poesia

Israel Azevedo

ISRAEL AZEVEDO_REVISTA ESCAMANDRO

Israel Azevedo nasceu em São Paulo (SP), cidade onde vive. Integra as antologias: Qasaêd Ila Falastin – Poemas para a Palestina (Selo Zunái Edições, 2012) e Poetas Jovens no Papel Rascunho (Lumme Editor, 2006). Ainda na internet, seus poemas também podem ser lidos nas revistas Germina – Revista de Literatura e Arte, Diversos Afins, Mallarmargens e Zunái.

***

ESBOÇO PARA FRANZ KLINE

fortuita moldura ampara a pintura
onde uma face afilada adorna a figura
de dois olhos tristes
de estreita abertura.

 §

REYKJAVÍK

Agora a vemos bem
Realçada pela névoa
Penumbra tranqüila e cálida
Onde olhos cor de anis brilham
Vêem como o céu é belo
Vêem como estrelas não tardam
Vêem como há sentido em perder-se
De dentro para fora do coração.

§

GAROTA HÚNGARA

Dentro dela
o deleite por perder-se
sobre desigual e branco
território de lençóis,
divagando, pensamentos
soltos.

*

 

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poesia, tradução

Ana Pérez Cañamares, por Marcelo Reis de Mello

Ana Pérez Cañamares nasceu em 1968 em Santa Cruz de Tenerife, mas desde um ano de idade mora em Madrid. Sua carreira na poesia começa com a publicação em 2007 do livro La alambrada de mi boca, publicado pela editora Baile del Sol. Pela mesma editora publicou seu primeiro livro de contos e seu segundo poemário, Alfabeto de cicatrices, de 2010. Em 2013 o livro Las sumas y los restos foi “V Premio de Poesía Blas de Otero”. Em 2014 publicou Economía de guerra pela Lupercalia editorial.

* * *

GENERACIONES

Antes de morir, mi madre dijo mamá, ven
mientras me miraba sin verme;
yo dije mamá, quédate
abrazando su cuerpo diminuto
envuelto en pañales y olor a talco;
mi hija dijo mamá, no llores
y me acarició la cabeza consolándome.

Cuando mama murió, durante unos segundos
no tuvimos muy claros los lazos que nos unían
no supimos quién se había ido
y quién se había quedado
ni en qué momento de nuestras vidas
estábamos viviendo

o muriendo.

GERAÇÕES

Antes de morrer, minha mãe disse mamãe, vem
enquanto me olhava sem ver-me;
eu disse mamãe, fica
abraçando seu corpo diminuto
envolvido em fraldas e cheiro de talco;
minha filha disse mamãe, não chora
e me acarinhou a cabeça consolando-me.

Quando mamãe morreu, durante alguns segundos
não tivemos muito claros os laços que nos uniam
não soubemos quem havia partido
e quem havia ficado
nem em que momento de nossas vidas
estávamos vivendo.

(La alambrada de mi boca)

§

Los platos que me regaló mi madre
están ya deslucidos y pasados de moda.
Cuando hacemos limpieza
nos miran como enfermos agonizantes
que no entienden qué queremos de ellos.

Pero son los platos que me regaló mi madre
que ya nunca volverá a regalarme
nada.

Si un día nos decidiéramos a tirarlos
intentaré escuchar su voz en mi cabeza:
“las cosas, hija, son sólo cosas“.

Mi madre no está en un plato.
Mi madre está en el pan que como.

Os pratos que me deu minha mãe
estão já sem brilho e fora de moda.
Quando vamos à limpeza
nos olham como doentes agonizantes
que não entendem o que queremos deles.

Mas são os pratos que me deu minha mãe
que nunca voltará a me dar
nada.

Se um dia nos decidíssemos a jogá-los fora
Tentarei escutar a sua voz na minha cabeça:
“as coisas, filha, são só coisas”.

Minha mãe não está em um prato.
Minha mãe está no pão que como.

(Las sumas y los restos)

§

MI PADRE SE LLAMABA DANIEL

Lo primero que pensé fue:
se ha muerto solo
(acompañar en la muerte
es el mejor bálsamo
para la culpa).

Lo segundo que pensé:
no me ha devuelto
mi última llamada
(nunca nos planteamos
que el deseo de independencia
también puede ser hereditario).

Lo tercero: ya no tengo padres
(y al mirar atrás descubrí
que hace ya mucho tiempo
que ninguna mano
sujeta la bici que monto).

Ahora no puedo dejar de pensar:
padre, yo no estoy muerta
pero también me pierdo muchas cosas.

Ya no estoy enfadada contigo.
Cada vez que te pienso
es domingo por la mañana.
Me llevas sobre los hombros
y yo sé que vas a invitarme
a un batido de chocolate
en el bar de la barra de zinc.
Después tu mano grande se abrirá
frente a mis ojos, y me mostrará el tesoro:
una chapa de mirinda y otra de pepsi.

Cuarenta años para descubrir
que allí estaba todo ya dicho.

MEU PAI SE CHAMAVA DANIEL

A primeira coisa que pensei foi:
morreu sozinho
(acompanhar na morte
É o melhor bálsamo
Para a culpa).

A segunda coisa que pensei:
não retornou
minha última chamada
(nunca nos damos conta
de que o desejo de independência
também pode ser hereditário).

Em terceiro: já não tenho pais
(e ao olhar pra trás descobri
que já faz muito tempo
que nenhuma mão
segura a bicicleta que eu monto)

Já não estou chateada contigo.
Sempre que penso em você
é domingo pela manhã.
Você me leva nos ombros
e eu sei que vai me convidar
para uma batida de chocolate
no bar do balcão de zinco.
Depois sua mão grande se abrirá
na frente dos meus olhos, e me mostrará o tesouro:
uma tampa de mirinda e outra de pepsi.

Quarenta anos para descobrir
que ali tudo já estava dito.

(Alfabeto de cicatrices)

§

Si un día me oyes
-después de una noche
en la que he resultado ser
encantadora:
de esas mujeres que beben
y se ponen graciosas
contando anécdotas
de bares y ácidos y viajes
y camas y cabrones
con el pelo despeinado
para mejor
y el carmín corrido
como si viniera
de morrearme en el baño
con el tío más guapo
del garito-
si un día
después de una de estas noches
en las que ejerzo
de encantadora de serpientes
al despedirme
me oyes decir
que sólo soy un fraude
compadéceme:
los adictos a los aplausos
también necesitamos testigos
cuando nos quitamos
el maquillaje.

Se um dia você me escuta
-depois de uma noite
em que acabei por ser
encantadora;
uma dessas mulheres que bebem
e ficam engraçadas
contando piadas
de bares e ácidos e viagens
e camas e patifes
com o cabelo despenteado
para melhor
e o batom excessivo
como se viesse
de beijar de língua no banho
o patrão mais bonito
do bordel-
se um dia
depois de uma destas noites
nas quais banco
a encantadora de serpentes
ao me despedir
me ouves dizer
que sou só uma fraude
e se compadece:
os viciado em aplausos
também precisamos de testemunhas
quando tiramos a maquiagem.

(Alfabeto de cicatrices)

§

Pocos saben que tengo otra hermana.
El azar nos separó al nacer.
Yo mamaba la leche de mi madre
mientras ella se secaba al sol.
Cuando perforaron mis orejas
ella recibió la ablación del clítoris.
Follé con hombres y sufrí por todos;
a manos de uno solo se quebró ella.
Me separé, lloré, abandoné mis sueños.
Ella murió unas cuantas veces
bajo piedras, ácido, sida y malaria.
Su cuerpo se deshizo y se recompuso.
En una o dos ocasiones fue feliz de morir.
Mi hija creció; mi hermana murió en el parto.
Años después parió una niña y se la quitaron.
Yo veo mi cuerpo envejecer; ella no tiene espejo.
Me pongo cremas antiarrugas
pero toda ella es un surco.
Yo hago listas de lo que le duele:

pero ella es la que administra su dolor.

Poucos sabem que tenho outra irmã.
O azar nos separou ao nascer.
Eu mamava o leite da minha mãe
enquanto ela se secava ao sol.
Quando furaram as minhas orelhas
ela recebeu a ablação do clitóris.
Trepei com homens e sofri por todos;
nas mãos de um só ela se quebrou.
Me separei, chorei, abandonei meus sonhos.
Ela morreu umas quantas vezes
Debaixo de pedras, ácido, aids e malária.
Seu corpo se desfez e se recompôs.
Em uma ou duas ocasiões foi feliz de morrer.
Minha filha cresceu; minha irmã morreu no parto.
Anos depois pariu uma menina e a tiraram dela.
Eu vejo meu corpo envelhecer; ela não tem espelho.
Passo cremes antirrugas
Mas ela toda é um sulco.
Eu faço listas do que nela dói:

mas é ela quem administra a sua dor.

(Las sumas y los restos)

§

Para todos mis gatos

A mis gatas yo les doy agua
ellas me traen rumores de selva
y belleza indómita.
Les doy comida
ellas libertad irrenunciable
pactos de respeto entre especies.
Les doy calor
ellas ponen límites a mi arrogancia
cuando intento traducirlas.
Les doy caricias
ellas enseñan astucia de samuráis.
Les doy cobijo
a las embajadoras de lo lejano y posible.
Al final un arañazo para dejar bien claro
que la ternura no es una mercancía.

Para todos os meus gatos

Às minhas gatas dou água
elas me trazem rumores da selva
e beleza indômita.
Dou-lhes comida
elas liberdade irrenunciável
pacto de respeito entre espécies.
Dou-lhes calor
elas põem limites na minha arrogância
quando tento traduzi-las.
Dou-lhes carinho
elas ensinam astúcia de samurais.
Dou abrigo
às embaixadoras do distante e possível.
Por fim um arranhão para deixar bem claro
que a ternura não é uma mercadoria.

(Las sumas y los restos)

§

Para Talo, mi primer novio

Estoy en el lugar donde fuiste a morir
aunque no conozca el cruce exacto
y no importa, yo sé que el nombre de este pueblo
está guardando tu muerte.

Nunca he visitado tu tumba ni sé dónde está.
Hablé con una de tus hermanas y me contó
que nos recordaba perfectamente
bailando una canción lenta con los ojos
cerrados, mirando hacia nuestro futuro.

Así que sé que en alguna parte estamos vivos y juntos
desafiando las leyes de la vida y la muerte
en una casa nuestra levantada en la memoria.

En un rincón de tu ataúd aún se yergue el instituto
hay un partido de baloncesto que nunca termina
nos cogemos borracheras sin resaca
y sigo teniendo tentaciones de romper aquel vaso
y rasgarme la muñeca, para parar el futuro
que un día nos separará.

Estaremos juntos siempre, me dijiste.
De alguna forma, era cierto.
Mi adolescencia fue la tuya.
Está tan muerta como tú, impresa en la piel
como un libro que no habrá que leer nunca más
porque los dos lo conocemos
palabra por palabra.

Para Talo, meu primeiro namorado

Estou no lugar aonde você foi pra morrer
Mesmo sem conhecer o ponto exato
e não importa, eu sei que o nome desta vila
está guardando a sua morte.

Nunca visitei a sua tumba nem sei onde está.
Falei com uma das suas irmãs e me contou
que lembrava perfeitamente de nós
dançando uma música lenta com os olhos
fechados, contemplando o nosso futuro.

Por isso eu sei que em algum lugar estamos vivos e juntos
desafiando as leis da vida e da morte
em uma casa nossa levantada na memória.

Em um canto do seu ataúde ainda se ergue a escola
há uma partida de basquete que nunca termina
tomamos uns porres sem ressaca
e continuo tendo tentações de quebrar aquele copo
e rasgar os pulsos, para parar o futuro
que um dia vai nos separar.

Estaremos juntos sempre, você me disse.
De algum modo, era verdade.
Minha adolescência foi a sua.
Está tão morta quanto você, impressa na pele
como um livro que não será preciso ler nunca mais
porque os dois o conhecemos
palavra por palavra.

(Las sumas y los restos)

§

para Cristina Morano

Las gatas buscan atalayas
desde las que contemplar el mundo.

Ellas dormitan sabiéndose a salvo;
yo me amurallo tras un libro.

Dice el poeta Rigo que la última
coraza es la lealtad.

Las hembras nos comprendemos:
el mundo es un peligro a nuestra disposición.

Para Cristina Morano

As gatas procuram guaritas
de onde possam contemplar o mundo.

Elas cochilam sabendo-se a salvo;
eu me amuralho atrás de um livro.

Diz o poeta Rigo que a última
Couraça é a lealdade.

As fêmeas nos entendemos:
o mundo é um perigo à nossa disposição.

(Las sumas y los restos)

§

Mi educación:
no desees nada demasiado
no te vanaglories ante nadie
-mucho menos de ser feliz-
no sueñes sueños imposibles
-tampoco sueñes la posibilidad-
no rías demasiado alto
no enfades a los dioses
      • no creas en ellos ni en sus premios
aunque estarán ahí para castigarte-
no llores delante de los otros
      • la tristeza es otra forma de ser presuntuoso-
no te aferres pero no te sueltes del todo del pasado
no te emborraches sin sufrir por la resaca
no te menosprecies
esperando compasión
no luches
todo está perdido desde siempre.

Y ahora sal al mundo, sostente, sé un ejemplo.

Minha educação:
não deseje nada demais
não se vanglorie diante de ninguém
-muito menos de ser feliz-
não sonhe sonhos impossíveis
-tampouco sonhe a possibilidade-
não ria alto demais
não entedie os deuses
• Não acredite neles e em seus prêmios
ainda estarão aí para te castigar
não core na frente dos outros
• A tristeza é uma outra forma de ser presunçoso-
não se aferre mas não se solte completamente do passado
não se embriague sem sofrer a ressaca
não se menospreze
esperando compaixão
não lute
tudo está perdido desde sempre.

E agora sai pro mundo, se aguenta, seja um exemplo.

(Las sumas y los restos)

§

Me arranco las bragas
negras de la tristeza.
Las dejo al pie de la cama
como un perro roto.
Ya se compondrá después
cuando haya que disfrazarse
para la alegría o la nada.

Arranco-me as pregas
negras da tristeza.
Deixo-as ao pé da cama
como um cachorro cansado.
Logo em seguida irá se recompor
quando tiver que se disfarçar
para a alegria ou o nada.

(Economía de guerra)

§

No soy esta que veis palidecer
bajo el fémur tibio del fluorescente.
Tampoco la mujer que oye dar las tres
como el gong del martillo absolutorio
o la bala de un fusil encasquillado.
Ni la que escribe frases sin amor
y firma igual que quien mata una mosca.

Ocupo mi silla antes de que el sol
me bendiga la frente con un beso
y salgo a la calle infiel y huérfana.
Toso el virus de la resignación
cuando el mar es un rumor clandestino
y los lirios burlas del carcelero.

Soy quien sueña llegar a la vejez
para dejarse adoptar por gallinas
y vivir en la luz de las mañanas
que ahora abandono en la casa de empeños.

Não sou esta que vês empalidecer
sob o fêmur cálido da luz fluorescente.
Tampouco a mulher que ouve dar as três
como o gongo do martelo absolutivo
ou a bala de um fuzil engatilhado.
Nem a que escreve frases sem amor
e assina como quem mata uma mosca.

Ocupo minha cadeira antes que o sol
me bendiga a testa com um beijo
e saio à rua infiel e órfã.
Tusso o vírus da resignação
quando o mar é um rumor clandestino
e os lírios mentiras do carcereiro.

Sou quem sonha chegar à velhice
para deixar-se adotar por galinhas
e viver com a luz das manhãs
que agora abandono na casa de penhores.

(Economía de guerra)

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Adão Ventura (1946—2004)

Adão Ventura (1946, Santo Antonio do Iambém, MG) foi criado primeiramente pobre, no mato do então distrito do Serro; depois mudou-se para Belo Horizonte, onde se formou em Direito pela UFMG. Trabalhou no Suplemento Literário de Minas e teve vários empregos nos anos subsequentes, até se mudar para Brasília, onde presidiu a Fundação Palmares, dedicada à cultura negra. Publicou 5 livros de poesia: ‘Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul’, 1970; As musculaturas do arco triunfo (1976); A cor da pele (1980), Jequitinhonha – poemas do vale (1980); Texturaafro (1992); Litanias de cão (2002); e um livro infantil Pó-de-mico macaco de circo (1985). pelos quais recebeu vários prêmios. Adão Ventura morreu de câncer, em 2004. Como bem disse Ricardo Domeneck, na Modo de Usar & Co.”Outro ótimo poeta ainda pouco conhecido, certamente por motivos que retratou em sua poesia, mas na sintonia de nossa sincronia.”

Os poemas abaixo foram retirados da antologia póstuma, “Costura de Nuvens” (Edições Dubolsinho, 2006), organizada por Jaime Prado Gouvêa e Sebastião Nunes, feita a partir do título que o próprio Ventura havia dado para a edição de sua poesia completa, incluindo inéditos. Escolhi alguns poemas fortíssimos que não constam nas já ótimas antologias apresentadas por Domeneck aqui, por Antônio Miranda aqui, por Elfi  Kürten Fenske aqui e por Leonardo Morais aqui. Trata-se, então, de uma antologia por ampliação do que já estava disponível. Creio que com essas cinco reuniões online, teremos um panorama importante desse poeta que merece, sem dúvida, mais leituras.

* * *

Breves elementos para a instituição do poema

Inaugure no corpo
a seiva dos sonhos
forjados no mito.

Instaure no sangue
a força da fala
gerada no termo.

Imprima na pele
o silêncio da pose
haurida na forma.

Inscreva nos gestos
a forma do rito
usual do anônimo.

§

Recusa

— Recusei-me a receber as
divisas do madeiro da cruz,
porque meu nome já estava
escrito nos papiros falsos.
Minhas vestimentas
sobrecarregavam punhais e
outros sinais de desespero.

§

Diário de Teodoro

— Foi quando senti dividirem meu corpo
em suásticas,
lâminas cortavam minha pele.
O sol desintegrava meus pés ante o pó
das estradas.

A fúria das palavras fazia
cegar os homens.
— seus chicotes classificavam
as carnes para o sacrifício.

Aí as palavras iam tendo vértebras nos
seus lençóis próprios, gerando gerais
comarcas de papéis que forçavam os
reis a reinarem nos seus séquitos de
súbitas samambaias.

A metade das montanhas apinhadas de
selos e brenhas
capitulava os voos dos pássaros
em suas moradas de origem.

Porque, na verdade, eu não possuía
mais a minha carta de alforria e todos
os mapas de identificação estavam
limitados às circunscrições de minha
pele.

Tudo era começo
de um longo deserto
onde flores coloridas
anunciavam fluidos de um amargo sal.

§

Nesta mão

Nesta mão eu te trago a
estrada suja de suor,
nela escrevi meu nome, dela
reconheci firma,
muitos anos se passaram até eu
chegar aqui,
com este testamento
todo timbrado em armaduras e
distâncias.

Indico apenas as correntes que
possuo no nó do sangue,
herança corrosiva de comarcas
de muitas eras.
— O meu mundo é limitado por
selos, números e ossos.

§

Identidade

Sebastiana Ventura de Souza
Sebastiana de Minas Gerais
Sebastiana de Minhas
Sebastiana de Tal

vem limpar o chão
vem lavar a roupa
vem enxugar a louça

vem cantar cantiga
de ninar
para mim.

§

Dar nome aos bois

Ai de ti, ó terra, quando teu rei
é criança e quando teus príncipes

se banqueteiam ao amanhecer.
Eclesiastes

Dar nome aos bois,
apartá-los em mangas privilegiadas
— de preferência com capins
de fios de ouro
ou prata.

— Isolando-os da ralé dos bois de
corte.

§

Da palavra em seu habitat

Lavre-se a palavra
em fluvial lagoa
pura de escamas,
fuligem & circunstância.

Louve-se a palavra
na lúdica atadura
de um nítido invólucro
ainda que insepulto.

Livre-se a palavra
da inaugural magia,
iluminando-a num ato
puro de si mesma.

Lustre-se a palavra
ao seu exato cerne
— esmeril e águas claras
de recolhidos despojos.

 

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Poesia Nórdica| Três Poemas do Tu e do Eu, de Carl Jóhan Jensen, por Luciano Dutra

Três Poemas do Tu e do Eu, de Carl Jóhan Jensen 

 

Carl Johan Jensen (n. 2 de dezembro de 1957 em Tórshavn, capital do arquipélago das Feroés) é há mais de um quarto de século uma das personalidades mais atuantes da cultura feroesa seja como poeta, jornalista, ficcionista, articulista, crítico literário e tradutor. Além disso, atua como tradutor. Foi agraciado com o prêmio feroês de literatura em seu país em três ocasiões (1989, 2006 e 2015). Foi indicado cinco vezes ao prêmio de literatura do Conselho Nórdico. Obras de Carl Jóhan já foram traduzidas e publicadas em livros, coletâneas e revistas na Dinamarca, na Noruega, na Suécia, na Islândia, nos Países Baixos, na Alemanha, nos EUA e agora no Brasil. A poesia de Carl Jóhan Jensen é do tipo que lança um desafio ao leitor: decifra-me ou te devoro. Não é a poesia palatável dos poemas no ônibus ou no metrô, mas sim linguagem em convulsão que faz lembrar da cerimônia iniciática enfrentada por Óðinn, a divindade-mor da antiga religião nórdica, e que o levou a “conhecer” ou “inventar” as runas, as quais depois compartilhou com as outras divindades e demais habitantes do universo nórdico: os homens, “gente oculta” (huldufólk) e os trolls. Mais do que poesia, é ποίησις, na qual o poeta traduz o não-ser para que seja. Se Carl Jóhan fosse filósofo de ofício, talvez sua máxima fosse: “Digo, escrevo, logo há”. Carl Jóhan Jensen irá participar no dia 12 de novembro da Presença Nórdica na Feira do Livro de Porto Alegre, ocasião em que será lançada o herbário poético bilíngue Nona Manhã, publicado pela parceria editorial Moinhos+Sagarana até onde se saiba a primeira obra de autor feroês, seja em verso ou em prosa, traduzida diretamente para o português. Os três poemas aqui publicados foram extraídas de Nona Manhã.

Luciano Dutra (Viamão/RS, 1973-, naturalizado islandês) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík a Sagarana forlag, microeditora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém a página Um Poema Nórdico ao Dia (facebook.com/nordrsudr).

* * *

Eu

E vês a folha
que oscila por um átimo
no ar agitado
sobre as cinzas
em brasa? —

Eg

Og sært tú blaðið
sum ørstutt blakast
í giddandi luft
yvir glóðandi
eimi? —

§

Tu

tu és a mão que alivia
e a chuva que liberta
tu és lua e estrela
saibro sob meus pés
tu és oceano suspirando
e a palavra que será

tú ert lógvin sum lygnir
og regnið sum loysir
tú ert máni og stjørna
steinspjað við fót mín
tú ert hafið sum andar
og orðið sum blívur

§

Bem-me-quer

és o mistério da neve que para
e és também a terra

a pele exótica e o dorso da mão
outra vez vindo do nada

Gloymmegei

tú ert fannaslit á gátum
og mold ert tú við

fremmand húð og lógvi
uppaftur úr ongum

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Gravuras japonesas, de John Gould Fletcher (1886-1950), por Anderson Lucarezi e Lucas Zaparolli de Agustini

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John Gould Fletcher (1886 – 1950) nasceu em Little Rock, Arkansas, no seio de uma família abastada, o que lhe possibilitou estudar em Harvard. Com a morte do pai, em 1906, deixou a universidade para viver de herança e empreendeu uma longa viagem para a Europa, acabando por estabelecer-se em Londres, onde publicou, em 1913, cinco livros às próprias custas. Nessa época, tendo conhecido Ezra Pound, tornou-se difusor da corrente estética do Imagismo, que visava afastar-se do sentimentalismo corrente na poesia de então e propunha alguns princípios para a produção poética: o tratamento direto do assunto, a economia verbal e a elaboração de um ritmo que se pautasse pela frase musical em detrimento da batida do “metrônomo”.

Em 1915, Flecther alcançou notoriedade entre os poetas americanos com a publicação de Irradiations: Sand and Spray. No mesmo ano, após ter visto uma exposição de pintura japonesa em Boston, no Museum of Fine Arts, passou a refletir a respeito de uma forma de mesclar a tradição oriental com a ocidental. A respeito dessa tentativa, vale lembrar Edna B. Stephens, que afirma que o intuito do poeta era “fundir o entendimento intuitivo do Oriente com as energias explosivas da América” .

Dessa exposição inspiradora surgem os “quase” haicais aqui traduzidos, que compõem o livro Japanese Prints, de 1918. Vale pontuar que mesmo antes de compor essas Gravuras Japonesas, Fletcher já demonstrava interesse pelo Oriente. Em Goblins and Pagodas (1916), por exemplo, aparecem referências ao Budismo, ao Taoísmo e ao Zen. Este interesse pelo pensamento oriental continuou em seus trabalhos posteriores, geralmente aliado ao misticismo, também recorrente em sua obra. Em Parables (1925), dialoga com o Hinduísmo. Já em South Star (1941), apresenta uma atitude anti-industrialista e uma defesa do primitivismo, da quietude taoísta e da doutrina confucionista do homem superior, elementos que serão fundidos poeticamente na figura do estado do Arkansas da época dos pioneiros do oeste.

Nas Gravuras Japonesas, que se dividem em quatro partes compostas por poemas geralmente curtos, Fletcher buscou produzir em língua inglesa os chamados hokkus (transliteração da palavra japonesa, que em português adquiriu a grafia haikai e, após a queda do K na reforma ortográfica de 1943, haicai ).

Os haicais tradicionais adotam um esquema de três versos com 5 – 7 – 5 sílabas, respectivamente, e possuem ao menos uma palavra que aluda a uma estação do ano. No caso de Fletcher, a forma japonesa foi flexibilizada, assim como ocorreu no Brasil com o trabalho de Paulo Leminski e Alice Ruiz.

O autor, no entanto, diz na introdução ao livro que “não se pode escrever bons haicais em inglês. O que temos de seguir não é a forma, mas o espírito”. Espírito, esse, que os demais poemas, de forma geral, parecem conseguir recriar para a língua inglesa.

É importante destacar que o interesse de Fletcher pela poesia e pela cultura do Oriente não é um fato isolado. Três anos antes da publicação de Japanese Prints, Ezra Pound (1885 – 1972) lançava Cathay, livro que recriou para a modernidade a poesia chinesa antiga ao apresentar “quase-traduções” baseadas nos manuscritos do sinólogo Ernest Fenollosa. Em 1916, Pound trouxe a público Lustra, em que explorava a brevidade do haicai. No mesmo ano, e. e. cummings (1894 – 1962) publicava um poema chamado Hokku no periódico The Harvard Monthly. Em 1921, Amy Lowell (1874 – 1925) publicava suas próprias experiências com haicais. Wallace Stevens (1979 – 1955), em 1923, apresentava Harmonium, em que constam alguns poemas imbuídos da brevidade e da atmosfera do haicai, como é o caso de Thirteen Ways of Looking at a Blackbird.

Vê-se, então, certa vontade de revitalização da prática poética ocidental através do contato com elementos orientais. Esse interesse das primeiras décadas do século XX, no entanto, não foi pioneiro, já que a incorporação de elementos orientais pelo Ocidente remonta pelo menos ao século XVI, com o advento das grandes descobertas marítimas (na verdade, tem havido intercâmbio desde a Antiguidade). Houve diálogo com a arte africana e asiática durante todos os séculos subsequentes, mas, no caso do extremo Oriente – do Japão, em especial – o diálogo avivou-se mais a partir da segunda metáde do século XIX, quando o governo japonês retomou contato com o mundo externo, já que tinha ficado por mais de duzentos anos sob um regime de fechamento às relações internacionais.

Com a abertura japonesa, a partir de de meados da década de 1850, e com as exposições internacionais da segunda metade do século, que ajudaram divulgar a cultura oriental no Ocidente, chegaram à Europa e a outras partes do mundo um grande fluxo de elementos nipônicos, como cerâmicas e as próprias Ukiyo-ê, gravuras nipônicas famosas por conta dos trabalhos de artistas como Hokusai (1760 – 1849) e Hiroshige (1797 – 1858), o que engendrou uma tendência intitulada Japonismo. Sob este pano de fundo, surgiram, no campo das letras, várias manifestações que dialogaram com o Extremo Oriente, sendo que alguns exemplos relevantes são em língua portuguesa: Antonio Feijó (1859 – 1917), autor de Cancioneiro Chinês (1890), Camilo Pessanha (1867 – 1926), que deixou sua poesia se imbuir das referências da China, além de ter sido tradutor de elegias chinesas, e Wenceslau de Morais (1854 – 1929), que escreveu relatos sobre o Japão e, já no século XX, traduziu haicais para o português. No campo das letras em língua inglesa, destacam-se os trabalhos referentes a língua, literatura e história chinesas e japonesas escritos por Herbert Allen Giles (1845 – 1935) e Ernest Fenollosa (1854 – 1908). No âmbito das artes plásticas, houve a incorporação de elementos das Ukiyo-ê pelo americano James Abbott McNeill Whistler (1834 – 1903) e pelos pintores impressionistas e pós-impressionistas europeus, sendo que dois deles são Vincent van Gogh (1853 – 1890), que tinha sua própria coleção de gravuras, e Paul Gauguin (1848 – 1903), não por acaso biografado por Fletcher.

O gosto pelo Oriente não foi, tampouco, um interesse que acabou no começo do século XX. Uma das vanguardas poéticas dos anos de 1950, a Poesia Concreta brasileira desenvolveu um intenso estudo da mentalidade oriental, principalmente do ideograma, cuja lógica foi incorporada à prática escritural dos poetas pertencentes ao movimento. Em Portugal, autores como Herberto Helder (1930 – 2015) e Ana Hatherly (1929 – 2015) dialogaram com o Japão através da caligrafia e da recriação do koan, gênero textual tradicional. No mundo anglófono, vale citar o britânico Reginald Horace Blyth (1898 – 1964), tradutor de haicais, e os norte-americanos Jack Kerouac (1922 – 1969), autor de vários haicais copilados após sua morte, e Jerome Rothenberg (1931), que publicou traduções do chinês e do japonês, além de ter escrito pelo menos um livro de poemas que dialoga diretamente com o Japão, The Seven Hells of Jigoku Zoshi (1962).

Ficam, então, alguns poemas do livro, que foi traduzido integralmente para o português e será lançado pela Editora Benfazeja no segundo semestre deste ano.

 

Anderson Lucarezi e Lucas Zaparolli de Agustini

* * *

 

COURT LADY STANDING UNDER A PLUM TREE

Autumn winds roll through the dry leaves
On her garments;
Autumn birds shiver
Athwart star-hung skies.
Under the blossoming plum-tree,
She expresses the pilgrimage
Of grey souls passing,
Athwart love’s scarlet maples
To the ash-strewn summit of death.

CORTESÃ SOB UMA AMEIXEIRA

Ventos de outono vão pelas folhas secas
Às vestes dela;
Aves outonais tremem
Através do céu pego de estrelas.
Sob a ameixeira em flor,
Ela expressa a peregrinação
De almas cinzentas que passam,
Através dos bordos escarlates do amor
Até o pico da morte palmilhado por cinzas.

§

AN OIRAN AND HER KAMUSO

Gilded hummingbirds are whizzing
Through the palace garden,
Deceived by the jade petals
Of the Emperor’s jewel-trees.

UMA OIRAN E SEU KAMUSO

Colibris dourados estão zunindo
Através do jardim do palácio,
Iludidos pelas pétalas de jade
Dos pés-de-joias do Imperador.

§

 

MEMORY AND FORGETTING

I have forgotten how many times he kissed me,
But I cannot forget
A swaying branch—a leaf that fell
To earth.

MEMÓRIA E ESQUECIMENTO

Esqueci quantas vezes ele me beijou,
Mas não posso esquecer
Um galho bambo — uma folha que foi
Ao chão.

§

 

THE HEAVENLY POETESS

In their bark of bamboo reeds
The heavenly poetesses
Float across the sky.
Poems are falling from them
Swift as the wind that shakes the lance-like bamboo leaves;
The stars close around like bubbles
Stirred by the silver oars of poems passing.

AS POETAS CELESTIAIS

Em sua barca de canas de bambu
As poetas celestiais
Flutuam através do céu.
Poemas estão caindo delas
Velozes como o vento que balança as lâminas das folhas de bambu;
As estrelas se fecham como bolhas
Movidas pelos remos de prata de poemas que passam.

§

 

CHANGING LOVE

My love for her at first was like the smoke that drifts
Across the marshes
From burning woods.

But, after she had gone,
It was like the lotus that lifts up
Its heart shaped buds from the dim waters.

AMOR QUE MUDA

No começo, meu amor por ela foi como a fumaça que paira
Através dos brejos
Vinda de madeiras queimando.

Mas depois que ela partiu,
Foi como o lótus que ergue das águas turvas
Seus botões em forma de coração.

§

 

THE LONELY GRAVE

Pilgrims will ascend the road in early summer,
Passing my tombstone
Mossy, long forgotten.

Girls will laugh and scatter cherry petals,
Sometimes they will rest in the twisted pine-trees’ shade.

If one presses her warm lips to this tablet
The dust of my body will feel a thrill, deep down in the silent earth.

O TÚMULO SOLITÁRIO

Peregrinos vão ascender à estrada no começo do verão,
Passando por minha lápide
sob limo, há muito esquecida.

Garotas vão rir e espalhar pétalas de cerejeira,
Algumas vezes vão descansar à sombra retorcida do pinheiro.

Se uma delas pressionar seus lábios quentes contra essa placa
O pó do meu corpo vai sentir um arrepio, bem fundo na terra silente.

§

MOODS

A poet’s moods:
Fluttering butterflies in the rain.

HUMORES

Humores de um poeta:
Borboletas esvoaçando na chuva.

§

 

THE STARS

There is a goddess who walks shrouded by day:
At night she throws her blue veil over the earth.
Men only see her naked glory through the little holes in the veil.

AS ESTRELAS

Há uma deusa que caminha envolvida pelo dia:
À noite ela joga seu véu azul sobre a terra.
Os homens só veem sua glória nua pelos buraquinhos no véu.

 

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Carla Diacov: A Menstruação de Valter Hugo Mãe | 2 + 1

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Carla Diacov (São Bernardo do Campo, 1975). Livra-se em fazer a loca (livro digital, Edições Ellenismos, 2014), Amanhã Alguém Morre no Samba (Douda Correria, Portugal, 2015), A metáfora mais Gentil do Mundo Gentil, (Macondo Edições, Juiz de fora), Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse (Douda Correria, 2016), bater bater no yuri (livro digital, Enfermaria 6, 2017), A Menstruação de Valter Hugo Mãe (editado pelo escritor português, no projeto não comercial Casa Mãe, Portugal, 2017), Dois Pontos Pescoço X Sobreviventes (no prelo pela Editora Urutau). Já apareceu aqui no escamandro com 4 poemas inéditos.

***

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2 poemas +1 desenho
A Menstruação de Valter Hugo Mãe
Escrito (e ilustrado) a convite de Valter Hugo Mãe
No projecto não comercial, Casa Mãe, 2017

havia somente uma cadeira para o casal
na cadeira se sentava a esposa ovulada
e se sentava a esposa menstruada
o homem na cadeira se sentava ereto havia
somente esta convenção entre o casal
que a cadeira fosse o rito regulador
da sujidade espécie de objeto de contaminação
das coisas mulher nas coisas homem
depois se deitavam na tão somente cama para um
nunca aconteceu a gravidez e a esposa morreu sentada
na cadeira o marido se casou de novo mas
a nova esposa trouxe junto outra cadeira e
nunca aconteceu a gravidez pensou
o marido primeiro
não usamos a mesma cadeira
o marido morreu na primeira cadeira
e a segunda esposa ficou com a casa
com a somente cama e se desfez da primeira
cadeira
um pescador comprou a cadeira por três
sardinhas magras e se sentava na cadeira
diante do mundo e exatamente do mundo se soube
cercado da áurea primeira
uma cadeira onde a primeira
e a contaminação
o pescador estava a gerar outra cadeira
a terceira
uma
filha daquela convenção primeira

§

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.para Isaura.

a vênus de willendorf tem
a capacidade aberta e usada desde sempre
especialistas dizem
a vênus de willendorf
era usada em ritos de fertilidade
pequena usável
era usada como amuleto era
usada como objeto de limpeza abjeto
introduzido na
capacidade das vênus ordinárias era
usada como peso de segurar porta aberta
era usada para mexer alimentos ritualísticos
era usada na fervura dos alimentos mais ordinários
usada na terra era plantada antes dos alimentos
usada bolota aromatizadora pingava-se
óleo de casca de árvore ordinária na capacidade
da vênus de  willendorf
que ficava ali ao uso do recinto
a vênus de willendorf era usada
dizem os especialistas
usada como socador de ervas
usada como amplificadora da pequenez
das outras vênus
todas ordinárias
usada para amaciar
carnes relações couros discussões
pois basta olhar para a vênus de willendorf
notável pequena usável
hojendia os especialistas usam
a vênus de willendorf
em suas especialidades
a vênus de willendorf jamais deixou de ser usada

*

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Natália Agra

Natália divulgação

Natália Agra nasceu em Maceió, Alagoas, em 1987. É poeta e jornalista. Acaba de publicar seu livro de estreia: De repente a chuva (Corsário-Satã,2017).

***

Estrela-do-mar

Para Lis

que espetáculo é a palavra crepúsculo!
labirinto-oceano
estrela cadente que valsa céu abaixo
segredos de água-viva
do navio projeto-me em concha, um par de mãos dadas
vieira-vênus:
(explosão da aurora)
que palavra é estrela senão chuva?

§

In the mood for love

 I

como hei de dizer poesia?
o toque fino nas costas
do desenho abstrato
nasce uma orquídea nos dedos

II

os gatos nos distraem
se distraem
até que pegam no sono por nós quatro

III

eu gosto é de ficar aqui
com você
e os últimos desejos
namorados das estrelas

IV

a alegria nem sempre alegra
é aí que nos abraçamos e aumentamos o volume pela casa
já é tarde, no outro dia
você diz que meu sorriso desnuda o seu

V

decoramos a casa
com os nossos beijos
e muita bagunça na cama

VI

você me deu a sua máquina de poemas
eu te mostrei o meu maior segredo
você se esconde dentro de mim

VII

na rua
espalho a multidão
deixo você passar
e parar quando quiser

caso queira, vejo contigo as vitrinas mudarem de estação
aliás, vemos a chuva, a rua molhada, a luz da noite derramar na chuva a luz da lua
fazemos a chuva parar
e voltamos pra casa

VIII

do olho mágico
te vejo sair
e te espero voltar

IX

o que me deixa mais feliz?

o fim da noite
quando no teu peito
sinto o teu coração bater
e respondo, noite bem!

X

estamos no segundo inverno
aquietando a chuva
na rosa mais vermelha do coração

§

Love song

quando você me aperta o coração
cortando da gaivota
o silêncio
da solidão, o frio
aprendo aos poucos os acordes de “La Vie en Rose”
te dou metade da palavra amor
e espero do caminho,
a outra metade

§

Não sei andar na chuva

muito mais que o tempo, dividir um guarda-chuva
atravessar sem medo, queda longe da parede
pega pela mão, a formiga
na outra, carrega-o
– tempo de costas
alguém disse: não sei andar na chuva
sendo um a menos
estampido são os gritos
no ritmo dos passos

alguém repetiu: eles eram muito felizes
ela, quinze anos
ele, os mesmos quinze
dividiam no guarda-chuva
a mesma tempestade
o riso insolente
o silêncio na xícara de café
beija o inverno delicado

não havia mais ninguém na casa
além do talher empoeirado
ainda da última visita
de um marido morto
a música que faz chorar
hoje só esconderijo
impossível viver numa casa onde não faz calor
frágua que forja lágrimas
onde a chuva não caminha

como dói a paisagem
quando o olho morre aberto
fica no meio um abismo vermelho da saudade
para entrar no sonho
e esperar que aconteça um milagre

§

Troco em balas

Para Angélica Freitas

hoje troco quase tudo por açaí
e tranco a chave
hoje troco a vereda pela exaustão do caminho mais longo
troco a corneta pela flauta doce
hoje troco farpas por gentilezas
e deixo anotado na porta da geladeira
hoje troco quase tudo por bala
troco a dieta por milk shake
troco o reiki por haicais

hoje troco passeios em Vênus por meias voltas pela casa
deixo o vento ser uivo em meus cabelos-redemoinho
hoje troco quase tudo por nada
troco nada por açaí e balas
hoje troco arqueiros por flamingos
e ensino o alvo
troco a Via Láctea por farinha láctea
hoje troco quase tudo
e passo o troco em balas

§

Silêncio

 aquilo que os grilos descosturam

*

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