tradução

John Wieners (1934-2002), por Rafael Mantovani

wieners

John Wieners, New York, Novembro de 1993. Foto: Allen Ginsberg.

John Wieners (1934 – 2002) foi um poeta estadunidense associado à geração Beat. Nascido numa família de classe média-baixa no Massachusetts, partiu muito jovem para a Costa Oeste e teve uma vida errante por vários anos, participando de comunidades experimentais de poetas, dentre as quais o Black Mountain College.

Seu primeiro livro, The Hotel Wentley Poems — escrito aos 24 anos, supostamente em menos de uma semana, logo após o rompimento com um homem que ele ainda amava — foi publicado em 1958 e recebeu atenção já na época, entre outros motivos, por sua franqueza e antimoralismo no trato com a homossexualidade e o uso de drogas. Nos mais de dez livros que publicou desde então, seus poemas dão corpo a um nomadismo corajoso e melancólico, presenciando a vida noturna de San Francisco com seus artistas boêmios, restaurantes chineses e bares queer, as visões conduzidas pela heroína e outros psicoativos, os amantes masculinos como entidades de força e revelação — tanto em paixões duradouras quanto no prazer clandestino e estigmatizado do cruising em ruas, banheiros e cenários escondidos do habitat urbano. Nesses contextos o amor aparece sobretudo como devoção, transporte para o êxtase e também para o sofrimento extremo, abarcados numa linguagem explicitamente religiosa como explicitamente sexual.

Por seus encontros com a loucura e sua pouca aptidão ou interesse por propósitos práticos (como manter empregos que lhe forneciam renda), Wieners passou grandes partes da vida em penúria financeira e instabilidade mental, sendo internado algumas vezes em instituições psiquiátricas e vivendo com o apoio de amigos.

Conviveu com (e era admirado por) poetas como Robert Creeley, Frank O’Hara e Allen Ginsberg, embora não tenha recebido — nem em vida, nem (ainda) na posteridade — a difusão e reconhecimento que sua obra fascinante merece. O único material um pouco mais extenso (que encontrei) sobre sua vida e seu trabalho é uma reportagem de Pamela Petro publicada em 2000 na Boston College Magazine (clique aqui).

Rafael Mantovani

* * *

Cocaína

Porque eu vi o amor
e o rosto dele é Heart of Hearts do mais seleto,
carne de puro fogo, fundindo-se a partir do centro
onde todo Movimento é um.

E conheci
o desespero de que o Rosto parou de olhar
para mim com a Rosa do mundo
mas sim está encolhido

num paraíso artificial onde entrar é um Inferno.
Se eu soubesse que você está aí
cairia de joelhos e imploraria a Deus
para te entregar de novo nos meus braços.

Mas é estupidez tentar.
Só o que se pode é tomar medidas para diminuir a tristeza,
confundir as sensações para que este Rosto,
o que dói no coração e faz cada re-

começo menos perto da fonte do desejo,
se dissipe da carne que incendeia a noite,
com sonhos e vontade infinita.

Cocaine

For I have seen love
and his face is choice Heart of Hearts,
a flesh of pure fire, fusing from the center
where all Motion is one.

And I have known
despair that the Face has ceased to stare
at me with the Rose of the world
but lies furled

in an artificial paradise it is Hell to get into.
If I knew you were there
I would fall upon my knees and plead to God
to deliver you in my arms once again.

But it is senseless to try.
One can only take means to reduce misery,
confuse the sensations so that this Face,
what aches in the heart and makes each new

start less close to the source of desire,
fade from the flesh that fires the night,
with dreams and infinite longing.

§

 

As Garbos e Dietrichs

Deslizando feito um sonho por Ibiza
cruzando as cidades noturnas do mundo
comprando os sonhos dos homens/e seus corações
para pendurar nos camarins, quantos enfeites
para vestir no jantar, em suntuosas ceias egoístas —

este pecado não se vê à luz de velas, os filhos delas
não ouvem esse grito na noite, curiosas gravidezes
abortos não contam, rostos despedaçados
corações arrancados abandonados no porto
quando seus navios partem.

Estou falando de suicidas lançados à corrente.
De remédios para dormir que acalmam a dor da mente.
De amantes que elas assassinaram, tão condescendentes.
Tudo para continuarem belas e não verem
Os homens que viraram porcos na sua frente.

The Garbos and Dietrichs

Moving like a dream through Ibiza
through midnight cities of the world
buying dreams of men/and their hearts
to hang at dressing tables, how many ornaments
to wear for dinner, or selfish supper parties —

this sin does not show by candlelight, their children
do not hear that cry in the night, odd pregnancies
abortions are not counted, smashed faces
wrenched hearts left behind at harborside
when their ships pull out.

I speak of suicides, men dropped at tide.
I speak of sleeping pills that still our aching mind.
I speak of lovers they murdered because they are so kind.
Anything to stay beautiful and remain blind
To those men they turn into swine.

§

 

Ato nº 2

para Marlene Dietrich

Levei o amor para casa comigo,
nós picamos noite adentro e
afundamos num clarão ardente.

¼ grão de amor
………………………..que tínhamos,
2 homens numa cama de campanha, uma manta
de seda e um pano verde
cobrindo o abajur.
………………………..A música era perfeita.
Chupei ele que nem uma sinfonia
…………..que flutuava e
………………………..ele desceu
a rua comigo e
………………………..me deixou ali.
3 da manhã. Nenhum sinal.

só uma van subindo
a Van Ness Avenue.

Nunca foi assim na Foster’s.

Vou caminhar para casa, subindo
……………os mesmos morros que
………………………..descemos.
Ele nunca vai voltar,
……………não vai ter cavalo
……………amanhã nem beque
………………………..hoje para fumar até o amanhecer.

Ele foi embora e levou
minha morfina
Oh Johnny. Mulheres na
noite gemem o seu nome

Act #2

for Marlene Dietrich

I took love home with me,
we fixed in the night and
sank into a stinging flash.

¼ grain of love
………………………..we had,
2 men on a cot, a silk
cover and a green cloth
over the lamp.
………………………..The music was just right.
I blew him like a symphony,
……………it floated and
………………………..he took me
down the street and
………………………..left me here.
3 AM. No sign.

only a moving van
up Van Ness Avenue.

Foster’s was never like this.

I’ll walk home, up the
……………same hills we
………………………..came down.
He’ll never come back,
……………there’ll be no horse
……………tomorrow nor pot
………………………..tonight to smoke till dawn.

He’s gone and taken
my morphine with him
Oh Johnny. Women in
the night moan yr. name

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poesia, tradução

John Mateer, por Gisele Wolkoff

Foto por Daniel Terkl.

Publicada na África do Sul, Sumatra, Japão, Macau, Portugal e Austrália, a obra de John Mateer inclui ensaios, poemas, uma prosa de viagem na Indonésia e uma novela que se passa nas Ilhas Cocos (Keeling), um atol no Oceano Índico. Seus poemas foram traduzidos em várias línguas europeias e asiáticas, bem como ao farsi e ao armênio. Seus livros de poemas incluem: Ex-white/Einmal weiss: South African PoemsThe West: Australian Poems 1989-2009Emptiness: Asian Poems 1998–2012; Southern Barbarians; e Unbelievers, or ‘The Moor’. Os últimos dois receberam edições portuguesas. Sobre os seus poemas sul-africanos, o romancista J.M. Coetzee escreveu que eles “retornam a onda do esquecimento, dando-nos um relance atrás do outro de uma pátria múltipla e amada”. João, seu último livro, é uma série de sonetos sobre o viajante fictício homônimo e foi publicado na Austrália e na Inglaterra. Recentemente, Mateer veio ao Brasil numa viagem e fez leituras e palestras em várias cidades.

Gisele Wolkoff é autora de Partidas (2012), Rumo ao Sol (2014), Ar (2016), publicados pela Palimage em Portugal, organizou e traduziu Poem-ando além fronteiras: dez poetas contemporâneas irlandesas e portuguesas//Poem-ing Beyond Borders: ten contemporary Irish and Portuguese women poets. (Palimage, Coimbra: 2011) e Plurivozes Americanas/American Plural Voices/Plurivoces Americanas (CRV: Curitiba, 2015). É professora do Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal Fluminense em Volta Redonda, de onde coordena a pesquisa Cultura e Artes no sul-Fluminense: memória & história, com apoio da FAPERJ. 

* * *

ETHEKWENI

The Poet

The poet, a New South African, holds his fist out to me.
I extend mine to meet his, our knuckles snug as in a knuckle-duster.
“Welcome home,” he says, swaying his fist back to his chest, his
[heart.
I do likewise, but feebly, and mutter, “This is strange…”

Earlier he’d told of when they’d razed his grandmother’s house

[with her inside.
In the interrogation he’d been asked, “What do you think of your
[comrades now?”
And he had shouted back: “Every revolution has its casualties!”
But when in gaol, alone, he wept for her for the first time.

I look at my hand on the table between us: a pale, grotesque thing.
Why, without reticence, did I press that against his dark fist?

O Poeta

O poeta, um sul-africano, estende-me a mão.
Eu retribuo, as nossas articulações se acomodam como numa
[soqueira.
“Bem vindo ao lar”, ele diz, balançando o punho ao seu peito, ao seu
[coração.
Eu sigo o ritual, ainda que debilmente, e murmuro: “- Isso é estranho…”

Mais cedo ele me contara de quando eles arrasaram com a casa da
[sua avó com ela dentro.
No interrogatório perguntaram-lhe: “- O que você pensa dos seus
[camaradas agora?”
E ele gritara de volta: “- Toda revolução tem os seus acidentes!”
Mas, quando na prisão, sozinho, ele chorou por ela pela primeira
[vez.

Olho para a minha mão entre nós, à mesa: uma coisa grotesca,
[pálida.
Por que, sem reticência, pressionei-a contra o seu punho escuro?

§

The Prostitute

The woman is sitting in the doorway half in the sun.
Her face is hidden. She’s talking to someone out of sight.
Her legs crossed like fat fingers.
Even from here I can see her shins are bruised
and the white high-heels scuffed and dirty.
Though she beckons passers-by they hardly glance at her.

Then she stands up, steps into the humid street.
Her eyes clench against the bright.
Under her black vest her limp, shrunken breasts.
She spots me in the bar across the street and beckons,
insistently beckons me like a long forgotten friend.

A Prostituta

A mulher está sentada na soleira da porta, parcialmente iluminada
[pelo sol.
Seu rosto está escondido. Ela conversa com alguém que não se vê.
As suas pernas, cruzadas, como dedos gordos.
Mesmo daqui consigo ver as suas canelas machucadas
e os saltos-altos gastos e sujos.
Ainda que ela acene a transeuntes, eles mal a olham.

Eis que ela se levanta, sai à rua úmida
Os seus olhos cerram-se mediante a luminosidade.
Debaixo de suas vestes prestas, seus peitos encolhidos, flácidos.
Ela me descobre no bar do outro lado da rua e acena,
Acena-me insistentemente como um amigo há muito esquecido.

§

The Tourist

They have their hands in his pockets and around his neck.
They’ve pinned him against the wall.
In the public toilets there are no surveillance cameras.

The tourist just off the plane has no witness to his struggle,
no one but himself to testify to his calm,
how he is telling himself, I could have been one of them,
disappointed with the Revolution…

The wall persists, abrasive, against his cheek
as he’s being bitten on the shoulder in this land of AIDS.

O Turista

As mãos deles, em seus bolsos e ao redor do seu pescoço.
Seguraram-no contra a parede.
Não há câmeras de seguranças nos banheiros públicos.

E aterrissado, o turista não tem testemunhas de sua luta,
ninguém que ateste a sua calma,
ou de como ele diz a si mesmo: “- eu poderia ter sido um deles,
frustrado com a Revolução…”

A parede persiste, abrasiva, contra a sua face
como se ele estivesse sendo mordido no ombro nesta terra de AIDS.

§

The Worshippers

They’re up from the beach, are dancing at the bus-stop.

They’re dancing, circling to the throb of the cow-hide drum.
The drummer, head low, holds the leather heart under his arm,
pummels with a quick pulse that is pure praise.
The women sway and clap fast, absorbed as Rastas on an

[Ethiopian mountain.
On one woman’s back, snugly bound with a blanket, an infant,
eyes wide, cheeks jiggling, is memorizing all this.

Of their words all I hear is the prophet’s name: Shembe Shembe
[Shembe.

Behind them, on the beach where they have been since the night,
[other gatherings
of Zionists, some standing, some kneeling, clasp their hands in

[prayer,
their candles now low in the sand, their bottles of holy water pale
[with the breaking day.
Waist-deep in the grey swell a man is baptizing a calm, white-

[robed child
while two surfers, skirting carefully around them, enter the waves,
[slip away
from that tourist who photographs this scene with the hotels as
[backdrop.
Up here at the road the worshippers are dancing and singing as if
[they could forever.


Os Adoradores

Eles voltam da praia, dançando no ponto de ônibus.

Dançando, fazendo pulsar o ritmo do tambor burilante.
O baterista, cabisbaixo, carrega o coração de couro debaixo do
[braço,
chacoalha com uma rápida batida e que é puro louvor.
As mulheres se movimentam e aplaudem rápidas, absortas, feito os
[Rastas nas montanhas etíopes.
No dorso de uma delas, embrulhada confortavelmente num
[cobertor, uma criança
de olhos arregalados, bochechas sacolejantes decora tudo isso.

Tudo o que ouço das suas palavras é o nome do profeta: Shembe,
[Shembe, Shembe.

Para trás, na praia onde estiveram desde a noite, outros
[agrupamentos
de Sionistas, alguns, em pé, outros, ajoelhados batem palmas em
[oração.
As suas velas agora fracas na areia, as suas garrafas de água benta
[lívidas com o raiar do dia.
Um homem, imerso até a cintura nas águas turvas, batiza uma
[criança vestida de branco, calma
enquanto dois surfistas margeando cuidadosamente o entorno,
[entram nas ondas, desaparecem
daquele turista que fotografa essa cena com os hotéis de pano de
[fundo.
Aqui na rua, os adoradores dançam e cantam como se não houvesse [amanhã.

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poesia, tradução

Hopkins, Ronsard, Yeats, por Victor Queiroz

1
Os três poemas a seguir servem de epígrafes ao meu recém-lançado livro de poemas autorais, Uranium 235. Deles, contudo, apenas o “soneto” de Ronsard foi traduzido para compor o volume: o capítulo dedicado a poemas de amor, que ele de certa forma apresenta, parece deslocado no contexto político que vivemos — de retrocesso extremo e de afirmação desse retrocesso como valor… Precisei tecer um comentário autoirônico e assim o escolhi.
Os dois demais poemas: o “soneto 50” de Hopkins, pertencente ao conjunto conhecido como “Sonetos Obscuros”, e o poema “Segunda Vinda”, de Yeats. O primeiro foi traduzido segundo o método da paixão incondicional: de cor, o repetia para mim (pois, por ter trilhado a religião cristã sinceramente por um tempo, compartilho algo da angústia que ele exprime), até que alguns dos versos começaram a surgir em português. Chocou-me, ao fim da organização do capítulo primeiro, o quanto esse soneto o explicava. Inseri-o.
Quanto ao último, ele me cativara há muito e o seu processo de tradução foi mais penoso, de brigar com o texto. A ironia com que as coisas de deus (Javé), do Cristo, são tratadas, e essa promessa, sempre-além, do fim do mundo e a vaga descrição dos seus sinais e do declínio, fez-me querer tê-lo à frente dos meus textos, os quais também trazem certo pessimismo e ironia.
Talvez seja coisa de estreante o querer trazer diante de si, a cada parte de seu livro, um grande autor ou nome a fim de lhe servir de escudo. Mas como se pode ler em cada um deles, mais que brigar contra um leitor indisposto ou um crítico grosseiro, a lida dá-se, como lemos nos textos, com um deus, que não garante 1. a paz interior, ou 2. o amor vencer, frutificar, ou 3. qualquer justiça ou paz exterior. É contra (E)le o escudo.
Victor Queiroz
*

Thou art indeed just, Lord, if I contend
With thee; but, sir, so what I plead is just.
Why do sinners’ ways prosper? and why must
Disappointment all I endeavour end?

Wert thou my enemy, O thou my friend,
How wouldst thou worse, I wonder, than thou dost
Defeat, thwart me? Oh, the sots and thralls of lust
Do in spare hours more thrive than I that spend,

Sir, life upon thy cause. See, banks and brakes
Now, leavèd how thick! lacèd they are again
With fretty chervil, look, and fresh wind shakes

Them; birds build – but not I build; no, but strain,
Time’s eunuch, and not breed one work that wakes.
Mine, O thou lord of life, send my roots rain.

– Gerard Manley Hopkins

Sois sempre o Justo, ó meu Senhor, se houver contenda
de mim conVosco. Deus, dizei-me então por que
prospera o ímpio e aonde eu ando não se vê
nada além despontar meu desapontamento?

Fosses imigo, ó Vós, o meu amigo, eu penso,
como faríeis mais frustrar-me ou mais perder-
me, se os capachos da Luxúria têm poder
de, em ócio, ir mais além de mim, eu, quem empenha,

Deus, vida em Vossa Obra? O arbusto, o bosque, jaz-
em verde viço, vede-os! c’roas de matizes
revêm-lhes, e eis o vento ameno move-os, traz

frescor; a ave se aninha, ainda eu não me aninhe:
castrou-me o Tempo, e não emprenho obra eficaz.
Ó Vós, Vida da vida, regai-me as raízes.

§

Au milieu de la guerre, en un siecle sans foy,
Entre mille procez, est-ce pas grand folie
D’escrire de l’Amour ? De manotes on lie
Des fols, qui ne sont pas si furieux que moy.

Grison et maladif r’entrer dessous la loy
D’Amour, ô quelle erreur ! Dieux, mercy je vous crie.
Tu ne m’es plus Amour, tu m’es une Furie,
Qui me rends fol, enfant, et sans yeux comme toy :

Voir perdre mon pays, proye des adversaires,
Voir en noz estendars les fleurs de liz contraires,
Voir une Thebaïde, et faire l’amoureux.

Je m’en vais au Palais : adieu vieilles Sorcieres.
Muses, je prens mon sac, je seray plus heureux
En gaignant mes procez, qu’en suivant voz rivieres.

– Pierre de Ronsard

Num século sem fé, em meio a guerras,
réu de processos mil, será loucura
escrever sobre o Amor? Por menos curam
de outros loucos algemar, menos feras.

Velho e doente adentrar o Amor, não erra
quem o faça? Deus, esta lei, conjuro-a.
Não mais Amor, tu és-me a vera Fúria:
faz-me fulo e infante e cego como ela.

Ver perder-se o país, entre adversários
e estandartes flor-de-lis contrários;
frente à Tebaida, bancar o amoroso.

Vou-me ao Palácio: adeus, magia antiga.
Ó Musa, eu faço as malas, mais gozoso
é vencer meus processos, que o segui-la.
§

The Second Coming

Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.

Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep

Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?

– William Butler Yeats

The Second Coming

Gira-girando, e a gira a agigantar-se,
o falcão não pode ouvir o falcoeiro;
coisas desintegram-se; o centro cede;
mera anarquia é liberta contra o mundo,
a maré-sangue é liberta, e, em toda parte,
a cerimônia da inocência afoga-se;
os melhores, inconvictos, enquanto
os piores — intensos, passionais.

Decerto a Revelação bate à porta;
decerto a Segunda Vinda bate à porta.
Segunda Vinda! As palavras mal saem,
vem-me a imagem vasta do Spiritus Mundi
perturbar-me as vistas: no vago areal,
um vulto — corpo-leão/tez humana,
olhos-vácuo, impiedosos como o sol —
move as coxas lentas, e, em torno, sombras-
satélite, aves do deserto indignadas.
De novo, trevas; porém agora eu sei
que vinte séc’los de sono de pedra em
berço de balanço infligem pesadelos.
E qual besta rude, arribada a hora enfim,
rasteja até Belém para nascer?

§

Victor Queiroz (Campinas/ SP, 1991), formado em Composição pela UNESP, onde travou contato com a teoria e prática da tradução-arte, por meio do professor e amigo Omar Khouri. Desde então, dedica-se, enquanto poeta, sobretudo à prática da tradução, contribuindo com a Ponto Virgulina. Entre os seus principais interesses poéticos, encontram-se os Modernismos, dentro e fora do Brasil, e as poesias francesas clássica e pré-Simbolista; e ainda o Concretismo em toda a sua extensão: da poesia visual aos tratados teórico-críticos e (belíssimas) traduções desenvolvidas pelos Noigandres. Lançou este ano Uranium 235, pela editora Urutau e já apareceu aqui na escamandro com 1 poema.


*

 

Padrão
poesia, tradução

Três mulheres, de Sylvia Plath, por Rafael Zacca

Louise Bourgeois, “The Feeding Frenzy”. 

SOBRE A TRADUÇÃO

Sylvia Plath (1932-1963) compôs Três mulheres como um livro-poema radiofônico. Nesse sentido, não foi escrito para ser lido individualmente, em silêncio, mas para ser falado. Inclui, em sua própria forma, um desejo comunitário.

Trata-se, de fato, de uma comunidade de incomuns. As três Vozes do poema são de mulheres que tomaram rumos distintos com relação a uma situação de possível maternidade.

(Sobre a questão da maternidade tanto em Três mulheres quanto em outros poemas de Plath, conferir o artigo de Marina Della Valle que acompanha a tradução da mesma autora em “‘Três mulheres’: Sylvia Plath e a maternidade”, nos Cadernos de Literatura em Tradução n. 8 da USP.)

O poema, encomendado pela BBC, é transmitido pela primeira vez em 1962, no mesmo ano em que nasce o segundo filho da poeta e de sua separação de Ted Hughes.

Muitos viram nos temas que surgem no poema para três Vozes questões centrais na obra posterior de Plath.

Outra chave de leitura possível seria considerar Três mulheres ao lado de outros poemas que tematizam o universo do hospital, como “Acordando no inverno”, “Tulipas” e “Febre 40 graus”, relativamente contemporâneos ao poema radiofônico.

Essa leitura permitiria, talvez, conjugar os pares solidão / comunidade e corpo / incomum com a lei das metáforas em Plath, em sua relação com os pares natureza / cultura. Mas, sobretudo, permitira ver na sua forma de metaforização um duelo entre um corpo que vai morrer e um corpo que insiste em viver.

Sobre a tradução de Três mulheres: o poema de Plath possui poucas versões em língua portuguesa. Em todas elas, um problema central se coloca: como traduzir o uso que Plath faz da palavra “flat” mantendo: a sua conotação simbólica de oposição entre vazio e cheio; a sua sonoridade gerativa (nas semelhanças sonoras produzidas pela palavra em versos como: “Blunt and flat enough to feel no lack. I feel a lack”); e a sua brevidade fonética.

Ana Gabriela Macedo, que traduziu o livro para o português de Portugal pela editora Relógio D’Água, opta pela variação do termo. Às vezes o traduz por “vazio”, às vezes por “raso”, por exemplo, para manter uma polissemia lida pela autora como contradição entre esterilidade e vazio masculino e fertilidade feminina. Já Marina Della Valle alerta que a escolha de um único vocábulo para substituir “flat” também não se apresenta como solução possível sem que algo de muito valioso se perca. Procurou, não obstante, manter suas escolhas vocabulares próximas ao termo “reto”, escolha fundamentada nas leituras que a autora fez dos estudos de Kroll e Folson.

Não consegui localizar uma tradução de Marcia Cavendish Wanderley, que aparentemente está concluída, mas uma versão preliminar pode ser lida no blog “Convite a palavra”, na publicação de 25 de dezembro de 2008, com o título de “TRÊS MULHERES de Sylvia Plath”. Também há variação do termo.

Optei aqui pela insistência no termo “raso” como tradução para “flat”. Isso fez com que eu tivesse de transformar também a tradução de vocábulos vizinhos, que produziam relações sonoras com “flat”, em outras palavras. Também transformei alguns vocábulos derivados de “flat” em outros semelhantes a raso, mas de significado completamente diferente. Em alguns casos, a operação beira a arbitrariedade.

No entanto, como contraprova, quero advertir que procurei no universo simbólico do poema (como no duelo entre natureza e cultura, bem como na ambivalência do caráter gentil e do violento alternado entre as Vozes) a resposta para o gesto transcriativo. Como no caso de “flat, flatness”, em que optei pelo par “raso, restinga”. Antes de receber as duras críticas de quem lê esta tradução, quero chamar a atenção para o contraste que a segunda Voz faz com a primeira, por exemplo, quando se refere a valores em jogo no mundo natural e no mundo social.

Não quero com isso propor que a dimensão sonora é a mais determinante na forma do poema – mas decidi privilegiá-la para fornecer uma tradução de caráter por assim dizer mais radiofônico.

Não ignorei, tampouco, a dimensão gráfica. Não me parece gratuito, por exemplo, que na descrição de uma cena de enfermaria, Plath faça um verso comparando aquelas mulheres a montanhas, de acordo com o seu desenho debaixo dos lençóis, fazendo uso de letras que escritas remetem ao desenho de subidas e descidas, “m” e w” (“I am a mountain now, among mountainy women” – para manter a isomorfia, optei pela tradução “Sou uma montanha neste momento, misturada a mulheres montanhosas”).

Seria bom poder ouvir o poema no rádio, de toda forma.

Também porque o que se anuncia nessa tradução é uma proposição: o som em Três mulheres (como nos poemas “hospitalares” de Plath) é uma máquina de produção de semelhanças, a partir de uma comunidade incomum não apenas entre personagens, mas entre as esferas da linguagem verbal e da produção de sentido do mundo por corpos que se confrontam muito diretamente com as questões fundamentais de vida e de morte.

Rafael Zacca

Aqui o link para o texto em inglês

* * *

Três Mulheres
Um Poema para Três Vozes
Cenário: Enfermaria da Maternidade e entorno

PRIMEIRA VOZ:
Sou lenta como o planeta. Sou muito paciente,
contornam meu tempo adentro sol e estrelas
observando com atenção.
A lua se interessa mais de perto:
vai e vem, luminosa como uma enfermeira.
Sente muito pelo que está prestes a acontecer? Acho que não.
Só está atônita com a fertilidade.

Quando saio pra caminhar, sou um grande evento.
Não preciso pensar, nem me preparar.
O que acontecer comigo acontecerá sem alarme.
O faisão espera na colina;
ele ajeita suas penas marrons.
Não posso evitar sorrir pelo que sei.
Folhas e pétalas cuidam de mim. Estou pronta.

SEGUNDA VOZ:
A primeira vez que a vi, a infiltração vermelha, não acreditei.
Vi os homens chegando perto de mim no escritório. Eram tão rasos!
Tinham qualquer coisa de cartolina, e aí eu pesquei,
tão rasos, tão rasos, restinga de onde ideias, destruições,
escavadeiras, guilhotinas, câmaras brancas de guinchos
[procedem
sem fim, procedem – e os anjos gelados, as abstrações.
Sentei na minha mesa com minha meia-calça, meu salto alto,

e o homem pra quem trabalho riu: “Viu algum fantasma?
Está tão branca assim de repente.” E eu não disse nada.
Eu vi a morte entre as árvores nuas, uma privação.
Não podia acreditar. Será tão difícil
para o espírito conceber um rosto, uma boca?
As letras procedem destas teclas pretas, e estas teclas pretas procedem
de meus dedos alfabéticos, ordenando as partes,

partes, pedaços, escarvas, as multiluminosas.
Estou morrendo enquanto estou sentada. Perco a dimensão.
Trens berram nas minhas orelhas, partidas, partidas!
Os trilhos de prata do tempo esvaziam-se na distância,
o céu branco esvazia-se de sua promessa, como uma taça.
Estes são meus pés, estes ecos mecânicos.
Péc, péc, péc, pinos de aço. Encontro-me depenada.

É uma doença o que carrego pra casa, uma morte.
De novo, isto é uma morte. Estão no ar,
as partículas de destruição que eu chupo? Serei um pulso
que diminui e diminui, encarando o anjo gelado?
É este o meu amante, então? Esta morte, esta morte?
Quando criança eu adorava um nome devorado pelo líquen.
É esse o meu pecado, então, esse velho amor morto de morte?

TERCEIRA VOZ:
Eu me lembro do minuto em que tive certeza.
Os salgueiros esfriavam,
O rosto na poça era bonito, mas não meu –
tinha um aspecto consequente, como tudo o mais,
E tudo o que eu podia ver eram perigos: pombas e palavras,
estrelas e chuvas de ouro – fecundações, fecundações!
Eu me lembro de uma asa gelada branca

e do grande cisne, com seu olhar terrível,
vindo a mim, como um castelo, do topo do rio.
Tem uma cobra nos cisnes.
Ele deslizou suspenso; seu olho tinha uma intenção sombria.
Nele vi o mundo – pequeno, mau e sombrio,
cada palavrinha enganchada em cada palavrinha, de ato em ato.
Um dia azul quente desabrochara em alguma coisa.

Eu não estava pronta. As nuvens brancas crescendo
em volta me arrastaram em quatro direções.
Eu não estava pronta.
Não fazia reverências.
Eu pensei que podia negar a consequência –
mas era tarde demais pra isso. Era tarde demais, e o rosto
começou a tomar forma com amor, como se eu estivesse pronta.

SEGUNDA VOZ:
É um mundo de neve agora. Não estou em casa.
Como são brancos estes lençóis. Os rostos não têm traços.
São lisos e impossíveis, como os rostos de minhas crianças,
Pequenos enfermos que se esquivam de meus braços.
Outras crianças não me tocam: são terríveis.
Elas têm muitas cores, muita vida. Não estão assim,
Quietas, como o vazio terrível que carrego.

Tive minhas chances. Eu tentei e tentei.
Eu costurei a vida em mim como um órgão raro,
e andei com cuidado, precariamente, como alguma coisa rara.
Eu tentei não pensar tanto. Tentei ser natural.
Eu tentei ser cega no amor, como as outras mulheres,
cega na cama, com meu cego querido,
evitando procurar, pela densa treva, outro rosto.

Eu não olhei. Mesmo assim o rosto estava lá,
o rosto do abortado que amava suas perfeições,
o rosto do morto que só podia ser perfeito
em sua calma inata, só podia manter-se santo assim.
E tinham outros rostos também. Os rostos de nações,
governos, parlamentos, sociedades,
os rostos sem cara de homens importantes.

São esses homens que me perturbam:
Tão ciumentos de qualquer coisa que não seja rasa! Deuses
[ciumentos
que fariam do mundo todo tábula rasa, por também o serem.
Vejo o Pai conversando com o Filho.
O arrasado não pode ser sagrado.
“Vamos criar um paraíso”, eles dizem.
“Vamos arrasar e lavar o rústico das almas.”

PRIMEIRA VOZ:
Estou calma. Estou calma. A calmaria precede alguma coisa
[medonha:
o minuto amarelo antes do vento que passa, quando as folhas
exibem suas mãos, sua palidez. É tão quieto aqui.
Os lençóis, os rostos, são brancos e parados, como relógios.
Vozes se distanciam e se achatam. Seus hieróglifos visíveis
achatam-se em painéis de pergaminho que desviam o vento.
E pintam seus segredos em Árabe, em Chinês!

Sou muda e marrom. Sou uma semente que irá se arrebentar.
A marronidade é meu eu morto, e se cansa:
não quer ser mais, ou diferente.
O crepúsculo me cobre de azul agora, como Maria.
Ai, cor da distância e do esquecimento! –
quando será, aquele segundo em que o tempo arrebenta
e a eternidade o engole, me afogando totalmente?

Eu converso comigo, só comigo, me afasto –
higienizada e sinistra com desinfetantes, sacrificial.
A espera deita pesada em minhas pálpebras. Deita como o sono,
feito um grande mar. Longe, longe, logo a primeira onda acumula
sua carga de agonia sobre mim, inescapável, mareal.
E eu, uma concha, ecoando nessa praia branca
enfrento as vozes da opressão, esse terrível elemento.

TERCEIRA VOZ:
Sou uma montanha neste momento, misturada a mulheres
[montanhosas.
Os médicos se movem entre nós como se nossa grandeza
apavorasse suas ideias. E sorriem como imbecis.
São os culpados pelo que sou, e sabem disso.
Exibem o que neles é raso como uma espécie de saúde.
E se eles então se surpreendessem, como eu?
Ficariam loucos com isso.

E se duas vidas vazassem por entre minhas coxas?
Eu vi a câmara asséptica e branca com seus instrumentos.
É um lugar de guinchos. Não é feliz.
“É pra cá que você vai vir quando estiver pronta.”
As luzes noturnas são luas rasas vermelhas. Estão embotadas com
[sangue.
Eu não estou pronta para coisa alguma.
Eu devia ter matado isso que me mata.

PRIMEIRA VOZ:
Não há milagre mais cruel que este.
Sou arrastada por cavalos, cascos de ferro.
Resisto. Sobrevivo. Cumpro meu trabalho.
Túnel escuro, através do qual acontecem provações,
as provações, as manifestações, os rostos assustados.
Sou o centro de uma atrocidade.
Que sofrimentos, que tristezas terei de parir e cuidar?

Pode tal inocência matar e matar? Minha vida a amamenta.
As árvores embranquecem nas ruas. A chuva é corrosiva.
Provo um pouco, e os horrores praticáveis,
os horrores sedentários e ociosos, as parteiras diminuídas
com seus corações tique e taque, com suas bolsas e instrumentos.
Hei de ser parede e telhado, protegendo.
Hei de ser céu e colina de bondade: Ai, deixe-me estar!

Um poder cresce em mim, uma tenacidade antiga.
Estou arrebentando como o mundo. Há esta escuridão,
esta escuridão intensa. Cruzo as mãos sobre uma montanha.
O ar é denso. É denso com este trabalho.
Sou usada. Sou usada à força.
Meus olhos são comprimidos pela escuridão.
Não vejo nada.

SEGUNDA VOZ:
Acusam-me. Sonho com massacres.
Sou um jardim de agonias pretas e vermelhas, que bebo,
odiando-me, odiando e temendo. E agora o mundo concebe
seu fim e vai em sua direção, braços embalando o amor.
É um amor de morte que a tudo adoece.
Um sol morto mancha o jornal. É vermelho.
Perco vida atrás de vida. A terra sombria as engole.

Ela é o nosso vampiro. Ela nos mantém
e engorda, é gentil. Sua boca é vermelha.
Eu a conheço. Conheço intimamente –
velha cara-de-inverno, velha estéril, velha bomba relógio.
Homens a enganaram. Ela há de comê-los.
Comê-los, comê-los, comê-los a todos no final.
O sol se pôs. Morro. Simulo uma morte.

PRIMEIRA VOZ:
Quem é ele, esse garoto azul e furioso,
bizarro e brilhante, como se arremessado de uma estrela?
Parece tão zangado!
Voou para o quarto, um berro no tornozelo.
O azul empalidece. Ele é humano, enfim.
Um lótus vermelho se abre em vasilha de sangue;
costuram-me com seda, como se eu fosse um tecido.

O que meus dedos faziam antes de segurá-lo?
O que meu coração fazia, com seu amor?
Eu nunca vi uma coisa tão nítida.
Suas pálpebras feito flores fúcsias
e suave feito mariposa, seu fôlego.
Não o abandonarei.
Não há nele malícia ou urdidura. Que assim permaneça.

SEGUNDA VOZ:
Lá está a lua, na janela alta. Foi-se.
Como o inverno enche minha alma! E essa luz calcária
deitando escamas nas janelas, janelas de escritórios vazios,
salas de aula vazias, igrejas vazias. Ai, quanto vazio!
E essa interrupção. Essa terrível interrupção de tudo.
Esses corpos amontoados me rodeando agora, estes chinelos de neve–
que raio azul e lunar congela seus sonhos?

Sinto seu penetrar gelado, alienígena, como um instrumento.
E do outro lado essa face dura, louca, com sua boca em O
escancarada em seu luto perpétuo.
Ela arrasta o mar de sanguessombra ao redor
mês após mês, com suas vozes de fracasso.
Estou tão desamparada quanto o mar no final do cordão.
Estou insone. Insone e inútil. Também eu gero corpos.

Devo ir-me para o norte. Devo ir-me dentro da longa treva.
Vejo-me feito sombra, nem homem nem mulher,
nem uma mulher feliz por ser um homem, nem um homem
bruto e raso o suficiente para não sentir a falta. Sinto uma falta.
Sustenho meus dedos, dez piquetes brancos.
Vê, a escuridão se infiltra pelas rachaduras.
Não posso contê-la. Não posso conter minha vida.

Serei uma heroína do periférico.
Não serei acusada pelos botões caídos,
buracos na meia-calça, caras mudas e brancas
de cartas não respondidas, confinadas nas gavetas.
Eu não serei acusada. Eu não serei acusada.
O relógio não dará pela minha falta, nem essas estrelas
que rebitam um abismo depois do outro.

TERCEIRA VOZ:
Eu a vejo enquanto durmo, rubra, terrível garota.
Ela chora através do vidro que nos separa.
Ela chora, e ela é furiosa.
Seu choro é um gancho que agarra e arranha feito um gato.
É com esse gancho que ela escala até minha vista.
Ela chora no escuro, ou nas estrelas
que distantes de nós brilham e retorcem.

Acho que sua cabeça é esculpida em madeira,
em rubra e dura madeira, olhos fechados e boca escancarada.
A boca aberta emite gritos agudos
furando meu sono como flechas,
furando meu sono, perfurando até o meu lado.
Minha filha não tem dentes. Sua boca é larga.
E emite sons tão trevosos que não pode ser boa.

PRIMEIRA VOZ:
O que é que a nós nos arremessa essas almas inocentes?
Olha, estão tão exaustos, estão arrasados
em seus berços de lona, nomes amarrados a seus punhos,
os pequenos troféus de prata pelos quais vieram de tão longe.
Alguns têm os cabelos pretos e densos, outros são carecas.
Suas peles são rosas ou pálidas, pardas ou vermelhas;
e começam a lembrar de suas diferenças.

Acho que são feitos de água; não têm expressão.
Seu aspecto é de sono, como luz na água calma.
São verdadeiros monges e freiras com suas vestes idênticas.
Vejo-os chovendo como estrelas sobre a Terra –
na Índia, na África, na América, esses pequenos milagres,
essas miúdas e nítidas imagens. Cheiram a leite.
A sola de seus pés está intocada. São caminhantes do ar.

Pode o nada ser tão prodigioso?
Este é meu filho.
Seus olhos abertos são um azul raso e genérico.
Ele se vira para mim feito uma miúda, muda e mansa planta.
Um berro. Ele é o gancho ao qual me agarro.
E eu, um rio de leite.
Sou uma colina quente.

SEGUNDA VOZ:
Não sou feia. Sou até bonita.
O espelho devolve uma mulher sem deformidades.
As enfermeiras devolvem minhas roupas, e uma identidade.
É normal, elas dizem, que coisas assim aconteçam.
É normal na minha vida, e na vida de outras.
Eu sou uma em cinco, qualquer coisa do tipo. Não estou perdida.
Eu sou bonita como estatística. Aqui o meu batom.

Desenho na boca velha.
A boca vermelha que entreguei com minha identidade
um, dois, três dias atrás. Era uma sexta-feira.
E eu nem preciso de um feriado; posso ir ao trabalho hoje.
Posso amar meu marido, ele irá compreender.
E me amar através do borrão de minha deformidade
como eu tivesse perdido um olho, uma perna, uma língua.

Levanto-me, então, um pouco cega. E ando
com rodas, não com pernas; servem-me da mesma forma.
E aprendo a falar com os dedos, não com as línguas.
O corpo está cheio de recursos.
O corpo de uma estrela-do-mar pode regenerar os braços
e as salamandras são pródigas em pernas. Que eu também
Seja pródiga naquilo que me falta.

TERCEIRA VOZ:
Ela é uma pequena ilha, adormecida e pacífica,
E eu um navio branco apitando: Adeus, adeus.
O dia está fervendo. É triste demais.
As flores neste quarto são vermelhas e tropicais.
Elas viveram por trás de vidros toda a vida, cuidadas com ternura.
Agora enfrentam o inverno de lençóis brancos, rostos brancos.
Tenho pouquíssimas coisas na mala.

Tenho roupas de uma mulher gorda que eu não conheço.
Tenho pente e escova. Tenho um vazio.
Estou vulnerável de repente.
Sou uma ferida que foge do hospital.
Sou uma ferida que deixam partir.
Deixo minha saúde para trás. Deixo alguém
que iria aderir-se a mim: desfaço seus dedos como bandagens: vou.

SEGUNDA VOZ:
Eu sou eu mesma de novo. Não há caminhos sem saída.
Sangrei e estou branca como cera, não tenho compromissos.
Sou rasa e virginal, isto significa que nada aconteceu,
nada que não possa ser apagado, extirpado e descartado, um novo
[começo.
Estes pequenos ramos não pensam em florescer,
nem estas secas, secas calhas sonham com a chuva.
Esta mulher que me encontra na janela – é pura.
Tão pura que transparente, como um espírito.
Quão timidamente ela superpõe sua pureza
no inferno de laranjas africanas, e porcos presos pelo calcanhar.
Ela adia a realidade.
Sou eu mesma. Sou eu mesma –
provando a amargura entre os dentes.
A maldade diária incalculável.

PRIMEIRA VOZ:
Por quanto tempo posso ser uma parede, bloqueando o vento?
Por quanto tempo posso ser
abrandando o sol com a sombra de minha mão,
interceptando os dardos azuis de uma lua gelada?
As vozes da solidão, as vozes da tristeza
rondam-me inelutavelmente.
Como é que isso pode suavizá-las, essa cançãozinha de ninar?

Por quanto tempo posso ser um muro ao redor de minha verde
[propriedade?
Por quanto tempo podem minhas mãos
serem bandagem para suas feridas, e minhas palavras
pássaros pairando no céu, consolando, consolando?
É uma coisa terrível
esta desproteção: como se meu coração
pusesse uma cara e caminhasse pro mundo.

TERCEIRA VOZ:
Hoje as faculdades estão bêbadas com a primavera.
Minha beca preta é um pequeno funeral:
mostra que estou séria.
Os livros que trago se comprimem do meu lado.
Certa vez tive uma velha ferida, mas está curando.
Sonhei com uma ilha rubra de gritos.
Era um sonho, não significava nada.

PRIMEIRA VOZ:
A alvorada flore o grande ulmeiro fora de casa.
As andorinhas voltaram. Estão gritando como foguetes de papel.
Escuto o som das horas
dilatando e morrendo nas cercanias. Escuto o mugido das vacas.
As cores se recuperam, e o feno
úmido ferve ao sol.
Os narcisos abrem seus rostos brancos no pomar.

Estou tranquila. Estou tranquila.
Estas são as cores vívidas do berçário,
os patos falantes, os cordeiros alegres.
Sou simples de novo. Acredito em milagres.
Eu não acredito nessas crianças terríveis
que perturbam meu sono com olhos brancos e mãos sem dedos.
Não são minhas. Não me pertencem.

Devo meditar sobre a normalidade.
Devo meditar sobre meu filhinho.
Ele não caminha. Não fala uma palavra.
Ainda está enrolado em faixas brancas.
Mas é rosa e perfeito. Ele sorri com tanta frequência.
Enchi esse quarto com rosas no papel de parede,
e pintei corações em tudo.

Não quero que seja excepcional.
É a exceção que interessa o diabo.
É a exceção que escala a colina da tristeza
ou se senta no deserto e machuca o coração de sua mãe.
Eu o quero comum,
para amar-me e por mim ser amado,
para que se case com quem e onde queira.

TERCEIRA VOZ:
Meio-dia quente nos prados. Os botões-de-ouro
abafam e derretem, e os amantes
passam e passam.
São pretos e rasos como sombras.
É tão bonito não ter de apegar-se!
Sou solitária como a grama. O que é esta saudade?
Saberei algum dia, seja lá o que for?

Os cisnes se foram. Mesmo assim o rio
se lembra de como eram brancos.
Tenta encontrá-los nas luzes.
Observa suas formas nas nuvens.
O que é esse pássaro que grita
com tanta tristeza na voz?
Estou mais jovem do que nunca, ele diz. O que é esta saudade?

SEGUNDA VOZ:
Estou em casa sob a luz da lâmpada. As tardes se alongam.
Remendo a barra da seda: meu marido lê.
Como é bonita a luz incidindo sobre tudo.
Tem uma espécie de fumaça no ar primaveral,
uma fumaça que colore de rosa os parques,
as pequenas estátuas, como a ternura acordasse,
a ternura que não se cansa, que cura.

Aguardo e padeço. Creio que estou sendo curada.
Há mais o que fazer. Minhas mãos
podem coser com cuidado este material. Meu marido
pode virar e virar as páginas de um livro.
E assim estamos juntos em casa, por horas.
É só o tempo que pesa sobre nossas mãos.
É só o tempo, e isso não é material.

As ruas podem se tornar papel subitamente, mas eu me recupero
de minha longa queda, e me encontro na cama,
a salvo no colchão, mãos cruzadas, como pressentisse a queda.
Encontro-me novamente. Não sou uma sombra
ainda que haja uma sombra que saia de meus pés. Sou uma esposa.
A cidade aguarda e padece. As graminhas
crescem nas pedras, e estão verdes de vida.

Padrão
poesia, tradução

“Amazônia eu vi”, de José Muchnik

Tradução do espanhol (Argentina) ao português (Brasil) por Ana Cláudia Romano Ribeiro e ao inglês (Irlanda) por Gerry Loose

 José Muchnik nasceu em Buenos Aires e mora em Épinay-sur-Orge, na França. Engenheiro químico, fez seu doutorado se em Antropologia pela École de Hautes Études en Sciences Sociales em Paris e trabalhou no Institut National de la Recherche Agronomique (INRA). Publicou volumes de poemas, como Quince poemas por la pazOcho poemas para perder el tiempo Cien años de libertad y Coca-ColaProposition poétique pour annuler la dette extérieur (bilíngue, espanhol-francês), Arqueología del amorAmazonia he visto (bilíngue, espanhol-francês, publicado pela editora Louma em Montpellier, 1997), Calendario poético 2000, Guía poética de Buenos AiresTierra viva, luces del marCrítica poética de la razón matemática, publicou poemas com relatos, como Sefikill (Serial Financial Killers) Desgarros: exilios, duelos, muros, o relato Josecito de la ferretería e as novelas Chupadero (2005) e Geriatrikón (2007). Apresentou fotografías suas nas seguintes exposições (1990-2007): Le pain des autres, Amazonia he visto, Mamáfrika e Amazonie, rêves et réalités. Seu endereço para correspondência é josemuchnik@gmail.com.

Ana Cláudia Romano Ribeiro é autora da tradução, introdução e notas da Utopia de Thomas More (no prelo) e da viagem imaginária A terra austral conhecida, de Gabriel de Foigny (Editora da Unicamp, 2011). Traduziu coletivamente a peça Le bleu de l’ìle (O azul da ilha), da haitiana Évelyne Trouillot (no prelo). Ilustrou A princesa que conseguiu virar moça comum e As cinco Franciscas, de Deise Abreu Pacheco (inéditos) e coeditou todos os números da revista Morus – Utopia e Renascimento até seu último número. É professora e pesquisadora na graduação e na pós-graduação dos cursos de Letras da Universidade Federal de São Paulo. Agradece a Dedé Pacheco, Pedro Marques, Leonardo Gandolfi, Paloma Vidal e especialmente a Mayra Guanaes e Andreia Menezes pela leitura da tradução destes poemas do José Muchnik.

Gerry Loose morou na Inglaterra, na Irlanda, na Espanha, em Marrocos e, atualmente, na Escócia. Escritor e artista, ele se define como um slow-moving nomad que trabalha principalmente com temas do mundo natural e da geopolítica. Ele também projeta e faz jardins. Foi Poet in Residence nos Jardins Botânicos de Glasgow e Montpellier, onde está o mais antigo jardim botânico. Ele trabalhou para os Hidden Gardens, Glasgow e Port Logan Botanic Gardens. Entre suas publicações recentes estão Printed on WaterNew and Selected Poems (Shearsman Books) e that person himself. Vagabond Voices publicou fault line (2014) e night exposures (2018). Foi agraciado com o Creative Scotland Award, o Robert Louis Stevenson Fellowship, o Kooneen Säätiö Award e o Hermann Kesten Award. 

* * *

He visto

la selva palpitando
como un tambor de sangre

la selva abierta
como un amor inesperado

la selva en grito
como un río enceguecido

un río sin cauce
como caballos de piedra

huyendo espantados
hacia reinos diferentes

He visto

frentes humedecidas
por un sudor muy antiguo

noches alumbrando
verdes melodías

y el espesor de los sueños
en los campos partidos

He visto niños jugando
como juegan los niños

he visto niños sonriendo
como sonríen los niños

he visto niños trabajando
como trabajan los niños

jugando que son grandes
con las vidas en la mano

He visto árboles

árboles abatidos
como abuelos centenaríos

árboles en carne viva
como reyes solitaríos

árboles suplicando
la llegada de otros cielos

He visto la tierra

la tierra en cenizas
derrotada hasta el horizonte

la tierra madre
la tierra novia
la proceadrora del canto
y de los huesos
de las voces
y de los peces

la tierra avergonzada
sin rostro para las flores

He visto loros llorando
la ausencia de su amada

He visto turistas comprando
exóticos plumajes

He visto vacas

una vaca
dos vacas
tres vacas
……………..
autopistas de ganado
desfilando hacia el mercado


Mi reino
por una vaca
una vaca
por siete selvas

una selva
por media hamburguesa
(algunas gotas de ketchup
en homenaje al tomate
algunos gramos de mostaza

en las entrañas del pan)

He visto

un abuelo sabio
susurrando a las plantas
canciones de cuna
para que duerman en paz

He visto campesinos
con sus manos duras
sus palabras suaves

y la esperanza blanca

He visto la mesa de los pobres

el arroz silencioso
honorando el momento

la
farinha repartiendo
su humilde alegría

y familias reunidas
protegiendo la tibieza

He visto la esperanza

una rama brotando
en el recuerdo de las brasas

un mono enamorado
con una flor en la boca

un viejito muy viejo
descifrando las nubes

y un niño luminoso
disipando los humos

He visto

graciosos
açaís
bailando con la luna

belicosos
babaçús
preparando el combate

papagayos proclamando
la república soñada

y un castaño erguido
como un rey sin latitudes
declamando poemas
para que vuelvan las aves

He visto rostros

todos los golpes
todas las huellas
todos los caminos
en rostros desplegados
como signos en vuelo

rostros dulces
como el lenguaje de las palmeras

rostros tiernos
como el pecho del
Xingú

rostros graves
buscando en la niebla
luces de manzana
antes de la serpiente


Todas las raíces
todos los ríos
todas las venas
estallando en rostros
como destinos verticales

constelaciones de rostros
buscando su sentido
buscando sus líneas
en las formas del dolor

constelaciones de miradas
bajo la Cruz del Sur

desde siempre

desde antes
que el fuego sometido

desde antes
que el hacha liberada

desde antes
que el verbo enaltecido

La Cruz del Sur

raíces de la luz
y orígen de un silencio
que aún no escuchamos.

He visto luces

luces difusas
tatuando mensajes
en la espalda del río

luces incendiando el cielo
para que pueda la noche
cumplir sus promesas

atardeceres de luces
en túnicas diferentes

mas el mismo suicidio
el mismo sol que se hunde
el mismo rito circular de la muerte

He visto

luces que quedan en los labios
después del primer beso

luces que suben al tejado
para pedirle un favor a la luna

luces acariciando troncos
para adivinar la edad de las heridas

He visto aguas

aguas de todas las formas
…..
aguas como ríos
llevando hacia el sol
antiguos cargamentos
de ilusiones marinas

aguas como lluvia
…..
cayendo
castigando
purificando
lavando ultrajes cometidos
trayendo historias olvidadas

Lluvias

revelando al suelo
secretos embebidos
en la ira de los astros

¿signos de la caída
hacia fuentes ignoradas
en el centro del futuro?

¿O simplemente aguas?

aguas relatando
vegetales leyendas
que nadie sabe escuchar

aguas como pantanos
como espejos de barro
reflejando cielos mudos

aguas como carbón
erigiendo las formas
del último adiós

He visto aguas

como ríos
como lluvias
como espejos
…..

como mantas frías
que ya no abrigan
la elegancia de los peces

Aguas perdidas
…..
tanteando
preguntando
recordando

Aguas soñando
…..
con un instante de transparencia
en el pensamiento de un lago

con el futuro de las semillas
en un surco de maíz nuevo

o con el hechizo del viento
en los orígenes del amor

He visto manos

manos que saben
dar forma al mundo

saben ser canto
saben ser madre
saben ser cincel
saben ser barro

manos de luz
iluminando vasijas

manos de miel
arrancando espinos

manos estrechando manos
formando los jugos
en el corazón de la caña

He visto

manos de todas las razas
manos de todas las verdades
de Juan Sintierra
de María Pródiga
de Pablo Firmamento

manos atravezando el Brasil
buscando un pañuelo
de tierra para amar


un pañuelo de tierra
para que crezca un árbol
para que crezca un techo
para que crezcan las palabras
que un día nos darán sentido


He visto un punto

un punto en la tierra
para contemplar la propia altura

un punto en la colina
para ser hoja en el río

un punto al pié de un árbol
para saber si mis brazos
son ramas o ilusiones

He visto un punto

un punto en el tiempo
para la concavidad del reposo

un punto en la niñez
para proteger la ternura

un punto en la juventud
para la explosión de las flores

un punto en mi edad
para el espesor de las uvas

un punto resumiendo
la savia madura

un punto
…..
para llorar por todos

por la tierra en cenizas
por las vacas inocentes
por los árboles abatidos
por los pájaros enlutados

He visto
…..
Amazonía
…..
He visto

§

Eu vi
a floresta palpitando

como um tambor de sangue

a floresta aberta
como um amor inesperado

a floresta gritando
como um rio cegado

um rio sem leito
como cavalos de pedra

fugindo espantados
para diferentes reinos

Eu vi

testas umedecidas
por um suor muito antigo

noites iluminando
verdes melodias

e a espessura dos sonhos
nos campos partidos

Vi crianças brincando
como brincam as crianças

vi crianças sorrindo
como sorriem as crianças

vi crianças trabalhando
como trabalham as crianças

brincando que são grandes
com as vidas na mão

Eu vi árvores

árvores abatidas
como avós centenários

árvores em carne viva
como reis solitários

árvores suplicando
a chegada de outros céus

Eu vi a terra

a terra em cinzas
derrotada até o horizonte

a terra mãe
a terra noiva
a procriadora do canto
e dos ossos
das vozes
e dos peixes

a terra envergonhada
sem rosto para as flores

Eu vi louros loucos
com a ausência de sua amada

Vi turistas comprando
exóticas plumagens

Eu vi vacas

uma vaca
duas vacas
três vacas
………………
estradas de gado
desfilando até o mercado


Meu reino
por uma vaca
uma vaca
por sete florestas

uma floresta
por meio hambúrguer
(algumas gotas de ketchup
em homenagem ao tomate
alguns grãos de mostarda
nas entranhas do pão)

Eu vi

um avô sábio
sussurrando às plantas
canções de ninar
para que durmam em paz

Vi camponeses

com suas mãos duras
suas palavras suaves
e a esperança branca

Vi a mesa dos pobres

o arroz silencioso
honrando o momento

a farinha repartindo
sua humilde alegria

e famílias reunidas
protegendo o calor

Eu vi a esperança

um ramo brotando
na recordação das brasas

um mico enamorado
com uma flor na boca

um velhinho muito velho
decifrando as nuvens

e um menino luminoso
afastando as fumaças

Eu vi

graciosos açaís
dançando com a lua

belicosos babaçus
preparando o combate

papagaios proclamando
a república sonhada

e uma castanheira erguida
como um rei sem latitudes
declamando poemas
para que voltem as aves

Eu vi rostos

todos os golpes
todas as pegadas
todos os caminhos
em rostos abertos
como sinais em voo

rostos doces
como a linguagem da palmeira

rostos ternos
como o peito do Xingú

rostos graves
buscando na neblina
luzes de maçã
antes da serpente


Todas as raízes
todos os rios
todas as veias
ardendo em rostos
como destinos verticais

constelações de rostos
buscando seu sentido
buscando suas linhas
nas formas da dor

constelações de olhares
sob o Cruzeiro do Sul

desde sempre

desde antes
do fogo domado

desde antes
do machado liberado

desde antes
do verbo enaltecido

O Cruzeiro do Sul

raízes da luz
e origem de um silêncio
que ainda não escutamos.

Eu vi luzes

luzes difusas
tatuando mensagens
nas costas do rio

luzes incendiando o céu
para que a noite possa
cumprir suas promessas

entardeceres de luzes
em diferentes túnicas

mas o mesmo suicídio
o mesmo sol que se põe
o mesmo rito circular da morte

Eu vi

luzes que ficam nos lábios
depois do primeiro beijo

luzes que sobem no telhado
para pedir um favor à lua

luzes acariciando troncos
para adivinhar a idade das feridas

Eu vi águas

águas de todas as formas
…….
águas como rios
levando ao sol
antigas cargas
de ilusões marinhas

águas como chuva
……
caindo
castigando
purificando
lavando ultrajes cometidos
trazendo histórias esquecidas

Chuvas

revelando ao solo
segredos embebidos
na ira dos astros

sinais da queda
até fontes ignoradas
no centro do futuro?

Ou simplesmente águas?

águas narrando
lendas vegetais
que ninguém sabe escutar

águas como pântanos
como espelhos de barro
refletindo céus mudos

águas como carvão
erigindo as formas
do último adeus

Eu vi águas

como rios
como chuvas
como espelhos
…….

como mantas frias
que já não abrigam
a elegância dos peixes

Águas perdidas
……..
tateando
perguntando
recordando

Águas sonhando
………
com um instante de transparência
no pensamento de um lago

com o futuro das sementes
em uma fileira de milho novo

ou com o feitiço do vento
nas origens do amor

Eu vi mãos

mãos que sabem
dar forma ao mundo

sabem ser canto
sabem ser mãe
sabem ser cinzel
sabem ser barro

mãos de luz
iluminando vasilhas

mãos de mel
arrancando espinhos

mãos apertando mãos
formando os sucos
no coração da cana

Eu vi

mãos de todas as raças
mãos de todas as verdades
de João Semterra
de Maria Pródiga
de Paulo Firmamento

mãos atravessando o Brasil
buscando um lenço
de terra para amar

um lenço de terra
para que cresça uma árvore
para que cresça um teto
para que cresçam as palavras
que um dia nos darão sentido


Eu vi um ponto

um ponto na terra
para contemplar a própria altura

um ponto na colina
pra ser folha no rio

um ponto ao pé de uma árvore
para saber se meus braços

são ramos ou ilusões

Eu vi um ponto

um ponto no tempo
para a concavidade do repouso

um ponto na meninice
para proteger a ternura

um ponto na juventude
para a explosão das flores

um ponto na meia idade
para a espessura das uvas

um ponto resumindo
a seiva madura

um ponto
…..
para chorar por todos

pela terra em cinzas
pelas vacas inocentes
pelas árvores abatidas
pelos pássaros enlutados

Eu vi
…….
Amazônia
……
Eu vi

§

I have seen

the forest throbbing
like a blood drum

the forest opening
like an unexpected love

the forest weeping
like a blinded river

a river with burst banks
like maddened horses

running scared
toward other realms

I have seen

brows moist
with ancient sweat

nights lighting
green melodies

and the depth of dreams
in the ripped fields

I have seen children playing
the way children play

I have seen children smiling
the way children smile

I have seen children working
the way children work

playing like the bigger ones
their lives in their hands

I have seen trees

trees felled
like ancient grandfathers

trees fleshed alive
like lonely kings

trees begging
for other skies to come

I have seen the earth

the earth in ashes
wrecked as far as the horizon

mother earth
our sweetheart
creator of song
and the bones
of voices
and of fish

a shamed earth
with no face for flowers

I have seen parrots crying
the absence of their loves

I have seen tourists buying
exotic feathers

I have seen cows
one cow
two cows
three cows
……………..
highways of cattle
nose to tail towards market


My kingdom
for a cow
one cow
for seven forests

one forest
half a hamburger
(a few dribbles of ketchup
as tribute to the tomato
a few grams of mustard
in the innards of bread)

I have seen

a wise grandfather
whispering lullabies
to age-old plants
for their peaceful sleep

I have seen peasants

their hard hands
their soft words
and their unsullied hopes

I have seen poor people’s tables

the rice silent
honouring the moment

the farinha sharing
her modest joy

families reunited
in protective warmth

I have seen hope

a branch budding
remembering the embers

a loving monkey
a flower in its mouth

an old timer, very old
deciphering clouds

and a shining child
scattering smoke

I have seen

graceful açaís
dancing with the moon

unruly babaçús
preparing to fight

parrots proclaiming
a dream republic

and a chestnut tree proud
as a king with no borders
reciting poems
for the return of birds

I have seen faces

all the bumps
all the trails
all the tracks
in unfolded faces
like fleeting signs

gentle faces
like the speech of palm trees

tender faces
like
Xingú’s breast

solemn faces
searching in the haze
for the light of an apple
before the serpent

All the roots
all the rivers
all the veins
bursting in faces
like lines of destiny

constellations of faces
looking for sense
looking for traces
in the contours of sadness

constellations of gazes
beneath the Southern Cross

forever

since before
the fire was subdued

since before
the axe was freed

since before
the Word was praised

The Southern Cross

root of light
and beginning of a silence
we have yet to hear

I have seen lights

dappled lights
tattooing messages
on the back of the river

lights burning the sky
so the night can
keep its promises

failing lights
in different guises

but the same suicide
the same sinking sun
the same circular rite of death

I have seen

light resting on lips
after the first kiss

light which climbs onto the roof
to ask the moon a favour

lights caressing tree trunks
to discover the age of their wounds

I have seen waters

waters in all forms
…..
waters as rivers
carrying ancient freight
in hopeful fleets
to the sun

waters as rain
…..
falling
punishing
purifying
cleansing violations
bearing forgotten stories

Rains

revealing to the ground
the secrets soaking
in the rage of stars

signs of the fall
toward the ignored springs
at the heart of the future?

or just waters?

waters recounting
plant legends
that nobody knows how to hear

waters as marshlands
like mirrors of mud
reflecting mute skies

waters as coal
making the shapes
of the last farewell

I have seen waters

as rivers
as rainfalls
as mirrors
…..

as the cold cloaks
which no longer warm
the elegance of fish

Lost waters
…..
groping
questioning
remembering

Waters dreaming
…..
of a moment of clarity
in the thought of a lake

of the future of seeds
in a furrow of new corn

or the charms of wind
from the beginnings of love

I have seen hands

hands which know
how to build the world

how to be song
how to be mother
how to be chisel
how to be mud

hands of light
shining on jars

hands of honey
pulling out thorns

hands clasping hands
shaping the juices
in the heart of the cane

I have seen hands

hands of all races
hands of all truths
of Juan Sintierra
of Maria Pródiga
of Pablo Firmamento

hands crossing Brazil
looking for a plot
of earth to love


a pocket of earth
to grow a tree
to raise a roof
to nurture the words
which one day will bring us to our senses

I have seen a point

a point on earth
to consider my own stature

a point on a hill
to be a leaf in the stream

a point at the foot of a tree
to understand if my arms
are branches or dreams

I have seen a point

a point in time
for a hollow of calm

a point in childhood
to protect tenderness

a point in youth
for an explosion of flowers

a point at my age
like a thick skinned grape

that point to summarize
the wise plants’ sap

a point
…..
to weep for everyone

for the earth in ashes
for the innocent cows
for the broken trees
for the mourning birds

I have seen
…..
Amazon
…..
I have seen

Padrão
poesia, tradução

Patti Smith, por Nina Rizzi

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Patti Smith nasceu em Chicago em 1946. É poeta, cantora, fotógrafa, escritora, compositora e musicista, conhecida como “poeta do punk” e “madrinha do punk”. Seu álbum de estreia, Horses (1975), que mistura rock, punk e poesia recitada, é considerado por muitos como o melhor álbum de estréia já lançado por um artista; ele começa com uma cover da música Gloria de Van Morrison e as palavras de abertura recitadas por Smith são umas das mais famosas na história do rock: “Jesus died for somebody’s sins… but not mine” (Jesus morreu pelos pecados de alguém…mas não pelos meus). Com composições feministas e influências poéticas variadas, sobretudo Arthur Rimbaud e William Blake, é uma artista vigorosíssima.

Autora dos volumes de poesia: Babel, Early Work, compilação inúmeros volumes de poemas publicados no início da década de 1970, The Coral Sea, uma extensa elegia a Robert Mapplethorpe e Patti Smith Complete, uma coletânea de suas composições musicais. No Brasil, estão publicados “Só garotos” (2010), “Linha M” (2016), “Devoção” (2019), e “O ano do Macaco” (2019), todos pela Companhia das Letras.

Como a maioria dos artistas do punk, Patti Smith se engajou em diversas lutas políticas, por exemplo: foi contra a invasão chinesa no Tibete, contra a Guerra no Iraque e a favor do impeachment do presidente George W. Bush. E esta semana, publicou em sua conta no instagram uma poema apoiando a mobilização que acontece no Chile e que deseja acabar com injustiças e desigualdades.

Quem conhece a cantora, já vai sentindo a sonoridade peculiar e balançando os pés, as mãos, chamando umas distorções, uma percussão mental – algo próximo, talvez, de People Have the Power escrita por Patti e seu então companheiro Fred “Sonic” Smith e lançada em 1988 como single principal do álbum Dream of Life, cuja fotografia é de Robert Mapplethorpe, assim como a de Horses.

A cantora e poeta estará no Chile para um concerto dia 18 de novembro, após sua passagem pelo Brasil, quem sabe não apresenta uma versão musical para a poema. Caso não, do it yourself! Deixamos três versões escritas pra inspirar: português e espanhol vertidas por mim e em inglês conforme escrito por Patti Smith e publicado em sua rede social 😉

nina rizzi

*

O REINO MAPUCHE 

Este é
o reino da coragem
o reino da convicção
o reino da unidade
Um milhão de pessoas
em Santiago, Chile.
Exigindo igualdade
Exigindo do governo
responsabilidade.
Exigindo um Chile
tão unido quanto eles,
tomando as ruas.
Este é o reino
de cidadãos ativistas,
que estão sendo vistos
e ouvidos pelo mundo.
Mostrando-nos como
O povo tem o poder.

EL REINO MAPUCHE

Este es
el reino del coraje
el reino de la convicción
el reino de la unidad
Un millón de personas
en Santiago, Chile.
Exigiendo igualdad
Exigiendo al gobierno
responsabilidad.
Exigiendo un Chile
tan unido como ellos,
tomándose las calles.
Este es el reino
de los ciudadanos activistas,
que están siendo vistos
y oídos por el mundo.
Mostrándonos como
el pueblo tiene el poder.

This is
the realm of courage
the realm of conviction
the realm of unity.
One million people
in Santiago, Chile.
Calling for Equality.
Calling for government
accountability.
Calling for a Chile
as unfied as they,
taking the streets.
This is the realm
of Citzen Activists,
who are being seen
and heard globally.
Showing us all how
people have the power.

***

Padrão
poesia, tradução

Paula Brecciaroli, por Marcus Groza

Paula Brecciaroli (Buenos Aires, 1976) é coeditora do Editorial Conejos, integrante de La Coop – Frente Editorial Latino Americano y psicóloga. Publicou os romances “Otaku” (Paisanita Editora, 2015) e “Brasil” (Editorial Conejos, 2011). Também é autora de “La sinceridad de un golpe” (Santos Locos, 2018), donde foram retirados esses poemas; “Te traje bichos para que juegues” (Textos Intrusos, 2011); “Pequeño Ensayo Ilustrado” com ilustrações de Pablo Rivas (Bonny Clide Ediciones de Mentira, 2009) e “Vaca Vaca” (edição de autor, 2007). Participou das antologias “9 Antología de cuentos” (Textos Intrusos, 2013); “La mano que mece” – antologia de editores (Ediciones Outsider, 2015), “Pobre Diablo” (Pelos de Punta, 2016). Colaborou para as revistas Lugares, Brando, Maíz, Maten al mensajero, Ensayos e El Planeta Urbano.

Marcus Groza é poeta, dramaturgo, performer e encenador. É autor do livro “Milésima demão nas paredes de estar perdido” (Ed. Urutau – 2019), entre outros.

* * *

Há noites
como a de hoje
que são feitas de estilhaços
da tua imagem
no sofá,
dessa mancha na parede
que teu corpo deixou,
desse rastro
imperceptível
da tua passagem
pelo tempo.
E aqui estou eu
rodeada
desses restos
tentando fazer
que o nada
signifique algo,
agora que não estás.
Agora que a noite
está cheia
de retalhos,
eu sigo buscando
isso
que não tem nada a ver
com tua imagem no sofá,
nem com esta parte
que amputada
recorda sozinha.
Tudo isso,
meu amor,
já me basta.
Com tudo isso
componho
a história
do mundo.
Um rascunho.
Teu gesto cujo
ímpeto pode
fazer que o eixo
do planeta
se curve.

Hay noches
como la de hoy
que están hechas con astillas
de tu imagen
en el sillón,
de esa mancha en la pared
que dejó tu cuerpo,
de ese rastro
imperceptible
de tu paso
por el tiempo.
Y ahí estoy yo
rodeada
de esos restos
intentando hacer
que la nada
signifique algo
ahora que no estás.
Ahora que la noche
está hecha
de esquirlas,
yo sigo buscando
eso
que no tiene nada que ver
con tu imagen en el sillón,
ni con esa parte
que amputada
recuerda sola.
Todo eso,
mi amor
me alcanza.
Con todo eso
yo compongo
la historia
del mundo.
Un rasguño.
Un gesto tuyo
puede hacer
que el eje
del planeta
se curve.

§

Saio ao quintal de noite
e em um apartamento
um cara rima
à contraluz
azul magenta
de um televisor.
Os olhos velhos
do meu cão
não se alteram.
Busco nas palavras dos outros,
nas tuas,
nas dessa poeta russa,
ou eslava, ou polaca?
Onde está a poesia?
Me ponho
a revirar as plantas
à meia-noite,
buscando um feitiço
algo que explique
onde,
em que terra,
brotam
os poemas.
E acho que essas floreiras
vazias
que abandonei
se parecem comigo.
Me esmero
para que não cresçam gramas
nem ervas daninhas.
Nem um broto
que as pragas,
os pulgões
as larvas
sejam capazes de matar.
Melhor a terra seca
Melhor
que não cresça nada.

Salgo al patio de noche
y en un departamento
un pibe rapea
a contraluz
del azul magenta
de un televisor.
Los ojos viejos
de mi perro
no se inmutan.
Busco en las palabras de los otros,
en las tuyas,
en las de esa poeta rusa,
¿o eslava o polaca?
¿Dónde está la poesía?
Me pongo
a hurgar las plantas
a medianoche
buscando un hechizo
algo que explique
dónde,
en qué tierra
brotan
los poemas.
Y creo que esas macetas
vacías
que abandoné
se parecen a mí.
Me esmero
en que no crezca yuyo,
ni cizaña.
Ni un brote
que las plagas,
los pulgones
o las orugas,
sean capaces de matar.
Mejor la tierra reseca
Mejor
que no crezca nada.

§

Sou
esse samurai
que
sentado sobre os calcanhares
desembainha a katana
a coluna ereta
o movimento
estudado.
Esse roçar imperceptível
do metal.
Sou eu
o samurai
que esta noite
quer
espera
sentir o fio
entrando
em seu corpo.
Os três movimentos
finais.
O ar.
O frio.
O cheiro de sangue.

Soy
ese samurai
que
sentado sobre sus talones
desenvaina la
katana
la espalda erguida
el movimiento
aprendido.
Ese roce imperceptible
del metal.
Yo soy
el samurai
que esta noche
quiere
espera
sentir el filo
entrando
en su cuerpo.
Los tres movimientos
finales.
El aire.
El frío.
El olor de la sangre.

§

O ar explode
na traqueia
buscando
onde se expandir.
Não ser palavra.
Não ser voz.
Nem chamado.
Mergulhar
no mais profundo
que aguentem
as membranas
os alvéolos
as artérias.
Ir ao fundo
onde o silêncio
é dono de tudo.

El aire explota
en la tráquea
buscando
dónde expandirse.
No ser palabra.
No ser voz.
Ni llamado.
Sumergirse
en lo más profundo
que aguanten
las membranas
los alvéolos
las arterias.
Ir al fondo
donde el silencio
es dueño de todo.

§

Quero ser
uma parede
açoitada
pelo vento.
A corrosão
do mar
me batendo
na cara
até sentir
a pele fervendo,
os olhos cheios
de água.
Ser musgo
líquen.
E então
pela primeira vez
saber quem sou.

Quiero ser
una pared
azotada
por el viento.
La corrosión
del mar
pegándome
en la cara
hasta sentir
la piel hervida,
los ojos llenos
de agua.
Ser musgo
liquen.
Y recién
entonces
saber quién soy.

Padrão