7 poemas de Christophe Tarkos (1963—2004), por Tina Zani

Christophe Tarkos escrevia principalmente em prosa e tinha forte ligação com a performance e a oralidade. Costumava declamar seus poemas sincronizando corpo, voz, expressão e gesto, como se o próprio texto se corporificasse. Os poemas, em sua forma escrita, seguem os princípios dessa poética: concretizam-se performaticamente na diagramação, na pontuação, na mancha que formam sobre o papel e nas escolhas gráficas, por exemplo. Como se o corpo do poeta se imprimisse e pudesse ser, a posteriori, experimentado pelo leitor.
Movida pelo interesse na investigação das relações entre o corpo e o texto, encontrei, na poesia de Tarkos, características que o distinguem no panorama da poesia francesa contemporânea. Uma dessas características é a repetição, dispositivo poético que, além de acercar o texto de cadência, ritmo e fluxo, gera um meio – uma materialização da substância textual. Essa substância, devido ao tratamento formal que lhe dá Tarkos, toma o espaço e incorpora o leitor, como se este fosse mergulhado dentro dela. A sensação de imersão no conteúdo dos poemas é o que acontece quando os lemos em voz alta, quando os vemos performados ou os ouvimos. Esse efeito é facilitado pelo trabalho com aquilo que Tarkos chamou de pâte-mot, a pasta de palavras, uma massa de palavras reunidas num caldo viscoso para gerar sentido. A pasta de palavras, estruturada na repetição, gera o sentido e a materialidade do texto – manifestada fisicamente nos corpos do autor ou do leitor.
Caisses (P.O.L., 1998), livro de onde foram retirados os poemas aqui reunidos, significa “caixas”, fazendo uma referência à mise en page dos textos, que é quadrada, com parágrafo justificado, como se cada página tivesse uma caixa com um poema dentro, de maneira que o próprio objeto livro funciona como um baú cheio de pequenas caixas que acomodam poemas. Mas a palavra-título também poderia ser associada à caisse de résonance [caixa de ressonância], ou seja, à materialidade e à concretude que os poemas convocam ao serem vocalizados, quando a máquina física humana é acionada e o ar entra, os pulmões inflam, a língua se move, as cordas vocais vibram, a garganta e a boca se abrem e o som ressoa da caixa orgânica para o mundo. Há uma permeabilidade entre a língua, a fala e o corpo – o corpo da fala e o do texto estão misturados com o nosso corpo.
Cada texto de Caisses tem um percurso específico. O poema parte de uma frase inicial — por exemplo, “je suis blanc” — e vai sofrendo variações conforme mais palavras se somam (“je suis tout blanc”), aumentando o volume, a densidade e a ligação (ou o visco) entre elas. Quando uma nova palavra aparece para se juntar ao fluxo, a pasta inicial de palavras é ressolicitada, reorganizada e ressignificada (“je suis entièrement blanchi”). Ao final, temos uma massa compacta, um fluxo verbal, e um sentido. Esse fluxo, que é intenso e imediato, feito de palavras, se assemelha ao fluxo da água, veloz, contínuo e sem parada. Não há nada além dele, não há nada submerso. O fluxo é límpido e claro, não esconde, não se esconde. Deixa-se ver e escrutinar.
Os poemas de Caisses têm temas simples – o leite, o sol, um homem bonito, o céu, o guarda-chuva –, que Tarkos aproveita minuciosamente através de um tratamento reiterativo. Esse recurso resulta numa cadência acentuadamente percussiva, de maneira que os poemas, em seus compassos individuais, criam uma “composição”, uma peça original, como na música.
Sério, louco, maníaco, controlado, depressivo, delirante, sensível, materialista, místico – dizem que Tarkos era tudo isso. Philippe Castellin o define como poeta da leitura, fazendo referência à presença do ready-made em sua obra, embora Tarkos se referisse a si mesmo como um operário da palavra, um fabricante de poemas.
As traduções que apresento são parte de um projeto em andamento, que tem como perspectiva a tradução do livro inteiro – são 64 poemas ao todo –, ainda sem tradução publicada no Brasil.

Tina Zani é formada em Artes Plásticas pela Unicamp e aluna da graduação em Estudos Literários. É autora do projeto Ponto Poema, que reúne poesia e artes plásticas. Publicou os livros DEScabelando-se entre penteadinhos (crônicas, 2016) e Todo mar alagado de mim (2018). Tem crônicas, poemas e vídeo-poema publicados em revistas e sites literários.

* * *

Je suis blanc, je suis tout blanc. Je ne sais plus ce que ma pensée pense. Je ne comprends plus ce qu’elle veut penser, ce qu’elle pense, si ce qu’elle pense est juste ou non, est bon ou mauvais ou autre chose, je suis entièrement blanc, je ne peux plus juger de ma pensée, je pense sans pouvoir savoir, elle peut penser ce qu’elle veut, je suis blanchi, je n’ai plus aucun moyen de savoir ce qu’elle est, ce qu’elle veut, je ne peux plus la juger, je ne la juge pas, elle fait ce qu’elle veut, elle me détache, je ne juge plus, je ne sais plus ce qu’elle pense, comment elle pense, elle pense sans que je puisse juger, de son côté elle peut bien penser ce qu’elle veut, je n’ai plus de regards sur ma pensée, je suis tout blanc, je ne sais plus maintenant ce que je fais, ma pensée me devance, elle est loin devant, elle est laissée, elle se balance comme elle l’entend, je suis entièrement blanchi, dire si ce qu’elle pense est juste est fini, je ne juge plus, elle pense, je suis entièrement blanc, je suis d’une grande blancheur.

Eu sou branco, eu sou todo branco. Não sei mais o que meu pensamento pensa. Não entendo mais o que ele quer pensar, o que ele pensa, se o que ele pensa é justo ou não, é bom ou ruim ou outra coisa, eu sou totalmente branco, não posso mais julgar meu pensamento, eu penso sem poder saber, ele pode pensar o que quiser, estou embranquecido, não tenho mais nenhum meio de saber o que ele é, o que ele quer, não posso mais julgá-lo, não o julgo mais, ele faz o que quer, ele me separa, eu não julgo mais, não sei mais o que ele pensa, como pensa, ele pensa sem que eu possa julgar, de sua parte ele pode até pensar o que quiser, meu pensamento não me concerne mais, estou todo branco, não sei mais o que faço agora, meu pensamento me precede, ele está muito à frente, está largado, ele oscila como bem entende, eu estou totalmente embranquecido, dizer se o que ele pensa é justo acabou, eu não julgo mais, ele pensa, eu estou totalmente branco, eu sou de uma grande brancura.


Il y a du lait partout. Il y a du lait dans le beurre. Des litres de lait blanc se trouvent partout. Il y a du lait dans tous les bons produits. Du lait partout. Il y a du lait dans le beurre et dans la crème. Des litres de lait blanc dans les tonneaux et dans des camions-citernes. Ce sont des litres de lait versés dans les biscuits, et dans les barres chocolatées, et dans la pâtisserie industrielle, le lait est dans des formes variées. Le lait est partout. Des litres de lait blanc versés. Le lait dans la forme des tonneaux et des tonneaux de litres de poudre. Le lait est en poudre. C’est le lait sec en poudre qui se trouve partout. Le lait blanc des paquets de beurre, de la pâte et des sauces et de la crème et de la garniture et du goût. Il y a du lait partout, dans les champs, les tire-lait à roues, les vaches et les vachers, sur les routes, les charrettes de bidons de lait. Le lait est blanc. Il y a du lait blanc pour les beurres, pour la purée de pommes de terre, pour les poudres de céréales à diluer dans le lait. Il y a dans tout un peu de lait. Le lait est partout, dans la purée de pommes de terre en poudre et dans la poudre et dans le chocolat au lait, il y a de la poudre de lait. Il y a du lait partout. Avec le lait dans des gâteaux, dans les barres chocolatées et tout le fromage. Il y a des bidons et des tonneaux et des citernes de lait qui versent. Le lait est dans toutes les formes, en poudre de lait dans les biscuits, des litres de lait blanc liquide dans les yaourts. Le lait est blanc, il y a du blanc lait partout. Le lait est lui-même dans les brioches et dans la béchamel et dans le beurre. Il y a du lait dans la brioche et la béchamel et le beurre. Le lait est dans tout.

Há leite em toda parte. Há leite na manteiga. Litros de leite branco estão por toda parte. Há leite em todos os bons produtos. Leite em toda parte. Há leite na manteiga e no creme. Litros de leite branco nos barris e nos caminhões-tanque. São litros de leite derramados nos biscoitos, e nas barras de chocolate, e na confeitaria industrial, o leite está em formas variadas. O leite está em toda parte. Litros de leite branco derramados. O leite na forma de barris e barris de litros de pó. O leite está em pó. É o leite seco em pó que se encontra em toda parte. O leite branco dos pacotes de manteiga, da massa e dos molhos e do creme e do recheio e do sabor. Há leite em toda parte, nos campos, as bombas de leite sobre rodas, as vacas e os vaqueiros, nas estradas, as carroças de galões de leite. O leite é branco. Há leite branco para as manteigas, para o purê de batatas, para os pós de cereais solúveis no leite. Há em tudo um pouco de leite. O leite está em toda parte, no purê de batatas em pó e no pó e no chocolate ao leite, há pó de leite. Há leite em toda parte. Com o leite nos doces, nas barras de chocolate e no queijo todo. Há galões e barris e tanques de leite que derramam. O leite está em todas as formas, em pó de leite nos biscoitos, litros de leite branco líquido nos iogurtes. O leite é branco, há branco leite em toda parte. O leite está nos brioches e no bechamel e na manteiga. Há leite no brioche e no bechamel e na manteiga. O leite está em tudo.


Le soleil est jaune la lumière du soleil est halée est un halo est un ballon est tournoyante est entourante est enveloppante est tournante est resplendissante est rayonnante est roulante est reprise est reprenante est entourée est enroulée est enveloppée est unique est soignée est chaude est jaune est élargissante est magnifiante est grossissante est insistante est embellissante est bouleversante est éblouissante est un enroulement est un rond est une roue est un enroulement est un grossissement est un feu est en feu est jaune est solaire est vaste est droite est souriante est brûlante est éclaircissante est importante est appuyante est attendante est sortante est une éclaircie est une sortie est une traversée est un passage est une fulgurance est un instant est en attente est flottante le soleil est rond et jaune est un éclaboussement est une explosion est un emblème.

O sol é amarelo a luz do sol é um hálito é um halo é um balão é volteante é circundante é envolvente é volvente é resplandecente é radiante é rolante é retomada é revigorante é circundada é enrolada é envolvida é única é cuidada é quente é amarela é alargante é magnificante é amplificante é insistente é embelezante é desconcertante é ofuscante é um enrolamento é um redondo é uma roda é um enrolamento é um aumento é um fogo pegou fogo é amarela é solar é vasta é direta é sorridente é escaldante é iluminante é importante é apoiante é atendente é itinerante é uma clareira é uma saída é uma travessia é uma passagem é uma fulgurância é um instante é uma delonga é flutuante o sol é redondo e amarelo é um respingo é uma explosão é um emblema.


Tu vas là où tu vas tu ne vas pas dans un trou il n’y a pas de trous tu ne viens pas d’où tu ne viens pas d’un trou il n’y a pas de trou d’où tu viens, tu ne vas pas rechercher un trou où tu étais où te mettre où aller où foncer il n’y a pas de trous tu n’es pas dans un trou tu n’étais pas dans un trou tu ne vas pas à la recherche du tout au fond des trous le fond des trous est une grosse vache tu vas où tu vas tu vas en avion tu ne vas pas vers le fond il n’y a pas de grosse vache pour faire des fonds de trous où tu veux chercher un trou où te mettre tu ne vas pas vers la grosse vache qui fait les fonds des trous s’il n’y a pas de trous il n’y a pas de fonds s’il n’y pas de fonds il n’y a pas de grosse vache tu vas en avion tu vas où tu vas tu ne vas pas vers tu cherches un trou où mettre à l’intérieur pour dire je suis dans mon trou je suis bien dans un trou comme je viens du trou tu ne viens pas d’un trou ce ne peut pas être un trou qui t’a mis au monde ce n’est pas un trou d’où tu viens ce n’est pas un trou qui te mettra tu ne te mettras pas tu ne seras pas mis tu vas où tu vas tu ne cherches pas le trou qui a le fond pour être le plus près possible de la forme du fond de la grosse vache tu voles au-dessus du pas de trous tu vas en avion.

Você vai aonde você vai você não vai em um buraco não há buracos você não vem de onde você não vem de um buraco não há buraco de onde você vem, você não vai procurar um buraco onde você estava onde se meter onde ir onde correr não há buracos você não está em um buraco você não estava em um buraco você não vai à procura do fundo dos buracos o fundo dos buracos é uma vacona você vai aonde você vai você vai de avião você não vai para o fundo não há vacona para fazer fundos de buracos onde você quer procurar um buraco onde se meter você não vai para a vacona que faz os fundos dos buracos se não há buracos não há fundos se não há fundos não há vacona você vai de avião você vai aonde você vai você não vai para você procura um buraco aonde se meter dentro para dizer eu estou no meu buraco estou num buraco como eu venho do buraco você não vem de um buraco não pode ser um buraco que te colocou no mundo não é um buraco de onde você vem não é um buraco que vai colocar você você não vai se meter você não será colocado você vai aonde você vai você não procura o buraco que tem o fundo para estar o mais próximo possível da forma do fundo da vacona você voa por cima do sem buracos você vai de avião.


Le mot mot ment. Le mot mot ne veut rien dire. Pas un mot ne se met à être. Pour qu’un mot existe il faudrait qu’il veuille dire quelque chose. Un être pourrait être désigné. Un mot pourrait vouloir dire quelque chose. Un mot désignerait un être. Le mot saurait faire le mot mot. Le mot mot n’existe pas. Pour que le mot mot existe il faudrait qu’un mot signifie un être. Un être serait désigné. Un être que désignerait un mot serait un mot. Il faudrait qu’un mot veuille bien signifier quelque chose. Pas un mot ne veut. Il suffirait d’un être d’un mot. Le mot mot n’a pas existé. Un mot mot pourrait exister. Le mot mot existerait. Qu’un être soit désigné et le mot mot voudrait dire quelque chose. S’il n’est pas un être, il n’existe pas, il ne designe pas un être, il ne veut rien dire, il ne veut pas se mettre un être, il n’a pas un être, il pourrait exister mais il ne veut rien dire. Le mot mot ment. Le mot mot n’a rien dit. Le mot mot ne dit pas un être d’un mot. Il suffirait. Qu’un mot veuille bien désigner un être et le mot mot est. Pas un mot ne veut dire un être, n’importe quel être. L’être qui serait un mot serait celui qui serait désigné. Un mot désignerait et le mot mot serait. Le mot mot ment, le mot mot n’existait pas. Le mot mot ne veut rien dire. Pas un ne dirait un être. Pas un pour faire un être. Le mot mot ne tient pas. Pas un seul être d’un mot. Il n’y a pas un mot. Pas un pour faire un être. Pas un ne désigne un être. Pas un mot mot pour exister. Il ne veut pas exister. Le mot mot, il ne veut rien dire.

A palavra palavra mente. A palavra palavra não significa nada. Nenhuma palavra se mete a ser. Para que uma palavra existisse seria necessário que ela quisesse dizer alguma coisa. Um ser poderia ser designado. Uma palavra poderia querer dizer alguma coisa. Uma palavra designaria um ser. A palavra saberia fazer a palavra palavra. A palavra palavra não existe. Para que a palavra palavra existisse seria necessário que uma palavra significasse um ser. Um ser seria designado. Um ser que designaria uma palavra seria uma palavra. Seria necessário que uma palavra quisesse significar alguma coisa. Nenhuma palavra quer. Bastaria um ser uma palavra. A palavra palavra não existiu. Uma palavra palavra poderia existir. A palavra palavra existiria. Que um ser fosse designado e a palavra palavra significaria alguma coisa. Se ela não é um ser, ela não existe, ela não designa um ser, ela não significa nada, ela não quer se enfiar um ser, ela não tem um ser, ela poderia existir mas ela não quer dizer nada. A palavra palavra mente palavra palavra não disse nada. A palavra palavra não diz um ser de uma palavra. Bastaria. Que uma palavra esteja disposta a designar um ser e a palavra palavra é. Nenhuma palavra quer dizer um ser, não importa qual ser. O ser que seria uma palavra seria aquele que seria designado. Uma palavra designaria e a palavra palavra seria. A palavra palavra mente, a palavra palavra não existia. A palavra palavra não significa nada. Nenhuma diria um ser. Nenhuma para fazer um ser. A palavra palavra não se sustenta. Nem um só ser de uma palavra. Não há uma palavra. Nenhuma para fazer um ser. Nenhuma designa um ser. Nenhuma palavra palavra para existir. Ela não quer existir. A palavra palavra não quer dizer nada.


Quel est le flux, quel est le flux qui rencontre un obstacle, quel est ce flux, le flux rencontre un obstacle, quel est ce flux qui rencontre un obstacle le flux rencontre plus d’un obstacle, le flux a vu un obstacle par l’obstacle duquel le flux a vu l’obstacle, le flux a voulu aller vers l’obstacle qu’il a vu, voilà un flux qui vient à la rencontre d’un obstacle, les flux viennent à leur rencontre, l’obstacle allait vers les flux, des flux ont vu plus d’un obstacle, quel est le flux, le flux va rencontrer un obstacle qui rencontre des flux, des flux viennent à la rencontre d’un obstacle, l’obstacle attend de voir venir le flux, les flux vont a la rencontre d’obstacles, les flux passent à travers les obstacles, quel est le flux, le flux rencontre des obstacles, le flux attend de rencontrer un obstacle, de nombreux obstacles sont dans les flux, les obstacles arrivent dans le flux, quel est le flux, un flux rencontre un obstacle lequel a vu des flux, le flux vient chercher un obstacle, les obstacles passent les flux, le flux vient sur un obstacle, les flux rencontrent plus d’un obstacle, le flux va à la rencontre d’obstacles à rencontrer des flux, l’obstacle a plus d’un flux, l’obstacle passe dans le flux, un obstacle rencontre les flux, un flux et un obstacle se rencontrent.

Qual é o fluxo, qual é o fluxo que encontra um obstáculo, qual é esse fluxo, o fluxo encontra um obstáculo, qual é esse fluxo que encontra um obstáculo o fluxo encontra mais de um obstáculo, o fluxo viu um obstáculo pelo obstáculo do qual o fluxo viu o obstáculo, o fluxo quis ir na direção do obstáculo que ele viu, aqui está um fluxo que vem ao encontro de um obstáculo, os fluxos vêm ao seu encontro, o obstáculo ia ao encontro dos fluxos, fluxos viram mais de um obstáculo, qual é o fluxo, o fluxo vai encontrar um obstáculo que encontra fluxos, fluxos vêm ao encontro de um obstáculo, o obstáculo espera ver o fluxo vir, os fluxos vão ao encontro de obstáculos, os fluxos passam através dos obstáculos, qual é o fluxo, o fluxo encontra obstáculos, o fluxo espera encontrar um obstáculo, numerosos obstáculos estão nos fluxos, os obstáculos chegam no fluxo, qual é o fluxo, um fluxo encontra um obstáculo que viu fluxos, o fluxo vem procurar um obstáculo, os obstáculos passam os fluxos, o fluxo vem sobre um obstáculo, os fluxos encontram mais de um obstáculo, o fluxo vai ao encontro de obstáculos para encontrar fluxos, o obstáculo tem mais de um fluxo, o obstáculo passa no fluxo, um obstáculo encontra os fluxos, um fluxo e um obstáculo se encontram.


On ne peut pas être malheureux, on est heureux, quand on est malheureux on ne mange plus, en ne mangeant plus on dépérit et en dépérissant on meurt, on est mort, on n’est pas malheureux, on mange, on ne va pas mal, on mange, on va bien, on mange, si on ne va pas bien, si on est malheureux, on ne mange pas, on est bien, on mange, on n’est pas malheureux, on est heureux, on ne peut pas être malheureux, si on a plus l’envie de manger, on dépérit, on meurt progressivement et on est mort, on mange, on ne peut pas aller mal, on mange, on mange aujourd’hui, on ne meurt pas, on mange encore, on ne va pas mal, on n’est pas malheureux, on a encore l’envie de manger, on va bien, on ne va pas si mal, on n’est pas si malheureux, on va encore manger, en mangeant on va continuer, on ne meurt pas, on ne va pas mourir, on va manger, on va aller bien, on ne sera pas malheureux, on sera heureux.

Não podemos ser infelizes, somos felizes, quando estamos infelizes não comemos mais, não comendo mais definhamos e definhando morremos, estamos mortos, não somos infelizes, nós comemos, não vamos mal, comemos, vamos bem, comemos, se não vamos bem, se estamos infelizes, não comemos, estamos bem, comemos, não estamos infelizes, estamos felizes, não podemos ser infelizes, se não temos mais vontade de comer, definhamos, morremos progressivamente e estamos mortos, comemos, não podemos ir mal, comemos, comemos hoje, não morremos, comemos ainda, não vamos mal, não estamos infelizes, ainda temos vontade de comer, vamos bem, não vamos tão mal, não estamos tão infelizes, ainda vamos comer, comendo vamos continuar, não morremos, não vamos morrer, vamos comer, ficaremos bem, não seremos infelizes, seremos felizes.

Christophe Tarkos, por Paulo Serber

Cristophe Tarkos nasceu em Martigues, no sul da França, em 1963. Poeta-improvisador-performer, construiu obra múltipla desde o início da década de 1990, quando passou a dedicar-se integralmente à arte. Participou da criação de importantes revistas de poesia contemporânea – como RR, com Nathalie Quintane e Stéphane Bérard, Poèzie Prolétèr, com Katalin Molnàr, Facial, com Charles Pennequin, e Quaderno, com Philippe Beck –e integrou movimentos de caráter inovador, colaborando numa rede de artistas e produtores culturais de significativa reverberação. Publicou pelas editoras Al Dante e P.O.L. Faleceu em 2004, em Paris, de um tumor cerebral.

Paulo Serber é mestre em teoria e história literária pela Unicamp. É tradutor de literatura francófona, tendo traduzido Emmanuel Bove, Henri Calet e Georges Perec.

* * *

Eu me agito

eu me agito.
eu já não posso mais me reter.
eu estou agitado. estou saindo pela tangente.
não há mais guia.
eu não sei mais onde eu estou.
isso não vira.
eu estou nervoso.
já não sei onde virar o olho.
meus olhos viram.
eu me retorço.
eu não sou mais do que agitação.
do que nervosismo.
do que nevos.
do que incontroladas agitações.
incontroláveis.
já não me controlo

eu me agito.
eu já não me quero.
eu quero que isso parta.
eu quero que se isso não pode partir que eu me sobreleve.
que eu dissipe.
que eu desloque.
que eu interrompa.
eu posso tudo parar.
eu posso me fazer morrer.
eu posso me suicidar.
eu vou me fazer parar.
se eu não posso continuar eu paro com tudo.
eu vou me fazer sumir.
eu paro.
eu corto.
eu cesso.
eu morro.
eu me mato.
eu me suicido

eu me agito.
eu passo mal.
eu não paro o mal me agitando.
isso se agita.
isso só faz aumentar a agitação.
o mal agita.
a dor continua precisa insinua insiste martela se agita.
eu me agito.
eu quero que cesse.
eu não tenho.
eu não tenho como fazer parar.
eu não terei meio de fazer cessar

do que se agita.
do que se debate.
do que ser não está afim.
do que ser não está afim do que acumulou.
que ele acumulou.
que ele tem que trajar.
que ele tem que levar.
do que ele viu tudo que se acumulou.
do que se tornou agitado.
do que se tornou insuportável de levá-lo.
de ter que levá-lo.
de o saber colado para sempre à pele

eu me agito.
eu estou nervoso.
eu quero a morte.
eu quero morrer.
eu não quero mais continuar.
é continuar nessas condições que é impossível.
quando se tornou impossível é preciso poder parar.
eu tenho o poder de fazer cessar.
eu posso parar por aqui.
eu posso acabar com tudo.
eu quero acabar aqui.
eu quero parar comigo.
eu vou me fazer morrer.
eu suicido

eu já não quero mais que me olhem.
eu já não quero altas visões.
eu já não quero portar meu olhar sobre mim.
eu já não quero mais esse olho.
eu já não quero divinas visões.
eu já não quero ver.
eu já não quero ver-te.
eu já não quero mais ver viver.
eu quero me ver morrer.
eu quero ver-me perder a vista.
em um segundo já não mais ver

do que ele quer crescer seus cabelos.
do que ele quer que seus cabelos cresçam.
do que ele sente ver ter crescer seus cabelos.
do que ele quer ver seus cabelos crescer.
sentir que eles crescem.
sentir que eles crescem todos.
ele quer que eles se alonguem.
que sejam mais e mais longos.
do que ele quer ter cabelos longos que cresceram.
que ele sentiu crescer se alongaram

eu me agito do que ele quer que quer que ele saia do saco.
que ele saca que está ensacado.
que sabe que é um saco que ele não quer.
do que ele quer se extirpar.
do que ele quer que esse saco suma.
seja dissipado.
seja deslocado.
seja esquecido.
seja morto.
que ele não quer mais desse saco que nele cola.
nessa vida cola.
nesse saco cola.
nesse viu não rola.
que ele o quer quebrado.
que ele o quer extirpado

os demônios são contos bons que fazem pesadelos.
que fazem delírios.
que fazem ilusões.
que fazem delirar.
que fazem espantos.
que fazem medo.
que fazem enormes espantos.
que fazem escorregar.
que fazem pender.
que fazem cair.
que fazem histórias estranhas estranhamente espantosas.
estranhamente espantosas de querer sair de dentro de dentro delas

eu me agito.
da decisão de já não mais ser da matéria que sou.
da matéria de que sou feito.
de essa matéria aí.
dessa cola aí.
dessa pele aí.
desse couro aí.
desse peito aí.
se eu não mais quero ser isso aí.
eu já não tenho outra solução que partir de novo.
que de me juntar a outra matéria.
que de executar uma meia-volta.
que de tudo fazer cessar.
o que não poderia continuar com essa matéria

ele se mexe.
ele se agita.
eu me mexo.
eu me agito.
ele não quer bater suas botas.
ele tem uma ideia de como sair.
de como salvar-se.
eu tenho uma ideia de como sair.
eu vou sair.
eu vou encontrar solução para sair.
eu não posso ficar assim sem nada fazer.
a não me salvar.
a não me esgueirar

ele não sabe.
eu me agito.
ele não sabe.
eu não sei em cima do que eu vou me apoiar para saber.
para dizer.
para apoiar o que sou.
ele não sabe em cima do que se apoiar para ser se dizer.
para saber que é.
para provar.
para se apoiar.
eu não sei em cima do que eu vou daqui a pouco apoiar-me para dizer.
para dizer que eu sou.
para saber

 

Je m’agite

je m’agite.
je ne me retiens plus.
je suis agité. je pars dans tous les sens.
il n’y a plus de guide.
je ne sais plus où je suis.
ça ne tourne pas.
ça s’agite.
je suis nerveux.
je ne sais plus où tourner mon regard.
mes yeux ont tourné.
je me retourne.
je ne suis plus que de l’agitation.
de la nervosité.
des nerfs.
des agitations incontrolées.
incontrôlables.
je ne me controle plus

je m’agite
je ne veux plux de moi.
je veux que cela parte.
je veux que si cela ne peut pas partir que je soulève.
que j’éloigne.
que j’enlève.
que j’arrête.
je peux tout arrêter.
je peux me faire mourir.
je peux me suicider.
je vais me faire arrêter.
si je ne peux pas continuer j’arrête tout.
je vais me faire disparaître.
j’arrête.
je coupe.
je cesse.
je meurs.
je me tue.
je me suicide

je m’agite.
j’ai mal.
je n’arrête pas le mal en m’agitant.
ça s’agite.
ça ne fait qu’accentuer l’agitation.
le mal agite.
la douler continue précise insinue insiste martèle s’agite.
je m’agite.

je n’arrête pas d’avoir mal.
le mal est là.
je m’agite.
je veux que ça cesse.
je n’ai pas.
je n’ai plus de moyens d’arrêter.
je ne vais plus pouvoir arrêter

de ce qui s’agite
de ce qui se débat.
de ce qui ne veut pas être.
de ce qui ne veut pas être ce qui s’est accumulé.
qu’il a accumulé.
qu’il doit traîner
qu’il doit accumulé..
de ce qu’il a vu tout ce qui s’est accumulé.
de ce qui est devenu insuportable de le porter.
de le devoir porter.
de le savoir collé à la peau por toujours

je m’agite.
je suis nerveux.
je veux la mort.
je veux mourir.
je ne peut plus continuer.
c’est de continuer dans ces conditions qui est impossible.
quand c’est devenu impossible il faut pouvoir arrêter.
j’ai le pouvoir de le faire cesser.
je peux m’arrêter là.
je peux en finir.
je veux en finir là.
je veux m’arrêter.
je vais me faire mourir.
je suicide

je ne veux plus que l’on me regarde.
je ne veux plus d’yeux.
je ne veux plus porter mon regar sur moi.
je ne veux plus de regards.
je ne veux plus avoir d’yeux.
je ne veux plus voir.
je ne veux plus te voir.
je ne veux plus voir vivre.
je veux me voir mourir.
je veux me voir perdre la vue.
dans une seconde ne plus rien voir

de ce qu’il veut pousser ses cheveux.
de ce qu’il veut que ses cheveux poussent.
de ce qu’il sent avoir voir pousser ses cheveux.
de ce qu’il veut ses cheveux pousser.
sentir qu’ils poussent.
sentir qu’ils poussent tous.
Il veut qu’ils se rallongent.
qu’ils soient encore plus longs.
de ce qu’il veut avoir des cheveux longs qui ont poussé.
qu’il les a sentis pousser se sont rallongés

je m’agite de ce que de ce qu’il veut sortir de ce sac.
qu’il est dans un sac.
qu’il ne veut plus de ce sac-là.
de ce qu’il veut s’extirper.
de ce qu’il veut que ce sac disparaisse.
soit enlevé.
soit éloigné.
soit oublié.
soit mort.
qu’il ne veut plus de ce sac qui colle à lui.
à ce colle vit.
à ce sac vit.
à ce qu’il lui vit.
qu’il le veut enlever.
qu’il le veut s’extirper

les démons sont de bons contes qui font des cauchemars.
qui font des délires.
qui font des illusions.
qui font délirer.
qui font des frayeurs.
qui font peur.
qui font de grandes frayeurs.
qui font glisser.
qui font descendre.
qui font tomber.
qui font des histoires étranges étrangement effrayantes.
étrangement effroyables à vouloir sortir à vouloir en sortir

je m’agite.
de la décision de ne plus être de la matière dont je suis.
de la matière dont je suis fait.
de cette matière-là.
de cette colle-là.
de cette glu-là.
de cette peau-là.
de ce coeur-là.
se je ne veut plus être de cette façon-là.
je n’ai pas d’autre solution que de repartir.
que de rejoindre une autre matière.
que de revenir en arrière.
que de tout faire cesser.
ce qui ne pourrait pas continuer avec cette matière-là

il bouge.
il s’agite.
je bouge.
je m’agite.
il ne veut pas crever.
il a une idée de comment s’en sortir.
de comment se sauver.
j’ai une idée de comment sortir.
je veux sortir.
je vais sortir.
je vais trouver une solution pour m’ en sortir.
je ne peux pas rester comme ça à ne rien faire.
à ne pas me sauver.
à ne pas m’évader

il ne sait pas.
je m’agite.
il ne sait pas.
je ne sait pas sur quoi je vais m’appuyer pour savoir.
pour dire.
pour appuyer ce que je suis.
il ne sait pas sur quoi s’appuyer pour dire ce qu’il est.
pour savoir qu’il est
pour prouver.
pour s’appuyer
je ne sait pas sur quoi je vais bientôt m’appuyer pour dire.
pour dire que je suis.
pour savoir