“A pandemônia” de Leonardo Froés — paisagem sonoro-visual

No dia 25 de maio de 2020, Leonardo Froés publica no site da revista Quatro Cinco Um o poema “A pandemônia”. Inspirado pelo modo vertiginoso com que passeia pela cidade deserta e por seus espaços de morte e vida, ecoando as dinâmicas sociais que ali se jogam e sobre as quais reflete, traduzi-o em paisagem sonora, com o intuito de fazê-lo ecoar, inventando para ele ainda um ostinato no violão. O músico e arranjador João Marcondes aceitou o desafio e, a partir do poema declamantado ali, e das vozes que sobrepus, refez o violão, ao qual somou guitarra, baixo, sopros percussões e efeitos. Tudo mixado por ele a partir de nossas conversas e impressões. O todo foi então compartilhado com o poeta, designer gráfico e produtor de mídia André Vallias, que, a partir de imagens extraídas do noticiário da pandemia e algumas outras, tornou a paisagem visível, criando ainda um diagrama em que a voz é representada por ondulações e o fundo musical por uma linha pontilhada que vai gradativamente aumentando de altura.

Álvaro Faleiros

* * *

Laís Reis (1988-2020)

Laís Reis (1988-2020). Nasceu em São Bernardo do Campo. Formada em Letras, Português e Latim Clássico, pelas Universidades de São Paulo e Coimbra. Participou da Cooperativa da Invenção: Poesia e Tecnologia (2017) e do Curso Livre de Preparação de Escritores (2019), ambos na Casa das Rosas em São Paulo.

* * *

1.
*Você morre*

Quando que não morre?
Lucky Strike Duchampignon pronto para refletir
entre um smoke e um strike que a poesia não salva o
mundo
mas salva
o minuto.

2. [poema de Marcus Cardoso, publicado no livro Todo poeta mente sinceramente: vinte e poucos poemas mal escritos (edição experimartesanal, 2016) que encontra-se como vídeopoema em parceria de Laís, tendo sido exibido e premiado na Desvairada de Poesia em 2017 e postado na revista Vício Velho em 2018)

 

eu quero a explosão, a antítese, a esquizofrenia desenfreada que dilata e retorce toda essa visão quadrada e empobrecida que nos é empurrada goela a baixo. eu quero toda a paleta de cores misturadas, sem nenhum sentido, cheia de incongruências e erros de estética e moda. eu quero subverter o belo até que o feio seja aplaudido de pé e ovacionado, e faça lágrimas caírem por ele. eu quero o sol na noite e a lua no dia. eu quero um jantar romântico no meio de um tiroteio, quero acender uma vela e rezar pra mim mesmo, quero subir tão alto até chegar embaixo novamente. e quero não saber de tudo e gozar do prazer de não opinar. na verdade, quero opinar sobre todos os assuntos, até mesmo os que eu não tenho o menor conhecimento, e depois pintar nas paredes da humanidade o inverso do que eu disse. eu quero escrever livros sem palavra alguma, e gritar silêncios no meio de sessões de cinema. eu quero abrir o corpo e acreditar que em vez de ossos e vísceras, na verdade somos formados de poemas e confusões. e eu quero, ao mesmo tempo, o contrário de tudo isso que escrevi aqui. por que querer não é poder. na verdade, no meu universo tosco e em formação interminável, o Querer pega o Poder pelo colarinho e o esmurra até ele concordar em me ajudar. o meu Querer é foda.

3.

Se não podemos nos apoiar no ar pra evitar uma queda, por que a culpa seria do ar?
Se a queda é inevitável, que ao menos aproveitemos a experiência do corpo solto no ar
Um percurso estritamente reto é sempre de se desconfiar

tipos retos
não tropeçam
incapazes de alcançar
o chão

4.
como dentes-de-leões
 que morrem no soluço do vento 

 se me desfaço
 em pedaços
 saiba que não é
 para me fragilizar
 mas multiplicar

Liana Salles Monteiro

liana salles monteiro

Liana Salles Monteiro é formada em Rádio e TV pela UFRJ e hoje cursa mestrado em Comunicação e Cultura na mesma instituição. Já teve poemas publicados em antologias e editou com amigos a Revista Transversal, espaço de experimentação literária e poética. Na adolescência, passou bons dias cuidando de um blog dedicado à poesia, o “Teresa, a mulher das balas”.
*

Pensamentos sobre uma fotogravura de Thereza Miranda 

Parte I — Vento
em seu esforço de remover a inércia das folhas.
Há folhas?
Há verde.
A inscrição “Machu Picchu” remove as folhas e
em seu lugar
inculcam-se pedras.

Parte II — A invariabilidade de uma pedra
o que causa ao instante em que
se fotografa?
Capta-se
o movimento?
Capta-se
o salto quântico?
O reordenamento quase secreto dos minerais?

Parte III — Sais
de prata no filme fotográfico
à luz, remontam, a um só tempo:
ao olho do passado e à imagem
do futuro
(revelar é fazer surgir o que não existe?)

Parte IV — Soluções alcalinas
de um papel submerso
interrompidas
para o efeito de estampar o
vazio,
criar a impressão
de uma cidade aérea
a dois quilômetros
acima do mar.

Parte V — Recobrar o instante
na matriz encoberta 
(os pigmentos são verdes).
Fazer surgir nova excitação:
transpõe-se um instante a outro;
impressiona-se, assim, uma pedra
e depois outra — constrói-se
uma cidade.

Parte VI — Intervenções manuscritas
interpretam vazios e
empenham-se em não deixar que
o ácido, o impulso de completar-se
dilua o verde 
das pedras
em apenas
verde.

Parte VII — Vejo
Machu Picchu
ou seriam
os rastros dos átomos
a envelhecerem
sobre nova superfície?

*

Díptico 

O corpinho cansado
neste quadro

O corpinho cansado

Eu tenho nas mãos
o mapa dos museus

Eu tenho no rosto
um rosto cansado

O quadro é o quarto
no mapa dos museus

Eu paro e desejo:
se este quadro fosse meu

Eu deitaria no museu
Eu deitaria neste quarto

De pernas abertas
neste quadro

Eu seria, eu seria
uma mulher deitada

E você, deste quarto
seria 

eu
a contemplar 
um quadrado

*

Tríptico

Eu me lembro dois minutos
atrás eu me lembrava três
dias mais longe eu
fazia de conta que 
me lembro catava 
caquinhos do chão
de vidro eu 
estava cortada já
e não me lembrava 
não me lembrava eu 
não 
me lembro todos 
os dias 
de frente
pro espelho
eu lembro minha
mãe
no espelho minha 
mãe cortada 
na fotografia

*

Thadeu C. Santos [1987_]

Thadeu C Santos (Itaperuna, 1987) é poeta e editor de poesia. Autopublicou zensaída (2016) e nossa arte é postar (2018) e é um dos produtores da Subcena (2017-2020).

* * *

toque para ampliar

dobras no caminho
antes de vir. não vou, sem antes
olhar para o céu. se alguma coisa cair
que me tome de cima / baixo, use
esta calça caqui em que um pingo de café
entrega um jeito de ver

*

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duas linhas contraluz,
nada mais sério do que me mostrar
de costas, com os olhos presos na parede
à máquina de costura. lembranças. só mentiras
nos músculos por baixo da capa. antes de tirar a roupa,
a salada, uma mensagem nova
acaba de chegar. que nada diga,
se dirá

*

maria te enviou uma reposta

virar a cabeça
para ver o outro lado, se há notícia
de terra nova, imaginá-la
empapada de sangue, e contar pros amigos
em roda, sem hesitar, sobre essa água
que você jura ver, se enrolar a língua
o riacho sobe o morro

*

correr atrás da bola na frente de milhões de telespectadores

num rabo de olho
fecho a garganta

em segundos

tiro a pele
da frente da flecha
roendo a linha do arco

sismo que posso, e posso
fazer que estou longe
e faço

*

madrugada na fila do bar

de um sussurro que
eriça a pele, rasga pelo lado
de mim, a memória de uma guerra
antes de nascer, o amor é uma crise
de consciência, do tipo que se tem nas mãos antes de nascer

*

antes de ontem na casa da minha mãe

tomar o ar
na palma das mãos
e cozinhar com o calor do corpo, raspando as espigas
até fazer a farinha, e cantar o momento, tão exato
lembrando de quem passou e falou tudo o que sabia
e que não conseguimos explicar

Rita Barros (1984—)

Rita Barros [Mogi das Cruzes, 1984] tem poemas na plaquete Primeiras vozes [Vozes e Versos/Quelônio, 2018], na antologia Simultâneos pulsando [Corsário Satã, 2018], na coletânea do Prêmio SESC DF de Poesia [2014], e nas revistas Mallarmagens, Zunái, Meteöro, Córrego e Euonça, entre outras. Publicou o primeiro livro na Coleção Kraft da Cozinha Experimental em 2015, e a plaquete independente “travelín”, com poemas em espanhol, em 2017 [Sevilha, Espanha]. Participa do Curso Livre de Preparação do Escritor [CLIPE], da Casa das Rosas, e tem feito experimentações com poesia visual, sonora, vídeo e performance, algumas delas na Espanha com o nome Senhorita Barros.

* * *

BRAILE

fiquei curiosa e dei
a partida numa sequência
magnética de descaramentos

coreografia ensaiada com os olhos
vendados só pra testar me dar
ao luxo de testar motores
queimando os dedos

tática tátil eu sei
que você sabe — mais de 90% da baunilha do mundo
…………..vem de Madagascar

tática tátil eu sei
que você sabe — todo navio carrega em si
…………..um mal insidioso

tática tátil — o mistério
é uma droga pesada eu sei agora sim eu sei
…………..que você sabe

§

SANCHO MEU AMOR

sancho meu amor me acompanhou
à clínica de interrupção

ele disse
eu pago
ok

fiz uma cena antes
outra cem anos depois

o que restou do entreato
foi levado pelas formigas

adoramos nossos sobrinhos

Rente demais aos poemas de Arnaldo Xavier (1948-2004), por Ronald Augusto

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Em agosto de 1998 Arnaldo Xavier enviou-me uma carta contendo alguns exemplares do livro LUDLUD (edição Casa Pyndahyba, 1997). No final da carta, digitada com capricho, uma anotação de punho solicitava: “Envie um [exemplar] p/o mineiro”. Não tenho bem certeza, mas esse destinatário mineiro deveria ser ou o Ricardo Aleixo ou o Edimilson de Almeida Pereira. Fosse quem fosse, espero que eu tenha enviado o livro. Ambos eram e ainda são admiradores da poesia de Axévier.
Mas voltemos à carta, que é o que de fato interessa aqui. Arnaldo a inicia me avisando que sua memória está “babelikamente fragmentária”. Ele passara por um grave problema de saúde que o levou a ser hospitalizado. Esteve com a vida a perigo. Durante a convalescência escreveu dois poemas, “anotados – segundo suas palavras – no Hospital pós-coma”. O poeta me adianta que os poemas (um bem longo e outro mais breve) ainda estavam em processo, que exigiriam mais trabalho, porém, que mesmo assim decidira me enviar. Sobre os poemas Arnaldo não disse quase nada, exceto que tudo era “uma viagem muito looouca”. Prometeu me enviar a versão final do poema longo quando estivesse concluída. Isso não aconteceu. Desde o recebimento da carta (com os poemas) até 2004, data de sua morte, seis anos se passaram. É possível que tenha concluído o longo poema? Sim, entretanto, não tenho como confirmar essa hipótese. Contudo, no momento oportuno os 44 tercetos que constituem a estrutura do poema serão reunidos entre as capas de um livro. Aguardem.
De resto, o conteúdo da carta versa sobre projetos de livros, tópicos afetivos, vivenciais e algumas polêmicas que marcam a atividade intelectual de Arnaldo Xavier. Poupo o leitor de uma série de detalhes e confidências, porque acredito que esses registros requerem um trabalho de análise mais atento e apurado, inclusive na perspectiva de tornar mais racional ou razoável as tensões em que à época Arnaldo e alguns dos seus pares se viam envolvidos.
A amostragem dos poemas de Arnaldo Xavier, tanto os inéditos (os seis tercetos iniciais do longo poema e o outro na íntegra), quanto os sete textos que ilustram a aventura de linguagem de LUDLUD, é o que nos alegra o espírito e, portanto, nos leva a esse insuficiente, porém vital compartilhamento com o leitor.
Ao longo dos anos, aqui e ali, escrevi a respeito do trabalho do poeta. É necessário que se produzam outras leituras a respeito de sua poesia. Às vezes acho que estou implicado demais nessa experiência; me sinto afetiva e esteticamente sempre muito rente a Arnaldo, de seus poemas verbais e não-verbais de que tanto gosto. Aguardo a chegada de outros interlocutores que, é bem possível, me farão ver coisas diversas na criação de Axévier, já que, por enquanto, não consigo tomar a distância necessária para vislumbrar o quadro em dimensões mais largas.
Por fim, e a título de um comentário, o quanto possível, crítico sobre alguns aspectos de seu apetite poético, compartilho com os interessados esse texto que escrevi há pelo menos uns quinze anos, como tentativa de aproximação a essa radical empresa inventiva levada a efeito por Arnaldo Xavier.

Porto Alegre, fins de julho de 2020

AXÉVIER, CONTRALAMÚRIA
[Este breve ensaio [agora revisto e um pouco ampliado] foi estampado pela primeira vez em Roda – Arte e Cultura do Atlântico Negro (2006 ou 2007), revista editada por Ricardo Aleixo e mantida pela Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte.]

Linguagem de perturbante experimentação, uma poesia de invenção como a de Arnaldo Xavier (1948-2004) pode ser examinada não só no que diz respeito à estranheza da fissura aberta por ela em partes ou no corpo de determinado sistema literário. Vale dizer, dentro de um traçado de rupturas inaugurado pelo alto modernismo e que, desde então, parece ter se constituído no cânone da contemporaneidade, o que Arnaldo Xavier injeta de novo em tal corrente sanguínea? Temos aí, um ponto. Por outro lado, este exame nos permite compreender também um pouco do caráter e das imposturas desse sistema mesmo que, desde sua condição normativa e dogmática, manteve ou mantém, com relação às transgressões de Arnaldo, uma atitude, no mínimo, defensiva.
Sem receio, sem dever favor a ninguém e satisfeito por não ser confundido com os medíocres beletristas com lugar garantido em antologias temáticas, “todos [estes que] a tudo o seu logo acham sal” (Sá de Miranda), Arnaldo Xavier desbordou do molde para o qual parecia talhado. Para desgosto do poeta e estudioso da literatura negra, Oswaldo de Camargo, Arnaldo não se inseriu “claro e negro” na linhagem daqueles criadores que lograram “falar negro-poeticamente”. Arnaldo não aceitou a ideia de que a contrapartida aos esforços criativos de suas fabricanções, seria ele assumir – em atenção à expectativa de alguns dos seus leitores e antes que fosse tarde demais – um posto de honra nesta sorte de linha sucessória. Na economia da visada diacrônica, não há uma próxima chance, nem uma segunda escolha. Xavier teria um lugar assegurado ao lado de, por exemplo, Solano Trindade, Adão Ventura, Geni Guimarães, Oliveira Silveira, Cuti e Éle Semog, seus companheiros naturais no âmbito adequado. Entretanto, o poeta, por assim dizer, pede “vistas” ou interpõe um grau de suspeição em ralação ao que parecia ser o coerente passo-a-seguir do seu percurso textual. E questiona a falsa dicotomia incrustada nas opções que se lhe apresentam virtualmente, ou seja: 1) entrar na idade do bom senso como mais um poeta negro afirmativo; ou 2) ser condenado à incomunicação, haja vista a aporia sugerida pelos grafismos e signos que escolhera como forma de linguagem. Não tanto pela companhia, Arnaldo Xavier declina do convite-logro feito por Oswaldo.
O fato é que sua linguagem, já francamente experimental desde os primeiros anos da década de 1970, pressupõe o poema como um experimento sígnico cujo acontecimento não pode se justificar apenas para servir às necessidades de certas interpretações, por mais bem intencionadas e relevantes que elas sejam. A impressão de “pura curiosidade” e de fracasso comunicativo que Rosa da Recvsa (1978), um dos seus primeiros livros, desperta em Oswaldo de Camargo – o crítico e entusiasta, par excellence, de uma literatura negra, competente, mas convencional, inserida no panorama antológico das letras brasileiras –, resume algo sobre o tipo de recepção que acabou prevalecendo entre os detratores de Arnaldo Xavier. Mas não havia só os imperitos inimigos se pronunciando a respeito. Muitos outros, felizmente, admiravam ou admiram e propõem leituras novas divulgando e debatendo a poesia do transnegressor. De outra parte, Arnaldo nunca fez questão de defensores. Aliás, ele não se defendia. Pelo contrário, mais atacava do que qualquer outra coisa. Arnaldo pautou criativamente os seus críticos retranqueiros. Os opositores é que se viam obrigados a tomar uma posição frente às intervenções sincrônico-valorativas do autor de LudLud (1997). Arnaldo Xavier inventou os seus detratores. A bem da verdade, dir-se-ia que jamais existiram, tão grande era a mediocridade com que se espojavam. No entanto, a arena formada sobre o ideário estético e étnico-político de Arnaldo Xavier, engendrou um ambiente e este ambiente – como disse Ezra Pound a propósito dos diluidores da sua época – é que conferiu a eles, seus adversários, uma existência. Ainda que volátil.
A bossafro da poesia verbal e não-verbal de Arnaldo Xavier questiona, às gargalhadas, a dimensão estrita e estreita da poesia e da prosa dos seus pares, onde se verifica a tolerância pós-moderna a limitar-se com o compromisso politicamente urgente, fusão que, ao fim e ao cabo, resulta em reducionismo de fast thinkers. Arnaldo, intelectual e militante negro (em sentido forte), isto é, avesso a qualquer tipo de afundamentalismo, não professava a profissão do líder galvanizador. Uma imagem possível para tentar descrever o paraibano Axévier é a do autor cuja obra e reflexões críticas estão tensamente imbricadas no debate referente aos dilemas de uma vertente negra na literatura brasileira. Mas o aceite e a negaça de Arnaldo Xavier com relação a esta questão se define, acima de tudo, por uma atitude problematizadora, metalinguística, intra e intertextual, do que por uma afirmação concludente ou utilitarista de uma causa que, de resto, se interessa em legitimar tópicos identitários através de uma ação literária entendida como testemunho de verdade étnica ou de realidades meramente vivenciais. Do ponto de vista da poética de Arnaldo, a literatura negra se configura como um debate que não precisa, a princípio, ser lacrado, assim às pressas. Exceto, talvez, do ponto de vista acadêmico, essa literatura se constitui em algo que não tem de ser resolvido. Afinal de contas, um poema de verdade não admite solução.
Consciência de linguagem requer um severo sentido de ironia contra si mesmo. Arnaldo era radical, um poeta radical. Identificava, a um só tempo, questões de forma e de fundo. Feito Yeats, não separava o dançarino da dança. O gesto radical se projeta sobre a linguagem. Não há linguagem desprovida de pensamento. E o pensamento instala o mundo entre parênteses justamente para melhor pensá-lo. A poesia de Arnaldo Xavier é a transnegressão dos limites representacionais da linguagem, fronteira exusíaca entre mundo e signo.
Ao propor novas expressões negras, numa espécie de transe intertextual onde colaboram tanto a logopeia nagô de Muniz Sodré, quanto a fanopeia jazzística de Spike Lee, Arnaldo propõe, em fim de contas, novos e vastos pensamentos sem fios. Com efeito, sua poética repercute no seu pensamento conferindo-lhe um viés experimental, inoportuno e negativo. Algo vivo. Axévier era o dissenso via intersemiose, o desarraigamento de si, o solapar das evidências ferreamente construídas sobre retóricas da identidade, não por acaso erísticas, e, por sua vez, pavimentadas sobre tensões históricas e sociais retidas num pano de fundo menos utópico do que reformista. Arnaldo torceu o gasnete à eloquência pictórica do conteúdo, suas palavras exorbitaram iconicamente o contorno dos sintagmas, viraram desenhos sintéticos do seu pensamento-arte.

Ronald Augusto é poeta, letrista e crítico de poesia. Formado em Filosofia pela UFRGS. Autor de, entre outros, Confissões Aplicadas (2004), Cair de Costas (2012), Decupagens Assim (2012), Empresto do Visitante (2013), Nem raro nem claro (2015) e À Ipásia que o espera (2016). Dá expediente no blog www.poesia-pau.blogspot.com  e escreve quinzenalmente no http://www.sul21.com.br/jornal/

* * *

[excerto do poema longo]

Oração roseira sendo delírio de cores jardim
soluça pedra sido rio de asas moldura ciranda
face matéria sendo olho oco céu de pássaro

sem cabeça sido Tempo corpo de areia azul
coração aberto sendo nudez avessa nudez Chave
voltada ao norte sido Língua serpente acesa

linha dágua desfaz sendo Improvável sentido
anzol caçador sido caverna óssea pesca flor
Mar dorme silêncio sendo nascente casa

voo efêmero trapézio sido pênis férreo de sino
chama à adoração sendo Cão aluado se veste
largura de deserto sido imã desfia coreógrafa

régua celeste oferenda sendo partilha incinera
teia solidão pólen suspenso sido Vazado coração
bordando aranha sendo andaime cataventos

Imensa sombra separa sido luz cega voa
Ventre peixe voa sendo destino espada
afiada decifra sido Barco triangular singra

[…]

[sem título]

Ao redor
A nudez
Do Olho cego
O Peso do fogo

Pela miudez
Do Grão de cinzas
O sagrado
Sangra

A tristez
Estranha dor
Do roedor
da ovelha
da vez

Embora curva
A Bala torta
Nuvem turva via ave
Resolva
Bater em outra porta

 

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XANTO | tremor e delicadeza na poética de Camillo César Alvarenga, Por Rubens da Cunha

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“oxalufã”, por Salamanda

Em “À procura da poesia”, Carlos Drummond escreve: “Chega mais perto e contempla as palavras. / Cada uma / tem mil faces secretas sob a face neutra / e te pergunta, sem interesse pela resposta, / pobre ou terrível, que lhe deres:trouxeste a chave?” A princípio, as palavras fazem essa pergunta para aqueles que se propõema escrever. Aqui, penso também que essa pergunta possa ser feita para quem se propõe a ler um poema. Assim, diante dos poemas de Camillo Cesar Alvarenga, pergunto: quais as chaves possíveis para abrir essas palavras? Mesmo sabendo do desinteresse delas pela minha resposta, arrisco duas chaves: tremor e delicadeza.
Não qualquer tremor: o pensamento tremor. Aquele que, segundo Édouard Glissant, surge em toda parte e formas sugeridas pelos povos. O pensamento que atravessa o “caos-mundo” e se desdobra em música, grito, beleza, ancestralidade, futuro, memória. Aquele pensamento que “nos preserva dos pensamentos de sistema e dos sistemas de pensamento.” O pensamento circular, de voo, de altura. O pensamento que atira pedra hoje para acertar o pássaro ontem. Um pensamento que também é água, fluxo e “nos reúne na absoluta diversidade, num turbilhão de encontros”.
Não qualquer delicadeza: a delicadeza como vidro. Proposta por Mario Perniola, é algo transparente que reúne as qualidades da dureza e da fragilidade. É impenetrável ao tato, mas está, por outro lado, sempre exposta ao perigo de quebrar: “nessa combinação de resistência e de precariedade está a essência da delicadeza, que possui em si mesma o desafio diante da brutalidade e da vulgaridade”. Não penso aqui a delicadeza como uma fraqueza, mas algo que, como vê Perniola, se expõe ao aniquilamento, com coragem, para retirar dessa provocação um reforço e uma intensificação.
Eis as chaves que trago para, brevemente, ler Camillo Cesar Alvarenga, autor de Scombros (Edufrb, 2012), Macumbe-se (Kza1, 2018) e do inédito Flor de Búzios.

1 – Scombros – a porta de saída

Scombros, primeiro livro, conta com o subtítulo: “Arquipélago de impressões do real. Breviário”. Esse arquipélago é composto por 63 poemas que se dividem em três capítulos intitulados “Das categorias e outras consequências”, “Das formas e dos fluídos” e “Pós-poeta”, além disso há outras duas partes denominadas “Apêndice” e “Anexo”. O que se percebe nesse livro inicial é um poeta praticandouma linguagem mais grandiloquente, marcada, por exemplo, por referências a poetas franceses. O poema “X” abre com uma epígrafe de Rimbaud: “A pena me livrará do esquecimento que se vem aos homens”, para no final do poema, Camillo dizer “Perdi-me de Baudelaire depois do bulevar,/ Invenção simbólica do humano ser.”
A linguagem nesse livro apresenta uma busca existencial do poeta através de versos grandes, algumas inversões sintáticas e um tom que remonta,por vezes, ao romantismo de Castro Alves, como no poema intitulado “A Senzala”, que na primeira estrofe diz:

“Ardem sobre a Babilônia
Os filhos de Tântalo deus e Caos”

A casa do Índio
A toca de Golias
trago o último,
quintessência de nós
para além dos pórticos
para o cosmo infindo,
onde dorme
em mansidão tranquila de manhã. (…).

Aqui temos uma dicção poética que opta por uma certa exacerbação sonora do poema. Assim, por exemplo, o poema que dá título ao livro e que é uma espécie de escombro da palavra escombro, se revela um texto que rememora um tom metafísico do poeta fazendo do presente uma lamentação, uma perda. Interessante notar as aproximações metafóricas e de linguagem com o clássico poema “Via Lactea” de Olavo Bilac:

………………..Quando quis o paraíso
…………………já o havia perdido…

………..Num céu de estrelas despido
Dorme o verso, no berço,
………..nos braços do Universo…
(…)

O que h’além das letras?

É preciso domar o dom, inventar estrelas,

Ter um punhado mísero de letras, a desmaiar, em minhas mãos

Desperta ó canção!

(…)

E das trevas de outrora
…………………………………Só resta,
Os scombros de agora.

Normalmente se pensa o primeiro livro como uma porta de entrada para os demais. Gostaria aqui de inverter essa imagem. Scombros não seria a porta de entrada para os demais livros de Camillo, mas sim a porta de saída, a porta da rua, de acesso às amplidões, aos longos espaços abertos da memória, da ancestralidade, daquilo que se Glissant chama de visão profética do passado. E é nesse mundo-fora, mundo-externo, mundo-acima, que Camillo chega com o imperativo Macumbe-se.

2 – Trema-se, macumbe-se, sempre em delicadeza.

Em 2018, Camillo lançou Macumbe-se. Uma série de quatro livretos, editados de forma independente pela editora Kza1, do Rio de Janeiro. Os livretos se denominam “ranca-toco”, “animítico”, “cama de flores” e aquele que dá título ao conjunto: “macumbe-se”. Os poemas apontam outra proposta poética de Camillo: mergulhar na ancestralidade e emergir com uma linguagem contemporânea, rápida, muitas vezes denunciadora das mazelas atuais. O que Macumbe-se tem de conciso, tem de vasto, tem de amplidão. Em Macumbe-se, o poeta muda de ponto de vista, tanto que em certa altura diz: “deixei-me / de ver-me / e passei a ver-te / verde pasmo / ouvir-te / em vez / de ser-me (…)”. Esse processo de abertura da linguagem poética de Camillo envolveum enfrentamento aos obscurantismos éticos, políticos, sociais que sempre estiveram na vida cotidiana da sociedade brasileira. O poeta agarra seu lugar, seu estar nesse mundo-fora e, também, apresenta suas chaves diante das palavras. É um trabalho árduo, mas sumamente delicado. Como diria Camillo em um de seus poemas-aforismo: “polvilho no escuro / o pólen-pensamento.”
Ao falar da delicadeza e da transparência, Mario Perniola faz uma reflexão a respeito do obscurantismo. Os obscurantistas reivindicam a confusão indiscriminada, pois acham que a transparência é uma perigosa utopia, capaz de propor uma comunicação universal entre os humanos. O obscurantismo cria um pântano, um lodaçal capaz de impedir o movimento, o dinamismo das relações. O verdadeiro inimigo do transparente não é o opaco, que seria o seu necessário e inseparável complemento, mas o obscuro, que impede a visão e bloqueia qualquer possibilidade de conhecimento e de ação. Por outro lado, o pensamento-tremor de Glissant também entra na luta ao não temer a Utopia, ao vê-la como nosso único ato, nossa única Arte.
Em Macumbe-se, a delicadeza-tremor de Camillo se manifesta nos versos curtos, ritmados, nessa luz lançada, ou polvilhada, sobre os dentros da ancestralidade, como um rito de resistência. No livreto “Cama de Flores”, por exemplo, encontramos

“Orêiêiêôoo”:
Orê iê iê ôoo
Flor de fogo
n’agua

ouro-brilho
na superfície
do rio
a caminho do mar.

Aquela que
na mata

com Oxóssi
caça,

vai e voa,

mergulha,
pula e nada

sol marinho,
sua chama aquática….

Ore iê iê ôoo

Podemos ver, também, essa força no poema inicial intitulado “”:

Descanso no descaso
acordo e acolho um rosto
com lágrimas nos olhos,
me encontro e sinto o gosto
da terra num broto – outro
gesto da diáspora: hora futura do
retorno. (…)

Resistir é retornar, não a uma origem ou a uma essência, mas para a emancipação, para o lugar da utopia. Esse lugar que barra o obscurantismo.Trazendo novamente a reflexão de Mario Perniola, o obscurantismo é o inimigo real da emancipação. Trata-se não apenas do obscurantismo como sinônimo do caos, mas da ordem, do “tudo está bem”, do “não é bem assim”, do “você está exagerando”, do “sempre foi assim”, do “é natural”. O obscurantismo que iguala barbárie e civilização, saber e ignorância, arte e preguiça. “Não há nada de verdadeiramente enigmático, de realmente problemático, de essencialmente conceitual no obscuro: apenas perturbação, desordem, tumulto, acervo informe, ódio pelo saber filosófico e histórico”, assevera Perniola. A turvação obscurantista torna tudo vulgar e trivial, banaliza sutilezas, elimina a diferença, homologa tudo num mesmo registro, caindo sempre em um dos campos: ou mostra tudo e se torna obsceno, ou oculta tudo e se torna opressão. No entanto, contra os avanços obscurantistas, existe a delicadeza, que mesmo sendo quebrável, tira justamente daí a sua força de enfrentamento. Camillo submergiu seus poemas na delicadeza, por isso macumbe-se é também um manifesto de pensamento-tremor:

Não,

não te
enganes:

o engodo
da hora
mais absurda
se revela
ante
o teu semblante

na mágica dos búzios,
na máquina dos músculos
da mente que medita
a hora que se ajusta
em orvalho,
na calmaria do tempo.

Nesse campo dos enfrentamentos entre delicadezas e obscurantismos, também podemos pensar numa frase bastante assertiva de Glissant: “o poeta ergue-se, ergue com ele o mundo”. Em Macumbe-se, Camillo César Alvarenga ergueu seu olhar sobre o contemporâneo amparado no lastro africano, sobretudo aquele vindo da linguagem, dos ritos, da memória do Candomblé, como no ritualístico e pop “Macumbe-se” em que se pode entrever o trânsito no tempo, o entendimento da própria poética e o retorno ao lugar da casa, o mundo físico, ou Aiyé, mas também ao Orum, o lugar infinito. Ambos coexistem em cada um de nós, por isso nossos corpos são feitos de tempo, lugar e memória. Eis uns trechos dos mundos trazidos e erguidos pelo poeta:

I.
………macumbe-se
uma vela
….pra ela,

uma vela
..pra ele
“selva branca”
……………Psirico & Jay-Z
……………………………Jay-Z + Beyoncé
……………………………= a crítica da soberba.
……………..macumbe-se
(…)

II.
…………….regresso ao futuro
………………………..(este
………………………..quase)
…………– território aquático –
…………mnemônicos achados
………………………(estes dispositivos
………………………móveis, dados)
……….: códigos do reinventar-se:
……………………..(que
……………………..são estas)
……….contraformas da violência,
……….da fragmentação política
……….do Estado à poética

do discurso ao monólogo
da mônada literária

……regresso do futuro e a
……poesia é esse processo

……e teu-amor me devolve à
……massa, de volta pra casa,

de volta ao Orun com você.
3 – O lugar e a opacidade de Flor de búzios

“O lugar é incontornável”, nos diz ainda Édouard Glissant. O lugar não é um território, mas algo que se divide, se concebe e se vivencia dentro de um pensamento de errância, que é um pensamento que rechaça as raízes únicas, para se tornar rizomático e que permite encontros não premeditados, mas pelos quais se migra dos absolutos do Ser às variações da relação. Depois de Macumbe-se, Camillo nos leva para Flor de Búzios, esse lugar-poema, esse lugar-errância. A poética continua a dos espaços abertos, das amplidões da ancestralidade, mas agora ainda mais concentrada, quase como um Ifá, um oráculo em que o tempo circula, pois dessa vez

………tem
umtempo
dentro
do
……….tempo
tem
……….um
……….tempo
dentro
…….do
………….tempo

É nesse lugar e nesse tempo errante que acontece Flor de Búzios. Aqui, é como se tremor e delicadeza amalgamassem o “caos-mundo”, algo que Glissant considera como “o choque, o entrelaçamento, as repulsões, as atrações, as conivências, as oposições, os conflitos entre as culturas dos povos na totalidade-mundo contemporânea”, ou, para Camillo:

(…)
Assim, como se diz volto logo, e leva-se
duzentos anos deambulando pelas ruas
do mundo, encantado, entre épocas e
magias de esquinas e encruzilhas, seja
em Lisboa, zona-leste ou no Recôncavo.
(…)

Flor de Búzios é uma poética de contínua busca, vigília, caça, Odé livre. Pensando um pouco mais sobre a delicadeza e transparência, é preciso trazer à tona a questão da opacidade, que é um tema comum entre Glissant e Perniola. Como já afirmado anteriormente, o italiano diz que o verdadeiro inimigo do transparente não é o opaco, mas o obscuro. O opaco seria o necessário e inseparável complemento da transparência. Assim, a delicadeza como vidro carrega alguma opacidade, que Perniola estabelece como a cultura, o saber, as artes, o processo de civilização. O obscurantismo atua quando torna tudo visível, tudo aberto, não há dobras, não há subterfúgio, não há mistério, mas também não há passagem, trânsito ou travessia. É uma turvação obscurantista. É o “efeito vitrina, que representa uma apropriação exclusiva da luz, pois estabelece uma separação total entre aquilo que resplandece para além do vidro e as trevas para as quais é banido o observador”, diz Mario Perniola. Assim, a exposição direta, sem perigo, sem desafio algum, faz com que a delicadeza se ausente, porque a delicadeza não tem a necessidade de se expor, como se fosse um corpo artificial, um corpo de plástico nas vitrines. A delicadeza já está exposta só pelo fato de existir e de “responder responsavelmente pelos próprios atos”
Por outro lado, Glissant proclama o direito à opacidade, que é se converter a outro humanismo, ou seja, não se deixar levar apenas pela própria transparência, mas pensar que o “inextricável, plantado no escuro, também guia as claridades não imperativas”. É uma defesa da opacidade que existe entre “o outro e eu”, algo que não é um apartheid, um muro, mas algo que amplia a nossa liberdade e, também, confirma que pode haver sempre uma “relação de puro compartilhamento, no qual o intercâmbio e o descobrimento e o respeito são infinitos”. A opacidade possui a sua própria transparência, que não é imposta, mas que é algo que precisamos saber sentir.É um acolhimento e um recolhimento do mistério da evidência das poéticas, dos lugares do mundo, mas nunca querendo ofuscá-los e, também, jamais intentando reduzir tudo a uma unidade, a um sistema, a uma raiz única. A opacidade não favorece essências, mas amplia e permite as grandes dimensões do “ser-como-sendo”. É uma chama, um movimento contínuo e dançante que Glissant resume como: “poesia”.
A poética de Camillo é marcada por essas opacidades. Em Flor de Búzios podemos encontrá-las em poemas-guia, ou poemas-ser-como-sendo, iguais a “Obatalá”:

Sigo a trilha transparente
que os ventos desenham
na superfície das águas,
sigo as curvas das ondas
que tragam as correntes,
sigo pela porta plantada
na paisagem paralela do
espelho, líquido vidro (des)
feito em silêncio e sal que,
marinho, d’asas se derrama,
e arrebentam as pedras, as
raízes. E de cá onde a calma
canta e acolhe em teu colo
a criança que a mãe amamenta,
assenta-se aos pés do Sol: pilhas
de pétalas púrpuras numa cuia
que carrega o cal das horas e os
segredos das rotas, filhas de Tempo,
e seus mistérios absurdos. De onde
Olorun entre mundos, planetas e signos,
cânticos míticos e momentos de sangue,
luzes e unguento, faz do verso lapso do
pensamento/corpo/vento que estremece
ao sopro que sussurra prece, acesa no Otá,
mais que morada, entrada ao Orún – onde o
tempo está a guiar as criações de Obatalá, sigo.

Assim, a delicadeza, com seus acervos de transparência e opacidade, o tremor com suas “sinuações” que evitam a rigidez das situações aqui se tornaram chaves para uma das possíveis aberturas à poética de Camillo.Por fim, aviso que a resposta das palavras do poeta não foi pobre nem terrível, mas sutil e docemente esperançosa: “Se der tudo certo, completaremos o percurso, atravessaremos o muro.”

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imagem do poeta, por Raul Ferraz

***

ANDRADE, C. D. A rosa do povo. São Paulo: Record, 1995
ALVARENGA, C. C. Scombros – Arquipélago de impressões do real. Breviário. Cruz das almas: EDUFRB, 2012
____________. Macumbe-se. Rio de Janeiro: Kza1, 2018
____________. Flor de Búzios. 2019 (no prelo)
GLISSANT, E. O pensamento do tremor – La cohée du lamentin. Trad. Enilce do Carmo Albergaria Rocha e Lucy Magalhães.Juiz de Fora: Editora UFJF, 2014
____________. Introdução a uma poética da diversidade. Juiz de Fora: Editora UFJF, 2013
____________. Filosofía de La relación – poesía en extensión. Buenos Aires: Miluno, 2019.
PERNIOLA, M. Desgostos – novas tendências estéticas. Florianópolis: EDUFSC, 2010.

***

Rubens da Cunha, poeta, cronista e docente da Universidade do Recôncavo da Bahia – UFRB. Doutor em Literatura na UFSC, com tese sobre a obra teatral de Hilda Hilst. Atua também como crítico teatral. Com Marco Vasques, é editor do Jornal Brasileiro de Teatro Caixa de Ponto (http://caixadeponto.wix.com/site). Possui sete livros publicados: Campo Avesso, (2001); Casa de Paragens (2004); Aço e Nada (2007); Vertebrais (2008), Crônica de gatos (2010), Curral (2015), Breves exercícios para fugitivos (2015) e tem ainda no prelo: A guardadora da ponte e outras biografias inventadas (Andarilha Edições, da poeta baiana Deisiane Barbosa).

Mariana Correia Santos

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Mariana Correia Santos (1996) é poeta, escritora, tradutora e assistente editorial. Nasceu em Guarujá, na Baixada Santista. Vive em São Paulo e cursa graduação em Letras na Universidade de São Paulo (USP), na qual se concentra em estudos de poesia, tradução e sociedade. Participou do Curso Livre de Preparação do Escritor (CLIPE) da Casa das Rosas. Publicou poemas na Revista Lavoura e no projeto Sutura, e traduções na revista catalã sèrieAlfa e nas Notícias de outras ilhas, da Revista Cult. É autora da plaquete independente de poesia espaços íntimos (2019), e já apareceu aqui na escamandro com traduções de Angelina Weld Grimké. marianacorreiasantos.com.

*

os monumentos 

                    para Stela do Patrocínio

minha mãe nos levou para vê-los.
boiando, os bebezinhos.
em fatias, macias vitórias-régias,
peles verdes e amarelas.
em pleno nado no escuro.
nas estantes, como os nossos livros.
azeitonas e figos,
os bebês afogados em potinhos.

vida e morte em contemplação
na sala branca do nono andar.
a morte, acrobata presa no salto.
a vida, alergia dos olhos
vermelhos os olhos da neuza
no salão puxando ferro nas cabeças.
cheira igual a neuza, mãe. igual a neuza.
macas geladas na altura dos meus ombros.
os corpos finalmente dormindo.
nus como nunca nem meu pai,
os homens azul-escuros.

para estudo.
são mendigos, conta minha mãe,
o jaleco amoroso da autoridade.
e esse cheiro? é o líquido
que dá eternidade aos perdidos.
o homem cor de noite,
seu rosto ausente e seu pinto escuro.
instrumento. histórico.
moço, você sabia que pode ficar eterno
depois de morto?

§

monólogo de encerramento

                para R.

 “onde o lugar das palavras que esquecemos?”
josé luís peixoto

te ver entre as minhas coisas mexeu comigo.
não previ o efeito dos olhos mais lentos
e de repente esquivos.
te ver entre a matéria e as formas
que todos os dias consolidam
minha presença em resposta a mim:
as páginas do caderno que me consomem
o pó de café que me acaba
o meu assalto de livros sobre a mesa de centro
que você tocou e me observou
toda uma, que me interroga.
tudo mexeu comigo: fui calando.

.

e não sei dizer por que me mexeu tanto.
você, talvez um novo ser em órbita
que me provasse meu existir
pela resposta,
seus olhos à espera dos meus:
homem. aqui. quente, vivo.
bonito. e bonito.

é coisa de quem não se sente sólida.
inteira. permanente.
de quem só sabe sentir aos dedos
e se convence
pelas impressões que deixam
nas páginas.

.

fui calando
me movendo na surdina de mim.
lava, areia movediça.

não havia onde mais me esconder.
o seu olhar, agora, de pontos finais.
não mais das promessas, mas da testa sólida do real

– e você me conhece tão pouco,
não sabe como lido mal
com a qualidade maciça de ser, ainda que seja desejo.

os ouvidos do bar e da praça e das ruas do centro
longe por algumas paredes.
como a promessa gostosa dita há mês.
mas não promessa: o real. e tão corajoso, você.

não havia onde mais me esconder.
sem cerceios onde me escorar,
brincando de afastar e aproximar.
as luzes sobre mim agora
as do meu abajur.

§

teoria

 o limite do mundo é este –
a linha horizontal
da lateral de uma mesa de cozinha
aqui se resguarda o humano
retira-se o herói    o tirano
o espetáculo
naturezas-mortas ignoram
o impulso pela grandeza
aqui há uma mesa
um gesto curvo      um ritual
todos os homens comem
todos os homens se rendem
à lateral de uma mesa de cozinha
as cores são o ponto de toque
as cores te absorvem como
absorvem uma criança
nenhum laranja é tão cítrico
nenhum preto tão ocluso
quanto numa pintura de vasos
ignorada numa terça à tarde
pelas salas do masp
zurbarán envelhece
distante na parede privada
e eu, uma criança com tédio
zurbarán não sabe
que ensinou a armadilha das cores
a tantas outras telas

§

a intensidade das crianças deixadas a sós


aí, ele quis brincar de encarar
eu já queria que tivesse sido
uma artimanha
para entranhar nossos olhos
descarregar algo subentendido,
restrito às pupilas
e às íris castanhas
mútuas 

tão tímido e subliminar
sublinhando o nervoso
com um riso
de quem brinca de ciranda
dando a meia volta
naquele encanto escuro
enquanto a claridade do dia
me doía
os olhos fotofóbicos 

saí sem entender
quando a brincadeira começou
lembro do sol das quatro
o pó daquele bairro largado
o medo de permanecer ali 

são incríveis as histórias de amor que criamos
em lugares sólidos demais

§

isto que já parece noite

hoje o céu é preto e velho.
morrerá logo.
e eu sei que fico aqui
até mais tarde
ao lado da cova aberta do dia
prolongando algo que valha
do corpo morto.
admirando a luz,
o calor, o tempo
que perdi.
incapaz de ceder
à hora certa de ir dormir.
e ao finalmente dormir,
reenceno a perda.
para sempre perdendo.
numa falta tão doce
muito mais doce
que encerrar um adeus.

*

“Funda, palavra — desde o Ayvú Rapyta”, de Álvaro Faleiros

Casa de Reza na Aldeia Guarani do Rio Silveira — Bertioga/SP. Foto de Adriana Calabi.

Kaká Werá Jecupe nos lembra que, para os tupi-guarani, a palavra tem espírito, enquanto na dita sociedade civilizada muitas pessoas, sobretudos os poderosos, vivem de palavras sem espírito. Ele ainda observa que, para os tupi-guarani, ser e linguagem são coisa una; e que a própria palavra tupi significa “som em pé”. Os guarani enxergam o ser como som; tom de uma música cósmica regida por um grande espírito criador. Este é também chamado Tupã, que significa “o som que se expande”. Jecupe ainda compartilha o entendimento de que um dos nomes de alma em guarani é neeng, que também significa fala, sendo o pajé aquele que emite neeng-porã, ou seja, belas palavras. Estas, por sua vez, não são retóricas, pois o pajé é aquele que fala com o coração; fala e alma sendo aí coisa una.

Jecupe é autor, entre outros títulos, de Tupã Tenondé (2001), no qual retoma parte do Ayvú Rapyta: textos míticos de los mbya-guarani, publicado por León Cadogan em 1959. O estudo de Cadogan também está na base das traduções da cosmogonia guarani de Pierre Clastres (1990) e de Josely Vianna Baptista  (2011), que juntos inspiram também este nosso poema. Nele refaço a parte do Ayvú Rapyta em que se funda a Palavra.

Álvaro Faleiros

* * *

Funda, Palavra
[desde o Ayvú Rapyta]

a Adalberto Müller e Mário Ramos Francisco
meus amigos brancos de sangue guarani

I
o saber…..divino….das coisas
desdobra….o saber….as coisas
faz-se….no quem….da chama
engendra….no quem….da bruma

II
funda….Palavra….por si
mesmo….desdobra….dobrando
ainda….nada….da terra
apenas…..a noite….enquanto

III
conhece….a primeira….Palavra
do saber….desdobra….as coisas
bem sabe….assim….por si mesmo
a fonte….una….o destino

IV
conhecido….o Um….reúne
divino….saber….das coisas
brota….única….a fonte
água….do canto….onde

V
abre Uma….a fonte….do canto
sagrado….o olhar….procura
rediz….com força….surgindo
o divino….companheiro….futuro

VI
Grande….Coração….desdobra
ergue-se….ao mesmo….tempo
o espelho….do saber….das coisas
reina….na noite…..ainda

VII
o divino….saber….das coisas
desdobra….os pais….e os filhos
por vir….a Palavra….habita-os
assim….se sabem….divinos

VIII
em face….a seu….Coração
para que….tendo….lugar
Ela….se saiba….divina
a mãe….engendra….sempre

IX
pais….da Palavra….habitante
pais….da Palavra….futura
trazem….a fonte….que une
o saber….que desdobra….as coisas

X
seu canto….sagrado….abraça
funda….a Palavra….por vir
une….à fonte….o saber
as coisas….desdobra….assim

XI
da ponta….de seu….bastão
palmeira….azul….faz surgir
com suas…..cinco….palmeiras
retém….o leito….da terra

XII
uma….no centro….da terra
as outras….quatro….nas pontas
do tronco….talham-se….arcos
as folhas….recobrem….casas

XIII
transborda….o vento….sul
encontra….entãoseu lugar
em sete….bastões….o céu
repousa….em sete….colunas

XIV
remexe….o leito….da terra
dança….a primeira….serpente
jiboia….subsiste….em imagem
no limiar….do….firmamento

XV
ouve….um primeiro….lamento
canta….a cigarra….vermelha
yrypa….subsiste….em imagem
no limiar….dofirmamento

XVI
move….um primeiro….marulho
girino….senhor….das águas
yamai….subsiste….em imagem
no limiar….do….firmamento

XVII
abre….clareira….na selva
tuku….gafanhoto….verde
planta….seu dardo….grito agudo
e brotam….espaços….de relva

XVIII
vem….por entre….a clareira
uma primeira….perdiz….vermelha
inhambu….subsiste….em imagem
no limiar….do….firmamento

XIX
vinga….de dentro….a noite
coruja….senhora….das trevas
Urukure’a….subsiste….em imagem
no limiar….do….firmamento

XX
houve….depois….o dia
Sol….de nós….o pai
aurora….reveste….a imagem
no limiar….do…..firmamento

XXI
agora….deita….os olhos
tu….revestido….de terra
curam….boaspalavras
sonhaem sopro….e reza

Bruna Martins

bruna martins

Bruna Martins (2000- ) nasceu em Itamarati de Minas, na Zona da Mata Mineira, e vive em São Paulo. É poeta, escritora, editora e graduanda em Letras Português e Francês pela Universidade de São Paulo. Colabora no Boletim 3×22 (1822 – 1922 – 2022), da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP. Sua produção busca diálogos com outras linguagens, além de refletir sobre o dialeto e a vivência mineiros, sob um corpo feminino, em confronto com a experiência nas grandes cidades. Contato: bruna.xm@usp.br

*

Do alto da Urca, conjuro

Jamais verei um navio sem lembrar.
Da Inocência, foi.

Leva bauxita?
Poeira de enrubescer.
Leva seios?
Das meninas tão gerais.
Leva discursos? Fascistas tropicais?

Pesam trezentos anos
sobre o meu corpo marítimo
ou seriam toneladas
de lama?

Morena,
mas bonita
mas diferente de vocês.

Passo o filtro na face
fico branca à la française
e recordo:

que nunca fui ao Leblon
que essa areia é suja
e a guerra é outra

adentro.

§

Bão mesmo é leite gordo

Sempre aberto o portão de casa,
anfitriã senhora à espera de alguém,
qualquer ôpa palma pó entrá!

Do balanço ela impera seu reino imóvel,
cátedra dos artríticos e artrósicos.
Ouvir: sua arma de guerra.

Somente o leiteiro adentra,
moto-boi sagaz.
Dois litros de leite sobre a mesa,
deixa-os, ensacados, estáticos.

A filha mais velha os ferve e transborda
uma espuma leitosa entre as chamas.
Éros agindo…

Chega a tarde,
o amarelo ocre no chão          outro derrame.
Ajunta o castigo filial,
chora a criança desamparada,
o caos    o sermão    depois         silêncio.

Carencia o falar.

Logo mais, retorna a filha o leite a caneca
o leiteiro em sua nova bezerra que
toma
devagar
sua porção de vida.

§

Meninas tão gerais

Quando tinha quinze anos
Um homem torto que só
Passara à minha esquerda
Me dera um panfleto de Deus
Nuvens se abriram sol ardeu

Depois doeu tive febre tosse cólica
Corre-corre à metrópole
Tomografei-me toda
Pelada na maca estéril

Doutô me deu a foto da pedrinha
Disse um triste “tadinha, mas não dói.
Vamos tirar sua pepita canhota”.

Sorte a minha que ia ficar rica
Vendendo gramas de mim
No mundo do garimpo.

§

Três vezes santo

Do mundo da seda à mata
atlântica, o Povo-em-Pé chora
um salgueiro tropical distante.
Um charco de negro sangue,
o mangue, refaz a casa de outrora.

Ave, peregrino! Jerusalém é disputada
com a Baía de Guanabara sagrada.
Nossa Senhora da Ponte!
De Judeia metralhados os montes.

As chagas doutro rio curastes,
às margens pregastes,
mas estas águas de maio
são rubras de Juno,
coturnos sujos agindo soturnos.

Que milagre salvará o patrono
dessa terra de alvo engano?
Vê a hélice demente girar, escorraçado
por novas guilhotinas do Estado.

Espera a cesta de vime dos trópicos
teus infantis e condenados ossos.
Abençoa-lhes Santa Ágatha que
imortal serás de volta à mata.

Grande salgueiro barlavento,
abrace os filhos do tormento!
Nossa Senhora da Ajuda,
ofertai salix à dor muda!

Todo complexo é reprimido,
logo, faço amplo pedido:
Que louvem em 18 de maio
João Pedro de São Gonçalo.

*