Harlem Renaissance por André Caramuru Aubert, pt. IV

Billie Holiday
Billie Holiday

FENTON JOHNSON

Fenton Johnson (1888-1958), nascido em Chicago, era, além de poeta, educador, contista e editor, e foi um dos pioneiros e grandes inspiradores do Harlem Renaissance, embora sua poesia, talvez pelo tom irônico presente em boa parte dela, não costume ser relacionada hoje entre as principais do movimento.

The banjo player

There is music in me, the music of a peasant people.

I wander through the levee, picking my banjo and singing my songs of the cabin and the field. At the Last Chance Saloon I am welcome as the violets in March; there is always food and drink for me there, and the dimes of those who love honest music. Behind the railroad tracks the little children clap their hands and love as they love Kris Kringle.

But I fear that I am a failure. Last night a woman called me a troubadour.

What is a troubadour?

O tocador de banjo

Há em mim música, a música da gente do campo.

Eu vagueio pelo molhe, levando meu banjo e cantando minhas canções da cabana e do campo. No Last Chance Saloon sou recebido como as violetas de março; sempre tem comida e bebida para mim lá, e as moedas dos que amam música honesta. Atrás dos trilhos do trem as criancinhas batem as mãos e amam do jeito que elas amam Papai Noel.

Mas tenho medo de ser um fracassado. Noite passada uma mulher me chamou de trovador.

O que é um trovador?

§

GEORGIA DOUGLAS JOHNSON

Georgia Blanche Douglas Camp Johnson (1880-1966), foi poeta e dramaturga. Ela Nasceu em Atlanta, na Geórgia, e fez parte do Harlem Renaissance mais ou menos à distância, pois como seu marido (que estava longe de incentivar sua poesia) fosse um funcionário federal em Washington, era nessa cidade que ela residia. Georgia passou a se dedicar mais à escrita apenas após a morte dele, em 1925. Mesmo assim, com dois filhos para criar, ela pouco viajava, o que não impediu que sua casa se tornasse uma espécie de filial do movimento em Washington, ponto de encontro dos artistas quando viajavam à capital federal.

Black Woman

Don’t knock at my door, little child,
I cannot let you in,
You know not what a world this is
Of cruelty and sin.
Wait in the still eternity
Until I come to you,
The world is cruel, cruel, child,
I cannot let you in!

Don’t knock at my heart, little one,
I cannot bear the pain
Of turning deaf-ear to your call
Time and time again!
You do not know the monster men
Inhabiting the earth,
Be still, be still, my precious child,
I must not give you birth!

Mulher negra

Não bata na minha porta, criança,
       Eu não posso deixá-la entrar,
Você não sabe nada do que é o mundo
       Da crueldade e do pecado.
Aguarde na imóvel eternidade
       Até que eu vá até você,
O mundo é cruel, cruel, criança,
       Eu não posso deixá-la entrar!

Não bata no meu coração, pequena,
       Eu não posso suportar a dor
De me fazer de surda aos seus chamados
       Uma vez, e outra e outra!
Você não conhece os homens monstruosos
       Que habitam a Terra,
Fique quieta, fique quieta, minha criança preciosa,
       Eu não devo lhe dar à luz!

§

 

HELENE JOHNSON

Helene Johnson (1906-1995), nascida em Boston, estudou na Universidade Columbia e foi uma das poetas de maior destaque do movimento, nas décadas de 20 e 30, ganhando prêmios e resenhas elogiosas, inclusive de revistas do mainstream, como a Vanity Fair. Depois que se casou, porém, em 1937, ela parou de publicar, passando a escrever (um poema por dia, até a morte) apenas para si mesma.

My Race

Ah my race,
Hungry race,
Throbbing and young—
Ah, my race,
Wonder race,
Sobbing with song—
Ah, my race,
Laughing race,
Careless in mirth—
Ah, my veiled
Unformed race,
Fumbling in birth.

Minha Raça

Ah, minha raça,
Faminta raça,
Maltratada e jovem –
Ah, minha raça,
Admirável raça
Soluçante com música –
Ah, minha raça.
Gargalhante raça,
Em jovialidade descuidada –
Ah, minha dissimulada
Amorfa raça,
Desajeitada por nascença.

Harlem Renaissance por André Caramuru Aubert, pt. IΙ

"Nightlife", por Archibald John Motley Jr.
“Nightlife”, por Archibald John Motley Jr.

JAMES WELDON JOHNSON

James Weldon Johnson (1871-1938), logrou o paradoxo de, sendo ateu, produzir uma poesia extremamente carregada da religiosidade (e da musicalidade) dos negros do sul. Ele foi também um pioneiro no rompimento de barreiras do universo branco: foi cônsul, nomeado por Theodore Roosevelt, na Venezuela e na Nicarágua, e o primeiro negro a ser aceito como professor na Universidade de Nova York.

The color sergeant
(On an incident at the Battle of San Juan Hill)

Under a burning tropic sun,
With comrades around him lying,
A trooper of the sable Tenth
Lay wounded, bleeding, dying.

First in the charge up the fort-crowned hill,
His company’s guidon bearing,
He had rushed where the leaden hail fell fast,
Not death nor danger fearing.

He fell in the front where the fight grew fierce,
Still faithful in life’s last labor;
Black though his skin, yet his heart as true
As the steel of his blood-stained saber.

And while the battle around him rolled,
Like the roar of a sullen breaker,
He closed his eyes on the bloody scene,
And presented arms to his Maker.

There he lay, without honor or rank,
But, still, in a grim-like beauty;
Despised of men for his humble race,
Yet true, in death, to his duty.

 O sargento de cor
(Sobre um fato ocorrido na Batalha da Colina de San Juan)

Sob um fervente sol tropical,
Com camaradas caindo em volta dele,
Um soldado do Décimo dos Búfalos
Jaz ferido, sangrando, morrendo.

Primeiro na carga contra o forte da colina,
A bandeira de sua companhia levando,
Ele avançou para onde a metralha caía rápida,
Sem a morte nem o perigo temendo.

Ele caiu no front onde a luta foi mais feroz,
Sempre confiante no serviço derradeiro;
Negro em sua pele, e em seu coração tão verdadeiro
quanto o aço de seu sabre, de sangue manchado.

E enquanto a batalha em volta dele prosseguia,
Como o rugido de quem rompe com o mau humor,
Ele fechou seus olhos diante da sangrenta cena,
E apresentou armas ao seu Criador.

Ali ele jaz, sem honras ou patente,
Mas, ainda assim, em uma inflexível beleza do ser:
Desprezado pelos homens por sua humilde raça,
Mas dedicado, na morte, ao seu dever.

§

ANNE SPENCER

A poesia da sulista Anne Spencer (1882-1975), mostra, com frequência, uma forte marca feminista, mas que está longe de ser simplista ou panfletária. Considerada como um dos maiores talentos da Harlem Renaissance, ela foi também uma agregadora, e sua casa foi um dos principais pontos de encontro dos membros do movimento.

Lady, Lady

Lady, Lady, I saw your face,
Dark as night withholding a star…
The chisel fell, or it might have been
You had borne so long the yoke of men.

Lady, Lady, I saw your hands,
Twisted, awry, like crumpled roots,
Bleached poor white in a sudsy tub,
Wrinkled and drawn from your rub-a-dub.

Lady, Lady, I saw your heart,
And altared there in its darksome place
Were the tongues of flame the ancient knew,
Where the good God sits to spangle through.

Mulher, Mulher

Mulher, mulher, eu vi o seu rosto,
Negro como noite escondendo uma estrela…
Caiu o cinzel, ou poderia ter caído
Você carregou por tanto tempo a canga dos homens.

Mulher, mulher, eu vi as suas mãos,
Deformadas, tortas, como uma explosão de raízes,
O pobre branco lavado num tanque ensaboado,
Enrugado e arrancado da sua canção de ninar.

Mulher, mulher, eu vi o seu coração,
E o pus naquele lugar escuro do altar
Eram as línguas de fogo que os antigos sabiam,
Onde o bom Deus se senta para espalhar centelhas.

§

CLAUDE McKAY

O jamaicano radicado em Nova York Claude McKay (1889-1948) foi um dos principais inspiradores do Harlem Renaissance e um dos poetas mais claramente identificados com a questão racial e a ancestralidade africana.

The tropics in New York

Bananas ripe and green, and ginger-root,
Cocoa in pods and alligator pears,
And tangerines and mangoes and grape fruit,
Fit for the highest prize at parish fairs,

Set in window, bringing memories
Of fruit-trees laden by low-singing rills,
And dewy dawns, and mystical blue skies
In benediction over the nun-like hills.

My eyes grew dim, and I could no more gaze;
A wave of longing through my body swept,
And, hungry for the old, familiar ways,
I turned aside and bowed my head and wept.

Os trópicos em Nova York

Bananas suculentas e verdes, e gengibre,
Cacau em cachos e abacates,
E tangerinas e mangas e toranjas,
Feitos para pegar preço alto nas feiras paroquiais,

Apoiado na janela, buscando lembranças
De árvores frutíferas trazidas por riachos serenos,
E manhãs brilhantes, e místicos céus azuis
Abençoando as colinas que pareciam freiras.

Meus olhos se turvaram, e eu não pude mais olhar;
Uma onda de saudade varreu meu corpo,
E, faminto por caminhos antigos, familiares,
Eu me voltei para o lado, abaixei minha cabeça e chorei.

Harlem Renaissance por André Caramuru Aubert, pt. I

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Uma introdução

A poesia norte-americana do século XX tem quatro “movimentos”, ou “escolas” mais importantes, ou, ao menos, mais conhecidas: a Beat, a New York School, a San Francisco Renaissance e a Black Mountain. Mas, ainda que hoje menos lembrado, um outro movimento, o Harlem Renaissance, desempenhou um papel gigantesca na evolução da cena cultural dos Estados Unidos, pois foi o primeiro esforço estético, sólido e consciente, conduzido por poetas, ensaístas, romancistas e artistas negros naquele país. Normalmente dividido pela crítica em três fases (1917-1923, 1924-1926 e 1926-1935), o movimento surgiu e se frutificou a partir de três fatores principais:

Em primeiro lugar, houve a Primeira Grande Guerra. Muitos dos soldados enviados à Europa eram negros, e eles não só mataram e morreram pelo país como tiveram contato com europeus; em muitos casos, gente, na época, com mente mais arejada do que os americanos. Na volta para casa, era natural que eles exigissem um papel de maior protagonismo em todos os campos, incluindo a cultura.

Em segundo lugar, houve o fator demográfico. Há décadas as populações negras abandonavam o sul racista, subindo o Mississippi em direção a Chicago e, dali, em parte, para Nova York. Esse grande movimento migratório, como nos mostra o Harlem Renaissance, geraria mais do que “apenas” o blues, o jazz e o rock and roll…

Finalmente, eram anos de modernismo. E o modernismo, em não poucas de suas vertentes estéticas (penso logo de cara em Picasso, em Matisse, em Mário de Andrade), era sedento por enriquecer e arejar a estética ocidental com elementos exóticos. Poesia chinesa, tradições indígenas, cânticos hindus, lendas árabes, arte africana, causos sertanejos… O cânone europeu perdia sua hegemonia na pintura, na música e na literatura. Assim, no momento em que artistas negros, em Nova York, pretendiam que sua voz fosse ouvida, havia gente disposta a ouvir. E, mais importante, entusiasmada por poder publicar, divulgar e, claro, incorporar tudo o que achasse interessante naquelas novidades todas.

É claro que, passados oitenta anos desde o fim do movimento, nossa visão sobre o que se produziu naquele espaço físico e temporal não é a mesma. Alguns dos poemas que mais fizeram sucesso na época, por mais explicitamente defenderem, política e ideologicamente, a causa negra, acabaram não resistindo bem ao tempo. Mas muitas das coisas que ali se produziram, por outro lado, reverberaram não apenas na época como resistiram excepcionalmente bem aos anos e seguiram, sólidas, ocupando um espaço fundamental na cena poética norte-americana.

Reuni, para esta pequena introdução à Harlem Renaissance, um ou dois poemas de alguns dos principais nomes do movimento: Gwendolyn Bennett, Joseph S. Cotter, Waring Cuney, Countee Cullen, Langston Hughes, Fenton Johnson, Georgia Douglas Johnson, Helene Johnson, James Weldon Johnson, Claude McKay e Anne Spencer.

André Caramuru Aubert

* * *

COUNTEE CULLEN

Countee Cullen (1903-1946) foi um dos poetas do Harlem Renaissance que obtiveram mais repercussão fora do movimento, provavelmente porque sua temática, que não se furtava a abordar aspectos às vezes quase folclóricos, evocava, de certa forma, o que as pessoas em geral esperavam de um poeta negro. Não obstante, sua poesia é forte e marcante, e o julgamento cruel da passagem do tempo o manteve como um dos principais poetas do movimento.

For a lady I know

She even thinks that up in heaven
       Her class lies late and snores,

While poor black cherubs rise at seven
.       To do celestial chores

Para uma dama que eu conheço

Ela até mesmo pensa que lá em cima no céu
       Pessoas como ela dormem até tarde e roncam

Enquanto pobres querubins negros se levantam às sete
       Para dar conta das tarefas celestiais.

Incident
for Eric Walrond

Once riding in old Baltimore,
       Heart-filled, head-filled with glee,
I saw a Baltimorean
       Keep looking straight at me.

Now I was eight and very small,
       And he was no whit bigger,
And so I smiled, but he poked out
       His tongue, and called me, “Nigger.”

I saw the whole of Baltimore
       From May until December;
Of all the things that happened there
       That’s all that I remember.

Incidente
para Eric Walrond

Certa vez, vagando pela velha Baltimore,
       O coração repleto, a cabeça repleta, de alegria,
Eu vi um baltimoreano
       Olhando diretamente para mim.

Eu tinha oito anos e era bem pequeno,
       E ele não era nem um pouco maior
E então eu sorri, mas ele tirou a língua para
       Fora, e me chamou de “Crioulo.”

Eu conheci Baltimore inteira
       De maio até dezembro.
De tudo o que aconteceu lá
       Isso é tudo de que eu me lembro.

§

LANGSTON HUGHES

James Mercer Langston Hughes (1902-1967), de poesia inventiva e lírica, é hoje, provavelmente, o nome mais conhecido do Harlem Renaissance. Nascido no Missouri, foi militante comunista e também ensaísta, romancista e dramaturgo.

The Negro speaks of rivers

I’ve known rivers:
       I’ve known rivers ancient as the world and older than the flow of human blood in human veins.

My soul has grown deep like the rivers.

I bathed in the Euphrates when dawns were young.
I built my hut near the Congo and it lulled me to sleep.
I looked upon the Nile and raised the pyramids above it.
I heard the singing of the Mississippi when Abe Lincoln went down to New Orleans, and I’ve seen its muddy bosom turn all golden in the sunset.

I’ve know rivers:
       Ancient, dusky rivers.

My soul has grown deep like rivers.

O Negro fala de rios

Eu conheci rios:
       Eu conheci rios tão antigos quanto o mundo e mais velhos que o sangue que corre nas veias humanas.

Minha alma se tornou profunda como os rios.

Eu me banhei no Eufrates quando as auroras eram jovens.
Eu ergui minha cabana perto do Congo e ela embalou meu sono.
Eu observei o Nilo e ergui as pirâmides acima dele.
Eu ouvi as canções do Mississippi quando Abe Lincoln foi até New Orleans, e eu vi o seu âmago barrento ficar dourado ao pôr do sol.

Eu conheci rios:
       Antigos, escuros rios.

Minha alma se tornou profunda como rios.

Elevator Boy

I got a job now
Runnin’ an elevator
In the Dennison Hotel in Jersey,
Job aint no good though.
No money around.
       Jobs are just chances
       Like everything else.
       Maybe a little luck now,
       Maybe not.
       Maybe a good job sometimes:
       Step out o’ the barrel, boy.
Two new suits an’
A woman to sleep with.
       Maybe no luck for a long time.
       Only the elevators
       Goin’ up an’ down,

       Up an’ down,
       Or somebody else’s shoes
       To shine,
       Or greasy pots in a dirty kitchen.
I been runnin’ this
Elevator too long.
Guess I’ll quit now.

Ascensorista

Eu consegui um emprego
Conduzo um elevador
No Hotel Dennison em Jersey
Mas o trabalho não é muito bom.
Não rola grana.
       Empregos são apenas chances
       Como todo o resto.
       De repente você tem sorte
       De repente não.
       De repente um bom emprego às vezes:
       Saia fora do caminho, garoto.
Dois novos paletós e
uma mulher com quem dormir.
       De repente sem sorte por muito tempo.
       Só os elevadores
       Indo pra cima, indo pra baixo,

       Pra cima e pra baixo,
       Ou os sapatos de alguém
       Para engraxar,
       Ou panelas gordurentas numa cozinha suja.
Eu tenho conduzido este
Elevador por muito tempo.
Acho que agora eu vou me mandar.

“reflexões a respeito da função da arte e do problema da extinção”, de andré caramuru aubert

André CAramuru

André Caramuru Aubert nasceu em São Paulo no longínquo ano de 1961. É historiador, editor e escritor. Já colaborou com publicações como O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil. Atualmente é colunista da revista Trip e colaborador do jornal Rascunho, para o qual mensalmente seleciona e traduz, entre seus preferidos, algum poeta estrangeiro. Publicou os romances A Vida nas MontanhasA Cultura dos Sambaquis e Cemitérios. Seu primeiro volume de poemas, Outubro/Dezembro, será publicado em junho pela Patuá.

* * *

reflexões a respeito da função da arte e do problema da extinção

olho para o horizonte e não foco em nada. o meu, agora, é um olhar vago. vago e perdido.

memórias de diferentes tempos, com diferentes cores. algumas são como um musguinho numa pedra; outras, como um horizonte infinito e ensolarado numa fazenda no município paulista de porto feliz, às margens do tietê. a vista embaça, meu pensamento viaja.

então mudo de assunto. cabe fazer da poesia um instrumento para a política? como ocorreu em tantas épocas e, para mim, nos meus anos de formação, quando o brasil e países vizinhos viviam as ditaduras? com emoção, cantavam: eu tenho tantos irmãos que não os posso contar, e uma irmã tão formosa que se chama liberdade. com comoção, declamavam: se o faraó construiu a pirâmide, ele fez isso sozinho?  se o imperador da china ergueu a grande muralha, foi com as próprias mãos? davam-se as mãos, para não dizer que não falavam de flores.

nabokov indagou se o artista deveria se render às questões políticas do momento, ou se faria melhor permanecendo puro, devotado à arte, em sua torre de marfim.

(mas o mesmo nabokov, que não se rendeu às questões políticas do momento, apesar de ter todos os motivos para fazê-lo, ponderou se foi ele, o poeta, quem matou, com as próprias mãos, os elefantes que forneceram o marfim para a torre)

enquanto isso: william carlos williams escrevia sobre uma mulher, de vestido rosa, embalando uma criança em frente a um banco.

(diante de meus olhos este poema de wcw aparece mais como uma tela, ao estilo de edward hopper, do que como texto, o que é uma evidente invenção da minha mente)

enquanto isso: kenneth rexroth traduzia um poema de ouyang xiu, no qual o poeta chinês lamentava que, na primavera, as noites fossem curtas, e constatava que a lamparina ardia, com luz fraca, enquanto insetos voadores a circulavam.

(nem kenneth rexroth e nem ouyang xi, este mil anos antes, se preocupavam com quem construiu a grande muralha. a muralha é tão grandiloquente. ouyang xi é tão conciso)

e antes: manuel bandeira avisava que as pessoas de um outro tempo, o verdadeiro tempo, estavam dormindo. profundamente. assim como manuel bandeira está dormindo agora.

na fazenda do meu avô chegava-se à sede através de uma longa alameda de flamboyants, das quais eu me lembro sempre floridas, vermelhas, como se florissem o ano inteiro, o que é uma evidente invenção da minha mente.

ah, a saudade!

enquanto isso: o livro, fechado, em cima da mesa. um copo de cerveja, já pela metade, ao lado. o copo transpira e molha um pouco a mesa. olho para o horizonte, sem focar em nada, e penso no passado, em pessoas, objetos e lugares extintos. tenho vontade de chorar.

então eu penso: o problema da arte explicitamente politizada é que ela corre sério risco de envelhecer tão logo as coisas mudem, e as coisas sempre mudam. as coisas não param de mudar.

ah, o tempo!

tenho vontade de chorar. besteira, digo para mim mesmo: enxugue as lágrimas, siga em frente. besteira, digo para mim mesmo: o que conta é o presente. tem tanta coisa boa no presente.

eu não matei elefante algum, a minha torre não é de marfim. para ser exato: nem torre é. o que eu poderia pretender fazer com minhas próprias mãos?

a mulher de vestido rosa em frente ao banco: há muito tempo extinta. a lamparina de oyang xiu, a luz fraca que ela emanava e os insetos que a rodeavam: há muito tempo extintos.

enquanto isso: eu, a caminho da extinção.

e agora: a alameda de flamboyants fica reverberando em minha mente. não tenho tantos irmãos. o que conta é o presente. eu queria poder cantar a saga dos camponeses em luta contra a opressão. em espanhol ou alemão.

e agora: os flamboyants que já não existem. o meu avô que dorme profundamente (extinto). olhar para o horizonte sem focar em nada. o livro fechado sobre a mesa. a água que transpira do copo de cerveja, molhando um pouco a mesa. enxugar a mesa antes que a água molhe o livro. enxugar as lágrimas.

e agora.

3 poemas inéditos de andré caramuru aubert (1961-)

André_Caramuru_Aubert

aquelas caminhadas sem fim

o melhor daquelas caminhadas sem fim e sem vontade de chegar a
……………………………………………………………………..[parte alguma
naqueles caminhos antigos em meio a montanhas antigas
por estradas antigas nas quais já se apagaram há muito os rastros
………………………………………………………………………………[antigos
e aqui e ali, espalhados, cavalos e vacas sem memória e
as pequenas e delicadas flores do cerrado, às vezes muito azuis,
………………………………………………[outras vezes muito amarelas e
em busca da transcendência que havia em cada passo, que deve
………………………………………………………………[haver em cada linha
em busca da transcendência que há na concisão, e que há também
……………………………………………………………………….[na explicação,
que há na métrica, e na quebra da métrica, no ritmo e na respiração
o melhor daquelas caminhadas tendo o céu azul como proteção e
o sol forte a castigar a pele mas pelo menos tínhamos óculos escuros
…………………………………………………………………………………………..[e
cães latindo ao longe e moscas e vespas e sabíamos que
em algum lugar teria que haver cerveja gelada
porque sabíamos que melhoraram muito os esquemas de
…………………………………………………[distribuição dos fabricantes e
sabíamos de alguma coisa mas da maior parte não sabíamos nada e
[nem sabemos ainda e víamos outras flores muito roxas, ou muito
…………………………………………………………………………..[vermelhas
em busca da transcendência dos caminhos entre as montanhas
como no poema de Liu Ch’ang Ch’ing, que diz:
“Pôr do sol. Picos azuis se desfazem no lusco-fusco /
Sob as estrelas do inverno.”

§

sonho

para o Nica, em memória

às vezes um amigo morre, nós vamos ao enterro, nós
lamentamos                          nós choramos
(porque isso é uma merda indescritível), e
depois prosseguimos
com a vida, com as coisas, porque isso é natural e inevitável. E
numa noite dessas eu sonhei com um amigo que morreu e
no sonho ele estava vivo, quer dizer, ele não tinha morrido,
ele tinha passado anos em coma, e depois acordou
ele estava cabeludo, mas era bem ele, mas
estava difícil de conversar porque
havia outras pessoas na sala, e tanto tempo tinha
se passado, tanta coisa acontecido, e
ele não conheceu nossos filhos (por exemplo), e
aí eu acordei, e por segundos eu acreditei que ele estava vivo, mas
não, não                 enquanto eu me virava para fora da cama e
………………….[procurava pelos chinelos no chão do quarto ainda
na penumbra eu me dei conta, porque
tanto tempo se passou, tanta coisa aconteceu.

§

gesso

em memória de minha tia Stellinha

o gesso cobria toda a perna (esquerda?) dela
quebrada quando Tupã, o cavalo, que tinha fama de arisco, a
…………………………………………………………………….[derrubou
as amigas iam até lá em casa e falavam e riam
e desenhavam e escreviam no gesso
deviam ser bobagens, coisas de menina, todas elas eram novinhas,
meninas de colégio de freiras do começo dos anos sessenta
mas para mim elas pareciam muito grandes e lindas
e eu só olhava, de pé, meio de perto, meio de longe, um pouco
…………………………………………………………………….[envergonhado
como eu ia saber que aquela seria a última lembrança que eu teria
…………………………………………………………………………………..[dela?

* * *

André Caramuru Aubert nasceu em São Paulo no longínquo ano de 1961. É historiador, editor e escritor. Já colaborou com publicações como O Estado de S. Paulo e Jornal do Brasil. Atualmente é colunista da revista Trip e colaborador do jornal Rascunho, para o qual mensalmente seleciona e traduz, entre seus preferidos, algum poeta estrangeiro. Publicou os romances A Vida nas Montanhas, A Cultura dos Sambaquis e Cemitérios. Há pouco tempo decidiu que já estava mais do que na hora de tirar seus poemas da gaveta e espalhá-los por aí.