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Chuvas de Niikuni Seiichi (1925 – 1977), por Alessandro Funari

Niikuni Seiichi (1925 – 1977) foi um pintor e poeta japonês, um dos principais autores relacionados ao movimento concretista – tendo, inclusive, traduzido Haroldo de Campos para o japonês. Trabalhou com poesia ideogramática, com uma preocupação bastante visual. Para este poema, Chuva, foram feitas duas versões: uma visual e uma com foco no aspecto sonoro (soma-se o fato de que, em japonês, a onomatopeia para chuva é “shito shito”); cada uma destas possui uma variante que substitui o formato retangular da obra – como se alguém estivesse vendo a chuva através de uma janela, conforme o ideograma apresenta – por uma forma mais oblíqua, diagonal, como uma chuva mais movimentada pelo vento.

Alessandro Funari

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Padrão
poesia, tradução

Wallace Stevens (1879-1955), por Alessandro Funari

wallace-stevens-portrait

É notável como Wallace Stevens (1879 – 1955) imprime na materialidade de seus poemas o assunto abordado por eles. Usando como exemplo alguns poemas aqui trabalhados, vemos como em The Load of Sugar-Cane, não só o correr das águas do rio em questão carrega consigo versos inteiros (como se pode notar nas repetições, em estrofes diferentes, de ‘like water flowing’ e ‘under the rainbows’), mas leva também fonemas, como o g de ‘going’, que percorre o ‘glade-boat’, atravessa a estrofe e continua a caminhar pela ‘green saw-grass’. O mesmo ocorre com o w de ‘While the wind still whistles’ e, porque não, com o som de ‘Load’, no título, que adentra o poema e termina o primeiro verso com ‘boat’ (que tentei manter com ‘Açúcar’ e ‘sulcar’).

Em Anecdote of the Jar, temos o ritmo nos dizendo o que está semanticamente explicitado. Os jambos caminham regulares até o surgimento da palavra ‘slovenly’, no terceiro verso: ‘desalinhado’, ‘em desordem’, e é exatamente assim que o ritmo se comporta. O que estava em ordem agora está revolto.

Outro exemplo é a sexta parte de Thirteen Ways of Looking at a Blackbird, que traz ainda outro aspecto, desta vez tocando a materialidade das próprias letras. Ao desenhar uma cena de inverno, temos ‘Icicles filled the long window / With barbaric glass.’ Com o uso de letras de tipografia alongada (I, i, l, f, ll, t, h, l, d) ou que se afunilam (os w de ‘window’ e de ‘With’), é possível ver os próprios sincelos dependurados do batente da janela. Outra indicação do frio é a repetição do som ‘brrr’ em ‘barbaric’, uma exclamação dicionarizada pelo Oxford English Dictionary.

 

Alessandro Funari

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Treze Maneiras de Olhar para um Melro

I
Em vinte montanhas nevadas,
Só o que se movia
Era o olho do melro.

II
Eu estava dividido em três,
Como os trevos
Entre os quais estão três melros.

III
O melro rodopiou nos ventos de outono.
Era uma pequena parte da pantomima.

 

IV
Um homem e uma mulher
São um.
Um homem e uma mulher e um melro
São um.

V
Não sei o que prefiro,
Se a beleza das inflexões
Ou a beleza das insinuações,
Se o assovio do melro
Ou o logo depois.

VI
Sincelos atulham a longa janela
Com vidro barbárico.
A sombra do melro
A cruzou diversas vezes.
A aura
Traçou na sombra
Uma causa indecifrável.

VII
Ó homens magros de Haddam,
Porque imaginais aves doiradas?
Não vedes como o melro
Caminha por entre os pés
Das damas à vossa volta?

VIII
Sei de acentos nobres
E de ritmos lúcidos, inescapáveis;
Mas sei, também,
Que o melro está envolvido
No que sei.

IX
Quando o melro voou para longe,
Demarcou a margem
De um dentre muitos círculos.

X
Ao avistar os melros
Voando à luz verde,
Até pécoras da eufonia
Gritariam estrídulas.

XI
Ele cruzou Connecticut
Em um coche de vidro.
Certa vez, tomou-lhe um medo,
Pois equivocou
A sombra de sua bagagem
Por um melro.

XII
O rio está se movendo.
O melro deve estar voando.

XIII
Era noite a tarde inteira.
Estava nevando
E iria nevar.
O melro pousado
Nos galhos do cedro.

Thirteen Ways of Looking at a Blackbird

I
Among twenty snowy mountains,
The only moving thing
Was the eye of the blackbird.

II
I was of three minds,
Like a tree
In which there are three blackbirds.

III
The blackbird whirled in the autumn winds.
It was a small part of the pantomime.

IV
A man and a woman
Are one.
A man and a woman and a blackbird
Are one.

V
I do not know which to prefer,
The beauty of inflections
Or the beauty of innuendoes,
The blackbird whistling
Or just after.

VI
Icicles filled the long window
With barbaric glass.
The shadow of the blackbird
Crossed it, to and fro.
The mood
Traced in the shadow
An indecipherable cause.

VII
O thin men of Haddam,
Why do you imagine golden birds?
Do you not see how the blackbird
Walks around the feet
Of the women about you?

VIII
I know noble accents
And lucid, inescapable rhythms;
But I know, too,
That the blackbird is involved
In what I know.

IX
When the blackbird flew out of sight,
It marked the edge
Of one of many circles.

X
At the sight of blackbirds
Flying in a green light,
Even the bawds of euphony
Would cry out sharply.

XI
He rode over Connecticut
In a glass coach.
Once, a fear pierced him,
In that he mistook
The shadow of his equipage
For blackbirds.

XII
The river is moving.
The blackbird must be flying.

XIII
It was evening all afternoon.
It was snowing
And it was going to snow.
The blackbird sat
In the cedar-limbs.

§

 

Anedota do Jarro

No Tennessee pousei um jarro;
Arredondado, sobre um monte.
E fez a selva revolta
Cercar o monte.

A selva se elevou em seu entorno,
E se espalhou, não mais selvagem.
O jarro era redondo sobre o campo
Era alto e de um porto em ar.

Dominou todo o lugar.
O jarro era cinza e vulgar.
Não dava ave ou árvore.
Como nada mais no Tennessee.

Anecdote of the Jar

I placed a jar in Tennessee,
And round it was, upon a hill.
It made the slovenly wilderness
Surround that hill.

The wilderness rose up to it,
And sprawled around, no longer wild.
The jar was round upon the ground
And tall and of a port in air.

It took dominion everywhere.
The jar was gray and bare.
It did not give of bird or bush,
Like nothing else in Tennessee.

§

 

Infanta Marina

Seu terraço era a areia
E as palmeiras e o poente.

Fez dos meneios de sua mão
Gestos grandiosos
Do seu pensar.

O plissar das plumas
Desta criatura da noite
Veio a ser devaneio de velas
Sobre o mar.

E assim andava
Nas andanças de seu leque,

Partilhando do mar,
Partilhando da noite,
Enquanto fluíam em derredor,
E emitiam seu ruído derradeiro.

Infanta Marina

Her terrace was the sand
And the palms and the twilight.

She made of the motions of her wrist
The grandiose gestures
Of her thought.

The rumpling of the plumes
Of this creature of the evening
Came to be sleights of sails
Over the sea.

And thus she roamed
In the roamings of her fan,

Partaking of the sea,
And of the evening,
As they flowed around
And uttered their subsiding sound.

§

 

O Homem de Neve

É preciso uma mente de inverno
Para ver a geada e os galhos
Dos pinheiros cobertos de neve;

E ter-se há tempos no frio
Para olhar o cedro escarpado em gelo,
E abetos brutos no brilho distante

Do Sol de janeiro; e não pensar
Em toda a desgraça no ruído do vento,
No ruído de algumas folhas,

Que é o próprio ruído da terra
Cheia do mesmo vento,
Que sopra no mesmo ponto nu

Para o ouvinte, que ouve na neve,
E, ele nada, contempla
Nada que não está lá e o nada que está.

The Snow Man

One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
Of the pine-trees crusted with snow;

And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter

Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,

Which is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place

For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.

§

 

A Carga de Cana-de-Açúcar

O sulcar da jangada
É como água corrente;

Como água corrente
Pelos juncos de jade
Sob os arco-íris;

Sob os arco-íris
Que são como aves,
Revoando, ataviadas,

Sempre que silvam sopros,
Como as saracuras,

Quando se alçam
Ao turbante vermelho
Do barqueiro.

The Load Of Sugar-Cane

The going of the glade-boat
Is like water flowing;

Like water flowing
Through the green saw-grass
Under the rainbows;

Under the rainbows
That are like birds,
Turning, bedizened,

While the wind still whistles
As kildeer do,

When they rise
At the red turban
Of the boatman.

§

 

Hibisco nas praias soníferas

Te digo, Hernando, que naquele dia
A mente flanava como as falenas
Por entre as flores além da areia aberta;

Que qualquer ruído que uma onda fazia
Sobre as algas e nas cobertas penhas
Não perturbava nem o mais vão ouvido.

E eis que aquela infernal falena,
Há pouco recolhida contra o azul
E o corado púrpura do mar vadio,

Que cochilara pelas praias ósseas,
Alheia ao grulhar do mover das águas,
Soergueu-se aspersa perseguindo o rubro-flama

Com amarelo pólen – rubro tão rubro
Quanto o emblema sobre o velho café –
E por lá flanou toda a tarde estúpida.

Hibiscus on the Sleeping Shores

I say now, Fernando, that on that day
The mind roamed as a moth roams,
Among the blooms beyond the open sand;

And that whatever noise the motion of the waves
Made on the sea-weeds and the covered stones
Disturbed not even the most idle ear.

Then it was that that monstered moth
Which had lain folded against the blue
And the colored purple of the lazy sea,

And which had drowsed along the bony shores,
Shut to the blather that the water made,
Rose up besprent and sought the flaming red

Dabbled with yellow pollen – red as red
As the flag above the old cafe –
And roamed there all the stupid afternoon.

Padrão
tradução

‘Dom Baal’, de Edith Sitwell, por Alessandro Funari

edith-sitwell

Somente uma breve nota introdutória, um tanto para ‘legitimar’ as alterações da tradução, mas mais para apontar que o poema – e, em geral, a poeta – se baseia na construção constante de relações sonoras, humor meio non-sense e na métrica (nesse caso, a discrepância entre o assunto e a métrica clássica). E foi com esse enfoque que tentei traduzir: dentro do escopo semântico (a apetência do tinhoso), tentando manter as relações de sons, o ar jocoso e imitando o cantar dátilo que move os versos.

Alessandro Palermo Funari nasceu em Campinas (SP), mas reside na capital do estado. É formado em História (porém não historiador) e não é poeta (mas traduz poesia).

* * *

 

When
Sir
Beelzebub called for his syllabub in the hotel in Hell
…….Where Proserpine first fell,
Blue as the gendarmerie were the waves of the sea,
…….(Rocking and shocking the barmaid).

Nobody comes to give him his rum but the
Rim of the sky hippopotamus-glum
Enhances the chances to bless with a benison
Alfred Lord Tennyson crossing the bar laid
With cold vegetation from pale deputations
Of temperance workers (all signed In Memoriam)
Hoping with glory to trip up the Laureate’s feet,
…….(Moving in classical metres) …

Like Balaclava, the lava came down from the
Roof, and the sea’s blue wooden gendarmerie
Took them in charge while Beelzebub roared for his rum.
…….… None of them come!

Quan
do
Baal foi pedir seu mingau no quintal do hotel
…………No Fel, da queda primal de
Prosérpina, azuis qual gendarmes as ondas do mar,
…………(Zoando e chocando a barista).

Não vem nenhum pra servir o seu rum mas as
Raias do céu têm negrume do anum
Acirra-se a sina a benzer com sua bênção a
Alfred Lord Tennyson, como um barrista,
Com frias carquejas de claros cortejos
De obreiros serenos (firmando In Memoriam)
Crendo com glória que topem nos Láureos pés,
…………(Canto com clássicos metros)…

Qual Balaclava, a lava desceu lá do
Céu, e os cerúleos gendarmes marítimos
Os acolheram ouvindo Baal, que berrou por seu rum.
…………… Não vem nenhum!

 

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