poesia, tradução

Ilíada de Homero, por Leonardo Antunes

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Há muito tempo brinco com a ideia de traduzir a Ilíada. Foi por onde comecei meu trajeto nos Estudos Clássicos, numa longa e extremamente profícua Iniciação Científica sob a orientação do Prof. Christian Werner (de 2002 a 2004).

Àquela época, traduzi metade do Canto II usando um hexâmetro dactílico aos moldes de Carlos Alberto Nunes, cuja tradução sempre foi uma grande inspiração para mim.

Mais recentemente, há uns quatro anos, tentei um verso bárbaro de 14 sílabas, mas sem muito sucesso.

Em seguida, no final de 2017, fiz um experimento com o hexâmetro dactílico conforme Guilherme Gontijo Flores, Rodrigo Gonçalves e Marcelo Tápia o usam, permitindo a permuta de dáctilos por troqueus/espondeus. Apesar de o resultado ser excelente para a performance cantada, notei que a maioria das pessoas não consegue perceber o ritmo do texto ao lê-lo escrito. Com isso, perde-se muito da sonoridade do verso. Como é improvável a performance do texto inteiro, fiquei um pouco desmotivado de seguir por esse caminho (até porque já temos a tradução do Nunes, que serve para a performance).

Por conta disso, decidi que faria uma tradução em algum metro vernáculo canônico, mais propício à leitura. Escolhi o decassílabo por ser, por tradição, o metro mais solene em nossa língua. Para dar conta do conteúdo semântico e estético do hexâmetro grego, muito mais longo, decidi que faria dois decassílabos para cada hexâmetro. Com isso, mantém-se uma equivalência, que permite a fácil consulta entre o texto de partida e o texto de chegada (o que seria mais difícil se eu fosse traduzindo cada hexâmetro por quantos decassílabos julgasse necessários).

Usando essa solução, tenho buscado fazer uma tradução que seja fluente, clara e com boa estruturação formal e sonora dentro do verso. Ainda que já tenhamos excelentes traduções, considero que nenhuma possua sozinha esse conjunto de qualidades. (Penso que a de Haroldo de Campos é a mais bela e inventiva, ainda que à custa de um distanciamento do texto grego; a de Nunes é um pouco mais próxima, bastante sonora, mas cheia de hipérbatos, vocabulário antigo e formulações pouco fluentes para o leitor contemporâneo; a de Odorico Mendes tem as mesmas qualidades e problemas da de Nunes, mas em graus ainda superiores; a de Lourenço é muito fluente e clara, mas tem pouca preocupação formal; a de Werner é a mais atenta ao texto grego, mas tem pouca fluência e preocupação formal; etc.)

Enfim, a convite do gentilíssimo Sergio Maciel, apresento dois trechos de minha tradução.

Primeiro, o proêmio e os versos seguintes (vv. 1-52), até a cena em que Apolo lança suas flechas no exército aqueu, uma passagem que conto entre as mais poeticamente marcantes do poema. Depois, o trecho em que Odisseu chega em Crisa levando Criseida de volta a Crises (vv. 439-474). O churrasco após o sacrifício foi inesperadamente difícil de pôr em verso.

 

Leonardo Antunes

* * *

 

Ira de Aquiles, filho de Peleu,
deusa, concede que eu celebre em canto,
ira fatal que aos acaios impôs
uma miríade de sofrimentos;
muitas almas de força e valentia
fez descender para a casa de Hades;
almas de heróis cujos corpos sem vida
relegou como espólio para os cães
e de banquete às aves de rapina.
Assim cumpria-se o plano de Zeus
desde o primeiro momento em que os dois
por força da discórdia se apartaram,
o Atrida, soberano de varões,
e o filho de Peleu, divino Aquiles.
Quem dentre os deuses incitou os dois,
por meio da discórdia, a contenderem?
Foi o nascido de Leto e de Zeus,
que, movido por raiva contra o rei,
fez com que sobre o exército avançasse
terrível peste – o povo perecia –
por motivo de o sacerdote Crises
ter sido desonrado pelo Atrida.
Isso ocorreu no dia em que ele fora
até as rápidas naves aqueias
a fim de libertar a sua filha,
carregando um resgate imensurável
e tendo em suas mãos sinais divinos,
lauréis de Apolo, flecheiro infalível,
entrelaçados em seu cetro de ouro.
Pedia para todos os aqueus,
mas sobretudo para os dois Atridas,
comandantes de povos e varões:
“Filhos de Atreu e vós outros aquivos,
guerreiros de cnêmides bem-feitas,
que para vós concedam os divinos,
possuidores de olímpicas moradas,
saquear a priâmea cidadela
e ter um bom retorno para casa.
Mas libertai minha filha querida,
aceitando os resgates que vos trago.
Sede tementes ao filho de Zeus,
o arqueiro de infalível mira, Apolo.”
Nisso, os outros acaios aclamaram
com jubilosos gritos o discurso:
que o sacerdote fosse respeitado
e que se recebessem os resgates.
Somente ao filho de Atreu, Agamêmnon,
isso não alegrava o coração.
Terrivelmente rechaça o ancião
e o manda embora com grave discurso:
“Que eu não te encontre novamente, velho,
junto das côncavas naves aqueias,
nem agora tardando em retirar-te
nem mais tarde voltando para cá.
De nada poderão te auxiliar
esse teu cetro e as insígnias do deus,
pois eu não a libertarei jamais
antes de lhe sobrevir a velhice
dentro do meu palácio, lá em Argos,
muito longe da terra de seu pai,
frequentando o tear a cada dia
e me encontrando ao leito a cada noite.
Agora parte! Não me encolerizes,
que assim talvez tu salves tua vida.”
Assim falou. O velho, amedrontado,
obedeceu às ordens recebidas.
Partiu calado, caminhando só
junto das dunas do mar murmurante.
Depois que se afastou do acampamento,
o velho então rezou com grande empenho:
“Apolo, meu senhor, tu que nasceste
de Leto, de belíssimas madeixas,
escuta minha prece, do arco argênteo,
tu que zelas solícito por Crisa
e por Cila, terreno consagrado,
e que em Tênedo reges com poder.
Esminteão, se alguma vez outrora
ergui um belo templo para ti,
ou se acaso eu alguma vez outrora
queimei ossadas de coxas com banha,
ossos de coxas de touro ou de bode,
concede para mim o que desejo:
faz com que os dânaos me paguem todas
as minhas lágrimas com tuas flechas!”
Assim ele falou em sua prece
e Febo Apolo logo o escutou.
Ele baixa dos píncaros do Olimpo,
enraivecido desde o coração,
trazendo junto aos ombros o seu arco
e a aljava de feitura primorosa.
Junto às espáduas do deus furioso,
retiniam agudos os projéteis
à medida que se movimentava
avançando semelho à própria noite.
Logo senta distante dos navios
e então dispara a primeira das flechas.
Um terrível clangor ressoa ao longe
espraiando-se do arco prateado.
Acometeu primeiro contra os mulos
e logo após contra os fúlgidos cães.
Na sequência, contudo, pondo a mira
de seu dardo aguçado contra os homens,
ele atirou. Sem pausa, dia e noite,
as piras de cadáveres queimavam.

μῆνιν ἄειδε θεὰ Πηληϊάδεω Ἀχιλῆος
οὐλομένην, ἣ μυρί᾽ Ἀχαιοῖς ἄλγε᾽ ἔθηκε,
πολλὰς δ᾽ ἰφθίμους ψυχὰς Ἄϊδι προΐαψεν
ἡρώων, αὐτοὺς δὲ ἑλώρια τεῦχε κύνεσσιν
οἰωνοῖσί τε πᾶσι, Διὸς δ᾽ ἐτελείετο βουλή,
ἐξ οὗ δὴ τὰ πρῶτα διαστήτην ἐρίσαντε
Ἀτρεΐδης τε ἄναξ ἀνδρῶν καὶ δῖος Ἀχιλλεύς.
τίς τ᾽ ἄρ σφωε θεῶν ἔριδι ξυνέηκε μάχεσθαι;
Λητοῦς καὶ Διὸς υἱός: ὃ γὰρ βασιλῆϊ χολωθεὶς
νοῦσον ἀνὰ στρατὸν ὄρσε κακήν, ὀλέκοντο δὲ λαοί,
οὕνεκα τὸν Χρύσην ἠτίμασεν ἀρητῆρα
Ἀτρεΐδης: ὃ γὰρ ἦλθε θοὰς ἐπὶ νῆας Ἀχαιῶν
λυσόμενός τε θύγατρα φέρων τ᾽ ἀπερείσι᾽ ἄποινα,
στέμματ᾽ ἔχων ἐν χερσὶν ἑκηβόλου Ἀπόλλωνος
χρυσέῳ ἀνὰ σκήπτρῳ, καὶ λίσσετο πάντας Ἀχαιούς,
Ἀτρεΐδα δὲ μάλιστα δύω, κοσμήτορε λαῶν:
Ἀτρεΐδαι τε καὶ ἄλλοι ἐϋκνήμιδες Ἀχαιοί,
ὑμῖν μὲν θεοὶ δοῖεν Ὀλύμπια δώματ᾽ ἔχοντες
ἐκπέρσαι Πριάμοιο πόλιν, εὖ δ᾽ οἴκαδ᾽ ἱκέσθαι:
παῖδα δ᾽ ἐμοὶ λύσαιτε φίλην, τὰ δ᾽ ἄποινα δέχεσθαι,
ἁζόμενοι Διὸς υἱὸν ἑκηβόλον Ἀπόλλωνα.
ἔνθ᾽ ἄλλοι μὲν πάντες ἐπευφήμησαν Ἀχαιοὶ
αἰδεῖσθαί θ᾽ ἱερῆα καὶ ἀγλαὰ δέχθαι ἄποινα:
ἀλλ᾽ οὐκ Ἀτρεΐδῃ Ἀγαμέμνονι ἥνδανε θυμῷ,
ἀλλὰ κακῶς ἀφίει, κρατερὸν δ᾽ ἐπὶ μῦθον ἔτελλε:
μή σε γέρον κοίλῃσιν ἐγὼ παρὰ νηυσὶ κιχείω
ἢ νῦν δηθύνοντ᾽ ἢ ὕστερον αὖτις ἰόντα,
μή νύ τοι οὐ χραίσμῃ σκῆπτρον καὶ στέμμα θεοῖο:
τὴν δ᾽ ἐγὼ οὐ λύσω: πρίν μιν καὶ γῆρας ἔπεισιν
ἡμετέρῳ ἐνὶ οἴκῳ ἐν Ἄργεϊ τηλόθι πάτρης
ἱστὸν ἐποιχομένην καὶ ἐμὸν λέχος ἀντιόωσαν:
ἀλλ᾽ ἴθι μή μ᾽ ἐρέθιζε σαώτερος ὥς κε νέηαι.
ὣς ἔφατ᾽, ἔδεισεν δ᾽ ὃ γέρων καὶ ἐπείθετο μύθῳ:
βῆ δ᾽ ἀκέων παρὰ θῖνα πολυφλοίσβοιο θαλάσσης:
πολλὰ δ᾽ ἔπειτ᾽ ἀπάνευθε κιὼν ἠρᾶθ᾽ ὃ γεραιὸς
Ἀπόλλωνι ἄνακτι, τὸν ἠΰκομος τέκε Λητώ:
κλῦθί μευ ἀργυρότοξ᾽, ὃς Χρύσην ἀμφιβέβηκας
Κίλλάν τε ζαθέην Τενέδοιό τε ἶφι ἀνάσσεις,
Σμινθεῦ εἴ ποτέ τοι χαρίεντ᾽ ἐπὶ νηὸν ἔρεψα,
40ἢ εἰ δή ποτέ τοι κατὰ πίονα μηρί᾽ ἔκηα
ταύρων ἠδ᾽ αἰγῶν, τὸ δέ μοι κρήηνον ἐέλδωρ:
τίσειαν Δαναοὶ ἐμὰ δάκρυα σοῖσι βέλεσσιν.
ὣς ἔφατ᾽ εὐχόμενος, τοῦ δ᾽ ἔκλυε Φοῖβος Ἀπόλλων,
βῆ δὲ κατ᾽ Οὐλύμποιο καρήνων χωόμενος κῆρ,
τόξ᾽ ὤμοισιν ἔχων ἀμφηρεφέα τε φαρέτρην:
ἔκλαγξαν δ᾽ ἄρ᾽ ὀϊστοὶ ἐπ᾽ ὤμων χωομένοιο,
αὐτοῦ κινηθέντος: ὃ δ᾽ ἤϊε νυκτὶ ἐοικώς.
ἕζετ᾽ ἔπειτ᾽ ἀπάνευθε νεῶν, μετὰ δ᾽ ἰὸν ἕηκε:
δεινὴ δὲ κλαγγὴ γένετ᾽ ἀργυρέοιο βιοῖο:
50οὐρῆας μὲν πρῶτον ἐπῴχετο καὶ κύνας ἀργούς,
αὐτὰρ ἔπειτ᾽ αὐτοῖσι βέλος ἐχεπευκὲς ἐφιεὶς
βάλλ᾽: αἰεὶ δὲ πυραὶ νεκύων καίοντο θαμειαί.

§

 

Por fim, da nau singradora de mares,
desce a garota nascida de Crises.
Ela é levada em seguida ao altar
por Odisseu de muitíssima astúcia,
que a põe nos braços do querido pai
e a ele se dirige desta forma:
“Crises, eu venho enviado até ti
por Agamêmnon, senhor de varões,
no intuito de trazer-te tua filha
e para Febo a hecatombe sagrada
que eu irei perfazer em prol dos dânaos
a fim de que alegremos o senhor
que agora sobre os guerreiros argivos
envia dardos muitíssimo amargos.”
Assim falou enquanto a colocava
nos braços dele, que recebe alegre
sua filha querida. De imediato
a sagrada hecatombe para o deus
eles dispõem de maneira ordenada
em todo o entorno do altar bem-lavrado.
Depois lavam as mãos com água limpa
e polvilham cevada sobre o altar.
No meio deles, com as mãos erguidas,
Crises então entoa grande prece:
“Escuta minha prece, do arco argênteo,
tu que zelas solícito por Crisa
e por Cila, terreno consagrado,
e que em Tênedo reges com poder.
Há poucos dias no passado ouviste
a prece que te fiz em súplica
e tu me honraste, causando uma enorme
destruição ao exército acaio.
Da mesma forma, novamente agora
concede para mim o que desejo:
afasta agora dos guerreiros dânaos
o fado impróprio da destruição.”
Assim ele falou em sua prece
e Febo Apolo logo o escutou.
Quando todos haviam feito preces
e polvilhado cevada no altar,
pondo as vítimas prontas para o abate
degolaram-nas e esfolaram todas.
Desmembraram depois as suas coxas,
que recobriram então com gordura
perfazendo uma dúplice camada,
e em cima delas puseram mais cortes.
O velho assou as carnes sobre espetos
e espargiu vinho rútilo por cima.
Os jovens se juntaram perto dele,
tendo em mãos garfos de quíntuplas pontas.
Quando as coxas estavam bem assadas
e as vísceras provadas já por todos,
eles cortaram o resto das carnes
e as espetaram então nos espetos.
Assaram tudo com calma e cuidado
e depois removeram dos espetos.
Quando findaram os preparativos
e terminaram de armar o banquete,
banquetearam-se. Não houve nada
que ficasse faltando ao coração.
Depois, quando já tinham saciado
a gana por bebida e por comida,
os mais jovens encheram as crateras
até que as coroassem com bebida.
Então distribuíram cálices
a todos com primeiras libações.
Diuturnos, o dia todo os jovens
apaziguam o deus com o seu canto.
Entoando belíssimos peãs,
os guerreiros mais jovens dos aqueus
louvam o deus que trabalha de longe.
Seu coração se alegra por ouvi-los.

ἐκ δὲ Χρυσηῒς νηὸς βῆ ποντοπόροιο.
τὴν μὲν ἔπειτ᾽ ἐπὶ βωμὸν ἄγων πολύμητις Ὀδυσσεὺς
πατρὶ φίλῳ ἐν χερσὶ τίθει καί μιν προσέειπεν:
ὦ Χρύση, πρό μ᾽ ἔπεμψεν ἄναξ ἀνδρῶν Ἀγαμέμνων
παῖδά τε σοὶ ἀγέμεν, Φοίβῳ θ᾽ ἱερὴν ἑκατόμβην
ῥέξαι ὑπὲρ Δαναῶν ὄφρ᾽ ἱλασόμεσθα ἄνακτα,
ὃς νῦν Ἀργείοισι πολύστονα κήδε᾽ ἐφῆκεν.
ὣς εἰπὼν ἐν χερσὶ τίθει, ὃ δὲ δέξατο χαίρων
παῖδα φίλην: τοὶ δ᾽ ὦκα θεῷ ἱερὴν ἑκατόμβην
ἑξείης ἔστησαν ἐΰδμητον περὶ βωμόν,
χερνίψαντο δ᾽ ἔπειτα καὶ οὐλοχύτας ἀνέλοντο.
τοῖσιν δὲ Χρύσης μεγάλ᾽ εὔχετο χεῖρας ἀνασχών:
κλῦθί μευ ἀργυρότοξ᾽, ὃς Χρύσην ἀμφιβέβηκας
Κίλλαν τε ζαθέην Τενέδοιό τε ἶφι ἀνάσσεις:
ἦ μὲν δή ποτ᾽ ἐμεῦ πάρος ἔκλυες εὐξαμένοιο,
τίμησας μὲν ἐμέ, μέγα δ᾽ ἴψαο λαὸν Ἀχαιῶν:
ἠδ᾽ ἔτι καὶ νῦν μοι τόδ᾽ ἐπικρήηνον ἐέλδωρ:
ἤδη νῦν Δαναοῖσιν ἀεικέα λοιγὸν ἄμυνον.
ὣς ἔφατ᾽ εὐχόμενος, τοῦ δ᾽ ἔκλυε Φοῖβος Ἀπόλλων.
‘‘ αὐτὰρ ἐπεί ῥ᾽ εὔξαντο καὶ οὐλοχύτας προβάλοντο,
αὐέρυσαν μὲν πρῶτα καὶ ἔσφαξαν καὶ ἔδειραν,
μηρούς τ᾽ ἐξέταμον κατά τε κνίσῃ ἐκάλυψαν
δίπτυχα ποιήσαντες, ἐπ᾽ αὐτῶν δ᾽ ὠμοθέτησαν:
καῖε δ᾽ ἐπὶ σχίζῃς ὁ γέρων, ἐπὶ δ᾽ αἴθοπα οἶνον
λεῖβε: νέοι δὲ παρ᾽ αὐτὸν ἔχον πεμπώβολα χερσίν.
αὐτὰρ ἐπεὶ κατὰ μῆρε κάη καὶ σπλάγχνα πάσαντο,
μίστυλλόν τ᾽ ἄρα τἆλλα καὶ ἀμφ᾽ ὀβελοῖσιν ἔπειραν,
ὤπτησάν τε περιφραδέως, ἐρύσαντό τε πάντα.
αὐτὰρ ἐπεὶ παύσαντο πόνου τετύκοντό τε δαῖτα
δαίνυντ᾽, οὐδέ τι θυμὸς ἐδεύετο δαιτὸς ἐΐσης.
αὐτὰρ ἐπεὶ πόσιος καὶ ἐδητύος ἐξ ἔρον ἕντο,
κοῦροι μὲν κρητῆρας ἐπεστέψαντο ποτοῖο,
νώμησαν δ᾽ ἄρα πᾶσιν ἐπαρξάμενοι δεπάεσσιν:
οἳ δὲ πανημέριοι μολπῇ θεὸν ἱλάσκοντο
καλὸν ἀείδοντες παιήονα κοῦροι Ἀχαιῶν
μέλποντες ἑκάεργον: ὃ δὲ φρένα τέρπετ᾽ ἀκούων.

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poesia, tradução

UM ANO DEPOIS DE ISTAMBUL, por Francesca Cricelli

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Fotografia de Francesca Cricelli

Um texto meu permaneceu engavetado por um ano. Ontem, por acaso, assistindo a um filme de Ferzan Özpetek Rosso Istambul senti-me invadida pela saudade do Bósforo, seus azuis, as luzes do dia nele se refletindo e tudo sendo alterado a partir dela – a luz. Decidi reler a crônica que havia escrito quando voltei de lá sob a luz de hoje, maio de 2018 – há um ano de Istambul e 50 de ´68 – e propor a publicação à revista escamando, acrescida de alguns poemas que traduzi em razão e emoção da viagem. Agradeço aos editores pela acolhida. Onde escrevo “no ano passado” leia-se retrasado. Em maio de 2017 eu me preocupava com os destinos do conservadorismo turco e pensava em algum paralelo com o Brasil, mas ainda me parecia algo distante. Falava do bairro onde estava hospedada como uma “ilha progressista dentro de um mar cujas ondas encrespam rapidamente com a maré do conservadorismo político e religioso que abate, há tempo, a Turquia.” Este mar encrespado tem batido seus golpes sobre outros rochedos. Desde que escrevi este texto houve o golpe, houve o assassinato de Marielle, houve a prisão de Lula, houve o ataque norte-americano sobre a Síria. Houve também o descolamento dos vítreos dos meus olhos, mas houve muita poesia escrita e traduzida, houve minha volta à China, minha ida à Galícia, o lançamento de três livros, houve festival em Nova York, passagem por Miami, houve minha primeira ida à Islândia. Houve capítulos escritos da tese, paixões, desilusões e enamoramento. Doença e morte. Diante do porvir, diante do desconhecido, que estejamos prontos e dispostos a nos movermos, escrevermos, traduzirmos, viajarmos, denunciarmos. Que se mantenha um espaço com alguma graça, luz e esperança para ter forças de olhar para trás – um pouco – e seguir adiante.

Ribeirão Preto, maio de 2018

*

AS VOZES DE ISTAMBUL

No ano passado, narrando minha viagem à Qinghai, na China, [revista Cult n.° 2018, novembro de 2016] contei como havia escapado, por pouco, à tentativa de golpe militar na Turquia, dia 15 de julho de 2016, mudando instintiva e inconscientemente minha conexão de voo até Pequim, não passando por Istambul, mas por Roma. Desde então, ou talvez muito antes disto, venho fantasiando uma viagem à antiga capital oriental do império romano repartida pelo Bósforo. Mas é a poesia, Senhora das minhas andanças, que decide o momento e os percursos a serem traçados. Tive que esperar até maio para conhecer Istambul.

E como escrever sobre o encontro real com um lugar imaginado, aquele já sonhado e visitado em versos e prosas? Talvez só evocando Drummond de antemão, e não Nazim Hikmet, quase pedindo licença, para então enunciar as impressões dos dias fugazes, pois “lutar com palavras é a luta mais vã”; “entretanto lutamos/ mal rompe a manhã”. “São muitas/ eu pouco”. Tantas são as cidades e civilizações que habitam Istambul. Esta multiplicidade sincrônica evoca uma orquestração de sentidos. Percepção sensorial que cruza a história enquanto nos ouvidos ressoam os versos dos poetas em tantas línguas inteligíveis e o azan, a chamada à prece que desce dos minaretes e atravessa as leituras. São estas algumas das vozes de Istambul que evoco, como se quisesse citar Canetti em Marraquexe, ouço-as quando se juntam ao coro das manifestações do primeiro de maio, suas ruas ocupadas, centenas de pessoas presas, ou quando harmonizam com a canção bella ciao, hino antifascista da resistência italiana, cantada a plenos pulmões pelos poetas turcos durante o cruzeiro noturno no braço de mar que divide a cidade.

Tudo é pouco diante da antiga metrópole alçada entre continentes, duas faces voltadas para um estreito de mar que divide o Ocidente do Oriente e liga ao Mar Negro o Mar de Mármara, antecâmara do Mediterrâneo. Tantos impérios erguidos e desfeitos entre o céu e o Bósforo. Os percursos narrativos possíveis são infinitos, um para cada paleta de azul que reflete sobre os palácios, casas e mesquitas. Ampla variação que percorre as cores do céu do alvorecer até as últimas luzes do pôr-do-sol visto da Torre de Gálata, tantos tons quanto os vitrais da Mesquita Azul em sua ação caleidoscópica sobre seus azulejos que revestem suas paredes.

Entre o final de abril e os primeiros dias de maio participei do Bahar ve Şiir Festivali, festival da Primavera e da Poesia do bairro de Beşiktaş. Fizemos várias leituras pelos parques da cidade. Em Istambul, os bairros são “municipalidades”, como nossas subprefeituras, mas com maior autonomia, podendo, assim, gerir seus recursos com maior liberdade. Talvez seja esta separação de poderes o que faz coexistir uma ilha tão progressista dentro de um mar cujas ondas encrespam rapidamente com a maré do conservadorismo político e religioso que abate, há tempo, a Turquia. Enfim, Beşiktaş, situada na costa europeia da cidade, não é distante de Beyoğlu, bairro que abriga a praça de Taksim, palco das principais manifestações e ferozes retaliações policiais de 2013. Com todas as devidas diferenças, há algo em comum nos destinos que tomaram Istambul e São Paulo, a Turquia e o Brasil, desde 2013.

A alma do festival é seu diretor artístico, o poeta, tradutor de literatura russa e acadêmico Ataol Behramoğlu. Seu braço direito na organização é seu sobrinho, também poeta, Onur Behramoğlu. Ataol viveu por anos em exílio após o golpe de estado de 1980. Seu livro Nem chuva … nem poemas foi então confiscado, e o poeta, tendo vivido na Grécia, na França e na Rússia traduziu autores como Louis Aragon, Bertold Brecht, Atila József, García Lorca, José Martí, Maiakovski, Neruda, Pushkin, Yiannis Sitsos reunindo-os no volume Balada da irmandade e levando estas vozes à Turquia. Por sua própria história de vida, Ataol tem a inclinação de carregar as vozes da poesia de um lado ao outro do mundo, de uma língua a outra. Talvez por isso o festival mostrou uma abertura especial às vozes dos refugiados e exilados. Contou-se com a presença de diversos poetas em exílio, sobretudo sírios que hoje vivem na Turquia, e da poeta e militante iraquiana Amal Al Jubouri, hoje residente em Londres. Não podemos esquecer que aproximadamente três milhões de sírios vivem exilados na Turquia, que de alguma forma, age como uma membrana de contenção para a Europa. Questões nebulosas e delicadas que talvez indiquem algo sobre a falta de um posicionamento claro quando se fala de Erdoğan. Beşiktaş significa, literalmente, “berço de pedras”. O nome é uma herança da igreja bizantina Kounopetra, construída nesta parte da cidade, com o intuito de abrigar uma pedra supostamente vinda da manjedoura em que nasceu Jesus. A mesma relíquia foi posteriormente levada para Hagia Sophia – Santa Sabedoria, mas desapareceu durante a Quarta Cruzada, foi provavelmente vendida no mercado europeu de relíquias religiosas. Outra narrativa diz que a pedra era, na verdade, a pia batismal de Cristo e teria sido trazida para Istambul após uma peregrinação originada em Jerusalém. Há ainda uma terceira e mais interessante narrativa que tem como fundo a distorção linguística da expressão beş taş, ou seja “cinco pedras”, que se refere às cinco pedras utilizadas para amarrar os barcos na época do Khayr al-Din Barba Ruiva. Quantas vozes e versões há por trás do nome de um bairro de Istambul? A presença de muitas camadas narrativas soa como uma música de Jun Miyake, “Integral Silence”, cujo poema inicial diz “how do we begin to know the unknown?” Como começamos a conhecer o desconhecido? Como a pergunta à sentinela nos versos de Isaías “em que pé está a noite?” Vem a manhã e vem a noite. O poema-música de Miyake continua dizendo que há ainda tantas perguntas, “movo-me dentro delas” diz, as indagações são “minhas mãos e meus pés”, “são o que lhe devolvo”. É difícil falar com leveza sobre Istambul após tão poucos dias, e seria esta a saída mais fácil, pois sua beleza é tão ensurdecedora que ofusca o que vai além da percepção imediata. Não é um acaso misturar visão e audição ao falar de Istambul. Não passa batido à memória, nem com a deslumbrante beleza e sedutora culinária, que o mesmo país que acolhe tantos refugiados sírios é também responsável por um dos maiores genocídios da história, pela diáspora armênia, pelos conflitos irresolutos com o povo curdo. Temos alguns poderosos registros artísticos sobre este drama em nosso próprio país, pela arte de Norair Chahinian, seus registros fotográficos em O poder do vazio: conversando com as pedras na Armênia histórica [livro impresso em Istambul pela editora Aras em abril de 2015] ou nos versos do jovem poeta brasileiro William Zeytounlian [Diáspora, Selo Demônio Negro, 2015], ambos de ascendência armênia.

Uma noite, após uma longa leitura e jantar num pequeno restaurante nos becos da cidade, passei algumas horas no terraço do hotel cuja vista era a Ponte do Bósforo conversando com o poeta Onur Behramoğlu. Falamos principalmente sobre questões políticas que parecem afligir uma camada da população turca assim como, aqui, a brasileira: vários amigos de Onur estão presos ou já foram presos, muitos jornalistas, professores e intelectuais. Inevitavelmente, tocamos na questão armênia e relatei algumas histórias que conheço pessoalmente. Foi então que o jovem poeta me disse ter marchado em solidariedade à memória do jornalista armênio, Hrant Dink, assassinado em Istambul em 2007. Foi então que também me disse que seu avô – otomano -, como o pai de uma amiga armênia, ficou órfão durante o mesmo conflito. Aos cinco anos estava sozinho na vida. O filho deste órfão, pai de Onur, irmão do poeta Ataol, é um advogado trabalhista e ganhou a primeira ação em defesa de operário morto na construção da mesma ponte que víamos do terraço do hotel. Sentia então uma estranha sensação, invertendo o título do último romance do prêmio Nobel Orhan Pamuk, quão real era aquele conflito que havia ditado o mesmo destino às duas crianças de diversas etnias? Lembrei-me então de um trecho do romance de Luigi Pirandello, Um, nenhum, cem mil, no qual diz que nossa capacidade de nos iludir que a realidade de hoje seja a única verdadeira é algo que “por um lado nos sustenta, por outro atira-nos num vazio sem fim”, diz, “porque a realidade de hoje tem como destino descobrir-se a ilusão de amanhã”. Sim, “a vida não conclui. Não pode concluir. Se amanhã conclui, acabou.” Ainda bem que diante deste vazio sem fim me vem à mente outro texto, um poema chamado O grilo, de um amigo poeta cubano, o poema diz: “sob a noite cósmica/ na vasta solidão do descampado,/ o grilo canta./ O peregrino escuta/ e já não teme.”

Francesca Cricelli
São Paulo, maio de 2017

 *

Na vida e na morte nos dividimos
nossos corpos estão divididos
nossas almas divididas
nossas vozes divididas, uma da outra

nossas mãos separadas
nossos cheiros
acordar junto na mesma cama
nossos sorrisos
nossas lagrimas
divididos nossos sonhos uns dos outros

no breu da noite
improvisamente, tudo se faz um.

[Ataol Behramoğlu, Turquia]

 

 

We parted in life and death
Two bodies separated
Our hearts separated
Our voices separated, one from the other

Our hands separated
Our smells
Our waking up together in bed
Our laughing together
Our tears
Our dreams separated, one from the other
The dark night of the soul
Suddenly occluded everything

§

TODA MULHER QUE TRANSA

a uma mulher que ama Sopor Aeternus

toda mulher que transa, transa porque sofre
cai num dilema de busca do amor pelas camas
seus punhos, seu pulso, sua sobrancelha
o que lhe treme, onde sente frio
lá quer ser beijada
beijada por quem ela dá valor
deixa o vapor no espelho ser o seu nome
sabendo que logo será apagado
deixa a navalha, uma vez por todas, cortar o rosto dele enquanto pensa nela
deixa que recolha o cabelo dela do chão e redima sua prece
toda mulher que transa, é pelo afeto
como um rio abre-se à curva de caverna
num esforço para que não murche
o manjericão à espera frente à janela
comprando flores para sua solidão no caminho
escondo-a em segredo numa caixa de sapato

toda mulher que transa
gostaria de reprimir o seu pesar
move sua carne como uma garra
finge um xeque-mate
seu entorpecimento não se diferencia
do entorpecimento dos que fazem rindo
— comporta-se como uma garota má —
como as tranças, os rabos-de-cavalo, dois rabos-de-cavalo
rasgavam-se como uma corda nas palmas —
como as fibras entretecidas e a terra remexida
do seu jardim, carregada em sua testa
toda mulher que transa, o faz por amor
em algum momento a hora arbitrária estanca
ela apresenta seu pertencimento à estátua vertical que admira
ela prega com fotos emolduradas
no ventre ofendido que gostaria de dar à luz
enquanto tenta apagar o cansaço da nuca dele
ela quebra os berços das crianças fantasmas que chorou

toda mulher que transa, é para não enlouquecer
e está exposta às ameaças do seu companheiro
ela teme que a loucura se agarre
à luta que ela já não tem forças para aturar

toda mulher que transa, transa por não morrer
ela pode se enganar tanto quanto um homem

[Neslihan Yalman, Turquia]

 

WHICHEVER WOMAN MAKES LOVE

                   — to a woman who loves Sopor Aeternus… —

 whichever woman makes love, it is because of suffering
she falls in a dilemma of searching love in beds
her wrists, pulse, eyebrows
whatever she trembles, feels cold
she would like him to kiss
someone on whom she values
let the steam on the mirror be her name
by knowing that it will be erased at that second
let the razor blade, at once, cut his face while he is thinking of her
let he take her hair off ground and redeem it blessing
whichever woman makes love, it is because of affection
like a river opens to bend of cave
in an effort not to make wither
the basil of waiting in front of window
buying flower to her loneliness on the way
and drying it secretly in shoebox

whichever woman makes love
she would like to repress her sorrow
she moves her flesh like a pawn
as she pretends to check-mate
her getting numb does not make any difference
from the people who gets numb by laughter
-she behaves like a naughty girl-
as braids, pony tails, two ponytails
were getting torn like a rope in palms-
as the grasses were weeded and its earth was raked
of her garden she cared on her forehead

 whichever woman makes love, it is because of love
at some point the hour of arbitrariness stops
she presents her belonging to the vertical statue that she admires
she nails photo frames
to the offended womb that she would like to give birth
while she tries to erase the tiredness off his back of neck
she breaks the cradles of the baby ghosts on which she cried

whichever woman makes love, it is for the sake of not getting mad
and she is exposed to her fellow’s threats
she fears that madness claws
to the struggle that she does not have any strength to endure

whichever woman makes love, it is in order not to die
she can deceive herself as much as a man

[traduzido do turco ao inglês por Müesser Yeniay]

§

ESSÊNCIA

das águas mortas só se espera o veneno
            [W. Blake]

estagnado, diria sem razão,
mas no fundo há uma tristeza escondida
há a nudez do outono
os arrepios que a visão provoca

dentro, aquele dia, o que sobrou
tão diferente em mim do que há em você?
e qual passado usamos para chamá-lo
detido assim há tanto tempo?

seu espírito envelhece feito vinho
todo embrulhado em suas feridas
a neblina espalhada dispersa
com seu próprio ímpeto

certos estão os poetas sábios
que encontram nas penas o segredo
veneno é tudo o que colhemos
na seca desta abundância

caminhar rebelde de si,
o mau humor, impertinente e curioso
é passageiro, roçamos no calor
o amor de todos os lugares

[Onur Behramoğlu, Turquia]

 

NELL’ESSENZA

        dalle acque morte solo veleno aspetta
[William Blake]

fermo, diresti senza una ragione
eppure in fondo una tristezza sta nascosta
in quella nudità d’autunno spoglio
che i brividi ci dà solo a guardarla

dentro quel giorno, che cosa è mai rimasto
diverso in me da quello in te
e che passato usiamo noi chiamarlo
tenuto prigioniero dentro al tempo

lo spirito a te invecchia come il vino
ed è fasciato tutto di ferite
si è sparsa ed è dispersa quella nebbia
nell’irruenza sua propria

nel giusto sono i poeti saggi
che nella pena trovano il segreto
veleno è tutto quanto raccogliamo
in siccità di benessere e di agio

è un camminare in sé ribelle
un malumore, scontroso eppur curioso
e di passaggio ciascun posto noi?
nel caldo lo sfioriamo dell’amore.

[traduzido do turco ao italiano por Giampiero Bellingeri]

§

VÉU DAS RELIGIÕES

Se és um
e se seus ensinamentos são um
por que inscrever nossa infância no Torah?
Por que adornar nossa juventude no Evangelho?
Só para apagar, tudo isso, em seu último livro?
Por que levar à discórdia, nós, que o reconhecemos como Um?
Por que multiplicar-se dentro de nós se és Um e Único?

[Amal Al Jabouri, Iraque]

 

VEILS OF RELIGION

 If You are One
And Your teachings are one,
Why did You engrave our infancy in the tablets of the Torah,
And ornament our youth with the Gospels
Only to erase all that in Your Final Book?
Why did You draw us, the ones who acknowledge Your Oneness,
Into disagreement?
Why did You multiply in us
When You are the One and Only?

[traduzido do árabe ao inglês por Seema Atalla]

§

DIZ-ME, AMAS OS DAMASQUEIROS?

Abraça-me e
conta
assemelha-se às tuas costas
a terra?

Não tenho vontade
de sair
basta-me
o que me contas

Diz-me,
amas os damasqueiros
e a chuva que banha os
teus cabelos?

Tu digas que os ama
e eu te escreverei
longamente, como um rio
ou chuva que faz os cavalos
esquecerem
seus próprios deuses.

Abraça-me
e conta-me,
assemelha às tuas costas
a terra?

[Gökçenur Çelebioğlu, Turquia]

 

DIMMI, AMI GLI ALBICOCCHI?

 Abbracciami e
racconta
somiglia alle tue spalle
la terra?

Non ho voglia
di uscire
il tuo racconto
mi basta

Dimmi, ami gli albicocchi
e la pioggia che bagna i
tuoi capelli?

Tu dì che li ami
e io ti scriverò
a lungo, come un fiume
o una pioggia che fa
dimenticare ai cavalli
I propri dei.

Tu abbracciami
e raccontami,
somiglia alle tue spalle
la terra?

 [traduzido do turco ao italiano por Nicola Verderame]

*

Francesca Cricelli (1982-) é poeta, pesquisadora e tradutora. Publicou Repátria no Brasil (Selo Demônio Negro, 2015) e na Itália (Carta Canta, 2017) e 16 poemas + 1 em Nova Iorque (edição de autora, 2017) e em Reykjavík (Sagarana forlag, 2017), livro mais vendido em todas as categorias na primeira quinzena de outubro da Mál og menning. Seus poemas foram recentemente publicados numa coletânea do Museu Minsheng em Xangai, na China. Organizou as cartas de Ungaretti a Bruna Bianco (Mondadori, 2017) e traduziu, entre outros, Elena Ferrante (Biblioteca Azul, 2016). Doutoranda em Estudos da tradução na USP. Lecionou intecção literária na Casa Guilherme de Almeida e é professora do CLIPE Poesia 2017 na Casa das Rosas. Já apareceu aqui na escamandro com diversas traduções e poemas próprios.

***

Padrão
tradução

De Rerum Natura (vv. 824-1023, III), de Lucrécio, por Rodrigo Gonçalves

lucretius_drawn_by_michael_burghers

há quase um ano eu trouxe aqui um trecho do canto terceiro do poema épico “de rerum natura” (da natureza das coisas), do poeta romano lucrécio, na tradução de rodrigo tadeu gonçalves (clique aqui). hoje, vem à luz o trecho final deste canto e o desejo de ver logo a tradução publicada na íntegra.

sergio maciel

* * *

 

Pois, além de adoecer com doenças do corpo,
acontece de a atormentarem as coisas futuras,
e que sofra com preocupações, com o medo, ansiedade;
e, já passados os feitos e os males, os erros remordem.
Some-se a isso o furor, a loucura, o esquecer-se das coisas,
some-se a letargia que a imerge nas ondas escuras.
Nada, portanto, é a morte pra nós, nem a nós diz respeito……….830
uma vez que é mortal o ânimo por natureza.
Como nos tempos pregressos nada sofremos dos males
dos avanços guerreiros púnicos de todo lado,
todos sofrendo com trépido estrondo causado da guerra,
horrificados, tremendo sob o éter sublime,
sem saber a qual lado viria a vitória e o império
sobre todos humanos e sobre os mares e terras,
dessa maneira, quando não existirmos e quando
o discídio de ânimo e corpo nos obliterarem,
nós, que então não mais seremos, não mais sofreremos,……….840
nada, também, poderá comover sensações em nós mesmos,
mesmo se terra e mar, ou mar e céu se fundirem.
Mas, se, acaso, depois de afastada do nosso corpo
a natureza do ânimo e a ânima ainda tiverem
sensação, isso não nos importa, pois nós consistimos
da conjunção da ânima e corpo que o ser unifica.
Nem se as eras trouxessem de volta a nossa matéria
muito tempo depois de morrermos, criando de novo
como é agora e a nós novamente as luzes da vida
se restaurassem, a nós nada disso faria sentido……….850
já que as lembranças passadas a nós estariam perdidas.
E agora nada daquilo que fomos importa
nem nos afeta a angústia sofrida de outrora.
Quando contemplas o imenso espaço de tempo passado
e os inúmeros modos e conformações da matéria
fácil será acreditar que as sementes das coisas, outrora,
estas que formam agora aquilo que somos, já foram
colocadas em ordem idêntica à forma que temos.…………….[865]
Nem isso tudo podemos, porém, trazer à memória:………….[858]
entre se rompe uma pausa de vida e erraram vagando……[859] 860
os movimentos dos sentidos por toda parte.………………………[860]
E se acaso houver no futuro dor ou tristeza……………………….[861]
deve também haver alguém nesse mesmo período…………..[862]
para sofrê-los. Como a morte o proíbe, eximindo………………[863]
da existência o que concentraria os incômodos, dores,…….[864]
nós já podemos saber que nada é temível na morte
e que não pode ser mísero quem já não é, e até mesmo
nada difere se ainda não tivesse nascido
pois a vida mortal pela morte imortal foi tolhida.
Por conseguinte se vires um homem sofrer indignado……….870
por no pós morte apodrecer-lhe o cadáver deixado
ou consumir-se nas chamas, ou pelos dentes das feras,
podes saber que ele não é sincero e que estímulo cego
pende por sobre seu peito, ainda que negue que creia
que haverá qualquer sensação para si no pós morte.
Pois, como eu penso, não garante o que foi prometido
nem as razões: não se arranca da vida pelas raízes
mas, sem saber, supõe que algo de si ainda sobra.
Quando, contudo, cada ser vivo antepõe sua morte
já prevendo que as aves e feras laceram seu corpo,………880
ele de si se apieda; mas sem separar-se do morto
nem afastar-se o bastante do cadáver prostrado,
como se estivesse a seu lado e ainda sentisse.
O ter sido criado mortal o faz indignado
e ele não vê que na morte real não terá outro ele
que poderá, ainda vivo, de pé, ao seu lado, de luto,
condoer-se de si a queimar ou ser dilacerado.
Pois se é um mal que na morte a mordida ou molares das feras
nos estraçalhe, não sei como pode não ser-nos terrível
sermos cremados com o corpo lançado em tórridas chamas,……..890
ou sufocados imersos em mel ou no frio congelados
quando nos deitam no plano topo da gélida rocha,
ou esmagados pelo grave peso da terra.
“Já não mais casa alegre te acolherá, nem esposa
ótima, nem verás os teus filhos correndo a roubar-te
beijos, ternura tácita, doce, que toca teu peito.
Não verás mais florescerem com prósperos feitos
os cuidados com os teus. Ó, pobre,” dirão, “um nefasto e
único dia arrancou-te os frutos todos da vida.”
Isto, contudo, não acrescentam: “nem dessas coisas………….900
tu sentirás jamais nenhuma saudade ou desejo.”
Se isso bem entendessem e a cabeça seguisse as palavras,
afastariam do ânimo todo medo e angústia.
“Tu, de fato, assim como dormes o sono da morte,
sempre estarás, privado de toda dor e doença.
Nós, ao redor do terrífico busto pulverizado
te velamos insaciáveis, e nosso eterno
sofrimento dia algum tirará destes peitos.”
Deve-se lhe perguntar para que tanto amargor se
toda a questão se reduz ao sono e à quietude perene:………..910
quem poderia, assim, em luto eterno agastar-se?
Isto dizem também alguns, quando, deitados,
segurando copos, coroas umbrando suas faces,
ditos do ânimo: “breve é tal fruição para os pobres
homens: logo se vai, jamais a teremos de novo”.
Como se na morte tal fosse o pior de seus males:
sede queimando-os, e árida carestia os secando,
ou que os assaltaria o desejo de alguma outra coisa.
Nem a si nem à vida ninguém reclama, de fato,
quando igualmente o corpo e a mente repousam no sono.……….920
Quanto a nós, poderá o sono, assim, ser eterno
pois nenhum desejo a nós nos afeta na morte.
Mas, durante o sono, os primórdios de forma nenhuma
vagam pra longe demais dos sensíferos motos nos membros,
pois, arrancado do sono, o homem recobra a si mesmo.
Deve-se considerar que, pra nós, a morte é ainda menos
se é que pode existir algo a menos daquilo que é nada,
pois maior dispersão de matéria se segue na morte
do que no sono e ninguém desperta e levanta
uma vez que o tocou a gélida pausa da vida.…………….930
Se, de repente, a natureza das coisas lançasse
sua voz e ela mesma a qualquer um de nós censurasse:
“Ó, mortal, por que sofres tanto com a morte e indulges
tanto em lamentos e lutos, por que tanta lágrima e grito?
Pois, se a vida que levaste te foi agradável
se as alegrias não se te escaparam tal como num vaso
cheio de furos e pereceram não aproveitadas,
como um conviva feliz, satisfeito, por que não te vais da
vida e, tranquilo, abraças a calma segura, idiota?
Mas, se as coisas de que desfrutaste se desperdiçaram,…………940
se a vida é uma ofensa, pra que querer mais um pouco,
já que tudo acaba mal e se vai, e perece,
não é melhor pores fim aos labores, às penas, à vida?
Pois o que mais eu possa inventar, maquinar, que te agrade
não existe: tudo é agora tal como foi sempre.
Se teu corpo ainda não pesa dos anos, se os membros
inda não minguam exaustos, tudo está como era antes,
mesmo se vivesses mais tempo que todas as vidas,
tudo daria no mesmo, até mesmo se nunca morresses.”
Que responder, senão que o processo é justo e a causa…………….950
da natureza é exposta com veras e fortes palavras?
Se, por acaso, alguém já muito mais velho deplora……………..[955]
e, miserável, lamenta sua morte bem mais que devia……………..[952]
não terá mais direito de censurar com voz acre?”……………………[953]
Leva daqui as tuas lágrimas, frouxo, e deixa de queixas,………..[954]
tendo fruído de todos prazeres da vida definhas,
mas como sempre desejas o ausente, e o presente desprezas,
imperfeita gastou-se pra ti, e ingrata, tua vida,
e sem que queiras, a morte se põe a teu lado e te afaga
antes que saias da vida feliz, satisfeito com as coisas.…………….960
Vai, abandona todas as coisas alheias à idade
tua, e concede, com ânimo calmo, o lugar aos que ficam.”
Com justiça, penso, agiria, justas censuras.
Pois a velhice sempre cede, assolada do novo,
sempre, e uma coisa se reconstrói a partir de uma outra.
Não se desce ao profundo do tártaro atroz, aos infernos.
Pois é preciso matéria para que os pósteros cresçam;
estes, também, a ti seguirão, ao fim de suas vidas,
Logo cairão, não menos que os de antes de ti já caíram:
algo nunca deixará de nascer de outra coisa…………….970
Nunca ninguém tem posse da vida, somente usufruto.
Veja, também, como as eras passadas do tempo infindável
de antes de nós foram nada – de antes de termos nascido,
essas também a natura nos mostra tal como um espelho
que nos revela o tempo vindouro depois de morrermos.
Mas o que tem de horrível nisso, o que de tão triste,
não é mais calmo morrer do que todo tipo de sono?
Não nos admiremos: tudo que é dito que habita
o Aqueronte profundo estão todos, de fato, conosco.
Nem a enorme pedra teme pendente nos ares…………….980
mísero Tântalo, paralisado de medo, tal dizem:
mas é na vida que o medo dos deuses aos homens fulmina,
esses que temem da fortuna sua queda, seus golpes.
Nem no Aqueronte os abutres achegam-se a Títio jazendo
nem o que encontrar por sobre o peito tão vasto
podem achar por todos os tempos com que se alimentem;
não importa qual seja a extensão enorme do corpo
mesmo que com os membros cubra não só nove jeiras
mas até mesmo cubrisse o orbe inteiro da terra,
nem assim dor eterna ele poderia sofrer, nem…………….990
oferecer para sempre alimento de seu próprio corpo.
Títio, porém, para nós é aquele jazente de amores
que dilaceram abutres, ou seja, a angústia ansiosa,
ou qualquer coisa que rasgue com dores, desejos perenes.
Sísifo, em vida, diante dos olhos também é aquele
que do povo procura beber os cetros selvagens
mas amiúde retira-se sempre triste e vencido.
Pois a busca do império inane que nunca se mostra
a nenhuma pessoa e por isso sofrer os labores
incessantes é o mesmo que o monte escalar com a rocha……….1000
que, quando quase chegando no vértice, mais uma vez se
precipita rolando de volta até o plano terreno.
E nutrir a ingrata natura do ânimo sempre,
para preenchê-la com bens mas sem nunca alcançar saciedade
tal como as estações do ano fazem conosco
quando sempre retornam e trazem os frutos e agrados,
sem que jamais satisfaçam-nos com as benesses da vida,
isto, tal penso, é o que fazem as moças de idade florente
que, dizem, tentam encher um vaso furado com água
o que, contudo, de modo nenhum jamais realizam.…………….1010
Cérbero e Fúrias, bem como a carência completa das luzes,
Tártaro em erupção, com suas fauces horríveis, de chamas,
estes não há, nem jamais, de modo nenhum, são possíveis.
Mas na vida os medos imensos de imensos castigos
por nossas faltas, para expiar nossos crimes e males:
cárcere, horrível queda forçada do alto da rocha,
vergas, algozes, tronco, piche, tochas, fogueira;
mesmo se ausentes, a mente, contudo, ciente dos feitos,
terrificada se exibe os estímulos: fogo, flagelos,
sem perceber qual seria o possível termo pros males…………….1020
nem qual seria por fim o limite das penas, e ainda
mais angustia-se achando que agravam depois de sua morte.
Tal é a vida infernal que se plasmam pra si os idiotas.

praeter enim quam quod morbis cum corporis aegret,
advenit id quod eam de rebus saepe futuris
macerat inque metu male habet curisque fatigat,
praeteritisque male admissis peccata remordent.
adde furorem animi proprium atque oblivia rerum,
adde quod in nigras lethargi mergitur undas.
Nil igitur mors est ad nos neque pertinet hilum,
quandoquidem natura animi mortalis habetur.
et vel ut ante acto nihil tempore sensimus aegri,
ad confligendum venientibus undique Poenis,
omnia cum belli trepido concussa tumultu
horrida contremuere sub altis aetheris auris,
in dubioque fuere utrorum ad regna cadendum
omnibus humanis esset terraque marique,
sic, ubi non erimus, cum corporis atque animai
discidium fuerit, quibus e sumus uniter apti,
scilicet haud nobis quicquam, qui non erimus tum,
accidere omnino poterit sensumque movere,
non si terra mari miscebitur et mare caelo.
et si iam nostro sentit de corpore postquam
distractast animi natura animaeque potestas,
nil tamen est ad nos, qui comptu coniugioque
corporis atque animae consistimus uniter apti.
nec, si materiem nostram collegerit aetas
post obitum rursumque redegerit ut sita nunc est,
atque iterum nobis fuerint data lumina vitae,
pertineat quicquam tamen ad nos id quoque factum,
interrupta semel cum sit repetentia nostri.
et nunc nil ad nos de nobis attinet, ante
qui fuimus, [neque] iam de illis nos adficit angor.
nam cum respicias inmensi temporis omne
praeteritum spatium, tum motus materiai
multimodi quam sint, facile hoc adcredere possis,
semina saepe in eodem, ut nunc sunt, ordine posta
haec eadem, quibus e nunc nos sumus, ante fuisse.
nec memori tamen id quimus reprehendere mente;
inter enim iectast vitai pausa vageque
deerrarunt passim motus ab sensibus omnes.
debet enim, misere si forte aegreque futurumst;
ipse quoque esse in eo tum tempore, cui male possit
accidere. id quoniam mors eximit, esseque prohibet
illum cui possint incommoda conciliari,
scire licet nobis nihil esse in morte timendum
nec miserum fieri qui non est posse, neque hilum
differre an nullo fuerit iam tempore natus,
mortalem vitam mors cum inmortalis ademit.
Proinde ubi se videas hominem indignarier ipsum,
post mortem fore ut aut putescat corpore posto
aut flammis interfiat malisve ferarum,
scire licet non sincerum sonere atque subesse
caecum aliquem cordi stimulum, quamvis neget ipse
credere se quemquam sibi sensum in morte futurum;
non, ut opinor, enim dat quod promittit et unde
nec radicitus e vita se tollit et eicit,
sed facit esse sui quiddam super inscius ipse.
vivus enim sibi cum proponit quisque futurum,
corpus uti volucres lacerent in morte feraeque,
ipse sui miseret; neque enim se dividit illim
nec removet satis a proiecto corpore et illum
se fingit sensuque suo contaminat astans.
hinc indignatur se mortalem esse creatum
nec videt in vera nullum fore morte alium se,
qui possit vivus sibi se lugere peremptum
stansque iacentem [se] lacerari urive dolere.
nam si in morte malumst malis morsuque ferarum
tractari, non invenio qui non sit acerbum
ignibus inpositum calidis torrescere flammis
aut in melle situm suffocari atque rigere
frigore, cum summo gelidi cubat aequore saxi,
urgerive superne obrutum pondere terrae.
‘Iam iam non domus accipiet te laeta neque uxor
optima, nec dulces occurrent oscula nati
praeripere et tacita pectus dulcedine tangent.
non poteris factis florentibus esse tuisque
praesidium. misero misere’ aiunt ‘omnia ademit
una dies infesta tibi tot praemia vitae.’
illud in his rebus non addunt ‘nec tibi earum
iam desiderium rerum super insidet una.’
quod bene si videant animo dictisque sequantur,
dissoluant animi magno se angore metuque.
‘tu quidem ut es leto sopitus, sic eris aevi
quod super est cunctis privatus doloribus aegris;
at nos horrifico cinefactum te prope busto
insatiabiliter deflevimus, aeternumque
nulla dies nobis maerorem e pectore demet.’
illud ab hoc igitur quaerendum est, quid sit amari
tanto opere, ad somnum si res redit atque quietem,
cur quisquam aeterno possit tabescere luctu.
Hoc etiam faciunt ubi discubuere tenentque
pocula saepe homines et inumbrant ora coronis,
ex animo ut dicant: ‘brevis hic est fructus homullis;
iam fuerit neque post umquam revocare licebit.’
tam quam in morte mali cum primis hoc sit eorum,
quod sitis exurat miseros atque arida torrat,
aut aliae cuius desiderium insideat rei.
nec sibi enim quisquam tum se vitamque requiret,
cum pariter mens et corpus sopita quiescunt;
nam licet aeternum per nos sic esse soporem,
nec desiderium nostri nos adficit ullum,
et tamen haud quaquam nostros tunc illa per artus
longe ab sensiferis primordia motibus errant,
cum correptus homo ex somno se colligit ipse.
multo igitur mortem minus ad nos esse putandumst,
si minus esse potest quam quod nihil esse videmus;
maior enim turbae disiectus materiai
consequitur leto nec quisquam expergitus extat,
frigida quem semel est vitai pausa secuta.
Denique si vocem rerum natura repente.
mittat et hoc alicui nostrum sic increpet ipsa:
‘quid tibi tanto operest, mortalis, quod nimis aegris
luctibus indulges? quid mortem congemis ac fles?
nam [si] grata fuit tibi vita ante acta priorque
et non omnia pertusum congesta quasi in vas
commoda perfluxere atque ingrata interiere;
cur non ut plenus vitae conviva recedis
aequo animoque capis securam, stulte, quietem?
sin ea quae fructus cumque es periere profusa
vitaque in offensost, cur amplius addere quaeris,
rursum quod pereat male et ingratum occidat omne,
non potius vitae finem facis atque laboris?
nam tibi praeterea quod machiner inveniamque,
quod placeat, nihil est; eadem sunt omnia semper.
si tibi non annis corpus iam marcet et artus
confecti languent, eadem tamen omnia restant,
omnia si perges vivendo vincere saecla,
atque etiam potius, si numquam sis moriturus’,
quid respondemus, nisi iustam intendere litem
naturam et veram verbis exponere causam?
grandior hic vero si iam seniorque queratur
atque obitum lamentetur miser amplius aequo,
non merito inclamet magis et voce increpet acri:
‘aufer abhinc lacrimas, baratre, et compesce querellas.
omnia perfunctus vitai praemia marces;
sed quia semper aves quod abest, praesentia temnis,
inperfecta tibi elapsast ingrataque vita,
et nec opinanti mors ad caput adstitit ante
quam satur ac plenus possis discedere rerum.
nunc aliena tua tamen aetate omnia mitte
aequo animoque, age dum, magnis concede necessis?’
iure, ut opinor, agat, iure increpet inciletque;
cedit enim rerum novitate extrusa vetustas
semper, et ex aliis aliud reparare necessest.
Nec quisquam in baratrum nec Tartara deditur atra;
materies opus est, ut crescant postera saecla;
quae tamen omnia te vita perfuncta sequentur;
nec minus ergo ante haec quam tu cecidere cadentque.
sic alid ex alio numquam desistet oriri
vitaque mancipio nulli datur, omnibus usu.
respice item quam nil ad nos ante acta vetustas
temporis aeterni fuerit, quam nascimur ante.
hoc igitur speculum nobis natura futuri
temporis exponit post mortem denique nostram.
numquid ibi horribile apparet, num triste videtur
quicquam, non omni somno securius exstat?
Atque ea ni mirum quae cumque Acherunte profundo
prodita sunt esse, in vita sunt omnia nobis.
nec miser inpendens magnum timet aëre saxum
Tantalus, ut famast, cassa formidine torpens;
sed magis in vita divom metus urget inanis
mortalis casumque timent quem cuique ferat fors.
nec Tityon volucres ineunt Acherunte iacentem
nec quod sub magno scrutentur pectore quicquam
perpetuam aetatem possunt reperire profecto.
quam libet immani proiectu corporis exstet,
qui non sola novem dispessis iugera membris
optineat, sed qui terrai totius orbem,
non tamen aeternum poterit perferre dolorem
nec praebere cibum proprio de corpore semper.
sed Tityos nobis hic est, in amore iacentem
quem volucres lacerant atque exest anxius angor
aut alia quavis scindunt cuppedine curae.
Sisyphus in vita quoque nobis ante oculos est,
qui petere a populo fasces saevasque secures
imbibit et semper victus tristisque recedit.
nam petere imperium, quod inanest nec datur umquam,
atque in eo semper durum sufferre laborem,
hoc est adverso nixantem trudere monte
saxum, quod tamen [e] summo iam vertice rusum
volvitur et plani raptim petit aequora campi.
deinde animi ingratam naturam pascere semper
atque explere bonis rebus satiareque numquam,
quod faciunt nobis annorum tempora, circum
cum redeunt fetusque ferunt variosque lepores,
nec tamen explemur vitai fructibus umquam,
hoc, ut opinor, id est, aevo florente puellas
quod memorant laticem pertusum congerere in vas,
quod tamen expleri nulla ratione potestur.
Cerberus et Furiae iam vero et lucis egestas,
Tartarus horriferos eructans faucibus aestus!
qui neque sunt usquam nec possunt esse profecto;
sed metus in vita poenarum pro male factis
est insignibus insignis scelerisque luela,
carcer et horribilis de saxo iactus deorsum,
verbera carnifices robur pix lammina taedae;
quae tamen etsi absunt, at mens sibi conscia factis
praemetuens adhibet stimulos torretque flagellis,
nec videt interea qui terminus esse malorum
possit nec quae sit poenarum denique finis,
atque eadem metuit magis haec ne in morte gravescant.
hic Acherusia fit stultorum denique vita.

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poesia, tradução

Niels Hav, por Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira

Niels Hav, nasceu em 1949 na cidade de Lemvig, área rural no oeste da Dinamarca. Estreou na literatura em 1981 com a publicação de um livro de contos e no ano seguinte publicou seu primeiro livro de poesia. Niels já se estabeleceu como uma voz nórdica contemporânea. Autor de contos e poemas publicados em inúmeras revistas e antologias em todo o mundo. Traduzido para o inglês, árabe, espanhol, italiano, turco, alemão, holandês, chinês, sérvio, albanês, entre outros idiomas.

Em inglês, uma coleção de sua poesia, God’s Blue Morris, foi publicada pela Crane Editions (Canadá) em 1993. Em 2006 foi publicada outra coleção de seus poemas, intitulada We Are Here, pela editora canadense BookThug. Ambas com tradução de Patrick Friesen e P. K. Brask.

Em seu país natal já recebeu diversos prêmios do Danish Arts Council. Atualmente vive com sua família em Copenhague, em um dos bairros mais coloridos e multiétnicos da capital dinamarquesa. Viajou diversas vezes para Europa, Ásia, América do Norte e do Sul, e participa frequentemente de festivais internacionais de poesia.

Todos os poemas do livro foram traduzidos a partir da língua inglesa. Traduzimos na íntegra a antologia poética “We Are Here” publicada em 2006 pela editora BookThug (Toronto, Canadá) com tradução direta do dinamarquês por Patrick Friesen e P. K. Brask.

Dispusemos do apoio do autor, que também domina a língua inglesa, para nos orientar em eventuais consultas necessárias à tradução, como não possuímos conhecimento acerca da língua dinamarquesa, idioma dos escritos originais, o contato com o autor foi de extrema importância.

Nas palavras do próprio Niels Hav: “É impossível traduzir poesia, todo mundo sabe. Mas isso precisa ser feito. Esse paradoxo é o ponto de partida para qualquer tentativa”. Na edição brasileira objetivamos manter a simplicidade elegante de sua obra e suas características vitais, tais quais: sua linguagem graciosamente direta, seu humor fatalista e sua ironia fina.

Quando nos deparamos com os poemas do autor, publicados num blog de poemas no idioma inglês, ficamos bestificados com a áurea espirituosa que compunha suas linhas e espantados ao saber que, até então, sua obra ainda não havia sido traduzida para a língua portuguesa. Instantaneamente, fomos tomados pelo desejo de trazê-la para a nossa realidade.

Sobre a tradução para o inglês Niels declarou, via e-mail, em uma de nossas conversas: “Trabalhei junto de Brask e Friesen nas traduções, e considero as edições em inglês praticamente originais, pois compreendo o idioma e fui capaz de fazer contribuições durante o processo. Então não acho que existam muitas perdas na tradução para o inglês”.

TRADUTORES:

Matheus Peleteiro, nasceu em Salvador – Bahia em 1995. Escritor, tradutor, poeta e contista, publicou em 2015 o seu primeiro romance, “Mundo Cão”, pela editora Novo Século. Em 2016, lançou a novela intitulada “Notas de um Megalomaníaco Minimalista” (editora Giostri), o livro de poemas “Tudo Que Arde Em Minha Garganta Sem Voz” (editora Penalux). Em 2017, publicou “Pro Inferno com Isso”, seu primeiro livro de contos.

Edivaldo Ferreira, nasceu em 1992 na zona leste de São Paulo. Escritor e tradutor literário e audiovisual, em 2016 publicou seu primeiro livro “Ragtimes, beijos na nuca & buracos no peito” (poemas) pela BAR Editora.

* * *

Til digternes forsvar

Hvad skal vi gøre med digterne?
Dem er det synd for,
de er så hjerteskærende i deres sorte tøj
blåfrosne af indvendige polarstorme.

Poesien er en frygtelig pest,
de smittede går rundt og jamrer sig,
deres skrig forgifter atmosfæren som udslip
fra mentale atomkraftværker. Det er så psykisk.
Poesien er en tyran;
den holder folk vågne om natten og ødelægger
ægteskaberne,
den driver mænd ud i øde sommerhuse midt om vinteren,
der sidder de forpinte med høreværn og halstørklæder.
En hæslig tortur.

Poesi er en plage,
værre end gonoré – en grusom pestilens.
Men tænk på digterne, de har det hårdt,
bær over med dem!
De er hysteriske som højgravide tvillingemødre,
de skærer tænder i søvne, spiser jord
og græs. De står i timevis udenfor i blæsten
plaget af ufattelige metaforer.
Hver dag er en højtid for dem.

Åh, hav barmhjertighed med digterne,
de er døve og blinde,
hjælp dem i trafikken, hvor de vakler rundt
med deres usynlige handicap: De husker
alt muligt. Af og til standser en af dem op
og lytter efter en fjern udrykning.
Vis hensyn.

Poeterne er som sindssyge børn
jaget hjemmefra af den samlede familie.
Bed for dem;
de er født ulykkelige –
deres mødre har grædt over dem,
søgt lægehjælp og juridisk bistand,
indtil de bare gav op
for at frelse deres egen forstand.
Åh, græd over poeterne!

Dem er der ingen redning for.
Befængt med lyrik som hemmeligt spedalske
er de spærret inde i deres egen fantasi –
en uhyggelig ghetto, fyldt med dæmoner
og ondskabsfulde spøgelser.

Når du på en klar sommerdag med strålende sol
ser en stakkels digter
komme vaklende ud fra en opgang, bleg
som en dødning og vansiret af spekulationer –
så gå hen og hjælp ham!
Bind hans snørebånd, tag ham med
over i parken og sæt ham på en bænk
i solen. Syng lidt for ham,
giv ham en is og fortæl ham et eventyr;
han er så ked af det.
Han er helt ødelagt af poesi.

Niels Hav

In defense of poets

What are we to do about the poets?
Life’s rough on them
they look so pitiful dressed in black
their skin blue from internal blizzards.

Poetry is a horrible disease
the infected walk about complaining
their screams pollute the atmosphere like leaks
from atomic power stations of the mind. It’s so psychotic.
Poesia is a tyrant
it keeps people awake at night and destroys marriages
it draws people out to desolate cottages in mid-winter
where they sit in pain wearing earmuffs and thick scarves.
Imagine the torture.

Poetry is a pest
worse than gonorrhea, a terrible abomination.
But consider poets it’s hard for them
bear with them.
They are hysterical as if they are expecting twins
they gnash their teeth while sleeping, they eat dirt
and grass. They stay out in the howling wind for hours
tormented by astounding metaphors.
Every day is a holy day for them.

Oh please, take pity on the poets
they are deaf and blind
help them through traffic where they stagger about
with their invisible handicap
remembering all sorts of stuff. Now and then one of them stops
to listen for a distant siren.
Show consideration for them.

Poets are like insane children
who’ve been chased from their homes by the entire family.
Pray for them
they are born unhappy
their mothers have cried for them
sought the assistance of doctors and lawyers, until they had to give up
for fear of loosing their own minds.
Oh, cry for the poets.

Nothing can save them.
Infested with poetry like secret lepers
they are incarcerated in their own fantasy world
a gruesome ghetto filled with demons
and vindictive ghosts.

When on a clear summer’s day the sun shining brightly
you see a poor poet
come wobbling out of the apartment block, looking pale
like a cadaver and disfigured by speculations
then walk up and help him.
Tie his shoelaces, lead him to the park
and help him sit down on a bench
in the sun. Sing to him a little
buy him an ice cream and tell him a story
because he’s so sad.
He’s completely ruined by Poetry.

(Tradução: P.K. Brask e Patrick Friesen)

Em defesa dos poetas

O que devemos fazer com os poetas?
A vida é dura com eles
eles parecem tão deploráveis vestindo de preto
sua pele azulada por nevascas internas.

Poesia é uma doença terrível
o infectado caminha entre lamentos
seus gritos poluem a atmosfera como vazamentos
de usinas nucleares da mente. É tão psicótico.
A poesia é uma tirana
mantém as pessoas acordadas à noite e destrói casamentos
atrai pessoas para cabanas solitárias no meio do inverno
onde elas ficam a sofrer usando protetores de ouvidos e grossos cachecóis.
Imagine a tortura.

Poesia é uma peste
pior que a gonorreia, uma abominação terrível.
Mas pense nos poetas, é difícil pra eles
seja paciente com eles.
Eles são histéricos como se esperassem gêmeos
eles rangem os dentes enquanto dormem, eles comem lixo
e mato. Eles ficam lá fora na friagem por horas
atormentados por terríveis metáforas.
Todo dia é um dia sagrado para eles.

Oh, por favor, tenha piedade dos poetas
eles são surdos e cegos
ajude-os a atravessar o trânsito por onde vão tropeçando
sobre seus obstáculos invisíveis
lembrando todo tipo de coisas. De vez em quando
um deles para e fica ouvindo uma sirene distante.
Mostre consideração por eles.

Poetas são como crianças loucas
que foram afugentadas de suas casas por toda a família.
Reze por eles
eles nasceram infelizes
suas mães choraram por eles
procuraram ajuda de médicos e advogados,
até que tiveram que desistir
por medo de perderem a própria sanidade.
Oh, chore pelos poetas.

Nada pode salvá-los.
Infestados de poesia como leprosos secretos
eles estão encarcerados em seu próprio mundo de fantasia
um gueto macabro cheio de demônios
e fantasmas vingativos.

Quando em um dia claro de verão, o sol brilhando intensamente,
você ver um pobre poeta
cambaleando pra fora do bloco de apartamentos, parecendo pálido
como um cadáver e desfigurado por suposições
caminhe até ele e o ajude.
Amarre seus cadarços, leve-o para o parque
e ajude-o a sentar em um banco
sob o sol. Cante um pouco pra ele
compre um sorvete e conte uma história
porque ele é tão triste.
Ele está completamente arruinado pela poesia.

(Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira)

§

Epigram

Man kan tilbringe et helt liv
i selskab med ord,
uden at finde
det rigtige.

Ligesom en stakkels fisk
pakket ind i ungarske aviser:
For det første er den død,
for det andet forstår den ikke ungarsk.

Niels Hav

Epigram

You can spend an entire life
in the company of words
not ever finding
the right one.

Just like a wretched fish
wrapped in Hungarian newspapers.
For one thing it is dead,
for another it doesn’t understand
Hungarian.

(Tradução: P.K. Brask e Patrick Friesen)

Epigrama

Podes passar uma vida inteira
em companhia de palavras
sem que encontre
a adequada.

Tal como um peixe miserável
embrulhado em jornais húngaros.
Por um lado, está morto,
por outro, não entende
húngaro.

(Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira)

§

Besøg af min Far

Min døde Far kommer på besøg
og sætter sig i sin stol igen, den jeg fik.
Nå, Niels! siger han.
Han er brun og stærk, hans hår skinner som sort lak.
Engang flyttede han rundt på andres gravsten
med stålstang og sækkevogn, jeg hjalp ham.
Nu har han flyttet sin egen
selv. Hvordan går det? siger han.
Jeg fortæller ham det hele,
mine planer, alle de mislykkede forsøg.
Inde på opslagstavlen hænger der sytten regninger.
Smid dem væk,
siger han, de skal nok komme igen!
Han smiler.
I mange år var jeg på nakken af mig selv,
siger han, jeg lå vågen og spekulerede
for at blive et ordentligt menneske.
Det er vigtigt!

Jeg byder ham en cigaret,
men han er holdt op med at ryge nu.
Udenfor tænder solen ild i tage og skorsten.
Skraldemændene larmer og råber til hinanden
nede i gaden. Min Far rejser sig
går hen til vinduet og ser ned på dem.
De har travl, siger han, sådan skal det være.
Bestil noget!

Niels Hav

Visit from my father

My dead Father comes to visit
and sits down in his chair again, the one I got.
Well, Niels he says.
He is brown and strong, his hair shines like black lacquer.
Once he moved other people’s gravestones around
using a steel rod and a wheelbarrow, I helped him.
Now he’s moved his own
by himself. How’s it going? he says.
I tell him all of it,
my plans, all the unsuccessful attempts.
On my bulletin board hang seventeen bills.
Throw them away,
he says, they’ll come back again.
He laughs.
For many years I was hard on myself,
he says, I lay awake mulling
to become a decent person.
That’s important.

I offer him a cigarette,
but he has stopped smoking now.
Outside the sun sets fire to the roofs and chimneys,
the garbagemen make noise and yell to each other
on the street. My Father gets up,
goes to the window and looks down at them.
They are busy, he says, that’s good.
Do something!

(Tradução: P.K. Brask e Patrick Friesen)

Visita do meu pai

Meu falecido pai vem me visitar
e senta em sua cadeira mais uma vez, aquela que herdei.
Então, Niels, ele diz.
Ele é bronzeado e forte, seu cabelo brilha como verniz negro.
Certa vez ele moveu a lápide de outra pessoa pelas redondezas
usando uma haste de aço e um carrinho de mão, eu o ajudei.
Agora ele moveu sua própria lápide
sozinho. Como está indo? Ele pergunta.
Conto tudo a ele,
meus planos, minhas tentativas mal-sucedidas.
Em meu mural de avisos estão penduradas dezessete contas.
Jogue isso fora,
meu pai diz, elas sempre voltam.
Ele sorri.
Por muitos anos fui duro comigo mesmo,
ele diz, ficava acordado na cama pensando
em como me tornar uma pessoa decente.
Isso é importante.

Ofereci um cigarro a ele,
mas ele parou de fumar agora.
Do lado de fora o sol incendiava telhados e chaminés,
os lixeiros faziam barulho e gritavam uns com os outros
no meio da rua. Meu pai se levanta,
vai até a janela e olha pra eles.
Eles estão ocupados, ele diz, isso é bom.
Faça alguma coisa!
(Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira)

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poesia, tradução

Alejandra Pizarnik, por Natália Agra e Victor Hugo Turezo

Inalterar capacidades, sentidos na poesia de Alejandra Pizarnik é quase que efeméride. Tanto a busca de uma significação justaposta é instransponível. Argentina incandescente em abordar a surreal crise de sua existência, é também espelho de uma lápide na qual reverbera o escuro e a permissibilidade da morte. Limar a palavra desta poeta é desatar nós. Compilar e tentar aproximá-la daqui é como correr atrás de pássaros ruins, como escreveu Rodrigo Madeira certa vez.

Investigar a crueza de seus poemas é como adentrar num bosque musical e se aproximar de cada espécie selvagem, é como entoar a canção da morte. Sua poesia é quase uma experiência em comunhão com o universo, onde o corpo e a mente são a mesma coisa, numa cosmovisão. E talvez seja essa a essência dos poemas que traduzimos. Talvez conseguimos desvendar um pouco do portal imaginário do inconsciente da Pizarnik.

Natália Agra e Victor Hugo Turezo

***

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Cielo

mirando el cielo

me digo que es celeste desteñido (témpera
azul puro después de una ducha helada)

las nubes se mueven

pienso en tu rostro y en ti y en tus manos y
en el ruido de tu pluma y en ti
pero tu rostro no aparece en ninguna nube!
yo esperaba verlo adherido a ella como un
trozo de algodón enyodado dentro de tela adhesiva
sigo caminando

un cocktail mental embaldosa mi frente
no sé si pensar en el cielo o en ti
y si tirara una moneda? (cara tú seca cielo)
no! tu ser no se arriesga y
yo te deseo te de-se-o!
cielo trozo de cosmos cielo murciélago infinito
inmutable como los ojos de mi amor

pensemos en los dos

los dos tú + cielo = mis galopantes sensaciones
biformes bicoloreadas bitremendas bilejanas
lejanas lejanas
lejos

sí amor estás lejos como el mosquito
sí! ese que persigue a una mosquita junto
al farol amarillosucio que vigila bajo el
cielo negrolimpio esta noche angustiosa
llena de dualismos

 

Céu

olhando o céu

me digo que é celeste desbotado (têmpera
azul puro depois de um banho gelado)

as nuvens se movem

penso em seu rosto e em você e em suas mãos e
no ruído de sua caneta e em você
mas seu rosto não aparece em nenhuma nuvem!
eu esperava vê-lo misturado a ela como um
pedaço de algodão iodado dentro do tecido adesivo
sigo caminhando

um coquetel mental embala minha cabeça
não sei se pensar no céu ou em você
e se eu jogasse uma moeda? (cara, você; coroa, o céu)
não! seu ser não se arrisca e
eu te desejo, te de-se-jo!
pedaço de céu do cosmos céu morcego infinito
imutável como os olhos do meu amor

pensemos nos dois

os dois você + céu = minhas sensações galopantes
biformes bicoloridas bitremendas bidistantes
distantes distantes
longe

sim o amor está longe como o mosquito
sim! esse que persegue um outro mosquito perto
do farol amarelado que vigia, sob o
céu negrolimpo, esta noite angustiante
                                cheia de dualismos

§

 

El miedo

En el eco de mis muertes
aún hay miedo.
¿Sabes tú del miedo?
Sé del miedo cuando digo mi nombre.
Es el miedo,
el miedo con sombrero negro
escondiendo ratas en mi sangre,
o el miedo con labios muertos
bebiendo mis deseos.
Sí. En el eco de mis muertes
aún hay miedo.

 

O medo

No eco de minhas mortes
ainda há medo.
Você percebe o medo?
Sei do medo quando digo meu nome.
É o medo,
O medo com um chapéu preto
escondendo ratos em meu sangue,
ou o medo com lábios mortos
bebendo meus desejos.
Sim. No eco de minhas mortes
ainda há medo.

***

Natália Agra é poeta e editora na Corsário-Satã. Nasceu em Maceió, AL, em 1987. Publicou De repente a chuva (Corsário-Satã, 2017). Já apareceu aqui na escamandro com alguns poemas.

Victor Hugo Turezo é poeta e tradutor. Nasceu em Curitiba, PR, em 1993. Publicou minha massa encefálica despenca como se de um desfiladeiro (Editora Patuá, 2017).

*

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poesia, tradução

Poesia nórdica| Três tradutores de Karin Boye

Karin Maria Boye (n. 26 outubro de 1900 em Gotemburgo, m. madrugada de 24 april 1941 em Alingsås) é uma escritora e tradutora sueca mais conhecida por sua poesia mas que nos legou também muitos artigos, contos e romances, o mais célebre dos quais é a distópica obra de ficção científica Kallocain (Calocaína, publicada no Brasil em 1974 na tradução do prolífico tradutor Janer Cristaldo). A poesia de Karin Boye, marcada de lado pelo seu engajamento político e doutro por sua complexa vida amorosa, numa época impregnada de preconceitos — mesmo na hoje socialmente avançada Suécia — em que assumir publicamente a homossexualidade nem sempre era uma opção muito promissora. Poeta das grandes ela própria, Karin se viu, entre outros, com os poetas Rilke, Eliot e Whitman, os quais verteu ao seu idioma materno.

* * *

 DÓI TANTO QUANDO

Dói tanto quando o broto enflora.
Ou não tardava a primavera.
Oculta atrás do instante, chora,
refém do clima que congela
onde amargou o inteiro inverno.
Então por que desponta agora?
Dói sempre quando o broto enflora
dói quando cresce
…………………….e quando para.

A mesma dor é a dor da gota
que rompe o gelo, anseia e vai,
vacila em vão, o galho agarra
mas cede ao peso, escorre e cai.
É dor de medo, frio e dúvida
ante o escuro do sentir,
é dor daquele que ignora —
se quer ficar
…………………….ou quer partir.

E quando nada mais consola,
o galho o mesmo broto afronta.
Não há mais medo que a tolha,
cai rebrilhando a mesma gota
perante o novo, intimorata
esquece o risco da jornada —
e se engrandece, num segundo,
de toda a fé
…………………….que move o mundo.

(traduzido do sueco por Leonardo Pinto Silva)

JA VISST GÖR DET ONT

Ja visst gör det ont när knoppar brister.
Varför skulle annars våren tveka?
Varför skulle all vår heta längtan
bindas i det frusna bitterbleka?
Höljet var ju knoppen hela vintern.
Vad är det för nytt, som tär och spränger?
Ja visst gör det ont när knoppar brister,
ont för det som växer
………………………………och det som stänger.

Ja nog är det svårt när droppar faller.
Skälvande av ängslan tungt de hänger,
klamrar sig vid kvisten, sväller, glider –
tyngden drar dem neråt, hur de klänger.
Svårt att vara oviss, rädd och delad,
svårt att känna djupet dra och kalla,
ändå sitta kvar och bara darra –
svårt att vilja stanna
………………………………och vilja falla.

Då, när det är värst och inget hjälper,
Brister som i jubel trädets knoppar.
Då, när ingen rädsla längre håller,
faller i ett glitter kvistens droppar
glömmer att de skrämdes av det nya
glömmer att de ängslades för färden –
känner en sekund sin största trygghet,
vilar i den tillit
………………………………som skapar världen.

§

MANHÃ

Quando o sol da manhã penetra pela vidraça da janela,
alegre e cuidadoso
como uma criança querendo fazer surpresa
cedo, muito cedo em um dia de festa —
então me espreguiço cheia de uma crescente exaltação
de braços abertos para o dia que está por vir —
para o dia que é você
para a luz que é você
o sol é você
e a primavera é você
e toda a linda, linda
vida me esperando é você!

(traduzido do sueco por Fernanda Sarmatz Åkesson)

MORGON

När morgonens sol genom rutan smyger,
glad och försiktig,
lik ett barn, som vill överraska
tidigt, tidigt en festlig dag —
då sträcker jag full av växande jubel
öppna famnen mot stundande dag —
ty dagen är du,
och ljuset är du,
solen är du,
och våren är du,
och hela det vackra, vackra,
väntande livet är du!

§

Como posso dizer se a tua voz é bela.
Apenas sei que ela me atravessa,
que me faz estremecer como uma folha
e me despedaça e me arrebenta.

O que eu sei sobre a tua pele e sobre os teus membros.
Eles me abalam apenas por serem teus,
então para mim não há nem descanso e nem paz,
enquanto eles não forem meus.

(traduzido do sueco por Fernanda Sarmatz Åkesson)

*

Como dizer se é bela a tua voz
que me atravessa
e dilacera como uma folha
feita em pedaços.

Que sei da tua pele e dos teus membros
me sacudindo e jurando que sou tua,
roubando de mim o sono e o descanso,
até que que sejam meus.

(traduzido do sueco por Leonardo Pinto Silva)

*

Como posso dizer se a tua voz é bonita.
O único que sei é que ela me trespassa,
me faz estremecer feito uma folha aflita
depois me desfaz e então me devassa.

Que sei eu da tua pele e das tuas pernas.
Comove-me só o fato de que sejam tuas
e eu não terei repouso nem a paz eterna
enquanto elas não forem minhas, nuas.

(traduzido do sueco por Luciano Dutra)

Hur kan jag säga om din röst är vacker.
Jag vet ju bara, att den genomtränger mig
och kommer mig att darra som ett löv
och trasar sönder mig och spränger mig.

Vad vet jag om din hud och dina lemmar.
Det bara skakar mig att de är dina,
så att för mig finns ingen sömn och vila,
tills de är mina.

§

NOITE DE SANTA VALBURGA

Enfim estou junto à montanha do destino.
Em volta, como nuvens de tempestade,
juntam-se seres informes, animais crepusculares,
com suas asas negras,
com seus olhos forsforados.
Paro? Ou ando? A senda segue, sombria.
Se paro pacificamente aqui no sopé da montanha,
ninguém mais me importuna.
E posso assistir serenamente seus embates como jogos nebulosos no ar,
mero olho desgarrado.
Porém se ando, se ando, aí já não sei de mais nada.
Pois para quem anda esses passos
a vida vira uma fábula.
Eu própria fogo,
hei de cavalgar nas serpentes bruxuleantes de fogo.
Eu própria vento,
hei de voar nas pandorgas aladas.
Eu própria o nada,
perdida na tempestade
hei também de me arrojar viva ou morta, feito um destino pesado de futuro.

(traduzido do sueco por Luciano Dutra)

VALBORGSNATT

Sent omsider står jag vid ödenas berg.
Runtomkring som ovädersmoln
skockar sig formlösa väsen, skymningsdjur,
svartvingade,
fosforögda.
Stannar jag? Går jag? Vägen ligger mörk.
Stannar jag fredlig här vid foten av berget,
då rör mig ingen.
Lugn kan jag se deras kamp som en dimmans lek i luften,
själv blott ett vilset öga.
Men går jag, går jag, då vet jag ingenting mer.
För den som tar de stegen
blir livet saga.
Själv eld
skall jag rida på ringlande eldormar.
Själv vind
skall jag flyga på vingade vinddrakar.
Själv intet,
själv förlorad i stormen
slungas jag död eller levande fram, ett öde framtidstungt.

* * *

OS TRÊS TRADUTORES

Fernanda Sarmatz Åkesson (n. 20 de maio de 1970, em Porto Alegre/RS) é bacharel em ciências jurídicas e sociais pela PUC/RS. Vive em Estocolmo desde 1999, onde completou seus estudos com  cursos de pedagogia e de português para estrangeiros. Trabalha como professora de português (língua materna e língua de herança). Já traduziu obras de ficção e não-ficção. Alguns dos autores traduzidos são: Astrid Lindgren, Peter Englund, David Lagercrantz, Pernilla Stalfelt, Christina Rickardsson. Casada com um sueco, tem uma filha e uma cachorra.

Leonardo Pinto Silva (n. 31 de dezembro de 1970 em Fortaleza/CE) é jornalista e tradutor, majoritariamente do norueguês. Aprendeu o idioma na Noruega, onde concluiu o ensino médio, e já traduziu, entre ficção e não-ficção, mais de trinta títulos de autores como Jostein Gaarder, Karl Ove Knausgård e Thor Heyerdahl, para diversas editoras brasileiras. Recentemente, teve publicado pelas editoras Carambaia (SP) e Moinhos (MG) peças de Henrik Ibsen, que serão encenadas em Porto Alegre pela diretora Camila Bauer, brasileira vencedora do Ibsen Awards 2017. Entre uma obra em prosa e outra, dedica-se à tradução de poesias dos idiomas escandinavos. Vive em São Paulo, é casado e tem dois filhos.

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík, onde vive desde 2002, a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (http://www.facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

 

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Frank O’Hara (1926-1966), por Lucas Túlio

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Frank O’Hara (1926 – 1966) foi, entre outras coisas, um poeta norte-americano fundador do grupo Escola de Poetas de Nova Iorque (New York School of Poets) junto a John Ashbery, Kenneth Koch, James Schuyler e Barbara Guest. Nasceu em Baltimore, embora os anos mais produtivos de sua vida terem acontecido em Nova Iorque, onde a literatura, a música, a pintura e cinema convergiam em único ponto nos poemas de O’Hara. Por ser muito ativo na área das artes, na década de 60 Frank passou a ser um dos curadores do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Para ele o poema deveria divertir. Dos poemas abaixo, dois são do livro Lunch Poems (1964) – o poeta usava o horário de almoço para caminhar pela cidade em busca de situações e temas para seus poemas. Apenas “Manhã” é de The Collected Poems of Frank O’Hara (1971). Morreu prematuramente, em decorrência de um atropelamento por um buggy em Fire Island. Foi levado ao hospital, mas morreu devido aos ferimentos.

Lucas Túlio

* * *

 

Ontem lá pra baixo no canal

Você diz que tudo é bem simples e interessante
isso me faz sentir muito melancólico, como ler um bom romance russo faz
estou terrivelmente entediado
às vezes é como ver um filme ruim
outros dias, com frequência, é como ter uma doença aguda nos rins
deus sabe que não tem nada a ver com o coração
nada a ver com pessoas mais interessantes que eu
blá blá
é um pensamento divertido
como uma pessoa pode ser mais divertida que si mesma
como alguém falha em ser
posso pegar emprestado sua quarenta e cinco
só preciso de uma bala de preferência prata
se não dá pra ser interessante ao menos dá pra ser uma lenda
(mas eu odeio toda essa merda)

Yesterday down at the canal

You say that everything is very simple and interesting
it makes me feel very wistful, like reading a great Russian novel does
i am terribly bored
sometimes it is like seeing a bad movie
other days, more often, it’s like having an acute disease of the kidney
god knows it has nothing to do with the heart
nothing to do with people more interesting than myself
yak yak
that’s an amusing thought
how can anyone be more amusing than oneself
how can anyone fail to be
can i borrow your forty-five
i only need one bullet preferably silver
if you can’t be interesting at least you can be a legend
(but i hate all that crap)

§

 

Manhã

Eu tenho que te dizer
como eu te amo sempre
penso nisso em manhãs
cinzas com a morte

em minha boca o chá
nunca está quente
o bastante nessa hora
o cigarro seco o roupão bordô

arrepia-me preciso de você
e olho para fora da janela
vendo a neve silenciosa

À noite na doca
os ônibus brilham como
nuvens e estou sozinho
pensando em flautas

sinto sua falta sempre
quando vou à praia
a areia molhada com
lágrimas que parecem minhas

embora eu nunca chore
e guarde você no meu
coração com um ânimo
tão sincero que te faria orgulhoso

o estacionamento está
lotado e eu estou parado
chacoalhando as chaves o carro
está vazio como uma bicicleta

o que você está fazendo
agora onde você comeu
no almoçou e tinham
muitas anchovas é

difícil pensar em você
sem mim na frase
você me deprime
quando está sozinho
noite passada as estrelas
eram numerosas e hoje
a neve é o cartão de visita
delas não serei cordial

não há nada que me
distraia a música é só
palavras cruzadas
você sabe como é
quando se é o único
passageiro se há algum
lugar mais distante de mim
imploro que não vá

Morning

I’ve got to tell you
how I love you always
I think of it on grey
mornings with death

in my mouth the tea
is never hot enough
then and the cigarette
dry the maroon robe

chills me I need you
and look out the window
at the noiseless snow

At night on the dock
the buses glow like
clouds and I am lonely
thinking of flutes

I miss you always
when I go to the beach
the sand is wet with
tears that seem mine

although I never weep
and hold you in my
heart with a very real
humor you’d be proud of

the parking lot is
crowded and I stand
rattling my keys the car
is empty as a bicycle

what are you doing now
where did you eat your
lunch and were there
lots of anchovies it

is difficult to think
of you without me in
the sentence you depress
me when you are alone

Last night the stars
were numerous and today
snow is their calling
card I’ll not be cordial

there is nothing that
distracts me music is
only a crossword puzzle
do you know how it is

when you are the only
passenger if there is a
place further from me
I beg you do not go

§

 

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