traduzir e retraduzir (n)o escamandro

o capítulo primeiro de tradução, reescrita e manipulação da fama literária, de andré lefevere, inicia-se com o seguinte parágrafo:

Este livro lida com os intermediários, homens e mulheres que não escrevem literatura, mas a reescrevem. Isso é importante porque eles são, no presente, co-responsáveis, em igual ou maior proporção que os escritores, pela recepção geral e pela sobrevivência de obras literárias entre leitores não-profissionais, que constituem a grande maioria dos leitores em nossa cultura globalizada. (p. 13)

assim, nos termos de lefevere não é descabido pensar no cinema como um dos domínios operantes da tradução (chamarei simplesmente de tradução o que reunirá também o conceito problemático de adaptação e reescrita), e tampouco o seria pensar o mesmo com os quadrinhos, a arte que, entre todas, mais é aparentada com o cinema.
pois bem, pensemos nos processos de transposição de uma ideia ao longo do trabalho composicional de ambas. essa ‘ideia’, ou o conteúdo que se pretende transpor desde uma obra literária até o resultado midiático final (pensando, claro, em termos de adaptações) sofre um trabalho brutal de adaptação a um roteiro estabelecido para comunicação em outra mídia. (o que causa o clássico ‘o filme é bom, mas o livro é melhor). ou seja, esse novo roteiro, que faz o meio de campo entre obra e destino, constitui o caminho intermediário que reúne todo esse conteúdo original (a poética, de acordo com alguns) com a matéria transposta. daqui, ao invés de pensarmos no ‘que se perde’ no caminho (assunto que resume a cruz de todo tradutor), já temos em mente que se tratam de mídias diferentes, e, portanto, abordagens diferentes de um mesmo tema. antes de pensarmos em todos os filmes que não alcançaram a magnitude de suas realizações literárias, não esqueçamos daqueles que fizeram o contrário, e tornaram livros medianos em clássicos da turma cinemática. um exemplo disso para mim seria o carteiro e o poeta.

do roteiro, passa-se ao storyboard, a nova transposição. traduz-se o conceito do roteiro no seu primeiro acontecimento visual. supõe-se ali o texto, vivificado, mas aponta-se para um lado em que acontecem outras coisas além do verbal.

abaixo podemos visualizar dois exemplos. o primeiro trata-se de uma página do storyboard de star wars: o império contra-ataca, com uma cena bastante conhecida por todos nós, creio. mais abaixo temos o sketch de jim lee para uma página de batman: silêncio, juntamente com a sua realização após a arte-final.

disso, supõe-se que o caminho final seja do storyboard em direção à versão definitiva, à arte-final e às cores.

tradução, adaptação, reescrita.

muito provavelmente não lemos o roteiro original de quaisquer revistas do batman ou da série star wars. certamente eu simplifiquei bastante o processo. de qualquer modo, a coisa se torna especialmente interessante quando vemos uma obra literária bastante conhecida tomar forma em uma dessas outras mídias. já falei nesses termos com relação à música aqui, em outro post. ali, a expressão verbal é praticamente zero, e capta-se algo do ‘espírito’ da obra para ser transmitido por som, e isso pode acontecer tanto no poema sinfônico oitocentista quanto na banda de metal que busca temas da épica clássica. no cinema, tanto quanto nos quadrinhos, a expressão verbal é diminuída com relação ao texto-fonte, podendo ser muito bem (re)elaborada, e divide espaço (e atenção) com a imagem.alienista_gemeos_capa

minha própria experiência alertou negativamente durante vários anos para obras literárias adaptadas para quadrinhos. simplificação do roteiro (para não dizer bestificação), aliado muitas vezes com artistas de segunda mão faziam um desserviço a um trabalho que, retomando a abertura desse post, pode ser uma ferramenta poderosa para divulgação de literatura a um público não-profissional. supondo o argumento de lefevere, um maldito quadrinho ruim poderia arruinar com a imagem de uma obra em meio a uma comunidade de leitores jovens, para pensarmos numa situação. nos últimos tempos, no entanto, algo tem mudado. um exemplo básico em termos de brasil é o trabalho dos irmãos gabriel bá e fábio moon, que adaptaram, por exemplo, o alienista, de machado de assis (capa ao lado), com grande qualidade de roteiro e de arte. trabalhos assim passaram a ser mais comuns a nível nacional e internacional, deixando de representar apenas a imbecilidade da ‘adaptação para jovens’ para constituir uma mídia de comunicação bem fundamentada e mais levada a sério, como já era o cinema.

nessa esteira, chega ao meu conhecimento a existência da série marvel illustrated, que adapta grandes obras da literatura à linguagem dos quadrinhos. alguns de vocês devem ter conhecimento dessa série, que inclui em seu acervo títulos como a ilíada, a odisseia, moby dick, o retrato de dorian gray, a ilha do tesouro, entre outros. no primeiro momento, o que me chamou mais a atenção foi o fato de esses títulos virem licenciados pela marvel comics, o que, querendo ou não, possivelmente elevaria o padrão dos trabalhos a outro nível. (infelizmente, até onde me consta a série não foi lançada no brasil).

fato é que a adaptação da ilíada é magistral, desde a concepção do roteiro e do storyboard até o formato final e a arte, e aí eu chego finalmente onde pretendia.

para quem gosta de quadrinhos de ação, é o clássico quadrinho de pancadaria entre personagens heroicas; e mais que isso, é um quadrinho que também sabe manter os momentos de pathos, as tristezas e as tragédias, os valores. para quem gosta da ilíada, é uma adaptação e tanto, com uma fidelidade assombrosa à ‘ideia’ do poema, e até mesmo com citações exatas do texto. tanto é que partes traduzidas do próprio poema compõem falas de personagens e até do narrador, de modo que quem conhece o poema sentirá ressoar na memória a grandiloquência homerica naqueles quadrinhos que pareceriam ser à primeira vista só de porrada.

por isso, como homenagem minha ao nosso escamandro, que nem um ano tem ainda, apresento finalmente o escamandro homerico em nosso blog, em toda sua magnitude, e em duas versões: a da marvel, que conta com o roteiro de roy thomas e os desenhos de miguel angel sepulveda; e a minha, que segue o padrão dodecassílabo que estou utilizando em meu projeto de tradução da argonáutica de apolônio de rodes, mantendo o mesmo número de versos, e que logo deve ter uma pontinha aparecendo aqui no blog. por meio da comparação entre essas duas versões também será possível perceber o quão próxima está a versão da marvel do texto de homero.

para uma introdução à leitura, lembramos que o rio escamandro (em seu nome humano, sendo xanto o divino) se entope com corpos de troianos durante a aristeia de um aquiles recém retornado à guerra e enfurecido pela morte de pátroclo. afrontado pelo herói, o escamandro se revolta, dá uma coça no mais poderoso dos homens e bota ele pra correr, fazendo com que o semideus aquiles sinta medo e rogue aos deuses por salvação. aquiles, em desespero, chega a se comparar, num símile, com um pequeno pastor que, ao tentar atravessar as fortes correntes durante o inverno, acaba engolido e afogado. mas no fim ele é salvo e o escamandro é acalmado pelos outros deuses.
a cena é memorável e acabou encontrando nos quadrinhos da série marvel illustrated uma realização igualmente magnífica. acabo até pensando no porquê de ser uma cena tão pouco representada nas artes visuais ou mesmo no cinema, sendo das mais divertidas no poema homerico.

e finalmente, sem mais delongas, a minha tradução dos versos 209 a 283 do canto XXI da ilíada, seguida pela reprodução das páginas referentes ao episódio do escamandro nos quadrinhos (the iliad, v. 7, pp. 15-8).
boa leitura.

vinicius ferreira barth


Il
. 21.209-83

Ali matou Medon, Tersíloco, Astopilo,
e Mneso e Trásio, e também Ofelestes e Ênio;
e muitos mais Peônios o veloz Aquiles
ceifaria, se não tivesse o fundo rio
o adereçado em forma humana entre voragens:
   “Aquiles, entre os homens és mais poderoso
e mais terrível; pois dos deuses tens a graça.
Se Tróia exterminar te concede o Cronida,
que o faças nas planícies, fora do meu leito;
pois minhas águas engasgaram-se com corpos,
meu fluxo não tem força pra seguir ao divo
ponto, e com mais e mais defuntos tu me entopes!
Ó líder nato, acalma-te, que estou danado!”
   E assim lhe respondeu o Aquiles velocípede:
“Caro Escamandro, assim será, como me ordenas.
Mas não antes que eu despedace a todos Troas
e os tranque na cidade e encare Heitor de frente,
e descubro, por fim, se venço-o ou ele a mim.”
   Assim falou e se lançou sobre os Troianos;
e o fundo rio então adereçou-se a Apolo:
“Filho de Zeus, argente-arqueiro!, não te lembras
das ordens do Cronida, que a ti comandou
amparar os Troianos, ser a eles refúgio,
até que a luz caísse e eclipsasse as planícies?”
   Falou, e ao ter saltado Aquiles de um relevo
para o centro, o furioso rio nele arrojou
diversos jatos num só jorro; os corpos todos
que em montes o entulhavam, mortos por Aquiles,
ele lançou às margens, como um touro irado;
e os vivos sob as limpas águas resguardou,
ocultando-os em vórtices fundos e vastos.
Formou-se uma onda horrível ao redor de Aquiles
que foi de encontro ao seu escudo em jato; os pés
mal se sustinham; segurou co’ as mãos num olmo
enorme e firme, posto abaixo na orla a expor
as raízes, contendo assim o brando fluxo
com seus pujantes ramos; sua própria massa
formou ali uma ponte; desse turbilhão
o herói lançou-se com velozes pés ao campo,
medroso; e sem deter-se, o grande deus jorrava
sobre ele com a crista enegrecida, a fim de
cessar de Aquiles o labor, salvando Tróia.
Veloz saltou o Pelida a distância de um dardo,
lançando-se como a águia escura quando caça,
entre as aves a mais ligeira e mais robusta.
Acometia assim, e o brônzeo arnês ao peito
rugia hediondo; oblíquo então pôs-se a fugir,
enquanto atrás o horrisonante rio caçava-lhe.
Tal como um homem que ergue a fonte da água negra
e traz por entre plantas e jardins o fluxo
tendo na mão a enxada que livra o conduto;
e sob o fluxo que se força acima os seixos
revolve, enquanto caem ali sujeira e terra
em balbucios, até que a ele, o guia, excedam;
assim a enorme enchente alcançou o tão célere
Aquiles, pois os deuses mais que os homens valem*.
E o divo Aquiles, sempre que parava e via
o algoz e se empenhava em saber se impeliam-no
à fuga os imortais, no largo céu de acordo,
de cima uma onda enorme vinha e lhe atingia,
encharcando seus ombros; pôs-se à frente aos saltos,
angustiado, forçado pelo rio em fúria,
cansando os joelhos, vendo o chão sumir dos pés.
   E lamuriava-se o Pelida ao largo céu:
“Zeus pai, dos deuses não há quem livrar-me possa
deste rio? Meu destino, pois, aqui eu encontro!
Outro não me causou tal mal entre os Celícolas
como o fez minha mãe, que insuflou-me vãs glorias.
Disse ela que ante os muros Troas eu cairia,
flechado pela flecha rápida de Apolo.
Tivesse-me matado Heitor, melhor troiano!,
pra que vencido um bravo, um bravo o despojasse!
Agora em mim recai a triste morte indigna
cercado pelo rio, como o pastor menino
que, atravessando a invernal torrente, afoga-se.”

(*) seguindo neste verso a ótima trad. de odorico mendes.

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henri cazalis: danse macabre

saint saensuma das obras musicais que mais me surtiram efeito durante minha fase de formação musical foi danse macabre, de camille saint-saëns (1835-1921, retratado ao lado). por um longo tempo eu acreditei que ela havia sido composta por franz liszt, mas a confusão se explica pelo fato de liszt tê-la arranjado para o piano pouco tempo depois de sua estréia, além de os dois serem amigos e seus estilos se assemelharem em alguns aspectos. pois bem. danse macabre consiste em um poema sinfônico (basicamente, uma obra musical baseada ou inspirada em texto) cujo debut se deu em 1874, alto período das composições programáticas, encontrando paralelos, além do próprio liszt e de beethoven, em hector berlioz e richard strauss. na gravação abaixo você poderá conferir a obra, caso ainda não conheça. há alguns elementos que merecem ser destacados para a audição, como o início com os doze toques na harpa que representam as badaladas da meia-noite; o uso do violino solo para apresentar o tema e que predomina sobre o resto da orquestra, representando (muito bem, creio) a morte que propõe a dança; o uso dos xilofones recriando de maneira fantástica o bater dos ossos dos esqueletos dançando (procedimento usado até hoje em abundância quando se trata de sonoplastia do além-mundo). note-se, aliás, que é uma peça que atingiu alto prestígio no meio pop durante o século xx, estando presente em filmes, games, seriados, desenhos da disney, etc.

 

 

Jean_Lahor_(Henri_Cazalis)mas apenas recentemente descobri qual era, afinal, o poema sobre o qual saint-saëns havia composto seu trabalho. sobre esse poema, assim como sobre seu autor, não há abundância de informações pela internet. henri cazalis (1840-1909, retratado ao lado) era médico e poeta simbolista, e sabe-se que mantinha uma relação de amizade (ou ao menos de contato estável) com mallarmé. publicava seus poemas sob os pseudônimos de jean caselli e, mais frequentemente, jean lahor. vários de seus poemas foram musicados, sendo obviamente danse macabre o mais conhecido.

ainda como último dado desta breve apresentação, danse macabre trata de uma velha superstição francesa que conta que a morte, durante o halloween, aparece à meia-noite tocando sua rabeca e invocando os mortos para dançar a ‘dança macabra’ até o amanhecer. com o aproximar da aurora, todos voltam às suas tumbas e lá permanecem até o próximo ano. é provável que tenha sido levada em conta também, para a composição do poema, a alegoria medieval da dança macabra, cujo mote é de que a morte une a todos, independente da classe ocupada em vida.

sobre a tradução: ao que me consta, depois de alguma pesquisa, não existe ainda tradução para o português desse poema. se alguém souber de algum volume empoeirado, fale aí. as rimas do original me obrigaram a usar um pouco de inventividade para achar soluções, além das onomatopéias que tiveram que ser substituídas para algo muito mais familiar ao leitor brasileiro. aliás, com relação ao ritmo, minha opção em geral e sempre que possível foi a de aproximar a leitura do poema ao ritmo ternário próprio da dança, da valsa. assim, com um tempo forte seguido por dois fracos, utilizei decassílabos que também sustentam, diversas vezes, uma anacruse no início do verso, com um tempo fraco antes do tempo forte que inicia a contagem. assim, há de ser um poema ritmado, com sorte e competência do tradutor, em tum-tá-tá tum-tá-tá. devo também dar os devidos créditos ao rodrigo gonçalves, nosso correspondente em paris, pela valiosa revisão.

enfim, obras de imaginação invejável, creio que danse macabre seja, tanto em texto quanto em música, uma peça bastante divertida, com seus tons de macabrismo, que opõe líder e séquito, solista e orquestra, la mort et l’egalité. abundantemente visual, creio que seja uma das combinações texto-música mais felizes da história.

vinicius ferreira barth

 

Danse Macabre

Zig et zig et zig, la mort en cadence
Frappant une tombe avec son talon,
La mort à minuit joue un air de danse,
Zig et zig et zag, sur son violon.

Le vent d’hiver souffle, et la nuit est sombre,
Des gémissements sortent des tilleuls;
Les squelettes blancs vont à travers l’ombre
Courant et sautant sous leurs grands linceuls,

Zig et zig et zig, chacun se trémousse,
On entend claquer les os des danseurs,
Un couple lascif s’asseoit sur la mousse
Comme pour goûter d’anciennes douceurs.

Zig et zig et zag, la mort continue
De racler sans fin son aigre instrument.
Un voile est tombé! La danseuse est nue!
Son danseur la serre amoureusement.

La dame est, dit-on, marquise ou baronne.
Et le vert galant un pauvre charron –
Horreur! Et voilà qu’elle s’abandonne
Comme si le rustre était un baron!

Zig et zig et zig, quelle sarabande!
Quels cercles de morts se donnant la main!
Zig et zig et zag, on voit dans la bande
Le roi gambader auprès du vilain!

Mais psit! tout à coup on quitte la ronde,
On se pousse, on fuit, le coq a chanté
Oh! La belle nuit pour le pauvre monde!
Et vive la mort et l’égalité!

 

dança macabra

tum tá tá tum é a morte em cadência
bate co’ a perna um batuque na tumba
morte na noite jogando uma dança,
tum tá tá tum o violino retumba

o vento frio sopra e a noite é só sombra,
choros gemidos correndo dos galhos;
vão-se esqueletos brilhando na sombra
correm e pulam seus restos tão pálios,

tum tá tá tum, cada um se estremece
um osso tilinta no outro em cantigas
lascivo um casal sobre o musgo se assenta
como a provar das doçuras antigas

tum e a morte tá tá continua
raspa sem pausa o seu acre instrumento
foi-se um véu! e a dançarina está nua!
abraça seu moço danceiro co’ alento

a dama é, comentam, marquesa ou barona.
viu-se atraída a um pobre cabrão
                                                      Horror!
e voilà como a ele se abandona
como se o bronco versasse um barão!

tum tá tá tum tá, mas que sarabanda!
as rodas de mortos, comum direção,
tum tá tá tum tá, se vai com a banda
o rei saltitando colado ao vilão!

mas psiu! toda a ronda se vai em um segundo
se empurram, se fogem, é o galo que nasce
oh! quão bela noite para um pobre mundo!
três vivas à morte e também à igualdade!

 

trad. de vinicius ferreira barth

 

danse_macabre1

redescobrindo álvaro de campos – vinicius ferreira barth

campos

álvaro de campos, poeta nascido em tavira e em lisboa em outubro de 1890, é famoso pelos seus clamores vanguardistas, futuristas e pessimistas, entre outros notáveis istas que poderíamos listar deliciosamente. no nosso grupo escamandrista, exerceu influência notável sobre adriano scandolara. alguns críticos chegam a julgar que a poesia de scandolara, sob a luz de campos, é atingida mais pela ‘angústia’ que pela ‘influência’. há, no entanto, quem discorde. ademais, não há demasiados detalhes da vida do poeta português que possamos explorar além da sua inócua vida sexual e do fato de ele ter nascido sob o signo de libra. sua poesia é categorizada comumente entre três fases, sendo elas: decadentista, futurista e pessimista. por fim, até hoje praticamente nada se sabia da infância de álvaro de campos.

por isso o escamandro traz agora um documento de valor inestimável aos estudos do poeta e à literatura portuguesa. trata-se da reprodução de uma página impressa em um periódico desconhecido de cunho vanguardista que foi encontrada dobrada dentro de um volume bastante desgastado do tartufo de molière, no fundo do banheiro externo de um barracão em tavira, com um texto assinado pelo pequeno poeta. ao que tudo indica, tal texto nunca antes veio a público. e assim, contrariando as ‘fases’ já estabelecidas da produção do autor e lançando novas luzes ao eu-biográfico de álvaro de campos, essa nova página descoberta e finalmente trazida a público desvela uma faceta do poeta que até então era completamente desconhecida. (na verdade quase todas as facetas o são. vide acima o único retrato de álvaro tirado em vida). vê-se, acima de tudo, uma curiosa antecipação do futurismo de marinetti, o que nos leva a crer que as influências possam ter corrido em caminhos inversos. também a tendência ao isolamento e as críticas dirigidas à sua contemporaneidade (em sua maioria composta por desconhecidos) causam impressão por sua força verbal incutida num movimento de renovação da tradição estabelecida. é, enfim, um depoimento enérgico.

sem mais delongas, clique no player abaixo (que virou link) para ouvir a nossa sugestão de acompanhamento à leitura, e, finalmente, mais abaixo ainda para visualizar o documento em modo aumentado.

vinicius ferreira barth

 

http://grooveshark.com/s/Let+s+Do+It+Let+s+Fall+In+Love/2RwWrw?src=5 

 

manifesto_campinhos

natureza – vinicius ferreira barth

Peter Howson - blind leading the blind III (1991)

 

pior a buzina em contemplação
       procurando seu silêncio
                     pior o alarme introvertido
                          que cora quando urgente
pior um cadeado virgem
       que do penetrar se esquiva
                          pior
                                   monóculo em olho de bóreas
                                   um lápis que tem nojo do seu rastro
                                       ou a corrente de elos desunidos
pior a espada com mania de limpeza
       o escudo sem nenhuma cicatriz
       a vassoura com rinite
              a pá maneta
                          pior
                                   e bem pior
                                          palavra muda
o dente que não morde a boca que só chupa
o livro ainda cabacinho a virgem
                                                  (deus, a virgem!)
               pior o poeta que caga cheirosinho

pior o cego
que não quer
ouvir

 

vinicius ferreira barth

alejandra pizarnik: la tierra más ajena (1955), pt. 2

caros, segue abaixo a segunda e última parte de la tierra más ajena de alejandra pizarnik.
veja aqui o primeiro post.

vinicius ferreira barth

 

pizarnik 

 

… DO MEU DIÁRIO

Olhava os carros em arranjo
sem suas vestimentas metálicas
as partes dianteiras pareciam
caveiras recém libertadas.
Um sol amarelo deixava cair indiferente
pedaços luminosos de algo colorido
mas as sombras persistiam
ainda nos retalhos do astro.
Sentia-se cansada ante os nevoeiros
que não se moviam
um blue ruminava enfadado em seu interior
passos extravagantes marcavam seus dedos
mobilidade compassada de carpete e ballet.

 

 

REMINISCÊNCIAS QUIROMÂNTICAS

duas mãos de flores pendentes resumem a
tosca escultura de exóticas formas que
brilham vendendo às bruxas o
augusto signo de vida por morte
lendo nas linhas as milhares de
vezes que vences ou gemes ou choras ou ris ou
inicias caminho a um passo firme que
luta na noite repelindo os
vis ataúdes que brande o fracasso

 

 

DESENHO

o joelho da enseada
cheira a primores bem escritos
geadas salientes molham seu
corpo arqueado
mil relógios zumbem
as horas das mil distâncias
e o floreiro renasce
embaixo à sombra de uma catacumba

 

 

XADREZ

ainda assim a enclítica não destrói
os peões reverentes ante as
milhares de montanhas
rebentam prazerosas
diante do sol rubro
(não sol amarelo)
pensar inato em moldadas barras
torta transfumegante de vela sem fogão
quisera ser massa linguística
para cortar-lhe a barba
ondas em precioso lume
alçar bandeira gratuita
quilômetros de nozes
e golpes em relevante torniquete

 

 

HOMEM COMUM

sempre renega azuis
conforme a rota
negra a linha reta
negra a terra sana
tremor estranho que não se agita
peitos sim e não peludos
esperanças não fundidas misturam
a ele a ela a todos
vede! sua carne transborda
reminiscências gado opaco

 

 

SEGUIREI

molde partido centra este todo
da árvore castrada chorando
medir cada passo aos poucos
se não se perturba a lua
a luz redondeia brancuras
de nabos ralados
tirar cada envoltura
se não se distorce o negro
a música enrubesce a rota
de cada pequeno úmido
girar girar girar
perceber junto ao molde partido
sentires de tacos e dentes
querer agarrá-lo todo

 

 

UM BILHETE OBJETIVO

          1

entre os sopros de tantas artérias
tateio encolhida nos bolsos de
                  minha jaqueta
tratando de achar algo que faça
                  pairar minha destripada
                  aurora

          2

vejo rostos busco rostos acho rostos
a imagem de sua igualdade esfria a
                  estética
da janela sobre os trilhos meu
                  assento é o topo
                  do mundo

          3

voam unhas braços anéis peixes
volvem sons azuis vermelhos verdes
desfile que ferve em tremendos
                  borbulhares
mas nada altera insinuante a
                  segurança em meu
                  assento

 

 

EU SOU…

minhas asas?
duas pétalas podres

minha razão?
pequenas taças de vinho azedo

minha vida?
vazio bem pensado

meu corpo?
um talho no assento

meu vaivém?
um gongo infantil

meu rosto?
um zero dissimulado

meu olhos?
ah! nacos de infinito

 

 

DÉDALUS JOYCE

Homem funesto de chaves noturnas e corpo desnudo junto ao rio profundo de brilhantes escarradas. Homem de olhos anti-míopes exploradores de infinidade. Homem de rosto em sombra e corpo gênio abstrato. Homem sem medo de pena em mãos nem de olhos em ser nem sorriso supremo. Homem deus chegaste só de infinitudes assombrofantasmais ornado de lágrimas de superioridade envergonhada. Homem destruidor de tabus e céus estrelados. Homem dos frágeis vestidos que caem deixando irmãos desnudos. Homem sem alimento para outorgar aos que buscam. Homem de altos mares de sulcos desolados. Homem-barco branco. Homem arrancaste o vômito para sepultar o mito. Homem de tempo e espaço que arrastam sadias loucuras. Homem superhomem, frigidez e frouxidão conjuntas. Homem.

 

 

PORTO ADIANTE

Noite morna. Sensação prazerosa. Os sons abstratos das vias enchiam seus ouvidos eufóricos. Pensava no porto que via tão frequente… porto de cores impressionistas e homens sujos de braços molhados e brilhosos e cabelo crescido e úmido. Homens impassíveis à distância maravilhosa, ao céu entre os barcos, à paisagem combinada, ao solo recheado de objetos de lugares remotos como pedaços de mundo no melancólico coração de um mar…
Sim. Afundar-se uma noite nas ruas do porto. Caminhar, caminhar…
Sim. Sozinha. Sempre sozinha. Lenta, tão lentamente. E o ar estará suavizado, será um ar cosmopolita e o solo cheio de papéis de cigarros que alguma vez existiram, brancos e belos.
Sim. Seguirá caminhando. Afundar-se, escuridão, caminhar…
Sim. E uma estrela dará sua cor à âncora de prata que levava em seu peito. Jogar a âncora. Sim. Muito próximo a esse barco gigante de listras vermelhas e brancas e verdes… ir-se, e não voltar.

 

 

NO PANTANINHO

                  a don Federico Valle

          1

Mil passos arrastam pacientes as solas maduras em rochas diversas.
Talvez uma gota gema desejando a antiga espessura em tardes mais livres que esta (balbuciante de colorido impuro, de sol inibido, de água cobreada, de potros com caudas etéreas, de pranto de cacto impotente…). A cascata reverdeia os pastos silenciosos que nutrem a negra penugem da terra vestida de brilho.
Sombras persistentes, imagens constantes que obrigam as retinas a carregarem-nas alegremente em frágeis topos. Montanhas vibrantes de cercania solar, de chuva inaudita, de flores invisíveis possíveis de criar sob tanto céu, tanta luz cromática, tanta conjectura de lugar.

          2

Meus dedos teclam iguais… (quem sabe contribuam com seus ruídos para aumentar os fundos dos ruídos naturais).
As vozes que se elevam querendo matizar as aspirações de solidão a que obrigam os espaços. Cânticos pujantes de fragrância primaveril caem surpreendentemente na névoa. Os lábios adensam as notas. Lábios fechados por rugas habilmente conseguidas. Lábios dobrados sobre dentes felizes. Lábios que riem sob a opressão tensa do ungido manto de vários tons (eu vermelho, tu azul, ele verde, ela cinza…). Começa a lide cromática. Cada cor requer um maior espaço na tela. Claro que nenhuma quer sucumbir. Claro que nenhuma deseja dissolver-se anonimamente. E assim se segue, assim se caminha, assim se veem esfumar as brancoepretas folhinhas deste calendário que transpira o suor de um calor intangível.

          3

As montanhas permanecem impávidas. Tremenda dúvida: arranhar-se sob o manto carnal ou remover os talos difusos tratando de encontrar à luz de um embelezo descolorido o perfil da flor única.

alejandra pizarnik: la tierra más ajena (1955), pt. 1

alejandra pizarnik

alejandra pizarnik nasceu em buenos aires em 1936, publicou seus primeiros poemas com vinte anos e licenciou-se em filosofia e letras pela universidad de buenos aires. no começo da década de 1960 viveu em paris, onde estudou história da religião e literatura francesa, na sorbonne, e tornou-se amiga de nomes como andré pieyre de mandiargues, octavio paz, julio cortázar e rosa chacel. foi tradutora de artaud e marguerite duras. de volta a buenos aires, passou o resto da vida dedicada a escrever. suicidou-se em buenos aires em 25 de setembro de 1972.

trata-se de uma das figuras mais emblemáticas da poesia hispanoamericana, especialmente da argentina. sua poesia tornou-se febre entre os jovens dos anos 80 e 90, sendo caracterizada por um “fundo intimismo e severa sensualidade”, como atesta ana becciú na edição que realizou da poesia completa de alejandra. octavio paz, admirador de sua obra, diz que ela “leva a cabo uma cristalização verbal por amálgama de insônia passional e lucidez meridiana em uma dissolução de realidade submetida às mais altas temperaturas”. impressões nonsenses à parte, não se pode discordar de um comentário desse depois que se tenha lido a poesia de pizarnik. os comentários, aliás, que insiro até aqui nesta introdução estão contidos na edição da poesia completa de alejandra que tenho em mãos e cujo texto base é o que utilizo para a tradução:

alejandrapizarniklibroPIZARNIK, Alejandra. Poesía completa. Edición a cargo de Ana Becciú. Barcelona: editorial Lumen, 2010.

seu primeiro livro, que traduzi integralmente, chama-se la tierra más ajena, datado de 1955. nota-se influências da poesia de rimbaud, epígrafe ao livro, e também de octavio paz e cecilia meireles, por exemplo. repleta de uma poética escura e úmida (um dos melhores adjetivos que encontrei), alejandra fala muito da morte, do desejo de ir-se, da melancolia. não é de se estranhar que seja do gosto dos jovencitos, mas vai muito além. com uma técnica magistral, que despedaça a sintaxe e se constrói sobre panos de imagéticas surrealistas, a poeta como que pinta suas emoções numa tela. por vezes, confesso como tradutor, é difícil dar-se conta dos caminhos tortuosos pelos quais ela nos leva. entretanto, por outro lado, sua emoção nos transparece muito clara e comovente. e essa emoção, a memória, a água e a noite são temas recorrentes em alejandra. a morte percorre seus temas de maneira bastante, embora apenas aludida. (tão diferente do que eu próprio escrevo, mas tão viciante). é a recorrente figuração de imagens esfumaçadas, desfocadas, escuras, até mesmo asquerosas, que torna sua poesia tão forte e visual. uma poeta que se vê e se reflete tanto em seus poemas, que se figura, e que ao mesmo tempo tanto nos pode causar angústia com seu úmido isolamento.

sobre a tradução:

como se poderá ver com facilidade logo a partir do primeiro poema, clareza não é regra aqui. com métrica e sintaxe bastante livres, às vezes retorcidas, e ausência de pontuação, tentei seguir os passos do texto em espanhol para que não me distanciasse por demais das formas que os versos de alejandra apresentavam. a proximidade entre o espanhol e o português me permitiram diversas vezes a simples transposição vocabular, mas houve momentos em que eu simplesmente me perdia nos pântanos dessa terra tão ao longe, e voltar de lá era sofrido. por isso revisei o que pude até agora, mas sempre há a possibilidade de uma revisão mais detida. outra coisa é a aparência de erro que podem suscitar alguns versos, como alguns do primeiro poema, dias contra o sonho. o que posso dizer é que é estranho mesmo, mas tava lá. por fim, resolvi deixar de lado nesta postagem os poemas no original em espanhol, dado o espaço que iriam ocupar e o trabalho que me dariam pra digitar.

dividi a postagem desse livro em duas partes. os onze primeiros poemas estão neste post. amanhã posto os outros onze. assim a leitura pode ser feita com calma e atenção, em doses homeopáticas. espero muito que gostem como eu gostei dessa doida porteña magnífica.

vinicius ferreira barth

 

alejandra pizarnik
a terra mais ao longe (1955)

Ah! O infinito egoísmo da adolescência,
o otimismo estudioso: quão pleno de
flores estava o mundo nesse verão! Os
ares e as formas morrendo…
A. Rimbaud

 

DIAS CONTRA O SONHO

Não querer brancos rodando
em planta movível.
Não querer vozes roubando
germinais arqueada aéreas.
Não querer viver mil oxigênios
nímias cruzadas ao céu.
Não querer trasladar minha curva
sem encerar a folha atual.
Não querer vencer ao ímã
no fim a alpargata se esfiapa.
Não querer tocar abstratos
chegar ao meu último cabelo castanho.
Não querer vencer caudas brandas
as árvores situam as folhas.
Não querer trazer sem caos
portáteis vocábulos.

 

FUMO

marcos rosados em osso calado
agitam um cocktail fumacento
milhões de calorias desvanecem
ante uma repicante austeridade
das fumaças vistas detrás
duas mãos de trevo roto
quase enredam os dentes separados
e castigam as gengivas escuras
sob ruídos recebidos ao segundo
os pelos riem-se movendo
os vestígios de vários marcianos
cognac bordeaux-amarelado
ébrio banheiros sanguíneos
três vozes foneam três beijos
para mim para ti para mim
pescar a calandria eufórica
em chapas penosas
ascendente faina!

 

REMINISCÊNCIAS

e o tempo estrangulou minha estrela
quatro número giram insidiosos
enegrecendo os confeitados
e o tempo estrangulou minha estrela
caminhava reles sobre poço escuro
os brilhos choravam a meus verdores
e eu olhava e eu olhava
e o tempo estrangulou minha estrela
recordar três rugidos de
ternas montanhas e raios escuros
duas taças amarelas
duas gargantas raspadas
dois beijos comunicantes da visão de
      uma existência a outra existência
duas promessas gementes de
      tremendas loquacidades distantes
duas promessas de não ser de sim ser de não ser
dois sonhos jogando a ronda do sino ao
      redor de um cosmos de
      champagne amarelo esbranquiçado
dois olhares afirmando a avidez de uma
      estrela tiquinha
e o tempo estrangulou minha estrela
quatro números riem em cambalhotas desgostosas
morre um
nasce um
e o tempo estrangulou minha estrela
sons de nenúfares ardentes
desconectam minhas futuras sombras
um vapor desconcertante recheia
      meu soalhado recanto
a sombra do sol tritura a
      esfinge de minha estrela
as promessas se coagulam
frente ao signo de estrelas estranguladas
e o tempo estrangulou minha estrela
mas sua essência existirá
em meu intemporal interior
brilha essência de minha estrela!

 

ÁGUA DE LUME 

                                        Sim. Chove…
o céu geme montanhas exaustas
sombras molhadas recolhem suas partes
cavidades barrosas tremendas
simplórias gotas de água sulfurada
se bem não sei como recolho as massas
de ver se me agita o pálido lume
tremenda espessura de cães e gatos
as gotas seguem

 

SER INCOLOR

(ao coelhinho que
comia as unhas)

costura instável em meu caos humor diário
repicar harpa listrada
cadáveres chorosos mar salino

tua opacidade tirará fontes de verde sabão
bandeirolas coradas
em mão direita de unhas comidas

 

 

NEMO

não irá longe o dia raro de verdor
em que cantarei para a lua odiada que dá luz à minha espessa cabeça cortada
                                                                                                  [a navalha
que dá luz aos ventos brutais
às flores agudas que ardem nos dedos sob benignos band-aids
à estrela que se oculta quando é chamada
à chuva úmida rebolando-se em sua nudez repulsiva
ao sol amarelo que trespassa as peles marcando escuras pegadas
ao reloginho enviado do inferno interruptor dos belos sonhos
aos mares gelados arrastando sujeiras ondas cintilhos dourados ardores
                                                                                                  [nos olhos

 

 

VAGAR NO OPACO

minhas pupilas negras sem inelutáveis faíscas
minhas pupilas grandes pólen cheio de abelhas
minhas pupilas redondas disco riscado
minhas pupilas graves absoluta sem ginga
minhas pupilas retas sem gesto inato
minhas pupilas cheias poço bem cheiroso
minhas pupilas coloridas água definida
minhas pupilas sensíveis rigidez do desconhecido
minhas pupilas salientes beco preciso
minhas pupilas terrestres remedos celestes
minhas pupilas escuras pedras caídas

 

TRATANDO A SOMBRA VERMELHA

sua solidão que mia
zeros e zeros
vertente de valores ingênuos
retina ante o desconhecido
as brisas sonoras
retornam ferindo
seu ser de sorrisos
e dentes abertos
rir numa noite ensolarada
do vigoroso particípio

 

NOITE

correr não sei onde
aqui ou lá
singulares dobrares desnudos
basta correr!
tranças apegam meu anoitecer
de caspa e água de colônia
rosa queimada fósforo de cera
criação sincera em sulco capilar
a noite desamarra sua bagagem
de brancos e negros
tirar deter o seu ressurgir

 

 

MEU BOSQUE

acumular desejos em plantas ingratas
referir o teu
em verdor somente
e então surgirão dez cavalos
a atirar a cauda ao vento negro
moverão as folhas
suas crinas molhadas
e virá a esquadra
redondeando versos

 


POEMA AO MEU PAPEL

relendo próprios poemas
penas impressas transcendências cotidianas
sorriso orgulhoso equívoco perdoado
é meu é meu é meu!!
relendo letra cursiva
latir interior alegre
sentir que o verbo se coagula
ou bem ou mal ou bem
estranheza de sentires inatos
cálice harmonioso e autônomo
limite em dedo gordo de pé cansado e
cabelo lavado em cabeça crespa
não importa:
é meu é meu é meu!!

 

pizarnik2

um corvo em seis bocas, mais uma

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todo mundo sabe quem é  edgar allan poe. todo mundo sabe que é uma das figuras mais ‘pop’ do nosso tempo, pai de figuras como tim burton. todo mundo sabe o quanto o poema ‘the raven’ de edgar allan poe é famoso e lido e rereretraduzido. todo mundo sabe o quando ele é encenado e gravado e relido. todo mundo sabe, aliás, o quanto ele é bom, e creio que sua força esteja justamente no poder que surge da sua leitura. é divertido sair pela net e pesquisar leituras do poema, que são milhões, e ver o quanto ele é tido em alto prestígio por essa cultura pop contemporânea e por gerações de jovens vampiros românticos ou fãs de gothic metal. obra de alto poder narrativo e imaginário, gerou , além de fãs freakazoids, leituras antológicas de grandes nomes do cinema anglófono. meu foco aqui não é fazer qualquer tipo de análise do poema, que fica pra outra hora e feito por alguém mais capacitado, mas simplesmente reunir e expor algumas leituras de alta qualidade. (que melhor que uma poesia que se torna ainda mais magistral quando oralizada?). várias dessas gravações são bastante conhecidas, bem sei, mas o que de poe não o é? enumero, portanto, por ordem aleatória alguns desses registros, já que não tenho um favorito. vocês podem eleger os seus.

p.s.: acabei não encontrando nenhuma gravação digna das traduções de machado ou pessoa… fico devendo essas.

 

vinicius ferreira barth

 

1. vincent price (1911-1993), que pra sua informação não é só a voz magistral do thriller de michael jackson (o que por si só já é digno de tietagem).

the evil of the thriller

 

2. james earl jones (1931 –), que não é só a voz do darth vader ou do mufasa (o que por si só…)

poe, I am your father

 

3. christopher lee (1922 –), também conhecido como mago malvado do cinema, mais lembrado nos últimos anos por ter sido o saruman do senhor dos anéis.

we can deal with sauron ourselves gandalf. you, and i. one way or another.

 

4. christopher walken (1943 –), protagonista dançante de um dos clipes mais memoráveis da história da mtv, além de ter sofrido uma morte doce pelas mãos da michelle pfeiffer vestida em roupa de couro.

i’m catwoman. hear me roar.

 

5. john astin (1930 –), o  gomez do seriado clássico da família addams. ah, e também o próprio poe.

we danced the mamushka while nero fiddled, we danced the mamushka at waterloo. we danced the mamushka for jack the ripper, and now, fester addams, this mamushka is for you.

 

6. lisa simpson, homer e james earl jones, que desta vez está sendo zoado por um poema que não causa muitos arrepios no bart.

quoth the raven, nevermore, duh!

 

6+1. e por fim, como um tipo de faixa bônus desta postagem, o curta metragem vincent, de tim burton, que é a animação de um poema escrito pelo próprio, lido pelo vincent price. reúne algumas das temáticas mais famosas de poemas do poe, incluindo o urubu. corvo. (uma transcrição do poema está aqui: http://www.timburtoncollective.com/vincent.html)

you’re not vincent price, you’re vincent malloy

registro do pedido eneassilábico de um croissant de chocolate pela senhora gordinha ao atendente da cantina presenciado e transcrito pelo poeta que esperava na fila e ouvia sem pudores – vinicius ferreira barth

hilda5

é dieta
             rapaz
                       é saúde
corpo são
            (hahaha)
                       mente sã

me veja uma coquinha
                        com gelo
e o chocolate
             mas sem croissant

Vinicius Ferreira Barth

invisibilidade – vinicius ferreira barth

caros,
depois de quase um mês sem postar, dados os mais diversos e inimagináveis tipos de compromissos e ziguiziras, mando na lata uma série completa de poemas que muito me agradam e encantam.
a série ‘invisibilidade’ trata das pessoas, ou das coisas, que estão aí, ao redor de todos nós, dizendo algo ou calando. dizem respeito a palavras (e pessoas) que ecoam despercebidas através dos tempos, aquelas que já foram descartadas, as que utilizamos, ou as que apenas o são como são. as pessoas (ou coisas) que retratei aqui são as mesmas que sabemos que existem nas nossas vidas de todos os dias. talvez façam ou fizeram parte de vidas que já se foram, ou que as esqueceram. olhei-as por um outro prisma. devo também pagar tributo ao nome de will eisner, o maior inspirador dessa série. por meio de sua história ‘pessoas invisíveis’ (presente em new york), aprendi a olhar um pouco com os olhos dele. uns podem ler sob viés marxista, outros apenas pelo sentimentalismo, quiçá pela poesia-forma que dei a alguns. seja como for, espero que essa minha celebração das coisas invisíveis traga de volta um pouco da poesia que tanto me fez falta nos momentos em que a necessidade burocrática me enterrou em nuvens cinzas.

Vinicius Ferreira Barth

____________________

i. as janelas

dondoca
                   surtadinha poderosa

pesquisadora mãe
             de cinco filhos crias de papel

machão
          charuto fúria whisky puta infarto

abrindo a marmita
          um pedreiro
pai de dois filhos
                  saudáveis honestos

ii. o porão

inverno
          25 está sem gás
          e liga
                     e 29 e 17
          reclamam do barulho
          lixo faz mau cheiro
                                      no jardim
mendigo mete a mão
                               nos restos
                                              25 o gás
                   mendigo dona sandra
                                          dona beti
                    barulho liga fode
                               nunca mais
                                              te vi
                    e o lixo
                              o cheiro 17
criança no jardim
                                    42
                    quer a correspondência
                    quer conserto
                                               o 25
                    o gás arranca flor
criança no jardim
                    mau cheiro arroz
                    feijão arroz feijão
                    salário acerto
                    chuveiro frio sozinho
                                                 o zelador

iii. a calçada

desvia               do pedregulho
                      a massa geral
               cinzenta forma
         vida serpenteia
   em círculos alarido
e sirenes gritos
   barulho selvagem
         vida que tenta
              circundar pura
                       candeia um
mendigo           tão colorido

iv. os papéis

voando incertos sobre vias

venéreos ditos
                      feito lixo em rota ingrata
                      (asfalto e sola de sapato)

paixões de alguém que não é visto
nem importa

v. a jóia

no beco
               uma fortuita descoberta
(vê, pois, meu caro
                               quê?
                                        uma áurea jóia!
uma aliança
                               Antônio ali gravada!
que qualidade
                               e cor
                                        fino banhado!
quão rico o belo entorno
                               e quão lustrosa!
que bons auspícios traz o matrimônio!
a nós?
                 quiçá u’a pedra
                               um pico
                                        um fumo!)

vi. o quadro

uma história sintética de um patrimônio:

no lixo
            achou-se um quadro
            (obra da humanidade)

                              recuperados
                            US$20.000.000

vii. o torcedor

hoje tem jogo
                      vamo
                      hoje tem jogo
quem sabe se hoje engrena e dá um respiro
na quarta fora
                      vamo que eu prefiro
                                                                3 pontos hoje
                      1 lá co botafogo

jogo ruim
                      não vai cair! não creio!
juiz filhadaputa foi escanteio

deu pênalti.

                      zagueiro pipoqueiro

agora se tomar…
                                       fudeu
                                                   é caixa

mengo avaí bahia inter cruzeiro
ao menos três vitórias
                                       que não baixa

só faço conta
                      afundo o pensamento
mas de casa não saio sem a faixa
                                                               sem a camisa
                      e um dedicar inteiro
ao meu torcer contra o rebaixamento

viii. a pré-escola (faixa-bônus)

crianças, atenção aqui!

(bababadalgharaghtaka
mminarronnkonnbronnt
onnerronntuonnthunnt
rovarrhounawnskawnto
ohoohoordenenthurnuk!)

crianças, atenção aqui!

los caprichos de goya

hola, chicos.
indo direto ao assunto, acho que é meu dever trazer um pouco à luz o tesouro que está exposto no museu oscar niemeyer aqui em curitiba e sair um pouco do assunto usual neste blog distinto e garboso.
fato é que nem sempre temos notícia do que está no circuito de exposições dentro da cidade, mesmo em caso de nomes de grande expressão como o de goya. por isso, faço essa pequena contribuição em nome de uma das melhores exposições que já vi.

43. el sueño de la razón produce monstruos
43. el sueño de la razón produce monstruos: el autor soñando. su intento solo es desterrar vulgaridades prejudiciales y perpetuar con esta obra de caprichos, el testimonio sólido de la verdad.

pertencente ao instituto cervantes de madrid, los caprichos é uma série de 80 gravuras (tendo essa série atual sido impressa em 1929. existem vários artigos bastante completos na internet contando a história da coleção, como esse) que satirizam a sociedade espanhola de fins do séc. xviii, com atenção especial à nobreza e o clero (como diz toda a descrição que você procurar pela internet), mas dando muita atenção também a costumes vulgares e lendas populares de tradição espanhola. as técnicas utilizadas são predominantemente mistos de água-forte, água-tinta e ponta seca. seus traços de tendência deformante e bastante caricatural trazem um ar bastante moderno (às vezes até novecentista) para o trabalho. por vezes é possível notar claramente reminiscências expressivas da própria “musa” de goya em algumas mulheres, enquanto ao mesmo tempo se vê inúmeras criaturas do imaginário fantástico e sujeitos que pareciam ter sido tirados de histórias em quadrinhos. é uma mescla versátil e impressionante de um extenso trabalho criativo de um dos artistas mais impressionantes que eu vi nos últimos tempos.
todas as gravuras são acompanhadas por um pequeno texto. há, abaixo da imagem, um título, e ao lado um tipo de legenda em formato de aforismo (ou desaforismo, na maioria dos casos). isso se pode ver na gravura reproduzida acima, por exemplo. e é principalmente por causa disso que me motivei em trazer esse post ao blog. certamente que ler 80 legendas de 80 gravuras, observando-as atentamente, é cansativo, ainda mais se a altura das plaquinhas na exposição não está lá tão bem adequada (recomendamos uma pausa em algum banquinho no meio do espaço. ponha-se guapo e observe as moçoilas). aliás, observei no museu que muitas pessoas passavam batido pelo texto. fato é, entretanto, que 50% do sentido do trabalho se constrói exatamente pelo efeito do texto sobre a obra visual, e as duas se complementam.  os aforismos, em grande parte extremamente ácidos, em outra parte de tom reflexivo-filosófico, são por si só admiráveis (pra quem gosta da arte da ironização, como quem vos fala, é um prato cheio). isso me levou a ver algo em que eu acreditava há muito tempo ser possível em uma exposição de artes visuais mas nunca tinha visto realizado com tal nível de acerto, que é essa congregação completamente prática entre texto e imagem, de uma forma que se complementem fifty-fifty, sem sobreposição de um pelo outro, etc. saber tudo sobre a coleção, os mais curiosos podem fazê-lo facilmente em links como o que eu indiquei. mas e essa sutileza para entendê-los como um, sensivelmente? esse é precisamente o ponto que eu acredito ser mais importante. o troço é muito poético.

55. hasta la muerte
55. hasta la muerte: hace bien en ponerse guapa; son sus días; cumple setenta y cinco años y vendrán las amigas a verla.

comentários ponderados e com olhos críticos são justo o que não vemos pela internet. asneiras como “é preciso ter um espírito livre para poder apreciar a mostra” (G1) ou “goya criticou nesta estampa a violência na educação das crianças” (wikipedia) mais atrapalham que ajudam. embora ironicamente fortes, como eu já disse acima, as obras têm o poder de causar uma séria empatia com suas temáticas, já que correm desde a figuração de personagens do dia-a-dia até as absurdidades das hierarquias sociais, para culminarem na utilização de seres fantásticos, como bruxas, anões, duendes, demônios, etc, para a contação de lendas familiares. goya atua magistralmente como um crítico de sua época, tanto com seu texto como com a técnica que é de cair o queixo. a metáfora das “galinhas”, por exemplo, é um dos pontos altos da exposição, e podem ser vistas no capricho n. 72, reproduzido abaixo, embora estejam presentes de forma mais contundente em muitas outras.

 

72. no te escaparás
72. no te escaparás: nunca se escapa la que se quiere dejar coger.

por fim, concluindo que o goya é um alucinado, recomendo fortemente a presença nesse baile, que vai até 24 de abril do ano da graça de nosso senhor de 2012. pra quem gosta de surrealismo, fantástico ou de lendas e imaginário popular, é um prato cheio (embora qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade poética certamente deguste saborosamente a exposição). chega a ser chocante a composição que o artista dá a figuras e cenários, aos diabos que sempre aparecem sutilmente nos planos de fundo, às mãos esqueléticas das velhas e das bruxas, à perfeição dos tecidos, às anatomias magistrais, à criatividade e, por fim e mais legal de tudo, a integração com o texto que é de primeiríssima. termino o post reproduzindo um dos caprichos mais famosos da série, o n. 68, que está lá e com certeza é um dos melhores, embora seja praticamente impossível eleger um melhor.

Vinicius Ferreira Barth

68. linda maestra!
68. linda maestra!: la escoba es uno de los utensilios más necesarios a las brujas, porque además de ser ellas grandes barrenderas, como consta por las historias, tal vez convierten la escoba en mula de paso y van con ellaque el diablo las alcanzará.