tradução

Mario Pera, por Nina Rizzi

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Mario Pera, poeta e ensaísta peruano. Formado em Direito pela Universidad de Lima e em Desenho Gráfico pelo IPAD (Peru). Foi coeditor da Editora Magreb. Diretor da Revista Literária Digital Vallejo & Co., e da editora de mesmo nome. Em 2013 obteve o Premio Ilustre Municipalidad de Cuenca no Festival de la Lira (Equador). Publicou os livros de poemas Preparaciones anatómicas (2009), Ruido Blanco (2011, 2015, 2016), Mirando sobre el heno, Muestra de poesía peruana reciente (2014), The Most Natural Thing. New American Poetry (2015, junto a David Keplinger) e Y habrá fuego cayendo a nuestro alrededor (2018); os ensaios Fare l’America or learn to live in it? Italian immigration in Peru (2012) e Comunicaciones marcianas. Revista Amauta, a 90 años de la vanguardia peruana 1926-2016 – Una muestra (na prensa, em conjunto com Roger Santiváñez).

Conheci Mario Pera em 2016, quando traduzia alguns poemas de Guilherme Gontijo Flores para a antologia “Inventar la felicidad” (e-book da Vallejo & Co., do Peru), e então me tornei leitora da revista. A convite do Suplemento Literário de Minas Gerais, traduzi uma leva de seus poemas para a edição setembro/ outubro, 2018; gostei tanto que trouxe outros três, os poemas abaixo, aqui pra escamandro.

nina rizzi

*

Oração do clochard moribundo

Três manchas de merda
revelam meu rosto melhor que qualquer fotografia
ao menos esse sou eu, digo
um adorador egocêntrico
a lepra no cu da minha família
o rosário da minha mãe
que arde debaixo do meu travesseiro

e todas as cruzes
escorregam do meu cangote desorientadas
enquanto ouço cair suas orações num saco vazio
e no meu sonho mais calmo
vejo que Lima arde, minha família arde
este poema entre tuas mãos
arde
meus ossos se empolam
e meu sangue se afina até se transformar
em cordas muito finas que me enforcam.

Sempre fui um péssimo filho
sou agnóstico e me masturbo, mas
meu sangue jamais nutriu
o ideal de outro corpo.

Um abutre velho me observa
e canta um estribilho alegre
onde se ergue a árvore de Judas
eu também sou um traidor, respondo
vendi meu nome e minha voz
e sufoquei eternamente
o pranto da minha mãe.

Pela primeira vez
transpira em frente à Cruz
um homem que já morreu.

 

Oración del clochard moribundo

Tres manchas de mierda
develan mi rostro mejor que cualquier fotografía
al menos ese soy yo, digo
un adorador egocéntrico
la lepra en el culo de mi familia
el rosario de mi madre
que arde bajo mi almohada

y todas las cruces
resbalan de mi cogote desorientadas
mientras oigo caer sus oraciones en saco roto
y en mi sueño más calmo
veo que Lima arde, mi familia arde
este poema entre tus manos
arde
mis huesos se ampollan
y mi sangre adelgaza hasta convertirse
en cuerdas muy delgadas que me ahorcan.

Siempre fui un mal hijo
soy agnóstico y me masturbo, pero
mi sangre jamás nutrió
el ideal de otro cuerpo.

Un buitre viejo me observa
y canta un estribillo alegre
donde se yergue el árbol de Judas
yo también soy un traidor, respondo
vendí mi nombre y mi voz
la enclaustré eternamente
en el llanto de mi madre.

Por primera vez
suda frente a la Cruz
un hombre que ya ha muerto.

§

 

Brecht entre clavelinas

 I
Sentado e com as mãos sujas
pensou que era um velho estúpido
mais uma daquelas placas de mármore da praça
que puderam ser talhadas com melhor arte para conseguir um Davi
uma Vênus
ou outra deusa de seios sutis
e nádegas avultadas
porém em algum momento seu destino sofreu um desvio
sua divindade tropeçou no bico do formão
e com cada estalo sua pele foi esmigalhada
como um totem incapaz de profanar seu próprio culto.
Aquele revés se fez indelével
e com o passar do tempo teve que se conformar em ser
mais um bloco da pracinha ou
o ignorado detalhe
onde cagam os pombos.

II
Sentado
observou o asfixiar do dia no ocaso
e desejou guardar suas dúvidas
na felicidade de outros
no monte de palavras que ano a ano
nomeou como algo importante, quase urgente
o eterno espiral de perguntas
que talhou na memória de sua boca
a matutina barbárie de uma frase:
Você que me deu a palavra
agora só estorva minha língua
toda vez que a invoca.

 

Brecht entre clavellinas

I
Sentado y con las manos sucias

pensó que era un viejo estúpido
una más de aquellas losas de mármol de la plaza
que pudieron ser talladas con mejor arte para lograr un David
una Venus
u otra diosa de senos sutiles
y nalgas abultadas
pero en algún momento su destino sufrió un desvío
su divinidad tropezó en el pico del cincel
y con cada crujido su piel fue burilada
como un tótem incapaz de profanar su propio culto.
Aquel revés se hizo indeleble
y con el paso del tiempo tuvo que conformarse con ser
un bloque más de la plazuela o
el ignorado detalle
donde cagan las palomas.

II
Sentado

observó el asfixiar del día en el ocaso
y deseó guardar sus dudas
en la felicidad de otros
en la ruma de palabras que año a año
nombró como algo importante, casi urgente
el eterno espiral de preguntas
que talló en la memoria de su boca
la matutina barbarie de una frase:
Tú que me diste la palabra
ahora solo estorbas mi lengua
cada vez que la invocas.

§


Mirmillón: requiescat in pace

Sou apenas
uma das grades da tua prisão,
que observa como
com o passar do tempo,
teu rosto se desgasta e
se descasca
teu olhar.

Fui testemunha,
de como a folhagem vasta que eram tuas expressões
se enrugaram
e envelheceram
como um ancião
enquanto florescia o outono.

Tantos anos cativo
te deformaram o rosto.
Tua triste colheita
amadureceu e
nasceu,
entre aplausos e aclamações,
seca e sem nome.

 

Mirmillón: requiescat in pace

Solo soy
uno de los barrotes de tu prisión,
que observa cómo
con el correr del tiempo,
se desgasta tu rostro y
se descascara
tu mirada.

He sido testigo,
de cómo el follaje vasto que eran tus expresiones
se ha arrugado
y ha envejecido
como un anciano
mientras floreció el otoño.

Largos años cautivo
te han deformado el rostro.
Tu triste cosecha
ha madurado y
ha nacido,
entre aplausos y vítores,
seca y sin nombre.

***

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Padrão
tradução

Claudia Lars, por Victor Hugo Turezo

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Claudia Lars, arte de Natii Escobar

Claudia Lars (1899—1974), pseudônimo de Margarita del Carmem Brannon Vega, nasceu em Armenia, em El Salvador.  Marcada por elementos líricos, sua poesia comprime a síntese de sua dor intocada. Certo apelo a uma angústia sutil e a morte permeiam seus principais poemas, e foi através destes motes que Lars exprimiu quase toda a sua obra.

Alguns de seus principais livros são Estrellas en el Pozo (1934) Canción redonda (1936) e Ciudad bajo mi voz (1947). Os poemas originais utilizados para a tradução aqui apresentada estão no livro Antología de la Poesía Hispanoamericana (Editorial ALBA, 2000), org. de José María Gómez Luque.

*

ESPEJO

En el espejo se perdió la niña de antes,
con sus siete caminos primaverales
y una estrella de lágrimas en el corazón.

El espejo come rostros
y tiempo.

Hoy aparece en su cristal una mujer estristecida.
Quizás también la muerte.
Pero a la muerte…, ¿quién la ve?

ESPELHO

No espelho desfez-se a menina de antes,
com seus sete caminhos primaveris
e uma estrela de lágrimas no coração.

O espelho come rostos
e tempo.

Hoje aparece em seu reflexo uma mulher entristecida.
Talvez também a morte.
Mas a morte… quem a vê?

 §

NIÑO DE AYER

Eras niño de niebla
casi en la nada;
nombre de mi sonrisa
detrás del alma.

Y era un barco dichoso
de tanto viaje
y un ángel marinero
bajo mi sangre.

Subías como el lirio,
como las algas;
en tu peso crecía
la madrugada.

Y alzando el aire joven
sus ademanes
ya marcaba tu fuerza
de vivos mástiles.

¡Prado de nieve limpia
bosque de llamas!…
Y tú, semilla dulce,
bien enterrada.

Escondido en mi pulso,
sin entregarte;
pulsando en los temores
de mi quién sabe.

Buscabas en mi pecho
bulto y palabra;
entre mis muertos ibas
buscando cara.

Salías de la torre
de las edades
y en las lunas futuras
dabas señales.

No crea que te cuento
cosas de fábula:
para que me comprendas
coge esta lágrima.

MENINO DE ONTEM

Era menino de névoa
quase no nada;
nome de minha graça
detrás da alma.

E era um barco amparado
de viagem constante
e um anjo marinheiro
sob meu sangue.

Subia como o lírio,
como as algas;
em teu peso crescia
a madrugada.

E alçando o ar jovem
suas infalibilidades
já marcava tua força
de vivos mastros.

Prado de neve limpa
bosque de chamas!…
E você, semente doce,
bem enterrada.

Escondido em meu pulso
sem te entregar
pulsando nos medos
de minha incerteza.

Buscava em meu peito
vulto e palavra;
entre meus mortos ia
buscando cara.

Saia da torre
das idades
e nas luas futuras
enunciava sinais.

Não acredite que te conto
coisas de fábula:
para me compreender
toma esta lágrima.

§

 PALABRAS DE LA NUEVA MUJER

Como abeja obstinada
exploro inefables reinos
que desconoces
y al entrar en la memoria de tu corazón
señalo parajes virginales.

¡Aquí la eternidad
modificando nuestro minuto!
No puedo ser abismo:
con la luz se hacen viñedos
y retamas.

Pertenezco a la desnudez
de mi lenguaje
y he quemado silencios y mentiras
sabiendo que transformo
la historia de las madres.

Mujer
Sólo mujer
¿Entiendes?
Ni pajarilla del necesario albergue,
ni alimento para deseosos animales,
ni bosque de campánulas donde el cielo se olvida
ni una hechicera con sus pequeños monstruos.

¡Oh poderes del hombre
alzando mutaciones
de frágiles rostros!
¡Oh esplendor oculto en mi santuario
ya bajo la excelencia
de íntimos ángeles!
¿Logra mi amor decirte
que busco un amante
con frente inmortal?

PALAVRAS DA NOVA MULHER

Como abelha obstinada
exploro inexprimíveis reinos
que você desconhece
e ao entrar na memória do teu coração
avisto paisagens virgens.

Aqui a eternidade
modificando nossos minutos!
Não posso ser abismo:
com a luz se formam vinhedos
e retamas*.

Pertenço à nudez
de minha linguagem
e queimei silêncios e mentiras
sabendo que transformo
a história das mães.

Mulher
Apenas mulher
Entende?
Nem víscera do necessário albergue,
nem alimento de desejosos animais,
nem bosque de campânulas onde o céu se deslembra
nem uma feiticeira com seus pequenos monstros.

Ó poderes do homem
alçando mutações
de frágeis rostos!
Ó esplendor oculto em meu santuário
já sob a excelência
de íntimos anjos!
Consegue meu amor te dizer
que busco um amante
com semblante imortal?

________________________________

*Planta baixa da família das papilionáceas, muito comum na Espanha

   *

Victor Hugo Turezo nasceu em Curitiba (Pr), em 1993. É poeta e tradutor. Lançou minha massa encefálica despenca como se de um desfiladeiro (Patuá, 2017). Traduziu, com Natália Agra, bosque musical (corsário-satã, 2018), plaquete com poemas de Alejandra Pizarnik.

***

Padrão
poesia, tradução

Blanca Varela (1926—2009), por Daniel Paiva

Blanca Varela (10 de agosto de 1926, Lima, Peru — 12 de março de 2009, Lima, Peru) é considerada uma das vozes mais significativas da lírica hispano-americana no século XX. Suas obras se inscrevem no Movimento Surrealista e na chamada Geração de 50 da poesia peruana.

Em 1943, Blanca ingressou na Universidad Nacional Mayor de San Marcos, em Lima, para estudar Letras e Educação. Nesta universidade, conheceu seu futuro esposo, o pintor Fernando de Szyszlo, com quem teve dois filhos.

A partir de 1947, começou a colaborar na revista Las Moradas, dirigida pelo poeta surrealista e ensaísta Emilio Adolfo Westphalen.

Mudou-se para Paris em 1949, onde entraria em contato com a vida artística e literária, guiada por Octavio Paz, figura determinante em sua carreira literária. Deste período data também o início de sua amizade com figuras como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Henri Michaux.

Após uma longa temporada na capital francesa, Blanca viveria em Florença e, depois, em Washington, cidades onde se dedicaria à tradução e a eventuais trabalhos jornalísticos.

Em 1962, regressaria a Lima, onde se estabeleceu definitivamente, fazendo viagens ocasionalmente para os Estados Unidos, Espanha e França.

Blanca foi condecorada com a Medalha de Honra pelo Instituto Nacional de Cultura do Peru. Tornou-se a primeira mulher a ganhar o Premio Internacional de Poesía Federico García Lorca. Durante a cerimônia de entrega do prêmio, em 10 de maio de 2007, Blanca seria anunciada como ganhadora da XVI edição do Premio Reina Sofía de Poesía Iberoamericana.

Desde sua estreia, com o livro Ese puerto existe (1959), a obra poética de Blanca Varela se caracteriza por uma escritura exigente, escritura do desejo e também escritura do desastre, que configura um jogo de forças e de pulsões que a dinamizam.

A formação de Blanca passa também por sua imersão em universos artísticos que vão da canção popular à pintura contemporânea, que, juntamente com o existencialismo, exerceriam grande influência sobre a elaboração de uma poética fortemente imagética, para o que contribui a inserção do transcendental e do animal.

Entre seus títulos publicados, destacam-se ainda Luz de día (1963), Valses y otras falsas confesiones (1971), Ejercicios materiales (1978), Concierto animal (1991) e El falso teclado (2001).

Daniel Paiva nasceu e vive em Juiz de Fora (MG). Possui graduação em Letras — Língua Portuguesa e suas Literaturas e Língua Inglesa e suas Literaturas — pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Atualmente é mestrando no Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários, da Faculdade de Letras da UFJF (FALE/UFJF). Trabalha principalmente com os seguintes temas: Literatura e Filosofia; Literatura e Transdisciplinaridade; Literatura, Intertextualidades e Outras Manifestações Culturais. e-mail: danielpvjf20@yahoo.com.br

* * *

Assim seja

O dia fica para trás,
mal consumido e já inútil.
Começa a grande luz,
todas as portas se abrem diante de um homem
adormecido,
o tempo é uma árvore que não para de crescer.

O tempo,
a grande porta entreaberta,
o astro que cega.

Não é com os olhos que se vê nascer
essa gota de luz que será,
que foi um dia.

Canta abelha, sem pressa,
percorre o labirinto iluminado,
de festa.

Respira e canta.
Onde tudo termina abre as asas.
És o sol,
o aguilhão da aurora,
o mar que beija as montanhas,
a claridade total,
o sonho.

Así sea

El día queda atrás,
apenas consumido y ya inútil.
Comienza la gran luz,
todas las puertas ceden ante un hombre
dormido,
el tiempo es un árbol que no cesa de crecer.

El tiempo,
la gran puerta entreabierta,
el astro que ciega.

No es con los ojos que se ve nacer
esa gota de luz que será,
que fue un día.

Canta abeja, sin prisa,
recorre el laberinto iluminado,
de fiesta.

Respira y canta.
Donde todo se termina abre las alas.
Eres el sol,
el aguijón del alba,
el mar que besa las montañas,
la claridad total,
el sueño.

§

Máscara de algum Deus

Frente a mim esse rosto lunar.
Nariz de prata, pássaros na frente.

Pássaros na frente?

E logo há vermelho
e tudo o que a terra esquece.
Umidade com poderes de fogo
florescendo por trás dos negros cílios.
Um rosto na parede.
Detrás do muro, além de toda vontade,
mais longe ainda que olhar e calar:
o quê?

Sempre há algo a romper, abolir ou temer?
E do outro lado? Ao contrário?

Voa a mão, nasce a linha,
vibrante destino, negro destino.
Por um instante a melodia é clara,
parece eterna a tarde,
puríssima a sombra do céu.

Volto outra vez. Pergunto.
Talvez esse silêncio diga algo,
é uma imensa letra que nos nomeia e contém
em seu ar profundo.
Talvez a morte detrás desse sorriso
seja amor, um gigantesco amor
em cujo centro ardemos.

Talvez o outro lado exista
e seja também o olhar
e tudo isto seja o outro
e aquilo isto
e sejamos uma forma que muda com a luz
até ser só luz, só sombra.

Máscara de algún Dios

Frente a mí ese rostro lunar.
Nariz de plata, pájaros en la frente.

¿Pájaros en la frente?

Y luego hay rojo
y todo lo que la tierra olvida.
Humedad con poderes de fuego
floreciendo tras las negras pestañas.
Un rostro en la pared.
Detrás del muro, más allá de toda voluntad,
más lejos todavía que mirar y callar:
¿qué?

¿Siempre hay algo que romper, abolir o temer?
¿Y al otro lado? ¿Al revés?

Vuela la mano, nace la línea,
vibrante destino, negro destino.
Por un instante la melodía es clara,
parece eterna la tarde,
purísima la sombra del cielo.

Vuelvo otra vez . Pregunto.
Tal vez ese silencio dice algo,
es una inmensa letra que nos nombra y contiene
en su aire profundo.
Tal vez la muerte detrás de esa sonrisa
sea amor, un gigantesco amor
en cuyo centro ardemos.

Tal vez el otro lado existe
y es también la mirada
y todo esto es lo otro
y aquello esto
y somos una forma que cambia con la luz
hasta ser sólo luz, sólo sombra.

§

Persona

o querido animal
cujos ossos são uma recordação
um sinal no ar
jamais teve sombra nem lugar

da cabeça de um alfinete
pensava
ele era o brilho ínfimo
o grão de terra sobre o grão
de terra
o autoeclipse

o querido animal
jamais para de passar
me contorna

Persona

el querido animal
cuyos huesos son un recuerdo
una señal en el aire
jamás tuvo sombra ni lugar

desde la cabeza de un alfiler
pensaba
él era el brillo ínfimo
el grano de tierra sobre el grano
de tierra
el autoeclipse

el querido animal
jamás cesa de pasar
me da la vuelta

§

Curriculum vitae

digamos que ganhaste a corrida
e que o prêmio
fosse outra corrida
que não bebeste o vinho da vitória
mas teu próprio sal
que jamais escutaste ovações
mas latidos de cães
e que tua sombra
tua própria sombra
foi tua única
e desleal concorrente.

Curriculum vitae

digamos que ganaste la carrera
y que el premio
era otra carrera
que no bebiste el vino de la victoria
sino tu propia sal
que jamás escuchaste vítores
sino ladridos de perros
y que tu sombra
tu propia sombra
fue tu única
y desleal competidora.

§

Segredo de família

sonhei com um cachorro
com um cachorro esfolado
cantava seu corpo seu corpo vermelho silvava
perguntei ao outro
ao que apaga a luz ao açougueiro
o que aconteceu
por que estamos às escuras

é um sonho estás sozinha
não há outro alguém
a luz não existe
tu és o cachorro tu és a flor que ladra
aguça docemente tua língua
tua doce língua negra de quatro patas

a pele do homem se queima com o sonho
arde desaparece a pele humana
só a polpa vermelha do cão é limpa
a verdadeira luz habita sua remela
tu és o cachorro
tu és o cão esfolado de cada noite
sonha contigo mesma e basta

Secreto de familia

soñé con un perro
con un perro desollado
cantaba su cuerpo su cuerpo rojo silbaba
pregunté al otro
al que apaga la luz al carnicero
qué ha sucedido
por qué estamos a oscuras

es un sueño estás sola
no hay otro
la luz no existe
tú eres el perro tú eres la flor que ladra
afila dulcemente tu lengua
tu dulce negra lengua de cuatro patas

la piel del hombre se quema con el sueño
arde desaparece la piel humana
sólo la roja pulpa del can es limpia
la verdadera luz habita su legaña
tú eres el perro
tú eres el desollado can de cada noche
sueña contigo misma y basta

§

Casa de corvos

porque te alimentei com esta realidade
mal cozida
por tantas e tão pobres flores do mal
por este absurdo voo ao rés do pântano
eu te absolvo de mim
labirinto filho meu

não é tua a culpa
nem minha
pobre pequeno meu
do qual fiz este impecável retrato
forçando a obscuridade do dia
pálpebras de mel
e a bochecha constelada
fechada a qualquer toque
e a formosíssima distância
de teu corpo
tua náusea é minha
herdaste-a como herdam os peixes
a asfixia
e a cor de teus olhos
é também a cor de minha cegueira
sob a qual sombras tecem
sombras e tentações
e é minha também a pegada
de teu calcanhar estreito
de arcanjo
mal passado na janela entreaberta
e nossa
para sempre
a música estrangeira
dos céus batentes
agora leãozinho
encarnação do meu amor
brincas com meus ossos
e te ocultas entre tua beleza
cego surdo irredento
quase saciado e livre
com teu sangue que já não deixa lugar
para nada nem ninguém

aqui me tens como sempre
disposta à surpresa
de teus passos
a todas as primaveras que inventas
e destróis
a estender-me — nada infinita —
sobre o mundo
erva cinzenta peste fogo
o que queiras por um olhar teu
que ilumine meus restos
porque assim é este amor
que nada compreende
e nada pode
bebes o filtro e dormes
nesse abismo cheio de ti
música que não vês
cores ditas
longamente explicadas ao silêncio
misturadas como se misturam os sonhos
até esse torpe gris
que é despertar
na grande palma de deus
calva vazia sem extremos
e lá te encontras
sozinha e perdida em tua alma
sem mais obstáculo que teu corpo
sem mais porta que teu corpo
assim este amor
um só e o mesmo
com tantos nomes
que a nenhum responde
e tu olhando-me
como se vai a luz do mundo
sem promessas
e outra vez este prado
este prado de negro fogo abandonado
outra vez esta casa vazia
que é meu corpo
onde não hás de voltar

Casa de cuervos

porque te alimenté con esta realidad
mal cocida
por tantas y tan pobres flores del mal
por este absurdo vuelo a ras de pantano
ego te absolvo de mí
laberinto hijo mío

no es tuya la culpa
ni mía
pobre pequeño mío
del que hice este impecable retrato
forzando la oscuridad del día
párpados de miel
y la mejilla constelada
cerrada a cualquier roce
y la hermosísima distancia
de tu cuerpo
tu náusea es mía
la heredaste como heredan los peces
la asfixia
y el color de tus ojos
es también el color de mi ceguera
bajo el que sombras tejen
sombras y tentaciones
y es mía también la huella
de tu talón estrecho
de arcángel
apenas pasado en la entreabierta ventana
y nuestra
para siempre
la música extranjera
de los cielos batientes
ahora leoncillo
encarnación de mi amor
juegas con mis huesos
y te ocultas entre tu belleza
ciego sordo irredento
casi saciado y libre
con tu sangre que ya no deja lugar
para nada ni nadie

aquí me tienes como siempre
dispuesta a la sorpresa
de tus pasos
a todas las primaveras que inventas
y destruyes
a tenderme — nada infinita —
sobre el mundo
hierba ceniza peste fuego
a lo que quieras por una mirada tuya
que ilumine mis restos
porque así es este amor
que nada comprende
y nada puede
bebes el filtro y te duermes
en ese abismo lleno de ti
música que no ves
colores dichos
largamente explicados al silencio
mezclados como se mezclan los sueños
hasta ese torpe gris
que es despertar
en la gran palma de dios
calva vacía sin extremos
y allí te encuentras
sola y perdida en tu alma
sin más obstáculo que tu cuerpo
sin más puerta que tu cuerpo
así este amor
uno solo y el mismo
con tantos nombres
que a ninguno responde
y tú mirándome
como si no me conocieras
marchándote
como se va la luz del mundo
sin promesas
y otra vez este prado
este prado de negro fuego abandonado
otra vez esta casa vacía
que es mi cuerpo
a donde no has de volver

§

As coisas que digo são certas

Um astro explode em uma pequena praça e um pássaro perde os olhos e cai. Ao redor dele os homens choram e veem chegar a nova estação. O rio corre e arrasta entre seus braços frios e confusos a matéria escura acumulada por anos e anos atrás das janelas.
Um cavalo morre e sua alma voa para o céu sorrindo com seus grandes dentes de madeira manchada pelo orvalho. Mais tarde, entre os anjos, lhe crescerão asas negras e sedosas para espantar as moscas.
O que é que chega, que se precipita de cima e enche de sangue as folhas e de escombros dourados as ruas?
Sei que estou doente de um mal profundo, cheio de uma água amarga, de uma febre inclemente que silva e espanta a quem a escuta. Meus amigos me deixaram, meu papagaio já morreu, e não posso evitar que as pessoas e os animais fujam ao olhar para o terrível e negro resplendor que deixa meu passo nas ruas. Hei de almoçar só sempre. É terrível.

Las cosas que digo son ciertas

Un astro estalla en una pequeña plaza y un pájaro pierde los ojos y cae. Alrededor de él los hombres lloran y ven llegar la nueva estación. El río corre y arrastra entre sus fríos y confusos brazos la oscura materia acumulada por años y años detrás de las ventanas.
Un caballo muere y su alma vuela al cielo sonriendo con sus grandes dientes de madera manchada por el rocío. Más tarde, entre los ángeles, le crecerán negras y sedosas alas con qué espantar a las moscas.
Todo es perfecto. Estar encerrado en un pequeño cuarto de hotel, estar herido, tirado e impotente, mientras afuera cae la lluvia dulce, inesperada.
¿Qué es lo que llega, lo que se precipita desde arriba y llena de sangre las hojas y de dorados escombros las calles?
Sé que estoy enfermo de un pesado mal, lleno de un agua amarga, de una inclemente fiebre que silba y espanta a quien la escucha. Mis amigos me dejaron, mi loro ha muerto ya, y no puedo evitar que las gentes y los animales huyan al mirar el terrible y negro resplandor que deja mi paso en las calles. He de almorzar solo siempre. Es terrible.

§

“Lady’s journal”

o camundongo te contempla extasiado
a aranha não se atreve a descer nem um
milímetro mais à terra
o café é um espectro azul sobre
a boca do fogão
disposto a desaparecer para sempre

oh sim minha querida
são sete da manhã
levanta menina
arruma teu cabelo na fotografia
mostra tua fronte teu sorriso
sorri ao lado do menino que se
parece contigo

oh sim fazes como podes
e és idêntica à felicidade
que jamais envelhece

fica quieta
nesse paraíso
ao lado do menino que se parece contigo
são sete da manhã
é a hora perfeita para começar
a sonhar
o café será eterno
e o sol eterno
se não te moves
se não despertas
se não viras a página
em tua pequena cozinha
em frente à minha janela

“Lady’s journal”

el ratón te contempla extasiado
la araña no se atreve a descender ni un
milímetro más a la tierra
el café es un espectro azul sobre
la hornilla
dispuesto a desaparecer para siempre

oh sí querida mía
son las siete de la mañana
levántate muchacha
recoge tu pelo en la fotografía
descubre tu frente tu sonrisa
sonríe al lado del niño que se
te parece

oh sí lo haces como puedes
y eres idéntica a la felicidad
que jamás envejece

quédate quieta
allí en ese paraíso
al lado del niño que se te parece
son las siete de la mañana
es la hora perfecta para comenzar
a soñar

el café será eterno
y el sol eterno
si no te mueves
si no despiertas
si no volteas la página
en tu pequeña cocina
frente a mi ventana

§

Malevitch em sua janela

1

ah mon maitre
me enganaste como o sol a suas criaturas
prometendo-me um dia eterno todos os dias

do inexato me alimento
e toda a água dos céus é incapaz de lavar
esta ferida ínfima e rebelde de tempo que sou

pó rebelde sim
com os cabelos de pó desordenado
para sempre jamais por um pensamento peregrino
persigo toda sagrada inexatidão

suave violência do sonho
palavra escrita palavra apagada
palavra desterrada
voz expulsa do paraíso
catástrofe no céu da página
inchada de silêncios

aqui o olho começa a desvanecer-se
a não ser
e a voz se quebra inaudita
(alguém perdeu definitivamente sua balsa)
à deriva sobre o oceano
sopra o vento da indiferença
pela porta entreaberta chega a aurora
mais silenciosa e pálida que nunca

é o dia sobrevivente com seu carrinho vazio
continua brilhando a lâmpada penitente
mas não creio em sua luz
nem compro a morte com nome de peixe
nem é certo que sob sua escama mortiça
deus nos contempla

2

sim senhores
este é outro dia inevitável
em que me alimento do inexato
da monstruosa fruta que se agita
da pegada no ar
da recordação
do mercúrio perdido em alguma sarjeta
do irrecuperável que se acumula e agiganta
em cristais febris
e cruza o ar como uma chama
recém-nascida

o corpo flamejante em luta com o sol

a farsa diária desaparece por trás de uma mão
que acende e apaga à vontade
sua própria luz
penitente claridade
arde o escuro azeite da consciência
sobre esta mesa que é todo o mundo

do outro lado da janela
alguém resolveu o enigma
para entrar na vida basta uma porta
o outro lado continua igual
nada que a luz não atravesse e oculte
nada que não seja a antiga e sagrada inexatidão
que golpeia madeiras bate asas
e incendeia gargantas e corações

3

hoje me desperta
com seu delgado resplendor abstrato a esperança
a obscuridade do naufrágio
escapa como um gato pela janela
e alguém volta
sim
alguém volta desvelado e sem pressa
com um pequeno retângulo de eternidade entre as mãos

Malevitch en su ventana

1
ah mon maitre
me has engañado como el sol a sus criaturas
prometiéndome un día eterno todos los días

de lo inexacto me alimento
y toda el agua de los cielos es incapaz de lavar
esta ínfima y rebelde herida de tiempo que soy

polvo rebelde sí
con los cabellos de polvo desordenado
para siempre jamás por un peregrino pensamiento
persigo toda sagrada inexactitud

suave violencia del sueño
palabra escrita palabra borrada
palabra desterrada
voz arrojada del paraíso
catástrofe en el cielo de la página
hinchada de silencios

aquí el ojo comienza a desteñirse
a no ser
y la voz se quiebra inaudita
(alguien ha perdido definitivamente su balsa)
a la deriva sobre el océano
sopla el viento de la indiferencia
por la puerta entreabierta llega la aurora
más silenciosa y pálida que nunca

es el día sobreviviente con su carreta vacía
sigue brillando la lámpara penitente
pero no creo en su luz
ni compro la muerte con nombre de pez
ni es cierto que bajo su escama mortecina
dios nos contempla

2
sí señores
este es otro día inevitable
en que me alimento de lo inexacto
de la monstruosa fruta que aletea
de la huella en el aire
del recuerdo
del azogue perdido en alguna alcantarilla
de lo irrecuperable que se acumula y agiganta
en afiebrados cristales
y cruza el aire como una llama
recién nacida

flamante cuerpo en pugna con el sol

la farsa diaria desaparece tras una mano
que enciende y apaga a voluntad
su propia luz
penitente claridad
arde el oscuro aceite de la conciencia
sobre esta mesa que es todo el mundo

al otro lado de la ventana
alguien ha resuelto el enigma
para entrar en la vida basta un puerta
el otro lado sigue igual
nada que la luz no atraviese y oculte
nada que no sea la antigua y sagrada inexactitud
que golpea maderos bate alas
e incendia gargantas y corazones

3
hoy me despierta
con su delgado resplandor abstracto la esperanza
la oscuridad del naufragio
se escapa como un gato por la ventana
y alguien vuelve

alguien vuelve desvelado y sin prisa
con un pequeño rectángulo de eternidad entre las manos

§

Talvez na primavera…

Talvez na primavera.
Deixa que passe esta estação suja de fuligem e lágrimas
hipócritas.
Faze-te forte. Guarda migalha sobre migalha. Faz uma fortaleza
de toda a corrupção e a dor.
Chegado o tempo terás asas e um rabo forte de touro ou
de elefante para liquidar todas as dúvidas, todas as
moscas, todas as desgraças.
Desce da árvore.
Olha-te na água. Aprende a odiar-te como a ti mesmo.
És tu. Rude, nu, primeiro sobre quatro patas, então sobre
duas, depois sobre nenhuma.
Arrasta-te até o muro, escuta a música entre as
pedrinhas.
Chama-as de séculos, ossos, cebolas.
Dá no mesmo.
As palavras, os nomes, não têm importância.
Escuta a música. Só a música.

Tal vez en primavera…

Tal vez en primavera.
Deja que pase esta sucia estación de hollín y lágrimas
hipócritas.
Hazte fuerte. Guarda miga sobre miga. Haz una fortaleza
de toda la corrupción y el dolor.
Llegado el tiempo tendrás alas y un rabo fuerte de toro o
de elefante para liquidar todas las dudas, todas las
moscas, todas las desgracias.
Baja del árbol.
Mírate en el agua. Aprende a odiarte como a ti mismo.
Eres tú. Rudo, pelado, primero en cuatro patas, luego en
dos, después en ninguna.
Arrástrate hasta el muro, escucha la música entre las
piedrecitas.
Llámalas siglos, huesos, cebollas.
Da lo mismo.
Las palabras, los nombres, no tienen importancia.
Escucha la música. Sólo la música.

Padrão
poesia, tradução

Paul Éluard, por Natan Schäfer

Paul Éluard por Cartier-Bresson, 1944.

Paul Éluard (1895 – 1952) resistiu. Fazendo nossa sua voz, resistimos.

Deixo que, em nossa língua, o próprio Éluard comente seus poemas:

“(…) e alguns outros poemas cujo sentido não deixam sombra de dúvida quanto ao objetivo visado: reencontrar a liberdade de expressão para atacar os ocupantes. Então, por toda França, vozes se respondem, cantando para encobrir os pesados murmúrios da besta, para que triunfem os vivos, para fazer desaparecer a vergonha. Cantar, lutar, gritar, batalhar e se salvar. (…)

Mas era preciso que a poesia tomasse parte na resistência. Ela não podia continuar por mais muito tempo brincando com as palavras sem correr riscos. Enfim, ela pôs tudo a perder para acabar com as brincadeiras e se fundir no seu eterno reflexo: a verdade mais nua, mais pobre, mais ardente e eternamente bela. E se digo “eternamente bela” é porque no coração dos homens ela ocupa um lugar de estima, o lugar de toda beleza, tornando-se a única virtude, o único bem. Um bem incomensurável”.

In: Éluard, Paul. Au rendez-vous allemand. “Raisons d’écrire, entre autres, et bibliographie”, p . 78.

* * *

Depois de tantos anos [Éluard, Paul. Poèmes politiques, 1948. Oeuvres II, p. 225. “Après tant d’anées”]

Depois de tantos anos de martírio
De tantos anos-pó muito mais longos
Que anos-luz seguindo um astro perdido
De novo miséria a dar e vender
Por nada, que pra nós não é palavra

Lutando e trabalhando falimos
O desespero deita onde dormimos
Sonhamos abraçar saúde e jovens
A boca e a cabeça ainda sonham
A vida vai mudar como um infante

Não desesperamos, sobrevivemos
Tudo nunca foi tão duro tão obscuro
Mas a noite não misturou-se ao sangue
Mais um passo juntos rompe-se o beco
Dando a nós todos o bem e um rumo.

Après tant d’années

 Après tant d’années passées à souffrir
Tant d’années-poussière au souffle plus long
Qu’années-lumière vers un astre disparu
Nous retrouvons misère à vendre et à revendre
Pour rien et rien n’est pas un pour nous

 Notre combat notre travail font-ils faillite
Le désespoir s’est-il couché dans notre lit
Nous rêvions d’embrasser la santé la jeunesse
Sur la bouche et le front nous en rêvons encore
Notre vie changera comme change un enfant

 Nous n’avons pas désesperé nous survivons
Tout a été plus dur plus obscur que jamais
Mais la nuit ne s’est pas mêlée à notre sang
Un pas de plus ensemble et le sentier se rompt
Pour nous offrir à tous notre bien notre route.

§

 De um tempo futuro [Éluard, Paul. Pouvoir tout dire, 1948. Oeuvres II, p. 373. “D’un temps futur”]

As prisões foram fechadas aos prisioneiros
Elas se tornaram rochedos em meio a multidão
Falo isso assim como respiro
Se estivessem abertas eu estaria lá dentro
Todo mundo está fora.

*

O trabalho está vivo
O cansaço está feliz
Além disso eu respiro
Usando meu próprio peito.

*

As ruas as casas as campinas as florestas
Cintilam um mesmo brilho cada qual com seu sol
As nuvens se dispersaram
Uma multidão de sóis paira no ar
E o amor é mútuo
E a emoção é geral

Já nem me lembro mais
Do passado desolador.

D’un temps futur

Les prisons sont fermées aux prisonniers
Elles sont devenues des rochers dans la foule
J’en parle comme je respire
Si elles étaient ouvertes je serais dedans
Tout le monde est dehors 

*

Le travail est vivant
La fatigue est joyeuse
Je respire au-delà
De ma propre poitrine. 

*

Le rues et les maisons les prés et les forêts
Brillent d’un même éclat chacun a son soleil
Il y a une foule de soleils dans l’air
Et l’amour est mutuel
Et l’émotion est générale

 Je ne me souviens pas
Du passé désolant.

§

Não são mãos de gigantes [Éluard, Paul. Poesie initerrompue: Abolir les mystères, 1953. Oeuvres II, p. 692. “Ce ne sont pas mais de géants”]

Não são mãos de gigantes
Não são mãos de gênios
Que forjaram o crime e nossos grilhões

São mãos acostumadas a si mesmas
Vazias de amor vazias de mundo
Mãos que os mais ordinário dos mortais não apertou

Ela se tornaram cegas estranhas
A tudo aquilo que não é besta caça
Seu prazer parece o fogo nu do deserto

Seus dez dedos multiplicam zeros nas contas
Que levam somente às profundezas da falência
E sua habilidade lhes enche de nada

Essas mãos seguram a popa ao invés da proa
O crepúsculo ao invés da alvorada reluzente
E segmentando o ímpeto anulam toda esperança

Não são mãos de condenados sempiternos
Pela multidão em festa descendente do dia
Em que todo mundo poderia ser justo para sempre

E poderia rir de saber que não está só na terra
Decidindo sua conduta em virtude de seus irmãos
Em prol de uma felicidade única onde o riso seja lei

É preciso entre nossas mãos mais numerosas
Esmigalhar a morte idiota abolir os mistérios
Construir a razão de nascer e viver feliz.

Ce ne sont pas mais de géants

Ce ne sont pas mains de géants
Ce ne sont pas mains de génies
Qui ont forgé nos chaînes ni le crime

 Ce sont de mains habituées à elles-mêmes
Vides d’amour vides du monde
Le commun des mortels ne les a pas serrées

Elles sont devenues aveugles étrangères
A tout ce qui n’est pas bêtement une proie
Leur plaisir s’assimile au feu nu du désert

 Leurs dix doigt multiplient des zéros dans des comptes
Qui ne mènent à rien qu’au fin fond des faillites
Et leur habileté les comble de néant

Ces mains sont à la poupe au lieu d’être à la proue
Au crépuscule au lieu d’être à l’aube éclatante
Et divisant l’élan annulent tout espoir

Ce ne sont que des mains condamnées de tout temps
Par la foule joyeuse qui descend du jour
Où chacun pourrait être juste à tout jamais

 Et rire de savoir qu’il n’est pas seul sur terre
A vouloir se conduire en vertu de ses frères
Pour un bonheur unique où rire est une loi

 Il faut entre nos mains qui sont les plus nombreuses
Broyer la mort idiote abolir les mystères
Construire la raison de naître et vivre heureux.

§

Àquela com quem sonham [Éluard, Paul. Au rendez-vous allemand. “À celle dont ils rêvent”, p. 36]

Novecentos mil prisioneiros
Mais de quinhentos mil políticos
E um milhão de trabalhadores

Senhora dos sonhos do povo
Dai-lhes ainda mais força humana
Alegria de estar no mundo
Dai-lhes em meio a sombra imensa
Os lábios de um amor doce
Que faça esquecer o sofrer

Senhora do sono do povo
Moça mulher irmã e mãe
De seios inchados de beijos
Dai-lhes este nosso país
Tal qual eles sempre estimaram
Um país louco por viver

Um país onde cante o vinho
Onde a colheita é generosa
Onde a criançada é sapeca
Onde os velhinhos são mais finos
Que pomares brancos de flores

Novecentos mil prisioneiros
Mais de quinhentos mil políticos
E um milhão de trabalhadores

Senhora dos sonhos do povo
Neve negra de noites brancas
Atravessando um fogo exangue
Santa Alva branca bengala
Fazei-lhes ver caminhos novos
Além da sua cela de tábuas

Pagos para que conhecessem
As piores forças do mal
Entretanto não se curvaram
Mesmo crivados de virtudes
Assim como de ferimentos
Porque a si sobreviveram

Senhora do descansar
Senhora do despertar
Dai a liberdade ao povo e
Deixe a vergonha de
Crer na vergonha ainda que
Para aniquilar-lhe.

À celles dont ils rêvent

Neuf cent mille prisonniers
Cinq cent mille politiques
Un million de travailleurs

Maîtresse de leur sommeil
Donne-leur des force d’homme
Le bonheur d’être sur terre
Donne-leur dans l’ombre immense
Les lèvres d’un amour doux
Comme l’oubli des souffrances

Maîtresse de leurs sommeil
Fille femme soeur et mère
Aux seins gonflés de baisers
Donne-leur notre pays
Tel qu’ils l’ont toujours chéri
Un pays fou de la vie

 Un pays où le vin chante
Où les moissons ont bon coeur
Où les enfants sont malins
Où les vieillards sont plus fins
Qu’arbres à fruits blancs de fleurs
Où l’on peut parler aux femmes

Neuf cent mille prisonniers
Cinq cent mille politiques
Un million de travailleurs

Maîtresse de leur sommeil
Neige noire des nuit blanches
À travers un feu exsangue
Sainte Aube à la canne blanche
Fais-leur voir un chemin neuf
Hors de leur prison de planches

Ils sont payés pour connaître
Les pires forces du mal
Pourtant ils ont tenu bon
Ils sont criblés de vertus
Tout autant que de blessures
Car il faut qu’ils se survivent

Maîtresse de leur repos
Maîtresse de leur éveil
Donne-leur la liberté
Mais garde-nous notre honte
D’avoir pu croire à la honte
Même pour l’anéantir.

§

Marielle [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Gabriel Péri”, p.41]

Morreu uma mulher que se escudava
Só com seus braços abertos à vida
Morreu uma mulher que só seguia
O caminho do ódio ao revólver
Morreu uma mulher que ainda briga
Contra o esquecimento e a morte

O que era seu desejo
Nós queremos também
E agora nos convém
Que a alegria seja um candeeiro
No fundo do olhar e do peito
E a justiça no mundo inteiro

Há palavras que nos dão vida
E são palavras inocentes
Por exemplo calor confiança
Justiça amor e também liberdade
A palavra gentileza ou criança
E alguns nomes de flores e nomes de frutos
Coragem e a palavra descobrir
E alguns nomes de países cidades
E alguns nomes de amigos e mulheres
Adicionamos Marielle
Marielle morreu pelo que nos faz viver
Nossa amiga perfuraram seu peito
Mas você fez que com nos conhecêssemos
Sejamos amigos seu sonho segue vivo

Gabriel Péri

Un homme est mort qui n’avait pour défense
Que ses bras ouverts à la vie
Un homme est mort qui n’avait d’autre route
Que celle où l’on hait le fusils
Un homme est mort qui continue la lutte
Contre la mort contre l’oubli

Car tout ce qu’il voulait
Nous le voulions aussi
Nous le voulons aujourd’hui
Que le bonheur soit la lumière
Au fond des yeux au fond du coeur
Et la justice sur la terre

Il y des mots qui font vivre
Et ce sont des mot innocents
Le mot chaleur le mot confiance
Amour justice et le mot liberté
Le mot enfant et le mot gentillesse
Et certain noms de fleurs et certains noms de fruits
Le mot courage et le mot découvrir
Et le mot frère et le mot camarade
Et certains noms de pays et villages
Et certains noms de femmes et d’amis
Ajoutons-y Péri
Péri est mort pour ce qui nous fait vivre
Tutoyons-le sa poitrine est trouée
Mais grâce à lui nous nous connaissons mieux
Tutoyons-nous son espoir est vivant.

§

O mesmo dia para todos [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Le même jour pour tous”, p.46]

I

A espada que evita o peito do chefe dos culpados
Se enfia no coração dos pobres e inocentes

O olhar primeiro é da inocência
E o segundo é o da pobreza
Há que se saber protegê-los

Não quero condenar o amor
Por não ter matado o ódio
E aqueles que o despertaram

II

Caminha um passarinho por imensas terras
Onde o sol tem asas

III

Ela ria a minha volta
A minha volta despida
Era como uma floresta
Uma turba de mulheres
A minha volta

Como uma armadura contra o deserto
Como uma armadura contra injustiça

A injustiça dava em todos
Estrela singular estrela inerte de um céu gordo que é a privação de luz
A injustiça golpeava os inocentes e os heróis os sem piedade
Quem sabe um dia aptos a administrarem

Pois os ouvi dar risada
No seu sangue e na beleza
Na miséria e na tortura
Rindo um riso por vir
Rindo para a vida e nascendo ao rir.

19 de novembro de 1944

Le même jour pour tous

I

L’épée qu’on enfonce pas dans le coeur des maîtres des coupables

On l’enfonce dans le coeur des pauvres et des innocents

Les premiers yeux sont d’innocence
Et les seconds de pauvreté
Il faut savoir les protéger

Je ne veux condamner l’amour
Que si je ne tue pas la haine
Et ceux qui me l’ont inspirée 

II

Un petit oiseau marche dans d’immenses régions
Où le soleil a des ailes

 III

Elle riait autour de moi
Autour de moi elle était nue

Elle était comme une forêt
Comme une foule de femmes
Autour de moi

Comme une armure contre le désert
Comme une armure contre l’injustice

L’injustice frappait partout
Étoile unique étoile inerte d’un ciel gras qui est la privation de lumière
L’injustice frappait les innocents et les héros les insensés
Qui sauront un jour régner 

Car je les entendais rire
Dans leur sang dans leur beauté
Dans la misère et les tortures
Rire d’un rire à venir
Rire à la vie et naître au rire. 

19 novembre 1944

§

Fazer viver [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Faire vivre”, p. 54]

Eram somente alguns vivendo na noite
Sonhando com um céu carinhoso
Eram somente alguns que amavam a floresta
E que acreditavam na lenha em chamas
Ainda que distante lhes alegrava o aroma das flores
Cobertos pela nudez de seus desejos

Reuniam no peito o fôlego em compasso
Com este nada de ambição da vida no mato
Que cresce no verão como um verão ainda mais intenso

Reuniam no peito a esperança dos tempos que vêm vindo
E que saúdam mesmo de longe um outro tempo

Um pouquinho de sono
Lhes entregava o sol do futuro
Resistiam sabiam que viver eterniza

E suas necessidades obscuras engendravam a clareza.

*

Não passavam de uns poucos
Subitamente se tornaram multidão

Desde sempre isso acontece.

Faire vivre 

Ils étaient quelques-uns qui vivaient dans la nuit
En rêvant du ciel caressant
Ils étaient quelques-uns qui aimaient la forêt
Et qui croyaient au bois brûlant
L’odeur des fleurs les ravissait même de loin
La nudité de leurs désirs les recouvrait

Ils joignaient dans leur coeur le souffle mesuré
À ce rien d’ambition de la vie naturelle
Qui grandit dans l’été comme un été plus fort 

Ils joignaient dans leur coeur l’espoir du temps qui vient
Et qui salue même de loin un autre temps
À des amours plus obstinées que le désert 

Un tout petit peu de sommeil
Les rendait au soleil futur
Ils duraient ils savaient que vivre perpétue 

Et leurs besoins obscurs engendraient la clarté.

§

Logo [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Biêntot”, p. 64”]

Das primaveras do mundo
Esta é a mais terrível
Do meus modos de ter sido
Confiante é meu preferido

Feito a pedra ergue a tumba
A grama ergue a neve branca
Durmo sob bruta chuva
E acordo meus olhos claros

Lento e miúdo tempo afunda
Onde passaria a rua
Por minhas íntimas fugas
Para que eu encontre alguém

Não escuto mais os monstros
Disseram tudo já os conheço
Vejo apenas rostos lindos
Rostos lindos com certeza

De logo aniquilar os chefes.

Biêntot 

De tous les printemps du monde
Celui-ci est le plus laid
Entre toutes mes façons d’être
La confiante est la meilleure

L’herbe soulève la neige
Comme la pierre d’un tombeau
Moi je dors dans la tempête
Et je m’éveille les yeux clairs

Le lent le petit temps s’achève
Où toute rue devait passer
Par me plus intimes retraites
Pour que je rencontre quelq’un

Je n’entends pas parler les monstres
Je les connais ils ont tout dit
Je ne vois que les beaux visages
Les bons visages sûrs d’eux mêmes

Sûrs de ruiner bientôt leurs maîtres.

§

De fora [Éluard, Paul. Rendez-vous allemand. “Du dehors”, p. 69]

A noite o frio a solidão
Me encerraram com cuidado
Mas na cela abriam caminho os galhos
Grama e céu se encontravam a minha volta
Encarceram o céu
Desmoronou a prisão
Segurou-me nas mãos o frio ardente e vivo.

Du dehors

La nuit le froid la solitude
On m’enferma soigneusement
Mais les branches cherchaient leur voie dans la prison
Autour de moi l’herbe trouva le ciel
On verrouilla le ciel
Ma prison s’écroula
Le froid vivant le froid brûlant m’eut bien en main.

Padrão
poesia, tradução

George Mario Angel Quintero (1964-), por Thiago Ponce de Moraes

0

George Mario Angel Quintero (1964-), nasceu de pais colombianos em São Francisco, Califórnia, onde viveu por 30 anos. Publica ficção, poesia e ensaios em inglês como George Angel. Desde 1995 vive em Medelín, Colômbia, onde, sob o nome Mario Angel Quintero, publicou seis coletâneas de poesia em espanhol, bem como três livros de peças teatrais.

Seu trabalho tem sido publicado ao redor do mundo, em países como Índia, Austrália, Croácia, Marrocos, Bulgária e Peru. Desde 2003 trabalha como diretor e dramaturgo da companhia Párpado Teatro, tendo sido ainda um dos fundadores dos grupos musicais Underflavour e Sell the Elephant.

 

Thiago Ponce de Moraes

* * *

 

OBRA

Remendar es una obsesión.
Por mucho que nos edifiquen
Los pasados no se construyen.
Se derrumban.
La rumba de los martillos,
El tango de taladros,
El cincel entrometido
Como una tilde.
Énfasis nos hace absolutos.

Amamos derruyentes.
Después del primer mazo contundente,
Tumbamos todo
En nombre de la mejora.

Una vez al piso
Sobamos.
Es lo más cercano
A compasión
Que podemos
Gesticular.
Seductores de sanar,
Palustres.

Nuestros murmullos
Arenosos,
De mezclas y lechadas,
Arrullan hacia un sueño,
Cada vez más nuevo,
Más útil.
Algo hecho de vacíos.

OBRA

Remendar é uma obsessão.
Por mais que nos edifiquem
Os passados não se constroem.
Desmoronam.
A rumba dos martelos,
O tango das furadeiras,
O cinzel intrometido
Como um til.
A ênfase nos torna absolutos.

Amamos desmoronantes.
Depois da primeira marretada contundente,
Derrubamos tudo
Em nome da melhora.

Uma vez ao chão
Afagamos.
É o mais perto
Da compaixão
Que podemos
Gesticular.
Sedutores de curar,
Pantanosos.

Nossos murmúrios
Arenosos,
De mistura e argamassa,
Embalam para um sonho,
Cada vez mais novo,
Mais útil.
Algo feito de vazios.

§

7.

Un pañuelo es una garza.
Un abrelatas es un rinoceronte.
Un cocodrilo es unas tijeras.

La casa es como una selva.
Tenemos que respetar a las cosas
Puntudas y filudas,
Como si fueran animales peligrosos.

Eso que se mete.
Duele por donde entra.
Cosas grandes andando por ahí
Mordiendo a la gente.

7.

Um lenço é uma garça.
Um abridor é um rinoceronte.
Um crocodilo é uma tesoura.

A casa é como uma selva.
Temos que respeitar as coisas
Pontudas e cortantes,
Como se fossem animais perigosos.

Isso que se insere.
Dói por onde entra.
Coisas grandes andando por aí
Mordendo a gente.

§

 

LA NOCHE,
…….un reguero florecido,
siembra
…….tan tambre,
apachurra
sus puchos,
se recuesta
…….sobre su alfombra
………de dardos,
y se cubre
……la cara,
……derrama
…………su ronquido,
alumbra…… abierta,
……..sus pétalos
………………polvorientos
traspasados
……………de tallos
que brotan
trenzados
….aquí abajo.

A NOITE,
…….um córrego florido,
semeia
…….tão sina,
esmaga
suas guimbas,
se recosta
…….sobre seu tapete
……….de dardos
e cobre
…….o rosto,
…….derrama
…….…….seu ronco,
acende….. aberta,
…….suas pétalas
…….…….empoeiradas
atravessadas
…….………por caules
que brotam
trançados
….aqui embaixo.

§

 

THE WORD BLOOD IS DEAD. THE WORD KNIFE, the word angels, the word stone, the word bones. All these words are dead. Word angels like monkey dying. The theory of trees and stones must crawl inside them and crack them open forever. Those words are the corpses of what we know. They are as useless as the word maggots that will come along and eat them. Say land again and you too are dead. Land is a dead word. The theory of trees and stones humbly submits that it is tired of the words light and strong. These words must be assassinated so that we may all see that they have been dead for ages. Every sayable word is a dead word. Run faster, killing as you go. Every explanation is a beautiful vulture. We have made it beautiful. The colors are all dead and we have fed them to the vulture.

Saying is killing. Laughter is mockery where a massive bright bird stands pecking the sinew out of the arms and legs of light. The theory of trees and stones is someone remembering something to himself. God is not the word for God.

A PALAVRA SANGUE ESTÁ MORTA. A PALAVRA FACA, a palavra anjos, a palavra pedra, a palavra ossos. Todas essas palavras estão mortas. Anjos de palavras como macacos agonizantes. A teoria das árvores e das pedras deve rastejar dentro delas e abri-las para sempre. Essas palavras são os cadáveres do que sabemos. Elas são tão inúteis quanto a palavra larvas que virá comê-las. Diga terra outra vez e você também estará morto. Terra é uma palavra morta. A teoria das árvores e das pedras humildemente alega que está cansada das palavras luz e forte. Essas palavras devem ser assassinadas para que possamos todos ver que estiveram mortas por tempos. Toda palavra dizível é uma palavra morta. Fuja mais rápido, matando pelo caminho. Toda explicação é um abutre lindo. Nós o tornamos lindo. As cores estão todas mortas e com elas alimentamos o abutre.

Dizer é matar. O riso é escárnio onde um pássaro enorme e brilhante fica bicando os tendões dos braços e pernas da luz. A teoria das árvores e das pedras é alguém lembrando alguma coisa a si mesmo. Deus não é a palavra para Deus.

§

 

MY FUNNIEST MISTAKE
is that I took
life personally.

It opens transformed now
from fluted water
to a forest
of indignity.

It waits for me,
like the sunlight
that ran on ahead,
waiting for this soft oaf,
who has fallen onto
his own paved past
and scuffed his knees.

But the world
is not virtuous long enough
to vindicate anyone’s shame.

All we can be sure of
is the gallop.

It has become
too easy to say.
It has become
too easy to tell.

It must be obvious
to someone, by now,
that we hardly ever
get there, to it,
that a dash is,
after all,
a pause, a change
of direction.

Our only forward
is to trip and fall.
Everything else is passing—

And yet the impulse
is an infant,
full of noise
but without a hint
of how almost
it all was.

Pretense vanished
without a bow.

Nowadays,
that I would
live to know
when they were then,
the time of the big lie.
When sorrow
knew no limits
and victory and death
were the same word.

Would you believe
she wove sandals
from her own hair
so he might continue walking.

Though I suffer
delusions of being
nourished, I am
just a conduit,
an elaborate hose,
a falling, a means
to a gravitational necessity.

And too there is the death
in bitterness, the death
in sick and tired.

Enough. Enough.
Enough many steps ago.
Just shut up a minute,
long enough to miss a fall,
long enough for the loss of fuck off!
to dissipate in the silence.

And still humiliation
insists I dance with her.

I am sure somehow.
I am sure
like a chord sounding out
and that is all.

I was made
for song.
That I didn’t
make it, though,
seems more obvious
than irrelevant.

I was not made
for battles,
for definitive endings.

When my body dies
it may well take my spirit
with it.

But it will go, my spirit,
like a laughing boy
atop a tumbling pachyderm.

MEU ERRO MAIS ENGRAÇADO
é que eu levei
a vida pro lado pessoal.

Ela se abre agora, mudando
de água ondulada
para floresta
de indignidade.

Ela espera por mim,
como a luz do sol
antecipada,
esperando este ser desajeitado
que caiu sobre
seu próprio passado asfaltado
e ralou os joelhos.

Mas o mundo
não é virtuoso o bastante
para reivindicar a vergonha de qualquer um.

Só podemos ter certeza
do galope.

Passou a ser
muito fácil dizer.
Passou a ser
muito fácil contar.

Deve ser óbvio
para alguém, agora,
que nós quase nunca
chegamos lá, a isso,
que um travessão é,
afinal,
uma pausa, uma mudança
de direção.

Nosso único adiante
é tropeçar e cair.
Todo o resto está passando—

E além do mais o impulso
é uma criança,
cheia de barulho
mas sem qualquer ideia
de como quase
isso tudo era.

O fingimento desapareceu
sem uma reverência.

Hoje,
que eu
viveria pra saber
quando eles eram então,
o tempo da grande mentira.
Quando a tristeza
não conhecia limites
e vitória e morte
eram uma só palavra.

Você não acreditaria
que ela teceu sandálias
com seus fios de cabelo
para que ele continuasse andando.

Embora eu sofra
ilusões de ser
nutrido, sou
apenas um tubo,
uma mangueira elaborada,
uma queda, um meio
para uma necessidade gravitacional.

E há também a morte
na amargura, a morte
em estar farto.

Basta. Basta.
Basta a muitos passos atrás.
Só cale a boca um minuto,
o bastante para perder a queda,
o bastante para a perda do foda-se!
se dissipar no silêncio.

E ainda a humilhação
insiste para que eu dance com ela.

Tenho certeza, de algum jeito.
Tenho certeza
como um acorde soando
e isso é tudo.

Fui feito
para canção.
Que eu não tenha
conseguido, no entanto,
parece mais óbvio
que irrelevante.

Não fui feito
para batalhas,
para fins definitivos.

Quando meu corpo morrer
pode muito bem levar meu espírito
com ele.

Mas eu vou, meu espírito,
como um menino risonho
em cima de um paquiderme caindo.

§

 

10.

Birds sometimes fall,
and this hardly sounds.

A tired woman
adjusts her collar
on the platform
of a train station.

An example’s
manifestation
is always more
than its meager use.

A blue feather
dances in night’s depths.

10.

Pássaros às vezes caem,
e isso quase não faz barulho.

Uma mulher cansada
ajeita sua gola
na plataforma
da estação de trem.

A manifestação
de um exemplo
é sempre mais
que seu mero uso.

Uma pluma azul
Dança nas profundezas da noite.

Padrão
poesia, tradução

Fernanda Vivacqua, por Anelise Freitas

ferr

Fernanda Vivacqua nasceu no Rio de Janeiro, em 1992. Desde os anos 2000, vive em Juiz de Fora (MG), onde se formou em Letras-Português e, atualmente, conclui seu mestrado em Estudos Literários. Publicou o livro Maria Célia (Edições Macondo, 2016), reeditado esse ano com cinco poemas inéditos e em versão bilíngue (português-espanhol). Sua plaquete Para os homens que não amam as mulheres (Capiranhas do Parahybuna, 2018) e María Celia serão lançados no Brasil e na Argentina.

BREVE NOTA SOBRE “MARÍA CELIA”

Os poemas da Fernanda Vivacqua sempre me causaram aquela sensação de quando lemos um poema que parece um grande soco no estômago, porque ela ambienta seus versos em lugares que, em um primeiro momento, poderiam ser relacionados à calmaria. Entretanto, os espaços da casa e do quintal vão dando lugar à uma violência da linguagem, com versos longos e cavalgamentos que tiram o fôlego e promovem leituras inquietantes. Seus poemas mexem com o corpo e colocam esse corpo em perigo, como deve ser.

Dessa inquietação que os poemas causavam em meu corpo, surgiu a necessidade de traduzi-los. É isso que me move a traduzir um poema: como ele mexe com meu corpo e a curiosidade de saber como encontraria meu corpo em outra língua. A sinestesia do poema não é o suficiente, claro, porque a tradução envolve ler a contracapa do poema, compreender alguns mecanismos que nem mesmo quem o escreveu originalmente havia se dado conta.

Desde que comecei a aprender o espanhol, nutro um carinho pela variante rio-platense e depois de minha viagem à Argentina me senti mais à vontade para usá-la. Assim, optei pela variante rio-platense, não só pelo carinho espontâneo, mas porque é nessa variante que me comunico com as pessoas que eu amo, é com ela que me aproximo afetivamente da América Latina e seus corpos.

Anelise Freitas

 *

 POEMAS

 Para Babalu

DO BANCO DE TRÁS É SILENCIOSO

estática na ponte rio-niterói
o trânsito imerso
denso e pesado o trânsito
funda e funda
a guanabara
fede e você nem sente
do banco de trás
cai um tempo
uma pequena parede amarela
e aquela casa de bonecas
onde nada muda ou envelhece
só os móveis
que vão
e vem
como os carros depois do trânsito
desaguam na rio-niterói
depois do trânsito
você grita

para Babalu

 DESDE EL PUESTO DE ATRAS ES SILENCIOSO

estática en el puente rio-niteroi
el transito inmerso
denso y pesado del trafico
honda y honda
la guanabara
apesta y vos tampoco sentís
desde el puesto de atrás
cae el tiempo
una pequeña pared amarilla
y aquella casa de muñecas
donde nada cambia o envejece
solo los mobiles
que van
y vienen
como los coches después del trafico
desaguan en rio-niteroi
después del tráfico
gritás

§

 APRENDEMOS DA PEDRA E DO FEIJÃO

do tempo e da espera e
de quando em quando
a tempestade encruzilhada
o corpo estilhaçado e a dúvida
porque o que ensina destrói
constrói sobre destroços e reconstrói
com corpos despedaçados, aparentemente
despedaçados

quantos livros de poesia você já leu?
quantos poetas você chama de preferido?
eu vi uma redoma cercada de espinho
não havia pedras e o feijão era duro
e minha mãe é da cidade você não sabe
eu nem me lembro das canções de ninar
mas
quantos cantos ancestrais você já ouviu?
quantas vezes seu corpo vibrou e você soube
a corda da cítara não pode estar muito esticada
nem solta demais
é uma matemática ancestral que nos diz
dos cantos, da casa, dos cantos da casa
do feijão e do corpo quando se cata
pelo chão memória dos que pisaram
em um dia atrasado para o serviço público
mas

quando você disse ser poeta?
foi do feijão da barriga da mãe do batuque no quintal?
e eu não entro na redoma que pode ser apenas
um jardim sensorial, sentidos
dispersos corpos estilhaçados
mas quando o vento passa carrega
eu tenho memórias que me ensinam
porque elas não são palavras
porque elas caminham
pela minha mãe e sua vida urbana
pelas pedras portuguesas em terras
brasileiras
pelo feijão que fica não é de exportação
foi dela que aprendi e ela não dá respostas
como a palavra que não ensina
mas destrói e com os destroços
respondo,
dia a dia
não saber do vento
mas ele passa buracos abertos
marca o corpo que aprende
e reaprende
quando você disse não saber das coisas?
eu não sei e por isso não tenho medo
o prédio desabado não tem porque temer
a tempestade de amanhã

APRENDIMOS DE LA PIEDRA Y DEL POROTO

del tiempo de la espera y
de cuando en cuando la tempestad encrucijada
el cuerpo astillado y la duda
porque lo que enseña destruye
construye sobre destrozos y reconstruye
con los cuerpos despedazados, aparentemente
despedazados

¿cuántos libros de poesía vos leíste?
¿cuántos poetas vos llamás preferidos?
yo vi una redoma cercada de espino
no había hiedras y el frijol era duro
mi madre es de la ciudad vos no sabés
y ni me acuerdo de las canciones de cuna
pero
¿cuántas canciones ancestrales vos oíste?
¿cuántas veces su cuerpo vibró y vos supiste?
la soga de la cítara no puede estar muy estirada
ni muy suelta es un matemática ancestral la que nos dice
de los rincones, de la casa, de los rincones de la casa
del poroto y del cuerpo cuando se recoge
por el piso memoria de los que pisaron
en un día retrasado para el servicio publico
pero

¿cuándo vos dijiste ser poeta?
¿fue del frijol del vientre de tu madre del tambor en el patio?
y yo no entro en la redoma que pude ser solo
un patio sensorial, sentidos
dispersos cuerpos astillados
pero cuando el viento pasa lleva
yo tengo memorias que me enseñan
porque ellas no son palabras
porque ellas caminan
por mi madre y su vida urbana
por las piedras portuguesas en tierras
brasileñas
por el poroto que se queda no es para exportación

 fue de ella que aprendí y todavía no me contesta
como la palabra que no enseña
pero destruye y con los destrozos
contesto
día tras día
no saber del viento
pero él pasa agujeros abiertos
señala el cuerpo que aprende
y reaprende
¿cuándo vos dijiste no saber de las cosas?
no sé y por ello no tengo miedo
el edificio derrumbado no hay que temer
la tempestad de mañana

§

 SEUS DENTES PELOS MEUS DEDOS

fruto maduro esquartejado aos cubos
começo pela unha casca incerta
escalpelar cabeças de dedos
pelos seus dentes corre
um sorriso afiado a lâmina
afoita boca saliva a língua
como cortar tomates
o caldo quente entorna
limpa os nervos dedos em riste
o tempo entre a lâmina e a carne
os dedos separados da mão
pelos seus dentes escorre
o sangue da gengiva incrustrada
o corte exato de minhas extremidades
passeiam entre a tábua e a fome
a tudo dá sabor hoje
eu te dei meus dedos cortados
em pedaços miúdos cala
a boca aberta
é como cortar tomates
o fruto ácido

TUS DIENTES POR MIS DEDOS

fruto maduro descuartizado a los cubos
empiezo por la uña corteza incierta
escarapelar cabezas de dedos
por sus dientes corre
una sonrisa filosa la lámina
deseosa boca saliva la lengua
como cortar tomates
el caldo caliente se derrama
limpia los nervios dedos en ristre
el tiempo entre la lámina y la carne
los dedos separados de la mano
por tus dientes escurre
la sangre de la encía incrustada
el corte exacto de mis extremidades
pasean entre la tajo y el hambre
a todo da sabor hoy
yo te di mis dedos cortados
en pedazos cortos cierra
la boca abierta
es como cortar tomates
el fruto ácido

*

Anelise Freitas é poeta. Publicou Vaca contemplativa em terreno baldio (2011), O tal setembro (2013) e Pode ser que eu morra na volta (2015), e Sozé (2018). Atualmente se dedica à produção editorial, docência e a revisão, tradução e preparação de textos. Já apareceu com poemas aqui na escamandro.

***

 

Padrão
poesia, tradução

Eileen Myles (1949-), por Cesare Rodrigues e Camila Assad

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Eileen Myles é uma poeta e escritora americana, nascida em Cambridge, Massachusetts em 1949. Frequentou escolas católicas em Arlington, Massachusetts e se formou na Universidade de Massachusetts (Boston), em 1971. Foi para Nova York em 1974 com a intenção de se tornar poeta. Sua educação poética ocorreu principalmente no St. Mark’s Poetry Project, de 1975 a 1977, através de leituras e participação em workshops liderados por Alice Notley, Ted Berrigan, Bill Zavatsky e Paul Violi. Em 1977, Eileen co-editou a antologia feminista Ladies Museum, e em 1979 trabalhou como assistente do poeta James Schuyler. No mesmo ano, Eileen foi um dos membros fundadores do Los Texans Collective (junto com Elinor Nauen e Barbara McKay). De 1984 a 1986, Eileen foi diretora artística do St. Mark’s Poetry Project. Os outros livros de Myles incluem Snowflake / different streets (2012), Inferno: A Poet’s Novel (2010), The importance of being Iceland: Essays in Art (2009), Sorry, Tree (2007), Tow (2005, com Larry R Collins), Skies (2001), on my way (2001), Cool for You (2000), School of Fish (1997), Maxfield Parrish (1995), Not Me (1991) e Chelsea Girls (1994). Em 1995, editou, juntamente com Liz Kotz, The New Fuck You: Adventures of Lesbian Reading. Como poeta e jornalista de arte, Eileen contribuiu para um grande número de publicações, incluindo Art Forum, The New Yorker, Harpers, Parkett, The Believer, Vice, Cabinet, The Nation, TimeOut, The New York Times, Paris Review, AnOther Magazine e The Poetry Project Newsletter. É ativista radical e militante dos direitos das mulheres e LGBT+, tendo inclusive conduzido uma campanha “abertamente feminina” à presidência da República americana em 1991-1992. É professora emérita na UC San Diego, onde lecionou por cinco anos. Eileen Myles acumula uma grande variedade de premiações e nomeações, incluindo Guggenheim Fellowship (2012), The Clark Prize for Excellence in Arts Writing (2015) e o Creative Capital Award, (2016). Atualmente vive em Marfa, no Texas e em Nova York onde lançou, no dia 11 de setembro, seu vigésimo quarto livro, denominado evolution. Seu trabalho ainda é inédito no Brasil.

Cesare Rodrigues e Camila Assad

* * *

 

PROFECIA

Estou brincando com o pau do diabo
é como um giz de cera
é como um gordo giz de cera queimado
estou escrevendo um poema com ele
estou escrevendo isso sob
todo aquele calor barulhento neste quarto
estou usando isto
estou usando aquele chocalho formigante
aquela luz no meio do quarto
é minha anfitriã
eu sempre tive medo de você
apavorada de que você fosse deus ou algo do tipo
eu tenho medo quando você está amarelo
acastanhado
branco tudo bem. Transparente é legal,
você não me parece familiar
minha barriga está desabrigada
desabando sobre a cintura do meu jeans como uma omelete
é bom haver algo a respeito de se sentir gorda
o que existe mesmo é a falta de vazio
estou almejando aquela sensação de vazio
indo buscar um pouco dela
e depois eu volto

PROPHESY

I’m playing with the devil’s cock
it’s like a crayon
it’s like a fat burnt crayon
I’m writing a poem with it
I’m writing that down
all that rattling heat in this room
I’m using that
I’m using that tingling rattle
that light in the middle of the room
it’s my host
I’ve always been afraid of you
scared you’re god and something else
I’m afraid when you’re yellow
tawny
white it’s okay. Transparent cool
you don’t look like home
my belly is homeless
flopping over the waist of my jeans like an omelette
there better be something about feeling fat
what there really is is a lack of emptiness
I’m aiming for that empty feeling
going to get some of that
and then I’ll be back

[de Evolution, 2018]

§

 

UM POEMA AMERICANO

Nasci em Boston em
1949. Nunca quis que
soubessem, de
fato, passei a melhor
parte da minha vida adulta
tentando varrer a infância
pra debaixo do tapete
e ter uma vida que
fosse claramente só minha,
independente do
destino histórico da
minha família. Vocês podem
imaginar como é
ser um deles,
ter sido criada como um deles,
falar como um deles,
ter as vantagens
de ter nascido naquela
rica e poderosa
família americana. Estudei
nas melhores escolas,
tive todos os tipos de tutores
e treinadores, viajei
pra todo canto, conheci os famosos,
os controversos e
os não tão admiráveis
e sabia desde
muito nova que
se houvesse alguma
possibilidade de escapar
do destino coletivo dessa famosa
família de Boston, eu
tomaria esse caminho e
assim fiz. Peguei
o Amtrak para Nova
York no início dos
anos 70 e acho que
poderia dizer que
meus anos disfarçada
começaram. Pensei,
Bem, vou ser poeta.
O que poderia ser mais
tolo e obscuro.
Virei lésbica.
Todas as mulheres da minha
família parecem
sapatão, mas é realmente
atentar contra a pátria
quando você assume.
Carregando essa ignominiosa
pose eu vi e
aprendi e
estou começando a acreditar que
não há como escapar da
história. Uma mulher
com quem estou tendo
um caso ultimamente disse
sabe você parece
uma Kennedy. Senti
o sangue subir nas
bochechas. As pessoas
sempre riem do
meu sotaque de Boston
confundindo “large” com
“lodge”, “party”
com “potty”. Mas
quando essa mulher
desavisada invocou pela
primeira vez meu
sobrenome
eu percebi que a minha máscara
tinha caído. Sim, eu sou,
eu sou uma Kennedy.
Minhas tentativas de permanecer
disfarçada não funcionaram
tão bem. Começando como
uma humilde poeta
rapidamente cheguei ao
topo da profissão,
assumindo uma posição de
liderança e honra.
É certo que uma
mulher me chame
pra sair agora. Sim,
sou uma Kennedy.
E estou
às suas ordens.
Vocês são os Novos Americanos.
Os sem-teto estão vagando
pelas ruas das maiores cidades
da nossa nação. Homens
desabrigados com AIDS entre
eles. Isso está certo?
Que não haja casas
para os desabrigados, que
não haja assistência médica
gratuita para esses homens. E mulheres.
Que recebam
– enquanto morrem –
a mensagem de que este não é o lar deles?
E como estão seus
dentes hoje? Você
tem recursos para consertá-los?
Quanto custa o seu aluguel?
Se a arte é a mais alta
e honesta forma
de comunicação de
nossos tempos e a jovem
artista não está mais apta
a vir até aqui falar
para a sua época… Sim, eu poderia,
mas isso foi há 15 anos
e lembre-se — como designado,
sou uma Kennedy.
Não deveríamos todos ser Kennedys?
As maiores cidades desta nação
são o lar dos homens de
negócios e a casa dos
artistas ricos. Pessoas com
dentes bonitos, que não estão
nas ruas. O que faremos
quanto a este dilema?
Ouçam, eu fui educada.
Aprendi sobre a Civilização
Ocidental. Vocês sabem
qual é a mensagem da Civilização
Ocidental? Estou sozinha.
Estou sozinha esta noite?
Acho que não. Sou
a única com gengivas sangrando
esta noite. Sou a única
homossexual nesta sala
esta noite. Sou a única
cujos amigos morreram,
e estão morrendo agora.
E minha arte não pode
ser apoiada até que seja
gigantesca, maior do que a de
todos os outros, confirmando
o sentimento da audiência de que estão
sozinhos. De que sozinhos são
bons, aptos a
comprar os convites
para ver esta Arte.
Estão trabalhando,
são saudáveis, devem
sobreviver e são
normais. Vocês estão
normais esta noite? Todos
aqui, estamos todos normais.
Não é normal para
mim ser uma Kennedy.
Mas não tenho mais
vergonha, não estou mais
sozinha. Não estou
sozinha esta noite porque
somos todos Kennedys.
E eu sou sua Presidenta.

AN AMERICAN POEM

I was born in Boston in
1949. I never wanted
this fact to be known, in
fact I’ve spent the better
half of my adult life
trying to sweep my early
years under the carpet
and have a life that
was clearly just mine
and independent of
the historic fate of
my family. Can you
imagine what it was
like to be one of them,
to be built like them,
to talk like them
to have the benefits
of being born into such
a wealthy and powerful
American family. I went
to the best schools,
had all kinds of tutors
and trainers, traveled
widely, met the famous,
the controversial, and
the not-so-admirable
and I knew from
a very early age that
if there were ever any
possibility of escaping
the collective fate of this famous
Boston family I would
take that route and
I have. I hopped
on an Amtrak to New
York in the early
‘70s and I guess
you could say
my hidden years
began. I thought
Well I’ll be a poet.
What could be more
foolish and obscure.
I became a lesbian.
Every woman in my
family looks like
a dyke but it’s really
stepping off the flag
when you become one.
While holding this ignominious
pose I have seen and
I have learned and
I am beginning to think
there is no escaping
history. A woman I
am currently having
an affair with said
you know you look
like a Kennedy. I felt
the blood rising in my
cheeks. People have
always laughed at
my Boston accent
confusing “large” for
“lodge,” “party”
for “potty.” But
when this unsuspecting
woman invoked for
the first time my
family name
I knew the jig
was up. Yes, I am,
I am a Kennedy.
My attempts to remain
obscure have not served
me well. Starting as
a humble poet I
quickly climbed to the
top of my profession
assuming a position of
leadership and honor.
It is right that a
woman should call
me out now. Yes,
I am a Kennedy.
And I await
your orders.
You are the New Americans.
The homeless are wandering
the streets of our nation’s
greatest city. Homeless
men with AIDS are among
them. Is that right?
That there are no homes
for the homeless, that
there is no free medical
help for these men. And women.
That they get the message
—as they are dying—
that this is not their home?
And how are your
teeth today? Can
you afford to fix them?
How high is your rent?
If art is the highest
and most honest form
of communication of
our times and the young
artist is no longer able
to move here to speak
to her time…Yes, I could,
but that was 15 years ago
and remember—as I must
I am a Kennedy.
Shouldn’t we all be Kennedys?
This nation’s greatest city
is home of the business-
man and home of the
rich artist. People with
beautiful teeth who are not
on the streets. What shall
we do about this dilemma?
Listen, I have been educated.
I have learned about Western
Civilization. Do you know
what the message of Western
Civilization is? I am alone.
Am I alone tonight?
I don’t think so. Am I
the only one with bleeding gums
tonight. Am I the only
homosexual in this room
tonight. Am I the only
one whose friends have
died, are dying now.
And my art can’t
be supported until it is
gigantic, bigger than
everyone else’s, confirming
the audience’s feeling that they are
alone. That they alone
are good, deserved
to buy the tickets
to see this Art.
Are working,
are healthy, should
survive, and are
normal. Are you
normal tonight? Everyone
here, are we all normal.
It is not normal for
me to be a Kennedy.
But I am no longer
ashamed, no longer
alone. I am not
alone tonight because
we are all Kennedys.
And I am your President.

[de Not Me, 1991]

§

 

CORAÇÕES SANGRANDO

Sabe do que
eu tenho ciúmes?
Da noite passada.
Ela segurou
nós duas
em seus
grandes braços
negros
& hoje
eu seguro
entre
minhas pernas
uma boceta
trêmula.
Sangrando &
tremendo
molhada com
memórias
de pesar e alívio.
Eu não sei
por que o universo
me escolheu
para ser fêmea
tanta beleza
& dor,
tanta coisa
acontecendo
por dentro
de toda essa
mudança
em todo lugar
moedas caindo
por toda
a cama
& a morte
é um sonho.
No meio
da noite
com milhares
de amantes,
o chupão
estalando
cambaleando
a carne
profundamente na
cavidade
da noite
infinita através de
montes
de corpos
eu observo
se isso é
amor ou
guerra. A oca
bochecha
rastejante
onde
eu
nasci.

BLEEDING HEARTS

Know what
I’m jealous of?
Last night.
It held
us both
in its
big black
arms
& today
I hold
between
my legs
a shivering
pussy.
Bleeding &
shaking
wet with
memory
grief & relief.
I don’t know
why the universe
chose me
to be female
so much beauty
& pain,
so much
going on
inside
all this
change
everywhere
coins falling
all over
the bed
& death
is a dream.
Deep in
the night
with thousands
of lovers
the sucking
snapping
reeling
flesh
deep in
the cavity
of endless
night across
mounds
of bodies
I peer over
is it
Love or
war. The hollow
creeping
cheek
where
I was
born.

[de Maxfield Parrish, 1995]

§

 

SEM NOME

não ensaie
faça
de primeira

de repente
uma nuvem
azul
está no
céu

e depois
ela é o
céu

NAMELESS

don’t be rehearsing
be doing it
the first time

suddenly
a blue
cloud is
in the
sky

and then
it’s the
sky

[de Skies, 2001]

§

 

CARO ADAM

Eu disse bolo
eu disse cartola
eu disse microfone
quatro cabecinhas douradas de bebê
espera eu disse pirata fantasma
espera espera eu disse gato de olhos fechados sorrindo
ele está respondendo ai meu deus
eu pensei foda-se consigo ler isso numa maratona
ele disse Eileen smiles
ahhh posso usar isso
o sino do meu computador tocou
mesma mensagem
espera o gato está chorando aliviado
o gato é um demônio agora
o gato não está doido
o gato fazendo um jazz racializado
uh ou não minhas mãos brancas
estou falando com todo mundo agora.
e estou usando um filtro. Não, eu não estou
Reconheço que há uma
imagem minha duplicada. Só recentemente

aprendi o termo mãos de jazz
se fodemos a Pensilvânia, qual a nossa
esperança em viver em um país roubado que sempre foi roubado
e construído em grande parte por pessoas roubadas. De uma diáspora
conservadora vim poeta mestiça de Massachusetts
para deixar minha marca

amor & essas coisas e oportunidades

de falar. Não podemos desistir, estamos cheios de novas oportunidades
de descobrir o significado de resistência

nosso tempo & explodindo o interior do meu computador
estudos de veados
o telefone diz entregue
o que é.
Adam diz você viu minha barba.
Falamos de dinheiro por algum tempo
Ando em minha bicicleta. Sai fora o telefone faz ding.
É a barba dele chamando. Eu digo ah.

você tem o que eu quero.
ele diz lol
então caveira
então foguete
então peru
pistola verde
e uma chama. Eu
não sei o que responder para isso
digo bicicleta e vou.

DEAR ADAM

I said cake

I said top hat

I said microphone

four little golden baby heads

wait I said pirate ghost

wait wait I said closed eye smiling cat

he scrawled back oh my god

I thought fuck yeah I can read this at the marathon

he said Eileen smiles

ehhh I can use it

the bell of my computer rang

same message

wait the cat is crying with relief

the cat is a devil now

the cat is not mad

the cat making racialized jazz

uh or not my white hands

I’m talking to everyone now.

and I’m using a filter. No I’m not

I acknowledge that there is an
image of me twice. I only recently

learned the term jazz hands

if we fucked Pennsylvania up what is our

hope to live in a stolen country that was always stolen

and worked largely by stolen people. Out of a conservative

diaspora came I mongrel poet from Massachusetts

to make my mark

love & these things and opportunities

to speak. We can’t fall down we teem in the new opportunity
we discover what resistance means

our time & blowing up the inside of my computer

buck studies

the phone says delivered

what is.

Adam says did you see my beard.

We talk about money awhile

I ride my bike. Get off the phone goes
ding. It’s his beard calling. I go oh.

you have what I want.

he says lol

then skull

then rocket

then turkey

green pistol

and a flame. I

don’t know what to say back to that

I say bike and go.

[publicado na revista Poetry, está no livro Evolution, lançado em setembro de 2018]

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