poesia, tradução

Peter Waterhouse (1956—), por Matheus Guménin Barreto

Peter Waterhouse (1956- ) é um poeta e tradutor austríaco. Publica prolificamente até o presente, e seu mais recente livro foi publicado apenas alguns meses atrás: Equus. Wie Kleist nicht heißt (2018). Waterhouse é constantemente considerado um dos mais significativos poetas da virada do século, e já recebeu quase todos os prêmios que um autor germanófono poderia receber, entre eles o Prêmio H. C. Artmann (2004), o Prêmio de Literatura da Cidade de Viena (2008), o Prêmio Ernst Jandl (2011) e o Grande Prêmio Nacional Austríaco (2012). Até onde me foi possível averiguar, nenhum poema de Waterhouse foi ainda publicado em língua portuguesa.

Os poemas abaixo foram publicadoa no livro passim (1986), que traduzo no momento.

Matheus Guménin Barreto (1992- ) é poeta e tradutor mato-grossense. Doutorando da Universidade de São Paulo (USP) na área de Língua e Literatura Alemãs – subárea tradução -, estudou também na Universidade de Heidelberg. Publicou traduções de Bertolt Brecht e Ingeborg Bachmann. Encontram-se poemas seus no Brasil e em Portugal (plaquete “Vozes, Versos”, Mallarmargens, Revista Germina, Enfermaria 6, Revista Escriva [PUC-RS], A Bacana e Diário de Cuiabá; entre outros), e integrou o Printemps Littéraire Brésilien 2018 na França e na Bélgica a convite da Universidade Sorbonne.

É autor dos livros de poemas A máquina de carregar nadas (7Letras, 2017) e Poemas em torno do chão & Primeiros poemas (Carlini & Caniato, 2018).

Na Escamandro publicou o ciclo de poemas homoeróticos “Um corpo incendiado: este” (inédito) e traduções de Ingeborg Bachmann.

***

O nome da língua

O nome da língua quer dizer: Ausência. Diz-se, por exemplo,
neste nome: Mesa. A Mesa é uma formação dura
ante nós. Nós somos uma formação dura
ante a Mesa. Nós nos transformamos e
nos nomeamos Quem-faz-mesas. Os Quem-faz-mesas (em relação a
                                           [nós)
dizem: Nós, Quem-faz-mesas. Ou: Nós, Quem-faz-cadeiras.
Nós quer dizer aqui: Não há nós, nós
é distante, nós qual nada. Há cadeiras. O que às vezes senta nela
se nomeia e me nomeia: Eu. (Na cadeira, o Quem-faz-mesas
escreve, de corpo presente, uma carta na Uma-dessas-formações-
                                          [para-escrever.)
Qual carta? Tudo escapa. Os contextos não são mais
nossos pretextos. Lá em frente estamos nós, no
nada absoluto, bom dia.

Agora: O material. Por vezes o material é um eu
por vezes o mesmo material é uma semente de maçã, uma farpa de
                                         [madeira
folha outonorubra. Um floco de neve momentâneo
cai quase roçando no momentâneo olho. É-se um
olho quase na rota de um floco que cai. De qual
floco?

O nome da língua quer dizer: Ausência. Hungria. Donau. Pisa.
Maria. Semente de maçã. Há mesmo muito à nossa disposição.
Tudo escapa. Criamos um antetexto. Criamos
um pretexto. Nosso louvor quer dizer: nós temos bons pretextos.
Quais?

Der Name der Sprache

Der Name der Sprache heißt: Abwesenheit. Man sagt zum Beispiel
in diesem Namen: Tisch. Der Tisch ist ein hartes Gebilde
vor uns. Wir sind ein hartes Gebilde
vor dem Tisch. Wir wandeln uns ab und
nennen uns Tischler. Die Tischler (in Zusammenhang mit uns)
sagen: Wir Tischler. Oder: Wir Gesesselten.
Wir will hier heißen: Wir gibt es nicht, wir
ist fern, wir als nichts. Es gibt Sessel. Was manchmal darin sitzt
nennt sich und nennt mich: Ich. (Der gesesselte Tischler

schreibt an Schreibsolchemgebilde anwesend einen Brief.)
Welchen? Alles flieht. Die Hintergründe sind nicht mehr
unsere Gründe. Ganz vorne stehen wir, im
unmittelbaren nichts, guten Tag.

Jetzt: Das Material. Einmal ist das Material ein ich
einmal ist dasselbe Material ein Apfelkern, Holzsplitter
herbstrotes Blatt. Eine augenblickliche Schneeflocke
fällt am augenblicklichen Auge kurz vorbei. Man steht
als Auge kurz an der Bahn einer fallenden Flocke. Welcher
Flocke?

Der Name der Sprache heißt: Abwesenheit. Ungarn. Donau. Pisa.
Maria. Apfelkern. Uns steht ziemlich vieles zur Verfügung.

Alles flieht. Wir bilden einen Vordergrund. Wir bilden
einen Grund. Unser Lob heißt: Wir haben gute Gründe.
Welche?

§

Sobre o que calamos?

É um Cair-Cá-Para-Fora (terrível Cair-Cá-Para-Fora
maravilhoso Cair-Cá-Para-Fora): no exemplo caem-se
as árvores: cá para baixo
cai o que nos agrada o paladar, e com a mesma boca o nomeamos
Abricote (terrível cair de Damasco
maravilhoso cair de Damasco): todos caem,
e o que é doce quer dizer, com a mesma boca,
Beijo. Beijo quer dizer: Aqui Se Cala. Sobre?
Aqui se cala sobre o Cair-Cá-Para-Fora.

Árvore = Prado.
Casa = Porão.
Deus = Chuva = Rã.
Metamorfose Vertical = Metamorfose Horizontal. Metamorfose quer dizer:
Aqui Se Cala. Sobre?
Porão sob a Casa cala sobre a Casa.

Tropeçamos no porão e lá calamos. Mas
pela escada subimos à casa e
em cima comemos a geleia de amarena achada embaixo. Mas significa aqui:
Depois do terrível tropeçar nós nos
metamorfoseamos e calamos maravilhosamente.
Sobre o que calamos?

Resumo do poema:

Alguém — ao decidir comer geleia de frutas — se enreda num jogo amoroso com amarenas. Outro – ao decidir comer geleia de frutas – se enreda num jogo amoroso com damascos. Damasco é como deus feito rã terrível ou como casa feita terrível porão. Mas é do terrível que a comida foi trazida para cá. Do terrível que se abatera é que nasce algo que é raro e volátil e silencioso.

Worüber schweigen wir?

Es ist ein Herausfallen (furchtbares Herausfallen
wunderbares Herausfallen): Im Beispiel lassen sich
die Bäume fallen: Unten heraus kommt
was uns schmeckt, und wir nennen es mit demselben Mund
Aprikose (furchtbarer Marillenfall
wunderbarer Marillenfall): Jeder fällt
und was süß schmeckt, heißt mit demselben Mund
Kuß. Kuß heißt: Hier wird geschwiegen. Worüber?
Hier wird geschwiegen über das Herausfallen.

Baum = Wiese.
Haus = Keller.
Gott = Regen = Frosch.
Senkrechte Verwandlung = Waagrechte Verwandlung. Verwandlung heißt:
Hier wird geschwiegen. Worüber?
Keller unter dem Haus schweigt über das Haus.

Wir stolpern in den Keller und schweigen dort. Aber
mit der Treppe kommen wir ins Haus und
essen oben das unten gefundenen Morellengelee. Aber meint hier:
Nach dem furchtbaren Stolpern machen wir
eine Verwandlung und schweigen wunderlich.
Worüber schweigen wir?

Zusammenfassung des Gedichts:

Jemand ist, indem er sich als Speise ein Obstgelee vornimmt, in ein Liebesspiel mit Morellen verwickelt. Ein anderer ist, indem er sich als Speise ein Obstgelee vornimmt, in ein Liebesspiel mit Marillen verwickelt: Marille ist wie Gott als furchtbarer Frosch oder wie Haus als furchtbarer Keller. Aber aus dem Furchtbaren ist die Speise geholt worden. Aus dem Furchtbaren, das gefallen ist, kommt etwas, das anders ist und unbeständig und schweigsam.

§

Retorno do êxtase

Qual árvore. Estamos muito quietos frente a frente. A árvore.
Aqui o mundo é assim. Céu, aves, relva.
Tantos dedos para as tuas cerejas. Tu me amas? Rápido.
Qual a nossa aparência de novo, nós formigas?
Me chamo Muro. Salta-o. É pequenininho qual camundongo.
Camundongo. Milharal. Salva-me de quem me ceifa.
Salva-me, o céu me empurra para dentro deste rio.
Pensar azul. Onde os pés
se não os tenho, eu água? Por que peixe?
Qual peixe sob o céu? Amas-me ainda?
O céu já foi aprazível? Já foi, já foi.
Salta-o. O que é uma árvore?
Uma árvore é uma patinha de camundongo do céu.
Junto a, sob, para. Qual bosque
muitos climas passam pra lá. Eu me chamo Clima
com riachos qual pé liquefeito. Os pés. Os pés
chegam a quem? Como somos rápidos.
O camundongo é uma árvore com velocidade.
Muitíssimo amada; e, qual o céu, foi; e depois as aves.
A ave que me entende. O clima
é uma árvore sobre o aprazível mundo. Falar ainda, aqui,
com a fala, não é nada fácil. Rápido se apaixona.
São muitos… Como sou esquecido. Já
como uma maçã. Eu a maçã sou comido.
Precisa-se tentar proximidade. Eu a aprendi.
Beijar é também um tipo de beijo. O que é que sabemos mesmo?
Nariz é uma palavra besta? Onde o céu esteve
ele foi. Agora falo muito só. Um nariz por pessoa.
Estamos muito quietos frente a frente. Peixe ao ataque.
Eu sou a árvore e o peixe. A arvorezinha.
O milharal rumo ao alto, ao clima: qual a minha aparência? Olho,
olha aqui.

Rückkehr der Ekstase

Als Baum. Wir sind voreinander sehr still. Der Baum.
Hier ist die Welt also. Himmel, Vögel, Gras.
So viele Finger für deine Kirschen. Liebst du mich? Schnell.
Wie sehen wir wiede aus, wir Ameisen?
Ich heiße Zaun. Spring drüber. Als Maus ist es herzlich klein.
Maus. Mais. Hilf mir vor dem, der mich mäht.
Hilfe, der Himmel drückt mich in diesen Bach hinein.
Blaues Denken. Wo sind die Füße
wenn ich als Wasser keine habe? Warum Fisch?
Als Fisch unter dem Himmel? Liebst du mich noch?
War der Himmel einmal herzlich? Ist gewesen, ist gewesen.
Spring drüber. Was ist ein Baum?
Ein Baum ist ein Mäusebein des Himmels.
An dem, unter, für. Als Wald
laufen viele Wetter vorüber. Ich heiße Wetter
mit den Bächen als flüssigem Fuß. Die Füße. Die Füße
kommen zu wem? Wie schnell wir sind.
Die Maus ist ein Baum mit der Geschwindigkeit.
Herzlich geliebt und gewesen als Himmel und also die Vögel.
Der Vogel, der mich versteht. Das Wetter
ist ein Baum über der herzlichen Welt. Hier noch zu sprechen
mit der Sprache ist nicht ganz leicht. Schnell verliebt.
Das sind viele . . . Wie vergeßlich ich bin. Schon
esse ich einen Apfel. Ich der Apfel werde gegessen.
Man muß oft du sagen. Du sagen habe ich gelernt.
Küssen ist auch eine Art zu küssen. Was wissen wir nämlich?
Ist Nase ein dummes Wort? Wo der Himmel war
ist er gewesen. Jetzt spreche ich sehr alleine. Eine Nase pro Person.
Wir sind voreinander sehr still. Fisch im Ansturm.
Ich bin der Baum und der Fisch. Das Bäumchen.
Der Mais in die Höhe zum Wetter: wie sehe ich aus? Auge
schau her.

 

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As Geórgicas de Virgílio (I, vv. 1-70), por Arthur Rodrigues Santos

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Entre as duas obras mais famosas de Virgílio, as Bucólicas e a Eneida, temos esta que já foi referida, talvez com alguma extravagância, como the best poem by the best poet. Não cabe a mim discutir se as Geórgicas são verdadeiramente a grande obra do poeta mantuano. Gosto não se discute e eu sou suspeito.

Só queria dizer apenas o que me fascina nesse poema de assunto banal, um poema que (como seu próprio nome sugere) se dirige aos agricultores romanos para ensiná-los o cultivo da terra, como amparar as videiras ou criar o gado e trazer as abelhas de volta para colmeia. Um manual de agricultura, portanto. Mas um manual apenas na superfície, apenas um pretexto para fazer a grande poesia que nos comove tanto com seus exuberantes hinos à natureza quanto com a simples árvore que, surpreendida, não reconhece mais os seus frutos, visto que nela se enxertou outra espécie. Como disse Sêneca, o Jovem (Epist. 86.15), o nosso poeta, mais do que ensinar os homens do campo, queria mesmo era encantar os seus leitores: nec agricolas docere uoluit, sed legentes delectare.

O trecho traduzido é o início das Geórgicas e nele já se podem ver aqueles dois tipos de painéis: o primeiro é grandioso: após um breve proêmio, vem uma longa invocação aos deuses campestres (e a um futuro deus, pelo menos para o exagero virgiliano); o segundo, mais singelo, é o começo da lida no campo, a hora em que os touros puxam o arado fincado na terra sob o sol da primavera.

Para emular os hexâmetros originais, me servi de um verso variante ao de Carlos Alberto Nunes, que já vem sendo usado pelo Rodrigo Gonçalves e Guilherme Flores. Ele consiste de quatro células métricas (cada uma podendo ser ternária ou binária) seguidas de uma cláusula com terminação grave. Além disso, não há anacruse no início do verso e me permito no máximo iniciá-lo com uma tônica secundária seguida de duas átonas.

Por fim, quero agradecer ao Sergio Maciel pelo convite.

Arthur Rodrigues Santos (1983), fluminense e mestre em Letras Clássicas pela UFRJ. Começou a traduzir um trecho da segunda bucólica de Virgílio no começo da graduação e, a partir daí, não parou mais. Atualmente é doutorando pela mesma instituição, com passagem pela Universidade de Bolonha no ano passado. Seu principal projeto é traduzir as Geórgicas de Virgílio em versos hexamétricos.

* * *

O que dá viço às searas alegres, sob qual astro
deve-se a terra, Mecenas, volver e casar as videiras
com os olmeiros, quais cuidados ao boi e ao rebanho
são dispensados, quanta perícia às parcas abelhas:
eis o que agora celebro. Vós, ó luzeiros brilhantes 5
deste mundo, guiando no céu o ano que escoa;
Líber e Ceres nutriz, a terra, com a vossa anuência,
pôde trocar Caônias bolotas por trigo graúdo
e misturar o copo Aqueloio às uvas achadas;
vós também, propícios aos lavradores, ó Faunos, 10
vinde dançando, Faunos, ao lado das Dríades ninfas:
vossos dons eu celebro; e tu, que a terra fendeste
com teu tridente, donde surgiu o fogoso cavalo,
ó deus Netuno; e tu boscarejo, a quem uns trezentos
níveos vitelos pastam de Cea fecunda os arbustos; 15
tu, que abandonas o bosque natal e as Liceias clareiras,
Pã, guardião das ovelhas, se o Mênalo inda te agrada,
vem até mim, ó Tegeu, me apoia; e Minerva, dadora
das oliveiras, e o jovem inventor do arado recurvo,
tu também, ó Silvano, trazendo extirpado cipreste: 20
todos, deuses e deusas, vós que zelais pelos campos,
ora nutrindo os novos rebentos não semeados,
ora enviando do céu a forte chuva às sementes.
E, finalmente, tu, de quem não sabemos qual posto
vais ocupar entre os deuses: se queres, César, o zelo 25
pelas cidades e campos, e o vasto universo te acolha
como o pai dos frutos e das estações o regente,
já coroando a tua fronte com murta de Vênus materna;
ou te tornes o deus do imenso mar e os marujos
só o teu nume cultuem e a extrema Tule te sirva, 30
Tétis te quer como genro a preço de todas as ondas;
ou, novo astro, te somes aos meses mais vagarosos,
onde um espaço entre Erígone e as Quelas vizinhas
ora se abre: vê, já contrai suas garras o ardente
Escorpião e deixou-te no céu uma parte folgada; 35
Seja quem fores (não és esperado no mundo Tartáreo
nem te acometa o terrível desejo deste reinado,
mesmo que a Grécia tanto admire os Campos Elíseos
e Proserpina se furte a voltar com a mãe para cima),
fácil percurso me dá, consente o propósito ousado 40
e, compassivo comigo dos lavradores sem rumo,
vem até mim e já te acostuma a ouvir nossas preces.
A primavera revém, dos cândidos montes escorre
frio regato e o Zéfiro quebra o torrão ao seu sopro:
já me comece o touro a gemer no arado tanchado 45
e recupere seu brilho a relha atrita com sulcos.
Só corresponde aos votos do lavrador ansioso
campo que duas vezes sentiu o sol e a friagem;
sua imensa colheita acabou de romper os celeiros.
Antes, porém, de cortarmos com ferro um solo ignoto, 50
cumpre primeiro estudar o vento e o clima mutável,
a qualidade das terras e a prática antiga legada,
o que produz um lugar e também o que ele nos nega.
Trigo vai bem por aqui, por ali, as uvas vigoram,
mais além enverdecem o novo arvoredo e a selvagem 55
erva. Não vês que o Tmolo exporta açafrão perfumado,
Índia marfim, os Sabeus delicados seu típico incenso,
ferro das minas os Cálibes nus, o Ponto castóreo
nauseabundo e o Epiro vitórias das éguas em Élis?
A natureza impôs essas leis e contratos eternos 60
para lugares determinados assim que no mundo,
antes vazio, Deucalião lançou as suas pedras,
delas os homens nasceram, dura progênie. Ao trabalho!
Já no começo do ano, revolvam o gordo terreno
touros fortes, dessa forma as leivas expostas 65
sejam cozidas ao sol maturado do estio pulvéreo;
mas, sendo a terra pouco fecunda, basta somente
leve amanho de sulco no despontar do Arcturo:
lá, as ervas daninhas não tolhem messes alegres,
cá, não deserta a pouca umidade do seco terreno. 70

Quid faciat laetas segetes, quo sidere terram
uertere, Maecenas, ulmisque adiungere uites
conueniat, quae cura boum, qui cultus habendo
sit pecori, apibus quanta experientia parcis,
hinc canere incipiam. uos, o clarissima mundi 5
lumina, labentem caelo quae ducitis annum;
Liber et alma Ceres, uestro si munere tellus
Chaoniam pingui glandem mutauit arista
poculaque inuentis Acheloia miscuit uuis;
et uos, agrestum praesentia numina, Fauni, 10
ferte simul Faunique pedem Dryadesque puellae:
munera uestra cano; tuque o, cui prima frementem
fudit equum magno tellus percussa tridenti,
Neptune; et cultor nemorum, cui pinguia Ceae
ter centum niuei tondent dumeta iuuenci; 15
ipse nemus linquens patrium saltusque Lycaei
Pan, ouium custos, tua si tibi Maenala curae,
adsis, o Tegeaee, fauens, oleaeque Minerua
inuentrix, uncique puer monstrator aratri,
et teneram ab radice ferens, Siluane, cupressum: 20
dique deaeque omnes, studium quibus arua tueri
quique nouas alitis non ullo semine fruges
quique satis largum caelo demittitis imbrem.
tuque adeo, quem mox quae sint habitura deorum
concilia incertum est, urbisne inuisere, Caesar, 25
terrarumque uelis curam, et te maximus orbis
auctorem frugum tempestatumque potentem
accipiat cingens materna tempora myrto;
an deus immensi uenias maris ac tua nautae
numina sola colant, tibi seruiat ultima Thule, 30
teque sibi generum Tethys emat omnibus undis;
anne nouum tardis sidus te mensibus addas,
qua locus Erigonen inter Chelasque sequentis
panditur: ipse tibi iam bracchia contrahit ardens
Scorpios et caeli iusta plus parte reliquit; 35
quidquid eris (nam te nec sperant Tartara regem,
nec tibi regnandi ueniat tam dira cupido,
quamuis Elysios miretur Graecia campos
nec repetita sequi curet Proserpina matrem),
da facilem cursum atque audacibus adnue coeptis 40
ignarosque uiae mecum miseratus agrestis
ingredere et uotis iam nunc adsuesce uocari.
Vere nouo, gelidus canis cum montibus umor
liquitur et Zephyro putris se glaeba resoluit,
depresso incipiat iam tum mihi taurus aratro 45
ingemere et sulco attritus splendescere uomer.
illa seges demum uotis respondet auari
agricolae, bis quae solem, bis frigora sensit;
illius immensae ruperunt horrea messes.
ac prius ignotum ferro quam scindimus aequor, 50
uentos et uarium caeli praediscere morem
cura sit ac patrios cultusque habitusque locorum,
et quid quaeque ferat regio et quid quaeque recuset.
hic segetes, illic ueniunt felicius uuae,
arborei fetus alibi atque iniussa uirescunt 55
gramina. nonne uides croceos ut Tmolus odores,
India mittit ebur, molles sua tura Sabaei,
at Chalybes nudi ferrum uirosaque Pontus
castorea, Eliadum palmas Epiros equarum?
continuo has leges aeternaque foedera certis 60
imposuit natura locis, quo tempore primum
Deucalion uacuum lapides iactauit in orbem,
unde homines nati, durum genus. ergo age, terrae
pingue solum primis extemplo a mensibus anni
fortes inuertant tauri, glaebasque iacentis 65
puluerulenta coquat maturis solibus aestas;
at si non fuerit tellus fecunda, sub ipsum
Arcturum tenui sat erit suspendere sulco:
illic, officiant laetis ne frugibus herbae,
hic, sterilem exiguus ne deserat umor harenam. 70

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Eeva-Liisa Manner (1921-1995), por Ricardo Domeneck

Eeva-Liisa Manner foi uma poeta, dramaturga, romancista e tradutora finlandesa, nascida em Helsinque no dia 5 de dezembro de 1921. Estreou como poeta em 1944, com o livro Mustaa ja punaista — “Preto e vermelho”). Mas foi a partir da coletâna de poemas Tämä matka (“Esta jornada”, 1956) que passou a ser vista como uma das mais influentes vozes da poesia finlandesa no pós-guerra. Traduziu obras de William Shakespeare, Lewis Carroll, Hermann Hesse e Franz Kafka para o finlandês. Eeva-Liisa Manner morreu em Tampere, no dia 7 de julho de 1995. Os poemas abaixo foram vertidos a partir das traduções em inglês.

 Ricardo Domeneck

* * *

Descartes

Eu pensava, mas não existia.
Eu disse que animais eram máquinas.
Eu perdera tudo menos a razão.

Dê meus parabéns a todos
cujo conhecimento é secreto –
Paracelso, Swedenborg e os cavalos matemáticos de Elberfeld
que extraem a raiz e a elevam a uma potência,
calculam com seus cascos espertos, não suas cabeças –

porque o corpo tudo sabe
mas um prego atravessa uma cabeça culta.

Diga que a filosofia é solidão e um cadáver
copulando com a razão e o bebê
é um discurso sobre o método e extensão imaginada.

Hoje
cavalos rápidos correm por uma França moribunda
e seus cascos batucam um conhecimento oculto
no osso-temporal cartesiano.
Hoje, eles e eu somos um só.

§

Contraponto

Tudo despencou do meu colo:
o jardim, o quintal, a casa, as vozes, os quartos,
a criança – segurando uma andorinha e um peixe –
caíram no chão
que empurrava suas pedras.
Eu sou um quarto vazio
cercado por pontos cardeais
e árvores embrulhadas em neve,
frio, frio, vazio.
Mas em minha mão
tudo o que amo ascende –
o quintal, as rosas, o ninho artificial,
perfeitos,
uma casa como vagem, sementes quietas
com morte e moção em seus tecidos,
o pequeno poço, o pequeno cão, a coleira invisível.
Quarto pequeno, janelas pequenas, pequenos, sapatos
de cadarços ágeis para o coração e a corrida.
Os sapatos correm entre câmara e átrio
e sobre o sangue dedos infantis constróem
um cais de pedra para os remadores de pedra.
Sonhos como pedras
nas profundezas,
lidos e dedicados à morte.
E pássaros afinados
flutuam janela adentro –
com um risinho nos bicos:
gotas de Mozart
zart zart

 

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André Pieyre de Mandiargues (1909 – 1991), por Natan Schäfer

André Pieyre de Mandiargues e sua esposa Bona, pintora e escultora. Foto de Cartier Bresson. Veneza, 1952.

André Pieyre de Mandiargues (1909 – 1991) é autor de uma extensa e diversa obra que, embora agraciada com Prêmio Goncourt (em 1967, pelo romance La Marge) e o Grande Prêmio da Academie Française (em 1979, por sua poesia), ainda enfrenta dificuldades para encontrar seu lugar nas histórias da literatura francesa. Nascido em Paris mas tendo passado grande parte de sua vida no sul da Europa devido à sua paixão pelo mediterrâneo, Mandiargues foi um dos “herdeiros indiretos” do surrealismo francês, apesar de nunca ter participado e militado oficialmente junto ao grupo liderado por André Breton. Excêntrico e algo insular, Mandiargues foi definido em seu obituário no jornal Le Figaro como o “mais secreto de nossos escritores” e possui uma poética geralmente apresentada como barroca e vinculada ao onírico e ao erótico, mas não que para por aí. Como muito bem observou o poeta e ensaísta Alain Jouffroy, os textos de Mandiargues nos conduzem “às profundezas da voz baixa”.

O autor foi apresentado no Brasil por Mônica Cristina Corrêa, que traduziu a prosa de “Fogo em brasa” (Feu de brase), publicado pela editora Iluminuras em 2003.

As traduções aqui reunidas referem-se a diferentes momentos do longo percurso poético de Mandiargues, que vai de 1943, ano de publicação de Dans les anées sordides, até o início dos anos 1990. Podemos assim acompanhar alguns movimentos de uma poética que não se resume à obediência a postulados ou dogmas, não se deixando reduzir a um ismo e cuja voz, ainda que sussurante, se faz ouvir e segue conversando conosco, hoje.

Natan Schäfer (1991) nasceu em Ibirama, Santa Catarina. É mestrando em Estudos Literários pela UFPR e proprietário, com Flávia Chornobai, da microeditora Contravento Editorial. Atualmente vive em Lyon.

* * *

Arroio de solidões [André Pieyre de Mandiargues, Ruisseau des solitudes, 1968, p.:? “Ruisseau de solitudes”]

Ninguém que seja só
Em si
E ali que
Não queira estar na rua,

Ninguém na rua
Que seja

E não queira
Estar em si
Pra lá da soleira
A sós,

A rua anula
No rolar ela anula
Dia e noite anula,
A nuvem no céu
Desdobra
Um sudário sobre a rua,

Longa rua
Quanto mais longa
Mais anula
E mais cedo cerca o homem,

Sulco longo
Cova escavada,

Sob o azul gris
Da lavanderia suspensa
Gotejando desejos,

Doce doçura dos sozinhos
Desejosos sim,

Sozinhos na casa dele quando estão
Ou ao que parece
Na casa dela
Nu e nua se querem
E arruam
Suam,

Embora dois sendo sós
Suam sim pois
Arruam para
Em dois ser um,

Se ela é arável
Ele é charrua
Queriam ser grãos
De uma só espiga,

Aspirando ao singular
No barro
Fazem a lebre dupla,

Só a só se pregam
Panela e tampa
Da arca oblonga
Que em par
Desce no lamaçal,

Para ser anulada
Pela lei da vassoura,

Enquanto longe
Frente ao cabo
E atrás também
Reforma-se a rua,

Arroio de solidões.

Ruisseau de solitudes

Nul qui seul soit
Chez soi
Et là qui
Ne veuille être en la rue,

Nul en la rue
Qui soit
Seul
Et qui ne veuille
Être chez soi
Derrière un seuil
À soi,

La rue annule
Par roulement elle annule
Jour e nuit elle annule,

La nue au ciel
Déploie
Un linceul sur la rue,

Longue rue
Plus longue elle est
Plus elle annule
Plus tôt l’homme est enclos,

Un sillon long
Une fosse fouie,

Sous le bleu-gris
De la buanderie haute
D’où les désirs découlent,

Douce douceur des seuls
Désireux oui,

Seuls chez lui quand ils sont
Ou semblablement
Chez elle
Nu et nue ils se veulent
Ils ruent Suent,

Quoique deux étant seuls
Ils suent oui donc
Ils ruent afin
D’être en deux un,

Qu’elle soit arable
Ils est charrue
Ils se voudraient le grain
D’un seul épi,

Aspirant à l’unique
Ils terrent
Font un double lapin,

Seul à seule ils s’enclouent
Couvercle et fond
Du coffre long
Qui est couple et
Qui descend en des boues,

Pour être annulé
De par loi de balai,

Tandis que loin
Devant le manche
Et en arrière aussi
Se reforme la rue,

Ruisseau des solitudes.

§

Você vai rir [André Pieyre de Mandiargues, Le Point où j’en suis / Dalila exaltée / La Nuit l’amour (p. 64), 1964 e Correspondance Paris – Buenos Aires 1961-1972, 2018 “Tu riras”]

Para Alejandra Pizarnik

Você vai rir de ter passado fome
Vai rir da necessidade
E da satisfação,

Vai rir do frio e do calor
Vai rir de ter dado risada e chorado
Vai sorrir por ter amado,

Você vai zombar por ter estado viva.

Tu riras

Tu riras d’avoir eu faim
Tu riras du besoin
Et de la satisfaction,

Tu riras du froid et du chaud
Tu riras d’avoir ri et pleuré
Tu souriras d’avoir aimé,

Tu te moqueras d’avoir eté vivante.

§

Heroína [André Pieyre de Mandiargues, Gris de perle, 1993, “Héroïne”, p. 64]

Quem cai não é a flor
Mas seu adorno de pétalas
Quando o macio ventre cresce
Ovário da papoula branca
De onde um dia sairás
Moça ofuscada,

Mas o que não longe de ti
Já brilha
É a tumba de mármore nova
Numa floresta vasta e velha,

A tumba da heroína
Que serás contra tua vontade
De ter uma vida de planta entre as árvores
Comumente obscuramente
Inocentemente eternamente
Aos pés do portal de giz.

(28 de outubro de 1984)

Héroïne

C’est n’est pas la fleur qui tombe
C’est sa parure de pétales
Quand son doux ventre grossit
Ovaire du pavot blanc
Dont tu sortiras un jour
Jeune éblouie,

Mais ce qui non loin de toi
Brille déjà
Est un tombeau de marbre neuf
Dans une forêt vaste et vielle,

Le tombeau de l’héroïne
Que tu seras contre ta volonté
De n’avoir qu’une vie de plante entre les arbres
Communément obscurément
Innocemment longtemps
Au pied d’une porte de craie.

(28 octobre 1984)

§

Incêndio [André Pieyre de Mandiargues, L’âge de la craie, 1961, p.15: “L’incendie”]

Que foste buscar em meio ao incêndio
Por trás dos vapores de esplendor barroco
Através do segredo de uma escada aos trapos
Estrangulada por heras escarlates?

Que promessa te fez abrir uma porta em chamas
Santa face de fogo e cinza
Na beira de um mundo morno
Falcatrua silêncio ruína?

Diante de ti agora não mais
Que diamantes e rubis brincando na poeira
Que gesso caído sobre azulejos de mármore
Com estátuas de escudos brancos
De mãos de vidro de jarros cheios de pranto
De pretas de veludo e de rosas passadas
Embaixo de paredes caducas.

Eis que vem vindo uma dama radiante e funérea
Desaparece de repente de repente aparece reaparece de repente
Mais que de repente nua
Que é como a sombra de uma desolação.

Nua sangrenta e negra
Nos cabelos desfeitos uma fagulha
Vermelha como um cravo capaz de perfurar a fuligem.

Pisoteando com os pés as pedras
Ouro e prata o tinir do cristal
Indiferente à opulência ou à ruína
Na beleza da hora catastrófica.

E talvez a julgues boa atriz
Gigante que se estende com tranquilidade
Na calçada como sob uma faca
Enquanto ao seu redor explode e se espalha
O louco luxo do seu teatro de sempre
Que mil línguas engolem.

L’incendie

Qu’allais-tu donc chercher à travers l’incendie
Derrière des vapeurs à la splendeur baroque
Par le secret d’un escalier en loques
Étranglé de lierres écarlates ?

Quel voeu te fit pousser une porte brûlante
Sainte face de feu et de cendre
A la limite d’un monde morne
Sournoiserie silence délabrement ?

Devant toi ce n’est plus maintenant
Que diamants et rubis qui jouent dans la poussière
Que plâtres retombés sur des carreaux de marbre
Avec des statues blanches des armes
Des mains de verre des vases pleins de larmes
Des nègres de velours et des roses passées
Au bas de murs caducs.

Il vient une dame éclatante et funèbre
Tôt apparue tôt disparue tôt reparue
Plus tôt encore nue
Qui est comme l’ombre d’une désolation.

Nue saignante et noire
Une flammèche en ses cheveux défaits
Rouge comme un oeillet qui crèverait la suie.

Foulant aux pieds les pierres
L’or et l’argent le fracas du cristal
Indifférente à l’opulence ou à la ruine
Dans la beauté d’une heure catastrophique.

Et tu la trouveras peut-être bonne actrice
La géante qui s’étend avec tranquillité
Sur le pavement comme sous un couteau
Tandis qu’alentour explose et se disperse
Le luxe fou de son théâtre de toujours
Que mille langues engloutissent.

§

Temporada de neve [André Pieyre de Mandiargues, L’âge de la craie, 1961, p.: “Les temps de neige”]

Neva e elas riem

Elas riem de tudo
Da sua nudez do inverno
Da cabra preta e pinhos
Do vento e de seu mestre.

Leito frio tinto em fogo
De araras e quimeras
De gargantas brilhantes
Nos olhos se debatem
Colibris faisões gaios.

Ornamento incontestável
Os dias de sol minguam
Em clarões de alegria insana
Em plumas jorrando em sincelos
Pelo mais vão dos sacrifícios
É hora de se perderem.

Se o leito é o campo da derrota
Se os lençóis rasgados tombam
Aos pés deste homem sem idade
Sem amizades nem perdão
Bloco mineral errático
Que um glaciar deixou no quarto.

Pelo orgulho submisso a tudo
Uma se finge indiferente
Logo a outra se maravilha
Fica vermelha e segue branca
Pequena coruja-das-neves
Presa nos fios do caçador.

Sabe ele que ela é a caçula e
Que sua penugem tão fina
Um só fio de sangue arruina?

Mas a fogueira também toma parte
Rompe-se a rocha o quarto se ilumina
O áspero jogo logo vai findar
Numa onda ardente de rubi e nácar.

Le temps de neige

Il neige elles s’en rient
Elles se rient de tout

De l’hiver d’être nues
De la nuit et des hommes
Du bouc noir des sapins
Du vent et de leur maître.

Le feu peint leur lit froid
D’aras et de chimères
Aux gorges étincelantes
Et dans leurs yeux se battent
Faisans geais colibris.

La parure incontestable
De beaux jours qui s’amenuisent
En éclats d’une gaieté folle
En duvets jetés aux frimas
Pour le plus vain des sacrifices
S’il n’est temps que d’être perdues.

Si leur lit est un champ de défaite
Si les draps rompus sont à bas
Aux pieds de cet homme sans âge
Sans amitié ni pardon
Bloc de pierre erratique
Qu’un glacier laissa dans la chambre.

Soumise à tout par sa fierté
L’une se feint indifférente
Mais déjà l’autre s’émerveille
Rosit sans cesser d’être blanche
Comme un petit harfang des neiges
Pris aux filets de l’oiseleur.

Sait-il bien qu’elle est la plus jeune
Et que son plumage est si tendre
Qu’un trait de sang le ruinera ?

Mais le bûcher s’est mis de la partie
Le roc se fend la chambre s’illumine
Le jeu bourru va bientôt s’achever
En chaude ondée de rubis et de nacre.

§

País gélido [André Pieyre de Mandiargues, L’âge de la craie, 1961, p.40: “Le pays froid”]

Fala mais alto, o inverno atordoa.
O ruído dos passos que ontem ouvimos
No lago congelado
Somente na memória agora soa
E nossa vida se faz um triste hábito
Por trás da parede de vidro níveo.

Já tem dias semanas que cai neve
E o carvão o café cada dia menos
Cada dia enfraquece
O amanhã sempre pior que a véspera.

Nossa própria memória extravia as respostas.

Fome e gelo expulsam do bosque os cervos
Paras as ruas do vilarejo
Um deitou-se perante a cruz
Boquiaberto a cabeça pra trás
Fera imagem do nosso amor.

Escutou o uivo dos lobos à noite
Quando vêm vindo rondar o curral?
Sob a chaminé o fogo enfraquece
Com tanta indulgência o cão nos encara
Com tanta pena
Que nosso peito se aperta.

Não ninguém vai varrer os degraus da entrada.

Jovem gigante, ganha força o inverno
Cai neve a geada engrossa e nós
Envelhecemos no compasso.

Fala baixo não é mais preciso que escutem
O homem de pedra já vai abrir o caminho.

Le pays froid

Parlez plus haut l’hiver nous assourdit
Les bruits des pas que l’on entendait hier
Au bord du lac gelé
Ne sonnent plus que dans le souvenir
Et notre vie devient une habitude triste
Derrière la paroi des vitres blanches.

La neige tombe depuis bien des semaines
Le charbon le café diminuent tous les jours
Chaque jour s’amoindrit
Le lendemain toujours est pire que la veille.

Notre mémoire même égare les réponses.

La faim le froid chassent les cerfs hors des bois
Jusque dans les rues du village
L’un s’est couché devant la croix
Bouche bée la tête à la renverse
Fauve image de notre amour.

Avez-vous entendu crier le loup le soir
Quand ils viennent rôder autour des étables?

Sous la haute cheminée le feu languit
Le chien nous regarde avec tant d’indulgence
Avec tant de pitié
Que notre coeur se serre.

Nul ne balayera les marches de l’entrée.

L’hiver s’accroît comme un jeune géant
La neige tombe le givre s’épaissit
Et nous vieillissons à mesure.

Parlez bas il n’est plus besoin de nous entendre
Bientôt l’homme de pierre ouvrira le chemin.

Padrão
poesia, tradução

Nicanor Parra, por Joana Barossi e Cide Piquet

Nicanor Parra nasceu em 1914 em San Fabián de Alico, próximo a Chillán. Em 1933 ingressa na Universidade do Chile, onde cursa matemática e física. Em 1937 publica seu primeiro livro de poemas, Cancionero sin nombre, ainda sob a influência de García Lorca. Em 1943, viaja para os Estados Unidos para fazer pós-graduação na Universidade Brown, onde estuda mecânica avançada, e a partir de 1945 passa a lecionar na Universidade do Chile. Entre 1949 e 1952 frequenta cursos em Oxford, quando trava contato com a poesia inglesa. Em 1954, de volta ao Chile, publica seu segundo livro, Poemas y antipoemas, até hoje considerado um marco da poesia sul-americana. A partir daí torna-se um dos poetas mais prolíficos do século XX, com uma obra que se estende por cerca de oitenta anos e compreende mais de vinte livros de poemas, como Versos de salón (1962) e Sermones y prédicas del Cristo de Elqui (1977), e uma série de antologias, exposições visuais, traduções e colaborações artísticas. Em 1969 publica Obra gruesa, reunião de todos os seus poemas escritos até então, e em 1972 lança Artefactos, uma caixa com os poemas-objeto que vinha desenvolvendo desde os anos 1960. Em 1985, época em passa a morar no balneário de Las Cruces, publica Hojas de Parra, com poemas escritos a partir de 1969. Em 2011 é agraciado com o Prêmio Cervantes, e em 2017 surge seu derradeiro livro, a coletânea El último apaga la luz. Faleceu em 23 de janeiro de 2018, aos 103 anos, na casa da família Parra em La Reina.

Os dois poemas abaixo foram tirados de Só para maiores de cem anos é a primeira grande antologia de Nicanor Parra a ser publicada no Brasil, com 75 poemas selecionados e traduzidos por Joana Barossi e Cide Piquet, pela Editora 34.

Joana Barossi é professora, editora e poeta. Estudou Jornalismo, Arquitetura e História da Arte, e é mestranda pela FAU-USP. Trabalhou com desenho de exposições e curadoria e escreveu textos críticos para artistas como Héctor Zamora, Marcelo Cipis, Lina Kim, Guga Szabson e Pablo Saborido. Contribuiu com as revistas Gagarin (Bélgica), Letras Libres (México) e Fórum Permanente (Brasil), entre outras. Foi editora do Projeto Contracondutas (2016), coordenadora editorial da 11ª Bienal de Arquitetura de São Paulo e professora convidada no workshop Travel School da Rhode Island School of Design. Atualmente leciona Arte e Arquitetura na Escola da Cidade, em São Paulo.

Cide Piquet nasceu em Salvador em 1977 e estudou Letras na USP. É editor, tradutor e poeta. Trabalha desde 1999 na Editora 34, atuando nas coleções de poesia e literatura estrangeira. Ministrou cursos sobre edição e tradução na Casa Guilherme de Almeida, na Universidade do Livro e no Curso de Editoração da ECA-USP, entre outros. É autor do livro de poesia malditos sapatos (2013) e da plaquete Poemas e traduções (2017). Publicou traduções de ensaios e poemas em antologias e revistas literárias, e traduziu os livros Histórias para brincar, de Gianni Rodari (2007), e Esta vida: poemas escolhidos, de Raymond Carver (2017, volume em que assina a organização).

* * *

Manifesto

Senhoras e senhores
Esta é nossa última palavra
— Nossa primeira e última palavra —:
Os poetas baixaram do Olimpo.

Para os mais velhos
A poesia foi um objeto de luxo
Mas para nós
É um artigo de primeira necessidade:
Não podemos viver sem poesia.

Diferentemente dos mais velhos
— E digo isso com todo respeito —
Nós sustentamos
Que o poeta não é um alquimista
O poeta é um homem qualquer
Um pedreiro que constrói seu muro:
Um construtor de portas e janelas.

Nós conversamos
Na linguagem do dia a dia
Não acreditamos em signos cabalísticos.

E tem mais:
O poeta está aí
Para que a árvore não cresça torta.

Esta é a nossa mensagem.
Nós denunciamos o poeta demiurgo
O poeta Barata
O poeta Rato de Biblioteca.

Todos esses senhores
— E digo isso com muito respeito —
Devem ser processados e julgados
Por construir castelos no ar
Por desperdiçar espaço e tempo
Escrevendo sonetos à lua
Por agrupar palavras ao acaso
À última moda de Paris.
Para nós, não:
O pensamento não nasce na boca
Nasce no coração do coração.

Nós repudiamos
A poesia de óculos escuros
A poesia de capa e espada
A poesia de chapéu de aba larga.
Por outro lado, propiciamos
A poesia de olhos abertos
A poesia de peito aberto
A poesia de cabeça descoberta.

Não acreditamos em ninfas nem tritões.
A poesia tem que ser isto:
Uma garota rodeada de espigas
Ou não ser absolutamente nada.

Agora sim, no plano político
Eles, nossos avós imediatos,
Nossos bons avós imediatos!
Se refrataram e se dispersaram
Ao passar pelo prisma de cristal.
Uns poucos se tornaram comunistas.
Bom, não sei se o foram de fato.
Suponhamos que foram comunistas
O que sei é o seguinte:
Não foram poetas populares
Foram veneráveis poetas burgueses.

Há que dizer as coisas como são:
Apenas um ou outro
Soube chegar ao coração do povo.
Cada vez que puderam
Se declararam em palavras e ações
Contra a poesia engajada
Contra a poesia do presente
Contra a poesia proletária.

Aceitemos que foram comunistas
Mas a poesia foi um desastre
Surrealismo de segunda mão
Decadentismo de terceira mão
Tábuas velhas devolvidas pelo mar.
Poesia adjetiva
Poesia nasal e gutural
Poesia arbitrária
Poesia copiada dos livros
Poesia baseada
Na revolução da palavra
Quando deveria se fundar
Na revolução das ideias.
Poesia de círculo vicioso
Para meia dúzia de eleitos:
“Liberdade absoluta de expressão”.

Hoje nos persignamos perguntando
Para que escreveriam essas coisas —
Para assustar o pequeno-burguês?
Tempo perdido miseravelmente!
O pequeno-burguês não reage
Senão quando se trata do estômago.

Como vão assustá-lo com poesias!

A situação é esta:
Enquanto eles defendiam
Uma poesia do crepúsculo
Uma poesia da noite
Nós propugnamos
A poesia do amanhecer.
Esta é a nossa mensagem
Os resplendores da poesia
Devem chegar a todos igualmente
A poesia é bastante para todos.

É isso, companheiros
Nós condenamos
— E isto, sim, digo com respeito —
A poesia de pequeno deus
A poesia de vaca sagrada
A poesia de touro furioso.

Contra a poesia das nuvens
Nós opomos
A poesia da terra firme
— Cabeça fria, coração quente
Somos terrafirmistas convictos —
Contra a poesia dos cafés
A poesia da natureza
Contra a poesia de salão
A poesia da praça pública
A poesia de protesto social.

Os poetas baixaram do Olimpo.

Manifiesto

Señoras y señores
Ésta es nuestra última palabra
— Nuestra primera y última palabra —:
Los poetas bajaron del Olimpo.

Para nuestros mayores
La poesía fue un objeto de lujo
Pero para nosotros
Es un artículo de primera necesidad:
No podemos vivir sin poesía.

A diferencia de nuestros mayores
— Y esto lo digo con todo respeto —
Nosotros sostenemos
Que el poeta no es un alquimista
El poeta es un hombre como todos
Un albañil que construye su muro:
Un constructor de puertas y ventanas.
Nosotros conversamos
En el lenguaje de todos los días
No creemos en signos cabalísticos.

Además una cosa:
El poeta está ahí
Para que el árbol no crezca torcido.

Este es nuestro mensaje.
Nosotros denunciamos al poeta demiurgo
Al poeta Barata
Al poeta Ratón de Biblioteca.

Todos estos señores
— Y esto lo digo con mucho respeto —
Deben ser procesados y juzgados
Por construir castillos en el aire
Por malgastar el espacio y el tiempo
Redactando sonetos a la luna
Por agrupar palabras al azar
A la última moda de París.
Para nosotros no:
El pensamiento no nace en la boca
Nace en el corazón del corazón.

Nosotros repudiamos
La poesía de gafas obscuras
La poesía de capa y espada
La poesía de sombrero alón.
Propiciamos en cambio
La poesía a ojo desnudo
La poesía a pecho descubierto
La poesía a cabeza desnuda.

No creemos en ninfas ni tritones.
La poesía tiene que ser esto:
Una muchacha rodeada de espigas
O no ser absolutamente nada.

Ahora bien, en el plano político
Ellos, nuestros abuelos inmediatos
¡Nuestros buenos abuelos inmediatos!
Se refractaron y se dispersaron
Al pasar por el prisma de cristal.
Unos pocos se hicieron comunistas.
Yo no sé si lo fueron realmente.
Supongamos que fueron comunistas
Lo que sé es una cosa:
Que no fueron poetas populares
Fueron unos reverendos poetas burgueses.

Hay que decir las cosas como son:
Solo uno que otro
Supo llegar al corazón del pueblo.
Cada vez que pudieron
Se declararon de palabra y de hecho
Contra la poesía dirigida
Contra la poesía del presente
Contra la poesía proletaria.

Aceptemos que fueron comunistas
Pero la poesía fue un desastre
Surrealismo de segunda mano
Decadentismo de tercera mano
Tablas viejas devueltas por el mar.
Poesía adjetiva
Poesía nasal y gutural
Poesía arbitraria
Poesía copiada de los libros
Poesía basada
En la revolución de la palabra
En circunstancias de que debe fundarse
En la revolución de las ideas.
Poesía de círculo vicioso
Para media docena de elegidos:
“Libertad absoluta de expresión”.

Hoy nos hacemos cruces preguntando
Para qué escribirían esas cosas
¿Para asustar al pequeño burgués?
¡Tiempo perdido miserablemente!
El pequeño burgués no reacciona
Sino cuando se trata del estómago.

¡Qué lo van a asustar con poesías!

La situación es ésta:
Mientras ellos estaban
Por una poesía del crepúsculo
Por una poesía de la noche
Nosotros propugnamos
La poesía del amanecer.
Este es nuestro mensaje
Los resplandores de la poesía
Deben llegar a todos por igual
La poesía alcanza para todos.

Nada más, compañeros
Nosotros condenamos
— Y esto sí que lo digo con respeto —
La poesía de pequeño dios
La poesía de vaca sagrada
La poesía de toro furioso.

Contra la poesía de las nubes
Nosotros oponemos
La poesía de la tierra firme
— Cabeza fría, corazón caliente
Somos tierrafirmistas decididos —
Contra la poesía de café
La poesía de la naturaleza
Contra la poesía de salón
La poesía de la plaza pública
La poesía de protesta social.

Los poetas bajaron del Olimpo.

§

Cartas do poeta que dorme numa cadeira

I

Eu digo as coisas tal como são
Ou sabemos tudo de antemão
Ou nunca saberemos absolutamente nada.

A única coisa que nos permitem
É aprender a falar corretamente.

II

Todas as noites sonho com mulheres
Algumas riem ostensivamente de mim
Outras me acertam um golpe na nuca.
Não me deixam em paz.
Estão em guerra permanente comigo.

Me levanto com cara de trovão.

Do que se deduz que estou louco
Ou pelo menos que estou morto de medo.

III

Custa bastante trabalho crer
Num deus que deixa suas criaturas
Abandonadas à própria sorte
À mercê das ondas da velhice
E das doenças
Pra não dizer nada da morte.

IV

Sou dos que saúdam as carroças.

V

Jovens
Escrevam o que quiserem
No estilo que acharem melhor
Já correu sangue demais por baixo das pontes
Pra continuar acreditando — acredito
Que só se pode seguir um caminho:
Em poesia tudo é permitido.

VI

Doença
                  Decrepitude
                                               e Morte
Dançam como donzelas inocentes
Ao redor do lago dos cisnes
Seminuas
                       bêbadas
Com seus lascivos lábios de coral.

VII

Fica declarado
Que não existem habitantes na lua

Que as cadeiras são mesas
Que as borboletas são flores em movimento perpétuo
Que a verdade é um erro coletivo
Que o espírito morre com o corpo

Fica declarado
que as rugas não são cicatrizes.

VIII

Toda vez que por alguma razão
Tive que descer
Da minha pequena torre de tábuas
Voltei tiritando de frio
De solidão
                         de medo
                                              de dor.

IX

Já desapareceram os bondes
Cortaram as árvores
O horizonte está cheio de cruzes.

Marx foi negado sete vezes
E nós continuamos por aqui.

X

Alimentar abelhas com fel
Inocular o sêmen pela boca
Ajoelhar-se numa poça de sangue
Espirrar na capela-ardente
Ordenhar uma vaca
E derramar-lhe o próprio leite na cabeça.

XI

Das nuvens do café da manhã
Aos trovões da hora do almoço
E daí aos relâmpagos do jantar.

XII

Eu não fico triste facilmente
Para ser sincero
Até as caveiras me fazem rir.
Cumprimenta-os com lágrimas de sangue
O poeta que dorme numa cruz.

XIII

O dever do poeta
Consiste em superar a página em branco
Duvido que isto seja possível.

XIV

Só com a beleza me conformo
A feiura me causa dor.

XV

Última vez que repito a mesma coisa
Os vermes são deuses
As borboletas são flores em movimento perpétuo
Dentes cariados
                                      dentes quebradiços
Eu sou do tempo do cinema mudo.

Fornicar é um ato literário.

XVI

Aforismos chilenos:
Todas as ruivas têm sardas
O telefone sabe o que diz
Nunca perdeu mais tempo a tartaruga
do que quando tomou lições da águia.

O automóvel é uma cadeira de rodas.

O viajante que olha pra trás
Corre o sério perigo
De que sua sombra não queira segui-lo.

XVII

Analisar é renunciar a si mesmo
Só é possível raciocinar em círculo
Só se vê o que se quer ver
Um nascimento não resolve nada
Reconheço que me caem as lágrimas.

Um nascimento não resolve nada
Só a morte diz a verdade
A poesia mesmo não convence.
Nos ensinam que o espaço não existe

Nos ensinam que o tempo não existe
Mas seja como for
A velhice é um fato consumado.

Seja o que a ciência determinar.

Me dá sono ler os meus poemas
E no entanto foram escritos com sangue.

Cartas del poeta que duerme en una silla

I

Digo las cosas tales como son
O lo sabemos todo de antemano
O no sabremos nunca absolutamente nada.

Lo único que nos está permitido
Es aprender a hablar correctamente.

II

Toda la noche sueño con mujeres
Unas se ríen ostensiblemente de mí
Otras me dan el golpe del conejo.
No me dejan en paz.
Están en guerra permanente conmigo.

Me levanto con cara de trueno.

De lo que se deduce que estoy loco
O por lo menos que estoy muerto de susto.

III

Cuesta bastante trabajo creer
En un dios que deja a sus creaturas
Abandonadas a su propia suerte
A merced de las olas de la vejez
Y de las enfermedades
Para no decir nada de la muerte.

IV

Soy de los que saludan las carrozas.

V

Jóvenes
Escriban lo que quieran
En el estilo que les parezca mejor
Ha pasado demasiada sangre bajo los puentes
Para seguir creyendo — creo yo
Que solo se puede seguir un camino:
En poesía se permite todo.

VI

Enfermedad
                          Decrepitud
                                                   y Muerte
Danzan como doncellas inocentes
Alrededor del lago de los cisnes
Semidesnudas
                               ebrias
Con sus lascivos labios de coral.

VII

Queda de manifiesto
Que no hay habitantes en la luna

Que las sillas son mesas
Que las mariposas son flores en movimiento perpetuo
Que la verdad es un error colectivo
Que el espíritu muere con el cuerpo

Queda de manifiesto
Que las arrugas no son cicatrices.

VIII

Cada vez que por una u otra razón
He debido bajar
De mi pequeña torre de tablas
He regresado tiritando de frío
De soledad
                        de miedo
                                            de dolor.

IX

Ya desaparecieron los tranvías
Han cortado los árboles
El horizonte se ve lleno de cruces.

Marx ha sido negado siete veces
Y nosotros todavía seguimos aquí.

X

Alimentar abejas con hiel
Inocular el semen por la boca
Arrodillarse en un charco de sangre
Estornudar en la capilla ardiente
Ordeñar una vaca
Y lanzarle su propia leche por la cabeza.

XI

De los nubarrones del desayuno
A los truenos de la hora de almuerzo
Y de ahí a los relámpagos de la comida.

XII

Yo no me pongo triste fácilmente
Para serles sincero
Hasta las calaveras me dan risa.
Los saluda con lágrimas de sangre
El poeta que duerme en una cruz.

XIII

El deber del poeta
Consiste en superar la página en blanco
Dudo que eso sea posible.

XIV

Solo con la belleza me conformo
La fealdad me produce dolor.

XV

Última vez que repito lo mismo
Los gusanos son dioses
Las mariposas son flores en movimiento perpetuo
Dientes cariados
                                    dientes quebradizos
Yo soy de la época del cine mudo.

Fornicar es un acto literario.

XVI

Aforismos chilenos:
Todas las colorinas tienen pecas
El teléfono sabe lo que dice
Nunca perdió más tiempo la tortuga
Que cuando tomó lecciones del águila.

El automóvil es una silla de ruedas.

Y el viajero que mira para atrás
Corre el serio peligro
De que su sombra no quiera seguirlo.

XVII

Analizar es renunciar a sí mismo
Solo se puede razonar en círculo
Solo se ve lo que se quiere ver
Un nacimiento no resuelve nada
Reconozco que se me caen las lágrimas.

Un nacimiento no resuelve nada
Solo la muerte dice la verdad
La poesía misma no convence.
Se nos enseña que el espacio no existe

Se nos enseña que el tiempo no existe
Pero de todos modos
La vejez es un hecho consumado.

Sea lo que la ciencia determine.

Me da sueño leer mis poesías
Y sin embargo fueron escritas con sangre.

Padrão
poesia, tradução

Gary Snyder, por André Mendo

Gary Snyder é o mais conhecido expoente norte-americano da poesia da vida selvagem, do ambientalismo e do Zen Budismo. É considerado herdeiro da escrita natural de Walt Whitman e Henry David Thoreau e seu estilo simples e imagístico revela as influências de William Carlos Williams e Ezra Pound. O poeta, que nasceu em São Francisco, EUA, em 1930, descende dos pioneiros que marcharam para o Oeste, desbravando novas fronteiras em busca de prosperidade e aventura. Seus ancestrais “exterminaram o puma e o urso-cinzento”, mas ele trilha um caminho diferente. Desde jovem, desenvolveu uma forte reverência pela natureza. A proximidade com mamíferos, insetos, árvores, rios e montanhas, observados sob uma ótica familiarizada com estudos sobre nativos norte-americanos e culturas orientais, constitui não só a matéria de sua poesia e ensaios, mas também seu estilo de vida. Snyder é outro tipo de pioneiro, um que se move em direção à conexão perdida entre o homem e a natureza.

O poeta cresceu em uma família que conheceu a severidade da vida no campo, mas que também teve a oportunidade de aprender a trabalhar em um ambiente bastante autossuficiente e de produção variada. Em casa, cercado de literatura socialista, era encorajado pela mãe a ler. Sua infância foi ainda marcada pela proximidade com os índios Salish e seus rituais e crenças. Todas essas lembranças ressoam em uma instância peculiar dos escritos de Snyder: a necessidade de transformar a sociedade por sua relação com a natureza. Seus versos ilustram esse desejo de igualdade entre as pessoas e entre pessoas e animais.

Snyder graduou-se em antropologia e literatura enquanto ocupava-se de uma série de atividades junto à natureza, como lenhador, marinheiro e guarda florestal. Estudou japonês e chinês e tornou-se tradutor desses idiomas. Em 1955, participou da leitura na Six Gallery em São Francisco que inaugurou o movimento Beat. Em 1956, deixou os EUA para uma residência de 12 anos na Ásia, a maior parte no Japão, onde imergiu na prática zen budista. Em 1959, publicou seu primeiro livro de poemas, Riprap. Snyder voltou os EUA em 1969 e construiu uma casa no sopé setentrional de Sierra Nevada, onde ainda vive. Desde 1985, leciona na Universidade da Califórnia, Davis.

A poesia de Snyder não é puramente intelectual, mas sobretudo empírica, pois deriva de sua experiência imediata junto à natureza selvagem. Seus poemas apresentam traços confessionais derivados de seu estado de contemplação haicaística diante da natureza, de sua ligação emocional com lugares e animais e de sua preocupação com o meio ambiente e o amadurecimento da sociedade no sentido de se aproximar do mundo natural. Os poemas seguintes e outros foram reunidos com um conjunto de ensaios na edição Turtle Island, que venceu o Prêmio Pulitzer em 1975. Turtle Island (Ilha da Tartaruga) é um nome antigo do continente norte-americano resgatado por Snyder ao nomear sua coletânea escrita entre 1969 e 1974.

André Mendo é graduado em Estudos Literários de Língua Inglesa pela UFPR, onde apresentou a monografia Um conselho de aldeia de todos os seres: a animalidade em Turtle Island, do poeta Gary Snyder, donde foram tiradas as traduções abaixo.

* * *

Anasazi

Anasazi,
Anasazi,

Enfiados nas fendas das falésias
cultivando estreitos campos de milho e feijão
afundando cada vez mais na terra
até o quadril nos Deuses
        sua cabeça coberta por penas de águia
        & relâmpagos pelos joelhos e cotovelos
seus olhos cheios de pólen

        o cheiro de morcegos
        o sabor de arenito
        sorriem na língua

        mulheres
        dando à luz
ao pé das escadas no escuro

córregos gotejando em cânions ocultos
sob o deserto móvel e gélido

cesta de milho                        olhos arregalados
bebê vermelho
na casa na borda da pedra,

Anasazi

§ 

Canção da pega[1]

Seis da manhã,
Sentado no cascalho de escavação
junto ao zimbro e as trilhas desertas de S.P.
interestadual 80 não muito longe
          entre caminhões
Coiotes–talvez três
          uivando e latindo de uma elevação

A pega em um ramo
Inclinou a cabeça e disse

          “Aqui na mente, irmão
          Azul turquesa.
          Eu não te enganaria.
          Sinta o cheiro da brisa
          Veio por todas as árvores
          Não precisa temer
          O que está por vir
          Neve nas montanhas a oeste
          Estará lá todos os anos
          Fica tranquilo
          Uma pena no chão–
          O som do vento–

Aqui na Mente, Irmão
Azul turquesa”

§

Linhas de frente

A borda do câncer
Dilata contra a colina–nós sentimos
                      uma brisa fétida
E ela afunda de volta.
O inverno do cervo aqui
Uma serra elétrica rosna no desfiladeiro

Dez dias úmidos e os caminhões de toras param,
As árvores respiram.
Domingo, o jipe tração 4 rodas da
Companhia Imobiliária traz
Os especuladores de terras, olheiros, eles dizem
À terra
Abra as pernas.

O estrondo dos jatos sobre nossas cabeças está OK aqui;
Cada pulsar podre no coração
Nas veias gordurosas e doentes da Amerika
Empurra a borda mais perto–

Uma escavadeira que brita e remenda
Desliza e cospe fumaça em cima
Dos corpos esfolados de arbustos ainda vivos
No pagamento de um cara
Da cidade.

Atrás é uma floresta que vai até o Ártico
E um deserto que ainda pertence aos Piute
E aqui devemos desenhar
Nossa linha.

§

 Mãe Terra: suas baleias

Uma coruja cintila nas sombras
Um lagarto ergue-se na ponta dos pés, respirando pesado
O jovem pardal masculino estica o pescoço
                      grande cabeça, observando–

A grama está trabalhando ao sol. Torna-o verde.
Torna-o doce. Para que possamos comer.
Cultivam nossa carne.

O Brasil diz “uso soberano dos Recursos Naturais”
Trinta mil tipos de plantas desconhecidas.
As pessoas reais vivas da selva
          vendidas e torturadas–
E um robô de terno que vende uma ilusão chamada “Brasil”
          pode falar por eles?

          As baleias giram e reluzem, mergulham
                      e assoviam e sobem de novo,
          Suspensas sobre profundezas sutilmente escurecedoras
          Fluindo como planetas que respiram
                      Em espirais espumantes de
                                luz viva–

E o Japão sofisma com palavras em
          que tipos de baleias eles podem matar?
Uma antiga grande nação budista
          pinga metilmercúrio
          como gonorreia
                      no mar.

O cervo de Père David, o Elaphure,
Vivia nos charcos de junco do rio Amarelo
Há dois mil anos–e perdeu seu lar para o arroz–
As florestas de Lo-yang foram desmatadas e todo o lodo &
A areia escorreram, e se foram, até 1200 AD–

Gansos Selvagens chocados na Sibéria
          seguiam para o sul sobre as bacias do Yang, o Huang,
          o que chamamos de “China”
Em voos eles usaram um milhão de anos.
Ah China, onde estão os tigres, os javalis,
          os macacos,
                      como as neves do passado
Desaparecidos em uma névoa, um clarão, e o chão seco e duro
É o estacionamento para cinquenta mil caminhões.
SERÁ homem o mais precioso de todas essas coisas?
–então, vamos amá-lo, e seus irmãos, todos aqueles
Desaparecendo, seres vivos–

América do Norte, Ilha da Tartaruga, tomadas por invasores
          que fazem guerra contra o mundo.
Podem formigas, moluscos, lontras, lobos e alces
Levantem-se! E afastem suas dádivas
          das nações robóticas.

Solidariedade. As pessoas.
De pé. Pessoas árvores!
Pessoa pássaro voando!
Pessoas do mar nadando!
De quatro pés, de duas pernas, pessoas!

Como pode o cientista político cabeça-pesada com fome de poder
Governo        dois mundos    Capitalista-Imperialista
Terceiro-mundo        Comunista       macho baralha-papel
          não-fazendeiros          milionários      burocratas
Falam pelo verde da folha? Falam pelo solo?

(Ah Margaret Mead . . . às vezes você sonha com Samoa?)

Os robôs argumentam como distribuir nossa Mãe Terra
Para durar um pouco mais
          como abutres batendo as asas
Arrotando, gorgolejando,
          ao lado de um Alce moribundo.

“No outro lado, está deitado um cavaleiro morto–
Vamos voar até ele e comer seus olhos
                      com um down
          derry derry derry down down. “

                      Uma coruja cintila na sombra
                      Um lagarto levanta na ponta dos pés
                                  respirando pesado
                      As baleias giram e reluzem
                                  mergulham e
                      Assovia, e sobem de novo
                      Fluindo como planetas que respiram

                      Nas espirais espumantes

                      De luz viva.

                                              Estocolmo: solstício de verão 40072

§

Ninguém deve falar a um caçador habilidoso sobre o que é proibido pelo Buda

                                                          –Hsiang-yen

Uma raposa cinza, fêmea, quatro quilos
um metro de comprimento com a cauda
A pele do dorso esfolada (Kai
nos lembrou de cantar o Shingyo antes)
pele gelada, enrugada; e o cheiro almiscarado
misturado com o corpo morto começando a cheirar.

Conteúdo estomacal: um esquilo-terrestre inteiro bem mastigado
mais um pé de lagarto
e em algum lugar do interior do esquilo-terrestre
um pedaço de papel alumínio.

O segredo.
e o segredo escondido lá no fundo disso.

Fogo é uma velha história
Eu gostaria,
com um útil senso de ordem,
com respeito pelas leis
da natureza,
de ajudar minha terra
com uma queimada, uma quente e limpa
queimada.
          (as sementes de manzanita só abrirão
          depois que um incêndio ocorrer
          ou uma vez espalhada por um urso)

E então
seria mais
como,
quando pertencia aos índios

Antes.

§

O Caminho do Oeste, subterrâneo

O cedro-dividido
salmão defumado
dias nublados do Oregon,
florestas espessas de abeto.

                      Cabeças de UrsoNegro          colina acima
                      No condado de Plumas,
                      fundo redondo escorrendo pelos salgueiros–

A Mulher do Urso move-se costa acima

                      onde arbustos de amoras
                      vagueiam nos regatos.

E ao redor da curva das ilhas
Vulcões brumosos
em direção ao norte do Japão. Os ursos
& lanças de peixes dos Ainu.
Gyliak.
Curandeiro com visão de cogumelos
Tambor plano sozinho
de muito antes da China.

Mulheres com tambores que voam sobre o Tibete.

Seguindo as florestas a oeste, e
rolando, seguindo a savana
rastreando ursos e cogumelos,
comendo bagas todo o caminho.
Na Finlândia por fim tomou um banho:
                      como a Tenda de Suor de sequóia no Klamath–
todos os finlandeses em mocassins e
chapéus pontudos com manchas brancas,
urtigas, armadilhas, banhos,
cantando de mãos dadas, enquanto

gangorrando em um banco, uma visão de amor–

Karhu-Bjorn-Braun-Bear

                      [clarão arco-íris grande nuvem árvore
                                  diálogos de aves]

Europa.         ‘O Oeste.’
os ursos se foram
                                              exceto Brunhilde?

ou as deusas mais antigas mais selvagens renascidas–vão correr
          as ruas da França e da Espanha
          com armas automáticas–
          na Espanha,
Ursos e Bisão,
Mãos Vermelhas com dedos faltando,
Labirintos de cogumelos vermelhos;
labirintos relâmpagos,
Pintados em cavernas,

Subterrâneos.

§

Os mortos ao lado da estrada

Como um grande Falcão-de-cauda-vermelha
          veio deitar–todo rígido e seco–
                      na margem da
                                  Interestadual 5?

Suas asas para leques

Zac esfolou um gambá com a cabeça esmagada
          lavou a pele em gasolina; ela pende,
                      curtida, na tenda dele

Cozido de alce no Halloween
          atingido por um caminhão na rodovia quarenta e nove
                      oferecer farinha de milho pela boca;
                                  esfolá-lo.

Caminhões de toras circulam com combustível fóssil

Nunca vi um Guaxinim até que encontrei um na estrada:
          tirei a pele dele e deixei as unhas dos pés
                      as solas das patas, o nariz e os bigodes;
                                  está de molho em água e sal
                                  salmoura de ácido sulfúrico;

ela será uma bolsa para ferramentas mágicas.

O Veado foi aparentemente baleado
          de comprido e pelo lado
                      ombro e o flanco de fora
                                  a barriga cheia de sangue

O outro ombro pode ser salvo
          se ela não ficasse muito tempo deitada–
Rezar por seus espíritos. Pedir que nos abençoem:
          as trilhas das nossas antigas irmãs
                      as estradas foram colocadas e os mataram:
                                  olhos-brilhantes-da-noite

Os mortos ao lado da estrada.

§

Primavera no Vale do Coiote

Filhotes
rolam nas folhas úmidas
Cervo, urso, esquilo.
ventos frescos varrem as
estrelas da primavera.
pedras se despedaçam
a lama profunda endurece
sob colinas pesadas.

Coisas moventes
pássaros, ervas,
deslizam pelo ar
através de olhos e ouvidos,

Vale do Coiote. Olema
na primavera.
Flor de toloache alva e solene

e muito longe no tamal
um povo perdido
flutua

em barquinhos de junco.

§

R R R M L

A própria morte,
          (Reator de Reprodução Rápida com Metal Líquido)
          está sorrindo, acenando.
Plutônio dente-fosforescente.
Sobrancelhas zumbindo.
Foice de garimpo.

Kālī dança no pau morto duro.

          Latas de cerveja de alumínio, colheres de plástico,
folheados de madeira compensada, tubo de PVC, coberturas de vinil,
          não queimam exatamente, não apodrecem totalmente,
          inundam-nos,

          roupões e trajes
          do Kālī-yüga

                      fim dos dias.

[1] A pega ou pega-rabuda (pronuncia-se o “e” fechado) é uma ave da família dos corvos, preta e branca, comum em várias regiões do Hemisfério Norte, o que inclui a costa oriental dos EUA, onde Snyder vive e trabalha. A ave costuma frequentar áreas semiurbanas e pode ser avistada nos arredores das cidades e em parques urbanos.

Padrão
tradução

Mario Pera, por Nina Rizzi

Mario_Pera_Ruido_blanco

Mario Pera, poeta e ensaísta peruano. Formado em Direito pela Universidad de Lima e em Desenho Gráfico pelo IPAD (Peru). Foi coeditor da Editora Magreb. Diretor da Revista Literária Digital Vallejo & Co., e da editora de mesmo nome. Em 2013 obteve o Premio Ilustre Municipalidad de Cuenca no Festival de la Lira (Equador). Publicou os livros de poemas Preparaciones anatómicas (2009), Ruido Blanco (2011, 2015, 2016), Mirando sobre el heno, Muestra de poesía peruana reciente (2014), The Most Natural Thing. New American Poetry (2015, junto a David Keplinger) e Y habrá fuego cayendo a nuestro alrededor (2018); os ensaios Fare l’America or learn to live in it? Italian immigration in Peru (2012) e Comunicaciones marcianas. Revista Amauta, a 90 años de la vanguardia peruana 1926-2016 – Una muestra (na prensa, em conjunto com Roger Santiváñez).

Conheci Mario Pera em 2016, quando traduzia alguns poemas de Guilherme Gontijo Flores para a antologia “Inventar la felicidad” (e-book da Vallejo & Co., do Peru), e então me tornei leitora da revista. A convite do Suplemento Literário de Minas Gerais, traduzi uma leva de seus poemas para a edição setembro/ outubro, 2018; gostei tanto que trouxe outros três, os poemas abaixo, aqui pra escamandro.

nina rizzi

*

Oração do clochard moribundo

Três manchas de merda
revelam meu rosto melhor que qualquer fotografia
ao menos esse sou eu, digo
um adorador egocêntrico
a lepra no cu da minha família
o rosário da minha mãe
que arde debaixo do meu travesseiro

e todas as cruzes
escorregam do meu cangote desorientadas
enquanto ouço cair suas orações num saco vazio
e no meu sonho mais calmo
vejo que Lima arde, minha família arde
este poema entre tuas mãos
arde
meus ossos se empolam
e meu sangue se afina até se transformar
em cordas muito finas que me enforcam.

Sempre fui um péssimo filho
sou agnóstico e me masturbo, mas
meu sangue jamais nutriu
o ideal de outro corpo.

Um abutre velho me observa
e canta um estribilho alegre
onde se ergue a árvore de Judas
eu também sou um traidor, respondo
vendi meu nome e minha voz
e sufoquei eternamente
o pranto da minha mãe.

Pela primeira vez
transpira em frente à Cruz
um homem que já morreu.

 

Oración del clochard moribundo

Tres manchas de mierda
develan mi rostro mejor que cualquier fotografía
al menos ese soy yo, digo
un adorador egocéntrico
la lepra en el culo de mi familia
el rosario de mi madre
que arde bajo mi almohada

y todas las cruces
resbalan de mi cogote desorientadas
mientras oigo caer sus oraciones en saco roto
y en mi sueño más calmo
veo que Lima arde, mi familia arde
este poema entre tus manos
arde
mis huesos se ampollan
y mi sangre adelgaza hasta convertirse
en cuerdas muy delgadas que me ahorcan.

Siempre fui un mal hijo
soy agnóstico y me masturbo, pero
mi sangre jamás nutrió
el ideal de otro cuerpo.

Un buitre viejo me observa
y canta un estribillo alegre
donde se yergue el árbol de Judas
yo también soy un traidor, respondo
vendí mi nombre y mi voz
la enclaustré eternamente
en el llanto de mi madre.

Por primera vez
suda frente a la Cruz
un hombre que ya ha muerto.

§

 

Brecht entre clavelinas

 I
Sentado e com as mãos sujas
pensou que era um velho estúpido
mais uma daquelas placas de mármore da praça
que puderam ser talhadas com melhor arte para conseguir um Davi
uma Vênus
ou outra deusa de seios sutis
e nádegas avultadas
porém em algum momento seu destino sofreu um desvio
sua divindade tropeçou no bico do formão
e com cada estalo sua pele foi esmigalhada
como um totem incapaz de profanar seu próprio culto.
Aquele revés se fez indelével
e com o passar do tempo teve que se conformar em ser
mais um bloco da pracinha ou
o ignorado detalhe
onde cagam os pombos.

II
Sentado
observou o asfixiar do dia no ocaso
e desejou guardar suas dúvidas
na felicidade de outros
no monte de palavras que ano a ano
nomeou como algo importante, quase urgente
o eterno espiral de perguntas
que talhou na memória de sua boca
a matutina barbárie de uma frase:
Você que me deu a palavra
agora só estorva minha língua
toda vez que a invoca.

 

Brecht entre clavellinas

I
Sentado y con las manos sucias

pensó que era un viejo estúpido
una más de aquellas losas de mármol de la plaza
que pudieron ser talladas con mejor arte para lograr un David
una Venus
u otra diosa de senos sutiles
y nalgas abultadas
pero en algún momento su destino sufrió un desvío
su divinidad tropezó en el pico del cincel
y con cada crujido su piel fue burilada
como un tótem incapaz de profanar su propio culto.
Aquel revés se hizo indeleble
y con el paso del tiempo tuvo que conformarse con ser
un bloque más de la plazuela o
el ignorado detalle
donde cagan las palomas.

II
Sentado

observó el asfixiar del día en el ocaso
y deseó guardar sus dudas
en la felicidad de otros
en la ruma de palabras que año a año
nombró como algo importante, casi urgente
el eterno espiral de preguntas
que talló en la memoria de su boca
la matutina barbarie de una frase:
Tú que me diste la palabra
ahora solo estorbas mi lengua
cada vez que la invocas.

§


Mirmillón: requiescat in pace

Sou apenas
uma das grades da tua prisão,
que observa como
com o passar do tempo,
teu rosto se desgasta e
se descasca
teu olhar.

Fui testemunha,
de como a folhagem vasta que eram tuas expressões
se enrugaram
e envelheceram
como um ancião
enquanto florescia o outono.

Tantos anos cativo
te deformaram o rosto.
Tua triste colheita
amadureceu e
nasceu,
entre aplausos e aclamações,
seca e sem nome.

 

Mirmillón: requiescat in pace

Solo soy
uno de los barrotes de tu prisión,
que observa cómo
con el correr del tiempo,
se desgasta tu rostro y
se descascara
tu mirada.

He sido testigo,
de cómo el follaje vasto que eran tus expresiones
se ha arrugado
y ha envejecido
como un anciano
mientras floreció el otoño.

Largos años cautivo
te han deformado el rostro.
Tu triste cosecha
ha madurado y
ha nacido,
entre aplausos y vítores,
seca y sin nombre.

***

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