entrevista

Canteiro de Obras – Rafael Zacca entrevista Casé Lontra Marques

Foto de Alexandre Moraes

As oficinas de criação e análise literária são um grande canteiro de obras. Não foram poucos os filósofos e teóricos da arte que disseram que a obra precisa, depois de pronta, esconder os seus andaimes. O quanto as obras têm mostrado os seus andaimes no último século e meio, testemunha a arte contemporânea, que se tornou, aqui e ali, a produção de vigas e cimento e máquina sem o verniz do acabamento. Isto é, expõe-se o fazer. As oficinas avançam nesse processo e mostram mais, recuando ao passado: recuperam uma prática pré-moderna, antiga e principalmente medieval de fazer comunitário. Esta série de entrevistas procura visibilizar oficineirxs de diferentes perfis, idades e práticas, e tomar a arte-educação em poesia como, ao mesmo tempo, um campo do saber e uma forma em si. A oficina como forma. A oficina como campo do saber. A oficina.

Rafael Zacca

* * *

Rafael Zacca: Casé, quando estive em Vitória, você definiu as oficinas que você dá por aí como Oficinas de Análise Literária. Pude ouvir um pouco do material que você me mandou por e-mail. Eram basicamente duas horas de leitura em cima de um poema contemporâneo (isto é, sem tradição crítica que pudesse amparar uma aula longa) e de poucos versos. Quer dizer, você se demora, com a turma, muito tempo em cada palavra. Mas eu queria entender como isso é pra você. O que são essas oficinas, Casé? O que é que acontece nesse espaço?

Casé Lontra Marques: Antes de tudo, Rafael, a Oficina de Análise Literária é, para mim, uma espécie de agradecimento. Isso mesmo. Agradecimento à literatura, ao fato de haver literatura no mundo. Eu poderia dizer que se trata de uma celebração. O que, de certa forma, não deixa de ser, claro. Mas gosto de enfatizar essa vontade de agradecimento, que só se efetiva coletivamente. A potência que habita a literatura me dá uma força enorme para lidar com a vida. E os encontros dedicados à leitura conjunta são uma maneira de contribuir para a circulação dessa energia, que chega, acredito, a quem se abre sem pressa. Portanto, em geral seleciono, para cada edição, não mais que dois textos, preferencialmente poemas breves. A intenção é destinar um bom tempo para a análise, que se quer minuciosa, caminhando palavra a palavra, às vezes sílaba a sílaba ou, até, letra a letra, para que seja possível explorar diferentes dimensões dos textos lidos, afinal inesgotáveis. Como a escolha do que será abordado leva em consideração propostas estéticas marcadas pelo enfrentamento da existência, tanto com seus prazeres quanto com seus desesperos, os debates, melhor, as conversas que surgem no decorrer do desdobramento analítico tendem a privilegiar aspectos vivenciais, em proximidade, sempre, com as nuances do paladar. Então, os encontros da oficina se tornam uma oportunidade para interrogar, por ângulos inusitados, o desejo, assim como o desconforto. A imersão na materialidade linguística de determinada construção literária, no caso, conduz a uma travessia afetiva, atenta aos perigos e, também, às pulsações que constituem a experiência. Surgem, disso tudo, trilhas interpretativas inusitadas, com implicações subjetivas difíceis de delimitar. E percebo que as pessoas que participam saem com um entusiasmo semelhante ao meu.

RZ: Que tipos de pessoas têm procurado essas oficinas? Imagino que você já tenha alcançado desde um público mais especializado até um público mais heterogêneo. Você sente muita diferença de acordo com a variação da classe?

CLM: O público é heterogêneo, em especial na perspectiva etária. Há desde pessoas em idade universitária a pessoas já em gozo da merecida aposentadoria. Uma parte significativa, mas não a maioria, cursa ou cursou Letras, o que faz com que coexistam, geralmente, formações em áreas diversas. A variação da classe concede aos encontros diferentes matizes, sim. E ainda bem. Como a condução da leitura é aberta ao imprevisto, essas modulações, relacionadas diretamente a quem participa, conferem outra camada de singularidade a cada edição.

RZ: Como começaram as suas oficinas?

CLM: Certa vez participei de um evento num importante centro cultural aqui de Vitória, pertencente à Rede Sesc. A proposta, elaborada por Wilson Coêlho, então curador de literatura do espaço, era tratar da desconstrução do amor. Após assistir ao que falei nessa noite, Lia Noronha me convidou para uma palestra na Academia de Letras de Vila Velha. Em seguida, a própria Lia me sugeriu a realização, no mesmo lugar, de um curso de criação literária. No entanto, eu, que ainda não tinha em mente um formato para esse tipo de ação, propus que o curso fosse dedicado à análise. E assim nasceu a oficina, como que a reverberar, aliás, uma experiência que eu vinha tendo, naquela época, com um grupo de teatro chamado Clã, junto ao qual orientei, por um tempo, exercícios de leitura já bem imersivos.

RZ: Pode explicar um pouco melhor como era esse convívio com o grupo Clã? Porque tem uma coisa interessante aí que é esse intercâmbio entre os gêneros artísticos, né…

CLM: O tempo com o Clã foi incrível, pois, entre outras coisas, aconteceu num momento crucial para mim, de grande angústia com a escrita. Eu vinha precisando me envolver num projeto coletivo, até mesmo presencial. Para arejar o corpo por dentro. Durante o período com o grupo, eu procurei exercitar práticas de leitura na linha do que veio a se tornar a Oficina de Análise Literária. Portanto, conduzi atividades voltadas para a imersão em textos literários, de modo a propiciar uma relação mais ampla e intensa com as palavras, interrogando os múltiplos sentidos gerados por uma determinada organização linguística, com a pele aberta, ainda, para a sua tessitura formal, assim como para a dimensão experiencial expressa ou pressuposta. O convite surgiu de uma conversa com Gê Viana, diretor do Clã. Isso me ajudou imensamente a reelaborar o que considero um retorno para a produção escritural. Participar de um processo criativo solidário, em conjunto com outras pessoas, olha, foi uma oportunidade de renascimento, o que eu não antevia. Hoje, essas lembranças estão entre as melhores que guardo da minha jornada com a arte. E a gratidão, a gratidão é infinita. O intercâmbio com o teatro, ainda que não tenha sido longo, deixou marcas fundas em mim, especialmente quanto à inscrição, performática, do verbo na carne, com a atenção mobilizada, inclusive, pela concretude do silêncio. Ou pela espessura do vazio.

RZ: E mudou muita coisa de lá pra cá na sua prática?

CLM: Ao longo das diferentes edições da oficina, que são independentes uma da outra, aconteceu, em mim, menos uma mudança que uma intensificação, eu diria. Esses encontros fortaleceram ainda mais a minha concepção de que a literatura precisa se voltar para a vida, selvagemente. E, além disso, vejo que se potencializou a vontade de vivenciar o fenômeno literário em conjunto com outras pessoas, cúmplices da paixão pelas palavras, para redimensionar a solidão, algo marcante nos hábitos que herdei. Mas houve certa alteração na prática que desenvolvo, sim. Principalmente no que toca ao receio, hoje sepultado, de abordar coletivamente, até o limite da exaustão, as complexidades dos textos que me movimentam. Agora, acredito ter dissipado as minhas próprias dúvidas de que é possível fazer da demora um dom.

RZ: Você definiu as oficinas como uma espécie de agradecimento à literatura. Isso é bonito, e também mostra pra gente uma espécie de reconhecimento de uma “vida literária”, né? Porque a gente agradece sempre a alguma entidade, seja essa entidade uma pessoa, uma pedra, um espírito… basta que reconheçamos ali alguma vida a qual nos reportamos. Você acha que as oficinas de análise literária participam da vida literária? Quer dizer, você acha que esses encontros re-informam a literatura também, tanto quanto a publicação de livros, os saraus, etc.? Ou é outra coisa que está em jogo?

CLM: Gosto da sua ideia de vida literária, Rafael. E penso que minhas vivências vão nessa direção. Os encontros da oficina integram, conforme sugere a pergunta, uma rede de atividades ligadas a certa presentificação, reelaborativa, da literatura, no sentido de que contribuem, como as outras ações mencionadas, para a partilha social das pulsões poéticas da linguagem. O melhor é que há outras coisas em jogo. A transmutação da experiência, por exemplo. A transmutação ou, antes, a efetivação da experiência, que se dá também em meio ao redemoinho de palavras que nos constituem, com todas as perturbações advindas daí. O norte costuma ser o modo como elaborações verbais interagem com a conformação subjetiva, frente ao mundo atual. Sem amenizar nenhuma inquietude. Pelo contrário, o que ocorre, edição após edição, tende a amplificar os vários questionamentos já vigentes ou só entrevistos.

RZ: Você se considera um artista-educador?

CLM: Sempre que falo a partir da minha experiência com a literatura, o que me motiva, de fato, é uma missão. A palavra tem uma carga forte, eu sei, mas sinto dessa forma, como uma missão mesmo. Voluntária, evidentemente. Transmitir o máximo que eu puder da energia que a literatura me oferta, não só do saber ou da sensibilidade que se aguça em contato com as obras. Essa seria a tal missão, em plano geral. Então, em alguma medida, há uma tarefa educadora que eu tento realizar, sem sistematicidade. Contudo, devido à descontinuidade dessas ações e, também, devido à instabilidade dos meus métodos, não fico à vontade para me posicionar, no fim das contas, como um artista-educador, uma vez que há tanta gente se dedicando rotineiramente, com um programa embasado por pilares teóricos. Comigo é ainda tudo bem intuitivo.

RZ: Casé, o que é a coisa mais importante que pode acontecer em uma dessas suas oficinas?

CLM: Creio que um maior envolvimento com a linguagem literária adensa e, ao mesmo tempo, ventila o cotidiano, possibilitando outras maneiras de estar no mundo. Por isso, o que pode vir a acontecer de mais importante num dos encontros da oficina é a reformulação dos modos com que lidamos com a vida. Uma reformulação propulsiva, inclusive. Que instigue, que desorganize. E que abasteça. Em meio a palavras onde pulsa, de um canto a outro, a subjetividade, perpetuando as vibrações próprias da vivência poética.

 

RZ: Eu ia te perguntar se o Casé poeta aprende também com as oficinas. Mas vou fazer uma pergunta mais ampla, que abarca essa: você acha, a partir de suas experiências com oficinandos, que a poesia e a pedagogia podem aprender algo juntas?

CLM: Com certeza, a poesia e a pedagogia podem se nutrir mutuamente. Há algo de pedagógico na poesia, ao menos na poesia que me atrai. E, de modo semelhante, há algo de poético na pedagogia, sim. Não que isso resulte em produções didatizantes. Para mim, o que une uma e outra é, em última instância, a questão do aprendizado. Penso que a poesia, dentro da sua extrema polivalência, consegue operar como uma espécie de desvelamento, tanto quanto de transmissão, algo que tem a ver, claro, com a invenção, não só com a verificação, do mundo, posto que a realidade também precisa ser criada.

 

RZ: Eu sei que você é educador. Você já deu aula para uma conhecida minha, inclusive, eu não sei se cheguei a te contar. Professor de literatura. Mesmo não estando em sala de aula hoje. Eu queria saber de você quais são as diferenças mais radicais entre a prática do professor de literatura e do oficineiro de análises literárias. Quero dizer, acontecem coisas diferentes numa proposição de aula e numa proposição de oficina?

CLM: Bom saber que conhece uma aluna de anos atrás. Fiquei curioso, aliás. Tive experiências valiosíssimas trabalhando como professor. Contudo, mesmo que eu encontre semelhanças, vejo que a dinâmica das atividades, afinal, é marcadamente diversa. Na oficina, há mais liberdade, tanto na elaboração da proposta quanto na condução da ação, pois inexiste, por exemplo, um parâmetro curricular unificado nacionalmente ou, ainda, uma ementa institucional, que será vigiada por um agente externo, alheio ao passo a passo do processo posto em ato. Em sala de aula, a exigência de avaliação acaba, muitas vezes, direcionando a atenção, infelizmente. Além disso, a participação na oficina é opcional. O que propicia margens bem amplas para o desejo. As possibilidades de leitura suscitadas ganham, portanto, dimensões diferentes, com implicações subjetivas também distintas. Quanto maior o espaço para o desejo, melhor é a qualidade da atenção. E isso potencializa o envolvimento emocional, intensificando, nesse movimento, a imersão analítica. Privilegiada pela abertura para as especificidades de cada pessoa atuante na longa conversa que constitui o convívio com a literatura.

Um dia na oficina de análise literária, Casé Lontra Marques lê Tarso de Melo:

  1. Áudio da análise do poema: https://bit.ly/2RRdgdj
  2. Arquivo com o poema analisado: https://bit.ly/2RRdFwl

Casé Lontra Marques nasceu em 1985, em Volta Redonda (RJ). Mora em Vitória (ES). É licenciado em Letras pela Universidade Federal do Espírito Santo. Publicou Desde o medo já é tarde (7Letras, 2018), entre outros livros de poesia. Abordando o exercício da palavra como um acontecimento vital, ministra a Oficina de Análise Literária, ação que busca desenvolver um ambiente de leitura e debate em torno da criação poética, de modo a propiciar reflexões acerca da relação entre linguagem, subjetividade e experiência.

 

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crítica

Trocos, recibos & resenhas. Um 2017 por Sergio Maciel (parte 1)

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como prometido, tentarei dizer algumas coisas – breves, muito breves mesmo: apontamentos – sobre os livros que me foram enviados neste ano. conforme eu mesmo afirmei ao tratar deste post lá no facebook, não há que se esperar nada de hermenêutico, de qualquer coisa absolutamente bem aprofundada sobre cada um dos objetos aqui propostos. estou a trabalhar com a importância de 22 livros, ou seja, piedade rs. ainda que a ideia primeira, contudo, seja a de traçar esboços de interpretações possíveis, questões que o contato com os livros me suscitaram, pretendo fazê-lo da forma mais honesta possível. nessa primeira parte, falo dos sete livros ali na foto.

então, é isso. simbora!

 

* * *

Adelaide Ivánova (O Martelo, Garupa: 2017).: Costumo dizer que O Martelo possui uma poética singular. Pois bem, é chegado o momento de dar porquês. Em primeiro lugar, eu diria que é singular porque a própria existência de uma poética brasileira feminista é um acontecimento recente – e aqui uso as palavras de Constância Lima Duarte, para quem o feminismo “poderia ser compreendido em um sentido amplo, como todo gesto ou ação que resulte em protesto contra a opressão e a discriminação da mulher, ou que exija a ampliação de seus direitos civis e políticos, seja por iniciativa individual, seja de grupo”. Ou seja, ainda que possamos resgatar, historicamente, Francisca Júlia, Júlia da Costa ou Jacinta Passos como figuras de resistência num período tão patriarcal, além da figura de Hilda Hilst, que desafiava o conservadorismo com sua poesia erótica, nenhuma dessas poetas possui o engajamento político que surgirá a partir das obras de Alice Ruiz, Ledusha e Ana C., por exemplo, e culminará nas poéticas mais recentes de Angélica Freitas, Nina Rizzi, Estela Rosa e Adelaide Ivánova, para citarmos apenas alguns nomes. Desse modo, a partir desse resumo grosseiro, considero que dentro desse modus poético O Martelo, por enquanto, não encontra pares. Em Um útero é do tamanho de um punho (Cosac Naify, 2013), Angélica Freitas opera, a meu ver, a construção da mulher de que falava Simone de Beauvoir a partir do uso reiterado de versos copulativos que definem subversivamente, com base no uso incessante de verbos de ligação e por meio de constantes asserções, o que é uma mulher, desmontando a ideia formada dentro de uma cultura patriarcal que define qual é o seu papel no seio da sociedade. Adelaide, por sua vez, também trata do poder e da disciplina sobre o corpo feminino, mas a composição pra mim é que difere. Em O Martelo temos uma narrativa, ou a tentativa de construção de uma narrativa, sobre uma situação de catástrofe. Freudianamente, dá pra dizer que se trata de uma narrativa que busca desenvolver a angústia retroativamente, onde esta faltou. Precisamente por isso, a linguagem – que todos sabemos insuficiente – se ergue sobre a ambiguidade (ou dificuldade de definição) do gênero. Cria-se uma poética sobre uma narrativa que pretende, quase jornalisticamente, retratar um acontecimento, ao passo que essa poética constantemente parece sucumbir à apresentação dos fatos – movimento, aliás, que tensiona a mesma busca pela apresentação e aceitação dos fatos na instância jurídica do crime –, como na descrição física, no relato preciso do golpe de um martelo no primeiro poema ou na notícia que é o poema para laura. Há uma tensão constante, como é costume entre poéticas que se queiram políticas, entre aquilo que se pretende poético e aquilo que se pretende factual, quase jornalístico, mas que aqui, me parece, reflete quase que um embate entre o princípio de prazer e o princípio de realidade, ou seja, o adiamento da satisfação – que ocorrerá na segunda parte do livro – através da tolerância temporária do desprazer como uma etapa no longo e indireto caminho para o prazer. Além disso, há que se notar a utilização animal no livro. A questão da animalidade, que remonta pelo menos desde A história dos animais, de Aristóteles, é uma questão muito delicada para ser tratada leviana e rasteiramente aqui, mas eu assinalaria apenas que mais uma vez o poético busca retratar o horror do real – esse é o cerne d’O Martelo, creio, a tentativa de segurar na unha esse real que não cessa. Para Maria Esther Maciel, “todo animal – tomado em sua singularidade, em seu it – sempre escapa às tentativas humanas de apreendê-lo, visto que entre ele e os humanos predomina a ausência de uma linguagem comum, ausência esta que instaura uma distância mútua e uma radical diferença de um em relação ao outro”. Ou seja, não é gratuito que todas as pessoas que atravessem a experiência pós-traumática do acontecimento residam “numa língua que não é mais a das palavras, numa matéria que não é mais a das formas, numa afetibilidade que não é mais a dos sujeitos”, para dizer com Deleuze-Guattari. Tudo no livro colabora para a experiência de um entrave nas relações. Nada aqui flui, nem mesmo quando o eu-lírico encontra e redescobre os corpos, tanto seu quanto alheio. O Martelo, enfim, é um livro-ferramenta de demolição do desprazer neurótico, da submissão do corpo e de uma outra infinidade de repressões.

 

André Capilé (rapace, Texto Território: 2012 | muimbu, Macondo: 2017).: Eu poderia nomear a poética que Capilé desenvolve em muimbu (palavra que dá título ao livro significando ‘música vocal, cantiga, melodia, o que se canta’) como uma poética de tradição, de uma tradição de poéticas que tocam na tradição do candomblé – ainda que aqui valha mencionar a nuance entre tradição e costume apontada por Hobsbawn:

A “tradição” neste sentido deve ser nitidamente diferenciada do “costume”, vigente nas sociedades ditas “tradicionais”. O objetivo e a característica das “tradições”, inclusive das inventadas, é a invariabilidade. O passado real ou forjado a que elas se referem impõe práticas fixas (normalmente formalizadas), tais como a repetição. O “costume”, nas sociedades tradicionais, tem a dupla função de motor e volante. Não impede as inovações e pode mudar até certo ponto, embora evidentemente seja tolhido pela exigência de que deve parecer compatível ou idêntico ao precedente. Sua função é dar a qualquer mudança desejada (ou resistência à inovação) a sanção do precedente, continuidade histórica e direitos naturais conforme o expresso na história.

Dar a sanção do precedente, de continuidade histórica, dentro da poética contemporânea, dando-lhe, ao candomblé afro-brasileiro, ao mesmo tempo, uma dimensão universal, é uma questão muito difícil em termos de poética. Algo como a operação dos Afro Sambas. Não há fetiche aqui. Não há utopia de uma catarse/pureza religiosa. Há, sim, qualquer coisa aqui de uma etnopoesia, i.e., de uma tentativa de relacionar a uma poética sincrônica alguns traços diacrônicos trazidos novamente ao presente e, vistos assim como se pela primeira vez, pra dizer com Eliot, que buscam iluminar alguns caminhos – exemplo disso são os poemas das páginas 18/19, constantes no capítulo ‘NGANA JILA CALIBAN’ (JILA significando nome genérico da todas as faixas de terreno que conduzem de um para outro lugar, caminho, espaço que se percorre, estrada, rota, travessia):

acesso de todas
as portas

sou de todas
as cruzes

a passagem

(p.18)

que importa se
é verdade?

caminho qualquer caminho

(p.19)

 

Como é possível ver nestes poemas citados e no próprio poema muimbu (clique aqui), o importante dessa poética é que as vozes desse canto buscam sempre um ritmo que as conduza, uma marcação de cantiga, seja através dos binários troques&iambos, ou dos ternários anapestos. A preocupação rítmica conduz as operações de vitalidade aqui. Se passarmos ao rapace, por exemplo, fica evidente que o apelo ao vocal, àquilo que há de ritmo no corpo. O jogo melopaico é mais do que eficiente em suas trocas rápidas de verso, assemelhando-se a qualquer coisa de uma tradição oral que se possa remeter tanto ao rap quanto ao repente. A exemplo, vejamos o poema Mind the gap (clique aqui). É claramente uma poesia que se realiza, que se completa na voz performática, no corpo. É “a gambiarra do inútil dizer que se dá melhor fora aos ouvidos”, afinal.

Por fim, deixo aqui recomendado o apanhado da poesia do autor feito pelo Ricardo Domeneck na revista Modo de Usar (clique aqui).

 

Carla Diacov (A menstruação de Valter Hugo Mãe, casa mãe: 2017).: A Carla Diacov é uma coisa, né!? Sempre que eu penso que a poesia é uma subversão da expectativa do dizer, eu meio que penso na Carla, porque nada ali faz sentido dentro do meu usar da sintaxe, das relações lógicas da língua. A Carla costuma corromper todos os signos em mim. Eu, por exemplo, nunca espero por algo como “houve a tentativa por sobre a coisa no chão/ vermelha não tinha o tempo da vida/ aquém/ espera marido que também/ é nome de doce que se serve às/ visitas que esperam saber/ espera marido no chão no urso de usar no chão/ espera marido de arrepiar filhos”.  Mas todo esse encadeamento que nos conduz por sendas que nós não imaginávamos caminhar é feito sob a luz da maior “lucidez na brancura no tato olfativo”. Carla é daquelas poetas que – putaquepariu – desmontam nosso chão pra não colocar nada imediato no lugar. Nós é que nos viremos pra entender as coisas que estão em jogo a cada poema e caminhar novamente.

A questão é que em A menstruação de Valter Hugo Mãe temos duas Carlas. A Carla que assina os poemas e a Carla que vai assinar os desenhos. Isso me leva a pensar que a composição dessa obra mantém uma tensão fundamental com duas questões: 1) as artes plásticas, ou mais especificamente a pintura (ou ainda mais especificamente uma pintura que se proponha primitiva e que remonte quase aos vermelho as pinturas rupestres. Afinal, o vermelho meio que é pra nós, humanidade, uma cor fundadora e primordial) e 2) um funcionamento biológico intrinsecamente feminino que, aqui, se apresenta como realizado num corpo masculino, isto é, no corpo do escritor português Valter Hugo Mãe.

O fato do primeiro poema do livro tratar sobre a Vênus de Willendorf (clique aqui para ler o poema) não é gratuito. Vejamos: a estatueta, que mede 11 centímetros, data de entre 24 000 e 22 000 a.C. e possui uma cor ocre. Muita gente reluta em aceitá-la como a representação de Mãe-Terra, a coisa mais fértil que se pode existir. Outros ainda relutam em aceitar que a estátua seja de fato uma representação de Vênus por conta de suas características de obesidade. De todo modo, a Vênus de Willendorf é talvez uma das representações mais famosas de um conceito de mulher, que se liga à ideia de fertilidade, de bem-estar &c. Que ela tenha sido usada em rituais de fertilidade, em rituais de plantio, em tudo que se pudesse germinar o crescimento de algo, Carla nos dá conta e arremata, no verso final, que “a vênus de willendorf jamais deixou de ser usada”.

i.e., Carla nos apresenta logo de cara uma figura de atrito. A estatueta serve tanto como ideia primordial e primitiva das artes plásticas – o que abrirá o campo para a expensão poética de seus desenhos, que vale salientar é produzido a partir do sangue menstrual da própria autora – quanto ideia primordial e primitiva da mulher, do corpo da mulher, das funções corporais da mulher. A partir disso, portanto, sobretudo daquilo a que se propõe, biologicamente, o corpo feminino, Carla vai operar um desmonte do lugar-comum da menstruação – e claro do corpo feminino, vide o poema da página 15, “havia somente uma cadeira para o casal” (conferir no hiperlink do parágrafo anterior). Tudo aquilo que falei sobre o livro da Angélica Freitas vai se aplicar também, conceitualmente. Trata-se, afinal, de uma narrativa sobre a mulher aqui, sobre a construção diacrônica do conceito de mulher.

Por fim, pra não alongar muito, queria salientar duas coisas. A primeira está relacionada a um isomorfismo: o livro se abre com a fertilidade da Vênus, passa por uma consideração da mulher e da menstruação e termina com um poema sobre um filho. Acho curioso porque, biologicamente, novamente, a menstruação vai significar precisamente a ausência desse rebento (pra muita gente vai significar o alívio, aliás). Mas em Carla sucede o contrário. Os ovos que não vingaram aqui vingam. Veja, é aquilo que eu disse sobre a corrupção de nossas expectativas. A outra coisa é – e vou dizer aqui de modo muito vago e subjetivo – que Carla opta, a cada poema, pelo amor. Trata-se, pra mim, em última instância, de um livro de amor. Um amor por si mesma, pela alteridade, um carinho pelo próprio sangue – ainda que se possa enxergar no próprio sangue o combate. Esse dar o próprio sangue pode ser entendido aqui quase como uma devoção do próprio corpo à resistência na arte. E, assim, gente, eu não concebo resistência sem amor.

 

Casé Lontra Marques (O que se cala não nos cura, Aves de Água: 2017 | o som das coisas se descolando, Aves de Água: 2017).: Desde que eu encontrei alguém com quem eu finalmente pudesse conversar, isto é, uma excelente psicanalista (que obviamente é lacaniana), eu comecei a pensar muito, a partir do trabalho dela, no meu próprio trabalho. Toda essa jogada de se colocar em frente a um discurso, que a princípio pode parecer banal ou soar ininteligível, e buscar ali um sentido, qualquer coisa que dispa de dores esse corpo do discurso e conceda uma nomenclatura, compreensão, às dúvidas e delírios radicalmente pessoais não difere, para mim, em nada daquilo a que se propõe qualquer leitor crítico.

Aproximações psicanalíticas da literatura não são, evidentemente, novas. O surrealismo certamente é o evento mais notável. Ali, se buscarmos nos ater à nomenclatura usual das coisas, pouca coisa se nos revelará. Quando se diz que um cavalo azul corre sobre um piano, por exemplo, a metáfora ali é antes psicanalítica que literária. Outro exemplo dessas aproximações pode ser o romance Grande Sertão: Veredas. Como não ler ao longo das páginas e páginas de discurso de Riobaldo uma sessão lacaniana. Sobretudo quando nós, leitores, cumprimos o papel analítico de atentar a cada ato falho, como MEDO/DEMO, ou enfatizar cada signo, como MIRE e veja. Pode-se falar, portanto, de uma aproximação aos efeitos do funcionamento da linguagem formalizada. O sujeito, assim como o eu-lírico, torna-se uma função que deriva da incidência do real no campo da linguagem. E é precisamente por isso que o discurso não cessa. Nesse sentido, O QUE SE CALA NÃO NOS CURA assinala essa aproximação psicanalítica logo no título. Trata-se, em última instância, de responder ao real, de criar sentido a partir desse dizer a um Outro: de fazer “sol dentro do surto” (p.49).

O longo poema de quase 80 páginas, assim como todo longo poema de quase 80 páginas, não demanda a exegese de cada vírgula. Há pontos de tensão saturados de sentido aos quais é necessário que atentemos, entretanto. A presença do corpo é fundamental, porque, me parece, esse corpo faz parte do próprio discurso psicótico que constitui a narrativa. Vejamos: “E apesar de toda a atrofia: / reencontro este limiar (uma elipse; outra elisão) em que/ o acirramento/ da linguagem/ deixa marcas fecundas no corpo – deixa marcas (ou/ ventosas ou queloides ou asas) fundadoras de um corpo” (p.47). O corpo e toda sua condição/preocupação de carne e sangue e fome encontra-se latente o tempo todo. Esse corpo/discurso busca a todo momento “A fala que falha (que fraqueja. A fala que falha) também fertiliza o fôlego” (p.71). Ao fim e ao cabo, há aqui a busca, através da cura pela fala, da constituição de um sujeito fora da cadeia significante.

Em o som das coisas se descolando, creio, a estética parece deslocar-se quase para uma espécie de haikkai, ao focar na transitoriedade de todas as coisas. Vejamos o seguinte poema da página 38:

Um riso nos irriga –
chiado de chuva
no piso das pupilas.

Claro que depois dos anos 70 qualquer poética que busque esse tipo de concisão haikkaística corre um risco. Casé, todavia, parece se sair muito bem, com raras exceções de maneirismo – que em um livro de quase 200 páginas passam completamente despercebidas.

 

Fábio Weintraub (Treme ainda, Editora 34: 2015).: Trazer “para o registro lírico recursos narrativos e dramáticos” seria, para o autor, aquilo que ele chama de “ambição civil”. Ou seja, “mediar subjetivamente essa ‘captação de dizeres’ sem transformar a ‘cessão de voz’ em imposição falsificadora” (clique aqui). Curioso é que essa “captação de dizeres” vai se dar sobre experiências de choque, de trauma, de desolação (veja só, mais um livro falando sobre trauma, choque e desolação. Estariam mesmo os autores falando disso ou seriam estas as minhas lentes? Divagações…).

Em Treme ainda, cada poema vai criando uma situação de catástrofe seja pelo mote da perda, seja pelas ideias de uma loucura que conduz ao ridículo, da covardia, da podridão dos desejos ou daquilo que nos conferem de podre aos desejos. Toda a atmosfera criada aqui repousa sobre o signo da sujidade, quase ao modo daquilo que se poderia dizer das Flores do Mal. O paradigma é outro, inverte-se. Num corpo doente tudo que é são torna-se desvio. Um corpo em convulsão passa a ser um corpo excelente.

Para mim, o poema talvez mais emblemático do livro talvez seja “PRAZER”. Vejamos:

PRAZER

mesmo deste jeito
deitada de bruços
com a luz apagada
a salvo dos chamados
surda ao telefone
à campainha
insensível aos apelos e desvelos
dos que me cercam e alimentam
mesmo engolindo rápido
sem dentes
a refeição como quem
se livra de um compromisso
mesmo esquecendo
o nome do presidente
o dia da semana, o mês do ano
o nome do lugar
em que você trabalha
da rua onde eu moro
da moça que me ajuda
mesmo me libertando
das poucas obrigações
(esticar as pernas
escovar o cabelo
limpar a merda
que às vezes escapa
por causa do remédio novo
pra não perder a memória)
mesmo cada vez mais distante
da oportunidade
de transmitir um legado
a quem me assiste e sucede
nesta comédia cujo roteiro
é refeito a todo momento
por exigência
do desprezível público
que aplaude sem critério
e ri nos momentos mais pungentes
mesmo agora, aqui
fazendo essa pontinha
aguardando de novo
a minha deixa
mínima
antes que caia o pano
e no programa meu nome
seja corrigido
ainda assim, eu aqui
imóvel no escuro do escuro
com voz consumida
nisso tudo ainda sinto
um grande
enorme
prazer

A condição marginal criada pela poética de Fábio subverte a marginalidade tornando-a o centro do prazer. Veja que é “imóvel no escuro do escuro/ com voz consumida” que a eu-lírica sente prazer. Tudo aquilo que é abjeto passa a figurar como norma. Fábio cristaliza, portanto, o instante catastrófico em cada poema. Reitero: a operação aqui é semelhante à construção de um jardim no qual todas as flores são do mal, à construção de uma lira feita de lixo.

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Poemas de Casé Lontra Marques

Casé Lontra Marques nasceu em 1985, em Volta Redonda (Rio de Janeiro). Mora em Vitória (Espírito Santo). Publicou Enquanto perder for habitar com exatidão, entre outros. Reúne o que escreve em caselontramarques.blogspot.com.br.

* * *

Contra o prazer da resignação,
o perigo
que é persistir — maré cítrica —
inventa
(ou reativa) maneiras de
angariar alguma alegria.

::

No bulbo, um baque
— plasmando a amplidão:
múltiplos prismas
(e improváveis paisagens)
emergem
da fragilidade.

::

Pulsações propagam
o corpo — expandindo suas
premências,
experimentando novas
impossibilidades — de um
lapso
a outro: a carne (isso,
a carne) é parte do
sopro.

::

O lugar do alívio
é a perturbação, o mergulho
— venal —
em suas agulhas
mais agudas.

::

A imediatez de um evento
mínimo — mas consistente:
deslumbra
sem dopar (ou fascina
ao ferir),
minuciosamente?

::

Lábios entrelaçados,
assumindo a insolência do prazer
— e seu rigor
responsável: desacelerar (até
depor ou
destituir) o desamparo.

::

Existir deteriora,
porém não mais que propulsiona:
ramo
de muitas rotas — no dorso
(maleável) das ondas.

 

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poesia

1 poema inédito de Casé Lontra Marques (1985-)

casé

Casé Lontra Marques nasceu em 1985, em Volta Redonda (RJ). Mora em Vitória (ES). Publicou: Indícios do dia (2011); Movo as mãos queimadas sob a água (2011); Saber o sol do esquecimento (2010); Quando apenas se aproximam os rumores de chuva (2009); A densidade do céu sobre a demolição (2009); Campo de ampliação (2009); Mares inacabados (2008). Disponibiliza seus textos eletronicamente no endereço:Casé Lontra Marques. Contato: caselontramarques@gmail.com.

* * *

SEXTO REINÍCIO

Pelo tempo de possuir aquilo que renasceu,
aquilo
que vemos na areia do vidro a vibrar
rente
às retinas, colhidos
pelo
espanto, antes de alcançarmos

o desperdício, aquilo que repartimos porque
ainda
questionamos o que percebemos,

porque ainda abrigamos, como parte do braço,

do fêmur, como parte do baço,
do silício,
do aço em nosso fígado,

porque ainda repelimos, porque ainda violentamos

o que acolhemos; pelo tempo
de
possuir aquilo que renasceu

atravessamos — com as espáduas
mais
próximas das chagas — a ausência

do frio
que nos infecciona,

do calor
que nos corrói: atravessamos,

sobre a água,

seus rangidos, torcendo
estacas
enterradas até o torpor,
ante
um silêncio

……………………………..excessivo,
……………………………..silabicamente arremessados

a uma fala
que nos massacra,

a um balbucio
que nos confina (exceto quando o despedaçamos)

num ritmo inativo

(cujos núcleos reativamos
sempre
que nos mantemos vivos): ao deslocar

a coluna

pela úlcera, duvidamos da materialidade
da
manhã,

da densidade da noite que, distantes
de
toda bruma, alavancamos
……………………do marasmo, já a prever

o rumor de um ato
árduo,
que de repente atinge

uma
intensidade imprevista,

apesar de permanecer circunscrito
……………………………..ao
……………………………..próprio limiar, o rumor

que se abstém de produzir

qualquer
estupor, que se abstém,

portanto, de expandir
……………………a força que o afronta,

enquanto
ocultamos nossos diálogos

— do modo que faríamos
com
as fuselagens de um desastre —

para

antecipar a partilha
dos
vestígios, sobretudo

quando
detemos a deterioração

………………………da
………………………desordem: entre olhos

………………………destituídos

………………………de
………………………delírio: pois buscamos

mais do que o aspecto
sadio
cuja face concedesse

acesso
ao sossego

em que nem o desconforto

nem
o desespero fossem

somados ao espelho

de onde

descolamos os joelhos

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