poesia, tradução

“A traição da moendeira”, de Goethe, por Mauricio Mendonça Cardozo

Este poema, também conhecido como “A traição da moleira” [Der Müllerin Verrat], é parte do conto “La folle en pèlerinage“, publicado anonimamente em 1789 nos Cahiers de lecture, revista alemã que veiculava apenas textos em língua francesa. Sua autoria até hoje permanece desconhecida. Tomando algumas liberdades poéticas, Goethe traduz para o alemão o conto e o poema, inserindo o conjunto, sob o título de “A disparatada peregrina” [Die pilgernde Törin], no quinto capítulo do primeiro livro de sua obra Os anos de peregrinação de Wilhelm Meister (1821-1829). Nesse contexto, Goethe não atribui ao poema um título próprio.

Segundo anota uma das edições críticas da obra de Goethe (Hamburger AusgabeRomane und Novellen III, volume 8, p.569), o autor alemão não traduz a novela a partir da versão publicada em 1789, mas, sim, a partir de uma cópia manuscrita, com pequenas variações, até hoje disponível no Goethe- und Schiller-Archiv, em Weimar. Uma versão dita mais “literal”, traduzida para o alemão por seu secretário Riemer, pode também ter servido de base para a versão final de Goethe.

Seguindo a tradição das baladas populares e dos dramas musicais, o poema, em alemão, é uma canção formada por 10 oitavas, em tetrâmetros (octossilábicos) de pés jâmbicos. As estrofes, o padrão rímico e a predominância estrutural de células jâmbicas são reproduzidos nesta versão em português, que, no entanto, acomoda essa romança burlesca em versos dodecassílabos.

Mauricio Mendonça Cardozo (Curitiba, 1971) é professor de teoria da tradução e tradução literária na Universidade Federal do Paraná, em Curitiba (Brasil). É tradutor de autores como E. E. Cummings, Rainer Maria Rilke, Paul Celan, Heinrich Heine, Theodor Storm, entre outros, com destaque à tradução da autobiografia Poesia e Verdade, de Goethe, contemplada com o Prêmio Paulo Rónai de Tradução, em 2018. É autor do livro de poemas quarentaequatro (Circuito, 2016).

* * *

A traição da moendeira

D’onde ele vem com seu mantô e tão ligeiro,
Nem bem o dia alvoreceu no oriente?
Será que o vento frio o fez de passageiro
E edificou o nosso amigo penitente?
Quem foi, me digam: quem roubou o seu chapéu?
Será que anda a pés descalços por que gosta?
Por que caminhos, revirando terra e céu,
Chegou à mata regelada da alta encosta?

Estranhamente abandonou o seu chatô,
Onde ele sempre diversão pôde encontrar,
E se ele não tivesse em mãos o seu mantô,
Mas que vergonha que ele então iria passar!
Pois foi assim que alguém, pregando-lhe uma peça,
Pegou-lhe a roupa, pegou trouxa, pegou tudo:
O pobre amigo desvestido até a cabeça,
Por pouco não virou um Adão de tão desnudo.

Por que arriscar-se pela vida tão faceiro
Por uma fruta, fruto ensejo do dessiso,
Que de tão bela, no quintal do moendeiro,
Iguala àquela nos jardins do paraíso?
Não vai fazer mais uma destas outra vez;
Saiu correndo, ali não volta mais tão cedo!
Na noite fria, remoendo o seu revés,
Vai lamentando amargamente o desenredo:

– Não pude ler em seu olhar de fogo ardente
Uma só sílaba que fosse de traição!
Quando comigo, parecia tão contente,
Mas já tramava o negro intento de sua ação.
Pod’ria eu já ter sonhado nos seus braços
Quão traiçoeiro o coração dela batia?
Até o Cupido ela mandou deter o passo,
Que, demorando-se, brindou-nos com alegria.

– Aproveitou-se da paixão que me inebriava,
E aquela noite se estendeu sem mais ter fim,
Mas de manhã, raiando o dia, toda brava,
Saiu gritando por sua mãe, sem dó de mim!
Aí surgiu de uma só vez a parentada.
Foi tanta gente, mal cabiam num só quarto!
E veio irmão, irmã e a tia adoentada,
E veio primo, prima e um tio já tendo infarto!

– A gritaria furibunda estava feita!
Cada parente virou um bicho diferente.
“Flor e grinalda, só assim é que se ajeita!”,
É o que exigia ali de mim toda essa gente.
“Mas o que é isso? Vocês todos estão loucos?
Por que a pressão sobre esse moço tão ingênuo?
Não é nada fácil conquistar esses tesouros,
Isso demanda certo tato e algum engenho.

Saibam vocês que se o Cupido faz seus jogos,
Ele só joga quando chega o tempo certo:
Se no moinho a floração começa logo,
O fim dos anos em botão já está bem perto” –.
Roubaram então a trouxa e as roupas do rapaz
E até o mantô já estavam prestes a pegar.
Como é que toda aquela gente tão falaz
Foi se encovar numa casinha tão vulgar.

– Pois eu saltei e disparei trovões e raios,
Abri passagem pela turba alvoroçada;
E ainda pude olhar p’ra ela de soslaio,
Mas, ai de mim, como era bela a desgraçada!
O povo todo se rendeu à minha ira,
Mas sem deixar de desfiar o xingatório;
Dizendo coisas que é melhor que eu não refira,
Eu finalmente me livrei daquela escória.

– Dessas mocinhas do interior e da cidade,
Eu delas fujo como um gato rescaldado!
Que tal deixarem às damas d’alta sociedade
Esse prazer de desvestir os seus criados!?
Mas se vocês também são hábeis nessas artes
E não se atêm às sempiternas ligações,
Ao menos lembrem de variar o seu comparte,
E não me venham com essas suas delações –.

Cantava assim na noite fria o tremebundo,
Nem um só ramo em pleno inverno enverdecia.
Mas eu me rio de suas mágoas mais profundas,
Já que no fundo elas são mais que merecidas;
É o que acontece a qualquer um que, à luz do dia,
Engana a amada que o acompanha a vida inteira,
E à noite sem temer Cupido, em quem se fia,
Vai rastejando para os braços da moendeira.

Der Müllerin Verrat

Woher im Mantel so geschwinde,
Da kaum der Tag in Osten graut?
Hat wohl der Freund beim scharfen Winde
Auf einer Wallfahrt sich erbaut?
Wer hat ihm seinen Hut genommen?
Mag er mit Willen barfuß gehn?
Wie ist er in den Wald gekommen
Auf den beschneiten, wilden Höhn?

Gar wunderlich von warmer Stätte,
Wo er sich bessern Spaß versprach,
Und wenn er nicht den Mantel hätte,
Wie gräßlich wäre seine Schmach!
So hat ihn jener Schalk betrogen
Und ihm das Bündel abgepackt:
Der arme Freund ist ausgezogen,
Beinah wie Adam bloß und nackt.

Warum auch ging er solche Wege
Nach jenem Apfel voll Gefahr,
Der freilich schön im Mühlgehege
Wie sonst im Paradiese war!
Er wird den Scherz nicht leicht erneuen;
Er drückte schnell sich aus dem Haus,
Und bricht auf einmal nun im Freien
In bittre, laute Klagen aus:

»Ich las in ihren Feuerblicken
Doch keine Silbe von Verrat!
Sie schien mit mir sich zu entzücken
Und sann auf solche schwarze Tat!
Konnt ich in ihren Armen träumen,
Wie meuchlerisch der Busen schlug?
Sie hieß den raschen Amor säumen,
Und günstig war er uns genug.

Sich meiner Liebe zu erfreuen,
Der Nacht, die nie ein Ende nahm,
Und erst die Mutter anzuschreien
Jetzt eben, als der Morgen kam!
Da drang ein Dutzend Anverwandten
Herein, ein wahrer Menschenstrom!
Da kamen Brüder, guckten Tanten,
Da stand ein Vetter und ein Ohm!

Das war ein Toben, war ein Wüten!
Ein jeder schien ein andres Tier.
Da forderten sie Kranz und Blüten
Mit gräßlichem Geschrei von mir.
›Was dringt ihr alle wie von Sinnen
Auf den unschuld’gen Jüngling ein!
Denn solche Schätze zu gewinnen,
Da muß man viel behender sein.

Weiß Amor seinem schönen Spiele
Doch immer zeitig nachzugehn:
Er läßt fürwahr nicht in der Mühle
Die Blumen sechzehn Jahre stehn.‹ –
Da raubten sie das Kleiderbündel
Und wollten auch den Mantel noch.
Wie nur so viel verflucht Gesindel
Im engen Hause sich verkroch!

Da sprang ich auf und tobt’ und fluchte,
Gewiß, durch alle durchzugehn.
Ich sah noch einmal die Verruchte,
Und ach! sie war noch immer schön.
Sie alle wichen meinem Grimme,
Doch flog noch manches wilde Wort;
So macht’ ich mich mit Donnerstimme
Noch endlich aus der Höhle fort.

Man soll euch Mädchen auf dem Lande
Wie Mädchen aus den Städten fliehn!
So lasset doch den Fraun von Stande
Die Lust, die Diener auszuziehn!
Doch seid ihr auch von den Geübten
Und kennt ihr keine zarte Pflicht,
So ändert immer die Geliebten,
Doch sie verraten müßt ihr nicht.«

So singt er in der Winterstunde,
Wo nicht ein armes Hälmchen grünt.
Ich lache seiner tiefen Wunde,
Denn wirklich ist sie wohlverdient;
So geh’ es jedem, der am Tage
Sein edles Liebchen frech belügt
Und nachts, mit allzu kühner Wage,
Zu Amors falscher Mühle kriecht.

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Cecilia Pavón (1973—), por Danilo Diógenes

Cecilia Pavón é uma poeta argentina, nascida em Mendoza, em 1973. Vive em Buenos Aires, onde licenciou-se em Letras pela Universidade de Buenos Aires. Em 1999 fundou, junto com Fernanda Laguna, a editora e galeria Belleza y Felicidad, espaço que serviu de plataforma para a difusão de novos artistas e escritores.

Danilo Diógenes nasceu no Espírito Santo, em 1990. Vive no Rio de Janeiro. Licenciou-se em Letras (Português-Literaturas) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde cursa o mestrado em Ciência da Literatura e atua como coordenador adjunto do Núcleo Poesia do Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC).

* * *

Gonçalo

Nem em um milhão de anos

Volto a escrever entre drogados, mas
sem me drogar.
Junto a Gonçalo, vestido de jeans
ele tomou droga para cavalos, me pede
que o acompanhe para falar ao telefone
(com o hospital?) está atordoado, coitadinho
parece um pobre anjo ferido,
um pobre animal indefeso.
Por que você usou isso, Gonçalo?

Para provar, só para provar.

Estamos num shopping,
somos amigos do dono,
está fechado porque já é de madrugada
e há uma festa.

Caminhamos por este lugar tão grande
cheio de glamour, luxo, sofisticação.
O piso de parquet brilha.
Quando chegamos em sua casa ele se deita
como um peso morto
Deixa-se cair e tira a roupa.
Pare de escrever mentalmente,
ele me diz,
e me mostra
uma revista pornô que um amigo lhe deu de presente.
Não é uma revista vulgar,
é pornografia estetizada,
e agradeço aos céus por ter um
amante tão sutil esta noite

Uma mulher com oito picas na cara,
nunca tinha visto
algo parecido,
mas ela é bonita,
verdadeiramente bonita,
e parece muito segura do que está fazendo.

Fazemos amor e conversamos.
Estou cansada de tanto falar,
as letras misturam-se com qualquer coisa,
Minha mente e minha garganta se perdem.
Gonçalo me fala sobre a praia.
A praia é seu lugar favorito,
quer morrer na praia,
quer deixar tudo e ir para uma ilha deserta.
Eu,
não posso parar de olhar
as portas do armário,
vai de uma parede a outra,
não tem nada dentro.
Lindo armário,
lhe digo,
e como está bem decorada
a tua casa.
E ao escutar isso ele me abraça
com tanta paixão
e me dá milhões de beijos
os melhores beijos que recebi
os beijos que eu estava esperando

milhões de anos.

Gonzalo

No en un millón de años

Vuelvo a escribir entre drogados, pero
sin drogarme.
Junto a Gonzalo, vestido de jeans
tomó drogas para caballos, me pide que
lo acompañe a hablar por teléfono
(al hospital?) está mareado, pobrecito
parece un pobre ángel herido,
un pobre animal desamparado.
¿Por qué tomaste eso, Gonzalo?

Para probar, sólo para probar.

Estamos en un shopping,
somos amigos del dueño,
está cerrado porque ya es la madrugada
y hay una fiesta.

Caminamos por este lugar tan grande
lleno de glamour, lujo, sofisticación.
El piso de parquet brilla.
Cuando llegamos a su casa se acuesta
como un peso muerto
Se deja caer y se desviste.
Dejá de escribir con la mente
me dice,
y me muestra
una revista porno que le regaló un amigo
No es una revista vulgar,
es pornografía estetizada,
y le agradezco al cielo tener un
amante tan sutil esta noche

Una mujer con ocho pijas en la cara,
nunca había visto
algo parecido,
pero ella es hermosa,
verdaderamente hermosa,
y parece muy segura de lo que hace.

Hacemos el amor y conversamos.
Estoy exhausta de tanto hablar,
las letras se mezclan con cualquier cosa,
se me pierde la mente y la garganta.
Gonzalo habla sobre la playa.
La playa es su lugar preferido,
quiere morir en la playa,
quiere dejar todo e irse a una isla desierta.
Yo,
no puedo parar de mirar
las puertas del placard.
Va de pared a pared,
Adentro no hay nada.
Qué lindo placard,
le digo,
y qué bien decorada
está tu casa.
Y al escuchar esto me abraza
con tanta pasión
y me da millones de besos
los mejores besos que he recibido
los besos que estaba esperando
hace
millones de años.

[De Un hotel con mi nombre, 2012]

§ 

Balas de anis

Fecharam os shoppings, os bancos, os cinemas
você só pensa em se deixar levar como
essa vagabunda do filme
vanguardista, sem argumento, de que te falou
um amigo numa festa
Nunca foi a lugar nenhum
e quando pôde sair
só chegou a um país em que te roubaram
a imaginação.
E de volta
no aeroporto
os empregados da linha aérea tiveram que amarrar
com uma corda a sua mala
que explodiu por estar cheia de coisas.
Você ama as bicicletas ou a dança:
pensa que só elas poderiam te dar
um sentimento de mudança concreto
sai para buscar amigos
volta sozinha
os dias passam e você não liga para os telefones
anotados com letra tão pequena
em pedaços de papel
deixa-os na sacada
e o sol apaga os números.

Caramelos de anís

Cerraron los shoppings, los bancos, los cines
sólo pensás en dejarte llevar como
esa vagabunda de la película
vanguardista, sin argumento, de la que te habló
un amigo en un baile
Nunca fuiste ninguna parte
y cuando pudiste salir
sólo llegaste a un país en el que te robaron
la imaginación.
Y de vuelta
en el aeropuerto
los empleados de la aerolínea tuvieron que rodear
con una cuerda tu valija
que explotó por estar llena de cosas.
Amás las bicicletas o la danza:
pensás que sólo ellas podrían darte
un sentimiento de cambio concreto
salís a buscar amigos
volvés sola
pasan los días y no llamás a los teléfonos
anotados con letra tan pequeña
en papelitos
los dejás en el balcón
y el sol le borra los números.

[De Un hotel con mi nombre, 2012]

§

Desejo

Quantas formas de desejo existem? é possível haver tantas?
Não poderia haver um milagre, através do qual eu fechasse
os olhos e simplesmente te encontrasse me beijando e isso
trouxesse sobre si a marca da eternidade ou o infinito?

Mas deve haver tantos desejos quanto formas: quadrado,
com forma de flecha, redondo, triangular, com pontas,
com arestas, vertical, desfeito, inanimado.

Ainda lembro o momento em que o amor parecia
possível: mês de novembro, ar luminoso, um cara
dormia comigo,
conversávamos na cama enquanto fumávamos maconha
misturada com tabaco, ele segurava minha mão
por debaixo dos lençóis.

Faz seis meses que não beijo ninguém.
Seis meses sem fazer amor. Tenho 27 anos,
desde os 18 isso nunca tinha me acontecido.

Meu corpo em estado de alerta, poderia usar muitos verbos
para descrevê-los paredes que se levantam
e que são povoadas por espécies de hidras mentais.

É outono, lamento que o inverno se aproxime.
Sinto que me devem um verão.

Deseo

¿Cuántas formas de deseo existen? ¿puede ser que tantas?
¿No podría llegar un milagro, a través del cual yo cerrara
los ojos y simplemente te encontrara besándome y eso
cargara sobre sí la marca de la eternidad o el infinito?

Pero debe haber tantos deseos como formas: cuadrado,
con forma de flecha, redondo, triangular, con puntas,
con aristas, vertical, deshecho, inanimado.

Todavía recuerdo el momento en que el amor parecía
posible: mes de noviembre, aire luminoso, un muchacho
dormía conmigo,
hablábamos en la cama mientras fumábamos marihuana
y tabaco mezclados, él me tomaba la mano
bajo las sábanas.

Hace seis meses que no he besado a nadie.
Seis meses sin hacer el amor. Tengo 27 años,
desde los 18, nunca antes me había pasado.

Mi cuerpo en estado de alerta, podría usar muchos verbos
para describirlo paredes que se levantan
y que vienen a poblar especies de hiedras mentales.

Es otoño, lamento que se acerque el invierno.
Siento que me deben un verano.

[De Un hotel con mi nombre, 2012]

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poesia, tradução

Reinaldo Arenas (1943-1990), por Gilberto Clementino Neto

Reinaldo Arenas (Holguín, Cuba, 1943-1990), foi um poeta, dramaturgo e romancista cubano. É mais conhecido no Brasil por sua obra ficcional, embora apenas uma pequena parcela desta já tenha sido traduzida para o português. Seus poemas, entretanto, ainda não receberam a mesma atenção.

Usualmente referido por sua trajetória confundida com o movimento revolucionário cubano, do qual inicialmente fez parte, é de fato em relação ao regime castrista que sua obra oferece feições interpretativas mais evidentes.

De 1963 a 1968, Arenas esteve integrado aos esforços de formular um quadro independente de intelectuais em Cuba; trabalhou como pesquisador na Biblioteca Nacional José Martí, como editor no Instituto Cubano do Livro (Instituto Cubano del Libro) e na revista literária A Gazeta de Cuba (La gaceta de Cuba). Abertamente homossexual, Arenas foi por isso – e pela oposição à censura oficial que sua obra sofria – perseguido e finalmente preso. Foi um dos que, em 1980, conseguiu deixar Cuba e ir para os EUA, no famoso “Êxodo de Mariel”. Nos Estados Unidos, porém, conviveu com o vírus da Aids, até que no ano de 1990 cometeu suicídio em seu apartamento em Nova Iorque. Em uma nota de despedida, declarou-se afinal livre.

A obra poética de Reinaldo Arenas reflete com frequência essa condição insular permanente. Da experiência da pobreza extrema nos anos do regime de Fulgêncio Batista, à posição de dissidente político durante os anos de Castro e, por fim, à de imigrante pobre no coração do capitalismo, Arenas nomeia sua constante inadequação. Mesmo nessa posição, aliás bastante característica em toda poesia moderna, o autor encontrou, no entanto, sua voz na “vontade de viver manifestando-se”.

Os poemas aqui selecionados são oriundos de diversas fases da vida do autor, desde Cuba até os EUA, mas o que há de comum a todos eles é um estado de dramaticidade representado ora pela brevidade coerente do soneto ora pela liberdade do derramamento formal. Sempre cônscio de uma interioridade negada, os poemas de Arenas carregam a agitação vital de um espírito transportado da morte figurada socialmente à morte enfim contemplada.

Todos os seus poemas foram reunidos, em 2001, no volume (ainda inédito no Brasil) Inferno: poesía completa, com prólogo de Juan Abreu.                                                                        

Gilberto Clementino Neto (Olinda, 1988) é poeta e doutorando em Teoria da Literatura pela UFPE.

* * *

Vontade de viver manifestando-se

Agora me comem.
Agora sinto como sobem e me puxam das unhas.
Ouço seu roer chegar-me até os testículos.
Terra, me lançam terra.
Dançam, dançam sobre este monte de terra
E pedra
Que me cobre.
Me esmagam e insultam.
Repetindo não sei que aberrante solução que me atinja.
Me sepultaram.
Dançaram sobre mim.
Aplanaram bem o solo.
Foram, foram deixando-me bem morto e enterrado.
Este é meu momento.

Voluntad de vivir manifestándose

Ahora me comen.
Ahora siento cómo suben y me tiran de las uñas.
Oigo su roer llegarme hasta los testículos.
Tierra, me echan tierra.
Bailan, bailan sobre este montón de tierra
Y piedra
Que me cubre.
Me aplastan y vituperan.
Repitiendo no sé qué aberrante resolución que me atañe.
Me han sepultado.
Han danzado sobre mí.
Han apisonado bien el suelo.
Se han ido, se han ido dejándome bien muerto y enterrado.
Este es mi momento.

§

Não é o morto quem provoca o estupor

Não é o morto quem provoca o estupor
é a surpresa de ver como olvidamos
sua própria morte, nossa grande dor.
Fica o morto, nós embora vamos.

Não é o morto, não, quem se retira.
Somos nós que vamos debatendo,
sobre o cadáver que, mudo, nos mira,
a possibilidade de seguir sobrevivendo.

Quando na memória ao morto divisamos
(jogos do tempo, macabro despejador)
não é pois ao morto a quem estamos vendo:

Somos nós que, tétricos, ficamos
ao ver como olhamos sem horror
ao que no grande horror vai apodrecendo.

No es el muerto quien provoca el estupor

No es el muerto quien provoca el estupor
es la sorpresa de ver cómo olvidamos
su propia muerte, nuestro gran dolor.
Queda el muerto, nosotros nos marchamos.

No es el muerto, no, quien se retira.
Somos nosotros que vamos discutiendo,
sobre el cadáver que mudo nos mira,
la posibilidad de seguir sobreviviendo.

Cuando en la memoria al muerto divisamos
(juegos del tiempo, macabro escanciador)
no es pues al muerto a quien estamos viendo:

Somos nosotros que tétricos quedamos
al ver cómo miramos sin horror
al que en el gran horror se va pudriendo.

(La Habana, 1970)

§ 

De modo que Cervantes era manco

De modo que Cervantes era manco;
surdo, Beethoven, Villon, ladrão;
Góngora de tão louco andava de tamanco.
E Proust? Desde já, viadão.

Negreiro, sim, foi Don Nicolás Tanco,
e Virgínia suprimiu-se de um mergulhão,
Lautréamont morreu paralisado em algum banco.
Ai de mim, também Shakespeare era viadão.

Também Leonardo e Federico García,
Whitman, Michelangelo e Petrônio,
Gide, Genet e Visconti, as fatais.

Esta é, senhores, a breve biografia
(puxa, esqueci de mencionar Santo Antônio!)
de quem são da arte sólidos pontuais.

De modo que Cervantes era manco

De modo que Cervantes era manco;
sordo, Beethoven; Villon, ladrón;
Góngora de tan loco andaba en zanco.
¿Y Proust? Desde luego, maricón.

Negrero, sí, fue Don Nicolás Tanco,
y Virginia se suprimió de un zambullón,
Lautréamont murió aterido en algún banco.
Ay de mí, también Shakespeare era maricón.

También Leonardo y Federico García,
Whitman, Miguel Ángel y Petronio,
Gide, Genet y Visconti, las fatales.

Ésta es, señores, la breve biografía
(¡vaya, olvidé mencionar a san Antonio!)
de quienes son del arte sólidos puntuales.

(La Habana, 1971)

§

Tu e eu estamos condenados

Tu e eu estamos condenados
pela ira de um senhor que não mostra o rosto
a dançar sobre um território calcinado
ou a nos esconder no cu de algum monstro

Tu e eu sempre prisioneiros
daquela maldição desconhecida.
Sem viver, lutando pela vida.
Sem cabeça, pondo-nos sombreiro.

Vagabundos sem tempo e sem espaço,
uma noite incessante nos envolve,
nos enreda os pés, nos entorpece.

Caminhamos sonhando um grande palácio
e o sol sua imagem quebrada nos devolve
transformada em prisão que nos guarnece.

Tu y yo estamos condenados

Tú y yo estamos condenados
por la ira de un señor que no da el rostro
a danzar sobre un paraje calcinado
o a escondernos en el culo de algún monstruo.

Tú y yo siempre prisioneros
de aquella maldición desconocida.
Sin vivir, luchando por la vida.
Sin cabeza, poniéndonos sombrero.

Vagabundos sin tiempo y sin espacio,
una noche incesante nos envuelve,
nos enreda los pies, nos entorpece.

Caminamos soñando un gran palacio
y el sol su imagen rota nos devuelve
transformada en prisión que nos guarece.

(La Habana, 1971)

§

Menino velho

Eu sou esse menino de cara redonda e suja
que em cada esquina os incomoda com seu
“can you spend another quarter”

Eu sou esse menino de cara suja
-sem dúvida inoportuno-
que de longe contempla as carruagens
de onde outros meninos emitem risos e saltos consideráveis

Eu sou esse menino desagradável
-sem dúvida inoportuno-
de cara redonda e suja que ante os grandes faróis
ou sob as grandes damas também iluminadas
ou ante as meninas que parecem levitar
projeta o insulto de sua cara redonda e suja.

Eu sou esse menino tosco, melhor dizendo cinza,
que envolto em lamentáveis combinações
põe uma nota escura sobre a neve
ou sobre o gramado tão cuidadosamente cortado
que ninguém senão eu, porque não pago multas, se atreve a pisotear.

Eu sou esse distraído e sozinho menino de sempre
que os lança o insulto do menino sozinho de sempre
e os adverte: se hipocritamente me acariciares a cabeça
aproveitarei a ocasião para afanar-lhes a carteira.

Eu sou esse menino de sempre
ante o panorama do iminente espanto.
Esse menino, esse menino,
esse menino que corrompe o poema com sua nota naturalista.
Esse menino, esse menino,
esse menino que impõe árduos e chatos ensaios,
e até romances, ainda mais chatos, sobre “os bairros malfalados”.
Esse menino, esse menino,
esse menino de cara distraída e suja que impõe árduas
e sinistras revoluções
para logo continuar com sua cara ainda mais distraída e suja
Esse menino, esse menino,
esse menino ante o panorama sempre iminente
(só iminente)
do iminente espanto, da iminente lepra, do iminente
piolho,
do delito ou do crime iminentes.
Eu sou esse menino repulsivo que improvisa uma cama
com papelões velhos e espera, seguro, que você venha a
lhe fazer companhia.

Niño viejo

Yo soy ese niño de cara redonda y sucia
que en cada esquina os molesta con su
“can you spend one quarter”

Yo soy ese niño de cara sucia
–sin duda inoportuno–
que de lejos contempla los carruajes
donde otros niños emiten risas y saltos considerables.

Yo soy ese niño desagradable
–sin duda inoportuno–
de cara redonda y sucia que ante los grandes faroles
o bajo las grandes damas también iluminadas
o ante las niñas que parecen levitar
proyecta el insulto de su cara redonda y sucia

Yo soy ese niño hosco, más bien gris,
que envuelto en lamentables combinaciones
pone una nota oscura sobre la nieve
o sobre el césped tan cuidadosamente recortado
que nadie sino yo, porque no pago multas se atreve a pisotear.

Yo soy ese airado y solo niño de siempre
que os lanza el insulto del solo niño de siempre
y os advierte: si hipócritamente me acariciáis la cabeza
aprovecharé la ocasión para levantarles la cartera.

Yo soy ese niño de siempre
ante el panorama del inminente espanto.
Ese niño, ese niño,
ese niño que corrompe el poema con su nota naturalista.
Ese niño, ese niño,
ese niño que impone arduos y aburridos ensayos
y hasta novelas, aún más aburridas, sobre “los bajos fondos”.
Ese niño, ese niño,
ese niño de cara airada y sucia que impone arduas
y siniestras revoluciones
para luego seguir con su cara aún más airada y sucia.
Ese niño, ese niño
ese niño ante el panorama siempre inminente
(sólo inminente)
del inminente espanto, de la inminente lepra, del inminente
piojo,
del delito o del crimen inminentes.
Yo soy ese niño repulsivo que improvisa una cama
con cartones viejos y espera, seguro, que venga usted a
hacerle compañía.

§

Antes que anoiteça

Ó lua! Sempre estiveste ao meu lado, alumbrando-me nos momentos mais terríveis; desde minha infância foste o mistério que velaste pelo meu terror, foste o consolo nas noites mais desesperadas, foste minha própria mãe, banhando-me em um calor que ela talvez nunca soube brindar-me; em meio ao bosque, nos lugares mais tenebrosos, no mar; ali estavas tu acompanhando-me; eras meu consolo, sempre foste a que me orientaste nos momentos mais difíceis. Minha grande deusa, minha verdadeira deusa, que me tem protegido de tantas calamidades; para você no meio do mar; para você junto à costa; para você entre as costas da minha ilha desolada. Elevava o olhar e te via; sempre a mesma; no teu rosto via uma expressão de dor, de amargura, de compaixão para mim; teu filho. E agora, subitamente, lua, estouras em pedaços diante da minha cama. Já estou sozinho. É de noite.

Antes que anochezca

¡Oh Luna! Siempre estuviste a mi lado, alumbrándome en los momentos más terribles; desde mi infancia fuiste el misterio que velaste por mi terror, fuiste el consuelo en las noches mas desesperadas, fuiste mi propia madre, bañándome en un calor que ella tal vez nunca supo brindarme; en medio del bosque, en los lugares más tenebrosos, en el mar; allí estabas tu acompañándome; eras mi consuelo, siempre fuiste la que me orientaste en los momentos más difíciles. Mi gran diosa, mi verdadera diosa, que me has protegido de tantas calamidades; hacia ti en medio del mar; hacia ti junto a la costa; hacia ti entre las costas de mi isla desolada. Elevaba la mirada y te miraba; siempre la misma; en tu rostro veía una expresión de dolor, de amargura, de compasión hacia mí; tu hijo. Y ahora, súbitamente, luna, estallas en pedazos delante de mi cama. Ya estoy solo. Es de noche.

§

Autoepitáfio

 Mau poeta apaixonado pela lua,
não teve mais destino que o espanto;
e foi suficiente pois como não era um santo
sabia que a vida é risco ou abstinência,
que toda grande ambição é grande demência
e que o mais sórdido horror tem seu encanto.
Viveu para viver o que é ver a morte
como algo cotidiano a que apostamos
um corpo esplêndido ou toda nossa sorte.
Soube que o melhor é aquilo que deixamos
-precisamente porque nos vamos-.
Todo o cotidiano resulta aborrecível,
há somente um lugar para viver, o impossível.
Conheceu a prisão, o ostracismo,
o exílio, as múltiplas ofensas
típicas da vileza humana;
mas sempre o escoltou certo estoicismo
que o ajudou a caminhar por cordas tensas
ou a desfrutar da manhã esplendente.
E, quando já se bamboleava, uma janela insurgente
pela qual se lançava ao infinito.
Não quis cerimônia, discurso, duelo ou grito,
nem um túmulo de arena onde repousasse o esqueleto
(nem depois de morto quis viver quieto).
Ordenou que suas cinzas fossem lançadas ao mar
onde haverão de fluir constantemente.
Não perdeu o costume de sonhar:
espera que em suas águas mergulhe algum adolescente.

Autoepitafio

Mal poeta enamorado de la luna,
no tuvo más fortuna que el espanto;
y fue suficiente pues como no era un santo
sabía que la vida es riesgo o abstinencia,
que toda gran ambición es gran demencia
y que el más sórdido horror tiene su encanto.
Vivió para vivir que es ver la muerte
como algo cotidiano a la que apostamos
un cuerpo espléndido o toda nuestra suerte.
Supo que lo mejor es aquello que dejamos
-precisamente porque nos marchamos-.
Todo lo cotidiano resulta aborrecible,
sólo hay un lugar para vivir, el imposible.
Conoció la prisión, el ostracismo,
el exilio, las múltiples ofensas
típicas de la vileza humana;
pero siempre lo escoltí cierto estoicismo
que le ayudó a caminar por cuerdas tensas
o a disfrutar del esplendor de la mañana.
Y cuando ya se bamboleaba surgía una ventana
por la cual se lanzaba al infinito.
No quiso ceremonia, discurso, duelo o grito,
ni un túmulo de arena donde reposase el esqueleto
(ni después de muerto quiso vivir quieto).
Ordenó que sus cenizas fueran lanzadas al mar
donde habrán de fluir constantemente.
No ha perdido la costumbre de soñar:
espera que en sus aguas se zambulla algún adolescente.

(Nueva York, 1989)

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poesia, tradução

Um salmo de John Milton, por Cesar Veneziani

BEM AVENTURADA TRADUÇÃO

Traduzir poesia obriga o tradutor a enfrentar uma incontável quantidade de problemas. Traduzir poesia que se baseia num texto canônico e sensível a uma gama ainda maior de intenções e significados é um desafio multiplicado. Essa multiplicação de dificuldades é o que se apresenta ao se traduzir o “Psalm II” de John Milton (“The Poetical Works of John Milton”, Oxford, Clarendon Press, 1900). O Salmo II, texto bíblico traduzido em poema por Milton em 1653 a partir do hebraico e cotejando com a vulgata, a tradução latina e ainda, certamente, também cotejando com a recém-publicada King James Version – KJV de 1611, tida hoje em dia como uma tradução exemplar da bíblia em língua inglesa, exige para sua tradução poética para o português o mesmo procedimento, uma vez tratar-se de texto doutrinário e sagrado para milhões de leitores.

Antes de qualquer coisa, analisemos o poema. O Salmo II de Milton é apresentado em terça rima e os versos são pentâmetros iâmbicos. A reprodução desta forma adotando-se o decassílabo como correspondente do pentâmetro iâmbico é uma opção imediata.

Com a devida atenção ao cuidado que o texto exige, buscamos traduzi-lo tendo à mão o correspondente bíblico em português que mais se identifica com a KJV, a tradução de João Ferreira de Almeida feita também ao final do século XVII (Almeida Revista e Atualizada – ARA, consultada em 11/07/2018 no site http://biblia.com.br/joaoferreiraalmeidarevistaatualizada/salmos/sl-capitulo-2/).

Apresentamos a seguir o poema de Milton, a tradução de Almeida e a nossa tradução do poema de Milton apoiada no texto de Almeida.

Cesar Veneziani

* * *

PSAL. II. Done Aug. 8. 1653. Terzetti. – John Milton

Why do the Gentiles tumult, and the Nations
      Muse a vain thing, the Kings of th’earth upstand
      With power, and Princes in their Congregations
Lay deep their plots together through each Land,
      Against the Lord and his Messiah dear.
      Let us break off, say they, by strength of hand
Their bonds, and cast from us, no more to wear,
      Their twisted cords: he who in Heaven doth dwell
      Shall laugh, the Lord shall scoff them, then severe
Speak to them in his wrath, and in his fell
      And fierce ire trouble them; but I saith hee
      Anointed have my King (though ye rebell)
On Sion my holi’ hill. A firm decree
      I will declare; the Lord to me hath say’d
      Thou art my Son I have begotten thee
This day; ask of me, and the grant is made;
      As thy possession I on thee bestow
      Th’Heathen, and as thy conquest to be sway’d
Earths utmost bounds: them shalt thou bring full low
      With Iron Scepter bruis’d, and them disperse
      Like to a potters vessel shiver’d so.
And now be wise at length ye Kings averse
      Be taught ye Judges of the earth; with fear
      Jehovah serve, and let your joy converse
With trembling; kiss the Son least he appear
      In anger and ye perish in the way
      If once his wrath take fire like fuel sere.
Happy all those who have in him their stay.

Salmos – Capítulo 2 – Almeida

  1. Por que se enfurecem os gentios e os povos imaginam coisas vãs?
  2. Os reis da terra se levantam, e os príncipes conspiram contra o SENHOR e contra o seu Ungido, dizendo:
  3. Rompamos os seus laços e sacudamos de nós as suas algemas.
  4. Ri-se aquele que habita nos céus; o Senhor zomba deles.
  5. Na sua ira, a seu tempo, lhes há de falar e no seu furor os confundirá.
  6. Eu, porém, constituí o meu Rei sobre o meu santo monte Sião.
  7. Proclamarei o decreto do SENHOR: Ele me disse: Tu és meu Filho, eu, hoje, te gerei.
  8. Pede-me, e eu te darei as nações por herança e as extremidades da terra por tua possessão.
  9. Com vara de ferro as regerás e as despedaçarás como um vaso de oleiro.
  10. Agora, pois, ó reis, sede prudentes; deixai-vos advertir, juízes da terra.
  11. Servi ao SENHOR com temor e alegrai-vos nele com tremor.
  12. Beijai o Filho para que se não irrite, e não pereçais no caminho; porque dentro em pouco se lhe inflamará a ira. Bem-aventurados todos os que nele se refugiam.

Salmo II – Feito Fev 10. 2018. Tradução em tercetos.

Porque será que os pobres se enfurecem
      E os povos coisas vãs tenham sentido?
      E se erguem reis e príncipes que tecem
Traições contra o Senhor e seu Ungido
      Dizendo: “Laços rotos, sem correntes”!
      Por todo o céu um riso então é ouvido.
Quem mora nas alturas, sorridente,
      Senhor que deles zomba, em tom irado
      No tempo certo irá até o descrente
Para deixá-lo assim desconcertado.
      Mas eu, porém, constituí meu Rei
      Ali por sobre o monte Sião sagrado
As leis do meu Senhor eu proclamei.
      E dele, emocionado, ouvi as lições:
      Tu és meu filho, eu hoje te gerei
Pede-me e te darei estas nações
      De herança e até as terras mais distantes
      Farei que sejam tuas possessões.
De ferro o teu cajado em mãos vibrantes
      Que guiam ou que quebram qual uns pratos,
      Quem se insurgir com ar desafiante.
Agora, pois, ó reis, sede sensatos,
      Deixai-vos ser levados ao Senhor
      Terrenos juízes, não sedes ingratos,
Servi com fé e com todo o seu fervor
      Beijai o Filho, em sua aparição
      E nele siga alegre com temor.
Não pereçais em tua direção
      Pois chega o tempo em que serás julgado
      E quem nele refúgio busca então
Será de todo bem aventurado.

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poesia, tradução

Adrienne Rich, por Sarah Valle

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Adrienne Rich (1929 – 2012) foi uma poeta norte-americana, pensadora e ativista, ícone feminista, também reconhecida pela ampla militância em prol de direitos humanos. Vinte e um poemas de amor (1976) integram o livro O sonho de uma língua comum, conjugando a história do silenciamento coletivo e o diálogo amoroso. Além de poemas a uma amante, são atos mentais de consciência e vontade, assumindo responsabilidade frente às forças que minam o relacionamento narrado. A sequência já foi chamada de a “primeira abertamente lésbica” escrita por uma autora norte-americana de renome e um “marco histórico” no Women’s Liberation Movement.

Sobre a tradução

Apesar de diretos, dialógicos e cortantes, os poemas de Adrienne muitas vezes se fazem nas bordas do verso regular. Vinte e um poemas de amor flertam com as sequências de sonetos de amor, de forma a inserir um tema renegado numa forma canônica repaginada. A partir da percepção de que nesses “quase sonetos” há um metro fantasma, o pentâmetro iâmbico, recrio na tradução um flerte com os versos tradicionais decassílabos, hendecassílabos e dodecassílabos, contudo diluídos. Especialmente no início, os poemas tendem à lembrança da métrica, acabando por vezes em finais antiestéticos. Incluo nesta amostra o “poema flutuante, não numerado”, que resiste a ser enquadrado na sequência e surpreende quem espera de Adrienne poemas mentais. Este é meu primeiro exercício de tradução e durou os anos do mestrado. A tarefa de alcançar um tom médio entre a tradição e o caráter direto engessou um pouco os poemas. Ainda assim, suponho que incorporam a tensão entre ato estético e ato político e colocam contra a parede a tradição literária de língua inglesa, bem como a tradição literária de minha própria língua.

Sarah Valle

*

VI
Suas mãos pequenas, tão iguais às minhas—
só o polegar é mais largo, longo—nessas mãos
eu entregaria o mundo, ou em muitas mãos como essas,
manuseando ferramentas, volantes
ou tocando um rosto. . . Tais mãos poderiam recolocar
a criança não nascida no canal do parto
ou pilotar o exploratório navio de resgate
por entre icebergs, ou reunir
os cacos feito agulhas de uma grande cratera grega
sustentando à sua volta
silhuetas de mulheres em êxtase dando grandes passos
rumo à gruta da sibila ou à caverna de Elêusis—
tais mãos poderiam comportar uma violência inevitável
com tal restrição, com um tal senso
dos alcances e limites da violência
que toda violência seria, dali em diante, obsoleta.

VI
Your small hands, precisely equal to my own—
only the thumb is larger, longer—in these hands
I could trust the world, or in many hands like these,
handling power-tools or steering-wheel
or touching a human face. . . Such hands could turn
the unborn child rightways in the birth canal
or pilot the exploratory rescue-ship
through icebergs, or piece together
the fine, needle-like sherds of a great krater-cup
bearing on its sides
figures of ecstatic women striding
to the sibyl’s den or the Eleusinian cave—
such hands might carry out an unavoidable violence
with such restraint, with such a grasp
of the range and limits of violence
that violence ever after would be obsolete.

§

VIII
Vejo-me há muitos anos em Sunião
sofrendo com um pé infeccionado, Filoctetes
em forma de mulher, mancando pelo longo caminho,
deitada num cabo sobre o mar escuro,
olhando embaixo as rochas rubras onde uma linha muda
e branca me contou que uma onda as golpeara,
supondo a tração da água àquela altura,
sabendo que suicídio deliberado não era meu métier,
no entanto todo tempo aleitando, aferindo a ferida.
Bem, isso está acabado. A mulher que acarinhava
seu sofrimento está morta. Sou sua descendente.
Amo a malha de cicatrizes que ela me concedeu,
mas quero seguir daqui com você
resistindo à tentação de fazer da dor uma carreira.

VIII
I can see myself years back at Sunion
hurting with an infected foot, Philoctetes
in woman’s form, limping the long path,
lying on a headland over the dark sea,
looking down the red rocks to where a soundless curl
of white told me a wave had struck,
imagining the pull of that water from that height,
knowing deliberate suicide wasn’t my métier,
yet all the time nursing, measuring that wound.
Well, that’s finished. The woman who cherished
her suffering is dead. I am her descendant.
I love the scar-tissue she handed on to me,
but I want to go on from here with you
fighting the temptation to make a career of pain.

§

IX
Seu silêncio de hoje é um poço onde vivem submersas
coisas que eu quero ver alçadas, pingando ao sol.
Não é meu próprio rosto que vejo ali, mas outros rostos,
até mesmo o seu rosto em outra idade.
O que quer que esteja perdido ali é necessário a ambas—
um relógio de ouro velho, um gráfico de febre borrado,
uma chave. . . Mesmo os seixos e o lodo do fundo
merecem seu lampejo de percepção. Temo esse silêncio,
essa vida inarticulada. Espero
um vento suave que abra esse lençol d’água
finalmente, e me mostre o que fazer
por você, que tantas vezes tornou o inomeável
nomeável para outros, até para mim.

IX
Your silence today is a pond where drowned things live
I want to see raised dripping and brought into the sun.
It’s not my own face I see there, but other faces,
even your face at another age.
Whatever’s lost there is needed by both of us—
a watch of old gold, a water-blurred fever chart,
a key. . . Even the silt and pebbles of the bottom
deserve their glint of recognition. I fear this silence,
this inarticulate life. I’m waiting
for a wind that will gently open this sheeted water
for once, and show me what I can do
for you, who have often made the unnameable
nameable for others, even for me.

§

(O POEMA FLUTUANTE, NÃO NUMERADO)

Aconteça conosco o que for, seu corpo
vai assombrar o meu—delicado, terno
quando faz amor, como a rama espiralada
do broto de samambaia em bosques
recém-banhados pelo sol. Suas coxas viajadas, generosas
entre as quais meu rosto inteiro goza e goza—
a inocência e a sabedoria do lugar que a minha língua achou ali—
a dança viva, insaciável, dos seus mamilos na minha boca—
seu toque em mim, firme, protetor, que me
busca, sua língua forte e seus dedos esguios
atingindo onde esperei tantos anos por você
na minha caverna rosa-molhada—aconteça o que for: é isso.

(THE FLOATING POEM, UNNUMBERED)

Whatever happens with us, your body
will haunt mine—tender, delicate
your lovemaking, like the half-curled frond
of the fiddlehead fern in forests
just washed by sun. Your traveled, generous thighs
between which my whole face has come and come—
the innocence and wisdom of the place my tongue has found there—
the live, insatiate dance of your nipples in my mouth—
your touch on me, firm, protective, searching
me out, your strong tongue and slender fingers
reaching where I had been waiting years for you
in my rose-wet cave—whatever happens, this is.

§
XIV
Sua visão do piloto confirmou
minha visão de você: você disse, Ele atira
o barco contra as ondas, de propósito
enquanto nos encolhemos no alçapão aberto
vomitando em sacos plásticos
durante três horas entre St. Pierre e Miquelon.
Nunca me senti tão próxima a você.
Na cabine apertada onde os casais em lua-de-mel
se amontoavam nos colos e braços uns dos outros
coloquei minha mão sobre sua coxa
para nos confortar, e sua mão veio sobre a minha,
ficamos assim, sofrendo juntas
em nossos corpos, como se todo o sofrimento
fosse físico, nos tocando na presença
de estranhos que nada sabiam nem se importavam
vomitando suas dores privadas
como se todo sofrimento fosse físico.

XIV
It was your vision of the pilot
confirmed my vision of you: you said, He keeps
on steering headlong into the waves, on purpose
while we crouched in the open hatchway
vomiting into plastic bags
for three hours between St. Pierre and Miquelon.
I never felt closer to you.
In the close cabin where the honeymoon couples
huddled in each other’s laps and arms
I put my hand on your thigh
to comfort both of us, your hand came over mine,
we stayed that way, suffering together
in our bodies, as if all suffering
were physical, we touched so in the presence
of strangers who knew nothing and cared less
vomiting their private pain
as if all suffering were physical.

§

Sarah Valle é mestre em Estudos da Tradução pela Universidade de São Paulo. É autora da novela Arquitetura do Sim – fragmentos de um diário da Ásia (2018, Editora Cozinha Experimental).

Padrão
tradução

Anne Boyer (1973-), por Rafael Mantovani

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Anne Boyer (nascida em 1973) é uma poeta e ensaísta dos EUA. É vencedora de alguns prêmios de poesia e atualmente leciona no Kansas City Art Institute. Entre seus livros publicados, destacam-se “Garments Against Women” (2015) e “A Handbook of Disappointed Fate” (2018). Para 2019 está previsto seu novo livro de poemas, “The Undying”, acerca de sua experiência como paciente de câncer. Sua escrita assume frequentemente a forma de ensaios poéticos e poemas em prosa ou narrativos, demonstrando pouca preocupação com a distinção de gêneros.

O primeiro dos poemas a seguir é, segundo a autora, uma interpretação livre do Encantamento 189 do Livro dos Mortos egípcio. Os Livros dos Mortos (porque havia inúmeras versões) faziam parte de rituais funerários, e eram basicamente compilações de fórmulas mágicas para proteger a pessoa defunta na perigosa jornada pelo mundo dos mortos. O Encantamento 189 especificamente pretende evitar que a pessoa seja virada de cabeça para baixo, assim invertendo o processo digestivo e fazendo-a ingerir urina e fezes.

Conheça mais em
https://www.poetryfoundation.org/poets/anne-boyer
http://www.anneboyer.com/

Rafael Mantovani

* * *

Eu não vou comer bosta

o que eu realmente odeio, eu não vou comer; o que eu odeio é bosta, e eu não vou comer bosta. Não vou consumir bosta. Não vou experimentar bosta. Não vou deixar que a bosta chegue perto dos meus dedos. Não vou relar o braço na bosta, e não vou encostar nela nem com a ponta do pé.
“Você vai viver do quê,” dizem para mim os poderosos, “se não vai comer bosta? O que você vai comer neste lugar para onde desceu?”
“Vou me fartar daquilo que sempre foi nosso.”
“Onde você vai comer essa comida, isso que você afirma que já é seu? Onde vai sequer achar um imóvel para poder comer essa comida, você que na sua outra vida não conseguia pagar nem uma quitinete no centro?” dizem para mim os poderosos.
“Vou comer embaixo da árvore das mulheres mortas, pois ali tem comida para todo mundo que precisa. Elas retomaram os campos e as florestas, lá as plantas verdes estão crescendo, e lá nós vamos viver de pão e cerveja; nesse lugar há pessoas que coordenam a si mesmas e a qualidade dos seus afetos, seus ódios e suas adorações, enquanto coordenam os movimentos e as produções de seus corpos para não precisarem comer bosta, nesse lugar há pessoas que vêm atender à porta.”
Abram para mim; que haja lugar para mim, criem um caminho para mim, para que eu possa ficar aqui como uma alma viva, no lugar onde quero estar.
Eu não serei dominada por estes inimigos. Eu odeio bosta e não vou comer bosta. Descendo para esta terra, não serei contaminada pela bosta que os poderosos querem que eu coma, a bosta que eles dizem que é inevitável. Saiam de perto de mim, todos os que querem que eu coma bosta; eu voei para o céu como uma andorinha, eu gritei como um ganso, então pousei nesta árvore no meio desta ilha no meio desta enchente. Eu voei e pousei, desci para dentro da enchente mas não me afoguei, e não vou deixar que os nossos inimigos me obriguem a comer bosta.
O que eu odeio, eu não vou comer; o que minha alma odeia é bosta, e a bosta não vai entrar no meu corpo. Não vou colocar bosta entre os lábios. Não vou comer bosta no parque empresarial nem perto do mar, num campus universitário, no canteiro de um condomínio. Não vou pegar nada das margens do seu lago. O que eu odeio é bosta, e eu não vou comer bosta. Não vou comer bosta; mesmo depois de morta, não vou descer de ponta-cabeça por causa de vocês.

I Will Not Eat Shit

what I really hate, I will not eat; what I hate is shit, and I will not eat it. I will not consume it. I will not taste it. It will not come near my fingers. I will not brush my arm against shit, and I will not touch it with my toes.
“What will you live on,” say the powerful to me, “if you won’t eat shit? What will you eat in this
place to which you have descended?”
“I will feast on what has always been ours.”
“Where will you eat this food, what you claim is already yours? where will you even find the real estate on which to eat it, who in your other life couldn’t afford half a duplex?” say the powerful to me.
“I will eat under the tree of the dead women, for there is food there for all who need it. They’ve taken back the fields and forests, there the green plants are growing, and there we will live on bread and beer; in this place, there are people who arrange themselves and the quality of their affections, their hatreds and their adorations, along with arranging the motions and productions of their bodies so they do not have to eat shit, in this place there are people to answer the door.”
Open to me; may there be room for me, make a path for me, that I can stay here as a living soul in the place that I want to be.
I will not be subdued by these enemies. I hate shit and I will not eat it. As I descend to this land, I will not be contaminated by the shit the powerful want me to eat, the shit they say is inevitable. Go away from me all who want me to eat shit; I have flown up into the heavens like a swallow, I have cackled like a goose, then I have landed on this tree in the middle of this island in the middle of this flood. I have flown up and landed, I have descended into the flood but I am not drowned, and I won’t be made to eat shit by our enemies.
What I hate, I will not eat; what my soul hates is shit, and it will not enter my body. I will not put it between my lips. I will not eat shit in the office park or near the ocean, on a college campus, on the median of a suburban street. I will not take anything from the banks of your pond. What I hate is shit, and I will not eat shit. I will not eat shit; even in death, I will not descend upside down for you.

§

 

O que parece a cova mas não é

sempre cair num buraco, depois dizer “ok, essa não é sua cova, saia desse buraco”, sair do buraco que não é a cova, cair num buraco outra vez, dizer “ok, essa também não é sua cova, saia desse buraco”, sair desse buraco, cair em outro; às vezes cair num buraco dentro de um buraco, ou muitos buracos dentro de buracos, sair deles um depois do outro, depois cair de novo, dizer “essa não é sua cova, saia do buraco”; às vezes ser empurrada, dizer “você não pode me empurrar para dentro desse buraco, ele não é minha cova”, e sair com a cabeça erguida, depois cair de novo num buraco sem ninguém empurrar; às vezes cair num conjunto de buracos cujas estruturas são previsíveis, ideológicas e muito antigas, cair frequentemente nesse conjunto de buracos estruturais e impessoais; às vezes cair em buracos junto com outras pessoas, com outras pessoas dizer “essa não é nossa cova coletiva, saiam desse buraco”, todas juntas saírem do buraco juntas, mãos e pernas e braços e escadas humanas umas das outras para sair do buraco que não é a cova coletiva mas que só dá para sair juntas; às vezes cair por vontade própria num buraco que não é a cova porque na verdade é mais fácil do que não cair num buraco, mas depois de estar lá dentro, perceber que não é a cova, acabar saindo do buraco; às vezes cair num buraco e ficar ali definhando por dias, semanas, meses, anos, porque embora não seja a cova, mesmo assim é muito difícil sair e você sabe que depois desse buraco só tem outro e mais outro; às vezes examinar a paisagem de buracos e desejar um buraco final de alta qualidade; às vezes pensar em quem caiu em buracos que não são covas mas talvez seria melhor se fossem; às vezes contemplar com anseio demais o buraco final enquanto tenta evitar os provisórios; às vezes cair e sair obedientemente, com perfeita bravura, dizer “vejam com que maestria e espírito eu me levanto de novo do que parece a cova mas não é!”

What Resembles the Grave but Isn’t

always falling into a hole, then saying “ok, this is not your grave, get out of this hole,” getting out of the hole which is not the grave, falling into a hole again, saying “ok, this is also not your grave, get out of this hole,” getting out of that hole, falling into another one; sometimes falling into a hole within a hole, or many holes within holes, getting out of them one after the other, then falling again, saying “this is not your grave, get out ot the hole”; sometimes being pushed, saying “you can not push me into this hole, it is not my grave,” and getting out defiantly, then falling into a hole again without any pushing; sometimes falling into a set of holes whose structures are predictable, ideological, and long dug, often falling into this set of structural and impersonal holes; sometimes falling into holes with other people, with other people, saying “this is not our mass grave, get out of this hole,” all together getting out of the hole together, hands and legs and arms and human ladders of each other to get out of the hole that is not the mass grave but that will only be gotten out of together; sometimes the willful-falling into a hole which is not the grave because it is easier than not falling into a hole really, but then once in it, realizing it is not the grave, getting out of the hole eventually; sometimes falling into a hole and languishing there for days, weeks, months, years, because while not the grave very difficult, still, to climb out of and you know after this hole there’s just another and another; sometimes surveying the landscape of holes and wishing for a high quality final hole; sometimes thinking of who has fallen into holes which are not graves but might be better if they were; sometimes too ardently contemplating the final hole while trying to avoid the provisional ones; sometimes dutifully falling and getting out, with perfect fortitude, saying “look at the skill and spirit with which I rise from that which resembles the grave but isn’t!”

Padrão
tradução

Wladyslaw Szlengel (1912-1943), por Piotr Kilanowski

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Wladyslaw Szlengel foi um poeta judeu-polonês nascido em Łódź. Suas canções escritas em polonês eram muito populares no Gueto, expressavam seus pensamento e estados de espírito. Eram recitados em diferentes apresentações de serões de diversões, circulavam em cópias de máquina de escrever ou hectográficas. Apesar de sua pouca qualidade artística, gozavam de popularidade, comoviam até às lágrimas, pois expressavam aqueles tempos, falavam de coisas com as quais o Gueto vivia e que apaixonadamente comentava.

O poema intitulado Coisas, coisas descreve o processo que afetou as posses judias nos tempos da ocupação alemã. O poeta enumera a longa lista de coisas, menciona até utensílios levados pelos judeus na mudança da parte sul de Varsóvia para o bairro norte, saindo das zonas mistas para a zona puramente judaica, o gueto. Do Gueto pequeno ao Gueto grande já levaram poucas coisas. E quando passavam do Gueto para os “szopy” particulares, sobrava muito pouca coisa da riqueza ou das posses: somente um embornal e um cantil com água. Nos apartamentos abandonados pelos judeus, resta apenas um comprimido como corpus delicti:

Ante o tribunal, contudo,
(se acaso veritas victi (!)…)
restará um comprimido
expondo o corpus delicti.

O poema A despedida dos três quepes conta a despedida do jovem poeta com três quepes: de estudante, de militar e de policial judaico. O autor relata sua participação na defesa de Varsóvia e a despedida com o quepe de militar. Mais para o fim do poema, descreve a ação de deportação dos judeus de Varsóvia, da qual teria que participar como policial. O poeta, não querendo ajudar aos alemães na ação do extermínio, despede-se do quepe policial. Poucos foram os judeus policiais que fizeram escolha semelhante. Cito aqui duas estrofes do poema:

Você é o quepe em que te vê a humanidade,
que a avó ariana, ele é mais importante.
Não checam o que tens nas calças ou na identidade,
o quepe teu valor declara antes…

Despedida com o quepe policial:

O mundo é todo fechado para mim,
cada portão é uma cilada sem fim,
se me darei melhor ou pior não sei
meu quepe – chegou a hora do adeus…

Seria difícil superestimar a especificidade de tal perspectiva, considerados o alcance, a minúcia e a nitidez da visão que ela proporciona. Em grande medida, no entanto, o legado criativo de Szlengel continua desconhecido: na Polônia inclusive, sob certos aspectos , e que dizer então fora dela!

* * *

O MONUMENTO

Aos heróis – epopeias e rapsódias!!!
Aos heróis honrará a prole,
os seus nomes em pedestais gravados,
e os seus monumentos em mármore.

Aos soldados valentes – as medalhas!
Uma cruz – à morte do soldado!
As glórias e os sofrimentos em aço,
bronze e granito encantados.

Ficarão dos Grandes as Lendas,
de que eram Enormes, o testamento,
o mito consolidará e restará
o Monumento.

Quem pra vós vai contar, ó Futuros,
a história – nem de mito que resiste,
nem de bronze – que a levaram, mataram…
e que ELA não existe…

Se ela era boa? Nem isso –
brigava e as portas batia,
resmungava, vociferava…
mas – existia.

Bela? Nem antes dos cabelos prateados,
ninguém de uma beldade a chamaria
Sábia? Eh, comum, simplesmente não foi
burra…
E no entanto…existia.

Entendes: Ela estava e agora não está,
em cada canto algo ruim, coisa má,
e dá para ver logo que Ela não está.

Nada de grande palavra: O Lar,
Deus meu, que casa era essa?!
………….(não eram de Varsóvia)
O marido o dia todo na oficina,
o filho – sempre correndo com pressa,
o quarto raramente arrumado,
………….(pois de baixo água trazia),
os móveis de algum jeito ordenados,
o relógio parecia sorrir animado,
pois – Ela existia.
Existia.

E daí? Ser humano? Não importa –
em estatística não vai constar,
para o mundo, a Europa – é um nada,
grandes coisas esta Sua labuta suada,
mas quando se chegava à porta do lar,
mesmo antes de tocar na maçaneta, abrir,
no ar algum cheiro bom havia,
ou sopa quente, ou toalha macia,
um calor familiar te envolvia,
pois…
………….Ela existia.

E a levaram,
Foi do jeito que estava.
Do fogão.
Da sopa não provaram…
carregaram, foi-se, não está,
mataram.

O marido voltará da oficina,
sentará na banqueta chocado,
as mãos fracas cairão pros lados,
olhará com a cabeça meneando.

No fogão não há fogo –
no chão, pano caído,
prato na mesa – sujeira demais.
Não levanta, curva-se, pensa.
Nada a fazer.
………….………….Não está mais.

A sopa rala e estranha da oficina
da fábrica, e o pão – vai pôr na goela,
Come e olha:
………….………….na prateleira em silêncio
fria e morta a Sua panela.

Não retornará à oficina,
o filho vai voltar faminto,
na desfeita cama amarela,
sem tirar o sapato barrento,
deitado, não dormirá.
Vai olhar, não esquecerá um só momento…
………….Ali, da Mãe, a esfriada p a n e l a –
………….O SEU MONUMENTO.

P O M N I K

Bohaterom – poematy, rapsody!!!
Bohaterów uczczą potomni
na cokołach nazwiska ryte
i marmurowy pomnik.

Walecznym żołnierzom – medal!
Śmierci żołnierskiej krzyż!
Zakląć chwałę i mękę
w stal, granit i spiż.

Zostaną po Wielkich Legendy
że tacy byli ogromni.
Mit zakrzepnie i – będzie
POMNIK.

A kto wam opowie, Przyszli,
nie spiż i nie mitu temat –
że Ją zabrali – zabili,
i że jej nie ma…

Czy była dobra? Nawet nie –
często się przecież kłóciła,
stuknęła drzwiami, burknęła…
ale była.

Ładna? nie była nigdy ładna,
nawet nim głowa się posrebrzyła.
Mądra? Ot, zwyczajnie nie głupia…
No, ale… była.
Rozumiesz – była a gdy jej nie ma,
to każdy kąt tu oczy złe ma
i zaraz widać że jej nie ma.

Nie żeby wielkie słowo – DOM –
mój Boże, cóż to za gospodarstwo!
(nie byli z Warszawy)
mąż cały dzień w warsztacie
syn także miał gdzieś swoje sprawy,
pokoik często nie sprzątnięty
(bo wodę z dołu przynosiła)
tak jakoś stały wszystkie sprzęty
tak jakoś zegar uśmiechnięty
no – była.
Była.

I cóż? Człowiek? – Nie – Nieważne –
statystyka żadna jej nie wymieni –
dla świata, Europy, mniej niż pyłek –
ważna to rzecz ten jej wysiłek!
ale gdyś zbliżył się do sieni,
nim klamkę wziąłeś, – nim drzwi pchnąłeś,
jakoś w powietrzu zapachniały
ni ciepła zupa, ni ręcznik biały,
tak jakoś ciepłość cię owiła
no…
była.

I wzięli.
Poszła jak stała.
Od ognia.
Zupy nie zdążyła…
Zabrakli, poszła – nie ma –
zabili.

Wróci z warsztatu mąż,
usiądzie ciężko na stołku –
ręce opadną na podołku,
głową wodzi i patrzy.

Ognia nie ma pod blachą –
ścierka spadła i leży
talerz na stole – brudno.
Nie wstaje. Pochyla się. Myśli.
Trudno.
Nie ma.

Zje chleba i zupy z warsztatu
fabrycznej – obcej i marnej.
Je i patrzy: –
na półce… milczący
zimny i martwy jej garnek.

Nie pójdzie już do warsztatu –
Syn wróci z miasta zgłodzony
w łóżko niezaścielane
rzuci się w butach zbłoconych –
Nie uśnie.
Będzie patrzył (i nie zapomni…)
Tam – Matki wystygły g a r n ek
J E J P O M N I K..

§

 

A JANELA PARA O OUTRO LADO

Minha janela é para o outro lado,
uma janela judia descarada
para o belo parque dos Krasiński
e as folhas outonais molhadas…
No anoitecer cinza-arroxeado
as frondes se curvam, inclinadas
e as árvores arianas espreitam
a janela judia fechada…
Não posso ficar na janela
(resolução mui correta),
aos vermes judeus…toupeiras…
a cegueira melhor se adequa.
Que fiquem nas tocas e covas,
absorto no trabalho o olhar
e pelas janelas judias
sejam proibidos de mirar…
E eu… quando vem a noite…
para tudo apagar e igualar,
no escuro pra janela corro
com a sede enorme de olhar…
e roubo Varsóvia apagada,
os silvos, chiados distantes,
as formas das casas e ruas,
os tocos das torres cortantes…
Eu roubo a silhueta do Teatro,
aos pés tenho o Paço Municipal,
O luar – wachmeister
– permite
o contrabando sentimental…
Os olhos famintos se cravam
no peito da noite – dois gumes,
na noite de Varsóvia calada,
cidade querida em negrume…
E quando já estou suprido
para um dia, talvez mais…
me despeço da cidade calada,
com as mãos faço gestos rituais,
cicio e os olhos cerro:
– Varsóvia…diz algo!…espero

E pianos pela cidade
levantam os tampos calados
levantam sozinhos, ao comando,
pesados, tristonhos, cansados…
e flui da centena de pianos
na noite… a polonaise de Chopin…
Me chamam os clavicordes,
no silêncio sofrido vêm
pela cidade os acordes
das teclas de branco mortal…
Baixo as mãos…é o final…
volta a polonaise pros pianos…
Volto e penso calado
que na verdade é ruim
ter a janela pro outro lado…

Okno na tamtą stronę

Mam okno na tamtą stronę,
bezczelne żydowskie okno
na piękny park Krasińskiego,
gdzie liście jesienne mokną…
Pod wieczór szaroliliowy
składają gałęzie pokłon
i patrzą się drzewa aryjskie
w to moje żydowskie okno…
A mnie w oknie stanąć nie wolno
(bardzo to słuszny przepis),
żydowskie robaki… krety…
powinni i muszą być ślepi.
Niech siedzą w barłogach, norach
w robotę z utkwionym okiem
i wara im od patrzenia
i od żydowskich okien…
A ja… kiedy noc zapada…
by wszystko wyrównać i zatrzeć,
dopadam do okna w ciemności
i patrzę… żarłocznie patrzę…
i kradnę zgaszoną Warszawę,
szumy i gwizdy dalekie,
zarysy domów i ulic,
kikuty wieżyc kalekie…
Kradnę sylwetkę Ratusza,
u stóp mam plac Teatralny,
pozwala księżyc Wachmeister
na szmugiel sentymentalny…
Wbijają się oczy żarłocznie,
jak ostrza w pierś nocy utkwione,
w warszawski wieczór milczący,
w miasto me zaciemnione…
A kiedy mam dosyć zapasu
na jutro, a może i więcej…
żegnam milczące miasto,
magicznie podnoszę ręce…
zamykam oczy i szepcę:
– Warszawo… odezwij się… czekam…

Wnet fortepiany w mieście
podnoszą milczące wieka…
podnoszą się same na rozkaz
ciężkie, smutne, zmęczone…
i płynie ze stu fortepianów
w noc… Szopenowski polonez…
Wzywają mnie klawikordy,
w męką nabrzmiałej ciszy
płyną nad miastem akordy
spod trupio białych klawiszy…
Koniec… opuszczam ręce…
wraca do pudeł polonez…
Wracam i myślę, że źle jest
mieć okno na tamtą stronę…

§

 

As duas mortes

A sua morte e a nossa morte
são duas mortes bem diferentes.
A sua morte é a morte forte
rasga as almas, faz ranger os dentes.
A sua morte é morte por balas,
atirando, entre campos gris
fertilizados com suor e sangue
por algo – …pelo pátrio País.
A nossa morte – é morte estúpida
no sótão ou no porão,
a nossa morte de trás da esquina
chega – uma morte de cão.
A sua morte, a medalha condecora,
menciona-a o comunicado,
a nossa morte – pra terra e adeus –
um depósito de atacado.
A sua morte – é cara a cara,
no meio do caminho saudada.
A nossa morte – é em segredo
na máscara do medo cavada.
A sua morte – é costumeira,
humana e fácil se apresenta,
a nossa morte – é a morte lixeira,
judia e nojenta.
A nossa morte da sua morte
é pobre, longínqua parente.
Quando a sua encontra a nossa
não a cumprimenta, certamente.
Na noite negra entre névoas,
se maldizem as duas mortes,
sobre a cidade – um mar de trevas,
se insultam com verbos fortes.
Sobre a mureta, vendo os dois lados,
espia as brigas escondida,
a mesma esperta, má, gananciosa
e igualzinha Vida.

Dwie Śmierci

Wasza śmierć i nasza śmierć
to dwie inne śmierci.
Wasza śmierć – to mocna śmierć,
szarpiąca na ćwierci.
Wasza śmierć śród szarych pól
od krwi i potu żyznych.
Wasza śmierć – to śmierć od kul
dla czegoś – …dla Ojczyzny.
Nasza śmierć – to głupia śmierć,
na strychu lub w piwnicy,
nasza śmierć przychodzi psia
zza węgła ulicy.
Waszą śmierć odznaczy krzyż,
komunikat ja wymienia,
naszą śmierć – hurtowy skład,
zakopią – do widzenia.
Wasza śmierć – wy twarzą w twarz
witacie się w pół drogi,
nasza śmierć – to skryta śmierć
kopana w masce trwogi.
Wasza śmierć – zwyczajna śmierć,
człowiecza i nietrudna,
nasza śmierć – śmietnicza śmierć,
żydowska i – paskudna.
Nasza śmierć jest waszej śmierci
daleką biedną krewną.
Gdy spotka wasza – naszą śmierć,
nie wita jej na pewno.
I w czarną noc przez smugi mgieł
nad miastem – w mroków piekle,
dwie śmierci przeklinają się,
złorzecząc sobie wściekle.
Na murku – patrząc w strony dwie,
podgląda kłótnię skrycie
to samo chciwe, sprytne, złe
i jednakowe Życie.

 

* * *

Uma coletânea dos poema de Wladyslaw Szlengel foi publicada pela editora Dybbuk (clique aqui) este ano. Os poemas publicados aqui, bem como o texto introdutório, foram retirados de lá.

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