Shelley: Ode to Heaven

Percy Bysshe Shelley, retratoPercy Bysshe Shelley (1792 – 1822), além de marido de Mary Shelley – que, ironicamente, acabou se tornando mais famosa que ele, especialmente por conta de seu romance, Frankenstein – foi um poeta romântico, participante daquilo que podemos ver como um segundo momento do Romantismo inglês, ao lado de Lorde Byron e John Keats, e que sucedeu Wordsworth e Coleridge, apesar de estes dois últimos acabarem sobrevivendo a todos os três anteriores. Shelley, por sua vez, apesar de ter tido pouca circulação durante seu (curto) tempo de vida, foi lido e imitado ad nauseum pelas gerações que se sucederam, de Dante Gabriel Rossetti, Algernon Charles Swinburne e Robert Browning até William Butler Yeats e Wallace Stevens, para, então, cair no anonimato com o Modernismo inglês e com o movimento americano da Nova Crítica, junto com o restante dos românticos, que passaram a ser vistos como “inocentes”, “piegas”, “afetados”, “afeminados”, “sentimentais”, etc. Tal preconceito, por sinal, perdura até hoje – basta ver o que vem à mente quando se pensa na expressão “música romântica”– mas, felizmente, parece estar sendo superado pouco a pouco, conforme tradutores e críticos vão reencontrando alguma graça nos românticos, como Augusto de Campos fez em 2009 com Keats e Byron, e André Vallias, no alemão, fez recentemente com a obra de H. Heine.

No entanto, apesar de ser difícil de se acreditar ao se ver ESTE rosto na imagem acima, Shelley era um inconformado: envolvido em escândalos pessoais, expulso de Oxford por circular um panfleto intitulado A Necessidade do Ateísmo, censurado em várias de suas obras por conta de seu teor político, incluindo uma tradução peculiaríssima do Banquete de Platão, que só circulou após sua morte. Como outro contemporâneo seu, William Blake (que ele não leu, mas que partilha com ele semelhanças curiosas), a obra de Shelley compõe uma teologia singular, equiparando o impulso que leva o homem à religião e ao mito ao poder da linguagem poética, e oferecendo-a como alternativa à linguagem oca, falsa, fria, desgastada do cotidiano, onde predomina o ordinário senso comum e o discurso de poder e de manutenção de poder da ideologia. É claro, isso não passa de um resumo brutal e grosseiro de um trabalho de milhares e milhares de versos, mas basta para observar os ecos daquilo que veríamos mais tarde na ideia de religião da arte do Simbolismo, na visão nietzscheana da linguagem como composta de metáforas gastas, e no célebre dito de Mallarmé da poesia para “purificar as palavras da tribo”.

Em português, as traduções de Shelley não são muitas: temos meia dúzia de poemas na coletânea de José Lino Grünewald, Grandes Poetas da Língua Inglesa do Século XIX (editora Nova Fronteira), que, infelizmente, faz um enorme desfavor ao poeta, tanto pela seleção, que foca poucos poemas curtos e de menor relevância, quanto pela execução das traduções, que achatam todo ritmo e simplesmente destroem as rimas (um poema específico,  “Filosofia do Amor”, teve todas as várias e diversas rimas trocadas por rimas em “– ar”); e, mais recentemente, o poema longo O Triunfo da Vida, traduzido por Leonardo Fróes (editora Rocco), as coletâneas Ode ao Vento Oeste e Outros Poemas, de Péricles Eugênio da Silva Ramos (editora Hedra) e Sementes Aladas, de John Milton & Alberto Marsicano (editora Ateliê), que, sem dúvida, fazem um trabalho muito mais louvável de tradução, embora ainda não exatamente minucioso no que diz respeito à manutenção das formas poéticas. Fora essas publicações em livro, destaco três publicações em mídia virtual, uma (To Night) na revista Eutomia, de autoria de Paulo Henriques Britto, e duas (The Tower of Famine e Ozymandias) no blogue do Ivan Justen Santanna.

O poema que publico abaixo, no entanto, não faz parte de nenhuma destas coletâneas e é notável tanto pelo uso de formas típicas do poeta – i.e. o uso de versos em métricas irregulares, mas ainda assim musicais (tanto que até mesmo Eliot, que não simpatizava com Shelley, admitia sua musicalidade) e uma estrutura de coros, como em teatro grego antigo – quanto pela temática de impulso mitopoético que domina a melhor porção de sua poética.

Intitulado “Ode to Heaven”, como veremos, seria talvez mais apropriado denominá-lo uma anti-ode, conforme suas três partes marcam três perspectivas sobre o posicionamento da humanidade no universo: primeiramente a dos deístas do século XVIII; depois, a perspectiva platônica do mundo presente como uma ilusão imperfeita se comparada com a realidade espiritual; e, por último, uma visão que desdenha da ideia da humanidade como sendo relevante no grande esquema das coisas (como afirmam Reiman & Fraistat na página 296 da Norton Critical Edition de Shelley), como extensão de um pensamento desdenhoso da própria relevância do mundo natural, sendo, para Shelley como para Blake, “as dust upon my feet”. O que confere valor na relação mítica entre a humanidade e o mundo natural, então, seria a capacidade criativa do ser humano, capaz justamente de estabelecer esse tipo de relação – e é exatamente isso que este poema, em sua materialidade, faz ao mesmo tempo que celebra.

Ode ao Céu

CORO DE ESPÍRITOS

Cúpula que as nuvens fende!
Éden que áurea luz resplende!
     Infindo, Vasto, Ilimitado,
          És agora e fostes ontem!
     Do presente e do passado
          Do sempiterno Quando e Onde,
               Câmara, santuário, lar,
               Fixo domo a perdurar,
               Dos atos e eras por passar!

Sopras vida a nobres mundos
Que constelam vãos profundos
     E as mais desertas brenhas tuas,
          Que a Terra seguem em sua dança;
     E o alvo e frio cristal das luas;
          E estrelas de fulgente trança;
               E outros mundos verdejantes;
               E, além da noite, os sóis distantes,
               Átomos de luz radiantes.

Até o teu nome é como um deus,
Céu! pois mora em templos teus
     Poderes em que enxerga o homem
          Seu feitio, qual fosse espelho.
     Vêm as gerações, e somem,
          E a ti veneram de joelho.
               Eles mesmos, seu panteão,
               Fugazes, como um rio se vão:
               Persiste — a tua imensidão. —

UMA VOZ MAIS REMOTA

És um átrio à Mente, apenas,
Aonde sobem ânsias terrenas
     Como insetos numa catacumba,
          Iluminados por sincelos;
     Mas abre um mundo o umbral da tumba,
          De graças que farão singelos
               Teus feitos, mesmo o mais sobejo,
               Não mais que um diurnal lampejo,
               Breve sombra de um ensejo!

UMA VOZ AINDA MAIS ALTA E REMOTA:

Paz! Nascido do átomo, coroas
O abismo em ódio com tais loas!
     Que é o Céu? E o que és e fazes,
          Tu, que herdas sua extensão mais mínima?
     Que são sóis e astros fugazes
          Que o pulso desse Espírito anima,
               Da qual és não mais que uma parte?
               Quinhão que a Natureza comparte
               Pingando em finas veias! Parte!

Que é o Céu? Um globo de orvalho,
Pela aurora a estilar do galho
     No olho de uma jovem flor
          Entre esferas impretensas:
     Intactas nuvens de fulgor,
          Dobram-se órbitas imensas,
               Neste orbe a sucumbir,
               Com outros milhões irão se unir,
               Vibrar, faiscar e então sumir.

(tradução de Adriano Scandolara)

Ode to Heaven

CHORUS OF SPIRITS:
Palace-roof of cloudless nights!
Paradise of golden lights!
      Deep, immeasurable, vast,
          Which art now, and which wert then
     Of the Present and the Past,
          Of the eternal Where and When,
               Presence-chamber, temple, home,
               Ever-canopying dome,
               Of acts and ages yet to come!

Glorious shapes have life in thee,
Earth, and all earth’s company;
     Living globes which ever throng
          Thy deep chasms and wildernesses;
     And green worlds that glide along;
          And swift stars with flashing tresses;
               And icy moons most cold and bright,
               And mighty suns beyond the night,
               Atoms of intensest light.

Even thy name is as a god,
Heaven! for thou art the abode
     Of that Power which is the glass
          Wherein man his nature sees.
     Generations as they pass
          Worship thee with bended knees.
               Their unremaining gods and they
               Like a river roll away:
               Thou remainest such—alway!—

A REMOTER VOICE:
Thou art but the mind’s first chamber,
Round which its young fancies clamber,
     Like weak insects in a cave,
          Lighted up by stalactites;
     But the portal of the grave,
          Where a world of new delights
               Will make thy best glories seem
               But a dim and noonday gleam
               From the shadow of a dream!

A LOUDER AND STILL REMOTER VOICE:
Peace! the abyss is wreathed with scorn
At your presumption, atom-born!
     What is Heaven? and what are ye
          Who its brief expanse inherit?
     What are suns and spheres which flee
          With the instinct of that Spirit
               Of which ye are but a part?
               Drops which Nature’s mighty heart
               Drives through thinnest veins! Depart!

What is Heaven? a globe of dew,
Filling in the morning new
     Some eyed flower whose young leaves waken
          On an unimagined world:
     Constellated suns unshaken,
          Orbits measureless, are furled
               In that frail and fading sphere,
               With ten millions gathered there,
               To tremble, gleam, and disappear.

a pena do sapateiro – vinicius ferreira barth

perguntou-me um senhor
o que eu
              calado
tanto dizia em papéis

descreveu seu ofício

– das botas que giram mundos sob os pés
        quão belas são
as que passaram por estas mãos –

parti simplesmente
por entre enchentes e dilúvios

na cabeça versos mal colados
                                               gastos

e galochas nos pés


Vinicius Ferreira Barth

Da misericórdia – adriano scandolara

                        non altrimenti fan di state i cani
                        or col ceffo or col piè, quando son morsi
                        o da pulci o da mosche o da rafani.

                        (Dante, Inferno, Canto XVII)

 

Tudo é estopim,
gota de veneno que estraga vários litros d’água
e a surdez do concreto –
um grito
rasga as cordas
vocais.

Mas o céu é um grande ouvido,
cerúleo muro das lamentações,

já na sala
o cachorro, lenta e
empenhadamente,
coça o cu no tapete.

Adriano Scandolara.

Mais Rumi

Mais uma versão do Rumi via Coleman Barks. Faço apenas uma observação: existem dois sufis citados no poema, Hallaj, místico do século IX-X que foi condenado à morte por suas afirmações paradoxais que beiravam a blasfêmia, e Shams, o grande mestre espiritual de Rumi. Como o poema anterior, encontrei esse no livro Rumi: bridge to the soul (n. 15, p. 48).

amantes encontram lugares secretos
neste mundo violento
onde fazem acordos
com a beleza

a razão nega: absurdo
vasculhei e medi as muralhas
não existem tais lugares

o amor diz: existem

a razão abre o mercado
e começa seus negócios
o amor tem um trabalho oculto

Hallaj se afasta do púlpito
e sobe os degraus rumo à forca

amantes percebem a verdade interior
pessoas racionais a negam

é razoável dizer: render-se
é apenas uma idéia que impede as pessoas
de guiar suas próprias vidas

o amor responde: não
é esse pensar o perigo

usar a linguagem torna obscuro
o que Shams trouxe

todo dia o sol se levanta
das nuvens de palavras baixas
às chamas do silêncio

bernardo brandão

como arlequim – guilherme gontijo flores

COMO ARLEQUIM

que em tempestade copos

            d’água colhe

   do pranto apanha-se

   a pérola do riso

         –-–

            rasgo de uva que desponta

   num cacho de acácias

 

    e funda o velho éden

 

guilherme gontijo flores

Ginsberg: Rain-wet asphalt heat, garbage curbed cans overflowing

Autor dos célebres Uivo e Kaddish, acredito que Allen Ginsberg (1926 – 1997) dispense maiores introduções. O poema que apresento em tradução abaixo, no entanto, é um pouco posterior e proveniente do The Fall of America: Poems of These States, de 1973. Eu, particularmente, gosto dele como maneira de ilustrar, rapidamente num poema relativamente curto, a mistura de tons, entre o profético, místico-delirante e o baixo, tanto no condizente ao banal quanto ao baixo de baixo-calão mesmo, predominantes na obra do poeta. Mesmo em solo tupiniquim, os ecos dessa voz não são difíceis de se encontrar, especialmente quando se lê, por exemplo, a obra de Roberto Piva, cuja re-leitura recente me motivou também a reler Ginsberg.

Calor do asfalto molhado de chuva, latas na sarjeta de lixo transbordando

Eu joguei os colchões sem vida nas pilhas de refugo da calçada,
tapetes velhos pisados da Paterson para a Lower East Side cheios de percevejo,
travesseiros cinza, sofás resguardados da rua de volta à rua
– saída, para ouvir Conto de assassinato, ciclistas da 3rd Street atacados esta noite –
Quicando na chuva, o Caos caído sobre telhados da Cidade,
sudários de vapor químico à deriva sobre o topo dos prédios –
Pegue o Times, Nixon diz paz refletido na Lua,
mas à noite toda não achei rapaz ninguém com quem dormir nas calçadas 3 da manhã em casa na garoa suada –
Esses colchões encharcados sobre cinco cheias lixeiras –
Barbara, Maretta, Peter Steven Rosebud dormiram nesses Travesseiros anos atrás,
nomes esquecidos, também fizeram amor comigo, fiquei com esses colchões quatro anos no meu chão –
Gerard, Jimmy, muitos meses, mesmo o Gordon loiro depois,
Paul com o grande belo caralho, o adolescente que morava na Pensilvânia,
número esquecidos, amores e amantes jovens de sonhos, barrigas terrestres –
muitos jovens fortes de olhos fechados, gozando com um suspiro e me ajudando a gozar –
Desejos já esquecidos, pessoas suaves usadas e com um beijo despachadas
e todas as vezes que gozei sozinho no escuro sonhando com Neal ou Billy Budd
anjos de meia-vida sem nome – coração batendo & olhos em pranto por amáveis fantasmas –
Voltando do Gem Spa, no corredor, um olhar de relance pra trás
e um adeus súbito à pilha de colchões infestados de percevejo encharcados na chuva escura.

(tradução de Adriano Scandolara)

Rain-wet asphalt heat, garbage curbed cans overflowing

I hauled down lifeless mattresses to sidewalk refuse-piles,
old rugs stept on from Paterson to Lower East Side filled with bed-bugs,
grey pillows, couch seats treasured from the street laid back on the street
– out, to hear Murder-tale, 3rd Street cyclists attacked tonite –
Bopping along in rain, Chaos fallen over City roofs,
shrouds of chemical vapour drifting over building-tops –
Get the Times, Nixon says peace reflected from the Moon,
but I found no boy body to sleep with all night on pavements 3 AM home in sweating drizzle –
Those mattresses soggy lying in full five garbagepails –
Barbara, Maretta, Peter Steven Rosebud slept on these Pillows years ago,
forgotten names, also made love to me, I had these mattresses four years on my floor –
Gerard, Jimmy many months, even blond Gordon later,
Paul with the beautiful big cock, that teenage boy that lived in Pennsylvania,
forgotten numbers, young dream loves and lovers, earthly bellies –
many strong youths with eyes closed, come sighing and helping me come –
Desires already forgotten, tender persons used and kissed goodbye
and all the times I came to myself alone in the dark dreaming of Neal or Billy Budd
nameless angels of half-life – heart beating & eyes weeping for lovely phantoms –
Back from the Gem Spa, into the hallway, a glance behind
and sudden farewell to the bedbug-ridden mattresses piled soggy in dark rain.

Algumas imagens do amor na lírica italiana anterior a Dante

O doce stil nuovo é claramente debitário da lírica trovadoresca que floresceu em Provença a partir do século XII: nomes como Bertrand de Born, Arnaut Daniel, Bernart de Ventadorn, Giraut de Bornelh e Sordello, dentre outros, são citados por Dante Alighieri em algumas de suas obras. Algumas características fundamentais desse grupo migrariam para a Itália a partir do começo do século XIII, e aqui cito alguns: a) o uso da língua vulgar (langue d’oc, langue d’oil, língua do ; b) a ligação com a música e formas musicais, como baladas e canções (canzone, derivada da cansò provençal); c) o interesse pela rima como recurso estrutural; e d) diversas temáticas, como a joi diante dos favores da midons (madonna), que engloba muitas vezes uma função alegórica que ultrapassa o sentido meramente erótico dos poemas

Dentro dessa história da lírica vulgar italiana, é importante notar a importância do adjetivo nuovo no doce stil nuovo – essa é a carcterística fundamental no movimento, que implica em seu próprio nome uma tradição lírica já florescente na Itália. Essa história não é tão simples quanto a historiografia e os desenhos cronológicos possam tentar demonstrar; e aqui eu gostaria de fazer uma pequena contribuição às leituras brasileiras sobre o assunto da lírica amorosa no século XIII italiano, com um brevíssimo esboço e duas traduções de poetas que, até onde eu saiba, ainda não chegaram ao português, ou ao menos ao português do Brasil.

A primeira escola poética italiana de renome é a siciliana, em torno de Giacomo da Lentini (ou Jacopo da Lentini, circa 1210-1260); a históri atribuiu-lhe a invenção do soneto, na primeira metade do séc. XIII; e por isso apresento em tradução um dos seus sonetos mais famosos:

 

Resolvi no meu peito a Deus servir,

para poder chegar ao Paraíso,

ao santo espaço em que se diz convir

estável alegria, jogo e riso.

 

Sem minha amada não quisera eu ir,

da tez mais branca e loira que preciso;

pois sem ela, nem gozo, nem sorrir,

se acaso desta amada me diviso.

 

Isso não digo pelo pensamento

de que assim desejasse mais pecar;

mas para ver seu belo encantamento,

 

sua bela tez e a paz em seu olhar:

então teria um tal contentamento

se visse minha amada ao Céu se alçar.

 

Io m’aggio posto in core a Dio servire,

com’io potesse gire in paradiso,

al santo loco ch’aggio audito dire,

u’ si mantien sollazzo, gioco e riso.

 

Sanza mia donna non vi voria gire,

quella c’ha blonda testa e claro viso,

che sanza lei non poteria gaudere,

estando da la mia donna diviso.

 

Ma no lo dico a tale intendimento,

perch’io peccato ci volesse fare;

se non veder lo suo bel portamento

 

e lo bel viso e ’l morbido sguardare:

che lo mi teria in gran consolamento,

veggendo la mia donna in ghiora stare.

 

É notável a construção minuciosa do soneto, que faz de cada uma das suas partes formais também um tópico na sua estrutura argumentativa que prima pela clareza ligeiramente ornada, que vai atrair tanta atenção de Guido Guinizzelli e de Dante, sobretudo na composição da Vida nova. Na primeira quadra, Lentini apresenta o desejo de todo cristão, servir seu Deus e/para alcançar o Paraíso. Mas na segunda quadra a tópica amorosa invade a harmonia entre criatura e Criador, na medida mesmo em que o amor cortês envolve a complicação carnal do amor extra-conjugal, o amor do poeta por uma donna casada, uma mulher nobre, comumente esposa de um homem também nobre rico: assim se estabelece o dilema do amor cortês; e as palavras-chave que aparecem nas duas primeiras estrofes (gioco, “jogo” e gaudere “gozo”) expressam, com pouca ambiguidade, a carnalidade desse amor. Como, então, conciliar o amor terreno e o amor celeste? Lentini não resolve plenamente essa tensão, tal como não a resolveram os provençais em geral, mas preferiu mantê-la como drama amoroso e poético. O máximo que pode fazer é expressar seu desejo de ver a amada também no Paraíso, sem comentar como isso seria possível dentro da contradição pré-estabelecida.

Diante desse drama tradicional da lírica trovadoresca e de seu problema ético imediato, Guittone d’Arezzo (circa 1235-1294) vai radicaliar sua poética em contraposição ao universo do amor cortês. Dele ainda temos 251 sonetos e 50 canzoni pouquíssimo divulgados. Ele será o poeta central da escola toscana, na segunda metade do século XIII, ampliando as influências retóricas da lírica provençal que já haviam entrado na escola siciliana e inserindo uma profunda preocupação político-religiosa no corpus da lírica, algo à moda do sirventès provençal. Sua poética um tanto quanto barroca avant la lettre, cheia de voltas e de um virtuosismo explícito no uso das rimas, será depois contestada pelo dolce stil nuovo de Guinizzelli, bem como seu moralismo anti-amoroso. Traduzo aqui uma canzone da sua fase mais madura (no começo da carreira suas críticas são mais mordazes) que apresenta uma crítica à poesia amorosa vigente, mais forte na Sicília:

Hoje verão se ainda sei cantar

se ainda valho o que valer soía,

porque fujo do Amor, como agonia

que, mais que tudo, tendo a detestar:

pois um suposto sábio ouvi contar

que de encontrar

ninguém vale um vintém,

se a Amor não diz amém;

acertado, porém,

não pode estar,

se o seu pensar

em seu falar

se espelha;

que em toda parte onde se irrompe Amor,

só rege a dor,

no lugar do saber:

e como há de valer,

ou dar prazer,

à guisa de uma flor,

se ao valor

do Criador

se dessemelha

e em todo seu contrário se assemelha?

 

Quem quer cantar, quem quer valer seu tema,

que faça do Direito o capitão

do barco, do Saber o seu timão,

de Deus a estrela e do Louvor o lema:

pois que ninguém jamais foi muito honrado

ou louvado,

buscando o bem carnal;

só no bem, afinal,

se evita o mal,

os vícios e o pecado;

já preparado

ao fado,

a toda hora,

de todo coração, para alcançar

e avançar

seu estado por honor,

sem fugir ao labor;

pois tal valor

não deixa repousar,

mas distanciar;

e o bem lutar

honora,

se na mesura sempre se demora.

Ora parrà s’eo saverò cantare

e s’eo varrò quanto valer già soglio,

poi che del tutto Amor fuggh’ e disvoglio,

e più che cosa mai forte mi spare:

ch’a om tenuto saggio audo contare

 che trovare – non sa né valer punto

omo d’Amor non punto;

ma’ che digiunto – da vertà mi pare,

se lo pensare – a lo parlare – sembra,

ché ’n tutte parte ove distringe Amore

regge follore – in loco di savere:

donque como valere

pò, né piacer– di guisa alcuna fiore,

poi dal Fattor – d’ogni valor – disembra

e al contrar d’ogni mainer’ asembra?

Ma chi cantare vole e valer bene,

in suo legno a nochier Diritto pone

e orrato Saver mette al timone,

Dio fa sua stella, e ’n ver Lausor sua spene:

ché grande onor né gran bene no è stato

acquistato – carnal voglia seguendo,

ma promente valendo

e astenendo – a vizi’ e a peccato;

unde ’l sennato – apparecchiato – ognora

de core tutto e di poder dea stare

d’avanzare – lo suo stato ad onore

no schifando labore:

ché già riccor – non dona altrui posare,

ma ’l fa lungiare, – e ben pugnare – onora;

ma tuttavia lo ’ntenda altri a misora.

 

A edição italiana usa travessões para marcar a série de rimas internas desta canzone, mas preferi, como Pound já havia feito com a Donna mi priegha de Guido Cavalcanti (e como foi seguido por Haroldo de Campos), explicitar o jogo sonoro por meio de intervenções visuais na quebra interna do verso. A canzone está dividida em duas partes: a primeira apresenta o problema moral do amor e, portanto, da poesia que o louva, aconselhando os poetas a se afastarem do gênero; a segunda parte apresenta uma solução – dedicar-se à vida política, e aos versos políticos, numa maior comunhão moral com as virtudes divinas; assim é possível alcançar glória e riqueza honestas. Por fim, ao modo de aviso, o poeta pede que haja (ao modo aristotélico) moderação nessa busca, mesmo que na vida política, para que não se incorra em outros pecados.

O que se pode notar pelo confronto dessas duas poéticas (para além de uma divergência estética radical) é que os dois parecem concordar quanto ao estatuto do cantar de amor; embora divirjam quanto à ética diante do problema: Lentini imerge na contradição e poetiza exatamente a tensão inconciliável; enquanto D’Arezzo foge do problema e propõe outras temáticas para a estética trovadoresca. É aqui que entram as obras de dois Guido’s: Guinizzelli e Cavalcanti, que só pretendo apontar, sem traduzir, por crer que já temos algumas traduções (poucas, é verdade) em português, além de mais estudos.

O doce stil nuovo tem em Guido Guinizzelli (1230-1276) sua figura fundadora (ou pelo menos a mais importante figura em seu princípio) e prima pela inserção de temáticas filosóficas e teológicas na poesia amorosa, dentro daquela aparente contradição entre a moral trovadoresca da corte e os ensinamentos morais dos mosteiros e universidades. Essa mesma incoerência transforma-se em tema autoconsciente do próprio Guinizzelli, que traça analogias entre a figuração erótica da amada e a divinização dos anjos; assim, na sua solução para o problema amor x virtude, a sua amada começa a ser mais imediatamente alegorizada, seu amor não é propriamente o amor da carne, mas o amor divino encarnado da amada (cf. Al cor gentil rempaira sempre amore, na tradução de Haroldo de Campos, em Pedra e luz na poesia de Dante).

A última parada antes de Dante é a obra de Guido Cavalcanti (1250-1300). Sua poesia amorosa irrompe fora da linha evolutiva que poderíamos traçar e demonstra como essas linhas evolutivas não passam e reflexão teórica a posteriori, ao passo que a realidade – e, é claro, a reladidade poética – é muito mais complexa e variada. Em sua visão, o amor, longe de constituir uma aproximação divina, ou de ser marcado pelo pecado, é um ponto de perdição material na exata medida em que aniquila as faculdades racionais (cf. por exemplo Donna mi priegha, na tradução de Haroldo de Campos, no ABC da literatura de Ezra Pound; ou a balada Quando di morte, na tradução de Augusto de Campos, em Invenção). Sua poesia é filosófica, mas não tão teológica quanto poderíamos esperar de um poeta de fins da Idade Média, o que, de certa forma, atesta seu averroísmo (tema que nem consigo tratar, mas que poderia nos ajudar a entender porque seu pai Cavalcante chora tanto no Canto X da Commedia de Dante, quando imagina que seu filho está morto – eu diria que Dante está sutilmente dizendo que, se já estivesse morto, Guido Cavalcanti estaria entre os hereges, apesar de ser seu amigo pessoal e de poesia). Nessa negatividade do amor, não haveria uma possibilidade de educação do amante, tal como teremos anos depois em Dante. Mas não me demoro: é possível conferir uma série de ensaios sobre Cavalcanti na revista-blog Modo de usar & co.

Em resumo: repensando um pouco essa tradição lírica do século XIII talvez possamos entender melhor a quem Dante está respondendo (de forma extraordinariamente crítica e inovadora) quando olha pra trás e percebe uma variedade de modos lírico-amorosos. Ainda que a Vida nova seja dedicada a Cavalcanti, não podemos deixar de contrastar a forma e o conteúdo – ou, mais ao gosto moderno, a ética e a estética – críticos que contradizem Cavalcanti. Do mesmo modo, Dante não seguirá Guinizzelli, como um súdito fiel do dolce stil nuovo. Beatriz, muito mais do que uma amada, é o símbolo que Dante encontrou para responder uma tradição multifacetada da poesia amorosa que ele estava lendo e criando.

 

guilherme gontijo flores

SAUDADES DO CALIFADO – bernardo lins brandão

para Bruno Gripp

 

SAUDADES DO CALIFADO
disse-me um renunciante em uma tarde de outono

o sol se punha
a lua e as estrelas
como um punhado de conspiradores
que tomam o poder na ausência do rei
apareciam aos poucos

o dervixe me ofereceu um pouco de vinho
e partiu

bernardo brandão

dr. smith – vinicius ferreira barth

em entrevista ao jornal
britânico telegraph
ele diz que sua primeira
experiência sexual
         com um carro
                       foi aos 15
                                      anos

desde então
ele nunca mais se sentiu atraído por mulheres ou homens

Vinicius Ferreira Barth