poesia, tradução

Trabalhar cansa

Cesare_Pavese_2Do poeta, prosador e tradutor italiano Cesare Pavese (1908 – 1950) nós já apresentamos aqui um conto – ou, bem, um poema em prosa ou obra de prosa poética – anteriormente no escamandro, na tradução da Nina Rizzi (clique aqui). Agora seria interessante darmos uma olhadinha breve numa parte da sua obra em verso. Resultado do trabalho de tradução e pesquisa de Maurício Santana Dias e publicada em 2009 pela Cosac Naify, na coleção Ás de Colete, Trabalhar cansa é a tradução para o português do primeiríssimo livro de poemas de Pavese, Lavorare stanca, publicado inicialmente em 1936 e ampliado depois, com quase o dobro do tamanho, em 1943.  No ensaio introdutório escrito pelo tradutor, “A Oficina Irritada de Cesare Pavese” (um título que remete, como se pode ver, a Drummond), Dias descreve Lavorare  como um livro marginal e diz que ele foi pouco lido pelos contemporâneos de Pavese e menos ainda entendido em seu projeto poético, visto que a sua proposta destoava muito das principais linhas da poética modernista e do hermetismo dominante na poesia italiana – tal como se pode observar, por exemplo, em Ungaretti. Sua biografia no site da Poetry Foundation descreve sua linguagem como, ao mesmo tempo “convencional” e “coloquial”, mais próxima de um tom “americano”, o que faz sentido quando se lembra que o autor fez a sua tese na Universidade de Turim sobre Walt Whitman e deixou à sua língua uma extensa obra tradutória de autores ingleses, incluindo nomes como DeFoe, Melville, Dickens, Joyce, Faulkner, Gertrude Stein, John Steinbeck além do poeta modernista americano pouco conhecido que foi Edgar Lee Masters – o que faz com que possamos, curiosamente, enxergar em Pavese uma forma de antecessor dos poetas/tradutores/acadêmicos que são (cof cof) comuns atualmente.

No entanto, mesmo que ele pudesse ter absorvido algo da dicção americanizada, é limitada a influência desses autores em Lavorare stanca. Diz Dias:

Moderno sem aderir às experiências mais radicais da modernidade, clássico sem evidentemente participar da Grécia antiga ou da Itália de Dante, consciente dessas antinomias insolúveis e vivendo o período histórico mais conturbado do século XX, o entre guerras, Pavese se propôs o projeto impossível de construir uma obra literária que condensasse tudo isso de maneira equilibrada. Mas para atingir suas intenções era necessário isolar cuidadosamente os elementos que pudessem pôr em risco a estabilidade do conjunto: o verso livre de Walt Whitman, a redescoberta do barroco pela geração espanhola de 1927 e o uso abundante da enumeração caótica, as colagens do futurismo, a página em branco de Mallarmé, a escrita automática do surrealismo francês, o fluxo de consciência de Joyce e Faulkner (pelos quais o autor não tinha especial predileção, embora os tenha traduzido), o “alusivo e fragmentário” dos herméticos italianos, enfim, todas as experiências que confrontavam os homens de sua geração com a perda de sentidos estáveis.

É nessa postura de ser “moderno sem aderir às experiência mais radicais da modernidade” que acredito que a obra de Pavese se destaque e aponte para algo no moderno que vai além do que as experimentações evidentes – algo, talvez, mais essencial, que o aproxima dos primeiros românticos como Wordsworth. Uma retomada da “poesia-racconto”, metrificada (em pés métricos anapésticos, como aponta o tradutor, um efeito que ele fez questão de se esforçar para reproduzir, ao que todos agradecemos) numa linguagem ao mesmo tempo cultivada e popular, oralizada, com alguma incorporação, ainda que mínima, de elementos do dialeto piemontês, tendo como foco figuras marginais como “trabalhadores rurais, prostitutas, operários de Turim, vagabundos solitários, bêbados e adolescentes descobrindo a sexualidade”, Pavese não retornaria a essa poética na sua obra posterior, vista como mais lírica e musical, o que faz com que a problemática desse projeto concluído – ou talvez fosse melhor dizer abandonado – de Lavorare stanca seja ainda mais interessante.

(Adriano Scandolara)

 

LUA DE AGOSTO

Para além das douradas colinas há o mar,
para além dessas nuvens. Mas tremendas jornadas
de ondulantes colinas que crepitam no céu
se interpõem na frente do mar. Aqui em cima há a oliveira
e esta encharcada que não serve de espelho
e os restolhos, restolhos que nunca terminam.

Eis que a lua aparece. O marido se estende
em um campo, seu crânio partido de sol
— uma esposa não pode arrastar um cadáver
como um saco. Levanta-se a lua lançando uma sombra
sob os galhos torcidos. Na sombra a mulher
lança um guincho de horror ao carão dessangrado
que coagula inundando as ravinas dos montes.
Não se move o cadáver caído nos campos
nem na sombra a mulher. Mas o olho de sangue
quase pisca a alguém indicando-lhe um rumo.

Calafrios percorrem as nuas colinas
à distância, e a mulher os recebe nos ombros
como quando corriam os mares de trigo.
Também vibram os ramos da oliveira perdida
nesses mares de lua, e a sombra da árvore
já parece fechar-se, ameaçando engoli-la.
Ela corre ao aberto, ao terror dessa lua,
e o gemido da brisa na pedra a persegue,
e uma forma suave lhe morde as pegadas,
e uma dor no regaço. Volta curva no escuro
e se joga nas pedras mordendo-se a boca.
Mais embaixo esta terra se lava de sangue.

(Agosto de 1935)

 

LUNA D’AGOSTO

Al di là delle gaie colline c’è il mare,
al di là delle nubi. Ma giornate tremende
di colline ondeggianti e crepitanti nel cielo
si frammettono prima del mare. Quassù c’è l’ulivo
con la pozza d’acqua che non basta a specchiarsi,
e le stoppie, le stoppie, che non cessano mai.

E si leva la luna. Il marito è disteso
in un campo, col cranio spaccato dal sole
— una sposa non può trascinare un cadavere come un sacco —
Si leva la luna, che getta un po’ d’ombra
sotto i rami contorti. La donna nell’ombra
leva un ghigno atterrito al faccione di sangue
che coagula e inonda ogni piega dei colli.
Non si muove il cadavere disteso nei campi
né la donna nell’ombra. Pure l’occhio di sangue
pare ammicchi a qualcuno e gli segni una strada.

Vengono brividi lunghi per le nude colline
di lontano, e la donna se li sente alle spalle,
come quando correvano il mare del grano.
Anche invadono i rami dell’ulivo sperduto
in quel mare di luna, e già l’ombra dell’albero
pare stia per contrarsi e inghiottire anche lei.
Si precipita fuori, nell’orrore lunare,
e la segue il fruscio della brezza sui sassi
e una sagoma tenue che le morde le piante,
e la doglia nel grembo. Rientra curva nell’ombra
e si butta sui sassi e si morde la bocca.
Sotto, scura la terra, si bagna di sangue.

 

DOIS CIGARROS

Cada noite é uma libertação. Os reflexos do asfalto
se destacam nas ruas que se abrem brilhantes ao vento.
Cada raro passante tem rosto e uma história.
A esta hora não há mais cansaço: milhares de postes
estão lá pra quem passa e precisa riscar seu fósforo.

A chaminha se apaga em frente à mulher
que me pede um fósforo. Apaga-se ao vento,
e a mulher, que se frustra, me pede um segundo,
que se apaga. A mulher então ri, acanhada.
Onde estamos podemos falar e gritar,
que ninguém nos escuta. Erguemos a vista
para as muitas janelas — com olhos que dormem —
e esperamos. Então ela encolhe seus ombros
e se queixa da perda da echarpe bonita
que a aquecia nas noites. Mas basta apoiar-se
contra a esquina que o vento de chofre arrefece.
Sobre o asfalto roído se vê uma guimba.
Essa echarpe viera do Rio, mas diz a mulher
que está alegre por tê-la perdido porque me encontrou.
Se a echarpe viera do Rio, cruzou muitas noites
o oceano inundado de luz, em algum transatlântico.
Sim, em noites de vento. É o presente de algum marinheiro.
Já não há marinheiro, e a mulher me sussurra
que, se subo com ela, me mostra sua foto,
cacheado e queimado. Zarpava em imundos vapores
e cuidava das máquinas: sou mais bonito.

Sobre o asfalto estão duas baganas. Olhamos pro céu:
a janela lá em cima — me aponta a mulher — é a nossa.
Mas não há aquecimento. De noite, os vapores perdidos
veem poucos faróis ou somente as estrelas.
Abraçados cruzamos o asfalto, tentando aquecer-nos.

(1933)

 

DUE SIGARETTE

Ogni notte è la liberazione. Si guarda i riflessi
dell’asfalto sui corsi che si aprono lucidi al vento.
Ogni rado passante ha una faccia e una storia.
Ma a quest’ora non c’è più stanchezza: i lampioni a migliaia
sono tutti per chi si sofferma a sfregare un cerino.

La fiammella si spegne sul volto alla donna
che mi ha chiesto un cerino. Si spegne nel vento
e la donna delusa ne chiede un secondo
che si spegne: la donna ora ride sommessa.
Qui possiamo parlare a voce alta e gridare,
che nessuno ci sente. Leviamo gli sguardi
alle tante finestre — occhi spenti che dormono —
e attendiamo. La donna si stringe le spalle
e si lagna che ha perso la sciarpa a colori
che la notte faceva da stufa. Ma basta appoggiarci
contro l’angolo e il vento non è più che un soffio.
Sull’asfalto consunto c’è già un mozzicone.
Questa sciarpa veniva da Rio, ma dice la donna
che è contenta d’averla perduta, perchè mi ha incontrato.
Se la sciarpa veniva da Rio, è passata di notte
sull’oceano inondato di luce dal gran transatlantico.
Certo, notti di vento. E’ il regalo di un suo marinaio.
Non c’è più il marinaio. La donna bisbiglia
che, se salgo con lei, me ne mostra il ritratto
ricciolino e abbronzato. Viaggiava su sporchi vapori
e puliva le macchine: io sono più bello.

Sull’asfalto c’è due mozziconi. Guardiamo nel cielo:
la finestra là in alto — mi addita la donna — la nostra.
Ma lassù non c’è stufa. La notte, i vapori sperduti
hanno pochi fanali o soltanto le stelle.
Traversiamo l’asfalto a braccetto, giocando a scaldarci.

 

PRAZERES NOTURNOS

Nós também nos detemos à escuta da noite
no instante em que o vento é mais cru: as estradas
estão frias de vento, e os odores se calam;
as narinas se erguem ao brilho oscilante.

Todos temos a casa que espera no escuro
nossa volta: no escuro uma mulher no espera
estendida no sono. O aposento se aquece de cheiros.
Nada sabe do vento a mulher que descansa
e respira: o brando calor do seu corpo
é o mesmo do sangue que corre na gente.

Este vento nos lava, ele chega do fundo
das estradas abertas no escuro; as luzes
oscilantes e as nossas narinas crispadas
se debatem expostas. Cada cheiro, uma lembrança.
Desde longe, do escuro, soltou-se este vento
que castiga a cidade — colinas e prados
onde grassa uma relva que o sol escaldou,
uma terra entranhada de humores. Um áspero
cheiro é a nossa lembrança, esta pouca doçura
de uma terra estripada que exala no inverno
um alento profundo. No escuro apagou-se
todo cheiro, e só o vento nos chega à cidade.

Voltaremos de noite à mulher que descansa,
procurando o seu corpo com dedos gelados,
e um calor vibrará nosso sangue, um calor que é da terra
entranhada de humores: um sopro de vida.
Também ela aqueceu-se ao sol e descobre
na nudez desta hora sua vida mais doce,
que de dia se perde e tem gosto de terra.

(1933)

 

PIACERI NOTTURNI

Anche noi ci fermiamo a sentire la notte
nell’istante che il vento è piú nudo: le vie
sono fredde di vento, ogni odore è caduto;
le narici si levano verso le luci oscillanti.

Abbiam tutti una casa che attende nel buio
che torniamo: una donna ci attende nel buio
stesa al sonno: la camera è calda di odori.
Non sa nulla del vento la donna che dorme
e respira; il tepore del corpo di lei
è lo stesso del sangue che mormora in noi.

Questo vento ci lava, che giunge dal fondo
delle vie spalancate nel buio; le luci
oscillanti e le nostre narici contratte
si dibattono nude. Ogni odore è un ricordo.
Da lontano nel buio sbucò questo vento
che s’abbatte in città: giú per prati e colline,
dove pure c’è un’erba che il sole ha scaldato
e una terra annerita di umori. Il ricordo
nostro è un aspro sentore, la poca dolcezza
della terra sventrata che esala all’inverno
il respiro del fondo. Si è spento ogni odore
lungo il buio, e in città non ci giunge che il vento.

Torneremo stanotte alla donna che dorme,
con le dita gelate a cercare il suo corpo,
e un calore ci scuoterà il sangue, un calore di terra
annerita di umori: un respiro di vita.
Anche lei si è scaldata nel sole e ora scopre
nella sua nudità la sua vita piú dolce,
che nel giorno scompare, e ha sapore di terra.

(poemas de Cesare Pavese, tradução de Maurício Santana Dias)

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tradução

“anos”, de cesare pavese

em micromonumento a mais um aniversário póstumo do escritor italiano cesare pavese, eis este conto – eu quero dizer, este belo poema em prosa narrativo – apresentado & traduzido pela poeta & editora nina rizzi (aguardem alguns poemas dela aqui, meus caros).

guilherme gontijo flores

AVE CESARE! UM ESCRITOR SOFRIDO

por Nina Rizzi

Di quel che ero allora non resta più niente: appena uomo, ero ancora un ragazzo.

Escritor de vasta obra em prosa e verso, Pavese completaria hoje 105 anos. Quando publicou seu livro mais famoso Lavorare Stanca/ Trabalhar Cansa, já era reconhecido, tanto por sua literatura quanto por seus estudos sobre literatura norte-americana clássica e contemporânea (reunidos num volume La letteratura americana e altri saggi, publicado postumamente em 1951), e por suas traduções de Daniel Defoe (Moll Flanders), Charles Dickens, Herman Melville (Moby Dick e Benito Cereno), James Joyce (Dedalus), Sinclair Lewis, John dos Passos, e Gertrude Stein.

Pavese foi uma alma atormentada e nada, ou muito pouco, feliz em sua vida amorosa. Criou uma obra impressionante em que vivem — sim, em sua escrita tudo está vivo, morre, e pronto a ressuscitar — demônios interiores e exteriores que o assolaram física, moral e mentalmente. Sua literatura está repleta de reflexões sobre a solidão, família, sexo, amor e, sobretudo, a morte.

Além de sua poesia, em especial seu mais famoso título “Verrà la morte e avrà i tuoi occhi/ Virá a morte e terá seus olhos” (escrito pouco antes de ele morrer), seu diário revela o lado trágico da vida a que perseguiu: “o suicídio é um homicídio tímido”. Suas últimas palavras foram à imprensa italiana: “Sem mais palavras, só um gesto. Nunca voltarei a escrever”.

Suicidou-se aos 41 anos em 1950, em um hotel de Turim, sua cidade natal e literária. Essa morte tão jovem sempre foi creditada à solidão amorosa que sentia, mas pensamos que esta estava aliada também aos acontecimentos políticos de seu país – lembremos que sua obra foi escrita entre a 2ª Guerra mundial e a Guerra Fria e que ficou preso por um ano em Brancaleone.

paves com constance downling, seu último amor, em roma, 1950

paves com constance downling, seu último amor, em roma, 1950

ANOS

Do que eu era então não resta nada: apenas homem, era ainda um menino. Eu sabia há muito tempo, mas tudo aconteceu no final do inverno, uma tarde e uma manhã. Vivíamos juntos, quase escondidos, em uma casa que dava para uma avenida. Silvia me disse naquela noite que eu tinha que ir, ou ela iria: já não tínhamos nada que fazer juntos. Supliquei que deixasse que tentássemos de novo, estava deitado ao seu lado e a abraçava. Ela me disse:

– Para quê? – Falávamos com a voz baixa, às escuras.

Logo Silvia dormiu e eu fiquei até de manhã com um joelho colado ao seu. A manhã apareceu como sempre havia aparecido e fazia muito frio; Silvia tinha o cabelo sobre os olhos e não se movia. Na penumbra eu olhava passar o tempo, sabia que passava e corria e que lá fora havia névoa. Todo o tempo que havia vivido com Silvia naquele quarto era como um só dia e uma noite, que agora terminava pela manhã. Então compreendi que nunca voltaria a sair comigo por entre a névoa fresca.

Era melhor que me vestisse e partisse sem despertá-la. Mas agora tinha uma coisa em mente para lhe perguntar. Esperei, tentando adormecer.

Quando despertou, Silvia me sorriu. Seguimos conversando. Ela disse:

– É bonito ser sincero, como nós.

– Oh, Silvia! – sussurrei -, que farei ao sair daqui? Para onde irei?

Era isto que tinha para lhe perguntar. Sem tirar a nuca do travesseiro, ela sorriu de novo, beatífica:

– Bobo – disse – irá para onde quiser. Não é fabuloso ser livre? Conhecerá muitas garotas, fará todas as coisas que quiser. Palavra que te invejo!

Agora a manhã enchia o quarto e só havia um pouco de calor na cama. Silvia esperava paciente.

– Você é como uma prostituta – disse a ela – e sempre foi.

Silvia não abriu os olhos.

– Sente-se melhor por me dizer isto? – me disse.

Então fiquei ali como se ela não estivesse, olhava o teto e chorava sem ruído. As lágrimas me enchiam os olhos e corriam sobre a almofada. Não valia a pena que notasse. Muito tempo passou, e agora sei que aquelas lágrimas mudas foram a única coisa de homem que fiz com Silvia; sei que chorava não por ela, senão porque havia entrevisto meu destino. Do que eu era então não restou nada. Apenas que havia compreendido quem seria no futuro.

Depois Silvia me disse:

– Já basta. Tenho que me levantar.

Levantamo-nos juntos, os dois. Não a vi se vestir. Fiquei logo de pé, na janela; e olhava vislumbrando as plantas. Detrás da névoa estava o sol, o sol que tantas vezes havia entibiado o quarto. Também Silvia se vestiu rápido, e me perguntou se não levaria minhas coisas. Disse que primeiro queria esquentar o café, e acendi o fornilho.

Silvia, sentada na borda da cama, começou a fazer as unhas. No passado sempre as fez na mesa. Parecia absorta e o cabelo lhe caía continuamente sobre os olhos. Então sacudia a cabeça e se liberava. Eu perambulei pelo quarto e recolhi minhas coisas. Fiz um amontoado sobre uma cadeira e de repente Silvia levantou e correu para apagar o café que derramava.

Depois peguei a maleta e coloquei as coisas. Enquanto isso, por dentro me esforçava em recolher todas as recordações desagradáveis que tinha de Silvia: suas futilidades, seus mal-humores, suas frases irritantes, suas rugas. Isso me levava de seu quarto. O que deixava era uma névoa.

Quando terminei, o café estava pronto. O tomamos em pé, junto do fornilho. Silvia disse algo, que neste dia iria ver um sujeito, para falar de um assunto. Pouco depois deixei a xícara e parti com a maleta. Lá fora a névoa e sol cegavam.

(Cesare Pavese, trad. de Nina Rizzi)

***

GLI ANNI

Di quel che ero allora non resta più niente: appena uomo, ero ancora un ragazzo. Lo sapevo da un pezzo, ma tutto avvenne alla fine dell’inverno, una sera e un mattino. Stavamo insieme, quasi nascosti, in una stanza che dava su un viale. Silvia mi disse, quella notte, che dovevo andarmene, o andarsene lei -non avevamo più niente da fare insieme. La supplicai di lasciare che provassimo ancora; ero disteso al suo fianco e l’abbracciavo. Lei mi disse:

– A che scopo? – Parlavamo a voce bassa, nel buio.

Poi Silvia s’addormentò, e io tenni sino al mattino un ginocchio contro il suo. Comparve il mattino com’era sempre comparso, e faceva molto freddo; Silvia aveva i capelli negli occhi e non si muoveva. Nella penombra io guardavo il tempo passare, sapevo che passava e correva, e che fuori c’era la nebbia. Tutto il tempo che ero stato con Silvia in quella stanza, era come una sola giornata e una notte, che adesso finiva al mattino. Allora capii che non sarebbe mai piu’ uscita con me nella nebbia fresca.
Era meglio se mi vestivo e me ne andavo senza svegliarla. Ma adesso avevo in mente ancora una cosa da chiederle. Aspettai, cercando di assopirmi.

Quando fu sveglia, Silvia mi fece un sorriso. Riprendemmo a parlare.
Lei disse:

– E’ bello essere sinceri come noi.

– Oh Silvia, – bisbigliai, – che cosa farò uscendo di qui? dove andrò? – Era questo che avevo da chiederle.

Senza staccar la nuca dal cuscino, lei sorrise di nuovo, beatamente.

– Sciocco, – disse, – andrai dove vuoi. Non è bello esser liberi? Conoscerai tante ragazze, farai tutte le cose che vuoi. Parola, che t’invidio.

Adesso il mattino riempiva la stanza e non c’era un po’ di calore che
nel letto. Silvia aspettava paziente.

– Tu sei come una prostituta, – le dissi, – e lo sei sempre stata.

Silvia non aprì gli occhi.

– Ora che lo hai detto stai meglio? – mi disse.

Allora me ne stetti come se lei non ci fosse, e guardavo il soffitto e piangevo senza rumore. Le lacrime mi riempivano gli occhi e colavano sul guanciale. Non valeva la pena di farmene accorgere. Tanto tempo è passato, e adesso so che quelle lacrime mute furon l’unica cosa da uomo che feci con Silvia; so che piangevo non per lei ma perchè avevo intravisto il mio destino. Di quel che ero allora non resta piu’ niente. Resta soltanto Che avevo capito chi sarei stato in avvenire.

Poi Silvia mi disse:

– Adesso basta. Devo alzarmi.

Ci alzammo insieme, tutt’e due. Non la vidi vestirsi. Fui presto in piedi, alla finestra, e guardavo le piante trasparire. Dietro la nebbia c’era il sole, il sole che tante volte aveva intiepidito la stanza. Anche Silvia fu presto vestita, e mi chiese se non portavo con me la mia roba. Le dissi che prima volevo scaldarmi il caffè, e accesi il fornello.

Silvia, seduta alla sponda del letto, si mise a rifarsi le unghie. In passato se l’era sempre rifatte al tavolino. Sembrava soprapensiero e i capelli le cadevano continuamente negli occhi. Allora dava scosse con La testa e si liberava. Io girai per la stanza e raccolsi la roba. Ne feci um mucchio su una sedia e a un tratto Silvia saltò in piedi e corse a spegnere il caffè che versava.

Poi tirai la valigia e ci misi la roba. Intanto, dentro mi sforzavo di raccogliere tutti i ricordi spiacevoli che avevo di Silvia – le futilità, i malumori, le parole irritanti, le rughe. Questo portavo via dalla sua stanza. Quel che lasciavo era una nebbia.

Quande’ebbi finito era pronto il caffè. Lo prendemmo in piedi, accanto al fornello. Silvia disse qualcosa, che quel giorno sarebbe andata da um tale, a parlare di una faccenda. Poco dopo, deposi la tazza e me ne andai con la  valigia. Fuori la nebbia e il sole accecavano.

Cesare_Pavese_Signature

IN: PAVESE, Cesare. Racconti (fragmentos de histórias e contos inéditos, seguidos de Notte di festa e Feria d’agosto). Raccolta póstuma. Torino: Einaudi, 1960.

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