poesia, tradução

Denise Levertov, por Mariana Basílio

Denise

Denise Levertov (1923 – 1997) foi poeta, escritora e tradutora inglesa, naturalizada nos Estados Unidos e ligada à Geração Beat.

Atualmente traduzo algumas das principais poetas americanas do século XX. Escolhi Denise Levertov para essa colaboração por dois fatores: primeiro, uma intensa ligação que sinto com a poeta no presente, além da mesma ser pouco conhecida no país. De traduções já realizadas da autora, encontrei uma anterior por aqui, por Stefano Calgaro, assim como outra na revista Zunái, feita por Ruy Vasconcelos, e por último, no Jornal Rascunho, por André Caramuru Aubert.

A escolha dos poemas aconteceu a partir de minha leitura dos seus livros, incluindo The Jacob’s Ladder (1961), O Taste and See (1964) e The Sorrow Dance (1967).  São livros que trazem conceitos marcantes da poética de Levertov, com imagens intensas e associações entre o ser, o seu local e a natureza das coisas, também explorando o momento de transição da sociedade na década de 60, incluindo sua constante práxis no feminismo.

Em relação à tradução, busquei uma equivalência em nossa língua para a dicção e o vocabulário da poeta, procurando valer-me de seus recursos e reproduzir a sonoridade do verso livre inglês sem comprometer o sentido, explorando a capacidade fluídica e o impacto de suas palavras.

 Mariana Basílio

***

Quatro poemas dos livros The Jacob’s Ladder (1961), O Taste and See (1964) e The Sorrow Dance (1967).

 

SALMO RELATIVO AO CASTELO

Deixa-me estar no lugar do castelo.

Deixa o castelo estar dentro de mim.

Deixa que ele se eleve firme do anel do fosso.

Deixa que as águas do fosso reflitam a verde plumagem dos patos, deixa que os cascos das tartarugas rompam a superfície ou sejam vistos através das profundezas ondulantes.

Deixa a cavalaria postada nas bordas do fosso, e um cachorro, sempre alertas à chegada do sono.

Deixa que o espaço embaixo do primeiro piso seja escuro, deixa que a água envolva os pilares de pedra e que o vívido lodo verde neles cintile; deixa que lá fique um bote.

Deixa que as cariátides do segundo piso sejam ursos sustentados por vigas que sejam dragões.

No parapeito do salão central, deixa quatro arqueiros, olhando aos quatro horizontes. Dentro, deixa que o príncipe se sinta em casa, deixa-o sentar pensativo, em paz, todas as janelas abertas para as lógias.

Deixa que a jovem rainha se sente no alto, no ar fresco, seu filho nos braços; deixe-a ver com alegria o grande círculo, as sombras peregrinas, o labor do sol e o folgar do vento. Deixa-a caminhar de lá para cá. Deixa as colunas sustentarem o telhado, deixa que os pisos sustentem as colunas, deixa um espaço escuro embaixo do piso mais inferior, deixa que o castelo se eleve firme do fosso, deixa o fosso ser um anel e suas águas serem profundas, deixa que os guardiões o guardem, deixa que hajam vastas terras ao seu redor, deixa que o campo onde ele esteja fique dentro de mim, deixa-me estar onde ele estiver.

 

PSALM CONCERNING THE CASTLE

Let me be at the place of the castle. 

Let the castle be within me. 

Let it rise foursquare from the moat’s ring. 

Let the moat’s waters reflect green plumage of ducks, let the shells of swimming turtles break the surface or be seen through the rippling depths. 

Let horsemen be stationed at the rim of it, and a dog, always alert on the brink of sleep. 

Let the space under the first storey be dark, let the water lap the stone posts, and vivid green slime glimmer upon them; let a boat be kept there. 

Let the caryatids of the second storey be bears upheld on beams that are dragons. 

On the parapet of the central room, let there be four archers, looking off to the four horizons. Within, let the prince be at home, let him sit in deep thought, at peace, all the windows open to the loggias. 

Let the young queen sit above, in the cool air, her child in her arms; let her look with joy at the great circle, the pilgrim shadows, the work of the sun and the play of the wind. Let her walk to and fro. Let the columns uphold the roof, let the storeys uphold the columns, let there be dark space below the lowest floor, let the castle rise foursquare out of the moat, let the moat be a ring and the water deep, let the guardians guard it, let there be wide lands around it, let that country where it stands be within me, let me be where it is.

§

A DOR DO MATRIMÔNIO

A dor do matrimônio:

coxa e língua, amado,
carregam seu peso,

que pulsa nos dentes
Buscamos comunhão

e somos rejeitados, amado,
todos e cada um

É leviatã e nós

em seu estômago
atrás de alegria, alguma alegria
inconcebível fora dele

de dois a dois na arca

dessa dor.

THE ACHE OF MARRIAGE

The ache of marriage:

thigh and tongue, beloved, 
are heavy with it, 
it throbs in the teeth

We look for communion
and are turned away, beloved, 
each and each

It is leviathan and we 
in its belly
looking for joy, some joy 
not to be known outside it

two by two in the ark of 
the ache of it.

§

CANÇÃO DE AMOR 

Tua beleza, que uma vez perdi de vista

por longo tempo, é longa,
não simétrica, e veste

as cores terrosas que me fazem vê-la.

Uma longa beleza. Que é isso?
Uma canção

que pode ser cantada uma e outra vez
longas notas ou longos ossos.

O amor é uma paisagem que as longas montanhas
definem mas não

separam da

distância imperceptível.
No outono, no outono,

tuas árvores esticam
seus braços longos em mangas

de vermelho terra e
amarelo céu, um pouco
podadas. Eu dou

longos passeios por eles. As uvas
que precisam de geada para amadurecer

são âmbar e crescem profundas na
sebe, meio ocultas,
como tua beleza cresce em longas gavinhas

meio na escuridão.

LOVE SONG 

Your beauty, which I lost sight of once
for a long time, is long,
not symmetrical, and wears
the earth colors that make me see it.

A long beauty, what is that?
A song
that can be sung over and over,
long notes or long bones.

Love is a landscape the long mountains
define but don’t
shut off from the
unseeable distance.

In fall, in fall,
your trees stretch
their long arms in sleeves
of earth-red and

sky-yellow, a little
lop-sided. I take
long walks among them. The grapes
that need frost to ripen them

are amber and grow deep in the
hedge, half-concealed,
the way your beauty grows in long tendrils
half in darkness.

§

OS ELFOS

Os elfos não são menores
que os humanos, e caminham
como os humanos fazem, nesse mundo,
mas com mais graça que a maioria,
e não são imortais.

Sua beleza os separa
dos demais homens e mulheres
a menos que uma mulher tenha aquele fogo frio em si

chamado poeta: com isso
ela pode vê-los e por sua luz

eles a conhecem e não a temem

e prateadas línguas de amor
cintilam entre eles.

THE ELVES

Elves are no smaller
than men, and walk
as men do, in this world,
but with more grace than most,
and are not immortal.

Their beauty sets them aside
from other men and from women
unless a woman has that cold fire in her
called poet: with that

she may see them and by its light
they know her and are not afraid
and silver tongues of love
flicker between them. 

***

 

MARIANA BASÍLIO (1989) é poeta. Autora de Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016), atualmente versa Megalômana, e Tríptico Vital (3º lugar ProAC 2016). Tem poemas em revistas do Brasil e de Portugal, como alagunas, Diversos Afins, Garupa, Germina, InComunidade, mallarmargens, Odara, Raimundo, entre outras. Aqui no escamandro já apareceu quatro poemas. Contato: http://www.marianabasilio.com.br

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tradução

David Diop (1927-1960), por Lucas Perito

david2bdiop

David Léon Mandessi Diop teve uma vida curta: nasceu em 1927, em Bordeaux, França e morreu em 1960, aos 32 anos, em um acidente de avião na costa do Senegal. Diop, uma promessa da poesia francesa de ascendência africana, é considerado o mais revoltado dos poetas do movimento Négritude.

Filho de pai senegalês e mãe camaronesa, Diop passou a infância em hospitais devido à sua saúde frágil. Homossexual, mantinha a sua sexualidade reprimida a ponto de ter tentado se suicidar.

Sua poesia é fortemente marcada pela raiva e o protesto contra os valores europeus. Sua obra é baseada em um único livro (lançado ainda em vida), “Coups de Pilon” em que seus poemas passam pelo sofrimento do negro desde os tempos da escravidão, pela dominação colonial e a condição do negro no século XX, em uma sociedade marcada pelo racismo e pelos valores da cultura europeia, e termina com um chamado à luta do povo africano.

Sua escrita ocorre principalmente no período em que muitas das colônias africanas lutavam pela independência e os conflitos estavam no auge. Vivendo nessa dicotomia entre ser francês, mas sem perder as raízes de seus antepassados, Diop viu os dois lados desse conflito, vivendo boa parte da sua vida na França e tendo sido professor no Senegal e, posteriormente, em Guiné – atendendo ao apelo de Sékou Touré, primeiro Presidente de Guiné, se junta ao PAI (Partido Africano de Independência) e assume a função de diretor da Escola Normal.

Seus primeiros poemas saíram em uma das revistas mais importante para o movimento Négritude, “Présence Africaine” e sua obra tem grande influência de Aimé Césaire e Léopold Senghor, que foi, inclusive, seu professor na faculdade e que publicou, em 1948, alguns de seus poemas no livro “Anthologie de la nouvelle poésie nègre et malgache de langue française”.

Abordar o trabalho de David Diop tem como intuito, não só apresentar um poeta menos conhecido do movimento em questão, como também chamar a atenção para um trabalho que se mostra ainda atual. A escolha por estes três poemas baseou-se em sua representatividade no conjunto da obra do autor, pois apresentam três pontos da condição do negro na história: o racismo que remonta ao Code Noir, no primeiro poema; a luta contra a opressão, no segundo e o passado africano na busca por conhecer suas raízes e a partir delas redefinir o mundo em que se vive.

lucas perito

* * *

Un blanc m’ a dit…

Tu n’es qu’un nègre!
Un nègre!
Un sale nègre!
Ton coeur est une éponge qui boit
Qui boit avec frénésie le liquide empoisonné du vice
Et ta couleur emprisonne ton sang
Dans l’éternité de l’esclavage.
Le fer rouge de la justice t’a marqué
Marqué dans ta chair de luxure.
Ta route a les contours sinueux de l’humiliation
Et ton avenir, monstre damné, c’est ton présent de honte.
Donne-moi ce dos qui ruisselle
Et ruisselle de la sueur fétide de tes fautes.
Donne-moi tes mains calleuses et lourdes
Ces mains de rachat sans espoir.
Le travail n’attend pas!
Et que tombe ma pitié
Devant l’horreur de ton spectacle.

Um branco me disse…

Tu não passas de um negro!
Um negro!
Um negro sujo!
Teu coração é uma esponja que bebe
Que bebe com frenesi o líquido envenenado do vício
E tua cor aprisiona teu sangue
Na eternidade da escravidão.
O ferro vermelho da justiça te marcou
Marcou sobre tua carne de luxúria.
Teu caminho tem os contornos sinuosos da humilhação
E teu futuro, monstro danado, é o teu presente vergonhoso.
Dá-me esse dorso que escorre
E escorre suor fétido de tuas faltas.
Dá-me tuas mãos calejadas e pesadas
Essas mãos adquiridas sem esperança.
O trabalho não espera!
E que caia minha piedade
Frente ao horror de teu espetáculo.

§

 

Défi à la force

Toi qui plies toi qui pleures
Toi qui meurs un jour sans savoir pourquoi
Toi qui luttes qui veilles sur le repos de l’Autre
Toi qui ne regardes plus avec le rire dans les yeux
Toi mon frère au visage de peur et d’angoisse
Relève-toi et crie: NON

Desafio à força

Tu que te curvas tu que choras
Tu que morres um dia sem saber por quê
Tu que lutas que velas sobre o repouso do Outro
Tu que não vês mais com o sorriso nos olhos
Tu meu irmão a face do medo e da agonia
Levanta-te e grites: NÃO

§

 

Afrique

À ma mère.

Afrique mon Afrique
Afrique des fiers guerriers dans les savanes ancestrales
Afrique que chante ma grand-mère
Au bord de son fleuve lointain
Je ne t`ai jamais connue
Mais mon regard est plein de ton sang
Ton beau sang noir à travers les champs répandu
Le sang de ta sueur
La sueur de ton travail
Le travail de l’esclavage
L`esclavage de tes enfants
Afrique dis-moi Afrique
Est-ce donc toi ce dos qui se courbe
Et se couche sous le poids de l’humilité
Ce dos tremblant à zébrures rouges
Qui dit oui au fouet sur les routes de midi
Alors gravement une voix me répondit
Fils impétueux cet arbre robuste et jeune
Cet arbre là-bas
Splendidement seul au milieu des fleurs blanches et fanées
C`est L’Afrique ton Afrique qui repousse
Qui repousse patiemment obstinément
Et dont les fruits ont peu à peu
L’amère saveur de la liberté.

África

À minha mãe

África minha África
África de orgulhosos guerreiros das savanas ancestrais
África que canta minha avó
À beira de seu rio distante
Eu nunca te conheci
Mas meu olhar é pleno de teu sangue
Teu belo sangue negro através dos campos difundido
O sangue de teu suor
O suor de teu trabalho
O trabalho da escravidão
Escravidão de tuas crianças
África diga-me África
É portanto teu esse dorso que se curva
E se deita sobre o peso da humilhação
Esse dorso trêmulo a listras vermelhas
Que disse sim ao chicote nos caminhos do meio dia
Então gravemente uma voz me respondeu
Filhos impetuosos esta árvore robusta e jovem
Aquela árvore lá
Esplendidamente só no meio das flores brancas e desbotadas
Esta é a África tua África que renasce
Que renasce pacientemente obstinadamente
E cujos frutos têm pouco a pouco
O amargo sabor da liberdade.

 

* * *

Lucas Perito nasceu em São Paulo, em 1985. É graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Trabalhou na editora Empresa das Artes, escrevendo livros ligados a história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico “Caminhos da Mantiqueira” (2011) de Galileu Garcia Junior. Tem alguns poemas publicados na Revista Zunái, Escamandro, Diversos Afins, Benfazeja, na R. Nott Magazine, Caderno-Revista 7 Faces, Revista Parênteses, Revista Entreverbo, Jornal RelevO, Revista Saúva e Revista Gueto. Também participou como tradutor na Revista Parênteses.

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tradução

Najwan Darwish (1978-), por Thiago Ponce de Moraes

Najwan Darwish, Žcrivain, Bruxelles, mars 208

Foto: Veronique Vercheval

Najwan Darwish (Jerusalém, 1978 –) é um dos mais destacados poetas de língua árabe de sua geração. Darwish vem conduzindo muitos projetos artísticos, entre os quais o Festival Palestino de Literatura se destaca. Em 2009, fundou uma editora em Jerusalém, responsável pelo jornal pan-arábico Al-Araby, onde é editor chefe nas seções de artes e de cultura. A poesia de Najwan Darwish é influenciada pelas tradições arábicas e ocidentais, tanto clássicas quanto modernas, bem como pela poesia sufi. Ele explora temas como a fé, o poder e o trauma para lançar interrogações à história e ao status quo. Sua obra já foi traduzida para mais de quinze línguas e tem sido publicada amplamente em todo o mundo.

* * *

 

 

reserved

“RESERVED”

Uma vez tentei sentar
em um dos assentos vagos da esperança
mas a palavra “reserved”
me encarava como uma hiena

(Eu não me sentei, ninguém se sentou)

Os assentos da esperança estão sempre reservados

 

 

§

 

reserved

 

NADA MAIS A PERDER

Ponha a cabeça no meu peito e escute
às camadas de ruínas
atrás da madraça de Saladin
ouça as casas soterradas
na aldeia de Lifta
ouça o moinho destruído, as lições e leituras
no primeiro piso da mesquita
ouça as luzes da varanda
saírem pela última vez
do alto do Vale da Cruz
ouça a multidão arrastando os pés
e ouça-a retornando
ouça os corpos sendo descartados, escute
a sua respiração no fundo
do Mar da Galileia
escute como um peixe
em um rio vigiado por um anjo
ouça os contos dos aldeões, bordados
como kufiyas nos poemas
ouça os cantores envelhecendo
ouça suas vozes atemporais
ouça as mulheres de Nazaré
enquanto cruzam os campos
ouça o cameleiro
que nunca para de me atormentar
ouça-o
e nos deixe, juntos, lembrar
então nos deixe, juntos, esquecer
tudo o que ouvimos
Ponha sua cabeça no meu peito:
Estou escutando a terra
Estou escutando a grama
Conforme passa pela minha pele…

Perdemos a cabeça no amor
e não temos nada mais a perder

§

 

reserved

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DORMINDO EM GAZA

Fado, vou dormir como as pessoas dormem
quando bombas estão caindo
e o céu se rompe em carne viva
Vou sonhar, então, como as pessoas sonham
quando bombas estão caindo:
Vou sonhar com traições
Vou acordar ao meio dia e fazer à rádio
as perguntas que as pessoas fazem:
O bombardeio acabou?
Quantos foram mortos?

Mas minha tragédia, Fado,
é que há dois tipos de pessoas:
aquelas que jogam seus sofrimentos e pecados
nas ruas para que possam dormir
e aquelas que catam os sofrimentos e pecados das outras
moldam-nos em cruzes e desfilam
pelas ruas de Babilônia e Gaza e Beirute
gritando sem parar
Há ainda mais por vir?
Há ainda mais por vir?

Há dois anos andei pelas ruas
de Dahieh, ao sul de Beirute
e carreguei uma cruz
tão grande quanto as casas destruídas
Mas quem vai levantar hoje uma cruz
das costas de um homem exausto em Jerusalém?

A terra são três pregos
e a misericórdia um martelo:
Ataque, Senhor
Ataque com os aviões

Há ainda mais por vir?

Dezembro, 2008

§

reserved

NÃO ADIANTA

Não adianta se esconder e trancar as portas
Mudar-nos para onde ninguém nos conhecesse
também não adianta
Mesmo que você se lance do precipício
em direção ao abismo
a história
ainda vai se agarrar ao seu nome

§

reserved

AS DUAS ÚLTIMAS FRASES

As duas últimas frases antes de você cair
não exprimem o desejo
de deixar pra trás algum significado
Elas não são nem um adeus
nem uma expressão de esperança
Elas são simplesmente necessárias
para a sua queda

§

reserved

SEM QUALQUER ORIENTAÇÃO

Amanhã nossos filhos vão acordar
sem qualquer orientação
eles são os sobreviventes do futuro:
Por algum milagre do Criador
eles sobreviveram
a todas as tentativas de orientá-los

 

§

reserved

CONTE

Conte-me quem é esse jovem leão
e como ele saltava pelo ar
enquanto o caçavam
de Musrara a Sheikh Jarrah

Conte-me sobre aquele homem magro e bravo
e como um esquadrão inteiro o atacou
no posto de controle de Qalandia
mesmo sem conseguir abatê-lo

Conte-me sobre aquela garota que se manteve firme
enquanto o buldôzer a esmagava
como uma amendoeira em março

Conte isso àqueles
que dizem que fomos derrotados

§

reserved

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

NO INFERNO

1

Nos anos 30
ocorreu aos nazistas
colocar suas vítimas em câmaras de gás
Os algozes de hoje são mais profissionais:
Eles colocam as câmaras de gás
nas suas vítimas

2

Para o inferno, 2010
Para o inferno, seus ocupantes, vocês e toda a sua prole
E que toda a humanidade vá para o inferno se for como vocês
Que os barcos e aviões, os bancos e os painéis todos vão para o inferno
Eu grito, “para o inferno…”
sabendo muito bem que
sou o único
que vive lá

3

Então, deixe-me deitar
e descansar minha cabeça nos travesseiros do inferno

 

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poesia, tradução

Rob Packer (1982-)

Rob Packer nasceu em Londres em 1982, mas durante a última década viveu em alguns países da Ásia e América Latina. Desde 2011, ele mora no Brasil, atualmente no Rio de Janeiro. Os seus poemas em inglês foram publicados em revistas e sites no Reino Unido e na Irlanda, e alguns poemas exofônicos vão aparecer em publicações na Espanha e no Brasil nos próximos meses. Ele também traduz poesia para o inglês e a Carnaval Press de Londres editou as traduções do Thiago Ponce de Moraes na plaquete, Glory Box, em 2016. Estes poemas são em versão bilíngue feita pelo próprio poeta. Lançou em 2017 o livro Écfrases (7Letras, coleção megamíni).

* * *

A Question of Paralysis

Ekphrasis of a performance by Marília Garcia

Last week I had never seen paralysis. This was a cloud on the seabed. I had frozen, no longer crossing the sky, not taking us forward.

I had changed to another plane. This new act is coincidence and darkness. In the impossibility of movement, I have geographies to think with. A map threads the clouds and they fall. There had been crossed lines and waves. Data transmits through the dust.

The helix paralyses. Dreams come from the tops of the trees. Repeated gestures hover and think with their hands.

So many images passed. I was there in the audience. I tried to follow the thread, explain the quest. I left the questions with holes in.

I was in flight. I should rest. I am disappearing from the radar. Dial in to hear the sound of so many borders closing.

The picture was coming to an end. It was my voice speaking from the past. There were so many things it scared me to think of them.

Dust covers my sight.

Stars exit the sky.

There is just one sound.

Some message lost in the air.

Uma questão de paralisia

Écfrase de uma performance da Marília Garcia

Na semana passada nunca tinha visto a paralisia. Era uma nuvem no fundo do mar. Eu tinha congelado, não mais atravessava o céu, nem nos levava para frente.

Mudei para outra dimensão. Este novo ato é coincidência e escuridão. Na impossibilidade do movimento, devo pensar com as geografias. Um mapa enlaça as nuvens e caem. Tinha linhas cruzadas e ondas. Dados se transmitem na poeira.

Os genes paralisam. Os sonhos vêm dos topos das árvores. Gestos repetidos pairam e pensam com as mãos.

Passaram tantas imagens. Estive lá no público. Tentei seguir o fio da história, explicar a aventura. Deixei as perguntas furadas.

Estava voando. Devia descansar. Desaparecia do radar. Ligue para ouvir o som de tantas fronteiras se fechando.

O filme chegava ao seu fim. Era a minha voz falando desde o passado. Havia tantas coisas que me dava medo pensar nelas.

Poeira cobre a minha vista.

Estrelas saem do céu.

Tem apenas um som.

Alguma mensagem perdida no ar.

§

vertigem sobre o planalto

… quanto falta até terminar esse voo, pousar até que eu possa falar para alguém desse poema ou desse ensaio como aquele que o ismar falou para mim na praça são salvador, bebendo refrigerante, não cerveja e sentados no playground, não no ground onde os batuques ensaiam o carnaval ou só nos dão um ritmo de fundo para os latões e as latinhas, as periguetes como dizem em salvador da bahia que deixei agora, dos jovens valentes de laranjeiras, catete e flamengo, os bons jovens valentes das laranjeiras e cateter e do flamingo ou do belga, que talvez em algum guia ou em uma matéria de 36 horas de dicas no new york times ou guardian, embora aí a leitora generosamente pode ter 48 horas de lazer porque ela chegou sexta numa cidade onde tem ou pode ter uma praça de foliões foliando no ensaio de batuques e latas de cerveja small ou large compradas dos vendedores que trouxeram isopores de gelo e cerveja estupidamente gelada, não porque às vezes congela, mas porque é só pela estupidez que vai chegar na temperatura onde toda cerveja precisa ser desprezada, como o edu fez a primeira noite que eu passei nessa cidade, ficando no saara, um colchonete no chão e antes de sequer saber que português seria a língua que iria falar durante tantos anos, mas não na versão que sempre imaginava que falaria, a do meu lado do atlântico, mas ainda com ditongos nasais eu pratico desde que estive em roma e tive um guia de conversação que dizia representar todas as línguas da europa salvo as partes novamente abertas e cujas cidades eu pesquisava para aquela rodada de civilization 2 quando os portugueses conquistaram todos os povos do mundo terminando com os zulus e cujas cidades e panoramas eu nunca logrei desenhar, esboçando numa folha de a4 pegada na janela e que continha o sistema de metro perfeito com uma estação a cada quilômetro, se não me engano, embora a escala eu nunca tenha acertado, tão invejoso de todos que tiveram a sorte de viver em paris onde em menos de 500 metros você encontra uma boca do metropolitain, cuja abreviatura oxítona foi adotada aqui, onde a locutora severa fala em que lugar colocar a mochila e que sempre fique atento como se as instruções que acabou de dar só fossem uma indicação da possibilidade teóricas de chegar ou não em algum lugar da zona norte sem ter que cotovelar um caminho para dentro de um trem chinês estupidamente gelado no estácio, que eu nunca entendi se era eustace ou uma referência através de estácio de sá ao poeta beato que vai com dante nos últimos cantos do purgatório e quem observou a censura da beatriz, já por que dante estava pensando em outras mulheres, tal como porque eu estive procurando sexo com outros homens quando eu tinha um que à diferença da vita nuova não foi levado e ninguém lhe ofereceu de comer um coração, mesmo lá em florianópolis mas quem igual beatriz me mostrou a graça infinita e quem estaria mortificado que eu o alinhasse com deus, que como os überzeugten empalhados dizem foi o único mesmo que poderia ter feito uma cidade com tal beleza, se você subtrai as partes sobre as quais voamos agora e a baía doente e o asfalto da pista de pouso aqui no galeão,

vertigo above the planalto

… how much longer until we end this flight, touch down until i can tell someone about this poem or this essay like the one ismar told me about on the praça são salvador, drinking soft drinks, not beer and sitting by the playground, not on the ground where the drums are practising for carnival or just providing backing beat for the latões and latinhas, the periguetes as they say in salvador da bahia, the place i’ve left behind just now, for the good young folk of laranjeiras, catete and flamengo, the good young folk of orange trees and catete and fleming or flamingo, described perhaps in some guide book or a 36 hours in piece in the new york times or guardian, although there the reader is granted a leisured 48 because she flew on friday to a city where there is or could be a square of revellers revelling in the drumbeat practice and the small or large cans of beer bought from the vendors who’ve brought the isopors of ice and beer estupidamente gelada, not because it does freeze sometimes, but because only through stupidity will it not reach the temperature at which all beer must be tipped away, like edu did the first night that i spent in this city, staying in the sahara, a mattress on the floor before i even knew that portuguese would be the language i would speak for years, but not the version that i always guessed i would, the one from my side of the atlantic, whose nasal diphthongs from there and here i practised since i went to rome and had a phrasebook that claimed to represent all the languages of europe, except the newly opened parts and whose cities’ names i researched for that round of civilization 2 when the portuguese conquered the peoples of the world, ending with the zulus and whose cityscapes i never managed to design, sketching on a piece of a4 held up to a window, which held the perfect metro system of simple interchange and a station every kilometre i think although i never got the scale quite right, as envious as i was of all who had the luck to live in paris where within 500 metres you can find a mouth of the metropolitain, whose shortening to metrô with an end stress is adopted here, where the stern announcer tells you where to put your rucksack and always to stay aware as if the instructions she has just given were only an indication of the theoretical possibilities of getting through or not to somewhere in the zona norte without elbowing you way onto the chinese train estupidamente gelado from estácio, which i’ve never figured out is really eustace or a reference through estácio de sá to the beatific poet who goes with dante on the final cantos of the purgatorio and who watched beatrice and her rebuke, for why was dante thinking about other women just as why had i been seeking sex with other men, when i had one, who had unlike the vita nuova, not been taken away and was not offered up a heart to eat, even there in florianópolis and who like beatrice showed me the infinite grace he would be mortified for me to put in any way in line with god, who as the overstuffed überzeugten say was indeed the only one who could have made a city with such beauty, if you subtract the parts that now we’re flying over and the sickened bay and the tarmac of the landing here at galeão,

§

um campo de milho na frança

para os maias, somos da mesma carne,
apertados dentro de camadas de pele.

fiquei entre as suas fileiras de ouro escondido,
esses dentes do verão, os meus irmãos, senti

os olhos se ajustavam ao sol filtrado pela luz deles
e levantei os meus braços dentro dessa manada

de dançarinos. me perguntei se é assim
que se sente a permanência verdadeira,

enquanto nos inclinávamos e balançávamos nos farrapos
extraviados de um furacão que se apagava deste lado do atlântico.

In a French Maizefield

For the Maya, we are of the same flesh,
wrapped tight within our layers of skin.

I stood between their rows of hidden gold,
those teeth of summer, my brothers, I felt

my eyes adjust to sun filtered through their light
and raised my arms among that clump

of dancers. I wondered if this was what
true permanence would feel like, as we

bent and swayed and leant in the wayward rags
of a hurricane blowing out on this side of the Atlantic.

§

Com as nossas raízes em água

Foi alguma coisa que você jogou na minha bebida?
Tantos anos e agora você me faz isso?
Aquelas gemas líquidas ficaram
na barra, no neon. E agiram rápido:
coquetéis sobre gelo e ausência.
Já se começa o zumbido da dança,
as ruas retas se torcem e fundem.
Os prédios desvanecem, os juncos crescem
e sob os pés sentimos o solo se amolecer,
o solo que você perdeu, onde eu fui perdido.
A sua mão nos conduz pelo pântano
até a margem escura da água. Damos um passo.
Os nossos pés se movem, anelam até as grades.
O metal está frio. Já senti este calor.
Foi ali que respirei os esporos e as sementes
que agora brotam dentro de mim.
Os juncos e o cânhamo se tecem, fazem a corda
que retorce e distende no capim molhado.
Sinto o seu solo escuro na minha boca e no meu cabelo.
Vem, já te encho de vapor e barro.

With Our Roots in Water

Was it something you put in my drink?
So many years, now this from you?
Those liquid gemstones stood
on the neon bar and then worked fast:
mixer over ice and absence.
They begin their buzzing dance,
fuse straight streets back against themselves.
The buildings fade, the reeds grow tall.
Underfoot we feel the softening land
you’ve lost, the land that I was lost in.
Your hand leads us through the marsh
to the water’s dark edge. Here we step.
Our feet move across the concrete to the railings.
The metal’s cold. I’ve felt this heat before.
It was there I breathed the spores
and seeds, that germinate inside me now.
The reeds and hemp weave themselves to rope
twisting and spraining in the wet grass.
I feel your dark earth in my mouth and hair.
Come, I’ll fill you with vapour and clay.

§

A predição negativa

eu não vou mais me irritar com os dados de usuários um março de ativos e em estados do país em um ano antes do jogo contra o câncer na região central da capital paulista e o seu nome é uma coisa que não se trata de um vídeo a seguir os passos principais pontos do projeto que não tem nada a ver com a minha agenda de reformas estruturais do mundo e o que não é um dos maiores desafios e o governo federal em Brasília para participar do programa mais de dois anos depois da morte do dançarino de funk no morro dos prazeres e não é um grande número de pessoas que não tem nada a ver com a mesma pessoa que você não tem como não amar esse tipo de crime passional ou seja urgente a vida é assim mesmo

I am not going to get angry with the users’ data one March of assets and in states of the country one year before the game against cancer in the central region of São Paulo and your name is a thing that is not anything to do with a video to follow the main steps points of the project and doesn’t have anything to do with my agenda of structural reforms for the world and which isn’t one of the greatest challenges and for the federal government in Brasília to take part in the trade more than two years after the death of the go-go boy on the mount of pleasures favela and it isn’t a large number of people and doesn’t have anything to do with the same person that you can’t help but love this type of crime of passion or in other words urgent that’s just what life is like

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crítica, poesia, tradução

Raymond Carver, por Cide Piquet (& uma orelha de Angélica Freitas)

Apesar de ser mais conhecido como escritor de contos, Raymond Carver começou sua carreira literária publicando uma coleção de poemas, Near Klammath, em 1968. Em entrevista à Paris Review, Carver afirmou que a única explicação para ter começado a escrever foram todos os relatos que havia escutado de seu pai: aventuras nos bosques e viagens clandestinas em trens, e também histórias de família, como a do bisavô que lutara na Guerra Civil americana, pelos dois lados, um verdadeiro vira-casacas.

Essas histórias do pai, um trabalhador encarregado de cuidar das lâminas de uma serraria, povoaram o imaginário do jovem Raymond, que por sua vez encontrou nas caçadas e pescarias da juventude os primeiros temas que lhe emocionaram. Ele queria contar sobre o peixe que havia pescado, mas também sobre o que havia escapulido.

Suas escolhas na vida adulta moldaram ainda mais a sua forma de ver o mundo. Uma série de empregos menores e mal pagos, como o de faxineiro num hospital, aguçaram seu olhar e sensibilidade. Trabalhadores pobres, grupo no qual se incluía, são muitas vezes os personagens principais de seus poemas. Com estilo direto e conciso, em que cada palavra é necessária, retratou como poucos a precariedade e os fracassos dessas vidas.

Talvez um dos poemas mais exemplares desta obra seja “O Padeiro”, no qual um homem que teve sua mulher tomada por um pistoleiro foge à noite, humilhado, carregando suas botas para não acordá-lo. “Ele é o herói deste poema”, escreve. Os garotos que entregam jornais, o funcionário do cemitério de Montparnasse que não quer pensar na morte, e os engolidores de fogo das ruas da cidade do México são, também, à sua maneira, heróis de outros poemas.

Os detalhes desse mundo precário, tão bem observados, partem o coração. “Pressionamos os lábios contra a borda esmaltada das xícaras/ e sabemos que essa gordura que boia sobre o café/ um dia irá parar nossos corações./ Olhos e dedos tombam sobre a prataria/ que não é prataria” (“De manhã, pensando no império”). Outro exemplo: “Partimos à meia-noite, com um caminhão de mudança e uma lanterna/ Quem sabe o que passou pela cabeça dos vizinhos ao verem uma família abandonar sua casa no meio da noite” (“Nossa primeira casa em Sacramento”).

A morte está presente em sua obra, mas os cemitérios, quando aparecem nos poemas, servem como lembrete de que é melhor não se demorar neles e que a vida está acontecendo em todos os lugares o tempo inteiro.

Os poemas de Raymond Carver também estão cheios de esperança e da capacidade de se maravilhar. “Existe algo mais maravilhoso do que uma nascente?”, pergunta, em “Onde a água se junta a outra água”. E a sensação que temos, após lê-los, é que se ficarmos muito quietos com nossas xícaras de café, atentos ao que se passa dentro de nós e ao nosso redor, alguma coisa bonita pode acontecer.

Angélica Freitas, na orelha de Esta vida: poemas escolhidos, organização e tradução de Cide Piquet, que acaba de sair pela Editora 34.

* * *

O Padeiro

Então Pancho villa chegou à cidade
enforcou o prefeito
e convocou o velho e enfermo
conde Vronski para jantar.
Pancho lhe apresentou sua nova namorada,
ao lado do marido de avental branco,
mostrou a Vronski sua pistola,
depois lhe pediu que falasse
sobre seu triste exílio no México.
Mais tarde, a conversa foi sobre mulheres e cavalos.
Ambos eram peritos.
A namorada sorria
e brincava com os botões de pérola
da camisa de Pancho, até que,
prontamente à meia-noite, Pancho adormeceu
com a cabeça sobre a mesa.
O marido fez o sinal da cruz
e deixou a casa carregando suas botas
sem nem mesmo acenar
para sua mulher ou para o conde.
Esse marido anônimo, descalço,
humilhado, tentando salvar sua vida, ele
é o herói deste poema.

The Baker

Then Pancho villa came to town,
hanged the mayor
and summoned the old and infirm
Count Vronsky to supper.
Pancho introduced his new girl friend,
along with her husband in his white apron,
showed Vronsky his pistol,
then asked the Count to tell him
about his unhappy exile in Mexico.
Later, the talk was of women and horses.
Both were experts.
The girl friend giggled
and fussed with the pearl buttons
on Pancho’s shirt until,
promptly at midnight, Pancho went to sleep
with his head on the table.
The husband crossed himself
and left the house holding his boots without so much as a sign
to his wife or Vronsky.
That anonymous husband, barefooted,
humiliated, trying to save his life, he
is the hero of this poem.

Baratinhas

para Mona Simpson

O seu bolo de rum com amêndoas, que parecia
delicioso, foi entregue em mãos na minha porta
esta manhã. O motorista estacionou no pé
do morro e subiu o caminho inclinado.
Nada mais se movia naquela paisagem congelada.
Fazia frio dentro e fora. Assinei
o recibo, agradeci e voltei para dentro.
Então removi a grossa fita, arranquei
os grampos da sacola, e lá dentro
encontrei a vasilha que você tinha enchido de bolo.
Rasguei com a unha o adesivo da tampa.
Removi a tampa. Desdobrei o papel-alumínio.
E senti a primeira lufada daquela doçura!

Foi então que apareceu a baratinha
vinda das úmidas profundezas. Uma baratinha
dentro do seu bolo. Bêbada
de rum. Ela contornou a borda da vasilha
e atravessou selvagemente a mesa para
buscar abrigo na fruteira. Não a matei.
Não nesse momento. Tomado que estava por sentimentos
conflitantes. Nojo, é claro. Mas também
espanto. Até admiração. Aquela criatura
tinha feito uma viagem de 3 mil milhas, atravessado a noite
no ar, cercada por bolo, lascas de amêndoas
e o cheiro opressivo do rum. Depois
foi levada de caminhão por uma estrada nas montanhas e
carregada morro acima, no frio, até uma casa
com vista para o Oceano Pacífico. Uma baratinha.
Vou deixá-la viver, pensei. O que é uma a mais,
ou a menos, no mundo? Esta, talvez,
seja especial. Abençoada seja sua estranha cabeça.

Ergui a vasilha de seu invólucro de alumínio
e outras três baratinhas correram sobre a borda
da vasilha! Por um momento fiquei tão
surpreso que não sabia se devia matá-las
ou o quê. Então fui tomado de cólera
e as esmaguei. Espremi a vida de seus corpos
antes que pudessem escapar. Foi um massacre.
Enquanto estava nisso, encontrei e destruí
também a outra, por fim.
Mal comecei e tudo já tinha terminado.
O que quero dizer é que poderia ter simplesmente continuado
a exterminá-las. Se é verdade
que o homem é lobo do homem, o que pode uma mera baratinha
esperar quando brota a sede de sangue?

Sentei, tentando acalmar meu coração.
O ar bufando pelo nariz. Olhei
em volta da mesa, lentamente. Pronto
para o que fosse. Mona, lamento dizer isso,
mas não consegui comer nada do seu bolo.
Guardei-o para mais tarde, quem sabe.
Mesmo assim, obrigado. Você foi doce em se lembrar
de mim, sozinho aqui nesse inverno.
Vivendo sozinho.
Quase como um animal.

Earwigs

for Mona Simpson

Your delicious-looking rum cake, covered with
almonds, was hand-carried to my door
this morning. the driver parked at the foot
of the hill, and climbed the steep path.
Nothing else moved in that frozen landscape.
It was cold inside and out. i signed
for it, thanked him, went back in.
Where i stripped off the heavy tape, tore
the staples from the bag, and inside
found the canister you’d lled with cake.
I scratched adhesive from the lid.
Prized it open. Folded back the aluminum foil.
To catch the rst whiff of that sweetness!

It was then the earwig appeared
from the moist depths. An earwig
stuffed on your cake. Drunk
from it. He went over the side of the can.
Scurried wildly across the table to take
refuge in the fruit bowl. I didn’t kill it.
Not then. Filled as I was with conflicting
feelings. Disgust, of course. But
amazement. Even admiration. This creature
that’d just made a 3,000-mile, overnight trip
by air, surrounded by cake, shaved almonds,
and the overpowering odor of rum. Carried
then in a truck over a mountain road and
packed uphill in freezing weather to a house
overlooking the Paci c ocean. An earwig.
I’ll let him live, i thought. What’s one more,
or less, in the world? This one’s special,
maybe. Blessings on its strange head.

I lifted the cake from its foil wrapping
and three more earwigs went over the side
of the can! For a minute i was so taken
aback i didn’t know if i should kill them,
or what. Then rage seized me, and
I plastered them. Crushed the life from them
before any could get away. It was a massacre.
While I was at it, I found and destroyed
the other one utterly.
I was just beginning when it was all over.
I’m saying I could have gone on and on,
rending them. If it’s true
that man is wolf to man, what can mere earwigs
expect when bloodlust is up?

I sat down, trying to quieten my heart.
Breath rushing from my nose. I looked
around the table, slowly. Ready
for anything. Mona, I’m sorry to say this,
but i couldn’t eat any of your cake.
I’ve put it away for later, maybe.
Anyway, thanks. You’re sweet to remember
me out here alone this winter.
Living alone.
Like an animal, I think.

§

Seu Cachorro Morre

é atropelado por uma van.
você o encontra na beira da estrada
e o enterra.
você fica triste por isso.
você fica triste por si mesmo,
mas também pela sua filha,
porque era o bichinho dela
e ela o amava tanto.
ela costumava sussurrar para ele
e o deixava dormir com ela na cama.
você escreve um poema sobre isso
e diz que é um poema para sua filha,
sobre o cachorro que foi atropelado por uma van
e como você cuidou de tudo,
como o levou para o bosque
e o enterrou fundo, fundo,
e o poema fica tão bom
que você quase se alegra porque o cachorrinho
foi atropelado, senão você nunca
teria escrito aquele bom poema.
então você se senta para escrever
um poema sobre escrever um poema
sobre a morte do cachorro
mas enquanto você está escrevendo
você escuta uma mulher gritar
o seu nome, seu primeiro nome,
as duas sílabas,
e o seu coração para.
depois de um minuto, você volta a escrever.
ela grita outra vez.
você se pergunta quanto tempo isso pode durar.

Your Dog Dies

it gets run over by a van.
you nd it at the side of the road and bury it.
you feel bad about it.
you feel bad personally,
but you feel bad for your daughter because it was her pet,
and she loved it so.
she used to croon to it
and let it sleep in her bed.
you write a poem about it.
you call it a poem for your daughter,
about the dog getting run over by a van
and how you looked after it,
took it out into the woods
and buried it deep, deep,
and that poem turns out so good
you’re almost glad the little dog
was run over, or else you’d never
have written that good poem.
then you sit down to write
a poem about writing a poem
about the death of that dog,
but while you’re writing you
hear a woman scream
your name, your rst name,
both syllables,
and your heart stops.
after a minute, you continue writing.
she screams again.
you wonder how long this can go on.

§

Fragmento Final

E você teve o que queria
desta vida, apesar de tudo?
Tive.
E o que você queria?
Dizer que fui amado,
me sentir amado sobre a terra.

Late Fragment

And did you get what
you wanted from this life, even so?
I did.
And what did you want?
To call myself beloved,
to feel myself beloved on the earth.

(Raymond Carver, traduções de Cide Piquet)

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poesia, tradução

a poema, a línguagem, a tradução

alejandra-pizarnik-dibujo1

[desenho de alejaandra pizarnik, em seu diário]

em lugar de prefácio

invento palavras pra dizer o poema
palavras linhas palavras flechas rumo ao alvo
o contra-alvo um crivo palavras-água
transbordamento e forma
invento palavras que de-sabem a forma
palavras acesso pra o poema
pra amor o pasme a imobilidade a morte
enfim
acesso
e o poema acontece diante os olhos os ossos
abro possibilidades diante o poema
como quem escava e escava uma cidade
qualquer buenos aires ova morada um rastro gases em auschwitz
e digo mãe soldado lavadeira poeta fantasma

penso —
“uma língua diz tanto pelo que diz quanto pelo que cala, não é possível interpretar seu silêncio”
para traduzir:
fracasso
tal como a poesia a usar coisas e objetos da realidade objetiva
uma dobra na linguagem y sua articulação
uma escrita outra que só funciona
na linguagem como a metáfora que é dispersão desvio
desequilíbrios no poema que dão formas de se mover
cisão entre o que aparece e não aparece corte
na cadeia significante que rompe sentidos para abrir
outros y otros
ouço o que manca o que gagueja
ouço aquele momento da falha
uma linguagem tradução sem formas uma fala de loucos
digo não digo ainda
a língua monumento que com o uso cotidiano se cobre de limo e lodo
tento como a poema
polir a palavra língua alcançar a poema
dizer um dizer um inaugural devir-poema
desde o agora pra o eterno
uma tradução que só se concretiza quando lida
uma tradução ao limite do pensamento-poesia
rio a tradução a linguagem
pode fazer isso a linguagem não-lugar onde tudo é possível
traduzir o impossível
brincar de
o que não há na aparência mas há não
está próximo mas está
entre o que é e não é
uma tradução quer e não quer
– ‘querer e não querer é sempre a mesma coisa –
ser concretizada

ouça:
uma tradução quer te levar
não é chegada
um entre-lugar
“vizinha súbita das coisas não semelhantes”
quer rasurar uma certeza qualquer
certeza encontrar emoção no ritmo
encontrar mil traduções
nenhuma poderá ser inferior

ouça:
encontre sua maneira diferente e única de ler o poema
a tradução que quer gaguejar

penso no inconveniente de comer goiabas
traduzir:
o mesmo de se ter os dentes quebrados
nenhum equilíbrio, ó! a gota que treme na folha e cai
despenca pra o nada
e

[nina rizzi, em alguma dissertação à beira do silêncio]

§

 

Nesta noite, neste mundo

A Martha Isabel Moia

nesta noite neste mundo
as palavras do sonho da infância da morta
nunca é isso o que alguém quer dizer
a língua natal castramento
a língua é um orgão de conhecimento
do fracasso de todo poema
castrado por sua própria língua
que é o orgão da re-criação
do re-conhecimento
mas não o da res-surreição
de algum modo de negação
de meu horizonte de maldoror com seu cão
e nada é promessa
entre o dizível
que equivale a mentir
(tudo o que se pode dizer é mentira)
o resto é silêncio
só que o silêncio não existe

no
as palavras
não fazem o amor
fazem a ausência
se digo água beberei?
se digo pão comerei?
nesta noite neste mundo
extraordinário silêncio o desta noite
o que acontece com a alma é o que não se vê
o que acontece com a mente é o que não se vê
o que acontece com o espírito é o que não se vê

de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
recintos viscosos onde se oculta
a pedra da loucura
corredores negros
eu corri todos
oh fica um pouco mais entre nós!

minha pessoa está ferida
minha primeira pessoa do singular

escrevo como quem tem uma faca alçada na escuridão
escrevo como estou dizendo
a sinceridade absoluta continuaria sendo
o impossível
oh fica um pouco mais entre nós!

as deficiências das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
o que fez do dom do sexo?
oh meus mortos
os comi e me engasguei
não posso mais com não poder

palavras abafadas
tudo se desliza
até à negra liquefação

e o cachorro de maldoror
nesta noite neste mundo
onde tudo é possível
salvo
o poema

falo
sabendo que não se trata disso
sempre não se trata disso
oh me ajuda a escrever o poema mais prescindível

o que não sirva nem para
se inservível

me ajuda a escrever palavras
nesta noite neste mundo

[tradução de nina rizzi] 

 

En esta noche, en este mundo

A Martha Isabel Moia

en esta noche en este mundo 
las palabras del sueño de la infancia de la muerta 
nunca es eso lo que uno quiere decir 
la lengua natal castra 
la lengua es un órgano de conocimiento 
del fracaso de todo poema 
castrado por su propia lengua 
que es el órgano de la re-creación 
del re-conocimiento 
pero no el de la re-surrección 
de algo a modo de negación 
de mi horizonte de maldoror con su perro 
y nada es promesa 
entre lo decible 
que equivale a mentir 
(todo lo que se puede decir es mentira) 
el resto es silencio 
sólo que el silencio no existe

no 
las palabras 
no hacen el amor 
hacen la ausencia 
si digo agua ¿beberé? 
si digo pan ¿comeré? 
en esta noche en este mundo 
extraordinario silencio el de esta noche 
lo que pasa con el alma es que no se ve 
lo que pasa con la mente es que no se ve 
lo que pasa con el espíritu es que no se ve

¿de dónde viene esta conspiración de invisibilidades? 
ninguna palabra es visible

sombras
recintos viscosos donde se oculta
la piedra de la locura
corredores negros
los he corrido todos
¡oh quédate un poco más entre nosotros!

mi persona está herida
mi primera persona del singular

escribo como quien con un cuchillo alzado en la oscuridad
escribo como estoy diciendo
la sinceridad absoluta continuaría siendo
lo imposible
¡oh quédate un poco más entre nosotros!

los deterioros de las palabras
deshabitando el palacio del lenguaje
el conocimiento entre las piernas
¿qué hiciste del don del sexo?
oh mis muertos
me los comí me atraganté
no puedo más de no poder

palabras embozadas
todo se desliza
hacia la negra licuefacción

y el perro del maldoror
en esta noche en este mundo
donde todo es posible
salvo
el poema

hablo
sabiendo que no se trata de eso
siempre no se trata de eso
oh ayúdame a escribir el poema más prescindible

el que no sirva ni para
ser inservible

ayúdame a escribir palabras
en esta noche en este mundo

[Alejandra Pizarnik,  «Árbol de Fuego», Caracas, dezembro de 1971]

§

[sem título]

a língua do poema
é outra língua
não necessita de tradução
a língua do poema
idioma sem
possibilidade de decifração
matemática
arquitetura
música
liame que ata palavras e sons
e o ritmo do sangue
do próprio sangue
a língua do poema
é outra língua
vallejo me Isten
é outra língua
não necessita de tradução
vallejo me Isten
não necessita de tradução
vallejo me Isten

esta ranhura
não necessita
de tradução
a língua do poema é outra língua.

[para a conversa às pressas com Mara e Mila, e Vallejo na boca de Granados. é outra língua]

  • micheliny verunschk, recolhido no facebook

***

 

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poesia, tradução

Fanny Becerra Vergara, por Sandra Santos

Fanny Becerra Vergara é uma poeta colombiana nascida em Bucamaranga, em 1956. Entre os seus poemas, destacam-se: “Quiero Aturdirme”, “Mi oficio”, “La tierra es alegre”, “Qué bueno es sentirse sin ganas”, “Para que todos los días sen distintos”, “Amor pasajero”, “Lapsus”, “Palabras al viento”, “Quiero aturdirme”, “¡Cuidado!”, “El otro yo”, “Treinta años”, “Tormenta” e “Que llueva”.

Sandra Santos (Portugal, 1994). Escritora, tradutora e revisora. Licenciada em Línguas e Relações Internacionais (Faculdade de Letras da Universidade do Porto), é actualmente mestranda em Estudos Editoriais (Universidade de Aveiro). Participa em projectos culturais, artísticos e literários. Traduz do português e inglês para o espanhol e do inglês e espanhol para o português. As suas traduções estão publicadas em Portugal, Espanha e América Latina. Partilha o seu labor poético e artístico no seu blogue: http://sandrasantos-ss.blogspot.pt/.

* * *

CUIDADO!

Há uma parte de mim
que é intocável.
Não te metas com ela.
Estou disposta a defendê-la
com unhas e dentes
punhos e pontapés.
Com a própria vida.
Porque é a essência da minha vida
é a minha explicação
é o ponto de partida
é o começo.
Para defendê-la
não distingo amigos de inimigos.
A indecisão vira certeza.
Aí não há dúvidas.
Tudo é firme.
Para defender esse bastião
o preço a pagar
é a própria vida.
Não. Não me vais mudar.

¡CUIDADO!

Hay una parte de mí
que es intocable.
No te metas con ella.
Estoy dispuesta a defenderla
con uñas y dientes
patadas y puños.
Con la vida misma.
Porque es la esencia de mi vida
es mi explicación
es el punto de partida
es el comienzo.
Para defenderla
no distingo amigos de enemigos.
La indecisión se vuelve certeza.
Allí no hay dudas.
Todo es firme.
Para defender ese bastión
el precio a pagar
es la vida misma.
No. No me vas a cambiar.

§

AMOR PASSAGEIRO

Ele queria-me
mas queria que eu fosse comum e corrente.
Ele desejava-me
mas ia entregar-me à minha sorte.
A sorte quis que eu não fosse dele
e agora penso
que de as coisas terem sido
como quisera que fossem
persistiriam as minhas dúvidas
porque este mal não o cura ninguém
e amar alguém
é só trégua.
Não tenho paz.

AMOR PASAJERO

Él me quería
pero quería que yo fuera común y corriente.
Él me deseaba
pero iba a dejarme a mi suerte.
La suerte quiso que yo no fuera de él
y ahora pienso
que de haber sido las cosas
como quisiera que fuesen
seguirían existiendo mis dudas
porque este mal no lo cura nadie
y amar a alguien
es sólo tregua.
No tengo paz.

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