poesia, tradução

Sean Bonney, por Beatriz Bastos & Otávio Campos

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Sean Bonney nasceu em Brighton, em 1969, e cresceu no norte da Inglaterra. Passou 17 anos em Londres, cidade que se tornou para ele principal matéria de grande parte dos seus textos. Na capital, se envolveu em movimentos sociais e políticos, principalmente os que iam contra a Taxa de Moradia cobrada na cidade. Sua militância política é indissociável de sua atuação como escritor. Publicou diversos panfletos, plaquetes e livros, esses tomados por uma fúria e uma vontade revolucionária contra as instituições, principalmente no que se refere à moradia, à polícia e ao tratamento aos imigrantes. Além disso, por muitos anos manteve o blog abandonedbuildings.blogspot.com, alimentado constantemente até 2019, com leituras dos poemas em áudios, e em vídeos de suas apresentações pela Europa, além das primeiras versões de alguns poemas futuramente publicados . Seus textos foram reunidos em sete livros principais, Blade Pitch Control Unit (2005), Baudelaire in English (2008), Document (2009), The Commons (2011), Happiness: Poems After Rimbaud (2011), Letters Against the Firmament (2015), e Our Death (2019).

Em sua produção, percebemos as influências dos seus interesses pessoais maiores, como uma vertente mais radical dos movimentos de esquerda, com o punk britânico, a Angry Brigade, a Red Army Faktion, além do Surrealismo e a arte revolucionária como um todo. Soma-se a isso, também, seu interesse no movimento Black Power americano, do qual foi se tornando um estudioso principalmente enquanto pesquisava para o seu título de PhD, a partir de uma tese sobre Amiri Baraka, um dos poucos negros a integrar a caravana Beat.

Bonney morreu pouco tempo depois de ter seu último livro, Our Death, publicado, em um trágico acidente em Berlim, cidade onde morava há alguns anos e fazia pós-doutorado com uma pesquisa sobre Diane di Prima and Katerina Gogou. Em seu obituário, publicado na revista online Jacket2, o poeta William Rowe diz que “nenhum outro trabalho contemporâneo destrói tão completamente o universo do fascismo ressurgente”. Para Rowe, a poética de Bonney se apresenta como uma possibilidade de sobrevivência à violência instaurada no Reino Unido principalmente após Thatcher. “Esta é uma poesia na qual as camadas de defesa do self foram suspensas, o poema larga seus muros habituais, e as injustiças brutais da história encontram expressão.”, escreve Rowe.

Dois livros de Sean Bonney foram traduzidos para o português por Miguel Cardoso e publicados em Portugal pela Douda Correria, Cartas contra o firmamento (2016) e Nossa morte (2020). No Brasil, sua obra por enquanto permanece inédita, e uma publicação está sendo preparada pela Edições Macondo (com tradução de Beatriz Bastos e Otávio Campos) para 2020. Os poemas publicados agora na escamandro foram retirados do livro que está sendo traduzido, com título provisório de Fantasmas. Esse livro, que saiu imediatamente antes de sua última coletânea, é uma publicação que pode ser considerada “de transição”, como muitos dos seus trabalhos que foram editados. Em uma nota inicial, impressa nas primeiras páginas do volume, o autor revela o seguinte: “A maior parte dessa seleção é originada de duas sequências. Câncer: Poemas depois de Katerina Gougou, publicado pela primeira vez em uma edição limitada por A Firm Nigh Holistic Press em 2016. A maioria dos outros textos (…) são de uma sequência em andamento intitulada Nossa morte, cujo título deve ser mais ou menos auto explicativo”. Ghosts aborda questões caras à poesia de Bonney, como a vida no submundo das grandes cidades, a problemática dos refugiados e da moradia, a desconfiança de instituições, sobretudo a desconfiança de policiais e políticos. Mas, além disso, essa coletânea de poemas também constrói um universo narrativo próprio, trabalhando com a imagem de fantasmas vagando, como zumbis, em um cenário pós-apocalíptico que em tudo se parece com nossas próprias capitais brasileiras.

FODA-SE A POLÍCIA

 

* * *

 

“Me Surre!”

Hoje em dia todo mundo tá escrevendo seu livro derradeiro. Dane-se. Eu também perdi tudo. Meu corpo é feito de três agulhas, várias moedas, um sistema de nitrato e algo que os babacas chamariam ‘uma filosofia’. Eu vejo no escuro e gosto de quebrar espelhos. Pra muita gente as coisas tão bem piores. Vago pela cidade recitando um velho poema da Anita Berber: CADÁVER. FACA. CADÁVER. FACA. LUZ. Todas as noites há momentos em que penso que posso ver essa luz. Ela brilha dentro de todos os quartos onde já morei, todos aqueles quartos e cidades que sempre amamos sempre desprezamos. MOEDAS. ESPELHOS. LUZ.

 

“Thrash Me!”

These days everyone is writing their final book. Whatever. I’ve lost everything as well. My body is made up of three needles, several coins, a system of nitrates and something wankers would call ‘a philosophy’. I see in the dark and like to smash mirrors. For many other people things are far worse. I roam around the town, reciting an old poem by Anita Berber: CORPSE. KNIFE. CORPSE. KNIFE. LIGHT. There are moments each evening when I think I can see that light. It shines inside all the rooms I have lived in, all those rooms and cities that we have always loved always despised. COINS. MIRRORS. LIGHT.

 

§

 

Todos os dias, todo dia eu acordo dentro do regime assalariado
dentro de todas as suas casas, nunca paguei aluguel em nenhuma.
Não durmo em lugar nenhum. Todas as manhãs dentro do meu salário
Deito à espera daqueles que dormem, eu durmo
em seus colos e nunca falo. Nunca
Tome isso como evidência espectral. Quer dizer. Foda-se a morte.

 

Every day I wake up everyday inside the wage system
inside all its houses, never paid rent on even one.
Sleep nowhere. Every morning inside my wages
I lie in wait for those who sleep, I sleep
on their chests and never speak. Never
Take this as spectral evidence. Meaning. Fuck death.

 

§

 

[morfina]

Cinco pontos no mapa. Cinco dias
Você assiste sua cidade em chamas
Cinco da manhã. Cinco policiais na porta.
Interpreta. Nenhuma cidade é construída de novo
Seu mapa um anúncio, um ardil, um combate.

Adivinhação. Medos inumanos das pessoas
Essa distância, um arranjo de canções
espalhadas pela capital, um conjunto de leis
pra matar os vivos. Rimas, essa distância.
Ruínas são barricadas. Canções são ossos.

Nossos mapas quase conspiradores
acordados durante a noite, interrogando o céu
Cometas também são ossos. Que esperam
colidir com a nossa aventura. Os dias se empilham
Como torres desabando. Policiais. Osso.

risquei fora Bakunin. escrevi cinco policiais.
cinco da manhã – um charme pra destruir a capital.

 

[morphine]

Five points on the map. Five days
You watch your city burn.
Five A.M. Five cops at the door.
Interpret that. No city is built again
Your map a declaration, a trap, a war.

Divination. Inhuman fears of the people
This distance, an arrangement of songs
scattered on the capital, a set of laws
to kill the living. Rhymes, this distance.
Ruins are barricades. Songs are bones.

Our maps, almost, are conspirators
all night awake, questioning the sky
Comets, also, are bones. Are waiting
to crash our adventure. Days pile up
Like collapsing towers. Cops. Bone.

crossed out Bakunin. wrote down five cops.
5 a.m. – a charm to consume the capital.

 

§

 

Uma Nota sobre minha Poética Recente

Parei de fumar maconha há alguns meses porque estava me deixando paranoico, mas desde então, quase todos os dias tenho tomado doses potencialmente fatais de anfetamina. Isso quase certamente está me deixando psicótico, mas pelo menos tem a vantagem de me salvar do vasto cataclisma que dormir se tornou. Em muitas manhãs me sinto desconfortável, visível e invisível ao mesmo tempo, preso entre os ditos dois mundos, em nenhum deles estou preparado pra aceitar ou mesmo tolerar. De qualquer forma, não posso separá-los – tudo está funcionando em uma espécie de nível estroboscópico, no qual o mundo invisível está povoado por um bando de insones de carne e sangue cambaleando por aí depois do naufrágio, e o mundo visível por um estranho mapa astral, uma rede de nós e tumores que até agora esteve trancada em algum lugar no centro da terra, um inferno de alfabetos e injustiças espectrais organizados em pedaços ao longo da cronologia. Vejamos. Houve a revolta fiscal. Havia as casas punk. Havia ecstasy e ácido e festas abertas. A lei de justiça criminal. Britpop. A ascensão da babaquice irônica. A expressão tolerância zero. O tédio do hedonismo forçado. O esqueleto de Tony Blair. As chamas da intervenção humanitária. A inevitabilidade da jihad. E isso é só outro amontoado meio arbitrário, um corredor de vários espelhos nos quais toda manhã eu bato e cheiro carreiras cada vez mais colossais até que, nas palavras de Ernst Bloch, “anos se tornam minutos, como nas lendas em que, no período aparente de uma noite, uma bruxa se apodera da longa vida de sua vítima”. E não sei se me identifico com essa bruxa ou não, mas sei que há algumas manhãs em que considero a possibilidade de moer os ossos de Blair, e então lançá-los aos pés dos vários monumentos – falo por exemplo das estátuas que contornam a Trafalgar Square – pra transformá-los em demônios reais. A crise, ou como quer a gente deva chamar isso. As ruínas do Ritz, por exemplo. O vidro quebrado da região de Millbank. Os termos de prisão dos rebeldes. Que merda. Até breve. Todo mundo sabe que Thatcher forjou sua morte.

A Note on my Recent Poetics

I stopped smoking pot a few months ago because it was making me paranoid, but since then most days I’ve been taking potentially fatal doses of amphetamine. Its almost certainly making me psychotic, but it does at least have the advantage of saving me from the vast cataclysm that sleep has become. Most mornings I feel uneasy, visible and invisible at the same time, trapped between the proverbial two worlds, neither of which I’m prepared to accept or even tolerate. I can’t tell them apart anyway – everything’s functioning at some kind of stroboscopic level, where the invisible world is populated by a gaggle of flesh and blood insomniacs staggering around after a shipwreck, and the visible one by a weird star-map, a network of knots and tumours that up until now have been locked somewhere in the centre of the earth, a hell of alphabets and spectral injustices arranged in pieces along the chronology. Lets see. There was the poll tax revolt. There were punk houses. There was ecstasy and acid and free parties. The criminal justice bill. Britpop. The rise of the ironic wank. The phrase zero tolerance. The boredom of enforced hedonism. The skeleton of Tony Blair. The flames of humanitarian intervention. The inevitability of jihad. And thats just one more or less arbitrary little cluster, a hall of various mirrors that every morning I chop and snort increasingly gargantuan lines from until, in the words of Ernst Bloch, “years become minutes, as in legends where, in the apparent time span of a single night, a witch cheats her victim out of a long life”. And I don’t know whether I identify with that witch or not, but I do know that there are some mornings when I consider the possibility of powdering Blair’s bones, and then casting them at the feet of various monuments – say for example the statues that encircle Trafalgar Square – so as to transform them into real demons. The crisis, or whatever it is we’re supposed to call it. The ruins of the Ritz, for example. The broken glass of Millbank. The jail terms of the rioters. Ah shit. See you later. Everybody knows that Thatcher faked her death.

 

§

 

[de Câncer]

vamos beber com os desempregados
com todo sol e silêncio
com toda poeira no sol e silêncio
e sol e conhaque e poeira
e cigarros e sol
não, hoje não vamos falar sobre nossa saúde
comprimidos e bebidas e catarro
não se preocupe
me sinto muito calmo
há unhas há cabelo há anos
sujos
os comprimidos são ótimos. a festa, você sabe qual
impossível dizer quem é polícia hoje em dia
música
um conhaque merda
não, não tenho ouvido nada faz um tempo
você sabe eu tenho pensado que talvez queira, sabe
tem um quarto ali em cima
quero te ver sem as calças
meio curioso sobre seu pau
música, pelo amor de deus
você toca uma
“pegaram um pau e me bateram”
conhaque
música
silêncio
você tira seu canivete começa a cortar
A Gangue Bonnot estava certa.

 

[from Cancer]

let’s drink with the unemployed
with all sun and silence
with all dust in the sun and silence
and sun and cognac and dust
and cigarettes and sun
no, lets not go on about our health today
pills and drink and snot
don’t worry
I feel very calm
there are nails there is hair there are years
dirty
the pills are great. the party, you know which one I mean
impossible to tell whose a cop these days
music
the cognacs shit
no, I haven’t heard anything for quite some time
you know I’n thinking I might want to, you know
there’s a room upstairs
I want to see you without your pants
kind of curious about your dick
music, for chrissake
you take a solo
“they took a stick and beat me”
cognac
music
silence
you pullout your switchblade start slashing
The Bonnot Gang were right.

 

§

 

[de Câncer]

música, eu não falo sobre isso
meus olhos. sério, onde estão meus olhos
todo dia há algo para rejeitar
eu não vou gritar quando morrer
Marx Lenin Trotsky Luxemburgo
A Revolta de Kronstadt e o sonho de Sísifo
há flores há cores
revólveres e bombas caseiras
estou ficando louco, por que você não está
os meus sonhos os sonhos dos meus amigos
todos os sonhos o mesmo sonho
surtos repetidos choradeira sem fim
isso é medida
você e eu
pra cima e pra baixo
e de volta e pra baixo
há uma falsa simetria nos separa
não vamos rir
se não assinarmos o papel
eles não vão poder comprovar nada
a noite cai
o comitê central
a noite cai
eles querem saber se eu tenho uma televisão
a noite cai
eu ainda estou mais ou menos segurando a onda
não vou assinar
vida longa à 204º Internacional

 

[from Cancer]

music, I don’t talk about it
my eyes. seriously, where are my eyes
every day there’s something to reject
I will not scream when I die
Marx Lenin Trotsky Luxemberg
The Kronstadt Massacre and the dream of Sisyphus
there are flowers there are colours
revolvers and homemade bombs
I’m going crazy, why aren’t you
my dreams my friends’ dreams
all these dreams are the same dream
repeated breakdowns endless weeping
this is measure
you and me
up and down
and back and down
there is a false symmetry separates us
lets not laugh
if we don’t sign the paper
they won’t be able to act on their decision
night falls
the central committee
night falls
they want to know if I have a television
night falls
I’m still kind of keeping it together
I won’t sign
Long live the 204th International

 

§

 

Para quê serve gás lacrimogêneo

Policiais, não sendo humanos nem animais, não sonham. Eles não precisam, eles têm gás lacrimogêneo. Não espere que eu explique isso. Você sabe tão bem quanto eu que policiais têm acesso ao conteúdo dos nossos sonhos. E você provavelmente também sabe que uma quantidade razoável do gás lacrimogêneo do planeta é fornecida pelo Westminster Group. Seu presidente não executivo, seja lá o que isso significa, é membro da família de, vejam só, Charles Windsor. Ele deve pensar no gás lacrimogêneo como alguma coisa relacionada à Nuvem do Não-Saber, e, de certa forma, ele tá meio certo. Você chega a um conhecimento muito verdadeiro da natureza das coisas, visíveis e invisíveis, ao ter seu sistema sensorial sequestrado e virado contra você por uma dose significativa de gás lacrimogêneo. É o anti-Rimbaud. O absuto controle e administração de todos os sentidos. É sério, tente. Na próxima vez que as coisas começarem a esquentar um pouco vai pra rua e corre pro meio da maior nuvem de gás lacrimogêneo que você encontrar. Cabum. Visão. Gosto. Cheiro. A porra toda. Tudo se transforma em confusão, desorientação geográfica e, principalmente, dor. Não pire. No centro dessa dor há um pequeno e silencioso ponto de Não-Saber. É esse Não-Saber que os policiais – e por extensão Charles Windsor – chamam de conhecimento. É o que eles querem. Eles têm bisturis caso seja necessário mas gás lacrimogêneo é mais limpo. Não está claro por que querem isso mas qualquer epiléptico ou visionário ou viciado em drogas pode te dizer o motivo. Tá lá em Blake. AiJesus, tá lá no encarte do Metal Machine Music. O que isso significa? Quem se importa. Isso não responde nada. O que Charles Windsor quer com a gente? Os policiais não vão nos dizer o que eles não sabem e o que eles acham que sabemos.

 

What Teargas is For

Cops, being neither human nor animal, do not dream. They don’t need to, they’ve got teargas. Don’t expect me to justify that. I mean, you know as well as I do that cops have got access to the content of all of our dreams. And you probably also know that a fair amount of the planet’s teargas is supplied by the Westminster Group. Their non-executive chairman, whatever that is, is a member of the household of, ahem, Charles Windsor. He probably thinks of teargas as being somehow related to the Cloud of Unknowing, and, in a sense, he’s kind of right. You come to a very real understanding of the nature of things, both visible and invisible, by having your sensory system hijacked and turned against you by a meaningful dose of teargas. It is the anti-Rimbaud. The absolute regulation and administration of all the senses. I mean try it. Next time things are starting to kick off a little bit just go out on the street and run straight into the middle of the biggest cloud of teargas you can find. Bang. Sight. Taste. Smell. All the rest of them. All turned into confusion, loss of geographical certainty and, most importantly, pain. Don’t freak out. In the centre of that pain is a small and silent point of absolute Unknowing. It is that Unknowing that the cops – and by extension Charles Windsor – call knowledge. They want it. They’ve got scalpels if necessary but teargas is cleaner. Its not clear what they want it for but any epileptic or voyant or drug addict could tell you what it is. It’s there in Blake. Christ, it’s there in the sleeve-notes to Metal Machine Music. What’s it mean? Who cares. It answers no questions. What does Charles Windsor want with us. The cops will not tell us what they don’t know and what they think we know.

 

* * *

Beatriz Bastos nasceu em 1979 no Rio de Janeiro. Publicou Areia (Aqueronta Movebo, 2000), Pandora – Fósforos de Segurança, em coautoria com Fernanda Branco (Azougue, 2003), Da Ilha (Editacuja, 2009) e Balaclava (no prelo, Coletivo Janga). Fez mestrado e doutorado em tradução de poesia, na PUC-Rio (2014). Traduziu, em parceria com Paulo Henriques Britto, uma primeira antologia brasileira de Frank O’Hara, Meu coração está no bolso (Luna Parque, 2017). Traduziu, juntamente com Ismar Tirelli Neto, o livro Silêncio de John Cage (Cobogó, 2019). Janga, coletivo de poetas e editora independente.
Trabalha como tradutora e professora.

Otávio Campos é um poeta e editor nascido em 1991. Mestre em Estudos Literários, pela Universidade Federal de Juiz de Fora. É doutorando em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais. Publicou, entre outros, os livros Os peixes são tristes nas fotografias e Ao jeito dos bichos caçados. Desde 2014 é coordenador editorial das Edições Macondo.

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poesia

Beatriz Bastos (1979—)

Beatriz Bastos (Rio de Janeiro, 1979) publicou Areia (Aqueronta Movebo, 2000), Pandora – Fósforos de Segurança, em coautoria com Fernanda Branco (Editora Azougue, 2003) e Da Ilha (Editacuja, 2009). Fez mestrado e doutorado em tradução de poesia (PUC-Rio, 2014), para o que traduziu poemas do americano Frank O’Hara, da portuguesa Adília Lopes e da brasileira Hilda Hilst. Publicou, com a editora Luna Parque, e em parceria com Paulo Henriques Britto, uma primeira antologia brasileira de O’Hara, Meu coração está no bolso (2017). Também traduziu, juntamente com Ismar Tirelli Neto, o livro Silêncio, de John Cage (no prelo, Ed. Cobogó). Trabalha como tradutora e professora.

* * *

SONHOS DE TRADUTORA (OU UMA LÍNGUA DE PÁSSAROS)

I. A tradutora sonha que perde
braços, pernas e pés

e se pudesse ficar perdendo-os,
seus próprios pedaços,

sem parar?

II. Ansiou pela chuva
a chuva veio

III. Encontra, final, a rima correta
agora só falta cantar

IV. No quarto dos sonhos
há dois passarinhos

não há o que voar da gaiola

V. A tradutora sonha que tem
muita sorte e se transforma

felizmente em um macaco

VI. Sonha que mora dentro
bem dentro de um poema
com paredes, teto e rede

até que aparecem os ratos

VII. A tradutora sonha
com o ar de novo

feito um ovo

VIII. De dia, escreve cartas.

Decide entre destinatários
plausíveis e inventados.

Suas alegrias são tão breves,
como suas pedras, seus céus
com nuvens
“Berlim estava feliz”,

traduziu um dia.

§

AOS QUE VÃO NASCER

Houve um tempo
agora as flores não abrem mais
há escândalos a cada esquina
metralhadoras escapam do meu coração
                        todos os dias

Dentes dóceis afastam as cadeiras
rins são inegociáveis
uma boca é apenas uma boca
e todas são sempre assassinas

§

TE OFEREÇO

esses lábios meus pés meus olhos
vermelhos minha cabeça pesada esses
braços meus ângulos minha nuca
ofereço esse corpo essa saliva
que canta ofereço esses pés meus
lábios meus cabelos meu calor meus
sinos ofereço minha igreja este coração
meu pulmão meus rins essas
vísceras que cantam ofereço minhas
orelhas meus ouvidos este suplício esta minha                                    

            ausência

que canta
como canta

§

[sem título]

I. ainda tenho uma hora
me quebre em pequenas partes

algumas podem ser boas,

veja, com cuidado,
se não há alguma que sirva

II. vamos, vá com calma

me amarre na cadeira,
não aperte muito,

prefiro sem dor

III. pergunte sobre a minha filha
chame minha gata Dinah

outra pequena parte,
afinal, já não importa muito

IV. sim, toque o piano,
talvez música traga algum alívio.

é possível que dor pare de vez em quando?
quero dizer, por um tempo considerável?

coloque suas mãos na minha testa
isso me deixará mais forte.

V. silentes desejos
apontam a pombos

sacrifícios
tombam e

espiam

VI. as flores,

mesmo morrendo, bebem
como peixes.

é o que pode-se dizer.

VII. passo ligeiro, passo ligeiro

quem não entende de formiga
não atiça formigueiro

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poesia, tradução

Beatriz Bastos: 5 poemas de Hilda Hilst em tradução inglesa

hilda-hilstHilda Hilst é uma poeta que dispensa apresentações – fato, claro, que não me isenta da obrigação de dizer algumas palavras introdutórias, no entanto. Nascida em Jaú em 1930, ela estudou direito na Universidade de São Paulo e publicou seu primeiro livro, Presságio, em 1950.  Mas é a partir da década de 60 (quando abandona a vida movimentada da cidade pela sua bucólica Casa do Sol) que ela floresceu e se afirmou como uma das maiores vozes da literatura brasileira do século XX, publicando diversos volumes de poesia, além de teatro e, a partir de 1970, prosa também, com o experimental Fluxo-Floema. Só de poesia, conto 18 volumes em sua obra (mais 2 coletâneas), são eles: Presságio (1950), Balada de Alzira (1951), Balada do festival (1955), Roteiro do Silêncio (1959), Trovas de muito amor para um amado senhor (1959), Ode fragmentária (1961), Sete cantos do poeta para o anjo (1962), Júbilo, memória, noviciado da paixão (1974), Da Morte. Odes mínimas (1980), Cantares de perda e predileção (1980), Poemas malditos, gozosos e devotos (1984), Sobre a tua grande face (1986), Amavisse (1989), Alcoólicas (1990), Do desejo (1992), Bufólicas (1992), Cantares do sem nome e de partidas (1995) e Do amor (1999). Ela morreu em 2004, e desde então sua Casa do Sol vem sido cuidada pelo pessoal do Instituto Hilda Hilst, encarregado de preservar a memória da poeta.

Como fica evidente já desde os títulos de seus volumes inclusive, o amor, o desejo e o sexo são temas recorrentes de sua obra poética, e, apesar de ela ter tido pouca circulação a princípio, com volumes em tiragens pequenas, eu arriscaria dizer que o seu impacto sobre a nossa poesia foi grande o bastante para que boa parte das tentativas hoje ainda de se abordar essa temática em português de um modo ou de outro acabe por esbarrar na poética hilstiana, consciente ou inconscientemente.

Hilda Hilst foi traduzida para línguas como o francês, o inglês, o alemão e o italiano (para uma referência dos títulos, conferir aqui). No entanto, parece-me que os tradutores e editores estrangeiros têm uma preferência pela sua obra em prosa, particularmente a da sua fase da “bandalheira”, como é conhecida, quando Hilda, nos anos 90, farta de não ser lida, decidiu escrever romances absurdamente pornográficos (O Caderno Rosa de Lori Lamby, por exemplo, relata as experiências sexuais da protagonista, que tem 8 anos de idade) numa tentativa de, simultaneamente, criticar o mercado editorial brasileiro e chamar uma atenção que a sua poesia não estava conseguindo atrair – um objetivo que ela, de fato, realizou.

Felizmente, porém, há uma poeta e tradutora daqui do Brasil mesmo que vem fazendo um trabalho interessantíssimo de tradução da poesia da Hilda para o inglês. Seu nome é Beatriz Bastos, nascida no Rio de Janeiro (1979) e autora de 4 livros – Areia (2003), Flor do sal (2005) Pandora – Fósforos de segurança (2006) e Da Ilha (2009). Esbarrei em sua tese de doutorado por acaso outro dia, intitulada Um Corpo a Corpo com a Poesia: Traduzindo Hilda Hilst e Adília Lopes, orientada pelo também poeta Paulo Henriques Britto (PUC/RJ), e, como é uma pena confinar um trabalho tão importante desses aos corredores da academia, gostaria de compartilhar algumas dessas traduções com os nossos leitores do escamandro.

São 5 poemas, todos retirados de Júbilo, memória, noviciado da paixão. Dentre esses cinco, dois (os dois primeiros aqui) fazem parte da série “Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé. De Ariana para Dioniso”, famosa por ter sido musicada por Zeca Baleiro. Como comenta o poeta Ricardo Domeneck na revista Modo de Usar & Co., uma das influências sobre a poética da Hilda foi Catulo, e, de fato, isso transparece nesse ciclo de poemas, quando Hilda se vale do recurso clássico (remetendo, em nossa referência mais direta, ao arcadismo brasileiro, e, de lá, à poesia latina) de utilizar pseudônimos para representar as situações e os topói também clássicos da poesia amorosa. É claro, no entanto, que o modo como Hilda faz isso é absolutamente moderno. Na tradução para o inglês de Beatriz Bastos, as soluções que a tradutora encontra para reproduzir o efeito sintático dos versos de Hilda se aproximam muito, na minha opinião, do que faz e. e. cummings (mas sem o trabalho gráfico mais imediatamente reconhecível de cummings, isto é, o que faz com que a semelhança não seja tão óbvia).

Sem mais delongas, então, seguem os poemas com suas traduções para o inglês. Quem quiser conferir os pormenores das justificativas por trás das soluções da tradutora pode consultar o capítulo 4 de sua tese, clicando aqui. Essas traduções também foram publicadas na edição de janeiro de 2012 da revista literária estrangeira Asymptote, que pode ser conferida clicando aqui.

P.S: temos outras duas postagens aqui no escamandro com poemas em português traduzidos para o inglês: uma sobre as traduções feitas por Elizabeth Bishop e outra com o poema “O Velho Chico”, de Raimundo Carvalho.

Adriano Scandolara

          

É bom que seja assim, Dionísio, que não venhas.
Voz e vento apenas
Das coisas do lá fora

E sozinha supor
Que se estivesses dentro

Essa voz importante e esse vento
Das ramagens de fora

Eu jamais ouviria. Atento
Meu ouvido escutaria
O sumo do teu canto. Que não venhas, Dionísio.
Porque é melhor sonhar a tua rudeza
E sorver reconquista a cada noite
Pensando: amanhã sim, virá
E o tempo de amanhã será riqueza:
A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência.

           

It is as it should be, Dionysus: do not come
Voice and wind only
Of the out there

Supposing alone
That if you were inside

This important voice, this wind
of the branches out there

Would never reach me. Absorbed
I would listen
To the essence of your song. Do not come, Dionysus,
For it is better to dream your roughness
And every night, savour victory anew
Thinking: tomorrow, yes, you will come
And tomorrow will be a time of plenty:
Every night, I Ariana, making ready
Fragrance and body. And a verse every night
Unfolding from the wisdom of your absence.

           

           

Quando Beatriz e Caiana te perguntarem, Dionísio,
Se me amas, podes dizer que não. Pouco me importa
Ser nada à tua volta, sombra, coisa esgarçada
No entendimento de tua mãe e irmã. A mim me importa,
Dionísio, o que dizes deitado, ao meu ouvido
E o que tu dizes nem pode ser cantado
Porque é palavra de luta e despudor
E no meu verso se faria injúria

E no meu quarto se faz verbo de amor.

           

When Beatrice and Cayanna ask you, Dionysus,
If you love me, you may say you love me not.
It little matters to me
Being nothing around you, a shadow, tattered stuff
In the judgement of your mother and sister. What matters to me,
Dionysus, is what you say in bed, to my ear
And what you say can not be sung
Because they are shameless, raging words
And in my verse they would sound wrong

And in my room love is the word.

           

Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso
Distanciado
Dos teus livros políticos
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?

Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?

           

I smile when I wonder
Where in your room
You keep my verse.
Away from your
Political books?
In the first drawer
Close to the window?
Do you smile when you read
Or are you tired of seeing
Such abandon
Amorous spark
On my ripened face?
Do I seem beautiful
Or am I to you
Too much of a poet, perhaps,
And not serious enough?
What does the man think
Of the poet? That there’s no truth
In my drunkenness
And that you prefer
A friend more peaceful
And less adventurous?
That you simply cannot
Keep in your room
Worldly traces
Of my passionate words?
Do you see me as mad?
Do you see me as pure?
Do you see me as young?

Or is it real
That you never knew me?

           

           

Se for possível, manda-me dizer
– É lua cheia, a casa está vazia. –
Manda-me dizer, e o paraíso
Há de ficar mais perto, e mais recente
Me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
Tão longo como a noite. Se é verdade
Que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
De alguns peixes rosados
Numas águas
E dos meus pés molhados, manda-me dizer:
– É lua nova –
E revestida de luz te volto a ver.

           

Send me word, if you can,
“The moon is full, the house is clear.”
Send me word, and paradise
Shall be nearer, and your uncertain face
Shall seem more recent.
Send for me if your day
Is as long as your night. If it’s true
Without me you see nothing but monotony.
If you remember the gleam of tides
Some pale red fish
In certain seas
And my wet feet, send me word:
“It’s a moonless night”
And dressed in light, I come to see you again.

           

Essa lua enlutada, esse desassossego
A convulsão de dentro, ilharga
Dentro da solidão, corpo morrendo
Tudo isso te devo. E eram tão vastas
As coisas planejadas, navios,
Muralhas de marfim, palavras largas
Consentimento sempre. E seria dezembro.
Um cavalo de jade sob as águas
Dupla transparência, fio suspenso
Todas essas coisas na ponta dos teus dedos
E tudo se desfez no pórtico do tempo
Em lívido silêncio. Umas manhãs de vidro
Vento, a alma esvaziada, um sol que não vejo.

Também isso te devo.

           

This mournful moon, this unease
Inner turbulence, lagoon,
Inside the solitude, a dying body,
All this I owe to you. Such immense
Plans and future, ships,
Walls of ivory, words full
Always consented to. It would be December.
A jade horse beneath the waters
A double transparency, a line in mid-air
All these things at your fingertips
All undone through the portal of time
Silent and blue. Mornings of glass,
Wind, a hollow soul, a sun I can not see

This, too, I owe to you.

           

(poemas de Hilda Hilst, traduções para o inglês de Beatriz Bastos)

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