poesia

Carla Diacov: A Menstruação de Valter Hugo Mãe | 2 + 1

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Carla Diacov (São Bernardo do Campo, 1975). Livra-se em fazer a loca (livro digital, Edições Ellenismos, 2014), Amanhã Alguém Morre no Samba (Douda Correria, Portugal, 2015), A metáfora mais Gentil do Mundo Gentil, (Macondo Edições, Juiz de fora), Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse (Douda Correria, 2016), bater bater no yuri (livro digital, Enfermaria 6, 2017), A Menstruação de Valter Hugo Mãe (editado pelo escritor português, no projeto não comercial Casa Mãe, Portugal, 2017), Dois Pontos Pescoço X Sobreviventes (no prelo pela Editora Urutau). Já apareceu aqui no escamandro com 4 poemas inéditos.

***

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2 poemas +1 desenho
A Menstruação de Valter Hugo Mãe
Escrito (e ilustrado) a convite de Valter Hugo Mãe
No projecto não comercial, Casa Mãe, 2017

havia somente uma cadeira para o casal
na cadeira se sentava a esposa ovulada
e se sentava a esposa menstruada
o homem na cadeira se sentava ereto havia
somente esta convenção entre o casal
que a cadeira fosse o rito regulador
da sujidade espécie de objeto de contaminação
das coisas mulher nas coisas homem
depois se deitavam na tão somente cama para um
nunca aconteceu a gravidez e a esposa morreu sentada
na cadeira o marido se casou de novo mas
a nova esposa trouxe junto outra cadeira e
nunca aconteceu a gravidez pensou
o marido primeiro
não usamos a mesma cadeira
o marido morreu na primeira cadeira
e a segunda esposa ficou com a casa
com a somente cama e se desfez da primeira
cadeira
um pescador comprou a cadeira por três
sardinhas magras e se sentava na cadeira
diante do mundo e exatamente do mundo se soube
cercado da áurea primeira
uma cadeira onde a primeira
e a contaminação
o pescador estava a gerar outra cadeira
a terceira
uma
filha daquela convenção primeira

§

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.para Isaura.

a vênus de willendorf tem
a capacidade aberta e usada desde sempre
especialistas dizem
a vênus de willendorf
era usada em ritos de fertilidade
pequena usável
era usada como amuleto era
usada como objeto de limpeza abjeto
introduzido na
capacidade das vênus ordinárias era
usada como peso de segurar porta aberta
era usada para mexer alimentos ritualísticos
era usada na fervura dos alimentos mais ordinários
usada na terra era plantada antes dos alimentos
usada bolota aromatizadora pingava-se
óleo de casca de árvore ordinária na capacidade
da vênus de  willendorf
que ficava ali ao uso do recinto
a vênus de willendorf era usada
dizem os especialistas
usada como socador de ervas
usada como amplificadora da pequenez
das outras vênus
todas ordinárias
usada para amaciar
carnes relações couros discussões
pois basta olhar para a vênus de willendorf
notável pequena usável
hojendia os especialistas usam
a vênus de willendorf
em suas especialidades
a vênus de willendorf jamais deixou de ser usada

*

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4 poemas inéditos de Carla Diacov

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Carla Diacov (São Bernardo do Campo, SP, Brasil, 1975), formada em Teatro. Estreia em livro, além da participação em algumas antologias, com Amanhã Alguém Morre no Samba, (Douda Correria, Portugal, 2015). Tem participação em diversas revistas on-line e impressas.

Se atraca com as plásticas o tempo inteiro, movimento que a serve a construir em conjunto de matérias ou que a traz de volta às letras somando algo da extração da borracha. Gosta de abordar o sangue. Tende a ser serial.

Em Agosto de 2016, publicou A metáfora mais Gentil do Mundo Gentil, (Macondo Edições, Juiz de fora).

Em 22 de Setembro, foi publicado o primeiro volume de Ninguém Vai Poder Dizer Que Eu Não Disse (Douda Correria, Portugal, 2016).

Em 2017 lança mais dois livros de poesia.

* * *

cartão chinês

uma chuva que vai e que volta
uma que só volta
não é de procurar
entende-se aos poros
estende-se aos povos
ao indivíduo ou
seja a montanha
ou seja um quadrúpede nela
é o momento do grito e do labirinto
é o momento do papel estendido à tinta
momento do homem que lê e da árvore que
estica o galho na direção proposta antes bem
antes do homem
uma chuva que leva
uma que deixa eu não
eu nunca eu um quadrúpede e três trovões

esganadura

com a escuridão entre os dedões
dos pés
sentiu pela primeira vez
comunhão com o mundo
fez questão
ali mesmo
com escuridão entre os dedões
oblíqua questão de ser
um corpo
apesar da comunhão
um corpo com um pássaro atravessado
da ideia pássaro e da
religião pássaro
apesar de ser
envergadura
fez assim
asas com as mãos
pássaro sob os dedões
fome sede tonalidades fome e sede

§

coração

eu inventei que era chá
inventei que era uma raiz que
nasce só lá na Índia
nasce só e sozinha
uma por ano
dizem
inventei que dizem que
olho muito pequeno é sangue
muito engrossado nas partes íntimas
invento para amanhã que
será chuva junto das
montanhas na Índia
lá em
bem perto da
raiz só
invento que espirro
é ultimato pra libélula de
coração negligenciado
agora invento que não você
sabe que as libélulas quando pro
criam formam um hexágono exatamente irregular?

§

boeuf bourguignon

com a DENTADURA PERFEITA da Angélica Freitas
mordendo meus miolos

escolho falar com você carne
de segunda
pretendida talhada martelada de segunda
não vamos falar de amor e nem vamos
trincar sobre o ódio
quero contar meus medos
carne quase mignon meus medos
a coleção só faz aumentar
imagino que com você é o mesmo
disso a escolha
a carne de segunda deve de
quase meiga por pouco mais dava pra encantadora
decidi por ter medo de colocar muitas
unhas na fala
imaginava e agora sei chicha de segunda
vejo sua retração
sua retração concorda comigo com
o medo das unhas na fala
e a carne de segunda é amaciada
soca-se uns alhos pelas retrações
ervas vinho barato libertinagem então fogo
o assado está como nunca
como nunca fica um assado como nunca
cheiroso enganado e fatiado
imediatamente partimos para
discussões de primeira

§

horas bolas

o menino ganha uma bola
e não sabe o que fez para ganhar
tamanho mistério
em seus 15 meses de vida nunca viu
tamanho exemplo
nos desafiamos como nos amamos tudo
junto empilhado alternando o cume
a menina desvenda a bola
por isso ganha um vestido de bolas
em seus 39 meses a menina caberá no vestido
em seus 93 meses recortará as bolas
em seus 203 meses vai fazer do vestido uma bolsa
onde tudo tudo tudo cai bem com gás de pimenta
o menino repetirá para o resto da vida
NINGUÉM ME DÁ BOLA
o menino repetirá tamanho exemplo

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