poesia, tradução

15 PEDAÇOS DE SOSSÉLLA [6/15], por Fernanda Magalhães Ferrari e Gregório Camilo

Sérgio Rubens Sossélla foi um poeta, crítico e magistrado nascido em Curitiba, em 1942. Certamente foi um dos poetas mais produtivos do Brasil, tendo mais de 300 publicações em vida, a maioria editada pelo próprio autor. Se aposentou em 1986 e logo em seguida construiu a Vila Rosa Maria, biblioteca com mais de 25 mil livros, onde se dedicou à poesia e literatura integralmente até o fim de sua vida, em 2003.

No dia 18 de novembro de 2018 completou 15 anos sem Sossélla. Fizemos o primeiro vídeo (Sim, ele passou por aqui) em homenagem a esse dia, e só depois resolvemos fazer uma série de 15 videopoemas, tentando dar uma visão geral da obra poética dele, com um olhar um pouco biográfico – que é praticamente indissociável de sua obra –, chamada 15 pedaços de Sossélla.

A produção desses vídeos tem sido baseada nas imagens que fizemos na Vila Rosa Maria (a maioria feita na pré-filmagem das cenas pro longa que estamos produzindo: Sossélla esteve aqui) e algumas outras que não têm ligação com o filme e vemos que poema flui melhor. A partir do sexto vídeo, que até agora é o último, as filmagens vão ser feitas já pensando no videopoema completo.

Por curiosidade: o ator de Meus mortos e Exercício nº 110, interpretando o próprio Sossélla, é seu filho, o Sérgio Augusto Sossélla.

* * *

#1 Sim, ele passou por aqui (1985)

Poema longo, pro Sossélla. É um dos que mais demonstram a sua relação íntima com a morte.

Sobre a reclusão, a solidão e a rotina, afastado e amargurado, consciente do que tava acontecendo e das consequências.

então o cowboy abruptamente envelheceu
(desde menino trazia os olhos de um cão chutado pelo destino)
nem mais com as crianças da rua ele brincava (como costumava)
e nas raras vezes em que surgiu (arqueado e tropeçando)
a mão vazia desenhava saques lentos para um alvo que não existia
monologando só passagens da sua infância
(¿saberia que por ser quem era sairia
miseravelmente derrotado pelas vitórias que fizera?)

assim rapidamente ele morreu
levando na garganta mugidos estrangulados
vermelhos e largos vergões na alma trincada
sinais de tiros e marcas de punhais no frágil corpo atormentado

morreu ele rapidamente assim
pedindo ao deus misericordioso jamais nascesse de novo
tão sozinho e abandonado que até a sua sombra não lhe acompanhava

sim
ele passou por aqui
(aldeia dos canibais)
alongando o quanto pode a amargura da permanência
além dos próprios limites suportáveis da existência
e foi embora para nunca mais

mas todas as noites
o seu fantasma alucinado
teima em repassar aí em frente
(naquele veloz corcel invisível)
deixando uma grossa nuvem de poeira e de remorso para nós

§

#2 Meus mortos (em Tatuagens de Nathannaël, 1981)

Ele vendo as coisas se esvanecendo sem poder (ou não querer) fazer nada. Os amigos morrendo, a família também, se isolando cada vez mais, o desinteresse crescente.

indefesos
não suporto olhar meus mortos

suas pupilas dilatadas anoitecendo visitas
para aquela horizontalidade de mãos postas

não suporto olhar meus mortos
indefesos

§

#3 O dia de amanhã (em Ao vencedor, as batalhas, 1987)

minha mãe me ensinou
o dia de amanhã
ninguém sabe
o dia de amanhã

§

#4 Exercício nº 110 (em Ao vencedor, as batalhas, 1987)

O Sossélla tinha uma personalidade fortíssima, muitas vezes incontestável. Quisemos retratar sua trajetória na magistratura e o que ele enfrentou em sua carreira, muitas vezes importunado. Juiz nas décadas de 70, 80 e 90 que usava rabo-de-cavalo e brinco. No fim, foi um alívio sair desse mundo.

inclinou-se para o lago
e perguntou

existe alguém
mais não-eu do que eu?

a voz
grudada no penhasco
(rouca e louca)
respondeu

eu
eu
eu

§

#5 Ninguém volta pra casa (1989)

Outro poema longo. A simbologia da casa, na psicanálise: o próprio eu.

Uma casa escura, antiga, vazia, úmida, talvez não muito agradável de estar. A vida correndo lá fora.

quando adoideço e me rôo
quando me congelo e derreto
é a minha casa que vejo se anoiteço

de casa a gente sai mas não volta
porque vai topar com a mãe morta de tanto chorar
de casa a gente sai mas não volta
porque ¿quem aguenta ver o pai velhinho a sangrar?
de casa a gente sai mas não volta
porque a memória de você-menino irá lhe estranhar
de casa a gente sai mas não volta
porque nem a sua sombra poderá com você se encontrar
de casa a gente sai mas não volta
porque a bruxa não desgruda e as casas mudam de lugar
de casa a gente sai mas não volta
porque gastamos nossas asas e findamos por enferrujar
de casa a gente sai mas não volta

sonhei que eu voltava pra casa
de costas
mais morto do que vivo
ainda mais torto e sem juízo
de costas
mas voltava pra minha casa

a mãe morta (eu sei)
cuidará de mim perguntando
se parece comigo aquele que veio
pra embalar minha ausência no colo gasto
pra beijar saudades com seus lábios mortos

ninguém volta (o mesmo) pra casa
mas agora nem comigo mais eu me esbarro

vou desenterrar
a casa meu pai e a mãe
e assim nós três ficaremos
juntos pra sempre outra vez

§

#6 Melhor assim

O ciclo que é tudo (e, de novo, e obviamente, o afastamento dele das coisas).

aqui em longs peak ou no meio do mato
curto integralmente este meu anonimato

* * *

Fernanda Magalhães Ferrari é produtora e diretora na Catatau Filmes, formada em Produção Audiovisual pelo Instituto Federal do Paraná. É fotógrafa e se dedica ao cinema.

Gregório Camilo é roteirista, diretor, montador e poeta. Diretor e produtor da Catatau Filmes. Atualmente mora em Curitiba.

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poesia, tradução

Ernesto Cardenal, por Mariana Ruggieri

Cardenal on boat (Foto by Sandra Eleta, 1974)

Fotografia: Sandra Eleta, 1974

Ernesto Cardenal, poeta nicaraguense nascido em 1925, foi padre, participou da luta sandinista – para depois criticá-la face ao horror – e é devoto da teologia da libertação. Segue vivendo na sua ilha comunitária em Solentiname, reinventando cristianismos e marxismos e também a língua. Seu poema “Viaje a Nueva York” é um poema-documentário ou um poema-reportagem de fôlego e descreve uma visita sua a Nova Iorque no início dos anos 70.

O professor Amalfitano, personagem de Roberto Bolaño, diz em Los sinsabores del verdadero policía que “Viaje a Nueva York” é um dos dois maiores poemas modernos da América Latina, ao lado de “El soliloquio del individuo” de Nicanor Parra. Independentemente do que se possa pensar a respeito de tais formas de hierarquizar e categorizar a poesia, ler “Viaje a Nueva York” é dar um rolê pela cidade de mãos dadas com um padre austero nos hábitos mas gentil nos gestos, encontrar ex-monges e gente cumprindo pena por opor-se à Guerra do Vietnã, editores e escritores, além lésbicas no parque e cubanos nas lojas e amigos da Nicarágua. É também quase acreditar na possibilidade da revolução e da poesia – e na sua necessária relação.

Mariana Ruggieri

*

VIAGEM A NOVA YORK

Eu parecia estar ainda essa tarde na minha ilha de Solentiname
e não colado à uma janela sobre a baía de Nova Iorque,
Barcos lá embaixo apenas mexendo-se, o avião também lento
O aeroporto Kennedy congestionado a essa hora
era preciso por um tempo dar voltas sobre Nova Iorque
Que milagre me colocou sobre Manhattan nesse entardecer
girando ao redor de arranha-céus pintados de rubro?
No assento ao lado (vazio) peguei um New Yorker
“Washington essa semana despertou de um torpor — Watergate.”
O senador Fullbright teme que desemboquem em um sistema totalitário.
Ladies and Gentlemen: o aeroporto Kennedy segue congestionado
recostando-me contra a janela a água da baía de Nova Iorque
o avião como se ancorado a uma nuvem, não se move
Anúncio de uma ilha — piscina tennis cabanas water sports
The Island Company Ltd., 375 Park Avenue
Caricatura de homem obeso com jornal dizendo à sua esposa
“Lutei tanto e o Times me chama apenas de suposto chefe da Máfia”
Ladies and Gentlemen… agora fomos acionados pelo radar e
vamos diretamente ao aeroporto Kennedy em pouso automático
fábricas, trens, casinhas suburbanas idênticas, carros de brinquedo
e já na pista. Com mais cem aviões, como tubarões.
Gerard me esperava, de barba e jovem, me trouxe
milagrosamente a Nova Iorque, prefere que eu o chame de Tony
vamos em seu velho carro até New York, rios de carros
me chamou para a arrecadação pelos desabrigados de Manágua
sem ter quem pagasse a passagem, diz,
Já conseguiu, Deus tudo conserta. Trabalha
com os órfãos, dependentes químicos, porto-riquenhos pobres
andava por uma quebrada e lhe ocorreu uma arrecadação por Manágua
não havia local, fracassou em Columbia, olhando o céu
viu a catedral episcopal de St. John The Divine, entrou
e o bispo lhe disse “Por que não?”
Presidiários de Nova Iorque deram quadros pintados por eles
índios das grandes planícies também doaram tecidos e cerâmicas
mais rios de carros trens caminhões, as pistas se cruzam
é católico me diz e também zen
antes trabalhou na catedral de São Patrício, não pôde seguir lá
o cardeal atual pior que Spellman
pela rodovia surgem mensagens postos de gasolina drive-ins motéis
um cemitério de automóveis melancólico no crepúsculo
uns hippies estão acampados no mosteiro de Gethsemani, diz
meninos e meninas, o abade permitiu
os mosteiros nos Estados Unidos estão ficando vazios
os jovens preferem pequenas comunas. Conto a ele
que Merton me dizia que essas ordens desapareceriam
e ficariam apenas as pequenas comunas
o céu smog e anúncios
blocos retangulares entre a fumaça
e os contemplativos têm quase todos diz Tony uma mentalidade
burguesa     middle-class
Indiferentes à questão da guerra. E à Revolução.
LIQUORS —- DRUG-STORE
“Te parece muito mudada Nova Iorque?”
Eu estive aqui há 23 anos. Digo: “É a mesma”.
As filas de semáforos vermelhos e verdes
e as luzes dos taxis e dos ônibus.
“Madison Avenue” diz Tony. E rindo:
“É curioso: Ernesto Cardenal em Madison Avenue”. E olho
o cânion fundo, o profundo desfiladeiro de edifícios
onde se escondem detrás de seus vidros the hidden persuaders
     vendem automóveis de Felicidade, Consolo em lata (a 30 cts)
*** The Coca Cola Company ***
atravessamos o cânion de vidros e Bilhões de Dólares.
“Por séculos não comeram carne; agora que muitos somos vegetarianos
eles comem carne”, diz. Desde uma travessa o Empire State
(sua base apenas). Nas entranhas do Imperialismo.
“Chegam monges famosos para dar conferências sobre ascetismo e
se hospedam em hotéis luxuosos” E já no West Side
CafeteríaDelicatessenDry Cleaning
Chegamos ao apartamento de Napoleón, 50 e 10a Av.
Na calçada, teen-agers, blue-jeans e olhos azuis
ao redor de bicicletas, ou sentados nas grades.
A campainha não funciona mas Napoleón e Jacquie nos esperavam.
Napoleón Chow de ascendência chinesa e nicaraguense
E Jacquie é antropóloga especializada em Turquia.
Monástico o pequeno apartamento, mas com tapeçarias persas.
Ligo para Laughlin na sua casa de Connecticut.
Surpreso: “Que raios estou eu fazendo aqui em Nova York?”
Ri lá de Connecticut. Virá no sábado para que nos encontremos,
na sua casa no Village.
Napoleón e Jacquie fazem yoga. Muitos dias jejuam
completamente, em outros cozinham muito bem, comida
chinesa, turca, nicaraguense.
(“o alimento como alegria; sacramento”)
Eles têm uma gata Angorá que caga como gente na privada.

Terça à noite, a catedral de St. John The Divine
Rua 110, abriu suas portas de bronze para o evento
leio meu ORÁCULO SOBRE MANÁGUA (o do Terremoto)
entre quadros de presidiários, cerâmicas dos índios das grandes planícies.
Um rabino proclama, barbas compridas: “A culpabilidade nossa
nessas tragédias…” e o Decano da Catedral: “Nosso Sistema
Senhor, que agrava essas catástrofes…” (E penso: Os Somoza
um terremoto de 40 anos). Brother David
beneditino: “E é em Nova Iorque Senhor quem diria
onde nos congregamos de diversos países e religiões
para rezar por Manágua, e meditar
sobre quanto daqui deveria ser destruído”
Dorothy Day doente, não pôde vir.
María José, y Clemencia, nicaraguenses interessantes (eu conheci o pai delas)
me perguntam como ficaram aquelas ruas (o conheci uma vez
naquela noite de abril
em que íamos tomar de assalto a Casa Presidencial —
Chema, foi torturado e assassinado)
Só consigo dizer: “Eu conheci o pai de vocês”
No coro, slides (as cores radiantes) dos Escombros.
Corita (ex-sister Corita) deu 6 quadros para Manágua.
Daniel Berrigan me espera amanhã

Central Park (up town): E me digo: por ali estão os cisnes.
Me lembro de minha Liana, e dos cisnes.
Casou-se. Os cisnes ainda estarão ali.
Louis, uma vez, querendo pegar um cisne, um dia de fome.
Voltei a ver outra vez as pessoas na rua falando sozinhas.
“The Lonely Crowd”.
Com Napoleón e Jacquie em Times Square, nada a ver
e pela rua 48 entre os cinemas pornôs titilosos
Uma loja vazia, 2 policiais tomando notas
A vitrine estilhaçada, e ninguém olha (na Broadway)

Com Daniel Berrigan no Thomas Merton Center
Daniel (Dan) de blue-jeans e sandálias como eu, seu cabelo
“o de um malandro da rua depois de uma briga”
e o sorriso com que saiu nas fotos quando foi capturado
pelo FBI (jubiloso entre os policiais sombrios do FBI)
havia lido meus Salmos na prisão.
E também está Jim Forest (pacifista) com um grande bigode,
mais jovem do que eu pensava. Me escreveu uma vez
Dizia que Merton lhe deu um Cristo que eu fiz no mosteiro trapista.
Vem chegando de Washington, de uma marcha de protesto
que foi do edifício do Watergate até o Departamento de Justiça.
E Berrigan sentado em cima de uma escrivaninha, o rosto delgado
sobre o joelho e pelo ralo na cara. Está apenas se recuperando
da prisão, me dizem. E uma moça:
“As torturas que se supõe não haver nos Estados Unidos”
Esse é um grupo de contemplativos e resistentes, diz Berrigan.
Reunidos uma noite em um convento do Harlem
ocorreu a eles fundar o Merton Center.
Estudam o misticismo de diversas religiões
também dos índios das grandes planícies.
“Merton sofreu horrores no mosteiro” diz Dan
e todos sabemos. E Jim se lembra de
quando lhe proibiram de escrever contra a guerra nuclear
porque não era tema monástico.
Dan: “Me disse que não voltaria a ser monge outra vez
mas que já o sendo, continuaria sendo-o”.
“Ia chegar em Solentiname depois da Ásia, não? Diz Jim.
E Dan: “E está segurou que não chegou?”
E também Dan:
“É uma droga terrível a que aqui temos: a ‘Contemplação’
Meditam. Sem pensar nunca na guerra. Sem pensar
nunca na guerra. Não se pode estar com Deus e ser neutro.
A verdadeira contemplação é resistência. E a poesia,
olhar as nuvens é resistência, descobri na prisão”.
Digo a ele para ir a Cuba, e ele: ainda está em liberdade condicional.
Também digo a ele “Na América Latina
estamos integrando o cristianismo com o marxismo”.
E ele: “Já sei. Aqui não.
Aqui é o cristianismo com o budismo.
Jim, já somos todos budistas, não?
Não tem budismo na América Latina?”
“Não”.
Amanhã será comemorado no Merton Center
o casamento de seu irmão Philip o outro sacerdote,
e a ex-monja Elizabeth McAlister — e nos convida.
Philip jogou sangue em Maryland sobre os arquivos de recrutamento
depois Philip e Daniel queimaram os arquivos em Catonsville
com napalm de fabricação caseira (sabão em pó com gasolina)
e Jim queimou também com napalm os arquivos em Milwaukee
(e estão recém-saídos da prisão)
Diz-se que Merton certa vez também pensou ação semelhante
Tem uma moça em greve de fome pelo bombardeio do Camboja.
Na parede um poema de Berrigan sobre o Vietnam
em grandes folhas juntadas como um mural.
Quando estou de saída Dan me dá um pão enorme
um enorme pão redondo, assado ali, de trigo puro.

Com Napoleón e Jacquie ao cinema para um filme cubano
MEMÓRIAS DO SUBDESENVOLVIMENTO
não idealizam a Revolução
uma peça documental — um encontro de escritores —
E creio ver Roque Dalton no documentário
Fidel em um discurso (e parte da sala aplaude Fidel)
Um monte de gente na calçada levava trajes finos: a Ópera.
Para Tony seu avô aristocrático italiano
deixou um sítio nos arredores de Roma,
Vai presenteá-lo a alguém. Não quer propriedades.
E Tony diz: “Holy Communion…” (seus olhos incandescentes)
“A Comunhão é minha maior união com os homens cada dia
a Comunhão para mim é o mais revolucionário do mundo”

Philip Berrigan e Elizabeth McAlister
acusados pelo FBI de querer sequestrar Kissinger. —
Festa de casamento no Merton Center.
Contemplativos e radicais, pacifistas, ex-prisioneiros muitos deles
cristãos anarquistas e cristãos budistas
e nessa festa uma Eucaristia com canções de protesto
sentados no chão
detrás do Evangelho falam Jim, Dan, uma mulher jovem
que tinha acabado de jogar sangue sobre a mesa de jantar de Nixon
e de lambuzar de sangue as paredes da sala, em um tourist tour
da casa Branca (a imprensa não informou nada). Espera
julgamento, talvez anos na prisão, grávida.
Dan Berrigan consagra um pão como o que me deu
e copos de vinho. O pão repartido de mão em mão, e o vinho.
Depois uma coleta… para os acusados pobres de Watergate
“adversários irmãos nossos”.
Outra vez a festa. Dan diz: “No more religion”
Galões de ‘rosé’ y ‘blanc’ californianos em uma mesa
pudim de passas, torta de maçã, queijos em outra mesa
Um rapaz loirinho muito cabeludo me cumprimenta, Michael Cullen.
Lia meus Salmos na prisão diz,
e eu já li sobre ele.
Me dá um folheto que ele distribui: If Mike Cullen is deported
Nasceu em uma granja no sul da Irlanda, chegou com 10 anos, não
para ganhar dinheiro. Estudou em um seminário. Casou-se, vendia seguros
mas sentiu o sofrimento dos apartamentos cheios de ratos
e o sangre correndo em jorros na Indochina
queimou sua carteira de recrutamento. Queimou
com Jim os arquivos de recrutamento em Milwaukee
as licenças 1-A para queimar corpos na Ásia
agora querem deportá-lo, crê que o deportarão diz triste
alguém passando coloca dinheiro no seu bolso e lhe diz
“keep going” e ele sorri (triste)
me diz: “o sonho americano virou um Pesadelo”.
Todas as câmeras de televisão sobre Philip e sua esposa.
Phil de olhos azuis. Robusto como um jogador de rugby
‘o Gary Cooper da Igreja’
Elizabeth, doce: casaram para ajudarem um ao outro na luta diz
e vão criar uma comuna para ajudar outros a seguir na luta.
Dan com seu sorriso radiante
e sua paz zen

Na saída da Doubleday Bookstore, na 5a Avenida
uns homens e mulheres com túnicas brancas dançando na calçada
e os jovens carecas (de branco) parecem noviços trapenses.
Em uma vitrine:
Visão. Jaqueta de Couro de Cordeiro Persa. Broche
de diamantes e rubis…
Um rapaz com um botton no peito: IMPEACH NIXON
Mulheres como se de plástico.
Atravesso a rua com muito medo: WALK — DON’T WALK (em vermelho)
Os atendentes das lojas quase todos cubanos
e me parece que estou escutando a língua
de revolucionários
O céu sujo. Sirenes de polícia.
As velhas falando sozinhas
o Coronel contava daquele dominicano francês que lhe disse aqui:
“Desde que cheguei há 3 meses não pude fazer uma oração”.
Museum of Modern Art. Sem tempo de entrar. E para quê?
Frank O’Hara trabalhava aqui. Sua poesia ele fazia
na hora do lunch — sandwiches e Coca Cola.
Uma vez nos escrevemos.
Agora comprei no Bretano’s seu LUNCH POEMS ($1.50)
e os automóveis me fazem lembrar de sua morte
atropelado em Nova Iorque (na hora do lunch?)
WALK — DON’T WALK
Dorothy Day me espera no Catholic Worker diz Tony.
Lembrou no telefone que uma vez me havia escrito.

Livraria de “paperbacks” na 5ª Av.
Muitos livros sobre os índios. Pawnees. Sioux. Hopis. Os
Hopis, anarquistas e pacifistas, por 2000 anos, gandhianos
nunca declararam guerra nem firmaram tratados (sequer
com os E.U.A)
e agora vou me encontrar ao meio-dia com Kenneth Arnold
meu editor em inglês de HOMENAJE A LOS INDIOS AMERICANOS
também está aqui a autobiografia de Alce Negro
Veio uma vez a Nova Iorque com Búfalo Bill
as casas até o céu, as luzes roubadas do poder do trovão.
disse que aqui existiu como alguém que nunca tinha tido uma visão
Raposa Vermelha também com Búfalo Bill. Estimava os índios, diz
defendeu-os em Washington. Hora de me encontrar com Kenneth.
Veio de Baltimore. Combinamos de nos ver no Gotham Book Mart
I Have Spoken, já o tenho. Com o discurso de Seattle.
Seattle envolto em seu manto como em uma toga
com sua famosa voz audível a meia milha, no meio
do terreno desmatado: “Minhas palavras são como as estrelas
que não mudam. O que Seattle diz o Grande Chefe de Washington
deve levar em conta como a volta do sol ou as estações…”
Lá fora chove uma chuva sem cheiro
e está chegando a hora do lunch
NO SMOKING
“E quando o último do meu povo estiver morto
e falem de minha tribo como um conto do passado…”
sussurros de pneus sobre ruas chovidas
reflexo de neon no espelho do asfalto molhado
“e os filhos de seus filhos acreditem estar a sós
no campo, no armazém, na loja, não estarão a sós.
Quando as ruas de suas cidades estiverem caladas e vocês
a acreditarem vazias, estarão cheias dos espíritos dos mortos.
Eu disse mortos? Não há morte. Apenas uma mudança de mundo”.
Saio com livros para mais homenagens aos índios americanos
e vou ao Gotham Book Mart — 3 quadras — e ali está Kenneth.
É jovem, tem barba. Também presente Miss Steloff, o cabelo prateado
a famosa dona dessa livraria. E eu estive aqui uma vez
em uma festa para Edith Sitwell. Miss Steloff
convidou o Coronel e eu e trouxemos Mimí Hammer
e estavam presentes Auden, Tennesse Williams, Marianne Moore, Spender…
Kenneth trouxe a capa de HOMAGE TO THE AMERICAN INDIANS
e vamos a um restaurante chinês a meia quadra, e
o lunch chow mein mas antes dois copos de cerveja gelada.
Essa abundância de livros sobre índios, diz
é coisa de um ou dois anos. O índio está na moda.
Ele também tem um poema sobre índios, melhor dizendo
sobre Búfalo Bill, seu tio-avô. Sim, foi irmão de seu bisavô
o Coronel William Frederic Gody (Búfalo Bill)

Tony passa para me buscar, e me pede desculpa pelo carro.
O dele quebrou. Este, luxuoso, é do pai. (Envergonhado)
Convidados a almoçar pela mãe do Irmão David
(com Napoleón e Jacquie). Apartamento em zona elegante
pela 5ª Av. Ela é Baronesa da Áustria
mas trabalha como empregada doméstica. Distribui seu dinheiro.
Uma moça me trouxe um presente: um Pôster do Watergate
— Nixon em foto de gangster com o letreiro WANTED
Brother David me diz
“O que diria aos abades nos mosteiros dos Estados Unidos?”
Dou risada. “Sério. Se os abades reunidos pedissem seu conselho?”
“Não o seguiriam.” “Mas o que você diria?”
“Que fossem comunistas”.
Uma jovem: “Por que a sociedade primeiro
e não o coração dos homens? Primeiro vem o interior!”
Digo a ela: “Somos sociais. A mudança social não é exterior”.
O almoço: iogurte com morango
um pão preto e outro muito preto, leite
uvas azuis, maçãs vermelhas, bananas amarelas
mel, o mais saboroso que provei em minha vida.
Nenhum licor neste almoço. Só eu fumo
(“Já é bastante contaminado o ar para respirar mais fumaça”)
O irmão David fala com umas pequenas contas na mão.
Pergunto a ele: “Será possível integrar o budismo com o marxismo?”
“Através do cristianismo. Vocês integraram
cristianismo e marxismo, e nós aqui cristianismo e budismo”.
Também me diz: “Pentescostais… talvez seja melhor que não os veja.
Parecem possuídos pelo Espírito, mas seguem com a Exploração”.
Tony nos deixa para ir estar com seus órfãos.

Rua 12. Por aqui era o apartamento de Joaquín. Nesta casa,
quase tenho certeza.
O dono de um sebo no Village se apaixona por minha camisa
minha blusa camponesa nicaraguense
me pergunta quem a inventou.
Um letreiro em ouro: MONEY. (Loja de penhores).
Pergunto pela rua Charlest. Um homem garboso sentado em um banco: Não
sabe, diz. Posso te pedir um dólar? Não come há dois dias.
Parra estava em Chile.
Em todas as telas dos televisores Dean declarando contra Nixon.

Washington Square: Rock no parque
microfone com música eletrônica louca locutores frenéticos
milhares de cabeludos uivando com a orquestra negros loiros negras
com a orquestra, descalços barbudos de jóias ou em farrapos
uivando com a orquestra, dando um tapa de erva ou
deitados fumando se beijando bebendo cerveja enlatada.
Grupo de lésbicas gritando. Um pouco mais adiante GAY LIBERATION com bandeira
passivos diante do metodista entoando seus sermões Bíblia em mãos com
coro de senhoras caras-de-paisagem encamisadas até o tornozelo.
Atravessando a rua
duas bichas com suas duas línguas lambem de uma vez
um mesmo sorvete
Estúdio de Armando Morales, La Mecha: no Bowery
o bairro dos mendigos e do Catholic Worker.
É uma bodega. Sem banheiro (toma banho no lavabo com uma esponja
sobre uma edição do Times para não molhar o piso)
com vinho recordamos Manágua pré-terremoto
diante de tela de La Mecha que a Galeria vendo por 10000 dólares.
Os cinzeiros latas de sardinhas das que se abre com chave,
a tampa enrolada pela metade, e um monte desses cinzeiros.
Me explica: A Galeria põe o preço, e essas são
as “ações” de um pintor. Um comprador de “Morales”
investe nele como na General Motors. Se os preços sobem
(as ações) investirão mais nele. E se as vendas param
a Galeria não pode baixar os preços
ainda que morra de fome La Mecha — O preço em queda criaria pânico
entre os “acionistas” das cores intricadas e nus misteriosos
de Morales.
Pinta suas cores e depois cobre todo o quadro de preto.
Depois o afeita, com gillette, raspando o preto, e
sobre o raspado pinta outra vez as cores.
“Agora já sei pintar” diz “posso pintar o que eu quiser.
O difícil é — o que pintar”
Lembramos daquele bar em Manágua Las Cinco Hermanas
Lembro de umas super-musas que amamos, mais ou menos.
E de quando averiguamos que estávamos na lista de homossexuais
da polícia — ele por ser pintor, e eu por ser poeta.
E ele se lembra daquele bordel “La Hortencia” e eu digo que
não ficava ali onde ele diz, era em outro lugar, e que já não existe
construíram depois ali a igreja do Redentor (La Mecha ri)
e eu já sacerdote celebrava nela até que o superior me proibiu
por causa do meu sermão antisomozista (ri mais ainda La Mecha) e além disso
já nem o Redentor existe, caiu com o terremoto —
Não pode doar quadros para a arrecadação do terremoto
suas pinturas pertencem à Galeria.
Em todos os televisores Dean seguia declarando contra Nixon.

Laughlin é um homem da altura da porta, e
(como eu já sabia por Merton) transbordante de amor.
Quando entramos pergunta à sua esposa pelo vinho de Nicanor.
Onde está o vinho que deixou Nicanor? Tira da geladeira
o vinho português branco São-Não-Sei-Quê que Nicanor
deixou da última vez. Estamos com a taça na mão ainda sem beber
e Laughlin levanta a sua em direção ao céu como no Ofertório:
“Por Tom. Tenho certeza que regozijará com esse encontro
onde quer que esteja”. E eu: “Está aqui”. O vinho de Nicanor Parra
delicioso. “É curioso” diz Laughlin “depois da sua morte
vimos que cada um de seus amigos acreditava ser o mais íntimo de Merton”.
Depois de uma pausa e gole de vinho: “– E na realidade eram”.
Com Napoléon Chow conversa sobre a China e com Jacquie sobre a Turquia.
Nos dá alguns livros novos da “New Directions”.
Assinamos rapidamente o contrato do meu livro EN CUBA.
Mais vinho. Margaret Randall parece feliz em Cuba — Que bom.
Tem muita simpatia por ela, ainda que não a conheça.
Nos conta (o público ainda não sabe)
da paixão de Merton dois anos antes de sua morte.
1966 Na primavera. Ele e Parra estavam no mosteiro.
Moça lindíssima. O amor, como um raio. “Loucamente” diz
“mas não quis deixar de ser monge”.
Digo depois que ele é um bom poeta, já o traduzi, e diz que não
Pound lhe disse que não. Rasurava seus poemas
com o famoso lápis. Disse a ele: “Do something useful” e ele
tornou-se editor. Ninguém tinha editor até então, só o Hemingway.
Assistia no Rapallo à Universidad Ezra. Almoçava com Pound
e sua esposa no Albergo Rapales. Depois natação ou tênis
e leituras de Villon, Catulo… Pound foi seu pai espiritual.
Conta: Somoza roubou uma vez uma mina de seu tio.
– James Laughlin é neto do Laughlin o rei do aço –
“Claro que sabia”, diz Laughlin (Nixon)
O vinho de Nicanor chega ao fim e vamos a um restaurante francês
a três quadras.
“Gostava muita da solidão, e gostava muito de gente.
Amava o silêncio — e também uma boa conversa.
Merton era gregário, you know, e perfeito monge”

Meia-noite. Em uma tabacaria já o New York Times pela manhã
NIXON SABIA DIZ DEAN (compramos o jornal)
No subway anúncio do Army: meninos em sua formatura —
… depois de se formar é lindo entrar no Army…
E os subways escuros vão grafitados por fora:
nomes de meninos e meninas em muitas cores
     Alice 95                   Bob 106               Charles 195
e os vagões passam como se estivessem cobertos de flores
(seus nomes e as ruas onde vivem) “escrevem
para que alguém os conheça, para serem reais” diz Napoleón
Pintados com tinta spray de todas as cores
e até um metro de altura há nomes
ManuelJuliaJosé… (muitos porto-riquenhos)

Slums ‘sem nenhuma beleza mais que as nuvens’
36 East 1st Street, (Bowery)
com emoção vi a placa pequena na fachada: Catholic Worker
um homem gordo deitado na calçada me pede gentilmente um cigarro
com emoção entro nesse lugar sagrado
ela não estava, mas logo vem pela calçada com outras mulheres
magra, corcunda, com a cabeça branca
ainda é bonita aos 78
beijo a mão da santa e ela beija o meu rosto.
Como minha avó Agustina nos anos 50 (quando ainda
podia ler e era leitora dessa mulher)
Essa é a famosa House of Hospitality que fundaram
Peter Maurin e Dorothy Day durante a Grande Depressão
onde dão comida e pouso grátis a qualquer um que chegue
bêbados loucos drogados vagabundos moribundos
e também é um movimento pacifista e anarquista:
sua meta, uma sociedade em que seja fácil ser bom.
Logo chegariam os pobres para jantar.
Eu estudava em Columbia, e mesmo ali soubemos
que havia morrido um santo no bairro dos mendigos.
Peter Maurin, agitador e santo
dava sermões nos parques:
Mandem embora os patrões” ou
Dar e não tirar
      faz do homem humano
Com uma roupa só, amassada e do tamanho errado. Sem cama própria
nesse lugar que fundou, nenhum canto para seus livros.
Caminhava sem olhar as luzes do semáforo.
E ela consagrada desde então
às “obras de misericórdia e de rebelião”. Uma vida
de comunhão diária e de participação
em toda grave, manifestação, marcha, protesto, ou boicote.
Aqui vêm trabalhar sem salário estudantes, seminaristas
professores, marinheiros, também mendigos, e às vezes permanecem
a vida toda. Muitos foram à prisão ou seguem lá.
Hennacy fazia greves de fome na frente dos edifícios do governo
com cartazes, distribuindo folhetos e vendendo o jornal
e não pagava imposto porque 85% é para a guerra
trabalhava de peão nos campos para não pagar imposto.
Hugh magro, com calça curta sandália e poncho
também fazia penitência nas ruas.
Jack English, um brilhante jornalista de Cleveland
foi cozinheiro do Catholic Worker e depois virou monge.
Roger La Porte era lindo e loiro com 22 anos; se imolou
ateando-se fogo com gasolina na frente das Nações Unidas.
E um velho ex-marine, Smoky Jow, que lutou contra Sandino
na Nicarágua, morreu aqui convertido à não-violência.
Merton trabalhou aqui antes de ir para o mosteiro trapista.
O jornal ainda é vendido a 1 centavo
como quando Dorothy Day saiu para vendê-lo pela primeira vez
na Union Square em um 1o de Maio (1933)
Era o terceiro ano da Depressão
12 milhões de desempregados
e Peter queria com o impresso mais do que uma publicação de opiniões
uma revolução
As panelas já fumegantes
Começam a chegar os pobres, os sem-teto, os do Bowery
para fazer fila. “O outro Estados Unidos” diz Dorothy
os homens deslocados pela máquina
e abandonados pela Santa Mãe Estado.
Gritos. Alguém entrou com chutes e socos
— Dois dos Catholic Workers retiram-no com cuidado
“Nunca chamamos a polícia porque acreditamos na Não Violência”
E me diz também: “Quando visitei Cuba
vi que Sandino era o herói deles
e me alegrei. Porque jovem recolhi dinheiro para ele,
quando era comunista, antes de me converter ao catolicismo.
E vi os principais generais de Sandino (ele não)
no México: com seus grandes chapéus, comendo hot-dogs
por que hot-dogs eu não sei”
e enérgica erguendo a sua cabeça branca: “A Cuba de Castro
eu conheço, como já te escrevi. Gostei muito”
Gritos. Agora é uma anã. E ela é levada docemente
levantada no ar como uma boneca.
Conta que agora ajudam os trabalhadores de Chávez
boicotando a rede de lojas A&P. E ela reza, diz
para que os Estados Unidos tenham uma derrota purificadora. Fala
de Joan Baez que em Hanói cantava sob os bombardeios. Diz
que dizia Hennacy: ‘Contrário ao que se pensa
não somos os anarquistas os que carregam bombas mas o governo’.
E não há paz porque as ruas ficariam sem trânsito
paradas as fábricas, os pássaros cantando sobre as máquinas
como ela viu na Grande Depressão. Fala dos horrores
que viu no The Women’s House of Detention
nas vezes em que esteve presa. E vendo os pobres entrando
repete o que dizia Peter: ‘O futuro será diferente
se fizermos diferente o presente’
Um adeus reverente a essa santa anarquista
e esse santo lugar onde todos são recebidos, tudo de graça
a cada um segundo suas necessidades
de cada um segundo suas capacidades.

DOWN TOWN. UP TOWN. Bang. Bang. Os trens vão trovejando
sob a terra Up Town e Down Town
com nomes de jovens pobres pintados como flores
Tom       Jim         John      Carolina
o nome e o endereço triste onde vivem. São
reais. Para que saibamos que são REAIS. Bang Bang
os expressos sobre os cabos de alta tensão com
seus luminosos anúncios de Calvert, Pall Mall, e o Army
é lindo entrar no Army

À noite, perto de Wall Street, em um apartamento sem mobília
sacerdotes e laicos e ministros protestantes marxistas
“Mudar o sistema em que o lucro é o fim do homem”
“A ética cristã não cabe nos limites da moral privada”
“A visão do Reino de Deus é subversiva”
Um trabalha com computadores, outro com os pobres.
Domingo à noite, e os andares ainda iluminados em Wall Street.
Estão nos fodendo.
Hello Bogotá
Hello ITT”
2 arranha-céus gêmeos mais altos que o Empire
da metade para cima iluminados
o Imperialismo patente no céu além dos cristais
Hello gostaríamos de mais aridez
Quem é esse outro monstro que se levanta no meio da noite?
O Chase Manhattan Bank fodendo com meia humanidade.
Depois de Wall Street, a ponte do Brooklyn, como uma lira de luzes.
Na sombra dois meninos roubando um carro ao que parece.
Nosso satélite pálido sobre o céu do Brooklyn
achatado como uma bola de rugby.

Cedo no outro dia Tony me leva de novo ao Aeroporto Kennedy
em seu carro franciscano. 6 dias em Nova Iorque.
A Arrecadação seria para a Conscientização.
“A nenhuma instituição!” me diz Tony. No institution.
Não sentei na janela. Ao levantar voo, lá longe
(apenas de relance)
a silhueta dos arranha-céus em um céu de fumaça de carros
ácidos e monóxido de carbono.

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Clique nos slides acima para ler o texto em espanhol.

§

Mariana Ruggieri nasceu em 1988 em São Paulo. Escreve, lê e traduz. Publicou pelo selo treme~terra o Anzol (2018) e A bola é que são elas (2018). Para as Edições Jabuticaba traduziu Bernadette Mayer e Eileen Myles.

*

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tradução

Quatro mulheres: Nina Simone por Nina Rizzi & um bis de Sueli Carneiro

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“Four Women” é uma canção escrita pela cantora, compositora, pianista e arranjadora e militante pelos direitos civis dos negros Nina Simone. Gravada em abril de 1965 com produção de Hal Mooney e lançada em 1966 no álbum Wild Is the Wind (Philips Records), conta a história de quatro mulheres afro-americanas diferentes, onde cada uma das quatro personagens representa um arquétipo afro-americano. Thulani Davis, no The Village Voice, chamou a canção de “uma análise instantaneamente acessível do legado condenatório da escravidão, que tornou iconográficas as mulheres reais que conhecíamos […] um hino afirmando nossa existência, nossa sanidade e nossa luta para sobreviver a uma cultura que nos considera anti-femininas. Reconheceu a perda da infância entre as mulheres afro-americanas, nossa invisibilidade, exploração, desafios, e lembrou que na escravidão e no patriarcado, seu nome é o que eles chamam de coisa”.

A primeira das quatro mulheres descritas na canção é “Tia Sarah”, uma personagem que representa a escravidão afro-americana. A descrição da mulher enfatiza os aspectos fortes e resilientes da mulher negra, “forte o suficiente para suportar a dor”, assim como o sofrimento a longo prazo que teve que suportar “, infligida novamente e novamente”.

A segunda mulher que aparece na canção é  “Saffronia”, uma mulher miscigenada (“minha pele é amarela”) forçada a viver “entre dois mundos”. Ela é retratada como uma mulher oprimida e sua história é mais uma vez usada para destacar o sofrimento da mulher negra nas mãos de pessoas brancas em posições de poder (“Meu pai era rico e branco / Ele forçou minha mãe até tarde da noite”).

A terceira mulher é uma prostituta conhecida como “Coisinha Doce”. Ela encontra aceitação tanto entre negros como brancos, não apenas porque “meu cabelo é bom”, mas também porque ela fornece gratificação sexual (“De quem é a menininha?/ Qualquer um que tenha dinheiro para comprar”).

A quarta e última mulher é rude, amargurada pelas gerações de opressão e sofrimento impostos ao seu povo (“Sou terrivelmente amarga hoje em dia porque meus pais eram escravos”). Nina Simone finalmente revela o nome da mulher depois de um final dramático durante o qual ela grita: “Meu nome é Buceta!”

Musicalmente falando, a canção tem uma melodia simples com um groove acompanhado de piano, flauta, guitarra elétrica e baixo, que gradualmente se desenvolve em intensidade à medida que progride e atinge um clímax durante a quarta e última seção. O vocal de Nina Simone torna-se mais apaixonado, rachando de emoção e seu piano estável se torna frenético e às vezes dissonante, para refletir a angústia da personagem. A música termina com Nina Simone alcançando uma nota altíssima, quase chorando ao cantar o nome “Peaches”.

Apesar de não haver redes sociais na época, má-interpretação de texto já existia, para desgosto de Nina! Apesar de sua intenção de destacar a injustiça na sociedade e o sofrimento dos afro-americanos, alguns ouvintes interpretaram a música como racista. Eles acreditavam que se baseava em estereótipos negros, tendo a música sido banida de várias estações de rádio importantes.

Dentre os diversos covers de Four Women destacamos  a adaptação da canção pela cineasta Julie Dash em um curta experimental de 1978 com o mesmo nome; e a peça de 2016, Nina Simone: Four Women, de Christina Ham; no espetáculo, Nina Simone conhece as três primeiras mulheres (ela é a quarta) no local do atentado à Igreja Batista da 16th Street, e elas se tornam as personagens de sua música.

[Comentário traduzido e adaptado da página da canção na wikipédia/EUA e páginas citadas na mesma]

nina rizzi

*

QUATRO MULHERES

Minha pele é negra
Meus braços são longos
Meu cabelo é de algodão
Minhas costas são fortes
Fortes o suficiente pra suportar a dor
Infligida novamente e novamente
Como eles me chamam
Meu nome é TIA SARAH
Meu nome é tia Sarah

Minha pele é amarela
Meu cabelo é longo
Entre dois mundos
Não pertenço a nenhum
Meu pai era rico e branco
Ele forçou minha mãe até tarde da noite
Como eles me chamam
Meu nome é SAFFRONIA
Meu nome é Saffronia

Minha pele é bronzeada
Meu cabelo é bom
Meus quadris te convidam
Minha boca é como o vinho
De quem é a menininha?
Qualquer um que tenha dinheiro pra comprar
Como eles me chamam
Meu nome é COISINHA DOCE
Meu nome é Coisinha Doce

Minha pele é marrom
Meus modos são rudes
Eu mato a primeira mãe que vejo
Minha vida tem sido muito dura
Sou terrivelmente amarga hoje em dia
Porque meus pais eram escravos
Como eles me chamam
Meu nome é BUCETA!

FOUR WOMEN

My skin is black
My arms are long
My hair is woolly
My back is strong
Strong enough to take the pain
inflicted again and again
What do they call me
My name is AUNT SARAH
My name is Aunt Sarah

My skin is yellow
My hair is long
Between two worlds
I do belong
My father was rich and white
He forced my mother late one night
What do they call me
My name is SAFFRONIA
My name is Saffronia

My skin is tan
My hair is fine
My hips invite you
my mouth like wine
Whose little girl am I?
Anyone who has money to buy
What do they call me
My name is SWEET THING
My name is Sweet Thing

My skin is brown
my manner is tough
I’ll kill the first mother I see
my life has been too rough
I’m awfully bitter these days
because my parents were slaves
What do they call me
My name is PEACHES
§


NEGROS DE PELE CLARA

Sueli Carneiro

Vários veículos de imprensa publicaram com destaque fotos dos candidatos selecionados que vão concorrer às vagas para negros da Universidade de Brasília (UnB). Veículos que vêm se posicionando contra essa política percebem, no largo espectro cromático desses alunos, mais uma oportunidade para desqualificar o critério racial que a orienta.

Uma das características do racismo é a maneira pela qual ele aprisiona o outro em imagens fixas e estereotipadas, enquanto reserva para os racialmente hegemônicos o privilégio de serem representados em sua diversidade. Assim, para os publicitários, por exemplo, basta enfiar um negro no meio de uma multidão de brancos em um comercial para assegurar suposto respeito e valorização da diversidade étnica e racial e livrar-se de possíveis acusações de exclusão racial das minorias. Um negro ou japonês solitários em uma propaganda povoada de brancos representam o conjunto de suas coletividades. Afinal, negro e japonês são todos iguais, não é?

Brancos não. São individualidades, são múltiplos, complexos e assim devem ser representados. Isso é demarcado também no nível fenotípico em que é valorizada a diversidade da branquitude: morenos de cabelos castanhos ou pretos, loiros, ruivos, são diferentes matizes da branquitude que estão perfeitamente incluídos no interior da racialidade branca, mesmo quando apresentam alto grau de morenice, como ocorre com alguns descendentes de espanhóis, italianos ou portugueses que, nem por isso, deixam de ser considerados ou de se sentirem brancos. A branquitude é, portanto, diversa e multicromática. No entanto, a negritude padece de toda sorte de indagações.

Insisto em contar a forma pela qual foi assegurada, no registro de nascimento de minha filha Luanda, a sua identidade negra. O pai, branco, vai ao cartório, o escrivão preenche o registro e, no campo destinado à cor, escreve: branca. O pai diz ao escrivão que a cor está errada, porque a mãe da criança é negra. O escrivão, resistente, corrige o erro e planta a nova cor: parda. O pai novamente reage e diz que sua filha não é parda. O escrivão irritado pergunta, “Então qual a cor de sua filha”. O pai responde, “Negra”. O escrivão retruca, “Mas ela não puxou nem um pouquinho ao senhor? É assim que se vão clareando as pessoas no Brasil e o Brasil. Esse pai, brasileiro naturalizado e de fenótipo ariano, não tem, como branco que de fato é, as dúvidas metafísicas que assombram a racialidade no Brasil, um país percebido por ele e pela maioria de estrangeiros brancos como de maioria negra. Não fosse a providência e insistência paterna, minha filha pagaria eternamente o mico de, com sua vasta carapinha, ter o registro de branca, como ocorre com filhos de um famoso jogador de futebol negro.

Porém, independentemente da miscigenação de primeiro grau decorrente de casamentos inter-raciais, as famílias negras apresentam grande variedade cromática em seu interior, herança de miscigenações passadas que têm sido historicamente utilizadas para enfraquecer a identidade racial dos negros. Faz-se isso pelo deslocamento da negritude, que oferece aos negros de pele clara as múltiplas classificações de cor que por aqui circulam e que, neste momento, prestam-se à desqualificação da política de cotas.

Segundo essa lógica, devemos instituir divisões raciais no interior da maioria das famílias negras com todas as implicações conflituosas que decorrem dessa partição do pertencimento racial. Assim teríamos, por exemplo, em uma situação esdrúxula, a família Pitanga, em que Camila Pitanga (negra de pele clara como sua mãe), e Rocco Pitanga (um dos atores da novela “Da cor do pecado”), embora irmãos e filhos dos mesmos pais seriam, ela e a mãe brancas, e ele e o pai negros. Não é gratuito, pois, que a consciência racial da família Pitanga sempre fez com que Camila recusasse as constantes tentativas de expropriá-la de sua identidade racial e familiar negra.

De igual maneira, importantes lideranças do Movimento Negro Brasileiro, negros de pele clara, através do franco engajamento na questão racial, vêm demarcando a resistência que historicamente tem sido empreendida por parcela desse segmento de nossa gente aos acenos de traição à negritude, que são sempre oferecidos aos mais claros.

Há quase duas décadas, parcela significativa de jovens negros inseridos no Movimento Hip Hop politicamente cunhou para si a autodefinição de pretos e o slogan PPP (Poder para o Povo Preto) em oposição a essas classificações cromáticas que instituem diferenças no interior da negritude, sendo esses jovens, em sua maioria, negros de pele clara como um dos seus principais ídolos e líderes, Mano Brown, dos Racionais MCs. O que esses jovens sabem pela experiência cotidiana é que o policial nunca se engana, sejam eles mais claros ou escuros.

No entanto, as redefinições da identidade racial, que vêm sendo empreendidas pelo avanço da consciência negra e que já são perceptíveis em levantamentos estatísticos, tendem a ser atribuídas apenas a um suposto ou real oportunismo promovido pelas políticas de cotas, fenômeno recente que não explica a totalidade do processo em curso.

A fuga da negritude tem sido a medida da consciência de sua rejeição social e o desembarque dela sempre foi incentivado e visto com bons olhos pelo conjunto da sociedade. Cada negro claro ou escuro que celebra sua mestiçagem ou suposta morenidade contra a sua identidade negra tem aceitação garantida. O mesmo ocorre com aquele que afirma que o problema é somente de classe e não de raça. Esses são os discursos politicamente corretos de nossa sociedade. São os discursos que o branco brasileiro nos ensinou, gosta de ouvir e que o negro que tem juízo obedece e repete. Mas as coisas estão mudando…

In: CARNEIRO, Sueli. Racsimo, sexismo e desigualdade no Brasil. São Paulo: Selo Negro, 2011. pp. 70-73. Disponível aqui.]

*

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poesia, tradução

Muriel Rukeyser, por Vitória Régia

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Muriel Rukeyser (1913-1980) foi uma poeta, ensaísta e ativista feminista norte-americana de origem judaica. Frequentou o Fieldston Schools e matriculou-se na Universidade Vassar (Poughkeepsie, NY). De 1930 a 1932, cursou a Universidade de Columbia em Nova York. Estreou na literatura com o livro Theory of Flight (1935), vencedor do Yale Younger Poets Series, o mais antigo prêmio literário anual dos Estados Unidos. Na época de sua estreia notável, W. R. Benet comentou na revista norte-americana Saturday Review of Literature: “quando você segura este livro em sua mão, você segura algo vivo.”

Rukeyser lutou fortemente pelos direitos humanos e construiu uma extensa e potente produção literária. Sua poesia é densa, impactante e convida à reflexão. Movida pela paixão que nutria pela condição humana e pelo mundo, esse “lar desconstruído” que herdamos, foi capaz de “carregar nações inteiras para a frente através da urgência de sua mensagem”. Apesar de ser marcadamente política, a autora explorou em sua poesia inúmeros temas como a condição da mulher, sexualidade, criatividade e morte.

Publicou os títulos A Turning Wind (1939), Beast in View (1944), The Green Wave (1948), Elegies (1949), Body of Waking (1958), The Speed of Darkness (1968), Breaking Open (1973), The Gates (1976) entre outros. Adrienne Rich chegou a comentar: “ela nos alerta, leitores, escritores e participantes da vida de nosso tempo, para ampliar nosso senso de que a poesia é para o mundo, bem como o lugar dos sentimentos e da memória na política”.

Das traduções já realizadas da autora para o português, menciono as de André Caramuru Aubert, no Jornal Rascunho, e as de Ricardo Domeneck, na revista eletrônica Modo de usar & co. Para esta publicação, selecionei os seguintes poemas: Paisagem que respira (Theory of Flight, 1935), O nascimento (Body of Waking, 1958) e Alas (Breaking Open, 1973). Traduzindo para o português, optei por mudanças estruturais que garantam uma leitura mais fluida e coerente, evitando interferir na concisão e quebra dos versos originais.

*

Paisagem que respira

Deitada sob o sol
e deitada aqui tão quieta
um ovo poderia ser chocado lentamente nesta mão
As pessoas passam
abruptamente acenam: elas sorriem
arrastam–se no ar, silêncio segue seus rostos.
Eu sei, deitada
como as colinas estão fixas
e a lua do dia corre no topo delas
Nada cruzou o campo
o dia todo, mas um pássaro
contorna a grama alta em um rápido trânsito
Suas ideias severas
um longo trabalho para cada
e até mesmo blindados dificilmente nos tocamos
O vento inclina,
o ar devidamente imposto
Sobre esses rostos e pensamentos em uma dança solene
O silêncio abraça o ar
Nada é dito, mas o som
de certos rios continuam subterrâneos.

Breathing Landscape

Lying in the sun
and lying here so still
an egg might slowly hatch in this still hand.
The people pass
abruptly they nod : they smile
trailed in the air, silence follows their faces.
I know, lying
how the hills are fixed
and the day-moon runs at the head of the fixed hills.
Nothing crossed the field
all day but a bird
skirting the tall grass in briefest transit.
Their stern ideas
are a long work to each
and even armored we hardly touch each other.
The wind leans,
the air placed formally
about these faces and thoughts in formal dance.
Silence hangs in the air.
Nothing speaks but the sound
of certain rivers continuing underground.

§

O nascimento

Recentemente escapei de três tipos de morte
Não por evasão, mas por sobreviver
Eu celebro o que pode ser o verdadeiro começo

Mas comecei sem mais recurso
Estúpida e parada
Como um recém nascido cresce? Eu sou um deles
O frescor tem tomado nossos corações
A dor nos tira de uma nova fonte, crianças de uma nova vida
Esperando pela infância como esperamos pela forma

Então venho para o mundo de todos os vivos
O mutilado meio triunfante de meu caminho
Onde há doação, não é necessário perdão
Vi agora o presente que está aqui para dizer:
Nada do que escrevi é o que devo ver escrito
Nada do que eu fiz é o que agora preciso fazer—
O sorriso da escuridão na minha canção e no meu filho.

Recentemente emergiram casas desoladas
Que já viram espíritos fechados, cercados pelo sol
E ter, entre incontáveis rostos comuns
assistido todas as coisas mudarem, um lar desconstruído herdar

Objetos do desejo, aquela pedra e madeira e ar
Iluminado por um nascimento, eu defendo começos obscuros
Desperdício que nunca é desperdício, doação mais humana
Declarado e evidente como o corpo mortal da graça
Começos da verdade na vida, os espaços do deserto
Onde a verdade alimenta e o coração ramificado,
até o meu, glorificando o passado em suas peças
Minha carne lacerada que me trouxe para este lugar.

A Birth

Lately having escaped three-kinded death
Not by evasion but by coming through
I celebrate what may be true beginning.

But new begun am most without resource
Stupid and stopped.
How do the newborn grow? I am of them.
Freshness has taken our hearts;
Pain strips us to the source, infants of further life
Waiting for childhood as we wait for form.

So came I into the world of all the living
The maimed triumphant middle of my way
Where there is giving needing no forgiving.
Saw now the present that is here to say:
Nothing I wrote is what I must see written,
Nothing I did is what I now need done.—
The smile of darkness on my song and my son.

Lately emerged I have seen unfounded houses,
Have seen spirits not opened, surrounded as by sun,
And have, among limitless consensual faces
Watched all things change, an unbuilt house inherit
Materials of desire, that stone and wood and air.
Lit by a birth, I defend dark beginnings,
Waste that is never waste, most-human giving,
Declared and clear as the mortal body of grace.

Beginnings of truth-in-life, the rooms of wilderness
Where truth feeds and the ramifying heart,
Even mine, praising even the past in its pieces,
My tearflesh beckoner who brought me to this place.

§

Alas
St. George’s Hospital, Hyde Park Corner

Deitada neste momento, ela escala neves brancas;
Ao pé da cama o quadro relata.
Aqui um homem queima em febre, ele está aqui, ele está lá,
Cinco mil anos atrás no país da gruta
Nesta cama, eu vago em Macau
Eu corro toda noite pelos becos escuros. O tempo corre
No limite e tudo existe em todos. Nós abraçamos
Toda a história humana, toda geografia,
Eu não consigo lembrar da palavra que eu preciso
Nossas explorações, tudo no precipício
A mesa de cabeceira, uma paisagem de zebras
Constelações condutoras. Toda essa música,
Eu ouvi antes de nascer. Eu venho
Neste caminho, para o lugar
Nos iluminamos,
Este momento me dando necessidade
Dando a nós mesmos e arriscamos tudo
Caminhando em nossa vida.

The Wards
St. George’s Hospital, Hyde Park Corner

Lying in the moment, she climbs white snows;
At the foot of the bed the chart relates.
Here a man burns in fever; he is here, he is there,
Five thousand years ago in the cave country.
In this bed, I go wandering in Macao,
I run all night the black alleys. Time runs
Over the edge and all exists in all. We hold
All human history, all geography
I cannot remember the word for what I need.
Our explorations, all at the precipice,
The night-table, a landscape of zebras,
Transistor constellations. All this music,
I heard it forming before I was born. I come
In this way, to the place.
Our selves lit clear,
This moment giving me necessity
Gives us ourselves and we risk everything
Walking into our life.

§

Vitória Régia nasceu em Fortaleza, em 1991. É graduada em Letras e mestra em Linguística pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Publicou os livros de poesia Partida de não dizeres (Editora Substânsia, 2015) e Náutico (Editora Patuá, 2018). Atualmente edita a revista de Literatura e Artes Para Mamíferos e escreve regularmente para a coluna Leituras da Bel do Jornal O Povo.

***

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poesia, tradução

As Folhas Mortas em diálogos e ecos, por Lilian Escorel

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“O quebra-cabeças do amor com todos os seus pedaços”

Os textos a seguir formam um círculo de vozes em diálogo, cujo epicentro, “Les Feuilles Mortes”, esconde-se no título “La Chanson de Prévert” e se insinua no primeiro verso “Oh, je voudrais tant que tu te souviennes”.

Quem conhece Jacques Prévert identifica de imediato o diálogo. Quem não conhece, descobre-o no corpo desta canção de Serge Gainsbourg, que incorpora o título “Les Feuilles Mortes” à letra da música.

As folhas mortas são, de fato, o leitmotiv dos textos, duas canções francesas, por mim traduzidas, e um poema, releitura das canções, que se embalam, e se embaralham, na melodia preferida da amada. Com seu poder encantatório, a música enleva e evoca os dias felizes do idílio. As folhas do outono recordam a separação, a tristeza e a frieza do esquecimento, contra o qual o amante combate com o verso: “Ah! eu queria tanto que você se lembrasse.”

A canção é composta primeiro, sem letra, por Joseph Kosma para “Le Rendez-vous”, balé do coreógrafo francês Roland Petit, em 1945, que contou também com a participação de importantes artistas modernos, como Picasso na cortina, o fotógrafo George Brassaï no cenário e Prévert no argumento. A letra da música veio depois. Foi Jacques Prévert quem a escreveu por encomenda de Marcel Carné para que figurasse como a canção-tema da trilha sonora de Les Portes de la Nuit, filme desse cineasta francês em 1946 e para o qual o poeta também escrevera os diálogos. A parceria Carné-Prévert estendeu-se a uma série de filmes, que contribuiu para a estética do realismo poético, em que ganhou lugar de destaque Les Enfants du Paradis.

Mas “Les Feuilles Mortes” não teve uma carreira de sucesso na França. A canção só repercutiu quatro anos depois de seu lançamento no filme, cuja história transcorria na Paris pós-ocupação, num quadro noturno e sombrio, interpretado, em trechos, pela dupla romântica Yves Montand e Nathalie Nattier, protagonistas que substituíram os atores chamados inicialmente: Marlene Dietrich e Jean Gabin. A atriz alemã declinara do papel por questões políticas.

A primeira gravação de “Les Feuilles Mortes” data de 1947, em registro de voz da francesa Cora Vaucaire. Yves Montand só a gravou em 1949. O sucesso da canção francesa, porém, não viria da voz dos intérpretes franceses. Chegou em nova roupagem: “Autumn Leaves”.

Conta-se que a carreira norte-americana de “Les Feuilles Mortes” deve-se a Janine e Jacques Enoch, editores de Kosma, que a negociaram com Joseph Goldstein, então em busca de uma canção de amor para a ruptura de Sinatra e Ava Gardner. Jonhy Mercer, letrista do intérprete de My way, foi quem escreveu em 1949 o texto em inglês, uma adaptação do original.

Apesar de gravada por destacados músicos do jazz como Stan Kenton e Artie Shaw, foi só em 1955 que “Autumn Leaves” ganhou projeção internacional. A versão inglesa alcançou a primeira posição na Billboard Top 100, durante quatro semanas, com um arranjo feito para piano por Roger Williams – conforme se lê em C’est une chanson – biographie de Joseph Kosma, de Françoise Miran.

Perto de 700 interpretações dessa música foram gravadas. Muitas delas ganharam fama e multiplicaram-se em filmes. “Autumn Leaves”, dirigido por Robert Aldrich e estrelado por Joan Crawford em 1956, foi o primeiro de uma série a assimilar a canção.

“Les Feuilles Mortes”, conforme a história mostra, eternizou-se em diferentes arranjos musicais e línguas. No inglês, ficaram célebres as versões na voz de Nat King Cole e Frank Sinatra. Mas depois deles, seguiu-se uma fila: Eric Clapton, o dueto Chick Corea/Bob MacFerrin, Joan Baez e Bob Dylan, que a apresentou recentemente em recepção do prêmio Nobel de literatura em Estocolmo. Na língua francesa, destacaram-se as gravações de Yves Montand, da musa do existencialismo Juliette Greco, de Edith Piaf, que incluiu também a versão em inglês na sua interpretação, e do tenor italiano Andrea Bocelli. Marlene Dietrich tentou vocalizar sua versão, mas Prévert não a autorizou. Não pôde perdoá-la pela recusa do papel no filme que desencadeara sua canção.

Em português, guardamos raridades desta música, que parece ter chegado ao Brasil pela versão do italiano Teddy Reno, registrada em 1950. Ao que se reporta, o primeiro brasileiro a gravá-la, no original francês e em um vozeirão clássico à época, 1952, foi o cantor, compositor e ator brasileiro Ivon Cury. Depois dele, sucederam-se mais de uma dezena de versões, variando entre a canção francesa e a adaptação inglesa e incluindo também a elaboração de duas versões, nelas baseadas, para a língua portuguesa do Brasil. “Folhas Mortas”, redigida por Clímaco César e gravada por Zezé Gonzaga em 1955, deriva de “Les Feuilles Mortes”. “Folhas de Outono”, escrita por Juvenal Fernandes, e interpretada por Carlos Galhardo em 1956, revela “Autumn Leaves” na sua base (possível conferir clicando aqui).

Contamos, por fim, com uma pérola inédita e duas preciosas gravações instrumentais: Hector Costita no sax em 1962 e Dick Farney ao piano em 1975. A pérola é a voz de Maysa que deixa sua marca registrada dessa canção no álbum Maysa sings songs before dawn, gravado nos Estados Unidos em 1961 e depois, registrado na Espanha, na língua desse país, para difusão na América Latina. Maysa sings songs before dawn não foi publicado aqui. Tornou-se um mito no Brasil.

No mesmo ano de 1961, o músico francês Serge Gainsbourg lança seu terceiro álbum L’étonnant Serge Gainsbourg, que expõe seu amor à poesia francesa. Nele, ao lado de “La Chanson de Maglia”, a evocar e citar o poeta romântico Victor Hugo, está “La Chanson de Prévert”.

Serge Gainsbourg, intérprete e músico, multiartista inconformado e inquieto, que inicia a carreira na pintura e depois a renega, é herdeiro das propostas das vanguardas artísticas. Gainsbourg não gravou mais uma versão de “Les Feuilles Mortes” em tributo à sua admiração por Joseph Kosma, músico caído no limbo, e pelo poeta que se popularizou na França. Usou de procedimento moderno, fazendo uma releitura da criação de Prévert. Bebeu, assimilou e recriou a canção do poeta popular francês que se valera de igual procedimento em sua obra poética, indo mesmo além, como bem ilustra o poema “Bibliofolie”, em Imaginaires (1970). “Bibliofolie” expressa a ideia de um livro feito de todos os livros, aberto e sem ponto final, sempre a se recriar. No lugar de bibliophilie, culto ou idolatria pelos livros, Prévert prefere o neologismo bibliofolie, em que se destaca a palavra folie. É, de fato, na ordem da loucura, aliada à liberdade, que Prévert propõe sua construção poética. A remissão a obras de escritores ou artistas com os quais sua poesia dialoga e a referência à própria obra constituem seu processo criativo.

Uma das maiores contribuições das vanguardas modernas foi promover o diálogo e a colaboração entre as artes e trazer para o primeiro plano a reflexão e o debate sobre o fazer artístico. Rompem-se as fronteiras entre os gêneros literários e as diversas artes, que passam a se intercomunicar. Na literatura, na música, nas artes plásticas, os artistas tornam-se críticos de si mesmos e expõem os bastidores da criação, publicando seus manuscritos, suas cartas e outros documentos de ordem privada, ligados ao processo criativo.

A noção de originalidade é posta em xeque: quem terá sido o autor da ideia plasmada naquela forma? Os artistas passam, assim, a revelar suas fontes, leituras e apropriações. Um poeta, um músico ou um pintor não se fazem sozinhos. O conceito de obra única e definitiva, tão caro ao período romântico, é desestabilizado. As diferentes versões de um original quebram a hierarquia do valor estético do primeiro. A obra original não é necessariamente a melhor. A citação, a paródia, a imitação, o pastiche, a colagem são procedimentos naturalizados, e mesmo valorizados, no fazer artístico.

Jacques Prévert, poeta no rol dos autores seletos de Gainsbourg, foi um artista de talento igualmente múltiplo: iniciou-se na dramaturgia, passou à redação de roteiros de cinema, enveredou para a poesia e a letra de canções, foi autor infantil, pintou colagens e retratos. Escreveu livros em parceria com diversos artistas. Picasso, de quem era amigo, brincava que Prévert era um grande pintor, mesmo sem saber pintar.

O surrealismo orientou suas ideias estéticas. Foi, segundo ele, a escola onde fez seu curso de humanidades (“Ce fut au surrèalisme où j’ai fait mes humanités“) . O primeiro contato com o movimento aconteceu no fim de 1924, quando conhece a revista La Révolution Surréaliste e se impacta com uma literatura surrealista avant la lettre. No início de 1925, encontra André Breton, passando então a frequentar o grupo surrealista e a participar de suas atividades, como a escrita automática, o sono hipnótico, a narrativa de sonhos e jogos que envolviam a linguagem. O célebre jogo surrealista Cadavre exquis teve no título a coautoria de Prévert. Durante esse período, porém, que vai até 1930, quando rompe com o líder do movimento, o poeta em formação publicou seus textos poéticos apenas em periódicos. Foi só em 1945 que saiu Paroles, livro de estreia marcado pela experiência e pelas matrizes surrealistas. Depois dele, suas experimentações poéticas e com outras linguagens artísticas ampliaram-se em Histoires (1946), Grand bal du printemps (1951), La pluie et le beau temps (1955), Fatras (1966), livro marcado pela presença de graffiti e colagens, Imaginaires (1970), Choses et autres (1972).

Um Vinícius de Moraes francês, como já se disse por aqui, Prévert é, porém, pouco conhecido no Brasil. Sua poesia, vertida para o português, saiu apenas, salvo engano, em Poemas, seleção e tradução de Silviano Santiago, em edição bilíngue pela Editora Nova Fronteira (2000) e Dia de folga, dezesseis poemas selecionados pelo ilustrador Wim Hoffman e traduzidos por Carlito Azevedo, em edição da Cosac Naify (2004).

Entrelaçados, então, nessa rede de leituras e no diálogo entre as artes, as traduções e o poema acima decorrem de canções que se correspondem e se repetem numa relação amorosa de tributo e de reinvenção. De mãos dadas com a poesia e a música, apresentam-se feito amantes. No espelho destes, a imagem que se reflete é o reverso de Narciso: Eco. Eco de amor, eco de dor, eco de vida, eco de morte. Eco da memória do idílio numa roda de canções que tange a corda do coração ad infinitum, movida por uma tensão própria à linguagem dos amantes.

Aquela que Gainsbourg plasmou também em outra canção, esta, sim, famosa em francês e que provocou forte abalo à época de seu lançamento. Eram então tempos de revolução no amor, na política e na vida social. “Je t’aime, moi non plus” (1967). Minha canção.

Ou aquela outra, por fim, que Jacques Prévert fixou nas areias movediças do belo poema de amor Sables Mouvants, em tradução de Adriano Scandolara:

Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
As marés se retiram, distantes
Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
E você
Como uma alga no lento afago do
vento
Sonha na areia do teu leito em movimento
Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
As marés se retiram, distantes
Mas ao ver de perto os teus olhos entreabertos
Duas ondinhas ficam entre os amantes
Demônios, maravilhas
Ventos e vazantes
Duas ondinhas para me afogar em instantes.

Imagem, entre tantas outras, desencadeada por esse assunto que teve um papel fundamental na filosofia dos surrealistas. A de resgatar no adulto a imaginação criadora, livre e desimpedida, da infância. Porque, conforme apontou um crítico francês, para os poetas desse movimento as palavras devem “fazer amor”:

E rolando como bola de fogo os lençóis ao pé da cama
Sorrindo pro mundo todo descobre
O quebra-cabeças do amor com todos os seus pedaços
Por Picasso escolhidos escolhidos todos os pedaços
Um amante e a amada e umas pernas em um pescoço
E os olhos nas bundas as mãos por todo lado
Pés levantados pro céu e os seios de cabeça pra baixo
Dois corpos enlaçados trocados acariciados
O amor decapitado liberto na cama extasiado

(tradução minha)

* * *

 

AS FOLHAS MORTAS
Jacques Prévert
Ah! eu queria tanto que você se lembrasse
dos dias felizes em que éramos amigos
Naqueles dias a vida era mais bela
e o sol mais ardente do que hoje
As folhas mortas recolhem-se com a pá
As lembranças e os lamentos também
E o vento do norte os leva ainda além
na noite fria do esquecimento
Ah! você está vendo, eu não esqueci
a canção que você cantava pra mim

É uma canção que se parece com a gente
Você me amava e eu te amava
e nós vivíamos juntos os dois
você que me amava e eu que te amava
mas a vida separa aqueles que se amam
assim bem de mansinho, sem fazer ruído
e o mar apaga na areia
os passos dos amantes desunidos

As folhas mortas recolhem-se com a pá
As lembranças e os lamentos também
Mas meu amor silencioso e fiel
à vida agradece e sempre sorri
Eu te amava tanto e você era tão linda
Como pode querer que eu te esqueça?
Naqueles dias a vida era mais bela
e o sol mais ardente do que hoje
você era a minha doce amiga
mas nada posso fazer senão lamentar
e a canção que você cantava
eu sempre sempre vou escutar

Oh! je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux ou nous étions amis
En ce temps-la la vie était plus belle,
Et le soleil plus brulant qu’aujourd’hui
Les feuilles mortes se ramassent a la pelle
Tu vois, je n’ai pas oublié…
Les feuilles mortes se ramassent a la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Et le vent du nord les emporte
Dans la nuit froide de l’oubli.
Tu vois, je n’ai pas oublié
La chanson que tu me chantais.

C’est une chanson qui nous ressemble
Toi, tu m’aimais et je t’aimais
Et nous vivions tous deux ensemble
Toi qui m’aimais, moi qui t’aimais
Mais la vie sépare ceux qui s’aiment
Tout doucement, sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Les pas des amants désunis.

Les feuilles mortes se ramassent a la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Mais mon amour silencieux et fidèle
Sourit toujours et remercie la vie
Je t’aimais tant, tu étais si jolie,
Comment veux-tu que je t’oublie?
En ce temps-la, la vie était plus belle
Et le soleil plus brulant qu’aujourd’hui
Tu étais ma plus douce amie
Mais je n’ai que faire des regrets
Et la chanson que tu chantais
Toujours, toujours je l’entendrai!

§

 

A CANÇÃO DE PRÉVERT
Serge Gainsbourg

Ah ! eu queria tanto que você se lembrasse
esta era a sua canção
era a sua preferida
a do Prévert e Kosma

E toda vez “As Folhas Mortas”
me fazem lembrar de você
todo dia os amores mortos
não acabam nunca de morrer
Eu também fico com outras
a elas me entrego sim
mas é monótona a canção delas
e pouco a pouco eu vou ficando indiferente
contra isso não tem o que fazer

Porque toda vez “As Folhas Mortas”
me fazem lembrar de você
todo dia os amores mortos
não acabam nunca de morrer

Será que um dia saberemos onde começa
e quando termina a indiferença?
Ah! que o outono passe e o inverno chegue
e a canção de Prévert “As Folhas Mortas”
esta canção se apague de vez da minha lembrança
Nesse dia, nesse dia enfim, meus amores mortos
terão morrido em mim

Oh je voudrais tant que tu te souviennes
Cette chanson était la tienne
C’était ta préférée, je crois
Qu’elle est de Prévert et Kosma

Et chaque fois les feuilles mortes
Te rappellent à mon souvenir
Jour après jour, les amours mortes
N’en finissent pas de mourir

Avec d’autres bien sûr je m’abandonne
Mais leur chanson est monotone
Et peu à peu je m’indiffère
À cela il n’est rien à faire

Car chaque fois les feuilles mortes
Te rappellent à mon souvenir
Jour après jour, les amours mortes
N’en finissent pas de mourir

Peut-on jamais savoir par où commence
Et quand finit l’indifférence
Passe l’automne, vienne l’hiver
Et que la chanson de Prévert

Cette chanson, les feuilles mortes
S’efface de mon souvenir
Et ce jour là, mes amours mortes
En auront fini de mourir

Et ce jour là, mes amours mortes
En auront fini de mourir

§

 

TE AMO, EU TAMBÉM NÃO
Lilian Escorel

Ah! eu queria tanto que você se lembrasse
essa era a nossa canção
não a do Prévert
a nossa era a do Gainsbourg

Naqueles dias nós éramos tão felizes
brincávamos naquela praia
nas noites quentes de verão
você era a minha onda
eu era a sua ilha nua
você ia e vinha no meu ventre
e eu te acolhia
você ia e vinha
e a onda crescia
você ia e vinha
e eu me retinha
você ia e vinha

até que exaustos
quebrávamos
na areia
fazendo muita espuma

os corpos
estendidos
juntos
bem unidos

Mas pouco a pouco
o tempo da dor chegou
e assim bem de mansinho
sem fazer ruído
o mar levou
nossos passos

Foi numa tarde fria de outono
que o nosso amor acabou

As folhas mortas recolhem-se com a pá
as lembranças e os lamentos também
foi assim que Jacques Prévert cantou

Sim, é certo,
as folhas mortas recolhem-se com a pá
mas nossa canção não
“Je t’aime, moi non plus”
sussurro dos amantes delirantes
irresolutos
essa canção de Gainsbourg
vai sempre ecoar
tocar a corda do meu coração

Padrão
poesia, tradução

Rose Ausländer (1901-1988), por Luiz Abdala Jr.

A história de Rose Ausländer ecoa a de milhares. Nascida no multifronteirístico Império Austro Húngaro, mais precisamente na região de Bucovina (entre o que hoje é a Romênia e a Ucrânia), em uma família de origem judaica da comunidade de língua alemã e iídiche da região, a poeta logo parte para os Estados Unidos com o objetivo superar a crise financeira que viviam os seus pais. Retorna a Bucovina no final dos anos 20, devido a um adoecimento da mãe, e depara-se logo de cara com os primeiros movimentos do horror nazista. Impedida de deixar Bucovina, sobrevive à ascensão do nazismo e à Segunda Guerra Mundial escondendo-se, com a mãe, em guetos da região. Já em 1946 parte novamente para os Estados Unidos, onde se estabelece por cerca de 20 anos e corta relações com a lírica moderna alemã, deixando não só de ler a poesia contemporânea em alemão como também de escrever no idioma, passando a compor em inglês. Vivendo em Nova York, Ausländer aproxima-se de nomes importantes do modernismo norte-americano tais como: Robert Frost, William Carlos Williams, T.S Eliot, E. E. Cummings… e também trava relações com a poeta Marianne Moore, uma forte influência para Ausländer. Apenas no final dos anos 50, bastante motivada por um encontro com o conterrâneo e companheiro de juventude, Paul Celan, Ausländer volta paulatinamente a escrever em alemão. Em 1967 retorna definitivamente à Alemanha e à lírica alemã, falecendo na cidade de Düsseldorf em 1988.

A trajetória errante da poeta é um dos motivos que atravessam o seu trabalho poético. A origem judaica, a relação conflituosa com o alemão, o exílio, a vivência nos Estados Unidos são experiências que se entreveem em uma poesia que jamais nega a língua, mas sempre a coloca em desconfiança, em uma relação de deslizar constante. Partindo da discussão adorniana sobre a possibilidade de fazer poesia após Auschwitz, Ausländer parece dizer que sim, pois “as palavras me ditam: escreva-nos[1]. Escrever não é apenas um gesto necessário, mas incontrolável na medida em que o escrever escreve-se no escritor. Porém, estendendo a discussão, qual é então a possibilidade de escrever poesia em alemão após Auschwitz?  Como escrever poesia na mesma língua de uma máquina de genocídio moderno? Como escrever em sua língua materna, mas que é também a língua que tentou te matar? Aqui as relações e vínculos se tornam mais delicados e conceitos unificadores como pátria e língua materna não parecem dar conta das relações sensíveis que a poesia estabelece com a linguagem. Nesse sentido, o trabalho poético de Rose Ausländer é também um gesto de testemunho e resistência. Testemunho das complexas relações sensíveis com as noções de território e língua, da experiência histórica-subjetiva e da memória, e resistência na medida em que as próprias noções de território e língua são colocadas em desestabilidade e diferença, em que o escrever em alemão jamais deixará de ser escrever na língua do nazismo, do horror, porém pode vir a ser também outra coisa, outras coisas. Em tempos em que estratégias de manipulação do discurso estão explícitas, apontando que modos de dizer não são somente modos diferentes de falar, mas de agir, Ausländer abre uma imprescindível reflexão sobre a palavra e as relações que com ela incessantemente construímos (e também destruímos). 

Os poemas aqui selecionados são de diferentes fases da poeta, mas mantém elos em comum. Todos eles foram retirados do livro Rose Ausländer – Gedichte (Fischer Verlag, 2012), coletânea organizada por Helmut Braun e que contempla parte considerável da produção poética da autora, que no total contabiliza mais de três mil poemas escritos.


[1]Weil Wörter mir diktieren: schreib uns”, trecho do ensaio Alles kann motiv sein da autora.

Zwischenzeilwort

Viele Gedichte gefunden
aber
Ich suche das Wort
Zwischenzeilwort
im bunten Buchstabentanz
Konsonanten Vokale
Vokabeln ich taste
die Weite und Tiefe
der Wörter
suche erfinden
das verstohlene
Wort

Palavra entre-linha

Muitos poemas encontraram
porém
Eu busco pela palavra
A palavra entre-linha
Na alegre roda da letra
Consoantes vogais
Verbetes tateio
a amplidão e o abismo
das palavras
procuro atinar
a furtiva
palavra

§

Mutterland

Mein Vaterland ist tot
sie haben es begraben
im Feuer

Ich lebe
in meinem Mutterland
Wort

Mátria

Minha pátria morreu
a enterraram
no fogo

Eu vivo
na minha mátria
Palavra

§

Ich vergesse nicht

Ich vergesse nicht

das Elternhaus
die Mutterstimme
den ersten Kuß
die Berge der Bukowina
die Flucht im ersten Weltkrieg
das Darben in Wien
die Bomben im zweiten Weltkrieg
den Einmarsch der Nazis
das Angstbeben im keller
den Arzt der unser Leben rettete
das bittersüße Amerika

Hölderlin Trakl Celan

meine Schreibqual
den Schreibzwang
noch immer

Eu não me esqueço

Eu não me esqueço

da casa dos pais
da voz da mãe
do primeiro beijo
dos montes de Bucovina
da fuga na primeira guerra
da penúria em Viena
das bombas na segunda guerra
da marcha nazista
do tremor no porão
do médico que salvou nossa vida
da agridoce América

Hölderlin Trakl Celan

minha aflição em escrever
a obsessão em escrever
de novo e de novo

§

Wer bin ich

Wenn ich verzweifelt bin
schreib ich Gedichte

Bin ich fröhlich
schreiben sich die Gedichte
in mich

Wer bin ich
wenn ich nicht
schreibe

Quem sou eu

Em desespero,
eu escrevo poemas

Quando contente,
os poemas se escrevem
em mim

Quem sou eu
Quando não
escrevo

§

Sätze

 Kristalle
unregelmäßig
kompakt und durchsichtig
hinter ihnen die Dinge
erkennbar

Diese Sucht
nach bindenden Worten
Satz an Satz
weiterzugreifen
in die bekannte
unbegreifliche
Welt

Frases

Cristais
irregulares
compactos e transparentes
detrás de si as coisas
reconhecíveis

Essa busca
pelas palavras atadas
frase na frase
apalpando apalpando
no conhecido
impalpável
mundo

§

Spiel

Treibst dein Spiel mit mir
Sprache
schon spielst du mir manchmal
mit

Spiel mit mit
ich bin alt
nicht älter als du
Traumwort

Finger
   Augen
       Worte
unendlicher Spielraum

Spiel mit mir
ich bin jung
nicht jünger als du
Traumwort

Wer spielt uns auf
wenn ich mit dir
mein Spiel treibe

du mich verspielst
an die Nacht

Jogo

Língua
conduza seu jogo comigo
às vezes você joga seu jogo
comigo

Jogue comigo
sou velha
não mais velha do que você
Verbonírico

Dedos
     Olhos
           Palavras
infinito jogo de dados

Jogue comigo
sou jovem
não mais jovem do que você
Verbonírico

Quem nos toca
quando eu jogo
meu jogo contigo

você me joga
para a noite

§

Was du nicht weißt

Als wüßtest du
woher

Als wüßten Wasser Sterne Luft

Was du nicht weißt
erschafft
dein Wort

unwissend
sicher

O que você não sabe

Como se você soubesse
da onde

Como se soubessem água estrelas ar

O que você não sabe
cria
sua palavra

desconhecida
segura

§

Mein Gedicht

Mein Gedicht
ich atme dich
ein und aus

Die Erde armet
dich und mich
aus und ein

Aus ihrem Atem geboren
mein Gedicht

Meu poema

Meu poema
te respiro
inspiro e expiro

A terra respira
eu e você
expira e inspira

Do seu respiro nasce
meu poema

§

Nicht vergessen I

Heute
hat ein Gedicht
mich wieder erschaffen

Ich freute mich
am Leben
bewunderte die Landschaft
vor meinem Fenster

Ich vergaß
das Gedicht zu schreiben
vergaß es

Es hat mich
nicht vergessen
kam zurück zu mir
und schrieb sich
in meine Worte

Não esquecer I

Hoje
um poema
novamente me criou

Me alegrei
com a vida
admirando a paisagem
da minha janela

Eu esqueci
de escrever o poema
esqueci

Ele não
esqueceu
veio logo até a mim
e se escreveu
nas minhas palavras

§

Mutter Sprache

Ich habe mich
in mich verwandelt
von Augenblick zu Augenblick

in Stücke zersplittert
auf dem Wortweg

Mutter Sprache
setzt mich zusammen

Menschmosaik

Língua mãe

De momento em momento
eu me transformei
em mim mesma

Estilhaçada em pedaços
no palavrandar

Língua mãe
me reconstrua

 Mosaico-humano

§

Miteinander

für Marie Luise Kaschnitz

Du
und der Kirschbaum
und die rasende Straße
und der Ozean
und der Blitz

Du
und deine Angst
und dein Zorn
und dein Aberglaube
und dein Glaube
             “Let My People Go”

Du
und der Stern
und das Wort Stern
und das Hauptwort
un das Nebenwort

und das Nebeneinander
und das Miteinander
und
   du

Convivência

para Marie Luise Kaschnitz

Você
e a cerejeira
e a rua rápida
e o oceano
e o relâmpago

Você
e o seu medo
e sua cólera
e sua superstição
e sua crença
     “Let My People Go”

Você
e a estrela
e a palavra estrela
e a palavra principal
e a palavra auxiliar

e a coexistência
e a convivência
e
     você

Padrão
tradução

Arquíloco de Paros (fr. 128 West), por Matheus Mavericco

archilochus1A poesia antiga nos encanta com quitutes tais como as peripécias homéricas ou os fragmentos de Safo, mas, se querem saber, nem sempre é fácil degustá-los da maneira devida. Precisamos despir praticamente toda a nossa indumentária conceitual antes de perambularmos pelas veredas da Hélade. O que hoje, por exemplo, nos apetece encontrar em poemas líricos, toda aquela de paz de espírito em saber que para além das fronteiras geográficas existem homens e mulheres que também padecem de um amor não correspondido, se num primeiro momento parece ser encontrável em restolhos poéticos antigos, numa análise mais detida revela-se como um verdadeiro baile de máscaras e personas regido pelo compasso do que a tradição e as convenções retóricas do tempo ditavam.

Com Arquíloco a armadilha permanece. Não são poucos os estudiosos que louvam em sua figura uma individualidade muito próxima da nossa, uma coisa pelo jeito mais aberta e franca do que a literatura grega até então tinha pra mostrar. Se a primeira impressão causada por sua poesia pode e deve ser debatida e contestada até que sintonizemos nossas antenas na frequência dos gregos, por outro lado, de maneira análoga ao que sentimos quando lemos o nosso árcade Tomás Antônio Gonzaga, no qual, como notou o Antonio Candido num texto certeiro sobre sua poesia, conseguimos ver, por trás de todas as convenções e lugares-comuns que acinzelavam a poesia do período, uma coisa mais palpável, mais direta, a figura de Marília recostada na janela e cruzando olhares ao acaso com os do poeta; de maneira análoga, eu diria, ao que parecemos sentir quando lemos o nosso Gonzaga, eu penso que podemos sentir lendo Arquíloco, este soldado nascido em Paros que conseguia mesclar o cotidiano militar a requintes de sensibilidade no mínimo desconcertantes. Vejam o caso de seu fragmento 13 W, de tonalidade muito próxima do 128 W, para o qual tomo a liberdade de fornecer ao leitor duas traduções:

fr. 13 W
κήδεα μὲν στονόεντα, Περίκλεες, οὔτε τις ἀστῶν
μεμφόμενος θαλίῃς τέρψεται οὐδὲ πόλις·
τοίους γὰρ κατὰ κῦμα πολυφλοίσβοιο θαλάσσης
ἔκλυσεν, οἰδαλέους δ᾿ ἀμφ᾿ ὀδύνῃς ἔχομεν
πνεύμονας. ἀλλὰ θεοὶ γὰρ ἀνηκέστοισι κακοῖσιν,
ὦ φίλ᾿, ἐπὶ κρατερὴν τλημοσύνην ἔθεσαν
φάρμακον. ἄλλοτε ἄλλος ἔχει τόδε· νῦν μὲν ἐς ἡμέας
ἐτράπεθ᾿, αἱματόεν δ᾿ ἕλκος ἀναστένομεν,
ἐξαῦτις δ᾿ ἑτέρους ἐπαμείψεται. ἀλλὰ τάχιστα
τλῆτε, γυναικεῖον πένθος ἀπωσάμενοι.

Hoje aos festins não vai folgar, ó Péricles,
Nem a cidade ou cidadão: prantos sem fim
Vertemos pelos náufragos que o cavo pélago
Tragou, e inchados os pulmões temos de dor.
Mas por consolo os deuses põem um fim ao mal
Que agora impõem a nós, depois aos outros.
Vai amanhã sentir alguém o mal que agora sentes,
Abandonemos fêmeo pranto, olhando em frente.

(trad. Antonio Medina Rodrigues)

Nosso pranto, Péricles, não será malvisto,
pois nas festas ninguém terá prazer:
bravos homens a onda do mar polissonante
levou, e a dor inflou-nos os pulmões.
Mas os deuses, meu amigo, aos males sem cura
deram por remédio a firme paciência.
O mal vem ora a uns, ora a outros: a nós
voltou-se, e a sangrenta chaga choramos;
mas logo cairá noutra parte. Vamos, deixe
o feminino choro e seja forte.

(trad. Marcelo Tápia)

O leitor encontrará uma reflexão ótima sobre a poesia de Arquíloco lendo o ensaio que o Guilherme dedicou ao poeta, publicado ano passado pela Zazie (clique aqui), no qual o ensaísta se vê diante do incômodo ético de traduzir, dentre outros, um fragmento recém-descoberto de Arquíloco que narra um estupro. No fragmento que trago abaixo pra vocês, de uma beleza e sabedoria aptas a serem destiladas em palestras motivacionais, existe uma construção curiosa que faz de um poema armado até os dentes de espírito bélico em uma conclamação suave dirigida ao coração, essa parte do corpo que corriqueiramente nos coloca para fora do prumo e que, para Arquíloco, é o nosso guerreirinho (<3).

Agradeço a Rafael Brunhara por, além de gentilmente ter transcrito as traduções de Aluízio Coimbra e Paula Corrêa (esta última dona, ao que me consta, de um finíssimo ensaio sobre Arquíloco), ceder sua primeira versão para o fragmento.

ARQUÍLOCO, fr. 128 West

θυμέ, θύμ’, ἀμηχάνοισι κήδεσιν κυκώμενε,
†ἀναδευ δυσμενῶν† δ’ ἀλέξεο προσβαλὼν ἐναντίον
στέρνον †ἐνδοκοισιν ἐχθρῶν πλησίον κατασταθεὶς
ἀσφαλέως· καὶ μήτε νικέων ἀμφάδην ἀγάλλεο,
μηδὲ νικηθεὶς ἐν οἴκωι καταπεσὼν ὀδύρεο,
ἀλλὰ χαρτοῖσίν τε χαῖρε καὶ κακοῖσιν ἀσχάλα
μὴ λίην, γίνωσκε δ’ οἷος ῥυσμὸς ἀνθρώπους ἔχει.

*

trad. Aluízio Coimbra [1941]

Coração, que insanáveis males cercam,
teus inimigos, peito a peito, enfrenta,
de perto e firme contra os seus embustes.
Vencedor, não blasones; nem, vencido,
no lar te prostres; mas desfruta, alegre,
o que é bom, sem que as penas te consumam,
e aprende que tal é da vida o ritmo.

*

trad. José Cavalcante de Souza [1978]
Coração, coração de imediatos nojos agitado,
levanta, às aflições resiste lançado em contrário
peito, a embustes de inimigos de perto contraposto
cim firmeza; e nem vencendo abertamente exultes
nem derrotado em casa abatido te lamentes,
mas com alegrias te alegra e com reveses te aflige
sem excesso; e conhece qual ritmo regra os homens.

*

trad. Paula Corrêa [1998 e 2009]

Coração, coração, por inelutáveis males conturbado,
ergue-te e, sendo hostil, defende-te lançando um peito
adverso, perto de inimigos emboscados permanecendo
firme, nem vencendo, abertamente exultes,
ou vencido, em casa caído lamentes,
mas com alegrias alegra-te e os males lastima
sem excesso, pois reconhece qual ritmo regra os homens.

*

trad. Maria Helena da Rocha Pereira [2003]
Coração, meu coração, que afligem penas sem remédio,
eia! Afasta os inimigos, opondo-lhes um peito
adverso. Mantém-te firme ao pé das ciladas
dos contrários. Se venceres, não exultes abertamente.
Vencido, não te deites em casa a gemer.
Mas goza as alegrias, dói-te com as desgraças,
sem exagero. Aprende a conhecer o ritmo que governa os homens.

*

trad. Carlos A. Martins de Jesus [2008]

Coração, ó coração, por males sem remédio derrubado,
ergue-te! Defende-te dos inimigos, opondo-lhes um peito
adverso, firme suportando as ciladas dos que te são hostis!
Se venceres, em demasia não rejubiles,
nem, vencido, em casa te deites em pranto.
Alegra-te antes com as alegrias, dói-te com as tristezas,
sem exagero. Aprende bem o ritmo que domina os homens.

*

trad. Rafael Brunhara [2008; 1ª versão]
Ânimo, ânimo, convulso por aflições sem cura,
Levanta, protege-te dos inimigos volvendo adverso
peito em infensas traições próximo postado
firme; E vencendo não exultes abertamente
nem vencido em casa caído lamentes,
Mas com alegrias alegra-te e deplora males
Sem excesso: conhece qual ritmo rege os homens.

*

trad. Glória Onelley e Shirley Peçanha [2013]

Coração, coração, perturbado por dores irremediáveis, levanta com coragem,
defende-te, lançando teu peito contra os inimigos,
colocando-te firmemente perto deles em emboscada!
Se venceres, não te enalteças publicamente,
nem, se vencido, te lamentes, deixando-te abater em casa.
Vamos, alegra-te com os prazeres e não te irrites em demasia com as infelicidades!
Reconhece que tal ritmo governa os homens.

*

trad. Leonardo Antunes [2014]
Alma minha, perturbada por tristezas incuráveis,
Põe-te em pé, defende-te dos que se lançam contra ti;
Peito firme frente as emboscadas dos teus inimigos.
Na vitória, não exultes em triunfo abertamente,
Nem te deixes abater em casa, sendo derrotada;
Mas alegra-te nas alegrias e lamenta os males
Sem excesso, conhecendo o ritmo que rege os homens.

Gravação: https://www.youtube.com/watch?v=cqqfGzvwVks

*

trad. Trajano Vieira [2017]

Coração, coração, turbado pela dor
incontornável, reage! Arroja o peito contra
o inimigo: estático, na expectativa
do ataque. Se venceres, nada de exultar
aos quatro ventos. Nada de gemer em casa,
se perdes. Goza do que apraz, modera a dor
no revés! Sabe o ritmo que domina os vivos!

*

trad. Guilherme Gontijo Flores [2018]
Peito, peito, combalido de imbatíveis aflições,
anda, avança, enfrenta frente a frente a força hostil e traz
todo o seio contra a horrenda multidão feroz de ardis,
firme, força! E não exultes caso acabes por vencer,
nem vencido vás tombar gemendo no teu próprio lar,
mas em teus deleites goza e em teus revezes chora, sim,
sem excessos, saibas: cada ritmo age em cada ser.

*

trad. Rafael Brunhara [2019; 2ª versão]

Coração, coração, por lutos inelutáveis agitado,
levanta, protege-te dos oponentes, volvendo adverso
peito, nas emboscadas inimigas próximo postado
firme; e vencendo, não exultes abertamente,
nem vencido, em casa caído lamentes,
mas com alegrias alegra-te e deplora males,
sem excesso: aprende que ritmo rege a humanidade.

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