poesia norte-americana, tradução

Angelina Weld Grimké, por Mariana Correia Santos

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Angelina Weld Grimké foi poeta, dramaturga, jornalista e professora, nasceu em Boston, Massachusetts (EUA), em 1880, numa família miscigenada e influente no movimento abolicionista: suas tias-avós eram Angelina e Sarah Grimké, famosas sufragistas; seu pai era Archibald Grimké, segundo negro a se formar na Universidade Harvard e vice-presidente da NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor).

É mais conhecida por seu trabalho poético e pela peça anti-racista “Rachel” (1916), cuja montagem a colocou entre os primeiros dramaturgos estadunidenses negros a terem peças performadas publicamente. Em poesia, Grimké é descrita como uma autora sentimental, mais voltada às experiências subjetivas – em temas como o amor perdido, o desejo frustrado –, se comparada aos demais escritores negros contemporâneos a ela. No entanto, alguns de seus poemas parecem se abrir para experiências daqui e de lá em encontro. Seus ensaios, contos e peças concentram sua produção mais expressamente social, ao abordar com destaque o linchamento e o racismo institucional.

Foi um nome importante para o Harlem Renaissance. Seus poemas apareceram em antologias editadas por Langston Hughes e Countee Cullen, e em periódicos da época. Publicou pouco em vida. Teve parte de seu trabalho editado postumamente pela Oxford University Press no volume The Selected Works of Angelina Weld Grimké (1991). Deixou diários e cartas, que indicam que era lésbica. Morreu na cidade de Nova Iorque, em 1958.

Mariana Correia Santos

*

Your Hands

I love your hands:
They are big hands, firm hands, gentle hands;
Hair grows on the back near the wrist……
I have seen the nails broken and stained
From hard work.
And yet, when you touch me,
I grow small ………and quiet………
………And happy………
If I might only grow small enough
To curl up into the hollow of your palm,
Your left palm,
Curl up, lie close and cling,
So that I might know myself always there,
………Even if you forgot.


As suas mãos

Amo suas mãos:
São mãos grandes, mãos firmes, mãos gentis;
Pelos crescem atrás, próximos ao pulso……
Conheço suas unhas quebradas e manchadas
Do trabalho duro.
Ainda assim, quando me toca,
Me apequeno…………. e me aquieto………..
……………….E me alegro……………………..
Se eu pudesse apenas ficar pequena o bastante
Para me encaixar no vão da sua palma,
Sua palma esquerda,
Me encaixar, deitar rente e me apegar,
Para que eu me encontre sempre lá,
………………Ainda que você me esqueça.

§

The Black Child

I saw a little black child
Sitting in a gold circle of sunlight;
And in his little black hand,
He had a little black stick,
And he was beating, beating,
With his little black stick,
The sunlight all about him,
           And laughing, laughing. 

And he was so fat,
There were dimples at his tiny, wriggling toes,
            And at his knees,
           And at his elbows,
          And at his fingers,
        And in his cheeks,
       And in his little chin. 

And his black hair was plaited
          Into innumerable, little braids,
                    All over his little head;
        Very even, very fine, very cunning,
                 They were. 

And his skin was ebon, beautiful,
With a bloom, a shining gleam upon it.
O! he was all black,
          Save for his tiny white teeth
         And the whites of his eyes,
        And the white cloth about his little middle.

And he sat in the gold circle of sunlight
        Kicking with his little feet,
        And wriggling his little toes,
       And beating, beating
      The sunlight all about him,
     With his little black stick,
     And laughing, laughing. 

And the circle of gold slipped tip-toeing away,
          Tiptoeing away from the little black child.
          And a little black hand slid into the shadows,
                     Into black shadows,
        And a little black leg,
       And a little black foot,
      And the half of a little black braided head,
      And a little black shoulder,
     And a little black beating stick,
     And a little black beating hand,
    And all that was left,
   At the edge of the circle of gold,
   Was a little black kicking foot
               And little black wriggling toes
              Wriggling – wriggling – gone! 

A little black child
            Sat in the black shadows,
            Kicking with his little feet,
           And wriggling his little toes,
          And beating, beating
         The shadows all about him,
         With his little black stick,
         And laughing, laughing.

A criança negra

Vi uma pequena criança negra
Sentada em um círculo dourado de sol;
E em sua mãozinha negra
Ela tinha um pequeno galho preto,
E ela batia e batia
Com seu pequeno galho preto,
A luz do sol sobre ela toda,
E ela rindo, rindo.

E era tão gorda,
Com dobrinhas em seus agitados dedinhos do pé,
E em seus joelhos,
E em seus cotovelos,
E em seus dedos das mãos,
E em suas bochechas,
E em seu pequeno queixo.

E seu cabelo negro estava entrançado
Em inumeráveis trancinhas,
Por toda a sua cabecinha;
Bem-feitas, bem bonitas, bem engenhosas,
Elas eram.

E sua pele era retinta, linda,
Com certo florescer sobre ela, um brilho luminoso.
Ah! era toda negra,
Exceto os seus dentinhos brancos,
E o branco de seus olhos,
E o tecido branco sobre seu corpinho.

E sentava-se em um círculo dourado de sol
Chutando com seus pezinhos,
E contorcendo seus dedinhos,
E batendo e batendo
A luz do sol sobre ela toda
E seu pequeno galho preto,
E ela rindo, rindo.

E o círculo de ouro foi embora de fininho,
De fininho para longe da pequena criança negra.
E uma mãozinha negra escorregou para as sombras,
Para as negras sombras,
E uma perninha negra,
E um pezinho negro,
E parte de uma cabecinha negra trançada,
E um ombrinho negro,
E um pequeno galho preto batendo,
E uma mãozinha negra batendo,
E tudo o que restou,
Nas margens do círculo de ouro,
Foi um pezinho negro chutando
E dedinhos negros contorcendo-se
Contorcendo-se – contorcendo-se – findos!

Uma pequena criança negra
Sentada em sombras negras,
Chutando com seus pezinhos,
E contorcendo seus dedinhos,
E batendo e batendo
As sombras sobre ela toda
E seu pequeno galho preto,
E ela rindo, rindo.

§

Tenebris

There is a tree, by day,
That, at night,
Has a shadow,
A hand huge and black,
With fingers long and black.
        All through the dark,
Against the white man’s house,
        In the little wind,
The black hand plucks and plucks
       At the bricks.
The bricks are the color of blood and very small.
        Is it a black hand,
       Or is it a shadow?

Tenebris

Há uma árvore, na manhã,
Que, à noite,
Forma uma sombra,
Uma mão enorme e negra,
De dedos longos e negros.
Por todo o negrume,
Contra a casa do branco,
Ao menor vento,
A mão negra cutuca e cutuca
Os tijolos.
Os tijolos são da cor de sangue e bem pequenos.
É ela uma mão negra
Ou é uma sombra?

§

Fragment

I am the woman with the black black skin
I am the laughing woman with the black black face
I am living in the cellars and in every crowded place
     I am toiling just to eat
  In the cold and in the heat
     And I laugh
I am the laughing woman who’s forgotten how to weep
I am the laughing woman who’s afraid to go to sleep

Fragmento

Sou a mulher da preta preta pele
Sou a mulher que ri de preto preto rosto
Vivo nos porões e em lugares lotados
Trabalho só para comer
No frio e no calor
E rio
Sou a mulher que ri que esqueceu como chorar
Sou a mulher que ri que teme ir deitar

§

El Beso

Twilight – and you,
Quiet – the stars;
Snare of the shine of your teeth,
Your provocative laughter,
The gloom of your hair;
Lure of you, eye and lip;
Yearning, yearning,
Languor, surrender;
           Your mouth,
And madness, madness,
Tremulous, breathless, flaming,
The space of a sigh;
Then awakening – remembrance,
Pain, regret – your sobbing;
And again quiet – the stars,
Twilight – and you.

El beso

O crepúsculo – e você,
Quieta – a estrela;
A armadilha do brilho de seus dentes,
Sua risada provocativa,
A melancolia em seus cabelos;
Seu ardil, olhos e lábios;
Ansiando, ansiando,
Languidez, entrega;
Sua boca,
E insanidade, insanidade,
Trêmula, arfante, ardente,
O espaço de um suspiro;
Então acordar – lembrança,
Dor, arrependimento – os seus soluços;
E quieta, novamente – a estrela,
O crepúsculo – e você.

§

A Winter Twilight

A silence slipping around like death,
Yet chased by a whisper, a sigh, a breath;
One group of trees, lean, naked and cold,
Inking their cress ‘gainst a sky green-gold; 

One path that knows where the corn flowers were;
Lonely, apart, unyielding, one fir;
And over it softly leaning down,
One star that I loved ere the fields went brown

Um crepúsculo de inverno
Um silêncio ao redor como a morte desliza,
Ainda que seguido por um sussurro, um suspiro, um respirar;
Um grupo de árvores magras, nuas e frias,
Tingindo contra um céu verde e dourado as suas copas;

Um caminho que sabe onde ficam as flores do milho;
Solitárias, afastadas, inabaláveis, um abeto;
E inclinando-se suavemente sobre elas, por mim amada
Antes dos campos tornarem-se marrons, uma estrela.

§

Mariana Correia Santos (1996) é poeta, escritora, tradutora e assistente editorial. Nasceu em Guarujá, na Baixada Santista. Vive em São Paulo e cursa graduação em Letras na Universidade de São Paulo (USP), na qual se concentra em estudos de poesia, tradução e sociedade. Participou do Curso Livre de Preparação do Escritor (CLIPE) da Casa das Rosas. Publicou poemas na Revista Lavoura e no projeto Sutura, e traduções na revista catalã sèrieAlfa e nas Notícias de outras ilhas, da Revista Cult. É autora da plaquete independente de poesia espaços íntimos (2019). marianacorreiasantos.com.

*

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poesia, tradução

Miriam Adelman

miriam and apollo (1 de 1)

Miriam e Apollo

Miriam Adelman nasceu, em 1955, em Milwaukee, Wisconsin (EUA). Aos 19 anos, encontrou seus primeiros caminhos “para o mundo”, indo para o México, onde permaneceu por 9 anos, dedicando-se, entre outras coisas, aos estudos em Sociologia na Universidad Nacional Autónoma de México. Mora em Curitiba, desde 1991, onde é professora da UFPR. Além de lecionar nos programas de pós-graduação em Sociologia e Estudos Literários dessa instituição, dedica-se às paixões literárias, à fotografia, ao feminismo e às atividades equestres. Seu primeiro livro de poemas, multilíngue, Found in translation, encontra-se no prelo e deve ser lançado ainda em 2020, pela nosotros, editorial. Seguem alguns poemas desta publicação, em autotradução.

*

lost in translation

not really a poet
this girl
caught
between languages
and  caught
                    também
in a speeding car
winding down
every now
and then
for a closer take
on the landscape.

what a life loses
or gains
in translation,

that
is
the
question…

lost in translation

pas vraiment une poète,
cette fille
prise
entre des langues
et prise
    também
dans une voiture
qui roule trop vite
qui ralentit

de temps

en temps,
pour qu’elle puisse capturer
un peu de paysage.

Ce que la vie perd

ou gagne
en traduction,

voilà
la
question …

lost in translation

não é realmente poeta
esta moça
    presa
entre línguas
 e presa
       as well
num veículo em alta velocidade
que apenas desacelera
     de tempos
          em tempos
para facilitar a vista da
paisagem. 

O que uma vida perde
     ou ganha
   na tradução,            

    eis
       a questão…

§

war stories

 The daily underside of war slips away.
There were those who heard nothing, not even the distant
howl of wolves when their woods went up in smoke and skin
and those who missed not even the shy boys, the ones who
were dragged away, nor the rowdy who wanted to
flee when word turned to act.  In some villages
there were those who held out in the commonplace –
the card game at the tavern, the habitual visit to the
dressmaker,  reminded of dance halls or debutant daughters.
There were, like there always are, those who stashed away
tidbits of food, or those who picked the last apples nestled in branches,
then slipped away from the fields, handing the thin slices out
to the children hiding in the grass near the train tracks.
We will never know the exact numbers:  those left hidden
in attics or wine cellars, or on some tumultuous night
or in some heart that fled into madness. The stories  they told
were constantly changing:  in the sunshine, under the moon
or when the rain washed away some of the blood,
vestiges, ashes. The bones however remained a bit longer,
slowly bleaching  in ever-returning summer. And the names
and departures we cannot ascertain. We know only
that the most urgent lessons are the ones never learned.  Easier it is
to feed our little ghouls from our hands, hover over the last of
the crumbs, tie dirty rags around mouths full of words,
nurture slowly but surely a wretched imagination
unable to remember, unable to forget.

histórias de guerra

A história cotidiana da guerra se esfuma.
Há quem não escutou nem o uivo longínquo dos lobos
quando seu bosque virou todo fumaça e pele humana.
Há quem não sentiu a falta dos rapazes tímidos, dos arrastados
ou mesmo dos brabos, esses que se arrependeram quando passou-se
de palavra ao fato. Em certas cidades, havia quem se dedicasse
ao corriqueiro: ao jogo de baralho na cantina do bairro ou à visita
costumeira à costureira, pensando ainda no baile ou nas filhas debutantes.
Havia, como sempre, quem escondia o escasso alimento
assim como aqueles que repartiam o último pão ou colhiam
as maçãs ainda aninhadas  nos galhos e saíam pelos campos
distribuindo as fatias magras entre as crianças escondidas no
capim ao lado dos trilhos. Nunca saberemos exatamente quantos:
os  perseguidos escondidos no porão ou na cava
numa noite rebelde, ou num coração refugiado na loucura.
Sempre contavam versões que mudavam: com o sol, a lua,
com a chuva que limpava um pouco do sangue,
dos restos humanos, das cinzas. Os ossos ficam,
embranquecendo uns tempos sob um verão que sempre volta,
e nunca saberemos os nomes, as partidas – somente
que as lições mais urgentes nunca se aprendem. Mais fácil é
alimentar os pequenos monstros, vigiar as últimas migalhas,
amarrar o pano na boca das palavras, cultivar – aos poucos – apenas uma
aleijada imaginação, que não consegue nem lembrar
nem esquecer.

§

This is not a love poem

Hey babe, just in case you haven’t noticed
we are not nor have we ever been in
Hollywood.  There are girls out there for you, a plethora
though  not one with Angelina’s eyes and mouth, Raquel´s
bra-size and a roll of witty comments all written
into the script. No one out there for me
as sleek and daring and charming as Johnny, and of course,
no endings with that perfect closure  of babies
and no-place-like -home.
Around here things are looking more like a freak show
these days, the littered carnival grounds where –
after hours – a few desperate creatures come scampering
in to scavenge,  or like many unedited hours of footage,
and when the lights go on or when the sun comes up &
i am here alone with my headache and you,
across town, with your change strewn
across the floor to remind how much you spent
last night, looking for happiness or at least
a few tired moments of pleasure.

Hey babe, this is just the first cold winter of a
new millennium where we can still sit in warm cafés and read
the newspaper and argue about the worth of our words. Put your
pen to the paper. Love your daughter. Open your heart and
this time, don’t be late: next train to paradise, quarter past twelve.

 

Este não é um poema de amor

 Ei, meu anjo, caso você não tenha percebido
não estamos, nunca estivemos em
Hollywood. Há muitas garotas aí pra você, verdadeira riqueza
mas nenhuma tal qual suas estrelas prediletas, os olhos de Angelina,
o busto da Raquel e esse monte de falas espirituosas formando parte
no roteiro.
Nem tem ninguém para mim assim elegante e ousado
Nem desfecho perfeito de bebês, doce lar.
Por aqui as coisas são mais parecidas
com um show de horrores ou com o final do circo
– criaturas desesperadas para recolher os dejetos –
ou como muitas horas de filmagem
sem editar e quando as luzes acendem ou o sol nasce,
tô aqui sozinha com minha dor de cabeça e você,
do outro lado da cidade, com suas moedas espalhadas
pelo chão para se lembrar do quanto
gastou ontem à noite, em busca de felicidade
ou de alguns momentos fatigados de prazer. 

Ei, meu anjo, este é apenas o primeiro inverno frio do
novo milênio e ainda podemos nos sentar em cafés quentes,
lendo jornal e discutindo o valor das palavras.
Coloque seu lápis no papel. Ame sua filha.
Abra seu coração e desta vez, não se atrase:
próximo trem ao paraíso, às doze e quinze.

§

A matter of water

We were all glad when
the rain came. Not quite
the violent tide, but some
remnant of the sea
for this hot interior. Days of
breathing in a useless earth.
And then the water, in one
sudden flood, enough
at least to overflow the river,
crack the old bridge in two,
push the floating debris down
a few miles:  a doll without arms,
plethora of plastics, spineless
bed frame. Water was once

the least of our worries.
Now you see, things are
simpler: a matter of breath,
of liquids, or where you can
place a hand, put down
a foot.

 

Questão de água

Tão felizes ficamos quando chegou
a chuva. Não exatamente a maré
copiosa, mas bem um vestígio de
mar para este interior quente. Dias
de respirar uma terra inútil. Até
vir a água, enchente abrupta,
suficiente, então, para transbordar
o rio,  partir a velha ponte em
duas, empurrar detritos flutuantes
corrente abaixo: uma boneca sem braços,
infindáveis plásticos, uma armação de
cama desvertebrada. A água já foi
o que menos angustiava. Agora, você
vê, tudo se tornou tão simples: é
questão de ar, de líquidos ou de um
lugar para colocar um pé, uma
mão.

*

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poesia, tradução

Forough Farrokhzad, por Thaís Chagas

ff

Forough Farrokhzad foi uma poeta e cineasta nascida no Teerã, Irã em 1934. Sua escrita fala sobre a falha das convenções familiares, a tentativa redenção através da espera, a solidão e o amor. A obra de Forough apresenta o não-trânsito na vida de uma mulher independente e separada na sociedade iraniana nas décadas de 1950 e 1960. Além disso, sua linguagem poética alia espaços e ações domésticas ao desconforto da injustiça. Em seus textos, o amor cresce e é o fio necessário da escrita. Os poemas aqui traduzidos são da obra Tavalodi Digar (تولدی دیگر) de 1964.

* * *

outro nascimento (تولدی دیگر )

toda minh’alma é canto obscuro
que te atravessa
que te carrega à aurora
da eterna evolução e florescer
neste canto te sussurro, ah
neste canto te cubro
de árvore
de água
de fogo

talvez a vida seja
uma longa rua onde uma mulher
com uma cesta caminha todos os dias

talvez a vida seja
uma corda com que um homem
que se enforca num galho
talvez a vida seja uma criança
que volta da escola para casa

talvez a vida seja
o acender de cigarro do fumante
que repousa entre dois amantes
ou o olhar vazio de um transeunte
que levanta seu chapéu a outro transeunte
com um vazio sorriso e bom dia

talvez a vida seja
aquele momento íntimo
quando meu olhar
se destrói nas pupilas
dos seus olhos
com a sensação
que me uno a percepção
da lua
e a recepção da escuridão
noturna,

numa sala
grande como a solidão
meu coração
grande como o amor
olha aos simples pretextos
de sua felicidade
ao murchar das flores
nos vasos
a muda que você plantou
no nosso canteiro
ao som dos canários
que cantam para janela, ah

este é meu terreno
este é meu terreno

meu terreno é
um céu que me tomam
com o cair das cortinas
meu terreno é
a queda de uma escada
abandonada
que se recupera entre
a podridão e a nostalgia
meu terreno é
o caminhar triste ao jardim
das memórias
e morre com pesar da voz
que me diz
eu amo tuas mãos

plantarei no jardim minhas mãos
germinarei — eu sei, eu sei, eu sei
e as andorinhas ovos botarão
nos buracos dos meus dedos sujos
de tinta

colocarei brincos de cereja
nas minhas orelhas
colocarei pétalas de dália
nas minhas unhas

há um beco onde
os meninos que me amavam
ainda têm cabelos bagunçados,
pernas magras e pescoços finos
e pensam nos sorrisos ingênuos
de uma menina
que uma noite foi soprada
pela ventania

há um beco onde
meu coração foi roubado
das ruas de minha infância

a jornada de um tipo de linha do tempo
cobre a linha do tempo com o tipo
um tipo consciente da imagem
que retorna com prazer do espelho

e é dessa maneira
que alguém morre
e alguém permanece

não há pescador que pérola ache
num riacho
feito poça de tão vazio

conheço uma pequena fada triste
que mora no oceano
e tão sutilmente
toca seu coração
na flauta mágica
uma pequena fada triste
que morre com um beijo
toda noite
que renasce com um beijo
toda aurora

تولدی دیگر

همه هستی من ایه تاریکیست
که ترا در خود تکرار کنان
به سحرگاه شکفتن ها و رستن های ابدی خواهد برد
من در این ایه ترا آه کشیدم آه
من در این ایه ترا
به درخت و آب و آتش پیوند زدم
زندگی شاید
یک خیابان درازست که هر روز زنی با زنبیلی از آن می گذرد
زندگی شاید
ریسمانیست که مردی با آن خود را از شاخه می آویزد
زندگی شاید طفلی است که از مدرسه بر میگردد
زندگی شاید افروختن سیگاری باشد در فاصله رخوتنک دو همآغوشی
یا عبور گیج رهگذری باشد
که کلاه از سر بر میدارد
و به یک رهگذر دیگر با لبخندی بی معنی می گوید صبح بخیر
زندگی شاید آن لحظه مسدودیست
که نگاه من در نی نی چشمان تو خود را ویران می سازد
و در این حسی است
که من آن را با ادرک ماه و با دریافت ظلمت خواهم آمیخت
در اتاقی که به اندازه یک تنهاییست
دل من
که به اندازه یک عشقست
به بهانه های ساده خوشبختی خود می نگرد
به زوال زیبای گلها در گلدان
به نهالی که تو در باغچه خانه مان کاشته ای
و به آواز قناری ها
که به اندازه یک پنجره می خوانند
آه …
سهم من اینست
سهم من اینست
سهم من
آسمانیست که آویختن پرده ای آن را از من می گیرد
سهم من پایین رفتن از یک پله متروکست
و به چیزی در پوسیدگی و غربت واصل گشتن
سهم من گردش حزن آلودی در باغ خاطره هاست
و در اندوه صدایی جان دادن که به من می گوید
دستهایت را دوست میدارم
دستهایم را در باغچه می کارم
سبز خواهم شد می دانم می دانم می دانم
و پرستو ها در گودی انگشتان جوهریم
تخم خواهند گذاشت
گوشواری به دو گوشم می آویزم
از دو گیلاس سرخ همزاد
و به ناخن هایم برگ گل کوکب می چسبانم
کوچه ای هست که در آنجا
پسرانی که به من عاشق بودند هنوز
با همان موهای درهم و گردن های باریک و پاهای لاغر
به تبسم معصوم دخترکی می اندیشند که یک شب او را باد با خود برد
کوچه ای هست که قلب من آن را
از محله های کودکیم دزدیده ست
سفر حجمی در خط زمان
و به حجمی خط خشک زمان را آبستن کردن
حجمی از تصویری آگاه
که ز مهمانی یک اینه بر میگردد
و بدینسانست
که کسی می میرد
و کسی می ماند
هیچ صیادی در جوی حقیری که به گودالی می ریزد مرواریدی صید نخواهد کرد
من
پری کوچک غمگینی را
می شناسم که در اقیانوسی مسکن دارد
و دلش را در یک نی لبک چوبین
می نوازد آرام آرام
پری کوچک غمگینی که شب از یک بوسه می میرد
و سحرگاه از یک بوسه به دنیا خواهد آمد

 

§

janela (پنجره )

uma janela é suficiente
uma janela para olhar
uma janela para ouvir
uma janela
que chegue ao coração da terra
feito o aro do poço até seu fim
que se abra para alcançar a área
da constante benevolência azul

uma janela
que encha as pequenas mãos da solidão
com noturna recompensa de estrelas generosas

uma janela que invoque o sol
pela estranheza dos gerânios

uma janela me servirá

venho da terra natal das bonecas
embaixo dos tons
das árvores de papel
do jardim de um álbum de fotos
das estações inférteis
de amores desérticos
de áridos locais da inocência
dos anos de cultivo pálido
das letras do alfabeto
detrás das mesas
de escolas tuberculosas
do minuto que as crianças
escrevem “pedra” no quadro
e pássaros frenéticos voam
para galhos secos da velha árvore

venho do núcleo das raízes
de plantas carnívoras
com minha mente inundada
pelo terrível grito da borboleta
seca, com alfinetes crucificada
dentro do caderno

quando minha confiança
foi pendurada pelo frágil fio da justiça
desta cidade, apagaram minha luz

quando o escuro lenço da lei
vendou os olhos inocentes
do meu amor

quando fontes de sangue
jorraram por todas as veias
dos meus sonhos

quando minha vida nada era
além do tiquetaque do relógio
percebo que
preciso
preciso
preciso amar
loucamente

uma janela me servirá

uma janela para o momento de lucidez,
de luz
de paz

agora a muda da nogueira
está tão alta, tão alta, tão alta
que já posso contar a história
do muro para as jovens folhas

pergunte ao espelho
o nome do salvador
o tremor da terra embaixo
de seus pés
não é mais solitário que você?

os profetas trouxeram
a missão da destruição
de nosso século
as consecutivas explosões
e nuvens envenenadas
não são a reverberação
dos versos sagrados?

você, camarada,
confidente, irmão,
quando você alcança
a lua, escreve a história
do massacre das flores

os sonhos sempre caem
de ingênuas alturas e morrem.

eu cheiro o trevo
de quatro folhas
que cresce no túmulo
das crenças arcaicas

não é a mulher
enterrada no sacro
caixão da esperança
o vestígio
da minha juventude?

subirei os degraus
da curiosidade
para saudar o bom deus
que passeia na cobertura?

sinto que o tempo passou
sinto que o momento
é a minha parte das páginas
de história
sinto que a mesa
é a falsa distância
entre minhas madeixas
e as mãos deste triste estranho

fale comigo
o que mais alguém
que te oferece
a doçura da carne
quer de você?
nada além de sentir
o calor da vida

fale comigo
sou a janela do refúgio
sou ligada ao sol.

پنجره

یک پنجره برای دیدن
یک پنجره برای شنیدن
یک پنجره که مثل حلقه ی چاهی
در انتهای خود به قلب زمین می رسد
و باز می شود به سوی وسعت این مهربانی مکرر آبی رنگ
یک پنجره که دست های کوچک تنهایی را
از بخشش شبانه ی عطر ستاره های کریم
سرشار میکند
و می شود از آنجا
خورشید را به غربت گل های شمعدانی مهمان کرد
یک پنجره برای من کافی است.

من از دیار عروسکها می آیم،

از زیر سایه های درختان کاغذی
در باغ یک کتاب مصور
از فصل های خشک تجربه های عقیم دوستی و عشق
در کوچه های خاکی معصومیت
از سال های رشد حروف پریده رنگ الفبا
در پشت میز های مدرسه مسلول
از لحظه ای که بچه ها توانستند
بر روی تخته حرف سنگ را بنویسند
و سارهای سراسیمه از درخت کهنسال پر زدند.
من از میان
ریشه های گیاهان گوشتخوار می آیم
و مغز من هنوز
لبریز از صدای وحشت پروانه ای است که او را
دردفتری به سنجاقی
مصلوب کرده بودند.

وقتی که اعتماد من از ریسمان سست عدالت آویزان بود
و در تمام شهر
قلب چراغ های مرا تکه تکه می کردند،
وقتی که چشم های کودکانه عشق مرا
با دستمال تیره قانون می بستند
و از شقیقه های مضطرب آرزوی من
فواره های خون به بیرون می پاشید،
وقتی که زندگی من دیگر
چیزی نبود هیچ چیز بجز تیک تاک ساعت دیواری
دریافتم باید باید باید
دیوانه وار دوست بدارم

یک پنجره برای من کافی است،
یک پنجره به لحظه ی آگاهی و نگاه و سکوت.
اکنون نهال گردو
آن قدر قد کشیده که دیوار را برای برگهای جوانش
معنی کند.

از آینه بپرس
نام نجات دهنده ات را،
آیا زمین که زیر پای تو می لرزد
تنها تر از تو نیست ؟
پیغمبران رسالت ویرانی را
با خود به قرن ما آوردند.
این انفجار های پیاپی
و ابرهای مسموم
آیا طنین آینه های مقدس هستند ؟
ای دوست، ای برادر، ای همخون،
وقتی به ماه رسیدی
تاریخ قتل عام گل ها را بنویس.

همیشه خوابها
از ارتفاع ساده لوحی خود پرت می شوند و می میرند.
من شبدر چهار پری را می بویم
که روی گور مفاهیم کهنه رویید است.

آیا زنی که در کفن انتظار و عصمت خود خاک شد جوانی من بود ؟
آیا دوباره من از پله های کنجکاوی خود بالا خواهم رفت
تا به خدای خوب که در پشت بام خانه قدم می زند سلام بگویم ؟

حس می کنم که وقت گذشته است.
حس می کنم که “لحظه” سهم من از برگهای تاریخ است.
حس میکنم که میز فاصله ی کاذبی است میان گیسوان من و دستهای این غریبه ی غمگین.

حرفی به من بزن،
آیا کسی که مهربانی یک جسم زنده را به تو می بخشد
جز درک حس زنده بودن از تو چه می خواهد ؟

حرفی بزن،
من در پناه پنجره ام.
با آفتاب رابطه دارم.

 

* * *
Thaís Chagas (1993) é formanda em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, professora e revisora. Também atua como pesquisadora em literatura contemporânea e se interessa por traduções do persa e árabe. Lançou seu primeiro livro Alinhavar (2019). pela Editora Urutau.

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poesia, poesia norte-americana, tradução

Harryete Mullen, por Rafael Mendes

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Harryete Mullen (1953, Alabama, EUA) é poeta e professora de literatura Afro-americana e escrita criativa na Universidade da Califórnia. Seus poemas exploram questões de gênero, raça, consumo e tradição. Segundo Harryete sua poesia busca “combinar pensamento crítico com os prazeres do ritmo e jogos de/com palavras”. Ainda, segundo a poeta, ela escreve para olhos e ouvidos, buscando uma “intersecção entre oralidade e escrita”. Durante seu doutorado, escreveu uma tese sobre narrativas da escravidão, influenciando seu trabalho que, por muitas vezes, trata das vidas dos Afro-americanos e de suas diásporas. Mullen tem diversas coleções publicadas, dentre elas: S*PeRM**K*T (1992), Muse & Drudge (1995) e Sleeping with the Dictionary (2002), este foi indicado para diversos prêmios literários, como o National Book Award e National Book Critics Circle Award. Seus livros são inéditos no Brasil. Ela é vencedora do Gertrude Stein Award, Jackson Poetry Award, entre outros.

* * *

Nós não somos responsáveis

Nós não somos responsáveis por seus parentes perdidos ou roubados.
Nós não garantimos sua segurança se você desobedecer nossas regras.
Nós não apoiamos as causas e reclamações de pessoas implorando por panfletos.
Nós preservamos o direito de negar atendimento para qualquer um.

Sua passagem não garante que iremos honrar sua reserva.
Para facilitar nossos procedimentos, por favor limite sua reprodução.
Antes da decolagem, favor abolir todos ressentimentos em cozedura .

Se você não fala inglês, você será removido do caminho
No evento de uma perda, é melhor você se virar sozinho.
Seu seguro foi cancelado porque nós não podemos mais dar conta
de suas reclamações pavorosas. Nossos guardas perderam sua mala e nós
somos incapazes de achar o número do seu processo penal.

Você foi detido para interrogatório porque você se encaixa no perfil.
Você não é presumido inocente se a polícia
suspeitar que você está carregando um guarda-chuva escondido.
Não é nossa culpa se você nasceu vestindo cores do pavilhão 9.
Não é nossa obrigação informá-lo sobre seus direitos.

Na parede, por favor, enquanto nosso cabo inspeciona sua marra.
Você não tem direitos que devemos respeitar.
Por favor se acalme, ou nós não seremos responsáveis
pelo que acontecer com você.

 

We Are Not Responsible

We are not responsible for your lost or stolen relatives.
We cannot guarantee your safety if you disobey our instructions.
We do not endorse the causes or claims of people begging for handouts.
We reserve the right to refuse service to anyone.

Your ticket does not guarantee that we will honor your reservations.
In order to facilitate our procedures, please limit your carrying on.
Before taking off, please extinguish all smoldering resentments.

If you cannot understand English, you will be moved out of the way.
In the event of a loss, you’d better look out for yourself.
Your insurance was cancelled because we can no longer handle
your frightful claims. Our handlers lost your luggage and we
are unable to find the key to your legal case.

You were detained for interrogation because you fit the profile.
You are not presumed to be innocent if the police
have reason to suspect you are carrying a concealed wallet.
Its not our fault you were born wearing a gang color.
It is not our obligation to inform you of your rights.

Step aside, please, while our officer inspects your bad attitude.
You have no rights we are bound to respect.
Please remain calm, or we can’t be held responsible
for what happens to you.

§

Elíptico

Eles simplesmente não conseguem … Eles devem se esforçar mais para… Eles deveriam ser mais .. Nós todos desejamos que eles não fossem tão .. Eles nunca .. Eles sempre .. Algumas vezes eles .. De vez em quando eles .. No entanto é óbvio que eles .. A tendência deles tem sido de .. As consequências disso foram … Eles parecem não entender que .. Se ao menos eles fizessem esforço para .. Mas nós sabemos como é difícil para eles .. Muito deles permanecem ignorantes de que .. Alguns que deveriam saber melhor se recusam a .. Claro, a visão deles tem sido limitada por .. Por outro lado, eles claramente sentem-se no direito de .. Não podemos esquecer que eles .. Nem pode ser negado que eles .. Nós sabemos que isso teve um enorme impacto neles .. Apesar disso o comportamento deles nos choca como .. Nossas intenções infelizmente foram ..

Elliptical

They just can’t seem to . . . They should try harder to . . . They ought to be more . . . We all wish they weren’t so . . . They never . . . They always . . . Sometimes they . . . Once in a while they . . . However it is obvious that they . . . Their overall tendency has been . . . The consequences of which have been . . . They don’t appear to understand that . . . If only they would make an effort to . . . But we know how difficult it is for them to . . . Many of them remain unaware of . . . Some who should know better simply refuse to . . . Of course, their perspective has been limited by . . . On the other hand, they obviously feel entitled to . . . Certainly we can’t forget that they . . . Nor can it be denied that they . . . We know that this has had an enormous impact on their . . . Nevertheless their behavior strikes us as . . . Our interactions unfortunately have been . . .

§

Tudo que ela escreveu

Me desculpe, não sou boa nisso. Não posso escrever de volta. Eu
nunca li sua carta.
Não posso dizer que recebi seu bilhete. Eu não tive a força
para abrir o envelope.
As cartas se empilham perto da porta. Sua letra é ilegível.
Seus cartões postais estavam
desfigurados. Lave seu cabelo molhado? Qualquer documento que você
pensou em me enviar ainda
será entregue. O bagunçado sistema de encomendas não entregou.
Sinto dizer que eu sou
incapaz de responder aos seus desejos mudos. Eu não
recebi o livro que você enviou.
Inclusive, meu computador foi roubado. Agora sou incapaz
de processar palavras. Eu
sofro de afasia. Eu acabei de voltar do Quénia
e da Coréia. Você não
recebeu meu cartão ainda? O que posso lhe dizer? Eu esqueci
o que eu ia
dizer. Não consigo achar uma caneta que funcione e depois eu quebrei
meu lápis. Você sabe
como o papel é raro ultimamente. Eu confesso que não venho reciclando. Eu
nunca
tenho tempo para ler O Globo. Estou sem sacola de mercado para colocar
as notícias velhas.
Eu não fui ao mercado. Eu queria checar os descontos. Eu
ainda não li
as cartas do correio. Eu não consigo passar pela porta para trabalhar, então eu liguei doente. Eu
fui pra
cama com cólicas de escritora. Se eu não conseguisse escrever, eu
pensei que colocaria minha
leitura em dia. Então a Ana Maria Braga apareceu com um autor fabuloso
conectando
seu livro mais vendido.

All she wrote

Forgive me, I’m no good at this. I can’t write back. I never read
       your letter.
I can’t say I got your note. I haven’t had the strength to open the
       envelope.
The mail stacks up by the door. Your hand’s illegible. Your
       postcards were
defaced. Wash your wet hair? Any document you meant to send
       has yet to
reach me. The untied parcel service never delivered. I regret to
       say I’m
unable to reply to your unexpressed desires. I didn’t get the book
       you sent.
By the way, my computer was stolen. Now I’m unable to process
       words. I
suffer from aphasia. I’ve just returned from Kenya and Korea.
      Didn’t you
get a card from me yet? What can I tell you? I forgot what I was
      going to
say. I still can’t find a pen that works and then I broke my pencil.
      You know
how scarce paper is these days. I admit I haven’t been recycling. I
      never
h   ave time to read the Times. I’m out of shopping bags to put the
      old news
in. I didn’t get to the market. I meant to clip the coupons. I
      haven’t read
the mail yet. I can’t get out the door to work, so I called in sick. I
      went to
bed with writer’s cramp. If I couldn’t get back to writing, I
      thought I’d catch
up on my reading. Then Oprah came on with a fabulous author
      plugging her
best selling book.

 

Rafael Mendes é tradutor e poeta. Residiu em Franco da Rocha, Dublin e atualmente mora em Barcelona. Publicou em 2018 “Ensaio sobre o belos e o caos” pela Editora Urutau. Tem participação nas seguintes antologias: Poetry in the Time of Coronavirus (EUA, 2020, no prelo), Parem as máquinas (Off Flip, 2020, Brasil, no prelo), Writing Home: The New Irish Poets (Dedalus Press, 2019, Irlanda), 32kg: Uma antologia Brasil-Irlanda (Urutau, Europa, 2017). Seus poemas e traduções já foram publicados nas revistas Ruído Manifesto, Revista Gueto, Mallamargens,Vício Velho, Subversa, FLARE magazine, The Irish Times, entre outras. Edita o blog de tradução: https://poetrybilingue.wordpress.com/

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poesia, tradução

Sean Bonney, por Beatriz Bastos & Otávio Campos

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Sean Bonney nasceu em Brighton, em 1969, e cresceu no norte da Inglaterra. Passou 17 anos em Londres, cidade que se tornou para ele principal matéria de grande parte dos seus textos. Na capital, se envolveu em movimentos sociais e políticos, principalmente os que iam contra a Taxa de Moradia cobrada na cidade. Sua militância política é indissociável de sua atuação como escritor. Publicou diversos panfletos, plaquetes e livros, esses tomados por uma fúria e uma vontade revolucionária contra as instituições, principalmente no que se refere à moradia, à polícia e ao tratamento aos imigrantes. Além disso, por muitos anos manteve o blog abandonedbuildings.blogspot.com, alimentado constantemente até 2019, com leituras dos poemas em áudios, e em vídeos de suas apresentações pela Europa, além das primeiras versões de alguns poemas futuramente publicados . Seus textos foram reunidos em sete livros principais, Blade Pitch Control Unit (2005), Baudelaire in English (2008), Document (2009), The Commons (2011), Happiness: Poems After Rimbaud (2011), Letters Against the Firmament (2015), e Our Death (2019).

Em sua produção, percebemos as influências dos seus interesses pessoais maiores, como uma vertente mais radical dos movimentos de esquerda, com o punk britânico, a Angry Brigade, a Red Army Faktion, além do Surrealismo e a arte revolucionária como um todo. Soma-se a isso, também, seu interesse no movimento Black Power americano, do qual foi se tornando um estudioso principalmente enquanto pesquisava para o seu título de PhD, a partir de uma tese sobre Amiri Baraka, um dos poucos negros a integrar a caravana Beat.

Bonney morreu pouco tempo depois de ter seu último livro, Our Death, publicado, em um trágico acidente em Berlim, cidade onde morava há alguns anos e fazia pós-doutorado com uma pesquisa sobre Diane di Prima and Katerina Gogou. Em seu obituário, publicado na revista online Jacket2, o poeta William Rowe diz que “nenhum outro trabalho contemporâneo destrói tão completamente o universo do fascismo ressurgente”. Para Rowe, a poética de Bonney se apresenta como uma possibilidade de sobrevivência à violência instaurada no Reino Unido principalmente após Thatcher. “Esta é uma poesia na qual as camadas de defesa do self foram suspensas, o poema larga seus muros habituais, e as injustiças brutais da história encontram expressão.”, escreve Rowe.

Dois livros de Sean Bonney foram traduzidos para o português por Miguel Cardoso e publicados em Portugal pela Douda Correria, Cartas contra o firmamento (2016) e Nossa morte (2020). No Brasil, sua obra por enquanto permanece inédita, e uma publicação está sendo preparada pela Edições Macondo (com tradução de Beatriz Bastos e Otávio Campos) para 2020. Os poemas publicados agora na escamandro foram retirados do livro que está sendo traduzido, com título provisório de Fantasmas. Esse livro, que saiu imediatamente antes de sua última coletânea, é uma publicação que pode ser considerada “de transição”, como muitos dos seus trabalhos que foram editados. Em uma nota inicial, impressa nas primeiras páginas do volume, o autor revela o seguinte: “A maior parte dessa seleção é originada de duas sequências. Câncer: Poemas depois de Katerina Gougou, publicado pela primeira vez em uma edição limitada por A Firm Nigh Holistic Press em 2016. A maioria dos outros textos (…) são de uma sequência em andamento intitulada Nossa morte, cujo título deve ser mais ou menos auto explicativo”. Ghosts aborda questões caras à poesia de Bonney, como a vida no submundo das grandes cidades, a problemática dos refugiados e da moradia, a desconfiança de instituições, sobretudo a desconfiança de policiais e políticos. Mas, além disso, essa coletânea de poemas também constrói um universo narrativo próprio, trabalhando com a imagem de fantasmas vagando, como zumbis, em um cenário pós-apocalíptico que em tudo se parece com nossas próprias capitais brasileiras.

FODA-SE A POLÍCIA

 

* * *

 

“Me Surre!”

Hoje em dia todo mundo tá escrevendo seu livro derradeiro. Dane-se. Eu também perdi tudo. Meu corpo é feito de três agulhas, várias moedas, um sistema de nitrato e algo que os babacas chamariam ‘uma filosofia’. Eu vejo no escuro e gosto de quebrar espelhos. Pra muita gente as coisas tão bem piores. Vago pela cidade recitando um velho poema da Anita Berber: CADÁVER. FACA. CADÁVER. FACA. LUZ. Todas as noites há momentos em que penso que posso ver essa luz. Ela brilha dentro de todos os quartos onde já morei, todos aqueles quartos e cidades que sempre amamos sempre desprezamos. MOEDAS. ESPELHOS. LUZ.

 

“Thrash Me!”

These days everyone is writing their final book. Whatever. I’ve lost everything as well. My body is made up of three needles, several coins, a system of nitrates and something wankers would call ‘a philosophy’. I see in the dark and like to smash mirrors. For many other people things are far worse. I roam around the town, reciting an old poem by Anita Berber: CORPSE. KNIFE. CORPSE. KNIFE. LIGHT. There are moments each evening when I think I can see that light. It shines inside all the rooms I have lived in, all those rooms and cities that we have always loved always despised. COINS. MIRRORS. LIGHT.

 

§

 

Todos os dias, todo dia eu acordo dentro do regime assalariado
dentro de todas as suas casas, nunca paguei aluguel em nenhuma.
Não durmo em lugar nenhum. Todas as manhãs dentro do meu salário
Deito à espera daqueles que dormem, eu durmo
em seus colos e nunca falo. Nunca
Tome isso como evidência espectral. Quer dizer. Foda-se a morte.

 

Every day I wake up everyday inside the wage system
inside all its houses, never paid rent on even one.
Sleep nowhere. Every morning inside my wages
I lie in wait for those who sleep, I sleep
on their chests and never speak. Never
Take this as spectral evidence. Meaning. Fuck death.

 

§

 

[morfina]

Cinco pontos no mapa. Cinco dias
Você assiste sua cidade em chamas
Cinco da manhã. Cinco policiais na porta.
Interpreta. Nenhuma cidade é construída de novo
Seu mapa um anúncio, um ardil, um combate.

Adivinhação. Medos inumanos das pessoas
Essa distância, um arranjo de canções
espalhadas pela capital, um conjunto de leis
pra matar os vivos. Rimas, essa distância.
Ruínas são barricadas. Canções são ossos.

Nossos mapas quase conspiradores
acordados durante a noite, interrogando o céu
Cometas também são ossos. Que esperam
colidir com a nossa aventura. Os dias se empilham
Como torres desabando. Policiais. Osso.

risquei fora Bakunin. escrevi cinco policiais.
cinco da manhã – um charme pra destruir a capital.

 

[morphine]

Five points on the map. Five days
You watch your city burn.
Five A.M. Five cops at the door.
Interpret that. No city is built again
Your map a declaration, a trap, a war.

Divination. Inhuman fears of the people
This distance, an arrangement of songs
scattered on the capital, a set of laws
to kill the living. Rhymes, this distance.
Ruins are barricades. Songs are bones.

Our maps, almost, are conspirators
all night awake, questioning the sky
Comets, also, are bones. Are waiting
to crash our adventure. Days pile up
Like collapsing towers. Cops. Bone.

crossed out Bakunin. wrote down five cops.
5 a.m. – a charm to consume the capital.

 

§

 

Uma Nota sobre minha Poética Recente

Parei de fumar maconha há alguns meses porque estava me deixando paranoico, mas desde então, quase todos os dias tenho tomado doses potencialmente fatais de anfetamina. Isso quase certamente está me deixando psicótico, mas pelo menos tem a vantagem de me salvar do vasto cataclisma que dormir se tornou. Em muitas manhãs me sinto desconfortável, visível e invisível ao mesmo tempo, preso entre os ditos dois mundos, em nenhum deles estou preparado pra aceitar ou mesmo tolerar. De qualquer forma, não posso separá-los – tudo está funcionando em uma espécie de nível estroboscópico, no qual o mundo invisível está povoado por um bando de insones de carne e sangue cambaleando por aí depois do naufrágio, e o mundo visível por um estranho mapa astral, uma rede de nós e tumores que até agora esteve trancada em algum lugar no centro da terra, um inferno de alfabetos e injustiças espectrais organizados em pedaços ao longo da cronologia. Vejamos. Houve a revolta fiscal. Havia as casas punk. Havia ecstasy e ácido e festas abertas. A lei de justiça criminal. Britpop. A ascensão da babaquice irônica. A expressão tolerância zero. O tédio do hedonismo forçado. O esqueleto de Tony Blair. As chamas da intervenção humanitária. A inevitabilidade da jihad. E isso é só outro amontoado meio arbitrário, um corredor de vários espelhos nos quais toda manhã eu bato e cheiro carreiras cada vez mais colossais até que, nas palavras de Ernst Bloch, “anos se tornam minutos, como nas lendas em que, no período aparente de uma noite, uma bruxa se apodera da longa vida de sua vítima”. E não sei se me identifico com essa bruxa ou não, mas sei que há algumas manhãs em que considero a possibilidade de moer os ossos de Blair, e então lançá-los aos pés dos vários monumentos – falo por exemplo das estátuas que contornam a Trafalgar Square – pra transformá-los em demônios reais. A crise, ou como quer a gente deva chamar isso. As ruínas do Ritz, por exemplo. O vidro quebrado da região de Millbank. Os termos de prisão dos rebeldes. Que merda. Até breve. Todo mundo sabe que Thatcher forjou sua morte.

A Note on my Recent Poetics

I stopped smoking pot a few months ago because it was making me paranoid, but since then most days I’ve been taking potentially fatal doses of amphetamine. Its almost certainly making me psychotic, but it does at least have the advantage of saving me from the vast cataclysm that sleep has become. Most mornings I feel uneasy, visible and invisible at the same time, trapped between the proverbial two worlds, neither of which I’m prepared to accept or even tolerate. I can’t tell them apart anyway – everything’s functioning at some kind of stroboscopic level, where the invisible world is populated by a gaggle of flesh and blood insomniacs staggering around after a shipwreck, and the visible one by a weird star-map, a network of knots and tumours that up until now have been locked somewhere in the centre of the earth, a hell of alphabets and spectral injustices arranged in pieces along the chronology. Lets see. There was the poll tax revolt. There were punk houses. There was ecstasy and acid and free parties. The criminal justice bill. Britpop. The rise of the ironic wank. The phrase zero tolerance. The boredom of enforced hedonism. The skeleton of Tony Blair. The flames of humanitarian intervention. The inevitability of jihad. And thats just one more or less arbitrary little cluster, a hall of various mirrors that every morning I chop and snort increasingly gargantuan lines from until, in the words of Ernst Bloch, “years become minutes, as in legends where, in the apparent time span of a single night, a witch cheats her victim out of a long life”. And I don’t know whether I identify with that witch or not, but I do know that there are some mornings when I consider the possibility of powdering Blair’s bones, and then casting them at the feet of various monuments – say for example the statues that encircle Trafalgar Square – so as to transform them into real demons. The crisis, or whatever it is we’re supposed to call it. The ruins of the Ritz, for example. The broken glass of Millbank. The jail terms of the rioters. Ah shit. See you later. Everybody knows that Thatcher faked her death.

 

§

 

[de Câncer]

vamos beber com os desempregados
com todo sol e silêncio
com toda poeira no sol e silêncio
e sol e conhaque e poeira
e cigarros e sol
não, hoje não vamos falar sobre nossa saúde
comprimidos e bebidas e catarro
não se preocupe
me sinto muito calmo
há unhas há cabelo há anos
sujos
os comprimidos são ótimos. a festa, você sabe qual
impossível dizer quem é polícia hoje em dia
música
um conhaque merda
não, não tenho ouvido nada faz um tempo
você sabe eu tenho pensado que talvez queira, sabe
tem um quarto ali em cima
quero te ver sem as calças
meio curioso sobre seu pau
música, pelo amor de deus
você toca uma
“pegaram um pau e me bateram”
conhaque
música
silêncio
você tira seu canivete começa a cortar
A Gangue Bonnot estava certa.

 

[from Cancer]

let’s drink with the unemployed
with all sun and silence
with all dust in the sun and silence
and sun and cognac and dust
and cigarettes and sun
no, lets not go on about our health today
pills and drink and snot
don’t worry
I feel very calm
there are nails there is hair there are years
dirty
the pills are great. the party, you know which one I mean
impossible to tell whose a cop these days
music
the cognacs shit
no, I haven’t heard anything for quite some time
you know I’n thinking I might want to, you know
there’s a room upstairs
I want to see you without your pants
kind of curious about your dick
music, for chrissake
you take a solo
“they took a stick and beat me”
cognac
music
silence
you pullout your switchblade start slashing
The Bonnot Gang were right.

 

§

 

[de Câncer]

música, eu não falo sobre isso
meus olhos. sério, onde estão meus olhos
todo dia há algo para rejeitar
eu não vou gritar quando morrer
Marx Lenin Trotsky Luxemburgo
A Revolta de Kronstadt e o sonho de Sísifo
há flores há cores
revólveres e bombas caseiras
estou ficando louco, por que você não está
os meus sonhos os sonhos dos meus amigos
todos os sonhos o mesmo sonho
surtos repetidos choradeira sem fim
isso é medida
você e eu
pra cima e pra baixo
e de volta e pra baixo
há uma falsa simetria nos separa
não vamos rir
se não assinarmos o papel
eles não vão poder comprovar nada
a noite cai
o comitê central
a noite cai
eles querem saber se eu tenho uma televisão
a noite cai
eu ainda estou mais ou menos segurando a onda
não vou assinar
vida longa à 204º Internacional

 

[from Cancer]

music, I don’t talk about it
my eyes. seriously, where are my eyes
every day there’s something to reject
I will not scream when I die
Marx Lenin Trotsky Luxemberg
The Kronstadt Massacre and the dream of Sisyphus
there are flowers there are colours
revolvers and homemade bombs
I’m going crazy, why aren’t you
my dreams my friends’ dreams
all these dreams are the same dream
repeated breakdowns endless weeping
this is measure
you and me
up and down
and back and down
there is a false symmetry separates us
lets not laugh
if we don’t sign the paper
they won’t be able to act on their decision
night falls
the central committee
night falls
they want to know if I have a television
night falls
I’m still kind of keeping it together
I won’t sign
Long live the 204th International

 

§

 

Para quê serve gás lacrimogêneo

Policiais, não sendo humanos nem animais, não sonham. Eles não precisam, eles têm gás lacrimogêneo. Não espere que eu explique isso. Você sabe tão bem quanto eu que policiais têm acesso ao conteúdo dos nossos sonhos. E você provavelmente também sabe que uma quantidade razoável do gás lacrimogêneo do planeta é fornecida pelo Westminster Group. Seu presidente não executivo, seja lá o que isso significa, é membro da família de, vejam só, Charles Windsor. Ele deve pensar no gás lacrimogêneo como alguma coisa relacionada à Nuvem do Não-Saber, e, de certa forma, ele tá meio certo. Você chega a um conhecimento muito verdadeiro da natureza das coisas, visíveis e invisíveis, ao ter seu sistema sensorial sequestrado e virado contra você por uma dose significativa de gás lacrimogêneo. É o anti-Rimbaud. O absuto controle e administração de todos os sentidos. É sério, tente. Na próxima vez que as coisas começarem a esquentar um pouco vai pra rua e corre pro meio da maior nuvem de gás lacrimogêneo que você encontrar. Cabum. Visão. Gosto. Cheiro. A porra toda. Tudo se transforma em confusão, desorientação geográfica e, principalmente, dor. Não pire. No centro dessa dor há um pequeno e silencioso ponto de Não-Saber. É esse Não-Saber que os policiais – e por extensão Charles Windsor – chamam de conhecimento. É o que eles querem. Eles têm bisturis caso seja necessário mas gás lacrimogêneo é mais limpo. Não está claro por que querem isso mas qualquer epiléptico ou visionário ou viciado em drogas pode te dizer o motivo. Tá lá em Blake. AiJesus, tá lá no encarte do Metal Machine Music. O que isso significa? Quem se importa. Isso não responde nada. O que Charles Windsor quer com a gente? Os policiais não vão nos dizer o que eles não sabem e o que eles acham que sabemos.

 

What Teargas is For

Cops, being neither human nor animal, do not dream. They don’t need to, they’ve got teargas. Don’t expect me to justify that. I mean, you know as well as I do that cops have got access to the content of all of our dreams. And you probably also know that a fair amount of the planet’s teargas is supplied by the Westminster Group. Their non-executive chairman, whatever that is, is a member of the household of, ahem, Charles Windsor. He probably thinks of teargas as being somehow related to the Cloud of Unknowing, and, in a sense, he’s kind of right. You come to a very real understanding of the nature of things, both visible and invisible, by having your sensory system hijacked and turned against you by a meaningful dose of teargas. It is the anti-Rimbaud. The absolute regulation and administration of all the senses. I mean try it. Next time things are starting to kick off a little bit just go out on the street and run straight into the middle of the biggest cloud of teargas you can find. Bang. Sight. Taste. Smell. All the rest of them. All turned into confusion, loss of geographical certainty and, most importantly, pain. Don’t freak out. In the centre of that pain is a small and silent point of absolute Unknowing. It is that Unknowing that the cops – and by extension Charles Windsor – call knowledge. They want it. They’ve got scalpels if necessary but teargas is cleaner. Its not clear what they want it for but any epileptic or voyant or drug addict could tell you what it is. It’s there in Blake. Christ, it’s there in the sleeve-notes to Metal Machine Music. What’s it mean? Who cares. It answers no questions. What does Charles Windsor want with us. The cops will not tell us what they don’t know and what they think we know.

 

* * *

Beatriz Bastos nasceu em 1979 no Rio de Janeiro. Publicou Areia (Aqueronta Movebo, 2000), Pandora – Fósforos de Segurança, em coautoria com Fernanda Branco (Azougue, 2003), Da Ilha (Editacuja, 2009) e Balaclava (no prelo, Coletivo Janga). Fez mestrado e doutorado em tradução de poesia, na PUC-Rio (2014). Traduziu, em parceria com Paulo Henriques Britto, uma primeira antologia brasileira de Frank O’Hara, Meu coração está no bolso (Luna Parque, 2017). Traduziu, juntamente com Ismar Tirelli Neto, o livro Silêncio de John Cage (Cobogó, 2019). Janga, coletivo de poetas e editora independente.
Trabalha como tradutora e professora.

Otávio Campos é um poeta e editor nascido em 1991. Mestre em Estudos Literários, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. É doutorando em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais. Publicou, entre outros, os livros Os peixes são tristes nas fotografias e Ao jeito dos bichos caçados. Desde 2014 é coordenador editorial das Edições Macondo.

Padrão
poesia latinamericana, tradução

Fernanda Laguna, por Eduarda Rocha

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Fernanda Laguna (Buenos Aires, 1972-) é escritora, artista plástica e curadora. Tornou-se uma das escritoras mais destacadas da chamada “geração dos 90”, na Argentina. Fundou junto a Cecilia Pavón a editora e galeria de arte Belleza y felicidad. Em 2003, abriu a sucursal de Belleza y felicidad no bairro de Villa Fiorito, que segue em atividade. Foi membro do coletivo Eloísa Cartonera e abriu com diversxs sócixs vários espaços de arte, em Buenos Aires. Publicou diversos livros de poesia e grande parte de sua produção está reunida em Control o no control (2012), seleção de poemas publicados entre 1999 e 2011; e La princesa de mis sueños (2018), que reúne poemas escritos entre 1994 e 2003. Em 2018, lançou a coletânea de inéditos Los grandes proyectos, pela coleção 8M do jornal Página/12. Sob o heterônimo Dalia Rosetti publicou os livros: Me encantaría que gustes de mí (2006), Dame pelota (2009) e Sueños y pesadillas (2016). Como artista plástica, participou de diversas exposições individuais e coletivas. Sua obra foi adquirida por diversos museus ao redor do mundo, tais como o Malba, Museo Reina Sofía e o Guggenheim. É militante e uma das fundadoras do coletivo feminista Ni Una Menos.

Fernanda Laguna transformou sua vida em literatura, sendo ela própria convertida em personagem de livros de César Aira e Washington Cucurto. Seus poemas são como um fluxo, uma tentativa de captar um instante, abordando assuntos que poderiam ser considerados banais e ganham uma dimensão poética. Nisso reside a potência de sua obra. A poesia de Fernanda Laguna é uma constante investigação sobre o ato da escrita, em que a tentativa de escrever um poema é o próprio poema. Esta poesia tão vinculada à experiência, escrita em primeira pessoa, com um tom confessional, resgatou um modo de produção poética considerado “menor”, por certo segmento da crítica, e mobilizou grande parte das novas gerações de poetas argentinxs que têm a autora como uma de suas referências.  Desde as relações amorosas com homens e mulheres até o seu absorvente, tudo que existe ao redor e dentro de Fernanda Laguna cabe em um poema dela.

Os três poemas abaixo integram a coletânea Control o no control, publicada em 2012 pela editora Mansalva.

Eduarda Rocha

*

A mi toallita femenina

Estaba en el baño y me inspiré
pero dudé si llegaría a la computadora a escribir este poema
porque me duele la panza.
Y pensé que si de pasada me tiraba en la cama
no duraría esta inspiración.
Pero llegué…
y todo para decir:
LAS MEJORES TOALLITAS DEL MUNDO SON

LAS LADY SOFT NORMALES
(y son las más baratas).

Este es un poema para el futuro
para dejar un rastro de estas fabulosas toallitas
que me acompañan tan bien cuando las consigo.
Son las mejores.
Algún día…
dentro de muchos años,
en el futuro,
no sé si se usará toallita
y ni me imagino que se usará.
Pero yo quiero que este poema
sea un homenaje y un recuerdo
para todas las chicas del futuro:
una vez existió una marca buena,
una toallita bárbara.

Este es un poema arqueológico
en un basural algún día
quedará sin descomponerse
una Lady Soft llena de gusanos.
Y para ella

también será este poema.

Para meu absorvente 

Estava no banheiro e me inspirei
mas duvidei se chegaria ao computador para escrever este poema
porque sinto cólicas.
E pensei que se por acaso me jogasse na cama
esta inspiração não duraria.
Mas cheguei…
e tudo isso para dizer:
OS MELHORES ABSORVENTES DO MUNDO SÃO
OS LADYSOFT NORMAIS
(e são os mais baratos).

Este é um poema para o futuro
para deixar um rastro destes fabulosos absorventes
que me acompanham tão bem quando os consigo.
São os melhores.
Algum dia…
daqui a muitos anos,
no futuro,
não sei se ainda se usará absorvente
e nem imagino o que se usará.
Mas eu quero que este poema
seja uma homenagem e uma lembrança
para todas as garotas do futuro:
uma vez existiu uma marca boa,
um absorvente espetacular.

Este é um poema arqueológico
em um depósito de lixo algum dia
restará sem se decompor
um LadySoft cheio de vermes.
E para ele
também será este poema.

§

Acerca de la noche

Tengo poco tiempo para escribir el mejor poema de mi vida
acerca de la noche.
Tengo poco tiempo para que se me ocurra algo brillante
y con el ritmo vertiginoso de una buena canción.
Tengo poco tiempo.
Alguien me persigue y no soy paranoica.
No sé quién es pero me impide escribir mi mejor poema
y ya lo tengo prometido para mañana.
Tengo 5 minutos y no puedo pensar acerca de la noche.
¿Dónde estará aquel novio que conocí aquella noche en la
presentación de la xxxxxxx?
Tengo que censurar mis poemas,
lo lamento más yo que ustedes
porque me encantaría contarlo todo.
Una noche entré a un hotel con una llave robada
y dormí en una habitación ocupada
con un chico que tenía una novia china francesa
y muy cultural (eso me dijo el chico)
El chico estaba borracho y xxxxxx…
No estuvo tan mal.
¿Cuánto tiempo me queda?
Ya voy tiempo extra y el tema de la falta de tiempo
deja de ser mi argumento por el cual
estoy inhibida para escribir un buen poema.
Todavía tengo unos minutos más pero estoy en la cuenta regresiva
y me divierte que este poema sea tan plomo ¿no?
¿O es divertido?
Es lindo tener el tiempo ocupado para no caer en la locura.

Sobre a noite

Tenho pouco tempo para escrever o melhor poema de minha vida
sobre a noite
Tenho pouco tempo para que me ocorra algo brilhante
e com o ritmo vertiginoso de uma boa canção.
Tenho pouco tempo.
Alguém me persegue e não sou paranoica.
Não sei quem é, mas me impede de escrever meu melhor poema
e já prometi isso para amanhã.
Tenho 5 minutos e não posso pensar sobre a noite.
Onde estará aquele namorado que conheci aquela noite na
Apresentação da xxxxxxx?
Tenho que censurar meus poemas,
eu lamento por isso mais que vocês
porque adoraria contar tudo.
Uma noite entrei num hotel com uma chave roubada
e dormi num quarto ocupado
com um garoto que tinha uma namorada chinesa francesa
e muito cult (isso foi o que ele me disse)
O garoto estava bêbado e xxxxxx…
Não foi tão ruim.
Quanto tempo me resta?
Já estou nos acréscimos e o tema da falta de tempo
deixa de ser meu argumento pelo qual
estou inibida para escrever um bom poema.
Ainda tenho uns minutos, mas estou na contagem regressiva
e me diverte que este poema seja tão chato, não?
Ou é divertido?
É lindo ocupar o tempo para não cair na loucura.

§

¿Qué hacés poema de mí?
¿Por dónde me llevás?
Has hecho que los poetas se enemisten conmigo,
Me has tirado en un campo de batalla
lleno de tanques.
Las bombas caen
mirá
sobre la “i”
cayó una bomba.
¿O está suspendida
 y esta guerra
es un sueño?
No sé
he abandonado en la empuñadura
la racionalidad
y la cambié
por tu mente rítmica.
Poesía maldita
no voy a luchar contra vos,
haremos el amor
acá
en medio de los cadáveres.

Un rayo eléctrico
cae sobre el pararayos
¡aaaaaaaahhhhhh!
y simplemente me cayó encima.
Pero vos, poesía,
seguirás loca
metiéndote en la cama de mis amigos
dándoles
más
locura,
erradicándoles su esencia.

Poema, o que você faz de mim?
Aonde você me leva?
Por sua culpa os poetas se tornaram meus inimigos,
Você me jogou em um campo de batalha
cheio de tanques.
As bombas caem
olhe aqui
sobre o “i”
caiu uma bomba.
Ou está suspensa
e esta guerra
é um sonho?
Não sei
abandonei na empunhadura
a racionalidade
e a substituí
por sua mente rítmica.
Poesia maldita
não vou lutar contra você,
faremos amor
aqui
em meio aos cadáveres.

Um raio elétrico
cai sobre o para-raios
aaaaaaaahhhhhh!
e simplesmente caiu em cima de mim.
Mas você, poesia,
continuará louca
se metendo na cama dos meus amigos
dando a eles
mais
loucura,
lhes erradicando sua essência.

§

Eduarda Rocha (Maceió, 1991) é pesquisadora e tradutora. Atualmente, realiza doutorado em Estudos Literários na Universidade Federal de Alagoas. Tem se dedicado a investigações sobre as poesias brasileira e argentina contemporâneas. Em sua tese, analisa a obra das poetas Angélica Freitas, Cecilia Pavón e Fernanda Laguna.

*

Padrão
tradução

Henri Michaux, por Ana Cláudia Romano Ribeiro

10 aforismos de Poteaux d’angle (Pilares de canto), de Henri Michaux

Henri Michaux (1899-1984), poeta belga de expressão francesa, foi um sujeito dotado de grande curiosidade e marcado pela não-acomodação. Interessou-se por quase tudo ao longo de sua vida: escrita, etnologia, línguas, música, pintura, corpo humano, drogas, zoologia, botânica, mineralogia. Diz-se dele que, antes de morrer, morava em um quarto praticamente vazio, a não ser pela presença de dicionários de biologia, astronomia, línguas, ornitologia, etc.

Ele viajou muito, tanto a trabalho quanto por prazer. e tirou grande proveito do tema da viagem para fora ou para dentro de si em sua literatura. Foi para a Inglaterra, América do Norte, Índia, China, Japão, conheceu vários países da América do Sul e, no Brasil, visitou os estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro. Tanto quanto os grandes deslocamentos interessavam-lhe as pequenas distâncias e os seres minúsculos – diz-se que andava com uma lupa no bolso. Também era um observador minucioso dos processos vitais e do comportamento de organismos, na saúde e na doença, fossem eles seres humanos, animais ou plantas, de preferência não-europeus, inventados ou não.

Uma primeira versão de Poteaux d’angle (“Pilares de canto”) foi publicada em 1971 pelas edições de L’Herne e, aumentada com textos inéditos, republicada em 1978 pela Fata Morgana. A última versão data de 1981 (Gallimard) e a ela Michaux, aos 82 anos, acrescentou duas novas partes e um poema final. O livro totaliza quatro partes, quatro pilares que definem espaços de insubordinação em forma de aforismos, preceitos e considerações variadas. São recomendações endereçadas muitas vezes a um “tu” no imperativo, disparadores de meditação de um livro de sabedoria que faz parte de uma longa e antiga linhagem. Aqui, porém, a moralidade é paradoxal, inverte os lugares comuns e fornece “ensinamentos contra o ensinamento”, anti-sabedoria que ensina sabedoria, como observa Chloé Hunzinger. Em suma, aforismas contra toda e qualquer acomodação. Espécies de vacinas.

Ana Cláudia Romano Ribeiro traduz, escreve, desenha, pesquisa outros modos de expressão e é professora na Universidade Federal de São Paulo. Publicou a tradução com introdução e notas da utopia francesa A terra austral conhecida (1676) de Gabriel de Foigny (editora da Unicamp, 2011) e coeditou a revista Morus – Utopia e Renascimento, para a qual fez também traduções. Atualmente está no prelo sua tradução com introdução e notas da Utopia (1516) de Thomas More (editora da UFPR). Traduziu os aforismas poéticos Poteaux d’angles (Pilares de canto), de Henri Michaux, e, em projeto coletivo, a peça de teatro Le bleu de l’île (O azul da ilha), de Évelyne Trouillot. Na escamandro, publicou a tradução de Amazonia he visto (“Amazônia eu vi”), de José Muchnik, e poemas seus. Atualmente está preparando uma antologia de escritoras de língua francesa (poesia).

Henri Michaux, por Jean Dubuffet

* * *

Aprende tão somente com reservas.

Toda uma vida não basta para desaprender o que, ingênuo, submisso, tu deixaste que te colocassem na cabeça – inocente! – sem pensar nas consequências.

N’apprends qu’avec réserve.

Toute une vie ne suffit pas pour désapprendre, ce que naïf, soumis, tu t’es laissé mettre dans la tête – innocent! – sans songer aux conséquences.

§

Sem pressa com teus defeitos. Não vás corrigi-los inconsideradamente.

O que colocarias no lugar?

Avec tes défauts, pas de hâte. Ne va pas à la légére les corriger.

Qu’irais-tu mettre à la place?

§

Realização. Não demais. Apenas o necessário para que te deixem em paz com as realizações de modo que possas, sonhando, só para ti, logo entrar no irreal, no irrealizável, na indiferença à realização.

Réalisation. Pas trop. Seulement ce qu’il faut pour qu’on te laisse la paix avec les réalisations, de façon que tu puisses, en rêvant, pour toi seul, bientôt rentrer dans l’irréel, l’irréalisable, l’indifférence à la réalisation.

§

Vai até o fim dos teus erros, pelo menos de alguns deles, para poder observar bem de que tipo são. Se não, parando no meio do caminho, irás sempre cegamente retomar a mesma espécie de erros, de uma ponta da vida à outra; certas pessoas chamarão isso de teu “destino”. O inimigo, que é tua estrutura, força-o a se descobrir. Se não puderes entortar teu destino, não terás sido mais do que um apartamento alugado.

Va jusqu’au bout de tes erreurs, au moins de quelques-unes, de façon à en bien pouvoir observer le type. Sinon, t’arrêtant à mi-chemin, tu iras toujours aveuglément reprenant le même genre d’erreurs, de bout en bout de la vie, ce que certains appeleront ta “destinée”. L’ennemi, qui est ta structure, force-le à se découvrir. Si tu n’as pas pu gauchir ta destinée, tu n’auras été qu’un appartement loué.

§

Aconteça o que acontecer, nunca te deixes levar – erro supremo – pela crença de que és o mestre, nem mesmo um mestre do mal pensar. Resta muito a fazer, enormemente, quase tudo. A morte colherá um fruto ainda verde.

Quoi qu’il t’arrive, ne te laisse jamais aller – faute suprême – à te croire maître, même pas un maître à mal penser. Il te reste beaucoup à faire, énormément, presque tout. La mort cueillera un fruit encore vert.

§

… Bobos por terem sido inteligentes cedo demais. Não te apresses rumo à adaptação.

Guarda sempre uma reserva de inadaptação.

… Bêtes pour avoir été intelligents trop tôt. Toi, ne te hâte pas vers l’adaptation.

Toujours garde en réserve de l’inadaptation.

§

É preciso um obstáculo novo para um saber novo. Vigia periodicamente para suscitar obstáculos para ti, obstáculos para os quais deverás encontrar uma parada… e uma nova inteligência.

Il faut un obstacle nouveau pour un savoir nouveau. Veille périodiquement à te susciter des obstacles, obstacles pour lesquels tu vas devoir trouver une parade… et une nouvelle intelligence.

§

Caído na água, um homem afunda. A corrente o gira, o revira, o afunda, o leva. Ele não voltará mais à superfície. Em todos os orifícios a água se apressa, penetrou irreversível, fazendo barragem em volta. Pulmões bloqueados, a respiração não está em funcionamento. Uma única aspiração intempestiva tampou tudo. Outras são impossíveis. Seria levantar um muro. Alguns segundos faltam, o tempo já não está mais defronte, mais para trás apenas. A vida inteira parece desfilar (erro, somente acontecimentos dos mais banais, bagatelas outrora estimadas importantes, se mostram uma última vez, passando vivamente uma após a outra).

A impressão de futuro não é mais continuada, aquela que somente a respiração ininterrupta sustentava, proporcionalmente.

Do lado de fora, pessoas com seu “presente” completo, em bom estado, com o conforto (sem perceber) de respirações regulares, fazedoras de futuro, passeiam inconscientes possuidoras do indispensável e, venturosas ou crispadas, sonham com o superficial, com a superfetação.

Tombé à l’eau, un homme s’enfonce. Le courant le roule, le retourne, l’enfonce, l’emporte. Il ne reviendra plus à la surface. À tous les orifices, l’eau se presse, a pénétré irréversible, faisant barrage tout autour. Poumons bloqués, la respiration est hors de fonctionnement. Une seule aspiration intempestive a tout bouché. D’autres sont impossibles. Ce serait un mur à soulever. Quelques secondes manquent, déjà le temps n’est plus en face, n’est plus qu’en arrière. La vie entière paraît défiler (erreur, seulement de sacrés petits faits divers, bagatelles autrefois trouvées importantes, se montrent une dernière fois, passant vivement à la file).

L’impression d’avenir n’est plus continuée, que seule la respiration ininterrompue soutenait, à mesure.

Dehors des gens avec leur “présent” complet, en bon état, avec le confort (sans le remarquer) de respirations régulières, faiseuses d’avenir, se promènent inconscients possesseurs de l’indispensable, et béats ou crispés rêvent au superficiel, au superfétatoire.

§

Uma certa aranha toda manhã faz na natureza e em todo local que lhe permita uma teia admiravelmente regular. Após a ingestão de um extrato de cogumelo alucinógeno – que por artimanhas lhe fizeram tomar – ela começa uma teia cujas espiras pouco a pouco não se seguem mais e saem tortas, e tanto mais quanto a quantidade absorvida é mais considerável: uma teia de louca. Partes cedem, se enrolam, Zygiella notata, é seu nome, não para antes de ter obtido a dimensão habitual, mas tornou-se incapaz de seguir seu plano, um plano que porém não data de ontem, mas de dezenas ou de centenas de séculos, passando intacto e perfeito de mãe a filha, ela comete erros, duplicações, deixa buracos em alguns lugares, justo ela, tão cuidadosa, e segue adiante. As últimas espiras são um balbucio, uma vertigem, é como se ela tivesse sido tomada por um assombro. Obra em ruína, mal sucedida, humana. Aranha tão próxima de ti agora. Ninguém sobre a droga exprimiu mais justamente, mais diretamente o transtorno dos enredamentos. Como irmão, olha suas ruínas em fio. Mas afinal o que ela, Zygiella, viu?

Une certaine araignée chaque matin fait dans la nature et en tout lieu qui s’y prête une toile admirablement régulière. Après ingestion d’un extrait de champignon hallucinogène – que pas ruse on lui a fait prendre – elle commence une toile dont petit à petit les spires ne se suivent plus et partent de travers, et d’autant plus que la quantité absorbée est plus considérable: une toile de folle. Des parties s’affaissent, s’enroulent, Zygiella notata, c’est son nom, ne s’arrête pas avant d’avoir obtenu la dimension habituelle mais, devenue incapable de suivre son plan, un plan qui pourtant ne date pas d’hier, mais de dizaines ou de centaines de siècles, passant intact et parfait de mère en fille, elle commet des erreurs, des redoublements, ailleurs laisse des trous, elle, si soigneuse, et passe outre. Les dernières spires sont un balbutiement, un vertige, c’est comme si elle avait eu un éblouissement. Oeuvre en ruine, ratée, humaine. Araignée si proche de toi maintenant. Nul sur la drogue n’a plus justement, plus directement exprimé le trouble des enchevêtrements. En frère, regarde ses ruines en fil. Mais qu’a-t-elle donc vu, Zygiella?

§

No campo, no canto do quarto, vês um rato se mexer. Ou seria somente um farrapo que o ar fez tremer? Às vezes rato, às vezes farrapo.

Aquele que ainda nunca matou transpira, tomado de mal-estar e de uma desviante emoção inesperada que se aproxima inclusive da vertigem.

A virgindade ainda intacta (quanto ao assassinato) recebe uma tentação, um choque. Cheias de problemas, as virgindades.

A frágil colunazinha de pequenas vértebras que faz permanecer inteiro o pequeno animal explorador e impudente como toda a sua espécie, desrespeitosa do homem, ah! se um golpe sobre o dorso lhe fosse desferido, seria o fim dessa irritante vida ao rés do chão.

Logo algo de inconfessável toma em você proporções enormes, as proporções de uma guerra! Por um rato! Assim trabalha a irresolução. Vamos, aja, um rato, essa coisa não vai gritar tão forte. Mas o problema permanece: uma virgindade deve ser vencida ou conservada? Decide-te, o rato não espera… Ele já se safou.

Também ele vivia uma aventura premente que, como indivíduo de ação, resolveu agilmente.

À la campagne, dans le coin de la chambre tu vois remuer un rat. Ou serait-ce seulement une loque que l’air a fait frissonner? Tantôt plus rat, tantôt plus loque.

Celui qui n’a encore jamais tué transpire, pris de malaise et d’une devoyante émotion inattendue qui approche même du vertige.

La virginité encore intacte (quant au meurtre) reçoit une tentation, un choc. Pleines de problèmes, les virginités.

La frêle colonette de petites vertèbres qui fait tenir ensemble le petit animal fureteur et impudent comme toute son espèce, irrespectueuse de l’homme, ah! si un coup sur le dos lui était asséné, c’en serait fini de cette irritante vie au ras du sol.

Déjà de l’inavouable prend en toi des proportions énormes, les proportions d’une guerre! Pour un rat! Ainsi travaille l’irrésolution. Allons, agis, un rat, ça ne va pas crier tellement fort. Mais le problème demeure: une virginité doit-elle être vaincue, ou gardée? Décide-toi, le rat n’attend pas… Il a déjà filé.

Lui aussi vivait une aventure pressante qu’en individu d’action il résolut lestement.

Padrão
poesia norte-americana, tradução

Nikki Giovanni, por Danieli Corrêa

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Nikki Giovanni, nascida Yolande Cornelia Giovanni. Jr, em Knoxville, Tennessee em 1943, é uma grande poeta norte americana, embora pouco conhecida no Brasil. Tem uma escrita que nos soa familiar: fala sobre si, o que vive e sente, sobre suas experiências. Dentro desse espectro, aborda temas como amor, amizade, rejeição, raiva, frustração. De certa forma, organiza o que sentimos em palavras de forma natural, parecendo simples, porém com uma consistência que não tem nada de ingênua. Além de poeta, Nikki é professora, ativista e além de escreve literatura infantil e de não-ficção.

Para traduzir, passei por muitas versões de laudos e manuais para, finalmente, tentar me guiar por caminhos mais contemplativos, ainda que sem perder a firmeza. Assim como na vida, me deixei levar pela poesia buscando amaciar corações enrijecidos, além do meu próprio, e tenho prosperado. Esperando que cada pessoa, ao ler um poema, sinta o calor que dele emana em tempos cada vez mais frios.

Danieli Corrêa 

*

I would not be different

Every now and then
We all fall in love
With a totally inappropriate
Person

And I would not be different

You sort of see someone
And you don’t want to notice
That ring on his finger
Nor really that sort of happy
Look in his eyes

You do however know
Immediately
How wonderful it would be
To fall into those arms
To nuzzle the hairs
Of his underarms
To rub your cold feet
Against those thighs

You do want to know
What the water would feel like
As it caresses you two
In a rainbow shower
The soapy suds swirling around
As you kiss and kiss and kiss

You do want to know
How he takes his eggs
Whether his toast should be buttered

On both sides
If he drinks decaf or regular

But he is a totally inappropriate person
And all the world knows
This cannot work

Yet all the world would think
If they could see him
“I want to be in love with that”

And I would not be different

Comigo não seria diferente

De vez em quando
Todos nós nos apaixonamos
Por uma pessoa completamente
inapropriada

E comigo não seria diferente

Você meio que vê alguém
E não quer perceber
Aquele anel em seu dedo
Muito menos aquele olhar de felicidade
em seus olhos

Você, no entanto, sabe
Imediatamente
Como seria maravilhoso
Cair em seu braços
Acariciar os pelos
de suas axilas
Esfregar seus pés gelados
Em suas coxas

Você quer saber
Como seria sentir a água
A acariciar vocês
Em um banho de arco-íris
As bolhas de sabão borbulhando
Enquanto vocês se beijam e beijam e beijam
Você quer saber sim
Como prepara seus ovos
Se passa manteiga nas torradas

Dos dois lados
Se o café é normal ou descafeinado

Mas é uma pessoa totalmente inapropriada
E o mundo todo sabe
Que isso não pode dar certo

Mesmo assim, o mundo pensaria
Se vissem essa pessoa
“Eu quero me apaixonar”

E comigo não seria diferente

§

Bicycles

Midnight poems are bicycles
Taking us on safer journeys
Than jets
Quicker journeys
Than walking
But never as beautiful
A journey
As my back
Touching you under the quilt

Midnight poems
Sing a sweet song
Saying everything
Is all right

Everything
Is
Here for us

I reach out
To catch the laughter

The dog thinks
I need a kiss

Bicycles move
With the flow
Of the earth

Like a cloud
So quiet
In the October sky
Like licking ice cream
From a cone
Like knowing you
Will always
Be there

All day long I wait
For the sunset
The first star
The moon rise

I move
To a midnight
Poem
Called
You
Propping
Against
The dangers

Bicicletas

Poemas da madrugada são bicicletas
Nos levando a caminhos mais seguros
Do que aviões
Mais rápidas
Do que caminhar
Mas nunca um caminho
Tão bonito
Quanto as minhas costas
Te tocando embaixo do edredom

Poemas da madrugada
Cantam uma doce canção
Dizendo que
está tudo bem

Está
Tudo
aqui por nós

Me estico
Para alcançar a risada

O cachorro pensa
Preciso de um beijo

Bicicletas se movem
com a brisa
da Terra

Como uma nuvem
Tão quieta
No céu de outubro
Como lamber um sorvete
No cone
Como saber que você
Estará
Sempre lá

Espero o dia todo
Pelo pôr do sol
Pela primeira estrela
Pela lua

Me movo
Para o poema
Da madrugada
Chamado
Você
Se apoiando
Nos perigos

§

No translations

the smells of a pot roast from the oven
turnips garlic onions
potatoes celery parsnips
tomatillo yucca root

Jack Frost painting
the windows

my cold feet
your warm back
“It started in New Orleans
but now its everywhere . . .” Pure Jazz on your dial

chocolates coffee
a good red wine
18 degrees and falling
high winds
maybe a power loss

giggles laughter
sweatpants jeans

I speak to you
in the language
of love

no translations
necessary

Nenhuma tradução

o cheiro de um assado no forno
nabos alho cebolas
batatas salsão mandioquinha
tomatillo¹ mandioca

quadro do Jack Frost
as janelas

meus pés gelados
em suas costas quentes
“Começou em New Orleans
mas agora está em todo lugar. . .” Pure Jazz no rádio

chocolates café
um bom vinho tinto
18 graus e caindo
ventos fortes
talvez uma queda de energia

risinhos risada
moletom jeans

Converso com você
no idioma
do amor

nenhuma tradução
se faz necessária

§

Mercy

She asked me to kill the spider
Instead, I got the most
peaceful weapons I can find

I take a cup and a napkin.
I catch the spider, put it outside
and allow it to walk away

If I am ever caught in the wrong place
at the wrong place, just being alive
and not bothering anyone,

I hope I am greeted
with the same kind
of mercy.

Misericórdia

Ela me pediu para matar a aranha
Ao invés disso, peguei as armas
mais pacíficas que pude encontrar

Peguei um copo e um guardanapo.
Capturei a aranha, levei-a para fora
deixei que fosse embora

Se eu for pega no lugar errado
no local errado, apenas vivendo
sem incomodar ninguém,

espero ser acolhida
com a mesma
misericórdia.

§

I wrote a good omelette

I wrote a good omelet… and ate
a hot poem… after loving you
Buttoned my car… and drove my
coat home… in the rain…
after loving you
I goed on red… and stopped on
green… floating somewhere in between…
being here and being there…
after loving you
I rolled my bed… turned down
my hair… slightly
confused but… I don’t care…
Laid out my teeth… and gargled my
gown… then I stood
… and laid me down…
To sleep…
after loving you

Escrevi um bom omelete

Escrevi um bom omelete e comi um poema quente…
depois de te amar
Abotoei meu carro… e dirigi meu casaco
para casa… na chuva…
depois de te amar
Segui no vermelho… e parei no verde… flutuando por aí…
aqui e ali…
depois de te amar
Enrolei minha cama… soltei meu cabelo…
um pouco confusa, mas… não me importo…
Vesti meus dentes… fiz um gargarejo na camisola…
então fiquei de pé… e me deitei…
Para dormir…
depois de te amar

§

Danieli Corrêa, tradutora e revisora de textos. Nasci, cresci e me formei no interior, moro agora em São Paulo, cidade que é um caso de amor e ódio (no meu caso, mais amor do que ódio, sempre bom dosar), trabalho regularmente como revisora em uma agência.

*

Padrão
tradução, xanto

XANTO|Hans Arp, por José Pierre

De la famille des étoiles (1965)

“São quinze pro verão”

O primeiro livro ilustrado por Arp, conhecido por poucos, é uma tradução francesa do Bhagavad-Gîtâ, editada em 1914 pela Librairie de L’Art Indépendant, em Saint-Amand (Cher). Apesar da sua originalidade para a época, as ilustrações, minúsculas vinhetas aracnídeas perfeitamente desapegadas de qualquer preocupação figurativa, e apesar de serem o primeiro testemunho que nos restou dessa ruptura com o “modelo exterior”, não é só a elas que devemos dar atenção. O Bhagavad-Gîtâ ou canto do bem-aventurado, livro sagrado indiano que faz parte da epopeia divina do Mahâbhârata, de fato desenvolve conceitos fundamentais do hinduísmo, dentre os quais o da transmigração, que desempenha um papel fundamental. Resumidamente, a crença em um ciclo de encarnações sucessivas acarreta duas possibilidades: “por um lado, a transmigração (samsâra) sem fim, condição normal da existência; por outro, a possibilidade de se libertar para sempre dessa transmigração, quer dizer, a aquisição do nirvâna, para aqueles que compreenderam a fundo a estrutura das coisas” [1].

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Portfolio with 12 etchings – I, RUE GABRIELLE”. Douze eaux-fortes originales de Jean Arp. Préface de Michel Seuphor. Paris, Editions XXe siècle (1958).

Parece-me, e essa é a razão da digressão precedente, que este dilema está no coração da obra poética e plástica de Hans Arp. O sâmsara efetivamente implica uma instabilidade contínua do ser que se reveste dos envelopes heterogêneos sob os quais, um após o outro, persegue-se um único destino; através disso é afirmada indiretamente a unidade do mundo vivo, sendo que as barreiras entre os reinos são menos custosas do que aquilo que as arruína. Esse talvez seja o mais frequente espetáculo que nos é oferecido pela poesia de Hans Arp, espetáculo de uma cadeia de metamorfoses inelutáveis:

numa boca
se abre outra boca
e nessa boca
se abre outra boca
e nessa boca
se abre outra boca
e assim segue
sem fim

que se conclui com uma constatação de identidade entre as diferentes formas da natureza:

as pedras são vísceras
bravo bravo
a pedras são troncos de ar
as pedras são galho d’águas 

ou ainda:

as orelhas os narizes as bocas as cabeças os pés
são pedras

a propósito do quê não podemos deixar de sonhar com Novalis:

Tornar-se flor, animal, pedra, estrela…

e, é claro, com a famosa frase liminar do quarto dos Cantos de Maldoror:

É um homem ou uma pedra ou uma árvore que vai                                      [começar o quarto canto.

A originalidade de Hans Arp está em ter tentado apreender diretamente os seres e as coisas no nível da sua indiferenciação original, proposição parcialmente confirmada, como é sabido, pelas descobertas da embriologia moderna. Isso revela-se mais particularmente em seus relevos e melhor ainda em suas esculturas, onde a pedra, denominador comum das metamorfoses, que se perpetua até ele passando por Novalis e Lautréamont, permite fixar de maneira duradoura o avatar terminal, ou primordial…[2] Podemos nos perguntar justamente se não se trata, da parte do escultor, de um meio de interromper a cadeia de mutações para atingir, através do estabelecimento da identidade dos possíveis no estado de sua indiferenciação, a plenitude e a interrupção da História, ou seja, o nirvâna. Mas a vontade do Arp escultor parece mais tender à abolição entre as coisas criadas pelo homem e as coisas criadas pela natureza, — entre os dois sentidos da palavra criação — o que é atestado particularmente pela Sculpture à être perdue dans un bois (1932)[3], a respeito da qual poderíamos falar numa tentativa de conciliação entre a via das encarnações obrigatórias e a fuga pela imobilidade.

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Sculpture à être perdue dans un bois (1932)

Isso seria o que em Arp, para mim, compete ao “ponto supremo” apontado por Breton no Segundo manifesto do surrealismo.

Pois os momentos em que Arp parece obedecer à tentação do nirvâna são aqueles em que ele é levado pelo pessimismo e pela recusa da vida proteiforme: por exemplo em 1915, período de suas obras mais rigorosas, mais geométricas (“Estas obras são construídas com linhas, superfícies, formas e cores que procuram atingir, para além do humano, o infinito e o eterno”). Sem dúvida esses momentos correspondem à obsessão com a morte e seu reverso, a crise mística, especialmente evidentes no início da Primeira Guerra Mundial, depois do falecimento de Sophie Taeuber (1943) e em suas esculturas (Seuils, sobretudo) e poemas (Acalma-línguas) dos seus últimos anos.

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Seuil-Configuration (1959)

Entretanto, é bastante nítido que a essa tentação se opõe com força o que serei tentado a chamar de Feliz Arpádia. Contrariamente ao Hindu que, condenado à transmigração em série se desvia espantando desse destino que ignora o apaziguamento e o repouso, Arp floresce plenamente na metamorfose. Poderíamos afirmar com ele que a analogia poética torna-se o caminho da felicidade, não de uma felicidade imaginária, de ordem psicológica, mas de uma felicidade verdadeiramente física, como a que se expressa nos exercícios de ginástica que ele nos faz testemunhar:

a cadeira sobe na mesa
o fogo sobe na cadeira
a voz sobe no fogo
o que fica por baixo da natureza cresce e monta                                      [em cima da natureza e
fala de cadeiras e mesas pegando fogo

e que além disso são realizados em sentido ascendente (tanto física como moralmente falando) como prova o célebre e admirável dístico:

o rouxinol regar os estômagos os corações os cérebros                                [as tripas
ou seja os lírios as rosas os cravos os lilases

Aos que vierem me dizer que isso não concerne em nada os seres humanos, contentarei-me em opor este fragmento de um poema de 1960:

Uma mulher e seus doze filhos
dormem sãos e salvos
e acordam lago habitado
por ninfas sombrias
e derramando treze rios selvagens. 

Um apetite de felicidade imenso, cujo humor é somente um de seus aspectos, o mais deslumbrante, sem dúvida. O humor de Hans Arp… haveria tanto a se dizer sobre isso que prefiro transcrever

O MESTRE PREGADOR

Quando chego
meus amigos largam tudo
e correm
para me ver pregar.
Meu martelo e eu
somos um.
Só sei pregar pregos
em miolo de pão
prego tão bem
que meus amigos esquecem de tudo
e literalmente são transportados
transfigurados em puro azul.
É devagar devagarinho
que eles reaparecem
que eles se reconstituem
em azul corrente
depois em carne e osso
depois que parei de pregar meus pregos
no miolo de pão.

Um poema impressionante, que lembra a pseudo-ingenuidade do Arenque defumado de Charles Cros, e tem sobretudo o mérito de evocar (humoristicamente) o poder mágico do ato criador (poético ou artístico), também capaz de metamorfosear os que alcançam penetrar na intimidade da obra…

Remeto quem pensou que eu queria provar que Arp é um poeta hindu de volta ao seu estábulo. Quis simplesmente demonstrar que a poesia de Arp é, ao lado da de Breton e de Péret, a mais essencialmente surrealista possível. Ao menos aos meus olhos. Não preciso dizer que admiro e é evidente que adoro muitos outros poetas surrealistas. Porém, Arp, Breton e Péret fazem com que a poesia surrealista não possa ser confundida com nenhuma outra. Por conta disso a recente publicação de Dias desfolhados deve ser saudada pelos surrealistas como um evento da mais alta importância.

Gostaria ainda de acrescentar que somente uma deplorável miopia (sim, isso existe) é capaz de impedir a percepção da espantosa unidade que, dos relevos aos papéis rasgados e das esculturas aos poemas, faz dos diversos produtos da atividade de Hans Arp um “mesmo bloco de pedra”. “Este bloco sonha, suspenso no ar, imóvel. Ele está ali, imóvel, no lusco-fusco, e sozinho engendra fantasmas”.

José Pierre

In: L’archibras 2. Les surréalisme en octobre 1967. Dir. Jean Schuster. Le Terrain Vague: Paris, 1967. Tradução inédita de Natan Schäfer.

NOTAS

[1] P. Masson-Oursel et Louise Morin. « Mythologie de l’Inde», in: Mythologie générale, Larousse 1935.

[2] Não ignoro que a modelagem do gesso, ainda mais que o talho direto, constitui o percurso escultural essencial de Hans Arp. Mas a passagem do estado pastoso, quase líquido, ao estado sólido, próprio do gesso, responde melhor que o trabalho em mármore às intenções de metamorfose.

[3]Nota do tradutor: na verdade a escultura em questão se chama “Sculpture à être perdue dans la forêt”.

 

 

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poesia, sessão vagalume, tradução

Sessão Vagalume|Stefano Modeo, por Prisca Agustoni

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Stefano Modeo (Taranto, 1990) vive e trabalha em Ferrara. La terra del rimorso (ItalicPequod, 2018) é seu livro de estreia. Publicou poemas dessa mesma coletânea nas principais revistas literárias italianas. Integra a antologia Abitare la parola – poeti nati negli anni ’90 (Ladolfi Editore, 2019). Integra a redação da revista de poesia Atelier e colabora com o blog de literatura Nazione indiana.

Os poemas aqui traduzidos foram extraídos da coletânea La terra del rimorso.

* * *

IV.

La piazza semivuota del tuo cuore.
Hai percorso la piazza.
Hai smesso di guardare il passo tuo nella piazza:
tra la gente cercavi la tua gente.
Scarpe e volti nella piazza mattutina.
Le parole sono tante le idee sono poche.
Sei tornato a casa e hai scritto una poesia:
la leggeremo in piazza, risuonerà alta:
nella piazza semivuota del tuo cuore.

IV.

A praça semideserta do teu coração.
Você percorreu a praça.
Parou de olhar teu passo na praça:
entre as pessoas você procurava tuas pessoas.
Sapatos e rostos na praça matutina.
As palavras são tantas as ideias são poucas.
Voltou pra casa e escreveu um poema:
o leremos na praça, soará alto:
na praça semideserta do teu coração.

§

V.

Nella pancia della balena gorgoglia la mattanza
siamo tanti stipati come legni nella stiva
la balena ogni tanto soffia in alto il mare e
qualcuno. Siamo tanti niente mescolati di lutto e di
nessuno porta avanti Capitano la mia sorte, porta
avanti.
Brucia, il mare, la tua pelle senza acqua – è buio –
sbatte la balena, uno schiaffo nell’impatto – mi sveglio –
rallenta rallenta anche il calore del motore – è finita –
la morte, i bianchi sono venuti a prenderci – Dio mio

V.

Na barriga da baleia borbulha a matança
somos muitos enfiados como lenha no porão
às vezes a baleia sopra para o alto o mar e
alguém. Somos muitos nada misturados de luto e de
ninguém leva em frente Capitão minha sorte, leva
em frente.
Queima, o mar, tua pele sem água – está escuro –
choca a baleia, um estalo no impacto – eu acordo –
reduz reduz até o calor do motor – acabou –
a morte, os brancos vieram nos pegar – meu Deus

§

IX

nel terrore delle sere le città militarizzate sembrano cespugli
se per di qui te ne vai, passante, non capisci qual è il gioco
eppure la paura ti abbraccia le caviglie e incespicando sbrighi
il tuo passo per il quais.
Batte
botte
questo cuore sorvegliato.
Quest’impero è una vetrina lungo i viali solitari,
ecco solo i militari.
Lampeggiando una sirena sale, un elicottero guarda indifferente
e silenziosamente una sigaretta fuma lenta alle finestre rabbuiate.
Splende un occhio
incandescente
sul tuo viso preoccupato.
Ovunque corrono i pensieri, ovunque le notizie in tempo reale
avanzi il passo verso casa, tutto il mondo è virtuale, la paura sale

IX

no terror das noites as cidades militarizadas parecem matagais
se você for por aqui, passante, não vai entender qual é o jogo
mas o medo te abraça nos tornozelos e tropeçando você apressa
o passo ao longo da calçada.
Bate
barril
este coração vigiado.
Este império é uma vitrine ao longo das avenidas solitárias,
eis apenas os militares.
Uma sirene sobe piscando, um helicóptero olha indiferente
e silenciosamente um cigarro fuma lento às janelas escuras.
Brilha um olho
incandescente
em teu rosto preocupado.
Correm por todo lado os pensamentos, como as notícias em tempo real
você alonga o passo rumo à casa, o mundo todo é virtual, o medo sobe

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