poesia, tradução

CARPE DIEM: 28 versões + 2, por Matheus Mavericco

Existem poemas que conseguem a tremenda felicidade de cravarem uma expressão ou uma palavra na cabeça dos leitores. Nem sempre é sinal de qualidade. Veja o caso de “passar pela vida em branca nuvem”, expressão usada por nossos avós e que foi retirada de um poema de Francisco Otaviano, patrono da cadeira de número 13 na Academia Brasileira de Letras e poeta medíocre, autor, quando muito, de um soneto hamletiano vagamente interessante. Exemplo ligeiramente diverso é o de “Depois de um longo e tenebroso inverno”, segundo verso de um soneto até comovente de Luís Guimarães Júnior, onde as assonâncias conseguem pelo menos desempenhar um papel curioso ao espichar a duração do verso. Nem um nem outro, todavia, capazes de rivalizar com o que o poeta mineiro conseguiu com seus “uma pedra no meio do caminho” e “E agora, José?”.

Com carpe diem é igual. Graças ao que o Ensino Médio cobra e ao que o professor Keating sussurra no ouvido dos alunos, mesmo quem não tenha a mínima noção da amplitude poética que a expressão alcançou consegue, ainda que por alto, mensurar sua importância. E no entanto, veja o leitor que quando Horácio escreveu o poema que a imortalizou, o décimo primeiro do primeiro livro de suas Odes, ele na verdade não estava estreando no assunto. Compor um poema que versasse sobre a brevidade da vida e que a partir de determinado ponto exortasse o ouvinte a vivê-la era ideia em voga antes mesmo de Horácio, o que, em absoluto, não deve causar estranheza. Embora hoje sejamos leitores acostumados a apreciar as últimas novidades e tendências da arte, em consumir o que nos vendem como único e feito só pra nós, é preciso entender que a situação era bem diversa na literatura antiga e na literatura clássica, onde o poeta lançava mão de um arcabouço de saberes, assuntos, procedimentos e técnicas comuns a toda a inteligência de seu tempo, e, a partir daí, compunha uma obra que a um só tempo respeitasse as convenções de cada gênero e o vivificasse, não no sentido de separar a obra de tudo o que veio antes e sim no de equiparar-se com os grandes mestres, contribuindo, pelo menos, com mais um espécime ilustre e genuíno para aquele departamento.

Não espanta, portanto, que a ode de Horácio tenha sido aludida inúmeras vezes por poetas variadíssimos. Dentro do lugar-comum antes mencionado, de se falar da brevidade da existência humana e exortar a que mexamos o esqueleto, Horácio foi, como dito por Francisco Achcar, um verdadeiro campeão do gênero, ou seja, ele criou, dentro daquela convenção poética específica, um poema de altíssima qualidade e competência que se tornou ele próprio um baluarte, um monumento.

Falemos do carpe diem. Que tenha sido a expressão que caiu na boca do povo é quase que um mérito esperado, afinal de contas ela guarda toda uma concisão e um garbo que a destacam daqueloutras que, verdade seja dita, também chamam nossa atenção para o mesmo tema (por exemplo spem longam reseces). Os sentidos aplicáveis ao verbo carpere são basicamente quatro. O leitor já deve saber que ele diz respeito a aproveitar o dia, gozá-lo de forma detida ou, pra citar as formulações admiráveis de Péricles Eugênio e de Nelson Ascher, desfrutá-lo, fruí-lo. Todavia, pode dizer também colhê-lo quase como se fosse um fruto. É um sentido preferível e forte, afinal de contas adiciona delicadeza à imagem ao sugerir uma relação metafórica implícita e sutil que trata os dias como flores. Camões, num soneto admirável, fala da Primavera que se traslada para o rosto da amada, ao que, no primeiro terceto, declara que se ela não aceitar o amor oferecido, então sua beleza perderá a graça: “Se agora não quereis que quem vos ama / Possa colher o fruito destas flores”. Estas, ou seja: “boninas, lírios, rosas”, todas encontradas no rosto dela depois que a Primavera para lá se mudou.

No entanto, podemos apontar outros dois sentidos menos óbvios. Celestino Massucco, intelectual italiano que viveu a transição do século XVIII para o XIX, ao comentar o poema menciona que carpere é prender o tempo que foge. “Apanhar”, usado por Nelson Ascher em sua primeira versão, consegue fazer jus a tal sentido e àqueloutro, botânico. Um quarto, por fim, é o que foi estudado por Alfonso Traina num importante ensaio de 1986 onde discute, precisamente, a semântica do carpe diem. Aqui, o ensaísta italiano defende que carpere, saído de um campo semântico que também envolve rapere e sumere, é um processo traumático, é um prender lacerante e progressivo que vai do todo à parte, quase como se desfolhasse uma margarida. Se a parte é o dia, o todo é claramente o tempo, o que torna a conclamação horaciana, pelo fato de que pede para que nos atenhamos no instante, um modo de neutralizar a fuga do tempo invejoso, afinal de contas, como o próprio autor diz, já na enunciação o tempo escapa.

À medida que traduzia o poema e o revisava, o que fiz com muita displicência, busquei dar ênfase a este último sentido, o que o uso do verbo “destacar” deixa bem claro, afinal de contas pode ser tomado tanto no sentido de separar o dia de algo maior (o tempo) ou de lhe dar destaque. Outras opções tradutórias, é claro, demandam mais comentários, por exemplo transformar sapias, no original, em “Te experiência”: aqui eu quis manter a proximidade que saber e sabor possuem no latim, bem o que o Guilherme evidenciou pro leitor na sua segunda versão. No entanto, a partir do momento em que o carpe diem é o grande chamariz da postagem, deixo de lado todas as outras questões pertinentes a este poderosíssimo e compacto poema.

Recompilo todas as versões anteriormente postadas, acrescidas de outras que descobri, por exemplo a feita no século XVI por um anônimo com propósito didático: o autor citava um trecho do poema e fornecia em seguida a tradução literal da passagem, às vezes comentando passagens dignas de nota. (Na reprodução abaixo, cortei os trechos em latim e atualizei a grafia.) Além de recompilá-las, organizei-as cronologicamente e indiquei suas respectivas datas, adicionando, por fim, os dados bibliográficos daquelas que ou não constavam na última postagem ou que não chegaram a ser compiladas e estudadas por Francisco Achcar em seu Lírica e lugar-comum (EdUSP, 2015). Agradeço ao Guilherme Gontijo Flores, que me ajudou com algumas traduções que eu não tinha encontrado.

Matheus Mavericco

* * *

Carmina 1.11

Tu ne quaesieris, scire nefas, quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati.
seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum: sapias, vina liques et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

§

trad. André Falcão Resende [séc. XVI]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

………….Não queiras saber quando
Terão fim, ó Leucótoe, nossas vidas,
………….Por números contando
As babilônias sortes proibidas,
Quais hão de ser, se curtas, se compridas;

………….Se o escuro Averno
Havemos de ir passar, se tarde ou cedo,
………….Se neste hórrido inverno,
Que quebra o mar no duro e alto rochedo,
E seu rigor nos põe espanto e medo.

………….Será melhor aviso
O são vinho gastar e a vã esperança
………….Da vida em festa e riso:
E pois que a idade e o tempo faz mudança,
Logra o presente e no porvir não cansa.

§

versão literal anônima [séc. XVI]. Adaptado e com grafia atualizada
em: Obras de Horácio, Officina de Ioam da Costa, 1668, p. 14/15. Disponível aqui.

(…) ó amigo Leuconoe (…) vós (…) não esquadrinheis, nem queirais (…) saber, (…) que fim (…) os deuses (…) me derem, ou também (…) que fim (…) vos terão dado ((…) porque é pecado querer saber isso) (…) nem esquadrinheis saber (…) os números matemáticos (porque os babilônios inventaram a matemática) (…) para que (…) tudo o que acontecer seja melhor de sofrer ((…) ou (…) o deus Júpiter (…) vos concedeu (…) este só ano, ou inverno de vida: (…) o qual inverno (…) agora causa [?] (…) o mar Mediterrâneo (…) com as pedras postas diante, em que quebra sua fúria) (…) uma só coisa é bem que saibais[:] (…) tirar, ou beber o vinho mais velho, e delicado, e isso quer dizer derreter o vinho, po[is] que ao vinho velho, e dessecado, chamavam, (…) e com o breve espaço da vida (…) corteis (…) a comprida esperança de viver (…) em quanto falamos, (…) a idade (…) invejada de todos (…) desaparecer deixando-nos velhos (…) aproveitai-vos do dia presente, (…) que de nenhum modo se confia ao de amanhã.

§

trad. Filinto Elísio [séc. XVIII]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Tu não trates (que é mau) saber, Leucônoe,
Que fim darão a mim, a ti os Deuses;
Nem inquiras as cifras Babilônias,
Por que melhor (qual for) sofrê-los apures.
Ou já te outorgue Jove invernos largos,
Ou seja o derradeiro o que espedaça
Agora o mar Tirreno nos fronteiros
Carcomidos penhascos. Vinhos coa:
Encurta em tracto breve ampla ‘sperança.
Foge, enquanto falamos, a invejosa
Idade. O dia de hoje colhe, e a mínima
No dia de amanhã confiança escores.

§

trad. José Agostinho de Macedo [séc. XVIII]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Ah! Não procures indagar que termo
Tenha prescrito o Fado a nossos dias;
Vedado é saber tanto,
Dos Vaticínios Babilónios deixa,
Para aprender a suportar constante
Os acintes da Sorte.

Ou Jove te destine mais Invernos
A cuta Idade, ou seja o derradeiro,
Este, que ao Mar Tirreno
As fúrias quebra nas opostas Rochas,
E nele a Parca inexorável feche
O círculo da vida.

Se és prudente, se és cauta, arrasa as Taças
De doce vinho, apouca as Esperanças
Em duração tão breve.
Enquanto assim discorro, a Idade foge:
Aproveita o presente, e não confies
Crédula no Futuro.

§

trad. Elpino Duriense [1807]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Saber não cures (é vedado) os deuses
A ti qual termo, qual a mim marcaram,
Nem consultes, Leucônoe, os babilônios
Cálculos, por que assim melhor já sofras
Tudo quanto vier, ou te dê Jove
Muitos invernos, ou só este, que ora
O mar tirreno nas opostas rochas
Quebra. Tem siso, o vinho coa, e corta
Em vida breve as longas esperanças.
Ínvida idade foge: colhe o dia,
Do de amanhã mui pouco confiando.

§

versão de Marquesa de Alorna [1820]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Não procures saber, querida Irene,
Se a mim, se a ti, os Deuses concederam
Da vida um tempo próximo ou distante:
……..Não convém tal exame.

Não indagues os cálculos incertos
Que produzem horóscopos confusos;
Melhor será sofrer que descobri-los:
……..O que vier aceita.

Ou nos dê Jove invernos numerosos,
Ou neste, que do Tejo açouta as águas,
Atropos corte o fio a nossos dias,
……..Recear é fraqueza.

Gosta os fructos da Quinta do Descanso:
Para longa esperança o espaço é breve;
A idade foge enquanto discorremos:
……..Aproveita os momentos.

§

versão de Ricardo Reis [séc. XX]
vide Francisco Achcar

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
……..O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
……..É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
……..O dia, porque és ele.

§

trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos [1964]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

Não indagues, Leucônoe, ímpio é saber
……..a duração da vida
que os deuses decidiram conceder-nos,
nem consultes os astros babilônios:
……..melhor é suportar
……..tudo o que acontecer.
Quer Júpiter te dê muitos invernos,
……..quer seja o derradeiro
este que vem fazendo o mar Tirreno
……..cansar-se contra as rochas,
mostra-te sábia, clarifica os vinhos,
……..corta a longa esperança,
que é breve o nosso prazo de existência.
……..Enquanto conversamos
……..foge o tempo invejoso.
Desfruta o dia de hoje, acreditando
o mínimo possível no amanhã.

§

trad. Aduíno Bolívar [1964]
vide Francisco Achcar, p. 119/120

Não queiras perquirir, Leucônoe, (é vedado)
O fim que a ti ou a mim hajam predestinado
Os deuses. Dos Caldeus nos números obscuros
Não tentes deletrear os eventos futuros,
Quanto é melhor sofrer o que há de vir! Bom prazo
De anos Jove nos dê, ou seja o último, acaso,
Este que nos parcéis da praia o mar tirreno
Quebrante, saibas coar o teu vinho e em pequeno
Espaço confinar o teu ideal grandioso.
Ainda estamos falando, e já o tempo odioso
Terá fugido… E, pois, eia, colhe este dia
Como quem no amanhã de modo algum confia…

§

tradução de Marie Helena da Rocha Pereira [1976]
em: Romana: antologia da cultura latina, 6a. ed., Guimarães, 2010.

Não pudemos, Leucónoe, saber — que não é lícito — qual o fim
que os deuses a ti ou a mim quererão dar,
nem arriscar os cálculos babilónios. Quão melhor é sofrer o que vier,
quer sejam muitos os invernos que Jove nos der, quer seja o último
este, que agora atira o Mar Tirreno contra as roídas rochas.
Sê sensata, filtra o teu vinho e amolda a curto espaço
uma longa esperança. Enquanto falamos, terá fugido o invejoso tempo.
Colhe a flor do dia, pouco fiando do que depois vier a suceder.

§

versão de Paulo Leminski [1984]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

 

 

§

versão de Augusto de Campos [1985]
vide postagem anterior e Francisco Achcar

§

trad. Augusto Peterlini [1992]
vide Francisco Achcar, p. 119/120

Não buscarás, saber é proibido, ó Leuconôe,
Que fim reservarão a mim, a ti os Deuses;
Nem mesmo os babilônios números perscrutes…
Seja lá o que for, melhor é suportar!
Quer Júpiter nos dê ainda mil invernos,
Quer venha a conceder apenas este último,
Que agora estilha o mar Tirreno nos penhascos,
Tem siso, os vinhos vai bebendo, e a esperança,
De muito longa, faz caber m curta vida.
Foge invejoso o tempo, enquanto conversamos.
Colhe o ia de hoje e não te fies nunca,
Um momento sequer, no dia e amanhã…

§

trad. Nelson Ascher [1994; 1ª versão]
em: Poesia Alheia, Imago, 1998, p. 62-63.

Não busques (é tabu!) saber que fim, Leucónoe,
os deuses nos reservam. Põe de lado o horoscopo
da babilônia e aceita: o que há de ser, será,
quer nos dê Jove mais invernos, quer só este
que em rochas quebra o mar Tirreno. Vive, bebe
teu vinho e talha, ao curto prazo, anseios longos.
Enquanto eu falo, o tempo evade-se invejoso.
Apanha o dia e não confies no amanhã.

§

trad. David Mourão-Ferreira [2003]
em: Revista Colóquio/Letras, n.º 163, Jan. 2003, p. 103.

Não procures, Leucónoe — ímpio será sabê-lo —,
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
não consultes sequer os números babilónicos:
melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê inda muitos Invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz
nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa esp’rança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata pois de colher o dia, o dia de hoje,
que nunca o de amanhã merece confiança.

§

trad. Bento Prado de Almeida Ferraz [2003]
em: Odes e epodos, Martins Fontes, 2003, p.38-39

Indagar, não indagues, Leuconói
qual seja o meu destino, qual o teu;
nem consultes os astros, como sói
o astrólogo caldeu:

não cabe ao homem desvendar arcanos!
Como é melhor sofrer quanto aconteça!
Ou te conceda Jove muitos anos,
ou, agora, os teus últimos enganos,
– prudente, o vinho côa e, mui depressa
a essa longa esperança circunscreve
a tua vida breve.

Só o presente é verdade, os mais, promessa…
O tempo, enquanto discutimos, foge:
Colhe o teu dia, – não no percas! – hoje.

§

trad. Nelson Ascher [2006; 2ª versão]
em: Ilustrada, 04/12/06. Disponível aqui.

Não sondes (é tabu) que fim nos tramam,
Leucônoe, os deuses, nem consultes mapas
astrais caldeus. — O que será, será,
dê Jove outros ou, moendo o mar Tirreno
com rochas, este inverno e só. — Decanta,
lúcida, o vinho a ansiar quanto é cabível.
Mal falo e o tempo foge hostil: frui já
teus dias sem contar nem com o seguinte.

§

trad. Marcio Thamos [2006]
em: Letras clássicas, USP, n. 10, 2006. Disponível aqui.

Não queiras tu, Leucônoe, descobrir
que fim a ti e a mim darão os deuses
(nem é bom que se saibam essas coisas),
esquece a astrologia babilônia:
melhor deixar que seja lá o que for.

Quer Júpiter te dê muitos invernos,
quer seja o derradeiro este que agora
fatiga o mar Tirreno contra as fragas,
tem prudência: dilui o vinho e ajusta
a esperança – que é longa – ao breve instante.

Foge o tempo invejoso enquanto falo:
— Colhe o dia e não contes que haja outro.

§

trad. de Pedro Braga Falcão [2008]
em: Horácio, Odes, Cotovia, 2008.

Tu não perguntes ( é-nos proibido pelos deuses saber) que fim a mim, a ti,
os deuses deram, Leucónoe, nem ensaies cálculos babilónicos.
Como é melhor suportar o que quer que o futuro reserve,
quer Júpiter muitos invernos nos tenha concedido, quer um último,

este que agora o Tirreno mar quebranta ante os rochedos que se lhe opõem.
Sê sensata, decanta o vinho, e faz de uma longa esperança
um breve momento. Enquanto falamos, já invejoso terá fugido o tempo:
colhe cada dia, confiando o menos possível no amanhã.

§

trad. Paulo Henriques Britto [2011]
vide postagem anterior; Ilustríssima, 09/01/11.

Não me perguntes, pois é proibido,
que fim darão, Leocono, a ti e a mim
os deuses; nem em adivinhações
ao modo babilônico confies.
Enfrenta o que cruzar o teu caminho.
Quer tenhas pela frente ainda muitos
invernos, quer fustigue já a costa
do mar Tirreno o último que Júpiter
há de te dar, sê sábio, bebe vinho,
e espera pouco. Neste mesmo instante
em que falamos, o invejoso tempo
de nós já foge. – Aproveita o dia,
confia no amanhã somente o mínimo.

§

versão de Paulo Henriques Britto [2011]
vide postagem anterior; Ilustríssima, 09/01/11.

HORÁCIO NO BAIXO

Tentar prever o que o futuro te reserva
não leva a nada. Mãe de santo, mapa astral
e livro de autoajuda é tudo a mesma merda.
O melhor é aceitar o que de bom ou mau
acontecer. O verão que agora inicia
pode ser só mais um, ou pode ser o último –
vá saber. Toma o teu chope, aproveita o dia,
e quanto ao amanhã, o que vier é lucro.

§

trad. Leandro Cardoso [2012]
vide postagem anterior

Não perguntes – saber é nefasto – qual fim nos foi dado
pelos deuses, Leuconoe, nem jogues c’os números
babilônicos. Como é melhor que se sofra o que for!
Quer conceda a nós Júpiter muitos invernos quer o último,
que, nas pedras opostas, agora enfraquece o Tirreno mar,
sejas cauta: depures o vinho e, num breve momento,
abandones a longa esperança. Enquanto falamos, o tempo
invejoso passou. No porvir não te fies: carpe diem.

§

trad. Guilherme Gontijo Flores [2012; 1a versão]
vide postagem anterior

Não perguntes (saber nefasto) o fim que a mim e a ti
os deuses concederam, ó Leucônoe; Babilônios
números não procures. Vai, aceita o que vier,
mesmo que Jove envie mais invernos, ou só este,
que agora contra as rochas debilita o mar Tirreno:
vai, sabe, saboreia, coa o vinho e em curto espaço
poda a tua esperança. Se falamos, foge o tempo
de inveja: colhe o dia, mas não creias no amanhã.

§

trad. Carlos Mendonça Lopes [2013]:
em: blog vício da poesia.

Não indagues, Leucónoe — sacrílego é sabê-lo — que fim, a mim e a ti,
os deuses destinaram, nem astrológicas(*)
previsões procures. Melhor é suportar o que vier,
quer muitos invernos Júpiter nos dê, quer seja o último,
este, que agora desfaz nas gastas rochas, as ondas do mar Tirreno.
Sê sensata, decanta o vinho, amolda à vida breve
a longa expectativa. Nós falamos, e o invejoso tempo voa:
colhe cada dia, acredita pouco no que amanhã virá.

§

trad. Guilherme Gontijo Flores [2015; 2ª versão]

Tu nem vás perguntar (ímpio saber) sobre o que a mim e a ti
que fim deuses darão, Leuconoé, nem babilônios
astros ouses tentar. Antes viver o que vier, sem mais,
quer invernos sem fim ou só mais um ceda-nos Júpiter,
que hoje a se debater rasga o rochaz leito em Tirreno mar.
Saibas saborear, coa este vinho, anda e num curto chão
poda o longo esperar! Nesta conversa, ínvido o tempo já
foge: colhe este dia, ai!, sem pensar nunca nos amanhãs.

*

Gravação Solo:

 

Performance do Pecora Loca:

 

§

trad. Daniel Fernandes da Silva [2017]
em: comentário à antiga postagem

Saber não busques, Leoconoe, que fim
Tenha o Fado prescrito a ti e a mim;
Nem tua sorte ler queiras nas estrelas
Para melhor sofreres-lhe as mazelas;
Quer de invernos te dê Jove um milheiro,
Ou quer então seja este o derradeiro
Que o Mar Tirreno contra as rochas lança,
Vive com sensatez: poda a esperança
Em vida assim tão breve, e o vinho coa;
Enquanto aqui discorro, o Tempo voa:
Faz do instante presente o teu tesouro,
Muito pouco esperando do vindouro.

§

versão de Tarso de Melo [2017]
em: rede social do poeta

Não esquenta, camarada,
tentando adivinhar quanto tempo
os deuses nos darão de vida.
Pouco importa se este é o último
ou só mais um verão batendo
sem dó na sua janela.
Vai, curta o que vier,
pega um copo e já era.
O amanhã não merece
tanto esforço da sua esperança.
Deixa rolar. E aproveita o dia.

§

trad. Matheus “Mavericco” [2017]

Não indagues (sabê-lo é nefasto) o que os deuses
tramam a ti e a mim, Leucônoe, nem recorra
a signos babilônios. Viva o que vier!
Se Júpiter te encher de invernos ou se um último
te der, que acerta e erode as rochas do Tirreno,
te experiencia, coa o vinho e corta em curto
espaço a espera! O tempo invejoso, ao falarmos,
foge: destaca o dia, crendo pouco no após.

§

trad. Ezra Pound
vide postagem anterior

Ask not ungainly askings of the end
Gods send us, me and thee, Leucothoe;
Nor juggle with the risks of Babylon,
Better to take whatever,
Several, or last, Jove sends us. Winter is winter,
Gnawing the Tyrrhene cliffs with the sea’s tooth.

Take note of flavors, and clarity’s in the wine’s manifest.
Cut loose long hope for a time.
We talk. Time runs in envy of us,
Holding our day more firm in unbelief.

*

trad. Adriano Scandolara da trad. de Pound
vide postagem anterior

Deixa as questões canhestras de que fins
Mandam deuses, Leucôtoe, a ti e a mim,
Nem jogues com riscos da Babilônia,
Mas pega o que vier
Vários ou derradeiros, à mando de Jove. Inverno é inverno,
Rói o Tirreno no dente do mar.

Anota os sabores, e a clareza é no vinho manifesta.
Corta fora a longa esperança por ora.
Conversamos. Corre o tempo com inveja,
Firmando o nosso dia na descrença.

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poesia, tradução

Um cântico de Inana e Dumuzid

inana-e-dumuzid

Inana/Ištar e Dumuzid/Tâmuz, em detalhe de cerâmica suméria

Bem, por sorte eu já falei bastante longamente sobre a deusa Inana, divindade suméria do amor, do sexo, da fertilidade e da guerra (conhecida como Ištar entre os babilônios e possível origem da deusa Afrodite no panteão grego) e seu esposo Dumuzid (ou Tâmuz), num momento anterior aqui no blogue, quando apresentei o poema “A descida de Inana ao mundo dos mortos” (e um outro post que fala da deusa também é o do Bernardo com a tradução da tabuleta 6 do Épico de Gilgámeš), por isso acredito que agora eu posso ser um pouco mais breve nesta introdução. Para ser realmente brevíssimo, o tema deste post agora é um poema sumério de diálogo erótico entre o casal de deuses. Pois é.

O livro do Cântico dos Cânticos é a nossa referência mais óbvia para o gênero, acredito, com suas referências sexuais algo explícitas e seu jogo de vozes entre o rei Salomão, a jovem que é desposada por ele ao longo do poema e uma outra voz que funciona mais ou menos como um coro grego, ainda que isso não esteja explícito na maioria das edições bíblicas. O gênero do poema dialógico parece ser um velho conhecido já da literatura mesopotâmica, vide “O diálogo do pessimismo”, que já vimos aqui também, apesar de que é difícil dizer se, assim como os poemas sumérios, “O diálogo do pessimismo” era um poema musicado que transcrito na argila, ou se era uma criação original de um escriba para circular só entre escribas. São mais raros, no entanto, os exemplos de poemas com o mesmo teor que o famoso poema bíblico, que, apesar de sua atribuição ao rei Salomão, estima-se que tenha sido composto mais ou menos durante o chamado período persa da cultura de Judá, i.e. nos séculos logo após o retorno do exílio na Babilônia em 536 a.C., o que faz com que ele seja muito recente na história do Oriente Médio. E é por isso que encontrar um poema sumério – composto no máximo até 1600 a.C., portanto – com essa mesma configuração é nada menos que fascinante (pelo menos tanto quanto a perspectiva de dizer aos amigos que você está lendo pornografia suméria).

Como é normal na literatura suméria, o tal poema em questão não tem nome de autor e tampouco tem título, com exceção da classificação dada pelo Electronic Corpus of Sumerian Literature como Dumuzid-Inana P e a sua descrição dúbia como um possível balbale (um gênero poético sumério, ao qual pertence a “Canção de Amor de Šu-Sin”, já traduzida aqui também). O original transcrito do poema e a sua tradução para  o inglês podem ser verificados no ETCSL clicando aqui, que, por sua vez, reproduz o poema com base no volume Love songs in Sumerian literature: critical edition of the Dumuzi-Inanna songs, de Yitschak Sefati, publicado em 1998 pela Bar-Ilan University Press. Infelizmente, como vocês podem averiguar, o poema está fragmentado, o que atrapalha muito a fruição e é um pesadelo para qualquer tradutor, mas bem, a gente faz o que dá para fazer. A descoberta de um poema desses, em todo caso, é bom demais para deixar passar por causa de um detalhe como falta de integridade física.

Eu poderia me demorar mais comentando coisas como a franqueza da linguagem sexual do poema, que é típica da falta de pudor dos sumérios (benza Inana) ou ainda o que podemos reconhecer como um lirismo surpreendentemente próximo do nosso, apesar da distância temporal, em algumas imagens como a da vulva de Inana como uma nau celeste (eu disse que eles eram francos) ou bela como a jovem lua crescente. Mas acredito que o poema fale por si mesmo. Sem mais delongas, portanto, segue a minha tradução. Operando do mesmo modo que as anteriores (com contato direto com o original, mas norteado também pela tradução inglesa), ela contempla as partes mais legíveis dos segmentos A e B do poema tal como disponibilizado pelo ETCSL.

 

Um cântico de Inana e Dumuzid

(…)

Inana
sobre povos numerosos pousei meu olhar
e a Dumuzid apontei por deidade da terra
a Dumuzid, o amado de Enlil,
exaltei o nome, decretei o destino,
minha mãe muito o estima
meu pai o elogia

eu me banhei e lavei-me com espuma
banhando-me em pé sobre a tina
minhas vestes, como as dos justos, foram passadas
meu vestido soberbo foi ajustado

(…)

o poeta entoa um cântico
meu esposo celebra comigo
Dumuzid, o touro selvagem, celebra comigo

Coro
…o desejo em tons de louvor
a senhora das terras todas…
que faz subir as preces em Nibru…
que faz descer as preces…
a senhora louva a si própria;
o gala[1]… em canto
Inana louva…
seu sexo em canto

Inana
este sexo, …
como um chifre, um grande coche…
esta minha Nau Celeste ancorada
que traja a beleza como a jovem lua crescente
este ermo na estepe…
estes prados de cairinas onde pousam minhas cairinas
estes prados altos e bem molhados
meu sexo, um morro aberto e bem molhado
quem será seu lavrador?
meu sexo, um morro aberto e bem molhado
quem levará o touro a ele?

Dumuzid
senhora, o rei virá lavrá-los para ti
Dumuzid, o rei, virá lavrá-los para ti

Inana
lavra meu sexo, homem do meu coração

Coro
…ela banha seus divinos quadris

 

[1] gala é como se chama um tipo de sacerdote ou cantor ritual, de natureza sexualmente ambígua, devoto de Inana. Por conta da especificidade da função, achei que seria melhor deixá-lo no original.

(tradução e comentário de Adriano Scandolara)

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crítica, poesia, tradução

“O diálogo do pessimismo”

escravos-babilonia

“O diálogo do pessimismo” é um poema babilônico que fazia um tempo que eu queria traduzir. Também chamado de arad mitanguranni (o primeiro verso do poema no original: “vem servir-me, escravo” ou “escuta, escravo”) ou “O diálogo de um senhor e seu escravo”, por motivos óbvios, ele consiste nisso mesmo. São 10 ou 11 estrofes, cada uma com uma estrutura bastante simples, mas eficaz: elas começam com o chamado do senhor e a resposta do escravo. Então o senhor diz que quer fazer alguma coisa (ir ao palácio, jantar, fazer um sacrifício ao seu deus) e o escravo responde comentando as vantagens disso que ele deseja fazer. Depois o senhor muda de ideia, e o escravo comenta as vantagens de não fazê-lo. A literatura chamada sapiencial era um gênero respeitável na Mesopotâmia e muito popular entre a classe de escribas, que treinavam seu ofício com provérbios e consideravam secreto o conhecimento que registravam nas tabuletas, algo só para a pequena elite capaz de ler a complexa escrita cuneiforme do sumério e do acádio – os iniciados. Há algo de literatura sapiencial no poema, e durante algum tempo (até 1954, como comenta Lambert) os pesquisadores o incluíram como parte do gênero. De fato, nota-se um verniz de profundidade nas falas do escravo: “Comer alegra o coração”, “Quem ama uma mulher esquece toda dor e tristeza”, “o cão de rua sempre encontra o osso”. São versos que têm toda a carinha de provérbios e frases de efeito (e suas subversões resultam em versos poderosos como “Terra nua é o leito do onagro”, “olha as caveiras dos nobres e da plebe, / quais foram vilões e quais os benfeitores?”). Há citações e alusões a um poema religioso chamado “Hino a Šamaš” (o deus do sol) e ao Épico de Gilgámeš. Esse movimento argumentativo que oscila entre o desejo da ação e da inação também já levou os estudiosos a compará-lo com o livro do Eclesiastes.

No entanto, como já apontou Frye sobre o gênero cômico, uma das origens do efeito cômico é a repetição, e é isso o que temos aqui. Se, ao lermos suas estrofes separadamente, fica a impressão de que o tom dos versos poderia ser tido como mais pura e seriamente filosófico, é inevitável, conforme avançamos, a sensação de que o autor não está sendo de todo sério. A cada repetição, o escravo parece menos um sábio e mais um bajulador tentando a todo custo obter os favores do seu mestre (e, né, na situação dele, quem pode culpá-lo?), o que lembra muito o estereótipo da comédia latina (uma invenção, porém, muito posterior) do seruus currens, o escravo ardiloso de comédia que vemos em Plauto e Terêncio. O próprio texto parece reconhecer isso, e caminha num crescendo – que leva à comparação ridícula e blasfema entre os deuses e cachorros e ao desespero da relatividade moral da penúltima estrofe – até culminar na piada de humor negro que encerra o poema, que eu não consigo ler sem pensar nas discussões de suicídio de Esperando Godot (no ato 1 eles pensam as possibilidades de se enforcarem no galho, aparentemente frágil, da única árvore no palco. Gogo comenta que Didi é mais pesado, então se ele se enforcar antes e o galho quebrar, Gogo vai ficar sozinho e sem galho para poder se enforcar também). E tudo isso é ancorado num problema que talvez não seja tanto diretamente ético, mas mais linguístico, na medida em que a linguagem nos dá a capacidade de justificar qualquer ação ou inação. Ainda há discussão entre estudiosos sobre qual o tom exato do poema, se solene, cínico, fanfarrão ou de fato pessimista. Em todo caso, fica a impressão do quanto é tênue a fronteira entre a sabedoria e o cômico.

Por fim, algumas informações bibliográficas: o poema foi escrito por volta de 1000 a.C. (a menção a uma adaga de ferro exclui a possibilidade de ser uma composição mais antiga, do período paleobabilônico) em acádio, a língua do Império Babilônico e principal língua da Mesopotâmia até ser substituída, mais tarde, pelo aramaico como língua franca do antigo Oriente Médio. Esquecido ao longo dos séculos, ele é redescoberto aparentemente no final do século XIX (quando o processo de deciframento da língua estava já em estágio razoavelmente avançado) em cinco manuscritos diferentes, dos quais um está quase completo, de modo que dos 86 versos do poema apenas 15 estão danificados (porém seu possível conteúdo é em parte recuperável pelo contexto). Ele foi transcrito e publicado nos círculos de especialistas por G. Reisner e E. Ebeling entre 1896 e 1919 e desde então tem sido traduzido em diversas edições, uma das mais célebres sendo a de Wilfred G. Lambert, Babylonian Wisdom Literature, de 1960 (pp. 139-149), que conta com uma introdução, transcrição (incluindo das variações) e uma tradução literal. Em 19 de novembro de 1987, saiu uma tradução poética do poema no The New York Review of Books, de autoria de ninguém menos que Joseph Brodsky, com o título ‘Slave, Come to My Service!’, com base na edição de Lambert e de James B. Pritchard. Brodsky se equivoca, porém, ao se referir ao poema como um poema sumério, mas é uma confusão compreensível. Não tinha internet nos anos 80 para esclarecer esse tipo de dúvida em cinco minutos. Neste caso, para a minha tradução, eu me baseei na de Brodsky, porque o poeta eliminou as lacunas (é tão frustrante ler poema com verso faltando) e especialmente porque ela funciona muito bem, que é o critério mais importante. No entanto, onde Brodsky se desvia demais (por exemplo, o que ele traduz como “do some evil” costuma ser interpretado pelos estudiosos como “liderar uma revolução”), eu preferi me aproximar mais das traduções acadêmicas. No tocante ao tom do poema, numa tentativa de fazer jus à sua ambiguidade entre seriedade e humor, eu procurei manter ao mesmo tempo algum grau de poeticidade (com o uso algo arcaizante do “tu”, aliterações, vocabulário) e uma oralidade à brasileira que eu acho que funcionam para esse propósito.

 

Arad mitanguranni: o Diálogo do Pessimismo
ou: um Senhor e seu Escravo

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Rápido, busca minha carruagem e arreia os cavalos: irei ao palácio!”
“Vai ao palácio, meu senhor. Vai ao palácio.
O rei ficará feliz em te ver e será benevolente”.
“Não, meu escravo. Não irei ao palácio!”
“Não vás, meu senhor. Não vás ao palácio.
Serás mandado pelo rei a alguma missão longínqua,
por estradas estranhas, montanhas hostis;
dia e noite sujeito a mazelas e dor”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Busca a água e derrama-a em minhas mãos: quero jantar”.
“Janta, meu senhor. Janta.
Comer alegra o coração. O jantar de um homem
é o jantar de seu deus, e mãos limpas fisgam o olhar de Šamaš”.
“Não, meu escravo. Não jantarei!”
“Não jantes, senhor. Não jantes.
Bebida e sede, comida e fome
nunca abandonam o homem, nem a si próprias”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Rápido, busca minha carruagem e arreia os cavalos: irei passear pelo campo”
“Isso, meu senhor, isso. Despreocupado, o caçador
tem sempre a barriga cheia, o cão de rua sempre
encontra o osso, a andorinha que migra domina a arte de fazer ninhos
o onagro encontra a relva no mais seco dos desertos”.
“Não, meu escravo, não irei passear pelo campo”.
“Não vás, meu mestre. Não te dês ao trabalho.
É sempre fugaz a sorte do caçador,
o cão de rua perde os dentes. O ninho
da andorinha que migra é enterrado pela argamassa.
Terra nua é o leito do onagro”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Tenho vontade de constituir família, desejo ter filhos”.
“Bem pensado, meu senhor. Isso, tem filhos.
Quem constitui família garante o seu nome, orações póstumas o repetem”.
“Não, meu escravo. Não constituirei família, não terei filhos!”
“Não o faças, meu senhor. Não os tenhas!
Uma família é uma porta torta, sua dobradiça range.
De cada três filhos, só um é sadio; os outros dois, doentes.”
“Mas devo constituir família?” “Não, não o faças.
Quem constitui família desperdiça seu lar ancestral”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Vou ceder aos meus inimigos; calarei diante das acusações no tribunal”.
“Isso, meu senhor, isso. Cede aos inimigos;
guarda teu silêncio, meu senhor, diante das acusações”.
“Não, meu escravo! Não irei calar e não cederei!”
“Não cedas, meu senhor, e não te cales.
Mesmo que não abras a boca
impiedosos teus inimigos serão e cruéis,
além de numerosos”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Desejo liderar uma revolução”.
“Ótimo, meu senhor. Isso, lidera a revolução.
Pois, do contrário, como tu hás de encher tua barriga?
Como poderás vestir o corpo sem revolução?”
“Não, meu escravo. De modo algum serei um revolucionário!”
“Os revolucionários acabam mortos ou cegos e esfolados vivos
ou cegos, esfolados vivos e trancados na masmorra”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Quero amar uma mulher”. “Ama, senhor, ama!”
Quem ama uma mulher esquece toda dor e tristeza”.
“Não, meu escravo. Não quero amar mulher nenhuma!”
“Não ames, meu senhor. Não ames.
Mulher é cilada, tocaia, fosso sem luz,
o ferro afiado de uma adaga para cortar-te a garganta no escuro”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Rápido, busca água para lavar-me as mãos: farei oferenda ao meu deus”.
“Isso, faz oferenda, faz oferenda.
Quem sacrifica ao seu deus enche o coração de riquezas;
sente-se generoso, abre-se a sua bolsa”.
“Não, meu escravo. Não farei oferenda alguma!”
“Tem razão, meu senhor. Tem toda razão!
Treina teu deus para te seguir como um cãozinho,
com suas carências de servidão, rituais, sacrifícios”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Quero fazer um investimento, vou emprestar com juros”.
“Ah, sim, investe, empresta com juros.
Quem investe preserva o que tem, e seu lucro é enorme”.
“Não, meu escravo, não emprestarei, nem investirei!”
“Não invistas, meu senhor. Não emprestes.
Emprestar é como amar, e receber de volta, gerar maus filhos:
todos maldizem o dono do pão que comem.
Ficarão ressentidos e diminuirão teu lucro”.

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Desejo fazer uma boa ação pela minha pátria!”
“Muito bom, meu senhor, muito bom. Faz isso!
Quem faz boas ações pela pátria grava seu nome no ouro do anel de Marduk”.
“Não, meu escravo, não farei boa ação alguma pela pátria”.
“Não faças isso, meu senhor. Não te dês o trabalho.
Vai e caminha pelas ruínas antigas,
olha as caveiras dos nobres e da plebe,
quais foram vilões e quais os benfeitores?”

“Vem, meu escravo, vem servir-me!” “Pois não, meu senhor?”
“Se é assim, então o que é bom?”
“Bom mesmo seria se quebrassem o meu e o teu pescoço
e depois fôssemos desovados no rio – isso sim!
Quem é tão alto que alcança os céus?
Tão amplo que abarca os infernos?”
“Se assim for, melhor eu te matar, meu escravo: prefiro que tu vás na frente”.
“E o meu senhor crê que saberias viver três dias sem mim?”

(poema mesopotâmio anônimo, introdução e tradução de Adriano Scandolara com base nas traduções de Brodsky e Lambert)

 

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Ana Božičević

ana-bozicevicAna Božičević nasceu em 1977 em Zagreb, na Croácia, e se mudou para Nova York em 1997, onde estudou no Hunter College e hoje estuda e dá aulas sobre poesia na BHQFU e no Bowery Poetry Club. Além de ser tradutora de poetas sérvio-croatas, como Zvonko Karanović (com um volume de traduções a ser publicado em breve), e ter publicado diversas plaquetes, é autora de dois livros de poemas, Stars of the Night Commute (2009) e Rise in the Fall (2013) – este último, aliás, ganhador do prêmio Lambda Literary Award de 2014. É também ganhadora do prêmio 40 Under 40: The Future of Feminism, da Feminist Press. Seu site, com mais poemas e informações, pode ser acessado clicando aqui e seu perfil no tuíter é @anaonthebranch. No momento, ela trabalha num terceiro livro chamado The Joy of Missing Out.

Um dos poemas que traduzo abaixo (e que obviamente chama atenção pela temática, ainda mais quando você pensa, inevitavelmente, na história de fundo da autora) se chama “War on a Lunchbreak” e apareceu pela primeira vez numa plaquete com esse mesmo nome em 2011 e depois em seu segundo livro, Rise in the Fall. Dos outros poemas que selecionei aqui, o “Anxiety of Influence” é desse livro também, ao passo que “Home” foi tirado do primeiro, Stars of the Night Commute.

rise in the fall

A Guerra na Pausa pro Almoço

O que é a guerra? Você não conseguir achar
seu outro brinco de pérola escura e você não se importa, na verdade, só que:
esse brinco é o teu irmão. Ele morreu,
e só tinha um, você jamais
vai ver ele de novo. O que é a guerra?

Eterna apatridia.
Poetisas que escrevem sobre rola,
sem pensar em gênero. Meus amigos casados em Vegas
bons velhos rapazes ou hipsters bateristas, só porque podiam, ou
quando contemplo
passar fome
porque assim eu ficaria “um estouro”, ou. Desculpa
não consigo parar de me virar & revirar. Meu ganha-pão aqui

depende de gente que nunca provou da
guerra, e se fazem de ofendidos quando você sai do trabalho
no horário. Não que eu jamais tenha deitado escondida

morrendo na vala, mas se eu tivesse, acho que
entenderia muito da grama seca, o valor incrível que ela tem:
só de ver os caules
mexendo já bastaria.

Queria ter tempo pra digitar isso,
mas o dia todo lá estão eles espiando atrás do meu ombro.
De fato

sinto pena deles. Como deve ser
se importar tanto com alguma coisa? Falar dia e noite
a um deus-monitor, arrumar sua caixa de brinquedos antes de ir dormir:
arranjar diplomas, ter interesses—
isso é a antiguerra?

É por isso que eu não consigo nem ler? Sei que tem guerra ao redor todo de mim,
e dentro tem guerra: quem morreu, quem traiu,
quando é que ela vai olhar pra mim daquele jeito,
que idioma é este, espero que ninguém invada a casa e nos estupre.
Nunca vejo a luz do sol.

O sol no quintal é tão
sem conteúdo, que ele quase sara.

É uma série de câmaras
em que me mostram
o que de fato eu tenho: peso.
Eletricidade. Uma sensação de equilíbrio. Isso basta?
Não sei como encerrar:

fadeout na grama? saída barata.
Algo que alguma poetisa sexy diria, como
“Os terroristas venceram, me acorde com um beijo”—

pede bis, ergue a bota, mostre os peitos!
estou cansada pra caralho do que é “sexy”

ter que ser sexy, corpo de musa
com a cara de lança-navios:

não consigo ler porque estou morrendo, eis a verdade,
prefiro apanhar este sol feito um cachorro.
Você que dê um jeito de escapar desse saco de papel com teorias.
O que é

a guerra? Isto:
sinto o sol mas fico perguntando o porquê.

 

War on a Lunchbreak

What’s war? You’re not able to find
the other dark pearl earring, and you don’t really care, except:
that earring’s your brother. He’s dead,
and there was only one, you’ll never
see him again. What’s war?

Eternal countrylessness.
Lady poets writing about cock,
not thinking about gender. My friends married in Vegas
to good-ol’-boys or hipster drummers, just ‘cos they can, or
when I contemplate
starving myself
so I’d be “the bomb,” or. I’m sorry
I keep tossing & turning. My livelihood here

depends on people who’ve never tasted
war, and act offended when one leaves work
on time. Not that I ever lay hiding

dying in a ditch, but if I had, I think that I’d
know much about dry grass, the incredible value of it:
just to see the stalks
move would be enough.

I’d like to have time to type this,
but all day long they’re looking over my shoulder.
I do

feel sorry for them. What’s it like
to care so much? Talk morning and night
to a proctor-god, tidy your toy box before bed:
to get degrees, have interests –
is that the anti-war?

Is that why I can’t even read? I know there’s war all around me,
and inside there’s war: who died, who cheated,
when will she look at me like that,
what language is this, I hope no-one breaks in and rapes us.
I never see sunlight.

The sun in the yard is so
contentless, it almost heals.

It is a series of chambers
where I’m shown
what I do have: weight.
Electricity. A sense of balance. Can that be enough?
I don’t know how to end this:

a fadeout on the grass? A copout.
Something a sexy girl poet would say, like
“The terrorists have won, kiss me awake”—

encore, cock your boot, show us your boobs!
I’m so fucking tired of the sound of “sexy”

of me being sexy, muse-body
with ship-launch face:

I can’t read because I’m dying, that’s the truth,
I’d rather take in this sunlight like a dog.
You theorize your own way out of this paper bag.
What’s

war? This:
I feel the sunlight but I keep asking why.

 

Angústia da Influência

Adormeci sobre a neve, e
acordei entre as folhas. Quadrilhas delas já estavam por aí
Uma limusine passou. Tinha um guindaste também
amarelo, marca KOMATSU.
O que isso quer dizer, perguntei. O jogo folha/sol
continuava em jogo. Ouvi falar que sono é uma coisa que cura
por isso fui ver o que é que ele curava, mas
não achei cicatriz. Isso eu adorei e detestei. Vou
pro centro, pensei — tocar o terror. Descerei
por lá com meus não-peitos e óculos espelhados e
todas as moscas da cidade pousarão sobre a minha confiança —
mas parece que o escândalo
tem algo de tão provinciano. Divertissement
contra o verde. Tanto da minha vida
protegi contra as forças do verde. Se
for mergulhar, não vou conseguir parar —
preciso ir ao pai que abandonei, lamber
individualmente cada pedra da rua, anotar cada
letra. Temo que quando começar não vai sobrar nada de mim. E se
não sobrar? Pelo menos esta
carcaça de lavanda
permanece — prefiro ser
a bomba d’água seca no meio do bosque do
que ser o bosque. Entende?
Então quer dizer que seria melhor ser relíquia do
que existir em tudo. Sim. E é por isso que você não
é poeta? Sim, é isso que eu quero dizer.
Mas uma coisa continua irresolvida. O quê?
O anseio. Suas ferrugens
te cobrem por inteiro, e bem logo subirá o dia
só pra que se desmanchem em pó vermelho com o mais leve
toque.

 

Anxiety of Influence

I fell asleep in the snow, and
woke up in leaves. Cotillions of them were already out
A limo glided by. There was a crane, too
yellow, brand of KOMATSU.
What does it mean, I asked. The leaf/sun interplay
played on. I heard that sleep was a thing of healing
so I looked in to see what it had healed, but
couldn’t find the scar. I loved and hated that. I’ll
go into town, I thought—cause a ruckus. I’ll swoop
in there with my no-boobs and mirror shades and
every single fly in town will land on my confidence—
but something about scandal
feels so parochial. Divertissement
against the green. So much of my life
I’ve held out against the forces of green. If
I dive in, I can’t stop—
I have to go into the father I abandoned, lick
every individual stone street, write down each
letter. I’m afraid when I start there’ll be nothing of me. And if
I don’t? At least this
lavender hull
remains—I’d rather be
the dry pump in the middle of the wood than
be the wood. Do you get it?
So you mean you’d sooner be a relic than
exist in everything. Yes. And that’s why you’re not
a poet? Yes, that’s what I mean.
But one thing is still unresolved. What’s that?
The longing. Its rusts are
all over you, and pretty soon the day will stand
only to crumble into red dust just at the lightest
touch.

 

Lar

Chove &
pequeninos-de-chuva
falam com ele.
                           Ou:
“Cor é tormento.”
“Seu burro, tá molhando teu livro!”–
cacarejando como pimentas

do verde claro. (eu
não captei o que ele disse do tijolo:
é implacável, carcomido

pela história, acidez Azul-de-olho
envelhecendo
tudo que toca.)          Ó bomba

do mundo visto e não visto!
se ele lhes mandasse calar a boca,
cessaria o falatório.

Mas ele está na sala sem decisões.

 

Home

It’s raining &
little-ones-of-rain
are talking to him.
                           Or:
“Color is torment.”
“Fool, your book is getting wet!”–
cackling like peppercorns

from the bright green. (I
get not what he said about brick:
it’s relentless, eaten

by history, Eye-blue acidity
aging
all it’s touched.)          O bomb

of the world seen and unseen!
If he told them to shut up,
the talking would cease.

But he’s in the room without decisions.

 

(poemas de Ana Božičević, tradução de Adriano Scandolara)

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Ozymândias, por Matheus Mavericco

ozymandias

“Ozymândias” é um soneto tão entranhado na cultura anglófona que é até meio difícil que você nunca tenha ouvido falar dele, ainda mais depois que num dos últimos episódios de Breaking Bad o inhrotagonista o recita. Um outro exemplo bom é o personagem Ozymândias de Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons. Num soneto que aborda a decadência de um rei que se orgulhava de ser o pica das galáxias, mas que agora está na sarjeta, esse revival que a fama do soneto de Shelley representa é um plot twist e tanto.

Em 1817 correu pela Inglaterra a informação de que um enorme fragmento de uma estátua de Ramsés II havia sido adquirida pelo British Museum. Especificamente, um fragmento da cabeça e do torso. Esse aqui, ó:

Shelley ficou sabendo disso em 1817: a mão do soneto chega treme. Tudo bem que o fragmento de 7 toneladas só foi chegar em Londres em 1821. Mas disfarça. Durante essa época, o banqueiro e escritor Horace Smith passava uma temporada com os Shelley, e os dois, sem Netflix, resolveram escrever a respeito do mesmo tema. O círculo de amizade dos Shelley, que inclui a nata poética de seu tempo, produziu outras obras de particular interesse no meio dessas competições: por exemplo uma sequência de sonetos sobre o Nilo (que conta também com Keats na jogada) e o próprio Frankenstein de Mary Shelley, que surgiu de uma competição envolvendo os Byron.

O soneto de Shelley é marcado por uma forte ironia e por uma oposição semântica essencial. Chega um ponto na escalada do poder em que o indivíduo começa a vislumbrar a decadência, e ou dá um jeito de intensificar seu poderio, ou dá um jeito de vislumbrar com cautela essa possibilidade. No poema, Shelley encontra um viajante de terras antigas que muito provavelmente representa Diodoro Siculo, um historiador grego de I a.C. que descreveu, entre outros (muitos outros), monumentos egípcios. A parte referente a Ozymândias está no livro Bibliotheca historica, primeiro volume, parte 47 (em inglês aqui). Diodoro diz, sobre o monumento: “E não é só por seu tamanho que esta obra merece aprovação, mas também é maravilhosa em razão de sua qualidade e excelência artística decorrente da natureza da pedra, haja vista que num bloco de tamanho tão enorme não há uma só rachadura ou defeito visível.” Na frase seguinte, Diodoro relata que existe uma inscrição, onde se lê: “Ozymândias Rei dos Reis eu sou. Se alguém quiser saber quão grande eu sou e onde estou enterrado, então sobrepuje a mim em meu legado.” Ao lado da estátua de Ozymândias há também uma estátua de sua mãe com três diademas na cabeça, o que quer dizer que além de mãe ela foi esposa de Ozymândias.

No poema, Shelley encontra esse viajante que conta pra ele da tal estátua. É um começo particularmente interessante pois signos remetentes ao antigo permearão o poema como um todo. O viajante vir de uma terra antiga cria uma espécie de elo necessário entre o eu lírico e a imagem da estátua gigantesca reduzida a ruínas. É uma mediação que contribui com um ar de imponência nessa estátua, pois nós não tivemos acesso a ela diretamente, e ao mesmo tempo ajuda a mitificá-la.

(Na verdade, essa mediação também cria uma espécie de brincadeira envolvendo o leitor, conforme exposto pelo professor Paul Fry num artigo de Katy Waldman para o SlateDoes “Ozymandias” Really Mean What We Think It Means?Isto é: “Para Fry, em outras palavras, “Ozymândias” liga em cadeia uma série de egomaníacos que pensaram ter chegado a uma forma estável de conhecimento.” É o escultor que acha que leu bem as paixões, é Ozymândias que se acha o rei dos reis, é o leitor ele próprio que contempla a decadência sem-razão da paisagem… Não dá pra chegar realmente ao fio da meada, ao ponto nevrálgico do caso-Ozymândias. Você até vai achar que chegou, mas muito provavelmente ficará numa condição parecida com a dessa estátua toda detonada coberta de areia até a tampa.)O problema é que essa estátua se sustenta a partir de um mito já passado. Ozymândias foi um rei de proporções colossais; ele foi rei dos reis; mas hoje é simplesmente uma estátua imensa arruinada. É como se, lendo histórias de pessoas já mortas, nós lêssemos a história de alguém que em vida foi muito perigoso, mas que hoje apenas nos causa a sensação estranha, até mesmo um certo desconforto diante daquele indivíduo que, se em vida foi tão forte, agora parece tão impotente, indefeso e quem sabe cômico. Oras: Ozymândias é uma estátua que sobrepujou até mesmo o escultor que a criara (embora, dado que a estátua é obra do escultor e dado que o escultor fez bem seu trabalho, me parece lícito dizermos que a sobrevida do escultor é um pouco mais acentuada que a de Ramsés II); é uma estátua que traz uma inscrição ordenando que quem a contemplasse, deveria se desesperar. E o engraçado é que, de certo modo, nós realmente nos desesperamos: nos desesperamos em ver que toda aquela grandeza hoje é nonada. É como se Ozymândias tivesse completado o círculo: ele foi grande em vida, mas, como próximo a toda grandeza também está a decadência, grande foi sua decadência. Sua mensagem, assim sendo, recebe o aspecto irônico de ordenar que nos desesperemos face a tamanha grandeza mas também o de ordenar que nos desesperemos face a tamanha decadência.

Já o soneto de Horace Smith, que depois recebeu o título “A respeito de uma estupenda perna de granito, descoberta de pé, sozinha, nos desertos do Egito, com a seguinte inscrição”, não parece ter todo esse alcance nem toda essa camada de oposições que o soneto de Shelley. Enquanto o soneto de Shelley, por exemplo, é famoso por seu esquema de rimas inusual, talvez mimetizando o caráter desconjuntado da estátua (haja vista que a fôrma do soneto é famosa por possuir toda uma lógica silogística e uma harmonia intrínseca), e por sua métrica certo modo frouxa (seis iambos substituídos por um troqueu e outros dois por pirríquios), o soneto de Smith, embora também apresente um esquema rímico incomum (o primeiro quarteto tem rimas abraçadas, o segundo tem rimas cruzadas e o soneto se encerra com um dístico) e uma métrica um pouco frouxa (quatro iambos substituídos por troqueus e outros dois por espondeus), possui uma solenidade que a ironia latente no poema de Shelley desbarata. Na verdade, existe até mesmo um laivo de heroísmo no poema de Smith, se pensarmos que a perna é tudo o que há de ficar daquela Babilônia esquecida. Shelley também poderia adicionar uma referência mais explícita a seu poema, como de resto muitos poetas de seu tempo fariam, mas creio que o cuidado dele em não ter adicionado é particularmente interessante pois ajuda a ampliar a dimensão mítica do texto e, é claro, não entornar o caldo da ironia, que se veria, de resto, afetado se uma referência de tão grande peso, como a da Babilônia, fosse acrescentada.

O máximo, quem sabe, que o poema de Smith poderia apresentar num sentido irônico diz respeito a seu final: a humanidade teria voltado, presumivelmente, a seus primórdios (daí o caçador caçando um lobo), só que isso num lugar que, muito tempo no futuro, fosse o mesmo lugar que hoje é Londres; e, ali, esse tal caçador topa com um fragmento de uma civilização (no caso, a londrina), e se perguntaria que raça estranha seria aquela. Ele usa uma expressão ainda mais interessante: “What powerful but unrecorded race”. Eu disse, logo atrás, que, no caso, o fragmento remeteria à civilização londrina. Mas será mesmo? Pois como assim unrecorded? É um adjetivo que faz sentido pra civilização egípcia, mas não pra londrina. Seria, assim sendo, o caso de cogitarmos que o poema de Smith está dizendo que: o fragmento de Ramsés II foi para Londres, e lá ficou; muitos anos depois, quando tudo tivesse destruído, quando tudo fosse passado, um caçador encararia esse fragmento de Ramsés II e se perguntaria que civilização foi aquela: no caso, a egípcia, não a londrina. É uma leitura que me parece plausível dentro do soneto, embora eu também creia que haja a possibilidade de que o soneto de Smith se refira a um futuro tão remoto, mas tão remoto, que nem mesmo as formas que a humanidade encontrou de se perpetuar na história (marcadamente formas escritas, mas também formas artísticas) teriam mais duração. Isto é: um futuro tão remoto, precedido de tão grande catástrofe, que nós literalmente voltaríamos à estaca zero e qualquer fragmento de qualquer civilização, por mais avançado que fossem suas maneiras de registrarem seus produtos culturais, teria se apagado.

Essa é também uma perspectiva horripilante. De certo modo, embora nós comumente digamos que o soneto de Smith é inferior ao de Shelley, creio que pode ser importante notar que no soneto de Smith nós estamos num ambiente muito mais solitário que o de Shelley, e de tal modo que o contato com os restos da estátua de Ozymândias adquire um poder epifânico também revelador. A estátua é, como o poeta diz no terceiro verso, a única sombra que existe no deserto. Eu pelo menos acho uma imagem forte: enquanto no soneto de Shelley nós somos mediados pelo viajante vindo de terras antigas, aqui só existe o eu lírico (all alone), o nada e a estátua (nesse sentido, aliás, a redução, por parte de Smith, das pernas de Ozymândias a uma só é significativa, mesmo porque é essa perna, apenas, tudo o que restará da forgotten Babylon). E se considerarmos que, no último terceto, o caçador no futuro também está presumivelmente sozinho (afinal de contas, ele caça o lobo thro’ the wilderness), isso cria uma espécie de tríade que faz com que a mensagem do soneto de Smith, se seguirmos a linha interpretativa que proponho, deixe de ser simplesmente uma glosa a uma efeméride de seu tempo e passe a poder representar a condição humana, quem sabe, ou o despojamento necessário que o contato com nossa ancestralidade nos impõe.

A postagem que vocês têm aqui compila todas as traduções que pude encontrar do soneto de Shelley e mais uma, creio que inédita, do soneto de Horace Smith. Tem pra tudo quanto é gosto. Minha versão, por exemplo, se deu ao luxo de ter como razão de existência a busca por soluções distintas das de outros tradutores (na verdade verdadeira, minha tradução compareceu só pra bater ponto e fazer um cooper depois disso). Existem muitas outras: com verso de 10 ou 12 sílabas, com esquema rímico diferente do soneto de original, com métrica incomum, com ênfase na inscrição no pedestal, tem paráfrase… Essa postagem representa uma verdadeira turbinada no caso-Ozymândias. Tanto que, como o número de traduções do soneto de Shelley é bem maior que o de Smith, eu fiz por bem colocar o do Smith primeiro pra que ele não ficasse soterrado, à la Ozymândias, no finzinho da postagem.

Pra terminar, eu gostaria de apresentar os autores das quatro traduções inéditas que trago aqui. Pedro Mohallem já é um conhecido. Henrique Gomes Saraiva, ou Henrique Hill, é nascido em Olinda, PE, em 1997, e estuda economia na UFRPE. Escreve poesia desde 2013, mas só foi se reinventar enquanto poeta em junho desse ano. “Ozymândias” é sua terceira tradução; a primeira, porém, de que se orgulha. Você pode conferir seus poemas no blog Ouça-me rugiraqui(recomendo, em especial, “(Conflito)”). Luis Fernando Pinheiro, ou Calib Kupo, nascido em Porto Alegre, tem 33 anos e estuda Letras na UFRGS a vida toda. Escreve poesia amadora e intermitentemente há pouco mais de dez anos. Não tem livro pronto nem tem material suficiente para um tão cedo. Você pode conferir seus poemas na sua página no Recanto das letrasaqui (recomendo, em especial, “Garota que comigo tens brincado”). O último é Guilherme Gontijo Flores, um dos coeditores do escamandro.

§

O SONETO DE HORACE SMITH.

§

trad. Matheus “Mavericco”. [2015]

Nas areias do Egito, e toda a sós,
Uma perna gigante lança, além,
A única sombra que a paisagem tem: ―
“Sou o grande OZYMÂNDIAS”, diz a voz
Da pedra, “rei dos reis; esta cidade,
Eu fiz o que de esplêndido ela imponha.” ―
Finda a cidade, a perna é tudo o que há de
Ficar desta esquecida Babilônia.

Pasmamos ― e esse pasmo um caçador
Talvez expresse quando, assim que for
Caçar onde antes fora a Inglaterra,
Vir um fragmento enorme e então pensar
Que raça preterida e singular
Já habitou esta aniquilada terra.

§

O SONETO DE SHELLEY.

§

trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos. [1989]
em: Ode ao vento oeste e outros poemas, editora Hedra, p. 41

Ao vir de antiga terra, disse-me um viajante:
Duas pernas de pedra, enormes e sem corpo,
Acham-se no deserto. E jaz, pouco distante,
Afundando na areia, um rosto já quebrado,
De lábio desdenhoso, olhar frio e arrogante:
Mostra esse aspecto que o escultor bem conhecia
Quantas paixões lá sobrevivem, nos fragmentos,
À mão que as imitava e ao peito que as nutria
No pedestal estas palavras notareis:
“Meu nome é Ozimândias, e sou Rei dos Reis:
Desesperai, ó Grandes, vendo as minhas obras!”
Nada subsiste ali. Em torno à derrocada
Da ruína colossal, a areia ilimitada
Se estende ao longe, rasa, nua, abandonada.

§

trad. Ivan Justen Santana. [2009]
em: blog Um sim em si, 17/03/09, aqui.
.

Topei um viajante duma antiga aldeia
Que disse: Há duas pernas de pedra, sem corpo,
De pé no deserto. Perto delas, na areia,
Um rosto meio enterrado jaz, cujo torto
Lábio de escárnio e de frio orgulho alardeia
Que seu escultor tais paixões reconhecia,
As quais ainda vivem, e ali são as marcas
Que a mão tripudiava e o coração nutria.
No pedestal, palavras que sempre lembrei:
“Eu sou Ozymândias, monarca dos monarcas:
Olhai minhas obras, ó Fortes, e tremei!”
Nada mais restou: ao redor da corrosão
Do colossal destroço, nuas e sem lei,
As ermas areias se estendem na amplidão.

§

trad. Adriano Scandolara. [2015]
em: Folha de São Paulo, 03/05/15, aqui
e em Prometeu Desacorrentado e outros poemas [2015], p. 307

Ouvi um viajante de uma antiga terra
Dizer: “um par de pernas jaz truncado
No deserto. E, perto, a areia enterra
Os restos de um semblante estilhaçado
Que diz, com lábio e cenho frio de guerra,
Como à pedra sem vida se esculpiu
Tais paixões vivas na obra que se fez
Que a mão logrou e o coração nutriu.
E, ao pedestal, palavras há inscritas:
Meu nome é Ozimândias, rei dos reis,
Curva-te, Ó Grande, ao fausto que ora fitas!
Nada mais resta: sós, ao longe, à margem
Da imensa ruína, nuas e infinitas,
As areias compõem toda a paisagem”.

§

trad. John Milton e Alberto Marsicano. [2010]
em: Sementes aladas, editora Ateliê, p. 51.

Conheci um viajante de uma terra ancestral
Contou-me: Sem tronco, duas pernas enormes
Erguem-se no deserto… Perto delas no areal,
Semienterrada, a cabeça em partes disformes,
Franze o cenho, e o escárnio de um comando glacial,
Mostra-nos que o escultor captou bem o seu estado
Que ainda sobrevive estampado nessas pedras estéreis,
A mão que dele troçou e o coração que foi alimentado;
E no pedestal estão grafadas as seguintes palavras:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Ó Poderosos, rendei-vos ao olhar minhas obras!”
Nada além permanece. Ao redor do desolamento
Da ruína colossal, infinitas e desertas
As areias planas e solitárias se estendem ao vento.

§

trad. Joedson Adriano. [2012]
em: blog pessoal do tradutor, 28/06/12, aqui.

Eu encontrei um viajante de uma terra antiga
Que disse: duas destroncadas e vastas pernas de pedra
Permanecem no deserto. Na areia a elas contígua,
Um tanto soterrada, fendida face queda,

De carranca e hirto lábio e escárnio de quem castiga
Que dizem que seu escultor tais paixões bem traduziu
Que ainda sobrevivem, impressa em coisas inúteis,
A mão que as macaqueou e o coração que as nutriu.

No pedestal em palavras aparece declarado:
“Meu nome é Ozymândias, eu sou o rei dos reis;
Olhai minhas obras, grandes, e ficai desesperados!”

Nada ali remanesce: ao redor da decadência
Daquela colossal ruína, desmedido e despido,
O páramo plano areoso se estende em longa distância.

§

trad. Tomaz Amorim Izabel. [2013]
em: Ponto Virgulina, 12/09/13, aqui.

Conheci um viajante de antiga terra
que disse: ― Duas pernas destroncadas, pétreas,
estão no deserto. Perto delas, soterra
a areia meia face despedaçada,

cujo lábio firme e poderio de olhar, frio,
diz que seu escultor bem lhe leu as paixões
que sobrevivem, nas meras coisas sem vida,
à mão que zombou e ao coração que nutriu.

E no pedestal tais palavras aparecem:
“Meu nome é Ozymandias, o rei dos reis:
Vejam minhas obras, ó fortes ― desesperem-se!”

Nada resta: junto à ruína decadente
e colossal, de ilimitada aridez,
areias, lisas e sós, ao longe se estendem.

§

trad. André Vallias. [2015]
em: Acontecimentos, 12/03/15, aqui.

Disse o viajante de uma antiga terra:
“Duas pernas de pedra, no deserto,
Despontam gigantescas, e bem perto
Há um rosto destroçado que descerra
Os lábios num sorriso de comando
Que atesta: o escultor leu com mestria
Paixões que na matéria inerte e fria
A mão que as entalhou vão perdurando.
‘Meu nome é Ozymândias, rei dos reis:
Desesperai perante as minhas obras!’
Alerta uma inscrição no pedestal.
Mas são ruínas tudo o que ali sobra,
E um mar de areia, em árida nudez,
Circunda a decadência colossal”.

§

trad. Pedro Mohallem. [2015]

Ouvi de um viajante de um antiga aldeia:
— Duas pernas de pedra vastas e sem tronco
Há no deserto, e, próximo a elas, jaz na areia
Um rosto espedaçado, cujo aspecto bronco,
Franzido o lábio e ufano o riso, delineia
O triunfo do escultor, que tais paixões bem lera,
Prevalecendo, assim, impressas na aridez,
Ao seio que as nutrira e à mão que escarnecera.
E sobre o pedestal pode-se ver gravado:

MEU NOME É OZIMÂNDIAS, REI DOS REIS:
CURVAI-VOS TODOS ANTE O MEU LEGADO!

Nada mais resta: em torno ao palco derradeiro
De escombros colossais, chão liso e ilimitado,
O deserto se estende ao horizonte inteiro.

§

trolldução de Pedro Mohallem. [2015]

Conheci um sujeito viajante
que disse: — Uns pedregulho no deserto
tão erguido, e afundado, lá por perto
na areia, um cabeção, cujo semblante,
o beiço velho e a cara de mandão
falam que o escultor fez um serviço
tão bom, que a coisa morta vive! e nisso
pusera a mão de fada e o coração;
No meio, tem umas palavra boa:
“Meu nome é Ozimândia, o Pirocudo:
se liga só ni mim, negada, e chora!”
Nada além de ruínas resta: tudo
foi-se, e apenas a estátua se apregoa
no deserto que a tudo leva embora.

§

trad. Henrique Hill. [2015]

Disse-me, de uma antiga terra, um viajante:
— Duas pernas de pedra, vastas, destroncadas
Erguem-se no deserto. Meio afundado ante
Elas, na areia, um rosto com as feições quebradas,
Que o lábio crespo e o escárnio de frio comandante
Dizem que o artista bem seus sentimentos leu,
Que vivem ainda, impressos em tal aridez,
O peito que os nutriu e a mão que escarneceu.
Do pedestal essas palavras o olho extrai:

“Meu nome, ó Grandes, é Ozymândias, rei dos reis,
As minhas obras vede e vos desesperai!”

Nada mais resta, só decadência se hasteia
Da colossal ruína que se sobressai
Naquele plano e solitário mar de areia.

§

paráfrase de Henrique Hill. [2015]

Um caba réi dos cafundó do Judas
Disse que no Sertão viu dois pernote
Sem corpo. Uma cabeça que a carcunda
Era a areia e que tinha, além duns corte,
Um beiço réi e risada bem manduda
Dizendo que quem fez foi de primeira,
Que o troço era meio vivo, a mão
Boba e o peito até tinha safadeza.
E na base ele viu umas palavra:

“Beija meus pés, purquê Ozimandião
É dono até do que o teu vô lavrava!”

E é só: junto aos tramboio véi da estártua,
A tal da seca ali era bem braba,
Nuinha, sem fim e pra lá de farta.

§

trad. Luis Fernando Pinheiro. [2015]

Topei co’ um viajor de antiga aldeia
Que disse: — Um pétreo par de pernas jaz
Sem torso no deserto. E ali na areia
Um rosto semi-imerso e roto traz
Do lábio o esgar, do mando frio a veia,
Cujo escultor tão bem captara o esp’rito,
Que sobrevive, impresso na aridez,
À mão que o escarnecia, e à alma a nutri-lo.
E isto no pedestal se lê em laivos:
“Meu nome é Ozymândias, Rei dos reis,
Vede a minha obra, ó vós, e desperai-vos!”
Nada além resta: em volta da sucata
Da ruína imensa, sem contorno e calvos,
Estendem-se os sem-fins de areia chata.

§

trad. Guilherme Gontijo Flores [2015]

Eu vi um viajante arcaico certo
dia dizer que perna pétrea e vasta
jaz destroncada no deserto. E perto,
fundo na areia, um rosto que desbasta
rugas no lábio e régio olhar aberto
diz que o escultor sabia o sentimento
que sobrevive no que hoje é “ex-”:
a mão entalha, o peito é alimento.
E sobre o pedestal letras dispostas:
“Meu nome é Ozimândias, rei dos reis:
olhem e chorem ante as minhas portas!”
Ao lado o nada; tudo é decadência
do colossal naufrágio e sobrepostas
areias nuas nadam sem clemência.

§

trad. Matheus “Mavericco”. [2015]

Alguém de antigas plagas me contara:
― Pernas de pedra sem um corpo estão
Na areia. Perto, quase imersa, a cara
De alguém, quebrada, jaz, cuja expressão,
Boca e escárnio bélico escancaram
O quão bem o escultor lera o intento,
Tanto que lá vivem, na estátua-túmulo,
A mão que riu, o seio que deu alento.
E no pedestal lê-se isto somente:
“Rei dos reis Ozymândias me intitulo;
Veja minha obra, ó grande, e se atormente!”
Nada mais resta: próximo ao resquício
Da colossal ruína, segue em frente
O deserto sem término ou início.

§

ORIGINAIS.

§

Horace Smith.

In Egypt’s sandy silence, all alone,
Stands a gigantic Leg, which far off throws
The only shadow that the Desert knows:―
“I am great OZYMANDIAS,” saith the stone,
“The King of Kings; this mighty City shows
“The wonders of my hand.”― The City’s gone,―
Nought but the Leg remaining to disclose
The site of this forgotten Babylon.

We wonder,―and some Hunter may express
Wonder like ours, when thro’ the wilderness
Where London stood, holding the Wolf in chace,
He meets some fragment huge, and stops to guess
What powerful but unrecorded race
Once dwelt in that annihilated place.

§

Shelley.

I met a traveller from an antique land
Who said: ― Two vast and trunkless legs of stone
Stand in the desert. Near them on the sand,
Half sunk, a shatter’d visage lies, whose frown
And wrinkled lip and sneer of cold command
Tell that its sculptor well those passions read
Which yet survive, stamp’d on these lifeless things,
The hand that mock’d them and the heart that fed.
And on the pedestal these words appear:
“My name is Ozymandias, king of kings:
Look on my works, ye mighty, and despair!”
Nothing beside remains: round the decay
Of that colossal wreck, boundless and bare,
The lone and level sands stretch far away.

 

Padrão
tradução

A pornochanchada medieval do Alfabeto de Ben Sirá

Jeremias

O profeta Jeremias, pai de Ben Sirá, representado por Michelangelo na Capela Sistina

Eu gostaria de aproveitar a série de postagens do Gontijo sobre o que ele tem chamado de uma poética da prosa para apresentar para vocês uma pequena seleção de um livrinho muito, muito bizarro produzido pela cultura judaica medieval. Se recorro a um termo claramente anacrônico como pornochanchada – e não meramente “burlesco” – para descrevê-lo é só porque de fato somente o espírito da produção cinematográfica brasileira dos anos 80/90 pode fazer jus ao nível de bobagem que encontramos no Alfabeto de Ben Sirá. Sacanagem você encontra em tudo quanto é texto medieval, dos fabliaux às Carmina Burana, mas com Ben Sirá estamos realmente em outro nível de nonsense. Mas estou me adiantando.

Antes de mais nada, quem foi Ben Sirá? Segundo o folclore judaico (e quem me cita essas coisas são fontes sérias como Aryeh Kaplan), o profeta Jeremias teria sido atacado por um bando de tarados numa casa de banho, que o forçaram a se masturbar (sim, a história já começa nesse nível). O sêmen ejaculado permaneceu numa das banheiras até que mais tarde sua filha veio banhar-se e acabou engravidando do pai. O filho a princípio se chamaria não Ben Yiermeyahu (filho de Jeremias), como deveria ser, mas Ben Zera (filho da semente), pela natureza incestuosa de seu nascimento. No entanto, o constrangimento o levou a se rebatizar como Ben Sirá (e Sirá, um superlativo de sar, “oficial”, tem o mesmo valor numerológico que o nome Jeremias). Nas tradições místicas, Ben Sirá teria sido o companheiro de Jeremias em seus estudos esotéricos (a Cabala desencoraja que se estude essas coisas sozinho). Enfim, esse é o ponto de partida. E, ah, apesar de terem o mesmo nome Ben Sirá (סירא), é importante não confundir este Ben Sirá filho de Jeremias (que teria vivido no século 6 a.C., época da queda de Jerusalém) com o Ben Sirá autor do livro deuterocanônico de Eclesiástico, que viveu no período helenístico.

ben-sira

Página de um manuscrito de 1822 do Alfabeto de Ben Sirá encontrado no Irã (fonte)

O Alfabeto de Ben Sirá (Othijoth ben Sira), por sua vez, é um texto medieval anônimo, composto em hebraico e aramaico no mundo árabe entre os séculos 8 e 11 de nossa era, detalhando a vida desse personagem curioso. Ele é representado, assim como seu pai (Jer. 1:6-7), como uma criança capaz de falar de modo perfeitamente eloquente desde o berço. No entanto, o efeito que se tem é menos “criança profética” e mais, digamos, Stewie do Uma Família da Pesada. O parco enredo que temos aqui descreve como Ben Sirá já nasce sabendo falar e humilha seus professores, rapidamente dominando todos os estudos dos textos sagrados – primeiro a Torá (e ele teria dominado o Levítico, considerado o livro mais difícil da Bíblia, em um dia), depois o restante da Bíblia e toda a literatura rabínica adicional (Mishná, Talmude, agadá…). Então ele é levado, como a figura de Daniel no livro bíblico homônimo, à corte do rei da Babilônia, Nabucodonosor, onde se passam vários episódios esdrúxulos.

O livro se estrutura com um prólogo, que fala dos grandes sábios que foram concebidos sem que sua mãe se deitasse com um homem – são eles o Rabbi Pappa, o Rabbi Zera e, claro, Ben Sirá. Então, temos a narrativa de sua concepção e nascimento, e a tentativa frustrada de um rabino de alfabetizá-lo. Segue-se um trecho de poesia acróstica, em que, para cada uma das 22 letras do alfabeto hebraico ele replica com um verso que começa com aquela letra (e a tréplica do rabino vem na forma de reclamações conjugais). Depois, vem a narrativa em que Nabucodonosor o leva para sua corte e da tentativa dos sábios, que o invejam, de matá-lo. Por fim, temos 22 vinhetas (uma para cada letra do alfabeto também) em que o rei tem algum tipo de dúvida ou problema, que Ben Sirá resolve engenhosamente. E, é óbvio, há sexo ou escatologia em boa parte dessas vinhetas, ainda que não em todas (tem uma ou outra mais inocente).

O estilo do texto é todo paródico de um gênero da literatura rabínica que é o agadá, narrativas folclóricas e muitas vezes de teor moral, que se diferenciam de outros textos do Midrash e do Talmude que tratam de questões teológicas e de lei. Ele faz também citações constantes de versículos bíblicos e de literatura rabínica, que parecem sobretudo surgir em momentos inadequados e completamente banais. Como, por exemplo, quando ele conversa com sua mãe, no prólogo:

“Por que me interrompes, meu filho?” sua mãe perguntou.

“Porque sabes que tenho fome e nada me dás de comer”.

“Aqui, toma meus seios. Come e bebe”.

“Não tenho qualquer desejo pelos teus seios. Vai e peneira a farinha, amassa o pão fino e pega carne gorda e vinho envelhecido – e poderás comer comigo!”

“E o que farei para comprar essas coisas?”

“Faz umas roupas e vende-as. Assim, terás cumprido o versículo, ‘Faz panos de linho fino e vende-os’ (Provérbios 31:24). E se também me sustentares, terás cumprido o versículo, ‘Muitas filhas têm procedido virtuosamente, mas tu és, de todas, a mais excelente!’ (Provérbios 31:29)”.

E a forma acróstica dos trechos alfabéticos também é paródica da estrutura das Lamentações, onde se pode observar que os versos começam com álef, depois bet, depois guimel, dálet, etc. Enfim, o livro inteiro é constituído assim, numa mistura de paródia, bastante erudita, de situações e estilos bíblicos e rabínicos com trocadilhos, fábulas animais à moda de Esopo, humor sexual/escatológico e nonsense. Esse teor erudito, combinado a uma falta de um enredo maior que estruture o livro (além da poética do acróstico) e indicasse algum propósito polêmico mais claro (como tem, por exemplo, um livro como o Toledot Yeshu, narrativa da Antiguidade Tardia que satiriza os Evangelhos e representa Jesus como um charlatão), é um sinal de que é muito provável que o Alfabeto tenha sido composto e circulado entre rabinos, como um tipo de piada interna.

tigela_de_encantamento

Tigela de encantamento antiga com fórmulas mágicas. Objetos como esses eram enterrados sob as casas no Antigo Oriente Médio para afastar maus espíritos.

O mais surpreendente, porém (e aqui é o ponto onde repousa talvez a maior relevância imediata de se reproduzir este texto), é que muitos de vocês já têm alguma familiaridade com uma das narrativas de Ben Sirá sem o saber. Muitos já ouviram falar da história de Lilith como primeira mulher de Adão e há quem misture essa história ainda com a confusão dela com deusas da fertilidade da Antiguidade (Ištar/Inana) e coisa assim. Pois bem, sem entrar muito em detalhes aqui, lilith (plural liloth) não é um nome próprio na cultura do período bíblico (mencionado em Isaías 34:14), mas um tipo de demônio (o que não é de se surpreender no contexto do Antigo Oriente Médio, dado que, para cada doença que você pode conceber, os babilônicos tinham um respectivo demônio associado a ela) que causa morte de crianças. Ela se torna uma figura com nome próprio de forma mais definida no período medieval (é a esposa de Samael, outro nome de Satã, na Cabala), mas o único texto que a representa como primeira mulher de Adão é o Alfabeto de Ben Sirá, que, segundo o Rabbi Geoffrey Dennis, foi redescoberto pelo público mais geral no século XIX e prontamente confundido com um texto esotérico (com certeza, resultado do furor do ímpeto ao misticismo do período). Sim, aquilo que todo adolescente já cochichou com ares conspiratórios em tom de “sabia que Adão teve uma primeira mulher que não está na Bíblia e que todo mundo esconde?” veio do equivalente narrativo, no mundo rabínico, àquelas ilustrações pornográficas e absurdas que os monges desenhavam nas margens dos manuscritos. A historinha que vem logo depois é sobre a filha flatulenta de Nabucodonosor. Sério.

arvore_manuscritoTirando a parte óbvia da sacanagem, porém, de um ponto de vista mais propriamente literário, esse amplo uso de ironia e paródia, a estrutura episódica e fragmentária (tão associada ao modernismo e pós-modernismo) e o jogo de vozes (comparável ao de seu possível contemporâneo, o livro das Mil e Uma Noites… note, aliás, o uso triplo de aspas na narrativa número 18) são elementos com óbvio apelo a quem gosta de estudar essas coisas.

Enfim, uma tradução de uma das versões do Alfabeto (a transmissão dessa obra foi acidentada, por asism dizer) está disponível, em tradução inglesa, no volume Rabbinic Fantasies: Imaginative Narratives from Hebrew Literature, organizado por David Stern e Mark Jay Mirsky e que conta ainda com diversos outros textos como o apocalipse Sefer Zerubabel e contos de Judá ibn Shabbetai e Solomon ibn Saqbel. Com o fim de divulgar e popularizar mais esse textinho, eu selecionei alguns trechos do Alfabeto, a partir da segunda parte alfabética (obviamente incluindo o trecho sobre Lilith), e os traduzi para o português com base nessa edição.

(Adriano Scandolara)

 

O Alfabeto de Ben Sirá

(excertos)

 

I. Primeiro, ele [Nabucodonosor] lhe perguntou como [Ben Sirá] havia depilado os pêlos na cabeça da lebre.

“Com uma solução de cal”, respondeu Ben Sirá.

“De que tipo?”

Ben Sirá respondeu, “Uma solução depilatória de cal, composta de cal e arsênico. Salomão utilizou sua sabedoria para inventar essa solução nos dias de tua mãe, a rainha de Sabá. Quando ela veio trazendo presentes para Salomão para observar sua sabedoria, ele a achou muito atraente e quis dormir com ela. Mas Salomão descobriu que ela era muito peluda. Ele pegou a cal e o arsênico, amassou a mão a cal com uma faca, esmagou o arsênico e misturou tudo com água, e assim fez uma solução depilatória de cal. Então ele a lambuzou com a solução e a banhou, e os pêlos caíram. Ele teve relações com ela na hora mesmo. E ela disse a Salomão, ‘Eu não acreditava nessas coisas até que eu as vi com meus próprios olhos’”.

Nabucodonosor perguntou a Ben Sirá, “Como tu sabes disso tudo?”

“Sou um profeta”, ele respondeu. “O Eterno, bendito seja, revela a mim tudo que é desconhecido”.

(…)

 

V. Logo após, o jovem filho do rei adoentou-se. Disse Nabucodonosor: “Cura meu filho. Se não o fizeres, irei matar-te”. Ben Sirá de imediatou sentou-se e escreveu um amuleto com o Santo Nome e inscreveu nele os anjos encarregados da medicina via seus nomes, formas e imagens, e via suas asas, mãos e pés. Nabucodonosor olhou para o amuleto. “O que é isso?”

“Os anjos encarregados da medicina: Snvi, Snsvi e Smnglof. Depois que Deus criou Adão, que estava só, ele disse, ‘Não é bom que o homem esteja só’ (Gênesis 2:18). Então criou uma mulher para Adão, a partir da terra, como havia criado o próprio Adão, e a chamou de Lilith. Adão e Lilith imediatamente começaram a brigar. Ela disse, ‘Eu não ficarei por baixo’, e ele disse, ‘Eu não ficarei embaixo de ti, apenas em cima. Pois és digna apenas da posição inferior, enquanto a posição superior é minha’. Lilith respondeu, ‘Somos iguais um ao outro na medida em que fomos ambos criados da terra’. Mas eles não deram ouvidos um ao outro. Quando se deu conta disso, Lilith pronunciou o Nome Inefável e saiu voando no ar. Adão pôs-se a orar diante do seu Criador: ‘soberano do universo!’ ele disse, ‘a mulher que tu me deste fugiu’. De uma vez, o Eterno, abençoado seja, mandou esses três anjos para trazê-la de volta.

“Disse o Eterno a Adão, ‘Se ela concordar em retornar, tudo bem. Senão, ela deverá permitir que cem de seus filhos morram todos os dias’. Os anjos deixaram Deus e partiram em perseguição atrás de Lilith, a quem eles tomaram no meio do mar, nas águas poderosas aonde os egípcios estavam destinados a se afogar. Eles lhe disseram as palavras de Deus, mas ela não quis retornar. Os anjos disseram, ‘Iremos afogar-te no mar’.

“‘Deixai-me!’ ela disse, ‘eu fui criada apenas para causar doença em crianças. Se a criança for menino, terei domínio sobre ele por oito dias depois do seu nascimento, e, se menina, por vinte dias’.

“Quando os anjos ouviram as palavras de Lilith, eles insistiram que ela voltasse. Mas ela jurou para eles em nome do Deus eterno e vivo: ‘Sempre que eu vir a vós ou vossos nomes ou vossas formas num amuleto, não terei qualquer poder sobre aquela criança’. Ela também concordou em permitir que cem de seus filhos morressem todos os dias. De acordo, a cada dia cem demônios perecem, e por esse mesmo motivo escrevemos o nome dos anjos nos amuletos de recém-nascidos. Quando Lilith vê os nomes, ela se lembra do juramento, e a criança se reestabelece”.

 

VI. Alguns dias depois, o rei disse a Ben Sirá, “Eu tenho uma filha que expele mil peidos a cada hora. Que tu a cures!”

Ben Sirá respondeu, “Manda-a a mim pela manhã com seus criados e eu a irei curar”. Na manhã seguinte, ela veio com seus criados. Quando Ben Sirá a viu, começou a agir como se estivesse furioso.

“Por que estás furioso?” ela lhe perguntou.

“Teu pai decretou que eu devo expelir mil peidos em sua presença amanhã e no dia seguinte. Temo que ele possa querer dar-me a morte. Ele me deu uma extensão de três dias, mas ainda assim não sei o que fazer”.

“Não te preocupes”, ela disse. “Irei eu no teu lugar e expelirei mil peidos na frente dele para nós dois”.

“Se assim for o caso”, respondeu Ben Sirá, “fica comigo aqui por três dias e sem flatulência, para que os peidos estejam prontos no terceiro dia”. Cada vez que um peido estava por vir, a filha do rei se levantava numa perna e arregalava bem os olhos, conforme Ben Sirá lhe dizia o que fazer, e ela se continha e fechava a sua “boca” devagar, até que a flatulência cessou por completo. Após três dias, nenhum peido saiu de seu traseiro. Naquele dia, Ben Sirá a levou a seu pai, dizendo “Vai e expele mil peidos para o teu pai”. Ela se levantou diante do rei, mas foi incapaz de qualquer flatulência. O rei se levantou e beijou Ben Sirá.

 

VII. Ele indagou Ben Sirá, “Por que foram criados os peidos?”

“Se não fosse pela flatulência, as pessoas teriam diarreia e defecariam em suas roupas. Quando alguém sente que está para peidar, ele vai e atende às suas necessidades, de modo que não passará pelo constrangimento de sentar-se em roupas imundas.

(…)

 

XIII. “Por que o jumento urina sobre a urina de outro jumento, e por que ele cheira seu próprio excremento?”

“Quando Deus criou todas as coisas vivas, o jumento perguntou para si: ‘Por que o cavalo, a mula e tantas outras criaturas têm alívio do labor, enquanto eu sou obrigado a trabalhar geração após geração sem descanso? Oremos ao nosso Criador para que ele nos dê alívio. Senão, pararemos de procriar’.

Os jumentos oraram, mas suas preces não foram atendidas. Deus, porém, lhes disse, ‘Quando vossa urina fluir como rios de modo que um moinho possa correr nela, e o odor de seu excremento for como o aroma das especiarias, eu vos darei vossa paga’. E é por isso que eles cheiram seus excrementos e urinam desse jeito”.

(…)

 

XV. “Por que o cão reconhece seu mestre, mas o gato não?”

“‘Quem quer que coma de algo que o rato tenha roído esquecerá o que aprendera’ (B. Horayot 13a). É certo, portanto, que o gato, que come o próprio rato, não conhecerá seu mestre”.

(…)

 

XVIII. Nabucodonosor perguntou a Ben Sirá, “Por que o corvo copula pela boca?”

“Os sábios de Israel já discutiram sobre esta questão”, respondeu Ben Sirá. “Há os que digam que, porque o corvo copulou na arca, ele foi criado errado. Outros dizem que porque ele é perverso, um ladrão e uma peste, o corvo foi feito diferente de todas as outras criaturas. Um homem instruído uma vez chegou aos sábios enquanto eles discutiam esta questão e lhes disse: ‘Darei a vós prova pelas vossas palavras.

“‘Quando Noé estava na arca, ele queria mandar o corvo para ver se as águas tinham parado, mas o corvo fugiu da face de Noé e se escondeu sob a asa da águia para que Noé não o mandasse. Eles procuraram pelo corvo e depois que o encontraram sob a asa da águia, Noé disse, “Perverso! Vai e sai da arca para ver se as águas sobre a terra diminuíram”.

“‘O corvo disse a Noé, “De todas as aves tu não pudeste encontrar ninguém além de mim?”

“‘Noé respondeu, “Eu tenho autoridade apenas para mandar os pássaros cujas inicias do seu nome dizem ay, isto é, as letras ayin (ע) e iud (י), o que só pode ser as aves chamadas orev (עורב) , ‘corvo’, e yonah (יונה), ‘pomba’”.

“‘“Então, por que mandas o corvo e não a pomba?” perguntou o corvo.

“‘“Porque há uma cidade chamada Ai,” Noé respondeu, “e seus habitantes estão destinados a matar Jair, que declarou que o corvo é inadequado para o consumo, enquanto a pomba não”.

“‘O corvo respondeu com firmeza, “O único motivo pelo qual tu me mandas é para que eu morra e tu poderás ter relações com a minha esposa. Esse é o único motivo pelo qual fizestes todas as criaturas virem na arca com seu par”.

“‘Noé imediatamente respondeu rogando uma praga contra o corvo, “Que tu sejas amaldiçoado com a coisa de que me calunias. Que tu jamais copules com tua fêmea exceto pela boca”.

“‘Todos os animais da arca responderam, “Amém!”

“‘“O corvo exclamou, “Por que tu me amaldiçoaste? Irei te processar!”

“‘Noé respondeu: “Porque és um depravado, um tolo e lanças calúnias sobre os inocentes. Coisa perversa! Eu sequer coabito com a minha esposa, que foi criada em minha imagem e semelhança e me é permitida. Por que eu deveria coabitar com a tua fêmea, que não é em minha semelhança e me é proibida também?”

“‘“Por que me chamas de depravado?” pergunta o corvo.

“‘“És realmente um depravado, a julgar por tuas palavras”, Noé respondeu. “Não sou eu quem te deu má reputação”’.

“E desde aquela época então, o corpo copula pela boca como resultado da praga de Noé.”

(…)

XXII. “Por que a águia voa perto do céu, mais alto do que todas as outras aves?”

“Quando a águia saiu da arca, a fêmea parou na frente de uma outra ave que ela quis comer. Todos os animais disseram, ‘Quem deseja comer o seu amigo está sujeito à morte’. Eles a golpearam, depenaram suas asas e a atiraram no covil do leão. Mas Deus cuidou da águia, e o leão não a devorou.

Depois de um ano, as penas da asa da águia voltaram, e ela saiu voando. Os outros pássaros se reuniram e tentaram matá-la, mas o corvo a salvou de suas mãos com sua esperteza. Então ele copulou com a águia, que concebeu e gerou um filhote de águia. É por isso que o corvo é chamado orev (עורב) – porque misturou, iyrev (עירב), seu semên pela abundância de sua promiscuidade em todas as direções. O Eterno, abençoado seja, fez sua presença pairar sobre ela para que sua criatura não fosse destruída, e ele lhe deu a força para voar mais alto do que todos os outros pássaros. A águia é portanto chamada nesher (נשר), porque Deus veio morar, hishrah (השרה), sobre ela. É por isso que a águia voa tão alto, de modo que seus inimigos jamais possam capturá-la e matá-la e fazer com isso com que uma espécie das criaturas do Eterno desapareça do mundo”.

Nabucodonosor disse a Ben Sirá, “Abençoado aquele que deu de sua sabedoria àqueles que o temem e a eles revelou assuntos profundos e ocultos”.

 

(texto anônimo medieval, tradução de Adriano Scandolara via tradução inglesa de Norman Bronznick)

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crítica, poesia

Do šīmtu ao fātum: sobre poesia, astrologia e noções de destino na antiguidade

Andreas Cellarius - Atlas Coelestis (1660)

Andreas Cellarius – Atlas Coelestis (1660)

…we make guilty of our disasters the sun, the moon, and the stars; as if we were villains on necessity; fools by heavenly compulsion; (…) My father compounded with my mother under the dragon’s tail, and my nativity was under ursa major; so that it follows I am rough and lecherous. —Tut! I should have been that I am, had the maidenliest star in the firmament twinkled on my bastardizing.

– Edmund, o bastardo, em Rei Lear

Este texto vai ser meio estranho, imagino, porque desta vez vou tratar de um tema que não é bem literário em si, que é a astrologia, mas o literário passa por ele, que é o motivo pelo qual eu acredito que ele tenha lugar aqui no escamandro ainda – e basta dar uma olhada nos motivos astrológicos na produção sonetística e dramática de um autor como Shakespeare para ter uma ideia disso, acredito. Não sei ao certo nem por onde começar a falar de algo tão espinhoso como astrologia, então vou partir do que me motivou a escrever isto, que foi ter discutido o assunto recentemente com alguns amigos quando veio à tona da questão de “os astrólogos acreditam mesmo que os planetas influenciam a gente?”. A resposta curta é que a maioria dos astrólogos modernos não acredita mais nisso (a lógica atual parece ser mais próxima da noção esotérica do As above, so below ou de algo como a teoria das correspondências swedenborguiana, algo de uma filosofia de sincronia entre a vida humana e o universo que se manifesta em arquétipos, mas não vai ser esse meu foco aqui), mas a astrologia moderna/contemporânea é o que aconteceu com a astrologia clássica depois de perder o seu estatuto como ciência considerada séria lá pelos meados do Iluminismo (adeus, astrologia, adeus, alquimia!) e ser sujeita a descobertas como as da física newtoniana, da psicologia (difícil imaginar que astrólogos falariam tanto em ego antes de Freud e Jung) e a existência dos planetas além de Saturno, para não falar nada da questão da preocupação da sociedade burguesa com o indivíduo que começa a despontar a partir do XIX.

Mas o interessante mesmo, pelo menos para mim, é observar as origens desses conceitos astrológicos. Todo mundo mais ou menos tem alguma ideia deles, quais são os 12 signos, a simbologia dos planetas, os elementos de cada signo, etc., mas o fato é que, apesar de tudo chegar a nós como algo pronto, é óbvio que nada disso surgiu assim. Áries é considerado um signo de fogo, Touro de terra, Gêmeos de ar, Câncer de água, etc., só que a noção dos quatro elementos clássicos é invenção do filósofo pré-socrático Empédocles (490 – 430 a.C.), o que significa, evidentemente, que antes dele sequer faria sentido falar nos elementos dos signos – e existe uma longa história da astrologia anterior à Grécia clássica. Mesmo o que cada constelação/signo (a diferença entre um e outro é que o signo zodiacal não ocupa o mesmo espaço no céu do que a constelação de fato, mas um espaço que é matematicamente especificado e dividido de forma igual pela eclíptica) representa é algo que variou um pouco até chegarmos nesses 12 signos especificamente: algumas como Escorpião (GIR.TAB, em sumério… o cuneiforme parece de fato um escorpião) permaneceram inalteradas desde muito tempo antes, mas outras tiveram outros nomes, como Áries,girtab que antes de ser um carneiro foi um LU.HUN.GA, i.e. um empregado. Mas, além disso, vários outros conceitos foram se transformando ao longo do caminho (inclusive o de destino), e a minha ideia aqui com este texto é dar uma olhada neles. Para isso vamos ter que voltar um tanto mais ainda no tempo.

A observação da natureza é um elemento crucial para toda cultura humana. Acho que esse é um ponto pacífico para tomarmos de partida: observar qual flor desabrocha em qual época, quando tal espécie de animal pode ser caçada, quando é o período das cheias, etc. é importante para a sobrevivência da sua tribo, aldeia ou cidade. O céu também não deixa de ser parte do mundo natural, e é provável que a observação do céu seja também um hábito desenvolvido separadamente por todas as culturas que tenham acesso a um céu observável. No entanto, porque foram os primeiros a desenvolver um sistema de escrita que se tem registro (por volta de 4000 a.C.), são os sumérios, na Mesopotâmia, o primeiro povo que nos deu os primeiros indícios de um conhecimento de astronomia/astrologia. Eles tinham já vários conceitos matemáticos (como o de teorema de Pitágoras), uma rica cultura divinatória, e deram nomes aos sete “planetas” conhecidos – de Mercúrio a Saturno, incluindo o Sol e a Lua – e às constelações e várias estrelas, mas esse conhecimento não chegou a se cristalizar num sistema coeso. Temos indícios aqui e ali – alguns portentos relacionados a eclipses lunares, o Cilindro A de Gudeia de Lagaš, o poema “A Bênção de Nisaba”, em que a deusa Nisaba aparece com uma tabuleta de lápis-lazúli, em que consulta “a escrita sacra das estrelas celestiais” –, mas realmente nada de muita substância. A cultura suméria desaparece por volta do segundo milênio, absorvida pela cultura babilônica, que falava acádio (uma língua semítica, diferente do sumério, que é uma língua isolada) e que desenvolveu um sistema de escrita cuneiforme com base num silabário mais abstrato (i.e. os símbolos se referem a sons sem se parecer com um objeto representado) e simplificado (i.e. uma quantidade menor de símbolos) do que o sumério.

Já entre os sumérios havia alguma associação dos astros com os deuses – por exemplo, Utu era o deus do Sol (que se diz ud), e Nana o deus da Lua –, mas é difícil dizer até onde ia essa associação, que na cultura babilônica já é devidamente estabelecida: além dos deuses para o Sol e a Lua (chamados Šamaš e Sin, respectivamente, mas no mais iguais a Utu e Nana), temos ainda Ištar (Inana, entre os sumérios) que é associada ao planeta Vênus (chamado dilbat em acádio), bem como Marduk e Júpiter (MUL.SAG.ME.GAR, no cuneiforme sumério, ou dāpinu em acádio), etc. É entre os babilônios que podemos começar a falar de astrologia como algo como uma disciplina propriamente. Antes disso, porém, precisamos ver como os babilônios entendiam o conceito de destino, porque é inevitável tocar no assunto de predestinação quando se fala de um método de adivinhação, que era então o principal uso da astrologia, visto que a genetlialogia, i.e. a confecção de mapas astrais, foi uma invenção posterior.

kudurru, ou pedra de fronteira, do período cassita na Babilônia

kudurru, ou pedra de fronteira, do período cassita na Babilônia, com motivos astrais: note a presença do disco do sol, a crescente da lua e a estrela de Inana

Para nós hoje falar em destino é complicado, porque herdamos a discussão toda a partir dos gregos e romanos, mas filtrada pelo cristianismo (para o qual a questão predestinação e onisciência divina versus livre-arbítrio é um problema teológico cabeludíssimo) e pela ciência moderna (sociologia, genética, nurture versus nature, etc., que também oferece sérios problemas éticos), mas o que tínhamos na Babilônia era um pouco mais simples. Para a religião suméria (que é herdada pelos babilônios, com modificações, claro, mais ou menos como os romanos herdaram o panteão grego), o destino era decretado pelos deuses. A palavra suméria para “destino” era nam ou nam-tar, cuja etimologia é algo obscura. Como prefixo, nam é utilizado para gerar conceitos abstratos a partir de palavras concretas, de modo que de lugal, “rei”, tira-se nam-lugal, “realeza”, ou de arad, “escravo”, nam-arad, “escravidão”, etc. Poderíamos entender nam-tar então como “decreto”, porque tar significa “cortar”, “decidir”, e então o conceito de nam sozinho como destino seria um encurtamento de nam-tar, mas nam aparece sozinho com mais frequência do que nam-tar e em textos mais antigos. Ou talvez nam-lugal seja “realeza” no sentido de “destino (nam) do rei”. É complicado. Mas, enfim. O que sabemos é que na mitologia suméria tinha algo chamado de “tabuletas do destino”, ou dub-nam-tar, que aparecem no poema “Ninurta e a Tartaruga”, que era um tipo de me (representações de decretos do mundo no formato de artefatos, como vimos em “A descida de Inana ao mundo dos mortos”) e quem quer que possuísse esse artefato decretaria o destino do mundo. Assim lemos em “Ninurta e a Tartaruga”:

dug4-ga-ni-ta ĝištukul-zu hul-a mu-ni-in-tag
me šu-ĝa2 šu ba-ba-ĝu10-de3 me-bi abzu-ce3 ba-an-gi4
ĝiš-hur šu-ĝa2 šu ba-ba-ju10-de3 ĝiš-hur-bi abzu-še3 ba-an-gi4
dub nam-tar-ra-/bi\ abzu-še3 ba-an-gi4 me ab-la2-e-en

 

às suas ordens, tangeu-me tua arma funesta
ao abrir mão do dom em minha mão, o dom voltou a Abzu
ao abrir mão dos desígnios em minha mão, os desígnios voltaram a Abzu
a tabuleta do destino voltou a Abzu e eu me vi sem meu dom

 

Na mitologia babilônica, as tabuletas do destino (com o nome de dup šīmati) aparecem no Enuma Elish, poema cosmogônico em acádio escrito entre 1100 e 700 a.C., onde elas são tomadas das bestas primordiais Tiamat e Abzu por Marduk, principal deus do panteão e um tipo de deus nacional, que através desse ato é elevado acima de todos os outros, inclusive Ilu (Anu em sumério), Ea (Enki) e Enlil. Assim, para um babilônio, o destino – šīmtu, do verbo šâmu, “decretar” – era um decreto divino, e a relação dos deuses com o ser humano espelhava a relação do rei com os seus súditos (mais sobre isso pode ser lido em detalhes no livro da Francesca Rochberg, In the Path of the Moon, que eu listo aqui na bibliografia), mas em nível cosmológico – inclusive a função do ser humano na religião mesopotâmica é unicamente a de servir aos deuses. Eles mandam, o mundo natural obedece.

E o que isso tem a ver com astrologia? Pois bem, a astrologia antiga era uma dentre várias formas de adivinhação. Ao lado da haruspicia (previsão feita com base nas vísceras de animais), a astrologia é considerada uma forma de adivinhação indutiva, i.e. que depende da observação sistematizada de sinais do mundo natural, em oposição ao tipo não-indutivo que é a oneiromancia (visões em sonhos) e a profecia (quando o deus dá uma mensagem diretamente), do qual os exemplos bíblicos são os mais marcantes, como Isaías, Jeremias e Ezequiel, mas que era um fenômeno comum no Oriente Médio (inclusive havia guildas, como uma profissão qualquer), com as tabuletas descobertas na cidade de Mari, na Síria, sendo um indício disso… o que encontra ecos também no mundo grego, com os oráculos. Para um babilônio então, os deuses decretavam o que iria acontecer, mas se você prestasse atenção aos sinais – e cada deus estava relacionado a um planeta, como vimos, ou a uma constelação, que mandam esses sinais – você poderia evitar desgraças ou aproveitar melhor as suas dádivas. Alguns portentos notáveis, como lista Ulla Koch-Westenholz, têm a ver com a posição de Marte, desde sempre um planeta ligado à violência, à guerra e à pestilência (não por acaso o planeta do deus Nergal). Mais de uma vez recomenda-se ao rei que tome cuidado e não se exponha muito enquanto Marte estiver em Escorpião. E é claro que a maioria desses portentos diziam respeito ao rei e à nação e não ao indivíduo, e muito da astrologia babilônica é visivelmente territorializada, na medida em que certos sinais indicavam possíveis invasões vindas de algum dos quatro pontos cardeais, que apontavam para outros povos vizinhos como os assírios ou os persas. Assim, não eram os planetas que causavam os acontecimentos, do mesmo modo como, por exemplo, não é o semáforo que move os carros ou os faz parar nos cruzamentos, mas o motor e o condutor. No entanto, não deixa de ser prudente parar ou seguir conforme as luzes indicarem. Acredito que essa seja a lógica por trás da relação entre o šīmtu babilônico e os astros, ou a “escrita divina” – uma metáfora recorrente na literatura da época e que aponta para esse caráter linguístico e sobretudo letrado do sistema astrológico em desenvolvimento na mesopotâmia.

Vamos pular agora uns mil e poucos anos para o início da era cristã. A grande figura da astrologia desse período final da Antiguidade clássica foi o Cláudio Ptolomeu, polímata grego que viveu em Alexandria entre 100 e 170 d.C., à época território romano (sente o tamanho da salada cultural) e que escreveu em grego koiné sobre astronomia, astrologia, música, óptica e geografia. Sua obra mais importante para o nosso assunto aqui foi o Tetrabiblos, a contraparte astrológica do seu tratado de astronomia, o Almagesto. E se você pegar lá o Tetrabiblos para ler, vai achar bem clara a noção de influência. Basta olhar a seção 4, “Dos poderes dos planetas”, que começa com: “O poder ativo da essência natural do Sol se encontra em aquecer e, em certo grau, em secar”, e depois afirma, da Lua, que o seu poder consiste em “umedecer, claramente porque está próxima à Terra e por conta das exalações úmidas que dela emanam”, o que me parece muito próximo daquela noção das avós de que não se deve sair de noite para “não apanhar sereno”. Enfim, pode-se ver que Ptolomeu trabalha com as noções de quente, frio, seco e úmido que também fazem parte da medicina grega clássica e têm a ver com a teoria dos humores, o que pode ajudar a entender porque no período medieval a astrologia foi tão importante para a medicina (felizmente esta é uma fase da cultura ocidental que foi superada, mas se você procurar bem você acha vários tratados astrológicos de medicina, inclusive no mundo árabe-judaico). As outras noções que tiveram vida mais longa na história da astrologia, sobretudo na prática, como a dos elementos nos signos, as casas astrológicas e os aspectos entre planetas, podem ser lidas na obra de um outro astrólogo, contemporâneo de Ptolomeu, mas um pouco mais novo e mais profissional do que ele (Ptolomeu, no fundo, é um matemático preocupado com os mecanismos por trás da operação dos astros), chamado Vétio Valente (120 – 175), autor das Antologias. Em Valente, vemos já não só a regência como já é bem conhecida agora (Marte rege Áries e Escorpião, Vênus rege Touro e Libra, etc), mas também como cada planeta rege cada parte do corpo e objetos inanimados. Daí que o Sol rege o ouro e a Lua a prata, como se pode ver nos símbolos alquímicos, a alquimia sendo na época uma outra disciplina que estava começando a dar seus primeiros passos (apesar de alegar origens bem mais antigas), de modo que os primeiros textos alquímicos seriam escritos por Zósimo de Panópolis, da virada do século III para o IV, mas isso já é tema para outra ocasião. Em todo caso, é fascinante poder observar como isso tudo vai se construindo cronologicamente. Como dito, para nós tudo já chegou pronto, mas observando assim pode-se notar em que ponto vão se dando os diálogos entre as várias áreas do conhecimento humano (mesmo que algumas delas venham a ser desconsideradas no futuro) para formá-las como as conhecemos hoje.

shamash

Mas, indo da Idade do Bronze para a era cristã, tivemos um salto temporal imenso aqui, e óbvio que muita coisa aconteceu nesse ínterim. Os grandes astrólogos que deram origem às tradições astrológicas posteriores são gregos e latinos, mas a astrologia não é bem uma prática nativa aos gregos, ou, se foi, certamente se perdeu no meio de caminho. Que eu saiba, não temos informação sobre observação astrológica/astronômica no período anterior ao período homérico (1100-800 a.C.), quando os povos do Mediterrâneo perderam as formas de escrita que tinham (os chamados Linear A, Linear B e os hieroglifos cretenses). Considerando o tanto de matemática envolvida para abstrair o movimento dos astros de modo a prevê-los com precisão para saber suas posições, mesmo quando o céu não é observável, é lógico que ter um sistema de escrita é indispensável para se desenvolver a astronomia e a astrologia, e os gregos só foram ter um alfabeto de novo muito depois, trazido famosamente pelos fenícios e adaptado para a realidade grega por volta do século VIII a.C.. E é do oriente também que vem a astrologia, e, como aponta Barton, há notáveis influências mesopotâmicas nos comentários de Hesíodo sobre a observação dos céus já em Os trabalhos e os dias. inclusive a relação que cada deus estabelece com cada planeta parece ter sido herdada diretamente. Ištar era a deusa do planeta dilbat/Vênus, e ela tem claros paralelos com a deusa Vênus (Afrodite, em grego, que viria a ser seu nome também mais tarde, mas antes do período helenístico o planeta tinha dois nomes: Phosphoros e Hesperos, porque os gregos achavam que eram dois planetas diferentes), inclusive é em seu mito com o deus Tâmuz que se encontra a origem para o mito de Vênus e Adônis. Também é possível encontrar paralelos entre o deus assírio Nabu (que vem a substituir a deusa suméria Nisaba como divindade padroeira da escrita), associado ao planeta Mercúrio, e Hermes, ambos sendo deuses que regem a escrita, mensagens, comunicação, etc. Marduk, associado a Júpiter, tem igualmente óbvias semelhanças com Zeus em seu papel como deus principal, e assim por diante.

No entanto, a falta de tratados ou mapas astrológicos gregos faz com que seja difícil apontar como a disciplina se transformou exatamente nessa viagem, e ela precisou se transformar, inclusive porque o conceito grego de destino – personificado nas três Moiras, chamadas Cloto, Laquesis e Atropos, responsáveis por separar o quinhão que cabe a cada um – difere muito do šīmtu babilônico. Falemos disso agora.

Como vimos, para um babilônico o destino é decidido pelos deuses, e essa decisão dá sinais no mundo natural para que o rei possa evitar se desgraçar e, com ele, toda a nação. Agora, para um grego a noção de que é possível fugir do destino soaria muito estranha, e a história de Édipo é o clássico exemplo disso: seus pais o levam para visitar um oráculo, o oráculo pronuncia que seu destino é matar o pai e casar com a mãe. Então eles tentam se livrar do filho, mas tudo dá errado e o destino é cumprido de qualquer forma. Nem mesmo os deuses são capazes de fugir do seu destino, como esbraveja Prometeu na tragédia Prometeu Acorrentado, a única peça sobrevivente da trilogia de Ésquilo sobre o titã ladrão do fogo. Diz ele sobre o destino funesto de Zeus:

Prometeu
Ainda não chegou a hora prefixada
pelas Parcas para a reconciliação;
somente após haver sofrido neste ermo
milhares de dores pungentes e outras tantas
calamidades, livro-me destas correntes.
O Destino supera minhas aptidões.

Corifeu
E por quem o destino é governado? Dize!

Prometeu
Pelas três Parcas e também pelas três Fúrias,
cuja memória jamais esquece os erros.

Corifeu
Os poderes de Zeus, então, cedem aos delas?

Prometeu
Nem ele mesmo pode fugir ao Destino.

(vv. 659-69, tradução de Mário da Gama Kury)

 

…ou então como podemos ver também, alguns séculos antes, na Teogonia de Hesíodo:

Noite pariu hediondo Lote, Sorte negra
e Morte, pariu Sono e pariu a grei de Sonhos.
A seguir Escárnio e Miséria cheia de dor.
Com nenhum conúbio divina pariu-os Noite trevosa.
As Hespérides que vigiam além do ínclito Oceano
belas maçãs de ouro e as árvores frutiferantes
pariu e as Partes e as Sortes que punem sem dó:
Fiandeira, Distributriz e Inflexível que aos mortais
tão logo nascidos dão os haveres de bem e de mal,
elas perseguem transgressões de homens e Deuses
e jamais repousam as Deusas da terrível cólera
até que dêem com o olho maligno naquele que erra.

(tradução de Jaa Torrano)

 

Fiandeira, Distributriz e Inflexível sendo os nomes traduzidos das três Moiras (Partes). O caso de Prometeu e Zeus é um pouco mais problemático, porque, apesar do que diz Prometeu, o que acontece ao fim da trilogia acaba contradizendo-o, visto que Zeus de fato escapa do destino de ser destronado por um filho mais forte que ele, como Prometeu prevê, justo porque Prometeu acaba revelando o segredo e permitindo que Zeus altere seu destino… mas não convém glosar mais esse caso e, de todo modo, ele serve para indicar que o conceito grego é um pouco mais complexo e traz consigo já uma potencialidade maior para problemas, exceções e contradições. Pois, se o destino é inescapável, para que serviriam os oráculos? para aceitar melhor o destino? ou essa lógica do “aceita que dói menos” seria uma interpretação estoica (posterior, portanto)? ou seriam os oráculos, com seus transes e frenesis, os resquícios de um período mais primitivo da cultura grega? Bem, não vai ser num texto breve e resumido como o meu que alguém vai descobrir a resposta para uma pergunta cabeluda dessas, mas eis algo para se pensar. Talvez a introdução da astrologia nesse outro contexto cultural tenha pesado para que os planetas deixassem de ser vistos como sinais e mais como influências propriamente: menos o caso de procurar previsões do que culpados, sobretudo os planetas chamados de maléficos como Marte e Saturno. Se você comete um crime por causa da influência de Marte, por exemplo, eis um culpado (além de você mesmo), e não deixa de ser o destino operando e te levando a isso através dos astros e/ou dos deuses. Além disso, nesse período pós-homérico temos os primeiros passos dos gregos no desenvolvimento da filosofia e dos princípios da física, como é observado no comentário de Ptolomeu. O sol esquenta e seca, eis aí uma influência observável de um corpo celeste. Seria possível, então, que os outros planetas (lembrando que, para a astrologia, Sol, Lua, Mercúrio, etc. são todos planetas, visto que a palavra vem do verbo planáō, πλανάω, que significa “vagar”, porque eles vagam pelo céu) também tivessem a capacidade de emitir forças e energias invisíveis. Como eu disse, também temos Empédocles desenvolvendo a teoria dos quatro elementos, Hipócrates com os quatro humores, e a cosmologia aristotélica. Por fim, segundo Roger Beck, a disseminação da cultura e língua grega durante o período helenístico permitiu que a astrologia/astronomia se desenvolvesse e fosse divulgada ainda mais, graças à facilidade de comunicação possibilitada entre a Grécia e o Oriente Médio, do Egito até a Pérsia. É perto desse período também, cerca de 100 anos antes, por volta de 410 a.C., que a genetlialogia começa a surgir na Babilônia, e fica claro que o conceito de influência dos astros casa perfeitamente com a ideia do mapa astral – a coisa de se atribuir os maus hábitos a ter nascido sob um astro ruim. Daí que Robert Burton, no século XVII, na Anatomia da Melancolia, comenta a relação entre a sua disposição melancólica e o seu signo zodiacal, Aquário, à época regido por Saturno (porque Urano ainda não havia sido descoberto), o astro dos melancólicos.

mapa-babilonicoPor fim, vale lembrar também que é essa noção de destino que é passada adiante para a cultura romana, que passa a chamar as Moiras pelo nome de Parcas e o destino por fātum – palavra cuja origem, como šīmtu, vem de fātus, do verbo for, “falar”, e que resulta nos nossos “fado”, “fatal”, “fatídico”, etc. Virgílio nos dá o melhor exemplo disso em sua Eneida, conforme acompanhamos a fuga de Eneias de uma Troia invadida e saqueada rumo a Cartago, um império de origem fenícia onde hoje é a Tunísia, e de lá para a península itálica onde é seu destino fundar Roma. Tanto no mundo grego quanto no latino, o destino oferece um esboço esquemático dos acontecimentos por vir e nos diz o que vai acontecer, mas não como ou quando. Seja o que for, Eneias está fadado a fundar Roma, e o resto é detalhe: Dido, a rainha de Cartago que se apaixona por ele, pode levá-lo a postergar seu destino, e as forças de Turno, na Itália, podem atrasá-lo e causar-lhe graves perdas (como a da vida de seu amigo Palas, morto em combate), mas não podem impedir esse destino de se concretizar – e nem mesmo Juno, que é uma deusa e está contra Eneias, é capaz disso. O próprio Eneias poderia resistir e se debater contra o seu destino, mas, quanto mais resistisse, pior seria – e que ele é uma figura que aceita o seu destino é uma das virtudes do personagem para o seu público romano. Daí que surge a noção do amor fati, amar o próprio destino, não importa qual seja, mesmo que envolva dor e perda. No caso de Eneias, temos a tensão entre esse amor fati e o amor erótico, pois enquanto estava em Cartago, ele se envolve com Dido, mas não pôde ficar, e ela, atormentada pela rejeição e desonra, acaba se suicidando após sua partida, o que nos rende uma cena dolorosíssima quando ele desce ao mundo dos mortos no livro VI e a reencontra lá. Óbvio, no entanto, que mesmo que o destino de Eneias acabe trazendo essas agruras, ele ainda é um destino grandioso. Fica um pouco mais difícil de se falar em amor fati no caso, para voltar no exemplo, de um Édipo da vida, fadado a casar com a mãe e matar o pai. Mas a concepção trágica que sustenta a narrativa de Édipo não é bem um elemento constituinte da visão de mundo latina, pelo visto.

Algo desse tipo também pode ser visto em Horácio. E, sim, perdoem o clichê, mas eu vou citar o poema do carpe diem:

Odes

I.11

Tu nem vás perguntar (ímpio é saber) sobre o que a mim e a ti
que fim deuses darão, Leuconoé, nem babilônios
astros ouses tentar. Antes viver o que vier, sem mais.
Quer invernos sem fim, ou só mais um, ceado Júpiter
que hoje a se debater rasga o rochaz leito em Tirreno mar,
saibas saborear, coa este vinho, eis que num curto chão
poda o longo esperar; nesta conversa, ínvido o tempo já
foge. Colhe este dia, ah!, sem pensar nunca nos amanhãs.

(tradução de Guilherme Gontijo Flores)

 

(ó de novo a menção à Babilônia como referência para a astrologia)

Não precisamos ser extremos como Horácio, no entanto, em desprezar todo aparato divinatório, para sermos bons romanos. A astrologia, no caso, poderia hipoteticamente, dentro dessa mentalidade, servir não tanto para se tentar evitar o destino, mas para descobrir que destino seria esse para que ele possa ser aceito – e este é o tom geral, inclusive, do discurso dos astrólogos modernos quando falam de um elemento do mapa astral chamado de nodo norte, uma abstração matemática que define o ponto em que a Lua cruza a eclíptica e que teria a ver com o nosso destino (na literatura da renascença, o nodo norte é chamado de “a Cauda do Dragão” a que Edmund se refere na epígrafe desta postagem, mas a sua interpretação, à moda renascentista, segue a linha da coisa das influências benéficas ou maléficas de que falamos anteriormente). Horácio parece fazer companhia às outras figuras letradas de sua cultura, como Cícero, que escreveu um tratado sobre o assunto, De Divinatione, em seu desprezo pelas artes divinatórias. E, vale lembrar ainda, o personagem de Trimalquião, a caricatura de um noveau riche e uma das grandes invenções cômicas de Petrônio em seu Satíricon, aparece, entre os seus vários excessos de mau gosto, decorando os pratos de seu banquete com as formas dos 12 signos do zodíaco (cap. 46). A popularidade da prática de astrólogos como Vétio Valente, porém, aponta para a possibilidade de que talvez fosse o caso de haver uma distinção de classe no assunto de se levar a sério a astrologia. Mas estamos apenas especulando, claro.

mosaico de uma sinagoga do século VI em Beit Alpha representando o zodíaco

mosaico de uma sinagoga do século VI em Beit Alpha representando o zodíaco

Tem mais algumas coisas que poderíamos incluir nessa discussão, como a concepção judaica de destino e influência dos astros. Destino, em hebraico bíblico, se diz goral (גורל), que é o termo usado para a prática de se tirar a sorte (tipo tirar a sorte no palitinho), como se observa na Bíblia em Jonas 1:7, mas o conceito é válido também, assim como o das Moiras, para se referir ao nosso quinhão na vida, que é como a palavra aparece em Isaías 17:14. No entanto, o destino é regido por YHWH, porque, para a cosmovisão judaica, absolutamente tudo é regido por YHWH, mas ainda assim há espaço para o conceito grego de influência dos astros (contanto que com o devido consenso de YHWH), considerando como o período helenístico influenciou a cultura judaica (com obras como o livro de Eclesiastes sendo resultado disso), mas também há referências às estrelas como um tipo de escrita ou portento, na medida em que a palavra do hebraico talmúdico mazal (מזל), “sorte”, é derivado do termo bíblico mazalot (מזלות), “constelação”, da onde parte a expressão mazal tov, que, apesar de equivalente ao nosso “parabéns”, significa literalmente “sorte boa” ou “boa estrela”. E claro que a invenção rabínica do HaOlam HaBa (העולם הבא) “O mundo por vir”, complica as coisas também, porque dá uma dimensão extra ao destino, ao conceber uma outra vida após a morte – e eu a chamo aqui de uma invenção rabínica, porque a expressão aparece no Talmude, ao passo que o conceito de existência post-mortem no texto bíblico em si, o Sheol (שאול), é semelhante ao Hades grego ou ao mundo dos mortos mesopotâmico. Mas essas conjecturas todas são difíceis de se fazer, especialmente porque a halakhá, a lei rabínica, proíbe a astrologia, bem como outras formas de adivinhação – só que, para piorar, apesar da proibição, a astrologia foi muito praticada entre os judeus ainda assim, o que serve para dificultar qualquer tentativa de se chegar numa visão unívoca e oficial. Mesmo no período medieval, você vai ter figuras tanto defendendo e praticando a astrologia (Abraham Ibn Ezra) quanto condenando-a (Maimônides). O buraco é bem mais embaixo.

E isso conclui o nosso pequeno tour pela astrologia da Grécia e Babilônia antigas. Essas noções todas podem não lançar muita luz sobre como funciona a astrologia hoje, e talvez tudo acabe trazendo mais dúvidas do que podemos responder, mas creio que ajudam a explicar como ela se tornou o que é, sendo um exemplo dos mais fascinantes da passagem de ideias entre culturas e o seu refinamento ao longo dos séculos. E obviamente essas noções todas sobre destino e adivinhação deixam marcas na literatura dos povos, que seria uma demonstração de miopia literária ignorar.

Adriano Scandolara

 

Bibliografia teórica

BARTON, Tamsyn. Ancient Astrology. Londres: Routledge, 1994
BECK, Roger. A Brief History of Ancient Astrology. Oxford: Blackwell Publishing, 2007.
GRAFTON, Anthony & NEWMAN, William R. (ed.). Secrets of Nature: Astrology and Alchemy in Early Modern Europe. Cambridge, Massachusetts: MIT Press, 2001.
KOCH-WESTENHOLZ, Ulla. Mesopotamian Astrology: An Introduction to Babylonian and Assyrian Celestial Divination. Copenhague: Museum Tusculanum Press, 1995.
ROCHBERG, Francesca. In the Path of the Moon: Studies in Ancient Magic and Divination. Leiden: Koninklijke Brill, 2010.
___________________. Heavenly Writing: Divination and Horoscopy, and Astronomy in Mesopotamian Culture. Cambridge: Cambridge UP, 2004

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