poesia, tradução

Hans Magnus Enzensberger (1929)

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Hans Magnus Enzensberger é um poeta, ensaísta e tradutor alemão nascido em 1929 e considerado por muitos o maior poeta vivo da língua. Criou-se em Nuremberg, a terra natal do nazismo, e passou pela guerra entre 44 e 45, tendo sido convocado, inclusive, pela Juventude Hitlerista, da qual foi expulso não muito tempo depois. Tinha 15 anos quando a Segunda Guerra acabou e 28 quando lançou seu primeiro livro de poemas, Verteidigung der Wölfe (Defesa do Lobo, 1957), que lhe rendeu, pelo seu forte tom de revolta política, o apelido de “jovem irado” e que continuou e continua firme em sua produção até hoje – ainda que o tom colérico tenha aos poucos  dado espaço a uma ironia e um senso de humor (negro) mais refinado.

Talvez a sua maior obra poética — ou pelo menos seu projeto mais ambicioso — seja Der Untergang der Titanic (O Naufrágio do Titanic, 1978), um longo poema épico-lírico (e com o subtítulo de “uma comédia” ainda por cima) que enxerga nessa catástrofe, que lhe dá seu título e que põe em xeque toda uma crença progressivista no avanço tecnológico, uma imagem para o fracasso da empreitada utópica ocidental como um todo, ao mesmo tempo em que, como comenta o crítico Alasdair King (em seu livro Hans Magnus Enzensberger: Writing, Media, Democracy), Enzensberger “sugere estratégias positivas para combater o barbarismo, a desilusão e a repressão, na vida ordinária e nos prazeres dos atos criativos”.

Além de uma boa parte de sua obra em prosa já ter sido traduzida, temos em português, até onde sei, dois volumes de poemas de Enzensberger. Um é O Naufrágio do Titanic, uma tradução integral (mas não bilíngue), realizada por José Marcos Mariani de Macedo, dos 33 cantos que compõem o Der Untergang (Companhia das Letras, 2000). E o outro, Eu falo dos que não falam, traduzido por Armindo Trevisan e Kurt Scharf (Brasiliense e Instituto Goethe, 1985), consiste numa antologia bilíngue mais ampla, contendo poemas dos livros Verteidigung der Wölfe , Landessprache, Blindenschrift, Gedichte 1955-1970: Davor, Gedichte 1955-1970: Danach, trechos do Der Untergang, e Die Furie des Verschwindens.

Eu já citei um trecho do Naufrágio do Titanic num post anterior aqui do escamandro sobre relações entre poesia, ideologia, poder e linguagem (clique aqui), mas é agora, dada a ocasião nada comemorativa dos 50 anos do Golpe, que os versos ácidos de Enzensberger – tanto os dos poemas mais antológicos como “Defesa dos lobos” quanto os dos pouco menos conhecidos, mas ainda assim pungentíssimos em nosso contexto, como “Os desaparecidos” – mais ganham impacto e se fazem necessários. As traduções abaixo foram retiradas dos dois volumes, Eu falo dos que não falam e O Naufrágio do Titanic, respectivamente.

PS: para mais traduções de Enzensberger, vide as seguintes postagens no blog da Modo de Usar & Co. e no blog pessoal do Ricardo Domeneck, clicando aqui, aqui e aqui.

(Adriano Scandolara)

 

Para o livro de literatura de segundo grau

Não leias odes, meu filho, lê os horários
(dos trens, dos ônibus, dos aviões):
são mais exatos. Abre os mapas náuticos
antes que seja tarde demais. Sê vigilante, não cantes.
Chegará o dia em que eles, de novo, pregarão listas
no portão e desenharão marcas no peito daqueles que dizem
não. Aprende a ir incógnito, aprende mais do que eu:
a mudar de bairro, de passaporte, de rosto.
Entende da pequena traição,
da salvação suja de todos os dias. Úteis
são as encíclicas para se fazer fogo,
e os manifestos: para a manteiga e sal
dos indefesos. É preciso raiva e paciência
para se soprar nos pulmões do poder
o fino pó mortal, moído
por aqueles, que aprenderam muito,
que são exatos, por ti.

 

Ins Lesebuch für die Oberstufe

lies keine oden, mein sohn, lies die fahrpläne:
sie sind genauer, roll die Seekarten auf,
eh es zu spät ist. sei wachsam, sing nicht.
der tag kommt, wo sie wieder listen ans tor
schlagen und malen den neinsagern auf die brust
zinken, lern unerkannt gehn, lern mehr als ich:
das viertel vechseln, den paß, das gesicht.
versteh dich auf den kleinen verrat,
die tägliche schmutzige rettung. nützlich
sind die enzykliken zum feueranzünden,
die manifeste: butter einzuwickeln und salz
für die wehrlosen, wut und geduld sind nötig,
in die lungen der macht zu blasen
den feinen tödlichen staub, gemahlen
von denen, die viel gelernt haben,
die genau sind, von dir.

 

Defesa dos lobos contra os cordeiros

Querem que o abutre coma miosótis?
O que exigem do chacal,
do lobo, que mude de pele? Querem
que ele mesmo extraia seus dentes?
O que é que não apreciam
nos comissários políticos e nos papas,
por que olham, feito burros,
o vídeo mentiroso?

Quem costura a faixa de sangue
nas calças do general? Quem
trincha, diante do agiota, o capão?
Quem pendura orgulhoso, a cruz de lata
sobre o umbigo que ronca de fome? Quem
aceita a propina, a moeda de prata,
o centavo para calar-se? Há
muitos roubados, poucos ladrões; quem
os aplaude, quem
lhes põe insígnias no peito, quem
é sequioso de mentiras?

Olhem-se no espelho: covardes,
temendo a fadiga da verdade,
sem vontade de aprender, entregando
o pensar aos lobos
um anel no nariz como adorno preferido
nenhuma ilusão burra o bastante, nenhum consolo
barato o suficiente, cada chantagem
ainda é clemente demais para vocês.

Ó cordeiros, irmãs
são as gralhas comparadas a vocês:
vocês se arrancam os olhos uns aos outros.
Fraternidade reina
entre os lobos:
andam em alcatéias.

Louvados sejam os salteadores: vocês
convidam para o estupro
deitando-se no leito preguiçoso
da obediência. Mesmo gemendo
vocês mentem. Querem
ser devorados. Vocês
não mudam o mundo.

 

Verteidigung der Wölfe gegen die Lämmer

soll der geier vergissmeinicht fressen?
was verlangt ihr vom schakal,
dass er sich häute, vom wolf? soll
er sich selber ziehen die zähne?
was gefällt euch nicht
an politruks und an päpsten,
was guckt ihr blöd aus der wäsche
auf den verlogenen bildschirm?
wer näht denn dem general
den blutstreif an seine hose? wer
zerlegt vor dem wucherer den kapaun?
wer hängt sich stolz das blechkreuz
vor den knurrenden nabel? wer
nimmt das trinkgeld, den silberling,
den schweigepfennig? es gibt
viel bestohlene, wenig diebe; wer
applaudiert ihnen denn, wer
steckt die abzeichen an, wer
lechzt nach der lüge?

seht in den spiegel: feig,
scheuend die mühsal der wahrheit,
dem lernen abgeneigt, das denken
überantwortend den wölfen,
der nasenring euer teuerster schmuck,
keine täuschung zu dumm, kein trost
zu billig, jede erpressung
ist für euch noch zu milde.

ihr lämmer, schwestern sind,
mit euch verglichen, die krähen:
ihr blendet einer den anderen.
brüderlichkeit herrscht
unter den wölfen:
sie gehen in rudeln.

gelobt sein die räuber: ihr,
einladend zur vergewaltigung,
werft euch aufs faule bett
des gehorsams. winselnd noch
lügt ihr, zerrissen
wollt ihr werden. ihr
ändert die welt nicht.

 

Os Desaparecidos

Não foi a terra que os engoliu. Foi o ar?
Tão numerosos como a areia, mas não se tornaram
areia, e sim nada. Em massa
Foram esquecidos. Muitas vezes, de mãos dadas,

como os minutos. Mais do que nós,
porém sem memória. Não registrados,
não decifráveis no pó, mas desaparecidos
seus nomes, colheres e solas.

Não nos fazem arrepender. Ninguém
os lembra: nasceram,
fugiram, morreram? Saudade deles
não se sente. Sem vazios
é o mundo, porém seguro
pelos que não moram nele,
os desaparecidos. Eles estão em todas as partes.

Sem os ausentes não haveria nada.
Sem os fugitivos nada seria firme.
Sem os esquecidos nada seria certo.

Os desaparecidos são justos.
Assim também se vão nossos búzios

 

Die Verschwundenen

Nicht die Erde hat sie verschluckt. War es die Luft?
Wie der Sand sind sie zahireich, doch nicht zu Sand
sind sie geworden, sondern zu nichte. In Scharen
sind sie vergessen. Häufig und Hand in Hand,

wie die Minuten. Mehr als wir,
doch ohne Andenken. Nicht verzeichnet,
nicht abzulesen im Staub, sondern verschwunden
sind ihre Namen, Löffel und Sohlen.

Sie reuen uns nicht. Es kann sich niemand
auf sie besinnen: Sind sie geboren,
geflohen, gestorben? Vermißt
sind sie nicht worden. Lückenlos
ist die Welt, doch zusammengehalten
von dem was sie nicht behaust,
von den Verschwundenen. Sie sind überall.

Ohne die Abwesenden wäre nichts da.
Ohne die Flüchtigen wäre nichts fest.
Ohne die Vergessenen nichts gewiß.

Die Verschwundenen sind gerecht.
So verschallen wir auch.

 

Breve História da Burguesia

Este foi o momento, quando nós,
sem os apercebermos, durante cinco minutos
estávamos imensamente ricos, generosamente
refrigerados com a eletricidade no verão,
ou caso fosse o inverno,
a lenha, trazida de longe via aérea, ardia
em lareiras estilo renascentista. Curioso:
havia tudo, vindo por avião,
de certa maneira automaticamente. Elegantes
éramos, ninguém nos aturava.
Jogávamos pelas janelas concertos de solistas,
chips, orquídeas, embrulhadas em celofante. Nuvens
que diziam “Eu”. Únicos!

Íamos a todas as partes em vôos de carreira. Mesmo os nossos suspiros
eram pagos com cartões de crédito. Xingávamos
como gralhas, todos ao mesmo tempo. Cada um
guardava a sua própria desgraça debaixo do assento,
à mão. Que pena!
Era tão prático. A água
corria à toa das torneiras.
Lembram-se? Simplesmente atordoados
por nossos sentimentos minúsculos
comíamos pouco. Se soubéssemos
que tudo passaria
em cinco minutos, teríamos saboreado
bem mais, muito mais, o roast-beef Wellington.

 

Kurze Geschichte der Bourgeoisie

Dies war der Augenblick, da wir,
ohne es zu bemerken, fünf Minuten lang
unermeßlich reich waren, großzügig
und elektrisch, gekühlt im Juli,
oder für den Fall daß es November war,
loderte das eingeflogene finnische Holz
in den Renaissancekaminen. Komisch,
alles war da, flog sich ein,
gewissermaßen von selber. Elegant
waren wir, niemand konnte uns leiden.
Wir warfen um uns mit Solokonzerten,
Chips, Orchideen in Cellophan. Wolken,
die Ich sagten. Einmalig!

Überallhin Linienflüge. Selbst unsre Seufzer
gingen auf Scheckkarte. Wie die Rohrspatzen
schimpften wir durcheinander. Jedermann
hatte sein eigenes Unglück unter dem Sitz,
griffbereit. Eigentlich schade drum.
Es war so praktisch. Das Wasser
floß aus den Wasserhähnen wie nichts.
Wißt ihr noch? Einfach betäubt
von unsern winzigen Gefühlen
aßen wir wenig. Hätten wir nur geahnt,
daß das alles vorbei sein würde
in fünf Minuten, das Roastbeef Wellington
hätte uns anders, ganz anders geschmeckt.

(Hans Magnus Enzensberger, traduções de Armindo Trevisan & Kurt Scharf)

 

O Naufrágio do Titanic

 

Canto quinto

Roubem o que lhes roubaram,
tomem finalmente o que lhes pertence, ele gritou,
tremendo de frio em seu casaco pequeno demais,
os cabelos ondeando ao vento, sob os gavietes,
estou com vocês, ele gritou,
o que estão esperando? Chegou
a hora, botem abaixo os tabiques,
atirem os canalhas ao mar
junto com suas malas, cães e lacaios,
as mulheres inclusive e até as crianças,
com violência, com facas, com mãos nuas!
E mostrou-lhes a faca,
mostrou-lhes a mão nua.

Mas a gente da terceira classe,
todos eles imigrantes, permanecia quieta
na escuridão e tirava calmamente
suas boinas da cabeça e o escutava.

Quando é afinal que vocês querem
se vingar, se não for agora?
Ou será que não suportam ver sangue,
além daquele dos seus filhos e do seu próprio?
E ele esfolou seu rosto
e cortou sua mão
e mostrou-lhes o sangue.

Mas a gente da terceira classe
Escutava-o sem abrir a boca.
Não porque ele não falasse lituano
(ele não falava lituano);
não porque estivessem bêbados
(tinham havia muito esvaziado
suas garrafas avelhantadas,
envoltas em panos grosseiros),
não porque tivessem fome
(se bem que fome eles tinham):

Não era nada disso. Não
era tão fácil explicar.
Eles bem que entendiam o que ele dizia,
mas não o compreendiam.
Suas palavras não eram as palavras deles.
Eram consumidos por outros medos
que não os dele, e por outras esperanças.
Deixavam-se ficar, pacientes,
com seus alforjes, seus rosários,
seus filhos raquíticos
junto aos tabiques; abriam espaço,
escutavam-no, respeitosos,
e aguardavam o momento de afogar-se.

 

Canto décimo sexto

O naufrágio do Titanic é atestado por documentos.
Ele é coisa de poetas.
Ele garante uma elevada dedução fiscal.
Ele é mais uma confirmação das teses de Vladímir Ílitch Lênin.
Ele vai ao ar domingo à noite, logo após o programa de esportes.
Ele é impagável.
Ele é inevitável.
Ele é melhor do que nada.
Ele folga na segunda-feira.
Ele é ecológico.
Ele abre caminho para um futuro melhor.
Ele é arte.
Ele gera empregos.
Ele aos poucos nos dá nos nervos.
Ele é protegido por lei.
Ele tem respaldo das massas.
Ele vem a calhar.
Ele funciona.
Ele é um espetáculo de beleza empolgante.
Ele devia dar o que pensar aos responsáveis.
Ele também não é mais o que costumava ser.

(Hans Magnus Enzensberger, tradução de José Marcos Mariani de Macedo)

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Dos paradoxos da linguagem: 3 poemas

Nós aqui do escamandro costumamos pegar leve com questões teóricas, em parte porque não temos a pretensão de fazer de nosso blog um reduto acadêmico (e, mais do que isso, ficaremos incrivelmente contentes se pudermos contribuir para, na verdade, tirar a poesia um pouco do domínio burocrático e dogmático da academia)… no entanto, dito isso, se há um teórico ao qual eu me vejo sempre retornando, esse seria George Steiner. Apesar de ter seus problemas (e qual teórico não tem?), eu gosto muito de seu livro Depois de Babel (1975), e uma de minhas passagens preferidas (pois o estilo de Steiner envolve longas digressões e erranças pelo texto que fazem com que cada capítulo aborde uma miríade de assuntos) diz respeito ao porquê do hermetismo da poesia moderna. Resumidamente, Steiner comenta como os poetas do final do século XIX/começo do século XX passam a perceber que não podem continuar escrevendo do mesmo modo – um modo claro, segundo Steiner, “confortável com a linguagem” – como se escrevia predominantemente até então, o que se dá por uma série de motivos, dentre os quais está a percepção da falta de sentido da linguagem, que faz com que ela se torne uma prisão. Não é a toa que é mais ou menos nesse período que começamos a ver surgirem as noções de Nietzsche, da língua como formada de “metáforas gastas” (como moedas que perderam a efígie) e, mais tarde, as de Saussure sobre a arbitrariedade do signo.

Mas alguém poderia se perguntar “como assim falta de sentido da linguagem?”… pois bem, evidentemente não é de hoje (nem mesmo do século retrasado) que as pessoas percebem de que nem sempre a linguagem dá conta de exprimir o que se quer exprimir. Dante mesmo, lá no século XIII, apresenta em vários momentos da Comédia trechos sobre como a linguagem humana fracassa diante da tentativa de representar as torturas do inferno e as graças do paraíso. Cito abaixo um desses exemplos dantescos, tirado do Canto XXXII do Inferno, quando Dante e Virgílio adentram o último círculo (onde está Satã), e os horrores vão se tornando impronunciáveis:

Tivesse eu rimas rudes e rouquenhas
que ao fim do fosso só convir presumo,
pra o qual apontam todas as suas penhas,

espremeria de meu conceito o sumo
melhor, mas não as tendo, só com grã
temor, ao meu relato o encargo assumo;

que não é pra quem julgue-a empresa chã
a descrição do fundo do Universo,
nem pra língua que diz papá e mamã.

(vv. 1-9, tradução de Italo Eugenio Mauro)

Mas é com esse momento mais avançado da modernidade (“avançado” aqui no sentido puramente temporal mesmo) que esses problemas passam a representar uma grande preocupação poética.

Poderíamos apontar ainda para as questões dos problemas do discurso ideológico: tanto Steiner quanto o crítico/teórico Terry Eagleton concordam que a linguagem ideológica se vale dessas falhas da linguagem comum do cotidiano para legitimar uma estrutura de poder, e o exemplos que eles dão concernem à polissemia da palavra “liberdade”, que pode significar (e mais do que isso, legitimar) praticamente qualquer coisa, dependendo de quem a enuncia. Outro crítico ainda, chamado Stuart Curran, aponta para o problema do ato de dar nomes, na medida em que nomear é reduzir uma coisa real a uma abstração, e a ideologia novamente extrapola esse ato ao simplificar (muitas vezes grotescamente) o mundo.

Sendo assim, como poder falar do humano, dos problemas humanos, do amor, do sofrimento, da tirania, do espírito, etc, sendo a linguagem tão maculada de mentiras? Novos modos de expressão se fazem necessários, e, embora boa parte da crítica pareça reservar a palavra “hermetismo” para tratar de poetas como Mallarmé e Celan, acredito, com Steiner, que mesmo com poetas contemporâneos que sejam bastante claros em sua dicção, há alguma dificuldade no que ele ou ela quer dizer com aquelas palavras, que é muito diferente do que se tem com uma poesia mais clássica. Uma poesia que se põe contra uma noção de naturalidade da linguagem, justamente por essa naturalidade ser enganosa.

Poderíamos discorrer muito mais sobre isso, mas não planejo fazer deste post um ensaio sobre o tema. Esta é só uma minúscula introdução para dar um pequeno exemplo da recorrência dessa temática em alguns poetas contemporâneos muito distintos, que, espero, mostram como essa questão não é somente uma preocupação teórica.

São eles, em ordem de apresentação aqui: a polonesa Wislawa Szymborska (1923-2012), o carioca Carlito Azevedo (1961) e o alemão Hans Magnus Enzensberger (1929).

(Adriano Scandolara)

As três palavras mais estranhas

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum ser.

Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien. (Poemas, pela Cia das Letras)

*

Agulhas de Amianto

Órion

Órion
desabalada
deixando cair
os pingentes de
sua écharpe
sobre a água
de outra
estrela

Serpente

depois de Sebastião U Leite

O nome
como veneno
e o poema como
antídoto
extraído ao
próprio
nome

O nome

O poema como
uma serpente de bronze
que só não obedece ao próprio
nome (se entre tantos possíveis
dissermos o seu verdadeiro nome
et qui dit amour, dit pistolet
será o fim, o escuro, a
desintegração)

Pirâmide

para Luciana Whitaker

Quando
retiraram o
último bloco de
pedra que a prendia
ao solo a pirâmide
flutuou

Epílogo

“De onde sai o que sei?”
perguntei à cabeça caída
“Daqui”
lábios sem rosto responderam

Carlito Azevedo (Sublunar, pela 7Letras)

*

Razões adicionais para os poetas mentirem

Porque o momento
no qual a palavra feliz
é pronunciada
jamais é o momento feliz.
Porque quem morre de sede
não pronuncia sua sede.
Porque na boca da classe operária
não existe a palavra classe operária.
Porque quem desespera
não tem vontade de dizer:
“Sou um desesperado”.
Porque orgasmo e orgasmo
não são conciliáveis.
Porque o moribundo em vez de alegar:
“Estou morrendo”
só deixa perceber um ruído surdo
que não compreendemos.
Porque são os vivos
que chateiam os mortos
com suas notícias catastróficas.
Porque as palavras chegam tarde demais,
ou cedo demais.
Porque, portanto, é sempre um outro,
sempre um outro
quem fala por aí,
e porque aquele
do qual se fala
se cala.

Hans Magnus Enzensberger, tradução de Kurt Scharf & Armindo Trevisan. (Eu falo dos que não falam, editora Brasiliense)

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