xanto

XANTO | Miragem de Soraya Madeiro: A esfoladura no tempo, por Bárbara Costa Ribeiro

“desde quando se prevê o amor
em que o tempo vai correr?” (Miragem, “alfabetização”, p. 9).

Na noite de 24 de novembro de 2018, em Fortaleza, foi lançado o livro de poemas Miragem, de Soraya Madeiro, pela editora Moinhos, estabelecida em Belo Horizonte.

Já o percorri algumas vezes, o livro, desde então. E constato, assim, que sua poesia, de maneira muito doce e insólita, me comove. Ou, como diria bem melhor Barthes, especificamente em O prazer do texto, a sua poesia faz entrar em crise a minha relação com a linguagem. Na simplicidade tamanha de um texto que me adivinha com singeleza, sinto uma súbita vontade de escrever-escrever-escrever, mas não sei como. Não é isso mesmo que fazem conosco os textos que nos atravessam?

Recrio memórias, invento memórias, tento reforjar toda uma vida, a partir das imagens que leio no livro. Mas minha linguagem está trocada, roubada, confusa e devolvida à infância, quando não há mais palavras, só figuras e sonhos. É como se quisesse, a minha linguagem, viver agora a vida de um outro alguém, a vida assustada e remota, que não é minha, que está no livro. Mas de quem? E que vida?

Penso na autoria do livro. Como pode o exercício memorioso de um texto alheio querer ser todo meu? Tento ignorar, uma vez mais, enquanto desfolho Miragem, que conheci a autora um dia, e convencer-me de que o pulsar reminiscente que há na poesia do livro não poderia ser meu. Mas poderia ser, justamente, o dela? Que coisa é uma autora?

Me vejo assim lançada numa empresa estranha. Tento ignorar que a vi, Soraya, um dia, tomando banho de sol no edifício Itália, a meu lado, quando sem querer alguém que estava conosco derramou amendoins na grama à beira da piscina. Tento ignorar que sei a que rosto pertence um nome e um sobrenome, o seu. Quero descobrir que vida habita o livro, esquecendo tudo. Mas como esquecer alguém tão humano, tão táctil, alguém cujas bochechas enrubescem e com quem se partilha amendoins?

Ou mesmo esquecer da ocasião em que a conheci, há alguns anos, num grupo de estudos em que, curiosamente, dedicávamo-nos a ler justo a obra de Maurice Blanchot, em toda a sua relação com a linguagem de ficção e o fora, o fora da vida, o centro móvel do texto. Foi, inclusive, por essa mesma época que eu, em um gesto radical e abrupto de bebê, que vai aprendendo ainda a andar por um terreno movediço, internalizei então a ferro e fogo a ideia de que jamais, jamais a vida e a obra de um autor poderiam se fundir, se encontrar. Era a lição que eu tomava de Blanchot, lendo-o como quem lesse uma bula. Tentava encontrar os caminhos pelo terreno arenoso.

Mas então, mais tarde, deparei-me com a fenda, a impossibilidade. Ou melhor, compreendi-a um pouco mais. O limiar entre a vida e a escritura, onde tudo se encontra e tudo se imbrica. Onde já não é mais possível discernir entre carne e espírito.

Sobre a fenda, essa fenda essencialmente erótica, é também Barthes quem segue dizendo – o mesmo que matou todos os autores do mundo, no que por muito tempo acreditei – que é justamente aí, na fenda, que se pode gozar um texto, gozá-lo em plenitude, no limite indecidível entre a verdade e a invenção, entre a memória e a ficção, entre a literatura e a vida. Diz ele: nem a cultura e nem a sua destruição, mas a fenda, a fenda é o erótico; nem a verdade, nem a memória: o prazer do texto, ou melhor, o seu gozo, está no encontro daquilo que não posso divisar ou definir.

De modo então que tento me desfazer da imagem de Soraya Madeiro, enquanto leio seu livro, mas já não o posso, e não o quero. Porque, muito embora eu saiba que um autor é sempre um outro, não posso ignorar que já a vi tão humana – a ponto mesmo de estar comendo amendoins. Caberiam tais coisas na poesia?

Acho que cabem. Mas é preciso recuar ainda dois ou três passos, pois mesmo na intimidade mais entranhada de uma amizade silenciosa, muitas vezes o outro permanece o mistério. Há de ser assim também na escritura. Não há eu que se desnude num texto: é sempre um outro, a diferença radical daquilo que já se foi um segundo atrás.

E aqui está todo este segredo de Miragem: é curioso o fato de que, muita embora a poesia de suas imagens me soem como a lembrança de um sonho antigo, ou mesmo como lembranças de mim, como se ele me entregasse, conforme eu leio, as recordações de um tempo já longínquo, e meu, que atravessa o “eu-outro” do texto e vem se alojar justo dentro de meu peito, essa lembrança fictícia me rouba de tudo, instaura o mistério absoluto do texto memorioso: que me nega a própria matéria da vida de que finge se recordar.

Minha linguagem está, assim, quebrada, eu dizia. Sinto forte vontade de escrever, rememorar um tempo: mas este tempo não me pertenceu. Teria pertencido a sua autora? Não sei. A vida é um mistério. Como o par de meninos-anjos, na prosa poética que praticamente inaugura o livro. Penso em cedros e sicômoros e outros vegetais. Penso em Dante, em Ana Cristina César. Que teriam a ver todas essas imagens? Miragem é um livro que habilita a vontade de escrever, sobre algo, sobre um eu, mas estas coisas que eu não acesso a não ser em viés.

Sinto então de maneira muito certeira que a poesia em Miragem parece brotar e se inserir justamente numa ausência de identidade que é o excesso dela, sua identidade toda. Identifico neste passo uma espécie de tradição que muito me agrada (e aqui entram Dante, Ana Cristina…): uma tradição de textos que alojam um mesmo sentimento, ou seja, o de querer rememorar e escrever essas tais memórias do que não se viveu, mas que se adivinham na intimidade do outro, que parece sempre se colocar em seu próprio texto, enquanto autor, mas que é sempre inacessível, é sempre uma miragem da escritura.

Miragem parte então da experiência mais assustadora e simples da memória: a que se recorda, esquecendo a própria identidade do sonhador, que reconstrói uma vida pela via reminiscente, sem construir, de fato, castelos possíveis.

 Dos autores que se inserem nessa tradição sem tradição, Ana Cristina – quando deixamos seu texto cantar dentro de nós feito uma sereia de papel, sem aquela ânsia de tentar resgatar todas as suas referências, sem tentar rastrear, como um capanga, a sua intertextualidade canibal.

Na memória esvaziada que parte do sertão de uma solidão tão íntima, também Dante. Porque Dante é um dos pioneiros da autoficção. E não só isso: mas porque Dante é aquele que conta sua própria viagem, seu próprio poema, seu próprio medo e sua dor, sem se deixar capturar jamais. Que nos restou de Dante, afinal? Terá existido, de fato? Que é que sabemos dele, com certeza, com perícia biográfica? É tudo como um fiapo de lua, sua identidade sorrateira. A figura de Dante soergue-se assim tão proeminente na Comédia, e em todas as suas obras, e no entanto Dante permanece uma esfinge, um peixe, um silêncio.

É como se, então, em Miragem, bebendo da fonte de uma tradição expatriada, eu me descobrisse eu mesma a cruzar a ponte sobre o rio Quixadá, embora jamais tenha estado ali. Mas a lembrança se afirma como uma premonição, ou como a memória de um futuro, porque pelo texto estou sempre a ponto de viver tudo e sempre – futuro que se realize no tempo presente da leitura. A poesia habilita todos os tempos nesse instante. O presente no poema é já uma lembrança, que é ainda a aventura do agora, e promessa do porvir.

Dante, em seu signo de ar, cujos contornos mal podem ser traçados, embora seja ele monstruoso: Dante: aventura e poema – onde começa o homem e onde termina o personagem? E Ana também. E a miragem de todas essas memórias da escrita.

Miragem colocou-me a escrever então no torvelinho, no meio, nessa esfoladura do tempo: onde a memória do outro se torna o meu presente, onde um autor se costura por dentro de mim, tudo pela via da poesia, como uma chuva que “me fura como pregos e me inunda a memória como se eu já tivesse sido uma lua de netuno, como se eu tivesse habitado sua turbulenta atmosfera” (poema “Imóvel”, p. 21, de Miragem).

Novamente, o que me dá prazer em Miragem, ou melhor, o que me conduz ao gozo, mesmo que estilhaçando minha linguagem a momentos, é o fato de que me adivinho no que não é meu, ou me desfaço no que poderia ter sido escrito para mim.

Não é exatamente sobre a memória ou a identidade de um autor, sobre a autoficção, sobre a vida do rosto que conheci, sobre a verdade, sobre os fatos, mas sobre uma língua fendida. Sobre a língua misteriosa do amor, e por vezes muito simples, que um texto fala, a língua da poesia, e que, nas palavras ainda de Barthes, assim se diz: “O que eu aprecio, num relato, não é pois diretamente o seu conteúdo, nem mesmo sua estrutura, mas antes as esfoladuras que imponho ao belo envoltório: corro, salto, ergo a cabeça, torno a mergulhar” (O prazer do texto).

O texto então está para mim como aquilo que me entrega a mim mesmo, mas me expulsa, me faz saltar, me faz erguer a cabeça, pensar em outras coisas, atravessar rios, pontes e desertos, buscar um não sei quê. A delicadeza então de Miragem me entrega, com suas imagens, algo de mim, mas sempre um mistério, sempre um não. Em “Dia útil”, leio a minha lembrança daquilo que não vivi:

“as flores de hibisco que se abriram hoje de manhã
sentem tua falta
e quase imitam a cor das tuas pernas quando o sol
se esquece de bater nelas […]” (Miragem, p. 45).

Teria eu amado a essas flores e esperado pelo tempo de retorno de alguém que me fazia falta? Já não sei se quem vive sou eu, o texto, ou as memórias poéticas de sua autora, ou mesmo sua autora encriptada, ou a vida no fora, ou o fora da vida no dentro do texto. Já não sei nada. Mas sei que com extrema delicadeza Miragem habilita para mim a emoção molhada de lembrar aquilo que jamais foi meu, mas estava-me aqui, adormecido como a lembrança de um sonho:

benjamin barroso, 335

a minha rua era do tamanho do mundo
os amigos estavam lá, a escola, a professora
as bicas nos banhos de chuva
os carros-pipa em tempos de seca
o carro de leite às seis da manhã
o medo da cantoria das procissões de madrugada
– meu quarto era o mais escuro na madrugada
as cartas de amor nunca enviadas debaixo do colchão
as cicatrizes desenhadas nos meus joelhos
hoje, mesmo em outra cidade,
ainda moro na minha rua” (Miragem, p. 12).

&

ponte dos ingleses

com esse silêncio estava querendo dizer que as alegrias que sentimos não anularam as vezes em que você me deixou pular da ponte sozinha porque ainda não tinha terminado sua pesquisa sobre universos paralelos, como se não fosse a própria ponte um universo paralelo, como se pular da ponte não fosse um jeito de colocar o mundo em reverso, transformar o dentro em fora como quando viramos a casca de uma laranja para comer cada gomo até então inalcançável” (Miragem, p. 18).

Padrão
crítica, xanto

XANTO | Ana Hatherly: a dificuldade essencial de uma botânica, por Bárbara Costa Ribeiro

 

hat

 Olho para a estante e dali me olha de volta uma antologia azul, A idade da escrita e outros poemas (2005), de Ana Hatherly. A ideia de uma antologia me agrada: justamente, colher flores, a imagem que me toca e me conclama.

Essa imagem que brota de Ana em mim é a paisagem do jardim, com todos os seus mínimos mistérios. Colho o livro da estante e rapidamente o cenário está pronto: a geografia incontornável de um botânica misteriosa, silenciosa, sensual. Pueril, também. Porque o jardim é sempre a primeira aventura da criança, a terra a desbravar, o insólito vegetal, onde fazem o amor lagartas e plantas. Toda criança está votada ao mistério da linguagem e da natureza. E mesmo para a criança de apartamento, o cacto no parapeito da janela é a aventura completa de um mundo insondável.

Planta, bicho, silêncio, lago, rio, o vórtice de Ana Harthely convoca a arquitetura de uma linguagem que se imanta de magia. Já dissera Octavio Paz, para as crianças e para os poetas, a língua é este brinquedo imantado, uma fala amorosa, estrépito, muitas perguntas, lacunar.

Se estivesse viva a portuguesa Ana Hatherly, poeta, ensaísta, artista plástica, professora, nascida em 1929, completaria então 89 anos em maio, no dia 8. A poeta faleceu em 2015, deixando atrás de si um rastro enigmático entre a escrita e a pintura, a caligrafia e o desenho, a possibilidade mais que barroca de ir a todos os lugares claros e escuros da poesia, suplantando o código dos anos 60 e 70 da poesia portuguesa mais experimental.

Desenho, pintura, colagem, palavra, letra, traço, rabisco – tudo compôs a poética de Ana Hatherly. Em sua poesia gráfica, a escrita e o tracejado não se separam, a linha e a dobra. Quebra a forma e o sentido pelo esgotamento da experiência, fazendo circular então pela caligrafia e pela mancha tipográfica o incomunicável: dádiva do silêncio é o que nos entrega sua poesia.

Aí mesmo então a poeta que neste ano completaria 89 anos encontra a criança que de modo algum morre: porque o desenho é a primeira forma de escrita infantil, e volta-se então para o jardim, onde a criança brinca como se manuseasse segredos, vivendo o insólito de uma aventura que pode tantas vezes caber num retângulo de quintal exíguo – aprende a densidade primitiva da poesia. Há ainda, no jardim, a sensualidade dos segredos de todos os seus seres vivos, a primeira erótica de um corpo. Na fenda entre desenho e escrita – e o que haveria de mais amoroso e lúbrico do que a imagem da fenda? –, o rio da memória, margeado de palavras, compõe esta poética toda mágica:

“[…] Lembrança dos jardins entrevistos através das grades altas, quando os olhos são pequenos demais para a imensidade de uma paisagem através de um buraco de fechadura, através da fenda de uma grade, através de uns muros sempre cobertos de vidros partidos brilhando ao sol como dentes de um crocodilo que é o símbolo do silêncio.

Quando o perfume dos jardins ao pôr-do-sol embriaga, fere, fica gravado na memória como a cicatriz de uma queimadura, indelével, constantemente odorífero até fazer as glândulas salivares doerem, odor de fazer subir as lágrimas aos olhos, por ser tanto, tão grande, sufocante no seu excesso” (“do crocodilo”, Sigma, 1965).

Dádiva do silêncio, que é preciso uma vida inteira para ser compreendida, a trajetória de um poeta como o sonho infantil, a dificuldade misteriosa de uma botânica. Me atravessa por entre mim e Ana Hatherly o que dela em mim não posso explicar, ou mesmo compreender, mas sinto ainda assim, como quando o seu gesto de escrita dissolve a palavra e me entrega o desenho, incompreensível mas de todo modo espantoso. Nesse espanto, há também calma e muito silêncio, numa dicção amorosa que esconde o eros frenético na mansidão do jardim que aguarda como se sem suspeitar a chegada do amor:

“Olha peço-te não venhas assim quando eu estava tão
quieta
sentada no jardim e até com óculos
não venha peço-te
não venhas melindroso e sorrindo
com a cabeça inclinada como um particípio
não venhas
Eu estava já me aproximando
quase tocava a recorrência das coisas
nesse momento eu olhava para o chão e via mesmo cada
pequena pedra saudável
Eu estava tão quieta sentada no jardim
Respirava
sentia as veias ligeiramente ativas
mas tão ligeiramente
tudo corria fundo em sua sumidade
meus braços tinham apenas o seu peso
sem outras asas
Quando tu vieste sorrindo melindroso e tão salubre
de repente o jardim é a dificuldade essencial da minha
botânica
a minha indústria difícil
o fim que a alma lograda obtém dos corpos
Corro agora por alucinação dirigível
minhas tarefas são histriónicas
Eu estava ali tão quieta
estava até com óculos
e tu inclinavas-te como um simulacro
Intui peço-te,
esta obscuridade salubre
esta consternação despenhada
tropeçando pelo alma recorrente silva”

(“Esta obscuridade salubre”, Eros frenético, 1968).

ah_o-mar-que-se-quebra_1998

Ana Hatherly: “Ah, o mar que se quebra”, 1998

Quieto, quieto – como sempre antes de qualquer surpresa. Nesta obscuridade salubre, o poema, este amante que me chega como um particípio, a ideia do particípio compondo o verso tão inusitado me quebra ao meio, me deixa sem continuidade, rompe um passado e inaugura o meu instante presente, transforma o langor da tarde que finda em sensualidade noturna. O amor como um animal selvagem que dorme e depois me espreita.

“Penso em ti
tranquilamente
como quem está sentado ao sol no Outono
deixando o pensamento fluir.
É o rio de sempre
um rio que corre lentamente
como decorre a noite.
Chega inadvertidamente
tendo estado sempre ali
a correr muito calado
de modo a não darmos por ele
se não quisermos.
É como um grande amigo
junto de quem podemos estar silenciosos
sem estarmos longe.
É como uma noite muito quieta
que está ali
mas só damos por ela quando de repente
saímos de casa e ela surge enorme
ante os nossos olhos.

Penso em ti
tranquilamente como numa tarde
em que resolvemos não fazer nada e os livros
arrumados verticalmente
são apenas o dorso ondulado
de um animal que dorme
enquanto por dentro
todo o trabalho se processa.

Penso em ti
tranquilamente
como deitamo-nos no chão
debaixo de uma árvore e olhamos
a sua copa em leque
a sua ramagem ondulando lenta
como o ventre de um animal adormecido.
Até que a luz da lua
entra e percorre tudo
sem refletir coisa alguma

(“Tranquilamente como numa tarde”, A idade da escrita, 1998).

ana hatherly, in a reinvenção da leitura (pormenor)

Ana Hatherly: “Pormenor”, in: “A reinvenção da Leitura”

Que outras imagens tão poderosas podem se esconder neste jardim de plumas, a ocultar um rio que geme muitas frases indiscerníveis mas poderosas? Bem, há ainda os jardins proibidos da infância, aqueles nos quais não se pode brincar, e que mais tarde se transformam em memória, se esgotam na ferida que abriram, para então se tornarem matéria de poesia, e mesmo transformar, na adulteza, todo jardim e toda botânica na dificuldade essencial de uma escrita, no mistério da poesia, trazendo a palavra sitiante, que me circunda por toda parte, não me deixando quase respirar e mal viver sossegadamente.

É possível, de fato, crescer e deixar para trás as coisas de menino. Mas há, ainda, e sempre, o jardim, de uma alegria distante, o jardim fechado, que se torna, na idade madura, esta tristeza como um rio.

“Os jardins imaginários
que de longe vislumbramos
pertencem
aos distraídos insensíveis entes
com que os povoamos

Sempre ficamos
do lado de cá de suas grades
desejosos-receosos de as passarmos

Sentimos o perfume
das rosas que inventamos
vemos o esplendor
dos frutos que sonhamos

Contemplamos
na inventada montra dos prazeres
as sublimes doçuras que sonhamos
sentindo sempre
que não
não somos dignos
de fruir tais gozos

Nos proibidos jardins
que inventamos
nós
sombras-fantasmas
dum desejo que nos impele em vão
nós
jamais perturbamos
a serenidade
de seu eterno impassível Verão”

(“Os jardins imaginários”, Rilkeana, 1999).

st, 2003 spray sobre papel

Ana Hatherly: Spray sobre papel, obra sem título

     To think is to be full of sorrow
J. Keats, Ode to a nightgale

Pensar é encher-se de tristeza
e quando pensonão em ti
mas em tudo
sofro

Dantes eu vivia só
agora vivo rodeada de palavras
que eu cultivo
no meu jardim de penas

Eu sigo-as
e elas seguem-me:
são o exigente cortejo
que me persegue

Em toda a parte
ouço o seu imenso clamor”

(“Pensar é encher-se de tristeza”, O pavão negro, 2003).

Ei-la. Ana Hatherly, em sua poesia, publicou mais de dez livros, como Eros frenético, O pavão negro, A idade da escrita, tantos outros; e ainda está aqui, pulsando como a vida misteriosa de um jardim noturno.

[HATHERLY, ANA. A idade da escrita e outros poemas. São Paulo: Escrituras Editora, 2005.]

*

Padrão