poesia

3 poemas inéditos de Ismar Tirelli Neto

Ismar Tirelli Neto é poeta, ficcionista, tradutor, roteirista, biscateiro editorial, ator bissexto, curador, dramaturgo, cantor de bar de hotel frustrado, mau filho e marido exemplar. Vive atualmente em Curitiba e lançou os livros Os Ilhados, Ramerrão, synchronoscopio Duas ou Três Coisas Airadas, este último em parceria com Horácio Costa. Não foi lido em pelo menos quatro idiomas.

* * *

O caso em apreço

Falou-se muito de amor naqueles dias

Curioso

Só agora as palavras começam a constituir-se

Com que então

…………………….(Não eram palavras)

Muito se falou de amor

Por aquelas semanas

Falou-se muito – amor, amor –

Com ambas as mãos sobre a morte

Com ambas as mãos sobre a brisa

O movimento de amoldar, de amoldar

Amor

Inabilmente codificado

Urticante

Imprestável para adágios

Chuva de rãs, de chumbo, de areia

Amor com que então de desenredo

Nada fez a ninguém

Remetendo falou-se

Muito de amor

Muito de amor naqueles dias

Tem-se falado

As circunstâncias não foram ainda esclarecidas

§

Caso Postal

Compro um postal
E para deter-nos
…………………….(A mim, a ele)
……………(Ao postal)
Sento-me a uma mesa do lado de fora
Dobrando a rua figurada
Na frente
Em tempo de maré alta
Depara-se este mesmo casario de sólidas fachadas brancas
Perfeitamente ritmadas
As juntas, as juntas das janelas
Os limiares ásperos, cores inambíguas, a sombra colonial
Centenárias construções abrigando
Agências de contabilidade, escritórios de advocacia
(Era este o verso
………………………….de que fugíamos no início?)
Tudo aqui tem luz e pedra e preço
Tudo quanto é figurado à frente nos conduz
A empórios
Lojas de souvenir
Balcões onde se negociam – som, fúria – passeios de escuna
Contudo no verso
Onde escrevo (onde
Ao escrever
Assumo forçosamente que estamos distantes
Ou mesmo mortos)
Não existe senão grande extensão
De breu
Não existe senão encerrar-se
O escuro de orfanatos
(Eles existem, esquecemos)
Eu subscrevo
O escuro de orfanatos, o escuro que canta
De pé
Atrás de um estacionamento, num jângal,
No verso do postal mais soalheiro, quem sabe, talvez
Seja a mesma paisagem
As mesmas correntes amarelas
Que apartam aquilo que é propriamente histórico
De tudo
O mais o escuro
A tudo empalma o escuro
Forrado de passos, de mar
………………………………e morgues, maternidades
………………………………música insituável
Cigarras que berram o tempora o mores
Brenha onde me perde a sugestão
De branco areal
Ao longe
(Existe, não existe, não existe mais)

§

Hermes

I.

Este personagem diante dele
jamais
as ondas resolveram-se
………………………..num qualquer ritmo
E as ondas, sendo cada uma
Um contêiner o céu
Não se seguia
Rolamento ingrato
Descerrando nada nunca
Hermes pusera ferrolhos
Até mesmo
Às paisagens de férias
Era já àquela altura
um nome, nada
Conotava oco e ignorado
À boca
De quantos o cumprimentavam
nada                            nunca
Cumprimentavam
A este personagem para quem
Nada jamais se abrira
Em texto
Nada jamais regrara-se
Em gráceis
Continuidades emersas
as coisas
Sempre emersas
Um único ronco de motor
Enfeixando avenidas
Ao ventre a bulha tão oca
impenetrável
Como o nome
Como os nomes
Espraiando-se cidade
Homens inabitáveis mal
Amanhados em acenos
de cabeça
Àquela altura já não
diziam sequer
escuridão
Ninguém descerrando nada

II.

Este personagem diante de seus olhos
estupefatos
…………….tomavam-lhe a voz
Substituindo-a pouco e pouco
por um coro
………………………………de interditos
Hermes põe-se a falar, a evoluir
………………………………por interditos
Hermes tem a boca cheia
………………………………(cidades e homens)
Rueiro Hermes pôs-se ventre
………………………………cheio e conotando nada
Ante a vitrine
de uma chapelaria
que não ruíra
ainda nas cercanias
do escritório
Um homem
……….habitável?
Representando de nós para nós
as crateras abertas
de redor
Semblantes humanos
………….de grande fadiga
………….na crosta azulada
Vedada
a indagação
que se vai formando
Vedado
responder
com planetas

Eram isto mesmo
Os mistérios

Anúncios
Padrão
poesia

Luis Marcio Silva (1992 -)

1.1

Luis Marcio Silva nasceu na cidade de Franca/ SP. É geminiano sob o regimento do horóscopo Ocidental. Pelo calendário chinês, nasceu no ano do macaco. Pós-Graduando em Letras, pesquisa poesia brasileira pela UNESP de Assis.

*

Sem título

Permita-nos
/Sem a frivolidade dos verdugos/

Um passo que não seja duro e reto ao abismo
Mas retida no seu reverso
Uma lágrima vertida em chuva fina sem dilúvio
que repousa o equilíbrio do orvalho sobre a pétala

E a seiva                     a vingança de um espírito sagrado
/em surdina/
Sem extirpar nossos ossos da terra.

§

Trocadilhos ferinos
 (Os sertões, Euclides da Cunha)

DIPLOMAS E CANUDOS

O sertanejo é antes de tudo um norte.
A terra,
Um triste disparo de trava-línguas;
O homem,
Um tanque tracionado avant-garde,
A guerra,
Não de bater roupas sujas em ruínas,

*
Mas a marcha que centrifuga os trapos
Sobre as dramáticas Troias de taipas.

§

 

Homo Spiritualis
(A caverna dos sonhos esquecidos, Werner Herzog)

HOMO SAPIENS                                                                  

Há quem quebre bêbado uma taça e
No vinho e no sangue se desenhe rupestre
Distanciando-se do corpo de Cristo;

As lentes de vidro muito amigas das areias
Há quem dispense saber disto,
Até mesmo o saibro o mar e o barulho;

HOMO FICTUS

Frente ao mar num domingo,
(o voo suspenso de uma gaivota)
o homem fotografa a família
brinca o ritual do espírito
e da ampulheta:

Califa do tempo e das sereias.

§

3.

um burburinho
e abre-me a fenda do silêncio uma fotografia
a vaga angústia
os nervos
a pupila aberta
a tristeza elíptica
a turva promessa no alvo da alegria.

12.

Angústia

As unhas presas
No cadafalso de remorso
O espelho
E o ruir dos olhos.

As pernas pairam
Na angústia da vida
Se não te governas
A pele que segura os ossos.

§

PUPILAS DE CARONTE

A morte é um livro
negro de contabilidade
best-seller lido na fila
de um banco em estado like;

É unidade de sentido
empreendido de lógica
Matemática em papel
branco a título corrente;

Sem divisa de alforjes,
a língua das finanças é
Uma bolsa de valores
em óbulos cambiantes

Flores secas e moedas
na vitrine de Caronte;
Se não, vis-à-vis,
pauladas a remo do calote.

Em latim, a morte
e seus disfarces
soam reza morta
na língua do sacerdote

Quem não se traduz
em nenhuma parte
no tecido descobre
o fogo do chicote.

A morte é o poder
de três tigres tristes
Com a língua travada
na inércia da carcaça,

Mecanismo de natureza
primitiva;
Espia, a barbárie
da terra devastada.

***

Padrão
poesia, tradução

Niels Hav, por Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira

Niels Hav, nasceu em 1949 na cidade de Lemvig, área rural no oeste da Dinamarca. Estreou na literatura em 1981 com a publicação de um livro de contos e no ano seguinte publicou seu primeiro livro de poesia. Niels já se estabeleceu como uma voz nórdica contemporânea. Autor de contos e poemas publicados em inúmeras revistas e antologias em todo o mundo. Traduzido para o inglês, árabe, espanhol, italiano, turco, alemão, holandês, chinês, sérvio, albanês, entre outros idiomas.

Em inglês, uma coleção de sua poesia, God’s Blue Morris, foi publicada pela Crane Editions (Canadá) em 1993. Em 2006 foi publicada outra coleção de seus poemas, intitulada We Are Here, pela editora canadense BookThug. Ambas com tradução de Patrick Friesen e P. K. Brask.

Em seu país natal já recebeu diversos prêmios do Danish Arts Council. Atualmente vive com sua família em Copenhague, em um dos bairros mais coloridos e multiétnicos da capital dinamarquesa. Viajou diversas vezes para Europa, Ásia, América do Norte e do Sul, e participa frequentemente de festivais internacionais de poesia.

Todos os poemas do livro foram traduzidos a partir da língua inglesa. Traduzimos na íntegra a antologia poética “We Are Here” publicada em 2006 pela editora BookThug (Toronto, Canadá) com tradução direta do dinamarquês por Patrick Friesen e P. K. Brask.

Dispusemos do apoio do autor, que também domina a língua inglesa, para nos orientar em eventuais consultas necessárias à tradução, como não possuímos conhecimento acerca da língua dinamarquesa, idioma dos escritos originais, o contato com o autor foi de extrema importância.

Nas palavras do próprio Niels Hav: “É impossível traduzir poesia, todo mundo sabe. Mas isso precisa ser feito. Esse paradoxo é o ponto de partida para qualquer tentativa”. Na edição brasileira objetivamos manter a simplicidade elegante de sua obra e suas características vitais, tais quais: sua linguagem graciosamente direta, seu humor fatalista e sua ironia fina.

Quando nos deparamos com os poemas do autor, publicados num blog de poemas no idioma inglês, ficamos bestificados com a áurea espirituosa que compunha suas linhas e espantados ao saber que, até então, sua obra ainda não havia sido traduzida para a língua portuguesa. Instantaneamente, fomos tomados pelo desejo de trazê-la para a nossa realidade.

Sobre a tradução para o inglês Niels declarou, via e-mail, em uma de nossas conversas: “Trabalhei junto de Brask e Friesen nas traduções, e considero as edições em inglês praticamente originais, pois compreendo o idioma e fui capaz de fazer contribuições durante o processo. Então não acho que existam muitas perdas na tradução para o inglês”.

TRADUTORES:

Matheus Peleteiro, nasceu em Salvador – Bahia em 1995. Escritor, tradutor, poeta e contista, publicou em 2015 o seu primeiro romance, “Mundo Cão”, pela editora Novo Século. Em 2016, lançou a novela intitulada “Notas de um Megalomaníaco Minimalista” (editora Giostri), o livro de poemas “Tudo Que Arde Em Minha Garganta Sem Voz” (editora Penalux). Em 2017, publicou “Pro Inferno com Isso”, seu primeiro livro de contos.

Edivaldo Ferreira, nasceu em 1992 na zona leste de São Paulo. Escritor e tradutor literário e audiovisual, em 2016 publicou seu primeiro livro “Ragtimes, beijos na nuca & buracos no peito” (poemas) pela BAR Editora.

* * *

Til digternes forsvar

Hvad skal vi gøre med digterne?
Dem er det synd for,
de er så hjerteskærende i deres sorte tøj
blåfrosne af indvendige polarstorme.

Poesien er en frygtelig pest,
de smittede går rundt og jamrer sig,
deres skrig forgifter atmosfæren som udslip
fra mentale atomkraftværker. Det er så psykisk.
Poesien er en tyran;
den holder folk vågne om natten og ødelægger
ægteskaberne,
den driver mænd ud i øde sommerhuse midt om vinteren,
der sidder de forpinte med høreværn og halstørklæder.
En hæslig tortur.

Poesi er en plage,
værre end gonoré – en grusom pestilens.
Men tænk på digterne, de har det hårdt,
bær over med dem!
De er hysteriske som højgravide tvillingemødre,
de skærer tænder i søvne, spiser jord
og græs. De står i timevis udenfor i blæsten
plaget af ufattelige metaforer.
Hver dag er en højtid for dem.

Åh, hav barmhjertighed med digterne,
de er døve og blinde,
hjælp dem i trafikken, hvor de vakler rundt
med deres usynlige handicap: De husker
alt muligt. Af og til standser en af dem op
og lytter efter en fjern udrykning.
Vis hensyn.

Poeterne er som sindssyge børn
jaget hjemmefra af den samlede familie.
Bed for dem;
de er født ulykkelige –
deres mødre har grædt over dem,
søgt lægehjælp og juridisk bistand,
indtil de bare gav op
for at frelse deres egen forstand.
Åh, græd over poeterne!

Dem er der ingen redning for.
Befængt med lyrik som hemmeligt spedalske
er de spærret inde i deres egen fantasi –
en uhyggelig ghetto, fyldt med dæmoner
og ondskabsfulde spøgelser.

Når du på en klar sommerdag med strålende sol
ser en stakkels digter
komme vaklende ud fra en opgang, bleg
som en dødning og vansiret af spekulationer –
så gå hen og hjælp ham!
Bind hans snørebånd, tag ham med
over i parken og sæt ham på en bænk
i solen. Syng lidt for ham,
giv ham en is og fortæl ham et eventyr;
han er så ked af det.
Han er helt ødelagt af poesi.

Niels Hav

In defense of poets

What are we to do about the poets?
Life’s rough on them
they look so pitiful dressed in black
their skin blue from internal blizzards.

Poetry is a horrible disease
the infected walk about complaining
their screams pollute the atmosphere like leaks
from atomic power stations of the mind. It’s so psychotic.
Poesia is a tyrant
it keeps people awake at night and destroys marriages
it draws people out to desolate cottages in mid-winter
where they sit in pain wearing earmuffs and thick scarves.
Imagine the torture.

Poetry is a pest
worse than gonorrhea, a terrible abomination.
But consider poets it’s hard for them
bear with them.
They are hysterical as if they are expecting twins
they gnash their teeth while sleeping, they eat dirt
and grass. They stay out in the howling wind for hours
tormented by astounding metaphors.
Every day is a holy day for them.

Oh please, take pity on the poets
they are deaf and blind
help them through traffic where they stagger about
with their invisible handicap
remembering all sorts of stuff. Now and then one of them stops
to listen for a distant siren.
Show consideration for them.

Poets are like insane children
who’ve been chased from their homes by the entire family.
Pray for them
they are born unhappy
their mothers have cried for them
sought the assistance of doctors and lawyers, until they had to give up
for fear of loosing their own minds.
Oh, cry for the poets.

Nothing can save them.
Infested with poetry like secret lepers
they are incarcerated in their own fantasy world
a gruesome ghetto filled with demons
and vindictive ghosts.

When on a clear summer’s day the sun shining brightly
you see a poor poet
come wobbling out of the apartment block, looking pale
like a cadaver and disfigured by speculations
then walk up and help him.
Tie his shoelaces, lead him to the park
and help him sit down on a bench
in the sun. Sing to him a little
buy him an ice cream and tell him a story
because he’s so sad.
He’s completely ruined by Poetry.

(Tradução: P.K. Brask e Patrick Friesen)

Em defesa dos poetas

O que devemos fazer com os poetas?
A vida é dura com eles
eles parecem tão deploráveis vestindo de preto
sua pele azulada por nevascas internas.

Poesia é uma doença terrível
o infectado caminha entre lamentos
seus gritos poluem a atmosfera como vazamentos
de usinas nucleares da mente. É tão psicótico.
A poesia é uma tirana
mantém as pessoas acordadas à noite e destrói casamentos
atrai pessoas para cabanas solitárias no meio do inverno
onde elas ficam a sofrer usando protetores de ouvidos e grossos cachecóis.
Imagine a tortura.

Poesia é uma peste
pior que a gonorreia, uma abominação terrível.
Mas pense nos poetas, é difícil pra eles
seja paciente com eles.
Eles são histéricos como se esperassem gêmeos
eles rangem os dentes enquanto dormem, eles comem lixo
e mato. Eles ficam lá fora na friagem por horas
atormentados por terríveis metáforas.
Todo dia é um dia sagrado para eles.

Oh, por favor, tenha piedade dos poetas
eles são surdos e cegos
ajude-os a atravessar o trânsito por onde vão tropeçando
sobre seus obstáculos invisíveis
lembrando todo tipo de coisas. De vez em quando
um deles para e fica ouvindo uma sirene distante.
Mostre consideração por eles.

Poetas são como crianças loucas
que foram afugentadas de suas casas por toda a família.
Reze por eles
eles nasceram infelizes
suas mães choraram por eles
procuraram ajuda de médicos e advogados,
até que tiveram que desistir
por medo de perderem a própria sanidade.
Oh, chore pelos poetas.

Nada pode salvá-los.
Infestados de poesia como leprosos secretos
eles estão encarcerados em seu próprio mundo de fantasia
um gueto macabro cheio de demônios
e fantasmas vingativos.

Quando em um dia claro de verão, o sol brilhando intensamente,
você ver um pobre poeta
cambaleando pra fora do bloco de apartamentos, parecendo pálido
como um cadáver e desfigurado por suposições
caminhe até ele e o ajude.
Amarre seus cadarços, leve-o para o parque
e ajude-o a sentar em um banco
sob o sol. Cante um pouco pra ele
compre um sorvete e conte uma história
porque ele é tão triste.
Ele está completamente arruinado pela poesia.

(Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira)

§

Epigram

Man kan tilbringe et helt liv
i selskab med ord,
uden at finde
det rigtige.

Ligesom en stakkels fisk
pakket ind i ungarske aviser:
For det første er den død,
for det andet forstår den ikke ungarsk.

Niels Hav

Epigram

You can spend an entire life
in the company of words
not ever finding
the right one.

Just like a wretched fish
wrapped in Hungarian newspapers.
For one thing it is dead,
for another it doesn’t understand
Hungarian.

(Tradução: P.K. Brask e Patrick Friesen)

Epigrama

Podes passar uma vida inteira
em companhia de palavras
sem que encontre
a adequada.

Tal como um peixe miserável
embrulhado em jornais húngaros.
Por um lado, está morto,
por outro, não entende
húngaro.

(Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira)

§

Besøg af min Far

Min døde Far kommer på besøg
og sætter sig i sin stol igen, den jeg fik.
Nå, Niels! siger han.
Han er brun og stærk, hans hår skinner som sort lak.
Engang flyttede han rundt på andres gravsten
med stålstang og sækkevogn, jeg hjalp ham.
Nu har han flyttet sin egen
selv. Hvordan går det? siger han.
Jeg fortæller ham det hele,
mine planer, alle de mislykkede forsøg.
Inde på opslagstavlen hænger der sytten regninger.
Smid dem væk,
siger han, de skal nok komme igen!
Han smiler.
I mange år var jeg på nakken af mig selv,
siger han, jeg lå vågen og spekulerede
for at blive et ordentligt menneske.
Det er vigtigt!

Jeg byder ham en cigaret,
men han er holdt op med at ryge nu.
Udenfor tænder solen ild i tage og skorsten.
Skraldemændene larmer og råber til hinanden
nede i gaden. Min Far rejser sig
går hen til vinduet og ser ned på dem.
De har travl, siger han, sådan skal det være.
Bestil noget!

Niels Hav

Visit from my father

My dead Father comes to visit
and sits down in his chair again, the one I got.
Well, Niels he says.
He is brown and strong, his hair shines like black lacquer.
Once he moved other people’s gravestones around
using a steel rod and a wheelbarrow, I helped him.
Now he’s moved his own
by himself. How’s it going? he says.
I tell him all of it,
my plans, all the unsuccessful attempts.
On my bulletin board hang seventeen bills.
Throw them away,
he says, they’ll come back again.
He laughs.
For many years I was hard on myself,
he says, I lay awake mulling
to become a decent person.
That’s important.

I offer him a cigarette,
but he has stopped smoking now.
Outside the sun sets fire to the roofs and chimneys,
the garbagemen make noise and yell to each other
on the street. My Father gets up,
goes to the window and looks down at them.
They are busy, he says, that’s good.
Do something!

(Tradução: P.K. Brask e Patrick Friesen)

Visita do meu pai

Meu falecido pai vem me visitar
e senta em sua cadeira mais uma vez, aquela que herdei.
Então, Niels, ele diz.
Ele é bronzeado e forte, seu cabelo brilha como verniz negro.
Certa vez ele moveu a lápide de outra pessoa pelas redondezas
usando uma haste de aço e um carrinho de mão, eu o ajudei.
Agora ele moveu sua própria lápide
sozinho. Como está indo? Ele pergunta.
Conto tudo a ele,
meus planos, minhas tentativas mal-sucedidas.
Em meu mural de avisos estão penduradas dezessete contas.
Jogue isso fora,
meu pai diz, elas sempre voltam.
Ele sorri.
Por muitos anos fui duro comigo mesmo,
ele diz, ficava acordado na cama pensando
em como me tornar uma pessoa decente.
Isso é importante.

Ofereci um cigarro a ele,
mas ele parou de fumar agora.
Do lado de fora o sol incendiava telhados e chaminés,
os lixeiros faziam barulho e gritavam uns com os outros
no meio da rua. Meu pai se levanta,
vai até a janela e olha pra eles.
Eles estão ocupados, ele diz, isso é bom.
Faça alguma coisa!
(Tradução: Matheus Peleteiro e Edivaldo Ferreira)

Padrão
poesia, tradução

Alejandra Pizarnik, por Natália Agra e Victor Hugo Turezo

Inalterar capacidades, sentidos na poesia de Alejandra Pizarnik é quase que efeméride. Tanto a busca de uma significação justaposta é instransponível. Argentina incandescente em abordar a surreal crise de sua existência, é também espelho de uma lápide na qual reverbera o escuro e a permissibilidade da morte. Limar a palavra desta poeta é desatar nós. Compilar e tentar aproximá-la daqui é como correr atrás de pássaros ruins, como escreveu Rodrigo Madeira certa vez.

Investigar a crueza de seus poemas é como adentrar num bosque musical e se aproximar de cada espécie selvagem, é como entoar a canção da morte. Sua poesia é quase uma experiência em comunhão com o universo, onde o corpo e a mente são a mesma coisa, numa cosmovisão. E talvez seja essa a essência dos poemas que traduzimos. Talvez conseguimos desvendar um pouco do portal imaginário do inconsciente da Pizarnik.

Natália Agra e Victor Hugo Turezo

***

pizarnikok-817x1024

 

Cielo

mirando el cielo

me digo que es celeste desteñido (témpera
azul puro después de una ducha helada)

las nubes se mueven

pienso en tu rostro y en ti y en tus manos y
en el ruido de tu pluma y en ti
pero tu rostro no aparece en ninguna nube!
yo esperaba verlo adherido a ella como un
trozo de algodón enyodado dentro de tela adhesiva
sigo caminando

un cocktail mental embaldosa mi frente
no sé si pensar en el cielo o en ti
y si tirara una moneda? (cara tú seca cielo)
no! tu ser no se arriesga y
yo te deseo te de-se-o!
cielo trozo de cosmos cielo murciélago infinito
inmutable como los ojos de mi amor

pensemos en los dos

los dos tú + cielo = mis galopantes sensaciones
biformes bicoloreadas bitremendas bilejanas
lejanas lejanas
lejos

sí amor estás lejos como el mosquito
sí! ese que persigue a una mosquita junto
al farol amarillosucio que vigila bajo el
cielo negrolimpio esta noche angustiosa
llena de dualismos

 

Céu

olhando o céu

me digo que é celeste desbotado (têmpera
azul puro depois de um banho gelado)

as nuvens se movem

penso em seu rosto e em você e em suas mãos e
no ruído de sua caneta e em você
mas seu rosto não aparece em nenhuma nuvem!
eu esperava vê-lo misturado a ela como um
pedaço de algodão iodado dentro do tecido adesivo
sigo caminhando

um coquetel mental embala minha cabeça
não sei se pensar no céu ou em você
e se eu jogasse uma moeda? (cara, você; coroa, o céu)
não! seu ser não se arrisca e
eu te desejo, te de-se-jo!
pedaço de céu do cosmos céu morcego infinito
imutável como os olhos do meu amor

pensemos nos dois

os dois você + céu = minhas sensações galopantes
biformes bicoloridas bitremendas bidistantes
distantes distantes
longe

sim o amor está longe como o mosquito
sim! esse que persegue um outro mosquito perto
do farol amarelado que vigia, sob o
céu negrolimpo, esta noite angustiante
                                cheia de dualismos

§

 

El miedo

En el eco de mis muertes
aún hay miedo.
¿Sabes tú del miedo?
Sé del miedo cuando digo mi nombre.
Es el miedo,
el miedo con sombrero negro
escondiendo ratas en mi sangre,
o el miedo con labios muertos
bebiendo mis deseos.
Sí. En el eco de mis muertes
aún hay miedo.

 

O medo

No eco de minhas mortes
ainda há medo.
Você percebe o medo?
Sei do medo quando digo meu nome.
É o medo,
O medo com um chapéu preto
escondendo ratos em meu sangue,
ou o medo com lábios mortos
bebendo meus desejos.
Sim. No eco de minhas mortes
ainda há medo.

***

Natália Agra é poeta e editora na Corsário-Satã. Nasceu em Maceió, AL, em 1987. Publicou De repente a chuva (Corsário-Satã, 2017). Já apareceu aqui na escamandro com alguns poemas.

Victor Hugo Turezo é poeta e tradutor. Nasceu em Curitiba, PR, em 1993. Publicou minha massa encefálica despenca como se de um desfiladeiro (Editora Patuá, 2017).

*

Padrão
poesia

Ana Paula Tavares (1952-)

ana_paula6

Ana Paula Tavares nasceu em 1952 em Lubango, Angola. Depois de estudar história em Luanda, trabalhou como professora em 1973, mas foi para Portugal alguns anos depois para continuar os seus estudos de história em Lisboa. Ao mesmo tempo, começou a estudar literatura africana de língua portuguesa e obteve um doutorado em história africana. Esteve envolvida com o meio ambiente em várias instituições em São Paulo e Nova Iorque, é membro da Associação dos Escritores Angolanos e da secção angolana da UNESCO. Atualmente, trabalha como historiadora em Lisboa. Seu extenso estudo científico A Apropriação do Escrito pelos Africanos recebeu amplo reconhecimento nos círculos profissionais. Além disso, Tavares recebeu recentemente o premio Mário António, o principal prêmio para autores de língua portuguesa da África. Ana Paula Tavares é uma das mais importantes vozes femininas da poesia angolana contemporânea. Seu trabalho é influenciado pelas obras de três poetas angolanos: David Mestre, Arlindo Barbeitos e Rui Duarte de Carvalho, e pelos poetas brasileiros Bandeira e Drummond. Sua poesia lida com tradições e línguas angolanas, amor e guerra e, especialmente, o papel das mulheres.

sergio maciel

* * *

 

A ANONA

Tem mil e quarenta e cinco
Caroços
Cada um com uma circunferência
À volta

Agrupam-se todos
(arrumadinha)
No pequeno útero verde
Da casca

§

 

MUKAI III

(Mulher à noite)

Um soluço quieto
desce
a lentíssima garganta
(rói-lhe as entranhas
um novo pedaço de vida)
os cordões do tempo
atravessam-lhe as pernas
e fazem a ligação terra.

Estranha árvore de filhos
uns mortos e tantos por morrer
que de corpo ao alto
navega de tristeza
as horas.

§

 

MUKAI VI

P’ra não morrer nos teus lábios de prata
era preciso ser pássaro e serpente

p’ra não sentir os teus lábios de prata
era preciso ser mulher e gente

p’ra não sofrer nos teus lábios de prata
era preciso ser sonho
uma cabaça fechada

P’ra não morrer dos teus lábios de prata
era preciso não ser mulher, pássaro e gente
pintada de cicatrizes

§

 

CANTO DE NASCIMENTO

Aceso está o fogo
prontas as mãos

o dia parou a sua lenta marcha
de mergulhar na noite.

As mãos criam na água
uma pele nova

panos brancos
uma panela a ferver
mais a faca de cortar

Uma dor fina
a marcar os intervalos de tempo
vinte cabaças deleite
que o vento trabalha manteiga

a lua pousada na pedra de afiar

Uma mulher oferece à noite
o silêncio aberto
de um grito
sem som nem gesto
apenas o silêncio aberto assim ao grito
solto ao intervalo das lágrimas

As velhas desfiam uma lenta memória
que acende a noite de palavras
depois aquecem as mãos de semear fogueiras

Uma mulher arde
no fogo de uma dor fria
igual a todas as dores
maior que todas as dores.

Esta mulher arde
no meio da noite perdida
colhendo o rio
enquanto as crianças dormem
seus pequenos sonhos de leite.

§

 

VIERAM MUITOS

“A massambala cresce a olhos nus”

Vieram muitos
à procura de pasto
traziam olhos rasos da poeira e da sede
e o gado perdido.

Vieram muitos
à promessa de pasto
de capim gordo
das tranqüilas águas do lago.
Vieram de mãos vazias
mas olhos de sede
e sandálias gastas
da procura de pasto.

Ficaram pouco tempo
mas todo o pasto se gastou na sede
enquanto a massambala crescia
a olhos nus.

Partiram com olhos rasos de pasto
limpos de poeira
levaram o gado gordo e as raparigas.

§

 

O MAMÃO

Frágil vagina semeada
pronta, útil, semanal
Nela se alargam as sedes

no meio
cresce
insondável

o vazio…

§

 

A ABÓBORA MENINA

Tão gentil de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
……………..de segredos bem escondidos
estende-se à distância
…………….procurando ser terra
quem sabe possa
…………..acontecer o milagre:
……………………………..folhinhas verdes
……………………………..flor amarela
……………………………….ventre redondo
depois é só esperar
…………….nela desaguam todos os rapazes.

Padrão
poesia, tradução

Poesia nórdica| Três tradutores de Karin Boye

Karin Maria Boye (n. 26 outubro de 1900 em Gotemburgo, m. madrugada de 24 april 1941 em Alingsås) é uma escritora e tradutora sueca mais conhecida por sua poesia mas que nos legou também muitos artigos, contos e romances, o mais célebre dos quais é a distópica obra de ficção científica Kallocain (Calocaína, publicada no Brasil em 1974 na tradução do prolífico tradutor Janer Cristaldo). A poesia de Karin Boye, marcada de lado pelo seu engajamento político e doutro por sua complexa vida amorosa, numa época impregnada de preconceitos — mesmo na hoje socialmente avançada Suécia — em que assumir publicamente a homossexualidade nem sempre era uma opção muito promissora. Poeta das grandes ela própria, Karin se viu, entre outros, com os poetas Rilke, Eliot e Whitman, os quais verteu ao seu idioma materno.

* * *

 DÓI TANTO QUANDO

Dói tanto quando o broto enflora.
Ou não tardava a primavera.
Oculta atrás do instante, chora,
refém do clima que congela
onde amargou o inteiro inverno.
Então por que desponta agora?
Dói sempre quando o broto enflora
dói quando cresce
…………………….e quando para.

A mesma dor é a dor da gota
que rompe o gelo, anseia e vai,
vacila em vão, o galho agarra
mas cede ao peso, escorre e cai.
É dor de medo, frio e dúvida
ante o escuro do sentir,
é dor daquele que ignora —
se quer ficar
…………………….ou quer partir.

E quando nada mais consola,
o galho o mesmo broto afronta.
Não há mais medo que a tolha,
cai rebrilhando a mesma gota
perante o novo, intimorata
esquece o risco da jornada —
e se engrandece, num segundo,
de toda a fé
…………………….que move o mundo.

(traduzido do sueco por Leonardo Pinto Silva)

JA VISST GÖR DET ONT

Ja visst gör det ont när knoppar brister.
Varför skulle annars våren tveka?
Varför skulle all vår heta längtan
bindas i det frusna bitterbleka?
Höljet var ju knoppen hela vintern.
Vad är det för nytt, som tär och spränger?
Ja visst gör det ont när knoppar brister,
ont för det som växer
………………………………och det som stänger.

Ja nog är det svårt när droppar faller.
Skälvande av ängslan tungt de hänger,
klamrar sig vid kvisten, sväller, glider –
tyngden drar dem neråt, hur de klänger.
Svårt att vara oviss, rädd och delad,
svårt att känna djupet dra och kalla,
ändå sitta kvar och bara darra –
svårt att vilja stanna
………………………………och vilja falla.

Då, när det är värst och inget hjälper,
Brister som i jubel trädets knoppar.
Då, när ingen rädsla längre håller,
faller i ett glitter kvistens droppar
glömmer att de skrämdes av det nya
glömmer att de ängslades för färden –
känner en sekund sin största trygghet,
vilar i den tillit
………………………………som skapar världen.

§

MANHÃ

Quando o sol da manhã penetra pela vidraça da janela,
alegre e cuidadoso
como uma criança querendo fazer surpresa
cedo, muito cedo em um dia de festa —
então me espreguiço cheia de uma crescente exaltação
de braços abertos para o dia que está por vir —
para o dia que é você
para a luz que é você
o sol é você
e a primavera é você
e toda a linda, linda
vida me esperando é você!

(traduzido do sueco por Fernanda Sarmatz Åkesson)

MORGON

När morgonens sol genom rutan smyger,
glad och försiktig,
lik ett barn, som vill överraska
tidigt, tidigt en festlig dag —
då sträcker jag full av växande jubel
öppna famnen mot stundande dag —
ty dagen är du,
och ljuset är du,
solen är du,
och våren är du,
och hela det vackra, vackra,
väntande livet är du!

§

Como posso dizer se a tua voz é bela.
Apenas sei que ela me atravessa,
que me faz estremecer como uma folha
e me despedaça e me arrebenta.

O que eu sei sobre a tua pele e sobre os teus membros.
Eles me abalam apenas por serem teus,
então para mim não há nem descanso e nem paz,
enquanto eles não forem meus.

(traduzido do sueco por Fernanda Sarmatz Åkesson)

*

Como dizer se é bela a tua voz
que me atravessa
e dilacera como uma folha
feita em pedaços.

Que sei da tua pele e dos teus membros
me sacudindo e jurando que sou tua,
roubando de mim o sono e o descanso,
até que que sejam meus.

(traduzido do sueco por Leonardo Pinto Silva)

*

Como posso dizer se a tua voz é bonita.
O único que sei é que ela me trespassa,
me faz estremecer feito uma folha aflita
depois me desfaz e então me devassa.

Que sei eu da tua pele e das tuas pernas.
Comove-me só o fato de que sejam tuas
e eu não terei repouso nem a paz eterna
enquanto elas não forem minhas, nuas.

(traduzido do sueco por Luciano Dutra)

Hur kan jag säga om din röst är vacker.
Jag vet ju bara, att den genomtränger mig
och kommer mig att darra som ett löv
och trasar sönder mig och spränger mig.

Vad vet jag om din hud och dina lemmar.
Det bara skakar mig att de är dina,
så att för mig finns ingen sömn och vila,
tills de är mina.

§

NOITE DE SANTA VALBURGA

Enfim estou junto à montanha do destino.
Em volta, como nuvens de tempestade,
juntam-se seres informes, animais crepusculares,
com suas asas negras,
com seus olhos forsforados.
Paro? Ou ando? A senda segue, sombria.
Se paro pacificamente aqui no sopé da montanha,
ninguém mais me importuna.
E posso assistir serenamente seus embates como jogos nebulosos no ar,
mero olho desgarrado.
Porém se ando, se ando, aí já não sei de mais nada.
Pois para quem anda esses passos
a vida vira uma fábula.
Eu própria fogo,
hei de cavalgar nas serpentes bruxuleantes de fogo.
Eu própria vento,
hei de voar nas pandorgas aladas.
Eu própria o nada,
perdida na tempestade
hei também de me arrojar viva ou morta, feito um destino pesado de futuro.

(traduzido do sueco por Luciano Dutra)

VALBORGSNATT

Sent omsider står jag vid ödenas berg.
Runtomkring som ovädersmoln
skockar sig formlösa väsen, skymningsdjur,
svartvingade,
fosforögda.
Stannar jag? Går jag? Vägen ligger mörk.
Stannar jag fredlig här vid foten av berget,
då rör mig ingen.
Lugn kan jag se deras kamp som en dimmans lek i luften,
själv blott ett vilset öga.
Men går jag, går jag, då vet jag ingenting mer.
För den som tar de stegen
blir livet saga.
Själv eld
skall jag rida på ringlande eldormar.
Själv vind
skall jag flyga på vingade vinddrakar.
Själv intet,
själv förlorad i stormen
slungas jag död eller levande fram, ett öde framtidstungt.

* * *

OS TRÊS TRADUTORES

Fernanda Sarmatz Åkesson (n. 20 de maio de 1970, em Porto Alegre/RS) é bacharel em ciências jurídicas e sociais pela PUC/RS. Vive em Estocolmo desde 1999, onde completou seus estudos com  cursos de pedagogia e de português para estrangeiros. Trabalha como professora de português (língua materna e língua de herança). Já traduziu obras de ficção e não-ficção. Alguns dos autores traduzidos são: Astrid Lindgren, Peter Englund, David Lagercrantz, Pernilla Stalfelt, Christina Rickardsson. Casada com um sueco, tem uma filha e uma cachorra.

Leonardo Pinto Silva (n. 31 de dezembro de 1970 em Fortaleza/CE) é jornalista e tradutor, majoritariamente do norueguês. Aprendeu o idioma na Noruega, onde concluiu o ensino médio, e já traduziu, entre ficção e não-ficção, mais de trinta títulos de autores como Jostein Gaarder, Karl Ove Knausgård e Thor Heyerdahl, para diversas editoras brasileiras. Recentemente, teve publicado pelas editoras Carambaia (SP) e Moinhos (MG) peças de Henrik Ibsen, que serão encenadas em Porto Alegre pela diretora Camila Bauer, brasileira vencedora do Ibsen Awards 2017. Entre uma obra em prosa e outra, dedica-se à tradução de poesias dos idiomas escandinavos. Vive em São Paulo, é casado e tem dois filhos.

Luciano Dutra (n. 6 de novembro de 1973 em Viamão/RS) é bacharel em língua e literatura islandesa (2007) e mestrando em estudos de tradução pela Universidade da Islândia. Além de literatura islandesa e nórdica contemporânea, traduz as sagas, obras únicas de prosa de ficção compiladas na Idade Média por autores anônimos da Islândia. Em 2014, fundou em Reykjavík, onde vive desde 2002, a Sagarana forlag, editora multilíngue especializada na publicação de literatura em tradução entre as línguas nórdicas e o português. Mantém desde 2016 a página Um Poema Nórdico ao Dia (http://www.facebook.com/nordrsudr), que traz diariamente poemas de autores de todos os países nórdicos, a maioria deles até agora inéditos em português, sempre em tradução direta dos idiomas originais.

 

Padrão
poesia, tradução

Frank O’Hara (1926-1966), por Lucas Túlio

ohara

Frank O’Hara (1926 – 1966) foi, entre outras coisas, um poeta norte-americano fundador do grupo Escola de Poetas de Nova Iorque (New York School of Poets) junto a John Ashbery, Kenneth Koch, James Schuyler e Barbara Guest. Nasceu em Baltimore, embora os anos mais produtivos de sua vida terem acontecido em Nova Iorque, onde a literatura, a música, a pintura e cinema convergiam em único ponto nos poemas de O’Hara. Por ser muito ativo na área das artes, na década de 60 Frank passou a ser um dos curadores do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Para ele o poema deveria divertir. Dos poemas abaixo, dois são do livro Lunch Poems (1964) – o poeta usava o horário de almoço para caminhar pela cidade em busca de situações e temas para seus poemas. Apenas “Manhã” é de The Collected Poems of Frank O’Hara (1971). Morreu prematuramente, em decorrência de um atropelamento por um buggy em Fire Island. Foi levado ao hospital, mas morreu devido aos ferimentos.

Lucas Túlio

* * *

 

Ontem lá pra baixo no canal

Você diz que tudo é bem simples e interessante
isso me faz sentir muito melancólico, como ler um bom romance russo faz
estou terrivelmente entediado
às vezes é como ver um filme ruim
outros dias, com frequência, é como ter uma doença aguda nos rins
deus sabe que não tem nada a ver com o coração
nada a ver com pessoas mais interessantes que eu
blá blá
é um pensamento divertido
como uma pessoa pode ser mais divertida que si mesma
como alguém falha em ser
posso pegar emprestado sua quarenta e cinco
só preciso de uma bala de preferência prata
se não dá pra ser interessante ao menos dá pra ser uma lenda
(mas eu odeio toda essa merda)

Yesterday down at the canal

You say that everything is very simple and interesting
it makes me feel very wistful, like reading a great Russian novel does
i am terribly bored
sometimes it is like seeing a bad movie
other days, more often, it’s like having an acute disease of the kidney
god knows it has nothing to do with the heart
nothing to do with people more interesting than myself
yak yak
that’s an amusing thought
how can anyone be more amusing than oneself
how can anyone fail to be
can i borrow your forty-five
i only need one bullet preferably silver
if you can’t be interesting at least you can be a legend
(but i hate all that crap)

§

 

Manhã

Eu tenho que te dizer
como eu te amo sempre
penso nisso em manhãs
cinzas com a morte

em minha boca o chá
nunca está quente
o bastante nessa hora
o cigarro seco o roupão bordô

arrepia-me preciso de você
e olho para fora da janela
vendo a neve silenciosa

À noite na doca
os ônibus brilham como
nuvens e estou sozinho
pensando em flautas

sinto sua falta sempre
quando vou à praia
a areia molhada com
lágrimas que parecem minhas

embora eu nunca chore
e guarde você no meu
coração com um ânimo
tão sincero que te faria orgulhoso

o estacionamento está
lotado e eu estou parado
chacoalhando as chaves o carro
está vazio como uma bicicleta

o que você está fazendo
agora onde você comeu
no almoçou e tinham
muitas anchovas é

difícil pensar em você
sem mim na frase
você me deprime
quando está sozinho
noite passada as estrelas
eram numerosas e hoje
a neve é o cartão de visita
delas não serei cordial

não há nada que me
distraia a música é só
palavras cruzadas
você sabe como é
quando se é o único
passageiro se há algum
lugar mais distante de mim
imploro que não vá

Morning

I’ve got to tell you
how I love you always
I think of it on grey
mornings with death

in my mouth the tea
is never hot enough
then and the cigarette
dry the maroon robe

chills me I need you
and look out the window
at the noiseless snow

At night on the dock
the buses glow like
clouds and I am lonely
thinking of flutes

I miss you always
when I go to the beach
the sand is wet with
tears that seem mine

although I never weep
and hold you in my
heart with a very real
humor you’d be proud of

the parking lot is
crowded and I stand
rattling my keys the car
is empty as a bicycle

what are you doing now
where did you eat your
lunch and were there
lots of anchovies it

is difficult to think
of you without me in
the sentence you depress
me when you are alone

Last night the stars
were numerous and today
snow is their calling
card I’ll not be cordial

there is nothing that
distracts me music is
only a crossword puzzle
do you know how it is

when you are the only
passenger if there is a
place further from me
I beg you do not go

§

 

ohara1

ohara2

Padrão