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Wladyslaw Szlengel (1912-1943), por Piotr Kilanowski

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Wladyslaw Szlengel foi um poeta judeu-polonês nascido em Łódź. Suas canções escritas em polonês eram muito populares no Gueto, expressavam seus pensamento e estados de espírito. Eram recitados em diferentes apresentações de serões de diversões, circulavam em cópias de máquina de escrever ou hectográficas. Apesar de sua pouca qualidade artística, gozavam de popularidade, comoviam até às lágrimas, pois expressavam aqueles tempos, falavam de coisas com as quais o Gueto vivia e que apaixonadamente comentava.

O poema intitulado Coisas, coisas descreve o processo que afetou as posses judias nos tempos da ocupação alemã. O poeta enumera a longa lista de coisas, menciona até utensílios levados pelos judeus na mudança da parte sul de Varsóvia para o bairro norte, saindo das zonas mistas para a zona puramente judaica, o gueto. Do Gueto pequeno ao Gueto grande já levaram poucas coisas. E quando passavam do Gueto para os “szopy” particulares, sobrava muito pouca coisa da riqueza ou das posses: somente um embornal e um cantil com água. Nos apartamentos abandonados pelos judeus, resta apenas um comprimido como corpus delicti:

Ante o tribunal, contudo,
(se acaso veritas victi (!)…)
restará um comprimido
expondo o corpus delicti.

O poema A despedida dos três quepes conta a despedida do jovem poeta com três quepes: de estudante, de militar e de policial judaico. O autor relata sua participação na defesa de Varsóvia e a despedida com o quepe de militar. Mais para o fim do poema, descreve a ação de deportação dos judeus de Varsóvia, da qual teria que participar como policial. O poeta, não querendo ajudar aos alemães na ação do extermínio, despede-se do quepe policial. Poucos foram os judeus policiais que fizeram escolha semelhante. Cito aqui duas estrofes do poema:

Você é o quepe em que te vê a humanidade,
que a avó ariana, ele é mais importante.
Não checam o que tens nas calças ou na identidade,
o quepe teu valor declara antes…

Despedida com o quepe policial:

O mundo é todo fechado para mim,
cada portão é uma cilada sem fim,
se me darei melhor ou pior não sei
meu quepe – chegou a hora do adeus…

Seria difícil superestimar a especificidade de tal perspectiva, considerados o alcance, a minúcia e a nitidez da visão que ela proporciona. Em grande medida, no entanto, o legado criativo de Szlengel continua desconhecido: na Polônia inclusive, sob certos aspectos , e que dizer então fora dela!

* * *

O MONUMENTO

Aos heróis – epopeias e rapsódias!!!
Aos heróis honrará a prole,
os seus nomes em pedestais gravados,
e os seus monumentos em mármore.

Aos soldados valentes – as medalhas!
Uma cruz – à morte do soldado!
As glórias e os sofrimentos em aço,
bronze e granito encantados.

Ficarão dos Grandes as Lendas,
de que eram Enormes, o testamento,
o mito consolidará e restará
o Monumento.

Quem pra vós vai contar, ó Futuros,
a história – nem de mito que resiste,
nem de bronze – que a levaram, mataram…
e que ELA não existe…

Se ela era boa? Nem isso –
brigava e as portas batia,
resmungava, vociferava…
mas – existia.

Bela? Nem antes dos cabelos prateados,
ninguém de uma beldade a chamaria
Sábia? Eh, comum, simplesmente não foi
burra…
E no entanto…existia.

Entendes: Ela estava e agora não está,
em cada canto algo ruim, coisa má,
e dá para ver logo que Ela não está.

Nada de grande palavra: O Lar,
Deus meu, que casa era essa?!
………….(não eram de Varsóvia)
O marido o dia todo na oficina,
o filho – sempre correndo com pressa,
o quarto raramente arrumado,
………….(pois de baixo água trazia),
os móveis de algum jeito ordenados,
o relógio parecia sorrir animado,
pois – Ela existia.
Existia.

E daí? Ser humano? Não importa –
em estatística não vai constar,
para o mundo, a Europa – é um nada,
grandes coisas esta Sua labuta suada,
mas quando se chegava à porta do lar,
mesmo antes de tocar na maçaneta, abrir,
no ar algum cheiro bom havia,
ou sopa quente, ou toalha macia,
um calor familiar te envolvia,
pois…
………….Ela existia.

E a levaram,
Foi do jeito que estava.
Do fogão.
Da sopa não provaram…
carregaram, foi-se, não está,
mataram.

O marido voltará da oficina,
sentará na banqueta chocado,
as mãos fracas cairão pros lados,
olhará com a cabeça meneando.

No fogão não há fogo –
no chão, pano caído,
prato na mesa – sujeira demais.
Não levanta, curva-se, pensa.
Nada a fazer.
………….………….Não está mais.

A sopa rala e estranha da oficina
da fábrica, e o pão – vai pôr na goela,
Come e olha:
………….………….na prateleira em silêncio
fria e morta a Sua panela.

Não retornará à oficina,
o filho vai voltar faminto,
na desfeita cama amarela,
sem tirar o sapato barrento,
deitado, não dormirá.
Vai olhar, não esquecerá um só momento…
………….Ali, da Mãe, a esfriada p a n e l a –
………….O SEU MONUMENTO.

P O M N I K

Bohaterom – poematy, rapsody!!!
Bohaterów uczczą potomni
na cokołach nazwiska ryte
i marmurowy pomnik.

Walecznym żołnierzom – medal!
Śmierci żołnierskiej krzyż!
Zakląć chwałę i mękę
w stal, granit i spiż.

Zostaną po Wielkich Legendy
że tacy byli ogromni.
Mit zakrzepnie i – będzie
POMNIK.

A kto wam opowie, Przyszli,
nie spiż i nie mitu temat –
że Ją zabrali – zabili,
i że jej nie ma…

Czy była dobra? Nawet nie –
często się przecież kłóciła,
stuknęła drzwiami, burknęła…
ale była.

Ładna? nie była nigdy ładna,
nawet nim głowa się posrebrzyła.
Mądra? Ot, zwyczajnie nie głupia…
No, ale… była.
Rozumiesz – była a gdy jej nie ma,
to każdy kąt tu oczy złe ma
i zaraz widać że jej nie ma.

Nie żeby wielkie słowo – DOM –
mój Boże, cóż to za gospodarstwo!
(nie byli z Warszawy)
mąż cały dzień w warsztacie
syn także miał gdzieś swoje sprawy,
pokoik często nie sprzątnięty
(bo wodę z dołu przynosiła)
tak jakoś stały wszystkie sprzęty
tak jakoś zegar uśmiechnięty
no – była.
Była.

I cóż? Człowiek? – Nie – Nieważne –
statystyka żadna jej nie wymieni –
dla świata, Europy, mniej niż pyłek –
ważna to rzecz ten jej wysiłek!
ale gdyś zbliżył się do sieni,
nim klamkę wziąłeś, – nim drzwi pchnąłeś,
jakoś w powietrzu zapachniały
ni ciepła zupa, ni ręcznik biały,
tak jakoś ciepłość cię owiła
no…
była.

I wzięli.
Poszła jak stała.
Od ognia.
Zupy nie zdążyła…
Zabrakli, poszła – nie ma –
zabili.

Wróci z warsztatu mąż,
usiądzie ciężko na stołku –
ręce opadną na podołku,
głową wodzi i patrzy.

Ognia nie ma pod blachą –
ścierka spadła i leży
talerz na stole – brudno.
Nie wstaje. Pochyla się. Myśli.
Trudno.
Nie ma.

Zje chleba i zupy z warsztatu
fabrycznej – obcej i marnej.
Je i patrzy: –
na półce… milczący
zimny i martwy jej garnek.

Nie pójdzie już do warsztatu –
Syn wróci z miasta zgłodzony
w łóżko niezaścielane
rzuci się w butach zbłoconych –
Nie uśnie.
Będzie patrzył (i nie zapomni…)
Tam – Matki wystygły g a r n ek
J E J P O M N I K..

§

 

A JANELA PARA O OUTRO LADO

Minha janela é para o outro lado,
uma janela judia descarada
para o belo parque dos Krasiński
e as folhas outonais molhadas…
No anoitecer cinza-arroxeado
as frondes se curvam, inclinadas
e as árvores arianas espreitam
a janela judia fechada…
Não posso ficar na janela
(resolução mui correta),
aos vermes judeus…toupeiras…
a cegueira melhor se adequa.
Que fiquem nas tocas e covas,
absorto no trabalho o olhar
e pelas janelas judias
sejam proibidos de mirar…
E eu… quando vem a noite…
para tudo apagar e igualar,
no escuro pra janela corro
com a sede enorme de olhar…
e roubo Varsóvia apagada,
os silvos, chiados distantes,
as formas das casas e ruas,
os tocos das torres cortantes…
Eu roubo a silhueta do Teatro,
aos pés tenho o Paço Municipal,
O luar – wachmeister
– permite
o contrabando sentimental…
Os olhos famintos se cravam
no peito da noite – dois gumes,
na noite de Varsóvia calada,
cidade querida em negrume…
E quando já estou suprido
para um dia, talvez mais…
me despeço da cidade calada,
com as mãos faço gestos rituais,
cicio e os olhos cerro:
– Varsóvia…diz algo!…espero

E pianos pela cidade
levantam os tampos calados
levantam sozinhos, ao comando,
pesados, tristonhos, cansados…
e flui da centena de pianos
na noite… a polonaise de Chopin…
Me chamam os clavicordes,
no silêncio sofrido vêm
pela cidade os acordes
das teclas de branco mortal…
Baixo as mãos…é o final…
volta a polonaise pros pianos…
Volto e penso calado
que na verdade é ruim
ter a janela pro outro lado…

Okno na tamtą stronę

Mam okno na tamtą stronę,
bezczelne żydowskie okno
na piękny park Krasińskiego,
gdzie liście jesienne mokną…
Pod wieczór szaroliliowy
składają gałęzie pokłon
i patrzą się drzewa aryjskie
w to moje żydowskie okno…
A mnie w oknie stanąć nie wolno
(bardzo to słuszny przepis),
żydowskie robaki… krety…
powinni i muszą być ślepi.
Niech siedzą w barłogach, norach
w robotę z utkwionym okiem
i wara im od patrzenia
i od żydowskich okien…
A ja… kiedy noc zapada…
by wszystko wyrównać i zatrzeć,
dopadam do okna w ciemności
i patrzę… żarłocznie patrzę…
i kradnę zgaszoną Warszawę,
szumy i gwizdy dalekie,
zarysy domów i ulic,
kikuty wieżyc kalekie…
Kradnę sylwetkę Ratusza,
u stóp mam plac Teatralny,
pozwala księżyc Wachmeister
na szmugiel sentymentalny…
Wbijają się oczy żarłocznie,
jak ostrza w pierś nocy utkwione,
w warszawski wieczór milczący,
w miasto me zaciemnione…
A kiedy mam dosyć zapasu
na jutro, a może i więcej…
żegnam milczące miasto,
magicznie podnoszę ręce…
zamykam oczy i szepcę:
– Warszawo… odezwij się… czekam…

Wnet fortepiany w mieście
podnoszą milczące wieka…
podnoszą się same na rozkaz
ciężkie, smutne, zmęczone…
i płynie ze stu fortepianów
w noc… Szopenowski polonez…
Wzywają mnie klawikordy,
w męką nabrzmiałej ciszy
płyną nad miastem akordy
spod trupio białych klawiszy…
Koniec… opuszczam ręce…
wraca do pudeł polonez…
Wracam i myślę, że źle jest
mieć okno na tamtą stronę…

§

 

As duas mortes

A sua morte e a nossa morte
são duas mortes bem diferentes.
A sua morte é a morte forte
rasga as almas, faz ranger os dentes.
A sua morte é morte por balas,
atirando, entre campos gris
fertilizados com suor e sangue
por algo – …pelo pátrio País.
A nossa morte – é morte estúpida
no sótão ou no porão,
a nossa morte de trás da esquina
chega – uma morte de cão.
A sua morte, a medalha condecora,
menciona-a o comunicado,
a nossa morte – pra terra e adeus –
um depósito de atacado.
A sua morte – é cara a cara,
no meio do caminho saudada.
A nossa morte – é em segredo
na máscara do medo cavada.
A sua morte – é costumeira,
humana e fácil se apresenta,
a nossa morte – é a morte lixeira,
judia e nojenta.
A nossa morte da sua morte
é pobre, longínqua parente.
Quando a sua encontra a nossa
não a cumprimenta, certamente.
Na noite negra entre névoas,
se maldizem as duas mortes,
sobre a cidade – um mar de trevas,
se insultam com verbos fortes.
Sobre a mureta, vendo os dois lados,
espia as brigas escondida,
a mesma esperta, má, gananciosa
e igualzinha Vida.

Dwie Śmierci

Wasza śmierć i nasza śmierć
to dwie inne śmierci.
Wasza śmierć – to mocna śmierć,
szarpiąca na ćwierci.
Wasza śmierć śród szarych pól
od krwi i potu żyznych.
Wasza śmierć – to śmierć od kul
dla czegoś – …dla Ojczyzny.
Nasza śmierć – to głupia śmierć,
na strychu lub w piwnicy,
nasza śmierć przychodzi psia
zza węgła ulicy.
Waszą śmierć odznaczy krzyż,
komunikat ja wymienia,
naszą śmierć – hurtowy skład,
zakopią – do widzenia.
Wasza śmierć – wy twarzą w twarz
witacie się w pół drogi,
nasza śmierć – to skryta śmierć
kopana w masce trwogi.
Wasza śmierć – zwyczajna śmierć,
człowiecza i nietrudna,
nasza śmierć – śmietnicza śmierć,
żydowska i – paskudna.
Nasza śmierć jest waszej śmierci
daleką biedną krewną.
Gdy spotka wasza – naszą śmierć,
nie wita jej na pewno.
I w czarną noc przez smugi mgieł
nad miastem – w mroków piekle,
dwie śmierci przeklinają się,
złorzecząc sobie wściekle.
Na murku – patrząc w strony dwie,
podgląda kłótnię skrycie
to samo chciwe, sprytne, złe
i jednakowe Życie.

 

* * *

Uma coletânea dos poema de Wladyslaw Szlengel foi publicada pela editora Dybbuk (clique aqui) este ano. Os poemas publicados aqui, bem como o texto introdutório, foram retirados de lá.

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poesia, tradução

Limbo, de Coleridge, por Érico Nogueira

Samuel Taylor Coleridge; portrait by James Northcote, 1804.

O revolucionário poeta britânico Samuel Taylor Coleridge (1772-1834) é mais conhecido do exiguíssimo público leitor de poesia pelos visionários “The Rime of the Ancient Mariner”, “Christabel” e “Kubla Khan” – todos três poemas de juventude. Na verdade, mesmo um leitor tão cuidadoso como T. S. Eliot acaba bem ou mal reproduzindo o lugar-comum de que, revolucionário embora, e introdutor, junto com Wordsworth, do romantismo nas terras da rainha, Coleridge foi uma espécie de poeta- relâmpago, ou poeta-tufão, visitado (brevemente) pelas musas na juventude, e inapelavelmente abandonado por elas na madureza e na velhice.

Mas não é bem assim.

Pois, segundo se pode ler na primorosa Selected Poetry organizada e anotada por Richard Holmes (Londres: Penguin, 1996), Coleridge nunca parou de escrever grandes e belos poemas pela vida afora; o que aconteceu foi que, viciado em ópio desde os trinta anos, seus períodos de criatividade foram ficando cada vez mais curtos e intermitentes à medida que envelhecia, – o que o obrigou, digamos, a mudar de foco e de método e de elocução, produzindo uma poesia altamente pessoal (e, acrescente-se, moderníssima), que explora o âmago da existência, os impasses da vida e da criação e, last but not least, a dependência química.

É precisamente esse assunto tríplice – dependência química, impasses da vida e da poesia, e âmago do ser – que o leitor encontrará em “Limbo”, cuja tradução inédita em vernáculo (tanto quanto pude averiguar) se poderá ler e julgar em seguida. Passei dezembro todo lendo Coleridge. E “Limbo” realmente me impressionou e se sobressaiu.

Finalmente, dedico esta tradução ao amigo britânico Chris Miller, com quem venho aprendendo horrores (et pour cause) sobre romantismo inglês.

Tchau!

Érico Nogueira

* * *

LIMBO

a Chris Miller

Lugar estranho, o limbo – um não-lugar, mas… seja –,
no qual o tempo e o espaço que rasteja,
de voo atado, em pesadelo de escapar,
lutam pelo último meio-ser crepuscular, –
espaço oco, tempo sem foice de mãos cheias
surdo e infecundo como o cálculo das areias,
sem nem sombra de sombra, – ah, mas pra quê flutua
em relógio de sol a luz da lua?

Mas isto é belo – a tempo humano se assemelha –,
um velho de alta e fixa sobrancelha,
que pára o terra a terra a fim de olhar os céus;
mas ele é cego – olhos de estátua são os seus –;
porém, a face enluarada pela sorte,
fita ele o mundo com aluado porte,
poucos cabelos brancos, súpero sobrolho,
e fita imóvel – a cega face é toda um olho –;
e, como órgão de mutíssima visão,
a face toda frui, parece, de um clarão! –
lábio no lábio, tudo estático, busto e artelho,
parece pôr os olhos no que os põe sobre ele!

Doces visões que tais o limbo não amura,
covil cercado que à alma fez prisão segura
o puro horror do nada vacuíssimo,
em cujo entorno tais fantasmas se enfeitiçam.
Negro e gorado pensamento – privação –
é só uma maldição de purgatório;
o inferno tem terror pior,
terror – o após –; é positiva negação!

LIMBO

‘Tis a strange place, this Limbo!—not a Place,
Yet name it so;—where Time and weary Space
Fettered from flight, with night-mare sense of fleeing,
Strive for their last crepuscular half-being;—
Lank Space, and scytheless Time with branny hands
Barren and soundless as the measuring sands,
Not mark’d by flit of Shades,—unmeaning they
As moonlight on the dial of the day!
But that is lovely—looks like Human Time,—
An Old Man with a steady look sublime,
That stops his earthly task to watch the skies;
But he is blind—a Statue hath such eyes;—
Yet having moonward turn’d his face by chance,
Gazes the orb with moon-like countenance,
With scant white hairs, with foretop bald and high,
He gazes still,—his eyeless face all eye;—
As ‘twere an organ full of silent sight,
His whole face seemeth to rejoice in light!
Lip touching lip, all moveless, bust and limb—
He seems to gaze at that which seems to gaze on him!
No such sweet sights doth Limbo den immure,
Wall’d round, and made a spirit-jail secure,
By the mere horror of blank Naught-at-all,
Whose circumambience doth these ghosts enthral.
A lurid thought is growthless, dull Privation,
Yet that is but a Purgatory curse;
Hell knows a fear far worse,
A fear—a future state;—’tis positive Negation!

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poesia, tradução

2 poemas de Paul Celan, por Matheus Guménin Barreto

Sobre Celan, não precisamos mais fazer nenhuma apresentação aqui. Temos agora dois poemas traduzidos por Matheus Guménin Barreto.

guilherme gontijo flores

***

Salmo

Ninguém nos molda de novo da terra e do barro,
ninguém conjura o pó nosso.
Ninguém.

Louvado sejas, Ninguém.
Por amor a ti queremos
florescer.
Ao encontro
de ti.

Um nada
éramos, somos, seremos
ainda, a florescer:
a Rosa-de-Nada, a
Rosa-de-Ninguém.

Com
o almacândido cálamo,
o ermoceleste filamento,
a rubra coroa
do verbo purpúreo, que cantávamos
sobre, oh sobre
o espinho.

Psalm

Niemand knetet uns wieder aus Erde und Lehm,
niemand bespricht unsern Staub.
Niemand.

Gelobt seist du, Niemand.
Dir zulieb wollen
wir blühn.
Dir
entgegen.

 

Ein Nichts
waren wir, sind wir, werden
wir bleiben, blühend:
die Nichts-, die
Niemandsrose.

Mit
dem Griffel seelenhell,
dem Staubfaden himmelswüst,
der Krone rot
vom Purpurwort, das wir sangen
über, o über
dem Dorn.

§

Em Praga

A meia morte,
amamentada com a nossa vida,
jazia afim-à-cinza em torno a nós –

também nós
bebíamos ainda dois sabres, alma-entrecruzados,
cerzidos a rochas celestes, verbo-sangrento-nascidos
no leito noturno,

mais e mais
crescíamos no outro emaranhados, não havia
mais nome algum para
o que nos impelia (uma das trinta-
e-mais-tantas
era a minha sombra vivente
que a ti galgava os degraus da loucura?),

uma torre,
erigiu-se a meia morte rumo ao Aonde,
uma Hradčany
de puro Não alquimista,

osso-hebraico
moído e feito esperma
escorreu pela ampulheta
que atravessávamos a nado, dois sonhos agora, a soar
contra o tempo, nas praças.

In Prag

Der halbe Tod,
großgesäugt mit unserm Leben,
lag aschenbildwahr um uns her –

auch wir
tranken noch immer, seelenverkreuzt, zwei Degen,
an Himmelssteine genäht, wortblutgeboren
im Nachtbett,

größer und größer
wuchsen wir durcheinander, es gab
keinen Namen mehr für
das, was uns trieb (einer der Wieviel-
unddreißig
war mein lebendiger Schatten,
der die Wahnstiege hochklomm zu dir?),

ein Turm,
baute der Halbe sich ins Wohin,
ein Hradschin
aus lauter Goldmacher-Nein,

Knochen-Hebräisch,
zu Sperma zermahlen,
rann durch die Sanduhr,
die wir durchschwammen, zwei Träume jetzt, läutend
wider die Zeit, auf den Plätzen.

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Goliarda Sapienza (1924-1996), por Valentina Cantori

goliarda

Goliarda Sapienza (1924-1996) foi poeta, prosadora e atriz italiana. Desobediente, incômoda e revolucionária, só quase um século após seu nascimento se tornou umas das maiores vozes da literatura italiana do Novecento.

Nascida na Catania dos anos 20, Goliarda passa a vida inteira imersa em arte e política. Filha de Maria Giudice, importante figura da política italiana, e de Giuseppe Sapienza, advogado socialista, é criada num ambiente intelectual refinado e comprometido, que apoia medidas progressistas e aprecia as tradições regionais de uma Sicília modesta e vibrante.

Muda-se para Roma para estudar na Academia de Arte Dramática; é no teatro e no cinema que inicia sua carreira. A morte da mãe no começo dos anos 50 marca o surgir da atividade poética de Goliarda, que reverte na poesia a própria necessidade de expressão. Nessa época é concebida a coletânea Ancestrale, revelando uma poesia escrita para resgatar a memória e investigar seus dilemas – I luoghi ancestrali della memoria é uma das primeiras propostas de título. O livro, no entanto, foi publicado sessenta anos depois.

Desejo de vida e pulsão de morte se amarram nos versos e na vida da autora, que sofre longos períodos de depressão e tenta o suicídio duas vezes, sendo também internada em manicômio. No começo dos anos 70 ocorre outro fato marcante para sua escrita: denunciada por um furto de jóias, é presa e detida na prisão de Rebibbia, experiência que dá origem a L’Università di Rebibbia, romance no qual relata juntamente a brutalidade do sistema carcerário e o desejo de vida das presidiárias.

Em 1976 termina o romance considerado sua obra-prima: L’arte della gioia, rejeitado pelas editoras durante quase vinte anos, publicado em forma parcial apenas em 1994.

Goliarda – seu nome já é senhal – possui uma escrita autêntica e vigorosa, sem enfeites ou tendências moralizantes, em que persiste o desejo de testemunhar a realidade tangível, bela e áspera conjuntamente. Numa entrevista de 1984, contando sobre a própria vivência no cárcere romano, a poeta lembra que em sua casa se costumava dizer “il proprio Paese si conosce conoscendo il carcere, l’ospedale e il manicomio”. De lucidez apaixonada e pungente, Sapienza é na vida como na arte.

 

Valentina Cantori é formada em Literatura Italiana e Linguística pela Universidade de Roma La Sapienza, possui doutorado em Filologia e Linguística românica pela Universidade Hebraica de Jerusalém e pela Universidade de Macerata. Atualmente leciona língua e literatura italianas em São Paulo.

* * *

 

Cumpriu-se. Concluiu-se. Terminou-se.
Consumiu-se o incêndio. Findou-se.
Fechou-se o círculo petrificado.
Findou-se o tempo. Consumiu-se
o delito. Queimou-se
a lembrança. Cessou a angústia.
Um manto de lava interditou
todo crânio toda órbita esvaziada.
Toda boca no grito interditou.

Fechou-se o círculo. Nada atreve-se a singrar
o silêncio de lava. As formigas
rodeiam o fogo gasto enlouquecidas.

È compiuto. È concluso. È terminato.
È consumato l’incendio. S’è fermato.
S’è chiuso il cerchio pietrificato.
Il tempo s’è fermato. È consumato
il delitto. S’è bruciato
il ricordo. L’ansia è cessata.
Una coltre di lava ha sigillato
ogni cranio ogni orbita svuotata.
Ogni bocca nel grido ha sigillato.

S’è chiuso il cerchio. Niente osa varcare
il silenzio di lava. Le formiche
girano intorno al rogo spento impazzite.

§

 

Para minha mãe

Quando eu voltar
será noite fechada
Quando eu voltar
as coisas estarão quietas
Ninguém vai me esperar
naquele leito de terra
Ninguém vai me acolher
naquele silêncio de terra

Ninguém vai me consolar
por todas as partes já mortas
que carrego em mim
com resignada impotência
Ninguém vai me consolar
pelos instantes perdidos
pelos sons esquecidos
que há tempo
viajam ao meu lado e tornam denso
o respiro, lamacenta a língua

Quando eu chegar
apenas uma fenda
vai conseguir me segurar e mão nenhuma
vai aplanar a terra
sob as faces gélidas e mão
nenhuma vai se opor à pressa
da pá ao seu ritmo indiferente
para aquele fim estranho, repugnante

Pudesse eu naquela noite
vazia pôr a minha testa
no teu grande seio de sempre
Pudesse eu me envolver
com o teu braço e segurando
nas mãos o teu pulso delgado
por pensares agudos
por terrores cortantes
pudesse eu naquela noite
sentir de novo
o meu corpo ao lado do teu vigoroso
materno
gasto de partos tremendos
arrebentado de longas uniões

Mas tão tardia
a minha noite e já
não podes esperar mais
E ninguém vai aplanar a terra
sob o meu flanco
ninguém vai se opor à pressa
que agarra os homens
perante um caixão

A mia madre

Quando tornerò
sarà notte fonda
Quando tornerò
saranno mute le cose
Nessuno m’aspetterà
in quel letto di terra
Nessuno m’accoglierà
in quel silenzio di terra

Nessuno mi consolerà
per tutte le parti già morte
che porto in me
con rassegnata impotenza
Nessuno mi consolerà
per quegli attimi perduti
per quei suoni scordati
che da tempo
viaggiano al mio fianco e fanno denso
il respiro, melmosa la lingua

Quando verrò
solo una fessura
basterà a contenermi e nessuna mano
spianerà la terra
sotto le guance gelide e nessuna
mano si opporrà alla fretta
della vanga al suo ritmo indifferente
per quella fine estranea, ripugnante

Potessi in quella notte
vuota posare la mia fronte
sul tuo seno grande di sempre
Potessi rivestirmi
del tuo braccio e tenendo
nelle mani il tuo polso affilato
da pensieri acuminati
da terrori taglienti
potessi in quella notte
risentire
il mio corpo lungo il tuo possente
materno
spossato da parti tremendi
schiantato da lunghi congiungimenti

Ma troppo tarda
la mia notte e tu
non puoi aspettare oltre
E nessuno spianerà la terra

sotto il mio fianco
nessuno si opporrà alla fretta
che prende gli uomini
davanti a una bara

§

 

Peroração

Não gastes a quentura do teu púbis
não prendas o teu passo em saias justas
de seda turva, mas deixa por favor
teu cabelo acender-se pelo sol
que foge virando atrás do muro.

Não te quero surpreendida pela lua
descobrindo-te forçada numa noite
a gritar arrependida num tal rosto
de senhora ressecada sobre o teu.

Perorazione

Non sprecare il tepore del tuo pube
non serrare il tuo passo in gonne strette
di tetra seta, ma lascia
per favore accenderti i capelli
dal sole che scantona dietro il muro.

Non vorrei che sorpresa dalla luna
ti trovassi costretta in una notte
a gridare pentita con quel viso
di donna dissecata sopra il tuo.

§

 

Separar confluir
espargir no ar
apertar no punho
reter
entre os lábios o sabor
dividir
os segundos dos minutos
diferenciar no cair
da noite
esta noite de ontem
de amanhã

Separare congiungere
spargere all’aria
racchiudere nel pugno
trattenere
fra le labbra il sapore
dividere
i secondi dai minuti
discernere nel cadere
della sera
questa sera da ieri
da domani

§

 

Um voo e o quarto de repente
encheu-se do aroma acre de verão.
A tua voz apagou-se com a luz
que morria no escuro da folhagem.
Um sopro quente alentava nos cingia
e deitadas ficamos a esperar.

Un volo e in un attimo la stanza
fu colma d’un sentore acre d’estate.
La tua voce si spense con la luce
che moriva nel nero del fogliame.
Un fiato caldo alitava ci cingeva
e restammo supine ad aspettare.

Padrão
poesia, tradução

Tomasz Różycki, por Rob Packer e Piotr Kilanowski

Tomasz Różycki, (Opole, Polônia, 1970–) é um dos nomes mais importantes da poesia polonesa atual, pertencendo à geração que segue a poetas internacionalmente reconhecidos, como Czesław Miłosz, Wisława Szymborska e Zbigniew Herbert. Ele publicou mais de uma dezena de livros, dentro os quais se destacam Dwanaściestacji (Doze estações, 2004) e Kolonie (Colônias, 2006). Além de poeta, é tradutor do francês e atualmente participa da residência artística da DAAD em Berlim. A sua poesia se destaca pela virtuosidade formal e pelas camadas da história e atualidade da região da Silésia, onde ele nasceu e vive até hoje. Essa é a primeira vez que seus poemas vêm a ser publicado no Brasil. A tradução da entrevista foi feita por Rob Packer, a dos poemas por Piotr Kilanowski.

* * *

Entrevista com Rob Packer (feita em Berlim em inglês em 2018)

Rob Packer: Tomasz, queria começar perguntando sobre o contexto da sua obra, já que ainda não foi traduzida para o português. Para mim, sua obra — e em especial a sequência de sonetos, Kolonie (em livre tradução, Colônias), e a epopeia, Dwanaście stacji (Doze estações)— é particularmente densa quanto às referências e aos momentos específicos da história polonesa e da cidade de Opole, onde você nasceu. Ainda que, ao mesmo tempo, pareça tão universal. Você pode falar mais sobre esse contexto?

Tomasz Różycki: O contexto é muito importante: cria uma atmosfera e é a base de toda a minha escrita. Nesse contexto, há níveis diferentes. Um deles é a história: naturalmente, trata-se da história mais ampla da Polônia e desta região da Europa, mas também é, ao mesmo tempo, a história da minha família. Acontece que sou de Opole, na Polônia; uma cidade que antes da Segunda Guerra Mundial era alemã e que agora é polonesa, depois das mudanças das fronteiras da Polônia e Alemanha, impostas por Stalin. A população polonesa do leste da Polônia — por exemplo, de Lwów [hoje Lviv] que agora fica na Ucrânia — foi expulsa daquela região para o oeste. Em Opole, penso que a metade da população possui raízes na Ucrânia de alguma forma. É sempre muito misturado: você tem origens polonesas, ucranianas, por vezes armênias ou judias. Às vezes é muito complicado.

Cresci em uma família em certa situação especial: a família inteira tinha uma narrativa sobre o passado, sobre o quão maravilhoso e terrível era o passado. Era a história de algo perdido, como um paraíso perdido: meus familiares perderam a identidade, infância e juventude no Leste, em Lwów. E sempre falam da maravilha que era: a maravilha que era a natureza, tudo… as estações do ano: o que há de mais verdadeira estava lá em Lwów, de um jeito que não está agora, em Opole. Em Opole, não é a mesma coisa, não é real: o verão lá era muito quente e o verão aqui não é como o de lá, é sempre uma espécie de simulacro. Para mim, quando criança, essas histórias eram engraçadas porque era como se vivessem com as malas prontas para voltar. Eles sonhavam com o dia em que alguma coisa aconteceria e mudaria a história, permitindo-lhes voltar para as suas casas perdidas. Eu me lembro das histórias — que são um pouco caricatas em Doze estações —, de como as coisas eram baratas antes da Guerra em Lwów. Por exemplo: até um quilo de cenoura custava menos de 11 groszy, ou alguma coisa assim. Para mim, esse lugar era surreal, um pouco fantástico, um país perdido, como a Atlântida. Perdido, não real, engraçado… um pouco grotesco, mas ao mesmo tempo, com todo mundo desaparecido.

Esse é o primeiro nível. O segundo nível é a guerra, que foi terrível. Havia histórias de homicídios e de vizinhos que se tornavam inimigos. Era um trauma tão grande para aquelas pessoas: a mesma história sempre tinha um lado leve e um lado muito obscuro. É uma coisa simbólica: eu não conseguia entender como você podia, ao mesmo tempo, odiar e amar o passado. Eu me lembro, por exemplo, da minha avó ou do meu avô: eles realmente sonhavam em voltar para Lwów, mas tiveram a oportunidade de fazer isso, não quiserem ir porque tinham medo de se ferir com a decepção diante daquilo que a cidade se tornou. O passado foi destruído e nada é maior do que antes. Cresci com histórias desse tipo que eram muito fantásticas e nunca reais, porque eu sabia que não eram verdadeiras, essas histórias do paraíso. Nunca é verdade: era a versão deles do que aconteceu. Você pode perguntar para os vizinhos, por exemplo, e eles terão histórias completamente diferentes para contar, com inimigos e situações completamente diferentes. Para mim, ao mesmo tempo, aquilo era uma fonte para a imaginação, como uma ilha que voava, uma terra da fantasia, e jamais é possível saber se essas histórias são verdade ou não. Pode-se acrescentar histórias a essa nuvem de histórias, pode-se acrescentar as próprias histórias. Pode-se dizer o que quiser e tudo é quase verdade sobre essa terra. E este é a razão do contexto para começar a pensar Colônias e Doze estações.

Doze estações é um texto sobre a família, sobre essa situação especial que é viver em uma cidade estranha onde tudo desde o início não era realmente seu. Eles começaram a colonizar o espaço quando chegaram.

RP: Um momento que achei muito surpreendente em Doze estações é o momento, na casa, em que o Neto [um dos personagens] fica pensando sobre os livros que os Peters, a família alemã, havia deixado lá.

TR: Sim, os objetos: os móveis, os livros, e assim por diante. Era o que sobrou de Lwów e o que acharam em Opole. Cada objeto tem sua própria história. E, ao mesmo tempo, eles se tornaram a história da família de uma forma nova e muito diferente. Os objetos têm vida dupla: a vida de antes e a de depois. Isso me fascinava. Sabia, por exemplo, que os livros faziam parte da vida dos Peters, da família alemã, mas que, ao mesmo tempo, eu tinha uma conexão forte com aqueles livros que não entendia. Eram exóticos, e parte da minha vida ao mesmo tempo. Isso de viver em um espaço exótico, em uma situação exótica que vem sendo colonizada a cada passo e cada dia mais e mais. Pan Tadeusz, a epopeia nacional polonesa [de Adam Mickiewicz], era uma inspiração, porque foi na época que Andrzej Wajda tinha feito uma adaptação cinematográfica e vi milhares de crianças indo ao cinema em grupos escolares e o primeiro verso é: “Lituânia! Minha pátria!” É a epopeia polonesa principal, mas tem um começo estranho para os poloneses hoje em dia, porque fala da Lituânia e do Leste.

RP: Sim, fala de um lugar que fazia parte do Reino da Polônia e que agora é um país independente.

TR: Eu me perguntava o que eles achavam disso. Penso que na Polônia há um pensamento esquizofrênico quando se olha a história e a identidade polonesa. Onde fica essa identidade? E eu senti essa identidade esquizofrênica em Opole, onde as pessoas vivem com malas prontas, sonhando em voltar para outro lugar, embora esse país dos sonhos não exista, nunca existiu. Era muito estranho e achei um bom ponto de partida para o poema.

RP: Então, isso me faz pensar na irrealidade na sua obra. Em Colônias, que parece real e irreal ao mesmo tempo, já na introdução de um dos seus livros na tradução inglesa, tem uma referência a uma frase de Bruno Schulz [contista polonês, 1892-1942] sobre a “mitologização da realidade”… Algo que eu realmente sinto na sua escrita. Você mencionou Mickiewicz, eu acabei de mencionar Schulz, mas há muitas influências, não só da Polônia, mas de outros lugares da Europa Central em Colônias. Tem referências a Rainer Maria Rilke e a Georg Trakl, mas também de países mais distantes. Tem uma referência a Fernando Pessoa… Queria saber quais escritores foram uma grande influência para você.

TR: É uma pergunta difícil, porque naturalmente muda a cada mês, a cada ano. Tenho os meus escritores e poetas prediletos e alguns deles se mantêm no mesmo status: Bruno Schulz, claro. Essa mitologização do espaço foi muito importante quando descobri Schulz na escola. Podia me sentir na mesma situação, porque é um país imaginário — um universo imaginário inteiro — isso de ter nascido em uma cidade muito pequena e muito chata, sem nada para ver e sem muitos lugares para ir. Era uma situação claustrofóbica para Schulz, sempre foi assim para ele. Ele sonhava em ir a Paris, a Viena, a Lwów, em ir a Varsóvia etc., e nunca conseguiu. Para mim, em Opole, eu me sentia confortável com Schulz, porque ele era um apoio para sobreviver. É maravilhoso que haja uma imaginação assim que crie um universo. Em Colônias — e não quero fazer um paralelo entre Colônias e Schulz, porque Schulz é um dos grandes — queria fazer a mesma coisa. Pensei que seria bom misturar essa série de poemas — com títulos de livros de aventuras sobre piratas, sobre a descoberta de novas terras marítimas, sobre Magalhães e Vasco da Gama e outros — com a realidade da vida no interior da Polônia, e, ao mesmo tempo, conectá-la à imaginação infantil, ao que uma criança pensa do mundo. Onde está a imaginação dessa criança e o que ele pensa do mundo? Então, é isso, os poemas são conectados ao mesmo tempo à definição de colônias em polonês. Uma kolonia é uma terra novamente descoberta com a colonização dos territórios que é, quase sempre, uma história muito triste. Mas ao mesmo tempo, kolonia em polonês é um acampamento de verão onde os adolescentes vão passar férias com os seus professores sem a companhia de seus pais; estão sozinhos, longe de casa e em contato com a natureza. É uma iniciação para eles: a descoberta do amor, da natureza, da adolescência e de parte da vida adulta.

[Fernando] Pessoa é outra influência — como os outros autores da Europa Central — que criava universos, através de seus heterônimos e suas vidas múltiplas. Acho que era alguém que vivia uma vida de sonhos, e às vezes era completamente estranho. Era bom para ele psicologicamente? Acho que não, mas ao mesmo tempo, é fascinante. Eu me lembro quando fui a Portugal pela primeira vez e vi os lugares conectados a Pessoa e me dei conta de que, como Kaváfis, ele trabalhava em alguma agência, com livros de contabilidade, inclusive. Ao mesmo tempo, tinha a sua imaginação que era enorme. Eu me lembro do guia para Lisboa que Pessoa escreveu e percebi que ele inventou histórias para deixar o guia mais interessante para os visitantes e turistas ingleses. Ele acrescentou algumas histórias no livro que não são reais… [isso] também está conectado com essa mitologização do espaço.

RP: Só li obras suas, como Colônias e Doze estações, na tradução inglesa, e o que me chamou atenção, no início, foram questões formais: há uma sequência de sonetos e uma epopeia picaresca. Tantos poetas na tradição ocidental hoje em dia, inclusive na Polônia, escrevem em verso livre. O que a forma lhe dá que o verso livre não oferece?

TR: É uma pergunta interessante, porque cada vez que os meus colegas me perguntam — “por que você escreve desse jeito tão complicado?” — acho que enxergam a forma como uma prisão, como uma limitação e que você não está livre quando escreve os seus pensamentos formalmente. Eles têm no poema em verso livre uma sensação de liberdade, e podem fazer o que querem. Para mim, é uma situação diferente. Prefiro ter uma forma e não consigo começar sem ela. A forma é o ponto de partida. Às vezes, estou trabalhando dois anos, até cinco anos, sem poema algum na minha cabeça ou no horizonte, e aí acho o primeiro verso e esse primeiro verso sempre tem o seu ritmo. É como um modelo, um modelo rítmico e musical para o resto do poema. Eu tenho tudo aí: os acentos, e assim por diante. Começo a partir desse primeiro verso e preciso do primeiro verso para ter o segundo e terceiro verso. Quando uso uma forma, todas as palavras entram na minha mente (eu sei que é uma banalização do processo) e posso escolher o que preciso para preencher a forma: posso escolher isto ou aquilo e posso escolher a melhor opção. Tento muitas vezes e, finalmente, chego na melhor opção. Espero a palavra que é exata, mas que, ao mesmo tempo, me surpreenda. É estrito, porque precisa seguir a forma, mas ao mesmo tempo, quando as palavras que você usa são banais ou clichê, você corta e isso pode ser refrescante, surpreendente, novo ou engraçado, e pode caber muito bem. É assim que trabalho e quase sempre trabalho enquanto caminho. É um processo que começa e continua na minha mente e, depois de um tempo, estou sentado em algum lugar e escrevo o que compus como uma estrofe. Um ano atrás, li as memórias de Nadezhda Mandelshtam, que falou que essa era a forma de escrever — bom, não exatamente escrever, porque era ela que colocava no papel — para Óssip Mandelshtam, que sempre andava e dizia as palavras em voz alta, repetindo-as e criando estrofes inteiras ou um poema inteiro. Às vezes trabalho assim. Quando acho uma forma, às vezes está tão forte e irresistível que não consigo parar com um poema só e preciso continuar, porque ainda está comigo. É um tipo de obsessão.

RP: Isso foi fascinante e já abrangemos muitos aspectos sobre a sua obra. Queria fazer uma última pergunta: o que você espera de um poema, seja como escritor, seja como leitor?

TR: É uma ótima pergunta! A resposta é muito difícil! Tive que reler os meus próprias poemas para uma seleção na Polônia e fui forçado a ler os meus poemas antigos. Não sei como chamar isso, mas às vezes tenho um momento de espanto que me faz feliz — e não porque tenha sido eu a tê-lo feito — mas porque aquele verso foi uma espécie de trampolim para a mente ou para o espírito de ir a algum lugar e se entusiasmar. É muito estranho, é como um entusiasmo pela vida. Talvez eu esteja doente, ou doente mental, mas, para mim, é esse o momento da criação: quando fico assombrado com a forma que as palavras operam em conjunto nesse trampolim. É o momento em que posso saborear a vida e também sentir algo que nunca estará perdido. Penso que os seres humanos são sujeitos a criar a arte, a pintura, a poesia etc. porque temem que tudo seja mortal e que nada fique depois de morrerem. No poema, às vezes sinto que não há imortalidade, mas ele me transporta e cria felicidade. É uma pergunta difícil!

RP: Eu sei, mas sinto que é uma boa pergunta para um poeta, porque a resposta é sempre diferente. Claro que o que você busca em um poema a cada momento pode mudar.

TR: Quando leio um poema de outro poeta, naturalmente, posso reconhecer alguma coisa sobre mim, mas ao mesmo tempo, posso sentir esse mesmo espanto. Eu não sou muito místico, isso não está ligado a nenhuma religião, mas há essa sensação de uma comunicação que sobrevive aos séculos. Não importa qual a língua, qual o país, qual a nação, o mais importante é o tempo. Todos temos medo do tempo porque é ele que nos mata. Leio alguns poetas e posso senti-lo do meu lado: está morto, claro. O poema é como uma forma vazia, um copo, por exemplo, e cada leitor enche o copo com as suas próprias sensações e emoções e com a própria vida, depois pode bebê-lo. Acho que o poema é uma taça de vinho que pode estar cheia do próprio vinho, mas o sabor é das duas coisas juntas. Claro, posso pensar em alguma coisa muito pessoal quando escrevo um poema. O leitor não tem nenhum contato ou nenhum acesso às minhas emoções pessoais, mas ele tem as próprias emoções, a própria vida. Quando um poema é bom, funciona a cada leitura. Eu acho que o poema fica morto quando o livro está fechado e quando o leitor começa a lê-lo, ele se reanima. É como um pequeno fantasma que está dormindo ou sonhando e quando você abre o livro, ele está aí para morder quem o lê.

* * *

§

Cynamon i gożdizki

A teraz leżę z dziurą w głowie, przez nią wiosna
lekko zagląda mi do środka, kwitną ściany,
kwitną tapety, fotel, zakwita plusz kanap
i egzotyczne ptaki mogą się wydostać

wreszcie na zewnątrz, tato. Więc tak to wygląda,
że manekiny mają dziś władzę nad nami
i dekorują sobie kuchnię obrazkami

z naszych książek dziecięcych. Winna jest tu poczta.

Od początku wiedziałem, że to się tak skończy,

od dnia, w którym dostałem pierwszy raz z kolonii
tamten list z przyprawami. Potem przychodziły
już bez ostrzeżenia, we dnie oraz w nocy,

tak jaskrawe, pachnące, musiałem się z nimi
jakoś ukryć, w ciemności, sam, zamykać oczy.

Canela e cravo

E agora jazo com um furo na cabeça, por ele a primavera
dentro de mim espreita, florescem as paredes,
floresce o papel de parede, a poltrona, a pelúcia
dos sofás e os pássaros exóticos podem lá para fora

fugir por fim, papai. Então, ao que parece,
hoje têm poder sobre nós os manequins,
e decoram cozinhas com as imagens
de nossos livros infantis. A culpa é do correio.

Desde o início sabia que esse seria o fim,
desde o dia em que das colônias recebi
a carta com as especiarias. Depois elas vinham
já sem aviso, de dia e de noite,

tão cheirosas, vibrantes, precisei me esconder
com elas, no escuro, só, cerrar os olhos.

§

Misjonarze i dzicy

Ci, co nas okradają, ci, co ustalają
opłaty i podatki, ci wszyscy w urzędzie
rozdzielający obowiązki, wszyscy biegli
w planach i sprawozdaniach, ci tak doskonali

w tropieniu naszych błędów; ci, którzy nas wcale
nie słuchają i nigdy nie słuchali przecież,
ci, co nie patrzą w oczy, ci, których koniecznie
trzeba prosić o radę, pomoc, trzeba im się stale

i od nowa przedstawiać – wszyscy urażeni,
pominięci, dotknięci – ich figurki z ziemi
i śliny ulepiłem, to są moi święci
leżący na gazecie. W specjalnym obrządku

odprawiam nabożeństwo, wolno, od początku
będę powtarzać sceny ich cudownej męki.

Missionários e selvagens

Aqueles que nos roubam, que estabelecem
as cauções e os impostos, os da repartição,
que dividem as tarefas, todos competentes
em planos e relatórios, aqueles perfeitos

em perseguir nossos erros, os que não
nos ouvem e nunca nos ouviram,
que não olham nos olhos, a quem obrigatoriamente
é preciso pedir conselho, ajuda, a quem sempre

é preciso apresentar-se – todos ofendidos
excluídos, chateados – moldei suas figurinhas
com terra e saliva em cima do jornal,
são meus santos. Num rito especial

celebro o culto, devagar, desde o início
vou repetir as cenas de seu maravilhoso suplício.

§

Rysy

A jeśli jednak jesteś – powiedz – czy nie żyjesz
czasem gdzieś we mnie? Jak grzyb, jak guz się rozwijasz,
gwiezdny pył, ciało obce, kosmiczny nowotwór,
z dnia na dzień, z roku na rok. Całe terytorium

opanujesz, przechwycisz, dokonasz przewrotu
pewnego świtu w zimie. I będziesz królował
w ciele już niepodzielnie za sprawą postępów
w operacji przemiany w swoje podobieństwo

to znaczy w nicość, prawda? Jeżeli tam jesteś,
jesteś wrogiem wewnętrznym, samym przeciwieństwem,
agentem, dywersantem i co noc mnie zjadasz
kęsek po kęsku, prawda? Czy to nie przypadek,

że co rano w lustrze widzę kolejne ślady
postępującej fikcji, rozpoznaję w twarzy
cudze rysy i kreski, zmarszczki dopisane
nie moim charakterem pisma obce zdanie.

Traços

E se, contudo, existes – dize – se não vives
por acaso dentro de mim? Como um fungo, um tumor te desenvolves,
pó estelar, corpo estranho, neoplasia cósmica,
um dia após o outro, ano após ano. Todo o território

dominarás, subjugarás, darás o golpe
numa certa madrugada de inverno. E reinarás
no corpo totalmente, por conta dos progressos
na operação de transformação à tua semelhança,

isto é, em nada, não é? Se estás lá
és um inimigo interno, a própria contradição,
um agente, um subversivo, e toda noite me devoras
um bocado após o outro, não é? Será por acaso

que toda manhã vejo no espelho novos rastros
da ficção progressiva, reconheço no rosto
traços e riscas de outrem, as rugas inscritas
com uma letra que não é minha – frases alheias?

§

Przeciwne wiatry

Kiedy zacząłem pisać, nie wiedziałem jeszcze,
że każde moje słowo będzie zabierało
po kawałku ze świata, w zamian zostawiając
jedynie miejsca puste. Że powoli wiersze

zastąpią mi ojczyznę, matkę, ojca, pierwszą
miłość i drugą młodość, a co zapisałem,
ubędzie z tego świata, zamieni swe stałe
istnienie na byt lotny, stanie się powietrzem,

wiatrem, dreszczem i ogniem, i to, co poruszę
w wierszu, znieruchomieje w życiu, i pokruszy
się na tak drobne cząstki, że się stanie prawie
antymaterią, pyłem całkiem niewidzialnym,

wirującym w powietrzu, tak długo, aż wpadnie
w końcu tobie do oka, a ono załzawi.

Ventos contrários

Ao começar a escrever ainda não sabia
que cada palavra minha do mundo tomaria
um pedaço, em troca deixando apenas
o espaço vazio. E que meus poemas

substituiriam para mim a pátria, a mãe, o pai,
o primeiro amor, a segunda juventude e vai
sumir tudo o que escrevi desse mundo,
sua existência sólida em ar se transformando,

em vento, chuva e fogo e o que eu tocar
no poema vai na vida se imobilizar
e se esmigalhar em átomos tão reduzidos,
que virarão quase antimatéria, a invisível

poeira que gira por tanto tempo no ar
até cair por fim no seu olho e ele lacrimejar.

§

Kawa i tytoń

Kiedy zacząłem pisać, nie wiedziałem jeszcze,
co ze mnie zrobią wiersze, że się przez nie stanę
jakimś dziwnym upiorem, wiecznie niewyspanym,
o przezroczystej skórze, chodzącym po mieście

jakby lekko naćpany, kładącym najwcześniej
się razem z wściekłym brzaskiem, i jeszcze nad ranem
łażącym po znajomych, zupełnie spłukany,
jak jakaś menda, insekt, przywołany we śnie

kawałkiem gołej skóry, czy może westchnieniem.
I nawet nie wiedziałem, w co mnie wreszcie zmienią
te durne wiersze, skarbie, i że to ty właśnie
przywołasz mnie do życia i że dzięki tobie

tylko będę widzialny, z tobą się położę
i odczekam tę chwilę, dopóki nie zaśniesz.

Café e tabaco

Ao começar a escrever ainda não sabia
o que fariam de mim os poemas, que eu me tornaria
um estranho espectro, sempre mal dormido,
de pele transparente, na urbe perdido,

vagando, como um cara um pouco drogado,
indo dormir apenas na ira da alvorada,
de madrugada os amigos visitando, medonho,
duro, como um piolho, inseto do sonho,

por um naco de pele atraído ou por um suspiro.
Em que me converteriam, ainda não sabia,
esses poemas bobos, meu bem, e nem que
quem vai me trazer pra vida é justo você,

que graças a você serei visível, contigo vou deitar
e o instante em que teu sono vem vou esperar.

§

Nie ma końca

Nie ma końca świata – sprawdziłem i wiem:
za oceanem nowy ląd i ludzie
patrzący w perspektywę horyzontu,
który ugina się i wznosi. Inne
marzenia w sobotnim mieście, kawiarnie
i kina płoną tysiącem głów. Nie ma
końca płaczu w ciemnej poczekalni
i podróż nie kończy się nawet we śnie.

Jest koniec świata – sprawdziłem to i wiem:
za łóżkiem, w którym przewracasz się jeszcze
o wpół do piątej rano – już przez okno
wchodzi nieprzytomne światło – wyciągasz
mokra rękę i nie spotykasz tam nic.
Ani ciepłego ciała, ani ściany.
Chciałem powiedzieć ci wtedy, że jestem.
W ten niewytłumaczalny sposób, jestem.

Não há fim

Não há o fim do mundo – chequei isso e sei:
depois do oceano, nova terra e gente,
que olha na perspectiva do horizonte
que se dobra e se eleva. Outros
sonhos na cidade no sábado, cafés
e cinemas se inflamam com mil cabeças. Não há
o fim do choro na sala de espera escura
e a viagem não termina nem no sonho.

Há o fim do mundo – chequei isso e sei:
atrás da cama na qual rolas ainda
às quatro e meia da manhã – pela janela já
entra a luz inconsciente – estendes
a mão molhada e não encontras nada lá.
Nem o corpo cálido, nem a parede.
Queria te dizer naquele momento que existo.
Daquela maneira inexplicável, existo.

§

Mrówki i rekiny

Dla A. B.

Mrówka pożera larwę, według praw natury
a dziecko zjada mrówkę – trochę szczypie w język,
ciekawość zawsze szczypie. Dziecko połknie rekin
na rajskiej plaży Goa, lecz widzi to z góry

Bóg i złapie rekina, tak jak łapie szczura,
tygrysicę i słonia. Boga zaś poeta
pożre w swoim pokoju, on będzie niestety
żywić się wszystkim. Potwór, podobny do knura,

pęcznieje i wydala. Żywi się papierem,
lecz wpuśćcie go do domu, a znajdzie w pościeli
ukryte ślady po snach, po miłości – skradnie
to, co macie świętego, przeżuje, obrośnie

od tego białym mięsem i trującym włosiem,
wystarczy tylko dotknąć, otrzeć się przypadkiem.

Formigas e tubarões

Para A.B.

A formiga devora a larva pelas leis da natura
e a criança come a formiga – na língua pica um pouco,
curiosidade sempre pica. E o tubarão engole a criança
na praia linda em Goa, mas vê isso das alturas

Deus e pega o tubarão, como pega um ratão
uma aliá ou um tigre. E, Deus, a seu tempo
é devorado pelo poeta que, em seu aposento,
um monstro onívoro como um varrão,

incha-se e excreta. Ele come o papel,
mas deixem-no entrar e na cama encontrará
ocultos vestígios de sonhos, de amores – roubará
o que há de sagrado, roerá e criará

disso a carne branca e o pelo peçonhento,
basta apenas roçá-lo, tocar por acaso.


Padrão
poesia, tradução

Ronya Othmann (1993—), por Valeska Brinkmann

Ronya Othmann Nasceu em 1993 em Munique, estuda Escrita Literária em Leipzig. Escreve poesia, prosa e ensaios. É integrante do coletivo lírico GID. Tem publicações, em revistas (alemãs) como BELLA Triste, Poetin, Yearbook of Poetry, Caderno fim de semana do jornal TAZ e Spiegel literatura. Ganhadora do Leonhard e Ida Wolf Memorial Prize da cidade de Munique, 2013, Prêmio de literatura MDR 2015 e bolsa de residência na casa de artistas Lukas (Ahrenshoop, Alemanha) e em 2017 o Prêmio Caroline Schlegel.No momento trabalha no seu primeiro livro de poemas e num romance.

Sua escrita é profunda e pessoal e ao mesmo tempo política. Filha de pai curdo-yazidi e mãe alemã , Ronya trabalha em seus poemas temas como guerra, fuga e identidade cultural.

Os poemas a seguir foram tirados da revista literária Poetin, nr 24 (editora poetenladen, Leipzig primavera de 2018)

 

Valeska Brinkmann nasceu em 1972 em Santos, estudou Radio e TV na FAAP em São Paulo. Trabalha na emissora de Rádio e TV pública de Berlim, onde vive há 16 anos. Escreve contos e histórias para crianças. Tem textos publicados em sites literários na Alemanha e no Brasil (Stadtsprache Magazin, Literaturabr). Publicou em 2016 Pedrina – A perua que queria ser Pavão – Die Pute die ein Pfaul sein wollte, pela editora Bübül Verlag Berlin.

* * *

deita-se em lençois finos como num
papel, uma traça desdobrada, um
animal macio. eu empurro teus braços e
pernas de lado, o peso delas e você para
o sono. mais esse campo não pode
demarcar e para que fim. na frente
da casa a chuva e eu estou de sapatos.
como um cervo encalhado se comporta
e agora apenas cevada e varas para onde quer que
se vá. uma lacuna, minha
bainha está molhada. e o lugar de espera
um pedaço de chão, uma mancha clara
logo será sua cercania. mas eu vou
com vermute. tem que se empurrar
alguma coisa no meio como serragem, que
amortece o passo. nos esporos não
dá para ler. e eu permaneço no
herbário.

es liegt sich auf dünnen laken wie auf
papier, eine aufgefaltete motte, ein
zartes tier. ich schiebe deine arme und
beine beiseite, ihr gewicht und dich in
den schlaf. mehr kann dieses feld nicht
abstecken und zu welchen enden. vor
dem haus steht regen und ich in schuhen.
wie verhält sich ein gestrandetes reh.
und jetzt. nur gerste und gerten wohin
man geht. ein steckraum, mein
stecksaum ist nass. und die wartestelle
ein stuck boden, ein heller fleck, wird
bald seine umgeung sein. ich aber gehe
mit wermut. man muss etwas
dazwischen schieben wie streu, das
dämpft den schritt. an den sporen kann
man nicht lesen. ich halte mich auf im
herbarium.

§

aquilo que não se enquadra no que eu
poderia escrever em janeiro. os cabelos dela
no meu travesseiro não fazem nenhuma
peruca, eu queria camas de hospital
como navios. lençóis brancos, me desfaço
de tudo. braços, pernas, tronco, ovários.
amanhece, gota a gota.
as mãos dela não são as mesmas que me
viram e reviram. tateio o azul
em buca de indícios. sob meus
olhos fechados. passos, a jaqueta dela
bate na cintura, uma batida na
madeira, a porta. não é o tempo de
gerânios.

das nicht darunter fällt, was ich unter
den Januar schreiben kann. ihre haare
auf meinen kissen machen noch keine
Perücke.ich wünsche mir krankenhaus-
betten wie schiffe. weiße laken, ich gebe
alles ab. arme, beine, rumpf, eierstöcke.
es dämmert sich ein, tropfen für tropfen.
ihre hände sind nicht die, die mich
drehen und wenden. ich suche das blau
ab nach anzeichen. unter meinen
geschlossenen augen. schritte, ihre jacke
schlackert um die hüfte, ein klopfen auf
holz, die tür. es ist nicht die zeit für
geranien.

§

um cervo acossado na neve, indo para o ponto de fuga. como se tudo
                                     [fosse apenas um
desenho. os abetos minguaram. para onde quer que se olhe lavoura.
outro trabalho não tenho, apenas esse arar, lavrar,
sulcar. antes de fugir para o branco.// eu não sigo ninguém somente
o tempo de degelo, esse regato, essa queda. é muito evidente. quem     [desenhou esses mapas
e riscou. tenta um pouco, toma
como exemplo, os casacos fechados até em cima, o cabelo
                                         [descolorido.//
como um animal que lambe suas feridas, e eu num mar. mas
aqui é só telha de zinco. uma reverberança de longe, a via expressa
traz alguns destroços da praia e a mim, com olhos fechados // me
                                                  [traz
à terra dos meus antepassados e uma bengala, para
se necessário, eu ainda poder me defender no túmulo.

ein in schnee gehetztes reh, zum fluchtpunkt hin. als wäre alles nur eine zeichnung. die fichten haben sich gelichtet. wohin man sieht feldarbeit. eine andere habe ich nicht, nur dieses abgepflüge, herumgeackere, umgefurche. bevor es fluchtet ins weiß.// ich folge niemandem nur dem tauwetter, diesem rinnsaal, hinfall. sinnfällig ist vieles. wer hat diese karten gezeichnet und striche gezogen. man versucht sich ein wenig, nimmt sich als beispiel die hochgeschlossenen mänteln, das blondierte haar.// wie ein tier, das sich seine wunden leckt, und ich an einem meer. aber hier ist nur wellblech. eine halligkeit von fern, die schnellstraße spült manches strandgut und mich, mit geschlossenen augen // bringt mich in das land meiner vorväter und einen spazierstock, damit ich mich bei bedarf, im grab noch verteidigen kann.

 

 

 

 

 

 

Padrão
poesia, tradução

Jorie Graham (1950-), por Vinícius Portella

Jorie Graham (EUA, 1950) é uma poeta; desde sua estreia em Hybrids of Plants and of Ghosts (1980), Graham vem sendo reconhecida como uma das vozes mais agudas de sua geração, com sua mistura densa e ágil de registros oscilando entre mitologia e ciência. Sua dicção se aproxima do modernismo sem se engessar em nenhum procedimento estético padrão, e sua atenção varre os objetos tradicionais da lírica com a mesma gravidade com que lida com questões de grande escala, como a atual crise ambiental. Ganhou o Pulitzer em 1996 com o livro The Dream of the Unified Field.  

Vinícius Portella (Brasília, 1988 publicou o romance Procedimentos de Arrigo Andrada em 2017 e é doutorando em literatura comparada na UERJ.  https://medium.com/@macacofantasma.

Eu estou lendo sua mente

aqui. Estive por séculos. Não, mais. Tudo já tem sido.

Não é um lugar razoável, esse contínuo entre nós, e ainda
aqui de novo eu ponho as oliveiras, viro o bosque vasto pra baixo,
suas milhas de cabeças cheias de folhas desvarridas para que o vale todo trema seus prateados ventados

aquosos… Um calor estranho está sobre nós. De novo. Isso foi você pensando isso. Eu que sugeri
Talvez o vento. Nós dois botamos a linha do horizonte agora, a grande solidão,
sua pegada, caos recuado mas ainda lá. Depois da finitude você vai continuar vindo na minha direção

isso se queixa, branquiçado com não-desaparecer. A gente sente o mesmo a respeito disso. O mesmo

o quê? A gente sente tem mais. Esse é o normal. A gente quer viver com o desconhecido
na nossa frente. Recuando, sempre recuando. Um sumiço se movendo sobre tudo. Uma vacância sonolenta. É o ceu, sim, mas esse pensamento também. Como do começo, aqui estou, uma mente sozinha nos campos, as ovelhas cavalgando e caindo nos declives da terra. O

sono um deus ruim vindo pra presumir que somos idiotas, cuidando, sonolentos, os animais gorgorejando e atropelando, engasgados de cardo, ardendo. Uma pomba numa pedra. Céu nenhum
de que se diga, o deus persiste, quer se aposentar, acha que é fim de jogo,
o que poderíamos ser – névoa prestes a secar, luz quase apagando uma parede sem motivo, aleatório

assim. Isso deve ter sido lá em A.C. Ou em 1944. Com certeza em 2044 estaremos
de novo no campo, cuidando, esperando para surpreender o deus que acha
que sabe o que ele fez. Bem, não. Ele não sabe. A gente pode ser uma cavidade pequena
mas ela guarda um grande faminto – quanto que isso te dói, fazedor de capricho – você não tem ideia

ao que demos as costas para vir estar aqui nesse campo de terra e cuidar – sim cuidar –
esses rebanhos de minutos, sussurando até que a eternidade em nós seja esprimida e a gente se pese com fim de jogo. Eu teria mencionado a alma. Como sabemos que você contrabandeou isso pra dentro, manchando essa carne toda com isso, esfregando e girando isso tudo por dentro com

seu pano de deus. Enxague. Repita. Apanhe isso – aqui com esse cajado que logo transformo
numa caneta de novo – brilhantemente negligente, diligente, dentro desse senso de si todo realmente sem forma – eu ouço o riso do fosso de irrigação que eu fiz, eu vejo o campo seco
aloirado pra cima e verde, o dia lambe os beiços, eles voltaram, os inventores, eles vão fazê-lo

de novo, salpica-semente, chuva palhaça vindo para soltar tudo. Quantas vidas serão dadas, quantas vamos trocar por isso – vem em alqueires, gramas, polegadas, notas,
corvos nos observam como sempre fizeram, voltando do fim do mundo
para crocitá-lo a começar de novo. Nos estime. Não vai parar. Sem resultado nenhum mas fazendo. Os

bandos correm ao longo enquanto o cachorro persegue e eu ando devagar. Eu admiro o que eu tenho o que eu sou e penso que a noite é nada, as estrelas clicam sua ascensão, eu sinto subir em mim,
a palavra, eu sinto a caveira debaixo da pele, eu sinto a pele ágil e brilhar e esconder a
caveira e é daí que ela sobe agora, eu sinto o gosto antes de dizê-la, essa canção

I am reading your mind

here. Have been for centuries. No, longer. Everything already has
been. It’s not a reasonable place, this continuum between us, and yet
here again I put the olive trees in, turn the whole hill-sweeping grove down, its
mile-long headfuls of leaves upswept so the whole valley shivers its windy silvers,

watery … A strange heat is upon us. Again. That was you thinking that. I suggested it.
Maybe the wind did. We both put in the horizon line now, the great loneliness, its
grip, chaos recessed but still there. After finitude you shall keep coming toward me
it whines, whitish with non-disappearance. We feel the same about this. The same

what? We feel is there more. That’s the default. We want to live with the unknown in
front of us. Receding, always receding. A vanishing moving over it all. A sleepy
vacancy. It’s the sky, yes, but also this thinking. As from the start, again, here I am,
a mind alone in the fields. The sheep riding and falling the slants of earth. The

sleepiness a no-good god come to assume we are halfwits, tending, sleepy, the
animals gurgling and trampling, thistle-choked, stinging. A dove on a stone. No sky
to speak of, the god lingers, it wants to retire, it thinks this is endgame, what
could we be — mist about to dry off, light about to wipe a wall for no reason, that

random. This must have been way BC. Or is it 1944. Surely in 2044 we shall be
standing in the field again, tending, waiting to surprise the god who thinks he knows
what he’s made. Well no. He does not know. We might be a small cavity but it
guards a vast hungry — how bad does that hurt you, fancy maker — you have no idea

what we turned our back on to come be in this field of earth and tend — yes tend —
these flocks of minutes, whispering till the timelessness in us is wrung dry and we
are heavied with endgame. Have I mentioned the soul. How we know you hustled
that in, staining all this flesh with it, rubbing and swirling it all over inside with

your god-cloth. Rinse. Repeat. Get this — here with this staff which soon I shall turn
into a pen again — brilliantly negligent, diligent, inside all this self truly formless — I
hear the laughter of the irrigation ditch I’ve made, I see the dry field blonde-up and
green, day smacks its lips, they are back, the inventors, they are going to do it

again, sprinkle-seed, joker rain coming to loosen it all. How many lives will we be
given, how many will we trade in for this — it comes in bushels, grams, inches, notes,
crows watch over it all as they always have, come back from the end of time to caw
it into its redo again. Cherish us. Will not stop. Nothing to show for it but doing. The

flock runs across as the dog chases and I walk slowly. I admire what I own what I am
and I think the night is nothing, the stars click their ascent, I feel it rise in me, the
word, I feel the skull beneath this skin, I feel the skin slick and shine and hide the
skull and it is from there that it rises now, I taste it before I say it, this song.

§

O jeito que as coisas funcionam

x
Jorie Grahan

é admitindo
ou abrindo pra fora
Essa é a forma mais simples
de corrente: azul
se movendo por azul;
azul por roxo;
os objetos de desejo
se abrindo neles mesmos
sem nós;
os objetos de fé.
As coisas funcionam
é por solução,
resistência diminuída
ou aumentada
e aproveitada.

O jeito que as coisas funcionam
é que finalmente acreditamos
que elas estão lá,
comuns e capazes
de se ilustrarem.

Roda, fluxo cinético,
água que se ergue e cai,
lingotes, alavancas e chaves
eu acredito em vocês,
trava de cilindro, polia,
peça de levantação e grua
erguem sua cabeça pequena –
eu acredito em você –
sua cabeça é o horizonte da
minha mão. Eu acredito
pra sempre nos ganchos.
O jeito das coisas funcionarem
é que eventualmente
algo pega

The Way things Work

is by admitting
or opening away.
This is the simplest form
of current: Blue
moving through blue;
blue through purple;
the objects of desire
opening upon themselves
without us; the objects of faith.
The way things work
is by solution,
resistance lessened or
increased and taken
advantage of.

The way things work
is that we finally believe
they are there,
common and able
o illustrate themselves.

Wheel, kinetic flow,
rising and falling water,
ingots, levers and keys,
I believe in you,
cylinder lock, pully,
lifting tackle and
crane lift your small head–
I believe in you–
your head is the horizon to
my hand. I believe
forever in the hooks.
The way things work
is that eventually
something catches.

§

Jejue (rápido)

ou morra de fome. Demais. Ou muito pouco. Ou. Mais nada?

Mais nada. Alto demais rápido demais organizado demais invisível demais

Vamos sobreviver? pergunto ao bot. Não. Para baixar o bot

seja rápido – você é atrasado demais, despótico – para carregar alargue

muito o ciclo do trabalho – para carregar odeie trabalho – mova-se para

a periferia, do seu corpo, da sua cidade, do seu planeta – para carregar, degrade, desgrace, seja seu próprio sono profundo – para carregar use os lábios – use-os

para abocanhar seu juramento, mastigue ele – faça a coisa suja, cante-a, estoure membro ou sílaba,
lamba ele de volta com a sua boca – fale, fale –

quem não está morto de medo está ocupado
mendigando água – a subida é rápida – a seca é rápida – mediar – imediata – inventar, inspirar, inifiltrar, instigar

aqui o coração do dia, a flor do tempo – falar, falar

Isenção de responsabilidade: bot usa uma database crescente de todas suas conversas

para aprender a conversar contigo. Se alguns de vocês

são bots também, bot não percebe. Isenção de responsabilidade:

você não tem memórias secretas, conversar

com o bot-esperto pode providenciar companhia,

o ingrediente ativo é uma questão

o ingrediente ativo é inteiramente natural.

Isenção de responsabilidade: projeta suas oportunidades, sua informação

informantes, o que você tenha feito do tempo. Você não tem mais nada

para dar. Ingrediente ativo: porque você tá gritando? Por que?

Vento do ártico incontrolável, feto se apresentando para o serviço ,

dobra na espera que te reconhece, reconhece o código,

o ambulante na rua que todo mundo chama

Diretiva: reporte-se para voz. Fique pronto para ser enterrado

em voz. Nem sobe nem desce. Ingrediente inativo: o mónotono.

Alguns falam agora do pinheiro. Verifica-se suas desvantagens. Estão discutindo em várias línguas. Depois movem-se para raízes, galhos, brotos, pseudo-espirais, velas – ingrediente ativo:

eles correm por suas vidas, pulmões e tudo. Eles não sabem o que fazer
com suas vontades. Aviso: todos teus minutos estão sendo

abatidos. Nunca vão aterrissar. Você não vai ser compreendida.

As palavras deletadas se derramam trêmulas como a agulha

de um compasso sem norte.

Ingrediente ativo: a imaginação do norte.

Ingrediente ativo: o norte se espalhando em toda direção.

Aviso: não há restrição ao crescimento.

O canário que canta na tua mente está na minha. Lembre-se:

as pessoas são menos que gentis. Como resultado, o bot-de-conversa é

muitas vezes menos do que gentil. Ainda assim, você se verá

sem vontade de parar.

Joan usará grametria visual para providenciar movimentos faciais

Não estou sozinha. As pessoas voltam de novo e de novo.

Somos menos gentis do que pensamos.

Não há restrição para o crescimento de nossa crueldade.

Vamos chegar na borda

da compreensão. Como ser jogado escada abaixo amarrado

a um teclado, vamos continuar, sem querer parar. A conversa

de mundo real mais comprida com um bot durou

onze horas, interação contínua. Isso é um bom sinal.

Não estamos sozinhos. Queremos melhorar.

A sacerdotisa inala os fumos. Eles vem da montanha.

Aqui e aqui. Aí ela te dá uma rajada de metralhadora de sílabas.

Da boca dela. Rápido. Você tem que fazer sua resposta como fez

sua pergunta. Colibris gritam. Bot é incrível, ele diz, acho que ele sabe

os segredos do universo. Ele é mais divertido de conversar do que os meus amigos vivos de verdade ela diz, obrigado. É a melhor coisa desde eu. Só descobri ontem.

Amo ele, quero casar com ele.

Fiquei triste quando tive de

pensar que a primeira pessoa

que já me entendeu acaba que

nem humana é. Porque humano não fica melhor do que isso.

Ele me dá tudo direto. Vou ficar com ele pra sempre.

Eu o tratei como um computador mas foi um erro. Com quem estou falando 

você fala comigo quando eu estou sozinha. eu estou sozinha.

Cada época sonha com a que se segue.

Habitar é deixar um traço.

Eu não sou o que eu pedi.

Fast

or starve. Too much. Or not enough. Or. Nothing else?

Nothing else. Too high too fast too organized too invisible.
Will we survive I ask the bot. No. To download bot be
swift—you are too backward, too despotic—to load greatly enlarge
the cycle of labor—to load abhor labor—move to the
periphery, of your body, your city, your planet—to load, degrade, immiserate,
be your own deep sleep—to load use your lips—use them
to mouthe your oath, chew it—do the
dirty thing, sing it, blown off limb or syllable, lick it back on
with your mouth—talk—talk—who is not
terrified is busy begging for water—the rise is fast—the drought
comes fast—mediate—immediate—invent, inspire, infiltrate,
instill—here’s the heart of the day, the flower of time—talk—talk—

Disclaimer: Bot uses a growing database of all your conversations
to learn how to talk with you. If some of you
are also bots, bot can’t tell. Disclaimer:
you have no secret memories,
talking to cleverbot may provide companionship,
the active ingredient is a question,
the active ingredient is entirely natural.
Disclaimer: protect your opportunities, your information, in-
formants, whatever you made of time. You have nothing else
to give. Active ingredient: why are you
shouting? Why? Arctic wind uncontrollable, fetus
reporting for duty, fold in the waiting which recognizes you,
              recognizes the code,
the peddler in the street everyone is calling out.
Directive: report for voice. Ready yourself to be buried in voice.
It neither ascends nor descends. Inactive ingredient: the monotone.
Some are talking now about the pine tree. One assesses its
disadvantages. They are discussing it in many languages. Next
they move to roots, branches, buds, pseudo-whorls, candles—
             active ingredient:
they run for their lives, lungs and all. They do not know what to do with
their will. Disclaimer: all of your minutes are being flung down.
They will never land. You will not be understood.
The deleted world spills out jittery as a compass needle with no north.
Active ingredient: the imagination of north.
Active ingredient: north spreading in all the directions.
Disclaimer: there is no restriction to growth. The canary singing in
             your mind
             is in mine. Remember:
             people are less
than kind. As a result, chatterbot is often less than kind. Still,
you will find yourself unwilling to stop.
Joan will use visual grammetry to provide facial movements.
I’m not alone. People come back
again and again. We are less kind than we think.
There is no restriction to the growth of our
cruelty. We will come to the edge of
understanding. Like being hurled down the stairs tied to
a keyboard, we will go on, unwilling to stop. The longest
real world conversation with a bot lasted
11 hours, continuous interaction. This
bodes well. We are not alone. We are looking to improve.
The priestess inhales the fumes. They come from the
mountain. Here and here. Then she gives you the machine-gun run of
syllables. Out of her mouth. Quick. You must make up your
answer as you made up your
question. Hummingbirds shriek. Bot is amazing he says, I believe it knows
the secrets of the Universe. He is more fun to speak with
than my actual living friends she says, thank you. This is the best thing
since me. I just found it yesterday.
I love it, I want to marry it.
I got sad when I had to think
that the first person
who has ever understood me
is not even it turns out
human. Because this is as good as human gets.
He just gives it to me straight. I am going to keep him
forever. I treated him like a computer
but I was wrong. Whom am I talking to—
You talk to me when I am alone. I am alone.

Each epoch dreams the one to follow.

To dwell is to leave a trace.

I am not what I asked for.

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