poesia

um poema inédito de André Nogueira

Igrejinha Mariana

Fotografia de Caio dos Santos

André Nogueira é poeta, tradutor e ensaísta, nasceu em 1987 na cidade de Herdecke, Alemanha Ocidental. Registrado cidadão brasileiro no Consulado em Munique, vive atualmente na cidade de Campinas. Formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. É Autor de Pontualmente ao Encontro ou Pomos, um Adão Cada (Ed. Medita, 2011),  O Manifesto Lenitivo (Ed. Urutau, 2015), e O Presidente me quer morto (Ed. Urutau, 2019); já apareceu na escamandro com traduções de Marina Tsvetáieva e poesia autoral.

*

Notre Dame do Agreste
(ou “Não existe uma mãe que não sangre”)

1.

Aqui não existe milagre dos peixes.
Entre seixos e caveiras,
vestidinhos
de boneca.

Nos altares resplandece
da cidade a padroeira
— pelos séculos! —

Ornada a igrejinha
— pisca-pisca e bandeirola —
todo o povo se acerca
para ver…

“Nos cobri com vosso manto, minha Mãe”.
E, como os santos das abóbodas
caíssem sobre o coro,
a ninguém a tensa prece
mais consola.

Até que enfim no campanário o sino dobra!
O povo canta na quermesse
sob o choro
de violas.

Pelo manto tão fino de seda
azul-claro como as águas
de nascentes
cristalinas,

Pelo roto vestidinho da boneca
e pela lágrima que seca
da menina,

Por cada igrejinha de Minas,
Notre Dame do agreste,
esquecida de Deus e o resto
e do mundo,

Que num manto de poeira — ela se veste,
chora igual a carpideira
sobre a tumba,

Que num último repique — ela afunda,
badalando vai a pique,
volta a torre a se esconder
na catacumba,

De olhos fechados e guelras abertas,
o grito inaudível
abafado
de tristeza:

Da campana o afogado som de alerta
pelo pranto represado
e pelo nível
da represa.

2.

Que na pedra se edifica,
em prata rica
se enfeita, —
Igreja santa e prostituta!

Com o manto azul de seda,
com a cruz na mão esquerda
e a espada na direita —
ela exulta.

Museu a céu aberto e soterrada catacumba,
pedra de toque
e tropeço,

Que entregou pelo minério
o mistério de seus terços,
terça parte
dos altares que relumbra…

Todo mundo tem seu preço.

Adorada e maldita,
a carne apodrece
na tumba,

Mas de mármore ou granito
a escultura que habita
a solidão dos cemitérios, —
o sino de cobre e até os canhões
de chumbo, —

De marfim os seus archotes,
de prata seus ícones,
ricos minérios e até
suas pérolas líricas, —
alto quilate
de ouro mundano
que as obras de arte
lhe banha, —

Assim o templo do Senhor é para sempre,
imperecível como a rocha
e, ao redor, essas montanhas.

Imperecível, com certeza, uma pedra angular,
não fosse o nível
da represa
uma última vez
lhe banhar.

Mas se na Terra nem a terra
se mantém em seu lugar,
se derreteu a rocha eterna
e virou pedra
o coração,
portanto peca, peca mesmo e com paixão!
Entre pérolas peca, entre lama
e vestidinhos de boneca, —
o sangue derrama
e o corpo de Cristo
no chão.

Então mergulha no avesso
de teu fim e teu começo,
— Tu, do espírito a seara
e da carne a carcereira! —
nem o joio não separa
nem o ouro — na peneira.

Pois devora teus defuntos
junto com
teus sacramentos,
do maná celestial te satisfaz
e a sétima praga.
E goza o começo
do fim,
os archotes apaga.
Por eles o preço
é mais que marfim:

— Aqui se faz, aqui se paga.

3.

Mas, pobre igrejinha, — tão longe de Roma!
Com sacrários de vidro
e com Madonas
de madeira,

Barroco tosco das colônias,
de barro encardido
e poeira!

Não importa o quão alto badale,
o tremor das explosões
é mais forte!

A sombra da morte passeia no vale.
Pois, se a fé move montanhas,
o dinheiro —
as explode.

Igrejinha de Minas, tão rica e tão pobre.
Barroca e pudica,
de lírica sóbria.

De oratórios embriaga-se e de música,
o espírito a habita —
os cochichos e fofocas
de anciãs e senhoritas,
de crianças e viúvas
choramingo.

Cemitério que, tomado pelo musgo,
esverdeia sob a chuva,
onde a aranha fez a toca
num jazigo —

(Sudário da teia que envolve
o rosto de Cristo).

Não pode ser que também os seus mortos
a terra devolve,
também serão rotos
seus véus, pela última vez
serão vistos!

Pelo buraco da agulha,
na muralha a portinhola,
passará toda a montanha
que esmorece,
vindo ao chão mergulhará sua campana,
as bandeirolas
da quermesse.

Não pode ser que,
sob o olhar indiferente das nações,
a seus pés abra-se a fenda,
que sobre os seus santos
de pau, sobre os mantos
bordados de renda —
a latrina do mundo derrame!

Antes que cale o coral da capela
das sirenes a trombeta,
do quintal da cidadela
a todo o planeta
— pelos séculos dos séculos! —
bem alto se proclame:
— Existe a nossa
Notre Dame!

Aí está ela, cravada no agreste,
bendita, divina.
Que o mundo inteiro possa
ouvir o dobre
desse sino.
Com seu manto verde-azul ela nos cobre,
é do próprio Criador
a obra prima.

O lambari do pescador
e do poeta — sua rima.

4.

E o que você queria?
Por acaso, uma mãe de pedra fria,
a mão furada da escultura
e que segura a flor de quartzo?

Que, no sol queimando as costas,
no rosto gelado do filho
o regaço,

A mãe de pedra assim se prostra,
inerte e dura sob o véu,
ensimesmada nesse abraço.

Da sepultura o tampo gélido
entre o talhe do cinzel
e a ferida do flagelo,
entre o céu
e o cadafalso,

Enquanto a sirene ressoa,
nesse seu eterno gesto
como morto de cansaço,
com a mão nos abençoa…

Até que só restem
pedaços.

5.

Palpita, palpita!
Palpita aquilo
que habita seu corpo.
É quente seu sopro —
o bafo de onça.
Espírito jubila,
estômago ronca —
o esturro. Ouça…
A mata treme à luz da lua:
Em uma só boca —
mais de mil coros.
Socorro! — Aleluia!
Aleluia! — Socorro!

Palpita, palpita!
Mãe de sangue — sim, hosana! —
e mãe de seiva — nas alturas!
Nas alturas e também
nos humildes rincões
da terra.

Transmuta-se e transita
entre feições mais que humanas,
toda e cada criatura
— cem milhões vezes cem! —
nela se encerra.

Não existe uma mãe que não sangre:
na praia, no mangue,
no areal, na mata-virgem…
Poderia não sangrar aquela mãe
que é de tudo e cada qual
a origem?

De todas as fontes — milagre,
de todo jardim — oliveira
e não só

(Porque também a macaxeira
é de vós, Senhora Nossa!) —
todo fruto é de seu ventre
o bendito.

A fronte — queimada de sol,
as mãos — calejadas da roça.
Da aranha tecelã
para a agulha experiente
da vovó Benedita,

É anciã e senhorita:
em novo vestido
a boneca de pano.
É cada história que foi dita
ao pé da roca
pelos séculos fiando.
Assim também terão nascido
os humanos.

Manto — não aquele
que do céu à terra desce.
Nem mãe que, de pedra,
a esperar do véu a queda
na eterna imóvel prece.
Mãe que tece
com o fio de costureira,
corta, prega
— não os pregos do martírio —
botões
de flor.
Botões que um dia florescem
de cravos e lírios
no madeiro que, outra vez primaveril, — Ressuscitou!

Mãe flor, mãe aranha, felina, humana!
Cria raízes, agita as entranhas — Divina-mundana!
Que a todos na teia — emaranha!
No ventre ou nas garras — a tudo ela apanha!

Mãe que se adorna de todas as cores
e com pétalas de flores,
manto verde
das florestas,

Mãe cuja prata, escamas de peixe,
seu milagre pelas redes
de humildes pescadores
manifesta,

Com manto azul de águas claras
cobre a terra
enfeitando-a com asas
de arara,

Gruta que nos pariu,
na mesma gruta
para nós
o leito último prepara.

Mãe que escorre das nascentes
pela frente e pela costa
da serra,

Mãe eternamente prenha
como as fêmeas
das panteras,

Mãe que grita e se desgrenha
sob o ronco da — blasfêmia! — moto-serra,

Verte lava dos vulcões,
no tremor das explosões
também sangra
das crateras.

Que recebe paciente
seu flagelo — ah, que provas
ela enfrenta!

O manto azul-claro deságua
e outra vez ela desova
sua prenda:

O verbo, a quem é de poema,
ao pescador — a piracema.

O milagre dos peixes,
suportando toda dor
e superando qualquer pena,
nada contra a correnteza…

Até com a pedra topar
da represa.

Canta, galho em galho, o colibri.
Assim também os homens cantam:
“Nos cobri
com vosso manto!”

O coro, entretanto, dos anjos
responde em uníssono:
“Senhor,
o sacrifício santifique!”

Olhos gélidos celestes
vão fitá-la do altíssimo,
igrejinha que badala
antes de prestes
ir a pique.

Abra, pois, as guelras
e feche seus olhos,
— Olhos de peixe,
que nunca se fecham,
vigília insone e atenta
da Dama, —

Abra as guelras
e dos olhos
eis que a lágrima derrama.

Deixe que se estenda
outra vez sobre seus córregos,
Mãe Terra,
a mortalha de lama.

Ascensão (fins de maio — princípios de junho) 2019
*

Padrão
poesia

Um poema inédito de André Nogueira (1987-)

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André Nogueira: nascido em 1987 na cidade de Herdecke, Alemanha Ocidental. Registrado brasileiro no Consulado em Munique. No Brasil desde 1991. Vive atualmente na cidade de Campinas (SP). Formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. Tradutor, poeta, ensaísta. Publicou “Pontualmente ao Encontro ou Pomos, um Adão
Cada” (Ed. Medita, Campinas, 2011) e “O Manifesto Lenitivo” (Ed. Urutau, 2015, Bragança Paulista, 2015).

 

sergio maciel

* * *

 

DÊ-LHES O TROCO
ou “Não desça na via

1.

– O homem quebra o trem?
Ou é o trem
que quebra o homem!?

Sem braços, brandia o cotoco –

Quem?
Um mendigo, talvez?
Palhaço ou louco?
Ou seria esse homem
um profeta de muletas?

A impecável lucidez
destas palavras que falou-me
reproduzo ao pé da letra.

2.

Amigos, quem veio primeiro?
O ovo, a galinha?
Pois eu digo: o galinheiro.
Todo dia nesta lata de sardinha
entrar e sair e de novo rolar
pela escada rolante…
Começou o quebra-quebra.
Porém nada veio antes?
existem dois gumes
no corte de verba.
No horário de pico
é que chega ao cume
o lucro dos ricos.
Mas um dia eles recebem
o troco
da plebe
e fogo
no circo.

3.

Do outro lado do vagão um homem grita:

– Se o ovo ou a galinha ou se os dois,
o importante é rechear minha marmita!

Arroz com feijão, feijão com arroz…
Das batatas as pepitas
que se guardam em isopores.
De mistura? A porção magra
de umas carnes no alumínio:
pelo trem no moedor
os esqueletos dos senhores,
uma vez que emagreceu salário mínimo.
Cabem dois no acento vago,
mais de cem uns sobre os outros.
Que achou do shoping-trem?
Aqui encontram-se biscoitos
e olha a água, geladinha e mineral:
a menininha não tem oito,
e carregando esse isopor pelo vagão
grita: “Era três,
levou agora é um real!”
Assim as filhas de vocês
a crise pagam
do patrão,
as gordas malas que alimentam
algum “boom” do capital.

4.

Quebrem os lacres e acionem
o botão de segurança!
Pois o povo que não come
mata a fome de vingança.
É tão certo
quanto a justa matemática,
a lei irrevogável da ação e reação.
E tão decerto nos liberta
dessa lástima metálica
um brinde de explosão…
Façam tim-tim os coquetéis.
Eles não crêem?
À nação proclamaremos
a razão do teorema
em abundantes decibéis.

5.

“Não desça na via”, diz o cartaz.
O amor pelo trem é tão grande…
existe quem morra beijando esse trilho.
A maioria, como faz?
Não há lugar onde se ande
sem auxílio
de uma surra
e no calor do empurra-empurra
o biscoito de polvilho
no pacote se desfaz.

6.

As cloacas do comboio
se contraem como nunca.
Um por vez pare a catraca:
o vendilhão de pururuca,
o pastor com sua bíblia,
paletó sujo de graxa…
Meus irmãos, quem é que lucra
com a vossa via sacra?
Arregala-se o olho da cara,
olha a câmera do caixa.
A passagem, quanto custa?
No estômago um soco.
Pois nada mais justo!
Dê-lhes o troco!
Justo o pé que chuta a placa.
Justa a mão que o cesto entorna.
Justamente a massa em fúria não se aplaca
enquanto o fogo não arder na plataforma.

Na alta esfera o escândalo é a norma.
O pacote de maldades já transborda?
Dão-lhe o nome de “reforma”.
Todos a bordo!
Pois em breve irá o povo
a bomba esférica do ovo
arremessar em certos homens,
com os garfos desfiar seus finos ternos
de mordomos.
O acerto de contas exige.
A porção última do inferno
lá na ponta da pirâmide encontra
sua origem.

7.

Tudo bem chutar uns cones.
No entanto, eu pergunto.
Quando esse troco
dará nosso povo
na cara do porco
capitalista?
Quando do assunto
tratará com esses homens
infelizes e sinistros?
Quando encontrará o justo soco
a rota certa dos narizes
de prefeitos e ministros?
Bons motivos, temos vários.
De escândalo em escândalo
e vocês neste calvário
são os vândalos, acaso?
Baderneiros, vagabundos, meliantes?
Que panela veio antes
que deixou seus pratos rasos?
Cada noite eles descansam
no macio dos travesseiros,
todo dia se depena mais um ganso
e se abarrota nova mala com dinheiro.
O itinerário da barbárie segue o mesmo.
Mudam só os restaurantes
onde acertam seus negócios.
O isopor dos ambulantes,
a tortura
do alumínio
que tritura
nossos corpos.
Vocês podem completar o raciocínio?
Um só almoço
de um desses salafrários
quanto custa? Vinte vezes
o valor de seus salários.
Troco justo para esses, qual seria?
Esse desprezado osso
ao pé da mesa de iguarias,
asperezas de sapato
vocês lambem e engraxam.
Que desçam ao nível
das vias de fato
e empurrem dessa laia desprezível
extintores goela abaixo.

(~A~), dezembro 2017 – janeiro 2018

Padrão
poesia, tradução

Marina Tsvetáieva, por André Nogueira

Marina_Tsvetaeva_by_Max_Voloshin_1911

Marina Tsvetáieva fotografada por Max Voloshin, 1911

Marina Ivánovna Tsvetáieva nasceu em Moscou a 8 de outubro (26 de setembro, pelo antigo calendário russo) de 1892, e viveu na Rússia até o ano de 1922. Recebendo notícia de seu marido, Serguei Efron, então oficial da Guarda Branca, derrotada pelo Exército Vermelho na guerra civil após a revolução de 1917, decidiu reunir-se a ele em Praga. Dos anos revolucionários em Moscou guardou lembranças de miséria e fome (em 1920 Tsvetáieva perdeu sua filha mais nova, Irina, por desnutrição). Marina, Serguei e Ariadna, a filha mais velha, viveram primeiro na Tchecoslováquia, onde nasceu o menino, Gueorgui; em seguida estabeleceram-se em Paris. O exílio teve um lado positivo: Tsvetáieva gozou de relativa liberdade para escrever, embora com dificuldades de publicar (como testifica seu poema Os Leitores de Jornal) no ambiente reacionário da emigração. Por outro lado, era grande seu apego à terra natal; as “saudades da pátria” se tornam um tema constante em seus poemas dos anos 30. A idéia de voltar para a Rússia se apresenta, todavia, contraposta à consciência dos riscos; com essa lucidez escreveu o ciclo Para Maiakóvski, em 1930, movida pela notícia do suicídio deste, e em 1931 Versos para Púchkin, desenvolvendo a mesma idéia do poeta mártir da sociedade (o poema 2 de O Poeta e o Tsar corresponde ao poema 6 de Versos para Púchkin). Nessa época a poesia de Tsvetáieva adquire um acentuado feitio político; em parte isso se explica pela influência de Maiakóvski, de cuja passagem por Paris em 1928 e seu recital no Café Voltaire ela guardou forte impressão. “No dia 22 de abril de 1922, na véspera de minha partida da Rússia,… encontro Maiakóvski”, diz Marina Tsvetáieva,

“– Então, Maiakóvski, qual é o recado que você quer que dê à Europa?

  – Que a verdade está aqui.

 No dia 7 de novembro de 1928, à noite, saindo do Café Voltaire, ao me perguntarem: ‘Que diz da Rússia, após ouvir Maiakóvski?’, respondo sem pensar:

 – Que a força está lá.” (In: BERNARDINI, Aurora Fornoni; Indícios Flutuantes em Marina Tzvetáieva. 1976: Universidade de São Paulo, Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas, Tese disponível no sistema. Pág. 23).

As novas idéias de literatura, com freqüentes elogios a Maiakóvski, combinadas à decepção com a emigração, provocaram em Tsvetáieva uma espécie de “reconciliação” com a terra natal, que aquelas saudades só fizeram ampliar. Escreve ela em O Poeta e o Tempo (1932):

“Aqui [na emigração] está uma certa Rússia, esta Rússia, e lá está toda a Rússia. Para quem vive aqui, o passado é o contemporâneo na arte. A Rússia (falo da Rússia, não de quem detém o poder), a Rússia, o país dos avançados, exige que a arte guie; a emigração, país dos atrasados, exige que a arte se detenha com ela (…) Apesar disso… todo poeta é por essência um emigrante, mesmo na Rússia”. (In: TSVETÁIEVA, Marina; O Poeta e o Tempo. Lisboa: Hiena Editora, 1993. Págs. 62-63)

Essa guinada sinaliza, também, mudanças que ocorriam no ambiente familiar. Embora Tsvetáieva desconhecesse o novo emprego do marido. Com esperança de voltar a seu país e ganhar o “perdão” pelo serviço no Exército Branco, Serguei passa a colaborar como agente da NKVD, a polícia da União Soviética, infiltrado no círculo da emigração. E suas expectativas não deixam de se infiltrar em casa. A adolescente Ariadna, que adquirira sólida convicção socialista, foi a primeira a tomar a iniciativa e, em 1937, retornou à União Soviética. Sua decisão se deu sob protesto da mãe. Tsvetáieva talvez jamais retornasse por vontade própria; quando ela o fez, em 1939, foi sob circunstâncias adversas e, mais uma vez, para seguir o marido. Serguei Efron se viu implicado pela polícia francesa no assassinato de Ignace Reiss, ex-colaborador da NKVD, e fugiu à bordo de um navio soviético deixando sozinhos Marina e Gueorgui. Descobertas as atividades de Serguei, as portas já raramente abertas, fecharam-se para ela definitivamente. Abalada pelo escândalo, os interrogatórios da polícia e as reações da sociedade, Tsvetáieva providencia sua volta e a do menino Gueorgui para a Rússia.

É sabido o desenlace da história. Efron e Ariadna foram presos, suspeitos de espionagem. Tsvetáieva viu-se outra vez sozinha e vítima de hostilidade ainda maior.

No mesmo passo, a invasão nazista (cuja passagem pela Tchecoslováquia Tsvetáieva repugnou em seu ciclo Versos para Tcheca) chegava à União Soviética; Tsvetáieva foi evacuada para a cidade de Ielábuga, há mais de mil quilômetros a leste de Moscou, não lhe sendo permitido residir em Chistopol com o restante dos intelectuais. Seu último registro escrito foi uma carta para a cantina da União dos Escritores Soviéticos em Chistopol, oferecendo-se para o emprego de lavadora de pratos. Em 31 de agosto de 1941, enforcou-se em Ielábuga. Efron foi fuzilado em setembro do mesmo ano. O filho Gueorgui morreu em combate na II Guerra em 1944.

Ariadna sobreviveu aos oito anos de prisão. Foi ela quem organizou a primeira coletânea de Marina Tsvetáieva a ser publicada após sua reabilitação, o que aconteceu só em 1962 (até então seu nome era proibido na União Soviética). De toda a sua obra, sua fase de 1930 constitui o grupo mais esparso, e freqüentemente as edições omitiram alguns de seus poemas mais “incômodos” dessa época. Destes 7 poemas,  “Abri as veias…”, já traduzido por Augusto de Campos em Poesia Russa Moderna, também  de Haroldo de Campos  e Décio Pignatari na antologia Marina Tsvietáieva; “Versos para Tcheca” também possui traduções de Augusto de Campos em Poesia da Recusa e de Nelson Ascher/ Boris Schnaiderman; os demais são aqui publicados pela primeira vez em nossa língua.

  André Nogueira

***

MARINA TSVETÁIEVA, “Saudades da pátria…”
(7 poemas dos anos 30)


O PAÍS

O globo inteiro apalpa
E examina, palmo a palmo!
Esse país não há no mapa, –
Não existe. – Só na alma.

Da xícara bebida até o fim, –
Reluz, límpido, o fundo.
Voltar – para uma casa assim,
Que foi varrida desse mundo?

Se renascer me preocupa, –
De novo – em um novo país?
Voltar – eu mesma quis!
E saltar sobre a garupa

Desse alazão convulso!
Sairei de ossos ilesos?
Voltasse eu ao país russo,
Só farelos – com desprezo,

O padeiro me daria, e um caixão
Não me faria o carpinteiro.
Aquela – de incontável imensidão,
De magníficos outeiros,

Aquela – de reinos celestiais
E dos meus anos juvenis,
Aquela Rússia – não há mais.

– Tampouco eu, sem meu país.

fim de junho 1931.

СТРАНА

С фонарём обшарьте
Весь подлунный свет!
Той страны на карте —
Нет, в пространстве — нет.

Выпита как с блюдца, —
Донышко блестит.
Можно ли вернуться
В дом, который — срыт?

Заново родися —

В новую страну!
Ну-ка, воротися
На́ спину коню

Сбросившему! Кости
Целы-то — хотя?
Эдакому гостю
Булочник — ломтя

Ломаного, плотник —
Гроба не продаст!
Той её — несчётных
Вёрст, небесных царств,

Той, где на монетах —
Молодость моя,
Той России — нету.

— Как и той меня.

Конец июня 1931

§

(O POETA E O TSAR)

2 (6)

Não, frente à torpe tropa o tambor desperta
Enquanto à tumba acompanhamos nosso guia:
Esses dentes do tsar por sobre o corpo do poeta
Tilintando, como em sua honraria.

Tamanha é a honra, os amigos mais chegados
Não se vê – nem à esquerda, à direita,
Nem aos pés, à cabeceira – só as caras, peitos
E continentes mãos atadas dos soldados.

Não admira, até no mais silente leito,
Que o precisem vigiar como um moleque?
Embora tantas honrarias que lhe deitam,
Até demais, até demais para esta exéquia!

Veja, cidadão, como, apesar do rebuliço,
O tsar se preocupa com o poeta!
E o honra, honra, e ponha honra nisso!
De honras dessas – o inferno está repleto!

Quem é então, precisa e horrorosamente,
Esse ladrão, que os ladrões sobre ele se debruçam?
Um traidor? Não. Do pátio de fuzilamento –
O homem mais lúcido da Rússia.

Meudon, 19 de julho 1931


2(6)

Нет, бил барабан перед смутным полком,
Когда мы вождя хоронили:
То зубы царёвы над мертвым певцом
Почетную дробь выводили.

Такой уж почет, что ближайшим друзьям –
Нет места. В изглавьи, в изножьи,
И справа, и слева – ручищи по швам –
Жандармские груди и рожи.
 
Не диво ли – и на тишайшем из лож
Пребыть поднадзорным мальчишкой?
На что-то, на что-то, на что-то похож
Почет сей, почетно – да слишком! 

Гляди, мол, страна, как, молве вопреки,
Монарх о поэте печется!
Почетно – почетно – почетно – архи-
почетно, – почетно – до черту!

Кого ж это так – точно воры вора
Пристреленного – выносили?
Изменника? Нет. С проходного двора –
Умнейшего мужа России.

Медон, 19 июля 1931

  §

PÁTRIA

Oh, meu implacável idioma!
Como ouvisse simplesmente uma campônia,
Uma rústica canção que murmurinha:
“– Rússia, pátria minha!”

No horizonte, atrás da cordilheira,
Pátria minha – e estrangeira! –
Ela mostrou-se para mim:
Terra distante, lá dos últimos confins!

Distância, minha sôfrega doença,
A tal ponto é minha pátria de nascença
Que carrego, aonde for, essa distância –
Minha parte que está fora do alcance.

Distância, que se afasta e não me solta,
Distância, que me diz: “Rápido volta
Para casa!
No horizonte estrela branca
Que de todos os lugares me arranca!

Do suor da caminhada só me resta
Inundar a vastidão da minha testa.

Tu, hei de perder-me nos teus braços!
Com os lábios selarei, ao pé do cadafalso:
Pátria minha – prometida! –
Onde se encontra a perdição da minha vida.

12 de maio 1932

РОДИНА

О, неподатливый язык!
Чего бы попросту — мужик,
Пойми, певал и до меня:
«Россия, родина моя!»

Но и с калужского холма
Мне открывалася она —
Даль, тридевятая земля!
Чужбина, родина моя!

Даль, прирожденная, как боль,

Настолько родина и столь —
Рок, что повсюду, через всю
Даль — всю ее с собой несу!

Даль, отдалившая мне близь,
Даль, говорящая: «Вернись
Домой!»
                Со всех — до горних зве́зд —
Меня снимающая мест!

Недаром, голубей воды,
Я далью обдавала лбы.

Ты! Сей руки своей лишусь,—
Хоть двух! Губами подпишусь
На плахе: распрь моих земля —
Гордыня, родина моя!

12 мая 1932

§

Abri as veias: irreparável,
Irreversível, a vida borbota.
Tragam pratos e vasos!
Todo prato – será raso,
Todo vaso – será magro.

Sem parar, a terra traga
E, irrigado pelas bordas,
Irrevogável, irreparável,
Irreversível, o verso brota.

6 de janeiro 1934

Вскрыла жилы: неостановимо,
Невосстановимо хлещет жизнь.
Подставляйте миски и тарелки!
Всякая тарелка будет – мелкой,
Миска – плоской.
 
Через край – и мимо –
B землю черную, питать тростник.
Невозвратно, неостановимо,
Невосстановимо хлещет стих.

6 января 1934

§

Saudades da pátria! Com esse mal
Há muito tempo que eu luto!
Para mim é absolutamente igual
Onde estar só em absoluto.

Quais cascalhos que eu arranhe
Arrastando o carrinho de feira
Para a casa, que me é de todo estranha –
Se hospital ou se caserna, como queira.

A mim é indiferente, qual o povo
Que há de ver em cativeiro
A leonina minha crespa cabeleira,
Ou me expulsar – de novo! –

Ao deserto dessa minha solidão.
Urso polar apartado do gelo
Onde não posso viver (e não faço questão!),
Tanto me faz – onde será o pesadelo.

Não me ilude o chamado longínquo
Da materna minha língua, que convida… –
Não me importa, em qual língua
Serei mal-compreendida.

(O leitor de jornais, o ouvinte
De notícias, fuçador de mexericos…)
Ele – é do século vinte,
E eu – de todo século abdico!

Como um tronco que a esmo
Vê na rua em seu redor passar a gente,
Para mim é indiferente, dá no mesmo –
E, talvez, de tudo o mais indiferente

Seja a pátria onde se acha.
Cada marca dela em mim que se esconde
Vou despir, de cima a baixo:
Eis a alma, que nasceu – tanto faz onde.

E também eu, para a pátria, tanto faço, –
De frente para trás, de trás para frente,
Investigue se encontra dela traço,
Inspetor, em minha alma indiferente!

Estranha é cada casa, vazios todos os templos, –
E tudo indiferente, e tudo igual.
Mas basta que um arbusto eu contemple, –
Eis a sorva – da terra natal…

1934

Тоска по родине! Давно
Разоблаченная морока!
Мне совершенно все равно —
Где — совершенно одинокой

Быть, по каким камням домой
Брести с кошелкою базарной
В дом, и не знающий, что — мой,
Как госпиталь или казарма.

Мне все равно, каких среди
Лиц ощетиниваться пленным
Львом, из какой людской среды
Быть вытесненной — непременно —

В себя, в единоличье чувств.
Камчатским медведем без льдины
Где не ужиться (и не тщусь!),
Где унижаться — мне едино.

Не обольщусь и языком
Родным, его призывом млечным.
Мне безразлично, на каком
Непонимаемой быть встречным!

(Читателем, газетных тонн
Глотателем, доильцем сплетен…)
Двадцатого столетья — он,
А я — до всякого столетья!

Остолбеневши, как бревно,
Оставшееся от аллеи,
Мне все — равны, мне всё — равно;
И, может быть, всего равнее —

Роднее бывшее — всего.
Все признаки с меня, все меты,
Все даты — как рукой сняло:
Душа, родившаяся — где-то.

Так край меня не уберег
Мой, что и самый зоркий сыщик
Вдоль всей души, всей — поперек!
Родимого пятна не сыщет!

Всяк дом мне чужд, всяк храм мне пуст,
И всё — равно, и всё — едино.
Но если по дороге — куст
Встает, особенно — рябина …

1934

§

OS LEITORES DE JORNAL

Rasteja a serpente infernal,
Rasteja e os homens conduz.
E cada qual – com
Seu jornal (e cada qual –
Com seu cadáver). Urubus
Ruminadores de cal,
Lambedores de pus,
Leitores de jornal.

Sob que rosto se abriga?
Esse leitor – é uma caveira!
Folha-de-rosto que sorri,
Polida e superficial.
Com a cabeça enfiada no umbigo
Percorreu Paris inteira…
Calma, amiga!
– Desse jeito vais parir –
Um leitor de jornal.

“Vendeu a irmã” – pôs-se a tossir,
“Matou o pai!” – um retorquiu,
E bombeiam para dentro de si
O absoluto vazio.

Faz diferença a esses senhores
O nascer ou o pôr do sol?
Ávidos de vácuo, leitores
De jornal, e .

Pois se enfartem – de calúnias,
Se inteirem – das propinas!
Repletas de sevícia – essas colunas
E excrementícias alíneas…

Quanto arderá para esses abutres
O fogo do Juízo Final!
Para os feitores de minutas
E leitores de jornal!

Ao inferno! Discutir não compensa…
Instinto materno uma ova!
Gutenberg com sua prensa?
Pior que Schwartz com sua pólvora!

Sim, muito melhor descer à cova
Que viver num leprosário.
Com a língua eles escovam
O purulento noticiário!

Bebedores de sangue,
Os piores lobos maus… –
Mães! Cuidado com a gangue
De escritores de jornal.

E o entalado na garganta
Nestas linhas virou grito; –
Eis o que penso enquanto,
Tendo em mãos o manuscrito,

Estou diante – dessa cara
(Quer dizer, da descarada
Da mais vil cara-de-pau!)
De um maldito
Redator de jornal.

Vanves, 1-15 de novembro 1935

 

ЧИТАТЕЛИ ГАЗЕТ

Ползет подземный змей,
Ползет, везет людей.
И каждый — со своей
Газетой (со своей
Экземой!) Жвачный тик,
Газетный костоед.
Жеватели мастик,
Читатели газет.

Кто — чтец? Старик? Атлет?
Солдат? — Ни черт, ни лиц,
Ни лет. Скелет — раз нет
Лица: газетный лист!
Которым — весь Париж
С лба до пупа одет.
Брось, девушка!
                        Родишь —
Читателя газет.

Кача — «живет с сестрой» —
ются — «убил отца!» —
Качаются — тщетой
Накачиваются.

Что для таких господ —
Закат или рассвет?
Глотатели пустот,
Читатели газет!

Газет — читай: клевет,
Газет — читай: растрат.
Что ни столбец — навет,
Что ни абзац — отврат…

О, с чем на Страшный суд
Предстанете: на свет!
Хвататели минут,
Читатели газет!

— Пошел! Пропал! Исчез!
Стар материнский страх.
Мать! Гуттенбергов пресс
Страшней, чем Шварцев прах!

Уж лучше на погост, —
Чем в гнойный лазарет
Чесателей корост,
Читателей газет!

Кто наших сыновей
Гноит во цвете лет?
Смесители кровей,
Писатели газет!

Вот, други, — и куда
Сильней, чем в сих строках!
Что думаю, когда
С рукописью в руках

Стою перед лицом
— Пустее места — нет! —
Так значит — нелицом
Редактора газет-

ной нечисти.

Ванв, 1-15 ноября 1935

§
VERSOS PARA TCHECA

8

Lágrimas de amor e vilipêndio!
De as conter não sou capaz.
É tempo – é tempo – é tempo
De o Criador voltar atrás!

Oh! Encobre todo o mundo
Uma tétrica montanha!
À Tcheca lágrimas inundam
E sangue – à Espanha.

Recuso-me – a ver.
No manicômio que me coube
Me recuso – a viver.
E pelas praças com os lobos

Me recuso – a uivar.
Com os fanáticos em marcha
Me recuso – a despencar –
Pelo desfiladeiro abaixo.

Olhos, ouvidos e boca, –
Infeliz é quem os usa.
Para o vosso mundo louco
Uma palavra só: recusa.

15 de março – 11 de maio 1939

 

СТИХИ К ЧЕХИИ
8

О слёзы на глазах!
Плач гнева и любви!
О Чехия в слезах!
Испания в крови!

О чёрная гора,
Затмившая — весь свет!
Пора — пора — пора
Творцу вернуть билет.

Отказываюсь — быть.
В Бедламе нелюдей
Отказываюсь — жить.
С волками площадей

Отказываюсь — выть.
С акулами равнин
Отказываюсь плыть —
Вниз — по теченью спин.

Не надо мне ни дыр
Ушных, ни вещих глаз.
На твой безумный мир
Ответ один — отказ.

15 марта — 11 мая 1939

*

O TRADUTOR: André Nogueira, nascido em 1987 na cidade de Herdecke, Alemanha Ocidental. Registrado brasileiro no Consulado em Munique. Vive no Brasil desde 1991, atualmente na cidade de Campinas (SP). Graduado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas. Estuda Literatura e Cultura Russa na Universidade de São Paulo.

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