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3 traduções para 1 poema de Paul Celan

celan-paul

recentemente eu conversava com a poeta adelaide ivánova sobre o poema “engführung” do celan. ela me explicava os versos bonitos e falava sobre as traduções existentes para o português. fiquei encafifado com o dito poema e no começo dessa semana pedi ao guilherme gontijo flores que o traduzisse. ele, pronta e maniacamente, traduziu. em pouquíssimas horas. o resultado é esse que vocês podem conferir abaixo.

como o poema é demasiado grande, deixarei linkadas as outras traduções que encontrei na internet, pra não deixar o post irritantemente longo. encontrei, na revista zunái, uma tradução feita por simone homem de mello (clique aqui). uma outra tradução encontrada foi a feita por claudia cavalcante (clique aqui). infelizmente, não consegui encontrar online a tradução feita por flávio kothe.

 

sergio maciel

 

* * *

 

ENGFÜHRUNG

VERBRACHT ins
Gelände
mit der untrüglichen Spur:

Gras, auseinandergeschrieben. Die Steine, weiß,
mit den Schatten der Halme:
Lies nicht mehr – schau!
Schau nicht mehr – geh!

Geh, deine Stunde
hat keine Schwestern, du bist –
bist zuhause. Ein Rad, langsam,
rollt aus sich selber, die Speichen
klettern,
klettern auf schwärzlichem Feld, die Nacht
braucht keine Sterne, nirgends
fragt es nach dir.
*

Nirgends
fragt es nach dir –

Der Ort, wo sie lagen, er hat
einen Namen – er hat
keinen. Sie lagen nicht dort. Etwas
lag zwischen ihnen. Sie
sahn nicht hindurch.

Sahn nicht, nein,
redeten von
Worten. Keines
erwachte, der
Schlaf
kam über sie.
*

Kam, kam. Nirgends
fragt es –

Ich bins, ich,
ich lag zwischen euch, ich war
offen, war
hörbar, ich tickte euch zu, euer Atem
gehorchte, ich
bin es noch immer, ihr
schlaft ja.
*

Bin es noch immer –

Jahre.
Jahre, Jahre, ein Finger
tastet hinab und hinan, tastet
umher:
Nahtstellen, fühlbar, hier
klafft es weit auseinander, hier
wuchs es wieder zusammen – wer
deckte es zu?
*

Deckte es
zu – wer?

Kam, kam.
Kam ein Wort, kam,
kam durch die Nacht,
wollt leuchten, wollt leuchten.

Asche.
Asche, Asche.
Nacht.
Nacht-und-Nacht. – Zum
Aug geh, zum feuchten.
*

Zum
Aug geh,
zum feuchten –

Orkane.
Orkane, von je,
Partikelgestöber, das andre,
du
weißts ja, wir
lasens im Buche, war
Meinung.

War, war
Meinung. Wie
faßten wir uns
an – an mit
diesen
Händen?

Es stand auch geschrieben, daß.
Wo? Wir
taten ein Schweigen darüber,
giftgestillt, groß,
ein
grünes
Schweigen, ein Kelchblatt, es
hing ein Gedanke an Pflanzliches dran –

grün, ja
hing, ja
unter hämischem
Himmel.

An, ja,
Pflanzliches.

Ja.
Orkane, Par-
tikelgestöber, es blieb
Zeit, blieb,
es beim Stein zu versuchen – er
war gastlich, er
fiel nicht ins Wort. Wie
gut wir es hatten:

Körnig,
körnig und faserig. Stengelig,
dicht;
traubig und strahlig; nierig,
plattig und
klumpig; locker, ver-
ästelt –: er, es
fiel nicht ins Wort, es
sprach,
sprach gerne zu trockenen Augen, eh es sie schloß.

Sprach, sprach.
War, war.

Wir
ließen nicht locker, standen
inmitten, ein
Porenbau, und
es kam.

Kam auf uns zu, kam
hindurch, flickte
unsichtbar, flickte
an der letzten Membran,
und
die Welt, ein Tausendkristall,
schoß an, schoß an.
*

Schoß an, schoß an.
Dann –

Nächte, entmischt. Kreise,
grün oder blau, rote
Quadrate: die
Welt setzt ihr Innerstes ein
im Spiel mit den neuen
Stunden. – Kreise,

rot oder schwarz, helle
Quadrate, kein
Flugschatten,
kein
Meßtisch, keine
Rauchseele steigt und spielt mit.

*

Steigt und
spielt mit –

In der Eulenflucht, beim
versteinerten Aussatz,
bei
unsern geflohenen Händen, in
der jüngsten Verwerfung,
überm
Kugelfang an
der verschütteten Mauer:

sichtbar, aufs
neue: die
Rillen, die

Chöre, damals, die
Psalmen. Ho, ho-
sianna.

Also
stehen noch Tempel. Ein
Stern
hat wohl noch Licht.
Nichts,
nichts ist verloren.

Ho-
sianna.

In der Eulenflucht, hier,
die Gespräche, taggrau,
der Grundwasserspuren.
*

(– – taggrau,
der
Grundwasserspuren –
Verbracht
ins Gelände
mit
der untrüglichen
Spur:

Gras.
Gras,
auseinandergeschrieben.)

 

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Ruínas da Grande Sinagoga do Gueto de Varsóvia, 16 de maio de 1943.

ESTREITO

Enviados ao
terreno
com o inequívoco rastro:

capim, escrito à parte. As pedras, brancas,
com as sombras dos talos:
Leia não — olhe!
Olhe não — vá!

Vá, tua hora
não tem irmãs, você está —
está em casa. Uma roda, lenta,
gira em si mesma, os raios
sobem,
sobem em campo breu, a noite
não pede estrela, nenhures
perguntam por você.

*

Nenhures
perguntam por você —

O lugar onde jaziam tem
um nome — tem
nenhum. Não jaziam ali. Algo
jazia entre eles. Não
viam através.

Não viam, não,
falavam de
palavras. Nenhum
despertou, o
sono
veio sobre todos.

*

Veio, veio. Nenhures
perguntam —

Eu sou, eu,
eu jazia entre vocês, estava
aberto, estava
audível, tiquei pra vocês, seu alento
assentiu, sou
eu ainda, vocês
dormem sim.

*

Sou eu ainda —

anos.
Anos, anos, um dedo
tateia acima, abaixo, tateia
em torno:
Suturas, palpáveis, aqui
tudo se fende à parte, aqui
tudo se junta outra vez — quem
o cobriu?

*

O cobriu —
quem?

Veio, veio.
Veio uma palavra, veio,
veio pela noite.
queria luzir, queria luzir.

Cinzas.
Cinzas, cinzas.
Noite.
Noite-e-noite. — Vá
no olho, no úmido.


no olho,
no úmido —

ciclones.
ciclones, desde sempre,
borrasca de partículas, o outro,
você
bem sabe, nós
o lemos no livro, era
opinião.

Era, era
opinião. Como
nos tocamos —
como com
estas
mãos?

Também está escrito que.
Onde? Nós
fizemos silêncio sobre isso,
veneno-estático, imenso,
um
verde
silêncio, um sépalo, nele
pende um pensamento de vegetal —

verde, sim
pende, sim
sob um perverso
céu.

De, sim,
vegetal.

Sim.
Ciclones, borras-
cas de partículas, sobrou
tempo, sobrou,
pra tentar com a pedra – ela
foi acolhedora, ela
não cortava a palavra. Como
estávamos bem:

granulada,
granulada e fibrosa. Hasteada,
densa;
uval e radiante; renal,
plana e
grumosa; porosa, rami
ficada – ela, isso
não cortava a palavra,
falava:
falava com gosto a olhos secos, antes de cerrá-los.

Falava, falava.
era, era.

Nós
não cedemos, paramos
de pé no meio, um
prédio-poro, e
ele veio.

Veio sobre nós, veio
através, remendou
invisível, remendou
na última membrana,
e
o mundo, um milicristal,
medrou, medrou.

Medrou, medrou.
Então —

Noites, desmistas. Círculos
azuis ou verdes, rubros
quadrados: o
mundo põe seu mais íntimo
em jogo com as novas
horas. — Círculos,
rubros ou negros, claros
quadrados, sem
sombra de voo,
sem
prancheta, sem
alma-fumo que sobe e segue o jogo.

Sobe e
segue o jogo —

No voo da coruja, junto
à lepra pétrea,
junto
às nossas mãos fugidas, na
mais nova recusa,
sobre
o para-balas no
paredão enterrado:

visível, de
novo: os
sulcos, os

coros, outrora, os
salmos. Ho, ho-
sianna.

Assim
estão de pé os templos. Uma
estrela
talvez mantenha a luz.
Nada,
nada está perdido.

Ho-
sianna.

No voo da coruja, aqui
as conversas, gris-dia,
dos rastros de aquíferos.

( — — gris-dia,
dos rastros de aquíferos —

Enviados ao
terreno
com
o inequívoco
rastro:

Capim.
Capim,
escrito à parte.)

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poesia, tradução

uma tradução medoñenta pra pink dog, por nóspornós

Elizabeth Bishop com índios em visita à Amzônia

Elizabeth Bishop em visita à Amazônia – com índios que gritam num silêncio ensurdecedor EU NÃO SOU SEU ZOOLÓGICO.

 

claro que a poema podia estar e está nos icebergs imaginários. mas essa poema só quer ficar dançada num beatboompá do rap sem qualquer música e arranha lá no fundo mais que rima —rhythm and poetry. essa poema só quer dançar a tradução mais analfabeta, dançar co’cês tudim. todos coloridin todos índios todos pretos coloridos pretos e aqueles pretos e os quase todos pretos de tão pobres.

         nina rizzi

***

Cã-de-rosa

[Fortaleza]

O sol é encarnadoescaldante, o céu azul puro cirrus.
Cangas & biquínis vestem a praia de todos coloridos.
Nua, entre o passo bêbo e a corrida, você cruza a avenida.

Ó, nunca vi uma cadela tão peladinha!
Peladinha, cor-de-beiços, imberbe cã-de-rosa…
Assustada, a reca recua – olha ispritada.

Claro que tão espumando de gastura, com medo de raiva.
Tá é abirobado não, mãh! – é um caso de sarna
avie lá os zóim enribado. Onde estão seus bebêzim?

(A mãe, escarraga a enfermeira, com as tetas cheias, amojadas)
Em que favela você os escondeu, puta pobre, cadela, rapariga
enquanto implora? vive de seus zói picardia e sebo nas canela?

Você não sabia? Saiu no Barra Pesada, em todos os jornais, que é                        [que fazem
para resolver esse tipo de problema; como você acha que lidam com                         [a ruma
de mendigos? Assuvia feito Iara e rebola tudim na maré cheia, até                         [chegar na Barra.

Podiscrê: verminoso, chambregado, zuruó, aleijados, descatitados
todos vão nadando pelo esgoto que escorrega nas periferias escuras.

Se fazem isso com quem implora desmilinguido
cus de cana e noiados e pebados, tomados pela cirrose e fome e                        [neurose
o que não fariam por uma doente de quatro, cãs, cadelas?

Nas barbearias, bares, livrarias, calçadas e esquinas
a piada é o arengue com os mendigos
– ao invés de dar esmolas, dão coletes salva-vidas.

Mas você, cã-de-rosa, não seria capaz
de remar com suas pernas nem sequer boiar.
Avie: uma idéia prática, a delicada

solução é se mascarar.
Esta noite você não precisa se dar ao luxo de ser essa bosta-
merda monstruosa. Será única, cã-de-rosa mascarada micareta.
Logo invém quarta de cinzas, mas oxe! todo dia é carnaval, feriado                        [nacional.
Você pode sambar? Como vai se fantasiar, papangu?

Todos dizem que o Carnaval é um festejo coisado
– as rádios, os crentes, os descontentes, esse povo fêi que bota
buneco em tudo o que é pra gente. Conversa fiada, mininu.

O Carnaval é só o mi disbuiado, é porreta!

Arribe! uma cadela depilada e tão rosinha assim nuazinha não                        [pega bem.
Sai do mei! se fantasie, se mascare e dance o Carnaval!

Iiiiiiêêêiiiiii!!!

Fortaleza, 2017.

 

PINK DOG

[Rio de Janeiro]

The sun is blazing and the sky is blue.
Umbrellas clothe the beach in every hue.
Naked, you trot across the avenue.

Oh, never have I seen a dog so bare!
Naked and pink, without a single hair…
Startled, the passersby draw back and stare.

Of course they’re mortally afraid of rabies.
You are not mad; you have a case of scabies
but look intelligent. Where are your babies?

(A nursing mother, by those hanging teats.)
In what slum have you hidden them, poor bitch,
while you go begging, living by your wits?

Didn’t you know? It’s been in all the papers,
to solve this problem, how they deal with beggars?
They take and throw them in the tidal rivers.

Yes, idiots, paralytics, parasites
go bobbing int the ebbing sewage, nights
out in the suburbs, where there are no lights.

If they do this to anyone who begs,
drugged, drunk, or sober, with or without legs,
what would they do to sick, four-legged dogs?

In the cafés and on the sidewalk corners
the joke is going round that all the beggars
who can afford them now wear life preservers.

In your condition you would not be able
even to float, much less to dog-paddle.
Now look, the practical, the sensible

solution is to wear a fantasía.
Tonight you simply can’t afford to be a-
n eyesore… But no one will ever see a

dog in máscara this time of year.
Ash Wednesday’ll come but Carnival is here.
What sambas can you dance? What will you wear?

They say that Carnival’s degenerating
— radios, Americans, or something,
have ruined it completely. They’re just talking.

Carnival is always wonderful!
A depilated dog would not look well.
Dress up! Dress up and dance at Carnival!

1979

[Elizabeth Bishop, New Poems, 1979]

 

Padrão
poesia, tradução

Prufrock, Sayão, Pedrosa, por André Capilé

“O verso mais interessante já escrito em nosso idioma se obtém ou tomando uma forma muito simples, como o pentâmetro jâmbico, e constantemente se afastando dela, ou partindo da ausência de forma e constantemente se aproximando de uma forma muito simples. É esse contraste entre fixidez e fluxo, essa discreta fuga da monotonia, que constitui a própria vida do verso. […] Podemos, pois, apresentar a seguinte formulação: o fantasma de algum metro simples deve sempre esconder-se atrás do cortinado, até mesmo no verso mais ‘livre’” [T. S. Eliot em tradução do Paulo Henriques Britto].

Sendo “A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock” um dos poemas mais traduzidos do modernismo anglófono, haveria, ainda, motivações razoáveis em repetir, mais uma vez, a empreitada?

Empreendendo uma pesquisa sobre verso livre no Brasil, acompanhando de perto as reflexões de Paulo Henriques Britto, encontrei-me instigado a mexer com esse poema. Ao ler alguns prosodistas estadunidenses sobre o tema, e suas obsessões contabilistas — já não me lembro se Fussel ou Beyers —, apontavam que no desenvolvimento formal da “love song” era possível encontrar um pouco mais de 50% dos versos marcados pelo regime do pentâmetro — a tal “forma muito simples” que ora se aproxima, ora se afasta, dita por Eliot.

Quando me dirigi às versões que encontrei, embora tenha lido algumas prodigiosamente realizadas no âmbito do ritmo, de modo geral esse regime de medida era sumariamente negligenciado. As respostas que comumente são dadas ao pentâmetro, em língua portuguesa, são endereçadas ao decassílabo ou ao dodecassílabo. Vide, por exemplo, essa inversão com a brilhante tradução de Bishop ao poema do Vinícius no âmbito da forma, em que ela converte em pentâmetros os dodecassílabos dele — Scandolara trata disso aqui: https://escamandro.wordpress.com/2012/07/11/elizabeth-bishop-tradutora/

Tentei, o melhor possível, responder a esses pentâmetros encontrados na “love song”. Mas ainda outro incômodo comparecia: a negligência dos esquemas de rimas que Eliot disseminava ao longo de todo o poema. A tradução a que a maioria das pessoas tem acesso é a de Ivan Junqueira, justamente ela é a que mais se afasta dessas proposições.

O pentâmetro, ali, é a enzima que mobiliza o que Eliot chama de “metro fantasma”, um elemento persecutório que martela o ouvido, habituado ou não, na insistência de uma familiaridade rítmico-sonora. Pensemos, por exemplo, no “poema sujo” do Gullar. Acredito ser incontornável a audição, aqui e ali, do fantasma de arte menor das redondilhas maiores jogando com o ritmo físico da mancha gráfica. Mas esse assunto é outro.

Ainda com as rimas o caso é o mesmo. Cada turno estrófico em que Eliot emprega um esquema de rimas, ainda que irregular, joga o tempo todo com o monumento da tradição como se o traísse pela brecha do ridículo. É o “admirabilíssimo ão”, é o “mundo mundo vasto mundo” da anglofonia. Elementos, no fim das contas, que são incontornáveis, a meu ver.

Traduzi esse poema para entrar numa coleção intitulada “Herbert Richers” da Edições Macondo. É uma versão brasileira. A melhor possível. Obviamente me vali das traduções realizadas, e postadas, aqui na escamandro. Muitas vezes uma ótima idéia, rimada com geléia, já havia sido realizada. E, naturalmente, impunha outra tomada de caminho.

As opções, de modo geral, ficam bem claras e não creio que careceriam de maiores apontamentos. Mas uma questão incomoda a muita gente boa: a tradução do nome do J. Alfred Prufrock por J. Pinto Sayão. Não vou me alongar, mas pensando um bocado na figura da personagem, fantasiando uma etimologia para Prufrock, chegou-se em “prurience” e “frock”, a justa “lascívia” da “batina”. Sayão garante um certo ar de aristocracia. E aí está. Mas devo, mesmo, esse nome ao Paulo Henriques Britto. O mérito não é nada meu.

O que me pertence, no fim, é a glosa roubada da canção. Em J. Geraldo Pedrosa, um nome mais comum, fora o início, que é tentativa de dar cabo a outras possibilidades de abertura, há toda um despojo pra jogar, mais uma vez, com a quase impossível tarefa de traduzir “as moças que vem, as moças que vão, falando sem parar pelo salão”.

 

André Capilé é um poeta brasileiro, nascido em Barra Mansa, Rio de Janeiro, em 1978. É graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Mestre em Letras pela PUC-Rio. Doutor em “Literatura, Cultura & Contemporaneidade”, também pela PUC. Publicou rapace [2012 – Editora TextoTerritório] e balaio [2014 – 7Letras]; traduziu, para a Edições Macondo, “The Love Song of J. Alfred Prufrock” na coleção Herbert Richers. Estão no prelo: chabu e troco da passagem — ambos saírão pela editora TextoTerritório. Publicará muimbu pela Edições Macondo agora em abril. Tem publicado textos esparsos em revistas e sites de literatura.

* * *

A CANÇÃO DE AMOR DE J. PINTO SAYÃO

S’io credesse che mia risposta fosse
A persona che mai tornasse ai mondo,
Questa fiamma staria senza più scosse.
Ma per cio che giammai di questo fondo
Non torno vivo alcun, s’i’ odo il vero,
Senza tema d’infamia ti rispondo.

Então vamos, você e eu,
Quando o fim da tarde é espalhado contra o céu
Como um paciente eterizado sobre a mesa;
Vamos, por certas ruas meio ermas,
Resmungando da noite o refúgio
no pernoite inquieto em hotéis vagabundos;
E as ostras com serragem nos botecos:
Ruas que seguem como uma discussão tediosa
Cuja intenção insidiosa
É conduzir você à questão crucial . . .

“Qual é?” Ah, não me inquira
Vamos logo fazer nossa visita.

As moças vêm, as moças vão
Falando sobre Michelangelo no salão.

A bruma ocre que esfrega o dorso em volta das vidraças,
O fumo ocre que esfrega o focinho nas vidraças
Lambeu os beiços nas esquinas do crepúsculo,
Pôs-se na poça a chafurdar o charco,
Deixou cair nas costas a fuligem que vem das chaminés,
Deslizou pela laje, deu um salto súbito,
E vendo que era uma branda noite de outubro,
Por inteiro enrolou-se em volta da casa, e dormiu.

E muito certamente haverá tempo
Pra que flua pela rua a parda fumaça
Esfregando o dorso pelas vidraças;
E sim, haverá tempo, haverá tempo
De preparar um rosto que outro rosto encare;
Haverá tempo para matar e criar,
Tempo de mãos, para os trabalhos e os dias,
Que erguem e lançam questões no seu prato;
Tempo para você, tempo pra mim,
E tempo ainda de mil e uma indecisões,
Também de inúmeras visões e revisões,
Antes da hora de torradas com chazinho.

As moças vêm, as moças vão
Falando sobre Michelangelo no salão.

E muito certamente haverá tempo
Para se perguntar: “Devo eu ousar?” e, “Eu devo ousar?”
Tempo de dar meia volta e descer as escadas,
Com o meu cocuruto calvo como um alvo —
(E dirão: “Como o cabelo dele está ficando ralo!”)
Meu paletó, colarinho engomado, o queixo firme,
Alfineto a gravata, mui discreta e chique,
(E dirão: “Como as pernas e braços dele estão magrinhos. ”)
E eu devo ousar
Perturbar o universo?
Em um minuto temos tempo
Pra decisões e revisões que num segundo verão seu reverso.

A todos conheci, já sei de tudo: —
Sei bem as noites, as manhãs, as tardes,
Tenho a vida medida em colheres de chá;
E sei, num fim de outono, as vozes moribundas
Que vem de um salão remoto, sob música.
Como então eu presumiria?

Conheci de todos, os olhares, os olhares todos —
Olhos te acertam numa frase lapidar,
E quando eu estiver formulado, estrebuchando em um alfinete
E eu estiver espetado e contorcido na parede,
Como então deveria eu começar
A escarrar o bagaço da vida diária?
E como eu presumiria?

E também sei de braços, todos eles —
Brancos e nus os braços portam braceletes
(Mas a lâmpada alumbra a penugem castanha!)
Vem do perfume das saias
O que me faz divagar?
Esses braços pousados numa mesa, ou envoltos em um xale.
E como eu presumiria?
E eu começaria como?

.      .      .      .      .      .      .      .      .

Diria: Caminhei no crepúsculo por vielas estreitas,
Vendo a fumaça subir dos cachimbos
De homens sós, em camisetas, nas janelas? . . .

Eu deveria ter sido um par de garras molambentas
Escrutando o fundo de mares silentes.

.      .      .      .      .      .      .      .      .

E a tarde dorme, anoitecendo, tão pacífica!
Apalpada por longos dedos,
Dormente . . . fatigada . . . ou achacadiça,
Estirada no chão, aqui, ao lado de mim e você.
Eu deveria, após o chá, sorvete e quiche,
Ousar levar esse momento a uma crise?
Apesar de choro e jejum, choro e oração,
E de ter visto minha cabeça (um pouco calva) ser carregada
[ sobre uma travessa,
Não sou profeta —, isso em nada interessa;
Vi meu momento de glória piscar,
Vi o eterno lacaio vestir-me o casaco, e assobiar;
Em resumo: eu tive medo.

Valeria a pena, depois de tudo?
Depois das xícaras, geléia e chá,
Em meio à porcelana, em meio às nossas falas,
Teria valido a pena,
Cortar, com um sorriso, o falatório;
Ter premido o universo numa bola
Que rola ao crucial questionamento;
Dizer: “Sou Lázaro, venho dos mortos,
Vos direi tudo, Eu tudo Vos direi na volta” —
Se alguém, pousando a testa na almofada,
Balbuciasse: “Não disse bem isso; contudo
Falei mas não assim, em absoluto”.

Valeria a pena, depois de tudo,
Teria valido a pena,
Depois do por do sol, os fundos de quintais e as ruas polvilhadas,
Depois do chá das cinco, da novela das seis, do giro no salão
[ com a saia rendada —
É isto, e então: mais nada? —
É impossível dizer justo o que quis dizer!
Como se houvesse projetado uma lanterna mágica, na tela,
[ uma sessão de nervos:
Teria valido a pena
Se alguém, ao ajeitar uma almofada ou retirar um xale,
E voltando-se em direção à janela, dissesse:
“Não é nada disso;
Não foi nada disso que eu quis dizer.”

.      .      .      .      .      .      .      .      .

Não! Não sou, nem quis ser, Príncipe Hamlet;
Sou um lorde cortesão, que servirá
De figurante com andar solene, iniciada uma ou outra cena,
Aconselhar o príncipe: uma ferramenta simples, sem dúvida;
Respeitoso, contente de ser útil,
E meticuloso, e cauto, e prudente;
Um fraseado pomposo, mas um pouco obtuso;
Às vezes parece um tanto ridículo —
Às vezes, de fato, o BUFO.

Envelheci . . . Ah, eu envelheci . . .
Dobrar as bainhas das calças eu consegui.

Partirei pelo meio o meu cabelo? Me atreverei comer um pêssego?
Vestirei calça branca de flanela, e vou andar sobre a areia.
De uma pra outra, ouvi cantar sereias.

Não devo crer que cantarão pra mim.

Nas ondas do mar, cavalgando, as vi
No recuo das vagas, penteando crinas claras
Que o vento rufla, em preto & branco, as águas.

Cingem-nos as Ondinas com grinaldas de algas pardas e rubras
Nas câmaras do oceano persistimos
Até que humanas vozes nos despertam, e sucumbimos.

§

A cantilena de J. Geraldo Pedrosa

Poderia começar tudo de novo —
como enxugar o gelo ou alisar um ovo —
dizendo simplesmente: “as moças vão e vem”.
Contudo, seguem os segundos sem demora.
E se pergunta: “o que é que vem agora?”
Agora já passou mais um segundo,
— talvez eu te visite em mais um turno,
ó mundo que me deu só um amor.
E o tempo é pra perder — não é terrível
poupar a vida temendo o ridículo?
Saber que o mel, dessa canção, é um horror?
Então, vou me montar, passar o rímel;
espera mais um pouco, e já saímos
— é hora de largarmos os relógios.
E aí? Vamos agora, só nós dois,
quando espalhado contra o céu o sol se pôs
como um paciente eterizado ali na maca;
certo, as ruas estão meio desertas,
mas não reclame muito, se o refúgio inquieta
a noite, se o pernoite é num motel barato,
ou se os botecos dão-nos ostras com borralho:
feito papo furado a via ruma
por intenções movidas com astúcia
conduzindo-o à questão excruciante. . .
“Qual é?” Ah, nem me venha com seus arremedos:
a vida é muito curta pra ter medo
e as moças vão e vêm, num toma lá dá cá
(feito uma aparição no meio do tumulto
— as pétalas no charco, e os galhos brunos).
e as falas principais são das atrizes —
quando começam, não há quem as pare:
garotas que azulejam Portinari,
não deixam por riscar mais uma prise.
a vida é pura, e as moças vêm e vão
falando sem parar pelo salão.
O drama inicial foi bem dinâmico —
quando começa a dança, ele vai ver:
garotas que se clicam por Monet,
deixam de ser motivo (e desce pano).
A vida é rara, e as moças vêm e vão
falando sem parar pelo salão.
Cansou de artista plástico um minuto —
o assunto é borrachudo, como um cheque:
talvez seja melhor samba de breque,
e o que sobra do tom é bem cascudo.
A vida é bamba, e as bossas vão durar
pelo salão… enquanto tocam sem parar.

Padrão
tradução

Primeiro diálogo entre Petrúquio e Catarina, por Matheus Mavericco

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Esse aqui é um dos diálogos mais engraçados que já devo ter lido. Acho que não será necessário sequer introduzi-lo. Você já conhece a situação: Catarina é a megera e Petrúquio… Bem. Petrúquio é um Joselito da vida, se é que me entendem. Mais cedo ou mais tardes eles tinham que se topar, e quando se topassem, pensa na cena que não ia dar! Pois é. Deu nessa.

Não tive acesso a muitas traduções desta passagem. Na verdade, tive acesso somente à tradução do Millôr, que é talvez a mais célebre. O Millôr de um modo geral foi um gênio quando o assunto era traduzir trocadilhos. No início de Hamlet, por exemplo, o Cláudio pergunta pro Hamlet porque motivo ele, Hamlet, tava todo emburrado daquele jeito, fazendo cara feia. Pergunta idiota, tolerância zero. Teu pai morreu há pouco tempo (The memory be green). Quer o quê? Que eu fique alegre, solte foguete? Pois é. Hamlet diz, à parte: “A little more than kin, and less than kind”. Sacou? kin, kind. Cláudio agora era mais do que um tio, mas era less than kind. kind tem muitos sentidos: Cláudio era parente de Hamlet mas os dois eram personalidades muito distintas, Cláudio não era alguém normal (o cara tava se engraçando pra esposa do irmão) e Cláudio não era alguém que tinha um pingo de consideração. Millôr consegue se sair muito bem com seu “Me perfilha como primo, pois não primo como filho.” (Lembre-se que “primo”, como no original em inglês, cousin, tinha, à época, um sentido bem mais amplo que também abarcava a figura dos sobrinhos.) Lawrence Flores Pereira, que lançou recentemente sua tão aguardada versão da peça, também se sai com felicidade, traduzindo para “Quase da mesma cepa, mas não do mesmo corpo.”

Este é só um exemplo. Literalmente duas linhas depois teremos outro trocadilho, desta vez envolvendo sun e son. Enfim. Estar atento a coisas assim é fundamental na hora de traduzir, muito pra tentar manter a graça do original. O problema é que nem sempre você consegue uma tradução que bata de maneira exata com o letra-por-letra do original. O que fazer? Fugir, justamente, da letra do original para, de modo paradoxal, se aproximar dela. (Aliás é isso mesmo que o Millôr diz a respeito desse primeiro diálogo.) Quer dizer: não dá pra traduzir um trocadilho achando que na base da nota de rodapé tudo vai se resolver. É preciso mostrar agudeza e graça. Eis a questão.

Existem trocadilhos dos mais variados tipos ao longo desse diálogo entre Petrúquio e Catarina, alguns (a maioria) um tanto quanto ridículos. Veja-se quando saímos de should be para a sugestão de uma abelha (bee), para o zumbido da abelha (buzz), para buzzard (um tipo de ave), daí para turtle (outro tipo de ave) e por aí vamos. Tudo meio idiota, mas com um grau de raciocínio rápido, um jogo de farpas frenético que leva a plateia ao delírio. Tentei corresponder a tudo isso, claro que dentro das minhas capacidades e nem sempre correspondendo às áreas semânticas do original. Assim, na parte das abelhas, por exemplo, não consegui fazer a transição para a zona semântica das aves, ficando só na área das abelhas mesmo. Não sei dizer se fui bem sucedido nisto, mas posso dizer, pelo menos, que fiquei muito feliz com a parte do “favo de mel”, que faz referência direta à novela da Globo baseada, de resto, em A megera domada.

O texto utilizado e as notas consultadas foram as disponíveis nesse site aqui.

 

matheus mavericco

* * *

 

[Enter KATHARINA]

PETRUCHIO
Good morrow, Kate; for that’s your name, I hear.

KATHARINA
Well have you heard, but something hard of hearing:
They call me Katharina that do talk of me.

PETRUCHIO
You lie, in faith; for you are call’d plain Kate,
And bonny Kate and sometimes Kate the curst;
But Kate, the prettiest Kate in Christendom
Kate of Kate Hall, my super-dainty Kate,
For dainties are all Kates, and therefore, Kate,
Take this of me, Kate of my consolation;
Hearing thy mildness praised in every town,
Thy virtues spoke of, and thy beauty sounded,
Yet not so deeply as to thee belongs,
Myself am moved to woo thee for my wife.

KATHARINA
Moved! in good time: let him that moved you hither
Remove you hence: I knew you at the first
You were a moveable.

PETRUCHIO
Why, what’s a moveable?

KATHARINA
A join’d-stool.

PETRUCHIO
Thou hast hit it: come, sit on me.

KATHARINA
Asses are made to bear, and so are you.

PETRUCHIO
Women are made to bear, and so are you.

KATHARINA
No such jade as you, if me you mean.

PETRUCHIO
Alas! good Kate, I will not burden thee;
For, knowing thee to be but young and light–

KATHARINA
Too light for such a swain as you to catch;
And yet as heavy as my weight should be.

PETRUCHIO
Should be! should–buzz!

KATHARINA
Well ta’en, and like a buzzard.

PETRUCHIO
O slow-wing’d turtle! shall a buzzard take thee?

KATHARINA
Ay, for a turtle, as he takes a buzzard.

PETRUCHIO
Come, come, you wasp; i’ faith, you are too angry.

KATHARINA
If I be waspish, best beware my sting.

PETRUCHIO
My remedy is then, to pluck it out.

KATHARINA
Ay, if the fool could find it where it lies,

PETRUCHIO
Who knows not where a wasp does
wear his sting? In his tail.

KATHARINA
In his tongue.

PETRUCHIO
Whose tongue?

KATHARINA
Yours, if you talk of tails: and so farewell.

PETRUCHIO
What, with my tongue in your tail? nay, come again,
Good Kate; I am a gentleman.

KATHARINA
That I’ll try.

[She strikes him]

PETRUCHIO
I swear I’ll cuff you, if you strike again.

KATHARINA
So may you lose your arms:
If you strike me, you are no gentleman;
And if no gentleman, why then no arms.

PETRUCHIO
A herald, Kate? O, put me in thy books!

KATHARINA
What is your crest? a coxcomb?

PETRUCHIO
A combless cock, so Kate will be my hen.

KATHARINA
No cock of mine; you crow too like a craven.

PETRUCHIO
Nay, come, Kate, come; you must not look so sour.

KATHARINA
It is my fashion, when I see a crab.

PETRUCHIO
Why, here’s no crab; and therefore look not sour.

KATHARINA
There is, there is.

PETRUCHIO
Then show it me.

KATHARINA
Had I a glass, I would.

PETRUCHIO
What, you mean my face?

KATHARINA
Well aim’d of such a young one.

PETRUCHIO
Now, by Saint George, I am too young for you.

KATHARINA
Yet you are wither’d.

PETRUCHIO
‘Tis with cares.

KATHARINA
I care not.

PETRUCHIO
Nay, hear you, Kate: in sooth you scape not so.

KATHARINA
I chafe you, if I tarry: let me go.

PETRUCHIO
No, not a whit: I find you passing gentle.
‘Twas told me you were rough and coy and sullen,
And now I find report a very liar;
For thou are pleasant, gamesome, passing courteous,
But slow in speech, yet sweet as spring-time flowers:
Thou canst not frown, thou canst not look askance,
Nor bite the lip, as angry wenches will,
Nor hast thou pleasure to be cross in talk,
But thou with mildness entertain’st thy wooers,
With gentle conference, soft and affable.
Why does the world report that Kate doth limp?
O slanderous world! Kate like the hazel-twig
Is straight and slender and as brown in hue
As hazel nuts and sweeter than the kernels.
O, let me see thee walk: thou dost not halt.

KATHARINA
Go, fool, and whom thou keep’st command.

PETRUCHIO
Did ever Dian so become a grove
As Kate this chamber with her princely gait?
O, be thou Dian, and let her be Kate;
And then let Kate be chaste and Dian sportful!

KATHARINA
Where did you study all this goodly speech?

PETRUCHIO
It is extempore, from my mother-wit.

KATHARINA
A witty mother! witless else her son.

PETRUCHIO
Am I not wise?

KATHARINA
Yes; keep you warm.

PETRUCHIO
Marry, so I mean, sweet Katharina, in thy bed:
And therefore, setting all this chat aside,
Thus in plain terms: your father hath consented
That you shall be my wife; your dowry ‘greed on;
And, Will you, nill you, I will marry you.
Now, Kate, I am a husband for your turn;
For, by this light, whereby I see thy beauty,
Thy beauty, that doth make me like thee well,
Thou must be married to no man but me;
For I am he am born to tame you Kate,
And bring you from a wild Kate to a Kate
Conformable as other household Kates.
Here comes your father: never make denial;
I must and will have Katharina to my wife.

[Re-enter BAPTISTA, GREMIO, and TRANIO]

[Entra CATARINA]

PETRÚQUIO
Bom dia… Cata. Dizem que é seu nome.

CATARINA
Grande coisa que um surdo escute absurdos.
Aos que falam comigo, é Catarina.

PETRÚQUIO
Não, é mentira: você é a pacata,
A cara Cata às vezes caricata,
De toda a Cristandade a recatada.
Cata da Catalunha, que é catálogo
De encantos em cascata, tem catarse,
Cata, e aplaca, ó!, minha catástrofe;
Ouvi de seu carinho em cada canto,
Sua virtude e graça proclamada;
Porém, pois que no fundo não são tuas,
Eu fui movido a pedir tua mão.

CATARINA
Movido! Estou tão comovida: mova-se
Daqui então: imaginei que fosse
Igual um móvel.

PETRÚQUIO
Como assim um móvel?

CATARINA
Tamborete.

PETRÚQUIO
Também. Vem cá sentar.

CATARINA
Asnos que nem você são pra levar.

PETRÚQUIO
Seja embaixo ou no bucho, a mulher leva.

CATARINA
Mas não um pangaré que nem você.

PETRÚQUIO
Tá bom, Cata, não vou te aporrinhar.
Você é gente fina e jeitosinha ―

CATARINA
De um jeito muito fino pra vocês,
Gente abelhuda, pois que eu não afino.

PETRÚQUIO
Sou abelha sim, meu favo de mel.

CATARINA
Faça-me o favor.

PETRÚQUIO
Ó rainha! E se eu for mero zangão?

CATARINA
Pra me zangar assim, só se for mesmo.

PETRÚQUIO
Vamos, minha vespinha… Quanto doce!

CATARINA
Olha que acaba é enfiando a mão
Num vespeiro…

PETRÚQUIO
Eu enfio com prazer.

CATARINA
Vá se ferrar!

PETRÚQUIO
Me aferro em ti. Pois veja:
Onde fica o ferrão? No rabo.

CATARINA
Não. Na língua.

PETRÚQUIO
Que língua?

CATARINA
A sua, aberração. Adeus.

PETRÚQUIO
Minha língua no seu rabo? Vem cá,
Cata; sou cavalheiro ―

CATARINA
Ah é? Vejamos.

[Ela bate nele]

PETRÚQUIO
Bate de novo e quebro você toda.

CATARINA
Não se abrase de raiva:
Se me bater, não é mais cavalheiro,
E se já não é mais, não tem brasão.

PETRÚQUIO
Heráldica? Me põe nos exemplares!

CATARINA
E seu emblema, qual é? Uma crista?

PETRÚQUIO
Por quê uma crista? Quer ser minha franga?

CATARINA
Pra vir cantar de galo… Abaixa a crista!

PETRÚQUIO
Vamos lá, Cata, não seja nojenta.

CATARINA
É comum sentir nojo ao ver-se um verme.

PETRÚQUIO
Não tem verme aqui. Chega de nojeira.

CATARINA
Tem sim.

PETRÚQUIO
Me mostre.

CATARINA
Então me dê um espelho.

PETRÚQUIO
Oh. Verme. Ver-me. A minha cara.

CATARINA
Sim. A burrice é sua cara.

PETRÚQUIO
Mas, por São Jorge, você não me encara…

CATARINA
Assim, todo acabado.

PETRÚQUIO
Me acabo por você.

CATARINA
Sim, acabei de ver.

PETRÚQUIO
Olha bem, Cata: você não escapa.

CATARINA
Te irrito tanto, se eu ficar; me solte.

PETRÚQUIO
Nem um pouquinho; eu te acho tão gentil!…
Disseram: ela é rude, grossa, arisca,
Mas vejo que mentiram para mim;
Você é alegre, jovial, cortês,
Demora pra falar, mas é uma flor.
Não faz cara fechada ou olha torto,
Não morde o beiço, igual as mais nervosas,
Nem contradiz os outros a contento;
Com doçura entretém os pretendentes
Com prosa gentil, meiga e adorável.
Por quê é que o mundo diz que Cata é manca?
Mundo infame! Tal como o galho esguio
Da aveleira é você, Cata, e marrom
Como as avelãs, doce feito amêndoa.
Quero te ver andando. Sem mancar.

CATARINA
Vai dar ordem a teus criados, besta.

PETRÚQUIO
Diana adornará um bosque tal como
Cata, em passo fidalgo, este aposento?
Seja você Diana, e ela, Cata,
E Cata seja casta e Diana, afável.

CATARINA
Onde aprendeu esse discurso todo?

PETRÚQUIO
Vem do saber materno, extemporâneo.

CATARINA
Sei, sei… Mãe com juízo; o filho, sem.

PETRÚQUIO
Eu, sem juízo?

CATARINA
Sim, é bom tomar.

PETRÚQUIO
Posso tomar, sim, mas você, que tome!…
Enfim; já chega, chega desse papo,
Vou ser franco: seu pai já consentiu
Até com o dote: caso com você.
Cata, eu sou o marido que lhe cabe.
Pela luz que me mostra o teu encanto,
O encanto que me faz gostar de ti,
Juro: você só tem eu pra casar,
Pois sou quem vai domar você, ó Cata:
Cato a Cata selvagem, que me acata
E fica quieta igual Cata doméstica.
Ali vem seu pai: nada de negar;
Que eu devo e vou casar com Catarina.

[Reentram BATISTA, GRÊMIO e TRÂNIO (disfarçado de Lucêncio)]

Padrão
tradução

Severina Comédia

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La Divina Commedia, por Matteo Berton

long story short: durante o processo de expansão e dominação do império romano o latim funcionou, majoritariamente, como uma língua de superstrato, ou seja, como a língua do conquistador, exercendo aquela severa influência na língua (e cultura) dos vencidos e, com isso, ajudando a disseminar toda a carga cultural romana. nada de novo nisso, não é mesmo carmen miranda? a questão é que quando esse processo começa a entrar em declínio, lá no séc. III, logo após atingir sua extensão máxima no século anterior, e o império começa a perder territórios, o latim que até então funcionava como uma importante ferramenta de dominação dos povos também começa, ainda que muito lentamente, um processo seu também de declínio; criando, deste modo, o espaço propício pra que outras línguas, a dos novos conquistadores, neste caso, pudessem vir a atuar como novas línguas de superstrato. mirem o caso da península ibérica, por exemplo: território romano, a ‘hispânia romana’, é dominada pelos visigodos em 507, redominada pelos árabes em 711 e, pouco mais de sete séculos depois, 1492, reconquistada pelos cristãos. salada do caralho.

quando finalmente cai o império romano do ocidente, em 476 d.C., as antigas regiões de domínio romano, agora sob o domínio de outros povos, eslavos e germânicos, por exemplo, já haviam começado o processo de evolução a um estágio entre o latim propriamente dito e o latim em pó, para citar caetano veloso. todavia, é fundamental recordar uma coisa: o latim que passou a enfrentar mais fortemente esse processo de ‘suplantação’ foi, sem dúvida, o latim falado. o latim escrito, ainda que obviamente também suscetível aos mesmo processos de evoluções linguísticas, conseguia resistir como uma espécie de língua franca da cultura, da erudição e das elites. e é preciso, além disso, ter em mente a questões dos latins, ou seja, das variantes da língua. nossas palavras, em boa parte, descendem do primo pobre, do latim vulgar (vide o caso de ‘auris’ [orelha] que no diminutivo era ‘auricula’ e no vulgar virava ‘oricla’. assim fica fácil ver a nossa orelha vindo do populacho).

e é já lá pelo apontamentos do fim da idade média que essas línguas começam a se estruturar, junto com os próprios estados. portugal, por exemplo, no séc. XIII, rompendo com o galego-português e mudando a corte, e o centro de cultura, para o sul, eixo coimbra-lisboa.

é nesse contexto, portanto, bizarramente aqui resumido (prum panorama decente sobre essa questão linguística-histórica da evolução do latim pras línguas românicas, cf., por favor, o livro história concisa da língua portuguesa, de rodrigo tadeu gonçalves & renato miguel basso), que dante alighieri, no começo do séc. XIV, escreveu seu tratado de vulgari eloquentia, i.e., alguns anos antes de começar a divina commedia. ainda que o poeta buscasse identificar uma linguagem que atendesse às exigências de uma língua literária italiana verdadeira, um “ilustre vulgar”, o estabelecimento de um registro que fugisse já das normas intelectuais do latim certamente nos diz muito sobre sua obra. isto é, o interesse do poeta italiano por um registro gentílico, comum, até vulgar que seja, aponta precisamente pra esse turning point da formação das línguas.

sobre o tratado: eis que após tanto pesquisar as línguas que o circundavam, dante chega à inegável conclusão de que a melhor língua era, pasmem, aquela que ele mesmo falava (risos).

mas a questão que se impõe aqui, creio, é de outra ordem: dante fez com o italiano aquilo que camões faria com o português mais de dois séculos depois, i.e., definir as bases de uma língua que estava em processo de formação gramatical escrita a partir da criação de uma obra literária – as primeiras gramáticas do português só sairíam no mesmo século d’os lusíadas. ah, a poesia ajudando as línguas desde sempre (vide a odusia de lívio andronico). ou seja, ainda que todo o peso do gênio criador, do hermetismo e do preciosismo medieval recaiam sobre a obra de dante, não é possível ignorar a escolha política que se une à escolha da língua em que se escreve o poema. a épica de dante se inscreve precisamente num registro que habita o exterior daquilo que então se concebia como ‘língua de erudição’. basta apenas compararmos ao tratado, escrito em latim, que precede temporalmente o poema.

sobre tradução: o corolário de traduções da commedia (que é imenso, diga-se de passagem. clique aqui para ler as já publicadas no blog), de algum modo, costuma trabalhar justamente com o aspecto dantesco do poema, deixando de lado sempre esse aspecto linguístico que julgo um bocado importante. eu, por minha via, concebendo isso, não consigo me furtar a ver certa semelhança vulgar, gentílica & popular entre o poema de dante e, por exemplo, o auto de natal morte e vida severina, de joão cabral. do mesmo modo que maurício mendonça cardozo enxergou na novela der schimmelreiter, de theodor storm, uma abertura rosiana possível, criando seu centauro bronco. a casca pra mim é o tempo, mas o núcleo duro tá lá: o homem lutando contra a aridez de seu ambiente. o cenário frio e úmido do norte da alemanha não é, evidente, o mesmo que o sertão quente e seco brasileiro, contudo o caráter constritivo ronda ambos, assim tanto quanto a questão metafísica. ou: um homem começa à porta do inferno com a morte à ronda e caminha rumo à salvação e ao paraíso; um homem começa no sertão, à beira da morte por fome e sede, e caminha rumo à autosalvação e à possibilidade de vida. é tudo questão de um movimento de abertura das possibilidades de alcançar esse outro, de forçar a conversão da linguagem numa diversão (cf. gontijo, propércio, 2014), numa crise, num overdub, como gosto de chamar. é “dizer de um jeito todo outro, que parece mesmo nem repetir quando bem repete”. haroldo de campos, por exemplo, em seu famoso ensaio deus e o diabo no fausto de goethe, que já no título remete ao cinema de glauber rocha, também acha por bem mudar uma parte da obra do poeta alemão numa dicção cabralina. as possibilidades estão dadas, portanto.

ou seja, dito isto tudo, aquilo que me interessa é precisamente o ‘abrir um novo campo de leitura (ou desleitura) do texto’. em grande parte por esse próprio motivo é que trago apenas uns poucos versos em tradução. não venho propor uma tradução integral nestes modelos senão uma aproximação dialética possível, uma fricção de discursos. e com isso, claro, aceito o risco da conversão a ser feita – que aqui pode ser chamada de tradução, apropriação, mudança, trambique, reescrita, pouco me importa. me interessa, nesse caso, investigar uma possibilidade de desleitura do poema, de um estranhamento na sintaxe e semântica dantesca, na antropologia. nada muito diferente do nosso urubu, eu diria, exceto pela minha diletância.

dito tudo isto, again, cito will ferrell em blades of glory: “no one knows what it means, but it’s provocative“.

sem mais, passemos à tradução.

 

sergio maciel

* * *

Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura,
ché la diritta via era smarrita.

Ahi quanto a dir qual era è cosa dura
esta selva selvaggia e aspra e forte
che nel pensier rinova la paura!

Tant’è amara che poco è più morte;
ma per trattar del ben ch’i’ vi trovai,
dirò de l’altre cose ch’i’ v’ho scorte.

Io non so ben ridir com’i’ v’intrai,
tant’era pien di sonno a quel punto
che la verace via abbandonai.

No meio do caminho de
nossa vida, vejo-me agora
onde o pé se descaminha.
Em certa paragem escura,
de alma e gente vazia.
Eu que do caminho mais certo,
de todos o melhor guia,
pensei jamais me perderia,
tenho de saber agora
qual a verdadeira via
entre essas que escancaradas
frente a mim se multiplicam.
Como então dizer tais coisas
ora a Vossas Senhorias?
Como contar dessa selva
onde só a treva vejo ativa
e o medo cumpre sua sina?
E pouco mais é a morte
que narrar essa descida,
por isso darei notícia
da sorte que há na vida.
Dizer não sei ora a Vossas
Senhorias como dei
em tais tortas cercanias.
Tanto vencesse a fadiga
que emaranhei todo o fio
de que a estrada fosse a linha.

Padrão
tradução

Ingeborg Bachmann, por Adelaide Ivánova

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Ingeborg Bachmann é uma poeta canceriana nascida na Áustria em 1926. Lançou dois livros de poesia – Die gestundete Zeit (1953) e Anrufung des Größen Bären (1956), e depois parou, disse que não ia escrever poesia nunca mais, que ia se dedicar à prosa (de fato, teve uma produção intensa, escrevendo novelas, contos, romances, libretos etc., que lhe renderam grande prestígio). E à prosa se dedicou, mas não somente. Ia enfiando seus poemas na gaveta, sem mostrar a ninguém. E como não pensava em publicá-los, escrevia o que lhe desse na (belíssima) telha, se libertando dos esquemas formais tão presentes (e tão austeros) dos seus dois primeiros livros – então se não quisesse finalizá-los, e se não quisesse colocar vírgulas e se quisesse inventar palavras e se quisesse tocar o fodase nas declinações do acusativo, assim ela faria; assim ela fez.

Daí vem o que depois veio a ser reunido pela Piper Verlag no volume Ich weiß keine bessere Welt, poemas póstumos que são mais que poemas não-publicados, são sei lá, o coração (esse caçador solitário, esse jovem perverso, como disse (mais ou menos) Belchior) dela. Ok, foi cafona. Desculpa.

Os textos póstumos se aproximam muito mais da vida interna de Bachmann do que a produção publicada oficialmente. Ela sofreu demais e, se nos livros de 1953 e 1956 podemos sentir uma alma em desajuste com o mundo, nos póstumos Bachmann aceitou que essa alma dói, sim, mas que além disso tem um corpo que será sistematicamente violado – por guerras, por regimes totalitários, pelos homens, pelos nosso vícios, pelas doenças, pelas instituições.

Ingeborg Bachmann morreu em Roma, depois de um incêndio no seu quarto de hotel, em decorrência das queimaduras, em 1973 – época em que tomava cerca de cem comprimidos por dia, entre uppers e downers.

Quanto às traduções, escolhi três póstumos em que Bachmann tematiza a perda – a da voz criadora, a de um relacionamento (ou seja, “do mundo”) e a do próprio ofício. Enfim, a perda de si mesma, esse perder-se de vista que é afinal toda ruptura. Traduzi os poemas no mesmo estado de espírito pois, ainda que Jakob não desse a mínima pras coisas que eu faço, ele era meu consultor de traduções. Ele me explicava quando a palavra era um neologismo, quando tinha uma declinação misteriosa que eu não conseguia decifrar por causa de um verbo inesperadamente fora de lugar (uma ingeborgice que tanto amo), me ajudava enfim quando o poema era areia demais pro meu caminhãozinho alemão.

Mas Jakob foi embora e esses poemas são os primeiros que traduzo sem sua ajuda, sem a ajuda de quase ninguém (Jörg Brüggemann e Bernhard Jarosch me deram uns insights sobre o que fazer com as palavras que não-traduzi como “névoa vermelha”, “rastejantes” e “Exilado”). Não está exato, mas me diga, se nada é exato nessa vida, não são minhas traduções que vão ser.

Estou convencida de que traduzir a coisa deve ser o mesmo que escrever sobre ela. Assim, em certo momento na feitura dessas traduções (especialmente do último, que foi pra mim o mais desafiador pela ausência de verbos auxiliares e declinações MALUCAS) eu decidi fazer com elas o que a vida tinha feito comigo – me perder delas. Saí andando igual a Travis de Paris, Texas, insolente, querendo ver aonde a tradução me levava. “Como eu escreveria esse verso?”, me perguntava, mas também pensava em como dar um pé-na-bunda, terminar o namoro com uma estrofe, uma palavra, toda vez que empacava num mistério semântico. Porque uma vez entendido o que o poema quer dizer, o resto é de responsabilidade do tradutor (with great responsability comes great power, já diria Ru Paul, mas eu digo que vem também o direito de se divertir). Tentei deixar essa imprecisão, essa ausência, essa quase-desistência, esse break-up (e essas invenções, como inventado é todo romance) claros na tradução do último poema, que foi o semanticamente mais desafiador. Enfim, umas tradução-recibo aí procês.

adelaide ivánova

 

* * *

Meine Schreie verlier ich
wie ein anderer sein Geld
verliert, seine Moneten,
sein Herz, meine großen
Schreie verlier ich in
Rom, überall, in
Berlin, ich verlier auf
den Straßen Schreie,
wahrhaftige, bis
mein Hirn blutrot anläuft
innen, ich verlier alles,
ich verlier nur nicht
das Entsetzen, daß
man seine Schreie verlieren
kann jeden Tag und
überall

(de Ich weiß keine bessere Welt, da Piper)

eu perco meus gritos
como uma pessoa perde
seu dinheiro, suas moedas,
seu coração, meus gritos mais
altos eu perco em
roma, em todo lugar, em
berlim, pelas ruas eu
efetivamente perco
meus gritos, até que
meu cérebro se cobre
de névoa vermelha, eu perco tudo,
a única coisa que eu
não perco é esse pavor
de saber que uma pessoa
pode perder seus gritos
todos os dias
em qualquer lugar

§

Eine Art Verlust

Gemeinsam benutzt: Jahreszeiten, Bücher und eine Musik.
Die Schlüssel, die Teeschalen, den Brotkorb, Leintücher
und ein Bett.
Eine Aussteuer von Worten, von Gesten, mitgebracht,
verwendet, verbraucht.
Eine Hausordnung beachtet. Gesagt. Getan. Und immer
die Hand gereicht.

In Winter, in ein Wiener Septett und in Sommer habe ich
mich verliebt.
In Landkarten, in ein Bergnest, in einen Strand und in ein Bett.
Einen Kult getrieben mit Daten, Versprechen für
unkündbar erklärt,
angehimmelt ein Etwas und fromm gewesen vor einem Nichts,

( – der gefalteten Zeitung, der kalten Asche, dem Zettel
mit einer Notiz)
furchtlos in der Religion, denn die Kirche war dieses Bett.

Aus dem Seeblick hervor ging meine unerschöpfliche Malerei.
Von dem Balkon herab waren die Völker, meine Nachbarn,
zu grüßen.
Am Kaminfeuer, in der Sicherheit, hatte mein Haar seine
äußerste Farbe.
Das Klingeln an der Tür war der Alarm für meine Freude.

Nicht dich habe ich verloren,
sondern die Welt.

(póstumo, mas publicado na edição de poesia completa – Sämtliche Gedichte – também da Piper)

Um tipo de perda

Juntos usamos: as estações do ano, livros e uma música.
As chaves, os saquinhos de chá, a cesta de pão, lençóis
e uma cama.
Herança de um vocabulário, de gestos, trazidos,
usados e gastos.
Obedecemos as regras do prédio. Dito. Feito. E a mão
sempre estendida.

Sempre me apaixonei pelo inverno, por um quinteto vienense
e pelo verão.
Por mapas, por uma casinha na montanha, por uma praia,
por uma cama.
Ritualizo datas, declaro incanceláveis as
promessas,
idolatro qualquer coisa e sou devota de coisa nenhuma,

( — do jornal dobrado, do cinzeiro cheio, do papelzinho
com um recado)
não tenho medo de religião, porque igreja era essa cama.

Da vista do mar nasceu essa pintura incansável.
Da varanda dava pra saudar os povos,
meus vizinhos.
Perto da lareira, em segurança, meu cabelo tinha
sua cor mais extrema.
O toque da campainha era o alarme da minha felicidade.

Não foi você que eu perdi,
foi o mundo.

§

Ich habe die Gedichte verloren
sie allein nicht, aber zuerst

Die Gedichte sind verloren gegangen
nicht sie allein, aber zuerst das Gedicht
dann der Schlaf, dann die

Alles verloren, die Gedichte zuerst
dann den Schlaf, dann den Tag dazu
dann das alles dazu, was am Tag war
und was in der Nacht, dann als nichts
mehr, noch verloren, weiterverloren
bis weniger als nichts und ich nicht mehr
und schon gar nichts war,

Rückzug muß ein inneres Hinterland
mit allen verbriefte Jahre und gesehene Orte
“noch vor den Augen, da die Erde
nicht mehr und keine Schmach, dann
hinten noch immer ein Raum
krallenumflogene Weiten für Taube, Stumme
Helle ruflange Weiten für er
die Ankunft, Erstummter

Für den Erstummten die Wüstenei
mit dem verständlichen Gespinnst
das sanft seinen Wahnsinn einpuppt
bis er das gläserne Hotel malt,

(as notas em Ich weiß keine bessere Welt apontam que o manuscrito foi encontrado inacabado e muito rabiscado, com versos reescritos sobre outros, sem que os primeiros tenham sido apagados; dificultando a leitura e digitalização exatas. Um dos exemplos citados pelos editores é Weiten (salas, quartos), que eles não tinham certeza mas que podia ser também Worte (palavras) o que mudaria completamente o sentido do poema).

Eu perdi a poesia
não apenas ela, mas ela eu perdi primeiro

A poesia se perdeu
não apenas ela, primeiro o poema
e depois o sono, depois a poesia

Eu perdi tudo, a poesia primeiro
depois o sono, depois o dia
depois tudo que tinha acontecido de dia
e o que tinha acontecido de noite, depois quando nada
mais havia, perdi mais, segui perdendo
até que menos que nada eu tinha e eu não mais
e já nada mais era,

O sertão interior tem que ser perdido
junto com os anos vividos e os lugares visitados
ainda na lembrança, já que a Terra
não mais é e não tem pudor, então
lá atrás ainda essas
salas para os surdos, para os mudos, cercadas de rastejantes
salas claras com eco para
que chegue o Exilado,

Para o Exilado, o sertão
vem com um coerente tatu-bola
que tranquilo molda seus delírios em forma de boneca de vudu,
até que consiga pintar o vítreo hotel,

Padrão
tradução

Valediction de John Donne, por Pedro Mohallem e Matheus Mavericco

john_donne

Esse aqui é o famoso poema do compasso. Coleridge uma vez escreveu, salvo engano num diário ou uma coisa assim, que ninguém além de Donne poderia ter escrito este poema. De fato: posto pela primeira vez numa folha de papel chamex reciclado (pode acreditar, foi assim mesmo) em 1611 ou 1612, antes de Donne fazer uma viagem para o continente europeu, “A Valediction: Forbidding Mourning” foi dedicado à esposa do poeta, Anne. Só em 1633, todavia, é que o poema sairia na coletânea Songs and Sonnets, três anos antes de sua morte.

Quem quiser tentar entender o que é a tal da poesia metafísica pode ler um poema desses e pronto. Missão cumprida. Helen Gardner, respeitável especialista em poesia barroca inglesa, disse que a poesia desses caras se assemelha a um epigrama expandido. É difícil chegar a outra conclusão quando se lê, por exemplo, as três últimas estrofes de “Forbidding Mourning”. Depois desse período, diz Eliot em sua arquifamosa resenha para a antologia de poesia metafísica feita por um camarada chamado Herbert Grierson, ocorreria uma dissociação da sensibilidade, no sentido de que “A tought in Donne was an experience; it modified his sensibility” – sensibilidade, aqui, entendida em contraponto com o que Browning ou Tennyson séculos depois sentiriam, isto é, “they are poets, and they think; but they do not feel their thought as immediately as the odour of a rose.” A comparação com Eliot poderia seguir em frente, é claro, se nos lembrarmos que uma imagem como a do compasso é bem o que Eliot tinha em mente ao cunhar o conceito do “correlato objetivo”: objetos, imagens, descrições que consigam dar concreção àquilo que é vago, abstrato. A poesia metafísica fez isso como ninguém, e não espanta que Augusto de Campos peça para que comparemos o “Forbidding Mourning” a textos como “Mulher vestida de gaiola” de João Cabral: em Donne “os conceitos são coisificados por uma sensibilidade simultaneamente sintética e analítica, que lhes dá um corpo para, à força de dissecá-lo, nomear o impalpável.”

O argumento do poema é simples: o amor que o poeta tem para com sua amada é um amor diferente. Allen Tate fala até de um lugar-comum cristão: por meio de um amor maior e mais elevado, o amor físico dos amantes se expande e se apura. Não é o “Dull sublunary lover’s love”, isto é, aquele amor comum que existe no plano terrestre, todo sujo de dedos humanos, e que fica por aí mesmo (“Whose soul is sense”). O poeta começa comparando a despedida com a morte de um homem virtuoso: ora, uma pessoa virtuosa é alguém que consegue projetar sua alma para além de seu corpo, fazendo com que sua fama chegue muito mais longe do que ele, em vida, conseguiu chegar. A brandura com que esse homem virtuoso morre é um modo de apaziguar a esposa a quem o poema é dedicado, mesmo porque não adiantaria que ele começasse falando de uma despedida violenta (algo como uma peixeirada no estômago). Que sentido faria, se o poema surgiu como “se acalme, voltarei logo, tamo junto”? A segunda estrofe consegue mostrá-lo muito bem. Não adianta fazer todo um escarcéu. O mesmo com a terceira: por mais que no plano terrestre as coisas se deem de maneira abrupta, no plano das esferas a trepidação, “Though greater far, is innocent.”

Como a alma dos amantes se desprendeu de planícies mundanas e se enlaçou num âmbito maior, tornando-se apenas uma, então, por conseguinte, se os dois se encontram separados, isto não quer dizer que tenham deixado de estar juntos. Na verdade, a separação momentânea dos dois é um modo de expandir o alcance daquele amor: “but an expansion”, dirá o poeta estrofes depois. A mesma lógica da alma do homem virtuoso, só que, aqui, comparada à ideia do compasso. Quer dizer: sabemos que a poesia barroca se viu numa dualidade essencial entre a vida do espírito, a investigação metafísica e a investigação científica do mundo ao redor. Que Donne tenha incorporado uma invenção relativamente recente, o compasso (que alguns chegam a atribuir a Galileu, contemporâneo do poeta), a um poema que retrata a persistência do amor especialmente numa zona “so much refined”, é surpreendente (se bem que Aíla de Oliveira Gomes diz que o par de compassos é o “mais discutido conceit da poesia metafísica daquela época”).

O círculo é um símbolo clássico da perfeição, e o círculo com um ponto no meio é um símbolo alquímico do ouro. A esse respeito, lembre-se do verso “Like gold to airy thinnes beat”, mas lembre-se também (e quem faz este comentário de grande perspicácia é o Pedro) que o poema todo possui 36 versos, um número que é correspondente direto do 360 (o número de graus de uma circunferência) e que é divisível por 9, número que representa a quase perfeição. É a firmeza da amada servindo de esteio, de baliza, de alicerce para a peregrinação prestes a ser feita, que permitirá ao eu lírico terminar onde começou, ou seja, fechando o círculo.

A tradução que vocês lerão abaixo é do meu amigo Pedro Mohallem, já apresentado aqui no escamandro. Tradução eu considero excelente e muito criativa, com soluções que demonstram que o Pedro entendeu direitinho o que Donne estava fazendo: basta que se observe o caso de “elementares / Princípios” ou “se move consoante o traço”, ou mesmo uma rima com a palavra “imos”. A maneira com que ele consegue criar uma tradução fluida é também admirável, se lembrarmos o comentário do Herbert Grierson de que a poesia do Donne tinha um desejo de se aproximar de uma linguagem prosaica (no que ele fecha com uma frase lapidar: “Poetry is always a balance, sometimes a compromise, between what has to be said and the prescribed pattern to which the saying of it is adjusted”).

De um modo geral quando o assunto é João Donne nós nos lembramos muito das versões que Augusto de Campos fez em meados da década de 50, muitas publicadas no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, sob a batuta de Mário Faustino. Claro que elas depois seriam ampliadas em Verso, reverso e controverso e depois em O anticrítico, mas começou foi aí. Tudo, aliás, começou aí: algumas das primeiras traduções da carreira do Augusto foram traduções de Donne. Se você quiser sentir um pouco o que representou para alguém em 1957 abrir o jornal e se deparar com uma bela tradução de um poema barroco, feita por um jovem desconhecido, você pode clicar nesse link aqui.

Todavia, apesar disto, é preciso ter em mente que pelo menos outros dois tradutores ilustres forneceram versões para este poema: Paulo Vizioli e Aíla de Oliveira Gomes. Do primeiro, faço notar que a versão a que tive acesso foi a inclusa no seu Poetas de Inglaterra, grande antologia que Péricles Eugênio da Silva Ramos havia organizado na década de 60 e que contava com algumas participações de Vizioli. Sabemos que na década de 80 Vizioli publicaria um livro com traduções de Donne (John Donne: o poeta do amor e da morte), livro este que inclusive deu ensejo a uma polêmica danada. Pois bem: esta segunda versão apresenta aqui e ali algumas diferenças, coisas bem pontuais ao que me consta, para com a versão primitiva da tradução. Como não tive acesso a esta segunda tradução de maneira completa, opto por reproduzir apenas a primeira, que é a que eu tenho aqui do meu lado.

 

Matheus Mavericco

* * *

DESPEDIDA: PROIBINDO O PRANTO
trad. Pedro Mohallem [2017]

Como os virtuosos que, a expirar, divisem,
Sussurrando-lhe adeus, o corpo da alma,
Enquanto alguns de seus amigos dizem
“Já não respira”, e outros dizem “Calma”,

Assim nos dissipemos, sem alarde,
Sem escarcéus de dor ou rios de pranto;
Fora nossa alegria profanar
Dizer aos leigos deste nosso encanto.

O abalo da terra aflige e apavora,
E o que ele traz em si todo homem sente;
O trepidar do firmamento, embora
Bem mais vasto se mostre, é inocente.

Maçante amor de amantes sublunares
(Cuja alma é só sentidos) não tolera
A ausência, que remove elementares
Princípios sob os quais se compusera.

Mas nós, por um amor tão refinado
Que sequer conhecemos os seus imos,
O pensamento mútuo-assegurado,
De olhos, lábios e toque prescindimos.

Assim, mesmo que eu parta, não serão
Partidas duas almas feitas uma:
Em vez de um rompimento, uma expansão,
O ouro batido à aérica espessura.

Sejam duas, o são à semelhança
Das duas rijas pernas do compasso:
Tua alma, a ponta fixa, não avança,
Porém se move consoante o traço;

E embora bem ao centro ela se assente
Ainda que a outra no horizonte suma,
Inclinando-se, busca-a atentamente,
E vendo-a regressar, logo se apruma.

Tal serás para mim, que ora preciso,
Como a outra perna, obliquamente andar;
Tua firmeza torna-me preciso
E faz-me onde começo terminar.

§

EM DESPEDIDA: PROIBINDO O PRANTO
trad. Augusto de Campos
em: Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, 28/10/56.
Verso, reverso, controverso, Perspectiva, 1978, p. 140-143.
O anticrítico, Cia das Letras, 1986, p. 50-53.

Como esses santos homens que se apagam
Sussurrando aos espíritos: “Que vão…”,
Enquanto alguns dos amigos amargos
Dizem: “Ainda respira.” E outros: “Não.” —

Nos dissolvamos sem fazer ruído.
Sem tempestades de ais, sem rios de pranto,
Fora profanação nossa ao ouvido
Dos leigos descerrar todo este encanto.

O terremoto traz terror e morte
E o que ele faz expõe a toda a gente,
Mas a trepidação do firmamento,
Embora ainda maior, é inocente.

O amor desses amantes sublunares
(Cuja alma é só sentidos) não resiste
A ausência, que transforma em singulares
Os elementos em que ele consiste.

Mas a nós (por uma afeição tão alta,
Que nem sabemos do que seja feita,
Interassegurado o pensamento)
Mãos, olhos, lábios não nos fazem falta.

As duas almas, que são uma só,
Embora eu deva ir, não sofrerão
Um rompimento, mas uma expansão,
Como ouro reduzido a aéreo pó.

Se são duas, o são similarmente
Às duas duras pernas do compasso:
Tua alma é a perna fixa, em aparente
Inércia, mas se move a cada passo

Da outra, e se no centro quieta jaz,
Quando se distancia aquela, essa
Se inclina atentamente e vai-lhe atrás,
E se endireita quando ela regressa.

Assim serás para mim que pareço
Como a outra perna obliquamente andar.
Tua firmeza faz-me, circular,
Encontrar meu final em meu começo.

 

§

DESPEDIDA PARA EVITAR O PRANTO
trad. Paulo Vizioli [1970]
em: Poetas de Inglaterra, Secretaria da Cultura, Esportes e Turismo de SP, 1970, p. 74-75.

Como o doce passar dos virtuosos,
Que às suas almas sussurram que se vão,
Enquanto alguns amigos dizem tristes:
O sôpro vai-se agora, ou, ainda não;

Assim nos confundamos, sem ruídos,
Cheias de pranto, ou ventos de clamor;
Seria profanação de nosso júbilos
Aos leigos anunciar o nosso amor.

Mêdos e danos traz o terremoto,
Calcula-se o que fêz, ou tinha em mente;
O trepidar, no entanto, das esferas,
Ainda que bem maior, é inocente.

O obtuso amor de amantes sublunares
(No qual o tato é essência) não tolera
A ausência, uma vez que esta remova
O que seus próprios fundamentos era.

Nós, porém, com amor tão refinado
Que nem sabemos o que venha a ser,
Firmes no espírito, cuidamos menos
De olhos, de lábios e de mãos perder.

Então nossas duas almas, que são uma,
Mesmo com meu partir, ruptura séria
Não poderão sofrer, mas a expansão
Do ouro maleado a uma espessura etérea.

Se fôrem duas, serão duas como
As duas pernas gêmeas de um compasso:
Tua alma, a perna fixa, não se altera,
Mas se move, se eu, – a outra perna –, o faço.

E embora ela no centro permaneça,
Se a outra se distancia a viajar,
Inclina-se por esta e a segue atenta,
E se ergue enfim, quando ela volta ao lar.

Tal serás para mim, cuja viagem
À da outra perna, a oblíqua, se compara;
Tua firmeza justo faz meu círculo,
E faz-me terminar onde iniciara.

§

UMA DESPEDIDA: PROIBIDO CHORAR
trad. Aíla de Oliveira Gomes
em: Poesia metafísica, Cia das Letras, 1991, p. 48-49.

Como homens de virtude passam sem alarde,
Meio a sussurros em que entregam a sua alma,
Enquanto alguns amigos tristes dizem, é tarde,
Já não respira; e outros, inda não, tem calma:

Assim choremos nós, quietos, sem alarido,
Sem dilúvios causar ou mover tempestade,
Que nossa emoção se profana em alheio ouvido –
Falar de nosso amor, só muito à puridade.

Os movimentos da terra causam tremores,
E o homem calcula seus efeitos consequentes;
Mas trepidações nas esferas, tão maiores
Que abalos sísmicos, estas são inocentes.

No amor, os amantes do mundo sublunar
(Cuja alma está só nos sentidos) não suportam
Ausência – que ela pode desarticular
Os elementos que no seu amor se entrosam.

Mas nós – o nosso amor é tão mais refinado
Que nem podemos sondar seus múltiplos folhos,
Nosso espírito é tão coeso e afinado
Que nem ligamos para mãos, lábios ou olhos.

Embora eu tenha de partir, eu te asseguro
Que em nossas almas não haverá separação.
Elas são uma, e, assim como bloco de ouro
Que é distendido em folha, juntas ficarão.

Ou se elas são duas, serão duas apenas
Como duas, as hastes gémeas de um compasso:
Tu és a haste fixa, mas moves-te em verdade
Todas as vezes que a outra alma avança um passo.

E, enquanto a outra lã bem longe circunvaga,
Essa em seu centro, p’ra ela inclina-se depressa,
Solícita; e só se ergue de novo erecta
Quando a outra haste de sua viagem regressa.

Assim és tu p’ra mim, que, como a haste oblíqua,
Obliquamente vago distante de ti;
Tua permanência faz perfeitos meus circuitos
E ajuda-me a voltar ao ponto de que parti.

 

§

A VALEDICTION: FORBIDDING MOURNING
John Donne

As virtuous men pass mildly away,
And whisper to their souls to go,
Whilst some of their sad friends do say
“The breath goes now,” and some say “No”;

So let us melt, and make no noise,
No tear-floods, nor sigh-tempests move;
‘Twere profanation of our joys
To tell the laity our love.

Moving of th’ earth brings harms and fears;
Men reckon what it did and meant;
But trepidation of the spheres,
Though greater far, is innocent.

Dull sublunary lovers’ love
(Whose soul is sense) cannot admit
Absence, because it doth remove
Those things which elemented it.

But we, by a love so much refined
That ourselves know not what it is,
Inter-assurèd of the mind,
Care less, eyes, lips, and hands to miss.

Our two souls, therefore, which are one,
Though I must go, endure not yet
A breach, but an expansion
Like gold to airy thinness beat.

If they be two, they are two so
As stiff twin compasses are two:
Thy soul, the fixed foot, makes no show
To move, but doth, if th’ other do.

And though it in the center sit,
Yet when the other far doth roam,
It leans, and hearkens after it,
And grows erect, as that comes home.

Such wilt thou be to me, who must
Like the other foot, obliquely run;
Thy firmness makes my circles just,
And makes me end, where I begun.

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