crítica, poesia, tradução

“To his coy mistress”, de Andrew Marvell (pt. 2), por Matheus Mavericco

NPG D29829; Andrew Marvell after Unknown artist

Andrew Marvell já foi apresentado pelos colegas do escamandro (clique aqui). Essa postagem é mais ou menos uma parte dois, com uma tradução minha e outras que consegui pescar internet afora.

Pois note como o poema de Marvell é estranho. Não, é sério. Ele é comumente posto dentro da caixa de acrílico do carpe diem, e claro que não está errado. Dividido em três partes, se quiséssemos incorrer na heresia da paráfrase seria o caso de dizermos que o eu lírico pede pra amada parar com esse recato bobo e, vocês sabem. Um dia eles vão bater as botas e aí, se ela quiser, não vai ter mais como. Então é melhor se apressarem, pois o tempo tá aí e pá.

O grosso é esse. Mas notem a inventividade das metáforas de Marvell. T. S. Eliot dizia, sobre os metafísicos, pensando em especial em Marvell, que existe nesse pessoal uma diferença muito pequena entre imaginação e luxúria. Em tempos barrocos, desabridos, o homem começando a entender o que era ter a Máquina do Mundo de repente arreganhada (você consegue imaginar como é ter descoberto literalmente um novo mundo?), o homem frente ao Infinito da revolução copernicana ― que reduziu a importância da Terra e da humanidade ―, o Absolutismo começando a ruir ― a Inglaterra vivia na época sua primeira Guerra Civil, e Marvell foi um poeta atento a tais acontecimentos, tanto que sua ode a Oliver Cromwell é considerada um dos poemas políticos mais perfeitos de todos os tempos ―, tudo isso era mais do que o bastante pra propelir os poetas minimamente interessados e descontentes a buscarem novas formas de expressão.

Digamos que isso explica o porquê da alcunha de “poetas metafísicos” aos poetas barrocos ingleses ser tão atacada, ainda mais considerando que se costuma pensar, a partir do termo “metafísico”, numa poesia distante de contingências corpóreas, físicas, sociais etc. José Lino Grünewald, num texto para o Correio da Manhã de 19/11/67, nota como, por exemplo, os metafísicos compunham metáforas que além de serem concisas (Augusto de Campos, aliás, faz um paralelo entre os metafísicos e João Cabral), valiam-se de instrumentos compositivos das mais diversas áreas: no caso de Marvell seriam termos que vão da religiosidade ao exotismo do lado indígena do Ganges e ao impacto do casalzinho de abutres, ou então um termo como “amor vegetal”. Marvell possui outros poemas que abordam a relação entre ser humano e natureza, destacando a perturbação que o fator antropológico causa no meio-ambiente. No poema The Mower against Gardens, por exemplo, abre dizendo: “Luxurious man, to bring his vice in use, / Did after him the world seduce, / And from the fields the flowers and plants allure, / Where nature was most plain and pure.” (“Homem luxurioso, por própria impureza, / Eis que seduz a natureza / E as flores e os cultivos fascina, / De graça até então genuína.”, trad. minha.)

Mas calma aí que existe mais. Disse pra vocês que Marvell vai argumentando e tentando convencer a amada a, digamos assim, liberar o anel. Mas notem que, nos versos 27 e 28, ele escarnece de forma meio brutal o recato da amada, dizendo que, se ela possui tanto zelo por essa virgindade, é bom que se lembre que, depois de morta, os vermes vão corroer isso daí. Na primeira estrofe ele já ridicularizara esse recato da amada dizendo que seriam precisos trinta mil anos pra louvar o corpo inteiro. Ou seja: é um poema que vai de um extremo a outro com uma potência muito grande. O terror de quando ele abre a segunda parte do poema falando da carruagem alada do Tempo em suas costas, por exemplo, foi aproveitado por Eliot na terceira parte de The Waste Land. Mas pule pro final da estrofe e observe o sarcasmo do final, em especial esse “I think”. Ora: é claro que dentro de uma sepultura ninguém se abraça. Ele está tirando sarro da cara da amada.

Num poema como The Definition of Love, o gosto pelos movimentos de transição, que George L. Craik em 1844 já apontava como admiráveis na poesia de Marvell, é revelador. Logo na primeira estrofe diz que seu amor nasceu do Desespero sobre a Impossibilidade, e, na penúltima, diz que ele e sua amada são como retas que, embora infinitas, jamais se encontrarão. Só que ele transcende o gosto de contrários antitéticos que o petrarquismo apontava ― em língua inglesa muito bem visto pelas falas de Romeu antes de conhecer Julieta na peça de Shakespeare. É como se operasse uma espécie de união de contrários, algo que Donne fez com uma radicalidade ainda maior ao tornar a carnalidade de sua poesia indissociável da sacralidade e vice-e-versa.

Enxergando assim, me parece que muito do que o To his Coy Mistress tem a oferecer se elucida, permitindo entender como ele consegue alimentar a si próprio, meio que retroativamente, de negativas que vão conduzindo a uma retórica de exageros e, o que me parece ainda mais interessante, no fato de que todo o poema caminha num solo hipotético ― e ainda assim consegue toda essa concretude esplêndida, certamente advinda eu não digo nem tanto das referências propriamente carnais, mas sim daquele movimento pendular nervoso que me referi antes, visto, pra citarmos um exemplo, no contraponto da amada achando rubis no lado indígena do Ganges ― ou seja, uma imagem claramente exótica ― enquanto o amado chora suas pitangas lá pro Humber ― isto é, um rio indiano contraposto a um estuário inglês ― e mais ― pois logo após essa metáfora, num liame tênue, Marvell nos levando ao exagero de dizer que jurará seu amor décadas antes do Dilúvio e, logo após, dizendo que, caso a amada queira, ela pode negar o amor até a conversão dos judeus, também conhecido como Juízo Final. Daí a dizer que seu amor vegetal cresce mais vasto que os Impérios é uma coisa esperada, pois o poema faz saltos que abarcam totalidades inteiras.

Quem quiser uma boa pedida acerca do poema de Marvell, recomendo A Handbook of Critical Approaches to Literature, de Wilfred L. Guerin, Earle Labor, Lee Morgan, Jeanne C. Reesman e John R. Willingham. Você pode pensar por quê o indico, se ele não parece ter nada haver com poesia barroca inglesa, e tudo bem, eu explico: é que, pra ilustrar as várias formas de abordagem crítica, os autores pegam o poema de Marvell como exemplo (na verdade eles pegam mais cinco outras obras), de maneira que você tem, aí, um não-sei-quantos-em-um. Por exemplo, exemplificando abordagens histórico-biográficas, os autores observam que a imagem do Tempo como voraz remete a Cronos devorando Zeus e seus filhos, e que a imagem do último dístico do poema, esse lance aí de parar o sol, pode ser posta ao lado do episódio em que Zeus ordena que o sol demore um pouco mais pra que ele estenda sua noite de amor com Alcmena ou ao lado do episódio bíblico em que o sol também demora um pouco mais pra que a batalha contra os amoritas seja vencida ― ou seja, tanto em um caso quanto em outro temos a intervenção divina que maneja o tempo a seu bel prazer, coisa inexistente no poema de Marvell pois, afinal, estamos falando de seres mortais.

Acerca das traduções compiladas, não creio que exista muito o que comentar. São projetos tradutórios pra agradar a gregos e troianos, indo da manutenção do verso octossilábico, por Alípio Correia Neto, à tradução de Nelson Ascher que, segundo ele mesmo conta, necessitou por parte do tradutor uma dedicação grandemente exaustiva. De minha parte, digo que traduzi por traduzir, sem estalo de lâmpada ou coisa do tipo. Pois veja que, quando você tem diante de si um poema que já foi muito traduzido, uma das estratégias mais saudáveis pra que se crie uma outra tradução é ou nutrindo uma insatisfação, um ainda-não-tem-o-que-eu-quero ― coisa que, pra falar a verdade, não aconteceu comigo, pois acho que o que tem tá bom ― ou oferecendo um projeto alternativo ― o que mais uma vez eu não vi como necessário, ainda mais depois da tacada do colega Scandolara de traduzir 10+6. Espero, contudo, que minha tradução pelo menos honre seu espaço e não fique, sei lá, tão ridícula perto das outras.

Matheus Mavericco

§§§

PARA SUA DAMA RECATADA.
trad. Matheus “Mavericco”.

Houvesse tempo e espaço e então de fato
Não seria um delito este recato.
Sentados, nós iríamos pensar
Em só pensar no outro, e assim passar.
Você, do lado indígena do Ganges,
Achando rubis, e eu, pois me confrange
A dor, junto ao Humber. Décadas antes
Do Dilúvio eu te juro amor, e, instantes
Depois, se quiser, negue os votos meus
Até que se convertam os judeus.
Meu amor vegetal cresce mais vasto,
Embora mais lento, que impérios; gasto
Séculos em louvor de tua face
E mais dois longos séculos em face
De teus seios e trinta mil se quero
O corpo inteiro. Uma era de esmero
Pra cada parte, até que a derradeira
Sirva pra revelar tua alma inteira.
Pois você, ó Senhora, é digna disto ―
E eu não sei amar por menos que isto.

Contudo, escuto sempre atrás de mim
O Tempo alado a toda pressa: e, assim,
Nós só podemos ver, mais adiante,
A vastidão deserta do incessante
E a graça que você tem hoje, extinta.
No teu fosso marmóreo é indistinta
Minha canção que ecoa; o verme tenta
Romper teu corpo virgem e fragmenta
Em pó a tua honra imensa, enquanto
Meu ardor queima em cinzas. Se o recanto
Da sepultura é íntimo, então, acho,
Ninguém lá deve dar algum abraço.

Mas agora, o vigor juvenil posto
Tal como o orvalho fresco no teu rosto,
Tua alma desejosa de que sue
Em cada poro o fogo que a imiscui,
Devoremos nós dois juntos, e agora,
Como um casal de abutres que se adora,
O tempo antes que o tempo venha a ser
O nosso algoz, voraz o seu poder.
Enovelemos rapidez e força
Num globo, para que depois se torça
E abata o nosso anseio em árdua lida
Diante dos portões de aço da vida:
Assim, se o sol não puder ser parado,
Ele será ao menos apressado.

§

À SUA AMIGA ESQUIVA.
trad. Nelson Ascher.

Sobrassem mundo e tempo, não seria
tanta esquivez, senhora, uma heresia.
Sentar-nos-íamos pensando, a cada
longo dia de amor, uma jornada.
Enquanto junto ao Ganges encontrasses
rubis, eu molharia minhas faces
chorando ao Humber. Fosse minha parte
dez anos antes do Dilúvio amar-te,
seria a tua opor desinteresse
até que o povo hebreu se convertesse.
Meu amor vegetal, mais devagar
que impérios, cresceria sem parar.
Dedicaria cem anos, perante
teus olhos, a louvar o teu semblante;
A te adorar os seios, pelo menos
O dobro; ao resto, mais trinta milênios;
E, a tudo em ti, mil eras, de maneira
A abrir teu coração na derradeira.
Porque, senhora, vales tal quantia
E, para amar-te, eu não regatearia.

Mas ouço atrás de mim, correndo insanos
num carro alado, os dias, meses, anos.
E, frente a nós, se estende sem mais nada
A vasta eternidade desolada.
Tua beleza há de perder-se ao léu;
tampouco, em teu marmóreo mausoléu,
hão de ecoar meus versos quando, inerme,
entregues o hímen obstinado ao verme,
que em pó transformará tua honra vã
E em cinzas todo o ardor do meu afã.
O túmulo é discreto e acolhedor
mas lá ninguém que eu saiba faz amor.

Agora, então, que em tua pele pousa,
feito orvalho na folha, a cor viçosa,
E em cada poro de tua alma aflora
um fogo urgente ― amemos sem demora:
mais vale devorarmos, com o brio
das aves de rapina em pleno cio,
O tempo de uma vez do que, em poder
das lentas presas dele, enlanguescer.
Unindo numa esfera dois extremos
― nossa ternura e força ― arrebatemos
prazeres com porfia desabrida
através dos portões férreos da vida.
Não há como parar o sol, mas nós
podemos ― sim ― torná-lo mais veloz.

§

PARA SUA AMADA ESQUIVA.
trad. Alípio Correia Neto. 

Com um mundo nosso, dama, e vez,
Não fora um crime tua esquivez.
Íamos sentar, pra ver qual via
Trilhar, e amar por longo dia.
Acharias, com o Ganges aos pés,
Rubis; eu, o pranto, ante as marés
Do Humber. Te daria dez anos
De amor antediluvianos!
Dirias não, por caprichos teus,
Até à conversão dos judeus;
Meu amor vegetal, mais lento
Que impérios, vasto em crescimento,
Um século pra louvações
Aos olhos, pra admirar feições,
Teria; o dobro pra adorar-te
Os seios; trinta mil às mais partes;
A cada qual, uma era, e então
Uma última, a teu coração.
Pois, dama, vales os meus reinos;
E eu não iria te amar por menos.

Mas ouço, sempre, atrás de nós,
O Carro do Tempo, veloz,
E adiante jazem vastos ermos
Da eternidade. Não havemos
De achar tua beleza afora.
Nem, na tua cripta marmórea,
Soará meu canto. E um verme há de
Testar-te a longa virgindade,
Mudando em pó tua honra altiva
E em cinzas a minha lascívia.
A cova é bom e íntimo espaço,
Mas não, penso eu, para um abraço.

Enquanto há em ti cor juvenil
Na tez, como na flor, rocio,
E a alma que anseia deita fora um
Fogo urgente em cada poro,
Vamos folgar, e semelhantes
A amáveis aves rapinantes,
Tragar o nosso tempo, isentos
De enlanguescer num bico lento,
Então enrolar nosso desvelo
E forças em um só novelo,
Rasgar prazeres na investida
Contra os portões férreos da vida.
Assim, sem termos o que impeça
O sol, o instamos a ir depressa.

§

PARA SUA TÍMIDA SENHORA.
trad. Rodrigo Garcia Lopes.

Com mundo e tempo de sobra, acredite-me,
Senhora, essa tua timidez não seria crime.
Sentados, pensaríamos no modo melhor
De gozar nosso longo dia de amor.
Tu pelas margens do Ganges
Acharia rubis, eu, no estuário langue
Do Humber, reclamaria de tudo.
Te amaria dez anos antes do Dilúvio,
E tu, se quisesses, recusarias meu eu
Até a conversão dos Judeus.
Meu amor vegetal iria assim crescendo
Mais vasto que impérios, e mais lento;
Cem anos gastos para elogiar
Teus olhos, e tua testa contemplar;
Duzentos para adorar cada seio,
Mas trinta mil para seu recheio;
Uma era ao menos para cada seção,
E a última exibiria enfim seu coração.
Senhora, bem mereces tal status.
Recusaria te amar por mais barato.

Mas ouço às nossas costas de repente
O carro alado do tempo, rente;
E além de nós ardem na tarde
Desertos de vasta eternidade.
Tua beleza, hoje, amanhã não será,
Nem na lápide marmórea há de soar
O eco dessa canção; só vermes sem piedade
A devorar tão protegida virgindade,
E tua honra antiquada virando pó,
E cinzas todo meu desejo, a sós:
A cova é discreta e confortável alcova,
Mas que amantes ali se abracem, não há prova.

Agora, enquanto a cor em suas maçãs
Pousa em tua pele como rocio da manhã,
E enquanto tua alma transpire de desejo
E em seus poros fogos sutis revejo,
Vamos nos acabar enquanto é de matina,
E já, como amorosas aves de rapina,
De uma vez devorar o nosso tempo
Em vez de enlanguescer em seu relento.
Enrolemos nossa força, sem espera,
Nossa ternura toda numa só esfera,
E rasguemos prazeres com luta ríspida,
Ao passar pelos portões de ferro da vida;
Pois, se não podemos o sol deter
Podemos ao menos fazê-lo correr.

§

À SUA TÍMIDA AMANTE.
trad. Renato Suttana. 

Houvesse, dama, tempo e mundo à farta,
E tal reserva não seria crime.
Sentados, a escolher nosso caminho,
Do amor o longo dia passaríamos.
Buscarias rubis junto das margens
Do indiano Ganges: e eu entoaria
Junto às ondas do Humber que te amara
Por mais dez anos, até a inundação.
Eis que o recusarias, caprichosa,
Do judeu a esperar a conversão.
Meu amor, como planta, medraria
Mais vasto que os impérios e mais lento:
E cem anos passara eu a louvar
Os teus olhos, mirando a tua fronte,
E a adorar cada seio mais duzentos,
Mais trinta mil para o restante – uma era
Enfim inteira para cada parte:
E o coração revelarias na última.
Pois que és digna, senhora, de tal corte –
E a menor preço eu não quisera amar.

Mas ouço às minhas costas, sempre, a alada
Carruagem do tempo se apressando;
E à minha frente em tudo vejo abrir-se
Só desertos de vasta eternidade.
Tua graça não mais existirá,
Nem meu canto soará sob a marmórea
Abóbada; só os vermes provarão
Essa há tanto guardada virgindade:
E a tua inútil honra será pó,
E todo o meu desejo apenas cinza:
Que a sepultura é cômodo e privado
Lugar, mas às carícias – creio – impróprio.

Por isso, enquanto a cor da juventude
Como o orvalho da aurora em tua pele
Repousa e cada poro da anelante
Alma um fogo incessante ainda transpira:
Vamos gozar, enquanto nos é dado,
E devorar como aves de rapina
De uma só vez nosso tempo, sem sermos
Em suas lentas garras abatidos.
Rolemos nossa força e toda a nossa
Doçura para dentro de um só globo –
E o gozo em luta rude laceremos
Contra os portões de ferro da existência:
Pois, se este sol não podemos parar,
Que o façamos então acelerar.

§

TO HIS COY MISTRESS.

Had we but world enough and time,
This coyness, lady, were no crime.
We would sit down, and think which way
To walk, and pass our long love’s day.
Thou by the Indian Ganges’ side
Shouldst rubies find; I by the tide
Of Humber would complain. I would
Love you ten years before the flood,
And you should, if you please, refuse
Till the conversion of the Jews.
My vegetable love should grow
Vaster than empires and more slow;
An hundred years should go to praise
Thine eyes, and on thy forehead gaze;
Two hundred to adore each breast,
But thirty thousand to the rest;
An age at least to every part,
And the last age should show your heart.
For, lady, you deserve this state,
Nor would I love at lower rate.

But at my back I always hear
Time’s wingèd chariot hurrying near;
And yonder all before us lie
Deserts of vast eternity.
Thy beauty shall no more be found;
Nor, in thy marble vault, shall sound
My echoing song; then worms shall try
That long-preserved virginity,
And your quaint honour turn to dust,
And into ashes all my lust;
The grave’s a fine and private place,
But none, I think, do there embrace.

Now therefore, while the youthful hue
Sits on thy skin like morning dew,
And while thy willing soul transpires
At every pore with instant fires,
Now let us sport us while we may,
And now, like amorous birds of prey,
Rather at once our time devour
Than languish in his slow-chapped power.
Let us roll all our strength and all
Our sweetness up into one ball,
And tear our pleasures with rough strife
Thorough the iron gates of life:
Thus, though we cannot make our sun
Stand still, yet we will make him run.

(apresentação, organização e tradução de Matheus Mavericco)

Padrão
crítica, poesia, tradução

Dama recatada, senhora pudica, amada esquiva – Andrew Marvell em tradução

Godfrey Kneller - Andrew MarvellAndrew Marvell (1621 – 1678), ao lado de outros nomes muito bem conhecidos hoje como John Donne, foi um dos chamados “poetas metafísicos”, termo pejorativo cunhado pelo crítico Samuel Johnson para se referir a um grupo de poetas mais ou menos equivalente, cronologicamente (ainda que também em temática em alguns casos, sobretudo em Donne), ao nosso barroco – este também, como se sabe, outro termo a princípio pejorativo. Foi autor de obras satíricas em prosa contra os monarquistas e a Igreja Católica, amigo e aliado de John Milton na luta contra a monarquia na Inglaterra e membro do parlamento inglês antes da Restauração em 1660. À época de sua morte, Marvell era mais conhecido por sua trajetória política do que poética, e a má reputação posterior dos metafísicos não ajudou a sua recepção. Os metafísicos, no entanto, voltaram a ser lidos no começo do século XX, em parte por conta dos esforços de T. S. Eliot, que publica dois ensaios em periódicos em 1921, intitulados “The Metaphysical Poets” e “Andrew Marvell”, artigos presentes depois também em seu volume Selected Essays de 1931. Por volta do final da década também o mapa da literatura inglesa de F. R. Leavis passa a incorporar os metafísicos em seu cânone.

“To His Coy Mistress” é o poema mais célebre de Marvell, e o seu verso de abertura é famosíssimo: “Had we but world enough, and time“, firmemente inserindo esse poema de convite amoroso na tradição do carpe diem. Em suas três estrofes, o eu-lírico argumenta, da forma mais extravagante, sobre a brevidade da vida, de modo a tentar convencer a amada a… bem, a dar para ele (sinto muito pela quebra súbita de estilo na frase aqui, mas no Brasil do século XXI é impossível dizer isso de qualquer outro modo). Ele começa com uma fantasia ou capricho (“fancy” é o termo de Eliot), que ele desenvolve com grande efeito, listando tudo que os dois poderiam fazer se tivessem tantos mais anos (milênios, aliás) de sobra na vida, para que pudessem fazer quaisquer outras coisas que não desfrutar um do corpo do outro, depois prossegue por uma estrofe que corta essas fantasias bruscamente para tratar da realidade da morte. Aqui Eliot o compara com Horácio (“Pallida Mors cequo pulsat pede pauperum tabernas, / Regumque turris…”) e Catulo (“Nobis, cum semel oecidit brevis lux, / Nox est perpetua una dormienda“). A última estrofe faz o pedido, de fato, para que os dois gozem em vida do amor, enquanto ainda é possível. Temos, portanto: fantasia, realidade, convite, nesta ordem.

Porém, o que diferencia o poema de Marvell de tantos outros nessa mesma tradição é o uso de uma ironia finíssima que faz parte da sua wit – esse tipo espirituoso de humor intelectual. Desde o ritmo do poema, calcado em dísticos de tetrâmetros jâmbicos (had we | but world | e nough | and time) em rimas emparelhadas, já me parece difícil não ver algum tipo de sorrisinho malandro despontar no rosto de Marvell quando chega o segundo verso:  “This coyness, Lady, were no crime“. Não é que isso seja obra do metro e da rima em si (outro poema,  “A Dialogue between the Soul and the Body” emprega a mesma forma, com resultados mais solenes), mas esses elementos certamente influenciam, visto que o verso mais comum à época para a poesia séria era o dístico heroico, que consiste em pentâmetros jâmbicos em rima emparelhada, e o único soneto de Shakespeare (possivelmente apócrifo porém), o 145, escrito em tetrâmetros, é de tom leve e quase cômico – para uma análise do metro e efeitos desse poema, talvez este post num blog chamado PoemShape seja útil. Enfim, mas não é só isso. O uso das imagens e das expressões é também dos mais incomuns. É fácil de imaginar qualquer poeta barroco dizendo que começaria a amar a amada antes do Dilúvio até, digamos, o dia do Juízo Final, mas é preciso um poeta particularmente irônico para traçar essa data limite na conversão dos judeus. De modo semelhante, “amor vegetal” é uma escolha bastante estranha, como são também as imagens da última estrofe, das “amorosas aves de rapina” e de enrolar toda a força e doçura do casal numa bola. E há ainda um tom particularmente doméstico no final das duas primeiras estrofes, rebaixando o tom elevado para o tipo de registro de “polite conversation” que muito deve ter agradado o Sr. Eliot – não por acaso, Marvell é uma referência recorrente nele, sobretudo no seu “Prufrock”.

Esses elementos todos poderiam fazer com que “Coy Mistress” fosse um poema cômico, uma paródia do poema amoroso, mas também não parece ser esse o caso. Há momentos sublimes de força lírica, sobretudo no trecho final da primeira estrofe, a partir do verso que começa com “An hundred years”, que é particularmente bonito em sua devoção amorosa, imagens dignas de um Petrarca. Por isso, creio que faz mais sentido enxergá-lo como um poema de fato amoroso, mas com um grau de consciência do discurso (o quase intraduzível self-awareness talvez fosse o termo mais adequado) que lhe permite esses gracejos irônicos que criam uma dissonância latente, muito ao gosto moderno, acredito.

A tradução já publicada de que tenho notícia em português é a de Augusto de Campos, no volume Verso Reverso Controverso (1978). Mas, dada toda a graça desse poeminha, mesmo ciente do risco que é apresentar uma tradução sua ao lado de uma do Augusto, eu simplesmente não pude evitar propor uma tradução própria, ainda que dotada de um projeto diferente. A tradução de Augusto é das mais livres, mais ainda do que costuma ser a sua própria média, se permitindo variar o comprimento dos versos (qualquer coisa entre 5 e 10, até 12 sílabas) e alterando radicalmente o esquema de rimas. Eu propus algo um pouco menos radical (porque, se não posso fazer melhor, posso ao menos tentar algo diferente) e imagino que eu tenha obtido resultados menos bonitos também, tentando manter a unidade dos dísticos em rimas emparelhadas e uma constância no metro. Já fiz alguns experimentos aqui com Blake, Coleridge e Browning em tentar manter o ritmo marcadamente jâmbico em português, mas acredito que, no caso de Marvell, por se tratar de um poema argumentativo, eu não acho que eu conseguiria manter o sentido dentro da concisão extrema que esse rigor todo exige. Assim sendo, a princípio optei por versos de 9 sílabas (uma sílaba a mais, portanto, do que as oito que somam os versos de tetrâmetros jâmbicos), o que, eu bem o sei, é uma opção bastante estranha em português. Depois mostrei os resultados para o Guilherme, que se empolgou (apesar de não ter gostado da minha versão) e fez a versão dele também, em decassílabos.

Na sequência, retornei ao trabalho e fiz mais uma versão, desejando com veemência evitar o ritmo estável decassilábico (nada contra, até porque é bom contar com sílabas a mais para manter o sentido, mas eu prefiriria mesmo manter uma distinção em relação à equivalência pentâmetro-decassílabo) e, tendo em mente a unidade formada pelos dísticos de Marvell, propus uma segunda tradução composta por dísticos em que o primeiro verso é decassilábico, e o segundo, heptassilábico, alternando assim entre 10/7/10/7/10/7 em todo o poema, uma forma que eu tenho certeza que é algo comum entre poetas de língua portuguesa e que permite ainda uma maior proximidade com o número de sílabas do original (cada dístico em inglês conta 16 sílabas, contra as minhas 17 nesse esquema, com o aumento discreto de meia sílaba por verso).  De qualquer forma, compartilho aqui as minhas duas tentativas – imagino que, mesmo que eu fracasse, pelo menos o fracasso pode também servir para alguma reflexão – junto com a tradução do Guilherme e a do Augusto.

Adriano Scandolara

Atualização de janeiro/2015: para uma segunda parte desta postagem, escrita pelo Matheus “Mavericco”, com traduções de Nelson Ascher, Alípio Correia Neto, Rodrigo Garcia Lopes, Renato Suttana e uma dele próprio, clique aqui.

        

To His Coy Mistress

Had we but world enough and time,
This coyness, lady, were no crime.
We would sit down, and think which way
To walk, and pass our long love’s day.
Thou by the Indian Ganges’ side
Shouldst rubies find; I by the tide
Of Humber would complain. I would
Love you ten years before the flood,
And you should, if you please, refuse
Till the conversion of the Jews.
My vegetable love should grow
Vaster than empires and more slow;
An hundred years should go to praise
Thine eyes, and on thy forehead gaze;
Two hundred to adore each breast,
But thirty thousand to the rest;
An age at least to every part,
And the last age should show your heart.
For, lady, you deserve this state,
Nor would I love at lower rate.

But at my back I always hear
Time’s wingèd chariot hurrying near;
And yonder all before us lie
Deserts of vast eternity.
Thy beauty shall no more be found;
Nor, in thy marble vault, shall sound
My echoing song; then worms shall try
That long-preserved virginity,
And your quaint honour turn to dust,
And into ashes all my lust;
The grave’s a fine and private place,
But none, I think, do there embrace.

Now therefore, while the youthful hue
Sits on thy skin like morning dew,
And while thy willing soul transpires
At every pore with instant fires,
Now let us sport us while we may,
And now, like amorous birds of prey,
Rather at once our time devour
Than languish in his slow-chapped power.
Let us roll all our strength and all
Our sweetness up into one ball,
And tear our pleasures with rough strife
Thorough the iron gates of life:
Thus, though we cannot make our sun
Stand still, yet we will make him run.

(Andrew Marvell)

        

À sua dama recatada

(primeira tentativa)

Fosse-nos o mundo, o tempo, lato,
não fora crime, amor, teu recato;
para nos sentarmos, a supor
planos de nossos dias de amor;
tu, a caçar no Ganges indiano
seus rubis, e eu, em desengano,
a chorar no Humber. Até antes
do Dilúvio seríamos já amantes;
e enjeitarias convites meus
até a conversão dos judeus;
mais que impérios, a crescer vultoso
o amor vegetal, e mais moroso.
Um século para venerar
teus olhos, e a fronte admirar;
outros dois em cada seio arfante
mas trinta mil anos ao restante;
uma era em cada canto e beira,
e teu coração na derradeira.
Pois és digna, dona, desses bens,
e por menos eu não te amo também.

         Mas escuto sempre, agalopado,
chegando, o carro do tempo alado;
e adiante, só podemos ver, decerto,
a vasta eternidade, em deserto.
Teus encantos não mais verei,
nem nos teus mármores entoarei
meu canto ecoante; e o verme há de
roer a bem guardada virgindade,
e em pó tornar esse teu pudor
e em cinzas só todo o meu ardor.
A tumba é um lugar bem reservado,
mas ninguém nela está acompanhado.

         E, então, ora, enquanto se assenta o
viço em teu rosto, feito relento,
e na alma consentes e transpiras
de cada poro rápidas piras,
ora folguemos, com rapidez,
devorando o tempo de uma vez
como fôssemos ave rapace,
e ele, então, lento, nos devorasse.
E embrulhemos todo nosso arroubo
e delicadeza num só globo.
rasgando o gozo em lutas doídas
no férreo portão de nossas vidas.
E, assim, podemos não deter o halo
do sol, mas iremos apressá-lo.

(Andrew Marvell, tradução de Adriano Scandolara)

        

À sua dama recatada

(segunda tentativa)

Se nos sobrasse, dona, mundo e dias,
justo, o teu pudor seria,
p’ra sentarmos, com planos por urdir
dos dias de amor por vir;
tu, com rubis no Ganges indiano,
e eu, chorando o desengano
No Humber. E ansiaria anos antes
do Dilúvio ser-te o amante;
e enjeitarias os convites meus
’té a conversão dos judeus;
cresceria o arbóreo amor, vultoso
mais que impérios, mais moroso.
Cem anos a apreender o teu olhar
e a tua fronte venerar;
duzentos anos, cada seio arfante,
mas trinta mil no restante;
uma era em cada canto, cada beira,
e o ventre na derradeira.
Não és indigna, cara, dessa herdade,
nem por menos quero amar-te.

         Só que ouço como chega, agalopado,
o carro do tempo alado;
e adiante e vasta, só se vê, decerto,
a eternidade, um deserto.
Sei que os encantos teus não mais verei,
nem no mármore entoarei
meu canto em ecos; e eis que o verme há de
espoliar tua virgindade,
e ao pó reduzirá o recato teu,
e em cinza o desejo meu.
O túmulo é um lugar bem reservado,
só não se entra acompanhado.

         E agora, então, enquanto em ti se assenta o
viço ao rosto, qual relento,
e n’alma tu consentes e transpiras
dos poros rápidas piras,
devoremos, então, com rapidez,
todo o tempo de uma vez
qual ave fôssemos, no amor, rapace,
e ele lento, nos tragasse.
E ora embrulhemos todo nosso arroubo
e brandura num só globo.
rasgando o gozo em luta dolorida
nos férreos portões da vida.
E, assim, se não podemos deter o halo
do sol, hemos de apressá-lo.

(Andrew Marvell, tradução de Adriano Scandolara)

        

À sua senhora pudica

Se nós tivéssemos mais tempo e mundo
mal não seria o teu pudor profundo
nós sentaríamos tramando um modo
de caminhar passar um dia todo.
você no ganges indiano iria
achar rubis & eu me lamentaria
na foz do humber. te amaria indúbio
até dez anos antes do dilúvio
tu poderias recusar-me então
até judeus buscarem conversão
meu amor vegetal tem crescimento
mais vasto que os impérios & mais lento.
até que inteiro um século eu passasse
no louvor dos teus olhos tua face
dois séculos no ardor de cada seio
trinta mil anos no mais puro anseio
ia uma era a cada teu trejeito
para na última invadir-te o peito
querida isso é tudo que mereces
nem quero amar-te menos pelas preces.

         mas sempre escuto às costas assombrado
o carro em que se achega o tempo alado
e à nossa frente vejo longe e perto
a vasta eternidade num deserto
tua beleza não se encontrará
nem nos teus mármores ecoará
meu canto & aos vermes vejo devorada
a longa virgindade mais guardada
& a tua honra condenada ao pó
& o meu desejo relegado à mó
a cova é requintado e fino paço
porém ninguém nos vem naquele abraço.

         portanto agora que vigora o viço
na tua pele feito orvalho passadiço,
& n’alma consentida mais transpiras
por cada poro em instantâneas piras
gozemos quanto possa a nossa sina
como amorosas aves de rapina antes
sorver o tempo num segundo
que fenecer em seu poder sem fundo
com a fúria e o fulgor que nos anima
rolemos esta bola morro acima
rasgando os gozos numa dura lida
pelos portões de ferro desta vida
Verdade o sol não pode ser parado
correndo é que ele fica ao nosso lado.

(Andrew Marvell, tradução de Guilherme Gontijo Flores)

        

à amada esquiva

dessem-nos tempo e espaço afora
não fora crime essa esquivez, senhora.
sentar-nos-íamos tranqüilos
a figurar de modos mil os
nossos dias de amor. eu com as águas
do humber choraria minhas mágoas;
tu podias colher rubis à margem
do ganges. que eu me declarasse
dez anos antes do dilúvio! teus
nãos voltar-me-iam a face
até a conversão dos judeus.
meu amor vegetal crescendo vasto,
mais vasto que os impérios, e mais lento,
mil anos para contemplar-te a testa
e os olhos levaria. mais duzentos
para adorar cada peito,
e trinta mil para o resto.
um século para cada parte,
o último para o coração tomar-te.
pois, dama, vales tudo o que ofereço,
nem te amaria por mais baixo preço.
mas ao meu dorso eu ouço o alado
carro do tempo, perto, perto,
e adiante há apenas o deserto
sem fim da eternidade.

tua beleza murchará mais tarde,
teus frios mármores não soarão
com ecos do meu canto: então
os vermes hão de pôr à prova
essa comprida virgindade,
tua fina honra convertendo em pó,
e em cinzas meu desejo. a cova
é ótimo e íntimo recanto. só
que aos amantes não serve de alcova.
agora, enquanto pousa a cor
da juventude em ti como na flor
o orvalho, enquanto por
todo poro teu a alma transpira
com urgentes fogos,
entreguemo-nos aos jogos
do amor e, amantes aves de rapina,
antes de um golpe devoremos nosso tempo
que enlagueçamos em seu lento
queixo. enrolemos nosso alento
e suavidade numa só esfera.
e rasguemos prazeres como feras
pelos portões férreos da vida.
assim, se não sustamos nosso sol,
ao menos o incitamos à corrida.

(Andrew Marvell, tradução de Augusto de Campos)

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