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XANTO | Jogo perigoso: aumentar as ideias no coração dos alegres, por Ana Luiza Rigueto

“Qual é o perigo?”, foi a pergunta dirigida a Adília Lopes durante uma entrevista em 2005, em referência ao título de seu primeiro livro, “Um jogo bastante perigoso”, publicado em Portugal vinte anos antes (com primeira edição no Brasil pela Editora Moinhos, 2018). Adília responde que “viver é perigoso”. O jornalista Carlos Vaz Marques insiste, “e a poesia?”. Então ela assente, pois “custou a cabeça de muita gente”.

Adília Lopes já mencionou que é “gasosa” a sua parte poeta, a persona que escreve. Algo volátil, expansiva, alegre. Não o alegre do “Sorriso Maravilhado Parvo”, como escreve Gonçalo M. Tavares no poema Sobre a alegria, em seu “O livro da dança”, mas o alegre alegre, cujo “coração bate no meio do jogo, aumenta as/ Ideias dos alegres, as ideias dos alegres são o coração.”

Em “Use um alicate agora”, livro de estreia da poeta santista Natasha Felix, publicado em 2018 pelas Edições Macondo, há um poema intitulado “Um jogo perigoso”. No poema, lídia opera o gesto de espremer espinhas/degolar cabeças, “é rainha de copas”.

UM JOGO PERIGOGO
Natasha Felix (íntegra)

1.
lídia espreme espinhas no elevador
é rainha de copas degola cabeças
inclina 45 graus à esquerda isso facilita
aproxima o corpo violenta o corpo isso facilita

2.
j. olha para lídia como não olha para mim
lídia olha para j. como olha o gato empalado na
avenida. j. pensa lídia até que bonita.
esforçadamente bonita. lídia deixa de olhar
j. e passa a olhar os calos das próprias mãos.
eu olho j. como j. não olha lídia. não posso
olhar lídia como olho j. jamais. olho j. como
crescem os calos como morrem os gatos
como os pés se perdem no chão.

3.
não há maneiras de j. existir além da pele

Em “As aventuras de Alice no país das Maravilhas”, de Lewis Carroll, publicado em 1865, no Reino Unido, o capítulo O campo de croqué da Rainha começa assim: “Uma grande roseira branca crescia junto à entrada do jardim; suas flores eram brancas, mas três jardineiros estavam à sua volta, pintando-a de vermelho.” É que as rosas brancas foram plantadas por engano, e se a Rainha descobrisse, eles teriam as cabeças cortadas. A Rainha chega e Alice é convidada, então, para o jogo de croqué. Recebe um flamingo, que usará de bastão para acertas as bolas, que são ostras. Logo o jogo lhe parece muito difícil, pois tudo nele é vivo e ninguém respeita as regras. Além disso, de minuto em minuto, a Rainha ordena “cortem a cabeça dele!”, ou “cortem a cabeça dela!”

É engraçado pensar que o poema de Natasha Felix se refira simultaneamente a “Um jogo bastante perigoso” e a “Alice no país das maravilhas”. Como quem, vendo a maravilha no perigo do jogo, assume o risco – deixar a lâmina conhecer a pele implica no corte.

“Jogo” pode querer dizer uma atividade de divertimento, uma prática esportiva, um conjunto de peças e instrumentos ou mesmo uma aposta. Pelo conjunto de ações, tempos e afetos envolvidos nessas práticas é que talvez os sentidos de “jogar” sejam comumente aproximados ao de “relacionar-se” com alguém.

No poema de Natasha, lídia “inclina 45 graus à esquerda isso facilita/ aproxima o corpo violenta o corpo isso facilita”. Como rainha de copas ela está de algum modo acima das regras, detém o poder da execução. A ação imposta ao corpo e a ênfase no método remetem ao jogo de poder, dominação e violência a que são submetidas as mulheres e seus corpos – dados do dossiê do Instituto Patrícia Galvão, organização feminista de comunicação, indicam que uma mulher é vítima de estupro a cada 9 minutos. No poema, a violação da pele na degola da espinha desdobra, pela linguagem, o que pode afetar um corpo de mulher.

Na segunda parte do poema, j. é um homem mas também a letra que abrevia a palavra “jogo”. lídia deixa de olhar j. para olhar calos em suas mãos. A trivialidade de lídia transitando entre violência e tédio torna-se um procedimento banal. j. chega a lembrar-lhe um gato na avenida atravessado por uma estaca de aço. É com indiferença que, dessa imagem, lídia se volta pros seus calos – formados nas mãos pela mecânica violenta do atrito.

Para j., “lídia até que bonita./ esforçadamente bonita”. Ainda que lídia o encare (ou o deixe de encarar) com violenta indiferença, ele a fita com espécie de “simulacro de prazer”, como escreve Adília em outro poema de seu “Um jogo bastante perigoso”. Como se j. (o homem ou o jogo) fosse esvaziado de ideias, coração sem batimentos ou alegria real, um homem parvo.

Há um terceiro elemento neste poema, o “eu” que toma parte da cena – jogo de olhar e não ser olhado, ou não ser correspondido. Esse eu olha j. “como/ crescem os calos como morrem os gatos/ como os pés se perdem no chão.” Ou seja, olha para ele com a mesma violência com que são feitos os calos, empalados os gatos e derrubado o corpo que por um momento perde o chão. Sem corresponder o olhar que j. lhe dirige, lídia recusa o movimento erótico: j. fixa nela, objeto a ser consumido, seu narcisismo. Evidencia-se, então, a ausência do desejo. Na terceira parte do poema, com o verso “não há maneiras de j. existir além da pele”, j. sustenta uma satisfação sem mediação ou interlocução, voltada a si mesmo, nos limites de si, sobre a própria pele.

Voltemos ao livro de Adília, para o poema chamado A rosa com bolores. Nele, Adília fala de um ramo de rosas, natureza morta, que tem sempre perto de si. Em momentos raros, acontece de um bolor pousar nas pétalas das rosas. O gesto parece evocar a questão de eros – ou a agonia de eros, como descreve o filósofo alemão nascido na Coréia do Sul, Byung-Chul Han, no livro “Agonia do Eros”, publicado pela Editora Vozes em 2017. O que aparentemente seria o início de uma paixão converte-se em desaparecimento do outro.

AS ROSAS COM BOLORES
Adília Lopes (trecho)

é muito raro
mas eu gosto de coisas preciosas
e sou paciente
deixo de dormir
para observar o crescimento
desigual e lento do bolor
a pouco e pouco o bolor
vai cobrindo a pele da rosa
ou antes
alimentando-se da pele da rosa
adquire o feitio da rosa
não está por baixo do bolor
desapareceu
é preciso estar sempre atenta
porque no instante em que
o bolor não pode alastrar mais
a não ser alastrando-se sobre
si próprio
e alimentando-se de si próprio
ou seja suicidando-se
naquele acto de infinito amor
por si próprio
que é afinal todo o suicídio

Não se trata de uma relação com a radical singularidade do outro. Mas uma busca de satisfação narcisista que se esgota pelo desdobramento a partir de si, para si. O excesso de proximidade que culmina no desaparecimento da pele da rosa, prevalecendo a “pele” do bolor, essa eliminação absoluta da distância entre um “eu” e um “outro”, também está presente no poema de Natasha Felix: a existência de j. só é possível pela pele – a sua própria. Para Byun Chul Han, “não se pode amar o outro a quem se privou de sua alteridade; só se poderá consumi-lo.”

Depois de observar a rosa ser consumida pelo bolor e beijá-la a boca antes que desaparecesse para sempre, Adília encerra o poema como quem assistiu a tediosa reprise de um programa na TV, avisando que vai dormir: “porque estou muito cansada/ as rosas com bolores cansam-se”.

Adília e Natasha parecem tomar parte da mesma circunstância – aquilo que seria uma crise de eros – mas de modo distinto. Adília detecta e assiste aos jogos com certo enfado, e oscila entre encanto e renúncia momentânea. Natasha participa dos jogos, entra na cena e através da experiência supõe sua lógica. Há, em ambas as poetas – poetisas, como prefere Adília – uma erótica que se performa através da linguagem, seja pela afirmação do corpo adentrando a cena seja por alusão de sentido às relações travadas.

Parecem convocar a pensar o lugar do corpo entre coisas e em que medida é preciso proteger-se, um pouco reverberando os versos do “Poema sujo”, de Gullar, em que ele diz: “-Que faço entre coisas?/De que me defendo?”. Adília e Natasha não ditam a melhor maneira de “jogar”. Tampouco parece uma opção evitar os riscos que esse movimento implica. Ser “gasosa” e arriscar a própria pele seriam, necessariamente, topar com o outro e, nisso, aumentar os batimentos e as ideias no meio do coração dos alegres. Eis um perigo.

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poesia

Ana Luiza Rigueto (1991—)

Ana Luiza Rigueto nasceu em Mimoso do Sul, ES, em 1991 e vive no Rio de Janeiro. Formada em Jornalismo pela UFRJ, estudou Literatura Brasileira na pós-graduação da UERJ. Teve poemas publicados na antologiaTertúlia (Ágrafa, 2018), na Subversa e na Ruído Manifesto. Realizou o videopoema “não me fale do fim” (2017), disponível no YouTube, e edita com amigos a Revista Transversal. Os poemas aqui postados estarão em seu primeiro livro, Entrega em domicílio, que sairá pela Editora Urutau este ano.

* * *

namorinho de portão

quando o tendão do pescoço
estica
e o queixo se ergue
junto
dos olhos eu gosto
desse frisson
que causo
em certos rapazes
na rua
quando passo
ou nas moças
que beijo
em casa ou sentadinha no banco
da praça

§

mímica no aterro do flamengo

no aterro o ônibus leva
a noite enquanto a pele sua o
verão todo mundo tarda
na rua querendo voltar
até nós
que fingíamos querer
agora parecíamos de fato
porque fazia verão, imprevisto
e cansaço

os passageiros
o motorista
suspensos pelo vapor do asfalto
silenciavam cafés sem açúcar
sabão sem espuma sal
não iodado a essa altura
não sabiam se era bom
você encostar os cabelos
presos
no magro do meu braço
se era justo esse sol
úmido
nos seus olhos não supunham
o sal umedecendo fronhas
embaraçando ralos,

então já cansada de tanto
segurar o movimento dos
raios batendo nas primeiras
folhas quando se levantam crianças
sem o medo do escuro ou gente
que já não pode dormir
por pensar em alguém com saudade
você
deixou que caísse a cabeça,

então já cansada de pensar
em como conter a franja
das samambaias o frizz das ondas você
deixou que caíssem os passageiros
estatelados no aço
porque era tarde e tarde o céu
descansa os bichos e tudo
são almofadas,

então já cansada
do ócio quente da noite que não se alegra
e conspira e sua e espera a hora da cama
você descasca o sono como paredes de
cálcio e deita cabelos no meu braço
anunciando
o início das férias
o aumento dos salários
o fim do desemprego
o preço justo do transporte
comunitário,

então
já cansada deixa cair
cabeça passageiros casca
preenche a distância pra dizer
o amor é isso e também
passa

§

verão (haikai II)

pensar em sorvete
de baunilha é tipo querer
derreter Larissa

§

sol nas praças

era difícil
uma época
as prateleiras do supermercado cheias lá
em casa escuro
fazia sol na praça fazia água o
chafariz em chamas eu
debaixo da cama

pedindo luz, mãe
um pouco de luz eu não peço tanto

um feixe me basta
um feixe e um botão
um feixe e bastões elétricos
pr’eu poder apertar
levar um choque pequeno
não chorar
apertar de novo e

agora eu choro um pouco porque
dói
mas eu não ligo porque
o gosto que esse feixe dourado deixa
nas unhas parece açúcar
tostado

eu gosto de caramelo, mãe
e tenho mania de olhos abertos
desde o primeiro foi assim

eu vendo tudo e mesmo assim
eu continuo a acreditar nas chamas
do chafariz das praças
sob o sol os cabelos são mais
bonitos eu gosto da projeção
dos nervos embaixo da cama

aos 7 anos eu não sabia se era mais
justo riscar suas paredes a lápis colorido
(me lembro, Gustavo, do seu cabelo
tigela e sua pele bronzeada)
ou ver a cor de sua pele
embaixo da blusa passada
por lanternas no escuro
embaixo da cama

§

um pula-pula com você

só sei que
aluguei esse pula-pula
pra nós duas
de uma feita foi
isso librianos gostam
de agradar o crush

então você me disse eu gosto
de pula-pula
vi aí uma chance
te chamar pra pular
comigo

nós duas sem fazer
registro
ninguém precisa saber
pulamos muito e rimos
sem gerar conteúdo caindo
sempre como se fosse a
última
rodada o último choque
sabendo que
não é amor

culpa da cartomante antecipando tudo
não é
mas a gente gosta
do artifício protelar a hora do
corpo matar uma garrafa de vinho
coisas assadas no forno
de noite dividir cama
fazer carinho a gente gosta do vício
muito bonita eu só quero olhar você muito

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