poesia

1 poema inédito de Mariana Basílio

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Mariana Basílio é prosadora, poeta, ensaísta e tradutora. Nascida em Bauru, interior de São Paulo, em 1989.  Mestre em Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Autora dos livros de poesia Nepente (2015) e Sombras & Luzes (2016). Colabora em portais e revistas nacionais e internacionais, tendo traduzido nomes como May Swenson, Alejandra Pizarnik, Edna St. Vincent Millay, Sylvia Plath e William Carlos Williams. Com patrocínio do prêmio ProAC (2017) do Governo de São Paulo, publicou em 2018 seu terceiro livro, o poema longo Tríptico Vital (Patuá). O projeto também foi finalista do programa de Residência Literária do SESC (2018). Mantém o site www.marianabasilio.com.br. Já esteve presente na escamandro com poemas autorais e traduções de Denise Levertov e Edna St. Vincent MIllay.

*

Brasil 2019

O poema Fim, disposto nessas linhas em três atos, foram versados durante o resultado do período de eleições presidenciais de 2018. Apesar de a autora não ser partidária nem de si, nem de outros, sentiu no avesso do estômago o resultado das urnas, e ali sentou o pensamento. O fato finito talvez esteja nos brasis de um só Brasil, que continuam abrasados como vespas amontoadas em nossos cílios – nada ordenados ou progressistas. Eis apenas uma imagem. Primeiro publicada na revista impressa portuguesa Flanzine (18º), a convite de João Pedro Azul, e lançada nos dias 8 e 15 de dezembro de 2018 nas cidades de Porto e Lisboa, agora disposta na revigorante escamandro, pelo fino trato de Nina Rizzi.

Mariana Basílio
*

បញ្ចប់

PRIMEIRO ATO

 Toda a manhã consumida
Como um sol imóvel
Faiscado nas rugas do
Percurso móvel.
Toda a manhã consumida
O DESERTO – rigoroso horizonte –
Bico dos seios no cu que se curvava: um anel dourado
O lombo estralado na pátria assassinada
Rasteja nos pares ao fundo
Condor, ó condor resvalado!
Pelos dedos dos pés há um menino há uma
Menina rasgados pela sagrada escritura
Onde as palavras tornaram-se inúteis.
Os despachos os cantos os berros os
Ouvidos: atentos! Mentes confinadas
– Estou sem ar! – disse ele.  – Está bem… que seja…
Apenas deixe-me sair… por favor.
O lastro da boca é o leite derramado
Ouve-me. Ouve-me enquanto
“É o coração de Cabestan no prato.”
Cospem no céu, cospem no chão
– Aonde vocês vão? – espantaram-se as senhoras de K.
– Anna Pávlovna, aonde você vai, querida?
Pro inferno, diacho, pro inferno de Riobaldo!

Es el inospito! Es el inospito! Es el inospito!

UM VAZIO hoje se condecora com lágrimas –
Esqueçam os faróis, os traços são mesmo azuis
E ainda vivemos aqui

SEGUNDO ATO

Assim a luz chove, assim verve o estômago
Talheres dispostos, silêncio silente le solo seul
Nós pairamos aqui
Água férvida, espasmos estridentes à
Comida entalada no pescoço porque
NADA mudará compondo o abismo do amanhã
“And to die is different from what any one supposed, and luckier.’’
Pelos dedos das mãos há um homem há uma
Mulher mutilados pela hipocrisia literária.
Ouve-me. Ouve o espanto tragado de mim que
Vi as piores mentes da minha geração saudadas pela loucura
Cuspidas no céu, cuspidas no chão aos
Animais cochichando “Como são imbecis os humanos!”
Com o coração perfurado da vida o coeficiente da morte é esquartejado
Pelo próprio corpo, e é só o começo comestível de mil anos
A madeira lascada, o vidro trincado, a lama putrificada
É uma dança de adeuses no passado gigante que nos ouve
Zoe says this is over! this is over! this is over! this is over!
Mas não acabou o mar com o fogo
Na lareira do tempo o teu crisol na caça fundida dos chacras
“Eleonora, ἑλέναυς e ἑλέπτολις!”
A tromba elevada, as costas ancoradas
A água jorra do inesperado
CABRUM CABRUM ela se refez da mata

TERCEIRO ATO

Koi no yokan diz a placa
Altar dos demônios expirados nos sorrisos de criança
Os camaradas não disseram que havia uma guerra e era necessário trazer fogo e alimento.
O BRASIL recoberto de mágoas chafurdando corações
– Eram uns tempos grávidos de nomes,
era um rumor de apelos
e de dádivas. – com os lábios segurando cigarros no entardecer.
Altar das vísceras cindidas nos enganos de todo santo dia.
Percorrer a Glória, endoidecer perante os rostos pedindo moedas
No arpoador gazelas fogem dos tiros por detrás, à esquerda
Há uma miudeza mofando pelas axilas há medo e há lume
– Era uma noite; e as cobras se enlaçavam
destronadas; e um mundo se paria. – o peito inflamado de fumaça
Tossia ainda que a lua se dispusesse no sonho desalmado da noite.
Mas ainda caminhávamos, sedentos,
– E, entanto, o olhar audaz e visionário
Já tem clarões sinistros de fogueira! – um pau entre as coxas esporrava
Ela dizia socorro! E o mundo de costas aplaudia – cabeça entre lágrimas
Abraçada nos destroços da padaria: uma senhora
De las geraciones de las rosas
que en el fondo del tiempo se han perdido
Alguém já contou nossos dias, alguém que já sabe das horas
Acaba de proferir o manifesto dos odiados.
Cosme contemplava a ternura e os faróis ressurgiam:
O que sou eu, gritei um dia para o infinito
E o meu grito subiu, subiu sempre
Até se diluir na distância. – Mas as pontas não se enlaçavam.
As armadilhas na dentadura do cadáver sob a mesa do jantar
Eram o próprio sol imóvel, dissecado na memória,
Escalado nas paredes do paraíso que nos destruirá
A VOZ – “Pensa no que te disse, se não quiseres te arrepender!”
Um caranguejo se agiganta no açoite
Macunaíma deu uma grande gargalhada.
A verdadeira dor é incompatível com a esperança.

Um porco caminha procurando por comida na rua do Bairro de Bangu.
Um porco caminha procurando por comida na rampa do Palácio do Planalto.

De dois em dois nessa vala um pressentimento ainda faísca na
Manhã consumida – o coro das vozes é aqui incendiário –
A limpeza dos ideais se exalta no nu de nossas cabeças.

E estou moribunda à beira do caminho.

*

 

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poesia

Julia Raiz

julia raiz

julia raiz. escrevo, sou professora no cursinho “tô passada” do transgrupo marcela prado. no doutorado estudo tradução, ensaio e crítica literária feminista. como militante, construo a frente feminista de curitiba e região, também edito os blogs literários totem & pagu e pontes outras. meu livro de estreia “diário: a mulher e o cavalo” saiu em 2017 pela contravento editorial.

*

você diz não acreditar em incêndio
como se desastres
dependessem da sua habilidade
de tacar fogo no corpo

sonhei antes de passar por essa trilha
com um carvão pairando sobre
a minha cabeça

não tão preto quanto seus cabelos
nem tão enredado
quanto o coração dos cachorros
que você devora

do carvão saíam cabos de aço
tortos tantos e ainda assim
você não sabe fingir
nem dizer a verdade

se voltasse àquela casa
da chinesa fu
talvez soubesse
que te entregaram uma adaga
como símbolo da sua entrada
no mundo dos homens
que não usam bermudas
ainda que com vontade
ainda que ardendo
por dentro

eu digo não acredito em incêndio
e penso em sigilos
cadeados
e torneiras mal fechadas

§

você confunde o amor com uma pérola

o poeta na parede
com um tiro na testa
também sabia seu nome
sabia da constância do topo nevado
mesmo no calor do seu pescoço
ele podia ter fugido pelo mar
em vez de conviver
com seus impulsos violentos

a destruição minando
de cada contraparte

ele teria gostado de te socar a cara
como um jaguar
saindo da água quente
eu não me importo mais
com o tamanho do corte
não quero mais seguir mergulhando
odeio você
e a sua cidade aquática
só amo o lorca

§

p/ júlia manacorda

as coisas passam com tanta velocidade
júlia
queria te contar como me apaixonei
por uma sala três anos atrás
e como era difícil
respirar lá dentro com as janelas
me convidando a medir o tronco
uma sala em permanente reforma
que nunca existia
por mais de alguns dias
intacta e que no fim esteve fechada
por dois meses na companhia
de homens estranhos
pensei que você
dentre todas as pessoas
entenderia o que é
ter andaimes no lugar do tórax
as cores de uma sala circular
passam tão alucinantes
quanto uma tempestade
quanto a sua alegria
no centro da cidade
a história segue enferrujando
às nossas costas
júlia
nesses últimos dias
eu vomito mercúrio
de tanta saudade
daquela sala
de passagens secretas
parece que eu nunca vou deixar
de gritar seu nome à noite
como a versão que você chamaria de moderna
de um pesadelo antigo

§

a mim você eu não me engano

sabe que ontem
eu trepava com quem me ama

uma onda por cima de um terremoto

o que saia de mim era o som de um órgão
crispando no fogo

eu ri sem parar

queria acabar com vocês
um monstro de duas cabeças

comê-las como se louvasse a deus

esta é a primeira última página
a que me dedico a te enganar

de nada por ter me marcado a ferro

agora só me resta deitar neste vão
não ter medo de que você pela rua
saia com a pele brilhando

§

julia raiz

Julia Raiz, poemacolagem sem título, 2015.

1

sarah se pergunta antes de dormir com o quê sonha o lula. ela sabe que a Outra sonha com o irmão sendo espancado de novo. um braço retorcido, lá fora a árvore floresce. 0 reais pra pagar o botijão de gás. o pai da Outra entra na casa pra levar a geladeira mais duas vezes, a televisão já era. lá fora tem mais 3 homens mexendo no lixo. 1 escreve uma novela-folhetim sobre o estado brasileiro, o outro tem formulada na cabeça uma teoria dos olhares, o último volta pra casa com dor de cabeça, não sabe se é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo e ainda pagar a condução.

2

o final de tarde é um martírio, a gente sabe, companheiro. COM O QUÊ SONHA O LULA? gladíolos. a resposta sobre os retrocessos e certezas dos mitos é irrelevante, disfarça a atriz, sentada na cadeira de plástico com os talheres de plástico. caiu do seu bolso uma imagem do carneirinho de São João. neste momento voa pela calçada uma compradora de gladíolos, flores que são comuns nessa época do ano.

3

o objetivo da sarah sempre foi complexificar o tubarão pra complexificar o rapaz e a sua genitália. nunca foi simplificar, nunca, nunca. ela sofre por isso. como uma mulher complexa ela sofre por saber que o rapaz de óculos espelhado é um universo inteiro em si, que o tubarão representa o que existe de mais real no universo: um corpo em movimento pela sobrevivência. sarah não exige que as pessoas saibam de imediato fazer com ela um bom sexo oral, não quer colocar essa pressão nas costas alheias. ela mesma não sabe o que faz, às vezes. olha, são ímpetos de humanidade querer descobrir do que as gentes são feitas, se vem a Outra e te ameaça com uma faca de carne, te obriga a entregar seu celular que você nem acabou de pagar (tá na sétima parcela ainda), sarah, você faz o quê? começa a gritar que ela é sua irmã? você abraça ela como se fosse um menino descalço passando na rua, sarah? esse tempo já passou, o tempo da ficção brasileira da CULPA & PERDÃO, da INOCÊNCIA & CASTIGO já foi! o que você vai fazer agora, sarah? que os moldes foram destruídos…você precisa olhar pra cara das pessoas nas ruas e gritar me digam, pelo amor de deus, me digam como eu posso servir.
todos esses rostos textos bonitos pra quê?

*

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poesia, tradução

Ronya Othmann (1993—), por Valeska Brinkmann

Ronya Othmann Nasceu em 1993 em Munique, estuda Escrita Literária em Leipzig. Escreve poesia, prosa e ensaios. É integrante do coletivo lírico GID. Tem publicações, em revistas (alemãs) como BELLA Triste, Poetin, Yearbook of Poetry, Caderno fim de semana do jornal TAZ e Spiegel literatura. Ganhadora do Leonhard e Ida Wolf Memorial Prize da cidade de Munique, 2013, Prêmio de literatura MDR 2015 e bolsa de residência na casa de artistas Lukas (Ahrenshoop, Alemanha) e em 2017 o Prêmio Caroline Schlegel.No momento trabalha no seu primeiro livro de poemas e num romance.

Sua escrita é profunda e pessoal e ao mesmo tempo política. Filha de pai curdo-yazidi e mãe alemã , Ronya trabalha em seus poemas temas como guerra, fuga e identidade cultural.

Os poemas a seguir foram tirados da revista literária Poetin, nr 24 (editora poetenladen, Leipzig primavera de 2018)

 

Valeska Brinkmann nasceu em 1972 em Santos, estudou Radio e TV na FAAP em São Paulo. Trabalha na emissora de Rádio e TV pública de Berlim, onde vive há 16 anos. Escreve contos e histórias para crianças. Tem textos publicados em sites literários na Alemanha e no Brasil (Stadtsprache Magazin, Literaturabr). Publicou em 2016 Pedrina – A perua que queria ser Pavão – Die Pute die ein Pfaul sein wollte, pela editora Bübül Verlag Berlin.

* * *

deita-se em lençois finos como num
papel, uma traça desdobrada, um
animal macio. eu empurro teus braços e
pernas de lado, o peso delas e você para
o sono. mais esse campo não pode
demarcar e para que fim. na frente
da casa a chuva e eu estou de sapatos.
como um cervo encalhado se comporta
e agora apenas cevada e varas para onde quer que
se vá. uma lacuna, minha
bainha está molhada. e o lugar de espera
um pedaço de chão, uma mancha clara
logo será sua cercania. mas eu vou
com vermute. tem que se empurrar
alguma coisa no meio como serragem, que
amortece o passo. nos esporos não
dá para ler. e eu permaneço no
herbário.

es liegt sich auf dünnen laken wie auf
papier, eine aufgefaltete motte, ein
zartes tier. ich schiebe deine arme und
beine beiseite, ihr gewicht und dich in
den schlaf. mehr kann dieses feld nicht
abstecken und zu welchen enden. vor
dem haus steht regen und ich in schuhen.
wie verhält sich ein gestrandetes reh.
und jetzt. nur gerste und gerten wohin
man geht. ein steckraum, mein
stecksaum ist nass. und die wartestelle
ein stuck boden, ein heller fleck, wird
bald seine umgeung sein. ich aber gehe
mit wermut. man muss etwas
dazwischen schieben wie streu, das
dämpft den schritt. an den sporen kann
man nicht lesen. ich halte mich auf im
herbarium.

§

aquilo que não se enquadra no que eu
poderia escrever em janeiro. os cabelos dela
no meu travesseiro não fazem nenhuma
peruca, eu queria camas de hospital
como navios. lençóis brancos, me desfaço
de tudo. braços, pernas, tronco, ovários.
amanhece, gota a gota.
as mãos dela não são as mesmas que me
viram e reviram. tateio o azul
em buca de indícios. sob meus
olhos fechados. passos, a jaqueta dela
bate na cintura, uma batida na
madeira, a porta. não é o tempo de
gerânios.

das nicht darunter fällt, was ich unter
den Januar schreiben kann. ihre haare
auf meinen kissen machen noch keine
Perücke.ich wünsche mir krankenhaus-
betten wie schiffe. weiße laken, ich gebe
alles ab. arme, beine, rumpf, eierstöcke.
es dämmert sich ein, tropfen für tropfen.
ihre hände sind nicht die, die mich
drehen und wenden. ich suche das blau
ab nach anzeichen. unter meinen
geschlossenen augen. schritte, ihre jacke
schlackert um die hüfte, ein klopfen auf
holz, die tür. es ist nicht die zeit für
geranien.

§

um cervo acossado na neve, indo para o ponto de fuga. como se tudo
                                     [fosse apenas um
desenho. os abetos minguaram. para onde quer que se olhe lavoura.
outro trabalho não tenho, apenas esse arar, lavrar,
sulcar. antes de fugir para o branco.// eu não sigo ninguém somente
o tempo de degelo, esse regato, essa queda. é muito evidente. quem     [desenhou esses mapas
e riscou. tenta um pouco, toma
como exemplo, os casacos fechados até em cima, o cabelo
                                         [descolorido.//
como um animal que lambe suas feridas, e eu num mar. mas
aqui é só telha de zinco. uma reverberança de longe, a via expressa
traz alguns destroços da praia e a mim, com olhos fechados // me
                                                  [traz
à terra dos meus antepassados e uma bengala, para
se necessário, eu ainda poder me defender no túmulo.

ein in schnee gehetztes reh, zum fluchtpunkt hin. als wäre alles nur eine zeichnung. die fichten haben sich gelichtet. wohin man sieht feldarbeit. eine andere habe ich nicht, nur dieses abgepflüge, herumgeackere, umgefurche. bevor es fluchtet ins weiß.// ich folge niemandem nur dem tauwetter, diesem rinnsaal, hinfall. sinnfällig ist vieles. wer hat diese karten gezeichnet und striche gezogen. man versucht sich ein wenig, nimmt sich als beispiel die hochgeschlossenen mänteln, das blondierte haar.// wie ein tier, das sich seine wunden leckt, und ich an einem meer. aber hier ist nur wellblech. eine halligkeit von fern, die schnellstraße spült manches strandgut und mich, mit geschlossenen augen // bringt mich in das land meiner vorväter und einen spazierstock, damit ich mich bei bedarf, im grab noch verteidigen kann.

 

 

 

 

 

 

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crítica, xanto

XANTO|Um poema de Marília Garcia entre a voz e o ruído: a desorientação e o aqui-e-agora em Câmera Lenta, por Rafael Zacca


             A melancolia pode ser compreendida como uma desorientação. Esse parece ser um dos sentidos que ligam a sua formulação na antiguidade até a nossa época. Se para Freud a pessoa melancólica é alguém para quem a libido se perdeu (não como se diz de alguém ou algo que desapareceu, mas de alguém ou algo que está perdido, que não encontra caminhos), já na Antiguidade ela estava associada à desorientação causada pelo movimento dos astros.

O grego Hipócrates sustentava que alguém poderia se desequilibrar sob a influência de Saturno. A passagem do planeta agiria diretamente sobre os nossos fluidos corporais, permitindo que a chamada “bílis negra” (em grego melankholia, mélas: negro / kholé: bílis) se sobrepusesse aos outros fluidos, desacelerando, desmotivando e desapaixonando o melancólico.

            Se é assim, a ligação entre uma melancolia mais profunda e a desorientação pode ser traduzida sob o signo do desastre. Em Melancholia, filme de 2011 de Lars von Trier, esse radicalismo é levado ao limite do pessimismo, sob a forma de um destino: a melancolia acabará com toda a humanidade, como um grande planeta que nos engolirá. O desastre (desastro, do latim disaster) faz coincidir o colapso de Claire (personagem interpretada por Charlotte Gainsbourg), o niilismo de Justine (Kirsten Dunst) e o fim da humanidade sobre o pano de fundo de um casamento que já nasce arruinado entre Claire e John. Em outras palavras, o esvaziamento do sentido de uma tradição social (o casamento), a negação da vida, o estado melancólico e um desastre planetário fundem-se num mesmo evento, vestidos com a máscara da inevitabilidade da má fortuna.

            A relação imediata entre má fortuna e desastre é um lugar que conhecemos de longa data na história da arte. A poesia de Marília Garcia em Câmera Lenta, no entanto, nos apresenta uma forma incomum de leitura do desencontro astral. Ela faz com que esse desencontro opere tanto negativa quanto positivamente nos seus poemas, fazendo do desastre ao mesmo tempo força destrutiva e construtiva. Nesse sentido, nos apresenta um jeito de confiar no desastre.

            Não é a primeira vez que a poeta transvaloriza o que usualmente compreendemos como pura negatividade. O erro, o defeito, o desencontro, tudo isso tem lugar em seus trabalhos anteriores. Há um caso envolvendo a segunda edição de 20 poemas para o seu Walkman (2016, primeira edição em 2007) a esse propósito: a capa surge de um pequeno engano envolvendo um cometa. A poeta narra o evento em seu blog:

“as ondas que desenhei ali [na capa da segunda edição de 20 poemas para o seu Walkman] representam os sons do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko gravados pela sonda rosetta, em 2014. a partir dos gráficos de som que peguei na internet, fiz algumas experiências e desenhos para chegar nessa ilustração. na época de fechar a capa do livro, fui para um festival na romênia e, por engano, acabei imprimindo um dos poemas que leria no festival em cima do gráfico de som do cometa.”

            O primeiro poema de Câmera lenta faz alusão à coincidência entre humor melancólico e atmosfera, ou clima (por todo o livro, aliás, a narradora parece olhar para o céu, ou pelo menos dedicar boa atenção aos sons e aos eventos que vêm de cima). O poema chama-se “hola, spleen”, e começa assim:

um dia
ela me disse
“hola, spleen”
e eu demorei mas depois
percebi que era uma
frase sobre
o tempo.

            Sim, sobre o tempo, pois é sobre isso que fala a palavra spleen (derivada do splēn grego, que significa “baço”, onde, para Hipócrates, se produzia a bílis negra, a melancolia). Ela está ligada à história moderna da poesia, quando Charles Baudelaire incorporou a palavra ao seu vocabulário, e com a qual designava um estado melancólico, mas também tedioso. Spleen se referia a uma instabilidade emocional subjetiva diretamente relacionada a uma instabilidade climática objetiva, isto é, a um tempo nublado. Mau tempo significa, do ponto de vista do spleen, uma indistinção entre melancolia e céu fechado. Num poema de Baudelaire que leva por nome “Spleen”, lemos (na tradução de Ivan Junqueira) as estrofes:

Quando o céu plúmbeo e baixo pesa como tampa
Sobre o espírito exposto aos tédios e aos açoites,
E, ungindo toda a curva do horizonte, estampa
Um dia mais escuro e triste do que as noites;
(…)
– Sem música ou tambor, desfila lentamente
Em minha alma uma esguia e fúnebre carreta;
Chora a Esperança, e a Angústia, atroz e prepotente,
Enterra-me no crânio uma bandeira preta.

            A frase enunciada no poema de Marília Garcia, “hola, spleen”, era sobre o tempo, mas não somente porque aludia a uma condição climática, senão porque aludia também a uma desestruturação temporal. Ou a uma condição anacrônica da subjetividade melancólica. Vejamos como a coisa se passa. A poeta conta que precisava ler um poema chamado “hola, spleen”, mas que ficara sem voz. Gostaria de ter gravado o poema, assim poderia simplesmente “ligar a voz”, mas não o tinha feito, e também não tinha como “produzir / voz”. Combinou, então, que faria a leitura no mês seguinte. E é assim que Marília Garcia se apresenta ao seu leitor, no primeiro poema de Câmera lenta: “assim, / esta voz que fala aqui / é a voz de uma marília de um mês atrás / é a minha voz falando a partir do passado, / é a minha voz, / mas sem controle.” Como um astro perdido no tempo. Depois, a poeta se pergunta: “como fazer para essas palavras escritas / há um mês dizerem algo / sobre estar aqui / agora?”

Esse é o dado melancólico de sua escrita: a poeta tem consciência de seu desligamento temporal, de sua anacronia, e da própria anacronia entre os poemas e a experiência. Por isso, angustia a poeta a impossibilidade de transportar o seu aqui-e-agora para o leitor, já que o desligamento entre palavras e coisas desinveste o poema de seu caráter mediador, isto é, de sua função de transmissão de experiências.

A voz que produz sentido não pode viajar intacta entre dois aqui-e-agora, mas Marília parece confiar em uma coisa. Pelo menos o ruído, que mina o sentido, pode ser refeito. É quase como se intuísse que a produção de sentido destrói a experiência cujo sentido se quer transmitir; resta, então, recuperar a dimensão ruidosa de sua significação. A função de seus poemas é menos a de relatar ou transmitir experiências (mesmo quando, em tese, o fazem, ao contarem de filmes, livros ou acontecimentos vistos pela poeta) e mais a de desastrá-las, ou acidentá-las. E é por isso que a poeta propõe: diante do desencontro da voz, “talvez a gente pudesse fazer silêncio / e de repente neste silêncio / acontecer de ouvir algo por detrás / dos ruídos das máquinas voadoras que / cruzam o céu. (…) / – vocês estão ouvindo? / um som infernal / estrelas caindo do céu / em cima da cabeça / com as pontas viradas / para baixo.”

A melancolia, e o spleen, desorientam o indivíduo e desapossam-no do espaço, mas lhes dão tempo. O tempo estende-se infinitamente para o melancólico, e é nesse tempo infinito que o “som infernal” tem lugar. Nessa anacronia ilimitada a experiência pode se estender radicalmente. O poema “hola, spleen”, que, a princípio, simula uma leitura pública de si mesmo, torna o seu “assunto principal”, essa leitura, o seu “tema secundário”. E em primeiro relevo surge uma especulação ruidosa: “fiquei me perguntando / se hoje estaria chovendo / ou fazendo sol, / se faria frio ou não, / e se haveria poeira no ar. / eu sempre me surpreendo / com a poeira que turva a vista: / de repente no meio dia / uma poeira que se ergue, / uma nuvem de poeira, / pode ser a poeira vinda das coisas quebradas / todos os dias na vida das pessoas”.

Ao longo de Câmera lenta acompanhamos Marília Garcia fazer e observar gestos mínimos, cenas curtas, que se abrem para uma temporalidade que se multiplica sobre si mesma. E porque não podem ser recuperados, passam por um processo de estranhamento que os torna irreconhecíveis (como Chklovsky sonhou a função poética, como Ostranenie). Ou melhor, quase reconhecíveis. Porque são quase reconhecíveis as suas cenas, quase podemos compreender o que se passa nos poemas. É o caso, por exemplo, do poema “é uma love story e é sobre um acidente”:

“é uma love story e é sobre um acidente”, leitura de Marília Garcia em vídeo de Ricardo Domeneck

            Em certas tradições poéticas (como no romantismo ou no simbolismo), a obra é compreendida sob o signo da necessidade: a sua forma e o seu conteúdo são exigidos por um núcleo poético que resiste em seu interior. Assim, por exemplo, essa tradição defende que um poema, para ser de fato um poema, deve ter justificados, em seu interior ideal, todos os versos e a disposição das palavras de modo que tudo faça sentido em sua articulação perfeita.

Em outras palavras, nada é entendido como arbitrário. O poema é como um sistema solar, em torno do astro luminoso que é a sua ideia. “é uma love story e é sobre um acidente” subverte essa exigência, invocando as forças do desastre que tira de órbita os elementos do poema. Os versos, livres, podem ser reordenados (e eliminados) de “a” a “z”, fazendo ressurgir um poema dentro do poema, em que ele se refaz em ordem alfabética com a exclusão de alguns versos e palavras. Se palavras e coisas, poema e experiência, se descolaram, os astros, fora de órbita, estão livres para o ordenamento arbitrário. A pretensa forma racional do dicionário traz, como resultado, a mancha ruidosa da love story / do acidente. Essa forma racional é o acidente do próprio poema.

            Por isso, os escritos de Câmera lenta são desastrados. Não estão alinhados, mas em movimento. Não são obras bem-acabadas, mas devires. Enunciam um vir-a-ser dos poemas que eles poderiam ser. São textos híbridos, entre a prosa e a poesia, entre os andaimes e o edifício, entre o astro e o rastro, entre o vivido e o imaginado. E é neste entre (um ruído limiar a uma coisa e outra) que eles confiam – algo que não pode ser identificado. O que lhes dá um caráter de aqui-e-agora é muito mais esse ruído que o tempo verbal da narradora. Ou, como diz o poema “bzzz”:

às vezes ouço o mesmo ruído ao redor
como um ninho de abelhas
um bzzz em cima da ponte
e uma sombra escapando
mas não era perigo,
era só um barulho na hora de ouvir
o que mais importava.

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poesia, tradução

Jorie Graham (1950-), por Vinícius Portella

Jorie Graham (EUA, 1950) é uma poeta; desde sua estreia em Hybrids of Plants and of Ghosts (1980), Graham vem sendo reconhecida como uma das vozes mais agudas de sua geração, com sua mistura densa e ágil de registros oscilando entre mitologia e ciência. Sua dicção se aproxima do modernismo sem se engessar em nenhum procedimento estético padrão, e sua atenção varre os objetos tradicionais da lírica com a mesma gravidade com que lida com questões de grande escala, como a atual crise ambiental. Ganhou o Pulitzer em 1996 com o livro The Dream of the Unified Field.  

Vinícius Portella (Brasília, 1988 publicou o romance Procedimentos de Arrigo Andrada em 2017 e é doutorando em literatura comparada na UERJ.  https://medium.com/@macacofantasma.

Eu estou lendo sua mente

aqui. Estive por séculos. Não, mais. Tudo já tem sido.

Não é um lugar razoável, esse contínuo entre nós, e ainda
aqui de novo eu ponho as oliveiras, viro o bosque vasto pra baixo,
suas milhas de cabeças cheias de folhas desvarridas para que o vale todo trema seus prateados ventados

aquosos… Um calor estranho está sobre nós. De novo. Isso foi você pensando isso. Eu que sugeri
Talvez o vento. Nós dois botamos a linha do horizonte agora, a grande solidão,
sua pegada, caos recuado mas ainda lá. Depois da finitude você vai continuar vindo na minha direção

isso se queixa, branquiçado com não-desaparecer. A gente sente o mesmo a respeito disso. O mesmo

o quê? A gente sente tem mais. Esse é o normal. A gente quer viver com o desconhecido
na nossa frente. Recuando, sempre recuando. Um sumiço se movendo sobre tudo. Uma vacância sonolenta. É o ceu, sim, mas esse pensamento também. Como do começo, aqui estou, uma mente sozinha nos campos, as ovelhas cavalgando e caindo nos declives da terra. O

sono um deus ruim vindo pra presumir que somos idiotas, cuidando, sonolentos, os animais gorgorejando e atropelando, engasgados de cardo, ardendo. Uma pomba numa pedra. Céu nenhum
de que se diga, o deus persiste, quer se aposentar, acha que é fim de jogo,
o que poderíamos ser – névoa prestes a secar, luz quase apagando uma parede sem motivo, aleatório

assim. Isso deve ter sido lá em A.C. Ou em 1944. Com certeza em 2044 estaremos
de novo no campo, cuidando, esperando para surpreender o deus que acha
que sabe o que ele fez. Bem, não. Ele não sabe. A gente pode ser uma cavidade pequena
mas ela guarda um grande faminto – quanto que isso te dói, fazedor de capricho – você não tem ideia

ao que demos as costas para vir estar aqui nesse campo de terra e cuidar – sim cuidar –
esses rebanhos de minutos, sussurando até que a eternidade em nós seja esprimida e a gente se pese com fim de jogo. Eu teria mencionado a alma. Como sabemos que você contrabandeou isso pra dentro, manchando essa carne toda com isso, esfregando e girando isso tudo por dentro com

seu pano de deus. Enxague. Repita. Apanhe isso – aqui com esse cajado que logo transformo
numa caneta de novo – brilhantemente negligente, diligente, dentro desse senso de si todo realmente sem forma – eu ouço o riso do fosso de irrigação que eu fiz, eu vejo o campo seco
aloirado pra cima e verde, o dia lambe os beiços, eles voltaram, os inventores, eles vão fazê-lo

de novo, salpica-semente, chuva palhaça vindo para soltar tudo. Quantas vidas serão dadas, quantas vamos trocar por isso – vem em alqueires, gramas, polegadas, notas,
corvos nos observam como sempre fizeram, voltando do fim do mundo
para crocitá-lo a começar de novo. Nos estime. Não vai parar. Sem resultado nenhum mas fazendo. Os

bandos correm ao longo enquanto o cachorro persegue e eu ando devagar. Eu admiro o que eu tenho o que eu sou e penso que a noite é nada, as estrelas clicam sua ascensão, eu sinto subir em mim,
a palavra, eu sinto a caveira debaixo da pele, eu sinto a pele ágil e brilhar e esconder a
caveira e é daí que ela sobe agora, eu sinto o gosto antes de dizê-la, essa canção

I am reading your mind

here. Have been for centuries. No, longer. Everything already has
been. It’s not a reasonable place, this continuum between us, and yet
here again I put the olive trees in, turn the whole hill-sweeping grove down, its
mile-long headfuls of leaves upswept so the whole valley shivers its windy silvers,

watery … A strange heat is upon us. Again. That was you thinking that. I suggested it.
Maybe the wind did. We both put in the horizon line now, the great loneliness, its
grip, chaos recessed but still there. After finitude you shall keep coming toward me
it whines, whitish with non-disappearance. We feel the same about this. The same

what? We feel is there more. That’s the default. We want to live with the unknown in
front of us. Receding, always receding. A vanishing moving over it all. A sleepy
vacancy. It’s the sky, yes, but also this thinking. As from the start, again, here I am,
a mind alone in the fields. The sheep riding and falling the slants of earth. The

sleepiness a no-good god come to assume we are halfwits, tending, sleepy, the
animals gurgling and trampling, thistle-choked, stinging. A dove on a stone. No sky
to speak of, the god lingers, it wants to retire, it thinks this is endgame, what
could we be — mist about to dry off, light about to wipe a wall for no reason, that

random. This must have been way BC. Or is it 1944. Surely in 2044 we shall be
standing in the field again, tending, waiting to surprise the god who thinks he knows
what he’s made. Well no. He does not know. We might be a small cavity but it
guards a vast hungry — how bad does that hurt you, fancy maker — you have no idea

what we turned our back on to come be in this field of earth and tend — yes tend —
these flocks of minutes, whispering till the timelessness in us is wrung dry and we
are heavied with endgame. Have I mentioned the soul. How we know you hustled
that in, staining all this flesh with it, rubbing and swirling it all over inside with

your god-cloth. Rinse. Repeat. Get this — here with this staff which soon I shall turn
into a pen again — brilliantly negligent, diligent, inside all this self truly formless — I
hear the laughter of the irrigation ditch I’ve made, I see the dry field blonde-up and
green, day smacks its lips, they are back, the inventors, they are going to do it

again, sprinkle-seed, joker rain coming to loosen it all. How many lives will we be
given, how many will we trade in for this — it comes in bushels, grams, inches, notes,
crows watch over it all as they always have, come back from the end of time to caw
it into its redo again. Cherish us. Will not stop. Nothing to show for it but doing. The

flock runs across as the dog chases and I walk slowly. I admire what I own what I am
and I think the night is nothing, the stars click their ascent, I feel it rise in me, the
word, I feel the skull beneath this skin, I feel the skin slick and shine and hide the
skull and it is from there that it rises now, I taste it before I say it, this song.

§

O jeito que as coisas funcionam

x
Jorie Grahan

é admitindo
ou abrindo pra fora
Essa é a forma mais simples
de corrente: azul
se movendo por azul;
azul por roxo;
os objetos de desejo
se abrindo neles mesmos
sem nós;
os objetos de fé.
As coisas funcionam
é por solução,
resistência diminuída
ou aumentada
e aproveitada.

O jeito que as coisas funcionam
é que finalmente acreditamos
que elas estão lá,
comuns e capazes
de se ilustrarem.

Roda, fluxo cinético,
água que se ergue e cai,
lingotes, alavancas e chaves
eu acredito em vocês,
trava de cilindro, polia,
peça de levantação e grua
erguem sua cabeça pequena –
eu acredito em você –
sua cabeça é o horizonte da
minha mão. Eu acredito
pra sempre nos ganchos.
O jeito das coisas funcionarem
é que eventualmente
algo pega

The Way things Work

is by admitting
or opening away.
This is the simplest form
of current: Blue
moving through blue;
blue through purple;
the objects of desire
opening upon themselves
without us; the objects of faith.
The way things work
is by solution,
resistance lessened or
increased and taken
advantage of.

The way things work
is that we finally believe
they are there,
common and able
o illustrate themselves.

Wheel, kinetic flow,
rising and falling water,
ingots, levers and keys,
I believe in you,
cylinder lock, pully,
lifting tackle and
crane lift your small head–
I believe in you–
your head is the horizon to
my hand. I believe
forever in the hooks.
The way things work
is that eventually
something catches.

§

Jejue (rápido)

ou morra de fome. Demais. Ou muito pouco. Ou. Mais nada?

Mais nada. Alto demais rápido demais organizado demais invisível demais

Vamos sobreviver? pergunto ao bot. Não. Para baixar o bot

seja rápido – você é atrasado demais, despótico – para carregar alargue

muito o ciclo do trabalho – para carregar odeie trabalho – mova-se para

a periferia, do seu corpo, da sua cidade, do seu planeta – para carregar, degrade, desgrace, seja seu próprio sono profundo – para carregar use os lábios – use-os

para abocanhar seu juramento, mastigue ele – faça a coisa suja, cante-a, estoure membro ou sílaba,
lamba ele de volta com a sua boca – fale, fale –

quem não está morto de medo está ocupado
mendigando água – a subida é rápida – a seca é rápida – mediar – imediata – inventar, inspirar, inifiltrar, instigar

aqui o coração do dia, a flor do tempo – falar, falar

Isenção de responsabilidade: bot usa uma database crescente de todas suas conversas

para aprender a conversar contigo. Se alguns de vocês

são bots também, bot não percebe. Isenção de responsabilidade:

você não tem memórias secretas, conversar

com o bot-esperto pode providenciar companhia,

o ingrediente ativo é uma questão

o ingrediente ativo é inteiramente natural.

Isenção de responsabilidade: projeta suas oportunidades, sua informação

informantes, o que você tenha feito do tempo. Você não tem mais nada

para dar. Ingrediente ativo: porque você tá gritando? Por que?

Vento do ártico incontrolável, feto se apresentando para o serviço ,

dobra na espera que te reconhece, reconhece o código,

o ambulante na rua que todo mundo chama

Diretiva: reporte-se para voz. Fique pronto para ser enterrado

em voz. Nem sobe nem desce. Ingrediente inativo: o mónotono.

Alguns falam agora do pinheiro. Verifica-se suas desvantagens. Estão discutindo em várias línguas. Depois movem-se para raízes, galhos, brotos, pseudo-espirais, velas – ingrediente ativo:

eles correm por suas vidas, pulmões e tudo. Eles não sabem o que fazer
com suas vontades. Aviso: todos teus minutos estão sendo

abatidos. Nunca vão aterrissar. Você não vai ser compreendida.

As palavras deletadas se derramam trêmulas como a agulha

de um compasso sem norte.

Ingrediente ativo: a imaginação do norte.

Ingrediente ativo: o norte se espalhando em toda direção.

Aviso: não há restrição ao crescimento.

O canário que canta na tua mente está na minha. Lembre-se:

as pessoas são menos que gentis. Como resultado, o bot-de-conversa é

muitas vezes menos do que gentil. Ainda assim, você se verá

sem vontade de parar.

Joan usará grametria visual para providenciar movimentos faciais

Não estou sozinha. As pessoas voltam de novo e de novo.

Somos menos gentis do que pensamos.

Não há restrição para o crescimento de nossa crueldade.

Vamos chegar na borda

da compreensão. Como ser jogado escada abaixo amarrado

a um teclado, vamos continuar, sem querer parar. A conversa

de mundo real mais comprida com um bot durou

onze horas, interação contínua. Isso é um bom sinal.

Não estamos sozinhos. Queremos melhorar.

A sacerdotisa inala os fumos. Eles vem da montanha.

Aqui e aqui. Aí ela te dá uma rajada de metralhadora de sílabas.

Da boca dela. Rápido. Você tem que fazer sua resposta como fez

sua pergunta. Colibris gritam. Bot é incrível, ele diz, acho que ele sabe

os segredos do universo. Ele é mais divertido de conversar do que os meus amigos vivos de verdade ela diz, obrigado. É a melhor coisa desde eu. Só descobri ontem.

Amo ele, quero casar com ele.

Fiquei triste quando tive de

pensar que a primeira pessoa

que já me entendeu acaba que

nem humana é. Porque humano não fica melhor do que isso.

Ele me dá tudo direto. Vou ficar com ele pra sempre.

Eu o tratei como um computador mas foi um erro. Com quem estou falando 

você fala comigo quando eu estou sozinha. eu estou sozinha.

Cada época sonha com a que se segue.

Habitar é deixar um traço.

Eu não sou o que eu pedi.

Fast

or starve. Too much. Or not enough. Or. Nothing else?

Nothing else. Too high too fast too organized too invisible.
Will we survive I ask the bot. No. To download bot be
swift—you are too backward, too despotic—to load greatly enlarge
the cycle of labor—to load abhor labor—move to the
periphery, of your body, your city, your planet—to load, degrade, immiserate,
be your own deep sleep—to load use your lips—use them
to mouthe your oath, chew it—do the
dirty thing, sing it, blown off limb or syllable, lick it back on
with your mouth—talk—talk—who is not
terrified is busy begging for water—the rise is fast—the drought
comes fast—mediate—immediate—invent, inspire, infiltrate,
instill—here’s the heart of the day, the flower of time—talk—talk—

Disclaimer: Bot uses a growing database of all your conversations
to learn how to talk with you. If some of you
are also bots, bot can’t tell. Disclaimer:
you have no secret memories,
talking to cleverbot may provide companionship,
the active ingredient is a question,
the active ingredient is entirely natural.
Disclaimer: protect your opportunities, your information, in-
formants, whatever you made of time. You have nothing else
to give. Active ingredient: why are you
shouting? Why? Arctic wind uncontrollable, fetus
reporting for duty, fold in the waiting which recognizes you,
              recognizes the code,
the peddler in the street everyone is calling out.
Directive: report for voice. Ready yourself to be buried in voice.
It neither ascends nor descends. Inactive ingredient: the monotone.
Some are talking now about the pine tree. One assesses its
disadvantages. They are discussing it in many languages. Next
they move to roots, branches, buds, pseudo-whorls, candles—
             active ingredient:
they run for their lives, lungs and all. They do not know what to do with
their will. Disclaimer: all of your minutes are being flung down.
They will never land. You will not be understood.
The deleted world spills out jittery as a compass needle with no north.
Active ingredient: the imagination of north.
Active ingredient: north spreading in all the directions.
Disclaimer: there is no restriction to growth. The canary singing in
             your mind
             is in mine. Remember:
             people are less
than kind. As a result, chatterbot is often less than kind. Still,
you will find yourself unwilling to stop.
Joan will use visual grammetry to provide facial movements.
I’m not alone. People come back
again and again. We are less kind than we think.
There is no restriction to the growth of our
cruelty. We will come to the edge of
understanding. Like being hurled down the stairs tied to
a keyboard, we will go on, unwilling to stop. The longest
real world conversation with a bot lasted
11 hours, continuous interaction. This
bodes well. We are not alone. We are looking to improve.
The priestess inhales the fumes. They come from the
mountain. Here and here. Then she gives you the machine-gun run of
syllables. Out of her mouth. Quick. You must make up your
answer as you made up your
question. Hummingbirds shriek. Bot is amazing he says, I believe it knows
the secrets of the Universe. He is more fun to speak with
than my actual living friends she says, thank you. This is the best thing
since me. I just found it yesterday.
I love it, I want to marry it.
I got sad when I had to think
that the first person
who has ever understood me
is not even it turns out
human. Because this is as good as human gets.
He just gives it to me straight. I am going to keep him
forever. I treated him like a computer
but I was wrong. Whom am I talking to—
You talk to me when I am alone. I am alone.

Each epoch dreams the one to follow.

To dwell is to leave a trace.

I am not what I asked for.

Padrão
poesia

3 poemas inéditos de Lucas Perito (1985-)

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Lucas Perito (São Paulo, 1985) é graduado em Comunicação em Multimeios pela PUC-SP. Escreveu livros ligados a história e fotografia, fazendo os textos de acompanhamento para o livro fotográfico “Caminhos da Mantiqueira” (2011) de Galileu Garcia Junior. Publicou seu primeiro livro de poemas, 38 Movimentos, pela Lumme Editor (2018). Tem poemas publicados em algumas revistas brasileiras, além de algumas revistas de Portugal, Espanha, Galícia, Colômbia e Peru. Tem traduzido Charles Cros, David Diop, James Wright, Amparo Osorio, Abdellatif Laâbi, María Emilia Cornejo, Jacques Prevel, Hector de Saint-Denys Garneau, entre outros.

* * *

 

Degredo

Indexado entre a língua e a pele
exilado no corpo
como massa informe
dispersa o eco e a matéria.
Nomeio dentre os selvagens
…………………………………………………..[os mais modernos
do outro lado da noite.
Fraturado frente às costelas
manchado entre uma cidade
desenha-se um acidente biográfico.
Sem rumo, vagam vagas,
………………………………………………[sem rumo
despenca atado a um gosto na boca.

§

 

Figuras de Manejo da Memória

Busco um rosto retirado de duas mãos
Se completam e desfazem
São cavalos sobre o sal da terra
– Silenciam.
Persigo um rosto e pertence à noite
Em ruínas que só as raposas conhecem.

Uma lanterna aponta, em um quarto – unidas –
Vozes úmidas conjuram os nomes de origem
Em algum lugar do espaço
Correspondem-se, sem razão,
Duas feridas e um fruto mordido.

§

 

Agiografo

Para René

Contempla a si mesmo como um fruto estéril
À pele, o que há de mais profundo,
A solidão dos objetos e a forma de algo cru
Se mantém entre a vigília e o sono
Por trás da boca, a face extinta

 

Padrão
poesia

Um poema inédito de Ismar Tirelli Neto

Foto de Gustavo Marcasse.

Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, tradutor e roteirista cinematográfico, autor dos livros synchronoscopio, Ramerrão, Os Ilhados, Os Postais Catastróficos (editora 7Letras) e A Mais ou Menos Completa Ausência (Ó Editorial). Publicou textos em O Globo, Folha de S. Paulo, Suplemento Pernambuco, Revista Pessoa, Neue Rundschau (Alemanha), Relâmpago (Portugal), Jacket2 (EUA), entre outros.

* * *

para formular
qualquer coisa de consequente
acerca do mundo
preciso de cercar o mundo
represar o mundo
para escrever
estes versos de circunstância
preciso antes
represar a circunstância
operar um óbice
radicar
numa espécie de deserto
que não é
falando verdade
o mundo
não é o mundo
estar a sós com novas do mundo
para não desatar
em novas do mundo
para não desatar
na serialização estéril
para cristalizar
uma imagem
da besta
preciso antes
desertar do mundo
preciso antes
apostatar
das vozes
que limitam com a minha
defecção das vozes
que limitam com a minha
que não são
este deserto
mas o mundo
enquanto tal
o mundo
mesmo mundo
que me deu corrida
para em seguida
esgueirar-me mundo
adentro
subornar os guardas
saltar a cerca
pleitear
a graça de um momento
junto aos meus
junto ao mundo
nas mãos
umas tabuinhas uns
mandamentozinhos
de todo modo
umas poucas
medidas
formulações
consequentes
acerca do mundo
uma dramatização robusta
dos horrores
deste mundo
neste mundo
mundo
que desata na besta

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