poesia, tradução

Denise Duhamel, por Miriam Adelman

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Denise Duhamel nasceu no estado de Rhode Island, na costa do leste dos EUA, em 1961. Quando conheci seu livro Kinky (1997), já virei leitora convicta sua, o que me permitiu um profundo mergulho numa obra hoje muito vasta, cada livro um tesouro de densidade e deleite próprios. Mas fui realmente tomada pela obsessão por produzir versões dos poemas que compõem esse livro que representou minha primeira introdução à poeta: Kinky, verdadeira caixa de surpresas, ode à e desconstrução da cultura e política dos EUA, torvelino de criações – sendo cada uma, uma posta em cena da ícone cultural da Barbie. Ali, a Barbie passa por quase infinitas metamorfoses, vamos dizer que do mesmo tamanho da sua quase onipresença social.  E Duhamel, sempre irônica, nunca tem medo de apontar diretamente para os impasses de nosso tempo, e nos revelar um ângulo – ou uma armadilha – diferente.
Miriam Adelman
*

Como ajudar as crianças em tempos de guerra 

Mister Rogers recomenda dizer às crianças americanas
que a tristeza faz parte.  Apresente então para elas o globo
em lugar do mapa ordinário,  para mostrar e dizer
quão longe realmente fica o Oriente Médio.  Enfatize que
assistir meteorologia da TV Saudita não quer dizer
que se chega lá de carro. Enfatize para elas o que
seu presidente lhes garante:  que toda vida é preciosa,
a de uma criança iraquiana igual à do soldado americano.
Diga isto para seus filhos, acreditando ou não
nas palavras dele.  Fale para as crianças que seus pais
sejam civis ou soldados, as amam, seja qual for
o chão que habitem. Considere descrever para elas
a guerra como ela é,
mas se sua filha jogar Nintendo, não lhe sirva
sangue em lugar de leite no cereal matinal.  Se seu filho
andar numa gangue perigosa, então deixe que ele
te explique a guerra.  Aos pequeninhos, sugira
que levem seus jogos de química para a areia do parquinho.
Se você ensina arte, explique eventos atuais
com bonecos de papel.  Uma corrente de homens de cartolina vermelha:
George Bush, Dick Cheney, Sadam Hussein, et cetera.
Peça para os aluninhos que amassem um dos bonecos,
que lhe deem o nome Noriega. Que o joguem num copo de papel
que representa a cadeia.  Nesse momento pode fazer perguntas
para que percebam o quanto um boneco se parece
com o outro.  Peça para cada criançinha
escolher um que seja seu favorito.
É esse que devem retalhar, os pedaços mais minúsculos
que suas tesourinhas permitam.
Talvez alguns aluninhos se inquietem, se polvilhando uns
aos outros com os pedaçinhos cor carmim.   Permita isso:
confete, carnificina, neve vermelha, bombas.

How to Help Children Through Wartime

Mister Rogers says to tell your American young
it’s OK to be sad.  Present them a globe
rather than a flat map to show-and-tell
how far away the Middle East really is.  Stress
that the TV Saudi weather report
doesn´t mean the country is within driving distance.  Stress
that their U.S. president assures them that all life is precious,
an Iraqi child’s equal to that of an American soldier.
Tell your children this, whether or not
you yourself believe him.  Tell children that parents,
be they civilian or soldier, love them regardless
of what soil they’re on.  Consider letting children know
what the war is really like,
but if your daughter has Nintendo, do not pour blood
instead of milk on her Cheerios.   If your son
is in a dangerous gang, let him explain
war to you instead.  Encourage all elementary schoolers
to take their chemistry sets to the sandbox.
If you teach art, explain current events
with paper dolls.  A strand of red construction paper men:
George Bush, Dick Cheney, Sadam Hussein, et cetera.
Have students crumple up one doll and name him
Noriega. They may throw him in a Dixie cup
that represents a jail. Then you may ask questions
that lead students to notice the resemblance
of one paper man to the next.  Have each of the children
pick a doll who represents their favorite.
Instruct them to cut that man up into the teeniest pieces
their safety paper scissors will permit.
Members of the class may begin to get restless, to sprinkle
each other with the crimson bits.  Allow this:
confetti, bloodshed, red snow, bombs.

§

Barbie Oriental 

Ela pode ser do Japão, do Hong Kong, da China,
das Filipinas, do Vietnã, da Tailândia o da Coréia.
A menininha que brinca com ela pode decidir:
O sul, o norte, uma província
nebulosa. Tanto faz, segundo a Mattel, que relata
que esta Barbie continua tendo “olhos arredondados”
porém “boca e busto menores” do que
sua irmã dos EUA. As meninas, como alguns homens já crescidos
gostam da variedade, desde que bonita, desde que
haja cabelo comprido para mexer.
Num comercial nas horas noturnas, a Manhattan Cable
oferece um serviço de acompanhantes “Geishas to Go”
garotas do “Oriente, onde os homens são rei…”
O Ken Branco deita barriga para baixo
enquanto uma Barbie Oriental caminha sobre suas costas.
Ou é uma mulher de verdade pisando no Ken?
Ou uma Barbie Oriental pisando num homem real?
Você precisa viajar ao Japão
para comprar esta Barbie específica. Uma garota geisha
pode chegar à porta do teu apartamento em Nova Iorque
em menos de uma hora. Por sinal,
não existe um Ken Oriental.
Os que estudam o delicado equilíbrio
do comércio e câmbio americanos
entenderão.

Oriental Barbie

She could be from Japan, Hong Kong, China,
the Phillipines, Vietnam, Thailand or Korea.
The little girl who plays with her can decide.
The south, the north, a nebulous
province. It´s all the same, according to Mattel, who says
this Barbie still has “round eyes”
but “a smaller mouth and bust”
than her U.S. sister. Girls, like some grown men,
like variety, as long as it’s pretty, as long
as there’s long hair to play with.
On a late night Manhattan Cable commercial
One escort service sells Geishas to Go,
girls from “the Orient, where men are kings…”
White Ken lies on his stomach
while an Oriental Barbie walks on his back.
Or is it a real woman stepping on Ken?
Or Oriental Barbie stepping on a real man?
You have to travel to Japan
to buy this particular Barbie doll. A geisha girl
can be at your door of your New York apartment
in less than an hour. Of course,
there is no Oriental Ken.
Those who study the delicate balance
of American commerce and trade understand.
§

Barbie bicentenária 

Por ser a boneca mais popular
do século XX, a Barbie é enterrada
numa cápsula do tempo na Filadélfia
no dia 4 de julho, 1976. Ela é espremida entre
uma embalagem vazia de Kentucky Fried Chicken
e uma lata cheia de Coca-Cola, pois virou
ícone cultural e agora tem que pagar o preço.
Ela se lembra de um tempo
em que ainda poucas meninas a conheciam
e não precisava fazer tanta pose.
Agora, sendo verdadeiro item para colecionador,
precisa garantir – cada cabelo no seu lugar!
Eu acabo de ser eleita
Garota Personalidade, uma categoria superlativa
do anuário escolar. Posso
posar para foto com o fofinho
do Garoto Personalidade, o primeiro
e único jogador do time de futebol
que quer sair comigo.
Ele diz querer namorar firme comigo
e com outra garota ao mesmo tempo.
Não acho justo, mas sendo Garota Personalidade
demoro demais para o conseguir dizer.
Veja, eu já passei da idade de brincar de boneca,
mas por algum motivo se implantaram no meu subconsciente.
Eu não me pareço nada com a Barbie,
então talvez nem mereça um namorado todo meu. Pior ainda, a meu ver,
minha rival lembra uma delas.
Quando finalmente, constrangida, escrevo um bilhete
para o Garoto Personalidade, o enfio na fresta do
armário errado. O garoto-ninguém que o encontra
não quer devolver, nem quando peço
muito educadamente. Logo todos vão saber
que não sou sempre bem-humorada.
Temendo um escândalo, peço conselhos
aos Mais Bem-vestidos e Os com Maior Probabilidade
de Sucesso na Vida. Estes dizem não se importar
com o que as massas pensam. Sinto que mentem –
mas podem retirar meu título Garota Personalidade,
nem ligo mais. Pelo menos estou melhor
que aquela Barbie Bicentenária que ficará
numa abafada cápsula até o ano 2076.
Talvez ao final, a pressão terá sido excessiva.
Talvez – como eu – , poderá se expressar.
Talvez venha a piscar para a lata de Coca-Cola
antes de sacudirem, explodirem, detonarem
com tudo.

Bicentennial Barbie

Because she is the most popular doll
of the twentieth century, Barbie
is buried in a time capsule in Philadelphia
on July 4, 1976. She is scrunched between an empty Kentucky
Fried Chicken bucket and a full Coca- Cola can.
She’s become a cultural icon and now she has to pay
the price. She remembers a time
when just a few girls knew her
and she didn´t have to put on such airs.
Now a full-fledged collectible, she has to make sure
every hair is always in place. I’ve just been voted
Best Personality, a superlative category
in our junior high yearbook. I’m able to pose
for a picture with the cute Best Personality boy,
the first and only football player
to ever ask me on a date.
He says he wants to go steady with me
and another girl at the same time.
I don’t think it’s fair but being the Best Personality girl,
it takes me a long time to say that.
You see, it’s turned out that although I’m too old
to still play with fashion dolls, they’ve somehow become implanted
in my subconscious. I don’t look anything like Barbie so maybe I don’t deserve
a boyfriend of my own. And to make things worse, in my mind,
my rival resembles Barbie quite a bit
When I finally write the Best Personality boy
an angry note, flustered, I slip it between the slots
of the wrong locker. The nobody boy who finds it
won’t give it back, even when I ask him politely.
Soon everyone will know I’m not always in a good mood.
Fearing a scandal, I ask advice
of the Best Dressed and Most Likely to Succeed.
They say they don’t care what the masses think –
and though I sense they’re not telling the truth-
suddenly it doesn’t matter if my class
takes my Best Personality honor away or not.
At least I know I’m better off
than that one repressed Bicentennial Barbie
who’ll be stuck in that stuffy time capsule
until the year 2076. Maybe
when she finally comes out, the pressure
will have been too much. Maybe she’ll be able, like me,
to express herself. Maybe she’ll wink at the Coca-Cola can
before they both shake, explode, make a mess.
§

Barbie como mafiosa
Para Dangerous Diane

Quando lhe repassam o saquinho de cocaína,
Barbie foge para seu beco preferido.
Ela tira sua cabeça e se preenche com o pó
Como se fosse tão inocente quanto um saleiro de curvas gostosas.
Os malandros deixam o tráfico de pequenas coisas para ela-
e enquanto ela desliza pelos aeroportos internacionais
ou os agitados cais dos portos, ninguém lá em cima
se enerva. Seja aninhada entre o receptor
e a base do telefone de um automóvel, ou guardadinha
na gaveta de uma cômoda com um pequeno gravador no
seu torso oco, Barbie ama o divertimento e o tesão da aventura.
Mas por ser uma boneca muito séria, ela também sabe dar o beijo
da morte se precisar.  Seus ousados lábios
se recusam a abrir, tornando-a a mais perfeita guardadora de segredos.
Nas conferências de imprensa, ela negará todas as afiliações.
Só estou brincando, dirá ela, ou
Vocês não conseguem provar nada.  Mal tenho cérebro.
Quando a Barbie fica assim tão na cara, por vezes
o poderoso chefão passa apertos. Sua mulher fica com ciúmes,
se perguntando porque a Barbie liga para o marido não-boneco de outra
de cabines telefônicas no meio da noite.
Os detalhes das senhas, dos sapatos de cimento e das propostas irrecusáveis,
todos precisam ser bem pensados. O chefão
vai acalmar sua esposa, argumentando que é só ela
que ele ama:  esta Barbie nem sequer é uma dama de verdade.
Não sei porque você se preocupa.
A esposa admite que se sente tola, mas ao voltar
para a cama fica de olho aberto. Os policiais
se sentem tolos também, prendendo brinquedos.
Por isso a Barbie anda por onde ela quiser tendo a audácia
de deixar seus óculos escuros em casa.   Ela freqüenta
clubes privados enfumaçados e senta à janela nas mesas
dos cafés de Little Italy.  Mas são as praias dos resorts
que ela mais gosta,  onde pode realmente espairecer
e ser ela mesma. Sua pequena caixa de isopor  segura o cantinho
da sua toalha de praia de marca. Ela observa seu namorado loiro
Malibu Ken, mexendo com seus pé-de-pato e óculos.
Ela o ama porque ele não sabe de nada –
mera peça acessória para seus crimes.

Barbie as Mafiosa
– for Dangerous Diane

When she’s slipped the bag of cocaine,
Barbie ducks into her favorite alley.
She pulls her head off and fills herself up
As though she’s as innocent as a shapely salt shaker.
The wise guys leave the trafficking of small things to her –
and as she glides through international airports
or bustling loading docks, no one at the top’s
disappointed. Whether nestled between the receiver
and base of a car phone, or tucked into a bedroom drawer
with a tiny tape recorder in her hollow torso,
Barbie loves fun and the thrill of adventure.
But being a no-nonsense doll, she can also give a kiss
of death if she has to. Her sassy lips
refuse to part, making her the perfect keeper of secrets.
At the press conferences, she’ll deny all affiliations.
I’m just playing, she’ll say, or
you can’t prove a thing. I barely even have a brain.
When Barbie is this visible, sometimes
the big boss sweats. His wife gets jealous,
wondering why Barbie calls another woman’s non-doll husband
from phone booths in the middle of the night.
The details of passwords, cement shoes and unrefusable offers
I’m just playing, she’ll say, or
you can’t prove a thing. I barely even have a brain.
When Barbie is this visible, sometimes
the big boss sweats. His wife gets jealous,
wondering why Barbie calls another woman’s non-doll husband
from phone booths in the middle of the night.
The details of passwords, cement shoes and unrefusable offers
all have to be worked out. The mob leader
will try to calm his spouse, claiming she’s the only one
he loves: this Barbie dame’s not even a real dame.
I don’t know what you’re so worried about.
The wife admits she feels silly, but when she returns
to bed, she keeps one eye open.
The cops feel silly, too, arresting toys,
so Barbie goes everywhere with the gall
of leaving her sunglasses at home. She frequents
the smoky private clubs and gets window tables
in Little Italy cafés. But it’s the resort beaches
she likes best, where she can really unwind
and be herself. Her little cooler weighs down the corner
of her tiny designer towel. She watches her blond boyfriend
Malibu Ken fiddles with his flippers and goggles.
She loves him because he knows nothing –
a mere fashion accessory to Barbie’s crimes
§

Casamento 

Barbie imagina se seria traição
sonhar com namorados, bonecos que
Mattel nunca fabricou para suas brincadeiras.
Um com dreads rastafári feitos de pelúcia
Em lugar de duros arcos de plástico,
Outro gordinho, meio calvo
Com óculos de John Lennon
E um terceiro com um nariz grande e sexy
como Gerard Depardieu.
Porém, supõe ela, seu Ken é mesmo inofensivo
Peitoral todo sarado afastado por rígidos seios
que não cedem ao toque
e ele não pode lhe obrigar à nada
quando ela não está
com vontade.
Ela se lembra das últimas palavras
da descontinuada boneca Midge,
“Hey Barbie, não complique,
É um casamento, não é?”
Desde o outro lado do corredor
Entre o monte de brinquedos pra menino
O Soldado Joe de vez em quando olha pra ela
Mas não faz exatamente seu tipo.
Ela na sua caixa, com elásticos que prendem
Seus braços.
A capa de plástico distorce sua visão
Do mundo.
Não é só aventura romântica o que ela deseja::
Há passeios de balão,
Aulas no curso noturno, trabalho de caridade.
Barbie se consola, reconhecendo que não é
Muito diferente do resto de nós, de como jogamos:
Entre gratidão e ambição,
Passividade e culpa.

Marriage

Barbie wonders if it’s cheating
when she dreams of fashion doll boyfriends
Mattel never made for her to play with.
One with Rastafarian dreadlocks –
spun with fuzz, not stiff
like the arcs of a plastic Jello mold.
Another chubby and balding
with John Lennon glasses.
And a third with a big sexy nose
like Gerard Depardieu.
Still, she supposes, Ken is harmless enough.
His pecs kept at bay by her stiff unyielding breasts.
And there is nothing he can force on her
When she’s not in the mood.
She remembers discontinued Midge’s last words:
“Hey Barbie, it’s a marriage, don’t knock it.”
From the stack of boy’s toys across the aisle,
GI Joe occasionally gives Barbie the eye,
though he’s not exactly what she has in mind.
In her box, elastic bands hold back her arms
And the plastic overlay she peers through
distorts her view of the world.
It’s not only a romantic fling she desires:
there are hot air balloon rides,
night school classes, charity work.
Barbie comforts herself
knowing she’s not much different
from the rest of us, juggling gratitude,
ambition, passivity and guilt.
§

Destino Manifesto

Nas Filipinas
as trabalhadoras das fábricas
de bonecas de moda
recebem um bônus em dinheiro
se se esterilizam. Nas esteiras,
rodam com excesso de velocidade
pedaços de corpos.
Nada a ver com o famoso episódio da tv
quando Lucy e Ethel experimentam
um dia de trabalho, botando chocolates dentro de caixas
numa linha de produção nos Estados Unidos. Elas
enchem suas bocas com uma boa parte
dos doces que vêm velozmente, dão risadas
de baba marrom quando são despedidas porque
realmente não tem importância –
Ricky e Fred têm bons empregos.
Para provar que são eles mesmos
os que devem trabalhar,
os garotos fazem uma bagunça na cozinha
da Lucy, uma panela de arroz explodindo
como um vulcão branco. As mulheres
nas Filipinas e noutros lugares ponderam
o big business, os benefícios de descontinuar
a própria linhagem. Nos seus sonhos
estas mulheres embalam úteros de Toys R Us
enquanto uma Barbie estéril, seu cabelo preso
sob um capacete de Lucite, finca a bandeira da Mattel
numa lua que pouco convence.

 

Manifest Destiny

In the Philippines
women workers in fashion doll factories
are given cash incentives
for sterilization. Body parts roll
too fast on conveyor belts.
It’s not like the famous episode
in which Lucy and Ethel
try a day of work, boxing chocolates
on an assembly line in the U.S. They stuff
most of the quick-coming candy
into their mouths, laugh brown drool
when they are fired because it really doesn’t matter –
Ricky and Fred have good jobs.
To prove they’re the ones
who belong at work, the men on t.v.
make a mess in Lucy’s kitchen,
a pot of rice exploding
like a white volcano. The women
in the Philippines and elsewhere ponder
big business, the benefits
of discontinuing its own children. In dreams
these women package Toys “R” Us Uteruses
while a sterile Barbie, her hair tucked up
inside her Lucite helmet, plants
a flag for Mattel on the cheesiest moon.
§

O corpo é meu!

“Era-se um tempo em que a Barbie nem podia dobrar
os joelhos”, eu falo para minhas sobrinhas Kerri e Katie
que sentam na minha frente no chão da sala
desta América de colarinho azul e rosa. Estão abrochando as minúsculas
calças de courino
nas suas Barbies Roqueiras
e grandes guitarras pretas
sobre seus ossudos quadris de relâmpago. Katie me entrega
sua boneca porque precisa da minha ajuda
com os pequenos botões que serpenteiam nas costas
da blusinha tomara que caia da Barbie. “Minha primeira Barbie
nem podia mover a cintura”. Eu estou falando como alguém
que já vivesse o suficiente
para ver mudanças significativas. Minhas sobrinhas
estão de costas para a TV que parece estar sempre ligada,
onde eu estiver. E atrás de suas cabecinhas
loiras inocentes, Jessica Hahn
faz uma aparência-relâmpago num vídeo da MTV.
Ela roda como uma sexy bola de pinball ,
e tenta desesperadamente sair de uma jaula côncava.
“O corpo é meu”, recentemente ouvi ela dizer
numa entrevista matinal na TV. Ela começou
justificando suas fotos nuas na Playboy.
“O corpo é meu”, ela repete
como uma boneca Chatty Cathy
com um disco arranhado enfiado nas costas.
“O corpo é meu”, ela começava a responder
a toda e qualquer pergunta do entrevistador –
onde ela cresceu, se ainda vai à igreja.
“O corpo é meu?”
Ainda assim as palavras eram as mesmas,
mas quanto mais acusações, mais mudavam
suas inflexões. Jessica olhava para além
do set onde alguém lhe parecia estar dando
pistas. Meu namorado dava risada.
“Que tal pôr um pouco de convicção nisso, Jessica?”,
ele falava para a TV. Então, tentando estimular
mais a conversa, ele me dizia, “Olha, meu bem,
ela nem parece saber se o corpo é seu
ou não!” Ele tinha razão
mas sabia enquanto o colocava
que tinha escolhido as palavras erradas.
Eu tinha bebido muito café. Encontrei-me
defendendo Jessica energicamente,
culpando sua desorientação
como resposta a nossa sociedade misógina –
o deslocamento que todas as mulheres sentem
do seu eu corporal.
E depois com todas essas teorias que eu vinha lendo!
Ele foi trabalhar mais ou menos concordando
mas dizia também que o tinha deixado exaurido.
E agora minha irmã me culpa da mesma coisa
porque assinalo para Katie que ela está errada
ao pensar que só meninos devem sujar-se
e só meninas usarem brincos.
“As pessoas devem fazer qualquer coisa que desejarem”.
Discorro sobre minha amiga que usa capacete
quando vai ao trabalho onde mexe
com eletricidade igual seu pai.
Katie brinca com seus cadarços
e pede suquinho. Minha irmã diz,
“Deixe ela em paz. Nem entrou no primário ainda”.
Kerri, a maior, se concentra, tentando
passar um grande pente para humanos
no cabelo sintético cheio de gel
da boneca. Por tanta força que exige desemaranhá-lo
de repente, sem querer, sai a cabeça da Barbie,
e uma menor, sem rosto, suporte apenas,
emerge do pescoço. Por um instante
nós todas – dois pares de irmãs, com um
intervalo de vinte anos – compartimos a epifania
sobre Mattel: lavagem cerebral, pedaço de plástico
que nos diz quem Barbie é. Mas logo
o rosto de Kerri é todo pânico, como esperando um castigo.
As lágrimas despontam no canto dos seus olhos.
Faço um resgate rápido,
enfiando a cabecinha moldada
de novo no corpo, seus traços maleáveis
se distorcendo sob meu polegar. Apesar de boneca adulta,
sua moleira ainda está aberta. Sob a pressão
do meu toque, seu rosto esmaga, como alguém
que se olha na casa dos espelhos.
Mas ao soltá-la, ela imediatamente volta,
o sorrisinho educado, o nariz perfeito
e pronta para pôr tudo em seu lugar:
a Barbie pertence à América –
metade vítima, metade pequeno soldado
cor-de-rosa.

It’s My Body

“There was a time when Barbie couldn’t even
bend her knees,” I told my nieces Kerri and Katie
who sit before me on a living room floor
in blue and pink collar America.
They are strapping their Rock-n-Roll Barbies
into tiny leatherette pants
and big black guitars
with jagged lightning hips. Katie hands me
her doll because she needs help
with the tiny buttons that snake the back
of Barbie’s off-the-shoulder blouse. “My first Barbie
couldn´t even twist her waist”. I am talking
like a person who has lived long enough
to see significant change. My nieces
have their backs to the TV which seems always on,
wherever I am. And behind their blond
innocent heads, Jessica Hahn
makes a cameo appearance on an MTV video.
She rolls like a sexy pinball,
then tries to claw herself out of a concave cage.
“It’s my body”, I recently heard her say
on a morning talk show. She started
by defending her nude poses in Playboy.
“It’s my body”, she repeated
like a Chatty Cathy doll
with a skipping record stuck in her back.
“It’s my body,” she began to answer
her interviewer’s every inquiry –
where she grew up, if she still went to church.
“It’s my body?”
The words stayed the same,
but as more accusations came, her inflections
changed. Jessica looked beyond the studio set
where somebody seemed to be cueing her
that message. My lover was laughing.
“How about a little conviction there, Jessica?”,
he said to the TV. Then, trying to coax
more conversation, he addressed me, “Look,
honey, she doesn’t even seem to know if it’s her body
or not.” He was right,
but he knew as he brought it up,
it was the wrong thing to say.
I’d had too much coffee.
I found myself energetically defending Jessica,
blaming her disorientation
as a response to our misogynous society-
the dislocation all women feel
from their physical selves.
And then came the theories I’d been reading.
He left for work kind of agreeing
but also complaining that I’d made him exhausted.
And now my sister is blaming me for the same thing
because I am pointing out to Katie that she is mistaken
to think only boys should get dirty
and only girls should wear earrings.
“People should be able to do whatever they want.”
I lecture her about my friend who wears a hard hat
when she goes to her job and works
with electricity, just like her daddy.
Katie fiddles with her shoelaces
and asks for juice. My sister says,
“Give the kid a break. She’s only in kindergarten.”
Older Kerri is concentrating, trying
to get a big comb for humans
through her doll’s Moussed synthetic hair.
Because untangling the snarls needs so much force,
suddenly, accidentally, Barbie’s head pops off,
and a smaller one, a faceless socket,
emerges from her neck. For an instant
we all –two sets of sisters, our ages
twenty years apart – share a small epiphany
about Mattel: this brainwashed piece of plastic cerebrum
is underneath who Barbie is. But soon
Kerri’s face is all panic, like she will be punished.
The tears begin in the corner of her eyes.
I make a fast rescue attempt,
spearing Barbie’s molded head
back on her body, her malleable features distorting
under my thumb. Although a grown doll,
the soft spot at the top of her skull
still hasn’t closed. Under the pressure
of my touch, her face is squashed, someone
posing in a fun house mirror.
But the instant I let go, she snaps back
into a polite smile, her perfect nose
erect and ready to make everything
right: Barbie is America’s –
half victim, half little pink soldier.

§

Miriam Adelman, nasceu em 1955 em Milwaukee, Wisconsin. Aos 19 anos encontrou seus primeiros caminhos “para o mundo”, indo para o México, onde permaneceu por 9 anos, dedicando-se, entre outras coisas, aos estudos em sociologia na Universidad Nacional Autónoma de México. Mora em Curitiba, Brasil desde 1991; é professora da UFPR desde 1992. Além de lecionar nos programas de pós-graduação em Sociologia e Estudos Literários dessa instituição, dedica-se às paixões literárias, à fotografia, ao feminismo e às atividades equestres. Seu primeiro livro de poemas encontra-se no prelo e deve ser lançado ainda em 2019.
*
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Padrão
poesia, tradução

“O Palácio”, de Kaveh Akbar, por Layla Oliveira

Os poemas de Kaveh Akbar foram publicados em jornais como The New Yorker, Poetry, Paris Review, Best American Poetry, The New York Times, e muitos outros. Ele é o autor de duas coletâneas completas: Pilgrim Bell (Graywolf, 2021) and Calling a Wolf a Wolf (Alice James, 2017). Ganhador do Prêmio Levis Reading, múltiplos prêmios Pushcart, e Ruth Lilly and Dorothy Sargent Rosenberg Poetry Fellowship, Kaveh é o editor-fundador do Divedapper, site de entrevistas com as maiores vozes da poesia contemporânea. Nascido no Teerã, Iran, leciona na Universidade de Purdue e nos programas de baixa residência do MFA no Randolph College e Warren Wilson. O site dele é http://kavehakbar.com/#/.

Layla Gabriel de Oliveira é poeta, atriz e estudante de Letras na Universidade Federal do Paraná. Está atualmente traduzindo o livro inédito do poeta Kaveh Akbar, Pilgrim Bell, para publicação simultânea nas duas línguas. Concluiu o seu primeiro projeto de pesquisa na Iniciação Científica, sobre tradução e recepção de teatro grego, na área de clássicas.

original: https://www.newyorker.com/magazine/poems/kaveh-akbar-the-palace

* * *

O Palácio

É difícil lembrar com quem estou falando
e o porquê. O palácio queima, o palácio
é fogo
e meu trono é cômodo e
quadrado.

Lembra: o velho rei convidou seus súditos para casa
para se deliciarem com estoques de tortas de maçã e cordeiro doce.
[Para se deliciarem com cordeiro doce de estórias. Ele acreditou

que eles o amavam, que a sua bondade
tinha feito ele merecer a bondade deles.

A bondade deles o arrastou para a rua
e despedaçou

seus braços, arrancou
a sua bondade, arrancou os seus dedos
feito penas.

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Não há bons reis.
Só há belos palácios.

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Quem aqui poderia alegar ser meramente culpado?
Os meros.

Minha vida
ficando monstruosa
com facilidade.

Para ser um Americano meu pai deixou seus irmãos
pensando
que nunca os veria de novo. Meu pai
queria ser o Mick Jagger. Meu pai
virou fantasma,
acabou trabalhando em granjas por trinta anos, certa vez
[um sono
um sofá
ele cospe uma pena.

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América poderia ser uma metáfora, mas não é.
Dormindo no sofá, ele cuspiu uma pena branca de pato.

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Não há portas na América.
Só buracos king-size.

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Ser um Americano é ser um especialista
em oportunidade.

Oportunidade custa.

Cada laranja que eu como desaparece os milhares de
pêssegos, ameixas, peras que eu poderia ter comido

mas não comi.

No céu, oportunidade custa.
No céu dela

minha mãe planta
pêssegos, ameixas, peras, e eu como até desmaiar

e acordar no céu;

acordar, e comer um pouco mais. Eu não poderia sonhar em fazer
[nada
pela metade. Seja o que for, eu quero o ramo
todo. Por favor. E rápido.

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Você ainda está ouvindo?
Cada pessoa que toco
me custa dez milhões que eu nunca vou conhecer. Pessoas e pessoas,

dentro de cada
um palácio em chamas. Dentro de cada

Mick Jagger usando um casaco de pele de gorila coberto de penas de
[avestruz.
Ele chama de “glamouflagem”.

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O que se foi, mas permanece visto?

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Soldados sem sorte,
o lápis atravessa lentamente o tríceps do meu irmão.

(O que se foi, mas permanece visto?)

Ele não gritou, só deixou os olhos lacrimejarem.
Se eu sorrir, mesmo que um pouco: eles começam a afiar as espadas.
E estão certos. Agora não é hora de alegria.

Agora não é hora. O palácio queima.
O lápis atravessa lentamente o irmão do meu irmão.

(O que permanece, mas visto que se foi?)

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Um rei governa melhor
no escuro, onde não dá pra ver suas mãos se mexendo. Um rei

não nos vê
assistindo o rei.

Costuramos as iniciais de Deus nas nossas roupas de trabalho

enquanto nossos bebês emagrecem.
Os bebês não nos veem

assistindo nossos bebês
emagrecerem.

Nossos bebês nascidos viciados em medo de bebês.
Nossos bebês mastigando maçãs sob o sol.

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América? a lápide quebrada.
América? longe o bastante de si mesma.

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Alô, aqui é o Kaveh falando:
Eu queria ser o Keats
(mas já vivi quatro anos mais)

Alô, aqui é o Keats falando:
seria um absurdo dizer alguma coisa agora
(muito menos alguma coisa nova)

Alô, aqui é ninguém falando:
floradas de hibisco, penas molhadas,
(um pequeno polegar de cinzas.)

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Ser Americano é ser um caçador.

Ser Americano. Quem pode ser Americano?

Ser Americano é ser? O que? Um caçador? Um caçador
que só atira grana.
Não, grana não –
grana.

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Eu tenho um aparelho de cozinha
que me permite secar alface.
Não tem jeito elegante
de dizer isso – pessoas
com corações vivos
que caberiam no meu peito
querem derreter a cidade onde eu nasci.

Na sua escola, num subúrbio americano,
a camiseta de um menino diz: “Nós Fizemos Com Hiroshima,
[Podemos Fazer Com Teerã!”

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Na sua escola, num subúrbio americano,
a camiseta de um menino diz: “Nós Fizemos Com Hiroshima,
[Podemos Fazer Com Teerã!”

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O troféu:
bode assado ganindo no espeto.

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A camiseta de um menino diz: “Nós Fizemos Com Hiroshima,
[Podemos Fazer Com Teerã!”
Pedem para ele virar a camiseta do avesso.
Pedem? Ele, do avesso.

Depois que ele obedece, seus pais processam a secretaria de
[educação.
Nossas almas querem saber
como foram feitas
o que devem.

Esses pais querem que o menino
queira derreter a minha família,
e eu vivo entre eles.

O trono do palácio. Aconchegante, em chamas.
Eu o desenho sem levantar minha caneta.
Eu o desenho gordo como a criação–
vazio como uma pegada.

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Como viver? lendo poemas, respirando curto,
secando alface.

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América, a respiração curta
como viver?

A armadilha curta, América
capturando

só o que é pequeno demais para comer.

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Os mortos se mantêm aquecidos sob a América
enquanto minha mãe frita berinjela no fogão.

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Eu não estou lá.
Eu estou em algum outro lugar da América (eu sempre estou
em algum outro lugar da América) escrevendo isso, escrevendo isso,
[escrevendo isso, inglês
é a primeira língua da minha mãe,
mas não é a minha.
Eu poderia ter dito bademjan.
Eu poderia ter dito khodafez.

Óleo escaldante, grandes punhos de fumaça, escrevendo isso.

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O primeiro inseto desenhado pelo homem foi o gafanhoto.
Arte é onde o que nós sobrevivemos sobrevive.

Óleo escaldante, grandes punhos de fumaça. Arte. Óleo escaldante. Arte.
Minha mãe frita berinjela. O primeiro

inseto desenhado pelo homem sobrevive.

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Quem vai beijar a rainha do baile?
Cérebro pulsando como uma ostra.

Quem vai ganhar a guerra?
América emerge

coberta dos
miúdos grãos daquilo de que é feita:

Pão fresco inchado com pó de farinha.

Ao escrever um e-mail, eu cometo um erro de digitação:
Eu te chamo tanto hoje,

e deixo assim.

Piedades proibidas, moinhos de vento girando
feito jovens bêbados.

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Qualquer documento de uma civilização é também um documento
[de barbárie
diz o palácio, em chamas.

Eu, um homem
sou tudo que eu não digo.

América, eu te garanto, se você me convidar para a sua casa
Eu vou ficar,

chamando, beijando meus amados com franqueza,
colhendo rabanetes
e tampando todas as suas canetas.

Não há bons reis,
só palácios em chamas.

Me chame hoje, tanto.

* * *

*‘The Palace’ from Calling a Wolf a Wolf,Copyright © 2019 by Kaveh Akbar.

Padrão
tradução

Hans Magnus Enzensberger (1929-), por Adelaide Ivánova

hans-magnus

hans magnus é um escritor alemão de esquerda. esses poemas são do livro “blindenschrift” (braille, em português), publicado em 1967. coisas que estavam acontecendo na época: guerra do vietnã, guerra fria e corrida nuclear, muro de berlim, civil rights, panteras negras, assassinato de lideranças negras, anti-comunismo, obsessão com a lua, beatles anuncia que não fariam mais shows (haha).

marxista e apoiador dos movimentos estudantis e revolucionários dos anos 1960, enzensberger ganhou inúmeros prêmios, morou na rússia e em cuba, produziu ensaios sobre teoria socialista da mídia e segue escrevendo até hoje. em novembro de 2019 ele completará 90 anos de escorpianismo.

para ler nossa outra postagem sobre o poeta, clique aqui.

* * *

middle class blues

wir können nicht klagen.
wir haben zu tun.
wir sind satt.
wir essen.

das gras wächst,
das sozialprodukt,
der fingernagel,
die vergangenheit.

die strßen sind leer.
die abschlüsse sind perfekt.
die sirene verschweigen.
das geht vorüber.

die toten haben ihr testament gemacht.
der regen hat nachgelassen.
der krieg ist noch nicht erklärt.
das hat keine eile.

wir essen das grass.
wir essen das sozialprodukt.
wir essen die fingernägel.
wir essen die vergangenheit.

wir haben nichts zu verheimlichen.
wir haben nichts zu versäumen.
wir haben nichts zu sagen.
wir haben.

die uhr ist aufgezogen.
die verhältnisse sind geordnet.
die teller sind abgespült.
der letzte autobus fährt vorbei.

er ist leer.

wir können nicht klagen.

worauf warten wir noch?

classe média blues

não podemos nos queixar.
estamos ocupados.
estamos saciados.
comemos.

a grama cresce,
o PIB,
a unha,
o passado.

as ruas estão vazias.
as conclusões estão perfeitas.
as sirenes estão caladas.
isso é coisa do passado.

os mortos escreveram seu testamento.
a chuva parou.
a guerra continua sem explicação.
mas não há pressa.

roemos a grama.
roemos o PIB.
roemos as unhas.
roemos o passado.

não temos nada a esconder.
não temos nada a perder.
os pratos estão lavados.
o último ônibus passa.

vazio.

não podemos nos queixar.

ainda estamos esperamos o quê?

§

 

bildnis eines spitzels

im supermarkt lehnt er
unter der plastiksonne,
die weißen flecken in seinem gesicht
sind wut, nicht schwindsucht,
hundert schachteln knuspi-knackers
(weil sie so herzhaft sind)
zündet er mit den augen an,
ein stück margarine
(die gleiche marke wie ich:
goldlux, weil sie so lecker ist)
nimmt er in seine feuchte hand
und zerdrückt sie zu saft.

er ist neunundzwanzig,
hat sinn für das höhere,
schläft schlecht und allein
mit broschüren und mittessern,
haßt den chef und den supermarkt,
die kommunisten, die weiber,
die hausbesitzer, sich selbst
und seine zerbissenen fingernägel
voll margarine (weil sie
so lecker ist), brabbelt
unter der künstlerfrisur
vor sich hin wie ein greis.

der
wird es nie zu was bringen.
schnittler, glaube ich, heißt er,
schnittler, hittler, oder so ähnlich.

retrato de um espião

no supermercado ele se curva
sob o sol de plástico,
as manchas brancas na sua cara
não são de tísica, são de ódio,
com os olhos ele fuzila
cem caixinhas de bolacha
(porque são tão saborosas),
o pacote de margarina
(da mesma marca que eu pego:
doriana, porque é uma delícia)
ele esmaga com sua mão úmida
até ela derreter.

ele tem vinte e nove anos,
é intuitivo,
dorme mal e sozinho
com cartilhas e cravos pretos,
odeia o chefe, o supermercado,
os comunistas, as mulheres,
o senhorio, ele mesmo
e sua unha roída
cheias de margarina (porque
é uma delícia), ele balbucia
sob o penteado de artista
como um velho, sem parar.

ele
nunca vai concluir nada.
acho que sobrenome dele era schnittler,
schnittler, hittler, ou algo parecido.

§

 

gerücht

ein altes gerücht kommt auf,
ein altes gerücht geht und sagt:
dies alles sei längst zu ende.
ach wenn es sonst nichts ist!

das wissen wir schon.

aber woher denn dann
erscheint am morgen
in ihrem braunen glas
auf der türschwelle frisch
und pünktlich die buttermilch?

es fällt frisches wasser
auf uns von himmel herunter,
es taucht etwas schreiendes
frisch aus den frauen auf
mit zartem wildem gehirn,
es nimmt der ihn gestern nahm
auch heute den achtuhrzug.

wie ist das zu erklären?

die kühe kalben und albern
kalbern die kälber. sogar
ihren geburtstag feiern
manche noch, schamlos.

als wäre nichts geschehen
erscheint täglich neu
unser rührender schmutziger
knallharter frommer roman.
fortsetzung folgt, und kein ende.

aber woher denn!

aber woher denn dann
erscheint am morgen
auf der türschwelle frisch
und pünktlich das alte gerücht?

fofoca

uma fofoca velha vai,
uma fofoca velha vem e diz:
isso tudo se acabou faz é tempo.
ah mas não deve ser nada!

disso a gente já sabe.

mas então como será que
de manhã aparece
num copo marrom
ao pé da porta
fresco e pontual o leite desnatado?

água fresquinha cai do céu
em cima da gente,
sai uma coisa fresquinha, gritando,
de dentro de uma mulher
com um cérebro mole e selvagem,
quem ontem pegou o trem das oito
hoje pegará também.

como se explica isso?

as vacas pariram e gracejam
engraçados os bezerros. até
seus aniversários são festejados
por alguns, ainda, sem o menor pudor.

como se nada tivesse acontecido
aparece todo dia e novamente
nosso romance puritano
comovente, impuro, cruel.
e continua, não tem fim.

mas de onde?

mas então de onde
aparece de manhã
ao pé da porta
fresca e pontual
a velha fofoca?

§

 

karl heinrich marx
riesiger großvater
jahvebärtig
auf braunen daguerreotypien
ich seh dein gesicht
in der schlohweißen aura
selbstherrlich streitbar
und die papiere im vertiko:
metzgersrechnungen
inauguraladressen
steckbriefe

deinen massigen leib
seh ich im fahndungsbuch
riesiger hochverräter
displaced person
in bratenrock und plastron
schwindsüchtig schlaflos
die galle verbrannt
von schweren zigarren
salzgurken laudanum
und likör

ich seh dein haus
in der rue d’alliance
dean street grafton terrace
riesiger bourgeois
haustyrann
in zerschlissnen pantoffeln:
ruß und »ökonomische scheiße«
pfandleihen »wie gewöhnlich«
kindersärge
hintertreppengeschichten

keine mitrailleuse
in deiner prophetenhand:
ich seh sie ruhig
im british museum
unter der grünen lampe
mit fürchterlicher geduld
dein eigenes haus zerbrechen
riesiger gründer
andern häusern zuliebe
in denen du nimmer erwacht bist

riesiger zaddik
ich seh dich verraten
von deinen anhängern:
nur deine feinde sind dir geblieben:
ich seh dein gesicht
auf dem letzten bild
vom april zweiundachtzig:
eine eiserne maske:
die eiserne maske der freiheit

karl heinrich marx

vovô grandão
com a barba de jah
em daguerreótipos marrons
vejo teu rosto
na aura branca como a neve
despótico briguento
e no birô os seguintes papeis:
boletos do açougue
discursos inaugurais
intimações

vejo teu barrigão
na lista de foragidos
grande traidor
sin papeles
de casaca e gravata de seda
tísico insone
a bile pegando fogo
pelos charutos fortes
picles láudano
e licor

eu vejo tua casa
na rue d’alliance
na dean street grafton terrace
burguesão
tirano doméstico
de pantufas velhas:
fuligem e “carai de economia”
agiotagem “como o de costume”
caixões de criança
fofocas

não há canhões
nas tuas mãos de profeta:
eu as vejo tranquilas
no museu britânico
embaixo do abajur verde
com tremenda paciência
arrombar tua própria casa
grande fundador
em nome de outras casas
nas quais tu nunca acordas

grande tsadic
eu te vejo traído
pelos teus seguidores:
apenas teus inimigos
se mantêm fieis:
eu vejo tua cara
na última foto
de abril de oitenta e dois:
uma máscara de ferro:
a máscara de ferro da liberdade

Padrão
poesia, tradução

Marin Sorescu (1936-1996), por Beethoven Alvarez

Marin Sorescu foi um poeta romeno, um dos grandes poetas romenos da segunda metade do século XX; além disso foi dramaturgo, romancista, ensaísta, editor, tradutor e pintor. Nasceu em 1936 numa cidadezinha chamada Bulzeşti, no estado de Dolj, na região da Valáquia, no sudoeste romeno; morreu aos 60 anos, em Bucareste, onde se casou e morou desde o início da década de 1960; mesmo viajando muito (é conhecido por ter visitado todos os continentes), manteve residência na Romênia durante toda a vida, o que inclui os mais de 30 anos da ditadura de Nicolae Ceaușescu. Produziu muito desde os 28 anos, publicou mais de 20 livros de poemas, e outros tantos de diversos gêneros, foi traduzido para mais de 10 línguas, teve suas pinturas expostas pela Europa, recebeu vários e vários prêmios, e, entre 1993-5, mesmo sem partido ou grandes aspirações políticas, e sob alguma crítica, foi Ministro da Cultura.

Seu primeiro livro, Singur printre poeti (Sozinho entre os poetas), de 1964, é uma coleção de paródias líricas e pastiches poéticos. Falando só de poesia, publicou, entre outros, Poeme (Poemas, 1965, Prêmio da União de Escritores da Romênia); Moartea ceasului (A morte do relógio, 1966); Tinereţea lui Don Quijote (A juventude de Dom Quixote, 1968); Tuşiţi (Tosse, 1970); Suflete, bun la toate (Minha alma, boa em tudo, 1972); La lilieci (Entre morcegos, vol. I-V, 1973-1995; Astfel (Então, 1973); Descântoteca (Desencantoteca, 1976); Sărbători itinerante (Sábados itinerantes, 1978); Ceramică (Cerâmica, 1979); Fântâni în mare (Fontes no mar, 1982); Apă vie, apă moartă (Água viva, água morta, 1987); Poezii alese de cenzură (Poesias selecionadas pela censura, 1991) e Traversarea (A travessia, 1994).

No teatro, destacou-se com Iona (Jonas, 1968), peça escrita no início do governo de Ceauşescu que reconta, numa chave existencialista, a história bíblica do profeta Jonas que foi engolido por uma baleia (Jonas 1:17). Iona fez grande sucesso e junto com Paracliserul (O sacristão, 1970) e Matca (A abelha-rainha, 1973) forma uma espécie de trilogia ligada ao Teatro do Absurdo que estabelece Sorescu como um dos grandes dramaturgos do pós-guerra.

Além de romances e ensaios, escreveu prosa satírica e literatura infanto-juvenil! Como tradutor, verteu para o romeno toda a obra lírica de Boris Pasternak.

Nenhuma crítica ou biografia de Sorescu deixa de salientar como marca de sua poética uma sutil e arguta ironia. Essa mesma ironia, passando pelo tratatamento de temas históricos, filosóficos, religiosos e cotidianos, aos poucos se desenvolve em um simbolismo desmistificador todo próprio, eivado de existencialimo.

Aqui, numa seleção que se guiou muito por minha curiosidade, escolhi estes sete poemas para traduzir. Propositalmente o primeiro deles se chama Curiosidade. Na sequência, ainda explorando a temática da curiosidade, ou antes, da criatividade, aparece Perpetuum mobile, com claras notas de sarcasmo. Finamente irônico, Na aula dá relevo à subversão que é ter ideias próprias. Ainda no ambiente escolar, Retroversão amplia a discussão sobre criação e sobre a própria compreensão do ser quando, metalinguisticamente, trata o tema da tradução. Esse poema, até onde sei, já foi traduzido por Rosemary Arrojo (em Oficina de Tradução) e Carlos Alberto Faraco (em Depois de Babel), ambos a partir de versões do inglês, com o título Tradução. Em direção a uma simbologia particular, mas também de forma metapoética, Sozinho adota um tom mais íntimo, o mesmo tom que ganha ares de confissão e pessimismo em Doença (este já traduzido por Luciano Maia, 1995). Por fim, com uma atenção menos íntima, Ritmo encerra, sem solução nenhuma, essa pequena seleção que eu gostaria que oferecesse uma breve ideia da obra poética de Sorescu, que um dia disse (não sei onde): “a palavra dita é uma fronteira transposta; pelo ato de dizer alguma coisa, eu falho em dizer tantas outras coisas.”

Não posso deixar de agradecer o André Kangussu que foi um dos primeiros a me apresentar a obra desse poeta romeno e a me estimular a traduzi-lo, e também o Guilherme Gontijo, que ouviu umas leituras minhas e, porque é uma pessoa gentil, sugeriu enviar pra cá essas traduçõezinhas.

Beethoven Alvarez

Beethoven Alvarez nasceu em Petrópolis, mas seu documento de identidade hoje diz que é natural do Rio de Janeiro. É Professor Adjunto de Língua e Literatura Latina da UFF em Niterói. Possui doutorado em Linguística (na área de Estudos Clássicos) pela Unicamp, com período sanduíche na University of Oxford. Hoje tem interesse em comédia romana antiga, métrica arcaica (iambo-trocaica) do latim, versificação das língua modernas (neolatinas e outras), tradução do texto teatral e tradução poética. Não se recorda de ter ficado bêbado (inúmeras vezes) em Brașov e lembra feliz de ter atravessado a Estrada Transfăgărășan (com a moto emprestada de um amigo russo que conheceu bêbado).

* * *

Curiozitate

Ce se aude? Ce nu se mai aude?
Şi când se aude, ce se aude?
Şi când nu se aude, ce nu se aude?
Şi de ce nu s-aude, când nu s-aude?
Şi cine aude, când se aude?
Şi pentru ce se aude?
Şi până când?

De ce se aude ceva şi nu altceva?
Ia să nu se mai audă, ce se aude!
Ce-am auzit că s-aude?
Dar până când?

Curiosidade

O que se ouve? O que não se ouve?
E quando se ouve, o que se ouve?
E quando não se ouve, o que não se ouve?
E quem ouve, quando se ouve?
E para que se ouve?
E até quando?

Por que se ouve uma coisa e não outra?
Não ouça mais o que se ouve!
O que eu ouvi como se ouve?
Mas até quando?

§

Perpetuum mobile

Între idealurile oamenilor
Și realizarea lor
Întotdeauna va exista
O diferență de nivel
Mai mare
Decât cea mai înaltă cascadă.

Se poate folosi rațional
Această cădere
De speranțe,
Construindu-se pe ea ceva
Ca o hidrocentrală.

De la energia astfel câștigată,
Chiar dacă n-o să reușim
Să ne aprindem decât țigarile,
Tot e ceva,
Pentru că, fumând, ne putem gândi serios
La niște idealuri și mai grozave.

Perpetuum mobile

Entre as ideias de alguém
E a realização delas
Sempre existe
Uma diferença de altura
Maior
Que a da mais alta cascata.

É possível usar de forma racional
Essa queda
De esperança,
Construindo acima dela algo
Como uma hidroelétrica.

Da energia assim gerada,
Mesmo se só usarmos
Para acender nossos cigarros,
Ganha-se alguma coisa,
Porque, fumando, podemos pensar seriamente
Em algumas ideias ainda mais extraordinárias.   

 §

La lecție

De câte ori sunt scos la lecție
Răspund anapoda
La toate întrebările.

– Cum stai cu istoria?
Mă întreabă profesorul.
– Prost, foarte prost,
Abia am încheiat o pace trainică
Cu turcii.

– Care e legea gravitației?
– Oriunde ne-am afla,
Pe apă sau pe uscat,
Pe jos sau în aer,
Toate lucrurile trebuie să ne cadă
În cap.

– Pe ce treaptă de civilizație
Ne aflăm?
– În epoca pietrei neșlefuite,
Întrucât singura piatră șlefuită
Care se găsise,
Inima,
A fost pierdută.

– Știi să faci harta marilor noastre speranțe?
– Da, din baloane colorate.
La fiecare vânt puternic
Mai zboară câte un balon.

Din toate astea se vede clar
C-o să rămân repetent,
Și pe bună dreptate.

Na aula

Toda vez que sou expulso da aula
Respondo ao contrário
A todas as perguntas.

Como vai em história?
Pergunta o professor.
– Burro, bem burro,
Acabei de fazer uma paz duradoura
Com os turcos.

– O que é a lei da gravidade?
– Em qualquer lugar que eu estiver,
Na água ou na terra
No chão ou no ar,
Todas as coisas têm que cair
Na minha cabeça.

– Em que estágio da civilização
Nos encontramos?
– Na idade da pedra que nem está lascada,
Porque a única pedra lascada
Que se encontrou,
O coração,
Se perdeu.

– Sabe fazer um mapa de nossas esperanças?
– Sim, com balões coloridos.
A cada vento forte
Voa pra longe mais um balão.

Diante disso tudo, fica claro
Que vou continuar repetindo de ano,
E por um bom motivo.

§

Retroversiune

Susţineam examenul
La limba moarta,
Şi trebuia sa ma traduc
Din om în maimuţa.

Am luat-o pe departe,
Traducînd mai întâi un text
Dintr-o padure.

Retroversiunea devenea însa
Tot mai dificila,
Cu cât ma apropiam de mine.
Cu puţin efor
Am gasit totuţi echivalenţe mulţumitoare
Pentru unghii şi parul de pe picioare.

Pe la genunchi
Am început sa ma bâlbâi.
În dreptul inimii mi-a tremurat mâna
Şi-am facut o pata de soare.

Am mai încercat eu s-o dreg
Cu parul de pe piept.
Dar m-am poticnit definitiv
La suflet.

Retroversão

Estava fazendo a prova
De uma língua morta,
E tinha que me traduzir
De homem em macaco.

Eu comecei de longe
Traduzindo primeiro um texto
De dentro de uma floresta.

A retroversão se tornava porém
Bem mais difícil,
Quando me aproximava de mim.
Com um pouco de esforço
Achei entretanto equivalentes satisfatórios
Para as unhas e os pelos das pernas.

Nos joelhos
Comecei a gaguejar.
Perto do coração minha mão tremeu
E fiz uma mancha de sol.

Logo procurei consertar
Com o pelo do peito.
Mas tropecei em definitivo
Na alma.

§

Singur

Mi-e frig în cămaşa asta
De litere
Prin care intră uşor
Toate intemperiile.

Vântul prin a,
Lupii prin b,
Iarna prin c,
Şi eu încerc să-mi apăr măcar inima
Cu un titlu mai gros,
Dar mă îngheaţă frigul care intră
Prin toate literele.

Mi-e urât în cămaşa asta
De litere
Prin care intră uşor
Respiraţia și bătăile inimii.

Prin a,
Prin b,
Prin c,
Alfabetul este plin de mine
Pentru o clipă.

Sozinho

Estou com frio com essa camisa
De letras
Por ela entra facilmente
Todo mau tempo.

O vento pelo a,
Os lobos pelo b,
O inverno pelo c,
E estou tentando fazer meu coração aparecer
Com um título mais grosso,
Mas me congela o frio que entra
Por todas as letras.

Fico feio nessa camisa
De letras
Por ela entra facilmente
Respiração e batidas do coração.

Pelo a,
Pelo b,
Pelo c,
O alfabeto está cheio de mim
Por um momento.

§

Boala

Doctore, simt ceva mortal
Aici, în regiunea fiinţei mele.
Mă dor toate organele,
Ziua mă doare soarele
Iar noaptea luna şi stelele.
Mi s-a pus un junghi în norul de pe cer
Pe care pâna atunci nici nu-l observasem
Şi mă trezesc în fiecare dimineaţă
Cu o senzaţie de iarnă.
Degeaba am luat tot felul de medicamente,
Am urât şi am iubit, am învăţat să citesc
Şi chiar am citit niste cărţi,
Am vorbit cu oamenii şi m-am gândit,
Am fost bun si-am fost frumos…
Toate acestea n-au avut nici un efect, doctore,
Şi-am cheltuit pe ele o groază de ani.
Cred că m-am îmbolnăvit de moarte
Într-o zi,
Când m-am născut.

Doença

Doutor, eu sinto uma dor terrível
Aqui na região do meu ser,
Me doem todos os órgãos
De dia me dói o sol,
E de noite, a lua e as estrelas.

Sinto uma pontada na nuvem do céu
Que até então eu nem tinha notado
E acordo todas as manhãs
Com uma sensação de inverno.

Em vão eu tomei todo tipo de remédio,
Senti ódio e amei, aprendi a ler
E até li alguns livros,
Falei com as pessoas e pensei,
Eu fui bom e eu fui querido…

Tudo isso não teve nenhum efeito, doutor
E eu gastei um monte de anos com isso.

Eu acho que adoeci
Um dia
Quando nasci.

§

Ritm

Cohorte de marginalizaţi
Se răscoală.
Vor în centru. Îl ocupă.
Împingând spre margine
Norocoşii din etapa precedentă.

Se cuibăresc, puiază.
Şi aşteaptă cu inima cât un purice
Cohortele de marginalizaţi
Care trag spre centru.

Ritmo

As multidões de marginalizados
Se revoltam.
Querem estar no centro. O ocupam.
Empurrando para a margem
Os que foram bem sucedidos antes.

Fazem ninho, crescem.
E esperam com o coração de uma pulga
Multidões de marginalizados
Que se movem para o centro.

Padrão
poesia, tradução

Maria Borio, por Davi Araújo

Maria Borio (Perugia, 1985) é poeta e crítica literária. Doutora em Literatura Italiana Contemporânea, assina os estudos Satura. Da Montale alla lirica contemporanea (Fabrizio Serra Editore, 2013) e Poetiche e individui. La poesia italiana dal 1970 al 2000 (Marsilio Editori, 2018). Como poeta, publicou a série Vite unite (em XII Quaderno italiano di poesia contemporanea, Marcos y Marcos, 2015), a plaquete L’altro limite (Pordenonelegge-Lieticolle, 2017), e o livro Trasparenza (Interlinea, 2019). Escreve nos sites Le parole e le cose e La letteratura e noi, e cura a seção poesia da revista Nuovi Argomenti.

Davi Araújo (São Paulo, 1979) é poeta, ficcionista e tradutor; colaborador de Mallarmargens e diretor artístico d’A Quimera Dança. Autor do poemário Livro Ruído (Eucleia, 2011), publicado em Portugal, e das prosas em Ficções paralelas e Visões para lê-las (Substânsia, 2016; com desenhos de Yuli Yamagata). Traduziu Natureza, de R. W. Emerson, Caminhada, de H. D. Thoreau (Dracaena, 2011), 100 poemas de André Breton (Revista Agulha, 2019), e diversos poetas reunidos em Do silêncio ao céu (inédito). Lança este ano, pela Urutau, seu próximo livro de poemas: O físsil.

* * *

O céu

Sei que ἁρμονία significa também coligação,
conexão, união. “Enquanto restarem unidos
os troncos da jangada,/estarei aqui, resistirei…”

(Odisseia, V, 361-362)

As nozes abertas sobre a mesa
são todavia som
– o movimento brilhante dos olhos
da porta à mesa:
o labor, o peso que não existe,
a ânsia ligeira pelas pessoas –
como se a beleza não tivesse uma origem.
Estas nozes fizeram rumor,
me tiram os pensamentos
(nascem e são já de todos,
todos os pensamentos…),
me reclamam ao corpo,
àquele que digo sabor
(as ideias são sempre sem corpo,
são parte de todos?),
me mantêm a contar os restos,
a colecioná-los sobre a mesa (e os meus
pensamentos, a quem fizeram feliz?).
As cascas partidas pertencem a estas mãos,
ao côncavo, às linhas das palmas,
pontas de sementes – nasce uma vida
ao instante dentro destas mãos.
Não ter pensamentos.
///
Apenas sobre as notícias eu sei nomes e pessoas
como era o labirinto dos vidros, no parque, dos espelhos
até batendo encontravas a saída.
Porque não tenho a saída agora –
se chama rede,
talha um quadrado exato
e um lugar que é onipresente.
Ou sou o branco de fundo
no corredor de espelhos,
inciso de diagonais e metálico
na terra, estreito entorno ao corpo
com os neons que faziam indistintos
a pele e o ar como uma sombra transparente
que segue a cada um, mas ao voltar-se não está.
E ali a peça de velha moeda,
o círculo de bronze com o golfinho
era caído à terra
quando estávamos vizinhos à saída,
e para não perdê-la a tenhamos abandonado.
Ali, exatamente, acreditei
em uma língua para todos
idêntica ao ar nos espelhos,
do inventor do labirinto às nossas mãos suadas
que protegiam a fronte:
erro ou desvio,
mas era solidez
bater a fronte às vezes
antes de chegar.
E à saída do parque o mestre dos crepes,
o pedrisco no círculo como a plataforma escura
onde atiras e pegas
e perdes, e depois os sapatos de ginástica
sobre o pedrisco e o mês certo
novembro – sempre um rito
enquanto o tempo agora é filiforme
e os sentimentos certos que todos possam capitar
e ver tão só na infinita
rede – ou, às vezes, em equilíbrio,
alguém que devolve a moeda.
///
Têm passado dias como vozes,
as vozes úteis pelo ar quando se enche.
Têm passado dias demasiado meus
aos quais falo curtocircuito.
E os teus – aqueles de-
le, do outro, do outro,
outras vozes
eu deles, deles
de mim e ninguém
de ninguém.
Me apareciam rostos de mulher
no mármore da fachada,
plenos da luz de dezembro
e muito ligeiros para perceber
se jovens ou velhos, criaturas
inaturais ou animais.
Apareciam as geometrias,
as ficções, e todos os habitantes,
deslizando vizinhos, secretos,
rachados pelo sol deslizando
de boca em boca de corpo em corpo,
se uniam às pessoas reais,
me faziam uma figura.
Contar é o único,
reconhecer na luz exata
as vozes que não parecem reais,
que desejas transparentes,
inocentes ou simples –
e te fazem muito mais única
do que uma pessoa só.
///
Um interior – a pressão d’água
nos tubos, a luz da lâmpada
matizada, o respiro,
o mastigar objetos… é nutrir-se
de pouco, pensar grades de metal
com que suspender as substâncias da natureza,
recriar.
Logo, exterior – passas como um nada,
se para o carro, o vento, a mosca
exausta entre os quadrantes das casas,
o fio de erva seco pelo gelo,
todavia passam – como um eu multiplicado.
Até quando, me dirás me dirás,
saberemos que protegidos ou expostos
é a mesma coisa?
Me dirás as criaturas inconscientes
não existem, e escava escava
cada um se encontra.
No fundo é
a base da erva,
o contato entre a estrada e a terra,
o fragor de ultrasons entre as asas e o ar,
as dobras entre parede e parede,
o halo nesses copos do respiro
e a sombra que degrada.
Tudo é
real nas escalas múltiplas
como as frases que levam adiante
adiante a compreender, o gesto
em que vasculhas para ver o fundo.
Interior cheio de nada,
a luz grisazulada que chega
é manhã e tarde
e as coisas espoliadas da sombra
um segundo te veem como tu as vês.
///
O vidro é todo inverno,
as árvores se apoiam,
um quadro é já parede,
a célula outra célula:
talvez pudessem continuar
com os sentimentos raptados
como as gotas que chamam luz,
pudessem ignorar.
Memória – cada um reconhece
ainda que fingindo.
Passam as cores do inverno
fora da janela como se os quereres
fossem estátuas dentro do céu
escondidas à natureza.
Se sentem mais do querer
fortes com a água nova –
assim dizem as plantas
sobre as quais volta o inverno mil vezes –
é raro ser anônimos e nós,
a escavar o inverno,
a murar os confins,
outros nós misturados às árvores –
parecem árvores e são
nós?
Prefiro o fim dos insetos
assim crus em espirais de lenho,
morrer de ar seco
quando o vento é muito forte:
a minha alma é morta mil vezes
e volta, privilégio
que apaga e inunda.
Provo outra vez fixá-la
no instante que, anônima, se apoia
na natureza sem provas, e crê
que nada exista.
///
Terminarão, terminarão –
tenho pensado nestes momentos,
a suspensão, a verdade
para todos – estes segundos
nutrientes como o leite.
Logo aprendia a me levantar e abaixar
conforme os casos, os poucos
que se podem observar. E os casos
tornavam-se meus, os meus humores
tornavam-se casos.
Mas o melro segue o curso dos ramos,
é uma realidade pintada
que se move sem medo
até quando não sinto que é real
mais do que eu – as penas negras
que brilham entre os ramos para dizer-me
a perfeição é fora.
Agora torna a morte como o céu
sobre todas as coisas transformadas –
eis que o céu tem todas as cores,
as apaga no alto, as perde,
as faz novas, o céu
muda a cada dia – e o mundo
resiste só em paralelo.
///
O céu é branco entre as folhas
que saem da terra a um ponto de ar.
Distingues as cores, as hierarquias,
as recém-nascidas, as sempreverdes
folhas de magnólia contra a luz
que escondem um mundo
latente como o nosso.
Sai o vazio imprevisto,
olhando do tronco à ponta das ramas
o céu no meio
como pudesses bebê-lo. Qualquer coisa
assim lógica e justa –
as hierarquias mais humanas não se fazem
de água e luz, crescem
à vontade necessária,
se alteram sob o querer de poucos.
Repetir isto e deixá-lo
passar da indiferença ao vento,
que o tenha consigo em um momento
entre os meus olhos e a magnólia.

§

Il cielo

So che ἁρμονία significa anche collegamento,
connessione, unione. «Finchè restano uniti
i tronchi della zattera, / starò qui, resisterò…»
(Odissea, V, 361-362)

Le noci aperte sul tavolo
sono ancora suono
– il movimento brillante degli occhi
dalla porta al tavolo:
il lavoro, il peso che non esiste,
le ansie leggere per le persone –
come se la bellezza non avesse un’origine.
Queste noci hanno fatto rumore,
mi tolgono i pensieri
(nascono e sono già di tutti,
tutti i pensieri…),
mi richiamano al corpo,
a quello che dico sapore
(le idee sono sempre senza corpo,
sono parte di tutti?),
mi trattengono a contare i resti,
a radunarli sul tavolo (e i miei
pensieri chi hanno reso felice?).
I gusci spaccati appartengono a queste mani,
nell’incavo, nelle linee dei palmi,
punte di semi – nasce una vita
all’istante dentro queste mani.
Non avere pensieri.
///
Appena sopra le notizie io so nomi e persone
come era il labirinto dei vetri, al parco, degli specchi
finché sbattendo trovavi l’uscita.
Perché non ho l’uscita adesso –
si chiama rete,
taglia un quadrato esatto
e un luogo che è ovunque.
O sono il bianco in fondo
al corridoio degli specchi,
inciso di diagonali e metallico
a terra, stretto intorno al corpo
con i neon che facevano indistinti
la pelle e l’aria come un’ombra trasparente
che segue ognuno, ma a voltarsi non c’è.
E lì il pezzo di vecchia moneta,
il cerchio di bronzo con il delfino
era caduto a terra
quando siamo stati vicini all’uscita,
e per non perderla l’abbiamo lasciato.
Lì, esattamente ho creduto
a una lingua per tutti
identica dall’aria agli specchi,
dall’inventore del labirinto alle nostre mani sudate
che proteggevano la fronte:
errore o deviazione,
ma era solidità
sbattere la fronte a volte
prima di arrivare.
E all’uscita del parco il maestro delle crêpes,
la breccia in cerchio come la piattaforma scura
dove tiri e peschi
e perdi, e poi le scarpe da ginnastica
sulla breccia e il mese certo
novembre – sempre un rito
mentre il tempo adesso è filiforme
e i sentimenti certi che tutti possono capire
e vedere nella sola infinita
rete – o, a volte, in equilibrio,
qualcuno che riporta la moneta.
///
Sono passati giorni come voci,
le voci utili all’aria quando si riempie.
Sono passati giorni troppo miei
a cui parlo cortocircuito.
E i tuoi – quelli di
lui, dell’altro, dell’altro,
altre voci
io di loro, loro
di me e nessuno
di nessuno.
Mi apparivano volti di donna
sul marmo della facciata,
pieni della luce di dicembre
e troppo leggeri per capire
se giovani o vecchi, creature
innaturali o animali.
Apparivano le geometrie,
le finzioni, e tutti gli abitanti,
scivolando vicine, segrete,
spaccate dal sole scivolando
di bocca in bocca di corpo in corpo,
si univano alle persone vere,
mi facevano una figura.
Contare è l’unico,
riconoscerle nella luce esatta
le voci che non sembrano vere,
che desideri trasparenti,
innocenti o semplici –
e ti fanno molto più unica
di una persona sola.
///
Un interno – la pressione dell’acqua
sui tubi, la luce della lampada
sfumata, il respiro,
il masticare oggetti… è nutrirsi
di poco, pensare griglie di metallo
a cui appendere le sostanze della natura,
ricreare.
Poi, esterno – passi come un niente,
si ferma l’auto, il vento, la mosca
sfinita tra i quadranti delle case,
il filo d’erba seccato dal gelo,
ancora passano – come un io moltiplicato.
Fino a quando, mi dirai mi dirai,
sapremo che protetti o esposti
è la stessa cosa?
Mi dirai le creature inconsapevoli
non esistono, e scava scava
ognuno si trova.
In fondo è
la base dell’erba,
il contatto tra la strada e la terra,
il fragore a ultrasuoni tra le ali e l’aria,
le pieghe tra parete e parete,
l’alone del respiro sul bicchiere
e l’ombra che degrada.
Tutto è
vero nelle scale multiple
come le frasi che portano avanti
avanti a capire, il gesto
in cui frughi per vedere il fondo.
Interno pieno di niente,
la luce grigioazzurra che arriva
è mattino e sera
e le cose spogliate dall’ombra
un secondo ti vedono come tu le vedi.
///
Il vetro è tutto inverno,
gli alberi si appoggiano,
un quadro è già parete,
la cellula altra cellula:
forse potrebbero continuare
con i sentimenti rapiti
come le gocce che chiamano la luce,
potrebbero ignorare.
Memoria – ognuno riconosce
anche fingendo.
Passano i colori dell’inverno
fuori dalla finestra come se i bisogni
fossero statue dentro al cielo
nascoste alla natura.
Si sentono più del bisogno
forti con l’acqua nuova –
così dicono le piante
su cui torna l’inverno mille volte –
è raro essere anonimi e noi,
a scavare l’inverno,
a murare i confini,
altri noi misti agli alberi –
sembrano alberi e sono
noi?
Preferisco la fine degli insetti
così crudi in spiragli di legno,
morire d’aria secca
quando il vento è troppo forte:
la mia anima è morta mille volte
e tornata, privilegio
che spegne e inonda.
Provo ancora a fissarla
nell’istante che, anonima, si appoggia
alla natura senza prova, e crede
che niente esista.
///
Finiranno, finiranno –
ho pensato a questi momenti,
la sospensione, la verità
per tutti – questi secondi
nutrienti come il latte.
Poi imparavo ad alzarmi e abbassarmi
come i casi, i pochi
che si possono guardare. E i casi
diventavano miei, i miei umori
diventavano casi.
Ma il merlo segue il corso dei rami,
è una realtà dipinta
che si muove senza paura
fino a quando non sento che è vero
più di me – le penne nere
che brillano tra i rami per dirmi
la perfezione è fuori.
Allora torna la morte come il cielo
su tutte le cose trasformate –
ecco che il cielo ha tutti i colori,
li spinge in alto, li perde,
li fa nuovi, il cielo
cambia ogni giorno – e il mondo
resiste solo in parallelo.
///
Il cielo è bianco tra le foglie
che salgono da terra a un punto d’aria.
Distingui i colori, le gerarchie,
le nuove nate, le sempreverdi
foglie di magnolia controluce
che nascondono un mondo
latente come il nostro.
Sale il vuoto improvviso,
guardando dal tronco alla punta dei rami
il cielo in mezzo
come potessi berlo. Qualcosa
così logico e giusto –
le gerarchie più umane non si fanno
di acqua e luce, crescono
a volontà necessarie,
si alterano sui bisogni di pochi.
Ripetere questo e lasciarlo
passare dall’indifferenza al vento,
che lo tenga con sé in un momento
tra i miei occhi e la magnolia.

Padrão
poesia, tradução

Maiakóvski em viagem, por Paulo Ferraz

Para quem fez versos para seu passaporte soviético, é de se supor que Vladímir Maiakóvski o tenha usado bastante. E sim, após algumas viagens por cidades soviéticas, o poeta georgiano, nascido em 19 de julho de 1893 e que desde a adolescência vivia em Moscou, vai algumas vezes para o ocidente, Riga, Praga, Varsóvia, Berlim e Paris, são algumas das cidades por ele visitadas depois de 1922. Em cada uma delas deixou registrado suas impressões, especialmente Paris, onde esteve em mais de uma ocasião. Dessas viagens, a mais inusitada há de ter sido para o novy mir, a América, saindo da Espanha, passando por Cuba, depois México e finalmente os EUA. Os poemas que escreveu entre 1925 e 1926, além de crônicas e cartas, têm a marca da circunstancialidade, mas também do olhar (e ouvido) estrangeiro ao registrar um mundo que só existia para ele como ideia e que se diferenciava tanto da sociedade russa que caíra quanto da que ajudava a construir. Para essa publicação selecionamos cinco poemas, dois sobre Paris, um sobre a Espanha, outro sobre Nova Iorque e, por último, um sobre o México.

Paulo Ferraz


Paulo Ferraz
 é poeta e tradutor, autor dos livros de poesia De novo nada (2007) e Vícios de imanência (2018), entre outros, da antologia Roteiro da poesia brasileira, anos 90 (2011)  e mestre e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP.

* * *

PARIS (ПАРИЖ)
(conversando com a Torre Eiffel)

Maltratada por milhões de pés.
Esfacelada por milhares de pneus.
Eu rasgo Paris —
terrivelmente erma,
terrivelmente desumana,
terrivelmente desalmada.
Ao meu redor —
a fantástica dança dos carros,
ao meu redor —
bestas marinhas nos chafarizes
assoviam em um só acorde
as mesmas águas dos Luíses.
Parto para a
Place de la Concorde.
Espero,
e enquanto
espio um sinal que a identifique,
espreitando atrás das casas
sai, por mim,
o bolchevique,
como um espectro
da neblina a Torre Eiffel.
— Psiu,
torre,
seja discreta! —
estão nos vigiando! —
essa lua-guilhotina assusta.
Conto o que se passa
(num sopro sibilado,
em sua
orelha-rádio
chio,
cochicho):
— Tenho agitado as coisas e os edifícios.
Nós
aguardamos apenas sua anuência.
Torre,
você quer liderar uma rebelião?
Torre —
Nós
te elegemos nossa líder!
Você —
exemplo do gênio da ciência —
não pode
apodrecer num metro de Apollinaire.
Aqui não é seu
lugar — lugar da decadência —
Paris das putas,
dos poetas,
da bolsa de valores.
O Metrô já aderiu,
os trens estão comigo —
eles
cuspirão o público
de suas entranhas revestidas —
e com sangue limparão
os anúncios de perfume e pó-de-arroz
nos muros.
Estão convictos
não vão circular o
vagão dos ricos.
Não são escravos!
Estão convictos —
para eles
acima dos retratos
está nossa propaganda,
cartazes de luta.
Torre,
a rua não é temerária!
Se o
Metrô não libertar o subterrâneo —
a terra
será nossos trilhos
Iniciarei uma revolta ferroviária.
Está com medo?
Os cafés defenderão o sistema?
Está com medo?
A Rive Gauche virá em socorro.
Não tema!
Já combinei com as pontes.
Atravessar o
rio
a nado não
é nada fácil!
As pontes,
rompendo com o tráfico enfurecido,
dividirão Paris em duas metades.
As pontes irão se rebelar.
No primeiro chamado —
os passantes serão lançados a um pilar.
As coisas estão indignadas.
É um ponto insuportável.
Depois de
quinze anos
ou vinte,
abrandará o aço,
e essas
mesmas coisas
de agora
lá fora
nas noites de Montmartre vão se vender.
Vamos, Torre!
Conosco!
Afinal,
você,
ao nosso lado,
é essencial!
Venha conosco!
Com seu aço reluzente,
na fumaça —
nós te encontraremos.
Nós te encontraremos com mais afeto
que ao primeiro entre os queridos dos queridos.
Vamos para Moscou!
Em Moscou
nos
sobra espaço.
Você
— e todos! —
estará na via pública.
Nós
cuidaremos de você:
cem vezes
ao dia
sol a sol lustraremos seu cobre e seu aço.
Deixe
essa cidade,
a Paris dos dândis e dos fariseus,
a Paris dos bulevares sufocantes
acaba sozinha, no longo cemitério do Louvre
no velho Bois de Boulogne e nos museus.
Em frente!
Mova suas quatro potentes patas,
cravadas no chão pelo croqui de Eiffel,
para que em nosso céu sua testa irradie,
para que nossas estrelas se desviem diante de ti!
Decida, Torre,
mande tudo à sua sorte,
revirando Paris pelo avesso!
Vamos, se apresse!
Conosco!
Conosco para a URSS!
Vamos conosco —
que eu
te arranjo um passaporte!

(escrito após sua viagem a Paris no outono de 1922)

DESPEDIDA (ПРОЩАНЬЕ)

No carro,
            gasto meu último franco.
— Que horas sai o trem de Marselha? —
Paris
            me escolta,
                                    vejo-a do meu banco,
em sua
            inacreditável
                                    maravilha.
A água que
                        verte
                                    dos meus olhos diz
do coração mole
                               e sentimentalista
                                                            que sou!
Queria
            viver
                        e morrer em Paris,
se não houvesse
                        outra terra —
                                                Moscou.

(1925)

ESPANHA (ИСПАНИЯ)

Pensava que fosse
            o Jardim do Éden.
Bobagem
            de bêbados bardos.
Mas não —
            ao vivo vejo
                        o armazém
“LEOPOLDO PARDO”.
Com cautela se passa
por vilas incrustadas na rocha,
e um burro de raça
tagarela em espanhol.
Despojados de tudo que é plebeu,
enfiam o seu chapéu até o nariz.
O humilde
            “telefone”
                        se converteu
no “teléfono
            de esnobe verniz.
Cabelos pretos
                        entre coloridas centelhas.
Rostos nos xales emoldurados,
Señoritas
                        às centenas
e seus leques de um a outro lado.
Medusas —
            azulam as águas
na medida
            de um exagero.
Sou para uns camaradas
                                    “señor
para outros
                        “caballero”.
Castanholas afugentando o sono.
Gritos…
            canto…
                        paixão!
Mas o que me importa isso?
É como cumprimentar — um cão!

(Escrito a bordo do navio “España” em 22 de junho de 1925)

BROADWAY (БРОДВЕЙ)

O asfalto — é vítreo.
                        E o som grave nos
passos. Bosques e folhas
                        de relva — no limite.
Do norte
            para o sul,
                        pegue as avenues,
do oeste para o leste,
                                    — as streets.
No meio —
            (onde o construtor quis tê-las) —
o tamanho
            das casas tumultua.
Umas
            são imensas como estrelas,
outras
                        — vão até a lua.
Yankees
            são preguiçosos
                        para andar não têm gana:
o elevador
            comum e o expresso.
Às 7 horas
            sobe a maré humana,
às 17 horas —
            ela se esparrama.
O mecanismo range
                        numa algaravia vã,
e não há na rua
                        quem se relacione.
Só refreiam
            a mastigação do chewing gum
para soltar um
                        “make money?
A mãe
            amamenta o nenê
                        que a seu seio o cola.
O nenê,
            com o nariz escorrendo,
suga
como se não fosse
                        uma teta, mas one dollar
entretido
                em sérios
                                    negócios.

Fim do expediente.
                        O corpo se sabe o ei-
xo contínuo
                        de um elétrico vetor.
Quer ir para o subterrâneo?
                                    — tome o subway
para o céu?
            — então, um elevator.
Os vagões
            partem e deixam
                        um rastro de fumaça sem fim,
passam
            rente aos calcanhares
                                                das casas
para pôr pra
                        fora uma cauda
                                                na ponte do Brooklyn
e se enfiar
                numa toca
                                    sob o Hudson.
Uma sonolência
                              te
                                    envolve no breu.
Mas
            como cascos num galope
no escuro
            a mente escuta:
                                    “Coffee Maxwell
good
            to the last drop
Uma lâmpada
                        se põe a
                                    cavar a treva.
Bem, contarei a vocês:
                                    — que deslumbrante!
Olhe pra esquerda:
                                    — nossa, mãe, não se atreva!
pra direita:
                        — mamãezinha, isso é um desplante!
Isso pode ser demais para os de Moscou, pode, eu sei!
Um dia só não basta,
                        o fim é um tabu.
Isso é Nova Iorque.
                                    Isso é a Broadway.
How do you do!
Estou encantado
                        por essa cidade.
Mas
            de meu quepe
                                    não me descubro.
Os soviéticos
                        temos muita autoestima
Para a burguesia
                        nós olhamos de cima.

(6 de agosto de 1925)

TRÓPICOS (ТРОПИКИ)
(Estrada entre Vera Cruz e Cidade do México)

Vejo:
           aqui estão —
                                   os trópicos.
Foi pelo que aspirei
                        a vida inteira.
Viajo num
            trem trôpego
entre palmeiras,
                        entre bananeiras.
Suas silhuetas na vista
desenham uma torpe paisagem:
umas lembram — eremitas,
outras lembram — artistas.
Agora, você
            não creria nesse fato:
dessa balbúrdia de chocar
crescia
            uma planta — o cacto
como um cano de samovar.
Já os pássaros nesse forno
a nenhum do mundo igualo.
Espera-se —
                        um tordo
e se encontra —
                        um galo.
E antes que eu
                        entendesse a flora
ou o delírio
                        ou o calor
                                             ou o dia —
o dia
            e a flora se foram
sem noite
            e sem
                        ousadia.
Onde horizonte se esconde?
Foram as linhas
                        já guar-
dadas. Me conte,
            qual dessas estrelas
são
            olhos de jaguar?
Não devo ser o
                        melhor fiscal
de estrelas
                        da noite tropical,
é um céu
tão estrelado nas
            noites de agosto
que não se esgota
            num só gosto.
Vejo:
                       quadro utópico.
Foi pelo que aspirei
                        a vida inteira.
Viajo num
                        trem nos trópicos
entre o aroma
            das bananeiras.

(escrito após o retorno de Maiakovski entre maio e junho de 1926)

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poesia, tradução

15 PEDAÇOS DE SOSSÉLLA [6/15], por Fernanda Magalhães Ferrari e Gregório Camilo

Sérgio Rubens Sossélla foi um poeta, crítico e magistrado nascido em Curitiba, em 1942. Certamente foi um dos poetas mais produtivos do Brasil, tendo mais de 300 publicações em vida, a maioria editada pelo próprio autor. Se aposentou em 1986 e logo em seguida construiu a Vila Rosa Maria, biblioteca com mais de 25 mil livros, onde se dedicou à poesia e literatura integralmente até o fim de sua vida, em 2003.

No dia 18 de novembro de 2018 completou 15 anos sem Sossélla. Fizemos o primeiro vídeo (Sim, ele passou por aqui) em homenagem a esse dia, e só depois resolvemos fazer uma série de 15 videopoemas, tentando dar uma visão geral da obra poética dele, com um olhar um pouco biográfico – que é praticamente indissociável de sua obra –, chamada 15 pedaços de Sossélla.

A produção desses vídeos tem sido baseada nas imagens que fizemos na Vila Rosa Maria (a maioria feita na pré-filmagem das cenas pro longa que estamos produzindo: Sossélla esteve aqui) e algumas outras que não têm ligação com o filme e vemos que poema flui melhor. A partir do sexto vídeo, que até agora é o último, as filmagens vão ser feitas já pensando no videopoema completo.

Por curiosidade: o ator de Meus mortos e Exercício nº 110, interpretando o próprio Sossélla, é seu filho, o Sérgio Augusto Sossélla.

* * *

#1 Sim, ele passou por aqui (1985)

Poema longo, pro Sossélla. É um dos que mais demonstram a sua relação íntima com a morte.

Sobre a reclusão, a solidão e a rotina, afastado e amargurado, consciente do que tava acontecendo e das consequências.

então o cowboy abruptamente envelheceu
(desde menino trazia os olhos de um cão chutado pelo destino)
nem mais com as crianças da rua ele brincava (como costumava)
e nas raras vezes em que surgiu (arqueado e tropeçando)
a mão vazia desenhava saques lentos para um alvo que não existia
monologando só passagens da sua infância
(¿saberia que por ser quem era sairia
miseravelmente derrotado pelas vitórias que fizera?)

assim rapidamente ele morreu
levando na garganta mugidos estrangulados
vermelhos e largos vergões na alma trincada
sinais de tiros e marcas de punhais no frágil corpo atormentado

morreu ele rapidamente assim
pedindo ao deus misericordioso jamais nascesse de novo
tão sozinho e abandonado que até a sua sombra não lhe acompanhava

sim
ele passou por aqui
(aldeia dos canibais)
alongando o quanto pode a amargura da permanência
além dos próprios limites suportáveis da existência
e foi embora para nunca mais

mas todas as noites
o seu fantasma alucinado
teima em repassar aí em frente
(naquele veloz corcel invisível)
deixando uma grossa nuvem de poeira e de remorso para nós

§

#2 Meus mortos (em Tatuagens de Nathannaël, 1981)

Ele vendo as coisas se esvanecendo sem poder (ou não querer) fazer nada. Os amigos morrendo, a família também, se isolando cada vez mais, o desinteresse crescente.

indefesos
não suporto olhar meus mortos

suas pupilas dilatadas anoitecendo visitas
para aquela horizontalidade de mãos postas

não suporto olhar meus mortos
indefesos

§

#3 O dia de amanhã (em Ao vencedor, as batalhas, 1987)

minha mãe me ensinou
o dia de amanhã
ninguém sabe
o dia de amanhã

§

#4 Exercício nº 110 (em Ao vencedor, as batalhas, 1987)

O Sossélla tinha uma personalidade fortíssima, muitas vezes incontestável. Quisemos retratar sua trajetória na magistratura e o que ele enfrentou em sua carreira, muitas vezes importunado. Juiz nas décadas de 70, 80 e 90 que usava rabo-de-cavalo e brinco. No fim, foi um alívio sair desse mundo.

inclinou-se para o lago
e perguntou

existe alguém
mais não-eu do que eu?

a voz
grudada no penhasco
(rouca e louca)
respondeu

eu
eu
eu

§

#5 Ninguém volta pra casa (1989)

Outro poema longo. A simbologia da casa, na psicanálise: o próprio eu.

Uma casa escura, antiga, vazia, úmida, talvez não muito agradável de estar. A vida correndo lá fora.

quando adoideço e me rôo
quando me congelo e derreto
é a minha casa que vejo se anoiteço

de casa a gente sai mas não volta
porque vai topar com a mãe morta de tanto chorar
de casa a gente sai mas não volta
porque ¿quem aguenta ver o pai velhinho a sangrar?
de casa a gente sai mas não volta
porque a memória de você-menino irá lhe estranhar
de casa a gente sai mas não volta
porque nem a sua sombra poderá com você se encontrar
de casa a gente sai mas não volta
porque a bruxa não desgruda e as casas mudam de lugar
de casa a gente sai mas não volta
porque gastamos nossas asas e findamos por enferrujar
de casa a gente sai mas não volta

sonhei que eu voltava pra casa
de costas
mais morto do que vivo
ainda mais torto e sem juízo
de costas
mas voltava pra minha casa

a mãe morta (eu sei)
cuidará de mim perguntando
se parece comigo aquele que veio
pra embalar minha ausência no colo gasto
pra beijar saudades com seus lábios mortos

ninguém volta (o mesmo) pra casa
mas agora nem comigo mais eu me esbarro

vou desenterrar
a casa meu pai e a mãe
e assim nós três ficaremos
juntos pra sempre outra vez

§

#6 Melhor assim

O ciclo que é tudo (e, de novo, e obviamente, o afastamento dele das coisas).

aqui em longs peak ou no meio do mato
curto integralmente este meu anonimato

* * *

Fernanda Magalhães Ferrari é produtora e diretora na Catatau Filmes, formada em Produção Audiovisual pelo Instituto Federal do Paraná. É fotógrafa e se dedica ao cinema.

Gregório Camilo é roteirista, diretor, montador e poeta. Diretor e produtor da Catatau Filmes. Atualmente mora em Curitiba.

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