crítica, xanto

XANTO | o que as coisas mínimas ensinam sobre as revoluções: uma leitura de “a primavera das pragas” de ana carolina assis, por julya tavares

rascunho3

“rascunho” de joana lavôr para a capa do livro de ana carolina assis

e envolto em tempestade, decepado
entre os dentes segura a primavera
secos & molhados

“praga” é o nome que se dá a ervas ou pequenos animais que destroem plantas, móveis de madeira, livros; é, ainda, o nome da capital da república tcheca, lugar que historicamente teve um papel importante de resistência a um socialismo caduco e autoritário. outro uso muito frequente dessa palavra, em alguns lugares do brasil, se dá na zanga de mães e avós quando querem se referir a suas próprias crianças, que provavelmente estão a aprontar qualquer coisa. no livro bíblico, as dez pragas enviadas pelo deus de israel ao egito só tiveram fim após a libertação dos hebreus escravizados pelo faraó. com isso, pode-se dizer, de algum modo, que as pragas estão intimamente ligadas a desestabilizações, sejam elas políticas, ecossistêmicas ou familiares. ao mesmo tempo, parecem ser ainda as pragas a construir a via para alguma terra prometida possível, também ela política, afetiva e até mesmo ecossistêmica.
ao menos isso é o que imagino quando leio “a primavera das pragas”, livro de ana carolina assis que foi lançado pela editora 7letras em abril de 2019, mês que é o auge da primavera no hemisfério norte, mas não no hemisfério sul. quem tem a força de saber que existe? talvez essa seja uma possibilidade de formulação da pergunta que ana traz entre os dentes e, por meio desse livro, procura compartilhar, uma vez que a primavera, aqui, é das pequenas coisas: lesma, tardígrado, inseto, fungo, criança. porém, antes dos micromundos [alguns quase invisíveis], talvez seja importante pensar também a “primavera”, signo que nomeia a época do ano posterior ao inverno e certos movimentos revolucionários, como a própria primavera de praga [1968], que ecoa no título do livro, e a primavera árabe [2011], citada na orelha. entre a fase do recomeço para a agricultura e as revoluções, o que há para além da proposição de alguma novidade? no caso das estações, ainda, que novidade afinal seria essa, já que seu tempo é cíclico?
na mitologia grega, as estações do ano são explicadas a partir do episódio em que hades, deus do submundo, sequestra perséfone, filha de zeus e deméter. depois de algumas tentativas de trazer perséfone de volta de vez, zeus estabelece um acordo com hades: ela passará nove meses com a mãe, período correspondente à primavera, ao verão e ao outono, mas ficará os outros três, época do inverno, no submundo, ao lado do senhor dos mortos. com isso, pode-se dizer que a chegada da primavera, representada pelo retorno de perséfone à terra, é também um momento de abertura de uma espécie de canal de comunicação entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. ou, de outro modo, a primavera se revela, pela figura de perséfone, uma mensageira das tensões entre o mundo das coisas expostas ao sol, visíveis, e o das coisas não tornadas à luz, invisíveis. em última instância, essa estação cria um circuito possível entre formas de vida distintas e sugere que o mesmo solo sustentador das dicotomias viabiliza contaminações inimagináveis.
nesse sentido, “a primavera das pragas” nos convoca a pensar uma possibilidade de leitura, menor mas não menos importante, dos trabalhos das revoluções: fazer das desestabilizações um espaço de criação de formas de estar no mundo. para isso, é preciso recuperar no corpo um sopro de vida atento à temporalidade e ao modo de funcionamento das coisas mínimas, do universo íntimo e familiar, dos bichos, do cotidiano. é preciso, ainda, reconhecer a linguagem poética como um lugar de experimentação de encontros e desencontros, afinal a comunicabilidade e a incomunicabilidade negociam o tempo todo os sentidos da graça e do horror. a casa não é o mundo, bicho não é gente, o micro não é o macro. mas, há algo de um que ressoa ou pode ressoar no outro: enxergar as diferenças, testar as contaminações.
o primeiro verso do poema que abre “a primavera das pragas” diz “seca seca seca”, como se anunciasse uma paisagem pro livro, a condição de secura do solo sobre o qual ele se firma. ao mesmo tempo, a palavra “seca” pode expressar uma ação no imperativo afirmativo, indicando que talvez haja algum líquido a escorrer dos poemas. por conta desse duplo sentido, a cena cotidiana narrada, de uma criança salgando lesmas para “controlar a febre na praia das pedrinhas”, adquire uma dimensão mais ampla e, a partir dela, é possível imaginar formas de ver a secura.

seca seca seca
aos sete anos adquiriu o costume
de salgar lesmas
pra controlar a febre na praia das pedrinhas

uma colher de sal
pra cada, a vó dizia
são animais viscosos

e por isso
demoram feito charque
– pela pele mole
sem a qual não
seriam brilho
hermafrodita translúcido
quando transam
sem a qual não
chiariam apitos ao desidratar
sem a qual não
seriam vínculo
de carne pouca
com a criança –

[…]

esse poema desenha ainda, pelas imagens da “pele mole e da “carne pouca”, uma aproximação entre a criança e a lesma, como se no processo de salgá-las a criança incorporasse alguma coisa da vida desses bichos. a “pele” aparece também em “[estrangeira parque d’água]”, dessa vez como matéria da fruta e das coxas da criança que sobe na árvore tendo os bichos como cúmplices: “o pássaro olha/ a criança que rasga coxas/ caule acima/ atrás de rasgar a pele da fruta/ depois de seis meses de espera/ os bichos se encaram/ o pássaro firma, cúmplice”. nesse caso, a aproximação entre a criança e a fruta se dá também pelo rasgo, por aquilo que imprime alguma diferença na pele, e mostra que alguns vínculos doem mais que outros.
em “caranguejo” e “bicho sem mar”, o líquido imaginado diante da secura ganha corpo, uma vez que esses poemas parecem rogar um mar em meio à sua própria ausência. o caranguejo e o siri, bichos em torno dos quais eles orbitam, transitam de esguelha entre ilha das flores e ipanema, o primeiro como “retroescavadeira/ na areia preta”, “carne pouca/ pra tanto lodo”, e o segundo como fonte de renda de “adolescentes doidas por um trocado”, entre calos e micoses. o que o mar sim aprende do sem mar?

entre lama
e fuzileiros navais
um caranguejo
de carne pouca
pra tanto lodo
ilha das flores

***

o caldo escorre pelos casacos
das adolescentes doidas por um trocado
debruçadas sobre a caixa úmida
o caldo
entra pelas unhas da vó verdes e ocas
muita micose
um quilo de siri agora custa
cinquenta reais em ipanema

o líquido que escorre, portanto, é viscoso, entre o cozimento, a decomposição e a lama, fazendo ecoar na imagem do mar, ainda que discretamente, as condições difíceis dos lugares marcados por sua ausência; dando a ver, ao mesmo tempo, o tanto que o mar se alimenta do sem mar.
esse último poema começa num tom instrutivo, indicando o passo a passo de como se deve desmontar algo que, a princípio, não se sabe exatamente o que é, mas logo adiante se revela nos versos “coração é coisa que desmonta/ feito caixa de siri cozido”. por meio dessa analogia, “bicho sem mar” sugere que as instruções servem para abrir tanto o bicho quanto o coração. ou seja, que é possível intercambiar modos de fazer entre diferentes esferas da vida e, principalmente, que os mais diversos usos das coisa, das formas de lidar com elas, são criados em nosso dia a dia. outros poemas também imaginam essas trocas, como é o caso de “samburá”:

um samburá serve
pra guardar peixes
uns sobre os outros enquanto
a pesca ainda acontece

é feito de cipó ou taquara
pra que a água escorra
não é feito pra pássaro

mas a vó eta prendeu a galinha, vó
você também fala tanto
de dar outro jeito nas coisas
as gambiarras as gambiarras.

[…]

o convívio familiar e os modos de organização da casa se apresentam como processos criativos que podem adquirir alguma autonomia e vazar da esfera íntima para outras esferas da vida, para outras vidas, como as revoluções, que criam formas de estar no mundo. “dar outro jeito nas coisas” não deixa de ser, ainda, um gesto de reconhecimento da falta, como a do mar em “bicho sem “mar”, mas também as que ecoam nos versos “houvesse gana cimento/ pegaríamos a br 101”; “tivéssemos dinheiro vontade/ compraríamos pão”, ambos de “[permanecem estáticas as pontes do boassú]”; e “tivesse dinheiro não tinha/ escolha ela dizia”, de “praga”. neles, a falta é usina de criação dos desejos, mas sobretudo reveladora da ausência de escolhas, da necessidade de fuga e de alguma fome. afinal, também algumas carências doem mais que outras.
as faltas anunciam, portanto, as ruínas do mundo e, como se pode fazer com o negativo de uma fotografia, levantam-no contra a luz, para que o que resta se deixe entrever. nesse instante, morte e vida convivem e negociam seus próprios sentidos: no centro da própria engrenagem, inventar contra a mola que resiste. em “[dona anita era seca]”, a figura da velha reúne deterioração e capacidade de encantamento, pois apesar de sua aparência caquética e de apresentar sinais de falência do corpo, ela se apaixona por um homem que não a rejeita de imediato, mas sim hesita:

dona anita era seca
amarela de velha
um dia se apaixonou pelo meu tio
entrava em casa quando o portão
era esquecido arreganhado
arrastava as pernas sequíssimas
era muita merda seca fedia tudo
dizia ao tio: que pão!
a vó gritava, espantava ela de casa, não dava tempo do tio decidir

tanto a cena da velha invadindo a casa portão adentro quanto essa espécie de indecisão do tio revelam um atravessamento do esperado pelo inesperado, do ordinário pelo extraordinário, e fazem com que convivam, a um só tempo, a decrepitude e algum sopro de vida, bem como a probabilidade e a improbabilidade de realização do amor. esse que, dona anita sabia, “tá sempre lascado nos veios secos”.
quem lê esse primeiro livro de ana carolina assis e se depara com as relações entre a ruína e a vida das coisas, bem como entre o esperado e o inesperado, pode reconhecer a força das desestabilizações. ou, de outro modo, diante das diferentes figurações da falta, do universo íntimo e familiar, dos bichos e da secura, tem a possibilidade de vislumbrar o mundo visível perfurado pelo invisível. de perceber, por fim, a escrita como um gesto de revolvimento da terra que separa e afirmação da existência daquilo que se ignora ou se prefere ignorar. quem tem a força de saber que existe?
agora, parece que o “quem” da pergunta imaginada pode ser nomeado de muitas formas e que cada uma delas inventa maneiras de trazer à tona os inúmeros universos que vivem apesar de pelo menos alguma indiferença. entre cascas de caranguejo, crostas, terra preta, cacos de vidro, revolver a terra parece ser um jeito de fazer com que surja algum líquido, substância capaz de contornar obstáculos ou arrebentá-los. são muitas as maneiras de abrir caminhos e, nesse sentido, acredito que “a primavera das pragas” ensaie formas revolucionárias possíveis. observar as mais variadas pragas do mundo; trazer a primavera nos dentes.

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Lucas Litrento

desdobros

Lucas Litrento é escritor, realizador cinematográfico e produtor cultural, vive na parte alta de Maceió. Como o Sobrevivendo no Inferno, nasceu em 1997. Estuda Jornalismo na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e integra os coletivos Mirante Cineclube e Pernoite. Os meninos iam pretos porque iam (Graciliano, 2019) é seu primeiro livro. O zine de poesia ROBYN (1TXW, 2020), foi lançado recentemente. TXOW, de contos, será lançado pela Edipucrs, como vencedor do primeiro Prêmio Delfos de Literatura. O livro também ganhou o Prêmio Malê de Literatura. Assina, com Janderson Felipe, o roteiro e a direção do curta-metragem Samuel foi trabalhar (em produção).

* * *

EXU

I

exu me deu um abraço
caminho caminho caminho
quantos braços
formando um outro braço
estendido pro abismo?

II

dentro do sopro
uma voz várias vezes
uma voz várias vezes
feito bússola dentro do sopro
tipo música dentro do corpo
uma voz várias vezes
uma voz

III

a repetição da roda:
só sabe onde termina

a porta giratória dos bancos
sempre trava a origem das ondas
onde começa o atlântico e termina o corpo preto?

IV

repetir o ponto
esperando que desçam
com respostas

e que o refrão
acabe em acalanto

V

caminho
caminho
caminho
acabe
acalanto

VI

vermelho e preto nas costas
a coluna em dobras, es-
trala

VII

a repetição da roda
é um sample
váriasvezesumavozváriasvezesumavozváriasvezesumavoz
todos os seus nomes ao mesmo tempo

§

prê

um sample de uma do d’angelo

há algo de indivisível na concha
jogada ao acaso no leito de um rio
algo de acalanto na meio de um vocativo
partícula carregada de desejo
prê
ensaiam carícias no invisível
no mesmo movimento de chamar
o que não pode se mover
quase um suspiro até as pernas
e as costelas também dizem
que tudo implode tudo é passível de dissolução
tudo é gozo se souberem fazer
sem recuar
o jogo é de mão única

§

01

frexta

vira uma página do muhammad speaks
como quem respira
não deixa que lhe tirem o ar
é ele quem fala a partir da fresta

foge sempre que betty dá à luz
a leveza das crianças é demais
pro seu corpo esguio feito de areia

com a cabeça encostada na janela do avião
cochila feito o menino que já foi
porque é um homem como todos os outros

seus passos são a geografia de uma encruzilhada
mas ainda é um homem
X é um homem como todos os outros

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Victor H. Azevedo

DSC_0714

Victor H. Azevedo (1995) é tradutor, ilustrador, pesquisador e poeta. Nasceu e vive em Natal/RN, onde, junto do poeta Ayrton Alves Badriah, comanda a Munganga Edições, pequena editora artesanal focada na obra de poetas esquecidos ou totalmente desconhecidos. Também em dupla com Ayrton, conduz o blog-projeto “poesia subterrânea” que visa o resgate da obra de velhos (e novos) autores, nascidos e/ou que atuaram literariamente no Rio Grande do Norte, numa tentativa de (re)colocar no circuito literário obras esgotadas ou de difícil acesso. Como tradutor, Victor já traduziu texto de autores como Luís Omar Cáceres, Alice Corbin Henderson, José Luís Hidalgo, Amy Lowell, Jack Spicer, Peter Orlovsky e Richard Brautigan. Como autor, publicou Cachorro Morto (Munganga Edições, 2019), JBG (Shiva Press, 2019), canivete bubaloo (Publicação online, 2017) e Põe duas horas no super nintendo qu’eu quero esquecer da minha vida (La bodeguita edições, 2016). A fotografia que estampa a postagem é de Cecília Pacheco, e as ilustrações são do próprio autor.

* * *

RETRATO FALADO
p/ Camillo José

vi em algum vídeo-ensaio
de que existe um poema
perdido em algum caderno
de anotações dedicado

ao rosto de uma mulher
que nenhum retratista
conseguiu reproduzir.
seu semblante à tinta

era como o rastro
de um animal em fuga.
quem tentasse galgar
em um sfumato seu nariz,

acabava por tomar a via
errada e fazia um rastro
de fumaça, desses que
os aviões deixam quando

cruzam o firmamento.
dos cílios acabavam
surgindo pernas e
braços de letras

findando que os olhos
ficavam amuralhados
de versos quilo-
métricos feitos de cílios.

a tinta era indomável,
desobediente à mão destra
do pintor. luzes e sombras
se desconheciam em qualquer

daguerreotipo que tirassem
da mulher. mármore virava
manteiga no labor do escultor.
por isso o único meio viável

de retratar tal vênus era por
meio de um poema. segundo
constam as fontes, esse tal poema
poderia estar em qualquer lugar.

poderia está escondido nos créditos
finais de um filme de post horror.
poderia está no raio x de uma
das pinturas da artemisia gentileschi.

poderia até mesmo está tatuado
em numa partícula que acaba
de sucumbir a existência em
algum colisor de hádrons por aí.

microfonia

(FALSA TRADUÇÃO DE UM POEMA DO AMADO NERVO)

Não, eu não procuro a grandeza física
Que mensura a existência da montanha.
Prefiro a audição da música sísmica
Andejando a aldeia de tinta tísica,
Que retroalimenta as minhas entranhas.

Vou indo bem — obrigado — por tal via,
Sem mendigar denários ou serviço
Braçal, pois me basta a minha existência
Em terra condenada à luz do dia —
Trazendo alma cheia de carrapicho.

herbanário

quero dizer que a respiração é a mãe
que nos ensina a cair em qualquer tipo de terreno
mesmo que nesse terreno exista um magnetismo
tão excessivo que o tombo seja apenas a prova viva
de que ainda temos joelhos a serem gastos.

ela nos instrui a escancarar bem as guelras
quando a sombra é aguda
e quando há tanta luz líquida
que é preciso ter instalado no coração
uma colônia de nuvens
para absorver e fazer chover
sobre essa estiagem de cometas.

nos faz ter a ciência de que andar descalço
é como se deixássemos nossos pés se confessarem a terra
e que dormir após o almoço é a melhor meditação
que se pode ter em dias de terremotos na carne.

fala também através de códigos secretos
fala que mais valioso que uma mochila lotada de árvores
é o alfabeto que criamos a partir do labirinto
que os pássaros traçam com sua fuga.

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Uma alegria estilhaçada: Poesia brasileira 2008-2018, por Gustavo Silveira Ribeiro

Hoje sai finalmente a antologia preparada pelo professor Gustavo Silveira Ribeiro, em desdobramento da série Uma casa para conter o caos, que foi publicada em 2019, na seção Xanto, e também da antologia A extração dos dias: poesia brasileira agora, publicada aqui em 2017. Como em todos os casos, prezamos pela independência crítica e cedemos o espaço para que ela se desdobre em diálogos e debates. Desta vez a edição foi preparada pela Edições Macondo e deve em breve sair também no formato impresso.

escamandro

Baixe aqui a obra completa:
Uma alegria estilhaçada — Gustavo-Silveira-Ribeiro (org.) 2020.

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“À tarde”, de Aureliano Lessa, por Raimundo Carvalho

Aureliano Lessa – Wikipédia, a enciclopédia livre

À tarde
Aureliano Lessa (1828-1861)

I

Lá descambou o sol… Vai descorando
Manso e manso o cetim vivo-cerúleo
E as vermelhas folhagens que recamam
O côncavo do céu. Transluz no ocaso
Por débil prisma cambiante facho
De semimortas cores, que se perdem
No azul ferrete do noturno manto.
Nevadas franjas flutuando em flocos
Erram nas abas do dossel da tarde,
Como da seda azul que a moça traja,
Cândida renda guarnecendo as orlas.
Galerna a viração farfalha e brinca
Na coma da palmeira; o mar soluça
Esponjando na praia; e a selva freme
Exalando inefável harmonia,
Que os gênios do ermo tímidos murmuram.
Queixosa a juriti na balsa arrula;
Com ela geme o sabiá saudoso,
Assim modula suspirosa flauta,
Assim chama a viúva pelo esposo
Qu’inda tão jovem lhe caiu dos braços.

II

Mãe da melancolia, ó meiga tarde,
Que mágico pintor bordou teu manto
Coas duvidosas sombras do mistério?…
Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar coa nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases…
Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d’anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d’ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam…
Não sei! Há dentro d’alma tantas cousas
Que jamais proferiram lábios d’homens…
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora,
Té de mim próprio sinto um vago olvido,
Um sereno rumor, que a alma dormenta.

III

Salve, filha dos raios e das trevas,
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?… A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: – todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens – té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
Limpa o suor o peregrino errante,
E arrimando ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: – sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo,
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d’alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura,
Que o vazio do coração lhe supram.
Talvez agora na floresta anosa,
Proscrito errante, o índio americano
Para e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
Fadem os Deuses pouso ao peregrino,
Liberdade ao escravo, amor à virgem,
E tardes, como esta, ao triste Bardo.

IV

As inflamadas nuvens já se abatem
Do incêndio ocidental. – Reina o silêncio
Temeroso e fugaz. – A natureza
Entre o sono e a vigília está suspensa.
Oh! quem não sente sussurrar-lhe n’alma
Um desejo inefável como os sonhos,
Uma lembrança incerta e vaporosa?!…
Nesta hora amável, entre a dor e o riso,
Magicamente embala-se a existência;
Em cada coração qu’inda palpita
sonora cai da lira do Universo
Uma nota de amor e de saudade.
Extático , no cimo da montanha,
Feroz não ruge o mosqueado tigre,
E o bálsamo de amor, que a tarde mana,
No coração do bárbaro se infiltra.
Tudo é viver, mas um viver tão lânguido,
Tão misterioso, que parece um sonho:
Calma na natureza, amor em tudo.
Quiçá longe de urdir sangrentas tramas
De inóspito rochedo em negra cova
Responde agora o anjo do infortúnio,
Inimigo dos homens: Tarde ou nunca
De um dormir letárgico desperte!
Vela, gênio do bem, vela em seu sono!

LESSA, Aureliano. Poesias. Edição, apresentação e notas por José Américo Miranda. Belo Horizonte, FALE, 2000. O livro está disponível aqui.

* * *

Algumas considerações a respeito do poema “À tarde”, de Aureliano Lessa

Qualquer análise deste poema deveria começar por reconhecer o seu pertencimento a uma linhagem de poemas vesperais, assim denominados por representarem o eu-lírico meditando à tarde, tendo por objeto o próprio fenômeno natural e suas relações com a existência. Dentre esses poemas, destaco o hino “À tarde”, do pré-romântico Odorico Mendes (1799-1864), o hino “A tarde”, de Gonçalves Dias (1823-1864), o “Hino à tarde”, de Bernardo Guimarães (1825-1884) e “Louvação da tarde”, do modernista Mário de Andrade (1893-1945). Além da aludida temática, esses poemas têm em comum o fato de serem de maior fôlego. São poemas relativamente longos para o padrão lírico em geral, entre 94 a 165 versos, todos tendo por base rítmica, exclusiva ou predominante, o decassílabo branco. O que diferencia o poema de Lessa dos demais, sob o ponto de visto do desenvolvimento do tema, é que, enquanto naqueles o sujeito da contemplação se sobrepõe ao objeto contemplado, nele a presença do sujeito é minimamente anotada, na negativa ou em formas oblíquas, ocorrendo uma espécie de fusão do eu na natureza ( ver versos 33-40). Ao mesmo tempo esse eu-lírico, esquecido de si, em sua imaginação, acolhe o peregrino errante, o pobre escravo, os sôfregos amantes e o índio proscrito. Se observarmos bem a figura de acumulação que vai se formando a partir do verso 50, vemos que ela se conclui com a reiteração dos elementos enumerados, de tal forma que ocorre, no verso 69, uma perfeita identificação entre a natureza, o eu e o outro, se entendermos que a expressão “triste Bardo” condensa uma referência ao “índio americano” citado no verso 59 e uma autorreferência. Há que se perguntar por que, diante de um espetáculo de tal magnitude e beleza como um fim de tarde, a alma do poeta se tinge com as cores da melancolia para, ao mesmo tempo, se solidarizar, sem nenhum proselitismo ou queixa pessoal, com os infelizes e os desterrados: o estrangeiro, o escravo, a mulher (a viúva, a donzela) e o índio. A resposta é todo o poema, urdido das mais sutis ressonâncias, aliterações e rimas toantes adicionando reflexos prismáticos aos decassílabos brancos, numa perfeita correspondência entre gradações sonora e imagética.

Bem, penso que já passou da hora de lermos a obra dos nossos poetas românticos não como documento de época ou exemplo de uma dada poética, mas como poemas simplesmente, nos quais, nós, leitores, possamos projetar o nosso imaginário e a nossa inteligência, sem nos atermos aos juízos nem sempre acurados dos historiadores da literatura.

Raimundo Carvalho

 

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Trish Keenan, por Mariano Marovatto

TRISH-KEENAN-RIP

A inglesa Trish Keenan foi vocalista e letrista do Broadcast, banda que formou ao lado de seu companheiro, James Cargill, em 1995. Com cinco álbuns lançados, Trish morreu em janeiro de 2011, em decorrência do vírus H1N1, a gripe suína, durante a turnê do disco Tender Buttons, na Austrália. O Broadcast, em linhas gerais, possui uma sonoridade bastante onírica que tem como ponto de partida o rock psicodélico norte-americano dos anos 1960 (específica e escancaradamente a banda The United States of America). Fazendo uso de quinquilharias eletrônicas e samples de ruídos de outras eras, a paisagem sonora criada por Cargill é lo-fi, noir, melancólica, nostálgica, freudianamente inquietante. Ao longo de seus 15 anos de trajetória, o Broadcast angariou um numeroso séquito de fãs graças à figura e ao imaginário lírico de Trish Keenan. Cantora e letrista subestimada durante o boom da música pop britânica do final dos anos 1990, Trish disse uma vez que a psicodelia adotada pela banda não era charme ou pose, mas uma questão de afirmação pessoal e sobrevivência: “Quando descobri a psicodelia, ela foi como uma espécie de auto-ajuda para mim. Suas propriedades me permitiram deixar de lado um orgulho imobilizador de classe trabalhadora que eu tinha e que estava cimentando uma identidade falsa na minha psique, impedindo-me de me transformar naquilo que de fato sou”.

Enquanto parte desse séquito de fãs, há alguns anos venho acumulando uma série de projetos acerca da obra de Trish, alguns com queridos poetas parceiros, que nunca consegui dar cabo. Certa noite retomei algumas das traduções que havia feito de algumas das letras da banda e fiz algumas revisões que me pareceram razoáveis. Não segui à risca quase nada das rimas, muito menos da métrica. Não traduzi para cantar em português. Finalmente agora, à convite da Escamandro, publico alguma coisa sobre a letrista, ainda um pequeno pedaço do que gostaria. “Valerie” e “Na hora do almoço” (em inglês, “Valerie” e “Lunch Hour Pops”) são canções do álbum Haha Sound, de 2003. “Botões moles” é versão de “Tender Buttons”, do disco homônimo de 2009. Impossível não associar a morte de Trish Keenan, da falência de seus pulmões por conta de um vírus de rápido contágio, ao cenário distópico que estamos vivendo por conta do covid-19. Fiquem em casa e se cuidem.

Mariano Marovatto

* * *

Valerie

Caio no sono antes de fechar os olhos:
dentro da máscara, outro disfarce.
O cansaço faz desenhos na minha cabeça.
O sol na janela anuncia coisas boas.

Balança os seus brincos no meu cabelo.
Antes de dormir, deita os sonhos no meu travesseiro

O sol no meu rosto não vai expulsar
o silêncio gelado de quando anoitece.
Me afogo no branco do seu quarto.
O céu atrás da cortina anuncia coisas boas.

Balança os seus brincos no meu cabelo.
Antes de dormir, deita os sonhos no meu travesseiro

Valerie

Inside the mask, another disguise
I fall to sleep before closing my eyes
Tiredness draws in my head a cartoon
Sun at the window, good things coming soon

Shake your earrings over my head
Lay down your dreams on my pillow before bed

The silence of ice at the borders of day
Sun in my face will not keep them away
Sinking me into the white of your room
Sky through the curtain, good things coming soon

Shake your earrings over my head
Lay down your dreams on my pillow before bed

§

Na hora do almoço

Eu espero, nas escadas, a cabeça dar um tempo
(deixar os balões saírem, deixar os balões saírem)
Eu espero, nas escadas, serenar o pensamento
(você é o sol na minha cabeça, você é o sol na minha cabeça)

As nuvens balançam como um navio
no mar
a acalmar
a afronta
das ondas

Eu espero nas escadas e tenho uma visão:
objetos de amor pelo ar, objetos de amor pelo ar.
Eu espero, nas escadas, por educação.
(Qual melhor visão posso desejar? Qual melhor visão que há?)

Minha ferida,
inflada
pela clareza,
voe para longe.

(deixar os balões saírem, deixar os balões saírem)

Lunch Hour Pops

I wait on the stairs for a break in my mind
Let the balloons go outside
Let the balloons go outside
I wait on the stairs for my thoughts to align
You are the sun in my mind
You are the sun in my mind

Clouds rock like a ship at sea
Sooth the waves of injury
Clouds rock like a ship at sea
Sooth the waves of injury

I wait on the stairs, there’s a view in my mind
Objects of love in the sky
Objects of love in the sky
I wait on the stairs for my thoughts to be kind
What better view will I find?
What better view will I find?

Inflated with transparency
Float away my injury
Inflated with transparency
Float away my injury

Let the balloons go outside
Let the balloons go outside

§

Botões moles

O carvão, a brasa
O calo, o colo
O pente, a paz
As cores, o córtex
A codeína, o código
O contexto, a vírgula
O coletor, a colheita
A pena, a pane
O sonho, o agiota
O brejo, o bem
A barbatana, apara
A suçuapara, para

O carvão, a brasa
As cores, a carícia
A paz, o pente
As cores, o córtex
O código, a codeína
O contexto, a vírgula
O cadáver, a semelhança

Morre! Corta.
Morre! Corta.
Morre! Corta.
Morre! Corta.
Morre! Corta.
Morre! Corta.
Morre.

Tender Buttons

The coal, the coal light
The callus, the caress
The comb, the calm
The colours, the cortex
The code, the codeine
The comma, the context
The collector, the green
The fine, the fall
The financier, the dream
The fen, the fine
The fin, the defend
The fawn, then do

The coal, the coal light
The colours, the caress
The comb, the calm
The colours, the cortex
The code, the codeine
The comma, the context
The corpse, the likeness

Die, cut, die, cut
Die, cut, die, cut
Die, cut, die, cut
Die

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Roger Robinson, por André Capilé & Prisca Agustoni

Roger Robinson author photo by Naomi Woddis

Roger Robinson [Londres/Trinidad] é um poeta, músico e performer que vive entre a Inglaterra, onde nasceu, e Trinidad, onde passou boa parte da vida levado por seus pais. Conforme diz, para o sítio meet the poet: “Quando eu tinha quatro anos meus pais me levaram para morar em Trinidad. Trinidad é uma ilha minúscula onde todo mundo fala o tempo todo. Principalmente sobre outras pessoas, comida e música; no fim das contas, o que importava era sempre haver histórias. Às vezes, eram mágicas e, por outras, somente inventadas, mas eram sempre histórias divertidas”.

Seu livro mais recente, ainda sem tradução no Brasil, chama-se A Portable Paradise (Peepal Tree Press) e foi vencedor do prêmio T. S. Eliot 2019, anunciado em Londres em janeiro de 2020. Ele é o segundo escritor da herança caribenha a ganhar o prêmio, depois de Derek Walcott, que ganhou o prêmio de 2010.

Toda uma nova constituição de poetas do Caribe, ou influenciados diretamente por tal produção poética, começam a aparecer com maior força, dados os avanços dos estudos diaspóricos e traduções de variados autores, como Cesáire, Glissant, o próprio Walcott, entre outros. Embora insuficiente ainda, não somente em terras brasileiras, vê-se um turno de forças mais evidenciado nos estudos antilhanos de Fred Moten, na NYU, bem como em campos mais atentos à poesia caribenha na Europa.

Robinson lida com uma variedade de temas ligados à família e ancestralidade, bem como as relações perigosas no ofício da arte, embora tenha sido bastante comentado por uma série de poemas que tratam sobre o trágico incêndio da Torre Grenfell em Londres. Os três poemas coligidos aqui, justamente, nos entregam uma pequena amostra das temáticas acima arroladas. São eles “Dolls”, que trata do incêndio mencionado, mostrando forte carga no uso de uma linguagem mista, em que certo coloquialismo ganha bom enredo; “Stubb’s Whistlejacket”, em que o poema narra, de forma tesa e precisão emocional, a constituição do quadro homônimo de Stubbs; e, finalmente, “A Portlable Paradise”, poema que dá título a seu último livro, em que a presença de uma voz ancestral dá a tônica.

Tendo a minha curiosidade atiçada por Prisca Agustoni, demos curso ao início de uma conversa tradutória, entre a complexificação da materialidade dos pronomes, até o uso técnico das dimensões sonoro-métricas no ofício tradutório. Dividimos a tradução, eu & ela, desse “residente britânico com sensibilidade Trini”, pro início de um papo que se promete a mais. Eu, de aqui, agradeço a Guilherme Gontijo Flores, outro com quem estão sedimentadas conversas intermináveis sobre poemas, poesia e tradução, que apontou valiosas dicas de estilo, em passo e outro, bem como a Paulo Henriques Britto, com quem trato, vai já década e tal, de pequenos ajustes da língua e da tecnologia do poema.

* * *

Dolls

If I could, like the gods of fate, somehow rearrange the events, I
would start with Muhammed’s fridge that exploded and started the
fire. I would give Muhammed some clue that all was not right with
it – perhaps his hummus goes off prematurely or the water collects
under the vegetable crisper. Something to make Muhammed replace
the fridge. Then I would give those who died on the top floors a
reason not to be home. I would have had the fire on the day of Carnival
and encouraged those on the top floors be a part of the festivities. I’d
let the husbands who left their wives and families home to earn some
money on night shifts or driving cabs find a little extra money in their
accounts, so that night they’d have taken their children out for
shawarma and orange juice down Marble Arch, while they smoked
shisha and talked about how good their lives felt. All the children who
died would have visited their grandparents that day, here or abroad. I’d
make the cladding that burned like dry straw be fireproofed to
international standards; let life and love continue in Grenfell.

Bonecos

Se eu pudesse, feito os deuses das sinas, de algum modo remontar os eventos, eu
começaria com a geladeira de Muhammed que explodiu e começou o
incêndio. Eu daria a Muhammed a pista de que nem tudo estava bem com
ela – talvez o homus estragando mais cedo ou a água acumulada
sob as verduras na gaveta. Um lance que fizesse Muhammed trocar
a geladeira. Então eu daria àqueles que morreram no andar de cima uma
razão pra não estarem em casa. Eu faria com que o incêndio ocorresse no Carnaval
e atiçaria aqueles do andar de cima a tomarem parte nas festas. Eu faria com que
os maridos que largaram mulher & filhos em casa pra ganhar
um troco nos serões ou como taxistas, a fim de um trocado a mais em suas
contas, naquela noite eles tivessem levado seus filhos pra lanchar
shawarma e suco de laranja sob o Marble Arch, enquanto eles fumavam
xixa e falavam sobre como estar de boa com a vida. Todas as crianças que
morreram visitariam seus avós naquele dia, aqui ou no estrangeiro. Eu faria
o revestimento que queimava feito palha seca ser à prova de fogo dentro dos
padrões internacionais; que a vida e o amor perdurassem em Grenfell.

§

Stubb’s Whistlejacket

Looking at Stubb’s horse in the dark
it becomes clear he was no glamoriser of muscle,
no fetishist of fur and skin.
Convinced that the body was host
to the horse’s spirit, he began making martyrs
of horses, subjecting them to jugular death,
beads of sweat rolling down
their barrelled torsos,
their eyelashes fluttering with a flourish,
as he pumped them with warm tallow
till their pulsing veins and arteries
slowly came to a halt.
Suspending them in a standing or trotting pose
by a series of hooks and tackles,
amid buckets of clotting blood,
first stripping off the skin,
he worked his way through, muscle
by muscle, bone by bone, dissecting
and defining limbs.
Turning the pages in this book of horse,
even in the dark of the museum
I can feel this horse breathing.

“Whistlejacket” de Stubbs

Vendo o cavalo de Stubbs no escuro
fica claro que não era de glamorizar os músculos,
nem fetichista de peles e pelos.
Convicto de que o corpo era o anfitrião
para o espírito do cavalo, ele começou a fazer cavalos
mártires, sujeitando-os à morte jugular,
escorrendo rosários de suor
por seus torsos embarrilados,
por seus cílios tremulando em floreios,
quando ele os bombeava com sebo morno
até que suas veias e artérias pulsantes
lentamente viessem a colapso.
Içando-os numa pose de trote ou repouso
por uma série de ganchos e apetrechos,
entre baldes de sangue coagulado,
primeiro arrancando a pele,
ele abria caminho, músculo
por músculo, osso por osso, dissecando
e definindo membros.
Virando as folhas deste livro de cavalos,
mesmo no escuro do museu
eu consigo sentir esse cavalo respirando.

§

A Portable Paradise

And if I speak of Paradise,
then I’m speaking of my grandmother
who told me to carry it always
on my person, concealed, so
no one else would know but me.
That way they can’t steal it, she’d say.
And if life puts you under pressure,
trace its ridges in your pocket,
smell its piney scent on your handkerchief,
hum its anthem under your breath.
And if your stresses are sustained and daily,
get yourself to an empty room – be it hotel,
hostel or hovel – find a lamp
and empty your paradise onto a desk:
your white sands, green hills and fresh fish.
Shine the lamp on it like the fresh hope
of morning, and keep staring at it till you sleep.

Um Paraíso Portátil

E se eu falar do Paraíso,
estou falando da minha avó
que me disse pra sempre carregá-lo
oculto comigo, pra que
ninguém soubesse além de mim.
Aí eles não podem te roubar, ela dizia.
E se a vida te bota na pressão,
traça seus cumes na algibeira,
cheire o pinho do perfume dela em teu lenço,
cantarola este hino no teu sopro.
E se tuas tensões são diárias, constantes,
segue pra um quarto vago – de pensão,
pousada ou casebre – pegue uma lâmpada
e despeje teu paraíso na mesa:
tuas areias claras, costas verdes, peixe fresco.
luze a lâmpada nele como a esperança fresca
da manhã, e olhe vidrado até você dormir.

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crítica

Abrilhantado email

Dizem que vida de editor é fácil, divertida. Temos dias de joias, verdade seja dita. Aqui vai uma, que recebemos no email da escamandro, endereçado à minha pessoa. Pérola de porco, que atipicamente decidi responder por email e por aqui.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

“Olá  senhor Guilherme Gontijo flores, tendo diante dos olhos tanta MERDA que Vossa Excelencia publica no seu Blog, umas coisas esdrúxulas e cretinas que nem tem o direito de ser consideradas versos, poderia fazer o favorzinho de publicar os meus poemas. De certeza não são piores do que há no web site Escamando ( que  no quesito poemas não é o rio forte da Ilida que combateu Aquiles mas um riacho quase finado, não tem nada de divino como o Xanto de Homero mas é filho das alimárias mais toscas e brutas da terra.)

Os meus poemas, estou certo disso(não por serem meus pois possuo a autocrítica que mais se assemelha a pingue  autodesprezo),não piores do que há no Rscamadrozinho de Vossa Senhoria.

Se minhas palavras suscitarem interesse no senhor( asco sei que elas incitarão neste ponto não me iludo) posso enviar-lhe umas amostras da minha obra. Se quereis informações da minha filiação poética posso considerar-me adepto da prima geração de surrealistas franceses, mas posso escrever poesia quinhentista como a faziam Camões, Sá de Miranda ou tolices românticas e piegas dignas de Musset e Lamartine. O que nunca redigirei serão imbecilidades e porcarias  gigantescas como as maiores montanha da terra e mais mal cheirosas do que quinhentos mil lixões como Ezra Pound e T.S Eliot.

Sei Frances perfeitamente para traduzir Lautréamont e Paul Claudel em veros versos portugueses, mas não desejo ser conhecido como tradutor (ou melhor desconhecido que liga importância a tradutores) , pois possuo obra própria. Se o senhor estiver interessado ela está a vossa disposição. Foi para o prelo um pequeno livro de minha autoria chamado Odes muito Irrestritas( o titulo é abominável mas não ocorreu-me coisa melhor, pela Editoa Albatroz, se quiser posso mandar um exemplar para o senhor quando ele  estiver imnpresso

Att.

Nuno Azurara(este não é meu nome, apenas um pseudônimo; acho que não é de bom-tom para um sujeito da minha profissão ( sou farmacêutico) meter-se com literatura.

Adeus ou até breve depende de vossa excelência”

§

Prezadíssimo sr. Azuzara, não só eu como todo o corpo editoral da escamandro sente-se ofuscado pelo belíssimo email, muito bem ponderado e certeiro. Por ora, no entanto, furtar-nos-emos de abrilhantar tão parca revista com o peso do vosso imenso talento. Certamente ser-vos-ia uma mácula na carreira, e não queremos servir-vos de pecha futura.

Att.

Guilherme Gontijo Flores (este é o meu nome de cartório, pois julgo petulância e/ou covardia tola esconder-se atrás de pseudônimos de gosto palaciano e decadentista, mas pago as contas como professor e tradutor).

Fico (e daqui ficamos) com o adeus mesmo.

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#nãovaiterlista

snoopdogg

como somos absolutamente fora do tempo, nossa lista de leituras de 2019 sai apenas em 2020. de todo modo, é interessante esse descompasso porque assinala a proposta dessa nossa lista: uma lista de afetos, não dos melhores. a ideia foi passar ao largo daquilo que se propõem as listas mercadológicas ao listarem os melhores do ano. os nossos escolhidos, aqui anônimos na decisão de cada editor, se estabelecem antes graças ao afeto provocado nas leituras. são nossos vinte livros que de algum modo nos foram queridos em 2019. isso inclui primeiras leituras ou releituras. nossa intenção era apenas mapear escolhas que nos guiaram ao longo do ano passado.

cada editor escolheu cinco livros, sujeitos à aprovação coletiva. sem a indicação dos nomes, a lista fica sujeita à interpretação do leitor na atribuição dos títulos a cada um de nós. o caos das leituras, o caos do amor, o caos das palavras, o caos: assim foi 2019, assim pretendemos que seja 2020.

sem mais, a lista.

* * *

Contra um bicho da terra tão pequeno, de Érico Nogueira

adão aparas, de Ismar Tirelli Neto

Confissões, de Santo Agostinho

V, de Toni Harrison

Fia, de Jussara Salazar

Paradiso, de José Lezama Lima

O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov, trad. de Irineu Franco Perpetuo

Canção de ninar com fuzis, de Pádua Fernandes

Os nagô e a morte, de Juana Elbein dos Santos

Popol Vuh: o esplendor da palavra antiga dos Maias-Quiché de Quauhtlemallan: aurora sangrenta, história e mito, trad. de Joseph Viana

Ensaios de Possessão (irrespiráveis), de Ana Chiara

Ardis da imagem: exclusão étnica e violência nos discursos da cultura brasileira, de Edimilson de Almeida Pereira e Núbia Pereira de Magalhães Gomes

casamata, de Raïssa de Góes

estirâncio, de Mariano Marovatto

The Undercommons: Fugitive Planning & Black Study, de Fred Moten

Literatura indígena brasileira contemporânea: criação, crítica e recepção, de Julie Dorrico; Leno Francisco Danner; Heloisa Helena Siqueira Correia; Fernando Danner (Orgs.)

Parábola do semeador, de Octávia Butler

Mar, de Ana Miranda

A dolorosa raiz do micondó, de Conceição Lima

eu construía a barricada, de Anna Świrszczyńska, trad. de Piotr Kilanowski

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crítica, xanto

XANTO| “poema como moenda”, a poesia de Daniel Arelli por Arthur Lungov

Lição de matéria (Biblioteca do Paraná, 2018; com segunda edição já prometida pela Edições Macondo para 2020) é um livro que, a princípio, pode ser tomado pelo título, pela literalidade daquilo que traz logo na capa. Os dois substantivos nucleares já dão pista do que virá, ainda que seus significados não sejam em seus significados mais hodiernos: “lição” (sf. (…) 6. Forma particular de interpretar um texto, quando há outro texto sobre o mesmo assunto, com o qual é possível compará-lo[1]) e “matéria” (sf. (…) 3. Denominação comum aos objetos naturais que são utilizados ou transformados pelo trabalho do homem, tendo em vista um fim.[2]). Clareza que despista, portanto. Como já se anuncia na epígrafe (“Tudo é menos do que é./Tudo é mais.” – Paul Celan), é dessa tensão, desse movimento entre o revelado e o encoberto, que os poemas de Daniel Arelli tornam-se peças de investigação.

O que primeiro se destaca na leitura dos textos é a diversidade de fontes que o autor encontra para formar sua obra, e que faz questão em deixar em evidências, sem qualquer dissimulação de suas influências: de tratados científicos, manuais de história, anotações de viagem, tratados antológicos e anedotas filosóficas até a antipoesia de Nicanor Parra e as líricas de Adília Lopes e Manoel de Barros. Dividem-se, nessa lista, dois grupos: as referências literárias, correntes em citações e recriações de textos; e o que se pode chamar de referências extraliterárias (aquelas que vêm de alguma área do conhecimento que não se confunde com a literatura, das ciências sociais às chamadas ‘ciências duras’), trabalhadas especialmente em colagens, deslocamentos e traduções para a linguagem poética.  

Há nessa abordagem algo enciclopédica da poesia, que aglutina linguagens e universos do conhecimento diversos (e da qual temos exemplos célebres nas obras de poetas como Angélica Freitas, Marília Garcia, Leonardo Gandolfi, Alberto Pucheu, Carlito Azevedo etc.), um esforço de compreensão. Longe de ser um movimento de fora para dentro, em que essa variedade impõe-se como projeto, a impressão é de que o projeto é gerido ao redor dessa riqueza de conteúdo, partindo antes dos elementos trazidos do que se valendo deles (“ao lado do poema de repente parece que estou escrevendo/um livro em volta do poema um livro/como um veículo cujo motor é o poema quando menos percebo/escrevi um livro a partir do poema olhando bem parece que o livro/foi se fazendo desde o poema melhor dizendo é como se/o livro tivesse se escrito a si mesmo a partir do poema”), tentando entende-los como peças relacionáveis de um mosaico que vai se traçando. É um movimento contínuo, que vai englobando aquilo que encontra pela frente, e que transforma os mais diversos materiais em matéria de poesia, não penas sem discrimina-los, mas tomando-os como elementares para a completude desse entendimento, em uma leitura equalizadora que lembra em muito Oswald de Andrade.  

A poética de Lição não se limita a colecionar dados, mas os reconfigura em uma prática de inteligência que os aproxima do leitor e do poeta, que pretende ler o mundo, seja aquele da cultura, seja aquele da natureza (faz questão de nos mostrar como são a mesmo realidade) por meio de aproximações analógicas, sensíveis não em termos apenas de emotividade, mas de captar aquilo que existe no mundo e remonta-lo por meio da experiência e da observação. Exemplo claro é o poema “O rinoceronte” (escrito a partir de Theodor Adorno), em que o poeta, ao se deparar com a notícia da possível extinção do rinoceronte, apela para que “só não se esqueçam de dizer/que não haverá mais/a forma do rinoceronte/esta forma exata e insubstituível/que parece dizer:/eu sou um rinoceronte.” Preocupações ecológicas se misturam com a pobreza representativa que a extinção de uma espécie apresenta, e ambos os dilemas encontram sua síntese na tragédia subjetiva que é a falta do rinoceronte no mundo. 

Mas não podemos falar que esse esforço é de uma compreensão completa da realidade, um sistema de signos que se fecha em si. É muito mais rico por ser exatamente o contrário. Sua poética se preocupa em ser “casa que é/sobretudo acesso/espaço que se/habita como/gesto.” E tanto nessa figura arquitetônica abstrata, como na proposta de ser um método de conhecimento contínuo, que abrange aquilo que encontra pela frente, achamos uma das referências mais presentes no livro: a de João Cabral de Melo Neto. O próprio tom que Daniel empresta à boa parte dos poemas, com um (ao menos aparente) distanciamento analítico, não pode ser desassociado do poeta pernambucano. Ainda, na estrutura evidente dos poemas, marca da antilírica cabralina, um projeto de compartilhamento desse conhecimento, que se torna ao mesmo tempo público e reproduzível, que se recusa a encerrar-se na obra, mas que mostra caminhos para formas de inteligência que não se submetem exatamente ao científico ou ao emocional, mas que habitam um entre-lugar.

Em imagem cabralina clássica, Arelli crava que “A poesia é basicamente uma moenda”. Difícil encontrar analogia mais precisa para sua poética, que se preocupa em sondar aquilo que é “pura exterioridade/o que ama/esconder-se”, seja a natureza, a história, a filosofia, nossa herança cultural, genética, ecológica, a poética alheia, o mundo, e transforma isso tudo em algo compreensível. Sempre compreensão parcial, incompleta, que demanda continuidade, mas compreensível, consumível como experiência. Assim como a cana se torna consumo no caldo. O caldo da matéria como lição de que a leitura do mundo pela linguagem passa sempre antes pela incompreensão. Mas que supera seu estado bruto, e forma-se em compreensível em poesia.

* * *

Arthur Lungov é poeta e editor de poesia da revista Lavoura. É autor do Corpos (Quelônio, 2019), obra que foi contemplada pelo 2° Edital de Publicação de Livros da Cidade de São Paulo; e da plaquete Anticanções (Sebastião Grifo, 2019). Foi publicado em coletâneas e revistas literárias. Foi curador convidado da Casa Philos na FLIP 2018, e na Cadeia Literária na FLIP 2019. Email para contato: albugelli@gmail.com


[1] LIÇÃO in: Dicionário Michaelis de Língua Portuguesa. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2019. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/li%C3%A7%C3%A3o/. Acesso em 04/12/2019.

[2] MATÉRIA in: Dicionário Michaelis de Língua Portuguesa. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2019. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/mat%C3%A9ria/

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