio Campos

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Sean Bonney nasceu em Brighton, em 1969, e cresceu no norte da Inglaterra. Passou 17 anos em Londres, cidade que se tornou para ele principal matéria de grande parte dos seus textos. Na capital, se envolveu em movimentos sociais e políticos, principalmente os que iam contra a Taxa de Moradia cobrada na cidade. Sua militância política é indissociável de sua atuação como escritor. Publicou diversos panfletos, plaquetes e livros, esses tomados por uma fúria e uma vontade revolucionária contra as instituições, principalmente no que se refere à moradia, à polícia e ao tratamento aos imigrantes. Além disso, por muitos anos manteve o blog abandonedbuildings.blogspot.com, alimentado constantemente até 2019, com leituras dos poemas em áudios, e em vídeos de suas apresentações pela Europa, além das primeiras versões de alguns poemas futuramente publicados . Seus textos foram reunidos em sete livros principais, Blade Pitch Control Unit (2005), Baudelaire in English (2008), Document (2009), The Commons (2011), Happiness: Poems After Rimbaud (2011), Letters Against the Firmament (2015), e Our Death (2019).

Em sua produção, percebemos as influências dos seus interesses pessoais maiores, como uma vertente mais radical dos movimentos de esquerda, com o punk britânico, a Angry Brigade, a Red Army Faktion, além do Surrealismo e a arte revolucionária como um todo. Soma-se a isso, também, seu interesse no movimento Black Power americano, do qual foi se tornando um estudioso principalmente enquanto pesquisava para o seu título de PhD, a partir de uma tese sobre Amiri Baraka, um dos poucos negros a integrar a caravana Beat.

Bonney morreu pouco tempo depois de ter seu último livro, Our Death, publicado, em um trágico acidente em Berlim, cidade onde morava há alguns anos e fazia pós-doutorado com uma pesquisa sobre Diane di Prima and Katerina Gogou. Em seu obituário, publicado na revista online Jacket2, o poeta William Rowe diz que “nenhum outro trabalho contemporâneo destrói tão completamente o universo do fascismo ressurgente”. Para Rowe, a poética de Bonney se apresenta como uma possibilidade de sobrevivência à violência instaurada no Reino Unido principalmente após Thatcher. “Esta é uma poesia na qual as camadas de defesa do self foram suspensas, o poema larga seus muros habituais, e as injustiças brutais da história encontram expressão.”, escreve Rowe.

Dois livros de Sean Bonney foram traduzidos para o português por Miguel Cardoso e publicados em Portugal pela Douda Correria, Cartas contra o firmamento (2016) e Nossa morte (2020). No Brasil, sua obra por enquanto permanece inédita, e uma publicação está sendo preparada pela Edições Macondo (com tradução de Beatriz Bastos e Otávio Campos) para 2020. Os poemas publicados agora na escamandro foram retirados do livro que está sendo traduzido, com título provisório de Fantasmas. Esse livro, que saiu imediatamente antes de sua última coletânea, é uma publicação que pode ser considerada “de transição”, como muitos dos seus trabalhos que foram editados. Em uma nota inicial, impressa nas primeiras páginas do volume, o autor revela o seguinte: “A maior parte dessa seleção é originada de duas sequências. Câncer: Poemas depois de Katerina Gougou, publicado pela primeira vez em uma edição limitada por A Firm Nigh Holistic Press em 2016. A maioria dos outros textos (…) são de uma sequência em andamento intitulada Nossa morte, cujo título deve ser mais ou menos auto explicativo”. Ghosts aborda questões caras à poesia de Bonney, como a vida no submundo das grandes cidades, a problemática dos refugiados e da moradia, a desconfiança de instituições, sobretudo a desconfiança de policiais e políticos. Mas, além disso, essa coletânea de poemas também constrói um universo narrativo próprio, trabalhando com a imagem de fantasmas vagando, como zumbis, em um cenário pós-apocalíptico que em tudo se parece com nossas próprias capitais brasileiras.

FODA-SE A POLÍCIA

 

* * *

 

“Me Surre!”

Hoje em dia todo mundo tá escrevendo seu livro derradeiro. Dane-se. Eu também perdi tudo. Meu corpo é feito de três agulhas, várias moedas, um sistema de nitrato e algo que os babacas chamariam ‘uma filosofia’. Eu vejo no escuro e gosto de quebrar espelhos. Pra muita gente as coisas tão bem piores. Vago pela cidade recitando um velho poema da Anita Berber: CADÁVER. FACA. CADÁVER. FACA. LUZ. Todas as noites há momentos em que penso que posso ver essa luz. Ela brilha dentro de todos os quartos onde já morei, todos aqueles quartos e cidades que sempre amamos sempre desprezamos. MOEDAS. ESPELHOS. LUZ.

 

“Thrash Me!”

These days everyone is writing their final book. Whatever. I’ve lost everything as well. My body is made up of three needles, several coins, a system of nitrates and something wankers would call ‘a philosophy’. I see in the dark and like to smash mirrors. For many other people things are far worse. I roam around the town, reciting an old poem by Anita Berber: CORPSE. KNIFE. CORPSE. KNIFE. LIGHT. There are moments each evening when I think I can see that light. It shines inside all the rooms I have lived in, all those rooms and cities that we have always loved always despised. COINS. MIRRORS. LIGHT.

 

§

 

Todos os dias, todo dia eu acordo dentro do regime assalariado
dentro de todas as suas casas, nunca paguei aluguel em nenhuma.
Não durmo em lugar nenhum. Todas as manhãs dentro do meu salário
Deito à espera daqueles que dormem, eu durmo
em seus colos e nunca falo. Nunca
Tome isso como evidência espectral. Quer dizer. Foda-se a morte.

 

Every day I wake up everyday inside the wage system
inside all its houses, never paid rent on even one.
Sleep nowhere. Every morning inside my wages
I lie in wait for those who sleep, I sleep
on their chests and never speak. Never
Take this as spectral evidence. Meaning. Fuck death.

 

§

 

[morfina]

Cinco pontos no mapa. Cinco dias
Você assiste sua cidade em chamas
Cinco da manhã. Cinco policiais na porta.
Interpreta. Nenhuma cidade é construída de novo
Seu mapa um anúncio, um ardil, um combate.

Adivinhação. Medos inumanos das pessoas
Essa distância, um arranjo de canções
espalhadas pela capital, um conjunto de leis
pra matar os vivos. Rimas, essa distância.
Ruínas são barricadas. Canções são ossos.

Nossos mapas quase conspiradores
acordados durante a noite, interrogando o céu
Cometas também são ossos. Que esperam
colidir com a nossa aventura. Os dias se empilham
Como torres desabando. Policiais. Osso.

risquei fora Bakunin. escrevi cinco policiais.
cinco da manhã – um charme pra destruir a capital.

 

[morphine]

Five points on the map. Five days
You watch your city burn.
Five A.M. Five cops at the door.
Interpret that. No city is built again
Your map a declaration, a trap, a war.

Divination. Inhuman fears of the people
This distance, an arrangement of songs
scattered on the capital, a set of laws
to kill the living. Rhymes, this distance.
Ruins are barricades. Songs are bones.

Our maps, almost, are conspirators
all night awake, questioning the sky
Comets, also, are bones. Are waiting
to crash our adventure. Days pile up
Like collapsing towers. Cops. Bone.

crossed out Bakunin. wrote down five cops.
5 a.m. – a charm to consume the capital.

 

§

 

Uma Nota sobre minha Poética Recente

Parei de fumar maconha há alguns meses porque estava me deixando paranoico, mas desde então, quase todos os dias tenho tomado doses potencialmente fatais de anfetamina. Isso quase certamente está me deixando psicótico, mas pelo menos tem a vantagem de me salvar do vasto cataclisma que dormir se tornou. Em muitas manhãs me sinto desconfortável, visível e invisível ao mesmo tempo, preso entre os ditos dois mundos, em nenhum deles estou preparado pra aceitar ou mesmo tolerar. De qualquer forma, não posso separá-los – tudo está funcionando em uma espécie de nível estroboscópico, no qual o mundo invisível está povoado por um bando de insones de carne e sangue cambaleando por aí depois do naufrágio, e o mundo visível por um estranho mapa astral, uma rede de nós e tumores que até agora esteve trancada em algum lugar no centro da terra, um inferno de alfabetos e injustiças espectrais organizados em pedaços ao longo da cronologia. Vejamos. Houve a revolta fiscal. Havia as casas punk. Havia ecstasy e ácido e festas abertas. A lei de justiça criminal. Britpop. A ascensão da babaquice irônica. A expressão tolerância zero. O tédio do hedonismo forçado. O esqueleto de Tony Blair. As chamas da intervenção humanitária. A inevitabilidade da jihad. E isso é só outro amontoado meio arbitrário, um corredor de vários espelhos nos quais toda manhã eu bato e cheiro carreiras cada vez mais colossais até que, nas palavras de Ernst Bloch, “anos se tornam minutos, como nas lendas em que, no período aparente de uma noite, uma bruxa se apodera da longa vida de sua vítima”. E não sei se me identifico com essa bruxa ou não, mas sei que há algumas manhãs em que considero a possibilidade de moer os ossos de Blair, e então lançá-los aos pés dos vários monumentos – falo por exemplo das estátuas que contornam a Trafalgar Square – pra transformá-los em demônios reais. A crise, ou como quer a gente deva chamar isso. As ruínas do Ritz, por exemplo. O vidro quebrado da região de Millbank. Os termos de prisão dos rebeldes. Que merda. Até breve. Todo mundo sabe que Thatcher forjou sua morte.

A Note on my Recent Poetics

I stopped smoking pot a few months ago because it was making me paranoid, but since then most days I’ve been taking potentially fatal doses of amphetamine. Its almost certainly making me psychotic, but it does at least have the advantage of saving me from the vast cataclysm that sleep has become. Most mornings I feel uneasy, visible and invisible at the same time, trapped between the proverbial two worlds, neither of which I’m prepared to accept or even tolerate. I can’t tell them apart anyway – everything’s functioning at some kind of stroboscopic level, where the invisible world is populated by a gaggle of flesh and blood insomniacs staggering around after a shipwreck, and the visible one by a weird star-map, a network of knots and tumours that up until now have been locked somewhere in the centre of the earth, a hell of alphabets and spectral injustices arranged in pieces along the chronology. Lets see. There was the poll tax revolt. There were punk houses. There was ecstasy and acid and free parties. The criminal justice bill. Britpop. The rise of the ironic wank. The phrase zero tolerance. The boredom of enforced hedonism. The skeleton of Tony Blair. The flames of humanitarian intervention. The inevitability of jihad. And thats just one more or less arbitrary little cluster, a hall of various mirrors that every morning I chop and snort increasingly gargantuan lines from until, in the words of Ernst Bloch, “years become minutes, as in legends where, in the apparent time span of a single night, a witch cheats her victim out of a long life”. And I don’t know whether I identify with that witch or not, but I do know that there are some mornings when I consider the possibility of powdering Blair’s bones, and then casting them at the feet of various monuments – say for example the statues that encircle Trafalgar Square – so as to transform them into real demons. The crisis, or whatever it is we’re supposed to call it. The ruins of the Ritz, for example. The broken glass of Millbank. The jail terms of the rioters. Ah shit. See you later. Everybody knows that Thatcher faked her death.

 

§

 

[de Câncer]

vamos beber com os desempregados
com todo sol e silêncio
com toda poeira no sol e silêncio
e sol e conhaque e poeira
e cigarros e sol
não, hoje não vamos falar sobre nossa saúde
comprimidos e bebidas e catarro
não se preocupe
me sinto muito calmo
há unhas há cabelo há anos
sujos
os comprimidos são ótimos. a festa, você sabe qual
impossível dizer quem é polícia hoje em dia
música
um conhaque merda
não, não tenho ouvido nada faz um tempo
você sabe eu tenho pensado que talvez queira, sabe
tem um quarto ali em cima
quero te ver sem as calças
meio curioso sobre seu pau
música, pelo amor de deus
você toca uma
“pegaram um pau e me bateram”
conhaque
música
silêncio
você tira seu canivete começa a cortar
A Gangue Bonnot estava certa.

 

[from Cancer]

let’s drink with the unemployed
with all sun and silence
with all dust in the sun and silence
and sun and cognac and dust
and cigarettes and sun
no, lets not go on about our health today
pills and drink and snot
don’t worry
I feel very calm
there are nails there is hair there are years
dirty
the pills are great. the party, you know which one I mean
impossible to tell whose a cop these days
music
the cognacs shit
no, I haven’t heard anything for quite some time
you know I’n thinking I might want to, you know
there’s a room upstairs
I want to see you without your pants
kind of curious about your dick
music, for chrissake
you take a solo
“they took a stick and beat me”
cognac
music
silence
you pullout your switchblade start slashing
The Bonnot Gang were right.

 

§

 

[de Câncer]

música, eu não falo sobre isso
meus olhos. sério, onde estão meus olhos
todo dia há algo para rejeitar
eu não vou gritar quando morrer
Marx Lenin Trotsky Luxemburgo
A Revolta de Kronstadt e o sonho de Sísifo
há flores há cores
revólveres e bombas caseiras
estou ficando louco, por que você não está
os meus sonhos os sonhos dos meus amigos
todos os sonhos o mesmo sonho
surtos repetidos choradeira sem fim
isso é medida
você e eu
pra cima e pra baixo
e de volta e pra baixo
há uma falsa simetria nos separa
não vamos rir
se não assinarmos o papel
eles não vão poder comprovar nada
a noite cai
o comitê central
a noite cai
eles querem saber se eu tenho uma televisão
a noite cai
eu ainda estou mais ou menos segurando a onda
não vou assinar
vida longa à 204º Internacional

 

[from Cancer]

music, I don’t talk about it
my eyes. seriously, where are my eyes
every day there’s something to reject
I will not scream when I die
Marx Lenin Trotsky Luxemberg
The Kronstadt Massacre and the dream of Sisyphus
there are flowers there are colours
revolvers and homemade bombs
I’m going crazy, why aren’t you
my dreams my friends’ dreams
all these dreams are the same dream
repeated breakdowns endless weeping
this is measure
you and me
up and down
and back and down
there is a false symmetry separates us
lets not laugh
if we don’t sign the paper
they won’t be able to act on their decision
night falls
the central committee
night falls
they want to know if I have a television
night falls
I’m still kind of keeping it together
I won’t sign
Long live the 204th International

 

§

 

Para quê serve gás lacrimogêneo

Policiais, não sendo humanos nem animais, não sonham. Eles não precisam, eles têm gás lacrimogêneo. Não espere que eu explique isso. Você sabe tão bem quanto eu que policiais têm acesso ao conteúdo dos nossos sonhos. E você provavelmente também sabe que uma quantidade razoável do gás lacrimogêneo do planeta é fornecida pelo Westminster Group. Seu presidente não executivo, seja lá o que isso significa, é membro da família de, vejam só, Charles Windsor. Ele deve pensar no gás lacrimogêneo como alguma coisa relacionada à Nuvem do Não-Saber, e, de certa forma, ele tá meio certo. Você chega a um conhecimento muito verdadeiro da natureza das coisas, visíveis e invisíveis, ao ter seu sistema sensorial sequestrado e virado contra você por uma dose significativa de gás lacrimogêneo. É o anti-Rimbaud. O absuto controle e administração de todos os sentidos. É sério, tente. Na próxima vez que as coisas começarem a esquentar um pouco vai pra rua e corre pro meio da maior nuvem de gás lacrimogêneo que você encontrar. Cabum. Visão. Gosto. Cheiro. A porra toda. Tudo se transforma em confusão, desorientação geográfica e, principalmente, dor. Não pire. No centro dessa dor há um pequeno e silencioso ponto de Não-Saber. É esse Não-Saber que os policiais – e por extensão Charles Windsor – chamam de conhecimento. É o que eles querem. Eles têm bisturis caso seja necessário mas gás lacrimogêneo é mais limpo. Não está claro por que querem isso mas qualquer epiléptico ou visionário ou viciado em drogas pode te dizer o motivo. Tá lá em Blake. AiJesus, tá lá no encarte do Metal Machine Music. O que isso significa? Quem se importa. Isso não responde nada. O que Charles Windsor quer com a gente? Os policiais não vão nos dizer o que eles não sabem e o que eles acham que sabemos.

 

What Teargas is For

Cops, being neither human nor animal, do not dream. They don’t need to, they’ve got teargas. Don’t expect me to justify that. I mean, you know as well as I do that cops have got access to the content of all of our dreams. And you probably also know that a fair amount of the planet’s teargas is supplied by the Westminster Group. Their non-executive chairman, whatever that is, is a member of the household of, ahem, Charles Windsor. He probably thinks of teargas as being somehow related to the Cloud of Unknowing, and, in a sense, he’s kind of right. You come to a very real understanding of the nature of things, both visible and invisible, by having your sensory system hijacked and turned against you by a meaningful dose of teargas. It is the anti-Rimbaud. The absolute regulation and administration of all the senses. I mean try it. Next time things are starting to kick off a little bit just go out on the street and run straight into the middle of the biggest cloud of teargas you can find. Bang. Sight. Taste. Smell. All the rest of them. All turned into confusion, loss of geographical certainty and, most importantly, pain. Don’t freak out. In the centre of that pain is a small and silent point of absolute Unknowing. It is that Unknowing that the cops – and by extension Charles Windsor – call knowledge. They want it. They’ve got scalpels if necessary but teargas is cleaner. Its not clear what they want it for but any epileptic or voyant or drug addict could tell you what it is. It’s there in Blake. Christ, it’s there in the sleeve-notes to Metal Machine Music. What’s it mean? Who cares. It answers no questions. What does Charles Windsor want with us. The cops will not tell us what they don’t know and what they think we know.

 

* * *

Beatriz Bastos nasceu em 1979 no Rio de Janeiro. Publicou Areia (Aqueronta Movebo, 2000), Pandora – Fósforos de Segurança, em coautoria com Fernanda Branco (Azougue, 2003), Da Ilha (Editacuja, 2009) e Balaclava (no prelo, Coletivo Janga). Fez mestrado e doutorado em tradução de poesia, na PUC-Rio (2014). Traduziu, em parceria com Paulo Henriques Britto, uma primeira antologia brasileira de Frank O’Hara, Meu coração está no bolso (Luna Parque, 2017). Traduziu, juntamente com Ismar Tirelli Neto, o livro Silêncio de John Cage (Cobogó, 2019). Janga, coletivo de poetas e editora independente.
Trabalha como tradutora e professora.

Otávio Campos é um poeta e editor nascido em 1991. Mestre em Estudos Literários, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. É doutorando em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais. Publicou, entre outros, os livros Os peixes são tristes nas fotografias e Ao jeito dos bichos caçados. Desde 2014 é coordenador editorial das Edições Macondo.

Padrão
poesia, sessão vagalume, tradução

Sessão Vagalume|Stefano Modeo, por Prisca Agustoni

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Stefano Modeo (Taranto, 1990) vive e trabalha em Ferrara. La terra del rimorso (ItalicPequod, 2018) é seu livro de estreia. Publicou poemas dessa mesma coletânea nas principais revistas literárias italianas. Integra a antologia Abitare la parola – poeti nati negli anni ’90 (Ladolfi Editore, 2019). Integra a redação da revista de poesia Atelier e colabora com o blog de literatura Nazione indiana.

Os poemas aqui traduzidos foram extraídos da coletânea La terra del rimorso.

* * *

IV.

La piazza semivuota del tuo cuore.
Hai percorso la piazza.
Hai smesso di guardare il passo tuo nella piazza:
tra la gente cercavi la tua gente.
Scarpe e volti nella piazza mattutina.
Le parole sono tante le idee sono poche.
Sei tornato a casa e hai scritto una poesia:
la leggeremo in piazza, risuonerà alta:
nella piazza semivuota del tuo cuore.

IV.

A praça semideserta do teu coração.
Você percorreu a praça.
Parou de olhar teu passo na praça:
entre as pessoas você procurava tuas pessoas.
Sapatos e rostos na praça matutina.
As palavras são tantas as ideias são poucas.
Voltou pra casa e escreveu um poema:
o leremos na praça, soará alto:
na praça semideserta do teu coração.

§

V.

Nella pancia della balena gorgoglia la mattanza
siamo tanti stipati come legni nella stiva
la balena ogni tanto soffia in alto il mare e
qualcuno. Siamo tanti niente mescolati di lutto e di
nessuno porta avanti Capitano la mia sorte, porta
avanti.
Brucia, il mare, la tua pelle senza acqua – è buio –
sbatte la balena, uno schiaffo nell’impatto – mi sveglio –
rallenta rallenta anche il calore del motore – è finita –
la morte, i bianchi sono venuti a prenderci – Dio mio

V.

Na barriga da baleia borbulha a matança
somos muitos enfiados como lenha no porão
às vezes a baleia sopra para o alto o mar e
alguém. Somos muitos nada misturados de luto e de
ninguém leva em frente Capitão minha sorte, leva
em frente.
Queima, o mar, tua pele sem água – está escuro –
choca a baleia, um estalo no impacto – eu acordo –
reduz reduz até o calor do motor – acabou –
a morte, os brancos vieram nos pegar – meu Deus

§

IX

nel terrore delle sere le città militarizzate sembrano cespugli
se per di qui te ne vai, passante, non capisci qual è il gioco
eppure la paura ti abbraccia le caviglie e incespicando sbrighi
il tuo passo per il quais.
Batte
botte
questo cuore sorvegliato.
Quest’impero è una vetrina lungo i viali solitari,
ecco solo i militari.
Lampeggiando una sirena sale, un elicottero guarda indifferente
e silenziosamente una sigaretta fuma lenta alle finestre rabbuiate.
Splende un occhio
incandescente
sul tuo viso preoccupato.
Ovunque corrono i pensieri, ovunque le notizie in tempo reale
avanzi il passo verso casa, tutto il mondo è virtuale, la paura sale

IX

no terror das noites as cidades militarizadas parecem matagais
se você for por aqui, passante, não vai entender qual é o jogo
mas o medo te abraça nos tornozelos e tropeçando você apressa
o passo ao longo da calçada.
Bate
barril
este coração vigiado.
Este império é uma vitrine ao longo das avenidas solitárias,
eis apenas os militares.
Uma sirene sobe piscando, um helicóptero olha indiferente
e silenciosamente um cigarro fuma lento às janelas escuras.
Brilha um olho
incandescente
em teu rosto preocupado.
Correm por todo lado os pensamentos, como as notícias em tempo real
você alonga o passo rumo à casa, o mundo todo é virtual, o medo sobe

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