crítica, poesia, tradução

Raymond Carver, por Cide Piquet (& uma orelha de Angélica Freitas)

Apesar de ser mais conhecido como escritor de contos, Raymond Carver começou sua carreira literária publicando uma coleção de poemas, Near Klammath, em 1968. Em entrevista à Paris Review, Carver afirmou que a única explicação para ter começado a escrever foram todos os relatos que havia escutado de seu pai: aventuras nos bosques e viagens clandestinas em trens, e também histórias de família, como a do bisavô que lutara na Guerra Civil americana, pelos dois lados, um verdadeiro vira-casacas.

Essas histórias do pai, um trabalhador encarregado de cuidar das lâminas de uma serraria, povoaram o imaginário do jovem Raymond, que por sua vez encontrou nas caçadas e pescarias da juventude os primeiros temas que lhe emocionaram. Ele queria contar sobre o peixe que havia pescado, mas também sobre o que havia escapulido.

Suas escolhas na vida adulta moldaram ainda mais a sua forma de ver o mundo. Uma série de empregos menores e mal pagos, como o de faxineiro num hospital, aguçaram seu olhar e sensibilidade. Trabalhadores pobres, grupo no qual se incluía, são muitas vezes os personagens principais de seus poemas. Com estilo direto e conciso, em que cada palavra é necessária, retratou como poucos a precariedade e os fracassos dessas vidas.

Talvez um dos poemas mais exemplares desta obra seja “O Padeiro”, no qual um homem que teve sua mulher tomada por um pistoleiro foge à noite, humilhado, carregando suas botas para não acordá-lo. “Ele é o herói deste poema”, escreve. Os garotos que entregam jornais, o funcionário do cemitério de Montparnasse que não quer pensar na morte, e os engolidores de fogo das ruas da cidade do México são, também, à sua maneira, heróis de outros poemas.

Os detalhes desse mundo precário, tão bem observados, partem o coração. “Pressionamos os lábios contra a borda esmaltada das xícaras/ e sabemos que essa gordura que boia sobre o café/ um dia irá parar nossos corações./ Olhos e dedos tombam sobre a prataria/ que não é prataria” (“De manhã, pensando no império”). Outro exemplo: “Partimos à meia-noite, com um caminhão de mudança e uma lanterna/ Quem sabe o que passou pela cabeça dos vizinhos ao verem uma família abandonar sua casa no meio da noite” (“Nossa primeira casa em Sacramento”).

A morte está presente em sua obra, mas os cemitérios, quando aparecem nos poemas, servem como lembrete de que é melhor não se demorar neles e que a vida está acontecendo em todos os lugares o tempo inteiro.

Os poemas de Raymond Carver também estão cheios de esperança e da capacidade de se maravilhar. “Existe algo mais maravilhoso do que uma nascente?”, pergunta, em “Onde a água se junta a outra água”. E a sensação que temos, após lê-los, é que se ficarmos muito quietos com nossas xícaras de café, atentos ao que se passa dentro de nós e ao nosso redor, alguma coisa bonita pode acontecer.

Angélica Freitas, na orelha de Esta vida: poemas escolhidos, organização e tradução de Cide Piquet, que acaba de sair pela Editora 34.

* * *

O Padeiro

Então Pancho villa chegou à cidade
enforcou o prefeito
e convocou o velho e enfermo
conde Vronski para jantar.
Pancho lhe apresentou sua nova namorada,
ao lado do marido de avental branco,
mostrou a Vronski sua pistola,
depois lhe pediu que falasse
sobre seu triste exílio no México.
Mais tarde, a conversa foi sobre mulheres e cavalos.
Ambos eram peritos.
A namorada sorria
e brincava com os botões de pérola
da camisa de Pancho, até que,
prontamente à meia-noite, Pancho adormeceu
com a cabeça sobre a mesa.
O marido fez o sinal da cruz
e deixou a casa carregando suas botas
sem nem mesmo acenar
para sua mulher ou para o conde.
Esse marido anônimo, descalço,
humilhado, tentando salvar sua vida, ele
é o herói deste poema.

The Baker

Then Pancho villa came to town,
hanged the mayor
and summoned the old and infirm
Count Vronsky to supper.
Pancho introduced his new girl friend,
along with her husband in his white apron,
showed Vronsky his pistol,
then asked the Count to tell him
about his unhappy exile in Mexico.
Later, the talk was of women and horses.
Both were experts.
The girl friend giggled
and fussed with the pearl buttons
on Pancho’s shirt until,
promptly at midnight, Pancho went to sleep
with his head on the table.
The husband crossed himself
and left the house holding his boots without so much as a sign
to his wife or Vronsky.
That anonymous husband, barefooted,
humiliated, trying to save his life, he
is the hero of this poem.

Baratinhas

para Mona Simpson

O seu bolo de rum com amêndoas, que parecia
delicioso, foi entregue em mãos na minha porta
esta manhã. O motorista estacionou no pé
do morro e subiu o caminho inclinado.
Nada mais se movia naquela paisagem congelada.
Fazia frio dentro e fora. Assinei
o recibo, agradeci e voltei para dentro.
Então removi a grossa fita, arranquei
os grampos da sacola, e lá dentro
encontrei a vasilha que você tinha enchido de bolo.
Rasguei com a unha o adesivo da tampa.
Removi a tampa. Desdobrei o papel-alumínio.
E senti a primeira lufada daquela doçura!

Foi então que apareceu a baratinha
vinda das úmidas profundezas. Uma baratinha
dentro do seu bolo. Bêbada
de rum. Ela contornou a borda da vasilha
e atravessou selvagemente a mesa para
buscar abrigo na fruteira. Não a matei.
Não nesse momento. Tomado que estava por sentimentos
conflitantes. Nojo, é claro. Mas também
espanto. Até admiração. Aquela criatura
tinha feito uma viagem de 3 mil milhas, atravessado a noite
no ar, cercada por bolo, lascas de amêndoas
e o cheiro opressivo do rum. Depois
foi levada de caminhão por uma estrada nas montanhas e
carregada morro acima, no frio, até uma casa
com vista para o Oceano Pacífico. Uma baratinha.
Vou deixá-la viver, pensei. O que é uma a mais,
ou a menos, no mundo? Esta, talvez,
seja especial. Abençoada seja sua estranha cabeça.

Ergui a vasilha de seu invólucro de alumínio
e outras três baratinhas correram sobre a borda
da vasilha! Por um momento fiquei tão
surpreso que não sabia se devia matá-las
ou o quê. Então fui tomado de cólera
e as esmaguei. Espremi a vida de seus corpos
antes que pudessem escapar. Foi um massacre.
Enquanto estava nisso, encontrei e destruí
também a outra, por fim.
Mal comecei e tudo já tinha terminado.
O que quero dizer é que poderia ter simplesmente continuado
a exterminá-las. Se é verdade
que o homem é lobo do homem, o que pode uma mera baratinha
esperar quando brota a sede de sangue?

Sentei, tentando acalmar meu coração.
O ar bufando pelo nariz. Olhei
em volta da mesa, lentamente. Pronto
para o que fosse. Mona, lamento dizer isso,
mas não consegui comer nada do seu bolo.
Guardei-o para mais tarde, quem sabe.
Mesmo assim, obrigado. Você foi doce em se lembrar
de mim, sozinho aqui nesse inverno.
Vivendo sozinho.
Quase como um animal.

Earwigs

for Mona Simpson

Your delicious-looking rum cake, covered with
almonds, was hand-carried to my door
this morning. the driver parked at the foot
of the hill, and climbed the steep path.
Nothing else moved in that frozen landscape.
It was cold inside and out. i signed
for it, thanked him, went back in.
Where i stripped off the heavy tape, tore
the staples from the bag, and inside
found the canister you’d lled with cake.
I scratched adhesive from the lid.
Prized it open. Folded back the aluminum foil.
To catch the rst whiff of that sweetness!

It was then the earwig appeared
from the moist depths. An earwig
stuffed on your cake. Drunk
from it. He went over the side of the can.
Scurried wildly across the table to take
refuge in the fruit bowl. I didn’t kill it.
Not then. Filled as I was with conflicting
feelings. Disgust, of course. But
amazement. Even admiration. This creature
that’d just made a 3,000-mile, overnight trip
by air, surrounded by cake, shaved almonds,
and the overpowering odor of rum. Carried
then in a truck over a mountain road and
packed uphill in freezing weather to a house
overlooking the Paci c ocean. An earwig.
I’ll let him live, i thought. What’s one more,
or less, in the world? This one’s special,
maybe. Blessings on its strange head.

I lifted the cake from its foil wrapping
and three more earwigs went over the side
of the can! For a minute i was so taken
aback i didn’t know if i should kill them,
or what. Then rage seized me, and
I plastered them. Crushed the life from them
before any could get away. It was a massacre.
While I was at it, I found and destroyed
the other one utterly.
I was just beginning when it was all over.
I’m saying I could have gone on and on,
rending them. If it’s true
that man is wolf to man, what can mere earwigs
expect when bloodlust is up?

I sat down, trying to quieten my heart.
Breath rushing from my nose. I looked
around the table, slowly. Ready
for anything. Mona, I’m sorry to say this,
but i couldn’t eat any of your cake.
I’ve put it away for later, maybe.
Anyway, thanks. You’re sweet to remember
me out here alone this winter.
Living alone.
Like an animal, I think.

§

Seu Cachorro Morre

é atropelado por uma van.
você o encontra na beira da estrada
e o enterra.
você ca triste por isso.
você ca triste por si mesmo,
mas também pela sua lha,
porque era o bichinho dela
e ela o amava tanto.
ela costumava sussurrar para ele
e o deixava dormir com ela na cama.
você escreve um poema sobre isso
e diz que é um poema para sua filha,
sobre o cachorro que foi atropelado por uma van
e como você cuidou de tudo,
como o levou para o bosque
e o enterrou fundo, fundo,
e o poema fica tão bom
que você quase se alegra porque o cachorrinho
foi atropelado, senão você nunca
teria escrito aquele bom poema.
então você se senta para escrever
um poema sobre escrever um poema
sobre a morte do cachorro
mas enquanto você está escrevendo
você escuta uma mulher gritar
o seu nome, seu primeiro nome,
as duas sílabas,
e o seu coração para.
depois de um minuto, você volta a escrever.
ela grita outra vez.
você se pergunta quanto tempo isso pode durar.

Your Dog Dies

it gets run over by a van.
you nd it at the side of the road and bury it.
you feel bad about it.
you feel bad personally,
but you feel bad for your daughter because it was her pet,
and she loved it so.
she used to croon to it
and let it sleep in her bed.
you write a poem about it.
you call it a poem for your daughter,
about the dog getting run over by a van
and how you looked after it,
took it out into the woods
and buried it deep, deep,
and that poem turns out so good
you’re almost glad the little dog
was run over, or else you’d never
have written that good poem.
then you sit down to write
a poem about writing a poem
about the death of that dog,
but while you’re writing you
hear a woman scream
your name, your rst name,
both syllables,
and your heart stops.
after a minute, you continue writing.
she screams again.
you wonder how long this can go on.

§

Fragmento Final

E você teve o que queria
desta vida, apesar de tudo?
Tive.
E o que você queria?
Dizer que fui amado,
me sentir amado sobre a terra.

Late Fragment

And did you get what
you wanted from this life, even so?
I did.
And what did you want?
To call myself beloved,
to feel myself beloved on the earth.

(Raymond Carver, traduções de Cide Piquet)

Padrão
poesia, tradução

a poema, a línguagem, a tradução

alejandra-pizarnik-dibujo1

[desenho de alejaandra pizarnik, em seu diário]

em lugar de prefácio

invento palavras pra dizer o poema
palavras linhas palavras flechas rumo ao alvo
o contra-alvo um crivo palavras-água
transbordamento e forma
invento palavras que de-sabem a forma
palavras acesso pra o poema
pra amor o pasme a imobilidade a morte
enfim
acesso
e o poema acontece diante os olhos os ossos
abro possibilidades diante o poema
como quem escava e escava uma cidade
qualquer buenos aires ova morada um rastro gases em auschwitz
e digo mãe soldado lavadeira poeta fantasma

penso —
“uma língua diz tanto pelo que diz quanto pelo que cala, não é possível interpretar seu silêncio”
para traduzir:
fracasso
tal como a poesia a usar coisas e objetos da realidade objetiva
uma dobra na linguagem y sua articulação
uma escrita outra que só funciona
na linguagem como a metáfora que é dispersão desvio
desequilíbrios no poema que dão formas de se mover
cisão entre o que aparece e não aparece corte
na cadeia significante que rompe sentidos para abrir
outros y otros
ouço o que manca o que gagueja
ouço aquele momento da falha
uma linguagem tradução sem formas uma fala de loucos
digo não digo ainda
a língua monumento que com o uso cotidiano se cobre de limo e lodo
tento como a poema
polir a palavra língua alcançar a poema
dizer um dizer um inaugural devir-poema
desde o agora pra o eterno
uma tradução que só se concretiza quando lida
uma tradução ao limite do pensamento-poesia
rio a tradução a linguagem
pode fazer isso a linguagem não-lugar onde tudo é possível
traduzir o impossível
brincar de
o que não há na aparência mas há não
está próximo mas está
entre o que é e não é
uma tradução quer e não quer
– ‘querer e não querer é sempre a mesma coisa –
ser concretizada

ouça:
uma tradução quer te levar
não é chegada
um entre-lugar
“vizinha súbita das coisas não semelhantes”
quer rasurar uma certeza qualquer
certeza encontrar emoção no ritmo
encontrar mil traduções
nenhuma poderá ser inferior

ouça:
encontre sua maneira diferente e única de ler o poema
a tradução que quer gaguejar

penso no inconveniente de comer goiabas
traduzir:
o mesmo de se ter os dentes quebrados
nenhum equilíbrio, ó! a gota que treme na folha e cai
despenca pra o nada
e

[nina rizzi, em alguma dissertação à beira do silêncio]

§

 

Nesta noite, neste mundo

A Martha Isabel Moia

nesta noite neste mundo
as palavras do sonho da infância da morta
nunca é isso o que alguém quer dizer
a língua natal castramento
a língua é um orgão de conhecimento
do fracasso de todo poema
castrado por sua própria língua
que é o orgão da re-criação
do re-conhecimento
mas não o da res-surreição
de algum modo de negação
de meu horizonte de maldoror com seu cão
e nada é promessa
entre o dizível
que equivale a mentir
(tudo o que se pode dizer é mentira)
o resto é silêncio
só que o silêncio não existe

no
as palavras
não fazem o amor
fazem a ausência
se digo água beberei?
se digo pão comerei?
nesta noite neste mundo
extraordinário silêncio o desta noite
o que acontece com a alma é o que não se vê
o que acontece com a mente é o que não se vê
o que acontece com o espírito é o que não se vê

de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
recintos viscosos onde se oculta
a pedra da loucura
corredores negros
eu corri todos
oh fica um pouco mais entre nós!

minha pessoa está ferida
minha primeira pessoa do singular

escrevo como quem tem uma faca alçada na escuridão
escrevo como estou dizendo
a sinceridade absoluta continuaria sendo
o impossível
oh fica um pouco mais entre nós!

as deficiências das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
o que fez do dom do sexo?
oh meus mortos
os comi e me engasguei
não posso mais com não poder

palavras abafadas
tudo se desliza
até à negra liquefação

e o cachorro de maldoror
nesta noite neste mundo
onde tudo é possível
salvo
o poema

falo
sabendo que não se trata disso
sempre não se trata disso
oh me ajuda a escrever o poema mais prescindível

o que não sirva nem para
se inservível

me ajuda a escrever palavras
nesta noite neste mundo

[tradução de nina rizzi] 

 

En esta noche, en este mundo

A Martha Isabel Moia

en esta noche en este mundo 
las palabras del sueño de la infancia de la muerta 
nunca es eso lo que uno quiere decir 
la lengua natal castra 
la lengua es un órgano de conocimiento 
del fracaso de todo poema 
castrado por su propia lengua 
que es el órgano de la re-creación 
del re-conocimiento 
pero no el de la re-surrección 
de algo a modo de negación 
de mi horizonte de maldoror con su perro 
y nada es promesa 
entre lo decible 
que equivale a mentir 
(todo lo que se puede decir es mentira) 
el resto es silencio 
sólo que el silencio no existe

no 
las palabras 
no hacen el amor 
hacen la ausencia 
si digo agua ¿beberé? 
si digo pan ¿comeré? 
en esta noche en este mundo 
extraordinario silencio el de esta noche 
lo que pasa con el alma es que no se ve 
lo que pasa con la mente es que no se ve 
lo que pasa con el espíritu es que no se ve

¿de dónde viene esta conspiración de invisibilidades? 
ninguna palabra es visible

sombras
recintos viscosos donde se oculta
la piedra de la locura
corredores negros
los he corrido todos
¡oh quédate un poco más entre nosotros!

mi persona está herida
mi primera persona del singular

escribo como quien con un cuchillo alzado en la oscuridad
escribo como estoy diciendo
la sinceridad absoluta continuaría siendo
lo imposible
¡oh quédate un poco más entre nosotros!

los deterioros de las palabras
deshabitando el palacio del lenguaje
el conocimiento entre las piernas
¿qué hiciste del don del sexo?
oh mis muertos
me los comí me atraganté
no puedo más de no poder

palabras embozadas
todo se desliza
hacia la negra licuefacción

y el perro del maldoror
en esta noche en este mundo
donde todo es posible
salvo
el poema

hablo
sabiendo que no se trata de eso
siempre no se trata de eso
oh ayúdame a escribir el poema más prescindible

el que no sirva ni para
ser inservible

ayúdame a escribir palabras
en esta noche en este mundo

[Alejandra Pizarnik,  «Árbol de Fuego», Caracas, dezembro de 1971]

§

[sem título]

a língua do poema
é outra língua
não necessita de tradução
a língua do poema
idioma sem
possibilidade de decifração
matemática
arquitetura
música
liame que ata palavras e sons
e o ritmo do sangue
do próprio sangue
a língua do poema
é outra língua
vallejo me Isten
é outra língua
não necessita de tradução
vallejo me Isten
não necessita de tradução
vallejo me Isten

esta ranhura
não necessita
de tradução
a língua do poema é outra língua.

[para a conversa às pressas com Mara e Mila, e Vallejo na boca de Granados. é outra língua]

  • micheliny verunschk, recolhido no facebook

***

 

Padrão
poesia, tradução

Fanny Becerra Vergara, por Sandra Santos

Fanny Becerra Vergara é uma poeta colombiana nascida em Bucamaranga, em 1956. Entre os seus poemas, destacam-se: “Quiero Aturdirme”, “Mi oficio”, “La tierra es alegre”, “Qué bueno es sentirse sin ganas”, “Para que todos los días sen distintos”, “Amor pasajero”, “Lapsus”, “Palabras al viento”, “Quiero aturdirme”, “¡Cuidado!”, “El otro yo”, “Treinta años”, “Tormenta” e “Que llueva”.

Sandra Santos (Portugal, 1994). Escritora, tradutora e revisora. Licenciada em Línguas e Relações Internacionais (Faculdade de Letras da Universidade do Porto), é actualmente mestranda em Estudos Editoriais (Universidade de Aveiro). Participa em projectos culturais, artísticos e literários. Traduz do português e inglês para o espanhol e do inglês e espanhol para o português. As suas traduções estão publicadas em Portugal, Espanha e América Latina. Partilha o seu labor poético e artístico no seu blogue: http://sandrasantos-ss.blogspot.pt/.

* * *

CUIDADO!

Há uma parte de mim
que é intocável.
Não te metas com ela.
Estou disposta a defendê-la
com unhas e dentes
punhos e pontapés.
Com a própria vida.
Porque é a essência da minha vida
é a minha explicação
é o ponto de partida
é o começo.
Para defendê-la
não distingo amigos de inimigos.
A indecisão vira certeza.
Aí não há dúvidas.
Tudo é firme.
Para defender esse bastião
o preço a pagar
é a própria vida.
Não. Não me vais mudar.

¡CUIDADO!

Hay una parte de mí
que es intocable.
No te metas con ella.
Estoy dispuesta a defenderla
con uñas y dientes
patadas y puños.
Con la vida misma.
Porque es la esencia de mi vida
es mi explicación
es el punto de partida
es el comienzo.
Para defenderla
no distingo amigos de enemigos.
La indecisión se vuelve certeza.
Allí no hay dudas.
Todo es firme.
Para defender ese bastión
el precio a pagar
es la vida misma.
No. No me vas a cambiar.

§

AMOR PASSAGEIRO

Ele queria-me
mas queria que eu fosse comum e corrente.
Ele desejava-me
mas ia entregar-me à minha sorte.
A sorte quis que eu não fosse dele
e agora penso
que de as coisas terem sido
como quisera que fossem
persistiriam as minhas dúvidas
porque este mal não o cura ninguém
e amar alguém
é só trégua.
Não tenho paz.

AMOR PASAJERO

Él me quería
pero quería que yo fuera común y corriente.
Él me deseaba
pero iba a dejarme a mi suerte.
La suerte quiso que yo no fuera de él
y ahora pienso
que de haber sido las cosas
como quisiera que fuesen
seguirían existiendo mis dudas
porque este mal no lo cura nadie
y amar a alguien
es sólo tregua.
No tengo paz.

Padrão
tradução

Édipo de Sófocles, por Leonardo Antunes

oedipus

Louis Bouwmeester como Édipo numa produção holandesa de Édipo Rei, c. 1896.

“Qual é o propósito de traduzir de novo essa obra? Já não há traduções o bastante? Você acha que as outras traduções não são boas o bastante? Você acha que a sua é tão melhor assim?”

Essas são algumas coisas que todos ouvimos ao retraduzir um texto clássico. Tentarei oferecer algumas respostas mais ou menos objetivas para essas questões, mas a razão mais honesta e sincera para se traduzir um texto é simplesmente porque se ama.

Deixando de lado as paixões e tentando ser um pouco mais racional, o principal motivo pelo qual quis traduzir o Édipo Rei é de caráter musical. Temos excelentes traduções já, tanto em prosa quanto em verso, para a obra de Sófocles, mas desconheço, em Português, uma tradução que tenha se preocupado em recriar a musicalidade do texto grego nos trechos corais a partir de uma aproximação rítmica. A equivalência métrica já foi tentada amiúde para as falas das personagens, mas os trechos corais são comumente tratados de modo mais livre, pela dificuldade de reproduzir, em Português, a essência variegada dos ritmos gregos.

A partir de uma abordagem musical, em que se espera que uma melodia criada para o texto grego possa ser aplicada também à tradução, é possível, como tem se visto de modo admirável no trabalho do Pecora Loca (clique aqui, aqui & aqui. ufa!), fazer com que o texto português adquira um andamento novo.

Esta tradução ainda é um trabalho em andamento e pode sofrer algumas mudanças até sua versão final. Por ora, não irei apresentar o trecho coral em música pois estou usando melodias provisórias para a tradução. Para o trabalho acabado e visando uma performance encenada, com canto coral e dança, espero contar com a ajuda de mentes mais habilidosas para essas outras artes.

Leonardo B. Antunes é poeta, tradutor e professor de Língua e Literatura Grega na UFRGS. Seu trabalho de reconstrução musical da poesia grega pode ser ouvido aqui.

 

* * *

CORO

Doce mensagem de Zeus, quem és tu que da pluridourada
Pitó vieste à esplêndida
Tebas? Tremo em temor: coração pelo medo agitado.
Iéio Délio Peã!
Pasmo diante de ti, sem saber se me é
nova ou de mais estações que enfim tu me cobras a dívida.
Diz-me, ambrosíaca voz que nasceste à dourada Esperança!

Chamo-te, filha de Zeus, por primeiro, ambrosíaca Atena
com tua irmã, a sísmica
Ártemis sobre seu cíclico trono na praça
e Febo certeiro também. Oh!
Tríplice abrigo da morte, revinde-me!
Caso num dia anterior em prol da cidade, solícitos,
vós afastastes o fogo da peste, de novo mostrai-vos!

Ai! Incontáveis são os males que eu
trago. A cidade toda enferma está. Nem na mente eu encontro uma arma
para a defesa; nem vejo crescerem mais
os frutos da terra famosa; nem filhos
da dor do parto, gritante, às mulheres resultam.
Tu podes ver vida após vida, qual pássaro alado,
mais do que fogo invencível ir rápido
pro cais do deus ocidental.

É incontável na cidade a dor.
Jazem seus filhos sem lamento ao chão, exalando insepultos a morte.
Jovens esposas e mães já grisalhas se
dispersam com gritos em torno aos altares
gemendo em súplica à custa de lúgubres penas.
Lampeja o peã junto à voz dolorífera.
Nisso a áurea filha de Zeus encaminha-nos
a bela face do vigor.

Ares furibundo, que sem seu brônzeo escudo agora vem
queimar-me envolvido em gritos, te suplico
de novo longe desta pátria rápido
partires ou para o grande leito de Anfitrite
ou para as inóspitas ondas
lá dos mares trácios,
pois, se algo a noite não findar,
logo o dia vem e o faz.
Ó tu, que tens poder
sobre os raios rútilos,
Zeus pai, sob o teu relâmpago o aniquila!

Senhor Liceu, das auritrançadas cordas do arco teu
quero ver voarem as indomáveis flechas,
dispostas para a ajuda junto às rútilas
chamas que Ártemis lança sobre as montanhas lícias.
Invoco o de áureas láureas,
que dá nome à terra,
purpúreo Baco de evoé,
misto às suas mênades,
para aliar-se a nós
com brilhante tocha a arder
na luta ao deus sem honra dentre deuses!

(vv. 151-215)

Χορός

ὦ Διὸς ἁδυεπὲς φάτι, τίς ποτε τᾶς πολυχρύσου
Πυθῶνος ἀγλαὰς ἔβας
Θήβας; ἐκτέταμαι φοβερὰν φρένα, δείματι πάλλων,
ἰήιε Δάλιε Παιάν,
ἀμφὶ σοὶ ἁζόμενος τί μοι ἢ νέον
ἢ περιτελλομέναις ὥραις πάλιν ἐξανύσεις χρέος.
εἰπέ μοι, ὦ χρυσέας τέκνον Ἐλπίδος, ἄμβροτε Φάμα.
πρῶτα σὲ κεκλόμενος, θύγατερ Διός, ἄμβροτ᾽ Ἀθάνα
γαιάοχόν τ᾽ ἀδελφεὰν
Ἄρτεμιν, ἃ κυκλόεντ᾽ ἀγορᾶς θρόνον εὐκλέα
θάσσει,
καὶ Φοῖβον ἑκαβόλον, ἰὼ
τρισσοὶ ἀλεξίμοροι προφάνητέ μοι,
εἴ ποτε καὶ προτέρας ἄτας ὕπερ ὀρνυμένας πόλει
ἠνύσατ᾽ ἐκτοπίαν φλόγα πήματος, ἔλθετε καὶ νῦν.
ὦ πόποι, ἀνάριθμα γὰρ φέρω
πήματα: νοσεῖ δέ μοι πρόπας στόλος, οὐδ᾽ ἔνι φροντίδος ἔγχος
ᾧ τις ἀλέξεται. οὔτε γὰρ ἔκγονα
κλυτᾶς χθονὸς αὔξεται οὔτε τόκοισιν
ἰηίων καμάτων ἀνέχουσι γυναῖκες:
ἄλλον δ᾽ ἂν ἄλλῳ προσίδοις ἅπερ εὔπτερον ὄρνιν
κρεῖσσον ἀμαιμακέτου πυρὸς ὄρμενον
ἀκτὰν πρὸς ἑσπέρου θεοῦ.
ὧν πόλις ἀνάριθμος ὄλλυται:
νηλέα δὲ γένεθλα πρὸς πέδῳ θαναταφόρα κεῖται ἀνοίκτως:
ἐν δ᾽ ἄλοχοι πολιαί τ᾽ ἔπι ματέρες
ἀχὰν παραβώμιον ἄλλοθεν ἄλλαν
λυγρῶν πόνων ἱκετῆρες ἐπιστενάχουσιν.
παιὰν δὲ λάμπει στονόεσσά τε γῆρυς ὅμαυλος
ὧν ὕπερ, ὦ χρυσέα θύγατερ Διός,
εὐῶπα πέμψον ἀλκάν.
Ἄρεά τε τὸν μαλερόν, ὃς νῦν ἄχαλκος ἀσπίδων
φλέγει με περιβόατον, ἀντιάζω
παλίσσυτον δράμημα νωτίσαι πάτρας
ἔπουρον, εἴτ᾽ ἐς μέγαν θάλαμον Ἀμφιτρίτας
εἴτ᾽ ἐς τὸν ἀπόξενον ὅρμων
Θρῄκιον κλύδωνα:
τελεῖν γὰρ εἴ τι νὺξ ἀφῇ,
τοῦτ᾽ ἐπ᾽ ἦμαρ ἔρχεται:
τόν, ὦ τᾶν πυρφόρων
ἀστραπᾶν κράτη νέμων,
ὦ Ζεῦ πάτερ, ὑπὸ σῷ φθίσον κεραυνῷ,
Λύκει᾽ ἄναξ, τά τε σὰ χρυσοστρόφων ἀπ᾽ ἀγκυλᾶν
βέλεα θέλοιμ᾽ ἂν ἀδάματ᾽ ἐνδατεῖσθαι
ἀρωγὰ προσταχθέντα τάς τε πυρφόρους
Ἀρτέμιδος αἴγλας, ξὺν αἷς Λύκι᾽ ὄρεα διᾴσσει:
τὸν χρυσομίτραν τε κικλήσκω,
τᾶσδ᾽ ἐπώνυμον γᾶς,
οἰνῶπα Βάκχον εὔιον,
Μαινάδων ὁμόστολον,
πελασθῆναι φλέγοντ᾽
ἀγλαῶπι ¯ ˘ ¯
πεύκᾳ ‘πὶ τὸν ἀπότιμον ἐν θεοῖς θεόν.

 

Padrão
poesia, tradução

O amor segundo Robert Creeley, parte 2

Há cinco (5!, gente, 5!) anos atrás, eu declarei aqui, uma vez mais, em tradução, o meu amor. E prometi — os amantes prometem tanto — que continuaria a série O amor segundo Robert Creeley com os dois poemas longos, lindos, loucos, de RC, que não cabiam lá, “The act of love” e “For love”. Como nos erros que a gente faz no amor, larguei esses poemas na gaveta, que hoje saem do limbo simplesmente porque o Italo Diblasi veio me perguntar por eles, veio sem querer me lembrar da existência deles, e das traduções. Sei que também, como todo mundo, já deixei coisas do amor na gaveta, do jeito mais torto, e quero acreditar que vou tirando na hora certa, ainda em tempo, como estes poemas, estas renovações de promessas. Ainda para a Nanda.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

Por amor

para Bobbie

Ontem, eu quis falar
dele, o sentido acima
dos outros para mim,
importante porque tudo

que conheço deriva
do que ele me ensina.
Hoje o que é que está
finalmente sem remédio,

diferente, desesperado
da própria afirmação, quer
afastar-se, infinitamente
afastar-se.

Se a lua não . . .
não, se você não,
então nem eu,
mas eu não

faria, que prevenção, que
coisa fácil de parar.
Eis o amor ontem
ou amanhã, não

agora. Posso comer
o que você me der?
Não mereci. Devo
pensar em tudo

como mérito? Agora o amor
também vira um prêmio tão
distante de mim que eu
o fiz somente em minha mente.

Aqui está o tédio,
desespero, um doloroso
senso de isolação e
excêntrico de autocrítica

pomposa. Mas a imagem
pertence à vaga estrutura
da mente, vaga para mim
porque é minha mesma.

Amor, o que eu penso
em dizer, não sei dizê-lo.
O que você virou pra perguntar,
no que eu te transformei,

parceira, boa companhia,
pernas cruzadas de saia, ou
tenro corpo sob
os ossos da cama?

Nada diz algo
senão o que ele deseja
que aconteça, teme
tudo que possa acontecer em

outro lugar, outro
espaço que não este.
Uma voz no meu lugar, um
eco do que é apenas no teu.

Me deixe tropeçar,
não na confissão, mas
na obsessão que agora
eu começo. Por você

também (também)
um tempo além do espaço, ou
espaço além do tempo, sem
mente que reste pra

dizer alguma coisa,
foi-se aquela face, agora.
Na companhia do amor
tudo retorna.

For Love

for Bobbie

Yesterday I wanted to
speak of it, that sense above
the others to me
important because all

that I know derives
from what it teaches me.
Today, what is it that
is finally so helpless,

different, despairs of its own
statement, wants to
turn away, endlessly
to turn away.

If the moon did not …
no, if you did not
I wouldn’t either, but
what would I not

do, what prevention, what
thing so quickly stopped.
That is love yesterday
or tomorrow, not

now. Can I eat
what you give me. I
have not earned it. Must
I think of everything

as earned. Now love also
becomes a reward so
remote from me I have
only made it with my mind.

Here is tedium,
despair, a painful
sense of isolation and
whimsical if pompous

self-regard. But that image
is only of the mind’s
vague structure, vague to me
because it is my own.

Love, what do I think
to say. I cannot say it.
What have you become to ask,
what have I made you into,

companion, good company,
crossed legs with skirt, or
soft body under
the bones of the bed.

Nothing says anything
but that which it wishes
would come true, fears
what else might happen in

some other place, some
other time not this one.
A voice in my place, an
echo of that only in yours.

Let me stumble into
not the confession but
the obsession I begin with
now. For you

also (also)
some time beyond place, or
place beyond time, no
mind left to

say anything at all,
that face gone, now.
Into the company of love
it all returns.

§

O Ato Amoroso

O que constitui
o ato amoroso,
fora o encontro

físico, você
é o meu bem,
não um valor como

o dos bancos –
mas um sentido auto-
suficiente, seco

por vezes como areia,
ou então árvores,
pigando de

chuva. Como alguém,
essa por assim dizer
pessoa, poderia

dizê-lo? Ele
ama, a mente
está ocupada, as

mãos se movem,
escrevem palavras
que lhe vêm
à cabeça.
Mas aqui,
o dia envolve

esse homem,
essa mulher,
sentados a pequena

distância.
O amor não
resolve – mas

aproxima,
sempre, faz
a umidade das

suas bocas e corpos
atuar
ativamente. Se eu

quisesse
uma imagem suja,
seria sempre

a de uma
mulher montada?
Sim

e não, são
opostos verdadeiros,
um você e eu

de non-
sense,
por nosso amor.

Mas, diz
alguém, o vento
alça, o céu

é muito azul, a
água acima
de mim faz

seus sons amáveis.
Você é
o meu

bem, que amá-
vel é todo o
teu corpo, como

todos esses
sentidos se
misturam, pra

que mesmo nos
teus braços eu
pense em você.

The Act of Love

Whatever constitutes
the act of love,
save physical

encounter, you are
dear to me,
not value as

with banks –
but a meaning self-
sufficient, dry

at times as sand,
or else the trees,
dripping with

rain. How shall
one, this so-
called person,

say it? He
loves, his mind
is occupied, his

hands move
writing words
which come

into his head.
Now here,
the day surrounds

this man
and woman
sitting a small

distance apart.
Love will not
solve it – but

draws closer
always, makes
the moisture of their

mouths and bodies
actively
engage. If I

wanted
a dirty picture
would it always

be of a
woman straddled?
Yes

and no, these
are true opposites
a you and me

of non-
sens,
for our love.

Now, one
says, the wind
lifts, the sky

is very blue,
the water just
beyond me makes

its lovely sounds.
How dear
you are

to me, how love-
ly all your
body is, how

all these
senses do
commingle, so

that in your very
arms I still
can think of you.

Padrão
poesia, tradução

Marina Tsvetáieva, por André Nogueira

Marina_Tsvetaeva_by_Max_Voloshin_1911

Marina Tsvetáieva fotografada por Max Voloshin, 1911

Marina Ivánovna Tsvetáieva nasceu em Moscou a 8 de outubro (26 de setembro, pelo antigo calendário russo) de 1892, e viveu na Rússia até o ano de 1922. Recebendo notícia de seu marido, Serguei Efron, então oficial da Guarda Branca, derrotada pelo Exército Vermelho na guerra civil após a revolução de 1917, decidiu reunir-se a ele em Praga. Dos anos revolucionários em Moscou guardou lembranças de miséria e fome (em 1920 Tsvetáieva perdeu sua filha mais nova, Irina, por desnutrição). Marina, Serguei e Ariadna, a filha mais velha, viveram primeiro na Tchecoslováquia, onde nasceu o menino, Gueorgui; em seguida estabeleceram-se em Paris. O exílio teve um lado positivo: Tsvetáieva gozou de relativa liberdade para escrever, embora com dificuldades de publicar (como testifica seu poema Os Leitores de Jornal) no ambiente reacionário da emigração. Por outro lado, era grande seu apego à terra natal; as “saudades da pátria” se tornam um tema constante em seus poemas dos anos 30. A idéia de voltar para a Rússia se apresenta, todavia, contraposta à consciência dos riscos; com essa lucidez escreveu o ciclo Para Maiakóvski, em 1930, movida pela notícia do suicídio deste, e em 1931 Versos para Púchkin, desenvolvendo a mesma idéia do poeta mártir da sociedade (o poema 2 de O Poeta e o Tsar corresponde ao poema 6 de Versos para Púchkin). Nessa época a poesia de Tsvetáieva adquire um acentuado feitio político; em parte isso se explica pela influência de Maiakóvski, de cuja passagem por Paris em 1928 e seu recital no Café Voltaire ela guardou forte impressão. “No dia 22 de abril de 1922, na véspera de minha partida da Rússia,… encontro Maiakóvski”, diz Marina Tsvetáieva,

“– Então, Maiakóvski, qual é o recado que você quer que dê à Europa?

  – Que a verdade está aqui.

 No dia 7 de novembro de 1928, à noite, saindo do Café Voltaire, ao me perguntarem: ‘Que diz da Rússia, após ouvir Maiakóvski?’, respondo sem pensar:

 – Que a força está lá.” (In: BERNARDINI, Aurora Fornoni; Indícios Flutuantes em Marina Tzvetáieva. 1976: Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Tese disponível no sistema. Pág. 23).

As novas idéias de literatura, com freqüentes elogios a Maiakóvski, combinadas à decepção com a emigração, provocaram em Tsvetáieva uma espécie de “reconciliação” com a terra natal, que aquelas saudades só fizeram ampliar. Escreve ela em O Poeta e o Tempo (1932):

“Aqui [na emigração] está uma certa Rússia, esta Rússia, e lá está toda a Rússia. Para quem vive aqui, o passado é o contemporâneo na arte. A Rússia (falo da Rússia, não de quem detém o poder), a Rússia, o país dos avançados, exige que a arte guie; a emigração, país dos atrasados, exige que a arte se detenha com ela (…) Apesar disso… todo poeta é por essência um emigrante, mesmo na Rússia”. (In: TSVETÁIEVA, Marina; O Poeta e o Tempo. Lisboa: Hiena Editora, 1993. Págs. 62-63)

Essa guinada sinaliza, também, mudanças que ocorriam no ambiente familiar. Embora Tsvetáieva desconhecesse o novo emprego do marido. Com esperança de voltar a seu país e ganhar o “perdão” pelo serviço no Exército Branco, Serguei passa a colaborar como agente da NKVD, a polícia da União Soviética, infiltrado no círculo da emigração. E suas expectativas não deixam de se infiltrar em casa. A adolescente Ariadna, que adquirira sólida convicção socialista, foi a primeira a tomar a iniciativa e, em 1937, retornou à União Soviética. Sua decisão se deu sob protesto da mãe. Tsvetáieva talvez jamais retornasse por vontade própria; quando ela o fez, em 1939, foi sob circunstâncias adversas e, mais uma vez, para seguir o marido. Serguei Efron se viu implicado pela polícia francesa no assassinato de Ignace Reiss, ex-colaborador da NKVD, e fugiu à bordo de um navio soviético deixando sozinhos Marina e Gueorgui. Descobertas as atividades de Serguei, as portas já raramente abertas, fecharam-se para ela definitivamente. Abalada pelo escândalo, os interrogatórios da polícia e as reações da sociedade, Tsvetáieva providencia sua volta e a do menino Gueorgui para a Rússia.

É sabido o desenlace da história. Efron e Ariadna foram presos, suspeitos de espionagem. Tsvetáieva viu-se outra vez sozinha e vítima de hostilidade ainda maior.

No mesmo passo, a invasão nazista (cuja passagem pela Tchecoslováquia Tsvetáieva repugnou em seu ciclo Versos para Tcheca) chegava à União Soviética; Tsvetáieva foi evacuada para a cidade de Ielábuga, há mais de mil quilômetros a leste de Moscou, não lhe sendo permitido residir em Chistopol com o restante dos intelectuais. Seu último registro escrito foi uma carta para a cantina da União dos Escritores Soviéticos em Chistopol, oferecendo-se para o emprego de lavadora de pratos. Em 31 de agosto de 1941, enforcou-se em Ielábuga. Efron foi fuzilado em setembro do mesmo ano. O filho Gueorgui morreu em combate na II Guerra em 1944.

Ariadna sobreviveu aos oito anos de prisão. Foi ela quem organizou a primeira coletânea de Marina Tsvetáieva a ser publicada após sua reabilitação, o que aconteceu só em 1962 (até então seu nome era proibido na União Soviética). De toda a sua obra, sua fase de 1930 constitui o grupo mais esparso, e freqüentemente as edições omitiram alguns de seus poemas mais “incômodos” dessa época. Destes 7 poemas,  “Abri as veias…”, já traduzido por Augusto de Campos em Poesia Russa Moderna, também  de Haroldo de Campos  e Décio Pignatari na antologia Marina Tsvietáieva; “Versos para Tcheca” também possui traduções de Augusto de Campos em Poesia da Recusa e de Nelson Ascher/ Boris Schnaiderman; os demais são aqui publicados pela primeira vez em nossa língua.

  André Nogueira

***

MARINA TSVETÁIEVA, “Saudades da pátria…”
(7 poemas dos anos 30)


O PAÍS

O globo inteiro apalpa
E examina, palmo a palmo!
Esse país não há no mapa, –
Não existe. – Só na alma.

Da xícara bebida até o fim, –
Reluz, límpido, o fundo.
Voltar – para uma casa assim,
Que foi varrida desse mundo?

Se renascer me preocupa, –
De novo – em um novo país?
Voltar – eu mesma quis!
E saltar sobre a garupa

Desse alazão convulso!
Sairei de ossos ilesos?
Voltasse eu ao país russo,
Só farelos – com desprezo,

O padeiro me daria, e um caixão
Não me faria o carpinteiro.
Aquela – de incontável imensidão,
De magníficos outeiros,

Aquela – de reinos celestiais
E dos meus anos juvenis,
Aquela Rússia – não há mais.

– Tampouco eu, sem meu país.

fim de junho 1931.

СТРАНА

С фонарём обшарьте
Весь подлунный свет!
Той страны на карте —
Нет, в пространстве — нет.

Выпита как с блюдца, —
Донышко блестит.
Можно ли вернуться
В дом, который — срыт?

Заново родися —

В новую страну!
Ну-ка, воротися
На́ спину коню

Сбросившему! Кости
Целы-то — хотя?
Эдакому гостю
Булочник — ломтя

Ломаного, плотник —
Гроба не продаст!
Той её — несчётных
Вёрст, небесных царств,

Той, где на монетах —
Молодость моя,
Той России — нету.

— Как и той меня.

Конец июня 1931

§

(O POETA E O TSAR)

2 (6)

Não, frente à torpe tropa o tambor desperta
Enquanto à tumba acompanhamos nosso guia:
Esses dentes do tsar por sobre o corpo do poeta
Tilintando, como em sua honraria.

Tamanha é a honra, os amigos mais chegados
Não se vê – nem à esquerda, à direita,
Nem aos pés, à cabeceira – só as caras, peitos
E continentes mãos atadas dos soldados.

Não admira, até no mais silente leito,
Que o precisem vigiar como um moleque?
Embora tantas honrarias que lhe deitam,
Até demais, até demais para esta exéquia!

Veja, cidadão, como, apesar do rebuliço,
O tsar se preocupa com o poeta!
E o honra, honra, e ponha honra nisso!
De honras dessas – o inferno está repleto!

Quem é então, precisa e horrorosamente,
Esse ladrão, que os ladrões sobre ele se debruçam?
Um traidor? Não. Do pátio de fuzilamento –
O homem mais lúcido da Rússia.

Meudon, 19 de julho 1931


2(6)

Нет, бил барабан перед смутным полком,
Когда мы вождя хоронили:
То зубы царёвы над мертвым певцом
Почетную дробь выводили.

Такой уж почет, что ближайшим друзьям –
Нет места. В изглавьи, в изножьи,
И справа, и слева – ручищи по швам –
Жандармские груди и рожи.
 
Не диво ли – и на тишайшем из лож
Пребыть поднадзорным мальчишкой?
На что-то, на что-то, на что-то похож
Почет сей, почетно – да слишком! 

Гляди, мол, страна, как, молве вопреки,
Монарх о поэте печется!
Почетно – почетно – почетно – архи-
почетно, – почетно – до черту!

Кого ж это так – точно воры вора
Пристреленного – выносили?
Изменника? Нет. С проходного двора –
Умнейшего мужа России.

Медон, 19 июля 1931

  §

PÁTRIA

Oh, meu implacável idioma!
Como ouvisse simplesmente uma campônia,
Uma rústica canção que murmurinha:
“– Rússia, pátria minha!”

No horizonte, atrás da cordilheira,
Pátria minha – e estrangeira! –
Ela mostrou-se para mim:
Terra distante, lá dos últimos confins!

Distância, minha sôfrega doença,
A tal ponto é minha pátria de nascença
Que carrego, aonde for, essa distância –
Minha parte que está fora do alcance.

Distância, que se afasta e não me solta,
Distância, que me diz: “Rápido volta
Para casa!
No horizonte estrela branca
Que de todos os lugares me arranca!

Do suor da caminhada só me resta
Inundar a vastidão da minha testa.

Tu, hei de perder-me nos teus braços!
Com os lábios selarei, ao pé do cadafalso:
Pátria minha – prometida! –
Onde se encontra a perdição da minha vida.

12 de maio 1932

РОДИНА

О, неподатливый язык!
Чего бы попросту — мужик,
Пойми, певал и до меня:
«Россия, родина моя!»

Но и с калужского холма
Мне открывалася она —
Даль, тридевятая земля!
Чужбина, родина моя!

Даль, прирожденная, как боль,

Настолько родина и столь —
Рок, что повсюду, через всю
Даль — всю ее с собой несу!

Даль, отдалившая мне близь,
Даль, говорящая: «Вернись
Домой!»
                Со всех — до горних зве́зд —
Меня снимающая мест!

Недаром, голубей воды,
Я далью обдавала лбы.

Ты! Сей руки своей лишусь,—
Хоть двух! Губами подпишусь
На плахе: распрь моих земля —
Гордыня, родина моя!

12 мая 1932

§

Abri as veias: irreparável,
Irreversível, a vida borbota.
Tragam pratos e vasos!
Todo prato – será raso,
Todo vaso – será magro.

Sem parar, a terra traga
E, irrigado pelas bordas,
Irrevogável, irreparável,
Irreversível, o verso brota.

6 de janeiro 1934

Вскрыла жилы: неостановимо,
Невосстановимо хлещет жизнь.
Подставляйте миски и тарелки!
Всякая тарелка будет – мелкой,
Миска – плоской.
 
Через край – и мимо –
B землю черную, питать тростник.
Невозвратно, неостановимо,
Невосстановимо хлещет стих.

6 января 1934

§

Saudades da pátria! Com esse mal
Há muito tempo que eu luto!
Para mim é absolutamente igual
Onde estar só em absoluto.

Quais cascalhos que eu arranhe
Arrastando o carrinho de feira
Para a casa, que me é de todo estranha –
Se hospital ou se caserna, como queira.

A mim é indiferente, qual o povo
Que há de ver em cativeiro
A leonina minha crespa cabeleira,
Ou me expulsar – de novo! –

Ao deserto dessa minha solidão.
Urso polar apartado do gelo
Onde não posso viver (e não faço questão!),
Tanto me faz – onde será o pesadelo.

Não me ilude o chamado longínquo
Da materna minha língua, que convida… –
Não me importa, em qual língua
Serei mal-compreendida.

(O leitor de jornais, o ouvinte
De notícias, fuçador de mexericos…)
Ele – é do século vinte,
E eu – de todo século abdico!

Como um tronco que a esmo
Vê na rua em seu redor passar a gente,
Para mim é indiferente, dá no mesmo –
E, talvez, de tudo o mais indiferente

Seja a pátria onde se acha.
Cada marca dela em mim que se esconde
Vou despir, de cima a baixo:
Eis a alma, que nasceu – tanto faz onde.

E também eu, para a pátria, tanto faço, –
De frente para trás, de trás para frente,
Investigue se encontra dela traço,
Inspetor, em minha alma indiferente!

Estranha é cada casa, vazios todos os templos, –
E tudo indiferente, e tudo igual.
Mas basta que um arbusto eu contemple, –
Eis a sorva – da terra natal…

1934

Тоска по родине! Давно
Разоблаченная морока!
Мне совершенно все равно —
Где — совершенно одинокой

Быть, по каким камням домой
Брести с кошелкою базарной
В дом, и не знающий, что — мой,
Как госпиталь или казарма.

Мне все равно, каких среди
Лиц ощетиниваться пленным
Львом, из какой людской среды
Быть вытесненной — непременно —

В себя, в единоличье чувств.
Камчатским медведем без льдины
Где не ужиться (и не тщусь!),
Где унижаться — мне едино.

Не обольщусь и языком
Родным, его призывом млечным.
Мне безразлично, на каком
Непонимаемой быть встречным!

(Читателем, газетных тонн
Глотателем, доильцем сплетен…)
Двадцатого столетья — он,
А я — до всякого столетья!

Остолбеневши, как бревно,
Оставшееся от аллеи,
Мне все — равны, мне всё — равно;
И, может быть, всего равнее —

Роднее бывшее — всего.
Все признаки с меня, все меты,
Все даты — как рукой сняло:
Душа, родившаяся — где-то.

Так край меня не уберег
Мой, что и самый зоркий сыщик
Вдоль всей души, всей — поперек!
Родимого пятна не сыщет!

Всяк дом мне чужд, всяк храм мне пуст,
И всё — равно, и всё — едино.
Но если по дороге — куст
Встает, особенно — рябина …

1934

§

OS LEITORES DE JORNAL

Rasteja a serpente infernal,
Rasteja e os homens conduz.
E cada qual – com
Seu jornal (e cada qual –
Com seu cadáver). Urubus
Ruminadores de cal,
Lambedores de pus,
Leitores de jornal.

Sob que rosto se abriga?
Esse leitor – é uma caveira!
Folha-de-rosto que sorri,
Polida e superficial.
Com a cabeça enfiada no umbigo
Percorreu Paris inteira…
Calma, amiga!
– Desse jeito vais parir –
Um leitor de jornal.

“Vendeu a irmã” – pôs-se a tossir,
“Matou o pai!” – um retorquiu,
E bombeiam para dentro de si
O absoluto vazio.

Faz diferença a esses senhores
O nascer ou o pôr do sol?
Ávidos de vácuo, leitores
De jornal, e .

Pois se enfartem – de calúnias,
Se inteirem – das propinas!
Repletas de sevícia – essas colunas
E excrementícias alíneas…

Quanto arderá para esses abutres
O fogo do Juízo Final!
Para os feitores de minutas
E leitores de jornal!

Ao inferno! Discutir não compensa…
Instinto materno uma ova!
Gutenberg com sua prensa?
Pior que Schwartz com sua pólvora!

Sim, muito melhor descer à cova
Que viver num leprosário.
Com a língua eles escovam
O purulento noticiário!

Bebedores de sangue,
Os piores lobos maus… –
Mães! Cuidado com a gangue
De escritores de jornal.

E o entalado na garganta
Nestas linhas virou grito; –
Eis o que penso enquanto,
Tendo em mãos o manuscrito,

Estou diante – dessa cara
(Quer dizer, da descarada
Da mais vil cara-de-pau!)
De um maldito
Redator de jornal.

Vanves, 1-15 de novembro 1935

 

ЧИТАТЕЛИ ГАЗЕТ

Ползет подземный змей,
Ползет, везет людей.
И каждый — со своей
Газетой (со своей
Экземой!) Жвачный тик,
Газетный костоед.
Жеватели мастик,
Читатели газет.

Кто — чтец? Старик? Атлет?
Солдат? — Ни черт, ни лиц,
Ни лет. Скелет — раз нет
Лица: газетный лист!
Которым — весь Париж
С лба до пупа одет.
Брось, девушка!
                        Родишь —
Читателя газет.

Кача — «живет с сестрой» —
ются — «убил отца!» —
Качаются — тщетой
Накачиваются.

Что для таких господ —
Закат или рассвет?
Глотатели пустот,
Читатели газет!

Газет — читай: клевет,
Газет — читай: растрат.
Что ни столбец — навет,
Что ни абзац — отврат…

О, с чем на Страшный суд
Предстанете: на свет!
Хвататели минут,
Читатели газет!

— Пошел! Пропал! Исчез!
Стар материнский страх.
Мать! Гуттенбергов пресс
Страшней, чем Шварцев прах!

Уж лучше на погост, —
Чем в гнойный лазарет
Чесателей корост,
Читателей газет!

Кто наших сыновей
Гноит во цвете лет?
Смесители кровей,
Писатели газет!

Вот, други, — и куда
Сильней, чем в сих строках!
Что думаю, когда
С рукописью в руках

Стою перед лицом
— Пустее места — нет! —
Так значит — нелицом
Редактора газет-

ной нечисти.

Ванв, 1-15 ноября 1935

§
VERSOS PARA TCHECA

8

Lágrimas de amor e vilipêndio!
De as conter não sou capaz.
É tempo – é tempo – é tempo
De o Criador voltar atrás!

Oh! Encobre todo o mundo
Uma tétrica montanha!
À Tcheca lágrimas inundam
E sangue – à Espanha.

Recuso-me – a ver.
No manicômio que me coube
Me recuso – a viver.
E pelas praças com os lobos

Me recuso – a uivar.
Com os fanáticos em marcha
Me recuso – a despencar –
Pelo desfiladeiro abaixo.

Olhos, ouvidos e boca, –
Infeliz é quem os usa.
Para o vosso mundo louco
Uma palavra só: recusa.

15 de março – 11 de maio 1939

 

СТИХИ К ЧЕХИИ
8

О слёзы на глазах!
Плач гнева и любви!
О Чехия в слезах!
Испания в крови!

О чёрная гора,
Затмившая — весь свет!
Пора — пора — пора
Творцу вернуть билет.

Отказываюсь — быть.
В Бедламе нелюдей
Отказываюсь — жить.
С волками площадей

Отказываюсь — выть.
С акулами равнин
Отказываюсь плыть —
Вниз — по теченью спин.

Не надо мне ни дыр
Ушных, ни вещих глаз.
На твой безумный мир
Ответ один — отказ.

15 марта — 11 мая 1939

*

O TRADUTOR: André Nogueira, nascido em 1987 na cidade de Herdecke, Alemanha Ocidental. Registrado brasileiro no Consulado em Munique. Vive no Brasil desde 1991, atualmente na cidade de Campinas (SP). Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas. Estuda Literatura e Cultura Russa na Universidade de São Paulo.

***

Padrão
poesia, tradução

Don Juan de Byron, por Lucas Zaparolli de Augustini, pt. 1

Ford Madox Brown, “The Finding of Don Juan by Haidee”, 1878.

O melhor Canto do Don Juan de Byron

à beira do bicentenário de Don Juan

 

Byron considerava este Canto “muito decente”, e também algo dull, “monótono”. Porém até seus desafetos reconheciam ser aqui um dos seus pontos culminantes. O poeta S. T. Coleridge, merecedor de vária sátira na obra byroniana, é quem diz (dias após a morte de Byron, em 1824) ser a “melhor” coisa, isto é, a mais “individual”, da mesma.

O genial Canto III teve inclusive trechos traduzidos para o português por Augusto de Campos e Décio Pignatari. Alfim da tradução aqui apresentada estarão alguns comentários sobre eles, à guisa de posfácio.

O jovem Don Juan, metido num adultério, forçado a viajar (Canto I), vira náufrago, envolve-se em cenas de canibalismo e, único sobrevivente, é achado por Haidée, princesa de uma ilha, que se apaixona por ele (Canto II). O pai de Haidée era um pirata que, sumido há tempos, fora dado por morto (mas tal gente nunca morre). E narra-se no Canto III a volta a casa de Lambro. Sátira da Odisseia.

Entretanto, o principal personagem desse épico satírico é o próprio narrador, e as principais aventuras são da ideia, alusões (cita Shakespeare, Butler etc), tiradas retóricas e humorísticas (sua ex-mulher é a “musa dos paralelogramos”, mãe de Ada Lovelace (madrinha da computação)) e descrições pictóricas. Nas estrofes a seguir o narrador divaga sobre o amor e o casamento com crueza cética, passando à narração da volta de Lambro e à descrição dos costumes gregos, que Byron vivenciara em viagens.

A tradução foi feita na mesma forma estrófica do original, a oitava rima, buscando traduzir a maior parte da carga semântica com efeitos rímicos e enjambements. Pentâmetros iâmbicos foram traduzidos em decassílabos que, às vezes, possuem tônicas em ritmo iâmbico, como no último verso da primeira estrofe, ou na terceira estrofe, entre outras.

Lucas Zaparolli de Augustini

* * *

 CANTO THE THIRD

I.
HAIL, Muse! et cetera.—We left Juan sleeping,
Pillowed upon a fair and happy breast,
And watched by eyes that never yet knew weeping,
And loved by a young heart, too deeply blest
To feel the poison through her spirit creeping,
Or know who rested there, a foe to rest,
Had soiled the current of her sinless years,
And turned her pure heart’s purest blood to tears!

II.
Oh, Love! what is it in this world of ours
Which makes it fatal to be loved? Ah why
With cypress branches hast thou wreathed thy bowers,
And made thy best interpreter a sigh?
As those who dote on odours pluck the flowers,
And place them on their breast—but place to die—
Thus the frail beings we would fondly cherish
Are laid within our bosoms but to perish.

III.
In her first passion Woman loves her lover,
In all the others all she loves is Love,
Which grows a habit she can ne’er get over,
And fits her loosely—like an easy glove,
As you may find, whene’er you like to prove her:
One man alone at first her heart can move;
She then prefers him in the plural number,
Not finding that the additions much encumber.

IV.
I know not if the fault be men’s or theirs;
But one thing’s pretty sure; a woman planted
(Unless at once she plunge for life in prayers)—
After a decent time must be gallanted;
Although, no doubt, her first of love affairs
Is that to which her heart is wholly granted;
Yet there are some, they say, who have had none,
But those who have ne’er end with only one.

V.
‘T is melancholy, and a fearful sign
Of human frailty, folly, also crime,
That Love and Marriage rarely can combine,
Although they both are born in the same clime;
Marriage from Love, like vinegar from wine—
A sad, sour, sober beverage—by Time
Is sharpened from its high celestial flavour
Down to a very homely household savour.

VI.
There’s something of antipathy, as ‘t were,
Between their present and their future state;
A kind of flattery that’s hardly fair
Is used until the truth arrives too late—
Yet what can people do, except despair?
The same things change their names at such a rate;
For instance—Passion in a lover’s glorious,
But in a husband is pronounced uxorious.

VII.
Men grow ashamed of being so very fond;
They sometimes also get a little tired
(But that, of course, is rare), and then despond:
The same things cannot always be admired,
Yet ‘t is “so nominated in the bond,”
That both are tied till one shall have expired.
Sad thought! to lose the spouse that was adorning
Our days, and put one’s servants into mourning.

VIII.
There’s doubtless something in domestic doings
Which forms, in fact, true Love’s antithesis;
Romances paint at full length people’s wooings,
But only give a bust of marriages;
For no one cares for matrimonial cooings,
There’s nothing wrong in a connubial kiss:
Think you, if Laura had been Petrarch’s wife,
He would have written sonnets all his life?

IX.
All tragedies are finished by a death,
All comedies are ended by a marriage;
The future states of both are left to faith,
For authors fear description might disparage
The worlds to come of both, or fall beneath,
And then both worlds would punish their miscarriage;
So leaving each their priest and prayer-book ready,
They say no more of Death or of the Lady.

X.
The only two that in my recollection,
Have sung of Heaven and Hell, or marriage, are
Dante and Milton, and of both the affection
Was hapless in their nuptials, for some bar
Of fault or temper ruined the connection
(Such things, in fact, it don’t ask much to mar);
But Dante’s Beatrice and Milton’s Eve
Were not drawn from their spouses, you conceive.

XI.
Some persons say that Dante meant Theology
By Beatrice, and not a mistress — I,
Although my opinion may require apology,
Deem this a commentator’s phantasy,
Unless indeed it was from his own knowledge he
Decided thus, and showed good reason why;
I think that Dante’s more abstruse ecstatics
Meant to personify the Mathematics.

XII.
Haidée and Juan were not married, but
The fault was theirs, not mine: it is not fair,
Chaste reader, then, in any way to put
The blame on me, unless you wish they were;
Then if you’d have them wedded, please to shut
The book which treats of this erroneous pair,
Before the consequences grow too awful;
‘T is dangerous to read of loves unlawful.

XIII.
Yet they were happy,—happy in the illicit
Indulgence of their innocent desires;
But more imprudent grown with every visit,
Haidée forgot the island was her Sire’s;
When we have what we like ‘t is hard to miss it,
At least in the beginning, ere one tires;
Thus she came often, not a moment losing,
Whilst her piratical papa was cruising.

XIV.
Let not his mode of raising cash seem strange,
Although he fleeced the flags of every nation,
For into a Prime Minister but change
His title, and ‘t is nothing but taxation;
But he, more modest, took an humbler range
Of Life, and in an honester vocation
Pursued o’er the high seas his watery journey,
And merely practised as a sea-attorney.

XV.
The good old gentleman had been detained
By winds and waves, and some important captures;
And, in the hope of more, at sea remained,
Although a squall or two had damped his raptures,
By swamping one of the prizes; he had chained
His prisoners, dividing them like chapters
In numbered lots; they all had cuffs and collars,
And averaged each from ten to a hundred dollars.

XVI.
Some he disposed of off Cape Matapan,
Among his friends the Mainots; some he sold
To his Tunis correspondents, save one man
Tossed overboard unsaleable (being old);
The rest—save here and there some richer one,
Reserved for future ransom—in the hold,
Were linked alike, as, for the common people, he
Had a large order from the Dey of Tripoli.

XVII.
The merchandise was served in the same way,
Pieced out for different marts in the Levant,
Except some certain portions of the prey,
Light classic articles of female want,
French stuffs, lace, tweezers, toothpicks, teapot, tray,
Guitars and castanets from Alicant,
All which selected from the spoil he gathers,
Robbed for his daughter by the best of fathers.

XVIII.
A monkey, a Dutch mastiff, a mackaw,
Two parrots, with a Persian cat and kittens,
He chose from several animals he saw —
A terrier, too, which once had been a Briton’s,
Who dying on the coast of Ithaca,
The peasants gave the poor dumb thing a pittance:
These to secure in this strong blowing weather,
He caged in one huge hamper altogether.

XIX.
Then, having settled his marine affairs,
Despatching single cruisers here and there,
His vessel having need of some repairs,
He shaped his course to where his daughter fair
Continued still her hospitable cares;
But that part of the coast being shoal and bare,
And rough with reefs which ran out many a mile,
His port lay on the other side o’ the isle.

XX.
And there he went ashore without delay,
Having no custom-house nor quarantine
To ask him awkward questions on the way,
About the time and place where he had been:
He left his ship to be hove down next day,
With orders to the people to careen;
So that all hands were busy beyond measure,
In getting out goods, ballast, guns, and treasure.

XXI.
Arriving at the summit of a hill
Which overlooked the white walls of his home,
He stopped.—What singular emotions fill
Their bosoms who have been induced to roam!
With fluttering doubts if all be well or ill—
With love for many, and with fears for some;
All feelings which o’erleap the years long lost,
And bring our hearts back to their starting-post.

XXII.
The approach of home to husbands and to sires,
After long travelling by land or water,
Most naturally some small doubt inspires —
A female family’s a serious matter,
(None trusts the sex more, or so much admires —
But they hate flattery, so I never flatter);
Wives in their husbands’ absences grow subtler,
And daughters sometimes run off with the butler.

XXIII.
An honest gentleman at his return
May not have the good fortune of Ulysses;
Not all lone matrons for their husbands mourn,
Or show the same dislike to suitors’ kisses;
The odds are that he finds a handsome urn
To his memory—and two or three young misses
Born to some friend, who holds his wife and riches—
And that his Argus—bites him by the breeches.

XXIV.
If single, probably his plighted Fair
Has in his absence wedded some rich miser;
But all the better, for the happy pair
May quarrel, and, the lady growing wiser,
He may resume his amatory care
As cavalier servente, or despise her;
And that his sorrow may not be a dumb one,
Writes odes on the Inconstancy of Woman.

XXV.
And oh! ye gentlemen who have already
Some chaste liaison of the kind—I mean
An honest friendship with a married lady—
The only thing of this sort ever seen
To last—of all connections the most steady,
And the true Hymen, (the first’s but a screen)—
Yet, for all that, keep not too long away—
I’ve known the absent wronged four times a day.

XXVI.
Lambro, our sea-solicitor, who had
Much less experience of dry land than Ocean,
On seeing his own chimney-smoke, felt glad;
But not knowing metaphysics, had no notion
Of the true reason of his not being sad,
Or that of any other strong emotion;
He loved his child, and would have wept the loss of her,
But knew the cause no more than a philosopher.

XXVII.
He saw his white walls shining in the sun,
His garden trees all shadowy and green;
He heard his rivulet’s light bubbling run,
The distant dog-bark; and perceived between
The umbrage of the wood, so cool and dun,
The moving figures, and the sparkling sheen
Of arms (in the East all arm)—and various dyes
Of coloured garbs, as bright as butterflies.

XXVIII.
And as the spot where they appear he nears,
Surprised at these unwonted signs of idling,
He hears—alas! no music of the spheres,
But an unhallowed, earthly sound of fiddling!
A melody which made him doubt his ears,
The cause being past his guessing or unriddling;
A pipe, too, and a drum, and shortly after—
A most unoriental roar of laughter.

XXIX.
And still more nearly to the place advancing,
Descending rather quickly the declivity,
Through the waved branches o’er the greensward glancing,
‘Midst other indications of festivity,
Seeing a troop of his domestics dancing
Like Dervises, who turn as on a pivot, he
Perceived it was the Pyrrhic dance so martial,
To which the Levantines are very partial.

XXX.
And further on a troop of Grecian girls,
The first and tallest her white kerchief waving,
Were strung together like a row of pearls,
Linked hand in hand, and dancing; each too having
Down her white neck long floating auburn curls—
(The least of which would set ten poets raving);
Their leader sang—and bounded to her song
With choral step and voice the virgin throng.

XXXI.
And here, assembled cross-legged round their trays,
Small social parties just begun to dine;
Pilaus and meats of all sorts met the gaze,
And flasks of Samian and of Chian wine,
And sherbet cooling in the porous vase;
Above them their dessert grew on its vine;—
The orange and pomegranate nodding o’er,
Dropped in their laps, scarce plucked, their mellow store.

XXXII.
A band of children, round a snow-white ram,
There wreathe his venerable horns with flowers;
While peaceful as if still an unweaned lamb,
The patriarch of the flock all gently cowers
His sober head, majestically tame,
Or eats from out the palm, or playful lowers
His brow, as if in act to butt, and then
Yielding to their small hands, draws back again.

XXXIII.
Their classical profiles, and glittering dresses,
Their large black eyes, and soft seraphic cheeks,
Crimson as cleft pomegranates, their long tresses,
The gesture which enchants, the eye that speaks,
The innocence which happy childhood blesses,
Made quite a picture of these little Greeks;
So that the philosophical beholder
Sighed for their sakes—that they should e’er grow older.

XXXIV.
Afar, a dwarf buffoon stood telling tales
To a sedate grey circle of old smokers,
Of secret treasures found in hidden vales,
Of wonderful replies from Arab jokers,
Of charms to make good gold and cure bad ails,
Of rocks bewitched that open to the knockers,
Of magic ladies who, by one sole act,
Transformed their lords to beasts (but that’s a fact).

XXXV.
Here was no lack of innocent diversion
For the imagination or the senses,
Song, dance, wine, music, stories from the Persian,
All pretty pastimes in which no offence is;
But Lambro saw all these things with aversion,
Perceiving in his absence such expenses,
Dreading that climax of all human ills,
The inflammation of his weekly bills.

XXXVI.
Ah! what is man? what perils still environ
The happiest mortals even after dinner!
A day of gold from out an age of iron
Is all that Life allows the luckiest sinner;
Pleasure (whene’er she sings, at least) ‘s a Siren,
That lures, to flay alive, the young beginner;
Lambro’s reception at his people’s banquet
Was such as fire accords to a wet blanket.

CANTO III

I.
Fala, Musa! et cetera. – Juan ficou
No aconchego de um seio belo e feliz,
Visto por olho que jamais chorou,
No amor de um jovem coração, na raiz
Mui santo pra ver vir veneno esguio, ou
Ver que o que odeia a paz lá dorme, quem quis
Ao flux dos puros anos seus pôr mancha,
Pôr pranto em puro sangue de alma mansa.

II.
Oh, Amor! o que há em nosso mundo que toca
E faz fatal ser amado? Ah com cipreste
Em ramos tu revestes tuas tocas,
Fazes do suspiro o melhor intérprete?
Igual quem ama o odor colhe a flor, coloca-a
Em seu peito – só pra que morra – deste
Modo um frágil ser a quem temos carinho
Entra a perecer em nosso peito mesquinho.

III.
Só seu primeiro amado ama-o a Mulher,
Nos outros ela passa a amar o Amor,
Aí é hábito que não pode desprender,
E que cai bem – luva fácil de pôr,
Se pode provar sempre que quiser:
Primeiro o peito a um homem só a dispor;
Depois do que ela gosta é do plural,
Que uma adição enorme não faz mal.

IV.
Não sei se é culpa do homem ou dela é;
Mas bem certo é; uma mulher deixada
(A menos que afunde a vida na fé) –
Após um tempo deve ser cortejada;
Embora, óbvio, o primeiro dos affairs
O peito inteiro ocupe e aí entra mais nada;
Que haja, diz-se, a que não teve nenhum,
Mas a que teve nunca teve só um.

V.
É melancolia, e algo medroso bem
Da fraqueza humana, tolice, e crime,
Que Amor e Casamento não se deem,
Embora ambos nasçam no mesmo clima; e
Casamento, do Amor, vinagre do vinho vem –
Sóbrio, ácido, ruim – o Tempo oprime-
-O do mais alto aroma no céu posto,
A um sabor familiar, simples, sem gosto.

VI.
Há a antipatia, não sei se isto é sincero,
Entre o presente e o futuro estatuto;
Usa-se elogio não tão verdadeiro
Até vir a verdade tarde e muito –
E o que a gente faz, senão desespera? O
Mesmo muda o seu nome em um minuto;
Por exemplo – Paixão no amante é gloriosa,
No marido é comer na mão da esposa.

VII.
Tem vergonha o homem de ser muito quisto; e
Às vezes fica um pouco aborrecido
(Mas isto, claro, é raro), e fica triste:
Jamais se é sempre à mesma coisa atraído,
Mas é “em nome da fiança que existe”
Que dois se unem até que haja um morrido.
Triste ideia! perder o par que faz linda
A vida, e pôr os criados de luto ainda.

VIII.
No doméstico há algo que se afeiçoa,
De fato, à antítese do Amor real;
Romances tratam casos de pessoas,
Só dão de casamentos bustos; mal
Liga alguém pra arrulho de casório, há
Nada errado num beijo conjugal:
Se fosse a esposa de Petrarca Laura,
Faria sonetos toda a vida para?

IX.
Toda tragédia com morte termina,
E finda toda comédia em casório;
O porvir do par fica à própria sina,
Pois os autores temem ser simplórios
Com o mundo do par, ou a que se inclina,
E é este mundo que pune seus imbróglios;
Deixando-o ao padre e ao pronto livro de ora-
Ções, nada dizem da Morte ou a Senhora .

X.
Que eu lembre, apenas dois possuem canção
Ao Céu e ao Inferno, ou casamento: Dante
E Milton, ambos com péssima afeição
Às núpcias, pois erro ou algo conflitante
No temperamento arruinou a união
(O que, de fato, não requer bastante);
Mas a Beatriz de Dante e a Eva de Milton
Não são inspiradas na esposa, admito.

XI.
Dizem que Dante via a Teologia
Em Beatriz, não uma amante – eu, conquanto
Julguem que faço alguma apologia,
Vejo um comentador num sonho e tanto,
A menos que só a sua sabedoria
Decidiu, e comprovou então; no entanto,
Eu acho que a dantesca abstração extática
É a personificação da Matemática.

XII.
Haidée e Juan não se casaram, porém
Azar o deles, não o meu: não é doce,
Casto leitor, então, culpa pôr em
Mim, a menos que queira que eles fossem;
Se casado os queria, por favor, tem
Que fechar o livro do par no erro, se-
Não o efeito terrível será explícito;
É perigoso ler de amor ilícito.

XIII.
E eram felizes, – na indulgência dita
Proibida do inocente desejo, uai;
Mais imprudente vai cada visita,
Haidée esquece que a ilha é de seu Pai;
Perder o que se gosta é coisa aflita,
Ao menos de início, até que um canse; sai
Sempre Haidée assim, toda chance usa,
Enquanto o pai pirata os mares cruza.

XIV.
É estranha forma de ganhar um cash, a
Roubar bandeira de qualquer nação;
De primeiro-ministro só não se acha
O título, além, sim, da tributação;
Mas ele, mais modesto, humilde faixa
Da Vida toma, e a honesta vocação
Segue em alto-mar seu aquoso caminho,
Algo como um advogado-marinho.

XV.
O bom senhor havia sido pego
Por onda, vento, e presa que mui val’;
E, esperançoso a mais, quedou no pego,
Minando o ânimo um ou outro temporal,
Pondo a pique uma presa; ele, não nego,
Seus presos acorrenta em lote igual,
Numerados; com correntes, colares,
Cada um em média de dez a cem dólares.

XVI.
No cabo Matapão dispôs uns para
Seus amigos maniotas; uns vendeu
Ao correspondente de Túnis, só um cara
Lançou-se ao mar sem venda (era um velho); e o
Resto – um ou outro mais rico, reservara-
-Se a posterior resgate – se prendeu
Junto no porão; aos de comum tipo, ali,
Havia grande demanda ao Dei de Trípoli.

XVII.
O material foi servido igual, pelas
Mais diferentes vendas do Levante,
Salvo porções da presa, que são elas
Clássico artigo de mulher, bastante
Coisa da França, pinças, laços, tigelas,
Guitarras, castanholas de Alicante,
Tudo escolhido que do espólio vai
Roubado à filha pelo melhor pai.

XVIII.
Um macaco, um mastim da Holanda, a arara,
Dois papagaios, e um gato persa e a cria,
Ele escolheu dos animais que olhara –
Um terrier, também, de um Bretão que havia
Morrido em Ítaca, e que ele comprara
Dos camponeses por mor ninharia:
Pra prendê-los no temporal que expande,
Pôs tudo junto num balaio grande.

XIX.
Daí, tendo acertado o assunto marinho,
Despachou barcos de ida e de vinda,
Seu navio carecendo algum alinho,
Mudou seu curso pra onde a filha linda
Segue em seu hospitaleiro carinho;
Mas na parte da praia aberta, e rasa ainda,
Áspera em recife por muitas milhas,
A porta de casa é do outro lado da ilha.

XX.
Ele desembarcou ali depressa,
Alfândega não tendo, ou quarentena
Pra que com questões chatas lhe aborreça,
O modo, o tempo, o lugar que esteve: e na
Manhã já deixou de ponta cabeça
Sua nau, com ordens de fazer querena;
Assim ocupadas mãos pra além da conta,
Daí tesouro, armas, lastro e bens desmontam.

XXI.
Quando chegou ao cume da montanha
Vendo as paredes brancas de seu lar,
Parou. – Cheio de uma emoção estranha
Seu coração forçado a viajar!
Está bem, mal está, a dúvida o assanha –
Por muitos amor, por outros recear;
Sentimentos que esquecem a vida ida,
E trazem o peito ao ponto de partida.

XXII.
Volta à casa a esposo ou pai que partira,
Depois de viagem longa em terra ou mar,
Alguma dúvida de certo inspira –
Mulher da família há que preocupar,
(Ninguém confia mais no sexo, ou o admira –
E odeiam bajular, não vou bajular);
Sem o esposo a esposa é mais sutil, como
Filhas que às vezes fogem com mordomo.

XXIII.
Nem sempre homem bom tem a boa fortuna
Que Ulisses na volta a casa sua usa;
Nem toda viúva fica soturna,
Ou beijo de pretendente recusa;
As chances são que encontre uma bela urna
À sua memória – e duas, três filhas aí inclusas
Do amigo, que está com esposa e fundos –
E que seu Argos – morda-lhe os fundos.

XXIV.
Se solteiro, sua Linda já achará
Casada em sua ausência com rico avaro;
O bom é que a feliz dupla poderá
Brigar, ela, com talento e preparo,
Ele o caso de amor terminará
Qual cavalier servente , ou a desprezá-la; o
Seu pesar feito idiota assim não pode, e
Aí à Inconstância Feminina fará odes.

XXV.
E oh! vós senhores que já possuis desta
Casta liaison – que é, com moça bela
Casada uma amizade mui honesta –
Das coisas assim nada existe entre elas
Mais firme – único vínculo que presta,
Real Himeneu (o primeiro é só tela) –
É, então, não fique muito fora – que
Tem ausente a errar quatro ao dia, tem, vi.

XXVI.
Lambro, nosso advogado-marinho, tem
Mais prática no Oceano que no chão,
Viu o fogo da lareira e ficou bem;
Não tinha metafísica, ou noção
Da razão de não ser triste também,
Ou de qualquer outra forte emoção;
Ama a filha, sua perda choraria,
E igual filósofo a causa não sabia.

XXVII.
Via seus brancos portais ao sol brilhando,
As árvores no jardim, umbrosas, verdes;
Ouvia seu suave riacho borbulhando,
Um cão latindo ao longe; já por ver de
Entre o escuro bosque, frio, marrom, lá andando
Umas figuras, faíscas ao mover de
Armas (no Oriente tudo é arma) – e as mil cores
Das vestes, com da borboleta os fulgores.

XXVIII.
Quando mais próximo ao local viera,
E indício de ócio tal surpreso viu,
Ouviu – ah! não música das esferas ,
Mas mundano som de violão vadio!
Melodia que a audição descrer fizera,
E a causa já além do acho e do alvedrio;
E uma flauta, e um tambor também, daí soa –
O riso menos oriental e ecoa.

XXIX.
Aí pra mais perto do lugar avança,
Descendo lesto um inclinado trecho,
Olhando através da erva que balança,
Entre outros sinais de festa, perplexo,
Vê um bando dos de casa que ali dançam
Como Dervixes, girando em seu eixo,
Mas era a dança pírrica , marcial,
A qual o Levantino é bem parcial.

XXX.
E adiante um grupo de mocinhas gregas,
A mais alta à frente agita o alvo lenço,
Como colar de pérolas se agregam,
Mão com mão, dançam; fulvos cachos pensos
Que por alvos pescoços escorregam –
(Uma só poria dez poetas sem senso);
A líder canta – e o pé e a voz dirigem
Junto o coro daquele bando virgem.

XXXI.
Cá, de perna cruzada em volta aos potes,
Outro estrato social passa a jantar;
Pilaus e carnes veem-se a toda sorte,
Frascos de vinho Sâmio e Quio, e a gelar
O sorvete em poroso vaso; note
Que em cima cresce a vinha no pomar; –
A laranja e a romã que pendem sobre,
Ao toque, e com dulçor, seus colos cobrem.

XXXII.
Em torno a um carneiro branco como a neve,
Crianças trazem flores para pôr nos
Chifres; qual cordeiro que inda mamar deve,
O patriarca da lã, calmo, os seus cornos
Baixa esplendidamente manso, e esteve
A comer de uma palma, e ora desce o adorno
Da fronte em galhofeiro ataque, aí,
Rendendo-se às mãozinhas, volta a si.

XXXIII.
E o perfil clássico, a veste que luz lança,
O grande olho escuro, sua angélica cútis,
Aberta romã rubra, e as longas tranças,
Gesto que encanta, e o olhar que repercute,
E a inocência que benze a alegre infância,
Destes greguinhos um retrato incute;
Pra que o observador filósofo ao vê-los
Suspire por eles – em breve velhos.

XXXIV.
Longe, um bufo anão causos narrava-lhes,
Aos velhos sedados ao redor fumantes,
De ocultos bens em escondidos vales,
De palhaços da Arábia em shows brilhantes,
De como fazer ouro e curar males,
De quem bate e abre pedras com encanto, e
De moças magas que, com um só ato,
Fazem de esposos bestas (isto é fato).

XXXV.
Lá havia inocentes diversões diversas
Pra imaginação e sentidos, música,
Canto, dança, vinho, histórias persas,
Passatempos de forma alegre e justa;
Mas tais coisas a Lambro eram avessas,
Da sua ausência já vira o quanto custa,
Receando que o ápice da ruína humana
Seja a inflação nas contas da semana.

XXXVI.
Ah! que é o homem? que perigo permeia
Os mais felizes já após que a janta aprovem!
Um dia de ouro na idade do ferro, eis aí
Tudo que a Vida ao pecador ditoso move;
Prazer (o que quer que cante) é Sereia,
Que atrai, pra esfolar vivo, o ingênuo jovem;
Ao banquete da gente Lambro logo
Foi cobertor molhado sobre o fogo.

(Continua)

§

Posfácio

Trechos deste Canto foram traduzidos por João Vieira, em prosa; por Décio Pignatari e mais recentemente por Augusto de Campos (2009).

Os concretos traduziram (Campos diz “tecnomediunizou”) os pêntametros byronianos em decassílabos. A forma estrófica foi mantida praticamente idêntica.

Pignatari traduziu cerca de cinco trechos, e somente duas estrofes completas. Da segunda estrofe traduziu apenas quatro versos, alterando a disposição das rimas, usando dessas em or e ar, e acolhendo, de certo modo, só o epigrama que a oitava continha:

Amantes de perfumes colhem flores
E abrigam-nas no seio (mau lugar).
Assim pomos no peito alguns amores
– E este é o lugar mais tumular.
(Pignatari, 2007, p. 198).

Campos traduziu duas estrofes completas das quase cem do Canto III. A primeira e a última. Na primeira o make it new poundiano, isto é, a tecnomediunização, foi ousada, vertendo gerúndio por gerúndio:

Ó Musa, et cetera. Deixei dormindo
Juan no seio do mais suave leito
Sob um olhar que só viveu sorrindo,
E amado por alguém tão sem defeito
Que não sabe o veneno que vem vindo
Para tomar-lhe a alma. No seu peito
Ela pusera um malfeitor, enquanto
Seu coração ia do sangue ao pranto.
(Campos, 2009, p. 47).

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Bibliografia

AGUSTINI, Lucas de Lacerda Zaparolli de. Don Juan de Lord Byron: estudo descritivo das traduções, tradução, comentários e notas. 2015. Dissertação (Mestrado em Estudos da Tradução) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/8/8160/tde-01032016-161149/&gt;. Acesso em: 2017-03-01.

BYRON, George Gordon. Don Juan. Edited by T. G. Steffan, E. Steffan e W. W. Pratt. England: Penguin Classics, 1996.

CAMPOS, Augusto de. Entreversos – Byron e Keats. São Paulo: Editora Unicamp, 2009.

PIGNATARI, Décio. 31 Poetas 214 Poemas – Do Rigveda e Safo a Apollinaire. São Paulo: Ed. Unicamp, 2007.

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Lucas Zaparolli de Agustini é bacharel em latim e pós-graduando em Tradução (USP). Seu primeiro livro de poemas, Pelo Andar do Dia, está engatilhado. Canto no Pântano está por vir… Publicou independentemente as Obras Completas de Delmira Agustini.

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