poesia

jussara salazar

jussara-salazar-por-joao-urban

Jussara Salazar é escritora e artista plástica. Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná, atualmente faz Doutorado em Comunicação na PUC/SP. Publicou os livros: Inscritos da casa de Alice (1999), Baobá – Poemas de Leticia Volpi, (2002), Natália (2004), Coraurissonoros (Buenos Aires, 2008), Carpideiras (2011), ganhador da Bolsa Funarte de Criação Literária em 2009 (MINC-Funarte, 2009), e a plaquete O gato de porcelana, o peixe de cera e as coníferas (Arqueria, 2014).

Abaixo, um dos poemas presentes na segunda edição impressa do escamandro, publicada recentemente.

escamandro

 

a colheita de peixes

Não falarei da chuva que cai. Apagando a
fumaça das fogueiras. Encharcando as ruas
lotadas de turistas
zanzando subindo e descendo
naquele navio desproporcional que se aproxima
ou se afasta devolvendo a geometria e a exatidão
das pedras sujas do cais. Monstro marítimo
que arrasta o corpo pesado
esse navio simula uma falsa solidão. Imagino seu convés
abarrotado de turistas mexicanos que no breakfast
pela manhã desdobram
entre risadas
seus mapas de papel fino. Fazem planos
para uma próxima invasão à tarde. Uma visita ao planetário?
Não falarei do cheiro das algas marinhas
ou de como o contorno de banhistas
perdidos com suas silhuetas anônimas
vão desaparecendo feito formigas na areia. Entre as manobras do prático
as redes vão capturar sua colheita magra de peixes
Não falarei. Direi ao mar:
os teus peixes morrem
mas o mar não escuta
move
as negras ondas
as negras mãos líquidas
que não gesticulam mas gritam
palavras desconhecidas
em línguas estranhas
Não falarei enquanto falo ao mar. E ouço nomes
que se assemelham ao teu nome. O querubim
de olhos engraçados e sem um braço
repete também o teu nome
um mantra
uma loa
um poema monótono
um poema bélico. Não falarei sobre a dúvida
ou as bifurcações impossíveis
das quadras em forma de triângulo nas ruas
de um bairro distante do cais. Nem das pequenas ondas
lentas e mornas
que se acinzentam com essa chuva monótona
e do barulho inaudível que escuto
Não falarei das ondas. Nunca
as ondas roçando o teu torso macio
anjo vagando sem rumo
mutilado
boiando
apodrecendo
nesse vaivém das águas

(Jussara Salazar)

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poesia

rodrigo madeira

rodrigo-madeira-(foto-da-gazeta-do-povo)

Rodrigo Madeira(Foz do Iguaçu, 1979). Poeta. Vive em Curitiba desde 1992. Autor dos livros Sol sem pálpebras (Imprensa Oficial, 2007) e Pássaro ruim (Editora Medusa, 2009). O poema “balada da cruz machado” foi adaptado para o cinema por Terence Keller (Balada da Cruz Machado, 2009, curta-metragem). Assina o blog “blog às moscas” (www.rodrigo-madeira.blogspot.com).

Abaixo, um dos poemas presentes na segunda edição impressa do escamandro, publicada recentemente.

escamandro

 

kazuo ohno

o antemorto dançarino de butô
é marcescente ao vento, botão de flor

o antenascido dançarino de butô
é milagre no ventre, fim de flor

é o espírito usando a carne
pra dizer o que a carne não sabe

é o espírito usando a carne
pra dizer o que nela não cabe

o corpo que use o corpo
pra dizer o que quer que no corpo
não fale

a dança do cadáver, do fantasma
em louvor à vida, antes que a dança da vida
acabe

(Rodrigo Madeira)

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rubens akira kuana

rubens akira kuana

Rubens Akira Kuana nasceu em Videira, Santa Catarina, em 1992. Traduziu poetas contemporâneos de língua inglesa como Alice Notley, Alex Dimitrov e Dorothea Lasky. Foi publicado na Modo de Usar & Co. impressa, no Suplemento Pernambuco e no Jornal Relevo. Seu primeiro livro, Digestão (2014), faz parte do projeto “Poetry will be made by all!” da fundação LUMA.

Abaixo, um dos poemas presentes na segunda edição impressa do escamandro, publicada recentemente.

escamandro

 

Bem-vindo

Sua frustração é óbvia.
A culpa é de quem compra
o DVD do V de Vingança
e converte para VHS.
A culpa é do Pai
solteiro com wi-fi.
Novas tecnologias
surgem para reproduzir
nossas vidas: na tela
do celular você
passa o possível
para o Possível. O que
você deseja? Suas
exceções lhe excedem
compulsivamente. Mas
o prazer permanece
rude e inatingível. Insuficiente.
Como eu posso
lhe ajudar? Eu sou mero
aplicativo gratuito.
O um por cento
cúmplice e diacrônico
carrasco e financeiro
Nero e Suetônio.
Por favor, aguarde
enquanto atualizo
seu perfil. Não
há novas mensagens.
Não há notificações.
O mundo é o mesmo.
Você gostaria de velejar
praticar surf ou Odisseia?
Seus amigos pensam apenas
em você e marcam O
seu rosto. Lembra
quando você tinha um rosto?
Nós estávamos de férias.
Era verão e as tardes
tinham gosto de amora.
Seus jeans convinham sujos
sob o infinito. Me diga
se eu estou errado.
Eu lhe imploro,
corrija-me agora, me
diga se ainda restam
expectativas. #YOLO.
Eu sou um gigantesco
YOLO tatuado na
panturrilha da
sua instrutora
de Pilates. Sorria.
Comemore. Compartilhe.

(Rubens Akira Kuana)

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poesia

ana martins marques

ana-martins-marques-por-daniel-mordzinski

 

Ana Martins Marques nasceu em Belo Horizonte em 1977. Mestre em Literatura pela UFMG, publicou os livros A vida submarina (2009) e Da arte das armadilhas (2011), com o qual foi finalista do Portugal Telecom e recebeu o prêmio da Fundação da Biblioteca Nacional. Publicou, em 2015, O Livro das Semelhanças.

Abaixo, um dos poemas presentes na segunda edição impressa do escamandro, publicada recentemente.

escamandro

 

Alba

É dia, e daí?
Relógios e amantes
acordam em desacordo.
Por que levantar agora?
A noite não foi cheia de afazeres,
como um dia de escritório?
Não é também labor
uma noite de amor?
Como o corpo desses livros
que lemos no leito
o seu não guardou as marcas
do meu manuseio lento?
Mais vale adiar
o dia.
O alarme
do celular:
que triste
rouxinol.

(Ana Martins Marques)

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poesia

“quarentaequatro”, de mauricio cardozo

44

Maurício Cardozo (1971, Curitiba) é professor e tradutor de literatura na UFPR. Traduziu autores como Goethe, Heine, Rilke, Lasker-Schüler e Celan, e fez o impressionante trabalho de bitradução de Der Schimmelreiter (1888), de Theodor Storm, em dois livros: A assombrosa história do homem do cavalo brancoO centauro bronco (Editora UFPR, 2006), trabalho que considero um ponto fundamental nas práticas poéticas da prosa em tradução, ao lado do Satyricon  de Leminski. Em co-autoria com Adalberto Müller e Mário Domingues, publicou em 2007 a antologia de poemas O tigre de veludo, de e.e.cummings, que foi  finalista do Prêmio Jabuti. Além disso, nós já publicamos alguns poemas dele no blog e no primeiro número impresso do escamandro, além de um vídeo com sua tradução de “Todesfuge”, de Celan.

quarentaequatro é o seu primeiro livro de poemas, que vai ser lançado amanhã, dia 06 de abril, no WNK, aqui em Curitiba. Seguem abaixo quatro poemas do livro, inversos em sua ordem de livro, resplendem numa flor inversa.

guilherme gontijo flores

* * *

envoi (da série “toda nossa tua”)

você diz
isto não é um poema

isso
não é um poema

habito algo aí
que me habita

não há morada
nisso

o que há são avencas
no avarandado disto:

dizer é preciso

§

xiii (da série “toda nossa tua”)

calou os sete intentos
feito palavra

fez-se a hora
fez-se a boca da palavra
noutra boca fez-se a pele
da palavra em pelo
pela tarde afora

falou
feito palavra

fez o dito
por não dito
fez-se corpo
ali caído

feito anjo
dessentido

§

ix (da série “destempo”)

viver o que resiste
à beça e ainda assim
viver em riste a furta
cor daquele jeito penso
em cada gesto ou
no acidente de viver
a contratempo a hora
o dia o mês dum só
momento em
que corpo todo cede
e a gente cessa

§

(da série “(no)me”)

ajeitado na intimidade
o nome sonha um nome

soçobro de mundo
repeso fundo no bolso

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7 ideias sobre um poema ao vivo, de Reuben da Rocha

siga-os-sinais

O que eu gostaria é de caminhar para os últimos meses deste experimento havendo pontuado certas coisas sobre a prática de fazê-lo. Ser um pouco claro. Descrever as etapas do trabalho. Em agosto de 2015 dei início à série Siga os sinais na brasa longa do haxixe, mas uma série? É uma epopeia sci-fi seriada em 6 fascículos. É a saga de Maria Estrela Forte, a astronauta travesti, Peixeira Tenaz, a hacker ka’apor, e Lança Flamejante, a guerreira queniana, um organismo resistor em guerra contra o Conglomerado Financeiro da Fé, ditadura instaurada nove anos atrás, em 2084. Estou escrevendo agora em março de 2016, no dia em que o 4o livro foi para a gráfica, e gostaria de dizer o seguinte:

1. é uma escrita em performance, ou seja, uma que exacerba as qualidades temporais da poesia. A duração do gesto é a maneira de vivê-lo. Tudo começou de uma grande energia acumulada após uma vivência de criação coletiva durante a qual (55 dias) só escrevia na presença do grupo. Propulsão diária metódica do corpo. A concepção de cada fascículo dura cerca de 2 meses, do rascunho à impressão. É uma escrita intensiva (concentrada) com pouca margem de erro. “O texto deve atingir de imediato aquilo que almeja”.

2. é uma escrita de estrutura (montagem / e música). Odisseia Godard. O gênero épico intersecciona poesia e ficção científica. Ritmo + ação = imagem em movimento. Propósito de comunicar ou afetar o sistema de comunicação e seus efeitos. Opacidade. Corte. Constelar: composição. Pois a fala mais neutra é a mais linear e a mais imunda = ensina qualquer deputado ou similares no dia a dia da sabotagem retórica.

3. o gênero épico primordialmente nasce da voz, e da performance, portanto. Oralidade não é um naturalismo da voz ou fala mas codificações não tipográficas do gesto (corpo do ritmo) e musicalidade (tom e textura). Performance é um registro de oralidade.

4. é um poema-gibi. O formato seriado intersecciona quadrinhos e ficção científica. senso de Universo narrativo. A mídia gibi cria regras para a escrita (2 meses para cada 1 de 6 fascículos totalizando 1 ano) e determina aspectos estéticos (papel, tipografia, embalagem discursiva). Performance gráfica. (regência da oralidade em universo gráfico). Ficção-objeto. Intersecções = polinizações cruzadas. Pop não: popular-charmoso. Aspecto meta-estrutural já que haxixe é pólen concentrado. Citação se necessário: folhetim. Me encanta a reprodutibilidade enquanto aspecto da linguagem impressa.

5. há uma narrativa gráfica simultânea desviante às palavras. Détournement, grafismos, colagem. Pesquisa visual de alguns anos coletando livros sobre a Terra, astronomia, botânica. Pois o que está no alto é igual àquilo que está embaixo. No volume 2 utilizei também uma série de desenhos que chamo “Sismógrafo”, caneta solta sobre papel em movimento nos trens da CPTM linha rubi, realizada um ano antes.

6. as colagens são montadas direto na mesa de luz do scanner, sem cola, ou seja, não existem originais, somente vestígios soltos de xerox, recortes, impressões em transparência. Que vão se sobrepondo ritmicamente na mesa. Recombinação de poucos elementos em sequências de quadros. Efeito sequencial. E incorporo os ruídos da luz.

7. extenso exercício de telepatia com a artista Gê Viana, que faz as capas. Cada capa é um elemento simbólico decisivo, que me atira para o livro seguinte. Exercício de tele transporte com o editor Bruno Azevedo, que diagrama comigo o objeto. Via áudio de celular. Orientação espiritual de Marshall McLuhan, Hélio Newyorkaises Oiticica, Paul Zumthor e Zygmunt Molik. “A invenção é uma extensão da energia humana”.

(Reuben da Rocha)

 

* Reuben da Rocha ou cavalodadá (São Luís/MA, 1984) publicou os livros Miragem no olho aceso, As aventuras de cavaloDada em + realidades q canais de TV (2013), Na curva da cobra nos cornos do touro no couro do tigre na voz do elefante (2015), e o mais recente Siga os sinais na brasa longa do haxixe, com lançamento dia 26 de março, no Estúdio Lâmina (SP).

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poesia, tradução

serge núñez tolin (1961), por júlio castañon guimarães

1Serge Nunez Tolin1

num post muito recente de seu blog na deutsche welle, enquanto comentava a recente tradução de famosa na sua cabeça, da irlandesa mairéad byrne, feita por dirceu villa, ricardo domeneck comentou como, em termos de tradução, sempre precisamos de todos, de tudo, mas sobretudo dos vivos, esse caso ainda um pouco raro, talvez pela preguiça de leitura de outros vivos, ou pela covardia geral (principalmente) das grandes editoras em publicar poesia viva de gente viva e de correr o risco — diz já o adágio de um vivo, “poesia é risco”.

assino embaixo. de augusto e de ricardo.

nó dadoassino embaixo enquanto já penso num poeta e ensaísta forte, como júlio castañon guimarães, que parece ter se voltado com regularidade a esse ofício ingrato da tradução viva. enquanto penso na lumme editora, uma dessas que ainda vive em/de risco na poesia. já comentei, há não tanto tempo atrás, uma dobradinha entre a lumme e JCG, com a poesia de jean-pierre lemaire, aqui. saiu no fim do ano passado, 2015, mais um momento desses, nó dado por ninguém (noeud noué par personne), de um poeta pouquíssimo conhecido por estas bandas, serge núñez tolin (1961—), belga de pais espanhóis.

meu plano aqui não é fazer uma resenha, nem analisar aspectos da poesia de tolin, mas apenas chamar atenção para isso que agora surge. tolin é quase poeta bissexto, publicou talvez poucos livros, para quem já passou dos cinquenta anos de idade: silo (2001), silo II (2002), silo III (2004), l’interminable évidence de se taire (2006), l’ardent silence (2010), noeud noué par personne (2012) e fou, dans ma hâte (2015). JCG optou, creio que muito acertadamente, por traduzir um livro inteiro, em vez de nos dar uma antologia. digo isso não por pensar que antologias valem pouco, mas por ver que noeud noué par personne é um livro em inteireza: todos os poemas giram em torno de um mesmo tema (a saber, a tarefa árdua de relacionar as palavras e as coisas, num mundo depois de as palavras e as coisas de foucault) e de uma poética da prosa minimalista, do poema que é também um ensaio. antologizar alguns poemas fora do contexto pode ser um risco, como que inevitavelmente corro aqui, para apenas mostrar o livro. por isso, verter uma obra inteira é talvez o melhor modo de fazer jus à poética de uma obra inteira que não se vê para além deste livro. tradução também é risco.

dito isso, deixo com vocês quatro poemas (?) desse nó dado por ninguém.

guilherme gontijo flores

* * *

Hasarder la nuit dans la nuit devant soi, ce n’est plus finalement écrire ces mots, c’est s’avancer dans ce qu’ils ne sont pas à même se dire. Solitude qui nous façonnerait jusqu’à être un mot, si maintenant tout n’appelait au silence.

Aventurar-se na noite dentro da noite diante de si não é mais, por fim, escrever estas palavras, é avançar naquilo que elas não têm condição de dizer. Solidão que nos moldaria até sermos uma palavra, se agora tudo não convocasse ao silêncio.

§

Dire, aussi loin que les mots peuvent porter vers ce qui les excède, ce qui n’est pas dans leur ordre de dire.

Les mots indéfiniment ouverts: noeud noué par personne, dont la limite s’évanouit avec le mouvement de s’enclore.

Dizer, até onde as palavras podem levar em direção ao que as excede, o que não está em sua ordem dizer.

As palavras indefinidamente abertas: nó dado por ninguém, cujo limite se desvanece com o movimento de se fechar.

§

Pluie au passage de laquelle fleurir ramasse en soi toute idée de pluie.

Cette idée vive que l’on se fait d’une fleur.

Chuva em cuja passagem florescer colhe em si qualquer ideia de chuva.

Essa ideia vivia que se faz de uma flor.

§

L’usage des mots affame.

Sans doute, est-ce là ce que maintenant j’entends par silence. Le guet tendu de la spirale.

Indébrouillable noeud où je suis pris: noeud noué par personne.

O uso das palavras reduz à fome.

Sem dúvida, está aí o que agora entendo por silêncio. A espreita tensa da espiral.

Indeslindável nó em que estou preso: nó dado por ninguém.

(serge núñez tolin, trad. de júlio castañon guimarães)

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poesia

Rafael Zacca

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Poeta e crítico literário, Rafael Zacca é doutorando em filosofia pela PUC-RJ. É membro do corpo editorial da Revista Chão, onde mantém a coluna Sucesso de Sebo. Integra o Núcleo de Estudos da Cultura no Capitalismo Contemporâneo (UFF). Articula com outros poetas a Oficina Experimental de Poesia (OEP), no Rio de Janeiro. Realizou oficinas de criação poética pela OEP em alguns aparelhos culturais, como o Imperator e o MAM-RJ. Publicou o livro de poemas Rafael Zacca | Coleção Kraft (Ed. Cozinha Experimental, 2015).

A marina das coisas

um segredo para Khalil

Não é tão tarde
que não se possa
selar o céu

com o marulho
das conchas, grave
escavação

motor carvão
branco engasgado
frágil segredo —

……………. a mão
que encontra antenas
se rasga

na areia
assim se abrem as
crianças: sangue

e brinquedo um
bater de dente
(um sonho sólido)

obra um clarão
de sol secando
os grãos, castelos

…………mas não tem volta

dos que não têm
casa, se nos
tocam os dedos

dobramos os
joelhos, um
desterro. É

por isso que
bastam crianças
(se podem ir

à praia): salvam
o mundo, cavam
fundo e articulam

a marina das coisas

os bichos inexplicáveis

o tumulto do nácar.

§

Demora

brancura morte
na boca
do tempo onde
cresce
a flor-de-núncaras
num pasto

de confusão
e crença

no branco
o tempo torcido
quatro estômagos
brancos
processam crianças e moscas

………(
leite da manhã
tudo aguarda na vaca
………)

mama de agoras
e adubo

vaca entre relógios
os ponteiros imitam
os homens
espiam
a vaca cortada

em bifes e cálculos
de secura
a vaca rumina

o nada suas tetas

não aguardam
filhos os olhos
não atentam o tempo

a morte

incrédula
não vê finalidade

na vaca
o nunca murmura

nos cantos

desfaz-se
o peso
dos cascos mugido
e cheiro de bosta

anunciam vitória
contra o tempo

mas demoram
no estômago

………..(
leite da manhã
tudo aguarda na vaca
………..)

a bílis desfaz
as palavras

§

O Elefante e a Flor

para Vinicius

É noite, e o elefante / acúmulo de pedras / se ergue, na poeira / da primeira manhã.

Ensaio meus primeiros
entre os homens de terno
suas finais costuras
que sufocam as feras.

O passo-tonelada / irrompe as folhas e as / gentes que caem sobre / a pele do elefante.

Sigo tão dor que olho as
árvores na calçada
e me penso raiz
calculada de nojo.

Uma semente lhe / entremeia as veias do / coração de marfim / e vive de água e trágico.

E porque é tarde sonho
enjoos que terei
ao aniquilar horas
de uma máquina arcaica

(o peito arrebentado
resfolegando um bicho
de fumaças e frágeis
engrenagens com dentes.)

Num espasmo desperta, / germinação bruta, / as sementes de doces / numes no elefante. E // o cárdio entre paradas / estanca a vida e o passo… / vê agora sem relógio / gentes bombeando cores.

É só na travessia
que, não o peito, mas
o bolso do casaco
represa uma aurora

de coisas – como são
fluidas as coisas! são
águas e ventos e ânforas
cheias de metal líquido

são gentes que emudecem
e cordas de fogo e
todas irrompem em
poucas palavras âncoras.

O elefante já não / pacienta, e galga as milhas / da cidade por cima / dos corpos indefesos // enxotando com sua / tromba homens miseráveis / e os temporais dos tímidos / não por misericórdia // mas pela flor que lhe / retorce o coração / realçando a palidez / dos frutos em conserva.

Vem a noite e o caminho
se desnuda na selva
delicada de meus
apetites. Mas um…

…elefante galopa / sob a pele do poeta / tornando cada gesto / uma sanguínea flor// que brotasse no cárdio / musculoso de um bicho / fortaleza a reflora / qual bomba prorrompendo // cogumelos e galhos / escapando por entre / muitas fissuras de um / arrebentado e tísico…

…corpo sem arremedo
nem remédios nem cortes
nem costuras nem numes
que impeçam floração…

…a irromper em orgânica / destruição de carcaças…

…enquanto resiste o
coração num fruto…

…que entre rugas bombeia…

…a vida estragada ou…

…inteira num respiro…

…que diz: ar, e vivemos.

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poesia, tradução

Denise Levertov, por Stefano Calgaro

levertov

Denise Levertov (1923-1997) nasceu em Ilford, Inglaterra, e foi poeta, tradutora, ensaísta, editora e professora. Com doze anos enviou alguns poemas a T. S. Eliot, que a incentivou a prosseguir. Há em sua vida três fatores que permearam muito sua poética: 1) a educação informal e religiosa que teve pelos pais; 2) ter servido durante a Segunda Guerra como enfermeira, o que influenciou muito o seu engajamento social e político, algo que se intensificou na década de 60 e 70 (escrevendo alguns poemas sobre a Guerra do Vietnã, por exemplo) e que permeou toda a sua obra poética, direta e indiretamente; 3) a ida (sem retorno) para os Estados Unidos na década de 40, onde lecionou em diversas universidades ao longo de sua vida e influenciou-se muito com os poetas de Black Mountain – W. Carlos Williams, H. D., Charles Olson, Kenneth Rexroth e Wallace Stevens. Morreu de um linfoma em 1997. Como tradutora, traduziu obras como cânticos bengali e os poetas franceses Jean Joubert, Alain Bosquet, Eugene Guillevic. Nunca publicada no Brasil (apesar de traduções esparsas pela internet), dentre sua vasta obra, alguns de seus principais trabalhos incluem The Double Image (1946), Here and Now (1957), The Jacob’s Ladder (1961), O Taste and See (1964), entre outros.

Stefano Calgaro (1991) nasceu em Porto Alegre. Mora em São Paulo onde se graduou em cinema e cursa Letras.

 

Nossos corpos

Nossos corpos, ainda novos sob
a ansiedade gravada de nossas
caras, e inocentemente

mais expressivos que caras:
mamilos, umbigo, e pentelho
fazem de qualquer forma um

tipo de cara: ou levando
as sombras redondas ao
seio, traseiro, saco,

a dobrinha da minha barriga, o
oco da sua
virilha, como uma constelação,

como se inclina da terra ao
amanhecer num gesto de
brincadeira e

sábia compaixão-
nada como isto
vem a passar

em olhos ou bocas
abatidas.
                  Eu tenho

uma linha ou ranhura que amo
percorre
meu corpo do esterno
à cintura. Fala de
ansiedade, de
distância.

                  As suas longas costas,
a cor da areia e
como os ossos se expõem, diz

que céu após o pôr-do-sol
quase branco
sobre a profunda floresta à qual

as gralhas se dirigem, diz.

 

Our bodies

Our bodies, still young under
the engraved anxiety of our
faces, and innocently

more expressive than faces:
nipples, navel, and pubic hair
make anyway a

sort of face: or taking
the rounded shadows at
breast, buttock, balls,

the plump of my belly, the
hollow of your
groin, as a constellation,

how it leans from earth to
dawn in a gesture of
play and

wise compassion-
nothing like this
comes to pass
in eyes or wistful
mouths.
         I have

a line or groove I love
runs down
my body from breastbone
to waist. It speaks of
eagerness, of
distance.

         Your long back,
the sand color and
how the bones show, say

what sky after sunset
almost white
over a deep woods to which

rooks are homing, says.

 

A cabana

Lodo e taipas.         Quase redonda,
musgo. Limiar: uma escrita,
pequenas pedras encrustadas, calcada.
“Entre, quem
Assim deseja”.

Chão, terra batida.         Paredes
sombras.         Urna ao centro.
Ao dia, entrando do
verde fundido, entardecer
profundo.         À noite, através da chaminé,
a estrela.

 

The hut

Mud and wattles.         Round almost.
Moss. Threshold: a writing,
small stones inlaid, footworn.
‘Enter, who
so desires’.

Floor, beaten Earth.         Walls
shadows.         Ashpit at center.
By day, coming in from
molten green, dusk
profund.         By night, through smokehole,
the star.

 

cenário

O teatro da guerra. Fora do palco
um elenco de milhares chorando.

Centro-esquerda, bem iluminado, uma barragem
de corpos desenterrados,

ou partes de corpos. Direita,
perto de alguns bambus mortos que servem como asas,

um corpo inteiro, no qual
um esguicho de napalm trabalha.

Entra a noiva.

Ela tem um seio, um olho,
metade do escalpo calvo.

Ela cambaleia rumo ao centro.
Entra o noivo,

um soldado jovem, magro, mas sem
feridas aparentes. Ele a vê.

Primeiro devagar, então rápido e mais rápido,
ele começa a tremer, a tremer,

A ondular de tremer.         Cortinas.

 

scenario

The theater of war. Offstage
a cast of thousands weeping.

Left center, well-lit, a mound
of unburied bodies,

or parts of bodies. Right,
near some dead bamboo that serves as wings,

a whole body, on which
a splash of napalm is working.

Enter the Bride.

She has one breast, one eye,
half of her scalp is bald.

She hobbles towards center front.
Enter the bridegroom,

a young soldier, thin, but without
visible wounds. He sees her.

Slowly at first, then faster and faster,
he begins to shudder, to shudder,

to ripple with shudders.         Curtains.

(poemas de Denise Levertov, traduções de Stefano Calgaro)

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poesia, tradução

Roberto Bolaño, por Gustavo Petter

bolaño

Roberto Bolaño Ávalos nasceu em 28 de abril de 1953 na capital chilena Santiago, filho do motorista León Bolaño e da professora Victoria Ávalos. Aos 15 anos de idade muda-se com a família para a Cidade do México, onde o adolescente Roberto tem o encontro determinante com a literatura, ao consumir os dias em leituras na biblioteca pública. Deseja ser escritor. Antes ainda retorna ao Chile para viver uma dura experiência, a época precedia o golpe de estado, então une-se aos resistentes, é detido, passa oito dias encarcerado, só é libertado por ser reconhecido por dois ex-colegas de escola que agora eram investigadores. Volta ao México para dedicar-se somente à literatura. A capital mexicana foi decisiva para o encontro com o amigo Mario Santiago Paspaquiaro e outros jovens para formarem o Infrarrealismo, movimento literário que buscava uma nova relação perante a vida, a poesia, as convenções sociais. O poeta e crítico Octavio Paz serve de exemplo oposto ao que buscavam os Infra, como também eram chamados, ou seja, ante o academicismo propunham o livre trânsito entre poesia e vida. É ao lado dos infra que publica pela primeira vez, em 1975, na antologia Poetas infrarrealistas mexicanos.

Após, Roberto Bolaño parte em uma série de viagens que culminaram em Barcelona, onde se instala e vive todas as agruras pelas quais passam os imigrantes: trabalhos precários, falta de dinheiro, solidão. Só retorna ao Chile 25 anos depois da partida,  já como autor reconhecido.

Bolaño produziu grande parte de sua obra sob a incerteza que uma grave enfermidade hepática proporciona, descoberta em 1993, época em que se consolida como escritor. O pressentimento ou a possibilidade real de morrer o faz escrever desenfreadamente. Planejava deixar um bom legado de publicações, que garantissem o bem-estar de seus filhos e esposa após sua ausência. A obra que o tornou fenômeno literário é Os Detetives Selvagens, 1998, garantindo-lhe dois importantes prêmios literários. Segue produzindo até seu falecimento em 4 de Julho de 2003.

Roberto Bolaño é mais conhecido dos leitores como narrador, sua produção ficcional supera em número as publicações poéticas, que foram apenas duas: Los perros românticos e a obra póstuma La universidad desconocida, da qual traduzi os quatro poemas sob o tema comum do cotidiano. Em entrevistas, Bolaño sempre se assumiu como um obsessivo leitor de poesia. Escrever poemas representou sua “Universidade”. A característica prosaica de sua produção poética o une a outro chileno Nicanor Parra, que Bolaño cita como exemplo de grande poeta, e sua anti-poesia como ápice da produção atual. O tema comum que liga os quatro poemas aqui traduzidos é o cotidiano, situações simples, corriqueiras que nos lança na companhia de um eu-lírico palpável, que vive angústias, alegrias, ou seja, sentimentos semelhantes aos nossos e em situações que possivelmente todos já vivemos. Tal característica remete às ideias infrarrealistas de unir poesia e vida.

(Gustavo Petter)

Gustavo Petter mora em Araçatuba/SP, onde é professor da rede estadual de ensino. Mantém o blog Agradável Degradado, em que publica poemas seus e traduções.

(Também publicou traduções no blogue da Modo de Usar, com poemas de Leopoldo María Panero (clique aqui). Outros poemas de Bolaño traduzidos em seu blog podem ser conferidos aqui).

 

Segundo Alan Resnais
até o fim da vida
Lovecraft foi vigilante noturno
de um cinema em Providence.

Pálido,  sustentando um cigarro
entre os lábios, com um metro
e setenta e cinco de altura
leio isto na noite do camping
Estrela do Mar.

 

Según Alain Resnais
hacia el final de su vida
Lovecraft fue vigilante nocturno
de un cine em Providence.

Pálido, sosteniendo un cigarillo
entre los lábios, con un metro
setenta y cinco de estatura
leo esto en la noche del camping
Estrella de Mar.

 

UM SONETO

Faz 16 anos que Ted Berrigan publicou
seus Sonetos. Mario passeou o livro pelos
leprosários de Paris. Agora Mario
está no México e The Sonnets numa
estante que fabriquei com minhas próprias
mãos. Creio que a madeira encontrei
perto do asilo de anciãos de Montealegre
e com Lola fizemos a estante.
Num inverno de 78, em Barcelona, quando
ainda vivia com Lola! Já faz 16 anos
que Ted Berrigan publicou seu livro
e talvez 17 ou 18 que o escreveu
e eu certas manhãs, certas tardes,
perdido em um cinema de bairro tento lê-lo,
quando acaba o filme e acendem a luz.

 

UN SONETO

Hace 16 años que Ted Barrigan publicó
sus Sonetos. Mario passeó el libro por
los leprosarios de París. Ahora Mario
está en México y The Sonnets en
un librero que fabriqué con mis proprias
manos. Creo que la madera la encontré
certo del asilo de ancianos de Montealegre
y con Lola hicimos el librero. En
el invierno del 78, en Barcelona, cuando
aún vivía con Lola! Y ya hace 16 años
que Ted Barrigan publicó su libro
y tal vez 17 o 18 que lo escribió
y yo ciertas mañanas, ciertas tardes,
perdido en un cine de barrio intento leerlo,
cuando la película se acaba y encienden la luz.

 

O DINHEIRO

Trabalhei 16 horas no camping e às 8
da manhã tinha 2.200 pesetas ia ganhar
2.400 não sei o que fiz com as outras 200
suponho eu comi e bebi cervejas e café
com leite no bar do Pepe García dentro do
camping e choveu na noite de domingo e toda
a manhã de segunda e as 10 fui até
Javier Lentini e cobrei 2.500 pesetas por uma
antologia da jovem poesia mexicana que
aparecerá na sua revista e já tinha mais de
4.000 pesetas e decidi comprar um par
de fitas virgens para gravar Cecil Taylor
Azimuth Dizzie Gillespie Charlie Mingus
e comer uma boa bisteca de porco
com tomate e cebola e ovos fritos e escrever
este poema ou esta nota que é como um pulmão
ou uma boca transitória que diz que estou
feliz porque fazia muito que não tinha
tanto dinheiro nos bolsos

 

EL DINERO

Trabajé 16 horas en el camping y a las 8
de la mañana tenía 2.200 pesetas pese a ganar
2.400 nno sé qué hice con las otras 200
supongo que comí y bebí cervezas y café con
leche en el bar de Pepe García dentro del
camping y llovió la noche del domingo y toda
la mañana del lunes y a las 10 fui donde
Javier Lentini y cobré 2.500 pesetas por una
antología de poesía joven mexicana que
aparecerá en su revista y ya tenía más de
4.000 pesetas y decidí comprar un par de
cintas vírgenes para grabar a Cecil Taylor
Azimuth Dizzie Gillespie Charlie Mingus
y comerme un buen bistec de cerdo
con tomate y cebolla y huevos fritos y escribir
este poema o esta nota que es como un pulmón
o una boca transitoria que dice que estoy
feliz porque hace mucho que no tenía
tanto dinero en los bolsillos

 

Todos os comércios hoje estavam fechados
e mesmo assim tinha apenas 50 pesetas
Três tomates e um ovo
Isso foi tudo
softly as in a morning sunrise.
Coltrane ao vivo
E comi bem
Cigarros e chá ao meu alcance.
E paciência no compasso
do entardecer.

 

Todos los comércios hoy estaban cerrados
y además sólo tenía 50 pesetas
Tres tomates y un huevo
Eso fue todo
softly as in a morning sunrise.
Coltrane en vivo
Y comí bien
Cigarillos y té hubo a mi alcance.
Y paciencia en el compás
del atardecer.

(poemas de Roberto Bolaño, traduções e texto introdutório de Gustavo Petter)

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