2 poemas sobre ilustrações de leonardo MAthias

o poeta e ilustrador leonardo MAthias já não é nenhum estranho por estas bandas, e, em um de seus trabalhos mais recentes – a chamada série massas – ele vem desenvolvendo uma forma de diálogo entre imagem e poesia, de maneira, talvez, análoga à do trabalho que desenvolveu em sua exposição as janelas de rilke. No entanto, ao contrário das janelas, onde as ilustrações foram criadas depois dos poemas (e, afinal, nem teria como ser antes), na série massas, as imagens altamente estilizadas e ambíguas de MAthias são o ponto de partida para os poetas convidados escreverem seus poemas, de modo que cada poema está ligado à sua imagem numa relação que não constitui nem sua explicação, nem uma écfrase, mas uma outra coisa. do escamandro, nós dois – adriano e guilherme – fomos convidados pelo MAthias para contribuir, e, junto dos paulistanos anderson lucarezi e leandro rafael perez, compomos o quadro dos poetas até então envolvidos no projeto, que deverá receber mais imagens, poemas e poetas ainda no futuro.

a série completa (isto é, até o momento), você vê neste link aqui.

(adriano scandolara & guilherme gontijo flores)

             

leonardo MAthias - do silêncio intuído

do silencio intuido.

por uma história da alegria
feito escada elevada
além do chão tão alta
até que alguém pensasse
que todo o feito estava
apenas em chegar ao pé
dessa escada suspensa no ar
como se fôssemos somente
o sonho intranquilo
daquela borboleta

(guilherme gontijo flores)

             

leonardo MAthias - verdade é o que se esconde

verdade é o que se esconde.

Vulto contra lâmpada apagada
que, se acesa,
sumiria,
               caindo
os panos das sombras, e elas planas se apressando
para os cantos feito ratos.

Vulto
talvez do tempo carrancudo
a devorar os próprios filhos,
a morte, pérola
oculta em profundezas
do corpo como do sol,
nisso que míopes vemos como
sua viagem diária
para morrer no horizonte,

e o tempo talvez não saibamos
devore a si mesmo.

(Adriano Scandolara)

los caprichos de goya

hola, chicos.
indo direto ao assunto, acho que é meu dever trazer um pouco à luz o tesouro que está exposto no museu oscar niemeyer aqui em curitiba e sair um pouco do assunto usual neste blog distinto e garboso.
fato é que nem sempre temos notícia do que está no circuito de exposições dentro da cidade, mesmo em caso de nomes de grande expressão como o de goya. por isso, faço essa pequena contribuição em nome de uma das melhores exposições que já vi.

43. el sueño de la razón produce monstruos
43. el sueño de la razón produce monstruos: el autor soñando. su intento solo es desterrar vulgaridades prejudiciales y perpetuar con esta obra de caprichos, el testimonio sólido de la verdad.

pertencente ao instituto cervantes de madrid, los caprichos é uma série de 80 gravuras (tendo essa série atual sido impressa em 1929. existem vários artigos bastante completos na internet contando a história da coleção, como esse) que satirizam a sociedade espanhola de fins do séc. xviii, com atenção especial à nobreza e o clero (como diz toda a descrição que você procurar pela internet), mas dando muita atenção também a costumes vulgares e lendas populares de tradição espanhola. as técnicas utilizadas são predominantemente mistos de água-forte, água-tinta e ponta seca. seus traços de tendência deformante e bastante caricatural trazem um ar bastante moderno (às vezes até novecentista) para o trabalho. por vezes é possível notar claramente reminiscências expressivas da própria “musa” de goya em algumas mulheres, enquanto ao mesmo tempo se vê inúmeras criaturas do imaginário fantástico e sujeitos que pareciam ter sido tirados de histórias em quadrinhos. é uma mescla versátil e impressionante de um extenso trabalho criativo de um dos artistas mais impressionantes que eu vi nos últimos tempos.
todas as gravuras são acompanhadas por um pequeno texto. há, abaixo da imagem, um título, e ao lado um tipo de legenda em formato de aforismo (ou desaforismo, na maioria dos casos). isso se pode ver na gravura reproduzida acima, por exemplo. e é principalmente por causa disso que me motivei em trazer esse post ao blog. certamente que ler 80 legendas de 80 gravuras, observando-as atentamente, é cansativo, ainda mais se a altura das plaquinhas na exposição não está lá tão bem adequada (recomendamos uma pausa em algum banquinho no meio do espaço. ponha-se guapo e observe as moçoilas). aliás, observei no museu que muitas pessoas passavam batido pelo texto. fato é, entretanto, que 50% do sentido do trabalho se constrói exatamente pelo efeito do texto sobre a obra visual, e as duas se complementam.  os aforismos, em grande parte extremamente ácidos, em outra parte de tom reflexivo-filosófico, são por si só admiráveis (pra quem gosta da arte da ironização, como quem vos fala, é um prato cheio). isso me levou a ver algo em que eu acreditava há muito tempo ser possível em uma exposição de artes visuais mas nunca tinha visto realizado com tal nível de acerto, que é essa congregação completamente prática entre texto e imagem, de uma forma que se complementem fifty-fifty, sem sobreposição de um pelo outro, etc. saber tudo sobre a coleção, os mais curiosos podem fazê-lo facilmente em links como o que eu indiquei. mas e essa sutileza para entendê-los como um, sensivelmente? esse é precisamente o ponto que eu acredito ser mais importante. o troço é muito poético.

55. hasta la muerte
55. hasta la muerte: hace bien en ponerse guapa; son sus días; cumple setenta y cinco años y vendrán las amigas a verla.

comentários ponderados e com olhos críticos são justo o que não vemos pela internet. asneiras como “é preciso ter um espírito livre para poder apreciar a mostra” (G1) ou “goya criticou nesta estampa a violência na educação das crianças” (wikipedia) mais atrapalham que ajudam. embora ironicamente fortes, como eu já disse acima, as obras têm o poder de causar uma séria empatia com suas temáticas, já que correm desde a figuração de personagens do dia-a-dia até as absurdidades das hierarquias sociais, para culminarem na utilização de seres fantásticos, como bruxas, anões, duendes, demônios, etc, para a contação de lendas familiares. goya atua magistralmente como um crítico de sua época, tanto com seu texto como com a técnica que é de cair o queixo. a metáfora das “galinhas”, por exemplo, é um dos pontos altos da exposição, e podem ser vistas no capricho n. 72, reproduzido abaixo, embora estejam presentes de forma mais contundente em muitas outras.

 

72. no te escaparás
72. no te escaparás: nunca se escapa la que se quiere dejar coger.

por fim, concluindo que o goya é um alucinado, recomendo fortemente a presença nesse baile, que vai até 24 de abril do ano da graça de nosso senhor de 2012. pra quem gosta de surrealismo, fantástico ou de lendas e imaginário popular, é um prato cheio (embora qualquer pessoa com o mínimo de sensibilidade poética certamente deguste saborosamente a exposição). chega a ser chocante a composição que o artista dá a figuras e cenários, aos diabos que sempre aparecem sutilmente nos planos de fundo, às mãos esqueléticas das velhas e das bruxas, à perfeição dos tecidos, às anatomias magistrais, à criatividade e, por fim e mais legal de tudo, a integração com o texto que é de primeiríssima. termino o post reproduzindo um dos caprichos mais famosos da série, o n. 68, que está lá e com certeza é um dos melhores, embora seja praticamente impossível eleger um melhor.

Vinicius Ferreira Barth

68. linda maestra!
68. linda maestra!: la escoba es uno de los utensilios más necesarios a las brujas, porque además de ser ellas grandes barrenderas, como consta por las historias, tal vez convierten la escoba en mula de paso y van con ellaque el diablo las alcanzará.

 

Poemas de Ismael Nery

Continuando a série sobre poesia essencialista, posto aqui os poemas completos de Ismael Nery, ao menos os que chegaram até nós.

 

bernardo brandão

 

POEMA POST-ESSENCIALISTA (1931)

O silencio provocou-me uma necessidade irreprimível de correr. Abalei como uma flecha através dos mares e montanhas com incrível facilidade e sem cansaço. Eis-me agora sentado diante de uma paisagem em formação, ainda não colorida. O meu pensamento agora é que percorre o que acabei de percorrer, e admiro-me, então, de nada ter encontrado, senão ao chegar o rastro fosforescente que deixei ao partir. Os mares são agora ridículos lençóis d’água, de uns três ou quatro palmos de profundidade. As montanhas são nuvens estáticas, que o eterno medo dos homens transformará em granito. Tudo é pavorosamente desabitado. Não há leões nem elefantes nos desertos da África. Não existem as pirâmides nem a Torre Eiffel. Existe apenas eu mesmo, que me percebo inversamente por uma idéia que chamo mulher e que paira rarefeita sobre a superfície do globo – idéia incompreensível porque nada existe na terra além de mim mesmo. Volto a percorrer novamente o espaço, porém, desta vez, com a lentidão do crescimento das plantas, multiplicando-me progressivamente na minha idéia para mostrar-me a mim mesmo. Os mares, agora, são profundos e as montanhas se solidificaram. Aparecem leões e elefantes nos desertos da África. Construíram as pirâmides no Egito e levantaram a Torre Eiffel, em Paris, no ano em que um outro eu nascia em Belém do Pará. Tudo se povoou transbordantemente. Acho-me agora sentado na prisão, olhando sereno através das grades, aguardando o julgamento do crime nefando que cometi de usar a mim mesmo, na minha mãe, mulher, filha, neta, bisneta, tataraneta, nora e cunhada. Voltarei, ainda uma vez, para ser o meu próprio Juiz. Nada existe, além de mim mesmo, senão para mim.
Silêncio.

POEMA (1931)

Estou com o olho no telescópio que está dentro da barriga aberta da cúpula. Observo a lua, a filha da lua, a neta da lua, toda a família da lua, menos o marido dela. Eu gosto da cor da lua mas acho incompleta a sua forma. A lua é uma mulher gorda, que parece magra, magríssima, abstrata. Eu gosto das mulheres abstratas que vêm ao mundo sem pai nem mãe nem irmãos, e que não nasceram em nenhum país nem tão pouco no mar. Gosto mais de ter uma mulher em pé na minha cabeça do que pendurada em meu pescoço. O meu pescoço, às vezes, não agüenta bem o peso da minha cabeça, porque ela está cheia de coisas que quase sempre eu não gosto. Tenho uma formidável atração pelo que detesto, inclusive eu mesmo. Ismael Nery: nunca consegui ouvir nem dizer este nome sem sentir uma comoção – mas não sei bem que espécie de comoção eu sinto ouvindo ou dizendo este nome. Há nomes também que me emocionam e me obrigam a inventar um físico para eles. Nunca vi ninguém que escapasse completamente a uma crítica minha – nem eu próprio. Terei que captar a minha sinceridade em alguém que não seja eu, e até muito pelo contrário – que seja bem diferente de mim. Preferiria olhar as mulheres de cabeça para baixo e suspenso por um fio de aço, do que de outra maneira qualquer. A desorganização das coisas não me agrada, também como a organização .Gostaria de ter um criado moral para arrumar o meu cérebro e consolar nas minhas ausências aqueles que moram comigo, de mim e para mim. O meu maior instinto é o da paternidade que aplico a tudo e a todos. A minha maior vontade era ser a sombra de tudo e de todos, afim de nascer e morrer com tudo e com todos e em todos os tempos. Não haverá um homem que me determine moral e fisicamente? Sou o gérmen de um Deus, toda a gente o é também.

A VIRGEM INÚTIL (1932)

Eu não lhe pertenci porque não quis
Não fui de ninguém e nem sou minha.
Nasci no dia 9 de julho de 1909
E não sei quando morrerei.
Fui criança que não brincou
E moça que não namorou.
Sou mulher que não tem desejos.
Serei velha sem passado.
Só gosto de estar deitada
Olhando não sei p’ra onde.
Passo horas sem pensar,
Passo dias sem comer,
Passo anos sem mexer
No quarto azul que me deram.
Nasci nele, vivo nele e nele talvez morrerei.
Se não aparecer aquele
Que sempre esperei sem cansaço
Que me fará levantar, andar e pensar,
Que me ensinará o nome de meus pais e das partes do meu corpo.
Eu espero alguém que talvez não venha
Mas sei que existe,
Porque sei que existo.

A NOIVA DO POETA (1932)

A minha noiva se reparte toda nas minhas quatro amantes,
Sarah, Esther, Ruth e Rachel.
Sarah tem o seu ar e o seu corpo,
Esther tem a sua cor e seus cabelos,
Ruth tem o seu olhar e seu andar,
Rachel tem sua boca e sua voz.
A minha noiva magnífica só existe
Na minha imaginação.

ISMAELA (1932)

A minha irmã é minha edição feminina e meu castigo.
Dá a todos o que eu nunca de mulher alguma recebi.
Se eu não soubesse que sou também o seu castigo
Há muito tempo que seria fratricida ou suicida.

POEMAS PRÉ-ESSENCIALISTAS (1932)

1

Três mulheres pariram de mim três filhos iguais
Samuel, Ismael e Israel.
O primeiro no mar, o segundo no ar, o terceiro no fogo.
A terra toda percorreram os três irmãos
Sem nunca se terem encontrado,
Sem nunca terem sabido o nome de seu pai
Que com eles andou,
Que pra eles deixou três mulheres iguais
Com as quais tiveram três filhos,
Samuel, Ismael e Israel.

2

Desde Eva que tu te repetes em formas inúteis
Para Samuel
Para Ismael
Para Israel
De quem és filha, mulher e mãe.
Ainda não atinaste, ó mulher!
Que só em mim, que só pra mim e só comigo
Não repetirás mais as tuas formas inúteis?!

3

Os filhos de minhas noras se parecem comigo
No andar
No pensar
No falar
E no ciúme que tenho
Da minha mãe,
Da minha mulher,
Da minha filha.
Os filhos das minhas noras se parecem com a avó.
Gostam de mim!

A MANHà(1932)

Acordei hoje com a desagradável e estranha sensação de que sou o único ser humano sobre a superfície da terra. Os outros homens me parecem animais que nenhuma relação poderão estabelecer comigo. Olho-os com uma indiferença notável – nem mesmo a profunda piedade que costumo ter por eles estou sentindo hoje. Recordo-me de fatos da minha vida, como se fossem histórias que me contaram. Noto que não me deixara marca nenhuma. A vida para mim está parecendo a coisa menos importante deste mundo. Poderei continuar a viver como poderei morrer neste instante. Isto me é absolutamente indiferente. Não sinto a necessidade de me mover nem de tomar resoluções. Uma senhora passou e me cumprimentou. Confesso que não a reconheci. Meu espírito está vagando sem curiosidade alguma sobre todas as coisas e idéias. Talvez por hábito. As vozes das pessoas que estão perto de mim me parecem ruídos sem nenhuma significação, como, por exemplo, o barulho que está fazendo a água que cai na caixa do banheiro. Olhei-me no espelho e achei excessiva a anatomia do meu corpo, sobretudo da minha cara. Para que olhos, para que boca, para quer nariz? Minha barbicha no queixo me parece mais inútil do que um seio para uma mulher que não foi mãe. O homem deveria ser uma bola com pensamentos. E das mulheres, que penso eu hoje? Nada! Aliás sempre pensei nelas muito pouco. Só costumo pensar no que me interessa. Creio que não existem neste mundo três mulheres que me possam interessar – pelo menos ao ponto de pensar nelas. E dos homens, que penso eu? Penso que foram feitos para as mulheres, muito mais do que o contrário . E de mim? Creio que eu seja uma coisa qualquer sem classificação, apenas com um a aparência humana. Será que minha inapetência pela vida seja resultado de falta de compreensão dela? Não creio! Creio mesmo o contrário. Mais do que o instinto de conservação, penso que seja a curiosidade a mola que nos impele para a vida – digo isto por experiência própria. Tenho a impressão de que nada mais poderei apreender e descobrir na vida. Esta deve ser a única razão do meu desinteresse por ela e do meu profundo desânimo. E a outra vida, como desejaria eu que ela fosse? Um repouso eterno numa paz infinita? Não! Isto mais ou menos foi o que eu sempre tive!… Eu queria que ela fosse a correção da minha vida da terra numa progressão infinita. Eu sou bastante medíocre!

A UMA MULHER (1932)

Eu queria ser o ar que te envolve
Desde o teu nascimento.
Eu queria ser o teu vestido que te esconde dos outros.
Eu queria ser tua camisa que te conhece em segredo,
Eu queria ser o leito onde te abandonas ao teu próprio frio.
Eu queria ser teu filho e teu amante.
Eu queria que fosses eu.
Eu queria ser teu amor e teu Deus.
Eu queria não existir.

INÉRCIA

O poeta quer se locomover.
Para que bonde, navio, avião e zeppelin
Se já te encontrei e estás comigo?!
Para que,
Se tu és para mim o universo inteiro?!
Para que,
Se estamos juntos da cabeça aos pés?!

O ENTE DOS ENTES (1933)

A minha mão gigante rasgou o céu e apareceu a figura do Ente dos entes. Houve confusão tremenda e os homens se misturavam, gritando; gritos de alegria, de dor, de espanto e de medo. Os sentidos dos homens se aperfeiçoaram e eles viram, ouviram e sentiram o que nunca tinham visto, ouvido e sentido. Houve, depois, consciência e todos se calaram. E olhavam pasmos a figura do Ente dos entes, que, para os homens era uma mulher e para as mulheres era um homem, e que apontava para três estrelas que giravam loucamente em volta de uma grande esfera de aço polido, que tinha a cabeleira como a de uma mulher e que, serena, caminhava girando sobre si mesma, para o ocidente. Depois, o Ente dos entes abriu suas vestes e mostrou no seu corpo fosforescente três nódoas vermelhas, duas na altura do ventre e uma em cima do coração. E falou em linguagem desconhecida. Ninguém entendeu o que disse o Ente dos entes, mas todos, no fim, sentiram um grande consolo. Na noite deste acontecimento os homens amaram como nunca tinham amado as suas amadas e estas conceberam filhos para que pudessem ver também o Ente dos entes, que prometeu voltar.
Houve paz temporária.

CONFISSÃO (1933)

Não quero ser Deus por orgulho.
Eu tenho esta grande diferença de Satã.
Quero ser Deus por necessidade, por vocação.
Não me conformo nem com o espaço nem com o tempo,
Nem com o limite de coisa alguma.
Tenho fome e sede de tudo,
Implacável.
Crescente.
Talvez seja esta a minha diferença de Deus.
Que tem fome e sede de mim,
Implacável,
Crescente,
Eterna
— De mim que me desprezo e me acredito um nada.

PRIMEIRA PARTE DO MEU POEMA (1933)

Os gemidos das nossas mães se misturaram na noite.
— A tua te punha na vida para mim,
A minha me lançava no mundo para todas.
És porém a minha grande favorita!
Tudo o tenho tem um pouco de ti.
— Os meus filhos, por exemplo,
Que aliás são teus.

POEMA PARA ELA (1933)

Acabaram-se os tempos.
Morreram as árvores e os homens,
Destruíram-se as casas,
Submergiram-se as montanhas.
Depois o mar desapareceu.
O mundo transformou-se numa enorme planície
Onde só existe areia e uma tristeza infinita.
Um anjo sobrevoa os destroços da terra,
Olhando a cólera de um Deus ofendido.
E encontrou nossos dois corpos fortemente enlaçados
Que a raiva do Senhor não quis destruir
Para eterna lembrança do maior amor.

Leonardo MAthias

chegou a hora do blog desegotizar, para além das traduções que andamos fazendo.

o primeiro trabalho que temos aqui é de leonardo MAthias, poeta e artista plástico de sampa; ele mesmo diz que “poesia, artes visuais e design são lugares nos quais também habita. oscila. via linguagem se exercita.”

e eu diria/acrescentaria ainda que ele se exercita via linguagens: ora como poeta (seu primeiro livro de poemas, de pé, saiu este ano pela editora patuá), ora como artista plástico e designer (as imagens do nosso blog são dele, mas seu trabalho no flickr); e o melhor, por vezes numa fusão entre linguagens, que geram poemas visuais ou visões poéticas, ou poemas em visão… ou algo que ainda não consigo nomear muito bem.

dito isso, eu poderia afirmar que o interessante em seu trabalho é, em grande parte, esse frescor visual nos poemas, ou essa poética da língua nas imagens. ao mesmo tempo em que se pode notar um certo “esfacelamento” (seria essa palavra le mot juste?) da objetividade; o que, é claro, não implica subjetivismo pura e simplesmente.

(eu diria que temos mais uma objetividade subjetivizada, ou uma subjetivação do objeto (e não se trata de mera síntese, solução para um problema, mas a reordenação do problema). talvez por isso sua poesia – e suas imagens – tenda a escapar por vezes (como no seu blog mais recente, jam : ensaio sob o escuro, pra entenderem o que digo) ao discursivo, ao querer-dizer.)

voltando ainda à minha tentativa – já fracassada – de definição, eu diria que não se trata exatamente de uma subjetivação do objeto (muito menos de uma representação do objeto – ainda que o leonardo mantenha um gosto pela arte figurativa). talvez pudéssemos falar de uma possibilidade da subjetivação do objeto, um rastro que só é possível pelo risco da leitura, pelo risco de arruinar sua representação. esse risco só pode ter lugar na materialidade da linguagem; e, no caso do leonardo, das suas linguagens: nos poemas, uma reordenação quase assemblage de imagens; no caso das imagens, o acúmulo de materiais ligados  ao traço – essa multiplicidade de texturas.

desisto, melhor é que vocês vejam estas duas imagens-poemas que ele nos cedeu.

guilherme gontijo flores