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Baudelérias, por Wladimir Saldanha

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BAUDELÉRIAS: O RISO E O PROSAÍSMO DE BAUDELAIRE

A propósito de Baudelaire, constuma-se acentuar o contraste entre a forma elevada de sua poesia, que segue o modelo clássico francês, e os temas baixos – a carniça, o satanismo, a vida das ruas. Mas, haveria algo de próprio no classicismo do autor de As flores do mal?

Para alguns leitores incomuns, como T. S. Eliot e Marcel Proust, sim. O primeiro sustenta que a fama veio para Baudelaire quando a “arte pela arte era um dogma”, doutrina que “afetou a crítica e a apreciação” do poeta francês (ELIOT, 1989). Já Proust advertia, sobre o soneto “Recolhimento”: “Falo do classicismo de Baudelaire como verdade pura, com o escrúpulo de não falsear, por engenhosidade, o que quis o poeta” (PROUST, 2017; traduzimos). E por isso discordava dos amigos que viam no primeiro verso daquele poema – “Sois sage, ô ma douleur, et tiens-toi plus tranquille” – uma repetição de Corneille, que na peça El Cid escreveu: “Pleurez, Pleurez, mes yeux et fondez-vous en eau“. Ao contrário da apóstrofe corneliana, Proust pensava o verso de Baudelaire como “a língua contida, trêmula, de alguém que tirita por ter chorado demais” (id, ib.).

A tais leitura podemos juntar a do italiano Alfonso Berardinelli, ao indagar-se dos motivos que teriam levado Baudelaire a fazer seus poemas em prosa ao tempo da finalização de As flores do mal. Não seria por acaso; haveria uma espécie de “aliança com a prosa”, termo que toma de empréstimo a Thibaudet: “a prosa é sobretudo o que sustenta a poesia, tornando a escansão do alexandrino sintaticamente mais dúctil e equilibrada” (BERARDINELLI, 2007, p. 44).

Como obter, em traduções, esse classicismo peculiar? Talvez a vantagem para alguém que se proponha a oferecer mais algumas possibilidades tradutórias de As flores do mal seja ousar um pouco. Baudelaire é dos poetas mais traduzidos no Brasil. Se Antonio Candido falava, ainda em 1973, em “apogeu de influência” seguido de “fase acadêmica de celebração tranquila”, é certo que a “contribuição monumental de Jamil Amansur Haddad”, embora não seja a “tradução completa” de As flores do mal que então apontava, fixaria o cânone tradutório baudelairiano. Este deixa para trás as errantes contribuições de Félix Pacheco, Carvalho Júnior, Teófilo Dias e outros – os “primeiros baudelairianos”, como os chama o crítico – que, por meio de paráfrases ou emulações, deram inicialmente ao Brasil um autor mais sexualizado e menos prosaico (cf. CANDIDO, 2006, p. 38).

Hoje Baudelaire conta com mais traduções integrais, como é o caso da de Ivan Junqueira, de 1985, além de traduções esparsas de poemas isolados de As flores do mal. Todas se esforçam por manter o contraste entre a forma elevada e o conteúdo baixo; a rima chamada consoante, com simetria desde a consoante de apoio – rima “para o olho e para o ouvido”, como se dizia nos manuais franceses, é norma de regra.

Mas o baudelariano de primeira hora Paul Verlaine, que frustaria os decandentistas de seu tempo na empresa de fazê-lo um precursor da retomada das toantes, reconheceria sua posição contrária como algo intrinsecamente ligado à língua francesa, um modo de dar certo colorido à monotonia acentual do idioma, no qual as oxítonas preponderam (cf. VERLAINE, 1972, 696-701).

Ora, não se pode transpor a interdição das toantes “sem mais” para uma língua como o português (de raras oxítonas); ao contrário, o que se pode transpor quase intuitivamente é o argumento do próprio Verlaine, estendendo-o a Baudelaire. Permitir-se algumas toantes em Verlaine, Baudelaire e outros poetas que ainda escreviam na pauta parnasiana nos últimos anos do século XIX, às vésperas do verso livre, não nos parece algo tão sacrílego.

Trata-se apenas de ampliar o arsenal tradutório, reconhecendo uma diferença de poética que corresponde à diferença de prosódia das duas línguas. E talvez evitando escolhas dicionarescas, em benefício de versões mais fluentes. Assim nasceram as Baudelérias, experiência de traduzir Baudelaire fora do cânone tradutório brasileiro, isto é, usando toantes. Também se procura ajustar os pronomes, preferindo o “você” ao “tu”, já que o primeiro é mais usado no português do Brasil, enquanto o segundo, no francês, não se associa necessariamente a modos elevados de linguagem. Aos poucos, parecia surgir um Baudelaire mais próximo e, talvez, mais ridente, mais irônico. Então pareceu tentação irresistível acentuar, na seleção de vocábulos, certa comicidade do original.

No mesmo estudo de Antonio Candido, há a observação de como Teófilo Dias evitou, por “falta de audácia”, a palavra “salive, que Baudelaire introduziu na poesia e enriqueceu de conotações as mais diversas”. Sabe-se como ironia e ambiguidade são gêmeas. E não se pode sonegar a Baudelaire o riso, sobre que refletiu o poeta em ensaio famoso, reconhecendo nele “algo satânico e profundamente humano (…), essencialmente contraditório, (…) ao mesmo tempo sinal de uma grandeza infinita e de uma miséria infinita” (BAUDELAIRE, 2008, p. 42).

 

REFERÊNCIAS:

BAUDELAIRE, Charles. Da essência do riso. In: ______.Escritos sobre arte. Organização e tradução de Plínio Augusto Coêlho. São Paulo: Hedra, 2008.
BERARDINELLI, Alfonso. Da Poesia à Prosa. Trad. de Maurício Santana Dias. São Paulo: Cosac Naify, 2007.
CANDIDO, Antonio. A educação pela noite. Rio de Janeiro: Ouro sobre azul, 2006.
ELIOT, T. S. Baudelaire. In :______. Ensaios. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. São Paulo : Art Editora, 1989.
PROUST, Marcel. À propos de Baudelaire. Disponível em : < https://fr.wikisource.org/wiki/%C3%80_propos_de_Baudelaire&gt; Acessado em 19.04.2017.
VERLAINE, Paul. Un mot sur la rime. In : ______. Oeuvres en prose. Pleiade. Paris : Gallimard, 1972.

 

Wladimir Saldanha nasceu em 1977, em Salvador, cidade onde reside. Doutor em Letras pela Universidade Federal da Bahia, é poeta, crítico e tradutor. Em poesia, publicou As culpas do poema (Prêmio Asabeça/Scortecci, 2012), livro que seria incorporado ao volume Culpe o vento (7Letras, 2014). Lançou ainda: Lume Cardume Chama (7Letras, 2014) − obra selecionada para publicação pela Fundação Cultural da Bahia; e Cacau inventado (Mondrongo, 2015), livro semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura em Língua Portuguesa, em 2016. Pela mesma editora, em 2017, publica Natal de Herodes, poesia. Como tradutor, em 2014 participou da reedição de A cinza do Purgatório, de Otto Maria Carpeaux, pela Editora Danúbio, de Santa Catarina, tendo ficado responsável por verter autores como Rimbaud, Moréas, Georges Rodenbach entre outros. Colaborou também em algumas notas de rodapé, na identificação de fontes citadas por Carpeaux. Publicou na revista francesa Actualité Verlaine, dedicada a estudos do poeta francês Paul Verlaine, ensaio sobre a recepção desse autor no Brasil e problemas de sua tradução. Tem artigos de crítica no Jornal Rascunho (Curitiba), Jornal A Tarde (Salvador) e Jornal Opção (Goiânia).

* * *

CORRESPONDANCES

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L’homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l’observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

II est des parfums frais comme des chairs d’enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
— Et d’autres, corrompus, riches et triomphants,

Ayant l’expansion des choses infinies,
Comme l’ambre, le musc, le benjoin et l’encens,
Qui chantent les transports de l’esprit et des sens.

CORRESPONDÊNCIAS

A Natureza é templo e das colunas vivas
Por vezes vai minar um vozerio a címbalos;
Os homens passam lá no matagal de símbolos
Que familiarmente olham tais convivas.

Como ecos longos se confundem longe, onde
Há tenebrosa e profundíssima unidade,
Vasta como a noite é, ou como a claridade,
Perfumes, cores, sons – um fala, outro responde.

Perfumes frescos como se de carne nova,
Suaves de oboé, virentes de capim,
E outros, miasmais, riqueza a toda prova,

Com aquelas expansões do que não tem mais fim –
Do almíscar, benjoim, do âmbar ou sabeia,
Que cantam os frissons do corpo e da ideia.

§

LES CHATS

Les amoureux fervents et les savants austères
Aiment également, dans leur mûre saison,
Les chats puissants et doux, orgueil de la maison,
Qui comme eux sont frileux et comme eux sédentaires.

Amis de la science et de la volupté
Ils cherchent le silence et l’horreur des ténèbres ;
L’Erèbe les eût pris pour ses coursiers funèbres,
S’ils pouvaient au servage incliner leur fierté.

Ils prennent en songeant les nobles attitudes
Des grands sphinx allongés au fond des solitudes,
Qui semblent s’endormir dans un rêve sans fin ;

Leurs reins féconds sont pleins d’étincelles magiques,
Et des parcelles d’or, ainsi qu’un sable fin,
Etoilent vaguement leurs prunelles mystiques.

OS GATOS

Os amantes fogosos e os sábios de assento
Amam de igual amor, se a idade os apraza,
Os bravos gatos bons, os orgulhos da casa,
Sedentários que são e do tipo friento.

Amigos da ciência e da concupiscência,
Eles buscam o silêncio e os horrores da treva;
O Érebo os tomara por fúnebres leva-
-e-traz se a lealdade fora subserviência.

Assumem, espichados, tão grãs posições,
Como esfinges de prol, sonhando solidões,
Que parecem dormir num devaneio só;

O dois quartos fecundos têm rajas miríficas,
E pingos d’ouro – é ver os da ardósia em pó –
Faíscam vagamente nas pupilas místicas.

§

A UNE PASSANTE

La rue assourdissante autour de moi hurlait.
Longue, mince, en grand deuil, douleur majestueuse,
Une femme passa, d’une main fastueuse
Soulevant, balançant le feston et l’ourlet;

Agile et noble, avec sa jambe de statue.
Moi, je buvais, crispé comme un extravagant,
Dans son oeil, ciel livide où germe l’ouragan,
La douceur qui fascine et le plaisir qui tue.

Un éclair… puis la nuit ! – Fugitive beauté
Dont le regard m’a fait soudainement renaître,
Ne te verrai-je plus que dans l’éternité?

Ailleurs, bien loin d’ici ! trop tard ! jamais peut-être!
Car j’ignore où tu fuis, tu ne sais où je vais,
Ô toi que j’eusse aimée, ô toi qui le savais!

A UMA PASSANTE

A rua barulhenta em meu redor zunia.
Luto fechado, esbelta, rainha na dor,
Certa mulher passou, e com mão de esplendor
Arrrepanhava a renda e gingava a bainha;

Ágil e nobre, lá vai perna de escultura.
Quanto a mim, eu bebia (era um tipinho tenso)
No olhar baço de céu (“Vem remoinho”, penso),
Do que mata – prazer – e faz não ver – doçura.

Um clarão… noite, já! – Beleza mais fujona,
Que me fez renascer com os olhos num relance,
Pois só na eternidade eu reverei a dona?

Bem longe, além daqui! Tarde demais! Sem chance!
Pois de você não sei, e nem você de mim,
Ai você, nosso amor, ai você que viu, sim!

§

L’ALBATROS

Souvent, pour s’amuser, les hommes d’équipage
Prennent des albatros, vastes oiseaux des mers,
Qui suivent, indolents compagnons de voyage,
Le navire glissant sur les gouffres amers.

A peine les ont-ils déposés sur les planches,
Que ces rois de l’azur, maladroits et honteux,
Laissent piteusement leurs grandes ailes blanches
Comme des avirons traîner à côté d’eux.

Ce voyageur ailé, comme il est gauche et veule!
Lui, naguère si beau, qu’il est comique et laid!
L’un agace son bec avec un brûle-gueule,
L’autre mime, en boitant, l’infirme qui volait!

Le Poète est semblable au prince des nuées
Qui hante la tempête et se rit de l’archer;
Exilé sur le sol au milieu des huées,
Ses ailes de géant l’empêchent de marcher.

O ALBATROZ

Vai que, por distração, a boa marujada
Faz presa do albatroz, esse avejão dos mares,
Que vai, à toa e companheiro de jornada,
Atrás da nau vogante nos cruéis algares.

Baixados ao convés, que logo se atravanca,
Os reis do azul, malamanhados e cabreiros,
Dão dó de rir com a grande envergadura branca
Das asas como remos a arrastar remeiros.

O alado capitão, como é gauche e decrépito!
De belo, é uma comédia, com a aparência cava!
É um que o bico lhe arrelia com seu pito,
É outro a imitar, mancando, quem voava!

O Poeta assim faz crer um rei que tem de aias
As nuvens, e o trovão assombra, e ri da flecha;
No exílio sob o sol e em meio só de vaias,
Gigante, quer andar – e alado, não se deixa.

§

ÉPIGRAPHE POUR UN LIVRE CONDAMNE

Lecteur paisible et bucolique,
Sobre et naïf homme de bien,
Jette ce livre saturnien,
Orgiaque et mélancolique.

Si tu n’as fait ta rhétorique
Chez Satan, le rusé doyen,
Jette ! tu n’y comprendrais rien,
Ou tu me croirais hystérique.

Mais si, sans se laisser charmer,
Ton oeil sait plonger dans les gouffres,
Lis-moi, pour apprendre à m’aimer;

Ame curieuse qui souffres
Et vas cherchant ton paradis,
Plains-moi !… sinon, je te maudis!

EPÍGRAFE PARA UM LIVRO CONDENADO

Leitor de paz e amenas leiras,
Sóbrio, de bem e bom menino,
Ao lixo o livro saturnino:
Só coisas tristes e venéreas.

Não fez lição de baudelérias
No Inferno, com o Doutor Tinhoso?
Lixo! “Doente escandaloso”,
Ou nada entende – “são pilhérias”.

Mas se, sem se deixar lograr,
Seu olho curte um salto livre,
Leia meu livro, aprenda a amar;

Alma abelhuda e Deus-me-livre,
Se o paraíso quer de paga,
Pena de mim!… Ou rogo praga!

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crítica, poesia, tradução

Emanuel Swedenborg, Correspondências

Heinrich Khunrath (1560 - 1605) - A Rosa Cósmica (de Amphitheatrum sapientiae aeternae)

Heinrich Khunrath (1560 – 1605) – A Rosa Cósmica (de Amphitheatrum sapientiae aeternae)

O soneto das correspondências é provavelmente um dos poemas mais famosos (e também um dos mais tranquilos e menos ácidos, junto com “Elevação”, eu diria) das Flores do Mal do francês Charles Baudelaire (1821 – 1867):

Correspondances

La Nature est un temple où de vivants piliers
Laissent parfois sortir de confuses paroles;
L’homme y passe à travers des forêts de symboles
Qui l’observent avec des regards familiers.

Comme de longs échos qui de loin se confondent
Dans une ténébreuse et profonde unité,
Vaste comme la nuit et comme la clarté,
Les parfums, les couleurs et les sons se répondent.

II est des parfums frais comme des chairs d’enfants,
Doux comme les hautbois, verts comme les prairies,
— Et d’autres, corrompus, riches et triomphants,

Ayant l’expansion des choses infinies,
Comme l’ambre, le musc, le benjoin et l’encens,
Qui chantent les transports de l’esprit et des sens.

 

Esse poema já foi traduzido várias vezes para o português, mas, dentre todas as traduções eu aqui favoreceria a de Jamil Almansur Haddad (edição da Abril Cultural das Flores do Mal, de 1984), pelos motivos de que ele manteve bonitamente o metro e a rima, ao mesmo tempo em que conseguiu manter intacta a expressão “floresta de símbolos”, que Ivan Junqueira, por exemplo, troca por “bosque de segredos” – um termo difícil de traduzir, aliás, considerando que a floresta aí está no final do verso e rimando com “paroles“, enquanto “símbolo” em português não rima com nada (talvez, forçando, com “êmbolo”). Reproduzo-a abaixo:

Correspondências

A natureza é um templo onde vivos pilares
Podem deixar ouvir confusas vozes: e estas
Fazem o homem passar através de florestas
De símbolos que o vêem com olhos familiares.

Como os ecos além confundem seus rumores
Na mais profunda e mais tenebrosa unidade,
Tão vasta como a noite e como a claridade,
Harmonizam-se os sons, os perfumes e as cores.

Perfumes frescos há como carnes de criança
Ou oboés de doçura ou verdejantes ermos
E outros ricos, triunfais e podres na fragrância

Que possuem a expansão do universo sem termos
Como o sândalo, o almíscar, o benjoim e o incenso
Que cantam dos sentidos o transporte imenso.

 

Se você cursou Letras, já deve ter esbarrado nesse soneto em algum momento, provavelmente em alguma matéria sobre o simbolismo francês ou a poesia moderna em geral, já que ele é exemplar pela presença de noções e procedimentos considerados clássicos do movimento, como a sinestesia (os “oboés de doçura”, os perfumes frescos “como carnes de criança”, etc) e a visão da alienação do homem em relação à natureza (como se pode ler na interpretação neste site de uma matéria de poéticas de vanguarda na pós na Anhembi Morumbi). No entanto, a não ser que você tenha tido um currículo bem específico, é muito provável que o nome e as doutrinas do místico sueco Emanuel Swedenborg (1668 – 1772) tenham tido, no máximo, apenas uma menção passageira.

Emanuel_SwedenborgGosto de ver Swedenborg como uma figura algo oposta à de Sir Isaac Newton (1642 – 1727), não por causa de qualquer desavença entre o pensamento dos dois, mas pela sua recepção. É desnecessário glosar o quanto Newton revolucionou a matemática e a física com as noções propostas em seu Principia Mathematica e a invenção do cálculo (antes de fazer 26 anos, inclusive, como nos lembra, com muito entusiasmo, o físico Neil deGrasse Tyson), e por isso ele é lembrado, com razão, como um físico. Mas Newton também tinha um lado que hoje olhamos não sem alguma vergonha, que foi o seu estudo do que podemos incluir dentro do termo mais amplo de misticismo ou ocultismo: a procura de mensagens secretas na Bíblia (incluindo o estudo das proporções do Templo de Salomão), alquimia e profecia sobre o fim do mundo (por vir em torno de 2060, segundo seus estudos). E é isso que levou John Maynard Keynes, que adquiriu no século XX os documentos relacionados a esse lado obscuro do famoso físico, a declarar bombasticamente  que “Newton não foi o primeiro da era da razão, mas o último dos mágicos”. Quando digo, então, que Swedenborg foi o contrário dele, é porque, apesar de o conhecermos como um místico, foi só com 53 anos que esse seu lado aflorou de fato. Antes disso, começando em 1715, ele teve uma carreira muito produtiva como um homem da ciência, publicando um periódico chamado Daedalus Hyperboreus (onde ele chegou a publicar desenhos para uma máquina voadora) e estudando geometria, metalurgia e química (e não alquimia) e anatomia e fisiologia. Assombrosamente, um dos conceitos modernos que Swedenborg antecipou (e pelo qual parece que só agora ele está voltando a ser reconhecido) é o do neurônio e da organização do sistema nervoso (clique aqui), além de antecipar o modelo cosmológico da hipótese nebular, ao lado de nomes respeitáveis como Kant e Laplace. Numa época como a nossa em que misticismo e ciência são duas palavras que só são lidas lado a lado na fala extremamente vaga de indivíduos cuja única relação com qualquer coisa científica envolve fazer mal uso da física quântica para apropriá-la para os platitudes do discurso New Age e/ou tentar te convencer que a água tem sentimentos para pode vender garrafas d’água superfaturadas, que esse tipo de descoberta tenha vindo de alguém que é lembrado como um místico é uma imensa surpresa.

O que acontece é que é difícil saber se Swedenborg teve, de fato, uma revelação ou se o que houve foi que ele foi estudando e compilando fontes para ir aos poucos formulando um sistema místico próprio, já que a religião sempre fez parte dos seus interesses (seu pai, Jesper Swedberg, de fé luterana, estudava teologia e foi bispo). Em todo caso, em 1745 ele começa a escrever De cultu et amore Dei (Da adoração e do amor a Deus), sua primeira obra de teor religioso. Na sequência, ele passa a estudar o hebraico mais a fundo, a fim de sondar os sentidos místicos (e não meramente alegóricos ou proféticos do Novo Testamento) presentes nos versos do Velho Testamento – o que é curioso vindo de um não-judeu, porque esse tipo de estudo, pelo que sei, até então era, em sua maior parte, domínio dos cabalistas e outros estudiosos do misticismo judaico, e, mesmo dentro do judaísmo, essa noção só viria a ser mais difundida no século XVIII mesmo, com os judeus hassídicos, que incorporam os ensinamentos da Cabala. Aliás, a visão de muitos judeus, até o século XX, sobre a própria religião era a de que o judaísmo era legalista e ritualista demais e deficiente no tocante à espiritualidade, o que tem sido contestado com maior vigor mais recentemente, mas era muito comum até o período da Segunda Guerra Mundial.

Enfim, com base nesses seus estudos, Swedenborg publica entre 1749 e 1756 a sua obra mais famosa que é o Arcana Cœlestia, quae in Scriptura Sacra seu Verbo Domini sunt, detecta (Arcanos Celestes, que se encontram na Escritura Sagrada e no Verbo do Senhor, revelados), em 12 volumes, onde elabora um comentário versículo por versículo dos livros do Gênesis e do Êxodo (algo não muito diferente do que fazem, por exemplo, os dois primeiros volumes do Zohar judaico, um dos textos fundamentais da Cabala). Sua bibliografia inclui ainda mais de uma dezena de outros livros, notavelmente De Caelo et Ejus Mirabilibus et de inferno (Do Céu e suas Maravilhas e do Inferno, 1758), De Ultimo Judicio (Do Juízo Final, 1758), as quatro Doutrinas (do Senhor, da Escritura, da Fé e da Vida, todos de 1763), Apocalypsis Revelata (Apocalipse Revelado, 1766) e Apocalypsis Explicata (Apocalipse Explicado, 1785-1789), além de algumas outras obras póstumas. Sei de que há traduções para o português da obra de Swedenborg, mas, para quem lê em inglês, elas estão todas disponíveis online, em .pdf, no site da Swedenborg Foundation, clicando aqui. Para quem se interessar e quiser começar a estudá-lo, acredito que O Céu e o Inferno (Heaven and Hell, na tradução inglesa), por ser um volume único e algo conciso, é uma boa introdução.

A Árvore da Vida, com as 10 Sefirot, segundo a Cabala

A Árvore da Vida, com as 10 Sefirot, segundo a Cabala

Voltando agora para Baudelaire, uma das teorias mais interessantes de Swedenborg que foi absorvida pelo poeta francês foi essa doutrina das correspondências, que aparece em diversos momentos da Arcana Cœlestia e de O Céu e o Inferno. Como muitas vezes vemos essa palavra jogada para lá e para cá sem muito aprofundamento, quando se fala de Baudelaire, decidi compartilhar com vocês, leitores do escamandro, um trecho inteiro dedicado a ela, retirado de O Céu e o Inferno, de modo a poder dar alguma sustância para esse tipo de discussão. Quem tem algum conhecimento esotérico provavelmente já irá reconhecer nas palavras de Swedenborg uma velha máxima do Hermetismo: “quod est inferius est sicut quod est superius, et quod est superius est sicut quod est inferius” (ou, mais concisamente em inglês, “As above so below“), bem como alguma similaridade, mais uma vez, com noções da Cabala. A questão das correspondências, por exemplo, entre o Céu e as partes do corpo humano, que Swedenborg delineia no parágrafo 96, me parecem ecoar as equivalências corporais das 10 sefirot, as emanações de Ein Sof (O Infinito) que servem de base metafísica para a criação: Kéter, a Coroa, fica acima da cabeça; Biná (compreensão) e Chocmá (sabedoria), são os dois lados do cérebro; Geburá (força, severidade) e Chesed (piedade, misericórdia), às mãos direita e esquerda; Netzá (vitória) e Hod (esplendor), às duas pernas, e assim por diante. E, antes que me acusem de estar fazendo uma salada mística aqui e enxergando pelo em ovo, essa similaridade já havia sido apontada por ninguém menos que Jorge Luis Borges num ensaio de 1975 (mais sobre o assunto, aqui), em que ele lamenta, inclusive, que essa semelhança não tenha sido examinada mais a fundo. A influência da doutrina de Swedenborg não está de modo algum limitada apenas a Baudelaire, mas abrange ainda William Blake (apesar de que, como diz H. Bloom, Swedenborg é uma referência que emerge via uso da ironia em O Matrimônio do Céu e do Inferno), Goethe, Schelling, Coleridge, Whitman, Elizabeth Browning, Tennyson, Dante Gabriel Rossetti, Ralph Waldo Emerson, August Strindberg, Carl Jung, W. B. Yeats, Czeslaw Milosz, e, é claro, Borges, além de autores em que essa influência é um tanto menos óbvia como os romancistas mais tipicamente associados ao realismo que foram Balzac, Henry James e Dostoiévski (fonte). Ou seja, é quase todo mundo que teve algo a ver com a criação do nosso entendimento da modernidade. Que parte disso possa ter tido contato ou derivado de algo tão arcano quanto a Cabala me parece uma curiosidade das mais interessantes – e o alcance dessa influência é um motivo a mais para lermos o velho Emanuel.

Por esse motivo e porque talvez seja possível também, como disse Olof Lagercrantz, lermos a obra teológica de Swedenborg de maneira literária, como uma forma de poema – um tipo “pós-moderno” de Divina Comédia, talvez, mesclando poesia em prosa como o próprio Baudelaire viria a fazer, com prosa visionária e exegese bíblica – que eu acredito que seja interessante compartilhar com vocês o seguinte trecho, recortado, pelo bem da brevidade, de O Céu e o Inferno.

(Adriano Scandolara)

 

12

Há uma Correspondência de Todas as Coisas do Céu com Todas as Coisas do Homem

87. Não se sabe o que é a correspondência nos dias de hoje, por diversos motivos, dos quais o principal é que o homem se afastou do céu pelo amor de si próprio e pelo amor ao mundo. Pois quem ama a si e ao mundo mais do que tudo só presta atenção às coisas mundanas, visto que elas apelam aos sentidos externos e gratificam os anseios naturais; e ele não presta atenção às coisas espirituais, visto que estas apelam aos sentidos internos e gratificam o espírito, por isso ela as deixa de lado, afirmando que são elevadas demais para sua compreensão. Não era assim com os povos antigos. Para eles o conhecimento das correspondências era o maior dos conhecimentos. Por meio dele eles adquiriram a inteligência e a sabedoria; e por meio dele os sacerdotes mantinham comunicação com o céu; pois o conhecimento das correspondências é o conhecimento angelical. A maioria dos antigos, que eram homens celestiais, pensava a partir da correspondência em si, como pensam os anjos. E por isso eles conversavam com os anjos, e o Senhor frequentemente aparecia para eles, e os ensinava. Mas hoje esse conhecimento se perdera por completo, de modo que ninguém sabe o que é a correspondência. (…)

89. Primeiro, o que é a correspondência. O mundo natural inteiro corresponde ao mundo espiritual, e não meramente o mundo natural em geral, mas cada detalhe dele em particular; e como consequência tudo no mundo natural que brota do mundo espiritual é chamado de correspondente. Deve-se compreender que o mundo natural brota de e deriva sua existência permanente do mundo espiritual, precisamente como um efeito provindo de sua causa. Tudo que há sob o sol e que recebe luz e calor do sol é chamado de mundo natural; e todas as coisas que dele derivam sua subsistência pertencem a este mundo. Mas o mundo espiritual é o céu; e todas as coisas nos céus pertencem a esse mundo. (…)

96. A correspondência dos dois reinos do céu com o coração e os pulmões é a correspondência geral do céu com o homem. Há uma correspondência menos generalizada com cada um dos seus membros, órgãos e vísceras; e de que isso se trata é algo que também será explicado aqui. No maior dos homens, que é o céu, aqueles que estão em sua cabeça excedem a todos os outros em tudo que é virtude, num estado de amor, paz, inocência, sabedoria, inteligência e, por consequência, alegria e felicidade. Eles fluem à cabeça do homem e às coisas que pertencem à cabeça e correspondentes. No maior dos homens, que é o céu, aqueles que estão em seu peito gozam da virtude da caridade e da fé, e eles fluem ao peito do homem e correspondem a ele. No maior dos homens, que é o céu, aqueles que estão em seus lombos e nos órgãos dedicados à geração se encontram num estado de amor marital. Os que estão nos pés estão no estado mais baixo da virtude do céu, que é chamado de virtude espiritual-natural. Aqueles nas suas mãos e braços estão no poder da verdade a partir da virtude. Aqueles que estão nos olhos se encontram em compreensão; nas orelhas, em atenção e obediência; nas narinas, percepção; na boca e língua, na habilidade de dialogar a partir da compreensão e da percepção; nos rins, na verdade, procurando, separando e corrigindo; no fígado, pâncreas e baço, os que estão em várias purificações do bem e da verdade; e assim com o resto. Todos fluem rumo às coisas semelhantes do homem e lhes correspondem. Esse fluxo do céu se encontra nas funções e usos dos membros corpóreos; e os usos, como provêm do mundo espiritual, assumem forma por meio de coisas tais como no mundo natural, e portanto se apresentam com efeito. A partir disso se tem a correspondência. (…)

 

13

Há uma Correspondência do Céu com Todas as Coisas da Terra

103. O que é a correspondência foi dito no capítulo anterior, e foi demonstrado que cada coisa e todas as coisas do corpo animal são correspondências. O próximo passo é demonstrar que todas as coisas da terra, e em geral todas as coisas do universo, são correspondências.

104. Todas as coisas da terra são distintas em três tipos, chamados de reinos, a saber, o reino animal, o reino vegetal e o reino mineral. As coisas do reino animal são correspondências em primeiro grau, porque vivem; as coisas do reino vegetal são correspondências em segundo grau, porque meramente crescem; as coisas do reino mineral são correspondências do terceiro grau, porque não vivem, nem crescem. As correspondências no mundo animal são criaturas vivas de vários tipos, tanto aquelas que andam e rastejam sobre o chão e aquelas que voam no ar; não precisam ser citadas por nome, pois são bem conhecidas. As correspondências no reino vegetal são todas as coisas que crescem e abundam nos jardins, florestas, campos e campinas; também prescindem de ser citadas por nome, porque são bem conhecidas. As correspondências no mundo mineral são os metais mais ou menos nobres, pedras preciosas ou não, terras de vários tipos e também as águas. Além delas, todas as coisas preparadas a partir delas pela atividade humana para uso são correspondências, como os alimentos de todo tipo, roupas, moradias e outras edificações, com muitas outras coisas.

105. Também as coisas acima da terra, como o sol, a lua e estrelas, e aquelas da atmosfera, como nuvens, névoas, chuva, raios e trovões, são igualmente correspondências. As coisas que resultam da presença ou ausência do sol, como a luz e a sombra, calor e frio, são também correspondências, bem como as que prosseguem em sucessão disto, como as estações do ano, primavera, verão, outono e inverno; e as horas do dia, a manhã, o meio dia, o cair da tarde, e a noite.

106. Numa palavra, todas as coisas que têm existência na natureza, da menor à maior delas, são correspondências. Elas são correspondências, porque o mundo natural com todas as coisas em si brota e subsiste do mundo espiritual, e ambos os mundos, do Divino. Diz-se que subsistem também, porque tudo subsiste daquilo de que brota, a subsistência sendo um brotar permanente; também porque nada pode subsistir de si próprio, mas apenas daquilo que lhe é anterior, portanto, a partir de um Primum, e, se separado disso, ele há de perecer e desaparecer por completo. (…)

109. Como as coisas no reino vegetal correspondem é algo que pode ser observado a partir de muitas instâncias, como as pequenas sementes que crescem e se tornam árvores, cobrem-se de folhas, geram flores e depois frutos, pelos quais outra vez depositam sementes, e isso tudo ocorre em sucessão e existe ao mesmo tempo numa ordem tão maravilhosa que é indescritível em poucas palavras. Poderíamos preencher vários volumes e ainda assim haveria arcanos cada vez mais profundos dizendo respeito mais estritamente aos seus usos, que a ciência seria incapaz de esgotar. Como essas coisas também partem do mundo espiritual, isto é, o céu, que se encontra na forma humana (como também foi demonstrado em seu capítulo próprio), assim todos os particulares desse reino têm uma certa relação a tais coisas como são no homem, como sabem alguns do mundo erudito. Que todas as coisas neste mundo são também correspondências me está claro por conta da experiência. Muitas vezes eu estive em jardins e observei as árvores, frutos, flores e plantas lá, reconheci suas correspondências no céu e conversei com aqueles com as quais estes estavam e com eles aprendi de onde e o que eram.

110. Mas nos dias de hoje ninguém pode ter ciência das coisas espirituais no céu às quais as coisas naturais no mundo correspondem, exceto a partir do próprio céu, visto que o conhecimento das correspondências se perdera por completo.

111. Há uma correspondência semelhante com as coisas do reino vegetal. De um modo geral, um jardim corresponde à inteligência e à sabedoria do céu; e por essa razão o céu é chamado de Jardim de Deus e de Paraíso; e os homens o chamam de paraíso celestial. As árvores, segundo sua espécie, correspondem às percepções e conhecimentos do bem e da verdade que são a fonte da inteligência e da sabedoria. Por essa razão os antigos, que estavam familiarizados com as correspondências, faziam seus cultos sagrados nos bosques; e por essa mesma razão as árvores são tantas vezes mencionadas na Palavra, e o céu, a igreja e o homem a elas são comparadas; como a parreira, a oliveira, o cedro e outros, e as boas obras feitas pelos homem são comparadas a frutos. Também o alimento derivado das árvores, mais especificamente da colheita de grãos do campo, corresponde aos afetos pelo bem e pela verdade, porque esses afetos nutrem a vida espiritual, como o alimento da terra nutre a vida natural; e o pão feito de grãos, num sentido geral, porque é o alimento que sustenta especialmente a vida, e porque simboliza todo alimento, corresponde a um afeto por todo o bem. É por conta dessa correspondência que o Senhor se chama de o pão da vida; e o pão tinha um uso sagrado no templo dos israelistas, sendo posto à mesa no tabernáculo e chamado de o “pão das faces” [lechem ha’panim]; também a adoração divina que era feita através de sacrifícios e holocaustos era chamada de “pão”. Além disso, por causa dessa correspondência o ato mais sagrado de adoração na igreja cristã é a Santa Ceia, em que é dado o pão e o vinho. A partir desses poucos exemplos, pode-se observar a natureza da correspondência.

(Emanuel Swedenborg, tradução de Adriano Scandolara a partir da tradução do latim de John C. Ager para a língua inglesa)

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