entrevista

Entrevista com Tarso de Melo

17311771_10212557198986612_1066550287_o

Montegem: Ari Felipe Miaciro. Foto original: David Wigg entrevista Freddie Mercury, 1986.

a série das entrevistas feitas por muá strikes again. para ver as outras clique aqui. sem muita enrolação desta vez, passo logo a palavra ao tarso de melo.

sergio maciel

 

* * *

SM – Num ensaio publicado na revista Germina, o Adriano Scandolara repensa toda uma relação entre “poesia”, “mito”, “modernidade”, “poetas” &c. Ele fecha o ensaio, aliás, dizendo o seguinte: “E refletir sobre isso, mais do que repetir automaticamente os velhos clichês sobre a herança xamânica da poesia – do poeta como o legislador não-reconhecido do mundo, antena da raça, aquele que purifica as palavras da tribo, etc., etc. – é a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”. Dito isto, me interessa saber como você vê a posição e o espaço do poeta (e da poesia) hoje; se você acha que há alguma “tarefa/função” a ser cumprida por quem se arrisca a escrever nestes tempos. Trocando em miúdos, qual é, pra você, “a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”?

TM – Ao menos para mim, é inevitável, enquanto lemos e escrevemos poemas, ficar à sombra da imensa questão “por que poesia?”, mas acredito que qualquer resposta que eu dê será sempre precária, porque as diversas formas históricas como a poesia apareceu sempre foram, de alguma maneira, respostas novas para essa questão e, principalmente, renovações da própria questão. E não penso o “por que poesia?” apenas com relação à escrita pessoal dos poemas, penso-o muito mais até pela necessidade que em mim sempre foi grande e é crescente de ler poemas, de saber o que dizem os poetas pelo mundo, pelo tempo, nas línguas que desconheço completamente. E eu acho que isso até mesmo facilita o convívio com a questão “por que poesia?”, porque não vejo diante dela a possibilidade de responder que não serve para nada, que não tem função alguma. Parto da constatação positiva – a poesia serve para algo, sim – e multiplico suas possibilidades: a poesia serve para algoS, sim. A poesia serve. No mínimo: me serve e serviu a autores e leitores durante todos esses séculos de poesia. Em certa medida, porque registra uma certa experiência histórica, comunica-a com um possível leitor próximo e com o mais inimaginável leitor do futuro, mas também porque responde às grandes questões que a vida nos coloca em momentos diversos, expande tais questões muitas vezes e se projeta para experiências distantes, talvez até ganhando mais força. Enfim, essa minha resposta confusa para “por que poesia?” é também em grande medida minha resposta para “o que é poesia?”. E conheço poucas coisas tão úteis quanto a poesia.

SM – Retiro um trecho aqui da entrevista que fiz com o poeta Ismar Tirelli e lanço a pergunta a você: “Diante da notícia constante do horror, não da vivência, porque a vivência do horror talvez ainda custe um bocado a chegar até nós, uma articulação sintática perfeita faz senso ainda? Este é o momento em que deveríamos ser o mais claro possível ou que deveríamos tentar plasmar na página a confusão de não conseguir abarcar o acontecimento? Ou seja, que diabos seria um poema escrito agora? Ele é dizível? Ele é legível? Se ele possui a menor conexão com a experiência vivida – e eu acho que tem, porque ele não é apenas um joguete lógico nas mãos dos racionalistas de plantão –, se ele ainda tem que ver com a vida, então, como deve ser agora?”

TM – Sempre me chamou atenção que alguns dos poemas mais tristes com que me deparava eram construídos rigorosamente, até mesmo “friamente”, ou seja, sem deixar que o sentimento bruto que inspirou o poema implicasse uma brutalização da forma, por assim dizer. E não há aí, em tese, um problema no poema, uma falha, uma acusação de falsidade ou fingimento. Pelo contrário, porque às vezes é no controle da forma que o poeta consegue intensificar a mediação que pretende criar entre um determinado objeto e o leitor de seu poema. João Cabral, por exemplo, em seus poemas sobre as touradas, sempre me fez pensar nisso. Hoje, no entanto, se fazemos poemas em meio ao horror (social, político, pessoal, que seja), como ademais muitos poetas sempre fizeram, a única certeza que me parece existir é que a poesia tem infinitas formas de lidar com isso, de impactar e de deixar-se impactar. Algum juízo sobre essa relação entre articulação sintática e realidade, a meu ver, só dará conta das formas como historicamente tal relação se deu, mas jamais antecipará ou bloqueará as possibilidades que os próprios poetas podem abrir. Surpreendentemente, como costumam fazer.

SM – Repito aqui uma pergunta que você costumou fazer no seu blog: indique um poema que lhe parece, hoje, especialmente fazer todo o sentido. Por quê?

TM – Eu gosto de muitas coisas, muitas mesmo, entre o tanto de livro que tem saído (e consigo ler, claro), mas posso destacar com facilidade, nos últimos tempos, o poema “Conheço vocês pelo cheiro”, do Ricardo Aleixo (está no mais recente livro dele, “Impossível como nunca ter tido um rosto”, de 2015). Por que o destaco em meio a tantos bons poemas e poetas? Porque é um poema que me parece reunir, com precisão, o melhor domínio da linguagem e uma aguda crítica social. É comum, infelizmente, ver essas duas faces andando separadas, mas o Aleixo, não apenas neste poema, encontra uma associação das mais eficientes entre a forma dura do poema e a porrada que pretende transmitir.

Conheço vocês pelo cheiro
(Ricardo Aleixo)

Conheço vocês
pelo cheiro,

pelas roupas,
pelos carros,

pelos aneis e,
é claro,

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro

que algum
ancestral remoto

lhes deixou
como herança.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro

e pelos cifrões
que adornam

esses olhos que
mal piscam

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro

e a tudo que
nega a vida:

o hospício, a
cela, a fronteira.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro

de peste e horror
que espalham

por onde andam
– conheço-os

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro,

deus é um
pai tão sacana

que cobra por
seus milagres.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro

mal disfarçado
de enxofre

que gruda em
tudo que tocam

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro,

é com ódio
que replicam

ao riso, ao gozo,
à poesia.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro.

Cheiro um e
cheirei todos

vocês que só
sobrevivem

por seu amor
ao dinheiro.

%

Por seu amor
ao dinheiro,

fazem até das
próprias filhas

moeda forte,
ouro puro.

Conheço vocês
pelo cheiro.

%

Conheço vocês
pelo cheiro

de cadáver
putrefato que,

no entanto,
ainda caminha

por seu amor
ao dinheiro.
SM – Você tem uma definição pessoal sobre o que é poesia? Se sim, como a partir dela você concebe seus poemas, seu ato de escrita e o próprio papel (e aqui quero focar na questão política e estética) de sua poesia?

TM – A minha definição de poesia se aproxima cada vez mais de uma antidefinição: cada poema, à sua maneira, define e redefine o que é poesia. Não subscrevo nenhuma definição teórica do que seja poesia como válida universalmente. As melhores definições que conheço são grandes provocações à aventura da poesia – de sua escrita e principalmente de sua leitura. Na história da poesia encontramos as mais radicais reinvenções do que a poesia pode ser do ponto de vista formal e também do conteúdo. Em alguma medida, nesses momentos de insurgência de um poeta contra o que lhe diziam ou impunham que poesia deve ser é que encontramos alguns dos principais feitos dos poetas. E aí, para mim, é indiscernível o aspecto estético do aspecto político, não apenas pelo inconformismo inerente à criação, mas também pela resistência implicada na manutenção da ideia de que a poesia é um uso da linguagem indispensável do ponto de vista existencial, cognitivo, social etc. Meus poemas, por fim, são marcados por essa indefinição proposital do poético, ainda que, do ponto de vista particular (até aqui, ao menos), eles pareçam se mover num espaço bem mais delimitado do que minha resposta leva a crer.

SM – Isto não é lá bem uma pergunta, é mais como um pedido. Eu gostaria que você fizesse um panorama da poesia que lhe é contemporânea, porque me interessa saber como você encara e define “a poesia (e os poetas) da tua geração, do teu tempo”, os teus pares. Me interessa saber, também, quais poéticas estão te atraindo e ocupando teu tempo. Chamo à roda, para expor os próprios caminhos de leitura, o Tarso crítico.

TM – Me sinto cada diz mais distante da figura do “crítico de literatura”, no sentido acadêmico que ganhou preponderância nos últimos tempos. Por várias razões, inclusive de ter feito um caminho muito particular na leitura de poesia, ditada mais por necessidades imediatas e paixões momentâneas do que pela sistematicidade que se espera de um crítico ou teórico da literatura. Não tenho formação em Letras. Brinco que tenho formação em sebos e mesas de bar, lendo na medida da fome e da sede que me acometem a cada época (e isso só piora…). E isso vale também, claro, para a forma como leio a poesia que se lança por aqui a cada dia. Leio tudo o que posso, mas sei que é bem pouco diante do tanto de livros que saem no país todo. Tenho acesso, portanto, a uma fatia desse panorama e, com relação a essa fatia, posso dizer que minha avaliação é positiva, quero dizer, grande parte do que leio me agrada muito. Mais do que “me agrada”: percebo que temos poetas, das mais variadas idades e regiões do país, reagindo de formas muito ricas ao estágio que vivemos, dentro da poesia, mas principalmente da nossa sociedade. Poetas que conseguem trazer para a página a tensão renovada da nossa época, aquela sobre a qual nenhum poeta do passado poderia ter falado especificamente (ainda que muito tenham a dizer sobre ela à distância, como Drummond diz tanto ainda sobre nosso tempo), o que indica mais uma vez a necessidade desses poetas que têm surgido. Enfim, não subscrevo os juízos negativos que alguns têm difundido a respeito da poesia do nosso tempo, mesmo dos poetas mais jovens. Não gosto de tudo, claro, talvez me apegue muito a bem pouco, mas há poetas realmente excepcionais lançando livros neste momento. Prefiro não nomeá-los, mas a Escamandro, por exemplo, tem sido o ponto de encontro deles.

Padrão
entrevista

Entrevista com Ismar Tirelli Neto (parte 1) + 2 poemas inéditos

17176272_10212467410141947_561284475_o

Montagem: Ari Felipe Miaciro. Foto original: Ann Guilbert & Renee Taylor.

esta é a quarta parte da série de entrevistas que blábláblá…vocês já sabem. para ler as outras, clique aqui, aqui & aqui. diferentemente das demais entrevistas, feitas virtualmente, esta se deu num contato de horas – uma tarde inteira e um pedaço da noite – de conversa entre mim e ismar, em seu apartamento, a dezembro do ano passado. a conversa foi longa e ainda estou em processo de transcrição. obviamente, nem tudo que foi dito é digno de luz – afinal, somo humanos e falamos merda. por isso, esta entrevista, como eu já disse ser distinta das outras, será trazida a público aos pedaços, conforme eu for transcrevendo e selecionando os pedaços que julgar mais relevantes. esta é a parte 1 da nossa conversa.

eu havia pensado em fazer algumas considerações, mas acredito que a melhor fala já foi feita por júlia de carvalho hansen, em sua primeira coluna na revista pessoa (clique aqui): “Todos os dias me apavora o crescimento do mal estar entre os viventes. O sinto como o sabor do tempo, um travo que não sai da boca, amargor trocado e proferido na saliva & na respiração dos convívios. Sei com isto que mora aí o tema poético deste tempo (e de todos os tempos? onde existir humanidade?), mas eu mesma sou incapaz agora de escrever versos com este mal estar. Não tenho saúde, tenho carregado um escanfandro lírico no lugar de cabeça — diante do peso dos acontecimentos tenho escrito poemas de amor. Entre notícias, conversas, opiniões e posts de facebook me revejo tentando observar a realidade sem me acovardar diante dos ferozes que renascem todos os dias e certo sempre está que a poesia é a respiração do tempo. A poesia é capaz de capturar os instantâneos do mal. Então convidei para publicarem nesta primeira coluna três poetas que conheço neste momento escrevendo lúcidos & irrefreáveis poema. Com o ar intragável deste tempo eles assopram círculos de fumaça, transformam carbono em oxigênio, fazem rir e doer”.

sem mais, com a palavra: ismar tirelli neto, senhoras e senhores.

 

sergio maciel

 

* * *

SM – Recentemente, falávamos sobre uma espécie de “vazio fúnebre” que, talvez, a morte de alguns dos ícones do século xx poderia causar, algo quase como um “período de desamparo”; para além disso, falávamos também sobre uma tendência nossa (e quiçá dos nossos pares) a uma certa incapacidade de concentração diante dos acontecimentos. Como você vem lidando com isso?

ITN – Eu tenho reparado que isso tem sido um ponto de encontro.

SM – Das poéticas?

ITN – Não só das poéticas, mas das vivências também – se é que uma coisa pode ser separada da outra. Mas esse é o pátio onde as pessoas estão indo fumar, sabe? Entreolhando-se e pensando: “Meu deus!”. As possibilidades de refúgio estão cada vez menores. E é terrível, inclusive, estarmos recuperando, sem querer, esse repertório vocabular que é do campo do “refúgio”, do “abrigo”, do “salvífico”, do “balsâmico”. Essas coisas talvez pareçam da ordem do narcotizante. Ao mesmo tempo, eu acho também terrivelmente irresponsável ficar nesse local de total objetivade e lucidez. Ter, o tempo todo, esse olhar que não pisca diante de um mundo que está claramente caindo aos pedaços. Diante de dois mundos.

SM – Retomamos aqui o “mundo caduco” do Drummond.

ITN – Exato. E é por isso que eu irei à minha cova cantando loas a esse poema, acho ainda a coisa mais bonita cometida nos últimos tempos. Mas é exatamente isso: o trabalho sem alegria para um mundo caduco.

SM – Você falava há pouco sobre a questão do desejo, sobre uma ideia de que ele nos é tomado. Ou seja, tem a questão de que quando se vai produzir algo, no campo do artístico, rola uma espécie de privação do prazer e que o ato de criação artística se torna, diante do mundo, uma mera autosalvação.

ITN – Eu tenho também essa terrível impressão de que cada vez mais o “ato criativo”, entre várias aspas, já não se trata quase daquilo que se passa no poema mas apenas do fato de ele existir, porque é tão improvável escrever atualmente, sabe? É tão improvável criar. A sensação de exaustão, de cansaço, de abatimento geral é tão grande que já não se trata mais de escrever um poema bom. Trata-se de escrever, apenas. E eu tenho a impressão de que em situações de emergência isso é o máximo que se pode pedir. Eu me sinto aquém inclusive disso.

SM – Aquém da escrita?

ITN – É. Eu não estou conseguindo. É aquilo que eu já te falei: se eu consegui escrever três poemas em 2016 foi muito. Ao mesmo tempo, como falar sobre essas coisas sem adotar o discurso vaidoso do autor em crise? Porque não é um autor em crise, é um mundo. A crise é comunal, possui isso de democrático. Todo mundo está na merda. Todo mundo está infeliz em algum sentido e isto é muito claro. Então, eu tenho visto cada vez mais pessoas que, assim como eu, têm essa impressão horrível de que passaram o ano inteiro com a janta no fogo, de que não fizeram mais nada. E quando fazem, pelo menos comigo é assim, é tão pequeno, tão nada. De alguma forma, na hora aquilo faz senso, mas no cômputo geral o fato é que se passou um ano e eu consegui tão somente não me endividar. Eu consegui não me endividar e consegui não ser enviado para um manicômio.

SM – Fato que em 2016 é um grande feito a ser comemorado.

ITN – Exato. Mas ao mesmo tempo é duro pensar que isto é tudo que eu tenho para contar de bom, sabe? Essa sensação de progressiva exiguidade no campo do possível. Eu vejo que não se trata apenas de mim, mas é um lugar no qual as pessoas estão se encontrando, falando e tendo esses breves momentos de saúde. Mesmo que se trate de uma aliança contra o mundo, isso não deixa de ser uma aliança. Há algo que sempre me ocorre: seria preferível formar alianças a favor de qualquer coisa, mas se as coisas não se circunstanciam de modo a favorecer estas alianças, aquelas que sobram são as contrárias a algo. É o que se tem. E talvez seja mais saudável isto a uma vivência completamente desvinculada da ideia do Outro, da ideia do companheiro, da ideia do comparsa. Da ideia da comunhão, entende?

SM – De algum modo, e eu acho isso particularmente curioso, esse ponto de encontro nos conduz a uma “suposta compreensão” daquilo que falava Adorno sobre a impossibilidade de se escrever poesia após Auschwitz. Parecemos concordar que é forçosamente difícil escrever quando nos deparamos com as notícias de Aleppo, por exemplo. O ato da escrita, ao menos para mim, em alguma medida está se figurando como uma espécie de benesse.

ITN – A questão é: como você consegue dar conta do seu dia após ler uma notícia como essas de Aleppo? Ao mesmo tempo, eu tenho a impressão de que um desafio muito grande está sendo colocado na mesa e eu vejo, entre os nossos, pessoas que estão ombreadas com esse desafio. Mesmo no horror, mesmo no pasmo elas ainda estão conseguindo articular algo. E aí nós temos, por exemplo, o Ricardo Domeneck, o Guilherme Gontijo, sabe? São pessoas que mantêm uma produção contínua e que não silenciam diante de todas essas catástrofes que estão o tempo inteiro colocando a nossa própria noção de articulação em risco. Agora, falando de um lugar de pessoalismo abjeto, eu não me sinto facultado a escrever, apesar de estar ciente do desafio que se coloca, e nós temos precedente histórico. As pessoas não pararam de escrever, de criar, elas só reformularam isso para tentar dar conta do horror cada vez mais integrado à própria construção do poema, daquilo que se pode dizer, articular. Todas essas questões poderiam estar sendo rediscutidas e revitalizadas agora. Diante da notícia constante do horror, não da vivência, porque a vivência do horror talvez ainda custe um bocado a chegar até nós, uma articulação sintática perfeita faz senso ainda? Este é o momento em que deveríamos ser o mais claro possível ou que deveríamos tentar plasmar na página a confusão de não conseguir abarcar o acontecimento? Ou seja, que diabos seria um poema escrito agora? Ele é dizível? Ele é legível? Se ele possui a menor conexão com a experiência vivida – e eu acho que tem, porque ele não é apenas um joguete lógico nas mãos dos racionalistas de plantão –, se ele ainda tem que ver com a vida, então, como deve ser agora? São essas questões, acho, que deveriam estar voltando à mesa. Inclusive porque seria saudável uma admissão coletiva de que os tempos estão ficando cada vez mais sombrios, sim. Mas não se trata de uma admissão histriônica do tipo “ai meu deus são os piores tempos”. Não se trata disso, claro. Eu acho que é interessante tentar encontrar um tom que nos permita falar sobre essas coisas com preocupação, mas não com alarde.

SM – Pensando em tudo isso que você acabou de dizer, questionando o que seria o próprio poema e como seria produzí-lo agora, eu preciso repetir aqui a mesma pergunta que tenho feitos a outros tantos poetas: como você vê a posição e o espaço do poeta (e da poesia) hoje? Você acha que há alguma “tarefa/função” a ser cumprida por quem se arrisca a escrever nestes tempos? Trocando em miúdos, qual é, para você, “a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”?

ITN – Como você tem lidado com isso? No seu trabalho, você está se vendo indo para um lugar que é o da articulação e da clareza ou da inarticulação e fúria?

SM – Supostamente, eu não deveria ser aquele que responde as perguntas aqui (risos). Mas eu acho que não sei dizer para onde estou indo enquanto pessoa que escreve poemas. Talvez esse meu surto repentino, essa minha vontade de querer ouvir meus pares diga algo sobre para onde eu estou indo. Desse modo, talvez seja possível dizer que estou, mesmo não deliberadamente, tentando aclarar as coisas. Mas eu realmente não sei. Acho que a grande pergunta que espero responder em mim é a seguinte: “que diabos nós fazemos com aquilo que sabemos fazer, ou seja, com a escrita?” sabe? De que modo nossa prática acha meios de fazer-se possível a cada dia? Para onde estamos conduzindo nossos caminhos? O que nossas leituras estão fazendo, performando? Penso no nosso papel como tradutor, por exemplo, me interessa muito saber qual é o sentido, que coisa significa eu pegar o Sêneca, que está inscríto temporalmente há 2000 anos, e torná-lo relevante agora? Fazê-lo ter senso, sabe?

ITN – Sim. Que coisas nós estamos selecionando, que coisas nós estamos tentando colocar à mostra, sabe? Acho isso muito importante e eu acho também que isso ainda não foi colocado em questão. Eu ainda tenho a certeza de que a atenção é um ato político: a que tipo de coisas você atenta, o que você circula. Acho que todas essas coisas são de uma densidade incrível e penso, ainda, que isso seja, talvez, intocável. Não há horror que venha esvaziar a densidade política da atenção. Da atenção e da curadoria, ainda que este termo parece esnobe. Como você seleciona guinar aquilo que resta de energia do seu dia? A questão é: eu tenho 15% de energia de vida, mas ainda assim eu vou me dedicar a traduzir um autor de vivência homoafetiva do final dos anos 70 porque tem me siderado o fato de que temos pouquíssima informação traduzida da vivência gay no mundo depois dos casos de mais sucesso de escândalo, tipo Tennessee Williams, Jean Genet, Pasolini &c. Então, de alguma forma, eu ainda acho que esses atos, por mais ínfimos que sejam, são uma maneira não boçal de empregar tempo e energia.

 

§

Um novo começo

Prometi a mim mesmo que me absteria do annilingus até consertar os dentes
Que fazer, no entanto, ante a beleza de um corpo que retesa e rompe em outro
Aos trinta anos, uma vontade vesgando, tarda a derrocar
Aos trinta anos
Ó modesta choça de palavras que tanto sonhei pôr de pé não a construí
Nem coisa que fosse ela própria o salto
Cultivei sim ao longo desta temporada em que pouco ou nada fiz senão
Trabalhar e enterrar parentes:
Língua, dedos
A comunicação de certas torções
Os domingos cavados sob os pés dizer adeusinho
Cantar como a Dietrich os rapazes à sala dos fundos
Por mais de uma vez em tempos recentes a República viu-se ameaçada
E minha boca a ocupar-se de estranhos
A História desgarrava-se de nós que numa República ameaçada nos ocupávamos
Que nos ocupávamos de estranhos com as bocas as ruas a se povoarem de
Língua, dedos
Não, eu jamais lá estive
Prometi a mim mesmo que só voltaria a escrever poemas quando
Aprendesse os leões
Contra todas as expectativas, julgo estar no caminho certo

 

§

Palavras às vésperas de uma guerra

Antes do biombo havia a casa
Estes poucos metros quadrados a estacada verdade do sono
Alguém em obscena função remoçando
Todos os sulcos satisfeitos

Vivíamos à insciência destes móveis
Reproduções estantes
Xícaras esmaltadas de negro todas
As nações

Era impossível prever
Todas as nações
Em todo caso, inteiriças, ultimadas
As coisas ultimadas conosco

(to be continued…)

Padrão
entrevista

Entrevista com Júlia de Carvalho Hansen

16326103_10212095202516989_249487352_o

Montagem: Ari Felipe Miaciro. Foto original: Oprah entrevistando MJ.

essa é a terceira parte da série de entrevistas que, recentemente, iniciei com poetas contemporâneos. a primeira parte, publicada aqui no blog (clique aqui), se deu com a poeta adelaide ivánova; a segunda, publicada no site da enfermaria 6 (clique aqui), se deu com um dos nossos editores, guilherme gontijo flores.

sem muita enrolação, passo a palavra à nossa entrevistada, a poeta júlia de carvalho hansen.

 

sergio maciel

* * *

SM – Recentemente você escreveu que “a poesia é a arte de lidar com a solidão do indivíduo na linguagem em que se comunicam”. Essa é sua definição pessoal de poesia? Mesmo com aquilo que diz Hilda Hilst sobre o escritor expressar sua verticalidade do melhor modo possível dentro da própria obra, não posso me furtar a pedir que você fale mais sobre esses versos & sobre sua visão a respeito da (o modo como você encara e lida com) poesia.

JCH – Rapaz! Que pergunta difícil de responder. Tem sim e tem não. Esta não é minha (única) definição pessoal de poesia, porque a minha definição de poesia é como a própria: metamorfose. Mas, sim, vejo a poesia como uma espécie de agência de ligações entre linguagens e mundos diversos, sempre a afirmar a própria solidão intrínseca. É como se a gente tivesse, num mundo particular, um monte de acúmulos, repertórios, buracos, com os quais o mundo de um poema estabelece conexões.

O verso que você cita do meu poema é uma releitura, uma realocação de um sentimento do mundo drummondiano: “Na solidão de indivíduo / desaprendi a linguagem / com que homens se comunicam”. Penso nestes versos porque o Drummond entendeu mais do que ninguém a linguagem com que os humanos se comunicam, a ponto de a ter desaprendido. Acho que esta gagueira instrumentalizada, isto também é o poema.

Quando escrevi esse verso que você citou eu estava com o Carlos na cabeça (estou quase o tempo todo com o Carlos no corpo), era alta madrugada e depois de anos eu me sentia muito sozinha (meu marido estava num retiro de meditação) e como ando pesquisando poemas que falem de amor, de afeto e de desejo pro novo livro que estou escrevendo, fui ler Ana Cristina Cesar, a quem eu só volto quando estou em mergulhos radicais, você sabe, paixão antiga sempre mexe com a gente.

E lendo o “A teus pés” naquela madrugada eu morria de rir de quanto a solidão é uma ilha de ilusão, sobretudo quando a gente a povoa com poemas, porque eles encenam tudo e mais um pouco do que podemos sentir em comum, eles encenam até o que a gente não sabia que a gente sentia, mas sentia. Aquele lance: o poema é o oráculo. E esta sensação de estar acompanhada e sozinha, me trouxe outras solidões do passado, lembrei das inúmeras noites de 15, 10 anos atrás, noites que eu atravessava lendo poesia e convivendo com a solidão acompanhada.

Agora a definição que você diz da Hilda eu não conheço! Podia googlar e me fazer de sabida, mas preferi me manter no mistério. Mas, poxa, a Hilda, aquele vulcão… eu pensava que ela só fazia poemas na horizontal!… Brincadeiras à parte, nem preciso entender pra dizer que concordo, sinto que estarei sempre de acordo com tudo que Hilda tiver escrito, falado, gritado. E olha que eu discordo até do Carlos.

SM – A definição da Hilda que cito está no livro Fico besta quando me entendem, que é uma série de entrevistas concedidas pela autora, organizadas por Cristiano Diniz e publicadas pela Biblioteca Azul. Mas ainda usando as coisas que você disse contra você (risos), recentemente, numa entrevista à Revista Continente, você disse que a produção do seu último livro, Seiva veneno ou fruto, se deu, em grande parte, graças ao seu retorno de Saturno, que foi quando você passou por um importante processo de abertura ao espiritual. Todavia você também diz que esse livro alinha e resolve coisas que você cultivava desde os 14 anos. É curioso ver como um processo iniciado e cerrado há pouco tempo suscita questões tão antigas, lá da sua adolescência. Aquilo que quero saber, no entanto, é o que todo esse processo espiritual, metafísico, astral representa pra você neste momento, dentro da sua obra, e de que modo isso afeta sua percepção da própria poesia, do seu fazer poético, do seu contato com a arte em geral. De que modo essas experiências todas ajudam a construir aquilo que você nomeou como uma “semântica integrativa”?

JCH – Lá vou eu falar de Drummond de novo: quando eu falo em “semântica integrativa” tem a ver com uma forma de montar os poemas no objeto final livro que aprendo a fazer com ele. Sabe quando você lê, por exemplo, Sentimento do Mundo e sai de lá de dentro com uma sensação que a palavra “noite” foi dita tantas vezes de tantos modos e com tantos significados e sonoridades combinadas que a noite se alargou até a linha do horizonte? De tanta coisa que “noite” significa. É um modo de ocupar as palavras e eu às vezes acho que o meu ofício é só esse: ocupar palavras.

O Herberto Helder diz algo parecido de forma invertida (e que cito de memória): “digo uma palavra mil vezes, ela já não significa”. Este meio-fio, este lugar em que a palavra é utilizada de modo a ocupar & ao mesmo tempo perder todo o significado, eu acho que esta é a visão de fronteira que me interessa e mora no poema. Entendo que o fio da linguagem que mora no poema é como um cavalo que cavalgasse uma fronteira limite, entre a ocupação material & o vazio e que, no fundo, é a linha limítrofe entre a vida & a morte também. Tanto Herberto como Drummond mostram isso o tempo todo & curiosamente ambos tinham Saturno em Capricórnio, o eixo no signo do tempo.

Formalmente eu gosto de ocupar o espaço de um livro com repetições semânticas que criem um fortalecimento das ligações entre os poemas, que elaborem uma sinergia dentro do livro e que, assim, pode transformá-lo numa espécie de objeto de combate, feito uma pedra ou um besouro, um objeto que em mãos alheias vai se entranhar com alguma implacabilidade. Tentei fazer isso em todos os meus livros de poemas até agora, mas só consegui no Seiva veneno ou fruto. Nos outros dois anteriores as linhas de fuga escaparam e como eu sou como sou (indisciplinada, exagerada e bagunceira) deixei estar. Afinal também sei apreciar o caos, a liberdade do caos. Mas no Seiva veneno ou fruto aconteceu uma espécie de ideal, de argila que eu (meio sem saber) tentava moldar desde a adolescência. E isto “moldar” tem tudo a ver com Saturno, que é o eixo.

Meu eixo de Saturno, o Saturno que tenho no meu mapa fala de muitas coisas, como buscar a transcendência através da descoberta do prazer, ou de como fazer da ancestralidade um eixo emocional de renovação lúcida (é o mesmo Saturno do Guilherme Gontijo Flores, por exemplo & aliás, quando li sua entrevista com ele fiquei vendo muito esse nosso Saturno em comum). Saturno em Escorpião tem que criar uma espécie de compromisso com isso, ou se não é soterrado de tanta presença de antepassados.

Em resumo: tudo isto que escrevi acima é uma tarefa espiritual. Durante muitos anos eu achei que vida “religiosa” e vida “espiritual” eram sinônimos, mas isso era um modo equivocado e tacanho de entender as coisas, inclusive as culturas rituais dos povos. Estou com o Álvaro de Campos quando ele diz que as religiões não ensinam mais do que a confeitaria. Mas o espírito é outra coisa, que respira. E atualmente é a palavra que mais me interessa entender, não tenho a menor ideia do que “espírito” significa e, no entanto, vou dizer “espírito” mil vezes e já não significará nada, podendo enfim esvaziada, ser uma palavra reutilizada da forma que convier, vivificada.

SM – Em apenas duas perguntas, ficou absolutamente claro que Drummond exerce uma senhora duma influência sobre você – assim como sobre mim – além da Hilda, que você também mencionou. Como foi sua formação literária? Quais poetas e processos te conduziram a ser a Júlia escrevendo hoje?

JCH – Pergunta complicada de responder, acho difícil dosar petulância e vaidade e não soar ingênua ou arrogante ao dizer que “Drummond me influencia”. Talvez eu prefira a antropofagia mesmo: comi e como Drummond, comerei do seu pasto o resto dos meus dias e espero fazê-lo a cada dia de modo mais erótico. O quanto essa alimentação me nutre de fato dando frutos presentes nos meus poemas ou não, eu não sei. No mesmo sentido eu mencionaria como fundamentais pra minha digestão da vida: Ana Cristina Cesar, Hilda Hilst, Herberto Helder, Raduan Nassar, Leonardo Fróes, Clarice Lispector, Machado de Assis, Oswald de Andrade, Mario Cesariny, Ruy Belo… e teriam outros, dezenas. Isto pra ficar só nesta língua imensa portuguesa. E, no fundo, são autores que influenciam muita gente, toda gente talvez.

Eu devo a escrita ao meu pai, é algo que herdei dele. Ele me ensinou não exatamente a escrever, mas a perceber as forças que existem no texto, a ter prazer por escrever, possuir toda legitimidade que eu quiser e me permitir imediatamente tudo que me der prazer ao fazê-lo. Acho que essa audácia foi o mais fundamental de tudo que ele me deu. Comecei a escrever por prazer com 9 anos de idade, primeiro escrevia uns contos que misturavam histórias que eu tinha visto na televisão; depois, com 11 anos, quando soube na escola que poesia não precisava ter rima, comecei a escrever poemas. Na adolescência escrevi uns 400 poemas que eu guardava com muito esmero numa pasta, compilando uma espécie de obra completa, até que um dia precisei da pasta pra guardar outra coisa, fui numa praça perto de casa e com um isqueiro queimei todas aquelas folhas de papel.

Ao mesmo tempo, hoje em dia eu sinto que aprendi a escrever na Universidade de São Paulo e faz tempo que quero dizer isso publicamente! Risos e mais risos. Hoje percebo que tratei meus trabalhos de estudante de Letras como exercícios ficcionais, em que era preciso construir argumentação e teia, tecido textual, eu aprendi (com Pound) como todos aprendem: fazendo, pelo exercício, pelo treino. Aprendi na Letras a exercitar a concatenação, a sensibilidade dos argumentos. Como é evidente não acho que um poeta precise estudar Letras, mas a necessidade de ser clara, de ser crítica e precisa me fizeram primeiro um mal danado: fiquei uns três anos sem escrever nada por prazer. Mas aí perdi um grande amor sem nem ter tentado de fato tê-lo e me senti tão estúpida que já não tinha nada a perder: comecei a me perder escrevendo. Na época, voltar a escrever por prazer foi uma libertação, significou também uma implosão daquilo que a Universidade tinha me colocado como paradigmas, eu estava de saco cheio. Mas hoje vejo de um modo um pouco diferente: eu incluí e incluo aqueles paradigmas críticos como ferozes participantes da sinergia textual. Mas misturei mais coisas, claro, que a USP, no geral, é um lugar muito careta.

SM – Num ensaio publicado na revista Germina (clique aqui), o Adriano Scandolara repensa toda uma relação entre “poesia”, “mito”, “modernidade”, “poetas” &c. Ele fecha o ensaio, aliás, dizendo o seguinte: “E refletir sobre isso, mais do que repetir automaticamente os velhos clichês sobre a herança xamânica da poesia – do poeta como o legislador não-reconhecido do mundo, antena da raça, aquele que purifica as palavras da tribo, etc., etc. – é a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”. Dito isto, me interessa saber como você vê a posição e o espaço do poeta (e da poesia) hoje; se você acha que há alguma “tarefa/função” a ser cumprida por quem se arrisca a escrever nestes tempos. Trocando em miúdos, qual é, pra você, “a tarefa que, mais do que nunca, recai sobre o poeta escrevendo hoje”?

JCH – Eu acho que esta pergunta é a mais fundamental que se pode fazer a um poeta hoje, ontem e sempre. Não acredito em poeta que não se veja como um missionário de alguma espécie mítica, de alguma técnica formal, de alguma audácia fundamental. Mas a minha resposta é um tanto quanto vaga: depende. Eu, hoje em dia, estou batalhando por uma voz que fale de algum lugar em comum, mas nunca que ela fale por este lugar em comum, não quero falar por ninguém, mas quero me tornar ninguém. Por isso tenho falado de morte, tenho falado de amor, tenho falado das plantas. São, digamos, os meus sinais fundamentais neste momento. Mas eu não sou em nada gregária e as deusas me livrem de um dia o ser. Acho que cada poeta vai ter seu sinal de emissão, sua sina de linguagem de determinadas tribos, seus códigos a inventar. Acredito, sobretudo nos povos que possam vir a morar na minha fala e trabalho todos os dias para veiculá-los. É tudo muito vago? Mas eu também nunca fui muito boa com “tarefas”, sou uma pessoa do êxtase, escrevo para senti-lo e causá-lo.

Padrão
entrevista

Entrevista com Adelaide Ivánova

montagi

Crédito da foto original: Roberto Stuckert Filho, Jornal Grande Bahia.

o ato tanto de entrevistar quanto de ser entrevistado faz, sem sombra de dúvida, parte daquela fina arte chamada dar a cara a tapa. já dizia hilda hilst sobre entrevistas: “É quase como uma confissão. Agora, no caso específico de um escritor, a entrevista se complica porque tudo o que um escritor tem a dizer, tudo o que ele imagina verbalizar, o seu mais fundo, a sua mais intensa verticalidade, está dito no seu trabalho, e já da melhor forma que ele acredita ser possível traduzir. Não acredito que escritor algum consiga verbalizar com mais verdade que no seu próprio trabalho”. em assim sendo, ainda que com todo meu amadorismo enquanto entrevistador, tentei, ao máximo, don’t fuck it up e manter um diálogo, não engessado & bacana, com a adelaide ivánova. o resultado é isso que vocês podem conferir. sem mais, passemos à entrevista.

 

sergio maciel

* * *

SM – Talvez esse seja o maior clichê de todas as entrevistas com poetas, mas eu ainda creio que todas as repostas dadas, ainda que também clichês, sejam sempre blocos de uma construção que gostaríamos de ver pronta de uma vez por todas. Quase repito aqui uma pergunta feita a Anne Carson, você tem uma definição pessoal sobre o que é poesia? Se sim, como a partir dela você concebe seus poemas, seu ato de escrita e o próprio papel da sua poesia?

AI – Não tenho uma definição pessoal nem conheço as definições oficiais. Mas se for pra responder agora-agora, acho que poesia é um jeito de se fazer coisas, inclusive a coisa-texto.

Estudei jornalismo e sou da fotografia documental, então até o momento presente concebo meus poemas como desenvolvo meus projetos fotográficos – os poemas se tornam, como as imagens, pequenos relatórios das coisas que fui descobrindo enquanto tentava reportar sobre alguma coisa.

“Ato de escrita” não sei o que significa. É tipo a rotina pra escrever? Se for, pelo menos com O Martelo foi assim: vou acumulando observações-anotações-áudios-entrevistas-documentos-imagens etc.; aí disso saem os primeiros poemas, que têm uma paternidade compartilhada entre o contágio com essa coleta de material e a vida vivendo (ou seja, de noite and bêbada haha); e depois vem a fase de deliberadamente escrever sobre os tópicos não-respondidos nessa fase espontânea, de preencher as lacunas conceituais que faltam no livro. O Martelo foi muito assim, principalmente a primeira parte; o livro novo ainda tá na fase de pesquisa e dos poemas bêbados. Se “ato da escrita” não for isso, desculpa, ignora tudo e me explica o que é! 🙂

Meu papel na poesia é papel de trouxa haha brinks. Não tenho papel na poesia, acabei de chegar.

SM – O que mais te atrai em termos de poética hoje?

AI – As letras de Drake e os livros de Marguerite Yourcenar.

SM – Quais poéticas contemporâneas, tanto nacional quanto estrangeira, têm tomado mais o seu tempo?

AI – Música pop, o R&B americano, o brega ostentação de Recife e memes.

SM – Quais poetas?

AI – Os brasileiros. Tem muita gente fazendo muita coisa boa. Os livros de estreia de Rita Isadora Pessoa e Italo Diblasi me tocaram profundamente, Miró da Muribeca, Ana Martins Marques, William Zeytounlian que me ensina sempre sobre elegância, Júlia de Carvalho Hansen lançou um livro lindíssimo esse ano, e o último de Horácio Costa é foda também.

SM – Há um maniqueísmo meio besta no mundo que quer dividir as coisas entre livro impresso e digital, revista literária e blog, poesia e canção &c. Partindo dessa dicotomia que o povo faz, quero saber se você acha que há alguma diferença estética ou formal, não política, se é que é possível separar essas coisas num discurso, entre poéticas masculinas e femininas. Inclusive no campo da fotografia. E, se há, como lidar, então, com as poéticas de um corpo-poético trans, como o de Georgette Dee, por exemplo?

AI – O problema não é que as poéticas sejam diferentes. Todo mundo é diferente de todo mundo. O problema é que apenas uma delas ganha status de secundária, menor. Esse discurso pau-cêntrico, quando travestido de neutralidade, é o pior de todos.

Os estereótipos ligados à masculinidade (a razão, a força, a lógica) foram estabelecidos como a abordagem ideal e idônea pra falar do mundo; são a medida do ponto de vista e conhecimento relevantes, pretensamente universais, mas na verdade verticalizados e pouco representativos. Enquanto isso, os estereótipos ligados à feminilidade (a emoção, a delicadeza, a intuição) viram prismas de produção de conhecimento de segunda ordem. Não é à toa que as grandes escritoras do século 19 escreviam escondido, né. Elas sabiam que ninguém ia levá-las a sério anyways.

Mas acho que a saída é anarquizar mesmo tudo – as relações, os meios de produção, as instâncias de legitimidade. Georgette Dee é claramente um desafio; Mikky Blanco, Nicki Minaj, Anohni… o que a gente faz com essas poéticas? Aprende né? Escuta e aprende. E o que fazer com Toni Morrison, escritora negra mais importante do nosso século, que diz que foi a maternidade e não a literatura que a libertou? O que o feminismo faz com um dizer desse? Em que gaveta meter essa mulher? Mas assim, o que Nicki Minaj faz não é muito diferente do que Catulo fazia: falar de rola e passar recibo. Quer dizer, é tudo uma questão de identificação (por parte do leitor) e de implodir estruturas (por parte do autor).
Nisso, minha musa maior sempre será Anne Sexton. Porque ela tinha tudo pra ser uma Jackie O’ Marcela Temer escrota dum subúrbio de Boston, mas implodiu o patriarcado de dentro e contou pra todo mundo como foi.

SM – Sherry Simon, em Gender in Translation, começa, logo de cara, dizendo que o problema que se impõe entre original e tradução é um problema de gênero. Para ela, a hierarquia entre esses dois acontecimentos refletem o problema da hierarquia dos gêneros: a tradução, neste caso, considerada feminina, inferior, infiel (la belle infidèle) e mais fraca que o original, forte, autoritário e racional. A partir disso, Simon propõe uma teoria da tradução feminista e mostra como tradutoras têm atuado como ativistas literárias, criando novas linhas de transmissão de conteúdo e contribuindo para um debate cultural. Figura exemplar disso, aliás, é propriamente a Anne Carson, com sua Antigonick. A sistematização e o fortalecimento de uma crítica feminista, aqui no Brasil, pode ser um caminho para implodir essas estruturas tradicionais e estereotipadas?

AI – Sim.

SM – Como você vê a produção atual de crítica e teoria feita por mulheres e sobre mulheres aqui nestes trópicos?

AI – Não sei direito. Gosto de ler as feministas negras americanas, mas não é muito da seara da crítica literária né? (ainda que se possa aplicar). No Brasil, acompanho de perto os textos e as elucubrações online de Carol Almeida, que têm um poder forte sobre mim, porque Carol, além de ser uma crítica foda, é ativista dos direitos homossexuais e pra mim, hetero-cêntrica, é muito importante ter esse contato. Priscilla Campos começa devagar e com potência a se misturar nesse assunto; publicou recentemente um texto maravilhoso no Suplemento de Pernambuco. E gosto de acompanhar os pensamentos da Giovana Dealtry na internet. Mas leio pouca teoria, porque passo muito tempo no bar. Pergunta da minha vida pessoal #soudessas

SM – Há, creio, uma grande diferença entre ser “apenas” poeta ou poeta-professora, poeta-médica, poeta-repórter &c. Desse modo, pra você, que relação é possível estabelecer entre suas condições de poeta, tradutora e fotógrafa? Que relação é possível estabelecer entre seus poemas, suas traduções e suas fotografias? É tudo obra de um mesmo corpo? Se sim, qual influência objetiva esses gestos exercem sobre os outros?

AI – Eu sei que é clichê responder assim mas eu não vejo diferença nenhuma entre essas operações. Não há relação possível de se construir porque não há quebra, para mim elas acabam se tornando métodos, não mídias. Existe um corpo, o do eu-artista, que é a interseção entre todos esses métodos, que é também onde eles se diluem, sabe? Margarida Vale de Gato (#amamos) disse recentemente que “foi uma felicidade perceber que podia ser escritora com a tradução” (isso é muito lindo!) e é bem por aí.

Eu venho do jornalismo, da fotografia documental, então meus trabalhos nascem sempre de uma pergunta, e do querer respondê-la (ou ao menos falar sobre ela), ai vai encontrar a mídia ops o método ideal praquele tema. Por exemplo: entendi (não sem antes tentar muito) que uma “reportagem” sobre estupro só seria resolvida com poesia (eu tinha feito uma série fotográfica sobre abuso sexual no Brasil antes, que nem chegou perto das respostas que cheguei com O Martelo); já o problema da morte simbólica de Recife só rolaria com fotografia (ainda que tivesse tentado, também sem sucesso, escrever sobre isso). E meu problema com a língua enquanto ferramenta insuficiente pra articular a dor só seria abrandado com as traduções de Ingeborg Bachmann e Paul Celan. Soa egocêntrico pra caralho né? E é 🙂

Eu queria muito saber a partir de quando se deu essa ruptura, essa separação. Tu sabe? Essa “setorização” do fazer artístico parece um negócio fordista, o que aperta o parafuso, o que usa o maçarico, o que escreve, o que faz escultura. Meu cu. Sei que no renascimento os artistas faziam de um tudo (aprendi com Italo Diblasi haha). Os surrealistas também deslizavam muito bem entre diferentes mídias; só o que me incomoda neles é que até essa quebra de paradigma também virou statement. Sei que era necessário, e que sem os surrealistas não ia ter Andy Warhol, nem Sophie Calle, nem Bowie, mas fico me perguntando se não é justamente quando a gente reclama o direito de ser/fazer alguma coisa é que a gente reforça as instâncias que nos impedem de fazê-las, sabe? Sei lá.

Enfim, respondendo tua pergunta: para mim são apenas ferramentas diferentes pra satisfazer esse desejo de decifrar os enigmas.
SM – Considerando que seus poemas têm, pelo menos, dois estágios de produção – um de acumulação de experiência, de vida vivendo e outro de preenchimento das lacunas conceituais –, que importância dá pra atribuir ao fato de você viver num outro continente, numa outra cultura, imersa em outra língua no corpus do seu trabalho?

AI – “Imersa em outra língua no corpus do seu trabalho” hahahah ai até perdi a concentração.

Tu falasse de dois estágios de produção, e tem um terceiro, que é o silêncio, que só é possível de se chegar exatamente por causa desse meu exílio de butique (Ted Hughes fala numa entrevista que todo escritor devia morar fora do seu lugar de origem). Esse silêncio é tipo o filme antes de ser exposto à luz, sabe? É onde essa acumulação de experiência e o conceito (ou o desejo, eu prefiro usar “desejo”) se encontram e a coisa se transforma, vira um positivo. Esse silêncio do estrangeiro é importante também porque ele obviamente adiciona concentração.

Aí as duas línguas protagonizam partes bem diferentes da vida. A língua materna acaba virando uma coisa meio preciosa, usada exclusivamente para produzir – não há desperdício. E aí tem outra coisa maravilhosa: a língua do dia a dia (no caso, a alemã) vira uma grande encenação, por ser a língua dos afetos diários mas que sempre sempre sempre será insuficiente, mesmo que a pessoa domine a língua. Então tudo vira um tipo de teatro, e a língua materna está a salvo das chantagens das paixões, e pode existir divina e maravilhosa e soberana na escrita, sem afetações.

Padrão