poesia

Um poema de Carlito Azevedo, no Iom HaShoá

Áustria, estrela dourada no peito, acordar os mortos e juntar fragmentos, negro leite da aurora, todos os que conseguiram fugir como puderam. E os que não. Monumento.

Adriano Scandolara

 

Rachel Whiteread - Biblioteca Sem Nome (1)

MARGENS

1
Nem procurar, nem achar: só perder.
Como o tremulante cachecol florido de Andi
a flutuar no céu por alguns segundos
antes de desaparecer completamente na
noite escura da Marina da Glória, onde,
por causa da névoa, os barcos ancorados,
com nomes como Estrela-Guia e Celacanto,
também pareciam querer fugir de si mesmos.

2
“De modo que a lanterna deste aqui por um instante
deixa de brilhar para como que reaparecer mais adiante,
mais fulgurante, na popa daquele outro
ali. Olhe ao redor, estamos no Rio de Janeiro
ou fomos lançados na paisagem complexa
de um conto tradicional chinês?”

3
(O cachecol, ainda)
Ele rodopiou
no ar e desenhou com uma das extremidades
vários círculos dourados, uma espécie de hélice.
Parecia seguir para o mar, mas uma lufada o
lançou para o outro lado: uma seta acesa e
maleável sobre o canteiro de gerânios, na
direção das pistas de alta velocidade
do Aterro do Flamengo. Batemos uma foto
e prometemos voltar amanhã. Não à Marina,
mas ao Museu de Arte Moderna, e ver a
“Biblioteca sem nome”, o Monumento
do Holocausto da Judenplatz,
de Rachel Whiteread.

Rachel Whiteread - Biblioteca Sem Nome (2)
4
Por isso esse poema não começa com um menino,
com um menino cantor sobre uma barca,
com uma barca cortando a água e o nevoeiro,
com um nevoeiro adensado por árias do folclore polonês
e refrões militares prussianos na voz de uma menino cantor.

5
“Quando chegamos ao nosso acampamento,
comemos alguma coisa, e nossas garotas logo
foram se deitar. Nós ainda nos demoramos um pouco
vendo tevê, fumando, e pela janela não cessávamos
de ver o fantástico fundo de chamas
de todas as cores imagináveis:
vermelho, amarelo, verde, violeta,
e de repente…”

6
Vai ficar mais difícil estacionar carros
aqui na Judenplatz e não é um monumento bonito
e eu teria preferido que tivessem por fim se decidido
a utilizar aquela solução anti-spray pois ninguém também
vai gostar de ver suásticas pintadas sobre ele, eu não
gosto dele, mas já que está aí eu e ninguém vai
querer ver suásticas pintadas sobre ele.

Rachel Whiteread - Biblioteca Sem Nome (3)
7
“Ele me pergunta se minha garota já foi casada
e eu: ‘Não. Mas esteve muito apaixonada antes.
Aquele que ela amava foi ferido, gravemente,
seus órgãos saíam-lhe do corpo. Ela os
recolocou com suas próprias mãos, levou-o
para o hospital. Ele morreu. Puseram-no na
vala comum, ela o exumou, deu-lhe uma
sepultura.’ Para ele, este simples
episódio é o cúmulo da virtude.”

8
“Ele me perguntou: ‘e se ela começa a gritar
muito alto você usa as mãos para cobrir
sua boca ou deixa que ela grite o quanto
tiver para gritar?’ Depois ele me perguntou:
‘E o que ela faz da vida?’, e eu: ‘Trabalha numa
editora alpina’. E ele: ‘Ah, sim?’, e eu: ‘Sim, sim.
Ela escreveu e publicou guias de montanha. Ela
editou uma revista alpina.”

9
Rachel Whiteread
(ao ver seu monumento
finalmente inaugurado):
– Foram cinco anos de inferno.

Rachel Whiteread - Biblioteca Sem Nome (4)
10
Estou falando de dias ensolarados,
estou falando de dias escuros, quer dizer,
estou falando de flores, sim, de lombadas
de livros, portanto de douraduras, isso quer
dizer, de crianças brincando e nadando na água
da inundação, de queimar as cartas do escritor famoso,
da fumaça subindo e deixando aquela mancha
no teto, eu não estou falando das colinas de Berkeley
mas dos entregadores de pizza porto-riquenhos de
Berkeley, dos entregadores de pizza húngaros de
Santiago, dir-se-iam livros que não se abrem, de
portas que não se abrem, de sonhos que não,
de um pesadelo recorrente, de uma resina,
um cavalo correndo, não são livros de areia.

11
Con frecuencia, en artículos publicados en la prensa o en los mismos intercambios de la calle, los vienenses cuestionaban tanto la “oportunidad” como la misma “necesidad” de recordar el Holocausto. Tras el estudio de los distintos proyectos, el jurado seleccionó la propuesta de la joven escultora británica Rachel Whiteread. En el camino quedaban múltiples obstáculos: desde la insistente oposición de la ultraderecha (ahora sumada a la coalición gobernante), hasta las mismas organizaciones de sobrevivientes (insatisfechos con el diseño de Whiteread por su contenido excesivamente “abstracto”). Ellos argumentaban que las víctimas del extermínio “no murieron en abstracto”.

12
(epílogo, à maneira do teatro de Gertrude Stein)

Dir-se-iam pétalas.
Aquelas?
Estas.
Antes profusão.
Dir-se-iam montes de merda.
Dir-se-iam céus.
Camuflagens.
O que é a Legião Condor?
Dir-se-ia fixo? fúcsia?
Dir-se-ia farpado?
Figuração.
Troncos.
Cepos.
Minas terrestres
(mas aqui, aos teus pés,
crescem agora essas
florezinhas azuis e roxas).
Dir-se-iam maiúsculas.
Toda a tarde?
Entre lobo e cão.
Dir-se-iam pescadores.
Nada assemelha.
Um chamado à ordem,
e no entanto trovões.
Hematomas no lago,
dir-se-ia entrever.
Dir-se-ia chuva de ouro?
Eram vagões?
Ali, hipoglicêmico.

(poema de Carlito Azevedo, retirado de seu livro Monodrama)

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poesia, tradução

tamara kamenszain

kamenszain

tamara kamenszain, descendente de judeus russos & romenos, nascida em buenos aires em 1947,  é uma das poetas mais interessantes da poesia argentina que estão em atividade. autora de 8 livros de poesia, dentre eles De este lado del Meditarráneo (1973), Tango bar (1998), El Ghetto (2003) & Solos y solas (2005), além de livros de ensaios sobre poesia latina. recentemente saiu uma reunião de toda sua poesia sob o título de La novela de la poesía (2012), onde também encontramos poemas que estavam dispersos. boa parte de sua obra já foi traduzida para algumas línguas & alguns detalhes sobre suas ideias podem ser conferidas numa entrevista concedida a solange rebuzzi, que ainda apresenta poemas do livro Solos y solas.

embora seja costumeiramente inserida na corrente dos neobarrocos argentinos da década de 70, penso que sua poesia mais recente se afasta desse rótulo ao mesmo tempo em que se afirma como um voz feminina específica, marcada por sua condição política, sexual, religiosa, familiar, histórica, &c., sem um resumo simples de forma ou pensamento. esse processo pode muito bem ser visto nos dois poemas que posto logo abaixo, tirados das poucas traduções a que já tive acesso.

por falar nisso, vale lastimar a falta de traduções da sua obra. que eu saiba, só tínhamos o livrinho El Ghetto, numa edição bilíngue traduzida por carlito azevedo & paloma vidal, como parte de um número da revista Inimigo rumor. nesse livro, uma espécie de tombeau pela morte do pai tobías kamenszain, o judaísmo explicitado desde o título se amplia da tradicional imagem do gueto para todo um gueto que se herda no sangue, através da distância das raízes, pelo reencontro do mesmo no outro, mesmo já sem a fé na religião. essa retomada da incompreensão afetiva parece fundar os poemas em seu exílio constante de espaço, língua & religião. talvez pra minorar a falta, faz não muito tempo, a 7letras lançou uma reedição d’O Gueto acompanhado de O eco da minha mãe, este em tradução de paloma vidal.

guilherme gontijo flores

tapa Poesia completa_TK

[de Tango Bar]

A simpatia dele pelo diabo
é o ninho de minha antipatia.
Assusta-me e aborrece-me
tudo o  que está mal
no bom sentido
da palavra. Pecado,
pecado seria então
segui-lo tão longe
quando jura e perjura
que estamos perto.
Mamãe, papai, fui
com este mauzinho crioulo
e na cruz de seu poncho
me dei por perdida.
Será possível que em minha religião
sozinha
atrás de um homem
eu sempre sinta frio?

(trad. de ronaldo cagiano, há mais aqui)

La simpatía de él por el diablo
es nido de mi antipatía.
Me asusta me enoja todo
lo que está mal
en el buen sentido
de la palabra. Pecado,
pecado sería entonces
seguir a él tan lejos
cuando jura y perjura
que estamos cerca.
Mamá, papá, me fuí
con este maldito criollo
y en la cruz de su poncho
me di por perdida.
¿Será posible que en mi religión
sola
detrás de un hombre
yo siempre sienta frío?

Antepassados (de O Gueto)

Aonde vão?
Vou com eles descendo de meus filhos
até onde queiram chegar astros circulantes
se na hora do nascimento calcularam ascendente
não o abandonem mais.
Do Mar Negro até o Estreito
naturalizam-se comigo de mim procedem
meninos de sobrenome decomposto
viajando para ser argentinos
imigrantes por vomitar no convés
dando voltas eles nos voltam
como vinil arranhado dos beatles
da Rússia para cá
e daqui para a URSS que foi
donos de um deserto que avança bisavós do nada.

( trad. de carlito azevedo & paloma vidal)

Antepasados

Adónde van?
Me voy con ellos desciendo de mis hijos
hasto donde quieran llegar astros rodantes
si a la hora del nacimiento calcularon ascendiente
no lo abandonen más.
Desde el Mar Negro hasta el Estrecho
se naturalizan conmigo de mí vienen
chicos de apellido descompuesto
viajando para ser argentinos
inmigrantes por vomitar en cubierta
dados vuelta nos vuelven a nosotros
como vinilo rayado de beatles
de Rusia para acá
y de aquí a la URSS que fue
dueños de un desierto que avanza
bisabuelos de la nada.

Sozinha (de La novela de la poesía)

Agora que enfim estou desvelada
como que pra comprovar que algo cresci
sei que não só o sorriso daquele homem
como também seus gestos
e que não só esses gestos
como também suas palavras
tudo me alcança posso caminhar
acrobata cambaleante porém segura
pela corda bamba da minha própria casa

(trad. guilherme gontijo flores)

Sola

Ahora que por fin estoy desvelada
como para comprobar que algo crecí
sé que no solo la sonrisa de aquel hombre
sino también sus gestos
y que no solo ésos gestos
sino también sus palabras
todo me alcanza puedo caminar
acróbata tambaleante pero segura
por la cuerda floja de mi propia casa

(poemas de tamara kamenszain)

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crítica, poesia, tradução

Dos paradoxos da linguagem: 3 poemas

Nós aqui do escamandro costumamos pegar leve com questões teóricas, em parte porque não temos a pretensão de fazer de nosso blog um reduto acadêmico (e, mais do que isso, ficaremos incrivelmente contentes se pudermos contribuir para, na verdade, tirar a poesia um pouco do domínio burocrático e dogmático da academia)… no entanto, dito isso, se há um teórico ao qual eu me vejo sempre retornando, esse seria George Steiner. Apesar de ter seus problemas (e qual teórico não tem?), eu gosto muito de seu livro Depois de Babel (1975), e uma de minhas passagens preferidas (pois o estilo de Steiner envolve longas digressões e erranças pelo texto que fazem com que cada capítulo aborde uma miríade de assuntos) diz respeito ao porquê do hermetismo da poesia moderna. Resumidamente, Steiner comenta como os poetas do final do século XIX/começo do século XX passam a perceber que não podem continuar escrevendo do mesmo modo – um modo claro, segundo Steiner, “confortável com a linguagem” – como se escrevia predominantemente até então, o que se dá por uma série de motivos, dentre os quais está a percepção da falta de sentido da linguagem, que faz com que ela se torne uma prisão. Não é a toa que é mais ou menos nesse período que começamos a ver surgirem as noções de Nietzsche, da língua como formada de “metáforas gastas” (como moedas que perderam a efígie) e, mais tarde, as de Saussure sobre a arbitrariedade do signo.

Mas alguém poderia se perguntar “como assim falta de sentido da linguagem?”… pois bem, evidentemente não é de hoje (nem mesmo do século retrasado) que as pessoas percebem de que nem sempre a linguagem dá conta de exprimir o que se quer exprimir. Dante mesmo, lá no século XIII, apresenta em vários momentos da Comédia trechos sobre como a linguagem humana fracassa diante da tentativa de representar as torturas do inferno e as graças do paraíso. Cito abaixo um desses exemplos dantescos, tirado do Canto XXXII do Inferno, quando Dante e Virgílio adentram o último círculo (onde está Satã), e os horrores vão se tornando impronunciáveis:

Tivesse eu rimas rudes e rouquenhas
que ao fim do fosso só convir presumo,
pra o qual apontam todas as suas penhas,

espremeria de meu conceito o sumo
melhor, mas não as tendo, só com grã
temor, ao meu relato o encargo assumo;

que não é pra quem julgue-a empresa chã
a descrição do fundo do Universo,
nem pra língua que diz papá e mamã.

(vv. 1-9, tradução de Italo Eugenio Mauro)

Mas é com esse momento mais avançado da modernidade (“avançado” aqui no sentido puramente temporal mesmo) que esses problemas passam a representar uma grande preocupação poética.

Poderíamos apontar ainda para as questões dos problemas do discurso ideológico: tanto Steiner quanto o crítico/teórico Terry Eagleton concordam que a linguagem ideológica se vale dessas falhas da linguagem comum do cotidiano para legitimar uma estrutura de poder, e o exemplos que eles dão concernem à polissemia da palavra “liberdade”, que pode significar (e mais do que isso, legitimar) praticamente qualquer coisa, dependendo de quem a enuncia. Outro crítico ainda, chamado Stuart Curran, aponta para o problema do ato de dar nomes, na medida em que nomear é reduzir uma coisa real a uma abstração, e a ideologia novamente extrapola esse ato ao simplificar (muitas vezes grotescamente) o mundo.

Sendo assim, como poder falar do humano, dos problemas humanos, do amor, do sofrimento, da tirania, do espírito, etc, sendo a linguagem tão maculada de mentiras? Novos modos de expressão se fazem necessários, e, embora boa parte da crítica pareça reservar a palavra “hermetismo” para tratar de poetas como Mallarmé e Celan, acredito, com Steiner, que mesmo com poetas contemporâneos que sejam bastante claros em sua dicção, há alguma dificuldade no que ele ou ela quer dizer com aquelas palavras, que é muito diferente do que se tem com uma poesia mais clássica. Uma poesia que se põe contra uma noção de naturalidade da linguagem, justamente por essa naturalidade ser enganosa.

Poderíamos discorrer muito mais sobre isso, mas não planejo fazer deste post um ensaio sobre o tema. Esta é só uma minúscula introdução para dar um pequeno exemplo da recorrência dessa temática em alguns poetas contemporâneos muito distintos, que, espero, mostram como essa questão não é somente uma preocupação teórica.

São eles, em ordem de apresentação aqui: a polonesa Wislawa Szymborska (1923-2012), o carioca Carlito Azevedo (1961) e o alemão Hans Magnus Enzensberger (1929).

(Adriano Scandolara)

As três palavras mais estranhas

Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já se perde no passado.

Quando pronuncio a palavra Silêncio,
suprimo-o.

Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum ser.

Wislawa Szymborska, tradução de Regina Przybycien. (Poemas, pela Cia das Letras)

*

Agulhas de Amianto

Órion

Órion
desabalada
deixando cair
os pingentes de
sua écharpe
sobre a água
de outra
estrela

Serpente

depois de Sebastião U Leite

O nome
como veneno
e o poema como
antídoto
extraído ao
próprio
nome

O nome

O poema como
uma serpente de bronze
que só não obedece ao próprio
nome (se entre tantos possíveis
dissermos o seu verdadeiro nome
et qui dit amour, dit pistolet
será o fim, o escuro, a
desintegração)

Pirâmide

para Luciana Whitaker

Quando
retiraram o
último bloco de
pedra que a prendia
ao solo a pirâmide
flutuou

Epílogo

“De onde sai o que sei?”
perguntei à cabeça caída
“Daqui”
lábios sem rosto responderam

Carlito Azevedo (Sublunar, pela 7Letras)

*

Razões adicionais para os poetas mentirem

Porque o momento
no qual a palavra feliz
é pronunciada
jamais é o momento feliz.
Porque quem morre de sede
não pronuncia sua sede.
Porque na boca da classe operária
não existe a palavra classe operária.
Porque quem desespera
não tem vontade de dizer:
“Sou um desesperado”.
Porque orgasmo e orgasmo
não são conciliáveis.
Porque o moribundo em vez de alegar:
“Estou morrendo”
só deixa perceber um ruído surdo
que não compreendemos.
Porque são os vivos
que chateiam os mortos
com suas notícias catastróficas.
Porque as palavras chegam tarde demais,
ou cedo demais.
Porque, portanto, é sempre um outro,
sempre um outro
quem fala por aí,
e porque aquele
do qual se fala
se cala.

Hans Magnus Enzensberger, tradução de Kurt Scharf & Armindo Trevisan. (Eu falo dos que não falam, editora Brasiliense)

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