crítica, poesia

É ISTO UMA MULHER? #1, por Nina Rizzi

Ilustração de Xueh Magrini

Participei em junho deste ano da graça de doismilizezoito do Festival Vida & Arte, promovido pelo Jornal O Povo, no debate intitulado “E a mulher escreveu o mundo”, com Ana Paula Maia, Juliana Diniz e Marília Lovatel.  Em um dado momento comentei uma entrevista com Ana Paula Maia em que o entrevistador ressaltava o talento e êxito de suas narrativas por não se parecem em nada com “textos de mulher”. A plateia riu quando disse certamente por não serem açucarados, histéricos, biográficos e suicidas. Claro que, assim como todo mundo pode escrever sobre o que quiser – seja homem, mulher, pós-gênero ou que seja – tal assertiva é machista; afinal o que seria um modo feminino ou masculino de escrever? Quem diz algo assim sem juízo de valor? Ao tratar de gente esquecida, miserável e degradada, Ana Paula é menos mulher?

Tendo como tema “E a mulher escreveu o mundo”, pensei que tal referência podia trazer ao debate um descortinado de tais ideias ridículas, nada de novo no front, não fosse a resposta de Ana Paula Maia:

Sem ambientes domésticos ou personagens femininas e suas subjetividades, sua narrativa de fato afasta-se do universo feminino, afinal “eu já sou mulher todo dia, aguento coisas de mulher todos os dias, vou ao salão de beleza, fico me olhando no espelho, namoro, vou à festas”, e mais alguns exemplos desse senso comum da mulher, aparentemente, fútil, açucarada e sem graça. Juliana Diniz, que comentava seu livro Memória dos Ossos (Editora Dummar, 2018), onde todas as personagens são femininas e dentro de uma casa ressaltou que, o ambiente e as personagens não geram qualquer hierarquização de textos, ao que completei “nunca tomei chá numa xicarazinha; e há mulheres em todos os lugares que urgem escrever narrativas, sejam biográficas ou não, de outros tônus. Então a mediação levou a conversa para outro rumo, dado o tempo que se findava.

Saí da mesa com aquela sensação de guarda-chuva molhado e aberto dentro da boca. Eu sabia que devia ter dito algo ainda. Uma colega que estava na plateia comentou também seu enfado com a reprodução de ideias machistas. O fato é que ali, na hora certa, eu simplesmente fiquei absurdada, como acontecia quando era adolescente e ia fazer uma prova cujo conteúdo tinha total domínio e, no entanto, dava um branco. E mais: como dizer àquela mulher, àquela mulher escritora, àquela mulher com quem tenho afinidades, naquele espaço feminino e nosso, sem cair também nas malhas do embaraço machista, consciente ou não de opressões e lutas? Bem depois, pude dizer “o seu mundo literário de homens e abates e confinamentos é também um “mundo feminino”, afinal foi de você que saíram. Um sorriso, nenhum chá na xícara e apenas isto.

O acontecimento me relembra perguntas já muito antigas, tão anteriores a mim e que continuamos sempre a nos perguntar. Ainda não posso escrever este livro de perguntas sem antes caminhar por respostas que me dão mulheres escritoras. Assim, para pensar essas questões, alguns trechos desses “textos de mulher” que apresento em Laboratórios de Escrita Criativa para Mulheres que costumo promover; trechos que pretendo comentar numa segunda parte deste breve texto, mas que você também pode, é claro. Nosso diálogo e interminável.

nina rizzi

*

1. O ambiente doméstico é exatamente recoberto de chá onde as mulheres escovam o chão e se penteiam os cabelos?

Meu Deus: A mãe morreu. Morreu a gritar e a praguejar. Gritava comigo. Praguejava para mim. Estou prenha. Não posso mexer-me bem. Ainda não chego do paço e a água já está quente. Ainda não preparo a bandeja e a comida já ficou fria. Ainda não arranjo os miúdos para irem para a escola e já são horas de almoçar. Ele não dizia nada. Estava sentado à beira da cama. Pegava na mão dela e chorava e repetia: Não me deixes, não te vás embora. Quando foi do primeiro, ela perguntou: De quem é? Eu disse: De Deus. Não conheço mais nenhum homem e não sei que dizer. Quando comecei a ter dores de barriga e ela a mexer-se e saiu de lá aquele bebe que mordia a mão fiquei pasmada. Ninguém nos vinha ver. Ela estava pior e cada vez pior. Um dia perguntou-me: Onde está? Eu disse: Deus levou-o. Mas foi ele que o levou. Levou-o quando eu estava a dormir. E matou-o no bosque. E vai matar este agora se puder. Meu Deus: Diz que está farto. Já não pode comigo. Diz que sou má e só aborreço. Tirou-me o outro bebê. Era um menino. Mas parece-me a mim que não o matou. Acho que o vendeu a um casal de Monticello. Tenho o peito cheio de leite e sai sempre e estou encharcada. Ele pergunta: Porque não tens um ar mais decente? Veste qualquer coisa. Que quer ele que eu vista? Não tenho nada. Oxalá encontre alguém para se casar. Olha muito para a minha irmã mais nova e ela tem medo. Mas eu digo: Eu tomo conta de ti. Se Deus me ajudar. [A COR PÚRPURA, ALICE WALKER; TRADUÇÃO DE PAULA REIS]

2. Por que escrever uma narrativa autobiográfica? Um texto autobiográfico feminino terá sempre tom doce, com mulheres submissas que anseiam pelo príncipe encantado?

 “[…] Merciana era a verdadeira chefe da família, uma “civilizada”, como diziam na época. Não sei onde ela tinha ido à escola, mas ela sabia ler e escrever. Saber escrever era algo perigoso se você tinha um pai exilado no Burundi. Logo começam a suspeitar que você está se correspondendo com os tutsis que preparam seu retorno a Ruanda, que você é uma espiã dando informações aos que estão do desse lado da fronteira e poderia facilitar a volta dos tutsis. E talvez você esconda armas. Os capangas da prefeitura sempre iam interrogar Merciana, revistar a miserável choupana. Ouvíamos os irmãos e as irmãs de Merciana chorando, a mãe suplicando. Depois, um dia, eles chegaram com dois militares. Eles pegaram Merciana e a levaram até o meio do pátio, um lugar onde todo mundo podia ver. Tiraram a roupa dela, deixaram-na completamente nua. As mulheres esconderam os debaixo dos panos. Lentamente, os dois militares pegaram as espingardas. “Eles não miravam no coração, repetia minha mãe, e sim nos seios, somente nos seios. Eles queriam dizer a nós, mulheres tutsis: ‘Não deem vida a mais ninguém, pois, na verdade, se colocarem mais alguém no mundo, vocês vão acabar trazendo a morte. Vocês não são mais portadoras de vida, são portadores de morte.” [A MULHER DE PÉS DESCALÇOS, SCHOLASTIQUE MUKASONGA; TRADUÇÃO DE MARÍLIA GARCIA]

3. Uma mulher nunca irá escrever sobre um tema “masculino” como, por exemplo, fertilização de vacas?

um touro
quando cobre uma vaca
ele tem uma peça
700 gramas entre 500 quilos
ele tem uma peça
pra encaixar
que nem sempre encaixa bem
são 499,3 kg e uma vida
quadrúpede
tem vaca que não arria
é o cio
mas muitas muitas muitas
se descaderam
desencaixam o eixo das ancas
estragam a carcaça
não prestam pra mais nada
é o cio
dos machos
é mais forte 
[MUGIDO, MARÍLIA FLÔOR KOSBY]

4. Uma mulher sempre vai representar a maternidade como ideal de realização e felicidade?

gestação infinita
o filho podre a filha cerca viva
meu útero arregaçado expelindo medo em sangue
porque é meu horror que gero –
sei me ferir.
[NÃO, BRUNA MITRANO]

5. A mulher sempre terá um papel de submissão e resignação diante das opressões? Seus heróis serão sempre modelos masculinos?

A noite não adormecenos olhos das mulheres,
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres,
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.
A noite não adormece
nos olhos das mulheres,
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.
A noite não adormecerá
Jamais nos olhos das fêmeas,
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.
[POEMAS DA RECORDAÇÃO E OUTROS MOVIMENTOS, CONCEIÇÃO EVARISTO]

6. O amor e o erótico, quando escritos por uma mulher, serão sempre com rimas fáceis, metáforas bobas, descrições melosas?

Após o terremoto, o rio será atravessado,
frações de veneno serão espalhadas
para afugentar as cobras,
raízes de gengibre serão colhidas
em profundo silêncio.
O amor se banhará em ervas
e retornará da infância
com o seu verdadeiro nome,
saberá a origem de toda planta,
o odor de todo gozo.
O amor pertence ao amor,
isso ninguém lhes rouba,
nem mesmo sentenças de morte
proferidas por bestas assassinas
em horrendos tribunais.
Sempre o amor olhará para o amor
e estilhaços de inútil beleza
se soltarão da intimidade do solo.
No ressoar de suas asas, a verdade surgirá:
não se separa o amor do amor.

[A MESMA FOME, MARIZE CASTRO]

7. Uma mulher é uma coisa pura? O que é uma mulher pura?

Pura? Que vem a ser isso? 
As línguas do inferno 
São baças, baças como as tríplices 

Línguas do apático, gordo Cérbero 
Que arqueja junto à entrada. Incapaz 
De lamber limpamente 

O febril tendão, o pecado, o pecado. 
Crepita a chama. 
O indelével aroma 

De espevitada vela! 
Amor, amor, escassa a fumaça 
Rola de mim como a echarpe de Isadora, e temo 

Que uma das bandas venha a prender-se na roda. 
A amarela e morosa fumaça 
Faz o seu próprio elemento. Não irá alto 

Mas rolará em redor do globo 
A asfixiar o idoso e o humilde, 
O frágil 

E delicado bebê no seu berço, 
A lívida orquídea 
Suspensa do seu jardim suspenso no ar, 

Diabólico leopardo! 
A radiação faz que ela embranqueça 
E a extingue em uma hora. 

Engordurar os corpos dos adúlteros 
Tal qual as cinzas de Hiroshima e corroê-los. 
O pecado. O pecado. 

Querido, a noite inteira 
Eu passei oscilando, morta, viva, morta, viva. 
Os lençóis opressivos como beijos de um devasso. 

Três dias. Três noites. 
água de limão, canja 
Aguada, enjoa-me. 

Sou por demais pura para ti ou para alguém. 
Teu corpo 
Magoa-me como o mundo magoa Deus. Sou uma lanterna – 

Minha cabeça uma lua 
De papel japonês, minha pele de ouro laminado 
Infinitamente delicada e infinitamente dispendiosa. 

Não te assombra meu coração. E minha luz. 
Eu sou, toda eu, uma enorme camélia 
Esbraseada e a ir e vir, em rubros jorros. 

Creio que vou subir, 
Creio que posso ir bem alto – 
As contas de metal ardente voam, e eu, amor, eu 

Sou uma virgem pura 
De acetileno 
Acompanhada de rosas, 

De beijos, de querubins, 
Do que venham a ser essas coisas rosadas. 
Não tu, nem ele 

Não ele, nem ele 
(Eu toda a dissolver-me, anágua de puta velha) – 
Ao Paraíso. 

[40 GRAUS DE FEBRE, SYLVIA PLATH; TRADUÇÃO DE AFONSO FÉLIX DE SOUZA]

8. Uma mulher só pode escrever sobre si?


os olhos falam o exato
olhos que se abrem
lançam o excesso
olhos
                não palavras
olhos
                não promessas
trabalho com meus olhos
em construir
em reparar
em reconstruir
algo parecido com um olhar humano
com um poema de homem
com um poema longe do bosque
[NÃO COLIGIDO, ALEJANDRA PIZARNIK; TRADUÇÃO DE NINA RIZZI]

Escreve poemas
porque precisa
de um lugar
onde seja o que não é
[APROXIMAÇÕES, ALEJANDRA PIZARNIK; TRADUÇÃO DE NINA RIZZI]

9. Por que se mete uma mulher a escrever? O que é um texto de mulher?

“Não deveriam ter primeiro boas razões para escrever? Aquelas que, misteriosas para mim, nos dão “direito” a escrever? E eu não as conhecia. Eu só tinha uma “má” razão, não era uma razão, era uma paixão, algo inconfessável, – e inquietante, um rasgo de violência que me afligia. […] Razão, nenhuma. Mas havia loucura. Escritura no ar ao meu redor. Sempre próxima, embriagadora, invisível, inacessível. Escrever me atravessa! […]

Escrever? Se escrevia “EU”, quem seria? Poderia passar sob “EU” na vida cotidiana sem saber mais a respeito, mas como faria para escrever sem saber quem-eu? Não tinha esse direito. Não é a escritura o lugar do Verdadeiro? Mas o Verdadeiro não é claro, distinto e único? E eu, imprecisa, várias, simultânea, impura. […]

[A CHEGADA À ESCRITURA, HÉLÈNE CIXOUS; TRADUÇÃO DE NINA RIZZI]

10. É isto uma mulher?

Era eu uma mulher? ao reviver esta pergunta interpelo toda a história das mulheres. uma história feita de milhões de histórias singulares, mas atravessada pelas mesmas perguntas, os mesmos terrores, as mesmas incertezas. As mesmas esperanças pelas que até pouco tempo só se abriam para consentir, se resignar ou com desesperança. Tomar-me por uma mulher? De que maneira? Que mulher? […]

Quantas mortes a atravessar, quantos desertos, quantas regiões em chamas e regiões geladas, para chegar um dia a dar um bom nascimento! E você, quantas vezes morreu antes de poder pensar, “Sou uma mulher”, sem que esta frase significasse: “Então sirvo”? […]

[A CHEGADA À ESCRITURA, HÉLÈNE CIXOUS; TRADUÇÃO DE NINA RIZZI]

Padrão
poesia, tradução

Um soneto sacro de John Donne, por Matheus Mavericco

John Donne, por  Martin Droeshout, 1633

John Donne, por Martin Droeshout, 1633

John Donne (1572 – 1631) faz parte daquele grupo de poetas ingleses que posteriormente recebeu a imprecisa alcunha de “poetas metafísicos”. Após uma juventude boêmia, da qual resultaram alguns dos poemas mais tesos da língua inglesa, Donne entrou numa carreira clerical e foi ordenado pastor pela Igreja Anglicana em 1615. É dessa fase, não necessariamente após sua conversão ao anglicanismo, que datam os chamados “Sonetos Sacros”. Junto ao conjunto também de sonetos “La Corona”, são exemplares acerca não só da faceta sacra que a poesia de Donne assumiria a partir de então, como também exemplares no contexto geral da poesia barroca inglesa (vide, por exemplo, a poesia de George Herbert e Richard Crashaw) e da poesia barroca de modo geral (basta lembrar as dualidades profanas e sacras de Gregório de Mattos).

O soneto aqui traduzido é o décimo da sequência dos dezenove “Sonetos Sacros”. Dizem que Donne se adoentou por essa época e quase morreu. Mas sua fé era maior e a própria concepção de morte havia mudado o suficiente para que ele não se amedrontasse. Seu temor e sua devoção eram a Deus tão somente: outros sonetos da sequência, por exemplo o décimo quarto (que guarda a infeliz efeméride de ter batizado a experiência Trinity, o primeiro teste nuclear da história…), se inscrevem numa postura de flagelamento em prol da fé. A um poeta que em poemas anteriores havia conseguido poetizar o impoetizável, como ao falar de uma pulga, ou unir elucubração de matizes filosóficos e strip-tease, como na sua décima elegia (que foi parcialmente musicada por Caetano Veloso tendo como base a tradução de Augusto de Campos), Donne adota uma espécie de postura sacro-sadomasoquista. Veja-se a primeira estrofe do soneto XIV:

Meu coração, Trindade Santa, sova
Pra que o abata, abrande, brilhe e emende
E eu de novo levante; e então distende
E vergue e quebre e queime e me renova.

Houve quem dissesse que na sua poesia religiosa Donne quietou o faixo, se comparada com a poesia da juventude, mas não é bem por aí. Frank Kermode já mostrou que o famoso “wit” (algo parecido com o conceito de “engenho” na poesia ibérica) não havia abandonado o poeta nestes seus sonetos. É impossível não observar a inventividade metafórica, imagética e argumentativa que os poemas continuam ostentando, por exemplo. No caso do décimo soneto sacro, é só observar o terceiro quarteto, que, valendo-se de um esquema enumerativo nos dois primeiros versos que remetem à ideia certo modo onipresente que a Morte assumia no medievo, cai, nos dois restantes, no tom geral de desafio do soneto, mesclando inclusive uma referência a ervas que fazem dormir. Não é o tipo de coisa que se espera encontrar num poema religioso…

Pois a respeito disso que me referi sobre a mudança de concepção acerca da Morte, é salutar se compararmos o soneto de Donne com o poema “Os Versos da Morte”, de Hélinand de Froidmont. Escrito durante o século XIII, o poema é um dos primeiros a personificar a morte e a descrevê-la em seus tons implacáveis ainda hoje correntes. A Morte vem e acaba com tudo, é o que o poema quer nos dizer, sem deixar, claro, de manter um poderoso fundo religioso (Froidmont foi monge e também teve um passado libertino). Valendo-me da tradução de Heitor Megale para a edição da Ateliê, bastaria olharmos o começo da estrofe 28: “O que vale o que o século faz? / A morte logo tudo desfaz.” A sobreposição do poder temporal sobre o poder secular é visível, e, embora na estrofe 14 denuncie os falsos clérigos, na estrofe 46 diz: “A Igreja sabe, há muito tempo, / Qual é o bom, qual é o mau”. A concepção da morte, sendo assim, espelha uma maneira de manter a ordem na Cidade de Deus, cada um no seu quadrado e se preocupando, acima de tudo, em manter a fé (visto em especial na estrofe 26). A outra via, a de se aproveitar a vida partindo do princípio que, como não há como escapar da morte mesmo!…, característica do “carpe diem” (apregoado à exaustão por Robert Herrick, por exemplo, contemporâneo de Donne), é tratado no poema de Froidmont de maneira caricatural (estrofes 34 a 39).

O que muda com Donne é em grande parte uma mudança histórica. O homem barroco, frente ao infinito, ao fausto advindo das Grandes Navegações, ao nascedouro das ciências e das nações (e a Inglaterra, sem dúvidas, era ponta de lança em todo este processo, embora não tenha se lançado direta ou ostensivamente na predação colonial), adotava uma postura dúbia em relação à religião. A poesia dos “metafísicos” é rica em exemplos acerca disto; mas, para me limitar ao soneto em questão, posso muito bem apontar a já aludida valentia com que o eu lírico desafia a Morte, chegando até mesmo a dizer que a Morte morrerá. Quantos de nós, mesmo hoje, teríamos a audácia de dizer algo assim?! Em Froidmont, a fé era, como em Donne, fortaleza; mas Froidmont não chega a negar o poderio da Morte, mesmo considerando que você seja uma pessoa de fé inabalável. No caso de Donne é diferente, pois, mesmo na sua poesia religiosa, ele ressalta caracteres humanos. Se no soneto XIV, como creio que o leitor possa ter percebido só na primeira estrofe, o desejo era de que o corpo estraçalhado ao infinito como que refletisse o influxo da Santa Trindade no corpo da pessoa, aqui é a Morte corporificada que é levada a suas tensões mais basilares. Donne, como de certo modo todo barroco, é um poeta exagerado, e, do mesmo modo que sua postura penitencial no soneto XIV chegou às raias do masoquismo, sua compreensão da morte em sua dimensão humana, no soneto X, chegou às raias do pé de igualdade. Não quer dizer que, de todo, Donne tenha realmente menosprezado a morte. Na verdade, ele tem confiança pois está ao lado de Deus, e essa confiança de estar ao lado de Deus o permite menosprezar a morte: a morte morrerá depois do Juízo Final.

Fiquemos com o soneto. Quem quiser um excelente texto a respeito dos Sonetos Sacros de Donne poderá ler a dissertação de mestrado (UFSM, 2005) de Marcus De Martini, O sacro e o oblíquo: para uma tradução dos Sonetos Sacros de John Donne. É de Martini, em conjunto com Lawrence Flores Pereira, Traduzindo La Corona, de John Donne (2009). A tradução da faceta sacra da poesia de Donne é um fruto do terceiro momento de Donne no Brasil, conforme a divisão de José Garcez Ghirardi (John Donne e a crítica brasileira, editora AGE). Enquanto o primeiro foi representado pelas traduções de Augusto de Campos (primeiro em Verso, Reverso, Controverso, editora Perspectiva, e depois, expandido, em O Anticrítico, editora Cia das Letras), o segundo é representado por Paulo Vizioli (John Donne, poeta do amor e da morte, editora JC Ismael), o qual, apesar de ter traduzido alguns dos sonetos sacros, deu um enfoque muito maior à poesia juvenil do autor barroco. Já o terceiro, representado por Afonso Félix de Sousa, foi o que realmente se interessou de forma mais intensiva pela faceta sacra de Donne, o que a tradução do ciclo completo, mais La Coronna, facilmente o atesta. Seguem-se nomes como o de Aíla de Oliveira Gomes (Poesia Metafísica, editora Cia das Letras), Marcus de Martini, Paulo Henriques Britto (volume 4 da revista Inimigo Rumor) e, há um mês atrás, André Vallias (aqui).

A tradução de Afonso Félix de Sousa aparece aqui de forma parcial pois não tive acesso à obra (Sonetos de Meditação, editora Villa Rica). Cito com base no trecho analisado da dissertação de Marcus De Martini.

Matheus Mavericco

§

trad. Matheus “Mavericco”.

Morte, não te enalteças. Quem chamar-te
Forte e terrível, erra, pois não és,
E quem pensas matar, Morte, ao invés,
Não morre, nem matar-me é tua arte.
Descanso e sono, que de ti são parte,
Aprazem ― mais aprazem através
De ti, e os homens curvam-se a teus pés
Logo que o espírito do corpo aparte.
Serva da aflição, reis, destino e sorte,
Tu moras no veneno, guerra e doença;
Porém se ervas nos dão a sonolência,
Então por quê intumesces tanto, ó Morte?
Na vida eterna acorda ele que jaz:
Morte não é mais. Morte, morrerás.

§

trad. Jorge de Sena.

Não te orgulhes, ó Morte, embora te hão chamado
Poderosa e terrível, porque tal não és,
Já que quantos tu julgas ter pisado aos pés,
Não morrem, nem de ti eu posso ser tocado.
Do sono e paz que sempre a teu retrato é dado
Muito maior prazer se tira em teu revés,
Pois que o justo ao deitar-se com tua nudez
Ossos te deita e não seu esprito libertado.
Escrava és de suicidas, e de Reis, da Sorte;
Venenos, guerras, doenças são teus companheiros;
Magias nos dão sonos bem mais verdadeiros,
Melhores do que o teu golpe. Porque te inchas, Morte?
Despertamos no Eterno um breve adormecer,
E a morte não será, que Morte hás-de morrer.

§

trad. Paulo Vizioli.

Oh, Morte, não te orgulhes, pois ruim
Como dizem não és, medonha e forte;
Quem pensas que abateste, pobre Morte,
Não morre; nem matar podes a mim.
Se o sono, o teu retrato, agrada assim,
Contigo fluirá melhor a sorte;
E o bom, ao conhecer o teu transporte,
Descansa o corpo e se liberta enfim.
Serva de reis, destino, acasos e ânsia,
À droga, à peste e à guerra te associas;
E adormecem-nos ópios e magias
Mais que teu golpe. Então, por que a jactância?
Um breve sono a vida eterna traz,
E, vai-se a morte. Morte, morrerás.

§

trad. Afonso Félix de Sousa.

Orgulhosa não sejas, morte, embora te pensem
Poderosa e medonha, porque não és assim;
Porque esses, a quem pensas ter dado um fim,
Não morrem, pobre morte, e nem a mim tu vences.
Se do repouso e sono, tua imagem de calma,
Vem prazer, muito mais de ti deve fluir,
E contigo os melhores se aprontam para ir
Descansar dos seus ossos, e libertar sua alma.
(…)
E a morte sumirá. Morte, tu morrerás.

§

trad. André Vallias.

Donne Vallias

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