Victor H. Azevedo

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Victor H. Azevedo (1995) é tradutor, ilustrador, pesquisador e poeta. Nasceu e vive em Natal/RN, onde, junto do poeta Ayrton Alves Badriah, comanda a Munganga Edições, pequena editora artesanal focada na obra de poetas esquecidos ou totalmente desconhecidos. Também em dupla com Ayrton, conduz o blog-projeto “poesia subterrânea” que visa o resgate da obra de velhos (e novos) autores, nascidos e/ou que atuaram literariamente no Rio Grande do Norte, numa tentativa de (re)colocar no circuito literário obras esgotadas ou de difícil acesso. Como tradutor, Victor já traduziu texto de autores como Luís Omar Cáceres, Alice Corbin Henderson, José Luís Hidalgo, Amy Lowell, Jack Spicer, Peter Orlovsky e Richard Brautigan. Como autor, publicou Cachorro Morto (Munganga Edições, 2019), JBG (Shiva Press, 2019), canivete bubaloo (Publicação online, 2017) e Põe duas horas no super nintendo qu’eu quero esquecer da minha vida (La bodeguita edições, 2016). A fotografia que estampa a postagem é de Cecília Pacheco, e as ilustrações são do próprio autor.

* * *

RETRATO FALADO
p/ Camillo José

vi em algum vídeo-ensaio
de que existe um poema
perdido em algum caderno
de anotações dedicado

ao rosto de uma mulher
que nenhum retratista
conseguiu reproduzir.
seu semblante à tinta

era como o rastro
de um animal em fuga.
quem tentasse galgar
em um sfumato seu nariz,

acabava por tomar a via
errada e fazia um rastro
de fumaça, desses que
os aviões deixam quando

cruzam o firmamento.
dos cílios acabavam
surgindo pernas e
braços de letras

findando que os olhos
ficavam amuralhados
de versos quilo-
métricos feitos de cílios.

a tinta era indomável,
desobediente à mão destra
do pintor. luzes e sombras
se desconheciam em qualquer

daguerreotipo que tirassem
da mulher. mármore virava
manteiga no labor do escultor.
por isso o único meio viável

de retratar tal vênus era por
meio de um poema. segundo
constam as fontes, esse tal poema
poderia estar em qualquer lugar.

poderia está escondido nos créditos
finais de um filme de post horror.
poderia está no raio x de uma
das pinturas da artemisia gentileschi.

poderia até mesmo está tatuado
em numa partícula que acaba
de sucumbir a existência em
algum colisor de hádrons por aí.

microfonia

(FALSA TRADUÇÃO DE UM POEMA DO AMADO NERVO)

Não, eu não procuro a grandeza física
Que mensura a existência da montanha.
Prefiro a audição da música sísmica
Andejando a aldeia de tinta tísica,
Que retroalimenta as minhas entranhas.

Vou indo bem — obrigado — por tal via,
Sem mendigar denários ou serviço
Braçal, pois me basta a minha existência
Em terra condenada à luz do dia —
Trazendo alma cheia de carrapicho.

herbanário

quero dizer que a respiração é a mãe
que nos ensina a cair em qualquer tipo de terreno
mesmo que nesse terreno exista um magnetismo
tão excessivo que o tombo seja apenas a prova viva
de que ainda temos joelhos a serem gastos.

ela nos instrui a escancarar bem as guelras
quando a sombra é aguda
e quando há tanta luz líquida
que é preciso ter instalado no coração
uma colônia de nuvens
para absorver e fazer chover
sobre essa estiagem de cometas.

nos faz ter a ciência de que andar descalço
é como se deixássemos nossos pés se confessarem a terra
e que dormir após o almoço é a melhor meditação
que se pode ter em dias de terremotos na carne.

fala também através de códigos secretos
fala que mais valioso que uma mochila lotada de árvores
é o alfabeto que criamos a partir do labirinto
que os pássaros traçam com sua fuga.

Uma alegria estilhaçada: Poesia brasileira 2008-2018, por Gustavo Silveira Ribeiro

Hoje sai finalmente a antologia preparada pelo professor Gustavo Silveira Ribeiro, em desdobramento da série Uma casa para conter o caos, que foi publicada em 2019, na seção Xanto, e também da antologia A extração dos dias: poesia brasileira agora, publicada aqui em 2017. Como em todos os casos, prezamos pela independência crítica e cedemos o espaço para que ela se desdobre em diálogos e debates. Desta vez a edição foi preparada pela Edições Macondo e deve em breve sair também no formato impresso.

escamandro

Baixe aqui a obra completa:
Uma alegria estilhaçada — Gustavo-Silveira-Ribeiro (org.) 2020.

“À tarde”, de Aureliano Lessa, por Raimundo Carvalho

Aureliano Lessa – Wikipédia, a enciclopédia livre

À tarde
Aureliano Lessa (1828-1861)

I

Lá descambou o sol… Vai descorando
Manso e manso o cetim vivo-cerúleo
E as vermelhas folhagens que recamam
O côncavo do céu. Transluz no ocaso
Por débil prisma cambiante facho
De semimortas cores, que se perdem
No azul ferrete do noturno manto.
Nevadas franjas flutuando em flocos
Erram nas abas do dossel da tarde,
Como da seda azul que a moça traja,
Cândida renda guarnecendo as orlas.
Galerna a viração farfalha e brinca
Na coma da palmeira; o mar soluça
Esponjando na praia; e a selva freme
Exalando inefável harmonia,
Que os gênios do ermo tímidos murmuram.
Queixosa a juriti na balsa arrula;
Com ela geme o sabiá saudoso,
Assim modula suspirosa flauta,
Assim chama a viúva pelo esposo
Qu’inda tão jovem lhe caiu dos braços.

II

Mãe da melancolia, ó meiga tarde,
Que mágico pintor bordou teu manto
Coas duvidosas sombras do mistério?…
Talvez são elas encantados manes
De nossos pais, que errando pelos ares
Vêm segredar coa nossa consciência
Dúbios emblemas de celestes frases…
Talvez são elas pálido reflexo
De um coro d’anjos que a milhões de léguas
Sobre uma nuvem d’ouro descantando
Ante a face do sol longínquos passam…
Não sei! Há dentro d’alma tantas cousas
Que jamais proferiram lábios d’homens…
Entretanto me ecoam pelo espírito
Etéreos sons de peregrina orquestra.
Um doce peso o coração me oprime.
Meu pensamento em sonhos se evapora,
Té de mim próprio sinto um vago olvido,
Um sereno rumor, que a alma dormenta.

III

Salve, filha dos raios e das trevas,
Melancólica irmã das noites pálidas!
Quem te não ama?… A natureza toda
Murmura ao teu passar místicas vozes
Repassadas de unção: – todos os olhos
Passeiam tuas tépidas campinas
Bafejadas de nuvens – té parece
Que a terra, suspendendo o giro, escuta
O adeus que o sol te envia além dos montes.
Limpa o suor o peregrino errante,
E arrimando ao bordão mudo contempla-te
Esquecido do pouso: – sobre o cabo
Da rude enxada recostado cisma
Nos africanos céus o pobre escravo,
Que exausto de fadiga te abençoa
Do fundo d’alma em bárbara linguagem.
Mensageira de amor, tu anuncias
A hora propícia aos sôfregos amantes
Da noturna entrevista; e a donzela
Erma de amor te acolhe pensativa,
Fantasiando quadros de ventura,
Que o vazio do coração lhe supram.
Talvez agora na floresta anosa,
Proscrito errante, o índio americano
Para e eleva-te um cântico selvagem
Nunca ouvido dos troncos que o circundam.
Fadem os Deuses pouso ao peregrino,
Liberdade ao escravo, amor à virgem,
E tardes, como esta, ao triste Bardo.

IV

As inflamadas nuvens já se abatem
Do incêndio ocidental. – Reina o silêncio
Temeroso e fugaz. – A natureza
Entre o sono e a vigília está suspensa.
Oh! quem não sente sussurrar-lhe n’alma
Um desejo inefável como os sonhos,
Uma lembrança incerta e vaporosa?!…
Nesta hora amável, entre a dor e o riso,
Magicamente embala-se a existência;
Em cada coração qu’inda palpita
sonora cai da lira do Universo
Uma nota de amor e de saudade.
Extático , no cimo da montanha,
Feroz não ruge o mosqueado tigre,
E o bálsamo de amor, que a tarde mana,
No coração do bárbaro se infiltra.
Tudo é viver, mas um viver tão lânguido,
Tão misterioso, que parece um sonho:
Calma na natureza, amor em tudo.
Quiçá longe de urdir sangrentas tramas
De inóspito rochedo em negra cova
Responde agora o anjo do infortúnio,
Inimigo dos homens: Tarde ou nunca
De um dormir letárgico desperte!
Vela, gênio do bem, vela em seu sono!

LESSA, Aureliano. Poesias. Edição, apresentação e notas por José Américo Miranda. Belo Horizonte, FALE, 2000. O livro está disponível aqui.

* * *

Algumas considerações a respeito do poema “À tarde”, de Aureliano Lessa

Qualquer análise deste poema deveria começar por reconhecer o seu pertencimento a uma linhagem de poemas vesperais, assim denominados por representarem o eu-lírico meditando à tarde, tendo por objeto o próprio fenômeno natural e suas relações com a existência. Dentre esses poemas, destaco o hino “À tarde”, do pré-romântico Odorico Mendes (1799-1864), o hino “A tarde”, de Gonçalves Dias (1823-1864), o “Hino à tarde”, de Bernardo Guimarães (1825-1884) e “Louvação da tarde”, do modernista Mário de Andrade (1893-1945). Além da aludida temática, esses poemas têm em comum o fato de serem de maior fôlego. São poemas relativamente longos para o padrão lírico em geral, entre 94 a 165 versos, todos tendo por base rítmica, exclusiva ou predominante, o decassílabo branco. O que diferencia o poema de Lessa dos demais, sob o ponto de visto do desenvolvimento do tema, é que, enquanto naqueles o sujeito da contemplação se sobrepõe ao objeto contemplado, nele a presença do sujeito é minimamente anotada, na negativa ou em formas oblíquas, ocorrendo uma espécie de fusão do eu na natureza ( ver versos 33-40). Ao mesmo tempo esse eu-lírico, esquecido de si, em sua imaginação, acolhe o peregrino errante, o pobre escravo, os sôfregos amantes e o índio proscrito. Se observarmos bem a figura de acumulação que vai se formando a partir do verso 50, vemos que ela se conclui com a reiteração dos elementos enumerados, de tal forma que ocorre, no verso 69, uma perfeita identificação entre a natureza, o eu e o outro, se entendermos que a expressão “triste Bardo” condensa uma referência ao “índio americano” citado no verso 59 e uma autorreferência. Há que se perguntar por que, diante de um espetáculo de tal magnitude e beleza como um fim de tarde, a alma do poeta se tinge com as cores da melancolia para, ao mesmo tempo, se solidarizar, sem nenhum proselitismo ou queixa pessoal, com os infelizes e os desterrados: o estrangeiro, o escravo, a mulher (a viúva, a donzela) e o índio. A resposta é todo o poema, urdido das mais sutis ressonâncias, aliterações e rimas toantes adicionando reflexos prismáticos aos decassílabos brancos, numa perfeita correspondência entre gradações sonora e imagética.

Bem, penso que já passou da hora de lermos a obra dos nossos poetas românticos não como documento de época ou exemplo de uma dada poética, mas como poemas simplesmente, nos quais, nós, leitores, possamos projetar o nosso imaginário e a nossa inteligência, sem nos atermos aos juízos nem sempre acurados dos historiadores da literatura.

Raimundo Carvalho

 

Trish Keenan, por Mariano Marovatto

TRISH-KEENAN-RIP

A inglesa Trish Keenan foi vocalista e letrista do Broadcast, banda que formou ao lado de seu companheiro, James Cargill, em 1995. Com cinco álbuns lançados, Trish morreu em janeiro de 2011, em decorrência do vírus H1N1, a gripe suína, durante a turnê do disco Tender Buttons, na Austrália. O Broadcast, em linhas gerais, possui uma sonoridade bastante onírica que tem como ponto de partida o rock psicodélico norte-americano dos anos 1960 (específica e escancaradamente a banda The United States of America). Fazendo uso de quinquilharias eletrônicas e samples de ruídos de outras eras, a paisagem sonora criada por Cargill é lo-fi, noir, melancólica, nostálgica, freudianamente inquietante. Ao longo de seus 15 anos de trajetória, o Broadcast angariou um numeroso séquito de fãs graças à figura e ao imaginário lírico de Trish Keenan. Cantora e letrista subestimada durante o boom da música pop britânica do final dos anos 1990, Trish disse uma vez que a psicodelia adotada pela banda não era charme ou pose, mas uma questão de afirmação pessoal e sobrevivência: “Quando descobri a psicodelia, ela foi como uma espécie de auto-ajuda para mim. Suas propriedades me permitiram deixar de lado um orgulho imobilizador de classe trabalhadora que eu tinha e que estava cimentando uma identidade falsa na minha psique, impedindo-me de me transformar naquilo que de fato sou”.

Enquanto parte desse séquito de fãs, há alguns anos venho acumulando uma série de projetos acerca da obra de Trish, alguns com queridos poetas parceiros, que nunca consegui dar cabo. Certa noite retomei algumas das traduções que havia feito de algumas das letras da banda e fiz algumas revisões que me pareceram razoáveis. Não segui à risca quase nada das rimas, muito menos da métrica. Não traduzi para cantar em português. Finalmente agora, à convite da Escamandro, publico alguma coisa sobre a letrista, ainda um pequeno pedaço do que gostaria. “Valerie” e “Na hora do almoço” (em inglês, “Valerie” e “Lunch Hour Pops”) são canções do álbum Haha Sound, de 2003. “Botões moles” é versão de “Tender Buttons”, do disco homônimo de 2009. Impossível não associar a morte de Trish Keenan, da falência de seus pulmões por conta de um vírus de rápido contágio, ao cenário distópico que estamos vivendo por conta do covid-19. Fiquem em casa e se cuidem.

Mariano Marovatto

* * *

Valerie

Caio no sono antes de fechar os olhos:
dentro da máscara, outro disfarce.
O cansaço faz desenhos na minha cabeça.
O sol na janela anuncia coisas boas.

Balança os seus brincos no meu cabelo.
Antes de dormir, deita os sonhos no meu travesseiro

O sol no meu rosto não vai expulsar
o silêncio gelado de quando anoitece.
Me afogo no branco do seu quarto.
O céu atrás da cortina anuncia coisas boas.

Balança os seus brincos no meu cabelo.
Antes de dormir, deita os sonhos no meu travesseiro

Valerie

Inside the mask, another disguise
I fall to sleep before closing my eyes
Tiredness draws in my head a cartoon
Sun at the window, good things coming soon

Shake your earrings over my head
Lay down your dreams on my pillow before bed

The silence of ice at the borders of day
Sun in my face will not keep them away
Sinking me into the white of your room
Sky through the curtain, good things coming soon

Shake your earrings over my head
Lay down your dreams on my pillow before bed

§

Na hora do almoço

Eu espero, nas escadas, a cabeça dar um tempo
(deixar os balões saírem, deixar os balões saírem)
Eu espero, nas escadas, serenar o pensamento
(você é o sol na minha cabeça, você é o sol na minha cabeça)

As nuvens balançam como um navio
no mar
a acalmar
a afronta
das ondas

Eu espero nas escadas e tenho uma visão:
objetos de amor pelo ar, objetos de amor pelo ar.
Eu espero, nas escadas, por educação.
(Qual melhor visão posso desejar? Qual melhor visão que há?)

Minha ferida,
inflada
pela clareza,
voe para longe.

(deixar os balões saírem, deixar os balões saírem)

Lunch Hour Pops

I wait on the stairs for a break in my mind
Let the balloons go outside
Let the balloons go outside
I wait on the stairs for my thoughts to align
You are the sun in my mind
You are the sun in my mind

Clouds rock like a ship at sea
Sooth the waves of injury
Clouds rock like a ship at sea
Sooth the waves of injury

I wait on the stairs, there’s a view in my mind
Objects of love in the sky
Objects of love in the sky
I wait on the stairs for my thoughts to be kind
What better view will I find?
What better view will I find?

Inflated with transparency
Float away my injury
Inflated with transparency
Float away my injury

Let the balloons go outside
Let the balloons go outside

§

Botões moles

O carvão, a brasa
O calo, o colo
O pente, a paz
As cores, o córtex
A codeína, o código
O contexto, a vírgula
O coletor, a colheita
A pena, a pane
O sonho, o agiota
O brejo, o bem
A barbatana, apara
A suçuapara, para

O carvão, a brasa
As cores, a carícia
A paz, o pente
As cores, o córtex
O código, a codeína
O contexto, a vírgula
O cadáver, a semelhança

Morre! Corta.
Morre! Corta.
Morre! Corta.
Morre! Corta.
Morre! Corta.
Morre! Corta.
Morre.

Tender Buttons

The coal, the coal light
The callus, the caress
The comb, the calm
The colours, the cortex
The code, the codeine
The comma, the context
The collector, the green
The fine, the fall
The financier, the dream
The fen, the fine
The fin, the defend
The fawn, then do

The coal, the coal light
The colours, the caress
The comb, the calm
The colours, the cortex
The code, the codeine
The comma, the context
The corpse, the likeness

Die, cut, die, cut
Die, cut, die, cut
Die, cut, die, cut
Die

Roger Robinson, por André Capilé & Prisca Agustoni

Roger Robinson author photo by Naomi Woddis

Roger Robinson [Londres/Trinidad] é um poeta, músico e performer que vive entre a Inglaterra, onde nasceu, e Trinidad, onde passou boa parte da vida levado por seus pais. Conforme diz, para o sítio meet the poet: “Quando eu tinha quatro anos meus pais me levaram para morar em Trinidad. Trinidad é uma ilha minúscula onde todo mundo fala o tempo todo. Principalmente sobre outras pessoas, comida e música; no fim das contas, o que importava era sempre haver histórias. Às vezes, eram mágicas e, por outras, somente inventadas, mas eram sempre histórias divertidas”.

Seu livro mais recente, ainda sem tradução no Brasil, chama-se A Portable Paradise (Peepal Tree Press) e foi vencedor do prêmio T. S. Eliot 2019, anunciado em Londres em janeiro de 2020. Ele é o segundo escritor da herança caribenha a ganhar o prêmio, depois de Derek Walcott, que ganhou o prêmio de 2010.

Toda uma nova constituição de poetas do Caribe, ou influenciados diretamente por tal produção poética, começam a aparecer com maior força, dados os avanços dos estudos diaspóricos e traduções de variados autores, como Cesáire, Glissant, o próprio Walcott, entre outros. Embora insuficiente ainda, não somente em terras brasileiras, vê-se um turno de forças mais evidenciado nos estudos antilhanos de Fred Moten, na NYU, bem como em campos mais atentos à poesia caribenha na Europa.

Robinson lida com uma variedade de temas ligados à família e ancestralidade, bem como as relações perigosas no ofício da arte, embora tenha sido bastante comentado por uma série de poemas que tratam sobre o trágico incêndio da Torre Grenfell em Londres. Os três poemas coligidos aqui, justamente, nos entregam uma pequena amostra das temáticas acima arroladas. São eles “Dolls”, que trata do incêndio mencionado, mostrando forte carga no uso de uma linguagem mista, em que certo coloquialismo ganha bom enredo; “Stubb’s Whistlejacket”, em que o poema narra, de forma tesa e precisão emocional, a constituição do quadro homônimo de Stubbs; e, finalmente, “A Portlable Paradise”, poema que dá título a seu último livro, em que a presença de uma voz ancestral dá a tônica.

Tendo a minha curiosidade atiçada por Prisca Agustoni, demos curso ao início de uma conversa tradutória, entre a complexificação da materialidade dos pronomes, até o uso técnico das dimensões sonoro-métricas no ofício tradutório. Dividimos a tradução, eu & ela, desse “residente britânico com sensibilidade Trini”, pro início de um papo que se promete a mais. Eu, de aqui, agradeço a Guilherme Gontijo Flores, outro com quem estão sedimentadas conversas intermináveis sobre poemas, poesia e tradução, que apontou valiosas dicas de estilo, em passo e outro, bem como a Paulo Henriques Britto, com quem trato, vai já década e tal, de pequenos ajustes da língua e da tecnologia do poema.

* * *

Dolls

If I could, like the gods of fate, somehow rearrange the events, I
would start with Muhammed’s fridge that exploded and started the
fire. I would give Muhammed some clue that all was not right with
it – perhaps his hummus goes off prematurely or the water collects
under the vegetable crisper. Something to make Muhammed replace
the fridge. Then I would give those who died on the top floors a
reason not to be home. I would have had the fire on the day of Carnival
and encouraged those on the top floors be a part of the festivities. I’d
let the husbands who left their wives and families home to earn some
money on night shifts or driving cabs find a little extra money in their
accounts, so that night they’d have taken their children out for
shawarma and orange juice down Marble Arch, while they smoked
shisha and talked about how good their lives felt. All the children who
died would have visited their grandparents that day, here or abroad. I’d
make the cladding that burned like dry straw be fireproofed to
international standards; let life and love continue in Grenfell.

Bonecos

Se eu pudesse, feito os deuses das sinas, de algum modo remontar os eventos, eu
começaria com a geladeira de Muhammed que explodiu e começou o
incêndio. Eu daria a Muhammed a pista de que nem tudo estava bem com
ela – talvez o homus estragando mais cedo ou a água acumulada
sob as verduras na gaveta. Um lance que fizesse Muhammed trocar
a geladeira. Então eu daria àqueles que morreram no andar de cima uma
razão pra não estarem em casa. Eu faria com que o incêndio ocorresse no Carnaval
e atiçaria aqueles do andar de cima a tomarem parte nas festas. Eu faria com que
os maridos que largaram mulher & filhos em casa pra ganhar
um troco nos serões ou como taxistas, a fim de um trocado a mais em suas
contas, naquela noite eles tivessem levado seus filhos pra lanchar
shawarma e suco de laranja sob o Marble Arch, enquanto eles fumavam
xixa e falavam sobre como estar de boa com a vida. Todas as crianças que
morreram visitariam seus avós naquele dia, aqui ou no estrangeiro. Eu faria
o revestimento que queimava feito palha seca ser à prova de fogo dentro dos
padrões internacionais; que a vida e o amor perdurassem em Grenfell.

§

Stubb’s Whistlejacket

Looking at Stubb’s horse in the dark
it becomes clear he was no glamoriser of muscle,
no fetishist of fur and skin.
Convinced that the body was host
to the horse’s spirit, he began making martyrs
of horses, subjecting them to jugular death,
beads of sweat rolling down
their barrelled torsos,
their eyelashes fluttering with a flourish,
as he pumped them with warm tallow
till their pulsing veins and arteries
slowly came to a halt.
Suspending them in a standing or trotting pose
by a series of hooks and tackles,
amid buckets of clotting blood,
first stripping off the skin,
he worked his way through, muscle
by muscle, bone by bone, dissecting
and defining limbs.
Turning the pages in this book of horse,
even in the dark of the museum
I can feel this horse breathing.

“Whistlejacket” de Stubbs

Vendo o cavalo de Stubbs no escuro
fica claro que não era de glamorizar os músculos,
nem fetichista de peles e pelos.
Convicto de que o corpo era o anfitrião
para o espírito do cavalo, ele começou a fazer cavalos
mártires, sujeitando-os à morte jugular,
escorrendo rosários de suor
por seus torsos embarrilados,
por seus cílios tremulando em floreios,
quando ele os bombeava com sebo morno
até que suas veias e artérias pulsantes
lentamente viessem a colapso.
Içando-os numa pose de trote ou repouso
por uma série de ganchos e apetrechos,
entre baldes de sangue coagulado,
primeiro arrancando a pele,
ele abria caminho, músculo
por músculo, osso por osso, dissecando
e definindo membros.
Virando as folhas deste livro de cavalos,
mesmo no escuro do museu
eu consigo sentir esse cavalo respirando.

§

A Portable Paradise

And if I speak of Paradise,
then I’m speaking of my grandmother
who told me to carry it always
on my person, concealed, so
no one else would know but me.
That way they can’t steal it, she’d say.
And if life puts you under pressure,
trace its ridges in your pocket,
smell its piney scent on your handkerchief,
hum its anthem under your breath.
And if your stresses are sustained and daily,
get yourself to an empty room – be it hotel,
hostel or hovel – find a lamp
and empty your paradise onto a desk:
your white sands, green hills and fresh fish.
Shine the lamp on it like the fresh hope
of morning, and keep staring at it till you sleep.

Um Paraíso Portátil

E se eu falar do Paraíso,
estou falando da minha avó
que me disse pra sempre carregá-lo
oculto comigo, pra que
ninguém soubesse além de mim.
Aí eles não podem te roubar, ela dizia.
E se a vida te bota na pressão,
traça seus cumes na algibeira,
cheire o pinho do perfume dela em teu lenço,
cantarola este hino no teu sopro.
E se tuas tensões são diárias, constantes,
segue pra um quarto vago – de pensão,
pousada ou casebre – pegue uma lâmpada
e despeje teu paraíso na mesa:
tuas areias claras, costas verdes, peixe fresco.
luze a lâmpada nele como a esperança fresca
da manhã, e olhe vidrado até você dormir.

Abrilhantado email

Dizem que vida de editor é fácil, divertida. Temos dias de joias, verdade seja dita. Aqui vai uma, que recebemos no email da escamandro, endereçado à minha pessoa. Pérola de porco, que atipicamente decidi responder por email e por aqui.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

“Olá  senhor Guilherme Gontijo flores, tendo diante dos olhos tanta MERDA que Vossa Excelencia publica no seu Blog, umas coisas esdrúxulas e cretinas que nem tem o direito de ser consideradas versos, poderia fazer o favorzinho de publicar os meus poemas. De certeza não são piores do que há no web site Escamando ( que  no quesito poemas não é o rio forte da Ilida que combateu Aquiles mas um riacho quase finado, não tem nada de divino como o Xanto de Homero mas é filho das alimárias mais toscas e brutas da terra.)

Os meus poemas, estou certo disso(não por serem meus pois possuo a autocrítica que mais se assemelha a pingue  autodesprezo),não piores do que há no Rscamadrozinho de Vossa Senhoria.

Se minhas palavras suscitarem interesse no senhor( asco sei que elas incitarão neste ponto não me iludo) posso enviar-lhe umas amostras da minha obra. Se quereis informações da minha filiação poética posso considerar-me adepto da prima geração de surrealistas franceses, mas posso escrever poesia quinhentista como a faziam Camões, Sá de Miranda ou tolices românticas e piegas dignas de Musset e Lamartine. O que nunca redigirei serão imbecilidades e porcarias  gigantescas como as maiores montanha da terra e mais mal cheirosas do que quinhentos mil lixões como Ezra Pound e T.S Eliot.

Sei Frances perfeitamente para traduzir Lautréamont e Paul Claudel em veros versos portugueses, mas não desejo ser conhecido como tradutor (ou melhor desconhecido que liga importância a tradutores) , pois possuo obra própria. Se o senhor estiver interessado ela está a vossa disposição. Foi para o prelo um pequeno livro de minha autoria chamado Odes muito Irrestritas( o titulo é abominável mas não ocorreu-me coisa melhor, pela Editoa Albatroz, se quiser posso mandar um exemplar para o senhor quando ele  estiver imnpresso

Att.

Nuno Azurara(este não é meu nome, apenas um pseudônimo; acho que não é de bom-tom para um sujeito da minha profissão ( sou farmacêutico) meter-se com literatura.

Adeus ou até breve depende de vossa excelência”

§

Prezadíssimo sr. Azuzara, não só eu como todo o corpo editoral da escamandro sente-se ofuscado pelo belíssimo email, muito bem ponderado e certeiro. Por ora, no entanto, furtar-nos-emos de abrilhantar tão parca revista com o peso do vosso imenso talento. Certamente ser-vos-ia uma mácula na carreira, e não queremos servir-vos de pecha futura.

Att.

Guilherme Gontijo Flores (este é o meu nome de cartório, pois julgo petulância e/ou covardia tola esconder-se atrás de pseudônimos de gosto palaciano e decadentista, mas pago as contas como professor e tradutor).

Fico (e daqui ficamos) com o adeus mesmo.

#nãovaiterlista

snoopdogg

como somos absolutamente fora do tempo, nossa lista de leituras de 2019 sai apenas em 2020. de todo modo, é interessante esse descompasso porque assinala a proposta dessa nossa lista: uma lista de afetos, não dos melhores. a ideia foi passar ao largo daquilo que se propõem as listas mercadológicas ao listarem os melhores do ano. os nossos escolhidos, aqui anônimos na decisão de cada editor, se estabelecem antes graças ao afeto provocado nas leituras. são nossos vinte livros que de algum modo nos foram queridos em 2019. isso inclui primeiras leituras ou releituras. nossa intenção era apenas mapear escolhas que nos guiaram ao longo do ano passado.

cada editor escolheu cinco livros, sujeitos à aprovação coletiva. sem a indicação dos nomes, a lista fica sujeita à interpretação do leitor na atribuição dos títulos a cada um de nós. o caos das leituras, o caos do amor, o caos das palavras, o caos: assim foi 2019, assim pretendemos que seja 2020.

sem mais, a lista.

* * *

Contra um bicho da terra tão pequeno, de Érico Nogueira

adão aparas, de Ismar Tirelli Neto

Confissões, de Santo Agostinho

V, de Toni Harrison

Fia, de Jussara Salazar

Paradiso, de José Lezama Lima

O Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgákov, trad. de Irineu Franco Perpetuo

Canção de ninar com fuzis, de Pádua Fernandes

Os nagô e a morte, de Juana Elbein dos Santos

Popol Vuh: o esplendor da palavra antiga dos Maias-Quiché de Quauhtlemallan: aurora sangrenta, história e mito, trad. de Joseph Viana

Ensaios de Possessão (irrespiráveis), de Ana Chiara

Ardis da imagem: exclusão étnica e violência nos discursos da cultura brasileira, de Edimilson de Almeida Pereira e Núbia Pereira de Magalhães Gomes

casamata, de Raïssa de Góes

estirâncio, de Mariano Marovatto

The Undercommons: Fugitive Planning & Black Study, de Fred Moten

Literatura indígena brasileira contemporânea: criação, crítica e recepção, de Julie Dorrico; Leno Francisco Danner; Heloisa Helena Siqueira Correia; Fernando Danner (Orgs.)

Parábola do semeador, de Octávia Butler

Mar, de Ana Miranda

A dolorosa raiz do micondó, de Conceição Lima

eu construía a barricada, de Anna Świrszczyńska, trad. de Piotr Kilanowski

XANTO| “poema como moenda”, a poesia de Daniel Arelli por Arthur Lungov

Lição de matéria (Biblioteca do Paraná, 2018; com segunda edição já prometida pela Edições Macondo para 2020) é um livro que, a princípio, pode ser tomado pelo título, pela literalidade daquilo que traz logo na capa. Os dois substantivos nucleares já dão pista do que virá, ainda que seus significados não sejam em seus significados mais hodiernos: “lição” (sf. (…) 6. Forma particular de interpretar um texto, quando há outro texto sobre o mesmo assunto, com o qual é possível compará-lo[1]) e “matéria” (sf. (…) 3. Denominação comum aos objetos naturais que são utilizados ou transformados pelo trabalho do homem, tendo em vista um fim.[2]). Clareza que despista, portanto. Como já se anuncia na epígrafe (“Tudo é menos do que é./Tudo é mais.” – Paul Celan), é dessa tensão, desse movimento entre o revelado e o encoberto, que os poemas de Daniel Arelli tornam-se peças de investigação.

O que primeiro se destaca na leitura dos textos é a diversidade de fontes que o autor encontra para formar sua obra, e que faz questão em deixar em evidências, sem qualquer dissimulação de suas influências: de tratados científicos, manuais de história, anotações de viagem, tratados antológicos e anedotas filosóficas até a antipoesia de Nicanor Parra e as líricas de Adília Lopes e Manoel de Barros. Dividem-se, nessa lista, dois grupos: as referências literárias, correntes em citações e recriações de textos; e o que se pode chamar de referências extraliterárias (aquelas que vêm de alguma área do conhecimento que não se confunde com a literatura, das ciências sociais às chamadas ‘ciências duras’), trabalhadas especialmente em colagens, deslocamentos e traduções para a linguagem poética.  

Há nessa abordagem algo enciclopédica da poesia, que aglutina linguagens e universos do conhecimento diversos (e da qual temos exemplos célebres nas obras de poetas como Angélica Freitas, Marília Garcia, Leonardo Gandolfi, Alberto Pucheu, Carlito Azevedo etc.), um esforço de compreensão. Longe de ser um movimento de fora para dentro, em que essa variedade impõe-se como projeto, a impressão é de que o projeto é gerido ao redor dessa riqueza de conteúdo, partindo antes dos elementos trazidos do que se valendo deles (“ao lado do poema de repente parece que estou escrevendo/um livro em volta do poema um livro/como um veículo cujo motor é o poema quando menos percebo/escrevi um livro a partir do poema olhando bem parece que o livro/foi se fazendo desde o poema melhor dizendo é como se/o livro tivesse se escrito a si mesmo a partir do poema”), tentando entende-los como peças relacionáveis de um mosaico que vai se traçando. É um movimento contínuo, que vai englobando aquilo que encontra pela frente, e que transforma os mais diversos materiais em matéria de poesia, não penas sem discrimina-los, mas tomando-os como elementares para a completude desse entendimento, em uma leitura equalizadora que lembra em muito Oswald de Andrade.  

A poética de Lição não se limita a colecionar dados, mas os reconfigura em uma prática de inteligência que os aproxima do leitor e do poeta, que pretende ler o mundo, seja aquele da cultura, seja aquele da natureza (faz questão de nos mostrar como são a mesmo realidade) por meio de aproximações analógicas, sensíveis não em termos apenas de emotividade, mas de captar aquilo que existe no mundo e remonta-lo por meio da experiência e da observação. Exemplo claro é o poema “O rinoceronte” (escrito a partir de Theodor Adorno), em que o poeta, ao se deparar com a notícia da possível extinção do rinoceronte, apela para que “só não se esqueçam de dizer/que não haverá mais/a forma do rinoceronte/esta forma exata e insubstituível/que parece dizer:/eu sou um rinoceronte.” Preocupações ecológicas se misturam com a pobreza representativa que a extinção de uma espécie apresenta, e ambos os dilemas encontram sua síntese na tragédia subjetiva que é a falta do rinoceronte no mundo. 

Mas não podemos falar que esse esforço é de uma compreensão completa da realidade, um sistema de signos que se fecha em si. É muito mais rico por ser exatamente o contrário. Sua poética se preocupa em ser “casa que é/sobretudo acesso/espaço que se/habita como/gesto.” E tanto nessa figura arquitetônica abstrata, como na proposta de ser um método de conhecimento contínuo, que abrange aquilo que encontra pela frente, achamos uma das referências mais presentes no livro: a de João Cabral de Melo Neto. O próprio tom que Daniel empresta à boa parte dos poemas, com um (ao menos aparente) distanciamento analítico, não pode ser desassociado do poeta pernambucano. Ainda, na estrutura evidente dos poemas, marca da antilírica cabralina, um projeto de compartilhamento desse conhecimento, que se torna ao mesmo tempo público e reproduzível, que se recusa a encerrar-se na obra, mas que mostra caminhos para formas de inteligência que não se submetem exatamente ao científico ou ao emocional, mas que habitam um entre-lugar.

Em imagem cabralina clássica, Arelli crava que “A poesia é basicamente uma moenda”. Difícil encontrar analogia mais precisa para sua poética, que se preocupa em sondar aquilo que é “pura exterioridade/o que ama/esconder-se”, seja a natureza, a história, a filosofia, nossa herança cultural, genética, ecológica, a poética alheia, o mundo, e transforma isso tudo em algo compreensível. Sempre compreensão parcial, incompleta, que demanda continuidade, mas compreensível, consumível como experiência. Assim como a cana se torna consumo no caldo. O caldo da matéria como lição de que a leitura do mundo pela linguagem passa sempre antes pela incompreensão. Mas que supera seu estado bruto, e forma-se em compreensível em poesia.

* * *

Arthur Lungov é poeta e editor de poesia da revista Lavoura. É autor do Corpos (Quelônio, 2019), obra que foi contemplada pelo 2° Edital de Publicação de Livros da Cidade de São Paulo; e da plaquete Anticanções (Sebastião Grifo, 2019). Foi publicado em coletâneas e revistas literárias. Foi curador convidado da Casa Philos na FLIP 2018, e na Cadeia Literária na FLIP 2019. Email para contato: albugelli@gmail.com


[1] LIÇÃO in: Dicionário Michaelis de Língua Portuguesa. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2019. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/li%C3%A7%C3%A3o/. Acesso em 04/12/2019.

[2] MATÉRIA in: Dicionário Michaelis de Língua Portuguesa. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2019. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/mat%C3%A9ria/

XANTO| Poesia brasileira, livros da década: parte XI

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]
seleção, textos & notas
Gustavo Silveira Ribeiro

Continuamos aqui a série de pequenos comentários sobre os livros da década, segundo o crítico Gustavo Silveira Ribeiro.

aqui a luz faz o contrário de iluminar
Um teste de resistores
2014 – 7Letras
Marília Garcia
[Rio de Janeiro – 1979]

De todos os livros verdadeiramente influentes publicados na última década, talvez Um teste de resistores seja, dentre todos, o mais estranho, isto é, aquele que traz em si maior carga de diferença e negatividade em relação às formas poéticas correntes no país. Nada do que se escrevia entre nós até então de fato antecipava o circuito criativo de Marília Garcia: nem as formas em fuga de um Manoel Ricardo de Lima, nem as suspensões e modos de desaceleração pensante de uma Annita Costa Malufe, nem as tensões da poética de um escritor-crítico como Marcos Siscar, com quem sua poesia tem mais afinidade no Brasil. Mesmo seus livros anteriores, se lidos com atenção, anunciavam com alguma clareza os desdobramentos que ainda estavam por vir. Na passagem de um livro a outro a poeta se movimenta, vai descartando alguns processos enquanto depura outros, mantendo alerta o sentido de busca da sua poética: da tela de colagens e de soma de muitas vozes que é Encontro às cegas (2001) às formulações especulativas, mas ainda concentradas (restritas, modeladas) de 20 poemas para o seu walkman (2007), se nota um trabalho de esgarçamento do verso moderno, distante, mas ainda em diálogo (talvez melhor seria dizer negociação) com algumas referências centrais da sua geração, os que passaram a escrever entre o fim dos anos 1990 e o início do novo século: Francisco Alvim, Ana C., algumas outras vozes da Poesia Marginal carioca; na escrita-deriva de Engano geográfico (2012), na qual acaso, viagem e desconhecimento (questões decisivas para os trabalhos posteriores) se misturam a leituras de teóricos e poetas franceses do presente (Roubaud, Gleize, Alferri) impondo uma textualidade nova, onde também se vê mais claramente como a presença de um eixo narrativo ganhava corpo em seu trabalho. A publicação de Um teste de resistores, no entanto, radicaliza cada uma das questões que seus livros anteriores traziam, deslocando balizas e subvertendo sentidos que pareciam estáveis. O hibridismo, traço recorrente, mas não dominante, no material pretérito transforma-se nele em ponto fulcral: indeterminam-se prosa, verso e imagens; narrativa autobiográfica, reflexão teórica e algum esboço de filosofia; exercícios de uncreative writing, comentários metatextuais e a encenação contínua do ato da criação poética, feita quase como uma performance. Tudo isso e mais inúmeros outros elementos menores acomodam-se, sem solução definitiva e às vezes de modo excessivamente irregular, dentro do livro em poemas longos e inclassificáveis, fluidos e incertos como os ensaios (uma das matrizes formais desses textos, certamente), musicais a sua maneira (Victor Heringer lembrou, no texto da orelha, dos caprichos; talvez seja mais correto pensar, como já se tentou, nos improvisos do jazz) recusando o lirismo confessional e ligeiro de tantos poemas brasileiros antigos e contemporâneos, preferindo os modos da repetição – que conduzem, ou podem conduzir nos seus melhores momentos, à pequena epifania que lança luz oblíqua sobre o poema e a realidade que o cerca. Procurando interrogar a forma do poema continuamente, testando a sua resistência – isto é, a sua duração, maleabilidade e paciência – Marília propõe, às vezes de modo incômodo para certa crítica, que nela vê apenas devaneios teóricos e o abandono do artesanato do verso, caminhos distintos para a sua arte e para a produção poética atual, centrada na observação insistente de um conjunto de procedimentos. Pois essa é, com tudo o que isso implica de potente e eventualmente limitador, uma poética de procedimento. As referências que a poeta passa a mobilizar mais frequentemente a partir daqui (e que permanecem nos livros posteriores, Paris não tem centro [2015] e Parque das ruínas [2018]), Emmanuel Hocquard sobretudo, além de Kenneth Goldsmith, descortinaram leituras e possibilidades criativas pouco exploradas no país até então, perspectivas que colocam em xeque questões como a autoria, a autonomia do poema, a relação entre criação e crítica.

XANTO| Poesia brasileira, livros da década: parte X

uma casa para conter o caos
dez anos de poesia brasileira
[2008 – 2018]
seleção, textos & notas
Gustavo Silveira Ribeiro

Continuamos aqui a série de pequenos comentários sobre os livros da década, segundo o crítico Gustavo Silveira Ribeiro. O texto que segue é uma derivação da orelha escrita para a antologia poética POESIA +, de Edimilson de Almeida Pereira, que a Editora 34 publicará no início de dezembro. Qvasi, um de seus últimos livros, é também, a seu modo, uma espécie de releitura da trajetória do poeta.

pedra angular dos sem palavra
qvasi
2017 – 34
Edimilson de Almeida Pereira
[Juiz de Fora – 1963]

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Arcaico. Informe. Ancestral. Três caminhos que apontam, sem os esgotar, os compromissos de um poeta e os traços de uma poética, que nesse Qvasi alcançam um ponto de inflexão. Esses três termos podem funcionar como palavras-passe para uma poesia exigente, que se entrega aos poucos, feita de voltas no tempo, torções na linguagem e retomadas simultâneas de múltiplas tradições. O livro em tela é feito da matéria impura de línguas e épocas em sobreposição. Cortados com o rigor da melhor tradição moderna (Valéry, Cabral, Ponge) seus versos (enxutos mesmo quando apresentados sob a armadura da prosa) lançam-se sobre a oralidade do interior de Minas Gerias, elaborando nesse encontro, entre saltos e elipses, o poema – uma forma-força peculiar, intervalo entre passado e presente. O repertório de temas e imagens dessa poesia é também território do amálgama: ali estão a especulação filosófica, a racionalidade científica, a pesquisa histórica, e filológica, junto aos casos da gente comum, mateiros e benzedeiras, caçadores e professoras de crianças. O popular e o erudito são continuamente embaralhados no livro, num processo que resulta na desierarquização crítica dos saberes: os discursos do poder não importam, as vozes da cozinha e do terreiro é que oferecem a sua verdade possível. Múltiplos espaços formam o livro: o das paisagens de Ouro Preto e arredores, montanhas e igrejas envoltas pela História; as ruazinhas, as vilas, os territórios perdidos em que se movem, distantes das grandes cidades, homens e mulheres de outra época, atentos a formas de vida resistentes e necessárias. São habitantes da periferia da Modernidade, egressos de quilombos e capoeiras, uma coleção de personagens desviantes (“os letrados”), cujo traço de vida e violência a poesia de Edimilson capta com perícia, movendo-se numa língua que é, ao mesmo tempo, ‘legal’ e ‘letal’, isto é, esforço de nomeação preciso e gesto secreto de negação, fechamento a qualquer operação de sentido. Atentos à lição metapoética que atravessa toda a sua extensa produção (de 1985 para cá já são dezenas de livros, dos quais se destacam Veludo azul [1985], Árvore dos Arturos [1988] e, mais recente mais quase clandestino, Homeless [2010] meditação trágica sobre águas da e cicatrizes históricas), seus poemas aqui meditam a natureza dissolvente do canto e a força cheia de riscos da palavra escrita. A relação do poeta com a sua arte aqui, longe de ser confortável ou atenta a identitarismos de reconhecimento imediato, é ambígua – num só movimento áspera e vital. Retorno ritual, a atividade poética em Qvasi se inclina na direção de sujeitos apagados e vidas menores, tomadas como afirmação de um outro mundo (mais autêntico, talvez) fixado como um enclave potencial no coração do nosso – burguês, convencional e em frangalhos. Poesia pensante, os versos de Edimilson convidam o leitor (num aceno, quem sabe?, a certa tradição crítica que deve à metafísica heideggeriana seus pressupostos fundamentais) a reaprender, ou inventar, os nomes das coisas da terra, desvelando, no esforço de um olhar tantas vezes inaugural, seu lugar e seu sentido.