essa língua tão áspera: Lioba Happel, por Valeska Brinkmann

bordão dos bordões estampado nos melhores trapos e na pior alta costura: “a tradutora é uma traidora” – mesmo que na nossa língua machista [e racista, homofóbica, etc.] lemos-ouvimos no masculino. fonte segura do século XVI, malinche em pessoa me apareceu em sonho pra dizer: quando trump separou as crias da mamis e quis botar um muro separando o mundo da sua coroa megalomaníaca, culparam a minha tradução – tradutora, traidora.

e junto do bordão, o rabo do cometa vem enrabado com o arremate: “só leio no original”. risos.

fico pensando nas folhas e folhas sagradas traduzidas por João Almeida Ferreira e que viraram puro pango de angola enquanto se cantava fogo na babilônia ou na bahia. nos yoga sutras de patanjali que minhas costas inverteram e que a galera goodvibes reproduz em yogamats de 200 paus trocados a cada dois meses porque o suor é tão corrosivo quanto os risos autênticos dos sem-dentes; porque o suor é tão carnal quanto betty davis [sim betty a preta e não bette a branca]; o suor é tão quente quanto os calangos comestíveis de fortaleza fugindo de quem tem fome.

eu penso em muita coisa, só não consigo pensar muitas línguas, embora consiga beijar muitas línguas.

eu penso em muita terra arrasada, só não consigo pensar a partir de suas línguas mortas, embora consiga pensar em pilhas de gentes mortas desde todos os genocídios desde que o mundo é mundo.

eu penso os amontoados de inquiliners lutando pelo direito à moradia e à cidade em berlim, só não consigo pensar em como organizam a porra toda se penso que tão fazendo-falando tudo em alemão.

eu não falo alemão. não ouço, não leio, não entendo bulhufas, necas, nadinha. só sei o que é liech bi liech e com certeza tô escrevendo errado [não vou ali conferir na janela ao lado: há uma beleza nisso, o erro, o fracasso, o punhal da traição que é tão somente questão de sobrevivência], mas amar eu sei amar direito, amo com os peitos e com o corpo inteiro, até com as unhas, e até com os pêlos, mesmo quando tô depilada.

e ainda que eu falasse a língua dos anjos alemães sim ainda assim eu leria na língua tupiniquinim “anjos não têm sexo”. talvez em alemão estivesse escrito algo como anjes não têm sexo [“je vois des anges!” diria manuel dando bandeira]; talvez em alemão estivesse escrito algo como anjes são não binários [ou bipolares ou bizarros ou bilionários, sugere a janela vizinha]. que história pra boi conservador dormir! entre a oração e a ereção ora são, ora não são [o que não sabe o original, sabe a tradução, e viceverso].

todas as línguas são tão boas ❤ duas línguas dão mais prazer que uma. e três mais que duas. e sempre cabe mais, só não cabe tempo pra aprender amar essa babel sem fim.

traduzir é uma delícia. ler textos traduzidos – poemas, é uma delícia. colocar uma ali peladinha ao lado da outra, mesmo conhecidas – desconhecidas: novas poemas, delícias.

mas: eu nunca falei alemão, e esse é um dado muito importante. a maioria das pessoas nessa terra onde queimam florestas e cortam línguas e matam gente pobre e preta e interditam corpos nunca falaram e nunca vão falar alemão. então só podemos amar e amar muito a cama feita tão delicadamente por Valeska Brinkmann. e como estou inlove com essas poemas. e como podemos entender muito exatamente em brasileiro como é estar cansada Lioba Happel, e seu ódio e medo e amor, e entender muito mesmo, ó e como, quando escreve sobre um presidente montimerda; e minha nossa, até posso vê-la, olhar Lioba, assim meio que com Valeska na nossa frente como se fosse um halo transmissor, um dispositivo de linguagem, e fico olhando muito pros olhos de Lioba [adoro seu nome Lioba], que são olhos de Valeska também, te olho tanto esta poema que ela se funde noutra, criando asas querida, criando ossos queridas, porque é poesia enfim, e poesia é feita de muito mais que palavras, idiomas. é minha língua nas tuas.

nina rizzi

*

Lioba Happel nasceu em Aschaffenburg, 1957, norte da Baviera. É autora de poemas e textos em prosa. Estudou Serviço Social em Bamberg, depois Estudos Alemães e Hispânicos; concluídos em 1986 com um mestrado na Freie Universität de Berlim.

Trabalhou como escritora freelance em Berlim. Ainda hoje desenvolve um trabalho autônomo como tradutora de inglês e francês, revisora e profesora de alemão, em Berlim e Lausanne (Suíça), e paralelamente também trabalha com pacientes com distúrbios de demência.  

Happel teve longas estadias na Inglaterra, Irlanda, Itália e Espanha. Alguns de seus poemas foram musicados e apresentados em saraus e feiras literárias pela Alemanha.

Foi agraciada com vários prêmios e bolsas, entre os quais o Friedrich-Hölderlin-Förderpreis em 1989 e a residência artística da Villa Maximo (Roma) em 1994. Em 2020 ganhou o prêmio de Poesia da Faculdade Alice Salomon, em Berlim (entregue em janeiro de 2021) e será professora convidada no ano letivo de 2021 nessa mesma instituição.
*

Li pela primeira vez a poesia de Lioba Happel na revista literária Poetin, de Leipzig. Logo me senti atraída ela sua escrita imprevisível, instável, cujas imagens contam de outro tempo e lugar, de alguma forma familiares, mesmo não sendo.

Foi por essa escrita conter uma ambiguidade séria, proximidade e distância; ser ao mesmo tempo dilacerante e cética, que desejei me aprofundar mais em sua poesia.

A partir do seu trabalho como assistente social, especificamente com pacientes em situação de demência, faz suas reflexões sobre a doença transmutarem em imagens de linguagem. Segundo ela declara numa entrevista: “A demência, para mim, se tornou uma espécie de poesia que se apresenta na dureza, na dificuldade: variando lugar e palavra. 

Happel recentemente afirmou que o interesse em estudar serviço social foi além da curiosidade: a compreensão da noção de alteridade, o desejo de ajudar. E fazer poesia pode também ajudar? – é ela mesma quem levanta a questão.

A poesia de Happel é a expressão de diferentes idiossincrasias. Procurei manter, na minha tradução, a estrutura e a ambiguidade das palavras. Às vezes dei preferência às imagens à sonoridade. Durante o trabalho surgiram inúmeras dúvidas das mais simples como que gênero usar, até mais complexas como palavras inventadas e imagens figurativas em alemão que eu não conhecia. Interessante no processo é que tive a oportunidade de tirar dúvidas com a própria Lioba, a quem agradeço imensamente.

Traduzir é algo que me dá um estranho prazer, é uma ginástica mental, que me permite explorar diversos dicionários – até de um amigo engenheiro -, experimentar palavras, sons, além de inspirar minha própria escrita.

Com essa pequena amostra tenho o prazer de apresentar o trabalho de uma valorosa poeta alemã contemporânea ainda inédita na língua portuguesa.

Os três primeiros poemas são mais recentes, de 2017, e os três últimos de 2009 e pertencem ao livro Puls 100 Gedichte  – Edition Pudelundpinscher, 2017, Suiça. (www.pudelundpinscher.ch) 

Valeska Brinkmann

*

Pulso

Quando você está cansada não lhe ocorre
como se chama o veneno que você bebeu ao invés da própria vida
e se a palavra veneno devia aparecer mais uma vez em um poema
como é beber o Rio do
Esquecimento e se o sibilo no seu lábio
vem de querer escrever poesia ou do tremer
Quando está cansada você segue o caminho que quer
segue para dentro da mata espessa onde raposas estão sentadas prontas
para cuspir as iscas da raiva prontas
para se afastar majestosamente ou
com rostos velados pela espuma
acossar você esperar por você até
quando você se cansar
raquíticas e famintas com seus
olhos de raio-x à noite
Quando você está cansada não importa se lhe convidam
para comer no meio delas o frango ou se
atacam trituram seus ossos fazem a ceia
Quando você está cansada você para de lamber o sal dos
polegares e lágrimas estão tão distantes como
rios de verdade em um poema sobre rios que também não se molha
Quando você está cansada você não pergunta a sério
por que um poema sobre rosas não tem perfume
por que ele não entranha espinhos nos seus dedos
por que não uma manhã desbotada de dedos ou
nobreza inglesa amarelada ou cor de sangue tinto
de Kissinger não respingam do poema
Quando você está cansada você imagina
que a poesia poderia muito bem existir sem você
com ou sem um poema seu
ou ter perdido a razão
Quando você está cansada não sabe mais mesmo
se ela ou você ou o próprio mundo com o
sem um poema seu existe
mesmo que você adormeça
mesmo quando você se for

Puls

Wenn du müde bist fällt dir nicht ein
wie das Gift heißt das du statt deines Lebens getrunken hast
und ob das Wort Gift noch einmal in einem Gedicht
genannt werden darf wie es ist den Fluss des
Vergessens zu trinken und ob das Zirpen an deiner Lippe
vom Wunsch zu dichten kommt oder vom Zittern
Wenn du müde bist gehst du den Weg den du gehen willst
hinein in das Dicklicht in dem Füchse sitzen bereit
die Köder der Tollwut auszuspeien bereit
auf und davon zu stolzieren oder
mit schaumumflorten Gesichtern
wenn du müde bist es auf dich
abgesehen zu haben auf dich zu warten  
ausgemergelt und hungrig mit ihren
Röntgenaugen bei Nacht
Wenn du müde bist ist es gleich ob sie dich einladen
das Huhn in ihrer Mitte zu fressen oder ob sie dich
anfallen deine Knochen zerknacken das Mahl halten
Wenn du müde bist leckst du nicht mehr das Salz von deinen
Daumenballen und Tränen sind so weit fort wie wirkliche
Flüsse in einem Gedicht über Flüsse das auch nicht nass wird
Wenn du müde bist fragst du dich allen Ernstes
warum ein Gedicht über Rosen nicht duftet
warum es dir nicht Dornen in die Finger krallt
warum nicht falber fingriger Morgen oder
gelber englischer Adel oder dunkelblutige
Kissinger Farbe aus dem Gedicht tropfen
Wenn du müde bist bildest du dir ein
die Poesie könne getrost auch ohne dich
mit oder ohne ein Gedicht von dir
oder nicht ganz bei Trost sein
Wenn du müde bist weißt du überhaupt nicht mehr
ob sie oder du oder die Welt selbst mit oder
ohne ein Gedicht von dir ist
selbst wenn du einschläfst
selbst wenn du fort bist

*

Um pequeno movimento no sono e eu já sabia
que estava sendo odiada

Não soltei as amarras dos pesadelos
nem bradei gritos raiventos de guerra 

Nenhuma bandeira quis ser hasteada
nenhum desespero descer nas canoas por entre talos

Nos canaviais espreita aquele que me ama, aquele que me odeia
Ódio, ódio – está gostando coraçãozinho?

Nisso alguém estica a língua pra você
e você não sabe se está morrendo 

de medo ou amando
assim ofuscada você leva a mão sobre os olhos –

como se estivesse à procura da verdade
se é amor, e não ódio, amor que mata

Amor, volte para os arbustos
deixe os galhos tragarem você

esconda-se na vegetação rasteira
amor desfaleça, amor apodreça, desfaleça…


Eine kleine Bewegung im Schlaf und ich wusste
dass ich gehasst werde

Keine Alpträume ließ ich vom Stapel laufen
auch keine kleinen zornigen Kriegsrufe

Keine Flaggen wollten gehisst werden 
keine Verzweiflung sich in Kähnen zwischen die Halme werfen

Im Schilf lauert der, der mich liebt, der mich hasst
Hass, Hass – wie schmeckt dir das Herzchen?

Da streckt dir eine die Zunge heraus
und du kannst nicht spüren, ob du zu Tode

erschrocken bist oder liebst
so geblendet hebst du die Hand über die Augen – 

wie man halt Ausschau hält nach der Wahrheit
ob es Liebe ist, nicht Hass, Liebe, die tötet

Liebe, zieh dich ins Gebüsch zurück
lass die Zweige über dir zusammenschlagen

verbirg dich im Unterholz
Liebe verfalle, verfaule Liebe, verfalle…
 
*

o presidente é um
assistente de ligação.
casado consigo mesmo, fica óbvio
ele é querido deus. um seria, um será, um foi
sou sempre eu. um letargo, um não se mexe
um livro ilustrado, motim, gravata
embuste chanfrado, atômico, um botão
um cotoco de fezes arremessado pro alto, uma cabeça
um carniceiro, sonho na fossa
o reverso de servo do senhor, animal sem instância
peixe sem rede, um calafrio é
brutalmente gélido, abrasivo, visto à luz
ele finge não ter qualquer significância, diz
pessoa não há, a quem ele sirva


der präsident ist ein
verbindungsassistent.
vermählt mit sich, wird deutlich
ist er lieber gott. ein würde, werde, war
bin immer ich. ein schläfer, ein beweg dich nicht
ein bilderbuch, krawall, krawatte
schräg gebürstet, atomar, ein knopf
ein hochgeworfenes stück kot, ein kopf
ein schlächter, traum im schacht
verdrehter knecht des herrn, tier ohne not
fisch ohne netz, ein schüttelfrost ist
brüllend eisig, heiß, bei licht besehn
tut er bedeutungslos, sagt
wem er dient, den gibt es nicht

*

agora anoiteceu
agora vejo você

você mantém os olhos fechados
no fundo de um poço

você mantém os olhos fechados
como se caísse em mim

devo ter tido um sonho ruim
em que você nada era além de um sonho

quando você abrir os olhos
já estarei acabada

agora anoiteceu
agora olho para você


jetzt ist es nacht geworden
jetzt sehe ich dich

du hältst die augen geschlossen
am grund eines brunnens

du hältst die augen geschlossen
als seist du in mich gefallen

ich habe wohl schwer geträumt
dass du nichts als ein Traum seist

wenn du die augen öffnest
wird es mit mir vorbei sein

jetzt ist es nacht geworden
jetzt sehe ich dich an

*

chamado matinal veranil do céu
ministros do ouro estão a caminho, penso eu

estremeço as asas uma vez mais
me lembro dos tempos sonantes porque

de repente, o vento volta a soprar
como desassossegos sobre zonas noturnas


sommermorgenruf des himmels
goldminister sind unterwegs glaube ich

schüttel die flügel noch einmal
erinnere mich an schallzeiten weil

plötzlich der wind wieder kommt
wie einiges haderndes über die nachtzonen

*

Meu pai foi ao cipreste com tanta certeza
Num piscar de olhos um gato senta na árvore 

O gato é esperto e quer conversar com ele
Meu pai para e olha para o chão em silêncio

Indiferentes ficam lá para sempre
É bom que o gato seguiu meu pai

Ele não consegue entender a conversa 
Eu no entanto não tenho mais permissão para abraçá-lo

Agora ele escuta a lua eu abro minha boca
Um som flui do limite do pensamento conjunto

Através de seus ossos até o solo arraigado
O som se torna a palavra que nos manteve sempre controlados

Meu pai foi ao cipreste com tanta certeza
Agora ele partiu

Agarro o gato
Pare de chamar por ele

Mein Vater ist so sicher zur Zypresse gegangen
Im Handumdrehn sitzt eine Katze im Baum

Die Katze ist klug sie will mit ihm sprechen
Mein Vater bleibt stehen und blickt schweigend zu Boden

Sie sind gleichgültig dort sie bleiben für immer
Es ist gut dass die Katze meinem Vater gefolgt ist

Er kann nicht verstehen was ihr Reden bedeutet
Ich aber darf ihn nicht mehr umarmen

Er horcht jetzt auf den Mond ich öffne den Mund
Ein Laut fließt vom Rand des gemeisamen Denkens

Durch seine Knochen bis tief in den Boden
Der Laut wird zum Wort da uns immer in Schach hielt

Mein Vater ist so sicher zur Zypresse gegangen
Jetzt ist er fort

Ich greif mir die Katze
Hör auf ihn zu rufen

*

Valeska Brinkmann, 1972, nasceu em Santos. Estudou Rádio e TV em São Paulo (Faap). Trabalha na emissora pública de Berlim, onde vive há 18 anos. Escreve poemas e contos.

*

caruru bravo | poesia no caribe

Ebony G. Patterson
…they were discovering things and finding ways to understand… (…when they grow up…), 2016 [detalhe]

se brasil é uma catástrofe que aconteceu a essa terra [sentença que tomo de assalto de Juliana Fausto, et caterva], também uma ideia conjuntural do que seja caribe ou antilhas possa ser lida de modo simétrico à primeira afirmativa. não quer dizer, contudo, que não sejam possíveis confluências, transfluências entre os espaços em suas injunções artísticas e culturais, bem como na força do pensamento interessado, principalmente mas não só, que tanja certo circuito dos planos contracoloniais e das discussões acerca da diáspora e da racialidade. bem certo que o uso dinâmico desses e outros conceitos sejam, eventualmente, problemáticos, mas não é só de chacrinha que são feitos os dispositivos de ação.
há tempos que o uso folclórico da captura radiofônica mais ao norte do país, apelidada de ondas tropicais, vem alimentando toda uma circulação musical e aparelhando as novidades cá mais ao sul das américas [américa, outra catástrofe]. não saberia, mesmo, dizer se acontece de modo similar, com força equivalente, entre as artes verbais. no campo da poesia, também do romance, nossos repertórios não me parecem tão bem resolvidos — salvo iniciativas universitárias, no campo das ideias, que alimentam as teorias decoloniais, também enfileiradas nas múltiplas entradas do pensamento racial e diaspórico, e do pensamento ameríndio, com latência mais abrangente, expandindo o pensamento transcontinental.
tomando como exemplo a circulação da poesia anglófona realizada naquilo que se convencionou chamar de caribe, temos, resguardada minha ignorância, a presença de um Walcott traduzido por aqui [no brasil, por paulo vizioli, e também na escamandro, por alberto pucheu] cuja recepção, assim me parece, foi mais morna que deveria, se comparada ao incensamento da poesia preta estadunidense. e não ousaria dizer que houve muito mais. na região francófona temos, exemplarmente, Césaire e algo e outra coisa de Chamoiseau e algo e outra coisa de Glissant, bem como a revisitada obra de Fanon, todavia não comparecem, tais autores, necessariamente na área de invenção [romance, poesia, etc]. evento recente vindo a público está ESTILHAÇOS — Antologia de Poesia Haitiana Contemporânea [Demônio Negro], organizada por Henrique Provinzano Amaral. as vozes hispana hablantes, por sua vez, tem encontrado melhor sorte, maior lastro, muito embora ainda seja terreno a ser explorado e, mais uma vez, o campo universitário conduza as ações mais prolíficas, como, pra ficar em um só exemplo imediato, o trabalho de Lucía González, Luciana di Leone e o Núcleo Poesía (Laboratório da Palavra – PACC – UFRJ).
o raio de influências entre os poetas no brasil ainda precisaria de maior vasculhamento, muito embora se sinta a presença forte de Brathwaite, entre outras vozes, em HOMELESS (2010, Mazza Edições) de Edimilson de Almeida Pereira [principalmente nas intervenções visuais e de disposições violentamente espatifadas na mancha gráfica], também a sombra de Césaire em seu Caderno de Retorno (2017, Ogum’s Toques) . Leo Gonçalves, com o seu livro Use o assento para flutuar (2018, Crisálida), ele mesmo tradutor de Césaire, também de Senghor (que não é caribenho, mas cabe a citação pelos influxos e diálogos), além de outros, a mim me parece dialogar frontalmente com essas linhas de força. algo do projeto de Eliane Marques, poeta forte em nosso cenário, em que pressinto alusões ao comportamento lírico-político de certa poesia nas antilhas em E se alguém o pano (2015, Après Coup – Escola de Poesia), bem como em Nina Rizzi, lembro especialmente de Quando vieres ver um banzo cor de fogo (2017, Patuá) a conversa se dar tanto com os cenários hispânicos, quanto anglófonos do caribe, considerando ainda seu trabalho de tradutora, junto das vivências de trânsito e de gênero e de raça dentro no brasil.
com justo interesse em colocar outras presenças em nosso repertório, começo uma série de poetas [homens & mulheres] nascidos nesse espaço complexo que é o caribe, muito embora a imensa maioria deles esteja em estado de migrância, outro tema caro às considerações teóricas & críticas em nosso cenário de aqui e do mundo, e, eventualmente, trarei também figuras que são mais diretamente dialogantes e/ou descendidas desse espaço. contribuições são bem vindas, em tempo próximo, considerando o que as novas proposições editoriais da revista escamandro tem colocado: traduções, dossiês, leituras largas, por aí vai.
entrego, como abertura dos trabalhos, algumas traduções de 3 poetas: Anthony McNeill (1941-1996), Delores Gauntlett (1949) e Kei Miller (1978), nascidos todos na Jamaica. espero que se divirtam. Jah Bless.


Anthony (Tony) McNeill (1941—1996) nasceu em Kingston, Jamaica. trabalhou por um tempo nos EUA antes de retornar à Jamaica em 1975. atuou também no jornalismo, produção de rádio, funcionário público, gerente de hotel, vendedor de enciclopédia fracassado e zelador. Entre 1975-1981 foi editor-assistente do Jamaica Journal. sua maior ambição era ser um pianista de jazz, mas, disse ele: “talento, talvez, não seja o bastante”.
publicou Hello Ungod, 1971; Reel from “The Life-Movie”, 1975; Credences at the Altar of Cloud, 1979 e, postumamente, Chinese Lanterns from the Blue Child, 1998, de onde saem os poemas traduzidos por mim, contando, ainda, com sugestões pontuais e precisas de Patrícia Lino e Guilherme Gontijo Flores. a série “apples & crosses”, dotada de um lirismo contido, de algum modo a mim me lembram breves orikis, muito embora, que se saiba, McNeill não tenha, precisamente, frequentado esses diálogos. aqui e ali tensionei questões em relação a certos desdobramentos, como no último movimento do primeiro poema, em que a implicação entre os termos pai/pena poderiam não ser perdidos, bem como numa tradução implicada de “blue”, cuja força adjetiva, a depender do enunciador, tenho tomado como uma ética traduzir por “banzo”, contudo, ainda mirando o desdobramento, bom, vocês vão chegar lá. também, coincidentemente no último movimento, no segundo poema faço uma opção por duplicar uma entrada para “lyrics”, retomando, primeiro, a volta à ideia de navegação do primeiro movimento, utilizando “loa”, dicionarizada como “toada de acento doce e melancólico composta por canoeiros e executada ao ritmo dos remos” e dobrando-a com “lira”, bom, creio que nesse passo não careça maior explicação — muito embora eu tenha querido recuperar a aliteração existente no original.

* * *

MAÇÃS & ENCRUZILHADAS

1_____Ainda não aconteceu
______Voar
______no desvanecer

2_____Se você não quiser ter má sorte no amor
______Case com meu poema
______Em vez disso

3_____Vejo além o futuro mais radiante
______O poema que esboço é
______Uma corruíra mágica

4_____Ofendi-me tão a sério, quanto assumi anos perdidos
______Nem ninguém podia me perdoar
______Agradeço, adorável outra, cujas cartas a fina-flor são flores de credo

5_____É evidente que minha mãe me vê como desviado
______Eu subo em palmas e desabo em pés
______Meu poema imune no sobrado

6_____Quando você vai parar no marmeleiro
______Corruíra
______Do silêncio dos pinheiros

7_____Você aparece também no meio da estação das flores
______Anjo
______da Morte, Alô

8_____Estou esboçando este poema para você, Anne adorável
______Pois a sua norma-carinhosa
______Já era

9_____É hora de largarmos nossas armas
______E partir o pão juntos
______Isto é do interesse das estrelas condenadas

10____Deus não tem nem pai
______Nem pena, por isso
______O céu é banzul

APPLES & CROSSES

1_____It hasn’t yet happened
______Wing
______on the fade

2_____If you want not to be unlucky in love
______Marry my poem
______Instead

3_____I can see beyond the most radiant future
______The poem I’m writing’s
______A magic wren

4_____I injured both badly and owned up years late
______One couldn’t forgive me
______Thanks lovely other whose letters are flowers are flowers of faith

5_____It’s apparent my mother sees me as lost
______I ascend in inches and topple in feet
______My poem immune at the loft

6_____When will you stop in the quince
______Wren
______From the winter-tree’s silence

7_____You appear in the middle of springtime as well
______Hello Death
______Angel

8_____I’m writing this poema to you lovely Anne
______For your paradigm-caring
______Gone

9_____It is time for us to lay down our guns
______And break bread together
______This in the interest of the doomed stars

10____God has no father’s
______That’s why
______The sky’s blue

§

LANTERNAS CHINESAS DA CRIANÇA BANZA

  1. [21/1/93 — 28/1/93]
    Esta noite no céu todas as estrelas se apagaram
    E eu estou navegando só
    Na jangada de meu corpo
    Sobre o mar noturno
  2. [28/1/93]
    Eu vago o mundo em busca de meu pai e mãe
    Eu vago a lua em busca de meus irmãos
    Eu vago a lua em busca de minhas irmãs
    Então alvorecem no vale
    Solitários feito deus
  3. [29/1/93]
    Um tempo atrás, em um vilarejo na China
    Um moleque lançava balões de papel
    Antes de atravessar o mar
    Passou o segredo
    da engenharia
    para mim
  4. [14/2/93]
    Não consigo me lembrar quem escreveu o verso
    Cantarolei, contudo, minhas correntes são tais como o mar.
    Que estupidez a minha
    Noite de Verão
    Mais que a beleza de loas & liras.

CHINESE LANTERNS FROM THE BLUE CHILD

  1. [21/1/93 — 28/1/93]
    Tonight all the stars in the sky have gone out
    And I’m sailing alone
    In the ship of my body
    Upon the night sea
  2. [28/1/93]
    I wander the world in search of my mother and father
    I wander the moon in search of my brothers
    I wander the moon in search of my sisters
    Then they dawn on the valley
    Lonely as God
  3. [29/1/93]
    Once long ago in a village in China
    A boy cast word-lanterns
    Before crossing the sea
    He passed on the secret
    of building
    to me
  4. [14/2/93]
    I cannot remember who wrote the line
    Though I sang in my chains like the sea.
    How stupid of me
    Summer night
    Beyond the beauty of lyrics.


Delores Gauntlett (1949) nasceu em St. Ann, Jamaica. tem publicados os seguintes livros de poemas: Freeing Her Hands To Clap (2001) e The Watertank Revisited (2005). Seu trabalho tem aparecido em antologias, revistas e jornais, incluindo: The Observer Literary Arts, The Caribbean Writer, The Gleaner, London Poetry Society’s Poetry News, Kunapipi, Hampden-Sydney Review, Magma, German-Bayswater Textbook, The Jamaica Journal, Bearing Witness, Anchor Books. o poema “a song for my father” foi retirado da antologia New Caribbean Poetry (2007), organizada por Kei Miller. “Writing a Poem in Metre”, um poema de seu segundo livro, é composto com um certo fantasma do iâmbico, jogando, polirritmicamente com aparições de pentâmetros e variantes a menor. Busquei, assim, reproduzir, quando possível, em decassílabos e dodecassílabos, majoritariamente. Para melhor efeito e identificação mais imediata, por exemplo, traduzo “pentameter” por “decassílabo”; quando Delores cita o espondeu [spondee], por ser difícil compreender prosodicamente a performatividade desse pé em nosso registro métrico, substituo por “anapesto”, criando uma consecução rítmica com 5 acentos marcados [em anapesto], brincando com a ideia do pentâmetro que em nosso registro poético tem previsto, então, apenas contagem silábica. Nesse mesmo verso, ainda, como perderia semanticamente o efeito onomatopaico de “splash”, crio uma alternativa que perde a repetição, mas cria a presença do som, mais um dos sentidos do termo da língua de partida.

* * *

Uma canção para meu pai

Contra o pé de cará do silente jardim
uma corruíra bole com meu pai: o sobe-
desce da picareta, a goela arfante
do pássaro oculto reclama
as sutilezas da canção.
Isso viria a ser lembrança do mato alto
roçando molhadinho as galochas escuras.

Não percebi que estava olhando ele
quando, como se num altar,
curvou-se com as mãos nuas cavando rápido
até a cabeça do cará surgir
como uma floração da terra;
a canção da corruíra empoleirou-se
sobre os sentidos, então flutuou
das folhas do pimentão orvalhado
e, como um perfume, se foi.

A Song for My Father

Against the yam-vine quiet of the garden
a nightingale stirred with my father: the lift
and fall of the pickaxe, the heaving throat
of the hidden bird exacting
the subtleties of song.
This would become the memory of high grass
brushing wet against the black waterboots.

I didn’t realize I was watching him
when, as to an altar
he bent with bare hands to a sudden digging
till the head of yam surfaced
like a flowering from the earth;
the nightingale’s song perched
upon the senses, then drifted
from the dewy pimento leaves
and, like a scent, was gone.

§

Escrevendo um Poema na Medida

Toma chuva, a algazarra
na cabeça de um doido,
e transforma essa coisa
numa sonata.

(Wayne Brown: ‘Crítico’)

Nada na página tinha sentido.
Estava muito pronta a desistir
de me gastar no decassílabo,
de me sentir um peixe puxado do mar
para a luz do sol escaldante,
quando não-quero-nada-sério é seu xaveco
e um correio do coração me dá trabalho.
Que cada verso deve deslizar na pele,
no sangue, materializado da nuance
de som sobre som, como bate um coração!
Me lanço para dentro da marola,
cruzando a nado a baía de pés jâmbicos:
com uma, duas, três batidas sob a água,
arrastada, arrastada contra a correnteza,
dando uma cambalhota no capote,
vendo a água espalhar-se em minhas mãos,
no chuá do respingo em que cada anapesto bem lento
estende minha ideia para além do mimo.

*

Chame isso música, a buzinaria,
divertindo cedinho de manhã a ideia,
ou subir a ladeira até fechar as contas
andando um metro quando um pé não entra.
Para quem me pergunta
“Qual vantagem se tira disso tudo?”
Eu só posso falar por mim,
descobre aí o que tenho a dizer,
pega na minha mão, me leva por veredas
nas quais posso perder tempo voltando.

Writing a Poem in Metre

Takes rain, the racket
in a madman’s head
and strains it
into sonata.
(Wayne Brown: ‘Critic’)

Nothing on the page made sense.
I was on the brink of giving up
fretting in pentameter,
feeling like a fish pulled from the sea
into the fierce sunlight,
when your no-fooling-around approach
and a direct heart sent me to work.
That each line should slip under the skin,
as in the blood, fleshed out from the nuance
of sound on sound, as in the beat of a heart!
I pushed off into the swell,
swimming across the bay of iambics:
three, four, five beats underwater,
pulling, pulling against the tension,
taking a turn on my back,
watching the water scatter from my hands,
splash, splash, each slow spondee
stretching my thought beyond recollection.

*

Call it the music in the traffic-hiss,
entertaining an early morning thought,
or the climb uphill to the first clearing
to move around in when a foot doesn’t fit.
To one who asks
“What’s the good of all that?”
I can only speak for me,
that it discovers what I have to say,
takes my hand and leads me down a lane
from which I can take my time returning.


Kei Miller (1978) nasceu em Kingston, Jamica. reside, atualmente, na Inglaterra e têm publicados livros de contos, romances e ensaios. sua poesia encontra, até o momento, os seguintes volumes: Kingdom of Empty Bellies (2006); There Is an Anger That Moves (2007); A Light Song of Light (2010) e The Cartographer Tries to Map a Way to Zion (2014), livro de onde saem 8 poemas de uma longa série que atravessa a obra. os poemas que seguem logo abaixo foram traduzidos conjuntamente por mim e Guilherme Gontijo Flores, experiência que temos realizado desde a confecção de Uma a Outra Tempestade [no prelo], a partir de Shakespeare & Césaire. Há um momento, entre nós, nessa experimentação tradutória, em que já não se sabe mais qual solução é de quem. nossa prática consiste em manter um documento aberto em que podemos manipular livremente as soluções de um e de outro, sem marcação de anterioridade, subtraindo, assim, a presença forte de uma mão tradutorautoral tão evidente. alguns movimentos na tradução de Miller são, com maior ou menor dificuldade, instigantes. há um uso, mais ou menos sistemático, de elementos prosódico-sintáticos oriundos do uso de patois, pigdin, iyaric e outras nuances da rotina da língua. a presença da figura do rastaman nos poemas é um indicador de que as coisas vão se complicar quando em contato com elementos locais, não apenas da paisagem, mas das linhas orais imbricadas na composição dos poemas. o jogo constante do léxico e sintaxe utilizadas pelo rasta não deveriam, a princípio, ficar entre a dimensão urbana de um rapper e a figuração rural de um preto-velho, muito embora sejam figuras reconhecíveis pela maioria de nós e, talvez, pudessem cumprir função. o uso de conceitos técnicos, como, por exemplo, “immappancy”, particularmente gerou trabalho. o termo, cunhado por Kai Krause, mixa “illiteracy” (analfabetismo) e “innumeracy” (não saber fazer contas, o analfabetismo dos números), com o sentido de “incapacidade de usar mapas”. tentaram-se inúmeras variantes e discussões, cujas conversas se ampliaram, ainda, entre as demais editoras e editor da escamandro [Nina Rizzi, Patrícia Lino e Sergio Maciel], além de conversa pessoal com Ricardo Domeneck e Paulo Henriques Britto. contando com o gosto duvidoso de todos nós, finalmente, chegamos em “amapabestismo”, donde há o prefixo negativando o conceito, a presença do mapa, a ideia de —betismo, como em analfabetismo, e um chiste com a ideia de “besta” e outro conceito meio idiota de “melhorismo” que traduz um “bestism”. parte boa da minha crença com a tradução é que todas elas, sem exceção, comparecem como ensaios, nunca fechadas, podendo, sempre, passar por revisões intermináveis. se alguém ainda sonha com transparência, precisão e termo exato no ofício, está no lugar errado, justamente por se negar à equivocação. outro problema, entre tantos, está em um certo uso pronominal, ligado à religiosidade rastafári na Jamaica. usam, de modo sistemático, duas entradas: “I-man” e I&I”. o primeiro termo significa algo como a pessoa interior de cada rastafári, no que decidimos, a princípio, por “eu-de-eus” [I-man]; o segundo termo, por sua vez, entrega uma complexidade, já que se refere à unidade de Jah e de cada ser humano. embora o primeiro termo, em certo aspecto [eu-de-eus], servisse e consumasse uma simetria maior com “I&I”, algo ali se perdia com a ideia de totalizar o conceito de unidade, como sendo unidade de duas pessoas [um eu, terreno, e o divino, que está em todos], donde Deus está dentro de todos nós e somos um só povo, de fato, o que gera uma ideia de vinculação intra & extramundana. resolvemos por usar, então, “eu-somos”, termo encontrado em HOMELESS de Edimilson de Almeida Pereira que, na consecução do poema [de Edimilson], torna-se “ambosomos”. a nota, que deveria ser breve, vai se alongando. talvez, em outra oportunidade, possamos voltar no desmonte desse patuá. nesse instante é apenas uma tentativa, entre as que virão, de um cartógrafo procurando um caminho até Sião. indico, por fim, que visitem um texto traduzido por thadeu c santos & vinicius melo, no blogue da Kza1, intitulado: “as inquietações de ser um poeta negro na grã-bretanha“, escrito pelo poeta.

* * *

i. EM QUE O CARTÓGRAFO SE JUSTIFICA

Dá pra dizer
que meu trampo não é
me soltar exatamente
porém imaginar
como se sente uma perda —
o súbito passo arrastando,
altos papos com árvores e cercas
em azul e todo o mais
podem render baliza.
Meu trampo é imaginar ampliação
do infamiliar e também
a sua ampla dor;
antecipar a irônica
questão: como encontrar
nós mesmos? Meu trampo é
desenlançar o enlaçado,
despreocupar os aflitos,
guiá-los pra fora do pela-saquismo
que por vacilo vocês se enfiaram.

i. IN WHICH THE CARTOGRAPHER EXPLAINS HIMSELF

You might say
my job is not
to lose myself exactly
but to imagine
what loss might feel like —
the sudden creeping pace,
the consultation with trees and blue
fences and whatever else
might prove a landmark.
My job is to imagine the widening
of the unfamiliar and also
the widening ache of it;
to anticipate the ironic
question: how did we find
ourselves here? My job is
to untangle the tangled,
to unworry the concerned,
to guide you out from cul-de-sacs
into which you may have wrongly turned.

§

ii. em que o rasta diverge

O rasta tem outro raciocínio.
Ele diz — já que o trampo do homem nunca é reta
dura ou no mole. O trampo dele é deixar magro e triturável
tudo da maior importância e tão real quanto a gente; é deixar plano
tudo que é alto e ondulante; é deixar insosso e invisível
uma pá de coisa que o povo pobre não dispensa — como
albergues, a mercearia onde Dona Catita vende
sua famosa sopa de pedra. E daí
o trampo do cartógrafo é deixar visível
toda coisa que nem devia de existir
tipo a conquista dos piratas, tipo fronteiras,
tipo a propagação viral dos governos.

ii. in which the rastaman disagrees

The rastaman has another reasoning.
He says – now that man’s job is never straight-
forward or easy. Him work is to make thin and crushable
all that is big and as real as ourselves; is to make flat
all that is high and rolling; is to make invisible and wutliss
plenty things that poor people cyaa do without – like board
houses, and the corner shop from which Miss Katie sell
her famous peanut porridge. And then again
the mapmaker’s work is to make visible
all them things that shoulda never exist in the first place
like the conquest of pirates, like borders,
like the viral spread of governments.

§

iii.

O cartógrafo diz
não —
O que faço é ciência. Mostro
a terra como é, sem agendas.
Nunca me apaixono. Nunca envolvo
o lamaçal com as transações da terra.
Paixão demais chilica a mão.
Miro mostrar a completude
de um lugar num só relance.

iii.

The cartographer says
no —
What I do is science. I show
the earth as it is, without bias.
I never fall in love. I never get involved
with the muddy affairs of land.
Too much passion unsteadies the hand.
I aim to show the full
of a place in just a glance.

§

iv.

O rasta pensa, traça-me um mapa do que tu vê
daí eu vou traçar um mapa do que tu nunca vê
e adivinha qual mapa será maior que o de quem?
Me adivinha de quem é o mapa que fala a verdade maior?

iv.

The rastaman thinks, draw me a map of what you see
then I will draw a map of what you never see
and guess me whose map will be bigger than whose?
Guess me whose map will tell the larger truth?

§

v. em que o rasta faz um convite

Vem dividir mais eu um caldo sem sal
um delirante caldo de guandu e caruru bravo
deixa eu falar pucê sobre as cidades de perto
as vias e os grilhões que eu-de-eus trilhei
como cada estrada te estropia o dedão
aqui na Babilônia.

v. in which the rastaman offers an invitation

Come share with I an unsalted stew
an exalted stew of gungo peas and callaloo
and let I tell you bout the nearby towns
the ways and chains that I-man trod
how every road might buck yu toe
down here in Babylon.

§

vi.
a partir de Kai Krause

Porque rasta — na real — se dispensa
muito de boa a mira cartagráfica;
crê-se diminuído
por esse olhar colonial. E o rasta diz
em Babilônia é muita treta
u amapabestismo embucetado desse mundo —
mapas que ao longo do tempo os têm espartilhado
deixando o povo dele mais nanico que já era.

vi.
after Kai Krause

For the rastaman — it is true — dismisses
too easily the cartographic view;
believes himself slighted
by its imperial gaze. And the ras says
it’s all a Babylon conspiracy
de bloodclawt immappancy of dis world —
maps which throughout time have gripped like girdles
to make his people smaller than they were.

§

vii.

Mas tem mapas
e daí também tem mapas;
e do que vamos chamar a fortuita
dança das abelhas voltando
pras colmeias senão mapas
que levam aos hibiscos
certos, seus suaves
armazéns de pólen?
E como vamos chamar o sangue
do beija-flor senão mapas
que pulsam os corpinhos entre
oceanos de ida e volta?
E com que nascem as tartarugas
senão com mapas que quebram
ovos e as tiram da areia
as guiam pro oceano em vez de terra.

vii.

But there are maps
and then again, there are maps;
for what to call the haphazard
dance of bees returning
to their hives but maps
that lead to precise
hibiscuses, their soft
storehouses of pollen?
And what to call the blood
of hummingbirds but maps
that pulse the tiny bodies across
oceans and then back?
And what are turtles born with
if not maps that break
eggs and pull them up from sand
guide them towards ocean instead of land?

§

viii.

eu-somos saco tudo, pois a real é que eu-de-eus
vejo linhas de mapas da grande mão de Jah
ele que puxou os cometas pelo céu
pra nos livrar da terra cruel do Faraó.
Quando o sol a pino amoita o elevado
diagrama de estrelas, o esquema cósmico
da liberdade de eu-somos, Jah nos aponta o olhar
ao poçofundo e diz pisquem, pisquem até
ver de novo a disseminação de galáxias guias.
A ciência da Babilônia confirma — astros também
são “corpos negros”. eu-somos já manjava
isso — lá em cima é o firmamento de Jah-Jah
cheio de luz e de vivacidade.

viii.

I&I overstand, for is true that I-man
also look to maps drawn by Jah’s large hands
him who did pull comets cross the sky
to lead we out from wicked Pharaoh’s land.
At noon when sun did hide the high
graph of stars, the cosmic blueprint
of I&I freedom, is Jah who point our eyes
to well-bottom an say blink and blink until
you see again the spread of guiding galaxies.
Babylon science now confirm — stars too
are ‘black bodies’. I&I did done know this
already — that up there is Jah-Jah’s firmament
full of light and livity.

Concret_s como frutos nítid_s como pássaros (I): Explicação, Miguel-Manso

“Concretos como frutos nítidos como pássaros” é uma série dedicada à divulgação da poesia portuguesa contemporânea no Brasil.


EXPLICAÇÃO

Apesar de partilharem a mesma língua e poder assumir-se que isso facilitaria a circulação constante e ininterrupta dos trabalhos poéticos das(os) poetas portuguesas(es) no Brasil e das(os) poetas brasileiras(os) em Portugal, esta lógica não corresponde à realidade das últimas décadas.

As razões pelas quais os trabalhos das(os) poetas vivas(os) ou mortas(os) não circulam num e outro país não são necessariamente claras. Esta falha pode talvez dizer respeito à falta de contato entre as(os) poetas de ambos os países, possivelmente sustentada pelo seu passado colonial, à conformação com a circulação dos nomes literários mais tradicionais e escolares (Luís de Camões ou Fernando Pessoa de um lado, Machado de Assis ou Carlos Drummond de Andrade do outro) ou, a nível do estilo, da forma e do conteúdo, às óbvias divergências entre os fazeres poéticos de ambos os países.

Ao mesmo tempo, a imigração em que Arnaldo Saraiva reparava em 2003, no âmbito do II Congresso Português de Literatura Brasileira (Faculdade de Letras da Universidade do Porto), cresceu: nunca houve tantas(os) brasileiras(os) a estudar e a imigrar permanentemente para Portugal e a oportunidade de viajar até ao Brasil nunca foi tão familiar para as(os) portuguesas(es).

Se, por um lado, o fenómeno imigratório poderia garantir o cruzamento entre ambos os universos poéticos, por outro, é necessário lembrar que nenhum dos dois sistemas poéticos depende estritamente do outro. Seria, aliás, inocente partir de um princípio de familiaridade entre os dois, já que, a partir do início do século XX, com a empreitada modernista, o corte anticolonial entre os sistemas se fez pela apropriação linguística, interdisciplinar, humorística e paródica do fazer do poema. Um ato voluntário contra um linguajar forçadamente imposto.

Não esqueço, igualmente, que este debate continua a excluir os países africanos de língua portuguesa que, além de dialogarem menos com os meios literários português e brasileiro, tampouco integram, com a mesma evidência e regularidade dos primeiros, os curricula das Universidades portuguesas e brasileiras e os planos de publicação de ambos os mundos editoriais [1].

Regresso, porém, ao primeiro ponto.

Com efeito, o diálogo entre poetas e editoras(es) portuguesas(es) e brasileiras(os) só se evidencia a partir dos anos 90. Entre as revistas que não estão mais em funcionamento e que publicaram poetas brasileiras(os) em Portugal e poetas portuguesas(es) no Brasil, constam, por exemplo, Revista Nova (1975, 1976), Inimigo Rumor (1996-2008), Bumerange (n. 4, anos 90), Zentral Park (anos 90), Terceira Margem (1998-2004), “Vozes da poesia” (CULT, 2006), Modo de Usar & Co. (2007-2017) ou Virada. Literatura e Crítica (2019-2020).

O diálogo nunca foi, de resto, tão fluído como hoje. Entre as que as(os) continuam publicando, podemos, por exemplo, listar Colóquio/Letras (1971-), Telhados de Vidro (2003), Revista Pessoa (2010), 7faces (2010), Cão Celeste (2012), a própria escamandro (2011), Enfermaria 6 (2013), Flanzine (2013), Gratuita (volumes 2 e 3, 2015), Caliban (2016), Ruído Manifesto (2017), Dobra (2017), Gueto (2017-2020), A Bacana (2018), Meteoro (2019), Despacho (2019), o volume 4 da revista Bacuri, publicado pela editora Jabuticaba em agosto de 2020 e organizado pelo poeta brasileiro Daniel Francoy ou casos mais pontuais como a revista Sibila (2009) [2] ou o Suplemento Pernambuco (2009) [3].

Inspirada pela iniciativa destas revistas, bem como pelo foco luso-brasileiro de certos projetos editoriais [4], começo esta série, “Concretos como frutos nítidos como pássaros”, com o objetivo de, em diálogo e colaboração com as(os) próprias(os) autoras(es), publicar e partilhar os seus trabalhos no Brasil.

[1] Idealmente, precisaríamos de mais projetos como a revista cabo-verdiana TXON que acaba de estrear-se (2020) reunindo autoras(es) brasileiras(os), portuguesas(es) e cabo-verdianas(os).
[2] Que publicou, em 2014, uma entrevista com o poeta experimental português Fernando Aguiar.
[3] Que, por sua vez, tem vindo a dedicar-se, cada vez mais, à publicação de artigos sobre poetas portugueses como Sophia de Mello Breyner, Jorge de Sena, Manuel António Pina, Ruy Belo, Adília Lopes e publicando, além disso, resenhas como as de Priscilla Campos sobre Cerimónias (Chão da Feira, 2017) de Maria Filomena Molder, filósofa portuguesa que, neste caso particular, se dedica, entre outros temas, a escrever sobre Herberto Helder e Ana Hatherly.
[4] Entre eles, Chão da Feira, Edições Macondo, Editora 34, Jaguatirica, Moinhos, Oficina Raquel, Corsário Satã ou Selo Demônio Negro; Averno, Caminho, Douda Correria, Glaciar, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Mariposa Azual, Relógia d’Água ou Tinta-da-China.

MIGUEL-MANSO (ALMEIRIM, 1979)

Nasceu em Santarém, em 1979, e mora numa aldeia do concelho da Sertã. Estreou-se em 2008 com o livro Contra a Manhã Burra (edição de autor) e Quando Escreve Descalça-se (edição Trama Livraria). Santo Subito, de 2010 (edição de autor), pertence, como os anteriores, à coleção “Os Carimbos de Gent”, à qual acrescentou outros dois títulos em 2012: Ensinar o Caminho ao Diabo e Um Lugar a Menos (edições de autor). Também em 2012, publica Aqui Podia Viver Gente, com ilustrações de Bárbara Assis Pacheco (Primeiro Passo). Seguem-se, em 2013, Tojo: Poemas Escolhidos (Relógio D’Água), Supremo 16/70 (Artefacto). Persianas (Tinta-da-china), de 2015, antecede Rosto, Clareira e Desmaio (Douda Correria, 2017) e Mortel (Do Lado Esquerdo, 2018). Miguel-Manso também publicou, em 2019 e em colaboração com Vitorino Coragem, Andar para Dentro. O mais recente dos seus livros, Estojo, foi lançado pela Relógio d’Água em novembro de 2020.


Poemas inéditos

Miguel entregou-me recentemente 7 textos inéditos. “Tudo começa com o peso”, “Uma potência deve resplandecer”, “Um búfalo caminha para a água”, “As mulheres massais”, “Sentado com Maria José na antiga mesquita de Mértola”, “Ainda sonho que nos tocamos” e “Pranto pelo fim da juventude”.



TUDO COMEÇA COM O PESO

com que tudo começa
o chão cogita os seus minérios e raízes
um eco pedregulha no silêncio
pendurado nas alturas
no fio desatado deste instante

a tarde inclina tantos graus
oura ao sopro brando
toca de leve a tontura
e à tortura dá abaulo rente e raso
o peso que ao livre-arbítrio desconvém

movem-se as massas de ar
as furnas encerram cada fenda cada furo
tudo tomba por dentro zunindo
de vertical vertigem atingido
porque é no próprio saltar que se pousa
porque é no próprio pouso que se cai

mas de que outra coisa falaria este poema
se não da mais pálida ideia que não faço


——————————————————————*

Uma potência deve resplandecer. Como se faz? Pelo brio e pelo deleite. O bom sacerdote tem um corpo fixo e outro fluido radiante: com o primeiro pratica o mundo nas coisas segundas, com o segundo pratica o mundo nas coisas primeiras.

Afazeres para hoje: escavar na rocha uma igreja etíope.



——————————————————————*

Um búfalo caminha para a água. Céu e Terra ligados pela flauta da manhã. Rompe e emerge o dia sem autor, a um só sopro. As plantações celestes clareiam e encobrem, uma música extingue, outra música floresce. Este é o misterioso momento de uma vida delicada e primitiva. Água para um búfalo amanhecido. Iluminado. O gelo estala sob os cascos enlameados e um bando de estou‑fracas dispersa ao primeiro pó. A densa escuridão perfumada do animal, a sua estrela, o edifício mínimo onde se ergue a noção, o ângulo e grau com que respira, tudo reflecte a ecologia de um núcleo sagrado perdurante por linha ao mesmo tempo agnática e uterina. É o dote bovídeo deste organismo calado.
A sua língua enorme toca o frio do pequeno lago, o lago estremece, a sua estrutura adapta‑se à sede matutina do búfalo, dedica‑se‑lhe. É o dom mineral e aquático do lago. A manhã cresce em complexidade. É também ela um organismo vivo com a sua nomenclatura matrilinear. Estende as suas extensões. Reagrupa, redefine, reforça, delineia sistemas e padrões, identifica o que precisa de ser corrigido no mundo. Embora circunscrita, a manhã transcende o espaço e o tempo e abrange com a sua toalha todo o Multiverso.



——————————————————————
*

As mulheres massais. O mercado de fruta em Libreville. Os prados do Burundi com seus longos chifres erguidos, lentos e braqueados do calor. Os nomes gerais e negros, os nomes enormes. Um gorila está sentado no Congo, tal‑qual um poeta neste lugar da Europa e urdem, um e outro, no seu próprio idioma inaudível, uma espécie de treno, entrecortado de suspiros. Nas terras altas e verdes, nos planaltos interiores, nas áridas savanas despidas, nos cónicos vulcões adormecidos, no leito seco dos rios, no oco ocre das termiteiras, dentro das termiteiras, fora das termiteiras e em volta do pêlo amarelo das leoas, na ramela triste dos tristes olhos dos poucos elefantes, nos arredores de Merca, no desenho dos rebanhos vistos do céu no Jibuti (nómadas de muito grau) em tudo isto atravessa um vento fóssil, fictício, sonhado, que tudo greta e tudo destapa. Como no eco das tribos e na fogueira das noites. Como no bater quadrupede de um coração rinoceronte dormindo sobre a erva do Parque Nacional. Mas igualmente como esse coração furtivo, encoberto, ávido de um humano caçador de troféus. E como o pigmento vermelho com que cobrem os corpos os Samburus, o povo‑borboleta. E como se come algures o sorgo e o painço que amadurece no Outono. E também como o fumo confuso dos grandes aglomerados. Mas sobretudo como o esforço de Sísifo com que o escaravelho empurra a sua bola de esterco, também eu vou levando estas palavras.



——————————————————————*

SENTADO COM A MARIA JOSÉ
NA ANTIGA MESQUITA DE MÉRTOLA

botão de sintonia é o coração
faz correr sobre a escala do Silêncio
o fino ponteiro da escuta

o templo exala (juro, prometo) estranhas
salmodias, ladainhas fundas
corpos sonoros há muito percutidos
e que pedem pelos tempos captação

o sinal expande em toda a geometria
emana os seus perfumes
as abraâmicas modulações que tem um jardim
à sombra

e dentro dele uma espera
e dentro da espera (prometo, juro) um olhar
perguntando

que século fará lá fora?



——————————————————————*

AINDA SONHO QUE NOS TOCAMOS

rente ao penhasco dos ombros e postos
entre o pasto dos cabelos
dedos meus pairam como libélulas sobre
lóbulos
mamilos
a maxila
————sem tocar

_________e tocando
garças em ti levantam no folhedo
das pestanas
os minutos alastram campo aberto
a cortina azula nos desvãos
da madrugada

uma buzina estronda ao fundo da aurora
enxota a barbatana do sono que arava à tona
um fio de luz vaza pelo rasgão da memória

————escuto

qualquer coisa neste silêncio
te soletra


——————————————————————*

PRANTO PELO FIM DA JUVENTUDE

ó gloriosa senhora que tudo atinge
esquecei minha puberdade em algum Verão
passai os anos mui sucessivamente ao longe
esteja eu sempre rodeado de beleza e são

ponde depressa esta chuva no sequeiro
trazei a costumada amante soalheira
que ela enxugue meu destroço caloteiro
de uma antiga suavidade mais costeira

responde‑me, quantas maldades te fiz
que não passo de um poeta a meia haste
se te traí foi por supor, foi por um triz
que era meu o que agora me apartaste

não subtraias mais este meneio, a eficácia
em que cultivo o escândalo com que protelo
até hoje fui raro freguês de uma farmácia
queria daqui p’rá frente continuar a sê‑lo

seja eu claro enfim: não quero morrer
peço‑o com mesuras, rainha, não é para agiotar
conquanto a eterna questiúncula de nascer
pareça pior que os custos de me ausentar

In memoriam: Maria Lúcia Alvim (1932-2021)

Já tivemos dois posts na escamandro sobre Maria Lúcia Alvim, o primeiro deles acabou dando o pontapé para uma aventura que culminou na publicação de Batendo pasto, livro inédito de 1982, que estava na gaveta de Paulo Henriques Britto, sob juramento de só ser publicado após a sua morte. Felizmente, Ricardo Domeneck conseguiu convencê-la de que nós e ela o merecíamos em vida. Durou pouco. O livro saiu pela Relicário em meados de 2020, com o generoso acolhimento de Maíra Nassif; no comecinho deste ano saiu sua primeira Antologia poética, pela Douda Correria, em Portugal, com as graças de Nuno Moura, uma edição selecionada e organizada por mim e por Domeneck, com apresentação da Patrícia Lino, a nova coeditora da nossa casa. Tudo isso graças a Luciana Oliveira Dias, amiga e cuidadora da poeta, que mediou a conversa com generosidade para todos os lados, e o apoio precioso de mais algumas pessoas. Tristemente no dia 3 de fevereiro de 2021 Maria Lúcia faleceu por complicações decorrentes de Covid-19, entre atrasos e incompetências de um governo que sublinha e abraça os piores adjetivos (cada um escolha o seu).

O objetivo deste post é fazer duas coisas: em primeiro lugar, construir um primeiro catálogo de imagens de Maria Lúcia Alvim, para ampliar o repositório na rede; em segundo, oferecer uma pequena reflexão sobre a doença do compadrio na cultura brasileira.

O catálogo que vocês podem ver abaixo é uma seleta de imagns que chegaram até mim por mãos diferentes e que preciso agradecer, pela ordem que vieram de quatro pessoas. O poeta e tradutor Paulo Henriques Britto, além de recolher dois livros inéditos de Maria Lúcia Alvim (Batendo pasto, já mencionado, e Rabo de olho, ainda inédito), tinha uma das colagens. O também poeta e tradutor Alvaro A. Antunes, que há décadas mora no Reino Unido, apresentou o escorpião de argila e a caixa de Fósforos e, graças a amigos dele, também as fotos pessoais; o poeta e editor Ricardo Domeneck apresentou uma colagem; o poeta e editor Augusto Massi (que editou a fundamental reunião de Vivenda em 1989, pela coleção Claro Enigma) apresentou todo o resto, entre capas de livro, pinturas, colagens, desenhos e o projeto de um livro que não pudemos consultar em seu estado final, mas que está sob os cuidados de Umberto Alvim, sobrinho da poeta. Somos imensamente agradecidos aos quatro, de verdade. E também a Maria Lucia Verdi, que cedeu a imagem de mais uma colagem.

A cada imagem ponho uma breve informação para contextualizar a partir dos dados que tenho, e pretendo incorporar ao post outras imagens que receber, bem como eventualmente corrigir possíveis erros.

Importante é ressaltar o caráter proteico da produção de Maria Lúcia Alvim. Segundo o mesmo Massi, Maria Lúcia teria começado a pintar aos 14 anos, a escrever aos 19 e a fazer colagens aos 33. Essa sequência me parece fundamental para entender sua produção: trata-se de uma obra que parte da imagem, concentra-se na língua e depois explode nas colagens, modulações, experimentos entre texto, combinação e intervenção. Os exemplos abaixo, que espero aumentarem logo, mostram que estamos diante de uma poeta-pintora-colagista com requintes em todas as frentes. E quero frisar que, em janeiro de 2020, quando pesquisei por uma imagem de Maria Lúcia Alvim, só encontrei duas coisas: a capa de Vivenda 1959-1989 e a capa do Romanceiro de Dona Beja, sem qualquer fotografia da pessoa — era um nome sem rosto. Ao longo de 2020 esse repertório aumentou um pouco, e espero que o repositório que aqui faço sirva como uma modesta renovação de perspectiva e de visualidade. Maria Lúcia Alvim merece, e nós também.

Quanto ao compadrio, há que se pensar de que modo a cultura brasileira como um todo, em suas várias frentes, parece padecer de uma verdadeira doença afetiva. A assim chamada “vida literária”, entre nós, tem peso maior do que a noção de obra, de jeito que quase tudo que se faz costuma partir das amizades e amores, para só aí expor e dispor e contrapor as obras. Explico-me. Se observamos historicamente o circuito de apresentação, resenha, crítica e revisão das obras, percebemos dois comportamentos sistemáticos.

Por um lado, cada grupo tende a se fechar na troca elogios que vão mútua e sucessivamente gerando a impressão de obras respaldadas, quando em geral isso é mais efeito da difusão de mídias do que propriamente de uma repercussão entre pares de fora do grupo. Por exemplo, e talvez o mais característico: uma vez que por décadas os principais jornais de circulação nacional estiveram em SP e RJ, criou-se uma literatura brasileira que é basicamente o espelho de grupos internos tratando por brasileiro o que era e é local (sem qualquer julgamento de valor), daí que os escritores que não nasciam por essas bandas, acabavam indo passar as vidas por lá (Bandeira, Drummond, Cabral, Gullar, a lista é imensa) ou então períodos mais curtos (Leminski fez isso, o que ajuda a explicar como circulou nacionalmente, apesar da vida quase toda em Curitiba). Em outras palavras, na nossa história literária a mesa de bar tende a ser mais decisiva para a circulação de obras do que a própria obra.

Por outro lado, os grupos antagônicos tendem a trocar farpas nessas mídias, num esforço de suprimir correntes contemporâneas com visões divergentes: creio que não preciso gastar saliva retomando as mil e uma polêmicas de que vivem os embates literários — o século XX teve sua pletora; e o XXI amainou, preferindo a retórica da damnatio memoriae (apagamento do nome dos adversários pelo simples silêncio), o que, convenhamos, tem sua elegância, em parte mais destrutiva. Isso merece ainda uma discussão mais detida.

Para citar apenas alguns nomes que ficaram de fora nas últimas décadas e que bem mereciam receber mais espaço (a lista poderia ser muito maior): Adão Ventura (MG), Arnaldo Xavier (PB/SP), Terêza Tenório (PB), Sérgio Blank (ES), Sergio Rubens Sossélla (PR), Carlos Ronald Schmidt (SC), Paulo Colina (SP), Eustáquio Gorgone de Oliveira (MG), Ruy Barata (PA), Max Martins (PA), Pio Vargas (GO) etc. Cito apenas a lista abreviada dos poetas mortos, de recepção variada, mas quase sempre ainda periférica, sem entrar nos vivos…

Digo isso tudo pra contar duas conclusões que ando tendo para vocês.

1. Provavelmente o apagamento do nome de Maria Lúcia Alvim de 1989 para cá se dá por um motivo muito simples: em algum momento dos anos 80 ela parou de frequentar a vida literária (por ora, pouco importam seus motivos); com isso, por um lado se ausentava dos afetos, por outro deixava de ser negócio de barganha; em outras palavras, não podia devolver elogio e o reforço simbólico. Como se não bastasse, saiu do Rio de Janeiro e foi morar no interior, outro ponto relevante e que lembra o caso de Leonardo Fróes, por exemplo, que vem recebendo mais leituras nos últimos anos. O fato é que, apesar de Vivenda ter saído em 1989, com o cuidadoso trabalho de Massi, nesses mais de trinta anos, pouco se voltou a falar publicamente de Maria Lúcia Alvim, exceto por um ou outro artigo acadêmico e a dissertação de mestrado de Juliana Veloso Mendes de Freitas, defendida em 2015, um acontecimento de grande relevância.

2. O ato de generosidade gratuita sofre um problema de profundo equívoco tradutório. Isso quer dizer que, quando um determinado artista gasta sua energia para promover outro artista, sem dar a entender que tem algo específico a ganhar com sua ação, a nossa doença do compadrio tende a ler a cena segundo sua lógica interna. Isso porque historicamente até mesmo as revisões tendiam a servir para reforçar o próprio grupo que a realizava; para ficar num só exemplo, pensemos em como um livro de importância incontornável, como a Revisão de Sousândrade dos concretos, servia para reforçar as teorias da poesia dos próprios concretos tanto quanto para lermos mais Sousândrade, que estava fora dos debates da época. Não é precisamente compadrio, reconheço, mas reforça os vínculos e promove um curto-circuito similar, portanto é compreendido dentro do modelo de leitura da cultura do compadrio.

Soube há pouco que, em burburinhos do disse-que-disse, já se circulou que uma figura que considero notavelmente generosa em suas intervenções públicas (falo aqui de Ricardo Domeneck) teria feito os recentes trabalhos de recuperação de Hilda Machado e de Maria Lúcia Alvim para promover a si mesmo. Mas pergunto: se Domeneck é poeta com enorme projeção nacional, carreira de circulação internacional, como é que uma Hilda Machado quase inédita e sem grande respaldo poderia promover seu nome? Ou então uma Maria Lúcia Alvim quase esquecida? Ora, é o contrário que acontece: Domeneck usa seu “capital simbólico” para jogar alguma luz no que considera importante, e faz isso de modo sistemático com maior ou menor sucesso há pelo menos quinze anos. E mais: se promove dois nomes como esses, não é para afirmar que sua poética está historicamente mais acertada (esse tipo de disputa permanece morto e enterrado), e sim para pluralizar a experiência da poesia produzida no Brasil. Não é só ele, claro, mas permanecem raros entre nós os nomes com esse tipo de dedicação; parece-nos verdadeiramente estranho perder tempo com as produções alheias, e nisso matamos muitas obras e artistas. Enquanto isso, na ética do compadrio, o ato gratuito se traduz em artimanha.

Escolho o caso de Domeneck porque está agora vinculado ao de Maria Lúcia Alvim, e tudo aqui é para girar em torno dela. Em vida, sua obra estava quase morta até 2020; agora, morta, parece uma das figuras mais vivas da nossa poesia. Que viva então. Mas não é o único nome que mereceu e merece uma revisão séria, outras e outros demandam seu viver.

Guilherme Gontijo Flores

* * *

CAPAS DE LIVROS PUBLICADOS ANTERIORES A VIVENDA (Fotos de Augusto Massi)

XX Sonetos, SP, 1959.
Coração incólume, RJ, Editora Leitura, 1968.
Pose, RJ, Editora Leitura, 1968.
Romanceiro de Dona Beija, RJ, Fontana- INL, 1979.
A rosa malvada, RJ, Editora Clarim, 1980.

§

PROJETO DE LIVRO SALA DE BRANCO/VINTE VARIAÇÕES (Fotos de Augusto Massi)

Venho de saber que o livro existe numa forma finalizada e está em mãos de Umberto Alvim, sobrinho de Maria Lúcia Alvim.

Maria Lúcia Alvim Capa para projeto de livro Sala de Branco.
Maria Lúcia Alvim, Notas para projeto de livro Sala de Branco/Vinte Variações.
Maria Lúcia Alvim, Notas para projeto de livro Sala de Branco/Vinte Variações.
Maria Lúcia Alvim, Notas para projeto de livro Sala de Branco/Vinte Variações.
Maria Lúcia Alvim, Notas para projeto de livro Sala de Branco/Vinte Variações.

§

COLAGENS

Maria Lúcia Alvim, Colagem sem Título, 1965 (foto de Augusto Massi).
Maria Lúcia Alvim, Colagem, sem título 3, 1965 (foto Augusto Massi).
Maria Lúcia Alvim, Colagem, Soleil, s/d (foto Paulo Henriques Britto).
Maria Lúcia Alvim, Colagem e poema, 2013 (foto de Augusto Massi).
Maria Lúcia Alvim, Poema-em-colagem, Abre-alas entre abelhas 2013 (foto de Augusto Massi).
Maria Lúcia Alvim, Colagem, “O aguardadado”, s/d. (Foto de Ricardo Domeneck).
Maria Lúcia Alvim, Colagem “Amor, pássaro que põe ovos de ferro”, tirada do livro “Maria Lúcia Alvim – retratos e colagens”, Petite Galerie, Rio de Janeiro, em 1980 (foto de Maria Lucia Verdi).

§

OBJETO-COLAGEM (Fotos de Alvaro A. Antunes)

Maria Lúcia Alvim Caixa de fósforos. Frente (pintura sobre foto de Virginia Woolf). Anos 80.
Maria Lúcia Alvim Caixa de fósforos. Verso. Anos 80.

§

PINTURAS (Fotos de Augusto Massi)

Maria Lúcia Alvim, Pintura sem título, 1980. (foto Augusto Massi).
Catálogo da exposição Retratos e colagens, na Petite Galerie, RJ, 1980. Texto de Darcy Ribeiro. (foto Augusto Massi).

§

O ESCORPIÃO (Fotos de Alvaro A. Antunes, ? Anos 80)

Faço aqui um pequena nota: Antunes conta que Maria Lúcia Alvim o presenteou com uma pequena peça em barro: um escorpião (signo dele, o que pra ela sempre teve conotações profundas). Antunes afirma que não se lembra mais se a obra é mesmo dela, ou não. Poderia ser, por exemplo, do pai dela, ou de Zé Pavão; ou mesmo algo que ela tenha comprado/ganho/encontrado.) Para publicação oficial seria preciso confirmar. Entendo que, quando falamos de uma poeta que incorpora traduções de obras alheias como próprias e uma artista plástica que trabalha com o método da colagem, a ambiguidade da autoria é parte constitutiva, sua curadoria é também ato artístico.

Escorpião, s/d, Maria Lúcia Alvim (?, autoria duvidosa).
Escorpião, s/d, Maria Lúcia Alvim (?, autoria duvidosa).
Escorpião, s/d, Maria Lúcia Alvim (?, autoria duvidosa).

§

IMAGENS (Fotos de Carlos T. Moura)

Maria Lúcia Alvim, Além Paraíba, 1996.
Maria Lúcia Alvim, Casa do Pontal, Trimonte (Volta Grande), 1996.
Casa do Pontal, Trimonte (Volta Grande), Esculturas de Fausto Alvim (pai).
Casa do Pontal, Trimonte (Volta Grande), 1998.
Casa do Pontal, Trimonte (Volta Grande), 1996.
Zé Pavão, Casa do Pontal, Trimonte (Volta Grande), 1996.
Zé Pavão com gato no colo, Casa do Pontal, Trimonte (Volta Grande), 1996.
Maria Lucia Alvim, Hotel São Luiz, Juiz de Fora, 2013.
Maria Lúcia Alvim, seu quarto no Hotel São Luiz, Juiz de Fora, 2013.
Maria Lúcia Alvim, Juiz de Fora (Foto de Luciana Oliveira Dias), 2020.

RETRATOS DA POETA (Fotos de Augusto Massi)

Retrato de Maria Lúcia Alvim por Enrico Bianco, in XX Sonetos, 1958.
Maria Lúcia Alvim em bico de pena de Cárolus, in A rosa malvada, 1979.

Editorial

A escamandro está no seu décimo ano de vida. O que nos faz repensar pra valer o que fizemos e também queremos fazer de agora em diante. Depois de várias conversas, consideramos uma mudança editorial no formato blogue da revista. O cenário hoje é radicalmente diferente daquele que havia no início do nosso projeto, em 2011, seja por aquilo a que nos propúnhamos, seja pelo florescimento de novas e múltiplas revistas no paradigma nacional. Por isso, decidimos optar por um novo modelo, com menos postagens, porém maior intervenção de cada um de nós cinco; e isso se dá porque sentimos que a demasia de publicações de nossa parte tem gerado também um cansaço, não só nosso, mas de quem lê e se interessa: o aumento de postagens não implica num aumento de leitores; na verdade, muitas vezes ocorre o oposto. O saturamento, portanto, não parece saudável a ninguém. Isso, no entanto, não quer dizer uma aposta no menos como retorno aos velhos nomes de sempre, ou a uma pirâmide de autores e obras. A questão é que, se a internet é a possibilidade da difusão contínua e quase-anárquica de tudo (mundo que nos fascina, de fato), talvez o desafio editorial seja mesmo agora tomar partidos, fazer apostas, cruzar ideias, com o intermeio de silêncios, esses tão fundamentais em meio à algaravia do mundo, que permitam o pensamento, a reflexão e o acolhimento do efeito das poemas e poéticas. Com isso, queremos cruzar nossas cinco vozes em projetos um pouco mais pessoais de leitura do presente e do passado, sem precisarmos dar conta da imensa demanda que temos continuamente por e-mail e mensagens (fica-se com a impressão de que a revista, como está em sua forma-blogue, corria o risco de se tornar mera vitrine, sem sua intenção inicial de potência interventora). A ideia então é, mantendo a liberdade e diferença de cada editor, investir mais no desafio da crítica, seja na tradução ou no ensaio, ou mesmo numa escolha de nomes contemporâneos que gostaríamos de comentar. Ao longo do ano corrente, apesar do horror, ainda colocaremos em curso o que há em agendamentos, embora já se possa sentir, aqui e ali, pequenas diferenças no enfrentamento das demandas colocadas. As linhas editoriais da revista vão, paulatinamente, encontrando as melhores maneiras de intervenção no cenário atual, como dito anteriormente, e, ao repensarmos a velocidade das águas, entraremos no próximo ano já com os riscos do porvir, leito de rio em movimento. Tenhamos todos melhor sorte.

Rachel Hadas (1948—), por Rodrigo Gonçalves

Rachel Hadas é autora de mais de vinte livros de poesia, ensaios e traduções. Poems for Camilla foi publicado em 2018 pela Measure Press, que lançará Love and dread ainda em 2020. Uma coleção de seleções de prosa, Piece by piece, será publicada por Paul Dry Books em 2021. Rachel Hadas é Board of Governors Professor of English na Rutgers University-Newark, Nova Jersey, EUA, onde leciona há muitos anos.

* * *

POEMS FOR CAMILLA (2018), Rachel Hadas

The Mothers on the Wall

stant pavidae in muris matres oculisque sequuntur
pulveream nubem et fulgentes aere catervas
Aeneid VIII. 590-1

The fearful mothers standing on the wall,
the cloud of dust they follow with their eyes:
millennia pass, and nothing’s changed at all
of our self-inflicted miseries.
Young men stamping; clouds of dust their feet
Stir up; the gleaming weapons and the heat –
the women, poised and fearful, gazing down
as the squadron marches out of town,
keep following its progress even when
nothing is left to see of all the men,
horses, lances, banners. Only air
trembles and registers that they were there:
dust devils, horse manure blown on the wind,
a fume of sweat are all that’s left behind.
Nothing more; the life has passed. But still,
Stricken, the mothers stare down from the wall.

As mães na muralha

stant pavidae in muris matres oculisque sequuntur
pulveream nubem et fulgentes aere catervas
Aeneid VIII. 590-1

As mães, com medo, no alto da muralha,
com os olhos seguem as nuvens de poeira:
milênios passam, nada nunca calha
mitigar nossa autoimposta miséria.
As nuvens de poeira aos pés batidas
dos jovens; o calor, armas polidas –
as mulheres, tremendo, olhando abaixo
enquanto o esquadrão se põe em marcha,
saindo da cidade, o seu progresso
perseguem até que, enfim, desaparecem
insígnias, lanças e cavalos; só
o ar registra, trêmulo, com pó
em remoinho, esterco, e mais, no vento,
a névoa de suor: tudo que resta.
E nada mais; passou a vida, olham
as mães, feridas, do alto da muralha.

§

Painted Full of Tongues

fama, malum qua non aliud velocius ullum:
mobilitate viget virisque adquirit eundo,
parva metu primo, mox sese attollit in auras
ingrediturque solo et caput inter nubile condit
monstrum horrendum, ingens, cui tot sunt corpore plumae,
tot vigiles oculi subter (mirabile dictu),
tot linguae, totidem ora sonant, tot subrigit auris.
Nocte volat caeli medio terraeque per umbram
stridens, nec dulci declinat lumina somno;
luce sedet custos aut summi culmine tecti
turribus aut altis, et magnas territat urbes,
tam ficti pravique tenax quam nuntia veri
Haec tum multiplici populos sermone replebat
gaudens, et pariter facta atque infecta canebat…
— Aeneid IV. 174-90

Fast-moving Rumor, growing as he goes,
timid and small at first, gains strength in motion
until he bumps his head against the clouds.
Swiftest of evils, flitting through the night,
Rumor never shuts his countless eyes.
He has as many eyes, tongues, ears as feathers;
flies, watches, talks, and listens all at once,
incessantly. He’s everywhere. He’s growing.
Broadcasting dappled bulletins all day
from a high tower, filling people’s minds
with bubbling streams of babble
where true and false inextricably blend,
panicking whole cities, full of glee,
gigantic, disembodied, all hot air,
he goes about his tasks: unmaking meaning
and sowing terror. He can’t be controlled
or ignored, he doesn’t stop, relentless.
Nor do his crowds of lackeys ever sleep.
Pariter facta atque infecta — reportage
in a steady stream. He never tires.
We are tired. What should we believe?
Fear, confusion, anger — all exhausting.
Crouching in his tower, he pouts and glowers,
angry and happy, happy to be angry,
and keeps on putting forth a froth of words
true and false mixed — but falsehood trumps the truth.
Virgil’s Fama is female. Not this time.

Pintado cheio de línguas

Nem ha contagio mais veloz que a Fama.
Mobil vigora, e fôrça adquire andando: 195
Tímida e fraca, eis se remonta ás auras;
No chão caminha, e a fronte ennubla e esconde.
Da ira dos deuses Terra mãe picada,
Posthuma a Celo e Encelado, he constante,
De pés leve engendrou-a e de azas lestes: 200
Horrendo monstro ingente, que, oh prodigio!
No corpo quantas plumas tem, com tantos
Olhos por baixo véla, tantas linguas,
Tantas bôcas lhe soam, tende e alerta
Ouvidos tantos. Pelo céo de noite 205
Revoa, e ruge na terrena sombra,
Nem os lumes declina ao meigo somno:
De dia, em celsa tôrre ou summo alcaçar,
Sentada espia e as capitaes aterra;
Do falso e ruim tenaz, do vero nuncia. 210
Vária e palreira então com gaudio os povos
Aturde, e o feito e por fazer pregoa:
(Eneida, IV, 174-90, Trad. Odorico Mendes)

Mais rápido entre os males, voando pela noite,
o Rumor nunca fecha os inúmeros olhos.
Tem mesmo tanto de olho, língua, orelha e pena;
ao mesmo tempo voa, espreita, fala e escuta,
sem cessar. Ele está por todo lado. E cresce.
Transmite o dia todo boletins manchados
de cima da alta torre, enchendo as nossas mentes
de um fluxo borbulhante blablabla
no qual o vero e o falso se imiscuem com força,
em gozo, põe cidades inteiras em pânico,
gigante e incorpóreo, inteiro ele é ar quente,
persegue suas tarefas: desfazer sentidos
e semear terror. Ninguém mais o controla
ou ignora, ele é imparável, implacável.
Também não dorme nunca o seu rebanho, gado.
Pariter facta atque infecta – reportagem
em fluxo estável. Ele nunca está cansado.
Nós estamos. Em que se pode acreditar?
Medo, confusão, raiva – tudo nos exaure.
Enfurnado na torre, beicinho, brabinho,
tem raiva e está feliz, feliz de estar com raiva,
e segue, escarra esturro, espuma de palavras,
verdades e mentiras mistas: ganha a trampa.
Fama é feminino em Virgílio. Agora não.

§

The Source of Thoughts

Nisus ait: ‘Dine hunc ardorem mentibus addunt,
Euryale, an sua cuique deus fit dira cupido?’
— Aeneid IX. 184-5

Tell me, do the gods implant
this ardor in our minds — is it an add-on?
Or flip it: maybe we ourselves
attribute to the gods
our hearts’ dear direst wishes?
Or take it one step further: could it be
that what we wish becomes a god to us?
Do things work outside in or inside out?
Top down or bottom up?
The passage I have fixed on — did it fly
from some high dusty shelf, some mottled page
straight into my mind
or did I rather, happening to revisit
the second half of the Aeneid
for the first time in more than fifty years
pluck the waiting words
fresh from the page like immemorial fruit?
Or (on the third hand) did my own
fears and wishes conjure up the passage?
Oh my beloved, where do thoughts come from?

A fonte do pensamento

Nisus ait: ‘Dine hunc ardorem mentibus addunt,
Euryale, an sua cuique deus fit dira cupido?’
— Aeneid IX. 184-5

Me diz, os deuses é que implantam
esse ardor na nossa mente – é um add-on?
Ou inverte: talvez nós mesmos
atribuímos aos deuses
os desejos mais selvagens dos nossos peitos?
Ou mais longe ainda: poderia ser
que o que desejamos vira um deus pra nós?
As coisas funcionam de fora pra dentro ou vice versa?
Top down ou bottom up?
A passagem em que eu me fixei – ela voou
de alguma prateleira empoeirada, a página manchada
direto pra minha mente
ou por acaso eu, ao revisitar
a segunda metade da Eneida
pela primeira vez em mais de cinquenta anos
colhi as palavras que esperavam
frescas na página como frutos imemoriais?
Ou (terceira margem) foram meus próprios
medos e desejos que conjuraram a passagem?
Oh, meu amado, de onde vêm os pensamentos?

Miguel Martins (1969—)

Miguel Martins nasceu em Lisboa, em 1969. É poeta, prosador, crítico, tradutor, letrista de canções, arqueólogo, músico. Este é o seu 27º livro desde 1995. Traduziu, entre muitos outros, Rabelais, Lorca, Luigi Russolo, E. M. Forster, Henry Roth, Aminata Sow Fall e Heather McDonald. É membro do Conselho das Artes do Centro Nacional de Cultura (Lisboa) e do Conselho Editorial da revista Gândara, da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. É colaborador da revista Colóquio/Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian, desde 2009. Foi editado em Portugal, no Brasil, na Sérvia, em Espanha, em Itália, na Alemanha, na Bulgária, no México, em Cabo Verde e na Escócia.

Os poemas que seguem foram selecionados e organizados por Ricardo Domeneck para o livro São Miguel da Desorientação, editado pela Edições Macondo (2020).

* * *

As minhas ideias têm ideias próprias. Há muito
que é assim. Desde que perdi o coração, triturado
por uma máquina de fazer dias sem remorso
nem consideração pelas fragilidades que inventaram
o cristal e os versos. Tenho a língua coberta de musgo
e raiva, tenho uma moeda na algibeira e não telefono
nem ao Céu nem ao mar. Vou tendo mulheres
mas só dos olhos para fora. Sonho em matar
o tempo e caio para trás à beira do precipício
de todas as contingências. Como. Como-me.
Sozinho com as estrelas sem luz ou ainda tão distante
que só alumia o passado. Há-de haver um verbo
para isto. Desconheço-o. Desrecordo-o. Hoje
é dia de festa. Festa de São Miguel da Desorientação.
O Diabo mostra a sua cara no sono das crianças
e na falsa simplicidade dos frutos. As minhas ideias
impedem-me de estar presente. Logo hoje
que tanto queria dançar a vida numa malga de vinho.


Devíamos limpar os pés descalços na terra alagada com o suor
dos outros, com a boca pegar os gatos pela nuca e inoculá-los
com o vitríolo das canções mais devassas que nos fermentam
nas gengivas, preguiçar estirados sobre as algas que arribaram
cobertas de crude até termos o diabo pirogravado nas costas,
mimetizar os mortos em quanto os assemelha aos chimpanzés
e comer-lhes as flores emurchecidas, porque não há melhor
colónia balnear do que um bom cemitério de província, claro,
nem cão mais vigilante do que um padre depois de marinado
em cuspo e alhos e levado ao forno numa central atómica,
que para este efeito tanto pode ser a mais imunda cona
de um bordel de Karachi como o altar da catedral de Ávila,
onde a estátua de Teresa, de olhar esgazeado, procura ver os céus
como se tivesse comido qualquer coisa estragada ou acabasse
de entregar o seu corpo a um tremendo solo de guitarra eléctrica
embrutecido por um vendaval. Deveríamos manifestar, depois,
uma indisponibilidade total para tudo o que não esteja em chamas
e, sobretudo, para as crianças e outros pastéis de massa tenra,
como seja, por exemplo, a poesia, massagem catatónica das frases.


Sei que, por vezes, confundo a astrologia e a dinamite,
mas a minha carta astral jura-me morto e asfaltado,
como um cão que, de vísceras de fora, teima nas suas
inabaláveis convicções topográficas. Que se confunde,
também ele, com o lugar onde, sem que o soubesse,
voluntariou o seu último batimento cardíaco, na grande
batalha contra o cauchu e a cobiça do horizonte.
(Não há nisto qualquer surrealismo, nem sequer vislumbre
de demência ou intoxicação, mas, apenas, aquela lucidez
característica de quem, em vida, doou todo o realismo
à sopa dos pobres e a melhor parte do sangue à baixela
dos ricos). Estou, portanto, morto, ainda que a mão insista
nestes pequenos desenhos de forma arrevesada e conteúdo
tenso, que apenas corroboram uma insuportável propensão
para a imobilidade e para a insolência. Para a insolvência,
diria. Para o sacrificialismo das cerimónias mais sacrílegas
e superficiais. Desdenho-me, como o roto ao nu, e paro,
de repente, para alisar uma madeixa de cabelo incolor,
certo de que nisso se joga o grande destino do mundo.
A 1 de Setembro de 1939, Hitler invadia a Polónia. Mas
o que menos sabem é que, nessa mesma noite, Luigi Rossi,
napolitano de profissão indefinida e proventos irregulares,
se viu, subitamente, de posse de uma grande maquia
e decidiu tentar a sorte além-mar, como proprietário
de um bordel e cantor autoproclamado. E entre as duas coisas,
uma real e outra acabada de inventar, à pressa, a distância
é tão grande ou tão pequena como todo o absurdo de estar
vivo e ser bípede e não conseguir parar de pensar. Termino,
nem por isso mais leve, acrescentado que, apesar de tudo,
para vanglória de ambas as partes envolvidas, Hitler nunca
sequer aventou a hipótese de invadir o bordel de Luigi Rossi.

Yves Bonnefoy, por Leila de Aguiar Costa

Yves Bonnefoy (Tours/1923- Paris/2016) é autor de extensa obra poética – em verso e em prosa, nas suas mais variadas fisionomias – e de textos sobre artes visuais, com predileção pela pintura italiana do Renascimento.
Se há um motivo a caracterizar sua poética, esse é aquele que o próprio Bonnefoy chama a “presença”: trata-se do mundo, ou melhor, da relação com o mundo e com seus objetos, suas coisas, suas figuras. Não por acaso, o poeta advogará pela causa de certa “realidade, simples, plena que carrega em si uma terra – “a terra que é vida”, dirá ele em um entrevista concedida a um de seus exegetas mais conhecidos, John E.Jackson, na revista L’Arc (1976, nº 66). Terra que se descola da abstração e que convida ao hic et nunc. Poesia que se insurge contra o conceito e que por isso mesmo se dissemina no mundo, graças a ele e nele se abrigando. Basta simplesmente prestar atenção, ser todo ouvidos para que ele aconteça, apareça desembaraçado de tudo quanto é orquestrado pelo espírito.
Os poemas para os quais proponho uma tradução ­ ─ o primeiro, em versos; o segundo, em prosa poética ─ encenam essa presença, deambulam pelo mundo e pela terra em busca de certa res que logre convidar aos sentidos e, sobretudo, à escuta.

Leila de Aguiar Costa é professora de Teoria Literária do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Letras da Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade Federal de São Paulo (EFLCH-UNIFESP). Além de seu interesse pela poesia de Yves Bonnefoy – seu atual projeto de pesquisa faz dialogar as poéticas do poeta francês e do poeta mato-grossense Manoel de Barros –, dedica-se a estudos de escritas de si contemporâneas francesa e brasileira, às relações entre texto e imagem e, ainda, às relações entre poesia e infância [da poesia]. É, enfim, há muitos anos, tradutora de textos literários franceses e de expressão francesa, dos séculos XVII ao XXI.


“Passante, são palavras” (Les Planches Courbes. Paris: Gallimard, 2006, p.40; primeira edição Mercure de France 2001)

Passant, ce sont des mots. Mais plutôt que lire
Je veux que tu écoutes : cette frêle
Voix comme en ont les lettres que l’herbe mange.

Prête l’oreille, entends d’abord l’heureuse abeille
Butiner dans nos noms presque effacés.
Elle erre de l’un à l’autre des deux feuillages,
Portant le bruit des ramures réelles
À celles qui ajourent l’or invisible.

Puis sache un bruit plus faible encore, et que ce soit
Le murmure sans fin de toutes nos ombres.
Il monte, celui-ci, de sous les pierres
Pour ne faire qu’une chaleur avec l’aveugle
Lumière que tu es encorre, ayant regard.

Simple te soit l’écoute! Le silence
Est un seuil où, par voie de ce rameau
Qui casse imperceptiblement sous ta main
. . . .qui cherche
À dégager un nom sur une pierre,

Nos noms absents désenchevêtrent tes alarmes,
Et pour toi qui t’éloignes, pensivement,
Ici devient là-bas sans cesser d’être.

Passante, são palavras. Mais do que ler
Eu quero que você escute: essa frágil
Voz que possuem as letras que a relva come.

Aplique o ouvido, ouça para começar a feliz abelha
Visitar nomes quase apagados.
Ela erra de uma para outra das duas folhagens,
Carregando o rumor dos ramos reais
Para aquelas que trespassam o ouro invisível.

Em seguida, perceba um rumor ainda mais fraco, e que isso seja
O murmúrio sem fim de todas as nossas sombras.
Ele sobe, esse aqui, de sob as pedras
Para fazer um só calor com a cega
Luz que você ainda é, que possui olhar.

Simples seja para você a escuta! O silêncio
É um limiar onde, pela via dessa ramagem
Que quebra imperceptivelmente sob sua mão que
. . . .Busca
Des-cobrir um nome sobre a pedra,

Nossos nomes ausentes desemaranham suas inquietações,
E para você que se afasta, pensativamente,
Aqui se torna lá longe sem deixar de ser.


“La sente étroite vers tout, II”. Remarques sur le dessin. La vie errante suivi de Remarques sur le dessin. Paris: Gallimard, 1999, p.168-169 ; primeira edição Mercure de France, 1993)

La sente étroite vers tout, II

Notre expérience de ce qui est, à tout un premier niveau : du langage. Nos mots puisent, là au-dehors, ce dont ils vont faires des choses, qu’ils ordonnent, qu’ils interprètent, ainsi se met en place le monde, ainsi parurent et disparurent les univers que chaque civilisation à rêvés : somptueuses figures, riches de dimensions et de mouvements, mais qui ne sont que les pages, dissipées si tôt que tournées, d’un livre que l’on n’a donc que peu de raison d’appeler la réalité.

Celle-ci n’en survit pas moins, à cet horizon dans les choses où les mots ne peuvent atteindre, ou dans l’espace qui est entre elels : semblable à ces frondaisons d’au-dessus la muraille des jardins clos. Disons que le réel, c’est l’arbre comme on le voit avant que notre intellect ne nous dise que c’est un arbre ; ou ces dilatations lentes de la nuée, ces resserrements et déchirements dans le sable de sa couleur qui défient le pouvoir des mots.

Et poésie, c’est ce que devient la parole quando on a su ne pas oublier qu’il existe un point, dans beaucoup de mots, où ceux-ci ont contact, tout de même, avec ce qu’ils ne peuvent pas dire.

A senda estreita em direção de tudo, II

Nossa experiência do que é, em um pleno primeiro nível: linguagem. Nossas palavras haurem, lá fora, aquilo com o que farão coisas que organizam, que interpretam. Assim constituem o mundo, assim apareceram e desapareceram os universos sonhados por cada civilização: suntuosas figuras, ricas em dimensões e em movimentos, mas que não são senão as páginas, dissipadas assim que viradas, de um livro que se tem pouquíssima razão de chamar a realidade.

Essa não deixa, entretanto, de sobreviver, a esse horizonte dentro das coisas onde as palavras não podem alcançar, ou no espaço que está entre elas: semelhante àquelas copas por sobre a muralha dos jardins fechados. Digamos que o real é a árvore como a vemos antes que nosso intelecto nos diga que é uma árvore; ou aquelas dilatações lentas das nuvens, aquelas retrações e aqueles rasgões na areia de sua cor que desafiam o poder das palavras.

E poesia é o que se torna a palavra quando se soube não esquecer que existe um ponto, em muitas palavras, onde essas têm contato, apesar de tudo, com o que elas não podem dizer.

“Ode — Indícios de Imortalidade”, de Wordsworth, por Ricardo Neves

A poesia aparece em lugares inesperados. Encontrei-me com a “Ode” de Wordsworth lendo um dos livros do conhecido autor de divulgação científica Stephen Jay Gould, “Ever since Darwin”, capítulo “The Child as Man’s Real Father”. Como contraponto à argumentação puramente científica do seu texto, Gould cita um trecho da Ode:  

Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass, of glory in the flower;
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;

Essa passagem me comoveu e atiçou minha curiosidade pela Ode e por Wordsworth. Sua leitura me revelou várias passagens que confirmaram minha impressão inicial, por exemplo essa expressão tão bonita do último verso: “Thoughts that do often lie too deep for tears”. Então comecei a traduzir.

No meio do caminho, encontrei este blog e uma tradução já existente da Ode para o português, mas mesmo assim resolvi continuar na empreitada e fui até o fim. Na realidade, evitei ler a tradução existente até completar a minha porque, pensei, consciente ou inconscientemente ela teria uma influência sobre mim.

Durante a tradução, que foi feita tão pouco a pouco que durou meses, recebemos em casa a visita de um casal amigo que veio com sua filha Ezguy, que não conhecíamos ainda. Ela teria uns três anos. Durante sua breve passagem por casa, Ezguy iluminou nosso jardim: “ah, uma flor!”, referindo-se a uma pequeníssima margarida no meio da relva, “ah, uma borboleta!”, “ah, uma framboesa!”. Tudo era descoberta e esplendor, exatamente como no poema de Wordsworth. Coincidência ou sincronicidade, o fato é que Ezguy me deu alento para prosseguir na tarefa.

Do ponto de vista mais formal, a Ode tem uma estrutura bastante irregular no que se refere à métrica dos versos e ao esquema de rimas. Sendo o inglês uma língua tão sintética e às vezes quase monossilábica, resultou-me impossível guardar a métrica original dos versos. Usei então versos dodecassílabos quando os versos em inglês eram decassílabos, o que ocorre em boa parte do poema, e nos demais tomei bastante liberdade com a métrica. Quanto às rimas, guardei o esquema usado por Woodsworth em cada estrofe.

Ricardo Neves

* * *

Ode – Indícios de Imortalidade, a partir de Reminiscências da Tenra Infância
(William Wordsworth)

Houve um tempo em que bosques, rios e pradaria,
A terra, a mínima coisa natural,
A mim me parecia
Envolta em luz celestial,
O esplendor de um sonho ou fantasia.
O mundo não é mais como era outrora;
Onde quer que eu esteja,
Noite ou dia seja,
As coisas que eu via eu já não vejo agora.

A visão do arco-íris, grandiosa,
E a pura beleza da rosa;
A lua no céu passeando
Nas noites claras, serena;
As águas do mar cintilando
Na noite estrelada e amena;
Luz do sol, nascer de um novo dia;
Mas sei que onde quer que eu for,
O esplendor da terra passou, que eu antes via.

E agora, enquanto as aves cantam com alegria,
E os cordeiros e o pastor
Dançam ao som do tambor,
Apenas a mim veio um pensamento triste;
Mas alguma coisa forte em mim resiste,
Me reconforta e me alivia.
Do alto da escarpa ressoam as cataratas, –
Meus pesares já não obscurecem o mundo:
Ouço seus ecos vindo do vale profundo;
Os ventos vem a mim de plagas abstratas,
E é feliz a terra inteira;
Os campos e o mar
São pura frescura e cantar,
E ao romper da primavera
Se acalma também a fera; –
Tu, alegre pastor,
Dança ao meu redor, quero ouvir teu canto,
Menino pastor!

Sim, abençoadas criaturas, bem distinto
Ouço como vos estais a falar;
Vejo os céus sorrir convosco a jubilar;
Meu coração se une à vossa festa,
As guirlandas coroam minha testa,
Sinto essa vossa benção, sim, na carne eu sinto.
Dia aziago! se eu estivesse sombrio
Enquanto adorna a Terra inteira
Essa doce manhã trigueira;
E os meninos colhem com brio
Por lugares distantes
Em mil vales verdejantes
Flores frescas; e o sol esquenta com bonança,
E nos braços da mãe salta e brinca a criança: –
Eu ouço, eu ouço, eu ouço com alegria!
Mas há uma árvore, que só conheço eu,
Um campo que uma vez eu contemplei,
Ambos me falam de algo que se perdeu:
A meus pés o amor-perfeito
Repete a seu modo e jeito:
Aonde fugiu o visionário fulgor?
Onde se esconde agora o sonho e o esplendor?

Nosso nascer é apenas sono e esquecimento;
A alma que se eleva, a Estrela da nossa vida,
Trazida por distante vento
Noutro lugar foi concebida;
Não de todo inconscientes,
Nem totalmente indigentes,
Chegamos, mas em meio a nuvens de esplendor
Saídos de Deus, nosso Senhor:
O céu nos cerca em nossa infância!
Sombras da prisão começam a se fechar
Quando o Menino cresce,
Mas ele contempla a fonte de luz jorrar,
E se alegra e floresce;
A Juventude é o sacerdote celeste
Da natureza, que desde o longínquo leste
Viaja cada dia, e em sua caminhada
Pela visão do esplendor vai amparada;
Ao longe o Homem percebe-a fenecer, sombria,
E se esvaecer na escuridão do dia a dia.

Os prazeres que a Terra busca são mistério;
Seus desejos nascem no seu âmago interno,
E, mesmo se algo tem de amor materno,
E alguma intenção honrada,
Essa ama de casa lança seu feitiço
Para que o Homem, seu filho postiço,
Esqueça o esplendor do seu primevo império,
E os palácios em que viveu, na sua chegada.

Contemplai a Criança em sua doce primavera,
Um pigmeu queridinho de seis anos!
Debatendo-se entre seus brinquedos e panos
Dos assaltos de beijos da mãe, que o venera,
E sob o olhar complascente do pai, ufanos!
Olhai, a seus pés, como esboça em filigrana
Mapas e planos, com arte aprendida agora,
Fragmentos de seu sonho de vida humana;
Uma boda ou um festival,
Um luto ou um funeral;
E seu coração nisso se afaina,
E a isso modela sua canção:
Afiará sua língua, então,
A discursos de amor, contendas ou penhoras;
Mas sem tardar, serão
Esses discursos postos de lado,
E com orgulho renovado
O pequeno ator forja um novo papel
E sai à luz um novo personagem
Nessa comédia que, em sua viagem,
A vida traz consigo em sua equipagem;
Como se fosse a imitação
Sua exclusiva vocação.

Tu, cuja aparência exterior desmente
Da tua alma a imensidade;
Tu supremo filósofo, que a tua herdade
Ainda guardas, tu entre os cegos a lucerna,
Que lês, surdo e mudo, a eterna verdade,
P’ra sempre enfeitiçado pela Mente eterna, –
Poderoso Profeta! Vidente abençoado!
Dessas verdades o guardião sagrado
Que toda a vida buscamos sem cessar,
Perdidos nas trevas, na escuridão da cova;
Tu, sobre quem senta a tua Imortalidade
E choca como o dia uma Presença nova,
Uma presença de vida e de esperança;
Para quem a cova
Não passa de um leito solitário e proibido
Na baça luz de um dia nunca amanhecido,
Paragem do pensar, onde o corpo descansa;
Tu, pequena criança, embora nascido
Em glória e poder da celeste liberdade,
Por que provocas os anos, incansável,
Para trazer ao fim o jugo inevitável,
Lutando às cegas contra a bem-aventurança?
Breve tua alma pagará a penalidade,
E a rotina cairá sobre ti com frialdade,
Profunda como a vida, aguda como a lança!

Ah, alegria! Que algo de vivo
Em nossas cinzas subsista,
Que esse fátuo fogo fugitivo
Na natureza ainda resista!
A lembrança de anos passados gera em mim
Uma perpétua bendição : mas não assim
Pelo que mais merece ser abençoado,
Deleite e liberdade, o simples credo, enfim,
Da infância, quando adormecido ou acordado
Flutua no ar um sonho sempre renovado :
– Não para essas coisas levanto
Minha gratidão e meu canto ;
Mas para esses obstinados questionamentos
Sobre sentido, mundo externo, fundamentos,
Derrocadas, desaparecimentos,
Receios confusos de uma criatura
Movendo-se em mundos não concretizados,
Altos instintos, ante os quais nossa natura
Treme, surpresa, como os condenados :
Mas para esses primeiros afetos,
Obscuras recordações, objetos
Que, seja qual for sua moradia,
São ainda a fonte de luz de nosso dia,
Os senhores da luz de nosso olhar ;
Nos sustentam – nutrem – e nos libertam ;
Fazem anos parecer momentos no altar
Do eterno Silêncio : verdades que despertam
Para não perecer jamais ;
Que nem homem ou menino mortais,
Nem indiferença, nem empreitada demente,
Nem nada que impeça de estar contente,
Pode anular ou destruir completamente !
Por isso quando o tempo está calmo e em paz,
Embora estejamos longe terra adentro,
Nossa alma avista esse mar, o mar de dentro,
Que aqui nos trouxe recém,
E pode num momento viajar além –
E ver o Menino brincar na areia,
E ouvir a eterna vaga que a golpeia.

Cantem, pois, aves, cantem a alegre canção !
E que os cordeiros e o pastor
Dancem ao som do tambor !
Me uno à vossa multidão,
Sim, essa gaita, sim, esse recreio,
Sim, tudo que hoje abriga o vosso seio
Sinta de Maio esse alegre gorjeio !
E embora essa luz antes tão resplandecente
Fuja de meus olhos agora eternamente,
E já nada possa trazer de volta a hora
Do esplendor na relva, da flor encantadora ;
Em vez de aflição, acharemos paz
E força no que ficou para trás ;
Na simpatia original e infinda
Que tendo sido deve ser ainda ;
Nos suaves e tranquilos pensamentos
Que brotam dos humanos sofrimentos ;
Na fé que mais além da morte mira a paz,
No tempo que a mente filosófica traz.

E, sim, fontes, pradarias, bosques e flores,
Prenúncio não sejais do fim de meus amores!
Meu coração vosso poder ainda sente ;
E sinto ainda, de maneira diferente,
Esse mesmo deleite que antes eu sentia ;
Amo o regato que rio abaixo se agita
Até mais do que quando, como ele, eu corria ;
A pura claridade de um nascente dia
É sempre tão bonita ;
Em torno ao sol poente as nuvens dele emprestam
As mais sóbrias cores, se essa visão emana
De um olho atento à mortal condição humana ;
Outros desafios virão, e outros triunfos restam.
Coração humano, fonte de nossos alentos,
Rendo graças a ti por rir, amar, chorar,
A ínfima flor me inspira às vezes pensamentos
Profundos demais para a lágrima expressar.

(trad. Ricardo Neves)

Yin Lichuan, por Marina Rima

Yin Lichuan (1973-) é poeta, roteirista e cineasta chinesa. Ela é umas das fundadoras do Movimento “Lower Body”, no início dos anos 2000. É formada em Letras e Literatura pela Universidade de Pequim e estudou cinema na École supérieure libre d’études cinématographiques (ESEC), em Paris. Neste ano de 2020, a Tolsun Books publicou a tradução do chinês para o inglês de Karma, feita pela também poeta e musicista Fiona Sze-Lorrain. Seu trabalho inclui traduções de poetas contemporâneos chineses, americanos e franceses. É a partir da tradução de Sze-Lorrain que traduzimos alguns poemas de Karma.

Reunidos em mais de uma década, os poemas de Karma apresentam memórias, desejos e desenganos de um eu poético que fala a partir de sua intimidade e do seu olhar sobre os costumes, as tradições, a micropolítica das relações e a impassibilidade do tempo. Há algo de inesperado nos desfechos dos poemas e uma frescura da contemporaneidade que nos alcançam em cheio no presente, feito o surto de SARS, em 2003, no poema “Isso deve ter sido combinado”. Assim como, há uma crítica a governos tiranos, de veia patriarcal e conservadora, como vê-se em “Resolução”: “plante no pátio grama deformada que não crescerá/como o gramado bem aparado do presidente de uma grande potência”. Ao mesmo tempo, alguns poemas criam uma cumplicidade com os/as leitore*as, aproximando o olhar para dentro da casa e dos pensamentos do eu poético: “eu paro de amar você de repente/ainda que muitos anos tenham passado”, como vê-se em “A vida deveria ter sido tão séria”.
Esse trabalho de tradução, embora feito de maneira indireta, a partir do inglês, almeja oxigenar um pouco o cânone ocidental, inserindo uma certa universalidade à prática poética, como pensava Benjamin (1923), em A tarefa do tradutor. Desenhou-se, aqui, uma tentativa de “olhar de relance” para a intenção da poeta, a fim de trazer à nossa língua e à nossa realidade – na medida do possível – aquilo que pode criar um elo com as nossas experiências comuns. Considerando o signo verbivocovisual, privilegiou-se ora a composição de veia mais semântica, na criação de imagens verbais, ora os aspectos sonoros da língua, reiterando as conexões entre significante e significado – um importante aspecto da escrita chinesa.

Marina Rima, poeta e pesquisadora. Seu último livro Peças avulsas num jogo de tabuleiro sairá pela Urutau, em 2021.
[os poemas contam com revisão de Ana Drawin]


Isso deve ter sido combinado

depois da nossa separação
Saddam Husseim de repente desapareceu
SARS aproveitou para aparecer
enfermeiras foram mais corajosas que freiras
meu estômago ainda dói
sua perna congelada no Monte Everest
Monte Everest mais uma vez escalado
eles disseram isso é ótimo
depois da nossa separação
nós nunca nos abraçamos
um jovem foi abruptamente espancado
os assassinos eram mais jovens que você

Junho 15, 2003

This must have been arranged

after our separation
Saddam Husseim suddenly disappeared
SARS took the chance to appear
nurses were braver than sisters
my stomach still hurt
your leg frostbitten at mount everest
mount everest was again scaled
they said this is great
after our separation
we never hugged each other
a youth was hastily beaten to death
murderers were younger than you

June 15, 2003

§

As coisas sempre acontecem de repente

o lago congela de uma vez
ele envelhece de repente
o passado desaparece de repente
nos tornamos fracos da memória
eu paro de amar você de repente
ainda que muitos anos tenham passado
antes que eu percebesse isso
muitos anos depois, como no homem cego e um elefante
nós montamos juntos
um lento desaparecimento

Novembro 25, 2005

Things always happen suddenly

the lake freezes at once
he grows old suddenly
we turn into the poor of memory
I stop loving you suddenly
yet many years have gone
before I realize this
many years later, like the blind men and the elephant
we piece together
a slow fading

November 25, 2005

§

Resolução

construa uma cabana que chegue a meio metro
para aqueles que não desejam crescer
aqueles que sofrem de inocência juvenil
dê a eles brinquedos que não se desgastarão
plante no pátio grama deformada que não crescerá
como o gramado bem aparado do presidente de uma grande potência
botões nunca morrerão ou florescerão
injete nas plantas uma droga que interrompa a reprodução
vista coloridas e justas roupas mágicas para cães e gatos
então eles nunca farão barulho e a primavera nunca morrerá

Maio, 1, 2003

Tackle

build a hut that stands at half a meter
for those who do not wish to grow up
those who suffer from youthful innocence
give them toys that won’t wear out
plant in the courtyard deformed grass that won’t grow
like a well-trimmed lawn of the president of a great power
buds will never die or blossom
inject plants with a drug that stops reproduction
put on close-fitting colorful magic clothes for cats and dogs
so they will never make a sound and spring never die

May 1, 2003

§

A vida deveria ter sido tão séria

Eu olhei de relance para ele, por acaso
casei com ele, por sinal
nós curtimos, por sinal
nunca houve uma criança
eu cozinhei uma sopa, por acaso
nós vivemos, por sinal
com alguns amigos casuais
o tempo se escapuliu, por sinal
nós envelhecemos, por sinal
ficamos gravemente doentes
até virarmos modelos, por sinal
que perfeito casal
…tanta harmonia
nós apenas tomamos nosso último suspiro
o sol lançou um olhar de relance, por sinal
na varanda vazia

Novembro 20, 2000

Life should have been so serious

I glanced at him casually
married him by the way
we fooled around by the way
never had a child
I brewed some soup casually
we lived by the way
with some casual friends
time slipped away by the way
we aged by the way
fell gravely ill
even became a model by the way
what a perfect couple
…such harmony
we just took our last breath
the sun cast a glance by the way
on a balcony with no one

November 20, 2000