Alejandra Pizarnik: “o inferno musical”, por nina rizzi

 Alejandra Pizarnik já apareceu diversas vezes aqui na escamandro, sendo a primeira em 2012: a tradução integral de seu primeiro livro La tierra más ajena/ A terra mais ao longe, em tradução do nosso então editor Vinícius Ferreira Barth, tradução primorosa que aliás muito me inspirou nas minhas próprias (suas traduções foram dividas em parte 1 e parte 2), e no mesmo ano Barth traduziu os seis poemas enfeixados como un signo en tu sombra.  Depois se seguiram traduções minhas para um de seus últimos poemas, o longo en esta noche, en este mundo/ nesta noite neste mundo, e traduções de Natália Agra e Victor Hugo Turezo para os poemas Cielo/ Céu e El Miedo/ O Medo

No ano passado fui convidada pela também poeta e tradutora Patrícia Lavelle a a enviar algumas traduções em curso para a sessão Arcas de Babel da Revista Cult. Se me pedem traduções em curso, só posso enviar poemas de Alejandra Pizarnik, comentei na apresentação dos Poemas de Sombra, enviados para a Babel como se deu meu contato com a obra de piknik:

“Em 2004 estive na Argentina junto com o Movimento Sem Terra (MST) em um evento da Vía Campesina no âmbito da Campanha Global pela Reforma Agrária. Fiquei alguns dias a mais por lá e travei contato com um pouco da literatura portenha contemporânea, dentre elas, a poesia de Alejandra Pizarnik, que embora hoje seja objeto de estudos e tenha ganhado traduções e na época já fosse uma lenda na Espanha, Argentina e outros países de língua espanhola, por aqui ainda estava sob brumas. E desde esse primeiro encontro, um alumbramento, um silêncio, um pássaro se debatendo em fuga a cada leitura.

As primeiras traduções de sua obra se iniciaram muito naturalmente, dessa maneira que fazemos quando lemos algo em outro idioma e traduzimos mentalmente; e essas leituras-traduções foram também uma maneira de me aproximar da língua, aprender a língua, amorosamente. A partir de 2011 comecei a traduzir sua poesia como uma forma mais aprofundada de leitura e pesquisa de sua linguagem, e em 2018 conclui a dissertação de mestrado onde traduzi sua obra poética completa.

Nesses mais de quinze anos de contato e tradução da obra de Alejandra – que chamo carinhosamente de piknikapós tanto tempo de intimidade de leitura –, acabo por entrar num círculo da própria autora: a escrita contínua das poemas: da mesma maneira que piknik era obcecada pela escritura de suas poemas, borrando e reescrevendo, sigo na mesma escrevendo e reescrevendo essas versões e traduções, que acabam sendo um outro original, outras poemas,  já diferente do primeiro original e também da dissertação.”

Para quem quiser saber e ler e verouvir mais de minhas aventuras e traduções com piknik pode ir direto ao meu blogue – a poema, onde tem um imenso compilado. Mas para hoje para agora nesta semana e neste mundo de inferno nem sempre musical, disponibilizo aqui em pdf – obviamente gratuito – meu livro preferido em edição integral e bilíngue e com o texto inicial da minha dissertação (calma, só duas páginas, risos) – El Infierno Musical/ O Inferno Musical, que neste ano faz bodas de ouro! 50 anos! e que também é uma comemoração a poeta que na semana passada, em 29 de abril, completaria 85 anos.

Viva Alejandra Pizarnik. Viva a literatura feita por mulheres e corpas dissidentes. Viva a poesia. Viva a América Latina! Boa leitura!

XANTO | Osman Lins & Imagens de circunstâncias pelas lentes do romancista, por Cristiano Moreira

Um dia escrevi um poema. É a primeira vez que falo nisso: chamava-se ‘Beduíno regenerado pela Lua’. Que significava esse tema estranho? Como se eu já soubesse que a poesia salva o homem. Fui censurado pela minha família, porque os meus versos não tinham rima nem métrica. Eu estava com oito anos e aquele foi o meu primeiro contato com o academismo.
(LINS, Osman. Evangelho na Taba. São Paulo: Summus, 1979, p168.)

Ao ouvir/falar o nome Osman Lins (1924-1978), a maior parte dos seus, ainda poucos, leitores lembrarão quase que de imediato do vertiginoso romance Avalovara, publicado em 1973. Um romance cuja estrutura narrativa foi construída sobre as volutas de uma espiral desenhada sobre um palíndromo mágico (SATOR, AREPO, TENET, OPERA, ROTAS). Como se fosse um oulipiano o escritor nascido Vitória do Santo Antão-PE, cria arquitetonicamente um livro cujos capítulos crescem em progressão aritmética a cada volta de espiral sobre as letras do palíndromo, espécie de linha para lhe guiar em seu próprio labirinto; este labirinto nos é dado pela tradução possível do palíndromo que apresenta “o lavrador mantém o arado sobre o sulco”. Daqui vem a associação aquilo que Michel Butor e Giorgio Agamben lembram ao fala da escrita boutrofédica (quando o boi faz a volta no campo arado); gosto de lembrar a ideia de versura, contida em Ideia da prosa do Giorgio Agamben para pensar a dimensão da poesia na escritura osmaniana. Gosto de pensar Avalovara como um grande poema (Antônio Cândido escreve a respeito no prefácio do livro) e essas volutas como mecanismos de grandes enjambements nas dobras dos capítulos. Outras brechas para pensar a força da poesia em seus livros são as epígrafes de alguns dos trabalhos. Em seu primeiro romance, O visitante (1955) a epígrafe é retirada da “Primeira Carta de Paulo aos Coríntios; em Nove, novena (1966) uma epígrafe de O engenheiro de João Cabral de Melo Neto. Em seu livro de ensaios Guerra sem testemunhas, ao discutir a situação do escritor e do mercado, Osman Lins recupera o poeta Deolindo Tavares (1918-1942) não apenas nas epígrafes do livro, mas na criação de um interlocutor fictício chamado WM, que assume em alguns momentos a própria narrativa dos ensaios. WM são as letras do nome de Willy Mompou, personagem de uma série de poemas de Deolindo Tavares reunidos postumamente por Fausto Cunha em 1945. Sem alongar a conversa salto para o último livro publicado por Osman Lins, A rainha dos cárceres da Grécia (1976). Neste livro Osman Lins traz para o Recife a poeta normanda Marie de France e a transforma em Maria de França, trabalhadora, um tanto perturbada e perdida noutro labirinto, o labirinto da Previdência Social na tentativa de aposentadoria. Quero aqui e com essas rápidas referências (um tanto redutoras), chamar a atenção para o leitor de poesia Osman Lins.
Ao longo da pesquisa que realizei nos arquivos da Fundação Joaquim Nabuco em Recife entre 2015 e 2018 e que resultou na edição crítica organizada junto com Ana Luiza Andrade e Rafael Dias, Imprevistos de Arribação-textos de Osman Lins nos jornais recifenses (Papaterra 2019), foi possível encontrar, entre os 110 textos até então inéditos em livro, o Osman Lins leitor de poesia através de inúmeros artigos sobre poetas como Ascenso Ferreira, Mauro Mota, Zilá Mamede, Carlos Pena Filho entre outros. Se nos romances encontramos com poetas do cânone, nos jornais estão os exercícios de leitura dos poetas nordestinos o que diz muito aos seus leitores habituais e apresentam o Genius loci presente nos seus livros; estão também diversos poemas nunca reunidos em livro antes de Imprevistos de arribação.
O poema aqui publicado “Visões do Movietone” parece uma reverberação da busca pela poesia daquele menino de oito anos censurado pela família. Este poema, lido em retrospecto, ilumina como a luz do projetor, o romancista cuja formação passa pelo movimento teatral estudantil pernambucano, mas também pelo cinema. Osman Lins escreve sobre cinema em textos publicados em Marinheiro de primeira viagem e Evangelho na Taba, livros de ensaios/entrevistas. Além disso, escreve e roteiriza nos anos 70 as narrativas A ilha no espaço, Quem era Shirley Temple? e Marcha Fúnebre para a série Casos Especiais da Rede Globo.
“Visões do Movietone” foi publicado em 02 de outubro de 1955, mas o poema é datado de 1954, ou seja, antes mesmo da publicação de seu primeiro romance. Os movietones eram pequenos programas jornalísticos, também chamados de Newsreels criados por  Charles Pathé e produzidos pela Fox films entre 1910 e os anos 70. Os movietones eram apresentados nas sessões de cinema antes do filme em cartaz. Estes programas atravessaram o período do cinema mudo e chegaram aos filmes sonorizados e com imagens em cores.
O poema é apresentado em dez cenas com se fosse ele próprio o roteiro para os Newsreels, escrito por um roteirista atento. Osman Lins desde a primeira parte intitulada “Epígrafe” se mostra atento aos problemas da indústria cultural e ao poder das imagens em movimento ao dizer que as lentes de cristal serão responsáveis pelas narrativas. Olhar arguto do romancista abre os olhos dos leitores espectadores para os planos apresentados nas cenas do poema, marcando o período da comunicação em massa.
A título de curiosidade, os jogos olímpicos imediatamente anteriores a publicação do poema foram os realizados em 1952 em Helsinque, ocasião em que o Brasil ganhou medalha de ouro no salto em distância com o atleta Adhemar Ferreira da Silva que saltou 16,22 metros. Arrisco dizer que um dos poemas da segunda parte pode ser uma apresentação deste acontecimento. Se assim for, arrisco ainda a dizer que essas visões se configuram poemas de circunstância.

Nota: Outros poemas de Osman Lins estão reunidos em Imprevistos de arribação- textos de Osman Lins nos jornais recifenses. Org. Ana Luiza Andrade, Cristiano Moreira e Rafael Dias. Navegantes: Papaterra: 2019, 2 volumes)


Visões do Movietone

Epígrafe

Viajantes de cristal,
as lentes nos contarão suas visões.
E logo,
tal um vendedor ansioso,
estende a nossos olhos
seu mostruário de imagens
colhido nas retinas transparentes.

Queremos de misérias e alegrias.
Aqui estamos.

§

Os caminhantes ociosos

Na estrada lívida,
multidões caminhavam.
Um violoncelo invisível lembra um cachorro cego,
vagando, à procura de um anjo.
Não o encontrará.
A multidão caminha, estonteada,
e para eles não existem más estradas.
São as solteironas dos caminhos:
não podem mais escolher.
e realizam entre nós aquelas núpcias tristes
Vão e vão
Itinerantes,
nada levam em suas mãos
— até as suas almas deixaram,
na urgência de partir,
em suas terras natais.
Nada levam, nada fazem,
senão vir, silenciosos,
pelos lívidos caminhos.
Nada fazem, os ociosos.

§

Conferência à Beira Mar

Quatro figurões descem do avião
e são conduzidos em automóveis hermeticamente fechados para negociar a paz.
Trazem os bolsos cheios de preocupações e um menino morto no coração parado.
Vão de negro e lúgubres:
os respectivos consulados não concederam passaportes aos seus sorrisos.
— e um clandestino,
foi confiscado pela Guarda Aduaneira
e vendido em leilão a um agente de seguros.
As lâmpadas fotográficas reluzem à sua passagem,
como relâmpagos sem voz
(Oh! Como são breves
e mais inconstantes que os refletores antiaéreos!)
Os figurões se encontram
e três deles erguem os braços
quando o representante norte-americano lhes apresenta a estrela de xerife.
Mas estão junto ao mar,
à sombra de um para-sol cujos gomos são feitos com retalhos de bandeiras
e o xerife joga às ondas seu distintivo astral
que se transforma em estrela do mar
— quem sabe se futura Estrela Dalva?
Cada um fala uma língua e o intérprete é mudo.
Mas de manso,
inofensivo réptil,
crescente luz,
canção que se aproxima,
o mar avança, cresce, envolve-os.
E as quatro cabeças sob a barraca de praia
lembram a Rosa dos Ventos e os quatro pontos cardiais.
E a paz?
Afogou-se.

§

As Bestas Messiânicas

Domingo de sinos presumíveis
e explorações mirins nos arrabaldes do sonho.
Crianças tornam aos portões do Paraíso Perdido
e agora outra vez reconquistado.

Jardim Zoológico —
selva gentil, deserto ameno, polos temperados
A larga piscina é um mar ameninado.
Latitudes se encontram como as varetas de um leque,
como, num bar, marinheiros que não se entendem,
cada um contando a sua lembrança e a sua canção.
As focas zombadoras brilham como nuvens de aurora
e, para as gazelas,
a planície perdida deve ter um gosto pungente
. . . . . . . . . . . [e irrecuperável de infância morta.

Os coelhos, mesmo vivos, já parecem vítimas.
Os elefantes são pausas.
Esplende forte, sacra,
a majestade dos tigres e leões,
e na tranquilidade de uns e outros há um displicente

como se as grades fossem mitos.

São todos sós, são todos exilados.
E das jaulas, do mar ameninado,
de seus exílios, de suas nostalgias,
gritam as bestas,
apostólicas,
sem que ninguém as ouça:
“Deixai vir a mim as criancinhas
e com elas o seu deslumbramento.”

§

A Experiência Ardente

Pássaro sem cântico.
esquife desabitado,
que apreensões de vivos
não ligam a terra,
o avião sem piloto
segue.
Logo mais o atingirão,
matarão o que está morto.
Cálculos matemáticos sopesam as possibilidades da morte,
com precisão infinitesimal
como se buscassem o peso de uma pétala.
Seguros como um deus,
as equações preparam o tiro
e os diagramas fixam o desenrolar da emboscada.

E o tiro embarca
vai ao encontro do pássaro sem cântico.

Fulgem os céus,
choram as asas partidas,
imobiliza-se a hélice com um tremor de criança baleada.

E flor de chamas,
tomba em silencio o morto assassinado.,
com lentidão de túnica vazia.

§

A Moda Sempre Vária

Com um ar de bonecas mecânicas
modelos parisienses condescendem em ostentar as últimas criações da Primavera.
Aos olhos de colegiais, costureiras de subúrbio,
. . . . . . . [mães de família deficitárias e criaturas neutras para quem
. . . . . . . [a moda encalhou no último figurino comprado a já esgarço,
desfilam vestidos que mais parecem ironias.
E ninguém olha os manequins.
Todos contemplam os vestidos,
do mesmo modo que um menino,
há muitos anos,
contemplava as nuvens,
sempre alheias, sempre várias,
além das torres da igreja,
onde os vitrais sorriam nas missas do domingo
e onde as meninas, em maio, eram arcanjos de fitas no cabelo.

§

II – Flagrantes Esportivos

— Os voos sobre a neve —

O lenço polido e frio.
É uma cauda de noiva,
o longo lençol de neve.

As asas guardam em si as possibilidade de voo.
Mas as asas do homem não têm plumas,
não participam de alturas:
são instrumentos de abraços
e suas únicas relações com a distância são os gestos de adeus.

Descendo, velos, na branca esteira de neve,
Um homem colhe no corpo um impulso que o lançara no ar.

(assim é possível colher,
numa rápida visão da namorada,
a subsequente alegria)
E o homem desprende-se do solo,
braços abertos,
lança à face das montanhas sua transitória e audaciosa revolta.
Fenece o impulso, o voo se interrompe;
esvai-se a alegria,
o homem desce.

§

A Cesta Enganosa

Num gesto de prestidigitador que solta um pombo,
um jogador endereça a bola ao companheiro , que corre.
Entre sua mão e o solo, a esfera traça
. . . . . . . . . . . . . [o desenho de um sismógrafo,
— tal como Virgínia, vestido de cambraia,
naquelas tardes antigas,
com sua ternura infantil a sua bola azul.
Entre os dez homens aflitos
há uma serie de equívocos.
Todos correm, a bola passa
de mão em mão. Afinal,
afinal, serenamente, como se buscava um ninho,
como corpo fatigado que se aninhasse na rede,
flor num jarro transparente ou anular num anel,
a bola acerta com a cesta.
Mas, oh! A cesta está furada
e permanece vazia
como anel sem anular.

§

A Devolução do Tempo

O trampolim é um braço estendido
com a iminência de um milagre na extremidade da mão.
Calma,
como a assinalar o princípio da canção que
[o seu próprio corpo contará no ar.
a moça estende os braços.
Há um silencio místico:
Estamos em face do sobrenatural.
A água da piscina estremece,
tem frêmitos de folhagem.
Os calcanhares se erguem
— e este sinal tem qualquer coisa de fronte que se inclina para um beijo.

Numa decisão de suicida,
o corpo iluminado se projeta,
é linha e fuso,
e seta disparada.
Veloz,
estrela libertada que finge itinerário de pássaro,
a flama vertical desaparece.
(Quem me trará de volta a saltadora?)

Torne o sol tornem os relógios,
torne o meu encantamento.
como estrela dissipada,
que refizesse o caminho
da própria rebelião,
a saltadora ressurge.
Afla, leve, a flor das águas,
e pousa no trampolim:
a sombra de um passarinho
que pousasse em minha mão,
não seria leve assim.


Cristiano Moreira é poeta, professor e tipógrafo. Nascido em Itajaí, em 1973, criado em Navegantes. Estreou na poesia com Rebojo (Bernúncia:2005), seguido de O calafate míope (Papaterra:2009), Infância do Pife (Dengo-dengo Cartoneiro: 2011), As cinco mulheres pagãs com imagens de Fernando Karl (Papaterra: 2013 – Ed. 30 exemplares), Dengo-Dengo- Infanto juvenil ilustrado por Yannet Brigiller (Papaterra: 2016), Dente de cachorro (Nave:2018) e Imagens da Madeira (Papel do mato: 2019) é seu livro de poesia mais recente. Traduziu com Miguel Rodriguez o volume de narrativas Apartados (Papaterra /La Cebra:2011), do escritor chileno Rodrigo Naranjo. Doutor em literatura brasileira (UFSC) com pesquisa sobre o escritor Osman Lins. um dos organizadores e editor de Imprevistos de arribação – textos de Osman Lins nos jornais recifenses (Papaterra: 2019). Sócio da Quinta da Gávea hospedaria e quintal criativo onde está sediado o Ponto de Cultura Biblioteca Rural e a Oficina Tipográfica Papel do Mato em Rodeio/SC, onde vive atualmente.

Abecedário #2

Para ler a primeira parte deste abecedário, clique aqui.

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HISTÓRIA, por Dirceu Villa

a história é um pesadelo de que estou tentando acordar, diz stephen dedalus numa conversa com seu avaro empregador [defensor do reino unido sobre a irlanda], que lhe paga pouco e lhe dá uma lição, diga-se, gratuita sobre economizar. no princípio, história [histor: o sábio que conta] era narrar o atribuído ao atribuível; hoje, via marx, é economia política. a história como o sentido ordenado do tempo observável tem acompanhado a aventura humana no ocidente de extração europeia. a mesoamérica & as culturas pré-incaicas pensavam de modo compressivo: a porta do sol, da cultura tiahuanaco, tem uma abertura monolítica com o deus sol chorando seus raios, com cabeças de condor & puma; o relógio de sol, em pedra, de machu picchu; plumas, o sol; quetzalcóatl: serpente de plumas dos equinócios; o mapa das estrelas, como sabiam babilônios & egípcios, ou uma calçada em los angeles.

narrar os eventos por memória & para a memória: a anedota ciceroniana sobre o poeta grego simônides, que cantou um louvor ao rico scopas, comissionado pelo rico scopas, em um banquete oferecido pelo rico scopas. o louvor tinha algumas linhas dedicadas aos gêmeos castor & pollux, de modo que o rico scopas disse que pagaria apenas metade do contratado, & que se simônides quisesse o resto, que fosse cobrá-lo aos gêmeos. simônides é chamado à porta, dizem que há dois rapazes procurando por ele, mas, chegando lá, não há ninguém; no ínterim, o teto desaba sobre o rico scopas & seus convivas. quando é preciso identificar as pessoas nos lugares do desastre, simônides, voz das musas por ser poeta, sabe de memória onde cada um estava. a memória é um lugar.

& a mãe das musas. mnemosyne, a memória, preside sobre a poesia, a história & todas as artes, como entendiam os antigos gregos & latinos. em tupi, o tempo não se encontra registrado nos verbos da língua, mas nos substantivos, ensinando-nos que a ilusão do tempo não se encontra nas ações, mas é carregada por cada criatura, cada coisa; cada um traz um tempo em si. o tempo que aconteceu & acontecerá está acontecendo no que acontece. a memória se derrete & volta a se depositar na terra. dissera o sacerdote egípcio a sólon, como registra platão no timeu: “vocês gregos lembram de um dilúvio só, embora muitos tenham ocorrido antes, & disso vocês nada sabem porque gerações de sobreviventes morreram sem a capacidade de se expressar por escrito”.

a origem da sociedade tal como a vivemos no ocidente nasce com pólemos entre os gregos, a guerra que lhes dá civilidade em versos homéricos, as disputas da ágora em retórica persuasiva; a origem do ocidente não surge na filosofia ateniense togada, mas nos campos de batalha retratados em vasos bicolores. a suméria havia visto seus heróis deixar os muros sagrados de uruk em busca da imortalidade, quando a prostituta shamhat ensina todo o ensinável do bem-viver & da sabedoria ao então grosseiro herói enkidu, que aprende sobretudo a respeitá-la, filha de ishtar, deusa da noite.

poder, & não partilha, é a história humana: o que traz a um ponto focal victor hugo, stendhal, beethoven, abel gance, stanley kubrick, a pala d’oro, velázquez, & espalha numerosos cadáveres pela europa é napoleão, empinado nas costas de marengo, ou main dans le gilet, mas ainda não jaune. o fascínio da força do fascio, o feixe de gravetos que, enfeixados, são mais difíceis de quebrar.

o tempo se curvava a feiticeiros dentro de suas pedras de obsidiana, interrogando anjos em língua angélica, ou mergulhando os olhos numa água inquieta de futuro. menocchio, moleiro que sonhou a heresia da terra como queijo, & anjos como vermes, executado pela inquisição. a ciência nos afastou do escuro da superstição do passado em direção às luzes dos futuros fornos nazistas — dialética do iluminismo —, ou, arrematando francisco de goya y lucientes, que escreveu entre suas corujas de pesadelo, el sueño de la razón produce monstruos, pode-se dizer: e a insônia também. ibm se troca em letras como hal, o supercomputador que previne, por assassinato, as inevitáveis, indesejáveis falhas humanas.

a história portanto se contaria pelo lado vencedor — sublinha este nosso conto de guerra. a fama de comedores de criancinhas dos cartagineses [delenda est carthago]. o regime que lançou as bombas atômicas sobre hiroshima & nagasaki raramente é chamado totalitário. & a história assim envergonhada foi buscar nos farrapos dos vencidos a honra da coragem de perder, que lhes foi negada. se isso é a vitória, diria emily dickinson [67], sabem os que perdem. “vencer”, como disse mussolini & ainda há quem o repita, vincere. allende fala ao povo chileno em sua derrota de 11 de setembro, pagaré con mi vida la lealtad del pueblo, & sobre o castigo moral que implicará a consequência de seu assassinato pelos militares, resumindo, la historia es nuestra y la hacen los pueblos.

ou “saio da vida para entrar na história”, disse antes getúlio vargas, dentro da longa tradição golpista de seu país, o brasil, golpista ele mesmo, vargas, & então golpeado [passeio vendo os fantasmas pelo museu da história, como o marquês de custine fez com a história russa vagando pelo museu hermitage, em são petersburgo, ao longo do neva, murmurando às sombras, seguido pela câmera insistente de sokúrov]. “come ananás, mastiga perdiz: teu dia está prestes, burguês”; e então, stálin.

derrubar a prisão da bastilha abriu o céu para o sol; robespierre pedindo a cabeça do rei aos cidadãos, que de sangue em sangue dão o trono aos carrascos. “as outras revoluções não exigiam senão a ambição, a nossa impõe virtudes” [8 thermidor, discours de robespierre]. virtù, a palavra intraduzível de maquiavel para se chegar ao poder, & para mantê-lo; ser magnânimo; lorenzo de’ medici massacra os assassinos de seu irmão, & rola no chão brincando com as crianças, escreve versos de filosofia platônica: la grandezza de’ nimici ch’egli aveva avuti l’aveva fatto grandissimo.

os tupinambás devoravam seus — dizemos — inimigos para devorar neles a ancestralidade anteriormente devorada pelo inimigo, & trazer de volta a tradição, ambígua, porque o herói guerreiro retorna trazendo em si também o inimigo: festejado & afastado. agora é o mesmo & o outro; “a imanência do inimigo”, demonstrou viveiros de castro, o que nos demonstraria um bom espelho & o bom-senso que nunca tivemos [ou seríamos como “meu tio, o iauaretê”].

a culinária, assim, conta a história. piero camporesi lembra, sobre o século XVIII: “laranjadas e limonadas (além, é claro, do café que, juntamente com o chocolate, tornou-se o líquido emblemático da nova sociedade de duas faces, nervosa e frouxa, álacre e lânguida, engenhosa e voluptuosa, que acordava tarde ou de manhãzinha) campeiam sobre a mesa iluminista”, aquela que condenou a magia como superstição, e cedeu tolerância àqueles que olhava do alto, embora não os compreendesse ou apreciasse.

[posso passar mil & uma noites entretendo os fios da história, desfiando-a pela manhã novamente]: virginia woolf o fez sob os bombardeiros da luftwaffe que passavam sobre sua casa, mas se recusava a participar de qualquer modo do esforço de guerra britânico: “ela (a mulher inglesa) não irá se comprometer a tomar parte em demonstrações patrióticas; nem vai assentir com forma alguma de auto-elogio nacional; não irá integrar nenhuma claque ou audiência que encoraje a guerra; estará ausente de desfiles militares e de cerimônias que encorajem o desejo de impor ‘nossa’ civilização ou ‘nosso’ domínio sobre outro povo”, pois a estrutura que leva às guerras vem de uma sociedade dos homens, & para os homens.

von clausewitz, oficial prussiano, tem um capítulo inteiro em seu tratado de estratégia militar para falar dos “fatores morais” numa guerra, sem saber, no século XIX, que woolf imaginaria que a única ajuda possível ao mundo dos homens seria libertá-los dessa mentalidade, porque “hitlers são gerados por escravos”, gente que tem medo, e não autonomia de pensamento. tucídides supunha a guerra inevitável entre o poder já existente e o poder emergente, & assim uma sociedade exclusiva; darwin entretanto propôs ao fim de seu descent of man o passo evolutivo da cultura, da compaixão & da partilha, quando a aptidão não for mais a força, mas o alcance de percepção, que é colaborativa [jung & frobenius igualmente o sabiam].

“isto é o que vocês acham que é a áfrica. tudo isso está errado: agora falaremos da civilização africana”, abrevio frobenius quando compilou em três páginas os clichês que um europeu razoavelmente educado estocaria em sua mente sobre aquele continente. frederick douglass, nos eua, escreveu que o mistério da leitura o convocava, em especial porque seu senhor [douglass fora, como milhões, escravizado] punha grande energia em puni-lo com extrema violência a cada esforço secreto de aprender a ler um livro. lemme tell you about black history: we are the original men [malcolm x ; spike lee]. filhos de cam, que leitura ainda pior da bíblia fez filhos do cão, & que george washington conservava em sua posse, & que thomas jefferson conservava em sua posse, & sobre o que o abolicionista joaquim nabuco escreveu: “cada ventre escravo dava ao senhor três ou quatro crias que ele reduzia a dinheiro; estas por sua vez multiplicavam-se, e assim os vícios do sangue africano acabavam de entrar na circulação do país”.

james baldwin, já no século XX, sobre a situação de ser negro nos eua [mas o tempo & o espaço se dobram]: “estou horrorizado com a apatia moral — a morte do coração que ocorre no meu país. essas pessoas vêm se iludindo há tanto tempo que realmente não acham que sou humano. baseio isso em sua conduta, não no que dizem, o que significa que se tornaram, em si mesmos, monstros morais”.

apatia moral fez da civilidade [ciuis, ciuitas] em países como portugal & brasil só mofo, azulejo quebrado, esquecimento. portugal por causa de d. sebastião, “rapazola tresloucado” [o disse antónio sérgio] & brasil pela vergonha de ser o que é, decidido a matar-se antes [subflor e mais flor, definiu sousândrade]. instrumento de morte, a reguladora “mão invisível do mercado”, de adam smith, que em the wealth of nations [1776] disse que pode pegar “os grupos inferiores de gente” e, por meio da “escassez de subsistência, pode pôr limites à subsequente multiplicação da espécie humana; e pode fazê-lo de nenhum outro modo senão por destruir uma grande parte das crianças”. porque, diz no capítulo VIII, “os salários do trabalho”, o homem é como “qualquer outra mercadoria”. ou o banqueiro rothschild: “que eu emita e controle o dinheiro de uma nação, daí não me importa quem faça suas leis”.

marx [1844], em “trabalho alienado”, propunha que a sociedade industrial operaria três afastamentos catastróficos no homem: 1) o da natureza; 2) o dos outros homens; 3) o de si mesmo. a invisibilidade do mercado industrial, a invisibilidade dos inimigos: o terrorista, o vírus pandêmico. o fim da história já foi anunciado, pela suposição de que a história possa ser interrompida por decreto. a história pode ser incômoda, aponta a cia chamando klaus barbie, o açougueiro de lyon, para ensinar torturas depois aplicadas em manifestantes da oposição às ditaduras, nas veias abertas da américa latina; mostra wernher von braun trabalhando para a nasa, entre milhares de nazistas que perderam a guerra & ganharam os eua. ler propaganda [1928], de edward bernays: “a manipulação consciente e inteligente dos hábitos e opiniões organizados das massas é um elemento importante na sociedade democrática. aqueles que manipulam esse organismo ignorado da sociedade constituem um governo invisível que é o verdadeiro poder decisório de nosso país”.

hoi áristoi (os poucos) e hoi pollói (os muitos): plutarco, nas vidas paralelas, emparelha alexandre, o grande, & júlio césar. contando a história de alexandre, lembra que ele foi aluno de aristóteles & que admoestara o mestre por publicar seus tratados para os não-iniciados, com o seguinte argumento: “o que agora nos resta para superar os demais, se essas coisas em que fomos particularmente instruídos se acham franqueadas a todos?” aristóteles imaginou o ser humano como o politikón zóon, & foi tão mal compreendido quanto sérgio buarque de hollanda, que imaginou o brasileiro como o homem cordial. não obstante, hermes trimegisto, na oitava parte do pimandro, definiu o ser humano como logikón zóon, um tipo feito, portanto, de uma parte mental, uma parte espiritual, uma parte racional, porque história é também lógos, o conceber, o discurso.

confúcio, perguntado por que alguém deveria conhecer as odes, respondeu: “para saber os nomes dos pássaros, das árvores, para saber fazer a corte amorosa, para poder ter a linguagem pronta para os encargos públicos e a filosofia”. quem o cita é ezra pound, que apoiou os fascistas, & cujo amigo, o poeta judeu-americano louis zukofsky — cuja primeira língua nem era o inglês, mas o iídiche — disse-lhe coisa pungente sobre a defesa do fascismo, “seja lá o que for que você desconheça, ezra, você deveria conhecer vozes”. a história cíclica da perda de empatia pelo próximo. surkov ou bannon. o historiador mario losano diria de autômatos japoneses, o ningyō, “semelhante ao humano”, & que philip k. dick veria revertido numa parecença do humano com a máquina, em 1968, o ano de um mês [maio] & uma cidade [paris].

para roland barthes, na revista cahiers du cinema, pier paolo pasolini se equivocara em usar os 120 dias de sodoma, livro do marquês de sade, como base para seu filme sobre a desumanização fascista, porque, segundo barthes, o fascismo é perigo grande demais para que venha simplesmente tomar o lugar dos libertinos: eu diria que há libertino & libertino, sade & casanova. sade: homem cioso das prerrogativas de seus privilégios; casanova: orgulhoso de seu próprio engenho & de sua luta para ser admitido entre os do andar de cima. sade quer apanhar do papai deus, casanova tem seu deus nas mulheres. pasolini focalizou o privilégio, o poder. poder: história até agora. partilha? nossa evolução, nova história.

§

LUCIDEZ, por Marcelo Ariel

Ao contrário do que diz Cioran, não é igual ao nada. Qual seria essa luz do nada? Como o nada é improvável e sempre há algo, onde pensamos não haver nada, a pergunta se converte em ‘Qual é a luz de algo?’ A lucidez de Lúcifer ‘ parece uma boa frase mas é sutilmente redundante, é o mesmo que dizer ‘A luz da lâmpada’. A lucidez é um entrave para a fruição do topos intuitivo? Sinto que não. Qual relação entre ela e a revelação? É nula, quem confundiria marcas com sinais? Uns são guiados pelas marcas, outras por sinais. A lucidez dos animais não é um mito e talvez explique a opção de muitos pelo silêncio estratégico e de outros pelo silêncio transparente, ambos impenetráveis. A lucidez da poupa em ‘A reunião dos pássaros’ de Farid Attar. A concretude do quadrado da lucidez em oposição ao círculo de linhas quase apagadas da sabedoria. O hábito da lucidez nas crianças e nos loucos unindo de modo irreversível e original a lucidez e a franqueza criando o fatídico senso de outra realidade. A lucidez que deixa escapar o tempo presente e seus mecanismos internos. A lucidez das pessoas de cem anos diante do espelho: um tipo de luz que foge, sem origem e sem destino.

§

UTOPIA, por Ana Cláudia Romano Ribeiro

1 Vocábulo capcioso, polissêmico e elástico.

2

elas contaram
uma grave doença assolou a cidade
todas tiveram que permanecer em suas casas
mesmo que fossem minúsculas
e não tivessem jardim

uma delas permaneceu na banheira por meses
ali seus pés começaram a formigar
ela tirou uma foto e viu
(não acreditou)
não estava sozinha
seu pai no pé direito
sua mãe nos joanetes
nas unhas sua avó materna
de quem seriam as memórias dos sesamoides que não mais sustinham
seu corpo?

na banheira escrevia comia dormia
as plantas já entravam pela porta, que nunca era fechada
encomendaram-lhe um verbete
(ela amava dicionários, principalmente os inúteis)
sobre uma palavra de que não gostava
palavra melosa, que, aos desprevenidos contorcia
o rosto de quem a pronunciava dirigia
as sobrancelhas para o alto e para as laterais do rosto içava
leve as beiradinhas da boca em sorriso beatífico
praticamente lacrimejante
em cabeça quase inclinada

utopia

o verbete lhe irritava
a ninguém interessava saber de um narrador
mentiroso disfarçado e
ao mesmo tempo
atenção
ao mesmo tempo
um aniquilador de mentiras
ela só via isso
isso e sentia seus pés formigarem na água
da banheira
e olhava as plantas

um dia, depois de uma noite bem dormida na banheira
olhou seus pés
e não os encontrou
para onde fora a família?

havia nadadeiras
com grandes e leves beiradas
experimentou movê-las
em duas horas constatou que funcionavam
e que a faziam levitar
era ótimo e não atrapalhava

voltou ao verbete
ao cansaço no coração
e disposta escreveu
é uma bola de fogo
é barrada, mas vaza
tem porão e sótão
é boa pras pessoas, não é boa pras pessoas
é mofo e secação
sua incandescência depende da polissemia que nela se percebe
é quimera que devora a univocidade

utopia é pergunta com múltiplos pés
disse ela, nadejando
sereia voadora

O texto que colocou a palavra utopia em circulação veio ao mundo em finais de 1516, saído das máquinas da oficina tipográfica de Dieryck Martens, em Lovaina, sob os cuidados editoriais de Pieter Gillis e Erasmo. Chamou-se Libellus uere aureus nec minus salutaris quam festiuus de optimo rei publicae statu, deque noua insula Utopia (“Livrinho verdadeiramente de ouro, não menos salutar que divertido, sobre a melhor forma de república e sobre a nova ilha de Utopia”). Antes de tornar-se livro, na correspondência de seu autor, a terra inventada chamava-se Nusquama (palavra formada a partir do advérbio latino nusquam, “nenhum lugar”), mas isso não durou: ele logo a substituiu por um topônimo mais estimulante que traz em si a ambiguidade perturbadora de ser tanto não-lugar (ou-topia) quanto bom-lugar (eu-topia). Seu autor, Thomas More, amante de letras gregas e latinas, advogado, parlamentar, diplomata, foi um profundo conhecedor das mazelas sociais de seu país, a Inglaterra, e da política internacional, chegando inclusive a tornar-se chanceler em 1529 (e santo em 1935, mas isso são outros quinhentos). Sendo modelar, a Utopia moreana fecundou inúmeros textos a ela assemelhados, em que o funcionamento de cada instância de um agrupamento humano (terra, país, cidade, república) com variados graus de idealidade é descrito em detalhes: urbanismo, leis, educação, saúde, cultura, relação com os meios de produção, com a natureza, com metafísica, causas das misérias, etc. Está implicada na descrição não apenas o conhecimento dessas instâncias na vida empírica por parte de quem as descreve como também a crítica qualificada de seu funcionamento, que desperta a figuração de possíveis alternativas. Chegamos a uma primeira definição de utopia: ficção política que mimetiza o funcionamento de uma organização social ou comunitária provocando a exercitação do espírito (Montaigne pensava assim) de um modo específico; é, portanto, instrumento crítico com suas especificidades (André Prévost a vê como novidade epistemológica, ainda que ela tenha como ponto de partida a República platônica), cuja leitura coloca em funcionamento um crivo que peneira o justo e o injusto, o verdadeiro e o falso, o possível e o impossível nas diversas instâncias da organização social – a empírica e a ficcional; construto literário que mastiga todos os compartimentos do formigueiro humano com o mel da invenção; ao cidadão-leitor, sua digestão.

O verbete “Utopia” do Vocabulario Portuguez e Latino (1728) de Raphael Bluteau relaciona essa palavra ao título de uma “obra política, dividida em dous livros, composta por Thomás Moro, Chanceller mòr de Inglaterra, em que o dito Autor falla de Povos, que só na imaginação existem”. Apõe, em seguida, uma citação entre parênteses retirada da “Escola das Verdades, p. 475”, que sugere o uso metafórico do termo: “Tenho muito que admirar nas agudezas dos Políticos, mas com tudo isto as Utopias bem ordenadas, até agora fora dos livros se não tem achado”. Essa citação ecoa uma passagem do livro I do libellus aureus em que se coloca lado a lado a afirmação de serem já amplamente conhecidos os mais variados e terríveis monstros (“cilas e celenos rapaces, lestrigões populívoros e portentos imanes de mesmo teor”) e o fato de ainda serem desconhecidos “cidadãos organizados sã e sabiamente” (traduções minhas).

A Utopia, as obras que dela tiraram sua matriz composicional e o termo utopia tensionam ficção e realidade empírica de muitos modos que, a cada novo emprego, não cessam de contaminar-se, estender-se, reduzir-se, às vezes diluir-se – é na diferença e na especificidade de cada uso que o vocábulo merece ser escrutinado, pois é aí que o galo canta. Esse processo elástico de distensão e retração semântica da palavra utopia deu a ela mil nuances, inclusive, vale lembrar, negativas.

No século XVIII, junto a uma acepção positiva, a palavra é usada em sentido negativo, de projeto de reforma irrealizável, prospecção viajandona que suscita reprovação (Diderot, nesse sentido, emprega o adjetivo “utópico” para designar um raisonneur abstrait que pouco se ancora na realidade empírica). No século seguinte, quando se instalam os conflitos políticos que colocam em campos opostos o socialismo pré-marxista e burguesia (liberal ou conservadora), o termo torna-se por vezes, sinônimo, por vezes antônimo de comunismo ou de socialismo e, em 1848, vira xingamento. Nessa época, em que surge o movimento operário, o significado tão variável da palavra utopia depende do ponto de vista ideológico de quem a enuncia e em certos casos designa algum tipo de outro. Resumindo, os burgueses chamam de utopistas (em acepção negativa) os socialistas pré-marxistas e referem-se ao comunismo (sempre em acepção negativa, claro) como sendo uma utopia; os socialistas e comunistas da época não se entendem utopistas porque para eles utopia (irrealizável) é antônimo de socialismo e de comunismo (realizáveis); Louis Blanc vê a utopia como “idéia militante”, “a verdade de amanhã e, consequentemente, a verdade em estado revolucionário”; Lamartine, na mesma linha, considera as utopias “verdades prematuras”; Proudhon e Marx reprovam socialistas e comunistas por serem utopistas, ou seja, pessoas que improvisam sistemas que não têm a mínima chance de tornarem-se efetivos. Alguns dos “socialistas utópicos” chegam a definir utopia (em acepção positiva) sublinhando sua natureza exclusivamente ficcional, para diferenciá-la de suas próprias convicções, formulações e planejamentos. É o caso de Charles Fourier que, em 1822, escreverá: utopia é rêve d’harmonie sociale en pays fabuleux (“sonho de harmonia social em país fabuloso”) e, em 1841, c’est le rêve du bien sans moyen d’exécution, sans méthode efficace (“é o sonho do bem sem meio de execução, sem método eficaz”). Em 1845, Robert von Mohl propõe o termo Staatsroman (algo como um “romance sobre o Estado”) para designar as utopias literárias. Enquanto isso, continua-se a descrever o alhures que, nessa época, muitas vezes toma forma de projeções futuras de matiz eutópico (por exemplo, textos em que um personagem sonha com seu país no futuro, como A História do Brasil escrita pelo Dr. Jeremias no ano de 2862 e as Páginas da História do Brasil escrita no ano de 2000, do mineiro Joaquim Felício dos Santos).

Dito de outro modo, a utopia é uma batata quente.

É de suma importância ter em mente que há uma tendência permanente de reavaliação do termo utopia, de suas implicações e que, para formar uma ideia mais elaborada a respeito dessa palavra e não submergir no pântano da indiferenciação, é preciso investigar cuidadosamente cada ocorrência que esteja em apreço, caso contrário a palavra estoura como uma bola de sabão. Universal abstrato não tem serventia.

O verbete utopia no paradigmático Dictionnaire de l’Académie Française mostra uma evolução semântica que certamente relaciona-se com os acontecimentos e debates do contexto da revolução francesa, depois, do socialismo e, em seguida, com os acontecimentos em torno da primeira guerra mundial. Da quarta edição (de 1762), quando a palavra aparece pela primeira vez, até a oitava (de 1932), as definições vão acentuando a ideia de quimera e perdendo de vista a obra de Thomas More até o ponto de ela não ser mais citada na oitava edição. Na quarta edição, a palavra indica a obra de More, o plano de governo imaginário concebido segundo o modelo platônico. A edição de 1798 tira a referência à República de Platão e acrescenta a felicidade de todos como objetivo do plano de governo imaginário, acrescentando: Chaque rêveur imagine son Utopie (“Cada sonhador imagina sua Utopia”). A definição de 1835 continua praticamente a mesma, contendo um acréscimo: des vaines utopies (“utopias vãs”), que acentua o caráter de inutilidade, irrealidade e impossibilidade. A edição de 1932 reforça mais ainda esse caráter, além de retirar a menção à obra de More: Conception imaginaire d’un gouvernement, d’une société idéale. Par extension, il se dit d’une Chimère, de la conception d’un idéal irréalisable. Beaucoup de gens estiment que l’organisation de la paix universelle n’est qu’une utopie. (“Concepção imaginária de um governo, de uma sociedade ideal. Por extensão, diz-se de uma Quimera, da concepção de um ideal irrealizável. Muitos pensam que a organização da paz universal é tão somente uma utopia”). A segunda guerra mundial explode em seguida.

No século XX, observa-se uma tendência à reavaliação do socialismo pré-marxista e, junto com ela, uma reavaliação da palavra utopia. Gustav Landauer, por exemplo, entende o processo histórico como uma sucessão de topias (épocas relativamente estáveis) e de utopias (revoluções): reaktionärer Topie e revolutionärer Utopie. Karl Mannheim seguirá por aí, opondo ideologia e utopia e, dentro dessa última categoria, distinguindo utopias relativas (futuramente realizáveis) e absolutas (irrealizáveis). A palavra nada então no tanque da utopisches Bewußtsein (“consciência utópica”) ou utopisches Denken (“pensamento utópico”) e encontra seu desenvolvimento máximo em Ernst Bloch, que verá no marxismo uma utopia em curso. Para ele, a utopia é um sinônimo positivo de marxismo, é a matéria de que é feito o real, incompleto por natureza. A utopia nomeia a incompletude.

O Vocabulaire technique et critique de la philosophie de André Lalande talvez seja o primeiro a diferenciar utopia (todo projeto de estado ideal irrealizável) e método utópico (estratégia de pensamento que elabora hipóteses científicas). A ideia de utopia como método de análise da realidade empírica é retomada por André Prévost, que em 1978 traduz e lê a Utopia de More entendendo-a como instrumento crítico que fabula segundo uma lógica própria, possuindo uma poética específica que lida com o disfarce e a ironia e produz hipóteses, ou seja, é uma ferramenta crítica.

Note-se que, no geral, na bibliografia acadêmica, as especificidades retóricas, estilísticas, linguísticas de cada utopia literária parecem ter sempre ficado obnubiladas pela candência do tema da melhor república até 1950, quando Raymond Ruyer estabelece a diferença entre modo utópico (pensamento utópico), o exercice mental sur les possibles latéraux (“exercício mental sobre os possíveis laterais”), e gênero utópico (utopia literária), ou seja, a descrição de um mundo imaginário fora de nosso tempo e espaço, que funciona a partir de princípios diferentes daqueles da sociedade de quem os concebe.

Se no século XX as acepções positivas do vocábulo utopia prevalecem, o gênero se transforma e ramifica-se para dar conta da imaginação dos desenvolvimentos negativos do progresso técnico e científico. Brota a distopia (Nós, de Evgenin Zamiatin, é um marco), que será também fertilizada pelo fascismo e pelo estalinismo. Corta. Isso é assunto para outro verbete.

No século XXI, o último texto que li a respeito de utopia, fascinante como um vulcão, está disponível no site da editora Chão da Feira: “Utopias mapuche não binárias para um presente epupillan”, um texto escrito pela comunidade Catrileo+Carrión, traduzido por Bru Pereira e Lucas Maciel. A autoria desse texto, coletiva, está vinculada ao que é pillan (“mais-que-humano”), à itrofilmongen (“biodiversidade”), ao não-binarismo e ao mapu (“fluxo de matéria”) que está e toda vida animada e inanimada – ela é em si utopia realizada. É a própria comunidade autodesignada utópica que descreve seu funcionamento e suas razões de existir: ela reúne pessoas pertencentes aos mapuche, comunidade tradicional que bania quem acusavam de práticas homossexuais, baniam seus nomes e seus corpos, jogavam suas cinzas ao vento para que nunca regressassem. O presente epupillan desta comunidade é uma eutopia em pleno funcionamento que visa resgatar os banidos, condenados ao não-lugar distópico do vento apátrida. Visa também recuperar as memórias das experiências não-binárias pregressas vividas pela comunidade mapuche tradicional. Visa dar-lhes um lugar. Topia.

3 Coda. Não há muitas traduções da Utopia de Thomas More feitas por tradutoras. As filhas de More, Margaret, Elizabeth e Cecily, estudaram latim e inglês (além de grego e das ciências do cuidado com o corpo, com a alma e com a natureza: medicina, lógica, astronomia, matemática, teologia – essas coisas também estudou John, o bendito-é-o-fruto), mas não traduziram a Utopia. Margaret (“my dearest Meg”, dizia More), a filha preferida, escreveu cartas e traduziu uma obra de Erasmo (do latim ao inglês) e outra de Eusébio (do grego ao latim). Um tratado devoto sobre o Pai Nosso e um volume de história eclesiástica, respectivamente. Ela é, quase certamente, a primeira mulher não pertencente à nobreza a ter exercido o ofício de tradutora na Inglaterra. Mas ela não traduziu a Utopia e talvez nem pudesse sair do campo devocional cristão. Além disso, para ela, publicar não estava no horizonte possível feminino: para a autoridade paterna, as mulheres deviam manter na esfera doméstica qualquer fruto do estudo. A utopia das mulheres que conseguiam estudar tinha limites bem demarcados. Margaret é uma ilha acantonada em uma cena interior.

Maria do Carmo/Carminha Ferreira (1938—)

 

Todos sabemos, e já venho ficando rouco de falar (ou tendo LER de tanto escrever) esta paráfrase de Roman Jakobson sobre a Rússia: este país esbanja os seus poetas; porém, à diferença da URSS de então, o Brasil por vezes os deixa morrer à míngua, por vezes nem percebe sua existência; no mais das vezes até os deixa trabalhar aos trancos e barrancos, mas os relega a um canto qualquer. Não vou repetir nomes, que já mencionei demais. Hoje é dia de falar de Maria do Carmo Ferreira, ou, como é mais conhecida, Carminha Ferreira. Estamos falando de uma poeta que nasceu em 1938 e continua inédita em livro, apesar de ter escrito com bastante regularidade desde os anos 60. Irmã da também poeta Celina Ferreira (esta sim publicada), Carminha teve uma vida ligada às artes por um longo período, dentro e fora do país. É também dona de uma obra variegadíssima, com rasgos de riso ferino ainda um tanto raros (poderíamos dizer que nossa poesia satírica segue pouco apreciada, a começar pelo fato de que o Sapateiro Silva volta a estar há anos sem reedição, além de ficar fora de antologias, como eu já escrevi na R.Nott anos atrás), uma autoironia por vezes virulenta, e um domínio de linguagem fora de série: dos lances surtojoyceanos de “Meretrilho”, passando pelos latinismos de “Seqüênciaconseqüencia”, ou pelo papo reto de “A quem interessar possa”, mas também momentos de lirismo familiar dolorido, como em “Dia das mães”, ou pela contração de “Contratual”. Nesse meio de caminho, vemos poemas em quadras, como “Anticorpo”, em decassílabos geniais com rimas retorcidas, como “Auto-retrato”, na anti-terça-rima de “Torna-viagem”, no gosto marginal de “As lesbianinhas” (peça talvez fundamental para performances de gênero na poesia brasileira, embora pouquíssimo lembrado), sempre flertando com os diálogos poéticos bem humorados ou quase delirantes, como em “Telecarlos”, ou mesmo nas séries de emails alucinados de “Poemails”, compilados e organizados por Ronaldo Werneck na Chicos; isso sem falar na curiosa metapoesia de “Anúncio”, “Dois poetas” e “Rimbaud et l’air (que funde em seu título os sons dos nomes de Rimbaud e Baudelaire). Enfim, houvesse livros, quiçá veríamos fases de sua poética; na ausência deles, é um verdadeiro caleidoscópio de uma figura fascinante e esquiva.

Ela mesma se descreve assim no site de Elson Fróes:

“Maria do Carmo Ferreira (Carminha) natural de Cataguases, a princesinha da zona da mata mineira. Aos 14 anos se tornou poeta por excesso de amor. Morou em Belo Horizonte, São Paulo, radicou-se no Rio por mais de duas décadas e finalmente mudou-se para Niterói.
De 1969 a 1973 morou 2 anos na Europa e dois nos EE.UU, cursando mestrado em Literatura Comparada e lecionou língua e literatura brasileira no Colégio dos Graduados, Universidade de Illinois.
Hoje, aos 61, mestranda em Literatura Comparada, aposentada da Rádio Mec, onde serviu 30 anos como criadora, tradutora, redatora, produtora e coordenadora de programas litérários e lítero-musicais, como Técnica em Assuntos Culturais MEC/Demerg.
Inédita em livros, CAVE CARMEN será o primeiro.”

Isto foi há 21 anos atrás, em 2000: CAVE CARMEN que até hoje não veio. Não veio o livro reunindo essa obra de décadas e atravessamentos. Mais adiante, no mesmo site, ela nos conta de outras obras inéditas no baú:

“Publicações Literárias: inédita, aos 62, em livro, tenho, contudo, a um passo do prelo:

CAVE CARMEN (40 anos de poesia): poemas reunidos desde a década de 60 até hoje, 2001)
Jogos Florais & Animais (poemas soltos, infantis)
A Flor que sofria de pensamento: uma estorinha só em versos (idem)
O Delfim que não sabia morrer (idem)
O Sacristão e a Miss (idem)”

No entanto, seria exagero dizer que se trata de uma obra absolutamente esquecida. Na verdade, além de ter contribuído com revistas e jornais impressos ao longo das décadas (Invenção, nº 5; Ímã, nº 5; Poesia Para Todos, nº 2; Suplemento Literário do Minas Gerais, vários números; Revista Dimensão; Correio do Sul; ANE/Associação Nacional de Escritores; O Cataguases; Pensaminto; Chicos, nº 56, etc.) também se aventurou em colaborações na internet: Blocosonline, Jornal de Poesia, Notívaga, O Cisco Tonitruante, REBRA, Germina e por aí vai.

E mais, Carminha já recebeu elogios efusivos de nomes variados e importantes, tais como Décio Pignatari, Augusto de Campos, Carlos Ávila, Ronaldo Werneck, Ana Elisa Ribeiro, Fabrício Marques, Alvaro A. Antunes, Ronaldo Cagiano, Silvana Guimarães, Júlia Eléguida etcétera etcétera. Ela é um caso que mostra como o livro ainda é o instrumento fundamental de reconhecimento simbólico (veja-se, por exemplo, como a recepção dos poetas estritamente orais ou digitais tende a ser lentíssima dentro do ambiente da poesia tradicional). É uma obra vasta, dispersa, que nos diz CAVE, “cuidado”, CARMEN, “com o poema”, ou mais precisamente “com a Carminha”; mas que poderia, num ato de destradução, ser um “cuidem dos cantos de carminha”, CURATE CARMINA, que é o que tento modestamente fazer aqui com uma coleta dos dispersos ainda acháveis. Agradeço a todos os nomes acima citados, que me ajudaram muito a encontrar caminhos, sobretudo Alvaro A. Antunes, que me apresentou sua obra, Ronaldo Werneck que generosamente me passou vários textos, por meio de Ana Elisa Riveiro, e Silvana Guimarães, que finalmente me informou que Carminha passa bem, vive em Niterói, onde se dedica a uma vida resguardada e agora dedicada à religião católica. Cuidamos de Carminha, como ela merece.

Segue abaixo a lista de sites onde encontrei informações ainda disponíveis:

Elson Fróes;
Germina, aqui e aqui;
Jornal de Poesia;
Blocos Online;
Carlos Ávila sobre ela, na Dom Total
Chicos, 56, com um dossiê e coleta de Ronaldo Werneck;
Suplemento Literário de Minas Gerais, também organizado por Ronaldo Werneck;
Mulheres na poesia brasileira, organizada por Maria Augusta da Nóbrega Cesarino;
Carlos Ávila sobre ela, na Dom Total;
Felipe Paros escreve sobre ela na revista Circuladô, no. 11;

Gostaria ainda de lembrar que Carminha já apresentou um trabalho refinado de tradução, também dispersos, mas que está representado também no site de Elson Fróes, com os seguintes autores (devidamente linkados): Emily Dickinson, Paul Éluard, Frederico García Lorca, Alfonsina Storni e Pablo Neruda. Talvez este também merecesse uma boa recolha ampliada, com a devida análise crítica. Fica para outro tempo.

O que apresento abaixo é uma modesta reunião de poemas a partir do que já está disponível online, mais umas poucas coisas que consegui graças à gentileza e generosidade dessas pessoas acima mencionadas, com o intuito de apresentar Carminha a mais gente interessada. Espero que uma nova união de parte do disperso possa ser o gatilho para o passo tanto tempo travado: o livro.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

ESTADO RESIDUAL DA DOR

Aos quarenta e dois anos soo inédita
estrela decadente ao rés-do-chão.
Erra a maturidade entre as paredes
que ergui aos dezessete. E não ruirão.
Que diria eu de mim que fui vedete
plumas e prêmios em pés de pavão?
Espadanava o espírito nas redes
e eu peixe escorregava-me das mãos.
Pássaro cego dardejei parábolas
que se empalharam num museu de sons.
Tornei-me objeto. Abjeta. Prefixada
à guisa de artefato eu disse NÃO.
Palavras que eu mastigo em pensamento
são malas artes química que intento
como animal que urina para dentro:
gaveta/arquivo morto/armagedon.
Ah não me amei me armei me desmascaro
quero escapar de mim perder meu faro.
Adentrei-me demais no labirinto
e quanto mais me sinto mais me sinto
eu revolvida em livro de memórias
errática ficção fingida história
eu me arrancando páginas de medo
eu recolhida às pressas já no prelo
eu censurada imprópria intransmissível
eu bomba-H na hora-D eu míssil
em pânico de ser e estar comigo
eu me engolindo em seco em meu degredo
camelo cobra cabra capivara
catatônica ao toque da palavra
desertora de mim. Desativada.

§

A QUEM INTERESSAR POSSA

Um pessoa
do sexo
feminino
38 anos
1,65
66 kg
sem lar
sem filhos
sem família
sem negócios
sem esperança
com 108 contos
na poupança.

Garante que possui
matéria-prima
para literatura
teatro
baby-sitter
trabalhos manuais.
Gosta de música.
Chega a tocar
de ouvido.
Conhece inglês
e línguas neo-latinas.
É boa datilógrafa.
Cozinha o trivial.
Prefere a natureza
à vida na cidade.
Amor, quase não faz
porém se adapta sem-
pre ao item men-
cionado.

Falta-lhe alma
um sopro que a reanime.
Se veleidades tem
é de sentir-se real.
Vive
por força
de viver
mas corre o risco
de se deixar morrer
sem que se dê

POR ISSO
oferece-se a quem
interessar possa
uma coisa
uma causa
uma pessoa
alguém
um problema social:
o caso dessa moça.

§

UM CARMA, UM CARME, UM CARMIM

Capineira capinei
meu caminho ora-pro-nobis.
Vassourinha vassourei
e me arranhei de reimosa
lenhosa lenhificada.
Quando fiquei flores alvas
deitei dormi sosseguei.

Caminheira caminhei
seguindo rutácea rota
sem lei nem grei rei nem roque
e em me plantando me dei
com os costados nos espinhos
e grinalda no cangote
de flores que laranjei.

Netrodórea pubescente
em cataguá! me encantei.
Virei limoeiro-do-mato
hermafrodita ge(ra)niale
vegetei campos gerales
perseguida de esmeraldas
por turmalinos parentes.

Nasci princesa da mata.
Fui coroada. Coroei
de penas cabeça e pés
nas coitas de amor e catre.
Carmelina carmeei
coita por coito e fiquei
em penúria e mais coitada.

Minha avó, me desentronca
do fundo dessa masmorra.
Ruminei tanta esquivança
que tartamudo em desova.
Ui ui ui morro de medo
de dentro da minha cova.
Cataguá! me desencanta.

Que o meu avô não me ouça
farejando outras paisagens.
Vou segregando sementes
translucidaglandulares
que aferrolho de alto a baixo
em carmona hereditário
para semear noutras bandas.

Levo o meu fruto na cápsula
e cato outra cataguases.
Oi oi oi belo horizonte.
Perdi a esperança. E o bonde?
Vi meu noivo atrás dos montes
além muito além das serras
que ainda azulam no horizonte:

num tempo nunca-será.
Atravessei mar oceanos
de perdas lucros & danos
embrulhada em meu papel.
Avistei a torre eiffel
(cataguá! que desencanto)
desde o fel da babilônia.

Carmanhola carmanhola
quem me canta é quem me chora.
Embarquei nessa emboscada
dançando a canção da moda
vertiginosa parada.
Meu reino pelo que eu era:
tudo por meia-pataca.

Cataguá! quebrou-se o encanto.
Quem volta atrás vira estátua.
Quem não, volta à estaca zero.
Na memória assento praça.
No vento assento as memórias.
Vida, noves fora, nada.
Amor: vida noves fora.

§

EMERGÊNCIAS

Quando eu tinha 10 anos
minha irmã casada
me chamou no quarto.
Tinha parido o seu primeiro filho
e, entre relaxada e displicente,
pediu que eu lhe pegasse
um vestido no armário.
Deu pra eu notar, de soslaio:
estava só de calça e sutiã.
Tinha uma pele branca e flácida,
barriga intumescida,
em nada a minha irmã
de fantasia de havaiana,
divina, entre os fiapos
das matinês dos filmes
de final de semana.
Um mal-estar só de alma
me invadiu por inteiro
e fui chorar na sala.

Depois outra irmã pariu,
e eu, já nos meus 12,
tomei o trem e fui,
entre vaidosa e grave,
ser madrinha no Rio.
Olhei meu afilhado
roxo e de tantas peles
que me assombrava o tato
visual. Bem mal retive
aquele horrendo flash.
Fui chorar no banheiro.
Não quis saber de festas e retratos,
voltei as costas pra eles
e, só, no meu quintal de Cataguases,
nas grimpas da mangueira,
chorei e vomitei minha orfandade.

Aos dezessete, uma colega
do curso colegial
me ensinou fatos da vida.
O que meus pais tinham feito:
tremenda porcaria
pra que eu fosse parida.
Fiquei chocada.
Se nunca os vi de abraços, beijos,
e cada qual tinha o seu quarto…

Alguma coisa se quebrara em mim
como a cabeça do bebê de porcelana
que o meu primo Juquinha me trouxera
nos seus troféus da Itália
quando pracinha entre guerras.
Aprendi a fazer bruxas de pano
bolas de meia, petecas de folhas
de milho ou bananeira
e penas de aves.
Mesmo em Belo Horizonte pulei corda,
jogava amarelinha com cacos de telha,
e até os meus 19,
por fora, bela viola,
por dentro era uma moça retardada.

Não me casei, não pude
desfrutar de namoros mais ousados
até completar os 30,
já fora e longe de casa.
Nunca respostas para tais perguntas
que ainda me sufocam
neste sem tempo/espaço.
Jamais a ratificação do doce, terno,
baldado romantismo lido em livros
e telas
na pauta da memória
de alguma sinfonia inacabada.

§

AS LESBIANINHAS

Mancomunadas
conluiadinhas
mãozinhas dadas
maquiavelinhas
colaçam tretas
do arco-da-velha
roçando os arcos
das íris delas.

Lá vão as duas
uniduninhas
no bole-bole
de suas barquinhas
passeando embaixo
do arco-celeste
jurando laços
bem-casadinhos.

Priscas pupilas
saficazinhas
mesmando-se ilhas
de amor-perfeito
dentro de espelhos
em que se miram
no acende-aplaca
de suas pocinhas.

Cheios de dedos
seus segredinhos
se encarrapicham
quando se tocam
(liras? safiras?
pirilampejos?):
pêlos nos pêlos
olhos nos olhos.

§

ÀS MARGENS PLÁCIDAS

O mar desborda em minhas costas
e eu sentada.

O sol saltando das órbitas
e eu de costas.

Condomínios desagregam-se
e eu secreta.

Mulheres desovam povos
e eu apátrida.

Lá longe a lua acabala
mel & merda.

Serão na Casa da Moeda
e eu lunática.

A enchente maior do século
e eu sem pressa

telefono impulsos-extra
& ordinários.

O país em chaga aberta
e eu coberta.

Mais perto ratos por labs
deca/p/tados.

Ao som & imagem de guerras
sob controle

remotamente tremores
terr/e/motos.

Trilhões de dívidas-déficit
e eu sonego

gastrites porque hoje é sábado
entre sábanas.

Metalúrgicos meninos
desemperram

parafusos de uso infusos
honorários.

Violência gera violência:
o orbe em greve.

A urbe em promiscuidade:
a par th aids.

Livre îvre o livro-árbitro
escorrega

do colo ao chão por sinais
testamentários.

O despertador dispara
e eu desperto.

A televisão matraca
e eu desligada.

Na cozinha a iogurteira
de olho aceso

apita que o leite fresco
agora é coalho.

Do banheiro peças mudas
pregam à cesta

que roupa suja se lava
na automática.

§

MERETRILHO

MICHELALÚMIA
      PROTIBULUTA
            GLANDULAMULA
                  JEREBAGLÚTEA

                        CLORIFURBANA
                              CLOACLORANTA
                                    MARAFANCHONA
                                          PLURALITANTA

                                                EGUAERVOEIRA
                                                      CLEPSUICIDRA
                                                            PERONIAÔMIA
                                                                  BISCAVOBISCA

                                                                         MOSCAMENISCA
                                                                               MENINGEPÚBIA
                                                                                     VAGIPENÍSOLA
                                                                                           CLITÓRISPUTA

§

FAUNAFLORGESTA

mandágora
teu corpo
ágora

agorafobia
meu corpo
agora

minhalmaexplora
magmamálgamas

teucorpoaflora
minhanimalma

densa floresta
devororosa

fálica festa
em polvo’rosa

§

PEIXE FRITO: UM PRATO FEITO
(DO IDIOTISMO AO IDIOLEITO)

-Aracaroba praquaquerum

-Araka’tu quaquerora
cabiçudo xaréu branco
quando evém vem na desova

-Pra mim tu num prega história
pirada bruaca piranha
nem praísca tu num presta

-Carimbamba: :-Num provoca

-Minhoca de areia quente
roncador budum de bode

-Guaracema Guaracema
te passo a vara na cara
te faço vará essa vera

-Ara vem guiará essa intanha
marmotinha… Aracimbora!

§

ROCK RURAL

Ruminei o amor platônico
do cotovelo à omoplata.
Cavalguei nua em seu lombo
mas rocinei meu cavalo.

Emplaquei o amor idôneo
com selo e certificado.
Do cio ao ócio um patrono:
comi mais que o sal de um saco.

Do amor que não ousava nomes
ousei ódios e odes sáfaras:
pela índole, indo às fontes,
pelo síndrome, indo aos fatos,

toquei safira e sanfona
e escapuli dessa escápula.
Avaro, unha-de-fome,
toureei o amor, unha-e-carne.

Persegui o amor na planta
com foice e cabo de enxada.
Levei luas me embrenhando:
posseira, meeira, escrava,

dei com rocha e areia rocha
cavuquei mandioca brava
deitei calcanhar em ramas
(em maus lençóis desaguava).

Ah o amor… coronelando
sobre as patas, sob os cascos,
pisava de borra-botas
meu chão sem raiz. Meu charco.

Afoguei o amor no fosso.
Por cima uma cruz de tábuas.
Adestrei-me égua-amazona.
Coração, sei-o apartado.

§

SEQÜÊNCIACONSEQÜÊNCIA

Dies irae, dies illa,
nada será como d´antes:
doravantesma só cinzas.

Revolve-se a poeira humana.
Por ínvios caminhos, roma.
Na cama, o lot das filhas.

A natureza se espanta
com o fogo que prometeu:
libertas quae sera tamen.

Bárbaro belo horizonte,
haja sermão nas montanhas
quando ismália enlouqueceu.

Marcados com pedras brancas
vão-se os anéis aos diamantes
in albis…lento festina.

Olhai o lírio dos campos:
cui bono? Arcades ambo.
Teste dirceu cum marília.

Lacrimosa dies illa,
chora bárbara heliodora
do norte estrela sem guia.

Transidos de eterno sono
quem rogaturus patronum?
Tudo será cinza fria.

Vivos voco, mortuos plango.
Dormindo profundamente
ab aeterno, aeternum vale,

onde eram neves d´antanho
diadorins… dinamenes…
sub rosa (cum grano salis).

Vão-se os anéis, fincam os dedos
finos como lã de cágado
limpando as mãos à parede:

um no papo, outro no saco,
por baixo, por trás dos panos
tutti son fatti marchesi.

Litterae bellorophantis
entre amazonas, quimeras,
cumpro o destino a que vou:

res, non verba, hominem quaeso:
no me saques sin razón,
no me embaines sin honor.

A césar o que é de césar:
rei da lídia ou rei da lécia,
questão de lana-caprina.

Até aí morreu o neves:
que a terra lhe seja leve,
com o pão-de-açúcar por cima.

Vão-se os anéis de saturno
et campos ubi troya fuit:
cinzas do princípio ao fim.

Revertere ad locum tuum.
Não compro mais ave alguma.
Perdi o tempo e o latim.

Com suas rosas de malherbe,
com seus beijos-lamourette
e os seus anéis nibelungos,

sicut umbra dies nostri:
ubi flores de retórica,
ibi cravos-de-defunto.

Dia de todos os santos,
de quebradeira e quebranto,
dia miserere nobis:

num pass-a-nel delirante
entre um anão e um gigante
cavalo e valquíria explodem.

Um livro há de ser escrito
e o homem passado a limpo
bem no nariz do patrão:

quando o tumor vem a furo
de que servos dedos duros
os que se forem, assoarão?

Metendo a mão na cumbuca,
geme e estertora a criatura
numa sinuca de bico.

Em represália ante o trono,
ao som de tripas e trompas
todos pedindo penico.

Apocalíptico dia!
Dia do tombo, hecatombe,
ingemisco tanquam reus.

O que é do homem o bicho come:
vamos que zebra, ou que bode,
quem sabe o bicho que deu’s?

Ante diem, sê benigno,
juiz do justo castigo
cui salvandos salvas gratis.

Ovelha negra inter oves,
correm comigo: eu, contíguo,
cost to cost & the day after.

§

CONTRATUAL

os ciúmes que
palavrearam
AMOR

os cumes que
palavram
aMo

os umes que
param o
m

a contração
sexu
AO

§

AUTO-RETRATO

Nasci no rame-rame das abóboras.
Meu plano é horizontal. Vivo de cócoras.

Se me ergo, me espatifo. A gravidade
colou meu ser ao chão: cresço à vontade.

A crosta é dura. No corpo volumoso
a polpa é só fartura e paga o esforço

de rastejar como uma tartaruga
e refletir ao sol minha armadura.

Uma fome objetiva me devora
como a dos porcos que não comem pérolas

ou a dos pobres que não comem porcos.
Com ou sem sal, metáfora ou pletora

viro alimento no momento justo.
Ao fogo brando e lento mais me aguço.

Não sinto a tentação das ramas altas:
maracujá, chuchu, nada me exalta.

Nem mesmo a solidão das uvas verdes
quando o desdém dos homens as prescreve.

No ventre universal ocupo um espaço.
A vida faz-se em mim. Vegeto, e passo.

§

TORNA-VIAGEM

Muros altos do abandono.
Bati com punhos cerrados:
não havia entrada em teu sono.

Céu claro, turvo, que importa?
Não havia entrada em teus sonhos,
sonhando a portas fechadas.

Siderada de promessas,
de telefonemas, cartas,
busquei consolo em tua sombra.

Consolo, encontrei nas pedras.
Sofri desespero, raiva,
solidão, mágoa, suborno.

Vaguei sem mim uma década.
Ingenuamente esperava
que viesses em meu socorro.

Teu jardim não deu pousada
à fadiga com que vim.
Não havia entrada em teu horto.

Enlouquecida, exaltada,
já de ciúmes incendiada,
tomei distância. Escalei-te.

Transpus-te: não havia entrada.
Não havia entrada em teu corpo
alheio às minhas pegadas.

Não havia nem mesmo frestas.
Não havia sequer saída
em tua vida escancarada.

No espelho em que eu te mirava
nenhum reflexo havia.
Não havia, de resto, nada.

§

TELECARLOS

Ao completar quarenta
num dia de são-tomé
véspera de são-nunca
de porre de coragem
e algum fogo nas ventas
telefonei pra você.
Você me disse: aguenta.
Aguentei como pude
desde os meus dezessete
com suas cartas na mesa
e um papel de bombom
(colomba adolescente)
nos porões da gaveta.
Eu tinha a língua presa
e você gaguejava
anedotas concretas.
Antenas de pestanas
(ou era Pentecostes!)
acendiam mil velas
na soirée da Colombo.
Quem me viu, quem me crê.
Comi gatos por lebres
exilada do vale
e haja ainda uvas verdes
nestes quarenta e sete.
De quem ouvirei?: aguenta,
que o tempo ainda é de fezes
alucinações maus poemas…
Te passo um encefalograma?
Te ausculto em fitas-kassete?
Uso o meu telecarlos?
Código morse ainda se usa?
Seus livros autografados
impassíveis na estante
remetem ao dicionário
de palavras gestantes
sob sua própria égide
de sonhos contrariados.
De carona em seu Halley
levo uma carraspana
no arremate de males.
De repente me vejo
(ainda vivo de vales)
indo a Copacabana
para um acerto de contas.
Esbarro em seu cheque-ouro
Banco por banco assento
a inesperada chance
(comprará Roupa Nova
ou fará em Pessoa
um amigo presente?).
Entre aids e apartheides
você me reconhece
água vai tir-te e guar-te
sem mais aviso prévio:
– Os mesmos olhos verdes!
Ando farta de carnes,
vigilante de peso.
Você, com tudo, é o mesmo
que visitei há séculos:
– O mesmo ardor modesto!
Seu perfume me agarra
na griffe desse abraço
sem tratamento, quase:
mineiro cem por cento,
gauche de lado a lado.
E falamos de nada
como se, como sempre.
Sem poesia sem piadas
vamos nos esfolando

na memória calçada
de outro tempo suspenso.
E de repente rimos
(no último andamento)
de amarelinhas sombras.
E já nos despedimos:
como um menino antigo
e uma menina tonta.

§

ANÚNCIO

Frias e frívolas pessoas…
Ando sedenta, faminta,
exausta a não ter mais como,
mas vocês acham
(me passam
num silêncio de abandono)
que isso não tem nada a ver.

Por sorte não me verão
no inverno, na primavera,
colhendo de grão em grão
o que outoneio na pressa
de lhes dar o que comer
além do pão com manteiga
ou com caviar,
depende
do paladar de vocês.
De mim nada vão saber.

Nem dos bichos que alimento,
tirando da minha pena
e, muitas vezes, da boca
o indispensável sustento
que nem mesmo me faz falta,
pois vivo do pensamento
de lhes dar, caras pessoas,
o que em sua mesa transborda

mas carece ao coração:
amizade à toda prova,
fraternidade, igualdade
por uma existência nova
em que todos tenham à mesa
fartura do mesmo pão
cultural, por excelência,
voz e vez para os carentes
que são, de direito e fato,
seus consangüíneos irmãos:

nossos irmãos, com certeza,
ou vocês se acham melhores
por portarem pedigree?
Muitos dos meus
cães e gatos o
su’portam, e abandonados
por ex-enfarados donos…

Se aos animais me devoto,
como não me ocuparia
dos próprios seres hu’manos
que vejo batendo às portas
com fome, com sede, insones,
exaustos, como me encontro
(por outro tipo de banho)?

Ainda sonho com cascatas
dentro dessa mata virgem
que, de bandeiras e entradas,
ou vice-versa, persiste
mas como selva selvaggia,
de pedra, se me permitem
(a contrapelo) o sermão
da montanha, que fez Cristo
clamar bem-aventuranças
para os pobres em espírito.

Essa pobreza comporta,
em simples poça, um oceano
com toda sua fauna e flora
e arrecifes de corais!

Distintas, mas tão simplórias
pessoas que não se importam
com o que se passa à sua volta
e o que já ficou pra trás…

Além, muito além das serras
que ainda azulam no horizonte,
entre o céu, a terra
e a árdua
batalha de um dia-a-dia,
mais mistério há do que possam
sonhar suas vamps personas
de VIPs filosofias.

§

DIA DAS MÃES

Meu pai era um sujeito estanho
encastoado
baixo moreno-tacho
filho de Vovó-Rita
índia de laços.

Tinha um temperamento instável
sujeito a chuvas e trovoadas.
Seus olhos miúdos
faiscavam chispas
de um limpador de para-brisa
sempre ligado.

Quando xingava a gente era de
filhos da puta
seus miseráveis
corja de canalhas.
Quando ficava alegre assoviava
valsas de antigamente
cantava em falsete
tocava flauta.

Uma vez me pôs sentada
na sua cadeira de dentista.
Disse filhota, olha o que eu fiz
e me confiou seu tesouro:
uma caneta-tinteiro
toda folheada
de mil cachinhos de uva
(papai era um artista!)
em filigranas de ouro.

Fiquei fora de mim
olhando aquilo. Papai
de costas
improvisava um anel de correinha
e brinquinhos de flor — resto de solda.
Furou minhas orelhas arredias
e tauxiou de lágrimas douradas
a sua cinderela por um dia.

Então me ergueu ao colo e me chamou de Mimo.
Nesse momento herdei o seu destino
mais secreto
tantos anos depois:
um dicionário de rimas
alguns sonetos dispersos
e tudo o que podia não ter sido
e sempre foi.

Quando morreu eu estava na Inglaterra.
Soube por carta alcoviteira
tarde demais.
O ódio de suas fêmeas carpideiras
ainda hoje assoma açula assola
com sua matilha de cães
o amor que me impedia e sinto agora
que chora por meu pai
neste Dia das Mães.

 


Abecedário #1

Ano passado, propus um projeto que consistia num conjunto de ensaios poéticos na forma de um abecedário. A cada uma das letras do alfabeto, uma palavra. A cada palavra, um(a) poeta, crítico(a). A ideia era emular o famoso abecedário proposto ao Deleuze. Infelizmente, o projeto não pode ser levado a cabo na sua forma inicial, em livro. No entanto, remodelando às necessidades do momento, transfiro-o para uma série aqui na revista a ser iniciada por quatro ensaios.

Não se seguirá qualquer ordem na escolha das letras e dos vocábulos. Sendo que uma letra, agora, poderá conter mais vocábulos. Viva o caos!

A esperança, entretanto, que havia no começo do projeto se mantém: evidenciar certo presente através de certas palavras.

Sem mais, passo aos quatro ensaios.

* * *

MORTE, por Marcos Visnadi

Os túmulos
estão gastos de um lado pelos passos
dos vivos, e do outro
pelo esforço dos mortos.

Herberto Helder

– Tá pensando no quê?
– Na morte da bezerra.

Diálogo popular

tenho nos ossos
essa história
também nos tecidos moles
intestinos até na pele
tudo grita vida
e busca a morte
sussurra
pra que não acorde
que nem ver um homem bonito dormindo
você tem medo que ele te largue
mas se largasse
como é fácil o fim
e como gostoso começo

tem tantas mortes quanto tem gente no mundo, e muitas mais. de morte morrida, de morte matada. tem homicídio matricídio suicídio feminicídio genocídio fratricídio etnocídio. etc. a morte é dissídia.

trocentas mil pessoas morreram de sars cov 2 no brasil. dava pra evitar?

sars cov
essa cova
só jogo
de palavras

“grande coisa”, dizem os homens. “e daí?”, eles respondem. “é a vida”, vaticinam. e estão errados?

(vaticídio)

.

Minutos depois do enterro de Fulano, um sujeito vira pro outro e pergunta solene:
– Sabe o que Fulano estaria fazendo agora, se estivesse vivo?
– Não, o quê?
– Arranhando o caixão.

.

O cu da bicha ficou tão largo, tão largo, que a morte passou e chegou do outro lado

.

A mãe da Morte chorava e puxava os cabelos:
– Você me mata de desgosto!
E era verdade.

.

Nos anos 80, no Programa do Silvio Santos, uma criança contou a piada:
– Sabe por que o papagaio não morre de aids?
– Porque ele só dá o pé.

.

Contando o dinheiro, o prefeito do Rio de Janeiro disse pra Morte que ela podia abrir quantas filiais quisesse na cidade.
– Se começa com Morro, o lugar é todo seu!

.

No leito de morte, o prefeito se arrepende. Republicana, a morte peida.

.

A Morte e a Vida são irmãs siamesas. Uma é boa, a outra é ruim. Nada as distingue.

.

Cavalheirismo

Um velho e uma velha chegam pra visitar o cemitério. O velho para na frente do portão e faz um gesto com a mão:
– Primeiro as damas.

.

Manchete

Comediante britânico faz piada sobre derrame e morre no palco.

.

O Sergio falou:
– A gente quer um texto sobre a Morte e acho que você é a pessoa certa.

.

Bullying

Com a Morte não se brinca.

.

Um judeu, uma bicha e um homem hétero branco cis entram num cemitério. Os três estão mortos. Não pergunte por quê.

.

O que é, o que é? Uma chuva de purpurina.
– Explodiu um avião cheio de bichas.

.

A professora pergunta pro Joãozinho:
– Se eu tenho 25 bichas e uma delas morre, com quantas bichas eu fico?
E o Joãozinho, soltando um risinho:
– Com um número engraçado.

.

A Morte entrou no bar e pediu um rabo de galo. Um sujeito de apelido Galo, já muito bêbado, ouviu e gritou:
– Só por cima do meu cadáver!

.

Sem graça

A Morte bateu na porta da velha, que já tinha enterrado os pais os irmãos os maridos os filhos os netos. A velha ergueu as mãos pro céu e exclamou:
– Graças a Deus, você veio me buscar!
Rindo, a Morte pegou o cachorrinho da velha e saiu correndo.

.

Trocadilho

Foi crime. Foi acidente. Foi vontade. Foi a hora. A Morte solta um risinho e diz:
– Foi-se.

.

A Morte não é uma pessoa. É uma empresa. Tem vários braços, organograma e departamentos especializados. Terceiriza todos os trabalhadores pra aumentar o lucro. O colaborador que não sorri quando ceifa uma vida é imediatamente dispensado. Sempre com um sorriso.

.

Última da bichinha

A bicha pergunta desconfiada:
– Você é a Morte?
O ser andrajoso, sujo, segurando uma foice desproporcional com seus dedos cinzentos e ossudos, responde:
– Não, só trabalho pra Ela.
Ainda desconfiada, a bicha levanta os trapos procurando a neca. Uma cova lustrosa e veiuda pende do meio dos gambitos. O olhinho da bicha até brilha!

.

Essa piada
me mata

de tédio
de rir.

.

Mas nem tudo são flores. Cronologia da decomposição (segundo a Wikipédia, baseada em porcos em uma temperatura média de 26,1 °C do solo):

Fresco (dia 0): estágio inicial, basicamente nenhuma característica forte da decomposição é visível. Aqui é exatamente onde se encontra a dificuldade de dividir o intervalo perimortem e o postmortem. O cheiro ainda é o presente no animal (ou pessoa) quando vivo. Depois de um tempo (minutos ou horas, varia de acordo com a localidade), as primeiras moscas da família Sarcophagidae.

Inchado (dia 1): o nome é dado pela principal característica do estágio, o inchamento do corpo devido à concentração de gases liberados pela ação de bactérias ligadas à decomposição. O cheiro forte de putrefação começa a estar presente, assim como outros grupos de moscas, formigas e também alguns besouros necrófagos. Meu pai, que foi enterrado nesse dia, durante o velório tinha a pele fria e úmida como a de um sapo. Ele trabalhou muito tempo como motorista no Velório Municipal de Jundiaí e de vez em quando contava histórias de transporte de cadáveres em cada um destes estágios e talvez nuns tantos mais.

Decomposição ativa (dia 3): as larvas de insetos começam a penetrar em orifícios, pele e outros tecidos. Assim, os gases e fluidos corpóreos são liberados em grande quantidade no ambiente, atraindo ainda mais outros animais e acelerando o processo de decomposição.

Decomposição avançada (dia 5): nessa fase, boa parte das vísceras foram devoradas pelos insetos e outros organismos presentes. Os ossos são expostos pouco a pouco, o corpo perde volume e o forte cheiro começa a diminuir, assim como a diversidade de insetos.

Seco (dia 7): somente pele, cartilagem e osso são encontrados. Todas as pessoas que conheço que morreram encontram-se neste estágio ou adiante. Outros artrópodes aproveitam a diminuição da competição para obter recursos, como centopeias, caracóis, piolhos-de-cobra, entre outros. Estágios anteriores nos aguardam.

Restos mortais: é difícil determinar quando inicia a última fase, porém é bem provável que dentro de duas semanas a carcaça já esteja nessa categoria. O cheiro é bem fraco, porém bastante impregnado no solo e em pedras próximas. A carne e a pele já não se encontram presentes, somente ossos e cabelo, e os animais presentes são do ambiente, e não ligados ao processo de decomposição. Descanso. Inexistência. Esquecimento.

.

Promessa: “Quiseram nos enterrar. Não sabiam que nós éramos sementes.”

.

Vivemos agora a morte dos sonhos e das espécies. A nossa no centro. A gente estertora e teima em não morrer. Manchete: um jacaré queimado de ponta-cabeça indica que ele pode ter morrido se debatendo, dizem especialistas. A morte é crônica. Muito bicho e planta morreu com as queimadas do Pantanal. Da Amazônia. Do Círculo Polar.

E dava pra evitar? Não sei. A Morte dá de ombros. Manda um memorando. Jacaré morreu?

.

Você merece uma missa, um cenário, uma memória bem solene. Solipsa. Você merece uma morte tranquila: dormindo, vão te olhar e dizer: o rosto transmitia uma paz. Você merece que enfiem dedos e algodões e jornais nos seus buracos. Com manchetes sobre a bolsa de valores e a morte de outras gentes. Ninguém merece morrer sozinho. Por isso você merece: um anfiteatro lotado. Uma videoconferência. Multidões entoam cânticos de amor. E expiram exultosas quando a lâmina cai. Depois da morte, os espíritos se dissolvem. Remunere bem o seu coveiro. A menina cresce e vai se lembrar pra sempre, mesmo que não se lembre: da sua cabeça surpresa rolando através da praça. A Morte vai usar essa máscara quando vier buscar ela. Velha, a menina vai te reconhecer e encontrar no reflexo dos seus olhos o sorriso dela mesma, criança, divertida enquanto te via morrer. No meio da plateia, o suspiro de susto e de alívio se repete pra sempre. E o corpo dela fica mais leve quando, fatalmente, a urina cai.

§

SAUDADE, Por Patrícia Lino

Para ver todas as variações, clique aqui.

§

VIOLAÇÃO[1], por Bruna Mitrano

Não é apenas ocupar um lugar – incluindo o lugar-corpo, como primeiro território e, portanto, espaço de disputas – que não lhe pertence, mas destituir esse lugar de sua memória. Porque a memória é o que, de fato, o faz habitado.

Não é invadir o quintal do vizinho para roubar manga. Isso é ousadia e, eu diria, até um pouco de noção marxista de anti-propriedade.

Violação é acreditar que a grama do vizinho é a mais verde, quando não necessariamente é, ou se é um pouco de água resolveria, e não se conformar com isso. A ponto de sair à noite, escondido(a), tomado(a) pela vergonha – aquilo que nos difere dos animais –, para espalhar pó ácido nessa grama.

Vejam que tal ação, articulada e perversa, não se ampara no Desejo, mas na Destruição. O ácido, além de matar a grama, deixa a terra improdutiva.

A terra infértil é o corpo violado, devastado, que não se recupera ou se recupera lentamente, porque a memória inconsciente, a memória da pele, única capaz de gerir afetos, dá lugar ao trauma.

Diante da experiência do trauma, da permanência das marcas, a presença se faz ausente e a ausência, presente. A memória afetiva se perde na medida em que não cria nem ressignifica imagens, mas reproduz aquela, de dor, num constante e, por vezes, incessante retorno ao momento de morte em vida.

Assim, o que é ou quem é violado adoece. Mas essa doença não lhe pertence.

Adoecemos, pois, pela doença do outro.

O(a) violador(a) é guiado(a) pelo ressentimento, pelo ódio de si. E destrói o que é incapaz de ser: alguém desejante.
Já a pessoa violada é como eu ou você. Alguém que ri, chora, grita. A vítima padrão não existe. Se ela ou ele está, de algum modo, vulnerável, não é por fraqueza, mas porque se distraiu no movimento natural de manutenção de sua história. E um gesto incisivo pode acabar com toda perspectiva de futuro.

Violar direitos ou espaços é matar a vida em vida, é anular a vida viva, comprometendo, se não toda a composição do ser, uma parcela significativa: a sua dignidade. E quem faz isso está plenamente consciente de seu ato, porque age em contra-movimento.
A pulsão violadora é essencialmente reativa. O(a) violador(a) nunca dá o primeiro passo. A ação o(a) incomoda. O movimento do outro, sobretudo o distraído, isto é, aquele de simples intuição, o(a) perturba.

Por quê? Porque seus passos são calculados e vazios; e se deparar com alguém que consegue se alastrar como grama verde e forte, sem precisar roubar a cor e a força de jardins alheios, o(a) leva ao sentimento de impotência (autoimposto) e ao ódio (de si, do mundo).

Imaginem que sou, por exemplo, uma mulher que ama/deseja mulheres, e vive numa comunidade comandada por um poder paralelo, na qual não é permitido ser sexualmente dissidente, por risco de estupro corretivo. Ora, se não posso ser quem sou, nem deixar de ser quem sou, serei quem?

Outro exemplo. O homem com quem me relaciono faz “sexo” comigo desacordada, enquanto sangro, pois, horas antes, abortei um feto seu. Serei ainda eu, após esse rasgo?

Para finalizar, mais uma situação hipotética. Ofereço lugar na minha casa a uma amiga. Ela precisa de ajuda. Eu a ajudo até esgotar minhas energias. Exausta, peço para ela ir embora. Ela se recusa a sair e convence as pessoas à minha volta de que 1. sofro de problemas mentais e 2. é necessário me manter isolada, internada num manicômio. Na minha ausência, ela cuidaria da casa, garante. Após avaliação psiquiátrica, não sou internada, mas perco minha rede de apoio.

Quantas vezes fui violada?

Notem que a violação é um jogo de perdedores. Há a ilusão de vitória do(a) violador(a). Porém, seu otimismo é tão oco quanto quaisquer de seus afetos. Ele(a) não se alegra pela suposta conquista. Nem se culpa. Então, por que prossegue? Por hábito. Sim, por puro hábito. Por ser um(a) autômato(a). Erva daninha, parasita, planta infrutífera.

E nesse ponto, esbarramos na inevitável pergunta: como reconhecer, de antemão, pessoas perversas?

Violadores(as) dificilmente se expõem. Embora não haja culpa, há a vergonha (já mencionada, o motivo de agirem às escuras).

Afinal, vale lembrar, eles(as) têm total consciência do ato. E nada pior para um(a) violador(a) do que ter sua imagem pública abalada.
À vítima cabe esperar por, talvez, alguma justiça dos tempos. E acreditar na renovação. Seja pela chuva que restaura até a terra mais ressequida. Seja pela potência inviolável daquilo que arde.

[1] Antes de escrever este breve texto, googlei o verbete e minha primeira opção de busca foi “Violação dos direitos humanos”, o que me levou ao Art. III da Declaração Universal dos Direitos Humanos – “Toda pessoa tem direito à vida […]” – e a pensar que conseguimos infringir o direito mais básico que há, o de nos manter vivos, o de não matar os nossos (ou permitir que eles morram), seja qual for sua cor de pele, raça, religião, gênero, orientação sexual, classe social etc.

§

ÉTICA, por Guilherme Gontijo Flores

  1. Ética, do grego ἦθος,
    o caráter, o costume,
    o hábito de alguém.
  2. Certamente vinculada ao sânscrito स्वधा
    (svádhā, “hábito”, “costume”,
    mas também um “poder inerente”).
  3. Dá na raiz hipotética do proto-indo-europeu
    *swe-dʰh₁-sḱé-ti,
    que por sua vez vem da raiz
    dʰeh₁-, com o sentido de
    “fazer”, “colocar”, “posicionar”.
  4. Esse rio tem ambages muitas, tortíssima,
    vai, por exemplo dar em latim
    no verbo suesco — “ter o costume”.
  5. Mas melhor,
    muito melhor,
    vai dar em sodalis,
    que é o “camarada”,
    “parceiro”,
    “cúmplice”,
    “companheiro” e mesmo um
    “conspirador”
    (penso quem conspira
    como quem respira
    junto, partilha
    um alento).
    Ora, sodalis é quem costuma estar junto,
    partilha e respira.
    Eis um bom costume.
  6. É delicioso como ἦθος
    varia também em ἔθος,
    um é longo ἦ, trocado
    em e breve, ἔ,
    um acento tonal circunflexo, que sobe e desce,
    também deslindado numa só subida.
    Quem vem primeiro importa menos
    que esse costume
    introjetado em variações.
    O costume varia, dá suas voltas.
  7. Mas esse ethos grego,
    ao menos ali no velho Homero
    blind as a bat, Homero
    na Ilíada, canto 6, verso 511,
    quando aparece no plural
    ἤθεα ἵππων,
    (cláusula hexamétrica, éthea híppon)
    designa “os lugares costumeiros dos cavalos”,
    que poderiam ser seus habitats.
    Costume, hábito, habitat.
  8. Aqui podemos formular algo:
    ética é o hábito que habito.
    Mais que isso —
    a partilha de um ar que conspira.
  9. Mas ética não vem direto
    de ἦθος
    ou ἔθος,
    palavras têm seu truques
    e feito rios
    nunca seque retas.
    Vem de ἠθικός,
    o adjetivo que designa
    a moralidade, o que é relativo
    a um caráter moral.
    (Ó que a moral e a ética, no fundo se confundem).
    E vem sem gênero masculino ou feminino,
    vem sem singularidade,
    do adjetivo neutro plural:
  10. τά ἠθικά,
    e também ἐθικά.
    Coisas morais.
    Normas de vida. Ação
    no jogo da partilha.
  11. Mas isso tudo, em grande parte
    vocês estão cansados de saber.
    Repito o mesmo, o velho, o mesmo,
    porque o costume é um hábito em que invisto,
    e nunca um rei esteve verdadeiramente nu,
    se não na guilhotina.
  12. Outro caminho trilhado é o da política.
    Disse Aristóteles
    que o homem é um animal político
    πολιτικὸν ζῷον
    sendo ζῷον a vida
    bruta e neutra
    como o gênero da ética
    em oposição à vida política
    βίος πολιτικός,
    sendo βίος vida
    organizada em seu sentido,
    um ideal ético da vida política
    que ninguém sabe onde fica.
  13. Reparem como a coisa se deriva. A ética
    quando escrevo a palavra poética num livro
    engana as etimologias, ποιητικἠ nada tem
    com ἠθικά, que falta faz um mero θ (theta)
    singular presente na αἰσθητική (estética),
    e ainda assim distante por seu αἰ (ai) e η (eta).
    E no entanto, a contrapelo desses étimos,
    toda poética é uma est-ética é uma política:
    a vida bruta abraça sem parar a vida organizada.
  14. E tudo aqui conspira quando escrevo,
    mesmo negando o cerne em meu estilo,
    tudo conspira e assim é que me entrego
    a contrapelo do costume dado,
    e tudo que aqui vive está sagrado,
    e tudo que conspira é também sacer
    e vive no limite do profano
    e intocável, o impuro em puro mundo,
    e tudo que convive no profano
    aqui conspira sacer no sagrado,
    e a minha ação sozinha nesta escrita
    está desdita em tudo que atravessa,
    sodalis, solidário à solidão
    e diz a cada dia: aqui habito.

essa língua tão áspera: heriberto yépez, por nina rizzi

H?

o ensinamento
fundamental
da
poema
é que
é
um
processo
da gente se ligar
que tá’contecendo
u’a coisa que
temporariamente
chamamos
poema.

Mas não é uma poema.
É u’a coisa supina, tremenda,
istorica.

H?

A poema é registrada na página.
Mas aconteceu noutro canto.

¿H?

La enseñanza
fundamental
del

poema
es que

es

un

proceso

de darnos cuenta
que está sucediendo
algo que
llamamos
poema.

Pero no es un poema.

Es algo superior, tremendo,
istórico.

¿H?

El poema se registra en la página.
Pero sucedió en otra parte.

*
Ypez_Heriberto_04_19_2006

Heriberto Yépez (Tijuana, 1974), é tradutor e escreve romances, ensaios, poesia e se dedica a temas ligados à cultura fronteiriça México-EUA. É professor na Universidad Autonóma da Baja California. Foi agraciado com diversos prêmios e entre seus diversos livros estão as novelas Al otro lado (2008), El matasellos e A.B.U.R.T.O (2004, 2005), os de crítica Ensayos para un Desconcierto y Alguna Crítica-Ficción (2001), Luna Creciente. Contrapoéicas norteamericanas del s. XX (2002), o de crônicas Tijuanologías (2006), e os de poemas El órgano de la risa (2008), Contrapoemas (2009), e El libro de lo post-poético (2012). Alguns de seus ensaios apareceram traduzidos na revista Sibila, pelos editores, sem menção a um/a tradutor/a específica. Faz conferências regularmente sobre seus temas de estudo e sobre sua obra como, por exemplo, nas Universidade da Califórnia, Berkeley, Harvard e no Museu de Arte Moderna de Nova York, e colabora em revistas de ambos os lados da fronteira México-EUA, além de escrever ensaios críticos regularmente em sua página pessoal Co_Laboratório _de_Crítica.

Conheci a obra de Yépez no facebook por volta dos anos 2010, quando alguém (acho que Fabiano Calixto), compartilhou alguma história sobre cachorros que não são abandonados e junto vinha uma frase de Yépez e eu fiquei BAMMM. Na época eu estava lendo Hubert Fichte, Jerome Rothenberg, meu beat preferido Gary Snider e tudo que podia encontrar de cantos indígenas da américa antes de ser américa do brasil antes de ser brasil e aquilo que se convencionou chamar etnopoesia, e aí aquela frasezinha arranhando no facebook fez um estrondo na minha cachola. Sai procurando tudo que podia achar do mano Yépez na internet e encontrei inclusive o e-mail dele que foi bem bacana em me enviar vários de seus livros.

Os estrondos não cessaram com aquela pedra-de-toque. Num dos ensaios que mais me impactaram “Rereading María Sabina”, Yépez escreve como Octavio Paz leu a poesia de Sabina como “àquela voz que vem do nada, inspirada, de um inconsciente não-mediado, uma alteridade a-histórica, sem contexto”, e que orientou Álvaro Estrada, seu tradutor, a suprimir termos e palavras que “não pareciam condizentes com a personalidade de Sabina” – que Paz não conheceu! –, mencionando apenas seu valor antropológico e humano, e não poético…

Fiquei pensando muito, e ainda penso, nessa mente colonizada que não quer ser colonizada, nos professores do meu curso de história que diziam “pense sob a perspectiva dos vencidos”, mas todos os textos disponíveis e sugeridos eram escritos desde uma perspectiva dos vencedores e afinal desde que nascemos toda a história vinha sendo contada desde essa perspectiva… e pensando nessa história do cânone, mesmo o cânone que gosto (diferente dos alencares que pego e me pegam tanto no pé), como é o caso de Paz com suas “águila o sol” e “piedra del sol”, só pra ficar na poesia…

E fui gostando muito de me bater com o Yépez nisso que a gente anda pensando mesmo separadão pelas fronteiras e juntes nesse tempo de enamoramento e colisão, de pixo e de “poesia-botox”, como diz Felipe Fabre sobre a omissão do ruído nos textos poéticos – ruído como referência direta à luta de classes, racismo, homofobia, machismo, populismo e tudo que não corresponda a visão aristocrática da poesia mexicana oficial (que embora esteja falando se poesia mexicana está falando de poesia brasileira, hm?). Essa “poesia-botox” é a adoção de estrangeirismos e seus estilos, sobretudos estadunidenses, de autores nascidos a partir dos anos 1950 e que começam a ser publicados nos anos 1990 e que pretendem ou dizem que estão fazendo uma renovação na poesia, quando na verdade estão metendo rasteira na gente com esses ares de novidade caduco total e de pernas abertas pros yankees: um neoconservadorismo e sua consequente poesia neoconservadora. Os dois também se batem nas ideias, isso de algum modo é o post-poético de Yépez e trisca bunito no manifesto Por uma poética antes do paleolítico e depois da propaganda, que traduzi pra esta seção.

O texto está no livro de mesmo título, publicado em 2000 e que compreende poemas, algumas traduções e os aforismos-manifesto que escolhi pra apresentar aqui, que é também onde está a frase-bomba que me levou até seu autor: “A dança, a poesia e a memória, tudo que nos foi ensinado pelas criaturas não-humanas. Os primeiros xamãs da linguagem são os animais selvagens.” BAMM!

Tenho uma crença profunda de que a poesia é uma teoria. O que Patativa do Assaré escreveu sobre o sertão nordestino é mais teorético que os estudos sobre sua obra – e só ele poderia escrever com tanta propriedade sobre o que escreveu e me comover à nina –; o que Mano Brown e Eduardo Taddeo escreveram sobre as quebradas é mais teorético que os estudos sobre suas obras – e só eles poderiam escrever com tanta propriedade sobre o que escreveram e me comover à nina –; O que as manas pixam nos muros; os que as monas escrevem no twitter; o que tantas pessoas me escrevem em mensagens particulares; vídeos que vejo de gente que não conheço; os jardins da mãe de Alice Walker e as esfirras da minha mãe; as mãos de nossas ancestrais nas paredes da Serra da Capivara e as pegadas e pegadas e pegadas de “poesia involuntária”: tudo isso é poesia e é uma teoria e faz um rasgo na história, no cânone, na paisagem e na porra toda e – com um alcance lúdico que a teorética não tem.

Esse manifesto também me lembra disso. Cada uma dessas pedras-de-toque. Me lembra ainda de me voltar sempre a ela: a poema.

nina rizzi
yepez2
POR UMA POÉTICA ANTES DO PALEOLÍTICO E DEPOIS DA PROPAGANDA

  1. A noção de “Literatura está completamente caduca. “Literatura” (letras, escritura), é um campo tão reduzido (mas o Cânone Ocidental tem se divertido bastante nessa lamaceira), que alienou a linguagem humana e a criação, nos separando das formas primitivas do Dizer: a oralidade, a pictografia, todas as variações da linguagem sem palavras e o dizer CORPORAL (performance, dança, teatro essencial, ritual), etc.
  2. A noção de “Literatura” deve ser abolida e em seu lugar deve ser retomado o conceito do Dizer. (Deixemos o estudo e a transmissão da Literatura às Universidades e Institutos de Cultura Paraestatal). Adentrar em todas as formas do Dizer, desde a poesia rupestre até à holografia, desde a etnopoética até a cibercultura.
  3. A poesia e todo o dizer provém (e se mantém) dentro da Natureza, não da Cultura. A linguagem tem origem animal e vegetal. A animalidade e a vegetalidade são a força no interior do Dizer. A origem da linguagem não está apenas nas palavras, mas também na carne do veado e nos fungos alucinógenos.
  4. O circuito da fala é um dos muitos ciclos naturais.
  5. O Dizer tem sido verbocêntrico há muito tempo. Provavelmente o terceiro milênio terá que evoluir as formas da linguagem separadas da palavra, anteriores à palavra.
  6. A gravidade da crise da linguagem exige que não só sejamos profundamente contemporâneos das épocas anteriores, mas também (talvez pela primeira vez na história humana), pessoas muito posteriores à nossa época (tão atrasadas espiritualmente, tão retrógradas axiologicamente). Reter a poesia pretérita e fazer já (mais que preconizar), a poética posterior ao nosso mundo.
  7. O que não é visionário é suicida.
  8. A metade do trabalho poético que fazemos deve ser feito no terreno da especulação. A especulação ilimitada até às (re)definições da poesia é mais importante, neste momento, que escrever poemas irreflexivos.
  9. Fazer poesia irracional desde as covas da consciência é pensar com superioridade à filosofia grega clássica.
  10. Cada autor, cada mulher e cada homem ou o que for, devem formular uma poética pessoal. Uma obra que não esteja sustentada em uma ou várias poéticas não é mais que uma emulsão de saliva.
  11. Transtornemo-nos uns aos outros.
  12. Provavelmente ainda deveríamos expurgar as arcas do passado poético humano, pois tudo aponta para o fato de que perdemos o futuro do Dizer faz muitos séculos. Talvez nos convenha conservar por um tempo uma poética do retrocesso, uma retropoética que nos leve de volta ao porvir e dilua a atual crise da linguagem.
  13. A linguagem atual não é seiva que brota, mas ácido que desfigura tudo que envolve.
  14. A crise da linguagem é uma das fases da clarificação da linguagem. A crise da linguagem precede a linguagem. A linguagem ainda não foi criada; até hoje vivemos no projeto da invenção da linguagem, nos ensaios gerais da gênese da linguagem. Todas as obras poéticas até o presente têm sido unicamente testes rumo ao verdadeiro Dizer.
  15. Somente a poesia dos povos faz parte das audições rumo à busca dos primeiros falantes, escreventes e cantantes da linguagem. Todo o resto de nossas falastrices e literaturas são meros pigarros catarrentos, tosses, bocejos de personagens exteriores às audições rumo à busca dos primeiros falantes, escreventes e cantantes da linguagem.
  16. O modelo aconselhável para o terceiro milênio, não é a “literatura” das grandes civilizações (o acervo greco-latino e depois europeu, nem mesmo a literatura hindu ou chinesa), mas o Dizer das pequenas comunidades. Nas aldeias nômades do mundo, nas tradições indígenas sobreviventes estão os elos perdidos do projeto do Dizer.
  17. Na Grande Audição é necessário escutar o Dizer de todos os Povos.
  18. Na origem da humanidade existia “o multiculturalismo”. No futuro, nas sociedades do terceiro milênio não faremos senão recuperar as crises e virtudes de nossos antepassados mais remotos.
  19. Todas as obras do passado devem ser traduzidas. Todos os clássicos devem ser reinterpretados, os nomes esquecidos devem ser restituídos, todos os idiomas devem ser reescritos. A metade da obra poética necessária para impedir a morte da linguagem é de índole crítica.
  20. Se uma geração não refaz todo o passado (retraduz, reinterpreta, reescreve, etc.), os tempos obscuros retornam. Basta uma geração passiva para assombrar todos os séculos de práxis poética.
  21. Basta só uma conversa estúpida, só um texto frouxo para matar a socos o trabalho de nossos ancestrais.
  22. Todas as convenções devem ser destruídas. O grande trabalho negativo (Tzara) é algo a se fazer permanentemente, as novas obras são sempre destruidoras. Quando se acredita que destruir é uma modinha (uma “vanguarda”), renovar se torna um “fenômeno passageiro” e está preparado o terreno para a volta da estagnação e o assassinato.
  23. Quando se escuta que já passou o tempo dos revolucionários, ainda mais necessária se torna a resistência contra a morte da linguagem.
  24. Se ouvimos atentamente a expressão “já passou o tempo da rebeldia, dos rebeldes”, podemos notar que seu som é idêntico ao metálico e assustador som da faca do açougueiro sendo afiada.
  25. O propósito da poética não é o embelezamento verbal ou o aperfeiçoamento dos artifícios literários ou a correta continuação dos estilos, mas a defesa da natureza, a transfiguração da realidade imediata, a sobrevivência material e a evolução espiritual de todo o mundo que nos rodeia.
  26. A força invencível contra as convenções é o Jogo. Quando se percebe no panorama poético que o Dizer deixa de ser lúdico, na verdade já deixou de ser faz muito tempo. Tudo o que não é jogo é “putrefato” (García Lorca).
  27. A pulsação humana é uma das modulações originárias do grande ritmo universal, como o mantra. A pulsação animal é o mantra primordial.
  28. As noções “formalistas” de métrica, rima e tropo devem ser definitivamente substituídas pelas de alento, pulsação e percepção.
  29. Toda vez que falharem as técnicas para criar uma poema ou descontaminar a “tradição” é preciso pedir auxílio à voz. A voz é um tratamento inestimável contra as doenças e crises da linguagem. A voz é o batismo e o exorcismo das palavras novas ou encapetadas.
  30. Todas as obras são fragmentos de uma grande partitura universal, de um processo ritmado do qual todos os seres são tempos e entonações. A boa obra poética é aquela que se insere, captura e pontua uma parte dessa partitura.
  31. O Grande Ritmo Universal está inteiro em cada um de seus fragmentos, um tamborilar sincero tanto como uma poema profunda refletem (ainda que seja por poucos segundos), toda a completa sinfonia do Grande Ritmo Universal.
  32. O ranger da folhagem ou o sincronizado rompimento das peles dos crocodilos contem num segundo toda a linguagem.
  33. O chuá da água, os sons das palavras são parte do Grande Ritmo Universal. Mas também, estranhamente, as machadadas nas aldeias assassinadas e as buzinas paranoicas das cidades.
  34. O Grande Ritmo Universal pode ser escutado e transcrito num baile, numa conversa, etc., tanto quanto numa poema.
  35. As grandes obras são aquelas que capturam um trecho desse Grande Ritmo Universal, que não deixam de tocar.
  36. Uma palavra é um ato enérgico drástico.
  37. Uma poema escrita deve ser um objeto visual para meditar.
  38. Nas mãos estão escondidas e através delas podem ser liberados alguns dos segredos superiores da linguagem.
  39. Para um escritore, as mãos são mais importantes que a “consciência”.
  40. Eu não distingo minhas mãos de meus pensamentos.
  41. Unidade do meio externo (teclado, caneta), as mãos, a voz e o pensamento. Se não há dissolução destas separações/ nomes, não há poesia.
  42. Levando em conta que não há “Ser”, mas Alteridade, o outro, a criação e a revelação de outre é o objetivo central da Linguagem.
  43. Entre todo mundo (Lautréamont), escrever a Sutra da Alteridade.
  44. Amor e Humor-Orgasmo e Sarcasmo são os únicos deuses em cujos altares vale a pena ofertar e se dar em sacrifício.
  45. O espírito da antipoesia não pode se perder. Caso se perca, os tempos obscuros retornam.
  46. A solenidade é um dos sinais do fim da humanidade.
  47. Cabe à poética inventar outra forma de amor que substitua este amor “romântico” que infestou nosso mundo e nossos corpos. A Poética é Erótica.
  48. A arte “intermídia” indica imediatamente sua analogia com as formas “artísticas” primitivas. A “nova” arte que se faz hoje nas telas dos computadores (e telefones, tablets), também foram feitas nas paredes das cavernas. Não se pode negar nenhum meio, nem existe intromissão da tecnologia nas artes, porque as artes sempre requereram novos meios. Sem sombra de dúvidas as “novas” técnicas nos aproximam cada vez mais dos meios e técnicas da poesia.
  49. Em algum tempo a escritura também foi um meio estranho para o dizer profundo.
  50. Está tudo bem acreditar que não há novo sob o sol… mas só se acreditamos que o sol nos ilumina de manhã é outro ao amanhecer.
  51. A fala é o amanhecer da poesia. Não deixe que a noite caia sem que tenha procurado alguma forma de que a poesia se faça escutar na escuridão. Vamos até a escuridão.
  52. Uma poesia que desuse (cancele) esse Eu lírico que todos praticamos.
  53. Para fazer poesia, não se precisa de um “Eu”, mas de um “Outre”.
  54. O projeto total da linguagem envolve a reconstrução da identidade individual. Implica a evolução para outra forma de identidade superior à do Eu.
  55. O Eu é uma sílaba suja que implica a negação de toda linguagem.
  56. O Dizer não pertence nem é protagonizado por uma única “Grande Tradição”. Existe uma pluralidade inumerável de tradições. Entre elas, às vezes existem intersecções, unificações ou desvanecimentos, mas quase todas, na realidade, são “linhas” paralelas que correm sem jamais se tocar.
  57. É preciso se colocar na Contra-Tradição, na ConTradição, na Contradicção. Na Contradicção da Contra-Tradição.
  58. Converter todas as tradições, as “linhas” das muitas tradições do Dizer, numa teia ou num tecido é o objetivo de quem faz poesia. Quem faz poesia deve se servir da trama de toda a história poética, do fio que atravessa todos os fios.
  59. A poesia de toda época tem inimigos. Esses inimigos quase sempre são poetas do presente ou do passado imediato.
  60. A tradição é idêntica à sua transformação; não existe rupturas na tradição, não existe continuidade da tradição, a transformação é permanente/ impermanente. Os únicos atributos seguros da tradição são que é irreal e desconhecida. A única tradição existente é a incessante transfiguração das tradições.
  61. O terceiro milênio deve se inserir totalmente na “dialética alucinante” da “tradição do deconhecido” (Lezama Lima). A única tradição “fixa” e “universal” é a busca, urdidura e renovação das tradições.
  62. É preciso voltar à poesia narrativa: histórica e de pequena-épica, Contar é tão importante quanto cantar. A história é propriedade natural da poesia.
  63. Se a lírica não é fisiológica não é autêntica, mas sucata sentimental.
  64. As funções elementais do dizer são sonhar e curar. Quando as palavras deixam de curar, quando a poesia perde sua função medicinal e não cura mais quem a faz e quem a recebe, já não é poesia, mas falsificação.
  65. A poesia como técnica para recuperar o sagrado (Rothenberg); a poética é o resgate, formulação e renovação das técnicas para criar, convocar ou manipular o sagrado.
  66. O sagrado é a linguagem pura, o Dizer puro. A poesia como técnica do sagrado é, finalmente, a coleção de técnicas para manejar a própria poesia. A poética é a técnica do sagrado.
  67. A poesia inventa a linguagem; a linguagem sustenta a poesia.
  68. O dizer é visionário. Nem sequer vale a pena falar de poesia que não é visionária. Aquele indivíduo que não crê ao fazer poesia se converte num vidente, está nos fazendo perder o nosso tempo e o dele.
  69. A poesia é um meio para entrar no corpo e na consciência, na dissolução de sua dicotomia.
  70. A poesia é o fundamento e o fim de todas as dualidades.
  71. As pessoas que encontram defeitos na linguagem para dizer as realidades ulteriores, vivem nesta falácia: assumir que a linguagem só transmite e faz bem seu trabalho se é lógica, nítida; esquecendo que a contradição e o paradoxo não são sinais de insuficiência da linguagem, mas de sua lógica.
  72. A impotência da linguagem é um fenômeno social, não um fenômeno próprio da linguagem (que é pura natureza).
  73. Quando a linguagem expressa contradições e paradoxos fala nos códigos primitivos do Dizer, quem não os entende, esqueceu esses códigos.
  74. Safo, “flor e canto nahuatl, cerimoniais tribais, etc., as origens da poesia também estão na dança. Poesia que não incite movimento corporal é fajuta.
  75. A dança, a poesia e a memória, tudo que nos foi ensinado pelas criaturas não-humanas. Os primeiros xamãs da linguagens são os animais selvagens.
  76. A poesia é a prova externa da existência de um mundo interior.
  77. A linguagem é o batente na porta do real.
  78. A porta do real se abre e nos mostra absolutamente a imaginação.
  79. O grande ritmo universal, o grande ritmo universal, o grande ritmo universal.
  80. A poesia emociona não porque “escutamos bem”, mas porque temos pele que se eriça.
  81. A busca de uma poética para todas as poéticas depende em grande parte, do efetivo retorno ao pensar metafísico.
  82. A poesia é a posse de uma parte de todos os poderes que possuíam os seres primordiais.
  83. Leio uns epigramas da Antologia Grega. Creio compreender a simplicidade essencial da poesia. Um hora depois leio poemas de Artaud e creio compreender a complexidade essencial da poesia. Essas duas conclusões me parecem tão impecáveis como abertamente opostas, o que me faz compreender absolutamente que a poesia só nos proporciona compreensões que são contradições.
  84. O dizer é Dizer somente em seu contexto cerimonial. Tudo o mais se chama literatura.
  85. A poesia “moderna” foi uma poesia sobre a cidade. A irrupção de uma poesia não da cidade, mas na cidade, não sobre a cidade, mas SOBRE a cidade (= Poética Contextual). Em suas origens (Grécia, China, etc.), a poesia ocupava os espaços públicos das cidades (epigramas = inscrições). Tão importante como o regresso à oralidade, é a saída da poesia da página para os lixões das ruas, os muros, as pixações. Nas pixações de Tijuana têm mais poesia viva que nos livros de Harold Bloom.
  86. Não existem formas ou espaços poéticos superiores a outros. No entanto, em certas épocas, algumas são mais necessárias que outras. Hoje, por exemplo, vivemos num tempo em que será indispensável voltar aos espaços além da página. Mas no fundo, todas as épocas precisam de todas as formas poéticas.
  87. Em qualquer momento do projeto do Dizer em que se deixe de praticar uma única de todas as infinitas formas do Dizer, significa que não está se praticando o Dizer.
  88. Nenhuma poesia que se nomeie. Poesia que aja.
  89. A poesia é parte fundamental de wu-wei (a não-ação, o ato espontâneo, o ato que é natural: resistir contra o assassinato é natural, não se deve confundir a não-ação com a inatividade).
  90. Se não me faço entender, se não sou coerente, a poesia não é, pois a poesia é enxame de contradições. A contradição é a prova do bom resultado da exploração mental. Tudo o que não é contraditório é fictício e nocivo.
  91. Na realidade, toda a realidade é imaginária. Todo o imaginário é real. O ser humano se caracteriza por seu uso especializado de imaginação. A poética depende do cultivo e ampliamento da imaginação.
  92. A meta é também conseguir nos comunicar com os animais e conhecer suas imaginações.
  93. A poema deve ser manejada como um organismo, não como uma máquina.
  94. A escrita da mais mundana poemínima requer investigações tresloucadas e exaustivas sobre todos os temas imagináveis.
  95. O inimaginável é a meta. Os lugares comuns que apodrecem nosso pensamento vêm da nossa sabedoria. É preferível aniquilar nossa sabedoria do que prejudicar, além de uma geração, o mesmo conhecimento de mundo.
  96. Dizer, pensar e agir devem ser o mesmo.
  97. A poesia precede a linguagem. A linguagem precede as palavras.
  98. As palavras são, apenas, a manifestação sensível (visível-audível) da linguagem.
  99. Faço minhas algumas crenças de outras pessoas, porque nem sequer considero como minhas as revelações que carrego.
  100. No interior da mente individual está todo mundo.
  101. Conhecer o mundo através da consciência, legal; conhecer o mundo através do corpo, melhor.
  102. A “literatura” só se redime em seu contexto e uso “extraliterário”. Poetas precisam ser, por força, extraliterários.
  103. O experimental se opõe ao preestabelecido. A poesia não deve deixar de experimental.
  104. O melhor literato é o literato morto. O melhor literato morto, é o que foi prolífico e profundo.
  105. A poesia é o registro do devir da Presença.
  106. A poesia humana é a prova irrefutável de que a Presença também habita este planeta.
  107. Fazer poesia voluntária e explicitamente é unicamente uma das muitas variadas formas de fazer poesia.
  108. Escrever poesia voluntariamente, saudável; falar poesia involuntariamente nas práticas, escrituras e cantos de outras pessoas: melhor.
  109. É preciso registrar toda poesia involuntária que se faz no mundo.
  110. Tudo é um. Um, muitas, Muitas, outres.
  111. A linguagem é onipotente. Não existe nada que não possa ser expressado por alguma das formas de linguagem. Não existe nada que não possa ser dito pela linguagem. A tradição religiosa e filosófica (do budismo tradicional ao positivismo lógico), que nega a capacidade da linguagem para expressar as ‘realidades supremas’ são doutrinas continentes e decadentes.
  112. Não existe nada mais danoso que a mística (= doutrina da impossibilidade da linguagem).
  113. A sobrevivência da poesia no terceiro milênio depende diretamente de sua efetiva hibridação com todas as artes, atividades e técnicas.
  114. É preciso procurar fazer menos coisas na poesia e fazer mais coisas com a poesia.
  115. Não é preciso passar a vida aperfeiçoando a poesia, mas usando a poesia para a continuação da imperfeita existência.
  116. Cada vez que alguém escreve deve intensificar o tema tratado. O superficial não é linguagem, é interferência.
  117. Xs Poetas protagonistas de uma comunidade devem ser as pessoas mais jovens, quando isso não acontece, os tempos sombrios retornam.
  118. Seria bom recrutar ladrões de túmulos e escavadores profissionais, pois quase todas as palavras estão mortas.
  119. Fazer respiração boca-a-boca com as palavras, ou seja, dizer a poesia em voz alta.
  120. Poetas, obviamente, devem ser seres extraordinários pelo que pensam e fazem. Só se é poeta extraordinário se o que diz provoca que outros seres pensem, façam e digam coisas extraordinárias.
  121. Uma poema deve conter apenas imagens que afetem a mente.
  122. As virtudes de uma grande poema sempre são outras, que só aquelas derivadas da novidade de suas imagens.
  123. A poesia deve deixar de ser sublimação para se tornar vivência.
  124. Quase todas as metáforas criadas e as imagens “poéticas” são meras combinações hábeis ou inusuais de vocábulos. Tudo isso é lixo se não está ancorado numa alteração análoga da mente de quem escreve e de quem lê.
  125. Numa poética ideal, o “desdobramento” ocuparia o lugar central.
  126. Tudo o que foi dito e é dito, em muitos lugares e épocas, eu reformulo, pois cheguei à convicção que novamente minha sociedade incita que esses princípios sejam abandonados ou marginalizados, incluindo aí “poetas”. Por isso repito estas definições sobre o que é a poesia.
  127. A absoluta sinceridade dessas anotações não provém de leituras ou do domínio que possa ter dessas leituras, mas do feito de que para mim também são revelações do insondável.
  128. Não existe o indizível.
  129. Poetas têm a obrigação de dizer (mostrar) tudo aquilo que os místicos e filósofos disseram que não pode ser extraído do silêncio.
  130. O silencio é uma das sutilezas da linguagem.
  131. A linguagem está em todas as partes.
  132. Cada vez eu escuto a palavra “cultura”, dou um grito que prova que pertenço à classe dos animais.
  133. A natureza é um livro.
  134. A união do oculto e do visível se produz na voz.
  135. Só valem a pena as transformações radicais, as renovações pessoais; a morte da poesia também se manifesta nos retoques ou no blefe publicitário das falsas vanguardas.
  136. Embora o conceito de vanguarda não seja muito feliz, o fenômeno da revolução no Dizer deve ser incansável.
  137. Entre a rigidez e a desordem, o caos é a melhor alternativa.
  138. Poeta que não é crítico é hipócrita ou ressentido.
  139. A vanguarda: “Make It New” [Faça (de) Novo], não “Make It News” [Faça Notícias]
  140. O trabalho para a invenção e perseverança do Dizer também é um negócio socioeconômico. A Política é o braço mundano da Poética.
  141. A Poética sempre deve ser mundana.
  142. A defesa do Dizer implica um combate que se identifica, historicamente, com a luta internacional do anarquismo em todas suas correntes (a filosofia do individuo como Totalidade), desde Yang Chu até Bakunin.
  143. A conversão de todos os indivíduos em poetas.
  144. A poesia é um nome oco se não está ancorada em atos amorosos ou atos políticos.
  145. Poetas alcançam seu objetivo não quando lhes sucedem pessoas que leem o que escreveu, mas pessoas que agem.
  146. A poética precede a religião. Se religião é re-vinculação (religare, Feurbach), a poética é a condição do dito retorno feliz à comunhão original. A linguagem é o único caminho para o divino. O divino é a totalidade da Linguagem. O Dizer completo.
  147. Uma vez que se acredita na “insuficiência” da linguagem, se cai na crença de uma divindade cuja comunicação transcende à linguagem. Esta é uma das armadilhas dos inimigos do Dizer.
  148. Enquanto alguns de seus oficiantes (desde a aurora africana ou latino-americana, até as nações ocupadas pelas potências militares) sofrem em seus corpos ou espíritos de perseguição ou extermínio, haverá interferências na plural claridade da linguagem universal.
  149. O processo contrário ao aprofundamento do Dizer é denominado pela mídia e pela política de “Globalização” (Monocultura mundial, mono-aculturação).
  150. Os Lemas são verdadeiros apenas se são utopias que levam à prática.
  151. As utopias são mais úteis que receitas.
  152. Não existem entidades, mas processos. O Dizer é o registro das mutações.
  153. Antes de ter acepções, as palavras têm vibrações.
  154. Produzir um novo estado corporal (do qual a mente faz parte) é a finalidade da arte vibratória da poesia.
  155. Transformar a arte sim, mas apenas porque é uma etapa necessária para transformar depois, todo o corpo.
  156. Poeta é um indivíduo que sabe produzir e manejar as vibrações que mostram o fluxo universal, o caráter não-dividido do universo e a interconexão de todos os seres.
  157. É preciso destruir a macrotecnologia e se livrar da ciência. Elas duas são responsáveis pelo assassinato da terra e pela ilusão da divisão entre sujeito e objeto. É responsabilidade da poesia destruir essa ilusão e destruir a macrotecnologia e a ciência (que atentam contra a sacralidade de todos os seres).
  158. A consciência terrestre sobre o Grande Processo Cósmico logo será interrompida pelo fungo nuclear. O fungo nuclear deve ser substituído pelo fungo alucinógeno.
  159. Este não é um manifesto pessoal, mas uma recompilação de projetos que acreditado ter detectado nas últimas fases do projeto do Dizer. Tudo o que disse, não fui eu quem disse, mas é dito; o eu é apenas uma voz; na voz o eu se transfigura no outre. Não fui eu quem disse mas outre.
  160. Uma palavra não é uma parte da linguagem; mas uma demonstração da linguagem.
  161. Os vocábulos são apenas a aparição sensível (evidente) das palavras.
  162. A maior parte da poesia está oculta e fora dos vocábulos.
  163. A existência humana deve ser uma tarefa consciente na busca da linguagem.
  164. A força feminina é o princípio criador do universo; sem um retorno e recriação às diversas filosofias do princípio feminino, não há futuro para a poesia. Nem para o mundo. O futuro é uterino.
  165. Existe uma maneira de falar que transforma a mente de quem fala e de quem escuta. Existe uma maneira de falar que transforma os interlocutores em deuses, corujas, búfalos, sepentes, galhos. Existe uma maneira de escrever… existe uma maneira de ler…
  166. Todo o sobrenatural tem sua origem no corpo.
  167. O estilo é para culturas cuja linguagem não tem poder de antemão e para simulá-lo se auxiliam de efeitos e persuasões sintáticas.
  168. A novidade é a pré-história da consciência.
  169. A poesia é inseparável de todas as ações, desde uma cagada até uma celebração.
  170. O discurso sobre a poesia se refere a elementos circundantes à poesia, certo; mas também é certo que a poesia se refere ao que está “fora” dela. A poética não se “ocupa” da “poesia”. Muito menos a poesia.
  171. Renunciar à poesia ou superentendê-la (lugar comum da nossa tradição), é confundir o inexplicável com o impensável.
  172. Do fato de que todas as inquietudes da existência foram abordadas pela poesia, se depreende a conjectura de que a poesia é a única atividade total, a única necessária, a única atividade que temos que nos dedicar com toda paixão e inteligência de que somos capazes. A poesia é a única atividade suficiente.
  173. Uma poema deve ser o despertar de uma zona desconhecida do cérebro.
  174. Poetizar não é a arte de juntar palavras, mas uma técnica para interconectar os neurônios através dos sons.
  175. O que fazem poetas no mundo?: fazem o mundo.
    __________

    O arquivo em espanhol que tenho é digitalizado a partir de uma cópia em imagem, portanto não espelhei com a tradução como de costume, já que o original é relativamente longo; o texto pode ser baixado gratuitamente aqui: https://www.academia.edu/17755701/_Por_una_poética_antes_del_paleol%C3%ADtico_y_después_de_la_propaganda_2000_)

    ***

“(…) que a vida e o amor perdurassem em Grenfell”, 7 poemas de Roger Robinson

Há quase um ano atrás, eu & Prisca Agustoni publicamos 3 poemas de Roger Robinson aqui mesmo na escamandro. Os textos fazem parte de seu aclamado, e multipremiado, A Portable Paradise. Como havia começado uma série de poemas com poetas antilhanos, a mim me pareceu interessante retomar RR por conta de suas relações com Trinidad, terra de seus pais e onde passou parte da vida. Sendo ele também um performador, e atravessar a cena poética praticando a dub poetry, tais ligações com a canto-palavra o colocam pareado ao gosto do caruru bravo, ou, melhor dito, também à poesia afro-caribenha.
Os poemas que trago, agora, também partiram da partilha interessada entre mim & Prisca. Fomos, à época, tomados não só do interesse, mas de uma súbita paixão pelos modos que Robinson empregava, em seus procedimentos, coisas que nos são caras como poetas, eu & ela. A frequentação londrina de uma multiplicidade de povos, de expressões, de mundos, acentuado pelas questões da migração, bem como também pensar a cena poética de Londres como tarefa de deslocamento das recorrências teóricas, e de certa poesia em circulação, pelas vias estadunidenses. Bastante menos autocentrado em sua experiência pessoal, voga que contagia muito da poesia feita em variados espaços, e o Brasil não escapa dessa impregnação, o projeto de RR nos atravessa como uma lufada não apenas de alguma novidade, mas por nos capacitar a ver outras modalidades de perspectiva da presença do outro.
Explico melhor: a série de poemas que vamos encontrar aqui, agora, narra o desastre na Grenfell Tower em 2017. Um incêndio ocorrido num desses prédios populares, de muitos andares, inúmeros apartamentos, sendo o retrato furioso da gentrificação. O poema narrativo acerca dos corpos desaparecidos na carcaça do incêndio e na fuligem, um pai que amarra a si e ao filho em inúmeros lençóis para escapar entre os andares, a esposa perdida e vista como fantasma na memória, entre outros movimentos, são elementos dos poemas de A Portable Paradise que nos tornam capazes de, em alguma medida, visitar a tragédia de outros numa perspectiva que não deveria nos parecer, assim, estrangeirizante, ensinando-nos um bocado acerca dos olhares que não deveriam ser desviados quando, até, em confronto com realidades que não são as nossas — muito embora tenhamos na memória do país alguns incêndios monumentais, como o Joelma, o mercadão de Madureira, a boate Kiss e, mais recentemente, o Museu Nacional, seu parecido mais próximo no tempo.
Contudo, há aspectos que podem nos parecer interessantes em alguns termos. Na composição dos poemas, não de modo gratuito, comparecem figuras & termos que tem orientação da presença islâmica, também indiana, em Londres, seja na nomeação de certas vestimentas, seja na presença da comida, entre outras perfumarias. Daí que, nos poemas que seguirão, haja um haibun, modalidade de fonte & forma oriental, cuja a composição se dá como uma narrativa de viagem, fechada por um haiku, não gera tanto estranhamento. Muito embora a forma tenha acabado sendo apropriada de maneira mais regular no ocidente, nublando um tanto o módulo original, considerando que com Robinson a ideia de viagem nem aparece. O que interessaria discutir, então, seria justamente a presença multifocal das variadas vivências, e possíveis vozes, que estiveram no centro do incêndio — experiências da perda que, obviamente, não são capazes de serem revividas/narradas pelos mortos, mas por quem pode contar de seus mortos; também as vivências de quem assistiu como espectador interessado, e eventualmente esteve engajado em alguma solidariedade na busca pelos desaparecidos e/ou no auxílio dos que sobraram.
Um passinho mais lá atrás, ainda e perto do fim, estivemos eu & Prisca às voltas na tentativa de publicação de Roger Robinson no Brasil. Houve contato com a editora da Peepal Tree Press que, ano passado, respondeu que os direitos autorais do poeta estavam vendidos para a tradução em português [no Brasil e em Portugal]. Já vai um ano desse contato e, até o momento, nada. Cheguei, chegamos até fazer contato, aqui e ali, com personagens do mundo editorial brasileiro, e nada — uma parte considerável deles nem sabia da existência do poeta, ao menos até aquela postagem. Continua um limbo acerca da sua publicação. A escamandro, embora há dez anos fazendo um serviço enorme no tocante à divulgação de poetas por meio da tradução, e consequentemente sendo plataforma de divulgação do nome e trabalho de inúmeros tradutores e incontáveis tradutoras no país, não tem por finalidade e fundo a autopromoção financista em sua prática editorial. São pequenas ações amorosas em nos colocar em contato com outros e outras de nós mesmos que, não fosse a tradução, nunca acessaríamos. Também por isso, resolvi voltar, mais uma vez, a Roger Robinson e, apesar de não haver aqui, agora e hoje, os olhos da Prisca, mesmo assim essa tradução ainda é com ela, ainda é pra ela.

The Missing
For the victims of the Grenfell Tower fire disaster

As if their bodies became lighter,
ten of those seated
in front pews began to float,
and then to lie down as if on
a bed. Then pass down the aisle,
as if on a conveyor belt of pure air,
slow as a funeral cortege,
past the congregants, some sinking
to their knees in prayer.
One Woman, rocking back and forth.
Muttered, What about me Lord,
why not me?

The Risen stream slowly, so slowly
out the gothic doors
and up the sky, finches darting
deftly between them.

Ten streets away,
a husband tries to hold onto the feet
of his floating wife. At time her force
lifts him slightly off the ground,
his grip slipping. He falls
to his knees with just her high-
heeled shoe in his hand.
He shields and squints his eyes
as she is backlit by the sun.

A hundred people start floating
from the windows of a tower block;
from far enough away they could be
black smoke from spreading flames.
A father with his child on top his shoulders,
men in sandcoloured galiibeas; a woman
with an Elvis quiff and vintage glasses,
a deep indigo hijab flapping in the wind;
an artist in a wax-cloth headwrap;
all airborne, these superheroes,
this airborne pageantry of faith,
this flock of believers.

Amongst the cirrus clouds, floating like hair,
they begin to look like a separate city.
Someone looking on could mistake them
for new arrivants to earth.
They are the city of the missing.
We, now, the city of the stayed.

Os desaparecidos
Pelas vítimas do incêndio da Torre Grenfell

Como se seus corpos ficassem mais leves,
dez dos que estavam sentados
nos bancos da frente começaram a flutuar,
e depois deitaram como se
numa cama. Depois passaram pelo corredor,
como se estivessem numa esteira de ar puro,
vagarosos como um cortejo fúnebre,
passando pelos congregantes, alguns caem
de joelhos em oração.
Uma Mulher, balançando pra trás e pra frente.
Murmurou, E quanto a mim, Senhor,
por que não eu?

Os Insurgidos fluem lentamente, tão lentamente
pelas portas góticas
e, céu acima, os tentilhões se arremessam
com perícia entre eles.

A dez ruas de distância,
um marido tenta segurar pelos pés
sua esposa flutuante. Na hora a força dela
o levanta levemente do chão,
e ele a deixa escapar. Ele cai
de joelhos segurando o salto
alto dos sapatos dela na mão.
A vista envesga e ele tapa os olhos
enquanto ela resplende sob o sol.

Um sem número de pessoas começa a brotar
das janelas de um dos blocos da torre;
lá de longe elas poderiam ser
a fumaça preta entre as chamas se espalhando.
Um pai com sua cria por cima dos ombros,
homens com galiibeas da cor da areia; uma mulher
com um topete tipo Elvis e óculos vintage,
um hijab índigo profundo balançando ao vento;
um artista com turbante de fios encerados;
todos voando pelo ar, esses super-heróis,
essa ostentação da fé voando pelo ar,
esse rebanho de crentes.

Junto aos cirros, como cabelos flutuando,
começam a parecer-se uma cidade cindida.
Alguém que os visse poderia confundi-los
com os recém-chegados à terra.
Eles são a cidade dos desaparecidos.
Nós, agora, a cidade dos restos.

§

Haibun for the lookers

The people on the ground look up at the burning building,
their faces illuminated by the glow of fire-ash floating gently down.
Pieces of burning building fall like giant sparks from a welder’s torch,
then a flaming fire-snake slides its way from the fourth floor
straight to the top. In the lights of mobile phones,
shadows wave makeshift flags, until they no longer wave them
and their silhouette fades to the roaring fiery light.

The spectacle’s now more like a painting of a building on fire than an
actual fire: black velvet night rippling orange-yellow and punch-red
acrylic flames.

The lookers are imagining their settees in flames, their orange floral
wallpaper slowly bubbling up and bursting like blisters before giving
in to a blackned charred heat. Then the swan dive of a few bodies.
Some sob for their own, some sob for others, some just sob.
The soot in the air burns in the noses of onlookers. Smoke makes
some wheeze in the branched bronchiole of their lungs, from when
they were in the building, then no totally on fire. But from corridors
of smoke, when they edged blindly towards the stairwell, hoping not
to walk into fire.

The sky’s darker now as background to the flame,
the smoke rising like an offering of burning sage.
The building has become a charred black tomb,
and the sky looks down on us saying what’s lost is lost,
gather what is left and build new lives.

As for the onlookers, whose numbers have swelled, this is what they’ll
remember: the floating ash and flaming debris, bodies in flight and
bodies in shadow, the smoke leaving discreetly into the night sky,
clouds at night and the snake, the giant snake of flaming fire.

The heat at my back,
I throw my baby out the window.
Catch him Lord!

Haibun para os espectadores

As pessoas no chão olham pro edifício em chamas,
seus rostos lumiados por clarões da brasa que desce mansamente.
Pedaços do edifício em chamas caem como grandes chispas de um maçarico,
então flameja uma serpente fogaréu que desliza do quarto andar
direto pro topo. À luz dos telefones celulares,
sombras flamulam bandeiras improvisadas, até que não mais as flamulam
e suas silhuetas desvanecem sob a ferocidade da luz ardente.

O show neste momento está mais pra um quadro de um edifício incendiando do que
um incêndio real: noite de negro veludo ondulando labaredas acrílicas ocre-açafrão
e vermelho-ponche.

Os espectadores imaginam seus sofás em chamas, os florais alaranjados
do seu papel de parede borbulhando devagar e estourando feito bolhas antes de dar
em um pretume incinerado. E então o mergulho de cisne de alguns corpos.
Uns choram por si mesmos, uns choram por outros, uns poucos apenas choram.
A fuligem na brisa arde no nariz dos espectadores. A fumaça cria
um chiado no bronquíolo ramificado dos pulmões, de quando
eles estavam no edifício, então não totalmente incinerado. Mas pelos corredores
de fumaça, quando seguiam às cegas pelas escadas, torciam pra não
cair dentro do fogo.

O céu já está um breu feito pano de fundo pras labaredas,
a fumaça subindo como uma oferta de sálvia abrasada.
O edifício tornou-se uma tumba de pretume incinerado,
e o céu olha pra nós dizendo o que está perdido, está perdido,
juntem o que sobrar e edifiquem novas vidas.

Quanto aos espectadores, cujos números subiram, é disto que eles
lembrarão: cinzas pairando e destroços flamejantes, corpos em fuga e
corpos em sombras, a discreta fumaça escapando pro céu noturno,
nuvens na noite e a serpente, a gigantesca serpente de flamejante fogaréu.

O calor nas minhas costas,
Jogo meu bebê pela janela.
Pega ele, ó Senhor!

§

Fourteen to One

As the building burned
I tied fourteen pastel
bedsheets into sturdy
knots and climbed out
the window. The fifteenth
sheet was to tie my daughter
to my back as we went down.

Quatorze pra Um

Enquanto o edifício queimava
eu amarrei quatorze pálidos
lençóis em fortes nós
e saímos pela janela.
Com o décimo quinto
lençol amarrei minha filha
nas minhas costas enquanto descíamos.

§

BLAME

The building burned,
so the council blamed the contractors
who shredded all the papers;
so the contractors blamed
health and safety for passing
all the required texts;
so the prime minister
came, saw and left,
and talked to no one
and shook no one’s hand.
Meantime its tenants are left
to grieve in sterile hotels,
with nothing to bury but ash,
and survivors walk like zombies
trying not to look up
at the charred gravestone.
People still cry.
Nobody took the blame.

CULPA

O edifício queimou,
daí o conselho culpou os empreiteiros
que picotaram todos os documentos;
daí os empreiteiros culparam
a vigilância sanitária e os bombeiros
por liberarem os alvarás exigidos;
daí a primeira-ministra
veio, viu e vazou,
e não conversou com ninguém
e a mão de ninguém apertou.
Enquanto isso, os moradores ficaram
enlutados em hotéis estéreis,
tendo só cinzas pra enterrar,
sobreviventes vagam como zumbis
sem levantar a vista
pra aquela lápide carbonizada.
Ainda tem gente chorando.
Ninguém assumiu a culpa.

Nota breve: Natan Barreto, (Salvador, n. 1966) é poeta, tradutor e intérprete formado pelo Institute of Linguists, e professor primário pela London South Bank University, nos chama atenção para um dado importante demais que não poderia passar batido. Na versão primeira do poema que foi ao ar, traduziu-se prime minister por primeiro-ministro, quando, na verdade, Theresa May é quem estava empossada no cargo quando do incêndio na Grenfell Tower, daí, agora retificado para primeira-ministra. Obrigados nós pelo alerta, atento, na leitura.

§

DOPPELGANGER

A week after the building burned
I saw my dead wife, she smiled at me.

Right now its hard for me
to tell the living from the dead.

My wedding ring is sinking
into my swollen finger.

There is pressure building there
but I do not want to the soap to slide it off.

Even though she is dead
I am still married to her.

I see children playing
who look like my wife when she was young.

I knew my wife when she was young.
I want to talk to her, this woman

who looked liked my wife,
I wanted to hold her

but what I really wanted was my wife,
who’s dead.

As I trace my thumb
over the silver ring.

DOPPELGANGER

Uma semana após pegar fogo o edifício
vi a minha esposa morta, ela sorriu pra mim.

Certo que por agora pra mim é difícil
dizer os vivos distintos dos mortos.

Meu anel de casamento está afundando
em meu dedo inchado.

Há sim pressão edificada ali
mas eu não quero que o sabão deslize-o pra fora.

Apesar de ela estar morta
eu ainda sou casado com ela.

Eu vejo crianças brincando
se parecem com minha esposa quando jovem.

Conheci minha esposa quando ela era jovem.
Eu queria falar com ela, essa mulher

que cerrou e parecia minha esposa,
eu queria abraçá-la

mas o que eu queria mesmo era minha esposa,
que está morta.

Enquanto isso eu projeto o meu polegar
sobre o anel de prata.

§

BOYS LIGHT FIREWORKS ON THE GROUND FLOOR OF GARDNER HOUSE ESTATE

They light the fireworks
like candles on a birthday
cake they’ve never had.

MENINOS ACENDEM FOGUETES NO TÉRREO DA GARDNER HOUSE ESTATE

Eles acendem os foguetes
como se fossem velas num bolo
do aniversário que nunca tiveram.

§

THE PORTRAIT MUSEUM

The morning after, the streets filled with portraits
of missing people — brothers with bushy beards,

olive-skinned, wrinkle-faced grandmothers,
pig-tailed daughters with red ribbons, smiling-

stuck on tree trunks, walls and fence boards,
the neon red MISSING floating above their heads.

In a minute of pure clairvoyance we understand
that many of these pictures are the faces of the dead,

some looking like they were saying the word goodbye
as the picture was shot at a Family gathering.

Without sleep, some struggle to keep their posters
straight, stop the sellotape sticking to itself.

These were the flimsy paper faces of hope for the living,
those not taped well are blown away on the breeze.

Many with posters refuse this first day of mourning,
as days went on, the wind blew most of them away.

O MUSEU DE FOTOS

Na manhã seguinte, as ruas cheias de fotos
de desaparecidos — irmãos de barba farta,

pele morena, avós com rostos enrugados,
filhas com fitas rosas no rabo de cavalo,

sorriso emburradíssimo, muros e cercas,
sobre as cabeças pisca em neon DESAPARECIDOS.

Num lampejo de pura clarividência sacamos:
muitas dessas fotografias são rostos dos mortos,

algumas parecem dizer a palavra adeus,
como fotografia pra álbum de família.

Sem dormir, lutam pra manter de pé os cartazes,
impedem o durex de grudar em si mesmo.

Esses eram os rostos em papel manteiga, esperando pelos vivos,
aqueles que não foram bem grudados são levados pela brisa.

Muitos que levam cartazes recusam esse primeiro dia de luto,
com o passar dos dias, o vento levou quase todos pra longe.

Concretas como frutos nítidas como pássaros (II): Regina Guimarães, Margarida Vale de Gato, Maria Brás Ferreira

“Concretos como frutos nítidos como pássaros” é uma série dedicada à divulgação da poesia portuguesa contemporânea no Brasil.

Leia os posts anteriores da série.

Parte I: “Explicação, Miguel-Manso” [fevereiro 2021].

REGINA GUIMARÃES (PORTO, 1957)

Correio do Porto: — Como se situa no panorama da poesia portuguesa contemporânea?
(A cena literária, mas também, muitas vezes, as cenas literárias…)

Regina Guimarães: — Não me situo.

Correio do Porto, 2020

Em “Maria Lúcia Alvim, esse golpe eterno” (2020), prefácio que escrevi para a edição portuguesa dos poemas da poeta brasileira Maria Lúcia Alvim [1], incluí o nome de Regina Guimarães (Porto, 1957) na lista das(os) autoras(es) portuguesas(es) que, não lhes tivesse falhado redondamente a crítica literária das últimas décadas, precisamos de ler e conhecer [2].

Regina escapa à definição. Multifacetada, é mais do que não é: tradutora, dramaturga, letrista [3], performer, cineasta, videógrafa, ativista, organizadora de eventos [4], escritora de literatura infantil, guionista, professora, editora, produtora [5], crítica de cinema [6] ou poeta. Entre os ofícios, que são as várias partes de um todo, este último foi um dos que mais passaram indiferentes às atenções da vida cultural portuguesa.



Regina Guimarães em Três Tristes Tigres, “O mundo a meus pés”, 1993. Detalhe.
Vídeo de José F. Pinheiro.

De facto, quando Regina regressa às livrarias portuguesas em agosto de 2020, com Antes de Mais e Depois de Tudo — antologia de poemas organizada por Rui Manuel Amaral —, fá-lo depois de um percurso extenso e regular de publicações, marcado pela edição do seu primeiro livro, A Repetição (1978), e pelo lançamento de outros volumes, como Tutta (1994) ou Caderno de Regresso (2010), que reúne 433 poemas escritos ao longo de um ano. A voracidade com que Regina produz, “[combatendo] com a língua/ para não sufocar disto e disso” [7], antecipa a pergunta: quanto do que Regina escreve não está ainda inédito?




Tutta (1994) e Caderno de Regresso (2010, capa de Alberto Péssimo).

A coragem e a postura diligentemente política com que Regina sempre ocupou a vida, avessa ao espetáculo da poesia ou “[ao] banqueiro que há em todo o poeta” [8], o hibridismo do seu percurso [9], o cunho oracular, bíblico, semanticamente indisciplinado, fragmentário, surrealista ou até indecifrável dos seus primeiros livros que, sem perder-se, se aclara com o tempo, bem como a dimensão oral, performática e visual do seu trabalho, contrária às idiossincrasias e exigências da palavra escrita, podem explicar por que razão volumes como os mencionados Tutta e Caderno de Regresso não receberam a atenção que mereciam ter recebido nos anos 90 e 2000. Ao mesmo tempo, a autora, que explorou intensamente as múltiplas possibilidades da palavra a partir das memórias da infância, das imagens, do corpo e das minúcias da fala, não tem correspondentes no passado (não sabemos efetivamente de onde vem, em que tradição incluí-la; e porquê? E para quê?) nem no presente. Regina é uma voz sem-par.       

Fui expulsa da casa do mundo
por um irmão desconhecido.
Vendou-me os olhos e levou-me
à saída de todas as saídas.
Nunca mais achei o caminho
do meu claro quarto crescente
onde se nascia todo o dia.
Só me lembro de nascer, nascer, nascer
como uma labareda a pão e água.

________________________________________[10]

A variedade temática dos poemas de Regina forma-se anacronicamente, como um cosmos de verdades paralelas, e reinventa-se de modo contínuo e contíguo. Há nesta cabeça ginasta, não-binária e atemporal, a inteligência de quem atravessa os tempos, entre antepassados e conhecidos, animais, criaturas fantásticas e objetos inanimados, “[desenhando] atalhos entre realidades” [11] e engolindo, desde dentro, o discurso vigente: “Precisas mais da conversa no café/ou dos tweets dos poderosos analfabetos?” [12].


Poemas inéditos

“Os céus distribuidores”, “Tudo tão belo e inexacto”, “Hora de carbono e bónus”, “Do uso da usura em poesia”, “Coragem e coração”, “Explicação da cabisbaixeza”, “Dever geral do recolhimento”, “O jogo do desconfinamento” e “Vieille cuisine” são os 9 poemas inéditos que Regina me entregou recentemente. Os 2 primeiros, escritos nos anos 70, antecedem 7 poemas escritos entre 2019 e 2021. Regina chamou ao documento que inclui estes textos “sou ou não sou antigamente velha”. Não me posso esquecer de dizer-lhe que, para mim, ela é sobretudo “antigamente jovem”.


[1] Maria Lúcia Alvim. Antologia Poética, org.: Ricardo Domeneck e Guilherme Gontijo Flores, Lisboa, Douda Correria, 2020.
[2] A seu lado, Salette Tavares, António Aragão, o próprio Fernando Lemos (Poesia só foi editado em junho de 2019 pela coleção elogio da sombra), António Maria Lisboa, Luiza Neto Jorge, Silvestre Pestana ou Fernando Aguiar.
[3] Recomendo-lhes o trabalho da banda Três Tristes Tigres, formada atualmente por Regina Guimarães, Ana Deus e Alexandre Soares, e autora dos seguintes álbuns: Partes Sensíveis (1993), Guia Espiritual (1996), Comum (1998), Visita De Estudo (2001) e Mínima Luz (2020).
[4] Dos quais destaco a Leitura Furiosa.
[5] Fundou, com Saguenail, as produções editoriais, artísticas e de espetáculo, Hélastre.
[6] Que publicou, sobretudo, n’O Primeiro de Janeiro (1868) e n’A Grande Ilusão (1984).
[7] Caderno de Regresso, Hélastre, 2010, p. 48.
[8] “Do uso da usura em poesia”, inédito, disponível aqui.
[9] “Talvez a popularidade que a banda rapidamente alcançou tenha afinal contribuído para a diluição da imagem da poetisa na imagem da letrista”, Maria de Lurdes Sampaio, Primeir@ Prova, Revista Electrónica de Línguas e Literaturas Modernas, Departamento de Estudos Românicos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, abril de 2004, p. 2.
[10] Tutta, Amalteia, 1994, s/p.
[11] “Dever geral do recolhimento”, inédito, disponível aqui.
[12] “O jogo do desconfinamento”, inédito, disponível aqui.



OS CÉUS DISTRIBUIDORES

falando ainda da visibilidade
só a aragem de habilidades do curral se exprime como o amor agudo

ambição sem ambiguidades como o lince da peixeira dos instantes
o prolongado ponto do divino delta
ambição sem limites como o ardil duma crina obesa
assim a sabedoria do vexame

nem sempre a luz se assume por isso enfurece o peregrino
de causa a causa o cotovelo recolhe o mastro

mas a peregrinação é uma harpa em que a mestria dos sons não é possível
e no entanto a sua harmonia é imensa
como ervilhas soluçando na vagem firme

para não contrair dívidas temos as mãos troçando de vazias
por isso os pastores escolhem para cão o lobo, satisfeitos com a semelhança

a vastidão festeja a pausa

1976

TUDO TÃO BELO E INEXACTO

(canção asfixiada)        a casta dos conteúdos alarga a sua câmara ardente

mas as nossas carruagens continuam atulhadas de seres aspirando à perfeição instigada da espuma. contornos abstinentes enfiam agulha na linha, como animais enevoando a clareira a idade atravessa-lhes o corpo. os outros que sabem de cor o caminho e não podem partir sozinhos

é o sono que salva o náufrago. olho cego como um nó, um longo aperto de mão de árvore

quando a ursa lambe as crias todos os santos te acusam de lacrares o sol
todos os santos te ajudam
tudo tão belo e inexacto como a expiação

1978

HORA DE CARBONO E BÓNUS

A criança estranha
que os bonecos lhe obedeçam
muda surda e cegamente
Mestre em seu mundo
primitivo
só lhe resta decretar
a disciplina
da indisciplina

Seu lado copa e cozinha
seu lado armário e alcova
fundem-se numa só casinha sem paredes
onde se roubam bolachas e sonhos
enquanto os monstros vão às compras
A criança estranha
encontrar habitantes na casa
que desconhece desde sempre
Por isso se sobrepõe
às sombras suas
verificando
de vez em quando
que continua a ser ela mesma

O lar cheira-lhe a cebolas e colchão
mas ela decidiu que viveria na copa das árvores
tendo com elas aprendido
o jogo
ora infantil ora infernal
da fotossíntese

Mas à hora de enfrentar castigos
espalha desmentidos informais
chispando com os olhos
até que o céu se apague entre as folhas
tão profundamente verdes
como a noite que existia
antes de jamais existir dia

2019

DO USO DA USURA EM POESIA

O banqueiro que há em todo o poeta
praticante da contenção
– mesura, cesura, doçura, censura –
exultará quando lhe mostrarmos
que na terra dos mortos-vivos
Sísifo empurra o peso da sua riqueza
e não apenas um descomunal penedo
uma vez finado de velhice duvidosa.

O banqueiro que há em todo o poeta
teórico-praticante da poupança
‒ baixeza, pureza, grandeza, proeza –
jubilará quando lhe demonstrarmos
que o sovina e o esbanjador
se reconciliam em pé de página
sempre que o poema estende os braços
à corte, ao salão, à academia.

Diz-nos Shylock
que bem sabia do que a casa gasta
a pretexto de um certo viver
de amor morno e água fria
na arcádia das entrelinhas:
«A vileza que me ensinais, pô-la-ei em prática,
e custe o que custar, melhor serei que os meus mestres.»

Ao que responderemos
respeitosamente
e em defesa do apego ao pão duro:
para bom entendedor,
a palavra de sobra
é justamente aquela que magoa
e faz obra.

2019

CORAGEM E CORAÇÃO

com pouco mais que serrim e aparas
dirão que está pronta a língua do carpinteiro
cujo único fito é perguntar-me
se podem pagar-me a pronto
e em géneros

dirão da oficina dirão da tão luz amarela a oficina
deste poente dilatado na retina
e na ampulheta
que só será sinal de decadência
para os que já decadentes são

debaixo da mesa
a ternura e a tremura
da criança subtraída à companhia dos seus
transformou-se no gesto preciso e felino
de arranhar pele até a carne ser guitarra

onde escondeste a coragem
o coração e a completude
nestas horas de ouro interminável?
aquela  que mostraste o que só a ti pertencia
e era quase casco do navio língua?

ó pai que me abandonaste
nessa idade de se ser abandonado
de se ficar infinitamente só
por entre gentes, lentes e dentes,
ó pai que horas são na tua eternidade?

2020

EXPLICAÇÃO DA CABISBAIXEZA

ela pede para ser adormecida
com histórias de heroínas a dormir
ela pede para ser embalada
com palavras do agora sempre dantes
ela pede para ser acordada
com olhares fixos como estrelas
e estrelas movediças como olhos

ela pede para ficar mais um pouco
diante do bailado das sombras
ela pede que lhe entreguem a carta em mão
e lhe emprestem a mão por algum tempo
ela pede que lhe recordem o nome do presente em fuga
e apaguem a data do instantâneo a cores
ela pede a mentira e o desmentido
dentro de uma caixa do tamanho da boneca
com a boneca a tornar-se falante

ela pede para ser levada em braços
adormecida até à outra margem do repouso
ela pede para ser levada pelo nariz
até à origem do perfume embriagante
ela pede para não ser reconhecida  como sonhadora
mas antes como expressão da penúria sublime
ela pede para ser espanejada
como aquela pequena biblioteca
composta pelos livros a levar
para a tal ilha certa e deserta

ela pede tudo o que a perde
paragens, paradeiros
ela pede o que não tem parança
dança quando arde, arde enquanto dança
ela pede para esquecer muito
até se lembrar de tudo
ela pede a festa do estudo
até adormecer sobre a fuga das letras
e sobre o fulgor da noite analfabeta

2020

DEVER GERAL DE RECOLHIMENTO

Na cozinha do rouxinol
toda a música é agora incestuosa
e até o metal dos velhos tachos
se queixa da facilidade
com que ela desenha atalhos entre realidades

A cozinha tornara-se o quarto de brinquedos
com o seu tabuleiro de xadrez  sem casas brancas
com a sua pantera fixada ao comprimento das pestanas
com as suas buzinas a anunciar a sessão de cinema
nem falante nem visual

Era na cozinha que se aperfeiçoavam os excrementos
que se colavam asas às costas dos anjos domésticos
que se alimentava a esperança de matar com um simples insulto
que por fim se admitia a confusão entre ilícito e ilegível
que pelo cheiro se reconhecia a voz inicial da culpa

Pela frincha da porta deixada entreaberta
pelas novíssimas divindades do lar
vejo que na cozinha das insónias
se recebe o segundo cérebro como um rei
em redor de caldos quentes e poções a fumegar
confeccionados por crianças sabedoras de seus herbários
hesitando entre veneno e ambrósia, peçonhas e manjares

E pelo postigo
atrás do qual o coração treme e teme
imagino a cozinha comum reconstruindo-se
graças à argila quente das palavras estranhas
que incorporam as crias e os crimes
como se fossem sinónimos da grande cama onde se nasce
sempre prematuramente
mas sempre

2020

O JOGO DO DESCONFINAMENTO

                                                      um jogo de escolhas a jogar a solo e à suivre
______________________________em que o jogador joga com e contra si mesmo

Precisas mais duma carta de amor
ou dum extracto mensal de conta?
Precisas de mais uma noite de verão
ou de mais um candeeiro design?
Precisas mais de sopa de legumes
ou de suplementos alimentares?
Precisas de mais um parque arborizado
ou de mais um parque de estacionamento?
Precisas mais da conversa no café
ou dos tweets dos poderosos analfabetos?
Precisas de mais uma mercearia gourmet
ou de mais um mercado de frescos?
Precisas mais dum consultor de imagem
ou duma consulta no médico de família?
Precisas de mais escolas livres e gratuitas
ou de mais coaching e de gestores de talentos?
Precisas mais de hospitais públicos
ou de bancos de investimento?
Precisas de mais dramaturgos sem travão
ou de mais opinion makers?
Precisas mais de prados e florestas
ou de cenários virtuais sofisticados?
Precisas de mais filósofos na rua
ou de mais influencers na net?
Precisas mais de serras e oceanos
ou de paisagismo planificado?
Precisas de mais companheiros
ou da companhia de mais hipsters?
Precisas mais de diversidade biológica
ou de transumanismo galopante?
Precisas de mais geografias rebeldes
ou de mais geolocalização dos párias?
Precisas mais do conto a cada encontro
ou do story-telling da netflix?
Precisas de mais do teu preciso tempo
ou de mais tempo para money-making?
Precisas mais de ler e andar nas nuvens
ou de alimentar o éter da tua cloud?
Precisas de mais companheiros de estrada
ou de mais likes no facebook?
Precisas mais do saber-fazer do lavrador
ou das performances do analista de big data?
Precisas de mais instantes inimagináveis
ou de mais fotografias no instagram?
Precisas mais de ideias para mudar mundo
ou dos softskills dum Scrum master?
Precisas de mais professores talentosos
ou de mais horas de e-learning?
Precisas mais da fantasia duma horta louca
ou de roupa trendy e acessórios tendance ?
Precisas de mais ver melhor o que te olha
ou de mais selfies em toda a parte e hora?
Precisas mais do café do teu bairro
ou duma casa de chá rétro na baixa?
Precisas de mais gente a bater à tua porta
ou de mais aplicações no teu smartphone?
Precisas mais da sombra das árvores
ou dum bunker com todas as comodidades?
Precisas de mais bancos de jardim
ou de mais garantias de sigilo bancário?
Precisas mais de paraísos fiscais
ou de mais paraísos artificiais?
Precisas de mais saltimbancos
ou de câmaras de vídeo-vigilância?
Precisas mais de cantinas comunitárias
ou de templos da nouvelle cuisine?
Precisas de mais contraditores ferozes
ou de mais animais de estimação?
Precisas de mais funambulismo na mioleira
ou de mais arame farpado na fronteira?
Precisas mais de ver crianças a brincar na rua
ou de visitar dreamlands e parques temáticos?
Precisas de mais razões para uma longa vida
ou de mais lazer e escapismo organizado?
Precisas mais de quem te ouça e console
ou dos videojogos da consola?
Precisas mais de brincar aos cozinhados
ou de oscilar entre low-food e fast-food?
Precisas de mais memória para pensar
ou de mais ram para te esqueceres disso?

2020

VIEILLE CUISINE

Recordando a convicção
cansada
com que as mulheres destinavam comida
na penumbra da cozinha
na escuridão da despensa
ao sabor da sucessão dos dias
percebo
precisa e cirurgicamente
porque me amargura o não ser
não ter sido
amada como matéria oferecida
destino e alimento confundidos num só tempo de oferenda

Na pedra de mármore gelada
escolhia-se o arroz.
Retiravam-se as pedrinhas e as palhinhas intrusas
dum lado o montículo a examinar
do outro os grãos já inspeccionados.
Entre mãos de criança
grão a grão
se cumpria a aprendizagem da carícia
seu crivo
e
ao mesmo tempo a ternura selectiva

A tarde calçava finíssimas meias
e entre dissídios e receitas de geleia
aproveitava para se evaporar
como sorriso entre rugas
a título de contra-exemplo

2021



MARGARIDA VALE DE GATO (VENDAS NOVAS, 1973)

É-me indiferente: poeta, poetisa
dependerá do ritmo ou da medida –
prefiro tradutora, mas admito
que por vezes não dobro e sou narcisa.

Margarida Vale de Gato, “Texto de apresentação”, 2017

Margarida Vale de Gato (Vendas Novas, 1973) traduz textos literários desde 1996. Entre as(os) autoras(es) que traduziu, constam W. B. Yeats, Herman Melville, Charles Dickens, Edgar Allan Poe (cf. Edgar Allan Poe em Portugal, 2009), Christina Rossetti, Sharon Olds, Tim Burton, Oscar Wilde, René Char, Marianne Moore, Henry James, George Sand, Nathalie Sarraute ou Henri Michaux. O ofício de tradutora não só antecede como parece marcar a escrita de Margarida que, entre vozes como as de Emily Dickinson ou Sylvia Plath, cria e recria poemas encíclicos, mordazes, escutatórios.

Margarida Vale de Gato.
Fotografia de Vitorino Coragem.

Um dos ouvidos mais afinados da sua geração, Margarida, que relê e responde à história (“Há outras coisas, Horácio,/ e a tua filosofia é barata” [1]), encena, a partir de um exercício de apropriação [2] e crítica, as vozes variadas e ancestrais das mulheres (“corada invoco a imagem mal tirada/ da fêmea recortada ao macho que a conforma” [3]) e do amor prático e simples (“Portugal/ é enorme eu preciso de ti” [4]). Depois de Mulher ao Mar (2010), livro reeditado e expandido em 2013 como Mulher ao Mar Retorna, Margarida publicou, além da peça Desligar e Voltar a Ligar (em parceria com Rui Costa, 2010), Lançamento (2016) e Mulher ao Mar e Grinalda (2018).

Mulher ao Mar Retorna, Lançamento e Mulher ao Mar e Grinalda vêm confirmar o que Mulher ao Mar, o início do todo, já adiantara. À medida que o poema avança e mais mulheres aparecem para acompanhá-la, Margarida convida à releitura continuada e atenta do seu trabalho — um tráfego de línguas ou circunferência sem começo nem fim —, à reflexão sobre o posicionamento da mulher ou da construção literária da(s) voz(es) femininas e das suas possibilidades no contexto da poesia portuguesa contemporânea, à revisão aguçada e emocional do cânone (“Fernando, tu dizias, da brevidade da vida” [5]), da mitologia nacional (“a comichão/ da caravela portuguesa” [6]) ou à perfeita coincidência entre forma, imagem física e significado.

Há tanto tempo eu
trazia um vestido curto nós
subíamos as escadas eu 
à frente sem reparar deixava 
as pernas ao desamparo do teu
agrado, tínhamos bebido ao meu
futuro e era uma fuga o teu
presente um disco que me deste
reluzia em semi-círculo e a nós
excitava seriamente escapar eu
fazia vinte anos tu
relanceavas-me as pernas eu
abandonava a adolescência
nem olhara para trás tu
miravas-me as pernas de trás. Nós
subíamos ao telhado eu
trazia um vestido curto nós
estávamos tristes creio tu
fingias-te um sátiro e nós
subíamos ao alto desarmados.

____________________________________[7]

Por exemplo: em “Aniversário”, o corte limpo e sistemático do verso reproduz não só a inquietação do movimento do primeiro corpo caminhando na frente do segundo ou a agitação de quem se divide entre a subida e o corpo detrás, mas também o avanço irregular dos pés nos degraus, um depois do outro, até ao telhado.

Também por este domínio técnico os poemas de Margarida, que existem autonomamente em si e para si, desarmam e dilaceram a(o) leitor(a) mais experiente: “o atirador/ rechaça a corda/ do arco terso/ a flecha/ corta” [8]. Desarma-nos, igualmente, o modo incontestavelmente satírico, pontiagudo e perspicaz com que Margarida contesta a tradição e reverte o cânone, tocando-o sem licença, receio ou remorso. A contestação e a desconfiança da autora diante das premissas e do mundo partem tão-só de um imenso exercício de empatia: “não há cais nem margem não há cá piedade/ que chegue para os povos das partes baixas do mapa” [9]. E o poema é, em alguns casos, uma casa de desconforto de onde se expande o olho, o ouvido e a mão.


Poemas inéditos

“Jasmin”, “Chamar puta durante o sexo”, “Seja um agente de saúde pública”, “Maior idade”, “Atirar para o torto” e “Perdão” são os 6 textos inéditos que Margarida me entregou.


Mariposa Azual. 2018.

[1] Mulher ao Mar Retorna, Lisboa, Mariposa Azual, 2013.
[2] Este exercício de apropriação criativa assenta sobretudo no domínio e releitura permanente de várias tradições e vozes literárias, das portuguesas às de língua inglesa, e na minúcia de quem, ao mesmo tempo, traduz e escuta.
[3] Mulher ao Mar, Lisboa, Mariposa Azual, 2010.
[4] Idem.
[5] Idem.
[6] “Atirar para o torto”, inédito, disponível aqui.
[7] Op. cit., 2010.
[8] Idem.
[9] “Atirar para o torto”, inédito, disponível aqui.

JASMIM

                        para a Regina Guimarães

outros têm solas fortes cascas
como anéis por anos de árvores—
mas tu és de pé só
flexível quanto quebrável
à inclemência de fora

perene amareleces o inverno
raspa-te tu reflores em pontas
mudas suscetível e valente
o teu perfume é ébrio
e após tempo maças

difícil transplante passas
o vaso todo sentes tanto
armado contra a barreira
com fisga de atilho e cana
em prumo à brisa te lanças

pouco exigente de solo
fito de insídia e tisana
rompida renda            invasora esperança

CHAMAR PUTA DURANTE O SEXO

Coito e dividendo: cara queca

de socorro, o prolema é
distinto da justa luta legal da classe
profissional mais velha do mundo.
É que li Engels demasiado
em nova e dá tanto dó
ver um homem entesoar-se
mais com mulher comprada, ou borla
além do que ordinariamente pagaria, em vez
de com gaja livremente gozada —
Questão de afluência e jugo, de influência
e mando, de macho membro que endurece
(ainda, quem diria após tanto bruáa
e viril introjeção) doloroso — digo, da
flatulência; então tiro-o, dedo
do gatilho desse furo, por mais
que entre nós o jogo fosse fogo
limpo, ponta pura, é coisa de disparo
direto na cabeça, num nó estancando tudo
o que baixo corria, e fico toda só, não
sendo, não dando, a tal fantasia
(não vale endemonhar, sei, entre nós
algumas gostam) ­— e vem a ideologia
pregar moral? em dita relação
consensual? seja, nisto eu mandava:
o ideal da posse, livre entrega 

a fundo sem retorno capital.

SEJA UM AGENTE DE SAÚDE PÚBLICA

ao fim a solidão também se soma
como experiência em caixa por dias
circunscrita a câmaras arredias
de operador em off,só se nota

em certos frames frágeis: a tabela
diária da arritmia, feita à escala
de casos por milhão—e mais, se cale
a cisma com serenatas de janela

e a morte com lives de poesia;
a cólera com mordaças de compressa.
Ardem torres, contraditas teorias

da puta da virose propagada
por receosa causa incontroversa
lá fora, se garante, não há nada.

MAIOR IDADE

teu rouco sopro muda meu vaso em arco lá
suspensa a fenda fácil bruxa do momento
de tal espanto neutralizo atritos prescindo
de repelir forças eu velha barca voadora
isenta de peso te singro em torno o rosto
torso e antebraços o rabo seda rude bojo

leite leve risco semi-escuro e a boca onda
e a prazerosa espuma divertindo outubro
que não te pedi me colhe abrindo e corre
e retribui meu corpo inteiro a ser o meio
de uníssono assomo e sumo e fogo e os
soluços do que subiu e não sucumbe logo

ATIRAR PARA O TORTO

Quando eu nasci a última guerra mundial tinha sido há vinte e oito anos
a colonial ainda tinha minas
a minha idade é já o dobro desse tempo nesta paz
sinceramente agradeço mas as coisas não convencem
como a tosse sempre na garganta o escorrega acentuado
da esperança e viver como julho temporão quando passou
já o dia mais longo custa trabalhar o vento tem grão a lua
zomba amarela cada hora mais matrona as melgas rondam todas
as atividades parecem besuntadas de creme contra
a exposição solar as picadas do peixe-agulha a comichão
da caravela portuguesa não é a sabedoria que se ganha
a ternura que se conquista uma ova é esta película
de gordura entre nós e o mundo os tornozelos
inchados no lodo do mar morto
a sabedoria aliás não tem nada que a recomende

eu que o diga que fiz estudos
ganhei uma cadeira de armar à sombra da academia
e quando o rei faz anos espremo as tetas
da poesia de cada vez o leite é mais ralo
o soro nem vê-lo de resto dane-se para quê
a inoculação? já agora o direito internacional que nos vale
as costas direitas para dizermos que não cabem
não há cais nem margem não há cá piedade
que chegue para os povos das partes baixas do mapa
felás infantis logo querulentos garotos famélicos
grávidas desidratadas gente que nos olha
por cima da burra com pragas e mil vícios
isso não é bonito

vêm com o pacote agora desembrulhe-se
tanta hubris esta bílis se calhar é o valor fiduciário
sei lá eu sou das letras tudo passa
sem os meus palpites a minha pieguice pouco faz
em justiça nem sequer dá alívio o que eu devia
não era reclamar era convocar o imoderado dilúvio
quando não a fé da indecorosa juventude
inundada cheia que valha nos esparza
nos faça anfíbios entre os anjos e os bichos
sei lá eu fácil saída fraco remédio
para a catástrofe
unguento inócuo da nossa dor
se calhar faz parte do problema
o pejo conservador que no poema se cante
um exultante afogamento


PERDÃO

e este o poema ainda no trabalho
de o completar:
pôr em palavras o que leva
semanas meses gestações
para que num dia já não pese
e leve se despetale

assim da ferida se destapa
a pedra
se encara seu brilho de fogo
de granada estancando em vidro

e o belo então diário efémero
relevo—é isso—ou uma respiração
de rosa:
tal desvelo de paixão para vingar
tal abandono de florir
para se despir, entrega de si
mesma destituída, e murchar


MARIA BRÁS FERREIRA (LISBOA, 1998)

Vim porque o anonimato falou mais alto


assim abre Hidrogénio. Manual de Desoxidação, o livro de estreia de Maria Brás Ferreira, publicado em novembro de 2020.

Hidrogénio condensa, de modo fragmentário, certos temas que não podem dissociar-se. A memória, materializada pelas fotografias dispostas ao longo do livro, que “nos devolvem os mortos” [1], abre espaço para um texto como “Mar a mar”, em que infância e morte conduzem circularmente um ao outro a partir de Deus. Deus, ou a lembrança sistemática da finitude, é o lugar contrário ao do poema: “Eu prefiro os lugares recolhidos, por onde Deus não se aventure e de onde se possa tão-só imaginar, infinitamente” [2]. O poema, arma mortal e das(os) mortais, que não existe, como a casa, “senão em regresso”, condensa, com recurso à imagem, as partes de um corpo que, além de “desaparecer no/ quarto branco” [3], existe no feminino: “Romper a virgem,/ requerer a virgindade./ Dois duros tempos — só podem ser três” [4]. Há, de facto, nos poemas de Hidrogénio, um interesse crítico, que não deixa de ser cru e voraz, nas mulheres que “submissas/ falam muito entre si,/ isto é/ para si” [5] e que, entre mais corações, carregam o peso da reminiscência (“O que desconheço: o corpo,/ O que mais recordo: a voz” [6]).





Flan de Tal, 2020.



Maria Brás Ferreira. 2019.


“Nota ao Leitor”, que interrompe propositadamente o ritmo conteudístico do livro, define Hidrogénio como “um livro da vida”, que “[a]lguns, generosos e ávidos leitores, acharão tratar-se de poesia” [7]. A delimitação do que Hidrogénio é, que não tem outro propósito senão desviar-nos até à indagação, porque ele efetivamente não é, adianta a segunda parte do livro, linear e quotidiana. Aqui, em comparação às que as antecedem, as fotografias que surgem intermitentemente entre os textos não só se aclaram em termos de luz, como nos transportam para o espaço físico e concreto da cidade e do amor. Lisboa, Berlim: “Das duas,/ as duas” [8].

Os dias correm velozes,
cheios de afazeres,
por vezes desempoeiradamente despreocupados,
e à porta dos edifícios obrigam-nos a dizer bom-dia,
como quem cava uma cratera inteira,
a esgarçar um poço cuja estranha profundidade
penhora a hipoteca
ao final do mês.

_________________________________________________[9]


Entre as cidades, as ruas, as casas e a constelação de referências para que Maria aponta (Jorge Luis Borges, Herberto Helder, Mário Cesariny) surge, no final, Maria Gabriela Llansol advertindo: “Não [sic] olhes os bordos de um texto” [10]. Maria parece substituir intencionalmente “nunca”, incluído na versão original do texto de Llansol, por “não”, o que lhe permite terminar Hidrogénio desejando-nos

— Bom descanso,
olhem os bordos do texto.

————————————————[11]



Poemas inéditos

Llansol reaparece junto de Ovídio, Fiama Hasse Pais Brandão, Rui Caeiro, Manuel Resende ou de um poeta tão jovem como Nuno Azevedo em Rasura [12], livro inédito que Maria me entregou, prestes a ser publicado em Portugal. Rasura estende tematicamente o cunho amoroso de Hidrogénio, ao apostar no poema longo, narrativo e arrisca-se, em termos de forma, consideravelmente mais. Trata-se de um poema grande à juventude.

Dele, selecionei 6 textos.

[1] Hidrogénio, Lisboa, Flan de Tal, 2020, p. 13.
[2] Idem, p. 14.
[3] Idem, p. 20.
[4] Idem, p. 21.
[5] Idem, p. 23.
[6] Idem, p. 34.
[7] Idem, p. 29.
[8] Idem, p. 52.
[9] Idem, p. 42.
[10] Idem, p. 61. O texto original de Maria Gabriela Llansol, incluído em Um Beijo Dado Mais Tarde, foi publicado em 1991.
[11] Idem, p. 62.
[12] “Sismógrafo”, Rasura, livro inédito, p. 28.


JASMIN

Fingi os mortos de vivos para melhor estar com eles.
Estão mortos, são mortos e não podem ser outra coisa que não mortos.
As desavenças não se travam mais com eles.
Eles são os soldados que serviram um combate, mas que estão esquecidos,
à força de haver outras contas a pagar.
As desavenças serão agora travadas com a vida.
A vida que não fica morta, a vida que dinamita os arranques certos,
as mãos cegas, conquanto rápidas,
os cristos ressuscitados: como os pais que sempre regressam
à escola após a náusea da manhã, a náusea de ser cedo demais
e estar-se mesmo assim atrasado para todos.
Os mortos estão mortos, como motorizadas em grandes escândalos
pelas ruas, chiando avenidas.
E no sonho da casa dentro da casa encontrei um peso:
era a morte a levar-me ao pátio,
o bestiário dos contos em vida,
os animais, as mulheres, os pais, os filhos, as areias, os cafés,
os perfumes, as sedas, a arte coleccionada, tão tonta na parede,
tão maravilhosa em arcadas no meio do espaço, balas rolando sobre o piso,
as escadas sem chegar à tijoleira empoeirada, acrópole de água e grito,
e os desejos pintados de espuma,
tudo o que sempre quisera no pátio do meu prédio tosco
numa rua que ninguém sabe, pois a ninguém deve interessar.
E subitamente arranco o corpo à asa do vento
e anseio a tudo poder galopar.
Respirar por entre juncos à beira de uma piscina,
livrar-me da boca, doar as mãos para quem as usar com maior precisão.
Era a morte a tratar do jardim, e eu mirava, perguntava-lhe dos mortos,
e ela respondia:
o jasmim precisa de muita água para crescer, toda a água que lhe deres,
muita,
todos os dias,
e não ultrapassa nunca o metro e meio de altura.

DESSERT

Fechou a minha entre as suas mãos e
traçou com a língua:

a sina lê-se de dentro das coisas tocadas.

EPÍSTOLA FURTADA OU PERVERSA A GRAMÁTICA DOS OBJECTOS

I

Crescer desconsolada
com as palavras
metricamente
histéricas.

II

Ter na sede o saciar
dos dias quentes.

III

Ler os teus poetas
fazer-te tradição
na certeza de que o silêncio
a argila da garganta
singrará.

Medir com a ponta dos dedos a amplitude da pele
que na calada te como a besos.


REVERBERAÇÃO SOLAR

A noite a querer avançar
e os teus dedos a empurrarem a luz
para o fundo do meu sexo.


A SOLIDÃO QUASE LOUCURA

I

o presente
mordendo feroz, sondando
sempre atrasado o futuro

                                                             — mas como ter-te sem que fosse agora?

II

Até amanhã,
a noite abisma-se provação fraterna:
vive um, morre outro.

III

As gargantas nos cafés partem sempre,
a vela por içar, a voz por atiçar — a recordação telúrica do principio dos tempos,
tragando fulgor a peso.
Elas não têm, pobres gargantas alcatroadas,
dor maior que as religiões inventadas,
que será o mesmo que dizer:
não têm elas amor.

IV

Demasiadamente é o céu azul,
o vinho, as estrelas, teu savoir sobre a elegância
feminina, incomportável, incendiária.

______________________________Penoso o luxo leve da preguiça, enfim.

V

Alegria maior de um erro a morte
o canto em seu cantor
o Tejo gorgolejado de sóis em fás a dós em rés
o requiem para a língua quebrada
teus seios dolentes sugando a boca indeclinável desfiladeiro
cair dentro para ser o improvável caminho de volta
túnel probatório purgatório.

VI

Amar é perder o passado para o futuro.

 
ENO ALTO

Se eu não tivesse chegado nunca
a tua canção seria o meu tédio nocturno.
Se não tivesses chegado nunca
os ossos teriam quebrado a ruína da língua.
Se não nos tivéssemos chegado nunca
velida seria a fome, alva a boca espantada.

Um centro anda na margem: Alberto da Costa e Silva (1931—)

Alberto da Costa e Silva - Autores - Bazar do Tempo

Este é um ano de números redondos para a poesia brasileira: até o momento, já fizeram 90 anos Augusto de Campos (1931—) e 80 Leonardo Fróes (1941—), ambos poetas de fevereiro, com um percurso e uma recepção muito diversos, porém hoje fundamentais para os leitores atentos de poesia contemporânea, mesmo que ambos continuem sem uma obra reunida em catálogo contínuo. Logo chega o momento em que Alberto da Costa e Silva também completará seus noventa anos no dia 12 de maio. No entanto, se o seu nome é conhecido por quase qualquer pessoa interessada em cultura e história brasileira, sua trajetória de poeta permanece sendo periférica, sem grandes recepções da crítica acadêmica ou da própria poesia mais jovem.

Aqui quero, modestamente, tentar duas contribuições modestas para homenagear o poeta vivo. Por um lado, elencar algumas causas possíveis para que sua poesia ainda seja pouco lida; por outro, apresentar uma breve antologia de seleta personalíssima minha, assim ampliando um pouco o que temos dele na rede.

Vamos às possíveis causas da pouca leitura e impacto de uma poesia forte como a dele:

  1. Vejamos o que nos diz a Wikipédia “Alberto Vasconcellos da Costa e Silva GCC • GCSE • GCIH (São Paulo, 12 de maio de 1931) é um diplomata, poeta, ensaísta, memorialista e historiador brasileiro, membro da Academia Brasileira de Letras e atual orador do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Foi distinguido com o Prémio Camões de 2014.” [Negritos meus]. Daqui percebemos que Costa e Silva é descrito como cinco coisas ao mesmo tempo (diplomata, poeta, ensaísta, memorialista e historiador), que já recebeu as maiores honras possíveis no mundo formal: membro da ABL, orador do IHGB e premiado com o Camões. Se isso pode parecer contraditório com a falta de leitura como poeta, eu afirmo aqui o contrário: para além da nossa ânsia de escolas literárias (que comentarei abaixo), nós geralmente não lidamos com autores que são realmente bons em mais de uma área; assim, como ele é um nome incontornável como erudito, sobretudo como historiador, a sua poesia fica de lado, como se fosse mero anexo. Casos similares acontecem; para ficarmos com apenas um exemplo, lembro Chico Buarque (1944—, também prêmio Camões) como romancista e dramaturgo, práticas que permanecem como anexos da sua faceta central de cancioneiro.
  2. Alberto da Costa e Silva é membro da Academia Brasileira de Letras. Novamente, parece que estamos diante de um paradoxo, mas é muito pelo contrário. A relação geral do desenvolvimento da literatura brasileira, em prosa, teatro e verso, ao longo do século XX e XXI, mostra uma verdadeira antipodia entre a ABL e o reconhecimento mais vasto. E isso tem lá seus motivos muito claros, já que a Academia acolheu nomes no mínimo estranhos tais como o cirurgião plástico Ivo Pitanguy (1926—2016) e o ex-presidente José Sarney (1930—). Claro que a ABL já acolheu nomes muito mais instigantes, tais como Guimarães Rosa (1908—1967) e Ferreira Gullar (1930—2016), porém ela segue sendo um espaço bastante avesso às demandas do presente, como atesta a recusa da cadeira vaga a Conceição Evaristo (1946—). Guimarães Rosa não teve tempo de ver o que aconteceria com seu nome imortal em vida — morreu antes. Mas Ferreira Gullar talvez represente bem uma certa guinada conservadora em sua carreira ao também se imortalizar nos banquinhos da ABL. Em outras palavras, a ABL tem seu quê de IML, embora afirme imortalidade. Alberto da Costa e Silva paga o preço por almejar o centro e aceitar o conservadorismo inerente.
  3. Citarei títulos de poemas quase ao léu: “Elegia serena”, “O parque”, “Vesperal”, “Soneto”, “soneto a Vera”, “A janela”, “Poema de aniversário”, “A bilha”, “Um artesão”, “Sonetos rurais”, “Uma tarde em Caracas”, “Assobio”, “Outro adeus”, “Imitação de Botticelli”, “O meninvo a cavalo”, “A um filho que faz dezoito anos”, “O café na copa”, “Poemas de avô”, “Murmúrio”, “Amor aos sessenta”, “Testamento”. O que vemos aqui é uma série de tópicas e escolhas de títulos que remetem, quase sistematicamente, a modelos românticos ou do primeiro modernismo brasileiro: tudo gira em torno de afetos, de reminiscências infantis, de espaços rurais, ou da vida privada e cotidiana. Nesse aspecto vai contra quase tudo que se prezou na poesia brasileira das últimas décadas, crescentemente urbana, aspirante a cosmopolita, em constante flerte com a cultura de massas e a velocidade da vida cada vez mais tecnicizada e, nos últimos anos, digitalizada. De certo modo, as tópicas de Costa e Silva parecem mais próximas de movimentos como o Armorial, que em certo sentido perdeu quase todas as suas batalhas, apesar de ter promovido alguns grandes nomes (lembre-se que mesmo a poesia de um Ariano Suassuna está praticamente esquecida).
  4. Quero também dizer que sua poesia não sugere temas tradicionais apenas, mas também faz um uso das formas tradicionais, como o soneto, que é talvez o modelo mais recorrente em toda a sua produção, junto com um certo verso livre que remonta a Drummond. Seria o caso, necessaríssimo, de revisarmos o uso da fôrma em sua poesia, porque ali encontramos uma série de torções sutis que revelam um artesão fino da língua, como Maria Lúcia Alvim. Nossa aversão ao tradicional revela mais sobre nós mesmos e nossa ânsia de modernização do que sobre nossa capacidade de abertura aos modos vários de existirmos num mesmo país.
  5. A poesia de Alberto da Costa e Silva pode ser muitas coisas, mas certamente não é armorial. Como não foi propriamente modernista, nem concreta, nem marginal. Como Heleno Godoy (1946—), Hilda Hilst (1930—2004) e Maria Lúcia Alvim (1932—2021), ele talvez tenha mais pontos em comum com a Geração de 45 (Godoy também com a Poesia Práxis), porém também escapa dali tanto no tempo (tinha apenas 14 anos em 1945) quanto nos desdobramentos, por exemplo, pela dedicação quase obcecada com o espaço concreto que constrói suas paisagens internas, ou pela sintaxe truncantes. Não cabendo em escolas, tal como Alvim, Hilst e Godoy, também ficou de fora da história literária tal como estamos acostumados a contar: sendo já historiador renomado, membro da disfuncional ABL e de difícil categorização em linhas duras, foi para a lista dos poetas menores.
  6. Alberto da Costa e Silva é um poeta bissexto. Publicou apenas 8 livros em quase 70 anos: O parque e outros poemas, 1953; O tecelão, 1962; Alberto da Costa e Silva carda, fia, doba e tece, 1962; Livro de linhagem, 1966; As linhas da mão, 1978 (Prêmio Luísa Cláudio de Souza, do Pen Club do Brasil); A roupa no estendal, o muro, os pombos, 1981; Consoada, 1993; Ao lado de Vera, 1997 (Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro); que estão basicamente coletados de modo um tanto livre em Poemas reunidos, de onde extraio a antologia. Assim sendo, a sua obra é de fato bastante curta, não chegando nem a 200 páginas contínuas, apesar dos seus quase 90 anos. Nesse aspecto, lembra muito a concisão de Augusto de Campos, embora estejamos falando de dois poetas quase opostos em tudo. Junto a produção curta, Costa e Silva parece ter cuidado pouco da vida literária, talvez porque já tinha a vida diplomática e historiadora e familiar para sustentar. Escreveu poemas, sim, e alguns mais certeiros do que os melhores poetas contemporâneos seus; porém fora do círculo literário, esteve no centro permanecendo à margem.
  7. “O prazer do difícil”, uma tópica tirada de Yeats, virou quase adágio obrigatório no Brasil, assim como o mote “poesia é risco”; no entanto, na prática, o que vemos é uma verdadeira preguiça intelectual de encarar poetas que pensam de modo difícil. É o que vimos acontecer com obras como Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, que, apesar de reconhecida, segue sendo pouco lida e estudada, mesmo com seus mais de 70 anos: o fato é que a virtuose linguística, o arrojamento imagético, a experiência surrealista (e no caso de Lima também seu pendor católico) fizeram com que a obra seja reconhecida e deixada num limbo a um só tempo. Talvez o caso mais singular de quem conseguiu escapar disso seja Guimarães Rosa, mas ainda assim eu lembraria que Tutameia, o projeto mais radical de concisão, cortes abruptos e experimentação sem concessões, é também dos menos lidos. Dou apenas um exemplo na abertura do poema “Bilha”, de Costa e Silva. O que fazemos com essa profusão de imagem em sintaxe truncada, que demora oito versos para dar um primeiro respiro?

    Assim o barro, em tuas mãos pequenas,
    e machucadas, ergue um voo, povo:
    é um ai de terra, sem nenhum tormento,
    um ai de rir e flora, de macio coito
    de porcos, quase asa de garça, quase
    paina de jatobá, esta moringa aberta
    ao frescor que há no sol, charque, avoante,
    forma de prenha mulher, quartinha, pote.

    Sem qualquer pretensão de análise ou hermenêutica, reparem nos cortes e na proliferação de imagens, como promovem a multiplicação de pontos de vista na sinestesia entre ver, tocar e conceber o barro a ser moldado; como o decassílabo é tensionado por rimas toantes ou verdadeiramente tortas (povo/coito, pequenas/tormento, quase/avoante, aberta/pote); como o corpo inteiro se abre às sensações numa construção milimétrica que, paradoxalmente, parece aberta ao acaso e ao desvios desejantes.
  8. Oriundo de uma aristocracia local, reconhecido com títulos de nobreza em Portugal, membro da ABL, diplomata de carreira, escritor premiado, historiador reconhecido, poeta do campo e da família, com inúmeros poemas dispersos pela internet em jornais de revista, Alberto da Costa e Silva está no centro do centro do centro, está, por isso mesmo, posto à margem, pouco lido pelos poetas mais jovens, com pouca repercussão de leituras e estudos nas frentes mais impactantes dos nossos contemporâneos. Sua poesia, no entanto, é tensa, densa, viva, pede que a tentemos ler na profusão complexa de vozes fortes que constituem nosso estoque poético vivo. Se o deixarmos preso ao centro, sem uma devida leitura crítica, a perda é toda nossa.

* * *

Rito de iniciação

§  meu pai dizia as mangas que enverdeçam
    para que o sal lhes dê um novo gosto
    cortava o sol em fatias o sumo o rosto
    sujava de luar de mate ou pouca
    luz que fundeia na sombra da jaqueira

    chegava à carne do fruto à rude juba
    que arma em fera a pele do caroço

§  à margem do curral mergulho aberto
    do tamarindo meu pai dizia fazes
    o desgosto compões cada segredo
    a criciúma os ninhos nos alpendres
    o adeus com flores os ombros dos mendigos
    a sustentar a curva porta os cegos
    a cavalo e os porcos nos açougues

§  o azul é rouco e teu meu pai dizia
    este silêncio de viração furtada
    outras monções com cheiro de goiaba

§  sabor só soturno soterrado
    dá a manga o trotar o alaúde
    meu pai dizia o sol é sal e o solo
    nada cultiva em nós nem a descalça
    morte rastro leve na farinha.

§

O Menino a Cavalo

1

Na lua do selim, as mãos. As rédeas
a sofrear a passagem do momento
em que, por pasto e barro, tenho à frente
o monjolo do tempo.
                                        Olho o presente
de novo, agora, o corpo traspassado
pelo peso das coisas que me tornam
no dolorido espaço em que renascem.

Nada se muda ao céu desta paisagem.
Gado, menino, cactos, folhagem
nem mais são ontem, nem o fui, nem sou
o que hoje sinto e amo, guardo e choro.

Jamais me achei depois. Foi minha ausência
o que salta no estribo, monta e parte.

E o potro pisa a marca de seus cascos.

2

Vamos de rédeas soltas nos cavalos mansinhos.
Atrás de nós, sacodem as cangalhas ofuscados jumentos
pela limpa brancura do sol sobre as folhas barrentas.
E, no ar, existem restos de azul
(suave como o ventre dos peixes)
e a essência das hastes
das palmeiras e das árvores,
em linhas de verde-claro afinadas pela luz.

Trazemos água de um rio
que corre, rente, abaixo
da areia fofa e úmida,
                                               e que aflora
mal cavamos com a mão
a lã que o disfarça.

Ali estivemos, a senti-lo fluir,
com o rosto junto à terra,
a receber, de um lado, um frescor de moringa,
o seu cheiro de sombra e vime de gaiola,
e do outro,
                        o ardor do sol,
olhar de pássaro cativo,
mãos sobre a lenha que se vai rachar, ou sobre a corda
com que se puxa o bezerro para a curta distância
que o separa do ubre, que lhe amarra a infância
ao engano da vaca
                                         — da rês que o lambe,
                                         como se fosse a vida.

Não pensamos na vida. Nem sabemos
que a conduzimos conosco,
nas mansas alimárias e nas pipas com água,
nas palhas que protegem os dorsos dos burricos,
nos dentes longos dos cavalos,
no olhar que, à distância,
vai recompondo bois, azulões, o nariz a escorrer de uma menina descalça,
a cortante conversa entre a sombra e o sol,
entre a cova e o deserto,
e que se vai fazendo,
também em nós,
no íntimo das formas,
o breve desenho infinitamente repetido,
que vemos nos corredores que descem,
no Vale dos Reis,
para a sala cerrada como um poço extinto,
como um estômago,
como o centro de um abacate sem semente,
onde se abre a noite de um céu com todas as estrelas,
um céu fechado, um céu
mais verdadeiro do que este
que vemos desde o nascimento,
porque feito com a mão humana, triste e solitária,
no verdadeiro escuro,
como que talvez convivamos
na morte — o céu de nossas pálpebras.

E alguém canta.
E vamos!
E alguém lança
bagos de carrapateira contra a anca do cavalo
que segue à sua frente.
E um outro recorda o ano que vem, com a mesma cena,
e nos convida a armar as arapucas:
                                                    Vamos pegar canários!
E há acenos de mãos a segurar rebenques,
talos de carnaúba e pedaços de corda.
E fingidos aboios. E risos. Inesperados galopes.
(Trazemos água de um rio que corre, rente, abaixo
da areia fofa e úmida.)

Vão alegres de luz, meninos a cavalo,
que nem notam a beleza sonolenta do barro e dos jumentos.
E alguém canta. E todos riem.
E alguém aponta, ao longe, o verdor de um açude.

Mas eu,
que já sabia chorar para dentro e que sentia
roçar na minha pele, incessante o sofrimento,
a estranha orfandade de estar vivo
e de ir a cavalo trazer água,
voltando
de algo que findara e que se fora em viagem,
como os passarinhos que vi morrer,
como as reses destripadas,
como as palavras que falamos cada vez mais baixo
e que se transformam
neste silêncio das mãos que apertamos
sobre os nossos joelhos,
eu

eu ali continuo,
de rédeas soltas, no cavalo mansinho,
a olhar para mim.

3

A mão de meu pai sobre o papel desenha,
quase num só traço, o menino a cavalo.

Sai de sua mão a mão com que lhe aceno,
e vai sobre o papel o menino a cavalo.

Choro sobre o colo do triste, e órfão e cego,
para tudo o que atado estava à vida, vivo,

mas sem sonho e sem carne, a falar-me sem nexo
sobre um céu e um sol de que foi desterrado,

mas que punha ao redor do menino a cavalo.

O rosto longo e só, rasgado pelas rugas,
o olhar a rever o que perpétuo tinha,

e que nunca me disse, em seu pensar cortado
do dia em que vivia (no seu convívio raro

com a cadeira de braços, o pijama, os seus pássaros,
a cinza e a rotina de estar morto, acordado),

no papel ele unia a mão que desenhava
à mão com que acenava ao menino a cavalo,

neste adeus em que estou, desde então, ao seu lado,
o menino que volta, a chorar a cavalo.

§

Soneto

Cerâmica e tear: as mãos trabalham
e constroem o amor num fim de tarde,
como jarro de rústico gargalo
ou fino pano arcaico. Sobre o barro

põem desenhos mais jovens de suaves
moças dançando e restos de paisagens
da infância e da montanha: perfis núbios
sobre o vermelho poente desse jarro.

E a substância mais tímida do sonho,
nas mãos do artesão, faz de seu pranto
e cismas, riso e ardor, tecido raro

em que se borda uma novilha, bela
como o beijo em setembro, em que se fez
o amor com outro fio e um outro barro.

§

Apreensão

Quando provamos um furto, acre ou doce,
é nosso o seu sabor, é nosso este segredo
que cada cousa oculta e nos recusa a posse
e sob a polpa densa e a muralha da carne
se abriga, defeso.

Ah, arrimar-se à tarde e saber este gosto
vindo, tão perfeito, da fonte dos mistérios
e descobrir em nós a essência que somos
em meio à evasão a que nos força o rumo.

E se concreta o nosso ser em contemplá-lo,
agora livre do seu fugaz invólucro,
não mais um fruto, mais convívio e morte,
não mais ausência, agora pura entrega
como a água bebida em tosco cântaro.

§

Passeio, ao crepúsculo

Do que sobra de mim, vazado o dia
dos seus frutos e formas repetidas
este acordar par os luares, isto:

ir, em silêncio, e solitário, e vento,
a me querer menor, mudo ou ausente,
grama que ao barro já se une, rente
ao limite do céu
                            — pois, este sendo
inatingível sol de onde estou eu,
parto em silêncio, a procurar em mim
tudo o que o sonho não repele e vê,

para que, no respiro do meu tempo,
possam gesto e olhar roçar o centro
piedoso de tudo, a dor de dentro.

§

Poema de aniversário

Foge o homem para o centro do deus que o persegue
e risca na própria pele a beleza da morte,
o provado desenho de uma infância, estas formas
que a minúcia do olhar recompõe na cegueira.

Já não sente os cavalos, nem recorda o que cerca
a sozinha indolência que revê no destino
de estar, rosto na relva, eterno e antigo, vindo
do sol sobre as clareiras para a limpa tristeza.

Segue os céus que repartem, entre o certo e o difuso,
o sonhar exilado do que breve lhe fica,
do que traz sobre os ombros, como achas, a vida,
só instante e distância, pobre húmus sem uso.

E joga o ser chorado e o que foi (recolhido
na sobra do menino que lhe fala ao ouvido)
sobre o colo e o abandono do deus que flui, calado,
entre muros de cinza, solidão e cansaço.

§

De Pé na varanda recordando

De pé na varanda recordando
o menino a tosquiar o pêlo do carneiro
flautas de um azul sobre a terra dos telhados
enquanto parto adeus! aceno do cavalo

logo as lavadeiras cantam a branda espuma
e o focinho estremece do animal detido
pelas rédeas na mão do menino no açude
tranquilo é o sol e o sonho é invertido

e se alguém nasceu por fugir do silêncio
nem por isso as palmeiras se cansaram
de sua sombra de cravo tocado pelos dedos
e louça da manhã disposta sobre a mesa

adeus! que já desabam as folhas mamoeiros
se partem à beira d’água enquanto indago e escuto
a minha voz o canto de um inferno vencido
pelo odor das mangas e o prostrado menino

que soluça tombado sobre o magro joelho
de um outro (velho) fácil é apear-se a cilha
se aperta depressa e dóceis são os dias
que a palavra recria como flores de cacto

mas vivê-los? vivê-los nem as bilhas
com sua clara frescura nos devolvem
esta alegria de sonhá-los altos
e não a areia pobre que nos deram

e se pelo natal devoramos castanhas
de que inverno nascem que dias adormecem
em sua polpa branca é a camisa que veste
o corpo solitário a beber o seu vinho

espanco o animal o pranto suja o rosto
salto o tear das flores até à vista! meus
são os verões por viver e os campos de dores
o sol não se disfarça nos olhos dos coelhos.

§

Vigília

Quando as lágrimas vêm, em vão fugimos
do que em nós faz o amor, em vão tecemos
vestes para cobrir o corpo nu,
que se nutre do pranto, humilde e humano.
Fazemos nosso leito. A mesa pomos.
O rosto se derrama em nossas mãos.
Queremos repartir a fome e o sono.
Vivemos nossa espera, enquanto, mudos,
fluímos para o encontro e retornamos
à infância, mansa páscoa, frágil vime.
Não mais somos nós mesmos; somos mais
do que nós mesmos ou alguém mais puro,
um sonho de não ser, ah, sendo e amando.

§

Flumen, fluminis

Ouçamos o fluir deste curso de rio
entre velhos muros imóveis de fadiga
não apenas meras lajes limitadas e cinzentas
mas pedras tristes e calmas
entre as quais escorre o límpido silêncio
da água que flui sobre a nudez
pura da morte

em nenhuma outra fonte, o cansaço
de ser manhã quando a noite se debruça
sobre nós, sofreremos
pois tão estranhos seremos ao murmúrio
de suas águas veladas
à música que nada anuncia a não ser primaveras
como agora, sôfregos, nos reclinamos
sobre o líquido móvel deste rio que leva
para o mar distante e irrevelado
estas formas maduras e tranqüilas
este sopro perfeito
daquilo que foi apenas o fugidio e precário pó.

§

Elegia

Sofrer esta infância, esta morte, este início.
As cousas não param. Elas fluem, inquietas,
como velhos rios soluçantes. As flores
que apenas sonhamos em frutos se tornaram.
Sazonar, eis o destino. Porém, não esquecer
a promessa de flores nas sementes dos frutos,
o rosto de teu pai na face do teu filho,
as ondas que voltam sobre as mesmas praias,
noivas desconhecidas a cada novo encontro.
As cousas fluem, não param. As folhas nascem,
as folhas tombam longe, em longínquos jardins.
Em silêncio, vives a infância de teus olhos
e, morto, és tão puro que te tornas menino.

§

A Despedida da Morte

Falo de mim porque bem sei que a vida
lava o meu rosto com o suor dos outros,
que também sou, pois sou tudo o que posto

ao meu redor se cala, e é pedra, ou, água,
cicia apenas: — O teu tempo é a trava
que te impede de ter a calma clara

do chão de lajes que o sol recobre,
este esperar por tudo que não corre,
nem pára e nem se apressa, e é só estado,

e nem sequer murmura: — O que te trazem
é o riso e o lamento, o ser amado
e o roçar cada dia a tua morte,

que não repõe em ti o, sem passado,
ficar no teu escuro, pois herdaste
e legas um sussurro, um som de passos,

uma sombra, um olhar sobre a paisagem,
memória, cálcio, húmus, eis que mundo
nada rejeita, sendo pobre e triste

no esplendor que nos dá. A madrugada.

§

Triste vida corporal

Se houvesse o eterno instante e a ave
ficasse em cada bater d’asas para sempre,
se cada som de flauta, sussurro de samambaia,
mover, sopro e sombra das menores cousas
não fossem a intuição da morte,
salsa que se parte… Os grilos devorados
não fossem, no riso da relva, a mesma certeza
de que é leve a nossa carne e triste a nossa vida
corporal, faríamos do sonho e do amor
não apenas esta renda serena de espera,
mas um sol sobre dunas e limpo mar, imóvel,
alto, completo, eterno,
e não o pranto humano.

§

A bilha

Assim o barro, em tuas mãos pequenas
e machucadas, ergue um vôo, povo:
é um ai de terra, sem nenhum tormento,
um ai de rir e flora, de macio coito
de porcos, quase asa de garça, quase
paina de jatobá, esta moringa aberta
ao frescor que há no sol, charque, avoante,
forma de prenha mulher, quartinha, pote.

Inverso estio moldas em terra e água,
cor de palha e de mel, meu povo, sem distâncias
de serras com que sonhas junto ao cacto,
mas que entorna a noite de seu bojo.

Se o colas ao rosto, vêm as brisas
dos regatos e à boca chegam barro
e ondas de um rio que são choros de parto,
breve esperar, sentido amor, memória
da meninice em tuas mãos que moldam
casa, banco, alguidar, bilros, cancela,
anjos toscos, na fome de teu corpo.

§

Soneto

Quando o sonho se acolhe em nosso corpo,
e o céu navega para nós, alçadas
as nuvens, e as cousas que pensamos
serem caladas, por avaras, falam,

e a flor mais suja sobre a cerca podre
se constela em jardim, e a noite cede,
pendurado morcego, à luz que cresce
das palavras que espero e aqui escrevo,

e quando o tempo não discorre e pára
o apertar do garrote, a roda e as armas
com que a vida a si mesma se guerreia,

tudo é completo, embora frágil, breve
e simples como a vela que se acende
e ilumina, no escuro, o encoberto.

A entrega amorosa como resistência política dos afetos: Catulo exuzado em Bebedouro

Ainda que o gênero elegíaco exista pelo menos desde o século VII a.C. na Grécia arcaica e tenha se tornado popular graças a poetas como Sólon, Tirteu e Mimnermo, por exemplo, aquilo que veio a se desenvolver em Roma, durante o Período Augustano, estabeleceu-se como um modo muito particular desse gênero, chegando quase a ser considerado um gênero à parte devido à sua peculiaridade. A Elegia Erótica Romana, portanto, gênero sem precedente ou paralelo exato na antiguidade, desenvolveu-se na segunda metade do último século antes de nossa era e parece ter se diluído com a mesma velocidade que surgiu.

Composto em dísticos elegíacos, isto é, um hexâmetro dactílico seguido de um pentâmetro dactílico, muito provavelmente para ser acompanhado por uma espécie de flauta (provavelmente o aulos), essa forma poética, que originalmente tinha seus temas bastante variados, como o amor, a guerra, a sapiência etc, tem suas origens um tanto obscuras. Uma origem possível é o epigrama, forma que consistia em pequenos poemas também compostos em dístico elegíaco, muitas vezes tratando do amor de modo subjetivo, cujo nascimento é extremamente material, pois era grafado em pedras e por isso submetia-se às limitações de tamanho estabelecidas pela própria mídia em que era empregado. No entanto, o epigrama, por ser muito conciso, não dá conta da complexidade estrutural da elegia, ainda que possa figurar como uma das origens.

Diante dessa dificuldade de rastrear suas origens, a maior parte dos comentadores concorda que seu fundador teria sido um sujeito chamado Cornélio Galo (69 a.C. – 26 a.C.), de quem nos chegaram apenas dez versos, em estado fragmentário, daquilo que seria seu livro Amores, a quem o orador romano Quintiliano (35 d.C. – 95 d.C.), no livro X de sua Institutio Oratoria, chama de durior (mais duro) dentre os poetas elegíacos. Infelizmente, tal definição nos resta tristemente obscura, graças ao parco acesso que temos à obra de Galo.

Após a figura de Cornélio Galo, então, a tríade dessa poética em Roma é definida pelos poetas Tibulo, Propércio e Ovídio, cronologicamente. Além desses nomes, nos chegaram alguns fragmentos de dois poetas, Sulpícia e Lígdamo, ambos constantes no corpus tibullianum, mais precisamente no começo do livro 3 da obra de Tibulo.

Nesse sentido, se considerarmos que o gênero se funda com Galo, estabelece-se com Tibulo e Propércio e finda com Ovídio, o último dos elegíacos, que morreu em 17 ou 18 a.C., no exílio, temos por volta de cinquenta anos apenas de atividade elegíaca em Roma. Um gênero temporalmente circunscrito, portanto, de modo semelhante à tragédia Ática, que durou apenas um século, mas estabeleceu uma série de topoi fundamentais não apenas para a literatura romana posterior, mas para a literatura ocidental. Entre eles, cabe descartar aqui alguns, como o paraclausíthyron, i.e., o canto para a porta fechada; a seruitium amoris, que é a escravidão amorosa; a noção de magister amoris, quando o poeta se apresenta como professor do amor e dá ensinamentos sobre a vida elegíaca; e a famosa morbus amoris, que é um dos lugares comuns mais caros da antiguidade, podendo ser rastreado já nas poéticas mesopotâmicas e egípcias, e já está presente em Safo, por exemplo, quando o amor é visto como uma doença psíquica que tira o homem de seu centro. Além disso, uma peculiaridade é a inversão das relações de poder, uma vez que nessa poética é a mulher, designada ora como domina (senhora) ora como puella (moça), quem dita as regras do jogo amoroso.

No entanto, os dois traços composicionais talvez mais característicos aqui sejam o recurso da utilização do próprio nome do poeta, que, ainda que não seja propriamente uma novidade, faz-se aqui de modo essencialmente irônico, buscando introduzir uma fissura quase imperceptível entre o gênero e o real. Aliado a isso, os nomes das amadas poéticas, figuras centrais – que em Tibulo se dá através da figura de Délia, em Propércio através de Cíntia e em Ovídio através de Corina – em geral confundem-se com a própria instância criadora, i.e., amada e poesia-obra poética misturam-se num amálgama difícil de apartar, como podemos ver no último poema do livro III de Propércio, quando o poeta ao romper com Cíntia diz que passou cinco anos sendo seu escravo e agora não quer mais, criando uma espécie de paralelismo entre o jogo amoroso e o jogo criativo da escrita.

Dito isto, uma figura fundamental para a compreensão das origens desse gênero é, certamente, o poeta Caio Valério Catulo (87 ou 84 a.C. – 57 ou 54 a.C.), que pertenceu ao Período de César, imediatamente anterior ao período no qual se desenvolveu o gênero elegíaco. Por esse motivo, é difícil dizer, ainda que possamos recuperar uma série de procedimentos elegíacos na poesia de Catulo, que ele pudesse ser chamado de poeta elegíaco. Mas, como isso não nos impedirá de investigar esses traços elegíacos eróticos em seus poemas, vejamos o caso do longo poema 68, em que as características básicas desse gênero vindouro já se estabelecem: temática amorosa, uso mitológico erudito, apresentação mais subjetiva e complexidade estrutural. Neste poema, em forma de carta/elegia, Catulo coloca como tópico central a questão do amor extraconjugal, utilizando aquilo que será muito caro aos elegíacos que é o recurso do paralelismo mitológico, que serve de modo duplo, tanto para corroborar aquilo que o poeta narra com um passado imemorial quanto para demonstrar uma erudição na composição poética. Além disso, sua complexidade estrutural se estabelece através de uma composição anelar, que amarra os tópicos e confere uma espécie de “sinceridade poética” ao eu-lírico.

Outro exemplo fundamental é o poema 67, no qual Catulo opera um paraclausíthyron cômico, colocando a porta como interlocutora que responderá sobre o comportamento infame de sua dona. Novamente, aqui temos a noção de amores extraconjugais e, em termos de retórica, o casamento aparece retratado pelo viés negativo. Temos um marido que não cumpre o himeneu e um estupro do sogro, talvez para limpar o nome do filho; donde podemos tirar resultados doentios para o código marital romano. Além da noção de que a falta de amor marital é a causa para o adultério.

Por fim, o poema 85, epigrama exemplar pela sua concisão e pela tensão entre amor e ódio, tão importantes para o gênero que virá após Catulo, parece lançar as bases desse entrave que são os afetos.

Partindo desse pequeno resumo, podemos conceber que Catulo, sendo um pré-elegíaco, não está criando uma poética de entrega amorosa, da seruitium amoris por conta de um gênero, mas graças a uma questão política. Na antiguidade, sobretudo em Roma, que era tão patriarcal, as relações eróticas se davam fundamentalmente pelo viés dos jogos de poder, pelas relações de dominação. Complicado como é o assunto, não me caberá aqui disseca-lo na minúcia, mas apenas apontar grosso modo que questões como a homossexualidade não pareciam em si figurar como um dilema do modo como parece se apresentar para nós, por outro lado, todos os jogos eróticos pareciam se erigir à base de uma relação intrincada entre atividade e passividade, dominação e subserviência, conquista, por fim, na acepção bélica do termo. Pensando com Mostazo e Leal (A desnaturalização da cisgeneridade: impasses e performatividades, 2017), Catulo parece querer saber “o que querem dizer esses ritos? Por que as sociedades tradicionais – patriarcais, machistas, cisnormativas e o escambau – por que elas têm essa necessidade absurda de afirmar uma correlação entre performance de gênero e órgão genital?”. Os afetos, movimentos verbais que são para o poeta, parecem matizar-se nas múltiplas interpretações políticas do corpo.

Para os romanos, uma das características fundamentais do uir era a capacidade de autocontrole de sua sexualidade, de seus sentimentos, cabendo apenas às mulheres e aos afeminados sucumbir aos arroubos da paixão, entregar-se plenamente à doença da alma. Ao longo de toda a poética catuliana, de modo mais ou menos explícito, essa entrega parece surgir como uma fissura à expectativa masculina. Não à toa, no poema 16, Catulo ataca Aurélio e Fúrio por dizerem que graças aos versinhos delicados o poeta seria pouco viril. É importante também acentuar que essa entrega não se estabelece apenas nos poemas homoeróticos e não se trata de orientação sexual, uma vez que os poemas para Lésbia são muito mais numerosos e igualmente afetados quanto à desmesura do desejo. Importa dizer aqui, recuperando um oriki a Sango e seus adeptos, mencionado por Pierre Verger, que essa poética “ameaça o macho, ameaça a fêmea, ameaça aquele que fala, ameaça o rico”. Trata-se, portanto, de um discurso essencialmente dissidente.

De modo mui delicado e ao gosto da matéria, guardadas as devidas proporções, Catulo parece encarnar a função antidicotômica da figura de Exu, ora entregando-se amorosamente, ora regozijando o pé na bunda que deu, ora amando, ora odiando, ora cantando para Lésbia, ora cantando para jovens rapazes. Desse modo, um viés tradutório muito específico possível é a aproximação do poeta romano com a obra de Ricardo Domeneck, poeta queer cujo trabalho constantemente perturba a noção patriarcal de masculinidade. Em Domeneck, a entrega amorosa, completamente corpórea, e que tem seu lastro, por exemplo, em alguns trabalhos dos cineastas Almodóvar e Haneke, para além de se encerrar na questão da homoafetividade, que é claro fundamental para a sua obra, coloca em xeque aquilo que se espera como operação masculina no mundo ocidental. Toda noção de dominação, de força, de virilidade são corrompidas, borradas e apresentadas no limiar de um corpo quase agênero, como no poema “X + Y: uma ode”, presente no livro Ciclo do amante substituível (2012). No entanto, o poema mais exemplar dessa entrega como resistência está no livro Cigarros na cama (2011, p. 56), em que o poeta diz:

Seguir amando você, Moço,
sem receber algo em troca,
quando os amigos ao redor
me chamam de tolo, idiota,
é a minha única resistência
efetiva contra este sistema
capitalista, que agora reina.
De algum ponto da estante,
Rumi sorri, e Simonei Weil.

É a partir desse ponto de subversão do homem como dominador, portanto, que, ao ceder à entrega amorosa, o poeta não apenas alarga a noção da própria masculinidade como também opera uma crítica a todo o sistema patriarcal. Essa aproximação, aqui, para além da mera aproximação semântica buscará se estabelecer no nível fraseológico do verso, uma vez que prática poética de Domeneck parece ir na contramão da fluidez e da entrega semântica e ao criar uma antinaturalidade intrincada da leitura do verso, parece assinalar, no nível formal, a agonia erótica.

Passemos, então, ao poema 50 de Catulo, a seus comentários e sua tradução.

L. ad Lucinium

Hesterno, Licini, die otiosi
multum lusimus in meis tabellis,
ut conuenerat esse delicatos:
scribens uersiculos uterque nostrum
ludebat numero modo hoc modo illoc,
reddens mutua per iocum atque uinum.
atque illinc abii tuo lepore
incensus, Licini, facetiisque,
ut nec me miserum cibus iuuaret
nec somnus tegeret quiete ocellos,
sed toto indomitus furore lecto
uersarer, cupiens uidere lucem,
ut tecum loquerer, simulque ut essem.
at defessa labore membra postquam
semimortua lectulo iacebant,
hoc, iucunde, tibi poema feci,
ex quo perspiceres meum dolorem.
nunc audax caue sis, precesque nostras,
oramus, caue despuas, ocelle,
ne poenas Nemesis reposcat a te.
est uehemens dea: laedere hanc caueto.

Neste poema, cujo mote é a rememoração do eu-lírico de quando os amigos – para mais relações entre as palavras amor e amicus, conferir o ensaio de Guilherme Gontijo Flores, Traduzir amizades: Catulo e a poética do amor em Roma –, Catulo e Licíno Calvo, a partir da poesia grega, performava jogos literários um ao outro, todo o vocabulário e a construção imagética recupera noções da mélica grega arcaica ao mesmo tempo em que aponta para uma dimensão homoerótica quando o poeta deixa seu amigo e retorna para casa. A cena, que se estabelece naquilo que seria um banquete privado, vai dando novos contornos ao vocabulário utilizado por Catulo; lusimus, por exemplo, que se trata essencialmente de “brincar”, “jogar”, donde deriva nosso termo lúdico

50. Texto em que o poeta se entrega completamente a Licínio

Lembro ontem, Licínio,
quando eu e você
brincávamos
com a língua nas tábuas
e delicados
como você preferia e acato
era de verso uma troca
e troca
de vozes entre vinhos
e outras substâncias.
E de lá saí, implosivo,
após brincar de balanço
em tuas cordas vocais
e ouvir tua fala de fodas, Licínio,
que recusava todas as proteínas
que não vinham de ti, e meus olhos
se alumbraram a noite toda.
Em delírio na cama aguardava o café
da manhã e teu leite
feito bezerro
para outra vez feito taquara rachada
cantar no canto do teu quarto,
mas depois, o sol já fálico,
em dispneia,
todos os membros inanes sobre a cama,
te fiz um poema, Licínio, meu Davi mais bem dotado,
para traduzir-te estas aflições tupiniquins
que tua língua jamais alcançará.
Sinto vontade de ajoelhar e implorar,
meu bichano,
que não troces, que não cuspas neste prato
de um restaurante de quinta categoria,
para que os deuses deste poeta,
com pretensões helenizantes, não te punam.
Poeta recalcado: cuidado! Não ofenda.